Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 279 17 de janeiro de 2015 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Nesta aula, retornarei à apostila “A Alucinação Revolucionária”, para complementá-la, e também comentarei as obras do Mário Ferreira dos Santos. Como vocês sabem, a editora É Realizações comprou os direitos de mais de cinqüenta volumes das obras de Mário, inclusive toda a sua Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais, porém, até agora, só publicou um volume [Filosofia da Crise], que teve como processo de edição o simples cotejamento com as edições anteriores, uma revisão superficial e a inclusão de uma introdução ao livro. Vou mostrar a vocês por que isso não pode ser feito e qual é o verdadeiro tipo de trabalho que se tem de fazer com os textos de Mário Ferreira. Em língua inglesa, não há a menor possibilidade de se confundir editor com publisher. Editor trabalha o texto, deixando-o pronto para a publicação; publisher formata o texto, põe-lhe uma capa, manda imprimi-lo, vende-o, comercia-o e distribui os direitos autorais. No Brasil, editor e publisher são igualmente chamados de “editor”, o que é um absoluto desastre, porque é claro que nem sempre o publicador tem a formação necessária para ser um editor, e vice-versa. Não sou vendedor de livros nem comerciante de livros, mas trabalhei como editor de textos durante muito tempo. Tenho uma experiência de trinta anos em edição. Editei publicações médicas que exigiram de mim uma altíssima responsabilidade. Fui também editor do Jornal da Tarde, um dos jornais mais bem-acabados e elegantes que já existiu no Brasil. Portanto, tenho idéia do que é uma preparação de textos. A edição de textos não é para qualquer um. Ela é uma técnica e uma ciência. No Brasil, confunde-se edição com publicação, o que pode causar um dano irreparável à obra de Mário Ferreira. Ontem publiquei uma nota¹ no Facebook em que eu mostrava uma diferença fundamental entre o Brasil e os países civilizados: nestes, quando uma facção política é derrotada e expelida do poder, os seus valores literários e culturais se conversam absolutamente intactos. Tanto na França quanto na Alemanha, mesmo com a esquerda no poder, as obras dos conservadores, dos direitistas e até mesmo dos pró-nazistas continuam a ser publicadas normalmente, conservando-se assim os valores literários dessas nações. Recentemente foi publicado na França o livro Les Memóires d’un Fasciste, de Lucien Rebatet, um escritor maravilhoso, embora fosse doido; assim como se continua a publicar na França, por vezes em edições primorosas, as obras de escritores ultra-conservadores, ainda que não pró-nazistas, como Charles Maurras e Léon Daudet. Há pouco tempo a editora Bouquins publicou o livro Souvenirs et Polémiques, de Léon Dautet, numa edição de mil e quinhentas páginas e de papel-bíblia. Tudo isso nos mostra como esses autores continuam a ser valorizados. Porém, no Brasil, quando a facção política que o sujeito representa cai do burro, ele cai também, literariamente falando, e o escritor não pode ser sequer mencionado nas universidades ou em publicações culturais: ele tem de ser enterrado completamente. Existem, é verdade, outros fatores que contribuem para o desaparecimento de escritores brasileiros. Há, por exemplo, uma disputa entre a família e os editores em torno das obras do Gustavo Corção — a família parece ter dito que ele morreu doido, embora eu não tenha certeza dessa informação. Essa disputa faz com que as obras do Corção permaneçam inacessíveis ao público, o que é o fim da picada. É intolerável que um sujeito católico ponha os direitos autorais acima da defesa à Igreja. Tanto a família quanto os editores têm a obrigação de levar a obra a público independentemente dos prejuízos que isso possa lhes acarretar. De qualquer modo, o nome do Gustavo Corção foi enterrado, desapareceu de toda a mídia cultural. A única exceção é o Nelson Rodrigues, que continua sendo badalado, embora às vezes apareçam alguns sujeitos espertos pra dizer que ele, um sujeito claramente de direita, não era conservador, só para com isso obterem permissão para continuar falando dele. É usual que no Brasil os prestígios culturais e literários de um escritor sejam enterrados juntos com a facção política que ele nominalmente representa, ou melhor, que ele representa no entender dos seus adversários, porque não creio que o Corção ou até mesmo o Gilberto Freyre fossem representantes conscientes ou voluntários de qualquer facção política. Mas, de qualquer forma, como a esquerda os associa a uma facção, quando esta sai do poder — como ocorreu no governo militar —, aqueles cuja imagem está direta, indireta ou involuntariamente associada à facção caem no ostracismo também. O desaparecimento desses personagens mostra que a atividade cultural no Brasil não tem mais autonomia, não é mais vista como uma atividade autônoma, com seus valores e critérios próprios, senão que está inteiramente instrumentalizada em nome da propaganda política mais grosseira, mais imediatista possível, e essa instrumentalização é um desastre cultural que nunca aconteceu antes no mundo. Durante o regime soviético, Dostoiévski continuou a ser publicado, lido e louvado, e Stalin nunca cogitou proibir a obra de Dostoiévski, ainda que este fosse um tremendo reacionário. Depois do advento da República, ninguém na França pensou em suprimir as obras do monarquista Honoré de Balzac. Mas, no Brasil, é inteiramente natural sumir com escritores, mandá-los para a lata do lixo do tempo, sem que possamos sequer mencioná-los. Quando alguns por acaso os mencionam, fazem-no com expressão de desprezo ou nojo. Quanto vagabundo, quanto analfabeto não se sente superior a esses escritores, simplesmente por serem estes “de direita”, como se “ser de direita” fosse um problema de constituição cerebral, fosse uma deficiência, ou um indicativo de handicap neurológico. O resultado disso é a destruição da cultura como atividade autônoma. Mas, se a cultura não existe como atividade autônoma, ela não existe de maneira alguma, e torna-se aquilo que disse o crítico português Fernando Alves Cristóvão: "Cultura é o novo nome da propaganda". A desaparição da cultura como atividade autônoma é a desaparição de toda a cultura, e a desaparição de toda a cultura é a desaparição da educação. A desaparição da educação pode ser vista nos testes do ENEM. Nos testes internacionais, os nossos alunos tiram sempre os últimos lugares. Essa instrumentalização da cultura é um crime contra a cultura brasileira, e tal crime nunca foi cometido contra nenhuma outra cultura. [0:10] Esse crime contra a cultura é a ascensão de um grupo de oportunistas, de vigaristas que querem colocar tudo a seu serviço e que subjugam a cultura aos interesses de Dona Dilma, de Seu Lula, e de toda essa corja de ladrões e vagabundos. Isso é uma coisa tão revoltante, que qualquer um que aceite esse estado de coisas por cinco minutos deve ser considerado um vigarista também, e isso inclui o comandante do nosso exército, que fala da estabilidade das nossas instituições democráticas e outras besteiras do gênero. Não podemos respeitar essas pessoas no mais mínimo que seja. Às vezes temos de lhes obedecer, porque elas têm o poder e a caneta na mão. Mas obedecer é uma coisa, respeitar é outra. Chamá-las de Vossa Excelência não faz o menor sentido. Está na hora de começarmos a manifestar o nosso desprezo abertamente. O povão já se encarregou de fazer isso nos estádios [quando xingou a Dilma Rousseff]. É claro que esse estado de coisas, que vem desde cima com os políticos, contamina todo mundo e provoca uma queda, um decréscimo de consciência, de modo que as coisas mais óbvias se tornam muito difíceis de ser compreendidas. Acho que esse caso da edição dos textos do Mário Ferreira ilustra essa incompreensão, porque é quase impossível um publicador não compreender a diferença entre conferir uma edição com outras edições, apenas para corrigir uma diferença ou outra, e pegar uma transcrição do oral e publicá-la como está, em vez de dar-lhe uma redação apropriada. Em nenhum outro lugar do mundo essa confusão é possível. Dei a vocês o exemplo do livro Topics on Education, de Bernard Lonergan, que é o resultado de várias gravações transcritas e que levou cinco anos para ser preparado por uma grande equipe. A equipe fez uma redação com começo, meio e fim, de modo que o que era uma gravação transcrita ficou parecida com um livro mesmo. Ficou um trabalho muito bom. Pergunto-me como é possível que, no Brasil, um publicador não tenha consciência da dificuldade de editar um livro. A resposta é que, no Brasil, o amadorismo mais grosseiro foi promovido, e basta o sujeito ocupar um lugar na sociedade, ainda que ele não tenha a substância necessária para estar em tal posição, que ele passa a ser o cargo que ocupa. O Brasil é o mundo do fingimento, é o mundo de isopor. Vou comentar agora o capítulo dois do livro Filosofia da Crise, o “menos ruim” dos livros publicados do Mário, porque acho que houve alguma revisão. Analisando o “menos ruim”, vocês terão idéia de como estão os outros livros. É necessário um esforço interpretativo para passar o que foi dito oralmente ao papel. Não se deve simplesmente transcrever o que foi dito, mas antes compreender o que o orador quis dizer, ainda mais no Brasil onde a diferença entre a linguagem oral e a linguagem escrita é muito grande. Aqui nos EUA, também há falas que são impossíveis de se transcrever literalmente, como a dos rednecks e a dos negros; porém, na França e em Washington todos falam de uma forma mais ou menos gramatical, e a transcrição literal nesses lugares parece mesmo um escrito. Mas, no Brasil, há um abismo entre a fala e a escrita, e isso vejo nas minhas próprias gravações. A maneira como eu falo nas aulas jamais seria a maneira como eu escreveria, porque aquilo que está claro no oral perde clareza no escrito. Então é necessário um trabalho de transposição, de interpretação em profundidade. Esse trabalho, no caso das obras do Mário, só pode ser feito por quem não apenas tenha prática em edição de texto mas que também conheça e compreenda a sua obra em profundidade. Vejamos agora o que seria uma primeira limpeza do texto. Vou ler a edição impressa, que é a última que o Mário fez na vida, e vamos ver como fica depois que interpretamos corretamente o que ele quis dizer: "O homem é a consciência da crise (crisis), pois a somos quando nos erguemos da animalidade, quando em nós ela se torna consciência." "A somos"? Somos quem? Somos a crise ou a consciência da crise? Se somos a consciência da crise, então o Mário repete o que já disse; se somos a crise, a nuance é completamente diferente. A redação correta é: "O homem é a consciência da crise, pois somos crisis quando nos erguemos da animalidade." Ou seja, no instante em que emergimos da animalidade, nos tornamos uma crise ambulante. É isso que ele está querendo dizer. A frase completa deveria ser: O homem é a consciência da crise, pois somos crisis quando nos erguemos da animalidade, quando ela em nós se torna consciência. Portanto, a crise se torna consciência. Então, nós somos a consciência da crise, porque nós somos crisis, e há um momento em que essa crisis se torna consciência. Foi isso que ele quis dizer. "A própria consciência é condicionada por ela,..." "Por ela" quem? Pela crisis ou pela consciência da crise? O correto seria: A própria consciência é condicionada pela crisis. "pois, para afirmar-se, ela precisa separar, para marcar a nitidez do que é, e do objecto..." Este “e” não é necessário. "do objecto sôbre o qual ela realiza o pleno exercício de si mesma." Ou seja, a consciência precisa separar uma coisa de outra, para que os vários aspectos considerados se tornem nítidos. Portanto, a atividade da consciência implica em um elemento de crisis (mais adiante ele vai dar a acepção correta do verbo grego krísis, que significa "separar"). "Quando meditamos sôbre ela,..." Sobre “ela”? Sobre a crisis ou a consciência da crise? O certo seria “sobre a crisis”, e não “sobre a consciência da crise”. A meditação sobre a consciência da crise será uma segunda coisa. "um longo caminho se abre aos nossos olhos, desafia a nossa argúcia, apela à nossa inteligência, porque há problemas por solucionar, perguntas por responder, dúvidas que não podemos tolerar mais." Notem bem que essas correções que fiz não visam dar elegância ao texto, mas apenas torná-lo inteligível e evitar erros de compreensão que, do jeito que está o texto, são praticamente inevitáveis, a não ser que o leitor seja, como eu, um profissional da área. "Quando se deseja precisar com nitidez o seu conceito,..." "Conceito" do quê? Qual conceito? o da crise ou da consciência da crise? De novo o Mário está se referindo à crise e não à consciência da crise. O correto seria: Quando se deseja precisar com nitidez o conceito da crise. "para colocá-lo nos diversos planos e esferas que nos permitam uma análise decadialéctica, para empreendermos uma busca nos diversos sectores, por entre planos, esferas e campos, aquêle conceito desafia a nossa argúcia. É preciso enfrentá-lo. Que nos diz, que nos aponta esta palavra?" Por motivo de elegância, deve-se trocar “esta palavra” por “essa palavra”. "De início, uma acção de separar. Em qualquer esfera que nossas investigações se processem, lá encontramos a acção de separar.” Isso é um erro de gramática intolerável. O correto seria: Em qualquer esfera em que (ou na qual) as nossas investigações se processem, lá encontraremos a ação de separar. Na fala você pode omitir a preposição em, mas no escrito não. "Na esfera físico-química (dos corpos chamados brutos), na esfera biológica (dos corpos chamados vivos), na esfera psicológica (lá onde lampeja um psiquismo e brilha um pensamento), na esfera histórico-social (onde há a presença do nosso semelhante), em tôda a parte a separação se instala." O "instala" [0:20] também seria preciso trocar, porque ele não quer dizer que a separação se instala em um certo momento, mas que ela está lá permanentemente. Ele quer dizer que a separação se exibe, se mostra, ou está presente. "Mas, não só a separação; pois, como se poderia afirmar a separação sem alguma presença unitiva? Como surgiria a acção de separar se não existisse o que une? A idéia de crisis, para os gregos, e a acção..." O correto seria “é” e não “e”. "a ação que realiza o acto de separar, de escolher, krisô." Notem bem que isso já é a quarta edição do livro. Esse “e” vai estar tanto na quarta edição quanto nas anteriores. Se o “e” está na última edição, e a última edição foi modelada a partir das anteriores, estas edições, por sua vez, também conterão o erro. "Se seguirmos as providências da decadialéctica..." Isso é um vício de linguagem do Mário Ferreira. Ele costuma usar a palavra "providências" como sinônimo de "procedimentos". É claro que a nuance entre "providências" e "procedimentos" é bem grande. Providência é uma ação que você toma em face de uma situação; procedimento é uma espécie de regra, uma espécie de procedimento regulamentar, e é neste último sentido que ele usa a palavra providência. A decadialética é um método que ele inventou, e ela não propõe providências, e sim procedimentos, como qualquer método. "Providência" é já a aplicação do método, é o método na sua aplicação perante circunstâncias concretas; "procedimentos" são as regras usuais, genéricas. Então, o correto seria: Se seguirmos os procedimentos da decadialética. Perceba que não estou acrescentando nada ao que disse o Mário. Estou simplesmente interpretando o que ele quis dizer e o que ele diria se estivesse redigindo pessoalmente. O Mario tinha consciência do mal estado em que estavam esses textos e sempre dizia que não haveria tempo para corrigi-los. Acho que ele já previa a própria morte. Ele tinha uma doença cardíaca muito grave, sabia que não ia durar muito, e morreu aos 62 anos. Ele dizia: "Depois de minha morte virá alguém e corrigirá os meus textos." Santa ilusão, Mário, você está no Brasil, não virá ninguém para corrigi-los. Virá o Olavo de Carvalho, 40 anos depois, e o editor, em vez de ajudá-lo, vai querer boicotá-lo. "Se seguirmos as providências da decadialéctica para examinar êste tema, que tanto aflige o homem moderno, devemos iniciar por esclarecer o conceito, colocando-o em seus planos." “Em seus planos”? Mas ele está se referindo a diversos planos. Não são apenas planos, são planos diferentes. Então tem de ser: Em seus diversos planos. "Na crisis, há uma separação, e separar é abrir distância entre pares; ela se-para. Mas a distância exige um entre os separados. E quando, no mundo corpóreo..." Na fala, é normal começarmos qualquer frase com “e”, mas no escrito não. Cortemos então esse “e”. "Quando, no mundo corpóreo, separamos os sêres, nós os distanciamos. E a distância..." Novamente começando com “e”... "A distância (mostra-nos a experiência) pode ser aumentada, e é ela gradativa,..." Esse “ela” só está atrapalhando. "... e é gradativa, pois pode ser maior ou menor, afastar-se mais ou menos." Ora, "afastar-se mais ou menos" não é nem afastar-se nem deixar de afastar-se. Na fala, dizer “mais ou menos” não faz diferença, porque pelo gesto você marca a diferença. Mas, no escrito, “mais ou menos” significa “relativamente”, e não é isso o que o Mário está querendo dizer. Ele está dizendo "em mais" ou "em menos". Ou seja, a separação pode ser maior ou menor. "Portanto, no conceito de crisis, temos sempre um "afastar" das coisas, um acto de "distanciá-las" umas das outras. Mas também realizamos separações além do mundo físico, realizamos separações mentais. Se quiséssemos separar o verde das penas daquele pássaro não o poderíamos..." É necessário por uma vírgula depois de pássaro. "não o poderíamos realizar fisicamente. Mas podemos pensar nêle, e ter a imagem daquele verde aveludado. E mesmo que os olhos vejam tantas coisas, uma imagem do verde,... " O que ele quer dizer é: E mesmo que os olhos nesse mesmo momento estejam vendo outras tantas coisas; e não simplesmente que olhos vejam, que tenham a capacidade de ver. "E mesmo que os olhos vejam tantas coisas, uma imagem do verde, sem representação, surge em nós, vendo-a sem a ver." Se é uma imagem sem representação, você não está vendo a imagem, você está vendo o verde sem vê-lo. Portanto, o certo é "vendo-o sem o ver", e não “vendo-a sem a ver” . Você imagine agora o pobre leitor que não conhece a obra do Mário, que não tem formação filosófica, e sobretudo que não é um editor de texto com experiência, que é que ele vai fazer com esta leitura? Aquilo que foi feito para estruturá-lo, para por-lhe ordem, para dar-lhe nitidez, vai servir apenas para confundi-lo. "Nossa imaginação, essa capacidade de ordenar imagens, pode reunir seqüências de situações vividas pela rememoração, ou de cenas que não vivemos na sua ordem, mas que são sempre compostas das pequenas experiências de que está cheia a nossa vida.” O “essa” antes de “capacidade” é dispensável. “Chama-se abstração, o acto...” Não se deve colocar vírgula. "Chama-se abstração o acto de separar, no espírito, o que não é separável no mundo físico. É ainda crisis." Portanto, no simples ato da abstração, que é um ato corriqueiro, existe uma crisis — no sentido grego —, isto é, existe uma separação, a abertura de um abismo. "E assim como podemos memorizar o verde daquele pássaro, podemos, numa imagem sem representação, pensar sôbre o verde. Não êste nem aquêle, mas o verde,..." Teria de se repetir “verde” depois de “aquele”, e o último “verde” deveria ser precedido de “o” em itálico ou entre aspas, para grifar o “verde”. Ou seja, o correto seria: Não este ou aquele verde, mas o [ou “o”] verde. "a forma verde, a forma que separamos de todos os verdes conhecidos, mas que está também nos verdes que os olhos já viram: a formalidade do verde, o conceito do verde. Ainda crisis." Quando você pensa no conceito do verde isoladamente, isto é, não o verde de uma folha ou de um pássaro, mas apenas o conceito do verde, ocorre então uma crisis, porque você, nesse momento, está separando a idéia da imagem sensível, imagem esta que você já tinha separado do objeto inicial, desde onde todo o processo foi desencadeado. "Se entre as coisas que separamos fisicamente, estabelecemos distâncias maiores entre elas,..." Está faltando uma vírgula depois do “se”. Para que esse "entre elas"? Se ele já disse: "Se, entre as coisas que separamos fisicamente, estabelecemos distâncias maiores," é claro que é "distâncias maiores entre elas". "também estatuímos distâncias em tudo quanto pensamos separadamente. Há uma distância entre a separação física, como há uma distância nas separações mentais." Entre a separação física e o quê? Porque “entre” é sempre “entre uma coisa e outra”. O que o Mário quer dizer é: Há uma distância na separação física, como há uma distância nas separações mentais. [0:30] Esses erros continuam até o fim do capítulo. Vejam a versão que eu disponibilizei. Os erros estão em vermelho. É uma edição realmente catastrófica. Pergunta: conferir a quarta edição dessa obra com as anteriores serve para alguma coisa? Claro que não! Só se confere as edições anteriores quando há um texto final, porque as várias edições são cópias de um texto acabado. Um texto só está pronto quando o autor o termina, ou quando o autor o entrega a um editor que o finaliza. A partir daí, o editor entrega o texto a um publicador, que publica uma ou mais edições do livro. Neste caso, não há um texto pronto, mas apenas uma transcrição grosseira a partir daqueles rolos enormes usados na época. Naquela época, não existia ainda fita cassete, e os gravadores usados eram do tamanho de uma parede. A mulher do Mário, que não entendia o que o ele estava dizendo, fazia devotadamente as transcrições dos áudios. Mais tarde, quando a conheci, ela estava completamente gagá, e aí então que não entendia nada mesmo. Mas ela, coitadinha, achava que terminar esse trabalho era a sua obrigação. Imaginem então a situação: ela, uma senhora com Alzheimer, sem saber mais quem é quem, se impondo a obrigação de terminar as transcrições. É algo patético, mas, no fim das contas, tocante. O desafio, mesmo com a boa vontade que ela tinha, era imensamente superior à sua capacidade. Era um caso perdido. A filha dela, Iolanda, e eu tivemos de roubar os manuscritos na calada da noite, porque a mulher ficava sentada neles e não deixava ninguém se aproximar. Com isso, conseguimos corrigi-los um pouco. Aluno: Qual a diferença entre o editor técnico e o editor? Olavo: Nenhuma. Às vezes você chama de “revisor técnico”... Aluna: Revisor técnico! É isso! Olavo: O revisor técnico é um especialista em uma determinada área, e não um especialista em textos. Por exemplo, quando trabalhei em revista médica, eu fazia a edição do texto e depois passava-o para um médico especializado no assunto do texto. Se era um texto de psicologia, eu o entregava a um especialista em psicologia, se era um texto de neurologia, a um especialista em neurologia, e eles faziam a revisão técnica. Em geral, os médicos não sabem escrever. Eles me mandavam aqueles artigos horríveis e ininteligíveis, e eu tinha de transformá-los em uma coisa inteligível. E, depois de ficar inteligível, ainda tinha esse requinte de revisão técnica. Porém, em se tratando da obra do Mário, não podemos sequer separar a revisão técnica da edição de texto: as duas têm de ser feitas juntamente. Não é qualquer editor que pode trabalhar a obra do Mário. Por exemplo, um editor que está na Veja há 30 anos, e que seria considerado um às da edição de textos, não pode cuidar da obra do Mário, porque não entende de filosofia e não conhece a obra. Então, é preciso alguém que seja um bom editor de textos, que tenha uma formação filosófica suficiente para conhecer todo o vocabulário que o Mário está usando e, sobretudo, que saiba quando o Mário está usando um termo apropriadamente ou quando ele usou, equivocadamente, um termo errado. Alguns desses equívocos já foram vistos nas páginas anteriores. Decorrido meio século desde a sua morte, a obra do Mário ainda está travada e bloqueada, porque existem interesses menores em jogo. Isso tudo reflete um estado geral de coisas. Se a cultura não existe como atividade autônoma, se ela tem de servir a um propósito de propaganda política, então ela tem de servir a outros propósitos também: ela tem de ser uma diversão para ricaços aos fins de semana; tem de ser um meio de alguém subir na vida; tem de ser algum produto comercial que dê dinheiro, e assim por diante: sempre as finalidades inferiores se sobrepõem à cultura. Eu não acho que essas finalidades sejam ilegítimas; todas elas são legítimas: o ricaço tem o direito de se divertir, o sujeito ambicioso tem o direito de ganhar dinheiro — assim como todo mundo —, mas você não pode inverter a hierarquia das coisas. No caso do Gilberto Freyre, a sorte foi a sua família ser estudiosa da obra dele e a compreender, incluindo aí o meu falecido amigo Fernando Freyre. A família teve a sabedoria de entregar a obra do Freyre nas mãos do José Mário Pereira, que é um editor bastante consciencioso e que continuou publicando as obras do Gilberto Freyre depois que o grande editor José Olympio de Barros morreu. A história da literatura brasileira está ligada à pessoa do José Olympio de maneira inextricável, porque era ele que descobria os grandes talentos e os publicava. Ele tem um papel histórico realmente. Mas quando o José Olympio e o José de Barros Martins, da Editora Martins — outra editora importantíssima —, morreram, ficou um vazio, que está sendo preenchido pelo José Mário, o grande publicador da literatura brasileira. O José Mário mantém vivas as obras do Freyre e do Oliveira Lima, trabalhando, às vezes, em condições precárias, por não ter muito dinheiro. Esse sim é um publicador e um editor, porque tem cultura literária para conhecer os textos, mas, como está sobrecarregado, vez ou outra as edições saem com erros. A obra do Freyre só nos é acessível hoje devido a essa feliz coincidência de sua família ser amiga do José Mário; senão, a obra estaria bloqueada até hoje, e a conspiração de silêncio que a USP fez em torno do nome do Freyre durante 50 anos estaria ainda em vigor. Esse silêncio só foi rompido no centenário de nascimento do Gilberto Freyre, quando a USP consentiu em fazer, não no salão nobre, mas num barraco, uma sessão “solene” em homenagem a ele, em que reconheceram que ele era um sociólogo quase tão grande quanto a besta quadrada do Florestan Fernandes. Tudo isso acontece por causa desse fenômeno tipicamente brasileiro [a instrumentalização da cultura] que descrevi. Nós devemos romper com isso de todas as maneiras. Suponhamos que amanhã a situação política brasileira mude, que nós expulsemos o PT e que uma corja de direitistas — da qual nem vocês nem eu faremos parte — suba ao poder. Agora imaginem que esses mesmos direitistas queiram enterrar o livro O Escravismo Colonial, do Jacob Gorender... Não podemos permitir! Esse livro faz parte do patrimônio da cultura brasileira e precisamos dele. Ou que eles queiram enterrar as obras de autores comunistas, como o crítico Astrogildo Pereira e o romancista Jorge Amado (o da primeira fase). O que faremos? Não permitiremos que isso aconteça! Temos de entender que a disputa política e a preservação do patrimônio cultural são duas coisas completamente diferentes, ainda mais porque, sem um patrimônio cultural conservado, a luta política perde todo sentido. Por que a luta política deixou de fazer sentido e se transformou num hospício? Vejamos aqui neste trecho da apostila “A Alucinação Revolucionária”: “Em 1963 o historiador marxista inglês E.P. (Edward Palmer) Thompson já havia concluído que, por traços econômicos objetivos, era impossível distinguir o que fosse um “proletário”: era preciso recorrer a traços culturais, religiosos e até psicológicos. Em 1985, o ideólogo comunista argentino Ernesto Laclau reconhecia, sem meias palavras, que, longe de refletir uma posição social objetiva, a ideologia é autônoma e adere a ela quem quiser. Ia ainda mais longe e proclamava que “a propaganda revolucionária cria a classe a que se dirige”. Vejam que isso foi em 1985. Faz bastante tempo. São trinta anos. Prosseguindo: “A essa altura, como vocês podem imaginar, toda “identidade de classe”, tanto dos “amigos” quanto dos “inimigos”, já havia perdido toda consistência sociológica: “burguesia” e [40:00] “trabalhadores”, “ricos” e “pobres”, “elite” e “povo” passaram a ser crachás que podiam ser grudados livremente nas pessoas interessadas, conforme os caprichos do movimento revolucionário.” Isso teve como conseqüência a expansão formidável do poder de atração da ideologia revolucionária, porque, como ela está apelando a tudo quanto é loucura, você não precisa de nenhum esforço intelectual e não precisa compreendê-la no mais mínimo que seja: basta, para lhe aderir, que você projete nela alguma insatisfação, alguma revolta, algum ressentimento. A faixa do movimento revolucionário, portanto, começou a abarcar uma multidão de pessoas, sobretudo as mais incapazes, que são, não no sentido econômico, mas no intelectual, um verdadeiro lumpemproletariado. Esses cinqüenta ou sessenta por cento de universitários analfabetos funcionais são o lumpemproletariado intelectual; são pessoas absolutamente desqualificadas, são pessoas incapazes de exercer qualquer profissão, mas que se identificam com o movimento revolucionário sem terem sequer consciência de qual é a sua posição na sociedade. Elas podem projetar o seu ódio revolucionário contra qualquer objeto que povoe a sua imaginação, ainda que seja um objeto inexistente. A ideologia revolucionária — anteriormente ligada vagamente ao marxismo originário — perde toda a sua força de diagnóstico sociológico (Lembrem-se que o marxismo pretende ser um diagnóstico sociológico objetivo, podendo, portanto, ser complementado e corrigido enquanto tal. Trotsky, por exemplo, disse que a divisão da história das sociedades em épocas de aristocracia, de burguesia e de proletários não era correta, como então acreditava o marxismo. Para Trosky, todas essas épocas podem se fundir numa mesma sociedade. Ou seja, até esse período ainda havia discussão sociológica objetiva dentro do marxismo). A partir do momento em que os conceitos descritivos fundamentais do marxismo foram apagados e passaram a ser usados como símbolos unificadores da psicologia de movimentos e de grupos revolucionários, e não como conceitos descritivos da sociedade, o marxismo perdeu todo o alcance sociológico e não serve mais como diagnose da realidade. Isso tem dois efeitos: o governante que sobe ao bojo de um movimento revolucionário tem, por um lado, uma máquina de propaganda altamente eficiente a seu serviço, pois o discurso revolucionário fala a uma multidão de loucos, de incapazes e de lumpemproletariados, sendo que o próprio poder desse governante, à maneira de uma máquina de automultiplicação, produz mais gente desse tipo; por outro lado, esse mesmo governante, ao ganhar essa máquina de propaganda, perde todo e qualquer instrumento de descrição sociológica, e tem agora cada vez mais gente o apoiando numa política de cegueira total, numa política totalmente ignorante sobre o que se passa. No Brasil, tudo piora desde que esses tipos de governantes subiram ao poder, e, ao mesmo tempo, o número dos seus apoiadores aumenta formidavelmente, a ponto de o Lula ter, em uma época, oitenta por cento de aprovação e conseguir, ainda por cima, eleger a Dilma, uma pessoa totalmente inexpressiva. Eles têm, de fato, uma margem de apoio bastante ampliada, mas não têm instrumentos de descrição objetiva da sociedade, logo, eles não sabem o que se passa e nem o que estão fazendo. É aquilo que dizem: “Tanto mais poderoso quanto mais louco está”. O Brasil é um país onde tem alta inflação, setenta mil homicídios por ano, alunos tirando os últimos lugares nos testes internacionais, explosão do fenômeno de corrupção como nunca houve no mundo e que já passou da esfera do imaginável. Se você fala aqui nos Estados Unidos: “Houve um rombo de dois trilhões no orçamento federal”, os americanos ficam sem entender. Aqui, se dá um rombo de duzentos mil dólares, todo mundo fica escandalizado. E quem está denunciando esse rombo? É um zé-mané? É um jornalista da oposição? Não, é o presidente do Tribunal de Contas. Esses absurdos acontecem porque a elite governante não tem mais instrumentos de descrição da realidade: ela transformou o marxismo em mera propaganda. Essa elite aumentou a eficácia do marxismo como propaganda mas destruiu a eficácia do marxismo como instrumento descritivo. Quando Lênin sobe ao poder na URSS, ele tem nas mãos as duas coisas: a arma da propaganda e os instrumentos diagnósticos. Esse último lhe permite entender um pouco, à luz do marxismo, e em linhas gerais, como está o estado da sociedade russa (porque o marxismo, embora limitado, coincide em parte com a realidade). Porém, a visão de mundo da esquerda brasileira não coincide em nada com a realidade: é só propaganda e ilusão. Esta é a situação na qual estamos. O fenômeno do marxismo como pura propaganda não se limita ao Brasil. Nos EUA, a partir da década de 60, surge a idéia de canalizar em favor do movimento revolucionário todas as insatisfações pessoais ou grupais, por mais estapafúrdias que sejam. Essa idéia funcionou e aumentou muito o número de adeptos ao movimento revolucionário. Antigamente, para aderir ao marxismo, você precisava ser ou um proletário que se identificava com a causa proletária, ou alguém que traiu a própria classe, passando para o lado proletário, ou um intelectual que, embora não sendo proletário, aderiu ao discurso proletário. Só havia essas três possibilidades. De repente, mulheres começam a aderir ao movimento por estarem insatisfeitas com os maridos, insatisfação essa que é interpretada como um aspecto particular da dominação machista. A dominação machista, por sua vez, é tida como expressão da dominação capitalista, que, por sua vez, é vista como a expressão (por mais incrível que isto pareça) da sociedade patriarcal. Mas confundir capitalismo com sociedade patriarcal é dar um salto de pelo menos três séculos. Além disso, foi o próprio capitalismo que acabou com a sociedade patriarcal. O movimento revolucionário superpõe esses processos porque lhe é próprio superpor imagens com vistas à adesão irracional. Um outro adere ao movimento por ser gay, ainda que em todos os países dominados por governos revolucionários, como a China, a Rússia e Cuba, os homossexuais sejam mandados para a cadeia, quando não para o fuzilamento. Mas ele adere ao movimento porque o discurso revolucionário é um nos países comunistas e outro nos outros países. Um outro adere ainda porque quer fumar maconha e cheirar coca, e esse desejo o coloca de algum modo na horda dos descontentes, visto que agora o movimento revolucionário não tem como objetivo juntar os proletários, e sim todos os descontentes. Porém, se ele quisesse fumar maconha e cheirar coca na URSS, seria certamente fuzilado. Esse fenômeno aconteceu, de certo modo, em escala mundial. Por exemplo, no Maio de 68, na França, todas essas insatisfações irracionais eclodiram ao mesmo tempo, e de uma maneira tão anárquica, que o próprio partido comunista se opôs a elas. Os comunistas chamam de pequeno-burguês tudo o que seja irracional, mas, no Maio de 68 havia ao mesmo tempo pequeno-burguês, grande-burguês e proletário. Porém, para o estereótipo comunista, as idéias anárquicas e irracionais são consideradas pequeno-burguesas e são vagamente associadas, pela doutrina comunista, ao fascismo. Quando eclode o Maio de 68, eclode com ele a revolta feminista e gayzista, que acabam por minar o movimento [0:50] e desmoralizá-lo completamente perante o resto da população. Hoje em dia, está mais ou menos assentado que o que matou o Maio de 68 foram os gayzistas, as feministas etc., que tentaram se aproveitar do movimento, mas não funcionou. Portanto, isso não é apenas um fenômeno brasileiro, mas um fenômeno mundial, de algum mudo. Surge com isso o problema de como dirigir o movimento revolucionário, já que você não está mais lidando com uma massa de militantes treinados, doutrinados e disciplinados, mas com uma massa amorfa de loucos e de insatisfeitos de todo o gênero. Foi esse fenômeno de disseminação das idéias da Nova Esquerda e também da Nova Era que fez a URSS mudar de estratégia, substituindo a antiga organização hierárquica por um sistema de redes informais, em que não há propriamente um comando, mas antes um estímulo pavloviano, que consiste em transmitir, por meio dos meios de comunicação, e hoje em dia também pelas redes sociais, determinados símbolos, para que x por cento da população reaja de uma determinada maneira. Isso não é o mesmo que uma ordem cumprida rigorosamente desde o mais alto escalão até o mais humilde dos militantes. Com essa nova estratégia, têm-se mais repercussão e menos controle, o que cria, no seio do movimento revolucionário, uma confusão dos demônios, e que permite que hoje a concorrência entre os três grandes esquemas globalistas assuma por vezes um perfil alucinante. As reações ao atentado na França [Massacre do Charlie Hebdo] foram as mais desencontradas possíveis. Se o sujeito se oposse ao atentado, ele desagradaria uma boa parcela dos muçulmanos; se ele falasse em favor, ele fortaleceria o discurso do fundamentalismo religioso, favorecendo assim a extrema-direita. Assim, uns tomam uma atitude, outros, outra, e no fim ninguém sabe o que fazer. Esse ambiente alucinante tende a se expandir nas próximas décadas, já que nem mesmo os mais altos estrategistas do movimento revolucionário, como o Alexandre Duguin, entendem o que está acontecendo. Se vocês lerem o meu debate com o Duguin [Os EUA e a Nova Ordem Mundial], vocês vão ver que existem continentes inteiros da realidade que o Duguin desconhece ou não entende, mas que interessariam à sua estratégia. Se o Duguin está assim, imaginem os outros, imaginem os estrategistas do Foro de São Paulo. Por exemplo, o Governo Federal planejou o Movimento Passe Livre para desestabilizar um governo estadual, mas o movimento saiu do controle, e uma massa de populares saiu às ruas contra o próprio Governo Federal; a bagunça foi tanta que o governo teve de intervir. Isso foi um erro de cálculo devido à falta de instrumentos diagnósticos do governo para poder saber o que está se passando. Em matéria de controle social, os estrategistas estão agindo no escuro, e o próprio controle da militância, hoje, também é feito no escuro. Você nunca vai poder saber o que acontece. Há pouco tempo, foi eleito um deputado pelo PSOL com um discurso inteiramente conservador; o PSOL não entendeu nada. Isso aconteceu porque o partido não tem instrumentos diagnósticos, não sabe o que está se passando na sociedade. Apesar do seu enorme poder publicitário, o seu poder diagnóstico e de planejamento são nulos. A sorte dos da esquerda é que os da direita tampouco têm esses instrumentos diagnósticos. Só quem está tentando criá-los sou eu. Vejam o meu curso “Teoria do Estado” e as apostilas “Ser e Poder”. Mas falta muito ainda para que as pessoas que deveriam saber o que está acontecendo entendam isso. ************************************************************************ Aluno: O senhor disse anteriormente que dividir a esquerda para tentar enfraquecê-la, como fez o regime militar no Brasil, é inútil. À luz da exposição que o senhor fez agora, seria esse cenário uma divisão involuntária e potencialmente enfraquecedora do movimento revolucionário? Olavo: Não. O fenômeno é ambíguo. A multiplicação de perspectivas e a canalização de todos os descontentamentos fortalecem o movimento revolucionário num primeiro momento, porque amplia a gama dos interessados quase ilimitadamente. Todas as insatisfações se integram de algum modo ao movimento revolucionário, mesmo quando contraditórias entre si. Foi por causa dessa canalização dos descontentes que, depois da queda da URSS, o esquerdismo aumentou em vez de desaparecer. Ao mesmo tempo em que o sistema soviético vinha abaixo, um novo esquema do movimento revolucionário, que já estava em preparação desde a década de 50 na própria URSS, emergia e se espalhava pelo mundo, e é esse novo esquema que está em vigor agora; ele não tem mais nada do antigo dogmatismo, da antiga organização hierárquica, pelo contrário, ele aposta na confusão. Quando um partido revolucionário sobe ao poder, seja numa democracia, em que ele precisa ao mesmo tempo cumprir as leis e destruir o Estado — o que o deixa em posição ambígua —, seja numa revolução, em que ele adquire poder total e tem de administrar o país inteiro, ele fracassa, não sabe o que fazer, não sabe o que se passa, porque não tem mais os instrumentos de análise da sociedade. Esse é o caso do PT, que é um partido tão ruim, que toma o poder e não sabe o que fazer com ele: é o sucesso do fracasso. Ainda que um partido revolucionário não saiba o que fazer, o movimento revolucionário continua se expandindo, isto é, ainda que o partido não consiga administrar o país, leve tudo para o buraco e destrua tudo, a sua área de propaganda continua a se alargar. É apenas propaganda que o PT sabe fazer e mais nada. Aluno: Esse diagnóstico ao qual o senhor se referiu diz respeito também ao comentário da aula anterior sobre fazer um estudo das forças que atuam na América Latina e as respectivas organizações internacionais que as controlam, levando em conta que são aliadas e que disputam o poder? Olavo: Com certeza. Esse trabalho é obrigatório, que já tentei realizar em 2003 no Centro Ibn Khaldun, no Paraná. Desde então venho dizendo que precisamos reunir um grupo de estudiosos para mapear, à maneira de um fichamento, todos os movimentos, organizações e correntes envolvidos no movimento revolucionário. Mas não temos esse estudo até agora. A esquerda não consegue ter um diagnóstico objetivo, porque a própria estrutura do movimento revolucionário, tal como ela é hoje, a impede disso — se você aposta na anarquia e na confusão, você só vai ter anarquia e confusão, inclusive na sua cabeça —, mas os conservadores não o tem [1:00] por preguiça, por desleixo, por uma espécie de pragmatismo fácil e por desprezo ao conhecimento. Há toda uma ala da direita — da antiga direita policial tacanha e sobretudo militar — que acha que sabe tudo e que pensa que basta ler jornal para estar ciente de tudo. Esses tipos de conservadores só servem para atrasar, e, graças a essa mentalidade, não temos nenhum estudo até hoje. Aluno: O senhor poderia comentar sobre as relações dessas estratégias de união dos insatisfeitos com o eurasianismo duguinista, que busca unir os insatisfeitos contra os Estados Unidos? Olavo: Muito boa pergunta. Fábio Leite está perguntando como articulo esse diagnóstico que fiz com o fenômeno do eurasianismo. O eurasianismo aposta numa confusão ainda maior, pois busca integrar as correntes do movimento revolucionário com os seus contrários, isto é, busca integrá-las com movimentos conservadores, reacionários, fascistas, protofascistas, fundamentalistas religiosos, ultranacionalistas etc. O critério do Dugin é muito simples: tudo o que estiver contra os EUA e Israel vale. Notem bem que o movimento revolucionário já tem essa tradição de integrar tudo, de aceitar qualquer porcaria e de apostar na confusão geral desde os anos 60. Tal integração era, no fundo, a proposta de Gramsci. Era isso que Gramsci queria fazer. O Dugin não pertence a rigor nem à direita nem à esquerda. O seu critério é nacional, e não ideológico: é a Rússia contra os EUA, é a Rússia contra o Ocidente. A glória da Mãe Rússia é a chave de tudo. O que pode servir para a glória da Mãe Rússia? Qualquer coisa contrária aos EUA e a Israel. Ele inventou essa “doutrina” chamada eurasianismo, em que você vê lado a lado comunistas linhas-duras e discípulos de Julius Evola, que estava à direita do fascismo e que escreveu o famoso livro O Fascismo Visto pela Direita, descendo o cacete no fascismo, porque não era suficientemente reacionário. Podemos então juntar todos esses grupos ao redor de uma mesa e eles se darão muito bem, porque odeiam um mesmo inimigo. É uma “unidade negativa” baseada no ódio a um fetiche, já que os EUA do qual eles falando não existem. No meu debate com o Duguin, mostrei que o que eles estão chamando de EUA é um esquema globalista que não tem nada a ver com os EUA, e que é, ao contrário, profundamente anti-americano. Se o Duguin quer apostar na confusão, então tudo bem; mas o próprio Duguin não sabe que suas idéias são pura confusão, pelo contrário, ele acredita que elas são uma ideologia, uma ordem, uma concepção filosófica, uma filosofia da história, quando são apenas geopolítica, são apenas a tentativa de ocupar o mesmo espaço dos EUA. Aluno: O Bezmenov afirmou que a fase de desmoralização, propaganda e toda essa zona toda duram de 5 a 20 anos. O Brasil já encontra-se nessa situação há 30 anos ou mais. Estaríamos na fase da desestabilização? Olavo: Sem sombra de dúvida. Estamos na fase da desestabilização. Só que temos o seguinte problema: a esquerda prosseguiu com a revolução cultural, isto é, com a fase da desmoralização durante 30 anos, ou melhor, durante 50 anos, já que isso começa no próprio regime militar, quando a esquerda já dominava os meios de comunicação e editoriais. Agora estamos chegando finalmente à fase da desestabilização. Mas quem está no governo? É a própria esquerda, que está promovendo a desestabilização, e quando ela tenta desestabilizar os seus adversários locais, a desestabilização se volta contra ela mesma, como aconteceu no caso do Passe Livre. A esquerda tem o controle burocrático da sociedade, mas não o poder efetivo, o controle armado. Ela não tem uma militância armada que esteja pronta para tomar o poder, calar e reprimir todo mundo. O MST, ainda que esteja armado, não agüenta um combate de trinta minutos contra qualquer batalhão do Exército. A esquerda tentou criar a Força Nacional de Segurança Pública, mas não funcionou, e agora o próximo passo é ou federalizar as polícias, de modo que todos fiquem nas mãos de Dilma, ou desarmar as polícias, passando as armas para o MST ou outra organização. Como não há uma militância revolucionária armada, a fase da desestabilização em que nós estamos pode ir para um lado ou para o outro, isto é, o próprio PT pode ser arrastado no meio da desestabilização que criou. Num ambiente onde ninguém respeita mais nada, o mais desrespeitado de todos é o governo petista. Há algumas pessoas das hostes esquerdistas que estão percebendo a esquerda se queimando nesse processo, e que tentam limpar a esquerda da sujeira petista. Marta Suplicy um dia desses quis sair do PT e criar uma outra organização, o que não adianta, pois todos os esquerdistas já estão com as suas reputações queimadas. Não há saída para a esquerda. Toda a propaganda petista teve efeito contrário, porque ensinou as pessoas a desrespeitar tudo, mas qual outra autoridade existe além do PT para se desrespeitar? Isso nós vimos nos estádios, quando todo mundo demonstrou abertamente o seu desprezo xingando a presidente Dilma. Parece-me que eles perderam realmente o controle da situação. Por outro lado, não há ninguém disputando o controle pelo poder. A oposição que existe é ínfima: são dois ou três dentro do PSDB que gostariam de governar. Pode-se mencionar Aécio Neves, mas ele não tem uma militância e não pode tomar o poder sozinho. Se o tomasse, ficaria isolado, como ficou Fernando Collor de Mello, e seria derrubado em pouco tempo. Lula tem razão quando diz que a oposição não tem uma perspectiva do poder, e é isso que falta: alguém que queira tomar o poder e saiba como alcançá-lo. Eu sei como chegar ao poder, mas não quero o poder, e quem o quer não sabe como alcançá-lo. A esquerda criou uma situação revolucionária da qual não tem meios de tirar proveito; assim, ela vai empurrando a situação com a barriga; a situação vai se agravando, e o estado de caos se tornará cada vez mais intolerável até o ponto em que todo mundo se acostume com ele — como já está acontecendo: as pessoas estão se acostumando a viver num ambiente onde nada faz sentido e onde nem é preciso mais fazer sentido. Se você me disser que a partir de agora não quer mais saber dessa situação e que vai cuidar de si e dos seus interesses particulares, eu lhe direi que isso é impossível, porque se nem quem está no comando possui os instrumentos diagnósticos para delinear a situação, você muito menos, e, como você não sabe o que está se passando, vai sempre apostar no cavalo errado e vai se ferrar: não há para onde correr. Esse é um destino horrível que está se abatendo sobre toda a nação brasileira. Todos irão sofrer, e aparentemente não há o que fazer, porque não há quem deseje tomar o poder e restaurar a ordem. Alguns dizem que precisamos de um golpe militar, mas os militares foram os primeiros a desistir de tudo e ir para casa, só pensando nas suas aposentadorias. Não há solução política para a situação atual. Só é possível continuar fazendo o que nós estamos fazendo, isto é, devemos continuar preparando pessoas [1:10] que talvez, daqui a quinze ou vinte anos, criem uma solução para o problema político: solução a curto prazo não há. Quando digo que temos de salvar a cultura brasileira, penso no seguinte exemplo: há um homem desempregado cuja mulher o está traindo, cujo cachorro tem sarna e cujo filho é aidético, além disso, esse homem está louco. O que você deve consertar primeiro? A cabeça dele, evidentemente, porque estando louco ele não poderá consertar mais nada. Temos, então, de preservar ao menos um pouco de inteligência para que seja possível pensar na solução de outros problemas. Não estou pensando em solucionar problemas, mas em impedir que a destruição total da inteligência torne impossível a solução de todos os problemas. Estou tentando salvar aquele mínimo indispensável sem o qual nada se pode fazer. É para esse trabalho que convoquei vocês, e não para que tomem o poder, ou façam o impeachment de Dilma, ou convoquem um golpe militar. Quem faz isso faz porque quer. Não que eu vá boicotar essas atitudes, pois, sinceramente, elas são em parte o cumprimento de uma obrigação. Têm coisas que você não pode ver sem denunciar. Moralmente essas atitudes estão certas. Impeachment, denúncias e passeatas são ações moralmente corretas, mas politicamente irrelevantes: são ejaculações precoces. É necessário primeiro somar muitas forças para alcançar uma hegemonia cultural, para então se pensar em outras atitudes. Há etapas que não podemos pular, há coisas que não podemos apressar. Aluno: A É Realizações detém o direito das obras do Mário Ferreira dos Santos. Vinha pensando se seria infringir esses direitos lançar algum livro de comentários sobre os títulos que compõem a obra dele? Olavo: Isso você tem de perguntar a um advogado. O texto comentado seria uma obra sua, mas ainda assim acho que você precisaria da autorização da editora para reproduzir o texto. A editora É Realizações sentou em cima das obras do Mário Ferreira: ou ela não as publica, ou as publica em situação textual deficiente. Quando sugeri o Mário à editora, eu tinha a idéia de eu mesmo dirigir o trabalho, ainda que não sozinho: eu estava treinando alunos para essa tarefa, e eles já haviam preparado toda a edição de Teoria Geral das Tensões, um dos manuscritos mais importantes da obra do Mário; mas tudo isso foi boicotado pela editora e jogado pela janela. Não se trata de eu ter brigado com a editora. Para mim, não existem tais briguinhas, porque é a cultura brasileira que está em jogo. Não há problema pessoal da minha parte. Não tenho problema pessoal nem comigo, nem com o meu cachorro e nem com ninguém. Se a editora mudar de idéia e fizer a coisa certa, vou trabalhar com ela e resolver a situação das obras do Mário. Comigo não tem frescura, não tem “tô de mal”, não tem “não gosto dele”: isso tudo é veadagem. Tenho 68 anos! Causa-me horror essas picuinhas tipicamente brasileiras. Temos de pensar no que realmente interessa, e agora o que interessa é a obra do Mário, uma obra importante, salvadora, capaz de colocar ordem na cabeça das pessoas; porém, o texto, na situação em que se encontra, só acarretará em uma desordem irreparável. Toda a decadialética do autor servirá apenas para confundir as pessoas. Seria como mandar publicar os textos de Aristóteles depois de haver embaralhado todas as palavras da sua obra. Aluno: Talvez o senhor quisesse dirigir um grupo de alunos voluntários do COF. Olavo: Já fiz isso e o grupo fez um trabalho exemplar. Aluno: Nos editais de apoio à cultura que temos em nosso estado, Pernambuco, sempre são agraciados projetos que na verdade deveriam ser mandados para o lixo. Multiculturalismo, ocupação e diversidade são palavras de ordem... Olavo: Como eu estava dizendo, a cultura perdeu todo o valor autônomo, e hoje não há mais critérios culturais autônomos para se julgar o valor das coisas. Elas são julgadas em função da sua oportunidade política para o partido que está governando. Um projeto artístico tem valor na medida em que faz propaganda do governo e fala mal dos inimigos do governo. Logo, se é esse o único critério, qualquer porcaria vale. Favorecimento a obras de esquerda também existe nos EUA e na França, com a diferença de que nesses países o favorecimento se dá dentro de um quadro de referência em que a cultura ainda possui valor autônomo, que é, por sua vez, respeitado. Logo, o problema não é ser “de esquerda”. Nesses e em outros países, o comunista com a verba cultural na mão também vai favorecer os projetos culturais da esquerda, mas vai favorecer os melhores, e os piores irão para a lata do lixo. Mas, no Brasil, onde não há essa valoração, os piores projetos são favorecidos, e no fim os melhores nem existem mais, porque não há quem possa julgar os projetos. O projeto é então selecionado em função da sua utilidade político-partidária imediata, em função de favorecer os amigos e lhes dar dinheiro, que é um critério puramente mafioso. Aluno: ...dito isto, gostaria de fazer minha pergunta: devemos nos submeter a este tipo de seleção e concorrer com esses pseudo-artistas? Olavo: Nunca! Nunca peça um tostão ao governo. Morra de fome, dispute o lixo com o vira-lata, mas não pegue dinheiro do governo. Dinheiro que vem do governo, nessas condições, é um dinheiro maldito e só vai atrapalhá-lo. Quando você tem uma idéia, arrumar os meios financeiros para realizá-la faz parte da idéia: não está separado dela. Se você me disser que tem um projeto maravilhoso, sem ter os meios financeiros para realizá-lo, eu lhe direi que esse projeto não é tão maravilhoso assim, porque não inclui o seu autofinanciamento: é um projeto falho. Esse tipo de projeto é uma simples idéia platônica, é aquilo que “seria se fosse”, mas um projeto não pode ser isso. Projeto é feito para a realidade e deve incluir tudo, inclusive o seu autofinanciamento. Esse é um problema no qual sempre pensei, pois eu queria estudar mas ao mesmo tempo eu tinha uma família para sustentar, então notei que o meu trabalho deveria ser um sustento para a minha família e também uma forma de me educar, e não um antagonismo, uma coisa separada. Muito tempo depois, aprendi que Hugo de São Vitor, quando jovem, tinha a mania de anotar tudo o que ouvia no seu caderninho, inclusive várias besteiras. Quando se tornou adulto, ele percebeu que tudo aquilo tinha uma utilidade. Eu também percebo que tudo que vi na minha época nos jornais tem uma utilidade até hoje, inclusive as coisas mais mesquinhas. Então, não se deve criar esse abismo entre o ideal e os meios materiais, porque estes fazem parte do ideal. O ideal não existe apenas para ser cultuado em imaginação, mas para ser realizado. Para que seja realizado, deve-se passar por muitas etapas intermediárias. Uma delas é a administração do tempo e das energias pessoais, uma outra é a conquista dos meios financeiros. Mesmo que o projeto não se complete, ou fique deficiente, o importante é estar a caminho. Eu também não realizei tudo o que quero, mas estou obtendo os meios financeiros para realizar muitos, e as coisas estão acontecendo uma atrás da outra; só quero acelerar o passo, quero fazer mais e mais até o último dia da minha vida. Se você não tem os meios para realizar o seu projeto, [1:20] talvez ele não valha a pena, porque, se você não quer se dar ao trabalho de arrumar os meios financeiros, é sinal de que não leva esse projeto a sério. Por outro lado, se você se submeter à maquina de corrupção do governo, você vai perder a inspiração no meio do caminho. Isso aconteceu com o Fórum da Liberdade do RS. O Fórum era uma reunião anual de liberais e fazia grande sucesso, sendo o único lugar do país onde realmente havia livre debate — não se pode falar em livre debate em se tratando de ambientes petistas e psolistas. Mas eis que subiu à direção geral do Fórum um “gênio” que disse: “Precisamos de verba da Lei Rouanet”. Ele de fato conseguiu a verba, mas foi obrigado a adicionar muitas coisas ao programa da reunião. Resultado: depois disso, metade do Fórum virou esquerdista e a reunião que se seguiu foi a pior da história do Fórum desde o seu início, há mais de vinte anos. Portanto, não se meta com o governo. Há mil outros canais. Aprenda a pedir dinheiro, não há por que ter vergonha. No Brasil, todos morrem de vergonha de pedir dinheiro. Faça, por exemplo, uma lista com cem empresários. Noventa e nove não vão lhe dar o dinheiro. Alguns vão até humilhá-lo. Isso não tem importância, pois, se você não agüenta sofrer humilhação pelo seu projeto, o seu projeto não vale a pena. Lembrem-se do que disse Lawrence da Arábia: “Nós podemos tudo o que nós queremos, mas nós não conseguimos querer tudo o que nós queremos.” Até que ponto você quer realizar o seu projeto? Você morreria por ele? Passaria vergonha por ele? Se a resposta for negativa, você não quer realizá-lo de fato. Você só quer sonhar, que é um direto que você tem. Você pode até sonhar que vai comer a Catherine Zeta-Jones. Isso não vai acontecer, mas você tem o dinheiro de sonhar. Busque o autofinanciamento em primeiro lugar, por todos os meios possíveis. Faça o seu trabalho render de alguma maneira e aprenda a vendê-lo. Aprenda também a pedir quando você precisar. Não há por que ter vergonha disso. Aluno: Foram-me muito significativos aqueles ensinamentos seus sobre ajudar os pobres da maneira como for possível, seja com dinheiro, amizade etc. Programas assistencialistas como o Bolsa Família, por exemplo, se funcionassem de uma maneira mais organizada, beneficiando realmente apenas pobres, não seria uma boa maneira de ajudar a combater a miséria? Olavo: Um economista, analisando os programas sociais brasileiros, chegou à conclusão de que melhor seria se sobrevoássemos as regiões pobres e jogássemos dinheiro pelas janelas do helicóptero. Jogar dinheiro aos pobres sempre ajuda de alguma maneira. O problema não é a ajuda nem a desorganização, mas a vinculação desses programas ao sistema clientelista. No Brasil, ninguém quer ajudar os pobres, e esses programas existem apenas para conseguir os seus votos e mantê-los sob controle. Não há boa intenção e nunca houve. Se você quer resolver esse problema, existem mil soluções. O economista peruano Hernán de Soto ensinou no seu livro O Segredo do Capital a transformar rapidamente os pobres em investidores e a criar prosperidade geral. Há uns oito anos, os petistas leram o livro e disseram que iriam aplicar o que De Soto ensinara. Mas é claro que não o fizeram. Se o tivessem feito, eu teria votado no PT desde vereador até papa. O método de De Soto não escraviza os pobres, pelo contrário, dá-lhes dinheiro e, portanto, autonomia, o que é indesejável a muitos. O dirigismo estatal é a miséria do Brasil desde o início. O Brasil sempre foi estatista, centralizador; no Brasil, ninguém quer dar às pessoas os meios para se libertarem. As pessoas só podem prosperar um pouquinho atreladas ao carro do estado. Todo mundo no Brasil tem sempre a mesma solução; nunca muda. Transformar o Brasil em uma potência de investidores jamais passou pela cabeça de ninguém, porque então as pessoas terão autonomia e não mais terão de obedecer ao estado. Aluno: Professor, tenho a impressão de que o senhor mudou bastante a sua posição sobre o Islam nos últimos dez anos. O senhor não acha que seria uma boa dar uma aula apenas sobre suas impressões e posições atuais? Olavo: Em primeiro lugar, eu não mudei de posição porque eu nunca tive posição alguma. Será que você ainda não me conhece o suficiente para saber que eu não tenho posição sobre o que quer que seja? Eu tenho interpretações feitas à luz dos dados de que disponho. Posição é ser a favor ou contra, mas é ridículo eu ser a favor ou contra uma religião mundial, que é um fenômeno que está infinitamente fora do meu alcance. Eu ser a favor ou contra significa o quê? Posso tentar explicar e diagnosticar alguns aspectos para quem está interessado e, às vezes, desfazer algumas dúvidas ou liquidar algumas ilusões. Não se esqueça de que o Islam mudou muito ao longo dos últimos trinta anos. Quando comecei a estudar o Islam, as idéias do Sayyid Qutb — a teologia da libertação islâmica — eram minoritárias, alcançando apenas dez ou cinco por cento de todo o Islam. Agora, porém, as suas idéias são tudo. Então, hoje vejo que aquele Islam incrível, aquele Islam espiritual que eu andei estudando não existe mais há muito tempo. Na verdade, ele só existia no Ocidente, na Suíça, com o Frithjof Schuon. Esse Islam é muito bonito, mas nem na minha época na tariqa ele existia, e muito menos hoje. A pergunta de se o Islam é uma religião de paz ou uma religião terrorista não faz o menor sentido, porque é evidente que o Islam é as duas coisas ao mesmo tempo. Qualquer fenômeno de alcance civilizacional é impossível de ser reduzido a uma fórmula única. O problema não é saber se o Islam é uma religião terrorista ou pacífica, mas é saber se o Islam tem alguma maneira de controlar os seus terroristas: a resposta é “não”. O Islam não precisa ser em si mesmo uma religião terrorista para que os terroristas tenham o controle quase total da situação. Isso ocorre porque os outros muçulmanos não têm meios de reagir, já que não há como provar, por meio do Corão, que os terroristas estejam errados. Há muitas coisas no cristianismo e em outras religiões em relação às quais não há como se ter dúvida. Por exemplo, no cristianismo, é impossível fazer a teoria de que se deve comer a mulher do próximo, porque ela seria indefensável. Mas, se houvesse alguma ambigüidade na questão do adultério, não poderíamos impugnar essa teoria. Mas o Islam, desde que existe, é especialista em aceitar várias correntes. No dia seguinte à morte do profeta, surge a divisão entre sunitas e xiitas. Estes consideravam o genro do profeta o sucessor legítimo e aqueles consideravam o sogro do profeta o sucessor legítimo. O sogro dizia que a fase profética tinha acabado e que só existia a partir de então o governo civil: Maomé teria sido o último profeta. O outro lado dizia que a fase profética não havia terminado e que o novo chefe do Islam era um profeta também [1:30]. Os dois lados discutiram o assunto sem chegar a nenhuma conclusão. Os dois lados poderiam estar com a razão. Isso quer dizer que o sunita reconhece o xiita como um muçulmano, e vice-versa. Ambos são igualmente muçulmanos. Tanto a teoria de paz que considera os cristãos e judeus como povos do livro, e que portanto também serão salvos, quanto a teoria que quer matar os cristãos e os judeus existem no Corão, e não é possível chegar a nenhuma conclusão definitiva: ambas as teorias existem dentro do Islam. Aluna: Mas essa ambigüidade sempre beneficia o grupo mais violento. Olavo: Toda ambigüidade sempre favorece o grupo mais violento, cínico e descarado, porque a ambigüidade é a ausência de ordem. Onde predomina a desordem, quem pode mais chora menos. Logo, quem for mais descarado vai ganhar sempre. Os que não são violentos têm culpa de não deter os violentos, ou melhor, nem isso tem, porque o Corão abre margem para as duas correntes. A interpretação corânica é de um trabalho enormemente confuso. No Islam, os textos canônicos são o Corão e o Hadith [pl. Ahadith]. Esse último são os ditos e feitos do profeta. Mas há uma corrente que considera falso os Ahadith, e acreditam apenas no Corão. Isso é como um cristão que só acreditasse naquilo que saiu da boca de Jesus e desconsiderasse o restante dos evangelhos: imagine a confusão que daí resultaria. Há certos autores que consideram o sufismo a quintessência do Islam: o sufismo seria o núcleo, o resto, a casca; o sufismo seria puro, o resto, enfeite. Uma vez recebi na minha casa, quando ainda morava no Brasil, um alto funcionário do governo da Arábia Saudita. Ele me disse que o sufismo era a praga do Islam e deveria ser extinto. Não era apenas uma opinião pessoal. Ele era das altas esferas do governo saudita. Mas eu não tenho autoridade sobre esse assunto. Na verdade, ninguém tem. Discutir se o Islam é uma religião pacífica ou terrorista é discutir o sexo dos anjos. O Islam é as duas coisas. Tem algum jeito de unificar o Islam? Acho que não, porque se em mil e quatrocentos anos ele não foi unificado, por que seria agora? Há quem diga existir um núcleo no Islam aceito por todos, porém, se esse núcleo fosse suficiente para resolver a questão, ela já teria sido resolvida. Portanto, essa discussão pode prosseguir indefinidamente. Outro dia vi um vídeo em que numa mesquita do Rio de Janeiro um imã “descia o cacete” nos terroristas. Em seguida, um muçulmano se levanta para contestar o que o imã estava dizendo. Os dois são muçulmanos e são reconhecidos como tais, e não há como um expulsar o outro, pois não existe excomunhão no Islam; ao contrário, do Islam é proibido sair. Não mudei de posição quanto ao Islam porque nunca tive nenhuma. Tenho posição em casos que estão ao meu alcance e em casos em que vou fazer alguma coisa, porém, não as tenho sobre coisas fora do meu alcance. Nesse último caso, tenho no máximo diagnósticos, perspectivas, interrogações e sugestões, que às vezes não serão ouvidos por ninguém. A mania de “tomar posição” e de ser contra ou a favor são frescuras. Podem, por exemplo, me perguntar se sou a favor ou contra as viagens espaciais ou o homossexualismo. E por acaso é o homossexualismo uma doutrina para que eu me posicione contrária ou favoravelmente? O homossexualismo é uma conduta pessoal sobre a qual não tenho o menor poder, e, se me posicionasse contra ele, ninguém deixaria de ser homossexual por isso. A minha opinião, nesse caso, seria irrelevante e eu estaria apenas gastando palavras, sendo que não estou aqui para perder tempo. Tenho posição sobre a educação de vocês, sobre as questões filosóficas que estou abordando etc. Quanto ao resto, não tente me interpretar nessa clave, que você vai errar. No Brasil, o único filósofo sou eu. O resto é porta-vozes de correntes de pensamentos que expressam pensamentos coletivos. Para eles, existem os “amigos” e os “inimigos, e, portanto, vão me interpretar segundo essa clave. É o máximo que conseguem fazer. É impossível enquadrar um filósofo de verdade em uma corrente ideológica. Várias correntes ideológicas podem sair dos trabalhos dos filósofos — em geral, por má interpretação. Não sei se Kant ou Leibniz eram de esquerda ou de direita. Há, por exemplo, hegelianismo de direita e de esquerda, mas a filosofia não se coloca na clave do contra ou a favor, até porque ser a favor ou contra não são mais que símbolos puramente imaginários nos quais não se pode “tocar” nem “mexer”. Ser contra ou a favor alguma coisa é apenas uma forma que um sujeito encontra de criar uma auto-imagem que sustentará a sua personalidade cambaleante; então, para ele sentir que tem uma personalidade, ele precisa tomar posições em relação a tudo e se manter firme nessas posições, sem nunca abrir mão delas. É evidente que isso é uma palhaçada. Opiniões foram feitas para ajudar as pessoas a se orientar no mundo, e não para sustentar personalidades. Descobri muitas coisas sobre Islam e lhe acrescentei outras, mas, ao mesmo tempo em que as ia descobrindo, o Islam ia mudando. O próprio fenômeno das tariqas mudou muito ao longo do tempo. Entrei na tariqa do Frithjof Schuon porque ela era multiconfessional e isso não me comprometeria com outra religião. O próprio sheik da tariqa, Schuon, dizia que mudar de religião é como mudar de planeta: algo letal. Então eu pensava poder participar da tariqa sem que com isso eu estivesse me comprometendo com a religião muçulmana. Passado um tempo, as outras tariqas começam a fazer pressão, e o Schuon, no fim da vida, decreta que só muçulmanos seriam aceitos na tariqa. Além disso, essa mesma tariqa terminou com um escândalo e se desmembrou em muitas outras. Isso tudo me colocou em um estado de confusão em que eu não sabia mais o que estava acontecendo. Em momento algum vocês me verão tomar posição no sentido de dizer que o Islam é uma religião de terroristas ou uma religião do Anticristo, embora esses aspectos existam dentro do Islam. Também não direi que o Islam é uma religião de paz e sem culpa. Eu estou vendo que o fenômeno tem esses dois lados e não consigo decidir qual lado pesa mais, até porque não cabe a mim decidir isso. Um fenômeno como o Islam tem de ser, de certo modo, autoexplicativo. Não tenho de complementar a doutrina islâmica para explicar aos muçulmanos o que eles estão fazendo, assim como não tenho de complementar a doutrina católica para explicar ao papa o que ele está fazendo. O que algumas sociedades mal trabalhadas como a brasileira não sabem é que só é possível obter uma visão correta da realidade quando sabemos exatamente qual é o nosso lugar na realidade. Se você não sabe nem qual é a amplitude real e os limites do seu círculo de ação, tudo o que você disser sobre o que quer que seja vai estar errado. Nós temos de opinar desde uma situação real e tendo em vista ações reais. Para além disso, só existe especulação sobre o que outras pessoas deveriam fazer, pessoas que não estão nem ligando para a sua opinião e que jamais farão o que você quer que elas façam. Se me perguntarem se mudei de posição, direi que nunca tive posição e continuarei sem tê-la [1:40]. O meu trabalho foi explicar o que fui descobrindo sobre o Islam e não o de tomar posição, pois não cabe a mim fazê-lo. Quando digo assim que o Islam é um saco de gatos, dou uma conclusão definitiva. Não falo isso para criticá-lo, só estou descrevendo um estado de coisas. Se vocês quiserem, trago aqui cinco muçulmanos para discutir e vocês verão o que é um saco de gatos. Aluna: O que você responderia se um aluno dissesse que ia sair da Igreja Católica para entrar no Islamismo? Olavo: Isso é veadagem. Para quê? Para que você vai fazer isso? Dê-me um único motivo razoável para fazer isso? “Ah, eu não me sinto bem aqui...”. Quem foi que lhe falou que religião foi feita para você se sentir bem? Você pensa que religião é sapato para você ficar experimentando até achar a que serve? Realmente não é assim. Religião é algo que estruturou a sua consciência. Você não vai mudar. Se você entrar para o Islam, você vai, sem saber, interpretá-lo em termos cristãos até o fim da sua vida, a não ser que você estude muito e seja capaz de distinguir na sua própria atitude quais são os elementos cristãos antigos e quais os elementos muçulmanos absorvidos recentemente, mas tudo isso é uma trabalheira que simplesmente não vale a pena. A única maneira que existiu para se conhecer bem outra religião foi a perspectiva aberta pelo Schuon. Essa perspectiva veio depois a ser chamada de perenialismo. Este permitia que você circulasse por entre várias religiões sob o guiamento de um indivíduo que as compreendia em profundidade. Schuon escreveu páginas sobre a Santíssima Virgem Maria que são dignas de qualquer místico católico, fez exegeses corânicas capazes de fazer um muçulmano babar e escreveu páginas sobre o budismo que deixam extasiado qualquer budista. Então ele sabia tudo a respeito das religiões. Mas, ainda que tivesse toda essa compreensão e seja o maior gênio da religião comparada que eu já vi, o Schuon fazia uma burrada atrás da outra. Ele achava que era um mestre espiritual, quando não o era; não tinha ele acuidade psicológica para lidar com pessoas. Chegava um sujeito à tariqa vendendo óleo de cobra e o Schuon comprava. Chegava um outro dizendo a maior das verdades e o Schuon o mandava embora; ou seja, ele não tinha discernimento nas situações práticas da vida. Mas, essa possibilidade que o Schuon abriu foi boa para mim. Cheguei à sua tariqa primeiro por intermédio do budista Marco Pallis. Depois, o teólogo católico tradicionalista Rama Coomaraswany, que era o segundo colaborador mais próximo do Schuon, pôs-me em contato com a tariqa. No livro A Treasury of Traditional Wisdom, Whitall Perry, sob o guiamento do Schuon, exibe uma antologia comparativa dos textos fundamentais das várias tradições religiosas, mostrando, ou melhor, provando os pontos de convergência entre elas. É um trabalho monumental. Mas isso não quer dizer que você possa praticar todas as religiões ao mesmo tempo ou que possa mudar de religião quantas vezes quiser. Isso só mostra que, em certas circunstâncias e sob o guiamento devido, você pode aproveitar as oportunidades espirituais das religiões vizinhas, como o fez, por exemplo, Thomas Merton com as práticas budistas, e que nunca deixou de ser cristão por isso. Mas essa possibilidade fechou-se. O próprio Schuon fechou-se. Ele mesmo disse que essas práticas estavam virando uma bagunça e decidiu parar com tudo, e hoje, se você quiser conhecer o Islam a fundo, você vai ter de conhecê-lo por teoria, entrevistas, conversando com pessoas, mas não vai poder praticá-lo, não vai poder praticar nenhuma prática islâmica, nem esotérica. Isso quer dizer que o abismo entre as religiões está hoje mais profundo do que nunca. Aluno: Gostaria de saber se posso iniciar um centro cultural com obras de humanidades e filosofia baseado no que tenho aprendido com o senhor. Olavo: Pode e deve. Há duas páginas no Facebook sobre empreendimentos culturais dos alunos do Olavo de Carvalho. Aquilo é uma coisa que não acaba mais. Agora vamos organizar tudo isso num website — que está sendo preparado pelo Alessandro — e vocês vão ver a imensidão dos frutos que este curso tem dado. Eu pretendo que dê outros frutos. É claro que nem todos têm o mesmo valor, a mesma qualidade, mas isso não tem importância: a gente vai melhorando com o tempo. Então, toda idéia que você seja capaz de realizar, realize-a. Não precisa nem pedir a minha autorização. Ninguém precisa pedir autorização para dizer aquilo que eu ensinei. Se você disser tudo errado, o máximo que posso dizer é que quem está dizendo isso é você e não eu. Notas 1. “Uma diferença fundamental entre o Brasil e TODOS os países civilizados: nestes, uma facção política expelida do poder, mesmo por meios revolucionários ou bélicos, desempenha ainda um papel cultural aceito como legítimo por todos, acima das divergências políticas. Nenhum homem de letras, na França esquerdista, negaria reconhecimento literário a escritores direitistas célebres — nem aos gaullistas Mauriac e Bernanos, nem aos ultranacionalistas Charles Maurras e Leon Daudet, precursores do Front Nacional, nem mesmo aos pró-nazistas Lucien Rebatet e Robert Brasillach. Nem muito menos pensaria em bloquear o acesso dos seus livros ao mercado. Na Rússia, nem Stálin ou seu menino-de-recados Ilya Ehrenburg pensaram jamais em sepultar no esquecimento o reacionário Dostoiévski. Nenhuma universidade alemã baniu os textos de Carl Schmitt ou Othmar Spann. No Brasil, em contraste, a condenação ideológica vem junto com o total ostracismo literário e acadêmico, com a proibição radical de mencionar até mesmo os nomes dos acusados, exceto se acompanhados de ostensivas afetações de desprezo, quando não de nojo, mesmo da parte de nulidades que não seriam dignas de lhes engraxar os sapatos. Isso significa que neste país a cultura perdeu todo estatuto de atividade autônoma, foi INTEIRAMENTE subjugada aos fins da propaganda política mais grosseira e imediatista. Jamais um país perpetrou crime tão vasto e abjeto contra a sua própria cultura. TODOS OS NOSSOS INTELECTUAIS ESQUERDISTAS, SEM EXCEÇÃO CONHECIDA, SÃO CULPADOS DESSA INIQÜIDADE, CUJOS RESULTADOS — SE É PRECISO UMA AMOSTRA CONCRETA — SÃO VISÍVEIS NO ENEM.” Transcrição: Robson Fernandes, Luís Fernando Pessoa Alexandre e Bernardo Jordão Revisão: Caio Linhares Martins