Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 263 12 de setembro de 2014 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Hoje eu queria comentar algumas discussões que começaram no Facebook –– rede social a qual uso como rascunho, ou até como diário, e na qual algumas pessoas às vezes enviam-me observações bastante interessantes. É claro que existem [ali] outras observações completamente extemporâneas que eu deixo passar, mas há algumas que realmente valem prosseguir com uma discussão. Esta, especialmente, foi enviada por Rubens Enderle algum tempo atrás, mas eu não vi que ela estava lá, pois são muitas mensagens que chegam por dia. Agora o João Emiliano me mandou novamente a mensagem do Rubens, a qual é um pouco comprida, por isso vou resumi-la. Trata-se de temas que já foram abordados aqui. “Professor, permita-me a objeção a essa sua interpretação, semelhante a outra que fiz há uns dias em outro post seu sobre Kant, mas acho que o senhor não viu. A meu ver, o senhor está conferindo um alcance ontológico à crítica Kantiana, o qual não procede. Quando Kant diz que o espaço e o tempo são formas a priori da intuição sensível, ele não está dizendo que o espaço e o tempo só existem, portanto, como coisa em si a partir do surgimento do sujeito cognoscente, mas sim pelo fato de que não temos um acesso direto às coisas fora das formas do espaço e do tempo. Não temos como saber de que maneira a realidade seria ‘percebida sem ser percebida’. (...)” Este termo aqui já tem a resposta da sua objeção. “(...) Isto é, como coisa em si e não como fenômeno. Logo, se não temos acesso cognoscitivo à realidade senão pelo filtro da experiência –– intuição sensível mais entendimento ––, não podemos atribuir à realidade em si as formas do espaço e do tempo; ou seja, não podemos conferir ao espaço e ao tempo uma dimensão ontológica, mas temos de nos limitar a considerá-las como formas a priori da intuição sensível. Mas –– e isso é o mais importante –– isso não quer dizer que elas não existam independentemente da existência do homem, ou seja, como categorias da realidade em si mesmas, mas apenas que o sujeito não pode conhecer essa realidade em si mesma. Ou seja, Kant não está dizendo que o espaço e o tempo só podem existir exclusivamente como formas subjetivas, mas sim que a função de espaço e tempo como formas subjetivas é tudo o que podemos conhecer da realidade. Espaço e tempo podem existir também em si, mas não temos acesso a isso a não ser por meio da experiência sensível. A limitação é portanto gnosiológica e não ontológica. Em outras palavras, é possível que o tempo e o espaço existam sim como categorias objetivas fora e independente do homem; é , portanto, possível que tenha uma dimensão ontológica. Mas não é esse o problema de Kant; o que importa para ele é apenas que o homem não tem como acessar diretamente essa dimensão ontológica, como pretendia por exemplo a metafísica de Wolf, combatida pelo ceticismo de Hume. A afirmação dos limites do conhecimento por Kant não implica portanto uma negação ontológica da estrutura da realidade independentemente do homem, nem tampouco a idéia de que o sujeito cognoscente é criador da realidade.” Bom, acho que vocês já entenderam qual é a objeção. Então, eu ali coloquei a seguinte resposta: “Tudo isso está certo, mas passa longe do ponto em discussão. Se Kant afirma que nada podemos saber do espaço e do tempo em si mesmos, obviamente ele não pode com isso dizer que o espaço e o tempo não existem fora da mente humana. E nisso você tem toda a razão.” Ora, eu seria totalmente contraditório se afirmasse que Kant, ao afirmar que nada podemos conhecer do espaço e do tempo em si mesmos, está negando a existência do espaço e do tempo, porque para negá-los ele precisaria saber que não existem, quando ele está dizendo precisamente que nada podemos saber a respeito. Então isso seria o contraditório, e eu não cometi esse erro que você está me atribuindo. Seria um erro primário demais. “O que ele diz é que só conhecemos o espaço e o tempo pela sua representação na mente humana, o que é dizer rigorosamente nada, pois sei, por outro lado, que eu mesmo só posso existir no espaço-tempo real e não em uma mera representação, (...)” Ou seja, não posso jamais dizer que nada sei do espaço e do tempo a não ser o que está na minha representação, porque para ter representação preciso existir num espaço e tempo que não podem ser ao mesmo tempo o da minha representação. Se Kant dissesse isso, então ele estaria efetivamente negando, não só a existência do espaço e do tempo, mas a sua própria existência. Ele não cai nesse erro; isso é primário demais. “(...) pois isso me levaria à negação subjetivista da realidade, erro que precisamente Kant não comete. Donde tenho de concluir que do espaço-tempo sei, por meio da representação, algo que está nele mesmo, e não só na representação. Além disso, tenho de me perguntar como posso me representar [que significa “apresentar de novo”] algo que nunca se apresentou, que nunca esteve presente. Dizer que só conheço algo por meio da minha consciência e não em si mesmo, corresponde rigorosamente a dizer que nada conheço daquilo que não conheço. E isso é dizer rigorosamente nada.” O próprio Rubens já sugere isso ao dizer que “não sabemos como a realidade seria percebida sem ser percebida”, o que é um absoluto nonsense. Ora, o espaço é a possibilidade da presença de corpos. Se você pensar apenas em entes incorporais, eles não podem estar no espaço. Portanto, o espaço só pode ser concebido como a possibilidade da presença de corpos, logo de entes tridimensionais. Isso é o espaço; não há outro espaço que você possa conceber. Ora, é nesse espaço tridimensional que eu estou fisicamente. Então, como é que eu posso dizer que nada sei do espaço em si mesmo, que só sei dele aquilo que está na minha representação subjetiva ou na minha consciência? “Nunca imputei a Kant uma negação subjetivista da realidade exterior [o que seria um erro primário de interpretação], mas sim uma pirueta verbal sem sentido. Ou a representação em mim é de algo que já se apresentou em si mesmo e por si mesmo, ou não é representação de coisa alguma. O exemplo com que ilustro isso é o seguinte: se me olho no espelho de perto, vejo-me grande; se me afasto, vejo-me pequeno; e vice-versa. Com isso, entendo que a minha representação visual da minha imagem no espelho é determinada pelo meu deslocamento em um espaço, que não pode por isso mesmo ser o da mera representação.” Temos aqui duas percepções: uma é visual; a outra é muscular, do meu deslocamento no espaço –– eu sei que me afasto e que, portanto, a minha imagem no espelho muda, torna-se menor. Ora, esse espaço no qual eu me desloquei, não pode ser só o da minha representação, o mesmo da imagem no espelho; algo do espaço objetivo eu tenho de necessariamente saber, senão eu não poderia ter representação alguma dele. Agora, dizer “Ah, mas eu só conheço espaço tal como aparece nos fenômenos,” ou seja, na presença dos corpos; ora, o espaço é isso e nada mais do que isso, não há um outro espaço. Ele [Rubens Enderle] se confunde porque leu Newton, o qual inventou um conceito de espaço absoluto, que é o espaço concebido em si mesmo independentemente da existência de corpos, o que é uma noção totalmente autocontraditória, porque o espaço não existe senão como a possibilidade concreta da presença de corpos. O espaço sem corpos não é absolutamente nada; o espaço vazio não é um espaço de maneira alguma, ele é um nada. Portanto, o espaço tem de ter alguma propriedade que o defina como espaço, que faça com que ele seja um espaço e não uma outra coisa qualquer. Essa propriedade é justamente a possibilidade da presença dos corpos. Ele só pode ser concebido dessa maneira. Newton inventou o espaço absoluto como unidade de medida, não disse que existe um espaço absoluto –– ele não era louco. Aliás, era louco sim, mas no sentido emocional, de bater nas pessoas, de ficar bravo, de ter acessos de fúria; era louco nesse sentido, não intelectualmente. Ele concebe essa noção do espaço absoluto [00:10] apenas como uma unidade hipotética de medida, ou seja, se existisse esse espaço absoluto as coisas se passariam desta ou daquela maneira. Ele não afirma de forma alguma a existência do espaço absoluto, que seria, digamos, o espaço independente dos corpos. O que estou dizendo com esse exemplo é que, para eu ter uma representação de espaço, algo preciso saber do espaço em si mesmo, que não é o espaço da representação. Isso que sei do espaço em si mesmo é a pré-condição para que eu tenha uma representação. Então Kant está fazendo uma pirueta. Ele diz: “Eu só vejo com meus próprios olhos, portanto eu não sei qual é a aparência visual daquilo que não vejo”. Ora, isso é dizer rigorosamente nada. Ou seja, eu não vejo aquilo que não vejo. Note bem, na outra aula eu estava comentando o famoso enigma de Zenão: “Eu não posso andar quarenta metros porque, para andar quarenta metros, precisaria andar vinte; para andar vinte, precisaria andar dez; para andar dez, precisaria andar cinco”, e assim por diante. Isso quer dizer que para percorrer uma certa distância eu teria de percorrer todas as suas subdivisões. Uma coisa é o espaço no qual você se desloca, outra coisa é o espaço que você mede mentalmente. Quando você mede mentalmente, não está se deslocando no espaço. Ora, medir é comparar uma extensão com outra extensão. Você sempre tem de ter uma unidade de medida: metros, centímetros, léguas, jardas etc. Essas medidas são arbitrárias; pode ser –– como fizeram na Inglaterra ––, o pé, o braço do rei etc.; ou pode ser uma proporção qualquer da circunferência da Terra, como fizeram no sistema métrico. Você só vai entender isso se apreender a diferença entre tamanho e medida. Tamanho é uma propriedade que um objeto tem em si mesmo e que não depende da comparação dele com outros; medida é exatamente essa comparação. Ora, essa comparação não está no objeto, mas na nossa representação, na nossa mente. A mente pode subdividir o tamanho de uma coisa quantas vezes ela queira. Porém, pergunto eu, o corpo do indivíduo se deslocando poderia fazer essa mesma subdivisão? Não apenas isso é tolo, mas é impossível. Se eu disser que para andar vinte metros tenho de andar dez, para andar dez tenho de andar cinco etc., estou fazendo uma subdivisão mental, o que não quer dizer que ao me deslocar vou andar cada vez menos, andar uma distância cada vez menor. Isso seria exatamente o “não andar”, é o “ficar parado”. Se você pegar a medida e ir subdividindo, subdividindo, você chega num infinitesimal, ou seja, num “quase zero”. Isso seria a mesma coisa que, para andar vinte metros, fosse preciso andar quase zero e não sair do lugar. Há aí uma confusão entre o tamanho, que é a propriedade objetiva dos entes, e a medida, que é uma comparação subjetiva. Então você está confundindo o objeto com a representação dele na mente. Essa é praticamente a origem de todos os equívocos filosóficos. Filósofos atrás de filósofos caem nesse problema. Esse enigma... Quando alguém responde que o movimento se demonstra andando, parece que está fazendo apenas uma piada, mas demonstrar o movimento andando significa constatar que o movimento não é uma medida mental que você está fazendo, é um deslocamento efetivo no espaço, e que uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra; tanto que para me deslocar, a possibilidade do meu deslocamento depende do meu tamanho. Existe a extensão a ser percorrida e existe o meu tamanho. Não posso dar passos de formiguinha nem dar saltos de vinte metros como o leão. Isso quer dizer que o meu deslocamento no espaço está severamente limitado pela extensão a ser percorrida e pelo tamanho do meu corpo. Mas e a medida? Meço do jeito que quiser, posso ir subdividindo quanto eu queria até chegar no infinitesimal. São duas operações completamente distintas e, por assim dizer, incomensuráveis; o deslocamento no espaço é uma coisa e a medida é outra. O que Zenão faz é confundir uma coisa com a outra; ele está confundindo o objeto, que é dado e que se impõe a nós, com a sua representação na mente. É a mesmíssima coisa que Kant está fazendo com o espaço-tempo. Ou seja, não podemos saber o que o espaço e o tempo são em si mesmos porque só temos acesso aos fenômenos, àquilo que aparece. Acontece que o espaço é a possibilidade de que eles apareçam. Portanto, a dizer “eu não sei o que uma coisa é em si mesma, que só sei o aspecto fenomênico, ou seja, aquilo que ela me mostra, e não posso saber nada além disso”, eu respondo que é claro que temos de saber alguma coisa além disso para poder saber isso. Por exemplo: saber que a coisa que se apresenta a você tem limitações intrínsecas que só lhe permitem apresentar-se de uma certa maneira: uma pedra não pode se comunicar com você auditivamente, falando com você, cantando ou gritando; você sabe que isso não é possível, porque senão não seria uma pedra, seria um outro tipo de objeto; portanto, ela tem uma limitação intrínseca que lhe dá uma espécie de leque de possibilidades de apresentação –– pode ser enormemente variado, porém sempre limitado. Qualquer coisa que me apareça como fenômeno... Eu vou dar-lhes um exemplo. [Em mãos uma pequena caixa para demonstração.] Eu sei que só vejo três lados disto [aqui] ao mesmo tempo. Vocês também nunca verão os seis lados ao mesmo tempo, só vêem três. Agora, pergunto eu: esta caixa tem em si mesma a possibilidade de exibir-se com os seus seis lados para o mesmo lado ao mesmo tempo? Não, porque se fizesse isso ela seria uma figura plana, não um objeto tridimensional. A limitação não está na minha percepção, mas na estrutura do objeto, e eu tenho de saber isso porque senão não poderia saber sequer a diferença entre o objeto e a minha percepção dele, e nesse caso eu estaria em pleno mundo alucinatório. Então o que Kant está querendo dizer é que “não percebo aquilo que não percebo”. É só isso, ele não está dizendo nada, é uma coisa de uma vacuidade monstruosa; porém, expressa de uma tal maneira, que cria para nós uma pseudodificuldade do mesmo tipo que o paradoxo de Zenão de Eléia. Quando Kant nos fala da impossibilidade de conhecer as coisas em si mesmas, e que só podemos conhecê-las pelo lado fenomênico, pergunto eu que outra coisa elas poderiam ser senão fenômenos? Se elas não têm a capacidade de se mostrar, eu nada sei delas. Para que elas tenham a capacidade de se mostrar e de ser fenômenos, é absolutamente necessário que elas sejam alguma coisa a mais. Se elas fossem somente fenômenos, aí simplesmente não haveria mais nada que conhecer, e sendo assim eu não posso ser criticado por não conhecer uma coisa que não existe para ser conhecida. Então a própria limitação no modo de apresentação do objeto exige que eu saiba dele algo mais além daquilo que ela apresenta. Isso é sempre, e sempre, e sempre assim. Nunca reduzimos nenhum objeto à sua mera aparência fenomênica. É isso que nos permite distinguir, por exemplo, quando estamos vendo uma coisa e quando a estamos apenas pensando. Se vejo um elefante, sua figura é relativamente igual àquela que ele tem quando a imagino. Como é que sei a diferença? Porque sei que o elefante real tem algo a mais do que a sua aparência fenomênica. Se eu não soubesse isso, poderia dizer que só conheço aparências fenomênicas. Mas isso é impossível; não é que é errado, é impossível. [00:20] Dizer que nada posso saber das coisas em si mesmas e que só posso saber da sua aparência fenomênica, significa dizer que nada sei além daquilo que os objetos me mostraram. É absolutamente impossível saber do objeto só aquilo que ele mostra e mais nada. Se você vê uma figura se mexendo no cinema, sabe que ela é apenas uma imagem projetada por uma luz através de uma película, e que isso foi obtido filmando uma pessoa real. Você não confunde uma coisa com outra, mas a aparência fenomênica rigorosamente é a mesma. Jamais poderíamos fazer essa distinção se só soubéssemos dos objetos aquilo que nos aparece. Mais ainda: todo e qualquer objeto tem a possibilidade de se apresentar a nós sob uma multidão de aparências diferentes. Por exemplo, ao olhar para este objeto [em mãos a caixa para demonstração], você vê que ele circula aqui no espaço, gira, está mostrando mil faces diferentes; só que são sempre apenas três de cada vez. Isso é uma limitação sua ou do objeto? (Repito: para mostrar os seis lados de uma vez ele precisaria transformar-se numa figura plana, como na geometria descritiva –– ninguém vai confundir um cubo desenhado no plano com um cubo real. Então você sempre sabe algo além da aparência fenomênica, você sabe “a presença” e a densidade da presença.) Portanto, a limitação que Kant está impondo é apenas verbal. Ele está dizendo que não conhece aquilo que não conhece, e em cima dessa banalidade constrói uma parafernália, com uma técnica incrível, e dali para diante todo mundo fica com inibição de falar da realidade e começa a falar só da representação. A influência cultural que isso teve no ocidente foi um negócio absolutamente avassalador e devastador. Quando chega no Jung (todo mundo na Europa estudou Kant; Jung também), ele por exemplo não fala de Deus, mas da imagem de Deus no homem. Ora, sim, mas como é que eu vou distinguir uma coisa da outra? Se só o que conheço é a imagem de Deus e nada sei do próprio Deus, se só tenho a imagem na minha mente e nunca tive mais nada, então de onde foi que tirei a idéia de que existe um Deus? Isso significa que essa coisa que se representa na minha mente jamais se apresentou de maneira alguma. Se só a conheço como imagem, de onde foi que tirei a idéia de que ela é algo mais do que a imagem? Foi uma alucinação que tive? Talvez, pode ser, porque na perspectiva junguiana é impossível distinguir entre o que é uma visão de Deus e uma alucinação de Deus. Só que, também, Jung não fala do ser humano, ele só fala da “imagem” do ser humano na mente. Então, toda hora que lendo Jung você vir que ele está falando dessas imagens, tem de saber que existe uma coisa por trás da imagem, porque senão irá chegar à conclusão de que só existem as imagens, que tudo é psique e nada existe a não ser a psique. Ora, onde foi que me situei para conceber esse objeto chamado psique? Onde eu estava; dentro dela? Se fosse assim, eu seria um peixe que, estando dentro da água, tem a consciência da existência do oceano sem nunca ter saído da água. Ou seja, toda e qualquer dimensão na qual apareçam essas aparências fenomênicas tem de poder ser transcendidas necessariamente, senão você nem poderia falar em aparências. Quanto à idéia de que não temos acesso às coisas em si (podemos até acreditar que elas [as coisas em si] existem, como Kant por exemplo acreditava que tanto Deus quanto o mundo exterior existem e dizia que “o mundo exterior pode existir, mas nada sei dele; eu só sei das aparências fenomênicas”) eu pergunto: que raio de mundo exterior seria esse que não consistisse de aparências fenomênicas, que não consistisse em apresentar-se? Esse mundo é inconcebível. Esse mundo objetivo, cuja existência ele até reconhece, esse é precisamente o que não pode existir. Em suma, é o mundo para além da fenomenalidade, o mundo que jamais se apresenta. Nesse caso, tratar-se-ia do espaço absoluto de que fala Newton. Só que Newton não acreditava em espaço absoluto; enquanto Kant está dizendo que pode até acreditar no espaço absoluto, mas nada sabe dele –– a que eu responderia que nada sabe dele porque ele não pode existir. O único espaço que existe é aquele no qual os corpos se apresentam. A influência de Kant foi tão avassaladora, que dali para diante todo mundo ficou com inibição de falar da realidade exterior e só fala da representação. A principal ocupação de muitos e muitos pensadores foi descrever essas formas a priori que estariam por trás de tudo e que determinam completamente a nossa visão do mundo, fora das quais não sabemos nada. Existem muitas versões dessas formas a priori. Praticamente tudo o que os principais pensadores europeus fizeram durante cem anos foi buscar formas a priori. Jung acredita que as encontrou nos tais dos arquétipos: por trás daquilo que imaginamos ser o mundo, existem os arquétipos do inconsciente coletivo. Ora, se nada posso saber de um elefante ou de um porco que se apresenta para mim, como posso saber dos arquétipos do inconsciente coletivo? Do mesmo modo: como é que eu posso saber das minhas formas a priori se tudo o que existe são aparências, e essas aparências por sua vez são determinadas pelas formas a priori? Você entra aí num beco sem saída. Para saber algo sobre as formas a priori é preciso que haja algo que não seja determinado por elas. As formas a priori são as formas que determinam a minha percepção. Mas se tudo é determinado por elas, então qual é a possibilidade que tenho de apreender essas formas, já que nada se distingue delas e tudo está dentro delas? Então o que Kant faz é provocar uma paralisia da mente. Essa paralisia, é claro, não foi ele o único que fez. Teremos agora de remontar a uma época anterior. Eu até fiz uma brincadeira –– vocês terão de me desculpar por usar essa linguagem na aula, mas a usei no Facebook ––, dizendo o seguinte: o que Kant está dizendo é que não posso comer uma mulher diretamente, só posso comê-la através da minha piroca e, portanto, não sei se a mulher existe lá objetivamente: pode ser até que ela exista –– até admito que ela existe ––, mas nada sei dela. Como é que chegamos a essa idéia? Hoje, quando se fala de sexo, o que se entende por isso é uma coisa muito diferente do que os séculos anteriores entendiam. No tempo em que havia os rituais da Igreja, o ritual do casamento etc., você sabia que através da união carnal com uma mulher não eram só vocês que estavam ali, mas também toda uma linhagem de antepassados cuja presença vai se prolongar através daquele ato. Portanto, vocês vão gerar um filho, e o que esse filho é não é vocês que estão criando, mas vem de uma linhagem ancestral sobre a qual você não tem controle algum e da qual você é somente mais um elo. A humanidade inteira sabia disso, e portanto o sexo adquiriu uma dimensão imensamente maior do que a simples sensação de dois órgãos que estão se “roçando”. Todo mundo entendia isso. Se o sexo se resumisse à [0:30] sensação imediata de dois órgãos que estão se “roçando”, não haveria muita diferença entre ele e uma coceira. Certa vez, em um desses livros de educação sexual, li que uma menininha perguntou para a mãe, que era psicóloga: “Mãe, como é um orgasmo?” A mãe disse: “ É mais ou menos como um espirro”. Então seria exatamente um espirro! Durante milênios, as pessoas sabiam que não era um espirro, mas sim um ato de dimensões cósmicas no qual o homem, ao injetar o seu sêmen no ventre da mulher, produzia dentro do corpo dela uma revolução que iria mudar tudo em sua vida. Essa revolução poderia ter como efeito o nascimento de uma terceira pessoa, que não se sabe quem é e sobre a qual não se tem controle algum, mas que é determinada por toda a linhagem que vem desde Adão e Eva ou desde o homem de Neandertal. Mas, de repente, o sexo vira um espirro! É claro que isso é uma idiotização, porque o sexo continua a ser o que ele sempre foi. Acontece que depois de ter virado um “espirro” a coisa piorou, porque na presente geração quase ninguém teve um efetivo contato carnal. Só se tem contato através de uma película de látex chamada “camisinha”. Não há mais contato carnal; essa é uma experiência que já se perdeu nos tempos. Primeiro reduziram-no a um “espirro”, o que ele não pode ser, absolutamente; depois suprimiram o próprio contato carnal, e o que sobra é a sensação subjetiva dentro do corpo do indivíduo. Este até admite que fora do seu corpo existem mulheres, homens e outras pessoas com as quais ele pode se relacionar sexualmente; porém, o sexo é o que ele sente. Isso é um processo kantiano. É o que disse o Ítalo Lorenzon: “Ah, então é por isso que esses rapazes kantianos acham que sexo é o orgasmo”. Ora, o orgasmo é o mesmo, quer você ejacule dentro de uma mulher ou dentro de uma camisinha, durante o sonho ou em uma masturbação. Se o sexo se reduz ao orgasmo, então ele é realmente um espirro. Mas ele perdeu toda a sua dimensão biológica, por assim dizer, ele não é mais um fenômeno que diz respeito à espécie humana, é somente uma coisa que um determinado sujeito sentiu e que poderia dizer: “Eu só sei aquilo que eu senti”. Ou seja, a fenomenalidade. Tudo o que fica para trás [do sexo] é uma coisa que você não sente, mas sabe que existe; se não sabe, você é um perfeito idiota. É por isso que todas as civilizações criaram todo um aparato ritual em torno do sexo. Esse aparato ritual torna presente à pessoa toda a dimensão ancestral e futura do [fenômeno], mas que de repente desapareceu. Da mesma forma, fala-se na idéia de que houve uma “liberação sexual”, mas o que houve de fato foi uma diminuição do sexo, que se tronou apenas um “espirro”. As pessoas estão cada vez mais liberadas para fazer uma coisa cada vez mais insignificante. O sexo não foi liberado, mas sim inflacionado; você tem mais quantitativamente, porém a densidade dessa experiência diminuiu cada vez mais, e aquilo que era uma participação no cosmos inteiro, quer seja como presença divina ou demoníaca, de repente se trona um “espirro”. É claro que isso é uma imbecilização, e tem origem cartesiana e kantiana. Quando Descartes separa o mundo extenso do mundo pensante, e você fica sem uma conexão entre uma coisa e outra, esse processo é completado depois por Kant, quando ele diz: “ Tudo que está para lá da minha mente é incognoscível, pode até existir –– até admito que exista ––, mas não podemos chegar lá”. Eu sugiro: então faça a experiência do espelho e você vai ver que a diferença de tamanho, que está na sua representação, é determinada por um deslocamento efetivo do seu corpo no espaço. Portanto, você está sabendo que a mudança na sua representação foi determinada por um fenômeno real que se passou com o seu corpo no espaço. Este, só pode ser o espaço real e não o espaço da própria representação. Para eu ter o espaço da representação, preciso ter tido contato com o espaço real durante muito tempo, do qual abstraio a noção do espaço representado. Se eu for um idiota, como Kant o era, sem sobra de dúvida ― idiota de gênio, mas um idiota ―, eu confundo o espaço da representação que abstraí, que é um conceito abstrato, com o espaço real que foi experimentado antes ― como Zenão de Eléia confunde a distância efetivamente percorrida com a distância medida mentalmente. A palavra mentira vem de mens, mentis, e de mens, mentis veio “mentira” e “mensuração, medir”. Você mede a coisa e em seguida confunde a medida com a coisa. Daí seguem-se discussões e controvérsias que não acabam nunca mais, nem podem acabar. Por exemplo, a controvérsia dos transfinitos, que começou há mais de cem anos, até hoje não parou –– até eu que não entendo nada disso dei meu palpite. Essa questão dos transfinitos está como a do Moreira da Silva: “Até hoje ninguém sabe quem morreu; eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu”. As pessoas se matam por esse assunto. Muitos desses enigmas não têm solução senão mediante um retorno reflexivo às condições que originaram a discussão, e as condições que a originaram são sempre estas: “Medir uma coisa e em seguida confundir a coisa com a sua medida”. Considerando todo o processo capitalista moderno, com toda a crítica feita por Marx, em que o objeto tem um valor de troca –– ou seja, um valor de mercado ― que é independente do seu valor de uso, o valor de uma mercadoria é na verdade o que as pessoas estão dispostas a pagar por ela. Por exemplo, eu crio um invento maravilhoso, mas ninguém o entende e não paga nada por ele; portanto, aquilo não tem valor de mercado. Em seguida, coloco à venda no mercado uma calcinha da Madonna, que acaba vendida por dois milhões de dólares. Isso quer dizer que o valor de mercado é inteiramente subjetivo e nada tem a ver com a mercadoria, com a consistência efetiva da mercadoria e com o seu valor de uso, isto é, com o uso que as pessoas possam concretamente dar ao objeto. Esse deslocamento entre o valor de mercado (valor de troca) e o valor de uso pode chegar ao paroxismo total, em que há um processo financeiro totalmente independente do processo econômico real, e em que se chega a uma economia constituída de meras cifras, a qual o economista francês Alfred Sauvy chamou de “l'économie du diable” (“economia do diabo”), porque não dava para entender mais coisa alguma. Isso tem a mesma origem que o paradoxo de Zenão de Eléia sobre a questão dos transfinitos, e que a estupidez de Kant ao dizer que nada podemos saber do espaço e do tempo a não ser aquilo que está na minha representação. Todas essas coisas são impossíveis e criadas por esse erro da mente que mede e começa a mentir ao trocar a coisa pela sua medida. Portanto, Rubens, eu nunca disse que Kant negava a existência do mundo exterior. Quando perguntei em que espaço e tempo apareci, [0:40] para depois poder tirar a representação subjetiva do espaço e tempo, estou dizendo que para eu ter uma representação subjetiva do espaço e tempo, preciso existir num tempo que não é o da representação, senão isso não seria possível. Não posso ter nascido num espaço puramente mental e num tempo puramente imaginário. Para saber algo do meu nascimento, preciso ter nascido num tempo real e num espaço real. Não pode ser, portanto, o espaço da representação. Isto não quer dizer que Kant esteja negando a existência do espaço e do tempo objetivo. Ele está negando a cognoscibilidade no instante mesmo em que, pelo simples fato de falar delas, ele já afirma que sabe algo a respeito. O espaço e o tempo não apenas são cognoscíveis, como são eminentemente cognoscíveis, já que tudo o que nós conhecemos está neles. O espaço e o tempo são as modalidades de apresentação dos objetos, eles não são uma outra coisa. Se você perguntar: “Que seria o espaço no qual não houvesse objetos?” Não seria um espaço, seria um nada. Que seria um tempo no qual nada sucedesse? Não seria um tempo, seria um nada. Ao dizer que não conhece o nada, ele até tem razão: eu não conheço “o nada” porque “o nada” não existe. Essa pretensa incognoscibilidade é incognoscibilidade do nada, e Kant faz o maior “forrobodó” em cima disso, e as pessoas acreditam que essas limitações existem mesmo, e daí vão adquirindo inibições cada vez maiores. Max Weber, por exemplo, sujeito que se intoxicou de Kant, tem uma inibição incrível para falar das coisas; ele só está falando das representações mentais daquelas coisas, o tempo todo. Jung faz a mesma coisa. Freud faz a mesma coisa: Que é o id, o ego e o superego senão as formas a priori que determinam tudo o que nós sabemos e percebemos? Assim por diante, até hoje, tem gente procurando formas a priori e, a todo momento, aparece alguém achando que finalmente descobriu o que está por trás de tudo. Para você descobrir algo que está por trás de tudo, algo deve ter se apresentado a você, para ele poder ter uma parte detrás. Se essa parte de trás estivesse só na sua mente, determinando portanto o conjunto, você nada saberia a respeito desse algo, mas somente a respeito de si mesmo. Nesse caso, o problema jamais teria surgido. Toda a filosofia de Kant é um labirinto, onde você chega sempre ao mesmo lugar por onde você entrou. Você entra nisso se quiser. Se desejar sair, peça ao Kant que faça “a experiência do espelho”. Kant foi um sujeito que nunca teve experiência sexual, por isso poderia realmente ter chegado a esta conclusão: “eu não posso comer uma mulher em si mesma, só posso comê-la através da minha piroca; portanto, eu nada sei da existência dela”. Eu perguntaria: Que você quer dizer com “sua piroca”; ela faz parte das formas a priori ou ela é o elemento corporal que está no espaço, assim como os seus olhos, por exemplo? E quanto a toda a sua representação visual, você a tem sem percepção visual? Não, não tem nenhuma. Portanto, é porque você tem representação visual ou, pelo menos, tem um órgão correspondente, mesmo que ele não funcione, mesmo que você seja cego; é porque você tem esses órgãos no corpo e no espaço que você tem a representação visual, e não o contrário, o que seria impossível. Espero que isso tenha ficado claro. Tem mais uma coisa que eu queria falar, que também corresponde a uma notinha que coloquei hoje no Facebook, mais de ordem do que poderíamos chamar de filosofia moral, ética ou como queiram chamá-la. “Todos nós, que fomos criados no Brasil, recebemos o impacto de um caos mental intolerável e sofremos, por isso, de graves deficiências de percepção e de julgamento.” Todos nós, sem exceção. A não ser, evidentemente, aqueles que não são propriamente brasileiros, que chegaram da Europa ou da China anteontem, ou aqueles que perceberam e se esforçaram para vencer isso. “Percebemos mal a relação tempo-espaço, as conexões causais na vida prática, o nexo de ação e resultado, os valores e proporções na vida moral etc.” O número de vezes que vi pessoas se queixando de que não obtiveram resultado algum em ações que elas não praticaram é uma grandeza. O sujeito não faz, não desencadeia o efeito, não obtém a causa, e depois fica triste porque não se lembra que não desencadeou o efeito. Isso é muito comum no Brasil, tanto na esfera individual quanto na esfera pública. “Enfim, não sabemos viver. Tive a sorte de perceber isso quando era ainda um adolescente, mediante o confronto do meu desempenho na vida com o de pessoas de origem européia recente.” Eu estava na casa de um amigo meu, judeu, de origem russa. Estávamos eu, ele e mais um priminho dele. A gente estava fazendo um lanche e, de repente, chega o pai do menino, senta-se conosco e nos pergunta: “De onde é que vieram estas coisas que vocês estão aí comendo?” Daí ele vai nos explicando meticulosamente todo o processo de fabricação de um queijo, da manteiga, das xícaras de louça, das facas, da toalha de mesa, da própria mesa, do pão etc., um por um. Aquilo foi como se caíssem escamas dos meus olhos. De repente, percebo que aquele homem está na realidade, enquanto eu estou no mundo da lua; porque estou aqui mexendo com coisas que eu não tenho a menor idéia do que são, e que a mim me parece que são colhidas em árvores: você estende a mão e pega uma xícara, uma faca, uma mesa, uma toalha de mesa. Tudo apareceu por mágica, e esse homem estava num plano onde as coisas tinham uma origem, que era por um lado a natureza, a presença do universo físico, e por outro o trabalho humano que havia transformado [a natureza] naqueles objetos que nós estávamos percebendo. Esse é o coeficiente de veracidade do marxismo –– pára aí, não vai além disso. Porém, isso para mim foi um choque de realidade. Percebi então que só algumas pessoas tinham essa noção densa da realidade, a qual se constitui de uma presença física e de uma ação que você desempenha ali, e que é o tecido da nossa própria vida. Só algumas pessoas tinham essa noção, e todas essas pessoas eram de origem européia recente. Ou o pai tinha vindo da Europa, ou a própria pessoa era húngara, russa, alemã, ou alguma coisa assim. Eu não vi um brasileiro que tivesse esta percepção. “Cheguei à conclusão de que eu era um sonso, um bobão em toda a linha. Fiquei estarrecido e comecei um trabalho de auto-reforma que levou mais de vinte anos. Até hoje me impressionam a inépcia, a falta de sentido prático dos brasileiros, não raro ‘mal’ compensadas por alguma habilidade profissional específica: por exemplo, o sujeito é um empresário ou investidor, sabe fazer dinheiro e se gaba de ser por isso um homem prático, mas não sabe resolver conflitos domésticos banais ou planejar suas férias sem transformá-las num pesadelo.” E assim por diante. Por exemplo, surge entre [0:50] o filho e a mãe um conflito que o pai não sabe resolver. Perguntem para mim se isso não acontece. Quando surge aqui [em casa] um problema entre um filho e a mãe, se eu levar mais de um minuto para resolver, sou uma besta quadrada; eu resolvo e pacifico a coisa na hora, porque sei como funciona, meu Deus do céu! No entanto, os homens práticos são empresários, são generais de exército, são investidores, são políticos, tomam grandes decisões; acham que são homens práticos porque têm o domínio da prática na sua profissão específica, mas não o têm na vida. Resultado: não têm sentido prático nenhum, mas têm o sentido prático especializado numa área deste tamanho: ele sabe administrar por exemplo uma fábrica, mas não sabe administrar a sua porca vida. É isto que falta para todos os brasileiros. Todos, sem exceção; a não ser aqueles que foram beneficiados por uma outra cultura. Foi nos Estados Unidos, em 1986, que pela primeira vez eu percebi que algum problema prático tinha solução. Isso porque no Brasil eu nunca tinha visto alguém resolver qualquer problema prático. Juro a vocês! Todo problema que aparecia virava uma desgraça, uma tragédia! E, de repente, eu via aqui [nos Estados Unidos] pessoas que paravam e diziam: “Espera aí, vamos pensar como a gente faz, dá para fazer assim, ou assim...”, e resolviam. Então eu percebi que os americanos tinham um repertório de possibilidades de vida que transcendia infinitamente as possibilidades dos brasileiros. Percebi que a América é o lugar do possível, enquanto o Brasil é a terra do impossível, onde tudo fica impossível. Por exemplo, eu vivo convidando pessoas a virem para cá: “Venha passar um tempo aqui!”. Então o sujeito responde assim: “Mas para isso eu preciso me divorciar da minha mulher, vender meu apartamento, obter não-sei-quanto de renda na bolsa de valores, comprar um cachorro etc.; e daí eu vou”. É claro que não vem nunca. Ou seja, para resolver um problema ele tem de resolver a vida inteira [primeiro]. O número de pessoas que pensam assim é muito grande, e tudo fica impossível. Outra experiência minha: eu nunca tive uma única idéia na minha porca vida, a respeito da qual todos os brasileiros consultados não dissessem que ia dar errado. Sempre que eu dizia “Ah, eu quero fazer tal coisa”, respondiam: “Não, você está com uma ilusão; você não tem experiência da vida; você vai se ferrar”. Sempre foi assim! Ou seja, o indivíduo compensa a sua incapacidade prática castrando a capacidade prática do outro, e castrando o desejo de agir. Então, é claro que estamos num país doente. Esse “país doente” está na sociedade em volta, mas está no nosso coração também. Todos nós, brasileiros, somos doentes; todos nós somos incapazes, e para nos tornarmos capazes temos de fazer uma reforma dentro de nós. Começar por perceber isso, olhar no espelho e dizer: “Eu não sei fazer nada!”. Então aprenda a fazer alguma coisa, depois outra, depois outra... Por exemplo, se você tem um conflito doméstico, como você o resolve? Se duas pessoas brigam, como é que você faz? Quando tem dois cachorros brigando, como é que você os separa? Bem, você não sabe, mas em algum lugar existe alguém que sabe; existe uma tradição, uma cultura, onde houve um aprendizado que foi passado de geração em geração. Portanto, aquilo que você não sabe, alguém sabe. Procurar isso chama-se “adquirir cultura”. Acontece que no Brasil cultura é uma coisa, vida prática é outra. Trata-se de um problema kantiano: “Como faço para resolver uma coisa sem saber resolver essa coisa e sem adquirir o conhecimento disso?”, “Como faço para enxergar sem enxergar?”, “Como seria o mundo percebido se não fosse percebido?”. É uma pegadinha absolutamente infernal, é o Zenão de Eléia de novo! Quanto mais fragilizado um ser humano está, mais facilmente ele cai nessas pegadinhas zenonianas, e isso torna sua vida impossível. O sonho da minha vida é: se eu pudesse pegar cada pessoa e mostrar tudo o que ela pode fazer –– toda a inteligência, o poder e a criatividade que ela tem ––, eu faria isso. Mas eu só posso fazer com um número pequeno de pessoas e, mesmo assim, tenho dificuldade. Eu sugeriria o seguinte (é o que eu digo aqui): “Tive a sorte, ou a esperteza, sei lá, de não me projetar como “formador de opinião” antes de aprender e vencer essas inúmeras dificuldades, correspondentes às Camadas VI e VII da personalidade. Pensem nisso antes de passar pito nos seus amigos por alguma opinião que lhes pareça errada.” Só comecei a dar palpite publicamente com quarenta e tantos anos, não passei pito em ninguém antes. Quando passo pito é com toda uma experiência muito densa de vida. Eu vivi vinte vidas, passei por coisas que as pessoas não conseguem nem imaginar. É claro que minha capacidade expressiva é muito limitada em relação à amplitude da experiência que eu vivi. Não consigo explicar tudo de uma vez, precisa ser um pouco de cada vez. Por isso é que quem assiste às aulas deste curso entende o meu pensamento muito melhor do que quem lê um artigo. O sujeito que lê só o que está no artigo, pensa que eu só sei aquilo [que está escrito]. Essa é outra característica do brasileiro: a síndrome de Dunning-Kruger. O sujeito nunca pensa: “Para dizer o que ele está dizendo, que mais ele precisará saber além disso?” Então, existe junto com essa incapacidade prática ― junto com ela e em função dela ― essa necessidade de sempre depreciar os outros e buscar uma compensação, porque a impotência diante da vida é uma coisa terrível: “Eu quero tudo e não posso nada; estou amarrado por todos os lados”. É claro que você vai ter ódio do universo. Então, ou você vai culpar Deus (“mas culpar Deus não posso, pois sou católico”), ou então vai encontrar alguém a quem criticar, falar mal, esculhambar. É uma compensação igual ao caranguejo no balde: um caranguejo está saindo do balde, o outro o puxa e ele volta para baixo. Vira uma tragédia! Tudo isso é superável, mas é preciso saber disso: quando você é novinho, tome consciência de que (a) você é incapaz; (b) você é anormal. Pessoas normais não existem no Brasil, porque não há norma. Não existe um padrão de normalidade no Brasil. Existem padrões de normalidade grupais, onde para ser considerado normal você precisa ajustar-se à loucura daquela turma em particular. Mas um padrão de normalidade que seja reconhecido na sociedade simplesmente não existe. Nos outros países existe. Aqui nos EUA, todos sabem o que é uma pessoa normal ou anormal, e quando vêem que a pessoa está anormal, dizem: “You need help!”. Qualquer um percebe isso quando o sujeito need help. No Brasil, tem camarada totalmente louco há várias décadas, e ninguém percebe que ele está louco. Aluno: Uma pergunta meio básica, mas eu acho que pode ser que ilustre o que você está falando: Você acha que para superar essas barreiras, um bom método de auto-superação seria você passar a adquirir gosto pelos desafios (...)? Olavo: Não digo que isso seja um método que se aplica a tudo, mas sem isso não dá para fazer nada. Aluno: (...) E também objetivos que façam você lançar objetivos, alvos (...) Olavo: Quando você percebe que tem uma incapacidade, a primeira coisa a fazer é aceitar. Por exemplo: “Você é covarde!”. Ótimo, então vamos partir daqui: “Eu sou covarde. Como é que eu faço para deixar de ser?” Primeiro, você tem de conhecer alguma pessoa corajosa, e ao invés de odiá-la por ela ser melhor, você terá de aprender com ela. Aluno: (...) E enfrentar situações (...) Olavo: E enfrentar situações, claro! Quando eu era adolescente, tive um grande professor de coragem: um amigo meu que era gaguinho. Por ele ser gaguinho e baixinho, compensava isso com atos de bravura cada vez maiores. Eu pensei: Isso aí é legal, vou fazer a mesma coisa, porque daí vou ficar corajoso como ele. Isso me fez muito bem. Mas e se eu ficasse com raiva dele por ele ser corajoso? Eu teria ficado covarde. [1:00] Tudo nesse mundo dá para aprender, mas você só consegue aprender aquilo que você ama; e quando você ama uma qualidade, você ama quem possui essa qualidade, e esse amor vai impregnando você das qualidades do outro. Então você pode superar todos os problemas da vida, mas mediante o amor ao próximo. Agora: não buscar compensação do azedume, da crítica; nunca fazer isso na sua vida. Pense assim: só vou passar pito em alguém quando tiver vencido essas coisas, quando tiver certeza de que agora eu consegui a minha sanidade, a minha normalidade, a minha centralidade; então agora eu sei quem eu sou, eu tenho um centro; quando eu falo a palavra “eu”, estou muito consciente do que estou falando; não uso a palavra “eu” à toa, ou seja, quando eu falo “eu”, estou falando toda a minha história, a minha evolução, a minha autoconsciência, minha presença diante de Deus quando me confesso, estou falando de tudo isso. Então “eu” quer dizer alguma coisa. Eu posso dizer: Agora “eu” sou “alguém”. Talvez ninguém saiba, mas eu sou. Então você tem essa presença para você mesmo, o que você faz adquire peso, e esse peso significa “poder”, um poder que você tem perante a vida. Não é o poder que os outros te conferem quando, por exemplo, votam em você para presidente da república. Esse não é um poder que você tem, foram os outros que te deram; quando eles não quiserem mais eles tiram de você. Não tiraram do Collor? Isso não é o poder real. Poder real é aquele que está com você e vai para o túmulo junto contigo, e que você não o transfere para ninguém. Nós, do Brasil, precisamos aprender a ter poder, a vencer as nossas coisas. É isso ai! Acho que por hoje já falei até demais. Não vou responder perguntas. Estarei viajando daqui a pouco para encontrar os ursos. Sábado que vem, provavelmente, não teremos aula; ou, talvez, se der para gravar alguma coisa e colocar no ar, no horário, eu os avisarei. Agradeço muito ao Rubens Enderle, ao João Emiliano e ao Ítalo Lorenzon. Essas observações foram realmente muito frutíferas; essas coisas ajudam realmente a gente a explicar o que queremos explicar. Até semana que vem, ou até a outra semana. Muito obrigado! Transcrição: Flávio F. Ribeiro, Jussara Reis de Abreu e Margarete Ribeiro Santana Revisão: Robson Fernandes