Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 272 29 de novembro de 2014 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos. Sejam bem-vindos. Esta aula está sendo realizada ao mesmo tempo que a transmissão da aula normal do “Curso Online de Filosofia”, portanto tem todo um público que não nos acompanhou durante a semana e merece um resumo. Roger Scruton examina essa questão da crise da inteligência e da alta cultura em vários escritos, mas escolhemos um que pareceu especialmente propício que é “Confissões de um cético francófilo”, no qual ele acompanha as transformações da classe intelectual na França e no mundo anglo-saxônico ao longo do último meio século, notando que todas as tendências mais destrutivas e até caricaturais que apareceram na cultura francesa do pós-guerra acabaram sendo rapidamente superadas na França, substituídas por coisa melhor, ao passo que, no mundo anglo-saxônico, elas se arraigaram e continuam firmes e dominantes até hoje. E ele diagnostica muito corretamente isso, dizendo que a superação relativamente fácil disso na Franca ocorreu porque a vida intelectual lá não é dependente da instituição universitária, ela é travada no livre mercado de idéias através de livros, revistas, entrevistas, conferências etc., de modo que cada escritor ou cada formador de opinião tem de criar o seu próprio público. E se o público o abandona, ele está lascado, não tem a garantia de uma instituição pelas costas; ao passo que, nos EUA e na Inglaterra, praticamente toda a vida intelectual foi absorvida pela universidade, de modo que ali o pessoal está mais ou menos defendido da reação popular e pode continuar repassando as suas idéias em circuito fechado para alunos absolutamente indefesos, que não são o público normal, porque dependem do professor para poder completar as suas carreiras. Então é, por assim dizer, um público não só cativo, mas também escravo: a possibilidade de surgir um confronto crítico é mínima. E, por isso mesmo, aquelas correntes estruturalistas, desconstrucionistas, que na França já foram abandonadas há muito tempo, aqui ainda são amplamente dominantes, e não vejo muita perspectiva de eles caírem pela próxima década. Este diagnóstico está muito certo, porém Scruton diz que foi capaz de perceber facilmente o elemento de charlatanismo que havia em toda essa produção francesa do pós-guerra graças a sua formação em filosofia analítica. E, curiosamente, o ambiente anglo-saxônico no qual toda aquela bullshit prosperou e se consolidou é também formada por filosofia analítica, de modo que, se o estudo da filosofia analítica teve esse efeito na cabeça do Roger Scruton, parece não ter tido na dos demais. Ele diz que a grande deficiência do meio anglo-saxônico foi não ter fornecido à juventude um rito de passagem, um senso de agregação numa comunidade, como eles adquiriam na França através da militância política. Este diagnóstico não está totalmente errado, mas temos de pensar o seguinte: (1) a filosofia analítica contém, sim, um rito de passagem, ela toda é um rito de passagem: ela é a aquisição de uma linguagem que integra o indivíduo no grupo universitário. Só que é um grupo universitário que funciona intramuros, não é uma militância externa. É como se fosse um rito de agregação de tipo esotérico: você passa a fazer parte da comunidade dos eleitos. Vocês não têm muita experiência disso, mas não têm idéia do senso de superioridade que um estudante de filosofia analítica tem sobre o restante da humanidade, é uma coisa, assim, quase beatífica. Em parte, Roger Scruton também foi contaminado por isso. Ele acredita que este mundo da filosofia analítica é a busca da verdade nua e crua, ao passo que do outro lado você tem a busca de uma integração comunitária e de uma satisfação emocional, por assim dizer. E nesse ponto é totalmente errado porque a filosofia analítica é uma satisfação emocional também incalculável. Você não imagina o que é o sujeito acreditar que, como ele tem os instrumentos para a análise da linguagem, sabe distinguir entre o que é o discurso que faz sentido e o que não faz sentido, o que tem significado e o que não tem significado. E com isso ele joga fora 95% do discurso humano como carente de significado, sobrando apenas aquele cujas sentenças são proposições isoladas — que Wittgenstein chamava “proposições atomísticas” — que podem ser verificadas mediante um conjunto de correspondências, uma tabela de correspondências, com dados da experiência. Experiência entendida apenas ou na acepção dos cinco sentidos ou na acepção da experiência científica. Só que isso é, em primeiro lugar, uma redução tremenda do campo da experiência humana, porque a experiência humana vai muito além daquilo que se pode averiguar por esses métodos científicos usuais — não por qualquer método científico, mas pelo usual, pelo arroz com feijão das universidades. Em segundo lugar, é certo que a comunidade humana exija uma confirmação científica para dar credibilidade às idéias, mas, do ponto de vista do indivíduo humano, isso é absolutamente desastroso porque a verificação científica de qualquer coisa pode levar muito tempo e, no campo das decisões humanas, você freqüentemente não pode esperar esse tempo. Um outro efeito que teve este império da “razão científica” foi no campo político no qual as decisões políticas passam a depender de uma prova juridicamente válida de alguma coisa. Prova que é tremendamente complicada e, quando chega, o momento das decisões já passou. Tudo isso serve para paralisar a inteligência prática e o raciocínio que os medievais chamavam de raciocínio de conveniência. O que é conveniência? Conveniência é quando você tem um monte de fatores de ordem diferente que convergem em um certo campo e sugerem um rumo a seguir. É o tipo de raciocínio que se faz, por exemplo, em um campo de batalha. Você imagina um general que, para tomar uma decisão, tem de esperar uma prova científica de que o inimigo está vindo por tal lado, evidentemente ele vai morrer. Hoje este superego científico exerce uma função altamente paralisante e, quando o indivíduo é educado nessa base, ele já fica com a inteligência paralisada desde o início. Esta paralisia, de certo modo, lhe dá um senso de superioridade, ele não é capaz de tirar conclusão nenhuma sobre algo, e isto é a prova de que é um sujeito enormemente criterioso e que está acima do resto da humanidade. Todos ficam mais ou menos assim. Também a confiabilidade que esse pessoal atribui à prova científica é também um bocado fetichista, porque na verdade não há nenhum experimento científico que possa ser reproduzido exatamente igual, com uma exatidão inteiramente satisfatória. Isso não existe. Tem um imenso coeficiente de chute, de conjetura, isso existe em qualquer ciência — a mais exata das ciências, que é a física quântica, ainda tem isso de montão. De modo que não faz sentido criar uma escala de racionalidade na qual a racionalidade científica está no topo e as outras são inferiores, isso realmente não faz sentido. Scruton, no entanto, é um crente nessa coisa da filosofia analítica e, ao analisar a vulnerabilidade do meio acadêmico [00:10] anglo-saxônico à onda de estupidez que veio da França, ele diz somente que esse meio não conseguiu dar aos jovens um rito de passagem. E em nenhum momento se lembra de perguntar por quê. Por que este meio que é amplamente dominado pela filosofia analítica, filosofia na qual eu, Roger Scruton, me formei, por que logo este se tornou vulnerável? Será que não há nenhuma relação entre uma coisa e outra? Será que é simplesmente a ausência de um rito de passagem, quando na verdade existe um rito de passagem na escola analítica? Por exemplo, Harry Redner descreve, em seu livro, muito bem como esse pessoal da escola analítica dominou o meio acadêmico americano, através de procedimentos que nos parecem tipo petista: boicote, sacanagem, ocupação de espaço etc. Os recém-chegados, evidentemente, passam por esse rito de passagem e se integram então na comunidade dos eleitos. A única diferença é que a escola analítica não promete nenhum futuro melhor para as pessoas e não tem uma proposta de mundo melhor, mas não deixa, até certo ponto, de participar da utopia científica, quer dizer, da sociedade inteiramente administrada. Essa é uma idéia que vem do pessoal da filosofia analítica, e evidentemente é uma idéia revolucionária tanto quanto qualquer outra. A idéia de que todas as questões públicas devem ir passando gradativamente da esfera da livre circulação de opiniões para a esfera científica é, sem dúvida, uma idéia revolucionária que transforma a classe científica em classe dominante. O que cria um problema terrível porque a ciência, por um lado, se apresenta como uma atividade permanentemente autocrítica que está em constante revisão e que, portanto, pode desmentir amanhã o que disse hoje; mas, ao mesmo tempo, tem se arrogado o papel de última instância, decisivo, de modo que só existe uma autoridade no mundo, a autoridade da ciência. Como é que se pode tomar como autoridade última uma comunidade que pode mudar de idéia amanhã e que não tem satisfações a prestar a ninguém? A mim me parece que a condição para o exercício da ciência como atividade permanentemente crítica é ausência de autoridade. A ciência, para ser honesta, não pode ter uma autoridade sobre a sociedade, não pode mandar, só tem de investigar e contar o que descobriu. Tem até a frase de Ernest Renan, que não é um modelo de cientista, mas é um modelo de mentalidade científica. Ele estudava história das religiões, essa coisa toda, escreveu uma série de livros furadíssimos sobre a origem do Cristianismo, mas ele dizia: “Eu só consigo escrever se estiver perfeitamente convicto de que as minhas idéias não terão a menor conseqüência”. Um cientista deve pensar assim porque, se aquilo que ele diz adquire autoridade e se impõe à sociedade, o que fazer caso a pesquisa prossiga e amanhã disser que o cientista está errado? Isso nós vemos na medicina acontecer o tempo todo. Tal coisa faz mal, o negócio é retirado da dieta imediatamente, no dia seguinte, a falta disso é que faz mal e assim por diante. Se você está empenhado na permanente revisão das suas conclusões à luz das novas experiências, então não tem como ter autoridade. Ausência de autoridade, a total humildade perante a sociedade humana, é a única atitude possível com o exercício da profissão científica e, no entanto, o que vemos é o contrário: quanto mais se insiste no caráter crítico e permanentemente auto-revisionista da ciência, mais se transforma a ciência em autoridade decisória última. Aluno: Isso é mais ou menos o que Popper fala sobre a questão da ciência? Olavo: Não lembro de ele ter dito exatamente isto. Aluno: Ele fala que a ciência é mais verossímil toda vez que é comprovado que a teoria que era dominante é (...) Olavo: O que Popper disse é que não existe verdade na ciência, existem somente conclusões que são adequadas ao estado atual dos conhecimentos. Quer dizer, é uma proposta de modéstia científica. Mas eu nunca vi Popper analisar a questão da autoridade científica sob esse aspecto: a autoridade que a ciência exerce sobre a sociedade. E aí que justamente você tem o paradoxo: se não temos sequer uma verdade, só temos uma conclusão provisória, em que medida essa conclusão provisória pode se consolidar numa lei e se tornar obrigatória para todo mundo? Pior, o que se transforma em autoridade não são somente os conhecimentos científicos, mas a falta de conhecimentos também. Ou seja, aquilo que a ciência, no seu estado atual, não conseguiu descobrir ou confirmar é tido como inexistente: nada sabemos sobre isto, conclusão, isto não existe. O caso do movimento gay é característico: como o homossexualismo foi retirado da lista de doenças mentais? Não encontramos uma prova de que seja doença mental — pessoalmente acho que não é doença mental —, mas foi retirado não por uma conclusão científica e sim pela falta de uma conclusão. Então, quer dizer, a ausência de conhecimento se transforma não só num conhecimento positivo, mas se transforma numa fonte de autoridade. Isso está acontecendo o tempo todo, e evidentemente a atividade científica está integrada nas estruturas de governo, nas estruturas de organismos internacionais, então constitui-se hoje em um poder absolutamente avassalador com o qual não se pode discutir, exceto nos termos da própria ciência. Mas a própria ciência também não pode discutir além de um certo ponto. O que acaba vigorando? O consenso da classe. Você veja toda a discussão sobre aquecimento global, ela está como aquele samba do Moreira da Silva: “Até hoje ninguém sabe quem morreu; eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu”. Ninguém sabe se isso existe ou se não existe. A coisa é transferida para esfera puramente política: vamos somar os votos. Toda hora você vê: não sei quanto por cento dos cientistas acha tal coisa, não sei quanto por cento acha tal outra, virou uma assembléia de estudante. A coisa se transformou numa atividade política no sentido do Carl Schmitt, um campo onde não há a possibilidade da arbitragem racional. Ou seja, a ciência é um campo de atividade onde não há arbitragem racional, onde há apenas a soma dos votos. E praticamente todas as discussões científicas das últimas décadas têm sido assim. Essa questão de evolucionismo e design inteligente, o que eles acabam fazendo? Somando os votos. Ninguém tem uma prova. Se tivesse uma prova convincente, uma prova persuasiva, deveria convencer pelo menos a maior parte da classe, mas não tem. Você veja, a classe está permanentemente dividida. E, na medida que divide, o que acontece? Ela disputa espaços. Tudo isto se transformou numa luta política. E de onde vem isso? Tudo isso começa com a escola analítica, evidentemente. A escola analítica entronizou a autoridade da ciência em todos os domínios. A única maneira válida de raciocínio é a maneira das ciências experimentais ou da lógica matemática. Quando vemos a inspiração originária e o resultado, entendemos que devia haver algo de errado com aquela proposta originária. Aluno: Mas do ponto de vista tático, usando o exemplo do general que está na linha de batalha, também há a necessidade de tomar posição a respeito de determinadas coisas, como no caso da medicina, por exemplo. Olavo: Sim. Só que a classe científica toma posição como qualquer outro grupo político, mas não tem a responsabilidade política. Se um governante decide que as coisas serão de tal ou qual modo e der errado, a culpa é dele, mas e a classe científica? Como é que você vai responsabilizar milhares de pessoas? É uma coletividade anônima que nunca é responsabilizada. Aluno: O senhor vê alguma possibilidade de sair desse paradoxo? Olavo: Não sei. Não me cabe dar solução para os problemas do mundo. Eu estou descrevendo a coisa como ela está e, dentro disso, eu pensei: o que podemos fazer não para resolver o problema, mas para que não nos tornemos cúmplices disso? Que outra coisa podemos fazer? Ainda que isso não modifique nada no panorama social, mas modifica nas nossas vidas e nos priva de participar de uma palhaçada trágica. Eu acho possível pautar a vida intelectual por critério muito mais exigente e muito mais sério do que esse. [00:20] E acho que tenho exemplificado isso nos meus cursos, nos meus livros, mais ou menos como acho que se deve fazer isso aí. Acho que o mandamento número um é o da fenomenologia de Husserl: são as coisas e os fatos que têm de falar, e não nós. E as coisas e os fatos vistos da maneira que eles se apresentam e não de uma maneira previamente recortada para se enquadrar nas categorias desta ou daquela ciência — este é o problema. Aquela afirmação de Baudrillard de que o conhecimento científico recorta uma série de fenômenos já para levar a determinadas conclusões, essa crítica é inteiramente verdadeira: não é possível fazer uma pesquisa científica, a não ser desta maneira, com um forte elemento tautológico na coisa. Felizmente esse elemento tautológico não impede que a ciência funcione. Por quê? Porque quando se recorta um campo de fenômenos baseado na hipótese de um princípio comum ou de uma causa comum, em geral, os caras têm razão, e depois as pesquisas mostram que funciona exatamente assim. Mas achar que todo o conhecimento humano deva se submeter a esse tipo de critério, aí é o fim da picada. Por exemplo, se uma ciência tem um campo delimitado e um método específico, então aquilo que está fora deste campo e deste método não pode opinar. A ausência de meios de investigação se torna então um princípio positivo para a negação desses fatos: a nossa ciência não tem meios de averiguar isso, então isso não existe. Ou seja, a noção de fato passa a ser substituída pela noção de fato científico. Se você quer saber, fato científico não existe, não pode existir. Nenhuma ciência estuda fatos. Basta você ter a divisão entre a ciência, quer dizer, você ter a delimitação dos vários campos, e isso já significa que uma ciência só estuda aspectos de fatos, jamais os fatos. Essa é a minha teoria do fato concreto. Exemplifico: um sujeito matou o outro na esquina; quantos aspectos tem esse acontecimento? Sabemos que existe o aspecto balístico: o sujeito disparou, a bala percorreu o ar com certa velocidade, atingiu o alvo com certo impacto. O que aconteceu daí para adiante? A balística já não sabe mais, daí você tem de entrar na anatomo-fisiologia para saber como é que aquilo acertou algum órgão letal. Mas o crime também teve algum motivo. Como é que a balística e anatomo-fisiologia vão investigar o motivo? Não pode. Então você chama um psicólogo. Também acontece que os indivíduos estavam em algum lugar e não em outro, o que eles estavam fazendo ali? Você pode juntar a psicologia, a anatomo-fisiologia e a balística, e você não saberá o que eles estavam fazendo ali. Então você já entra num campo que não corresponde ao recorte de nenhuma ciência. Vamos supor que estou a fim de matar um sujeito e procuro o cara em um lugar onde ele não está. Mas por que ele não estava lá? Note bem que um fato concreto não pode ser resumido a sua definição geral e muito menos a divisão científica de cada um dos seus aspectos. Para que um único fato aconteça, você precisa de uma infinidade de acidentes — que é o que chamo acidente metafisicamente necessário — que são elementos que não estão ligados à essência ou à definição daquele fato, mas sem os quais o fato não aconteceria. Por exemplo, o indivíduo, para chegar lá, teve de chegar por algum meio de locomoção: ou ele tomou um taxi, ou dirigiu um carro, ou tomou um bonde, foi andando. Isto não tem nada a ver com a natureza do crime, mas se ele não chegasse lá, não haveria crime. Também o sujeito pode ter dado o tiro, e o tiro foi acidentalmente desviado porque vinha passando outra pessoa com um carrinho de sorvete, o tiro acertou no carrinho de sorvete. Por que o homem do carrinho de sorvete estava lá? Você vai dizer que é um aspecto acidental. Sim, mas se não houvesse esses acidentes, o crime não aconteceria ou pelo menos não seria do jeito do que foi. O fato concreto é o fato com a sua essência e todos os acidentes que o tornam possível. Isso não pode ser estudado por nenhuma ciência. Quando a pessoa fala fato científico, eu digo, a expressão já é charlatanesca na base: não há fato científico, só há aspectos científicos. Nenhuma ciência tem acesso ao fato concreto jamais, não pode ter. Nós entendemos os resultados das ciências por quê? Nós, como seres humanos, temos o senso do fato concreto e, quando vemos a conclusão científica, nós a integramos quase que instintivamente dentro da visão que temos do fato concreto. A fenomenologia surge com a idéia de ser uma técnica para o estudo do fato concreto. Quer dizer, a técnica de descrever o fato tal e como ele se apresenta, não a tal e como ele corresponde às categorias de tal ou qual ciência já pré-estabelecida. E daí, da descrição do fato tal como ele se apresenta, você pode encaixá-lo dentro de uma ontologia geral. Na verdade, todo ser humano tem na cabeça alguma ontologia geral, só que é improvisada, não é uma ontologia crítica, não é uma ontologia filosófica. Precisamos, em primeiro lugar, para ter uma idéia de onde estão as ciências e o quanto vale o que cada uma está dizendo, de encaixá-las dentro de uma ontologia geral com as respectivas ontologias regionais, como chamava Husserl, quer dizer, várias modalidades de presença que as coisas têm e assim por diante. Vamos pegar, por exemplo, o fenômeno de que fala Louis Lavelle. Qual é a experiência mais primordial que todo ser humano tem? É a experiência que ele chama a presença dele no mundo e a presença do mundo diante dele. Existe alguma ciência que estuda isso? Se tudo o que acontece, tudo o que você percebe se recorta dentro essa presença, então é evidente que só tem sentido dentro do quadro geral da presença. Agora, não existe nenhuma ciência que estuda isso e também não existe a ciência da articulação das ontologias regionais dentro do quadro geral, então você não tem critério para decidir nada, o mundo da discussão científica é um mundo irracional. Vejamos, como exemplo, o livro do Wolfgang Smith, O Enigma Quântico. Ele parte do princípio de que não existe experimento científico mais exato e mais bem-sucedido do que os da física quântica. Fazemos o experimento milhares de vezes e dá sempre a mesma coisa, só que ninguém entende o que está acontecendo, ninguém sabe o que é isto. Vemos apenas certas aparências que se comportam de certa maneira. Em que medida isso é conhecimento? No meu entender, isso não é conhecimento, isso é exatamente um enigma; isso não é uma resposta, é uma pergunta; isso não é o fim de uma investigação, é o começo. Se eu não tenho uma fenomenologia da matéria, eu não sei as várias modalidades pelas quais a matéria se apresenta a mim, eu não sei que tipo de matéria a física quântica está estudando. Eles não sabem nem se isto é matéria. Uma partícula subatômica é matéria ou é outra coisa? Ninguém sabe. Então não sabemos nada, só sabemos a equação matemática que nos descreve um fenômeno do qual não entendemos absolutamente nada. Acontece que quatro séculos atrás, os gênios do início da Modernidade já diziam que era para fazer exatamente isto: não interessa mais saber o que as coisas são, interessa apenas descrever os fenômenos. Mas, se você vai por esse caminho, você fica louco porque você fica com informações às quais você não tem como encaixar numa visão geral do que quer que seja. O que os caras fazem? Eles pegam esses fenômenos que não entendem e começam a criar novas visões gerais inspiradas naquilo. Quando se fala, por exemplo, a expressão “concepção científica dos cosmos”, está aí uma coisa que não existe e não pode existir. Nenhuma ciência pode chegar a uma concepção científica do cosmos e todas elas juntas também não podem. Por quê? Elas só estudam um aspecto e, somando esses vários aspectos, você não compõe uma tartaruga inteira, quanto mais um cosmos inteiro. Edmund Husserl, no começo do século XX, percebeu tudo isso [00:30] e disse: precisamos de uma outra ciência que é a dos fenômenos tal como se apresentam. Só que, em primeiro lugar, não temos linguagem para descrever os fenômenos tal como eles se apresentam. Só temos dois tipos de linguagem: uma linguagem analógica das artes que não descrevem, mas simbolizam de algum modo e simbolizam de uma maneira que as pessoas acham que entendem, ou temos a linguagem das ciências que também não descrevem os fatos, mas só aqueles aspectos que coincidem com as suas disposições metodológicas. Então temos, por um lado, símbolos e, por outro lado, temos fantasmas. Cabe então criarmos uma outra linguagem. E ele viu que não tínhamos linguagem para descrever o mais simples dos fenômenos. Por exemplo, quando você tem uma percepção, o que acontece ali? O que é ter uma percepção? Eu digo, já tem milhares de psicólogos estudando isso, mas só que é o seguinte: eles não estudam o que acontece na percepção, eles reduzem a percepção a um dos seus aspectos que é acessível aos seus métodos, e passam a falar disso. Por exemplo, tem o famoso experimento do Gustav Fechner, filósofo e psicólogo alemão: ele estourava um flash no seu próprio olho e via quanto tempo levava para sumir aquele halo que forma. Então ele disse: se o estímulo é constante e o olho é sempre o mesmo, se há uma variação no tempo, deve ser por um outro fator. E esse outro fator misterioso ele chamava de psicológico. Ele disse: temos aqui um elemento, por assim dizer, anatomo-fisiológico... temos um elemento físico, que é a luz, temos um elemento anatomo-fisiológico, que é o olho, mas esses dois elementos não bastam para definir o tempo de reação. Então deve ter um terceiro elemento. Esse elemento ele chamava de psicológico. Eu digo: mas isso é uma descrição do que é o fato psicológico? Não, isso é um critério negativo de localização. Quer dizer, eu não sei o que é psicológico, eu só sei que ele é um treco que não é isso nem aquilo, e deve estar num terceiro lugar. Praticamente toda a psicologia experimental só faz isto. Isto é conhecer o fato? Não. Por que tem sido possível toda essa epidemia de fraudes científicas no mundo? Por causa disso, é porque a coisa é fraudulenta na base. Aparecer uma onda de fraudes para tudo quanto é lado era apenas uma questão de tempo. Não apareceu durante muito tempo por quê? Porque, ainda que a atividade tivesse as suas limitações intrínsecas, as pessoas que praticavam eram honestas. Bastou haver um pouquinho de charlatanismo, pronto: a coisa explode e se torna absolutamente incontrolável. Isto quer dizer que as exigências básicas da racionalidade humana não podem ser substituídas por nenhum critério científico porque o critério científico se baseia nelas. A primeira exigência da racionalidade humana é não se confundir as coisas com as palavras. Quando se observa toda uma escola, como a escola analítica, que acha que podemos resolver tudo mediante a análise da linguagem, eu digo: mediante a análise da linguagem não podemos nem saber o que é linguagem! Veja a que ponto isso pode fomentar loucura, erro, charlatanismo, etc. Isso não pára mais. Essa famosa observação que eu faço de que o mundo, que você não sabe o que é mas sabe que está nele, é o mediador de toda a linguagem. Linguagem é algo que acontece no mundo, não acima dele, não fora dele. Você pode ter a impressão de estar fora dele por causa da capacidade de abstração: aquela famosa capacidade que mencionava Hegel de que a mente humana tem de se isolar de tudo e proceder como se só ela existisse. É o famoso cogito ergo sum de Descartes, é o máximo da abstração: tudo é incerto, menos o meu pensamento. Mas isto é uma abstração. Você está se separando de fatores que, no entanto, você sabe que estão presentes. Por exemplo, você está raciocinando em alguma língua: ou está raciocinado em francês ou está raciocinando em latim. Você não nasceu sabendo nenhuma das duas, foi toda uma sociedade que passou isso para você, então como é que a única coisa certa é você? Essa certeza do eu pensante tal como Descartes a descreve é furada. E, no entanto, essa capacidade, para muitos filósofos, é um grande orgulho porque é o máximo da abstração. O próprio Hegel se orgulha muito disso. Isso é uma grande capacidade, só que é uma capacidade também muito perigosa. Você pode descobrir muita coisa por aí, mas isso é a fonte de todos os enganos. Começa por negar o fenômeno da presença. Quando você esteve ausente do universo? Você pode decidir não pensar no universo e se isolar dele mentalmente, mas para isso você precisa estar nele não só antes e depois, mas durante a sua própria operação você continua sabendo que está nele. Mostre-me um instante em que você saiu do mundo. Você nunca sai. “Eu tive uma experiência de quase morte, fui parar no paraíso”, eu falo: E o paraíso não existia? Ele não é parte do mundo? Até lá onde você está conversando com os anjinhos existe também um universo. Ou seja, a sua mente nunca esteve isolada da presença. Este é um fato básico, e este fato é constantemente negado por milhares de teorias que nem percebem que o estão negando. Por exemplo, quando surge toda a semiologia, os caras acham que estudando o fenômeno do signo você vai descobrir tudo o que acontece. Mas para existir signo, precisa da presença. Inclusive porque o primeiro e mais elementar tipo de signo, que é o que se chama signo formal, não passa de uma coisa da coisa: você vê um gato, você conserva a imagem de gato. Toda investigação semiológica parte daí. Eu digo: então suprime o signo formal e vê o que acontece. Acabou o pensamento. De onde você tirou o signo formal? Da presença do gato. Quer dizer que uma reforma da vida intelectual, em nível mundial, não está na minha capacidade, mas eu posso reformar a minha vida intelectual e a dos meus alunos. Isso eu posso e estou fazendo, ou seja, não vamos entrar nesse diálogo de malucos. Para isto, o que é necessário? Em primeiro lugar, isso não pode ser feito dentro da instituição universitária. Por quê? Porque ela já foi toda montada em função de uma divisão do sistema das ciências ao qual corresponde divisões administrativas e planos de carreira etc. Como você faz, por exemplo, se você, sendo um professor de uma determinada disciplina, chega à conclusão de que essa disciplina não existe? Você vai ter de desmantelar o seu próprio plano de carreira: tem de fechar esse departamento e se demitir. Então isso só pode ser feito fora da universidade. Acontece que isso limita a esfera das nossas investigações ao campo daquilo que possa ser estudado sem equipamentos caros. Então é claro que é mais fácil fazermos isso no campo das ciências humanas onde o material é quase tudo de papel ou programa de computador. Mas não podemos entrar na física quântica, não podemos entrar na anatomo-fisiologia [00:40] porque tudo isso requer equipamentos. Equipamento custa dinheiro, só o governo tem ou grandes fundações. Esta parte do estudo está vinculada ao sistema universitário por uma necessidade econômica, não tem como sair de dentro. Isto quer dizer que para sanear esta parte vai levar muito mais tempo e isso ultrapassa infinitamente as minhas pretensões. Eu só quero fornecer um modelo do que pode ser a vida intelectual praticada com toda a seriedade. E nisso o que me inspirou foi o livro do Padre Sertillanges, A Vida Intelectual — que é o livro que recomendo para todos os meus alunos —, foi o livro que determinou que eu fizesse esse curso, porque ele define a carreira intelectual como uma carreira de consagração, como se você fosse um monge ou coisa parecida. Você está consagrado a um treco que você chama de busca da verdade. Mas você quer a verdade tal como ela se apresenta e não como ela já está pré-recortada nos termos de uma técnica científica qualquer, porque daí já não é a verdade, daí é uma verdade convencional. O que estou fazendo aqui? Estou fazendo o que o Padre Sertillanges mandou fazer. Como faríamos para tornar essa proposta dele operacional, quer dizer, esse ideal de vida intelectual que ele descreve? Como podemos fazer isso na prática? O resultado são esses cursos. Se você está buscando a verdade, você tem alguma antevisão do que entende por verdade. E precisa ver se essa sua definição de verdade também não foi uma imposição arbitrária sua. Em primeiro lugar, você tem de admitir que a verdade existe. Em segundo lugar, você tem de admitir que ela o transcende, ou seja, você não a possui. Em terceiro lugar, você precisa de algum critério de reconhecimento. Naquela minha apostila “O problema da verdade e a verdade do problema”: vocês leiam lá, está explicado mais ou menos o que acho. Eu acho que a verdade é um campo dentro do qual você está existencialmente e no qual você pode estar psicologicamente também se você quiser. Alguns exemplos que dou até em exercícios que suponho: por exemplo, você chega aí no jardim, deita na grama e tenta perceber, tenta sentir a imensidão do espaço que o rodeia e também a profundidade da terra até o outro lado, o peso de tudo isso, porque é nisso que você está. Vamos obter uma visão, uma experiência do universo físico onde estamos. Uma vez que você faz isso, você já percebe que a idéia de buscar o segredo das coisas no seu cérebro, na sua mente ou no seu “eu” é inteiramente absurda. Se você pensar nas categorias da gramática, eu acho que as categorias da gramática são estruturas do universo exterior que de algum modo se imprimem em nós. As categorias da lógica, a mesma coisa. Não são coisas que estão na nossa mente, não são formas a priori do meu conhecimento. A priori para mim, ou seja, é anterior à minha experiência, mas de onde elas vieram para mim? Elas surgiram do nada? Não podem ter surgido comigo. Kant diz que a experiência que temos do cosmos é um monte de elementos caóticos que a nossa mente ordena. Você quer acabar com essa idéia? Veja a experiência de quando você acorda e não sabe onde está. Já aconteceu, todo mundo acorda meio desorientado e não lembra direito onde está. O que você faz? Você olha em torno e reestrutura a sua percepção pelo quadro externo, não é a sua mente que vai enquadrar tudo. Quer dizer, você se utiliza de marcos que estão no mundo externo, e esses marcos o reestruturam. Quando criança, eu ficava doente muito tempo, ficava deitado e depois de seis meses de febre, um dia eu me levantava para sair andando. Eu ficava tonto, evidentemente, eu perdia o senso das direções do espaço. Se elas estivessem em mim, eu não poderia perdê-las. Ou seja, elas são dados do mundo exterior que está presente em mim de modo deficiente e que eu posso recuperar de novo, e inúmeras vezes, através da experiência física. Por exemplo, a diferença entre a dimensão horizontal e a vertical, para a maior parte das pessoas isso não é um problema. Mas se você ficar deitado muito tempo você perde a idéia de que a dimensão vertical tem algo a ver com o peso, você tem de levantar. Eu nunca fiz um trabalho exaustivo de descrição dessas [experiências], se eu pudesse, consagraria um tempo a isso: como as nossas categorias se formam pela nossa convivência com o mundo físico. O mundo físico nos ensina, por assim dizer. Ele tem uma estrutura, ele tem uma ordem, e nós temos um cérebro apropriado a absorver essas estruturas e trabalhá-las de algum modo. É claro que se o nosso cérebro fosse inadequado para isso, nós não perceberíamos essas coisas. Mas não nascemos com a percepção delas, elas não são inatas de maneira alguma. Inata é apenas a capacidade de absorvê-las, a capacidade de ativá-las, por assim dizer. E mesmo essa capacidade varia de pessoa para pessoa. Por exemplo, o fato de que as pessoas percebam gradação de cor diferentemente. Isso prova que cor não existe, que está tudo no nosso cérebro? Se estivesse somente no nosso cérebro, não teria como eu averiguar se a nossa percepção de cor é diferente de indivíduo para indivíduo. Se nós podemos fazer isso é porque entre o meu cérebro e um outro cérebro existe um mediador que é o quê? A cor do objeto. Por exemplo, você dá uma paisagem para vários pintores desenhar, cada um desenha diferente, isso prova que a paisagem não existe, que o cérebro deles que produziu isso? Se fosse assim, então o que aconteceria? Eu pego dez pintores, cada um pintou diferente, e eu sou o décimo observador, eu também vou ver diferente de cada um, então como eu vou comparar a de um com a de outro? Se eu não tenho a visão do que você percebeu, eu só sei o que eu estou percebendo. E daí eu conto isso para a Carla, e ela diz: “Eu também não posso porque eu só percebo o que eu estou percebendo”. Em suma, a diversidade das percepções prova a presença objetiva do mundo físico e, portanto, a possibilidade que temos de nos comunicar a respeito. Durante duzentos anos todo mundo achou que a diversidade das percepções prova que o “eu” é tudo ou que o cérebro é tudo e o mundo não existe, só o que existe são as formas do nosso conhecimento. E até hoje, por exemplo, você vê isso na programação neurolingüística. Toda a programação neurolingüística é baseada nisto: não existem os fatos, só existem as impressões, então nós podemos trabalhar as impressões. Mas daí surge a minha pergunta: mas você vai trabalhar as impressões na realidade ou só na sua impressão? Por exemplo, eu vejo que você percebe as coisas assim, eu modifico a sua percepção: mas eu [00:50] modifiquei de verdade ou eu só tenho a impressão de que modifiquei? Não adianta tentar fugir da presença do mundo real. Por mais que você fuja, ele o pega na esquina de novo. E pior: o mundo real se resume àquilo que você pega pelos cinco sentidos? Claro que não, porque os cinco sentidos não têm o sentido de tempo e de continuidade. Se você não tiver isso, não tem percepção alguma. Então, quer dizer, nós temos também o sentido do tempo, nós temos o sentido da profundidade, nós temos o sentido das relações, tudo isso você capta. O primeiro passo é a submissão integral da mente às condições do mundo real da experiência. O que é isto? É um empirismo radical. Toda a escola analítica surge do empirismo, mas não é o empirismo radical, é o empirismo de fantasia, o empirismo fingido: eles fingem que levam a sério a experiência. Eles só levam a sério um pedacinho dela que combina com o que eles já pensam. E se eu não pensar nada, se começar por aceitar a coisa como ela está? Eu vou ter de voltar muito atrás nas coisas e entender que o primeiro passo é ter uma ontologia geral, quer dizer, saber o que é o existir, o que é o ser, etc. Não há outra saída. A infidelidade dos empiristas ao empirismo é o grande escândalo dos últimos três séculos. Eles fazem apologia da experiência, mas não levam em conta a experiência, só algumas. É o exemplo do David Hume que eu dei: ele diz que o conceito de causa não vem da experiência, é uma invenção sua, você cria um conceito de causa e conecta dois fatos. Eu digo: os fatos se separaram automaticamente ou fui eu que os separei? Aquele exemplo que eu dei: você tropeça no alto da escada, você vai caindo e bate a cabeça lá embaixo. No meio da queda você parou para separar o começo dela e o fim dela, e daí conectar as duas com a noção de causa? Ou ao contrário, aconteceu tudo junto e depois, recordando, você a subdividiu em capítulos? A descrição que ele faz de que vemos fatos separados e os conectamos por uma hipótese de causa é algo que acontece em alguns casos onde você não viu o processo inteiro. Se você só viu o começo e o fim, sim, daí a causa se torna uma hipótese que você lançou. Mas é daí que surge a noção de causa? Não, a noção de causa surge da continuidade da experiência que é não uma criação minha, mas um fato que se impõe a mim. Para você perceber isso, o que você tem de fazer? Você tem de descrever o fenômeno tal como você o experimenta realmente e não em modelos hipotéticos simplificados como, por exemplo, da bola de bilhar — a bola de bilhar vem rolando, bate na outra, a outra sai rolando. Não pense em bola de bilhar, pense em você mesmo. Uma vez eu estava andando na Avenida Ipiranga, e veio um trombadão querendo roubar meu celular. Mas a capa do celular era tão ruim, que ele não conseguia tirar. Daí ficou aquele empurra-empurra, eu caí em cima do japonês. O japonês achou que trombadão fosse eu, e que eu estava tentando assaltá-lo, ficou louco da vida, enquanto isso o trombadão verdadeiro fugiu sem telefone. Eis aí um exemplo de causa e efeito. Por que eu não posso negar a conexão? Porque era eu que estava lá. Agora se fosse uma bola de bilhar, eu estou olhando a bola de bilhar de fora, não tenho compromisso nenhum com isso, eu posso dizer a respeito dela o que quiser. A experiência da bola de bilhar não é uma experiência, é uma experiência hipotética. Mas quando eu analiso a minha experiência de fato, eu estou lá martelando um prego, aquilo acerta o meu dedo, e aquilo dói. Eu digo: a martelada causou um machucado, que causou a dor. Por quê? É um processo único, não está subdivido em etapas. Mas se eu subdividir, eu vou ter a impressão de que o martelo causar a dor foi apenas uma conclusão que eu tirei depois, quando na verdade ele é a própria substância da experiência. Os empiristas fazem isso a todo o momento e esse pessoal da escola analítica, a mesma coisa. Chama-se analítica porque eles subdividem tudo em parte, subdividem e não param nunca mais. Isso pode até tornar a sua linguagem mais precisa, mas de que adianta uma linguagem precisa se a sua percepção é imprecisa? Então, antes da técnica de aprimorar a linguagem, temos de aprimorar a percepção e a narração dos fatos tal como eles realmente nos acontecem. E daí entendemos que qualquer fato, por pequeno que seja, tem uma infinidade de acidentes metafisicamente necessários sem os quais ele não poderia acontecer. Cada fato está aberto em um milhão de direções possíveis, e é nisso que nós vivemos, é dentro de um mundo denso de direções e de conexões que nós vivemos. E nunca a nossa linguagem vai preencher todo esse campo. “Ah, mas que pena! Então a nossa linguagem ficará sempre imprecisa”. A linguagem não carece de ser precisa porque estamos dentro do mesmo mundo, e o mundo é o mediador da nossa comunicação. E por mais impreciso que eu seja, as pessoas saberão do que estou falando. É o negócio: você chega na Alemanha, vai no supermercado, você não sabe dizer “lingüiça”, o que você faz? Você aponta a lingüiça. O nego não entende? Entende. Ou você pega a lingüiça e entrega para o cara pesar. Toda a comunicação humana se baseia numa presença, numa presença que é comum. Isto quer dizer que só podemos começar a entender o fenômeno da linguagem depois que o colocarmos dentro da experiência da presença. Nós não tínhamos a presença antes de começarmos a falar? Antes de você ter o primeiro signo — no livro do André Marc, ele conta aquela experiência do primeiro signo aprendido por uma mulher que era cega, muda e surda. Ela tinha vinte e tantos anos, não se comunicava com ninguém e tinha então de ser alimentada e cuidada o tempo todo. E um dia a freira que cuidava dela estava dando comida para ela, e a moça pega uma faca; a freira toma a faca e a moça fica desesperada. Daí ela tem a idéia de fazer um signo de faca: ela pega a mão da moça e faz assim [sinal de cortar], a moça faz a mesma coisa na mão dela, ela entrega a faca para a moça. Pronto, a moça aprendeu o primeiro signo, daí logo aprendeu o segundo, terceiro, quarto, quinto. Só que é o seguinte: antes essa moça estava totalmente isolada e não tinha nenhuma experiência da realidade? Ela tinha, tinha presença, tanto que ela pegou a faca, tanto que ela chorou. Isto quer dizer que ela teve a experiência da presença sem signos durante vinte e tantos anos, e por isso pode aprender o primeiro signo. Vamos pensar que tudo começa com o signo? Veja, para aparecer um único signo, quanta coisa precisou haver em torno! Eu não tenho solução para o que fazer com a ciência mundial nem com a universidade do mundo, mas eu sei o que fazer para você ter uma visão da realidade que é bem mais adequada do que a desses caras. E, portanto, isso lhe permitirá fazer análise de situações concretas de modo mais realista e chegar a previsões que funcionam. Isso tudo eu demonstrei. O pessoal vê essas previsões que eu faço nos artigos e pensa que tirei isso do nada. Não, eu estou pensando nisso aqui há trinta anos, pensando no problema do conhecimento e da eficiência do conhecimento. Vocês não acham uma coisa extraordinária que tantas pessoas tenham opinião sobre religião sem elas nunca terem estudado um milagre? Nunca nenhum? Então do que você está falando? Você está falando idéia de Deus, na doutrina sobre Deus etc., e ela pode ser discutida, evidentemente. Você pega a sua idéia e diz: aqui tem a doutrina cristã. Em princípio, a doutrina cristã não é melhor do que a sua idéia, é uma idéia como qualquer outra, [01:00] e você pode discuti-la. Só que ela está se reportando a determinados fatos, fatos que você varreu para debaixo do tapete e não quer examiná-los; só quer examinar a doutrina. Você pega toda essa maldição que se chama religiões comparadas — estudei isso por anos só para chegar à conclusão de que não dá para comparar —, eles comparam doutrinas e tradições. Eu me pergunto: há ou não um negócio chamado Deus? Esse Deus é só objeto dos nossos pensamentos? Ele é o assunto da nossa doutrina? Ou Ele existe objetivamente? Se ele existe objetivamente, Ele age, fala, interfere. Então é isso o que temos de estudar para daí entendermos a diversidade das religiões. Por exemplo, esse pessoal todo do René Guénon, do Schuon e tal, acredita que todas as religiões têm um fundo revelado. Quem o revelou? Se você disser [que] foi o não-humano, o transcendente, eu digo, tudo isso aí é bolha de sabão. Alguém fez, e vamos ver como esse alguém age então. Existem dois modos usuais de Deus agir: um, através da criação e manutenção do cosmos, que é difícil de acompanhar porque isso é muito longo, está aí faz não sei quanto tempo, e os sinais de Deus que aparecem na natureza são todos embrulhados, de modo que onde às vezes parece ter ordem às vezes parece ter caos, e é por isso que você não chega a nenhuma conclusão com o negócio do design inteligente. Mas existe a segunda maneira, que são maneiras excepcionais: os milagres. Então vamos estudar esses milagres, ver como funcionam. Se você começa a estudar aos poucos os milagres, se você não é católico, você vira na hora. Não tem jeito. Você estuda a vida do Padre Pio e você arruma a explicação científica: Deus fez isso. Quer dizer que você escapa enormemente daquela delimitação de fé e conhecimento que fez Kant e que as pessoas vestem até hoje como uma camisa-de-força, dizem: “Isto é matéria de fé religiosa”. Fé religiosa não é isso, fé religiosa é depois que você sabe isso, depois de ter esse conhecimento, você vai continuar fiel a esse conhecimento, não esquecer, não fazer de conta que não sabe. Por exemplo, Judas não sabia que Cristo era o Filho de Deus, que Cristo tinha feito tudo aquilo? Ele sabia, só que negou, esqueceu. Isso foi a falta de fé, falta de confiança em algo que você sabe perfeitamente bem. Quantas vezes nós não negamos aquilo que sabemos? Fazemos isso o tempo todo. Uma verdade que nos incomoda, apagamos, passamos para o subconsciente. Com a religião fazemos a mesma coisa. A religião é um conhecimento tão certo quanto qualquer conhecimento científico, se você estudar. Só que depois você está em um meio onde as pessoas riem da sua cara por causa daquilo, daí você fica acovardado e começa a negar. Hoje, depois de tudo o que estudei, posso assegurar para você: a doutrina cristã é a mais certa e mais fácil de confirmar do que qualquer teoria científica existente ou por existir. Basta você estudar os milagres e ver como é que funciona. Por exemplo, uma certa conexão entre o sentido, a intencionalidade e um fenômeno natural, no procedimento usual da natureza, é uma coisa que não existe. Não chove por alguma intenção, não há um terremoto por alguma intenção. Mas no caso do milagre a intenção se manifesta fisicamente, e aquele fenômeno é incompreensível fora da intenção. Então você entende o que Santo Tomás de Aquino queria dizer quando dizia que “nós falamos com palavras e Deus fala com palavras e coisas” — subentende coisas, seres, atos, fatos, situações, etc. Milagre é um momento onde os fatos falam por si. Há uma intenção, há uma voz que lhe explicita o sentido do que está acontecendo no próprio tecido do que acontece. Vamos supor aquele negócio de Fátima, que o sol parece baixar e esmagar a população. Se isso acontecesse, podia ser um fenômeno sem intenção. Mas Nossa Senhora disse: “Vai acontecer”, e o fato acontece ligado ao que ela disse, não por si. O fato de setenta mil pessoas estarem todas molhadas pela chuva e, de repente, secarem sem nada, secagem instantânea. Se acontecesse fora do contexto miraculoso, seria um fenômeno da natureza a ser explicado ou pelas rotinas usuais da natureza que você conhece ou pela hipótese de uma lei nova que você desconhece. Mas como acontece ligado a uma intenção, é anunciado, é dito e é feito, então você não consegue mais separar o fato e o sentido. E justamente o milagre acontece nessa conexão. Quantas pessoas não acham que milagre é aquilo que não tem explicação científica? Então praticamente tudo é milagre porque só uma parcela infinitesimal tem explicação científica. Como é que você vai definir toda uma ordem de fenômenos da natureza física pela ignorância de um grupo humano? Você quer uma coisa mais irracional do que isso? Um outro elemento: quando você começa a estudar as origens da ciência moderna e vê a enorme contribuição que houve ali de elementos esotéricos, ocultistas, etc., que já vinham com uma camuflagem, tudo isso aí tem de ser revisto. Essa imagem estereotipada da ciência, que os próprios cientistas vendem, teve uma origem. Por que eles fizeram isso? Que intenção tinham? Esconder os fatos é a busca da verdade? Se a sua ciência é séria, por que tem de esconder a história dela? O fato é que as pessoas estudam a disciplina sem estudar sua história, então elas recebem o produto pronto. Por exemplo, vou estudar aqui a lei de Newton. Quando eu estava no ginásio, estudamos a lei de Newton pelo livro de Física do Antônio de Souza Teixeira Junior, que não era um contemporâneo de Newton, certamente, e isso para nós virou a lei de Newton. Eu falo: Mas quando e vou estudar a lei de Newton nos escritos de Newton, ela está diferente. Mas eu só fui fazer isso com sessenta anos de idade. Eu vi que aquilo que o Teixeira apresentou foi uma versão de lei de Newton mais palatável, mais “engolível” por meninos do século XX. Mas quando você pega lá Princípios Matemáticos da Filosofia Natural — vamos ler essa porcaria, vai dar uma trabalho miserável, mas vamos ver o que ele estava tentando fazer —, é algo completamente diferente e, sob certos aspectos, absolutamente inaceitável em termos da ciência atual. Notamos então que o número de pessoas empenhadas em buscar a verdade é ínfimo. E elas simplesmente não podem buscar a verdade porque elas já estão comprometidas com um grupo, com a profissão, com o regulamento profissional, com plano de carreira, e tudo isso. Quer dizer, não têm a mobilidade da qual o filósofo precisa. Sócrates conseguia buscar a verdade por quê? Porque não tinha satisfação para dar a ninguém, ele não estava fazendo aquilo profissionalmente, ele não tinha de satisfazer um público, [01:10] a não ser o público que ele mesmo tinha montado, que é exatamente o que acontece comigo. De onde apareceu meu público? Eu o fiz, portanto eu não tenho satisfação nenhuma para dar. Vocês estão ouvindo e gostando do que estou falando, continuem ouvindo; se não gostaram, vão embora, não tem problema nenhum. Por outro lado, se eu estivesse na universidade, tivesse de agradar o meu chefe de departamento, e precisasse de uma verba para pesquisa etc., aí dançou. A estrutura da universidade não foi feita para buscar a verdade. Ela tem lá a sua utilidade, mas se não houver um certo número de pessoas buscando a verdade efetivamente na sociedade essa máquina toda enlouquece e começa a dizer besteira. Teoricamente os filósofos deveriam servir para isso, só que a filosofia também virou uma profissão universitária, e aí melou. É aí que entra o negócio do Scruton: por que na França se salvaram? Porque lá não virou uma profissão universitária. Lá os negos têm as suas idéias, apresentam para o público e têm de agüentar as porradas de onde vierem. Aluno: Eu acho que apesar de tudo, a influência do Kant e do comprometimento com a filosofia analítica, Roger Scruton tem uma busca... Olavo: Sim, mas vejo qual foi o começo da formação do Scruton? O primeiro interesse dele foi de ordem literária, ele ficava lendo poesia, romance, essa coisa toda. Então ele tem a sensibilidade do artista e a capacidade que o artista tem de perceber coisas que vão para além do quadro de referência que ele domina, ele tem também a busca da expressão genuína. Ele tem tudo isso. Mas você vê que Scruton é um homem de duas cabeças. E a solução que ele dá ao problema não é uma solução, continuou com uma dualidade: tem um rito de passagem ali e ele está propondo outro rito de passagem aqui. Isso obviamente não resolve o problema. Mesmo porque o rito de passagem, eu já expliquei nas aulas aqui, é só um rito de agregação em uma comunidade. Qualquer quadrilha de narcotraficantes tem um rito de passagem, qualquer seita demoníaca tem um rito de passagem, a máfia tem um rito de passagem. Ou seja, você é obrigado a fazer algo que o integra no meio, que o compromete com os outros no meio e o diferencia do pessoal de fora. Por exemplo, se você é da máfia, você vai ter de matar um cara que eles vão mandar matar; se você não agüentar matar, você não é um dos nossos, você ficou de fora. A partir da hora que matou, nós sabemos que foi você que matou, temos você na nossa mão, então você está aqui, não vamos entregá-lo. Por quê? Porque você é um dos nossos. Tudo isso é um rito de passagem. Mas é tal negócio: esses ritos são apenas ritos de agregação ou eles têm uma função iniciática ou contra-iniciática, como diria o Guénon? Em que medida essa agregação é apenas um fenômeno sociológico? Tem uns casos em que é e tem uns casos em que não é. Casos em que você tem o comprometimento divino ou demoníaco. Então, a comunidade na qual você se integrou vai muito além dos seus membros vivos. Falar, por exemplo em “membros vivos”: hoje conhecemos um bocado a respeito de genética; se você estudou genética deve saber que um ato sexual é uma coisa que prolonga uma herança genética que vem desde o tempo do homem de Neandertal, de Adão e Eva. É um negócio gravíssimo, se você pensar bem. Mas quando as pessoas fazem sexo, elas lembram disso? Não, porque usam uma camisinha e não têm mais contato profundo, contato bioquímico com ninguém. Têm somente o contato epidérmico, e ainda chamam isso de sexo. Isso não é sexo, isso é uma sensação parecida com sexo. Só que se as pessoas são treinadas nisso, daqui a pouco elas perdem a noção do que é o sexo, elas pensam que o sexo é só a sensação. Mas isso não é o sexo, isso é o sexo abstrato, não é o sexo na sua presença física. Você pode separar mentalmente o sexo do fenômeno da geração e você pode separá-lo fisicamente através de uma camisinha ou de um anticoncepcional. Mas você tem de reconhecer que aí já não é o fenômeno inteiro, é um recorte que você fez, é uma abstração, portanto. E se você se acostuma com a idéia de que essa coisa abstrata é a realidade, você já está vivendo dentro de um mundo de plástico. Hoje em dia existem milhares de pessoas que só pensam em sexo o tempo todo, estão trepando o tempo todo com homens, mulheres etc., e jamais tiveram aquilo que antigamente se chamava “contato carnal”, só têm contato através de uma película de borracha. Nunca a carne nele tocou o interior da carne da parceira, nunca. Eu digo: em que mundo vive esse cara? É um mundo do simulacro. Usar a camisinha, sim, mas se pelo menos uma vez ele tivesse experimentado e alguma coisa acontecesse, ele tem uma idéia do que ele não está fazendo agora, do que ele já fez e não está fazendo. E assim por diante. Pessoas que têm uma vivência da realidade amputada de seus elementos fundamentais e circunscrita a um recorte criado pela técnica ou pela sociedade estão profundamente desaparelhadas para estudar filosofia, por exemplo. A experiência da presença se tornou inacessível para elas, que então vivem dentro de um mundo que outros seres humanos criaram para elas, não é o mundo tal como existe aqui há não sei quantos milênios, é um teatro. A primeira coisa a fazer, se você quer estudar filosofia é estourar o teatro e sair para o mundo de verdade. O teatro também faz parte do mundo de verdade, embora ele não o seja, mas está dentro do mundo. Então você pode entender o teatro dentro do quadro maior, você pode até entrar e sair do teatro. Mas tem pessoas que entraram no teatro, nunca mais saíram e pensam que o teatro é o mundo. Agora, o que fazer com um garoto que com 17-18 anos entra numa universidade, e vão lá meter filosofia analítica e Kant na cabeça dele? Pronto, você lesou o cara para sempre, nunca vai entender coisa nenhuma. E, no entanto, ele vai ser aceito pelos seus pares porque eles são exatamente iguais: um bando de nerds que só conversam sobre aquelas besteiras que leram, e pronto. Quer dizer, não são capazes de analisar nenhuma situação real. [Aqui há um salto na transmissão 1:18:57] Quer dizer, não é que a sua vida vai ser como se fosse um segundo, a história do planeta inteira: os impérios, a história da China, Napoleão Bonaparte, as guerras todas, tudo isso vai ser [um segundo]. Isto não do ponto de vista de Deus, do ponto de vista de uma alma imortal. Então, a incomensurabilidade da coisa é tão grande que não conseguimos imaginar isso aí. Se você não consegue imaginar, então você se conformar com a ignorância já é uma coisa que já começa a orientá-lo: eu vivo na ignorância, este é o meu estado natural, eu não estou entendendo coisa nenhuma e ninguém em volta está entendendo coisa nenhuma, isto é a nossa vida, e de vez em quando Deus dá uma dica ou outra para não nos perdermos. Isto é o máximo que se pode esperar dessa vida. [01:20] Assim, você está na realidade da condição humana. Mesmo aquilo que você sabe, você esquece. E quando você começa a estudar, por exemplo, a história da ignorância, a história dos conhecimentos que as pessoas tinham e que na geração seguinte já não entendiam mais nada? Tem aquele livro do arqueologista polonês Schwaller de Lubicz, chama Le Temple de l’Homme. Ele passou a vida estudando o Templo de Luxor e reconstituindo a ciência egípcia. Os caras sabiam coisas que não somos capazes de imaginar. Onde foi parar? Foi tudo para o brejo, perdeu-se tudo. E daí um cara lá passa a vida reconstituindo um pedacinho, e esse pedacinho já parece escandaloso demais para caber na cultura contemporânea. Quer uma coisa contraproducente? A busca do conhecimento. Vamos obter o conhecimento apenas o estritamente necessário para você sobreviver e para se orientar um pouquinho no escuro. Nós vivemos não apenas dentro de uma atmosfera de sofrimento, de frustração, mas também de ignorância, de desconhecimento, de inconsciência, isso é a nossa vida. Quando você aceita esse desconhecimento, mas sabe que existe a verdade acima de você, você já está orientado, já está na realidade. Isto quer dizer que todo aquele conhecimento que você não tem, que só Deus tem, começa já a trabalhar por você. E você é guiado na escuridão, não sabe como, mas isso acontece. A busca da sabedoria é a busca desse guiamento quase inconsciente. Eu não posso dizer guiamento totalmente inconsciente porque seria contraditório, mas é quase inconsciente. De vez em quando você chega a entender alguma coisinha que é essencial para a sua sobrevivência, para a sua orientação nesse momento, nesse lugar. E isso é o máximo que se pode ter. “Por que Deus permite...”, eu sempre achei essa pergunta totalmente ociosa. O tempo que gastaram com essa questão... Que dizer, você vai justificar então Deus em função deste mundo aqui? Em primeiro lugar, a criação não pode ser tão perfeita quanto Deus. Então de cara você já tem um coeficiente de absurdo e de erro no mundo pelo simples fato de ser o mundo. Em segundo lugar, tem o fenômeno da Queda que afetou não o homem, afetou o universo inteiro de algum modo. E em terceiro lugar você tem o livre-arbítrio humano, as decisões humanas. Soma tudo isso, e você vai ver que não é pouca encrenca. É por isso que nessa questão de evolucionismo e design inteligente, se você procurar traços da evolução, você os encontra; se você procurar traços do design inteligente, também os encontra; se procurar traços do caos e da anarquia, os encontra em número ilimitado. Então quando vamos terminar isso aí? Não vai terminar. Sobretudo se você disser que deve haver uma ordem no conjunto e um propósito final na história, eu digo: por quê? Se Deus vai tirar você daqui e botar você na eternidade, por que Ele tem de botar algum sentido no que está acontecendo aqui, se o único sentido já é esse: tirar você daqui e botar na eternidade? Isso aqui pode perfeitamente ser um caos. É de Santo Agostinho: “Só a história da salvação faz sentido”, a história terrestre não faz sentido algum. Existem seqüências de acontecimentos onde você observa uma causa operante que faz sentido dentro daquele campo limitado. Mas se você quer uma interpretação inteira da história para captar o sentido da história, você já está doido. Primeiro que a história na sua totalidade não é abarcável por um olhar humano. Vamos supor que você faça uma perspectiva limitada e tente abranger dez, quinze, vinte civilizações. Você vai abrangê-las em traços muito gerais que, sobretudo, vão aparecer com a comparação com outros. Mas a civilização chinesa não era o que era por comparação com a outra, ela era o que era por conta dela mesma, sem a comparação. O simples fato de você querer abranger a história num único olhar já é inteiramente utópico. Se você perguntar qual é alguma constante na história humana, eu digo: só tem uma constante, a população nunca parou de crescer. Tem algumas outras coisas que decorrem disso aí. Por exemplo, as intercomunicações entre as sociedades nunca pararam de crescer e, hoje em dia, está chegando no máximo: a aldeia global, todo mundo falando com todo mundo. Mesmo assim você imagina quantos lugares no mundo não tem internet, não tem telefone, não tem coisa nenhuma, ninguém está sabendo de nada, mesmo hoje. Agora, toda hora aparece gente prevendo o curso da história da humanidade, prevendo o fim do mundo. O próprio Jesus Cristo disse que não sabe quando é o fim do mundo, como é que eu vou saber? “Você acha que estamos no apocalipse?” Como é que eu vou saber? Analogicamente você vê traços do apocalipse, sem dúvida, mas vê traços que também não combinam. Esses símbolos todos — como dizia Susanne Langer, “símbolo é uma matriz de intelecções”; ele não é uma coisa que reflete o que a realidade é em si mesma, mas um aspecto dela que age sobre a sua inteligência e faz você descobrir alguma coisa —, símbolos apocalípticos que o pessoal nos oferece não explicam o que está acontecendo, mas são simples sugestivos: a partir de uma analogia você descobre outra, e outra, e mais uma. Não é para você se deixar persuadir por um montão de analogias. A pessoa diz que fez mil analogias em torno de tal ponto e eu a pergunto: você sabe quantos milhões ainda existem que você não captou? Não sabe. Nosso conhecimento é apropriado à nossa necessidade de indivíduos e às vezes de grupos pequenos. Sabemos aquele mínimo necessário para nos orientarmos dentro da situação imediata, e só. E ninguém sabe mais do que isso. Não fomos deixados totalmente no escuro, mas entendemos que um conhecimento mais universal, só com participação em Deus. Um dia Ele lhe dá isso se achar necessário e que é bom, caso contrário, não. Mas esses dados básicos sobre a nossa posição no universo, sobre a nossa ignorância total — a nuvem da ignorância de que falava aquele tratado místico inglês que se chama The Cloud Unknown (A Nuvem do Desconhecimento), o negócio da noite escura de que fala São João da Cruz —, tudo isso é a nossa condição. E sabemos que por trás da noite escura tem algo que nos guia. Mas nos guia não assim, dando o mapa inteiro, dando um pedacinho de cada vez porque você não agüentaria saber mais. Acho que essas experiências básicas são o fundamento de uma vida filosófica. Você quer o quê? A verdade. Onde está a verdade? A verdade está na realidade. Então a verdade da realidade, não verdades abstratas que não tem nada com nada. Então você tem de se abrir a realidade primeiro, e daí você vai obtendo a verdadeira medida do que você é, do que você pode. No entanto, o número de pessoas que têm idéias sobre o futuro da espécie humana, sobre o fim do mundo, sobre a sociedade ideal etc. cresce a cada dia. As universidades só fabricam isso, fabricam milhões de idiotas. E no meio da idiotice sempre tem de ter um cara como eu que diz calma aí, vai devagar, não é assim. Sempre tem no mínimo um. Se não tiver nenhum, daí ferrou. Mas tem de ter de algum modo para compensar um pouco a loucura geral. No Brasil essa loucura chegou a um limite quase inimaginável. [01:30] Mas, pensando bem, o que o Brasil afeta o resto da humanidade? Nada, aquilo é um lugar na periferia do cosmos onde todo mundo ficou doido? E daí, o que isso significa? Nada. É ruim por quê? Porque estamos lá, porque somos de lá. Se tivéssemos nascido em outro lugar, não tinha importância. Eu acho que o essencial do diagnóstico do Scruton é a diferença entre a França e o meio anglo-saxônico com uma vida extra-universitária e universitária. Isso aí é batata, ele está montado na razão, mas a questão do rito de passagem é mais complicada do que ele está dizendo. E não acho que seja possível diagnosticar essa coisa sem chegar ao problema propriamente espiritual que está envolvido aí. Você não pode esquecer que em grande parte esse revigoramento da vida intelectual na França veio da Igreja, veio do fato de que os caras são católicos, e a França nunca perdeu isso. A França é um país onde às três horas da tarde, de uma terça-feira, você vai na igreja, e está cheia. A França não mudou muito nesse aspecto. Quando se dizia que a França é a filha mais velha da Igreja, eu acho que é ainda. Claro que isso não aparece na mídia porque o mundo da mídia é um mundo especial que só existe para eles. Eles tentam vender para todo mundo, ninguém acredita, mas finge que acredita. Eu nunca vi um jornal como o Le Monde ou outro mencionar essa persistência do catolicismo na França, nunca vi ninguém falar disso. E, no entanto, você chega lá e vê isso com os seus próprios olhos. Por outro lado, quando eu comecei a descobrir o movimento de idéias no catolicismo francês, eu fiquei impressionado porque aquilo era um oceano, não acabava mais. Você nunca vai ouvir falar desses autores aqui no meio universitário americano, lá ninguém sabe que isso existe. Mas se você está vendo que existe, que as pessoas estão falando isso, então para entender o que mais ou menos pode acontecer na França nas próximas décadas, você vai ter de levar isso em conta, senão você vai errar sempre. Quando teve o crescimento do front nacional na França, para todo mundo isso foi um susto. Dez anos atrás eu falava, isso é inevitável, claro que vai acontecer. Do mesmo modo que você prevê o crescimento do PT no Brasil, você prevê o crescimento do front nacional na França, partindo do quê? Do que os caras estão dizendo que vão fazer. Se um lado está dizendo que vai fazer tal ou qual coisa e o outro nem sabe, aí eles vão fazer e ninguém vai parar, ninguém “detê”, como dizia o Gugu. Agora, se houvesse um confronto — aqui esses caras têm esse plano, o outro lado está sabendo disso e quer parar o plano —, aí complica o negócio, aí você tem um jogo de forças. Mas quando não há um jogo de forças, só tem um jogador em campo, a previsão é a coisa mais fácil do mundo. Se você pegasse o que a esquerda francesa tem produzido em termos de idéias nos últimos vinte ou trinta anos, nada, zero; e o pessoal da direita, é uma idéia atrás da outra. Também sai besteira no meio, claro, mas eles não param de pensar. Então esse aqui vai ocupar o espaço. Também no Brasil, se você pensar, a produção intelectual da esquerda acabou, você não tem líderes intelectuais mais. Então eles não têm novas idéias, eles vão só repetir os velhos discursos, e isso acaba enchendo o saco, daqui a pouco ninguém mais quer saber desse negócio. Um crescimento ideológico da direita no Brasil é inevitável. Agora, se isso vai se transformar em uma mudança do esquema de poder, aí depende, não sabemos. Mas também eu não pretendo dirigir o curso das coisas, estou dando só umas sugestões aí. E a minha esfera de ação seria propriamente cultural, ideológica etc., e não política. Não posso entrar nisso aí, não dá, a cabeça tem limites. De qualquer modo fica dada aí a nossa homenagem ao Roger Scruton. Se vocês puderem, leiam o livro Thinkers of the New Left. Esse é um livro indispensável. Scruton dá o melhor de si quando está analisando o bullshit, aí é insuperável. Transcrição: Jussara Reis de Abreu Revisão? Henrique Bernardes Rodrigues