Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 261 23 de agosto de 2014 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [Houve um problema no início e o professor está recomeçando a aula] O que eu estava dizendo é que devemos considerar a possibilidade de a sociedade brasileira padecer de má formação cultural crônica, que o presente estado de coisas apenas agrava. E pode se agravar a tal ponto que não só você não consiga se livrar mais da situação atual, mas talvez você não consiga... [queda na transmissão] nós corremos. Uma pista é dada pelo que disse a minha amiga Meg: “O problema dos brasileiros é que eles não absorveram os dez mandamentos”. Eu digo: eles não absorveram nem os Dez Mandamentos, nem o Princípio de Identidade, nem o Código de Hamurabi, nem coisíssima nenhuma. Simplesmente não há princípios; é uma sociedade sem princípios. E onde você não tem princípios comuns o diálogo se torna impossível, porque até para você divergir de uma pessoa você precisa entender o que ela pensa — saber o quadro de referências dela —, e no Brasil isso não existe. Então surgem quadros de referência locais ou individuais: um grupinho e as ideias do grupinho são para o sujeito a idéia universal única que eles têm. E é dai que surgem tipos exóticos como esse Júlio Lemos. Aquele círculo profissional dele é, para ele, o universo e ele acha que está por cima da carne seca. O outro foi educado, por exemplo, no espiritismo, então para ele o espiritismo é a referência universal. Ele não sabe que os outros não sabem nada do espiritismo; só ele sabe. Então cada um fica falando com si mesmo. É igual aquele negócio da Rádio Pernambuco falando para o mundo. Na verdade não tem ninguém — nem em Pernambuco — com o rádio ligado. Então esta fragmentação da discussão pública, onde aparecem milhões de referências grupais intraduzíveis em um ambiente de total desentendimento — uma conversa de hospício mesmo, coisa de louco —, isto é a situação atual. E é claro que pessoas que estão assim confusas jamais conseguirão reagir a um agravamento da situação; se já não conseguiram reagir à situação antes, como é que vão reagir ao agravamento? Então o negócio vai ficando cada vez mais dramático. E foi justamente pensando nisso que imaginei se não seria possível formar uma nova geração de intelectuais, que tivessem uma visão de princípios universais, e pudessem dialogar uns com os outros; pudessem conversar racionalmente e, pelo menos, descrever e entender o que está acontecendo — o que no presente momento parece impossível. Você vê que mesmo pessoas inteligentes não têm essas referências e se apegam então à referência grupal. O discurso do general Paulo Chagas é característico disto: a única referência dele é o que ele conversa com os outros oficiais das Forças Armadas. Eles não têm diálogo fora e não entendem o que os outros estão falando. O milico não entende o outro, o cara do espiritismo não entende quem não é espírita, o cara que pertence a Igreja Evangélica de vila Nhocune pensa que aquilo é tudo. Então, simplesmente o diálogo se fragmentou e aí você não tem a menor esperança de um entendimento racional das coisas. E o que determina a vigência de determinados princípios que são comuns e que servem de ponto de referência para o debate? A intelectualidade. E é só quando os intelectuais se entendem uns aos outros — sabem o que o outro está falando — é que o resto da sociedade pode passar a saber também o que o outro está falando. Se você pensar bem, nem a Igreja Católica desempenha mais essa função no Brasil, porque ela também se fragmentou. Você tem ali grupos da Teologia da Libertação, grupos que pertencem ao Santo Daime, outro que é da Sociedade de São Pio X, outro sedevacantista, cada um com seu grupinho e não entendendo o que o outro está falando. Então não dá nem mesmo para você criar uma polêmica decente; você começa a argumentar, mas não entende o argumento do outro. No fim, acaba xingando o cara e voltando para casa. Isso é o máximo que vai dar. A gente acompanha as discussões e debates (quando no tempo do Orkut eu comecei acompanhar, eu lia aquela coisa e pensava: mas isso aqui é o caos total; ninguém entende o que o outro está falando; eles não têm as referências comuns). Quando você vive por algum tempo em outra sociedade — na sociedade americana, por exemplo —, os princípios comuns são óbvios, evidentes e conhecidos de todo mundo; todo mundo conhece a Constituição Americana, todo mundo conhece os Founding Fathers. Claro que cada um interpreta do seu jeito, mas eles estão interpretando diferentemente a mesma coisa, ao passo que no Brasil eles estão interpretando diferentemente coisas diferentes e não sabem que são diferentes. Se não se formar uma intelectualidade que consiga ter um diálogo compreensível dentro dela, não haverá também para o resto da sociedade. Então, o problema da intelectualidade é o problema mais grave do Brasil. Se você examinar bem a coisa, você vê que uma intelectualidade capaz de debater os problemas nacionais quase chegou a se formar em duas ocasiões: durante o Império (aquele pessoal da última geração, que fundou a Academia Brasileira de Letras, entendiam-se perfeitamente uns aos outros), e depois nos anos trinta, quando veio o tempo do Getúlio Vargas, também há uma segunda subida da cultura nacional onde todo mundo sabia do quê que todo mundo estava falando. Se o neguinho era católico, se era comunista, se era da UDN etc.: todos sabiam e entendiam o que os outros estavam falando. E esse processo foi justamente o que terminou a partir do golpe de 1964. O golpe de 1964 cria o seguinte: praticamente ele elimina o debate público, porque o centro do debate público era o parlamento e ele foi reduzido à condição de carimbador de decreto; o que quer que discutissem lá dentro não tinha a menor importância. O que os milicos conversavam era secreto, ninguém sabia; as decisões vinham prontas e o pessoal da Esquerda se fecha num diálogo interno. Você acompanha esse diálogo interno a partir do ano de 1964. Se formam as várias correntes que mais tarde iriam determinar o curso das coisas na Esquerda, mas é um diálogo da esquerda mesmo; não é um diálogo nacional. É um grupo que foi desbancado e se pergunta: “Nós caímos do cavalo. O que vamos fazer agora?” E daí começam a elaborar planos e diagnósticos. Houve até uma atividade intelectual bem intensa da Esquerda naquele período, que está documentada. Mas a documentação é enorme mesmo. Você precisaria ler até os exemplares da Voz Operária, o jornal do Partido Comunista, Brasil Urgente e outras publicações. Isso é para você entender a intensidade do debate que estava havendo na Esquerda naqueles anos. Mas era o debate só da Esquerda. Não era um debate nacional; não era a Esquerda combatendo com a Direita ou com o Centro etc. Não. Era só aquela turma discutindo com ela mesma e pensando nos seus interesses grupais acima de tudo. E o que aconteceu foi que esse pessoal subiu. Como eles tinham esse diálogo interno, esse virou o único diálogo possível. Hoje em dia se entende como debate na esquerda juntar, por exemplo, Marilena Chauí, Vladimir Safatle, Emir Sader, Igor Fuser e eles conversam das coisas deles. E eles acham que são o debate nacional. Ilusão que é ainda fortalecida pelo fato de que eles estão no poder. Então como eles subiram no governo eles acham que falam em nome de toda a nação. É uma ilusão; não falam. Se eles que são a corrente majoritária, que têm nas mãos todos os instrumentos de controle do processo educacional, das instituições culturais; se eles não são o debate nacional, muito menos o são os grupos divergentes de Direita, que estão aparecendo, e que cada um só fala para si mesmo. E não apenas não entendem os outros como têm horror deles. Quanto menos você entende a situação, mais você fica com medo e mais você tem de achar um culpado. A coisa mais fácil é você achar um bode expiatório. E, evidentemente, discussões que não levam a nada são muito mais fáceis e convidativas do que discussões que levam à alguma coisa. Você pode xingar as pessoas. É o negócio daquela menina: “Eu vou xingar muito no Twitter.” Pode xingar; não vai acontecer absolutamente nada. Então as pessoas dedicam-se a essa atividade precisamente porque nada vai sair dali; você pode estar seguro de que tudo do que você disser não vai ter a menor conseqüência e isto é um estímulo para que você fale mais ainda: “Não vai dar nada mesmo, então posso falar qualquer coisa.” Então essa é a situação. É interessante você observar, na história brasileira anterior, as deficiências da nossa formação e porque nunca chegou a existir um contexto de princípios que fundamentassem um diálogo público. Para poder adquirir uma régua [0:10] com a qual possa medir esse negócio, você precisa ter absorvido uma outra cultura para ter um ponto de comparação. Mas por que isso não acontece? Isso não acontece porque no Brasil até as pessoas que saem do país para estudar no exterior, vão lá só para freqüentar um determinado grupo profissional, que é o que lhes interessa. Se você perguntar: quantos brasileiro que estiveram na França nos últimos trinta anos absorveram a cultura francesa? Praticamente ninguém. As pessoas só absorveram o que era do seu interesse profissional e do seu círculo. O sujeito sai, vive anos no exterior e continua tão caipira quanto antes, só que agora um caipira que fala francês! E assim por diante. Mesmo essa coisa do sujeito que sai para o exterior, que poderia ser um meio de fornecer às pessoas um ponto de vista mais abrangente para poder fazer a comparação, mesmo isso está falhando. Só deixaria de falhar, isso só daria uma chance ao país, se alguém saísse do Brasil com a seguinte intensão: “Eu quero absorver esta cultura onde eu estou; não só o que se fala hoje no meio universitário, mas o diálogo nacional.” Diálogo nacional que nos países europeus e nos Estados Unidos ainda existe. Aqui as pessoas divergem, mas todo mundo sabe do quê que o outro está falando e na Europa a mesma coisa. Mas o brasileiro sai, mas não absorve isso. A própria fragilidade mental do brasileiro ajuda nisso, porque numa sociedade onde todo mundo está inseguro, todo mundo está querendo se garantir. A maneira mais lógica de se garantir é o que se chama “um emprego estável”; e não há emprego mais estável do que um emprego público, que vai garantir sua carreira (o seu plano de carreira) e a sua aposentadoria. Este é o grande sonho do brasileiro: você pergunta para um menino de cinco anos: “O que você quer ser quando crescer?” E ele responde: “aposentado”. As pessoas vão estudar e até vão para a Europa, para os Estados Unidos em busca disto: daquela maldita garantia do emprego; é só isso que estão querendo. Bom, o sujeito que está tão preocupado com isso — com sua carreira, com seu emprego, com a opinião dos seus colegas — ele não vai parar para absorver a cultura do país onde ele está; não tem abertura suficiente para isso. Para você ter essa abertura você precisa estar sentindo-se à vontade. Para sentir-se à vontade ou você é milionário ou você não liga para nada. Se você for esperar ficar milionário, vai demorar algum tempo. Então, faz cinqüenta anos que eu adoto a seguinte linha de conduta: eu faço meu trabalho e o resto “Dominus providebit”, isto é, Deus vai botar dinheiro no meu bolso. Eu não faço plano de carreira, eu não me preocupo com o dia de amanhã. E, olha, nunca falhou. Às vezes a situação engrossa, às vezes melhora um pouquinho. Eu não sei quem inventou aquela prece, mas eu acho maravilhosa: “Senhor livrai-me da pobreza e da riqueza”. Essa prece sempre foi atendida; eu nunca fiquei pobre nem rico. Não precisa se preocupar com isso. Se você entender que as coisas funcionam assim, então pode conhecer uma cultura estrangeira porque você tem real interesse no lugar onde está; você realmente quer conhecer as pessoas e saber o que elas pensam, o que elas sentem, como é a vida ali. Você tem uma curiosidade amorosa; você não está ali com preconceito, querendo julgar e reclamar que as pessoas são diferentes de você. Ao contrário, você quer realmente conhecê-las. E eu acho que em todo lugar que eu morei eu sempre fiz isso. E graças a esse negócio eu pude absorver muita coisa: a cultura hispano-americana, a cultura francesa, a cultura americana e assim por diante. Eu tenho vários pontos de comparação. Eu acho que, por exemplo, o tempo que passamos na Romênia foi muito útil porque era um país muito mais pobre do que o Brasil. Um país com problemas muito piores do que no Brasil e com uma intelectualidade monstruosamente preparada e aberta a toda circulação de ideias na Europa. Na verdade, os romenos estavam até mais preparados do que os outros, porque sabiam que não eram ninguém. Então convidavam todo mundo para Romênia para ensiná-los. O que tinha de melhor na Europa se reunia na Romênia. Você comparar isso com o Brasil era uma coisa até deprimente: esses caras aqui não têm onde cair mortos e, no entanto, eles são muito mais inteligentes e preparados do que os brasileiros. Nesse sentido, se vocês procurarem nos meus artigos, têm muitos deles que tratam justamente desta coisa da psique brasileira. Nunca dei um tratamento sistemático; não tenho a menor presunção de fazer uma tese universitária. Mas ao longo dos meus artigos se espalham dicas que podem dar muitas teses universitárias. E uma dessas dicas é a que estou publicando neste artigo que vai sair esta semana no Diário do Comércio e que eu vou ler e comentar aqui para vocês. Eu acho que é uma coisa meio urgente e, então, não vou esperar sair o artigo; eu vou comentar ele já. O artigo chama-se “Da mediocridade obrigatória”. “Admirar sempre moderadamente é sinal de mediocridade", ensinava Leibniz. Uma das constantes da mentalidade nacional é precisamente o temor de admirar, a necessidade de moderar o elogio – ou mesmo entremeá-lo de críticas – para não passar por adulador e idólatra. Já mencionei esse vício em outros artigos, assinalando que ele resulta em consagrar a mediocridade como um dever e um mérito – às vezes, a condição indispensável do prestígio e do respeito. Entretanto, não é um vício isolado. Vem com pelo menos mais dois, que o prolongam e consolidam. O primeiro é este: ao contrário do elogio, a crítica, a detração e até mesmo a difamação pura e simples não exigem nem admitem limite algum, nem precisam de justificação:” Mas é claro que se o feio consiste em elogiar, automaticamente o criticar passa a ser um mérito. “é direito incondicional do cidadão atribuir ao seu próximo todos os defeitos, pecados e crimes reais ou imaginários, ou então simplesmente condená-lo ao Inferno por lhe faltar alguma perfeição divina supostamente abundante na pessoa do crítico. Esse vício faz do efeito Dunning-Kruger (incapacidade de comparar objetivamente os próprios dons com os alheios) mais que uma endemia, uma obrigação.” Esta incapacidade de comparar-se decorre automaticamente da ausência de princípios dominantes na sociedade. Porque você não tem uma régua para medir nem a si mesmo e nem ao outro; então, evidentemente, o único critério de comparação possível é a auto-defesa: é a necessidade de defender-se de um medo ou de uma repugnância que você sente pelo outro. Então você vai sempre afirmar que você é melhor que o outro, embora não tenha nenhuma razão para fazê-lo. O segundo é talvez o mais grave: na mesma medida em que se depreciam os méritos de quem os tem, exaltam-se até o sétimo céu aqueles de quem não tem nenhum. O mecanismo é simples: se as altas qualidades excitam a inveja e o despeito, a mediocridade e a incompetência infundem no observador uma reconfortante sensação de alívio, a secreta alegria de saber que o elogiado não é de maneira alguma melhor que ele. Ou seja, eu posso elogiar aquele sujeito medíocre e estúpido precisamente porque ele não é melhor do que eu e eu não me sinto inferiorizado com isso. Quando foi eleito o Lula, eu disse que só votaram no Lula por causa disso. Não era porque o admirassem. Não era porque viram nele qualidades excelsas, mas precisamente porque não viram qualidade alguma e ficavam felizes de saber que um sujeito sem qualidade alguma podia subir. Porque “se ele pode eu também posso”. Então, votar no Lula foi uma espécie de compensação justificada de um complexo de inferioridade geral. “A compulsão de enaltecer virtudes inexistentes torna-se uma modalidade socialmente aprovada de autoelogio. Da pura depreciação de méritos reais passa-se assim à completa inversão do senso de valores, onde a mais alta virtude consiste precisamente em não ser melhor que ninguém.” Até a frase “Aqui ninguém é melhor que ninguém.” é uma frase reconfortante. Na realidade sempre alguém é melhor do que alguém. “Essa inversão já era bem conhecida desde a Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, e as sátiras de Lima Barreto. Mas nas últimas décadas foi levada às suas últimas conseqüências, [0:20] na medida em que a esquerda ascendente, ávida de autoglorificar-se e depreciar tudo o mais, precisava desesperadamente de heróis, santos e gênios postiços para repovoar o imaginário popular esvaziado pela "crítica radical de tudo quanto existe" (expressão de Karl Marx). A lista de mediocridades laureadas começa nos anos 60 com o presidente João Goulart, o arcebispo Dom Hélder Câmara, o almirante Cândido Aragão, o criador das Ligas Camponesas – Francisco Julião –, o doutrinador comunista Paulo Freire e toda uma plêiade de coitados, erguidos de improviso à condição de "heróis do povo" e incapazes de oferecer qualquer resistência ao golpe militar que os pôs em fuga sem disparar um só tiro.” Tantos heróis populares... e daí começa um golpe militar, que não dá tiro nenhum — só ameaça —, e todo mundo foge. Eu me lembro com se fosse hoje: eu era estudante secundário e tinha uma vaga simpatia esquerdista, embora não fosse militante de coisa nenhuma. Eu me lembro que os meninos, desesperados, diziam: “E agora o que nós vamos fazer? Vamos procurar as lideranças?” Então saíram uns quinze garotos para procurar as lideranças; e cadê as lideranças? Tinham desaparecido; estavam todas já no exterior, nas embaixadas etc. E o que tinha acontecido até então? Absolutamente nada. De fato, não se disparou um tiro. Foi um acesso de temor servil como nunca se viu na história humana. Eu até escrevi — foi no livro O Exército na História do Brasil — que muito dessa necessidade de autovitimizar-se, de enaltecer o seu sofrimento etc., é uma mera compensação retroativa por esse ato de covardia. Os caras fugiram quando não precisava fugir. E depois falaram: “E agora? eles não mataram ninguém... O que é que nós vamos fazer?” Você fugiu de um perigo inexistente, passou um vexame desgraçado e agora você tem de se fazer de herói retroativamente. Então inventaram a guerrilha para isto: “Vamos mandar meia dúzia para morrer em nosso lugar; assim pelo menos a gente diz que sofreu alguma coisa”. Quando planejaram a guerrilha, todo mundo sabia que os caras iriam morrer, porque tinham lá meia dúzia contra o exército inteiro e o pessoal do Partido Comunista não participou. Falaram: “Vão vocês; nós vamos ficar aqui estudando Antônio Gramsci”. E esses deram certo e subiram na vida; os outros morreram. Morreram só para dar, retroativamente, ares de vítima de um perigo formidável às pessoas que não tinham, de fato, corrido perigo algum. Daí o contraste entre esta áurea de heroísmo, de grandeza, e a pequenez das condutas são um negócio tão acachapante que aí você já vê uma neurose. Naquela época chamavam o almirante Aragão de herói do povo. O almirante Aragão saiu com uma tropa de fuzileiros navais para invadir o Palácio da Guanabara. No Palácio da Guanabara tinham cinco neguinhos armados — o Carlos Lacerda e mais cinco. O Carlos Lacerda foi no Rádio chamou o Aragão de tudo quanto é nome: seu filho disso, sua mãe não sei o quê... vêm aqui que eu te mato. O Aragão foi lá? Você foi? Eu também não. Nunca apareceu! Esse é o herói do povo? O sujeito o xinga pelo Rádio e ele sai correndo? É tão ridículo, tão grotesco! Uma cultura que cria esses tipos caricatos tem algo errado. Ela não tem mais o senso da realidade. E isso já naquele tempo. “Nas décadas seguintes, o insignificante cardeal Dom Paulo Evaristo Arns transfigurou-se num novo S. Francisco de Assis por fazer da Praça da Sé um abrigo de delinquentes; A Praça da Sé virou área protegida: tudo quanto é trombadinha bandido podia ficar lá, pois estava sob a proteção do cardeal. Essa foi a grande obra dele. o sr. Herbert de Souza, o Betinho, por ter tido a idéia maliciosa de transformar as instituições de caridade em órgãos auxiliares da propaganda comunista, foi proposto pela revista Veja, sem aparente intenção humorística, como candidato à beatificação; Apareceu na capa da Veja: Um santo brasileiro? Pelo menos colocaram um ponto de interrogação; admitiram a possibilidade de que talvez não fosse. A figura do Betinho era moralmente tão pequena e o elevaram a uma posição tão grande, que eu digo: Não é possível! Isso é um país de loucos mesmo. Para você montar uma farsa desse tamanho nos Estados Unidos, só se for uma farsa consciente e muito bem planejada. Mas no Brasil não foi. A Veja não estava participando de uma farsa para enaltecer o Betinho: o repórter que escreveu aquilo acreditava mesmo naquilo. Aqui, quem bajula o Barack Obama sabe que está mentindo é e tudo um plano muito bem arquitetado para fazer de um sujeito vazio um ídolo. E mesmo assim não funcionou; já caiu; já ninguém mais acredita em Barack Obama. Mas foi um plano com investimento monstruoso. Agora, no Brasil não precisa de nada disso. Não houve nenhum plano com investimento monstruoso para beatificar o Betinho; os caras fizeram isso porque queriam. “e o sr. Lula da Silva, sem ter trabalhado mais de umas poucas semanas, foi elevado ao estatuto de Trabalhador Arquetípico, preparando sua eleição à Presidência da República e a pletora de títulos de doutor honoris causa que consagraram o seu orgulhoso analfabetismo como um modelo superior de ciência.” O que é isso? O sujeito é analfabeto. Subiu na vida sem precisar deixar de ser analfabeto; sem estudar coisa nenhuma. A única coisa que ele caprichou foi na aparência: começou usar terno Armani, polir as unhas, cortou a barba: é só uma maquiagem. Mas interiormente ele aprimorou de algum modo a inteligência? Nada. Ele fez o grande milagre brasileiro: subir na vida sem mérito, sem precisar de mérito. O único mérito é propriamente subir na vida, esse é o único mérito. Qual é o mérito pelo qual ele subiu na vida? Ele ter subido na vida. É claro que isto é uma sociedade doente. Uma sociedade assim constituída não poderá reagir contra problema nenhum, mesmo que o problema seja pequeno. E não poderá derrotar inimigo algum, mesmo que o inimigo seja fraco. Eu afirmo claramente: a Esquerda nacional que está dominando o país é muito fraca. Só que contra ela não tem nada. Os outros são mais fracos ainda ou inexistentes. É uma sociedade que está caminhando de debilidade em debilidade até à incapacidade completa. Quando você conversa com qualquer brasileiro a respeito de qualquer coisa, ele lhe dá uma lista de problemas insolúveis. Por exemplo: todas as pessoas que eu convido para vir aqui aos Estados Unidos a passar umas semanas — eu pago tudo; pago as passagens e tal —, a resposta é invariavelmente assim: “ah, mas primeiro eu tenho de resolver isso e mais aquilo e mais aquilo e mais aquilo”. Fica impossível. O que isso mostra? As pessoas têm um sentimento de impotência, de uma dificuldade intransponível, o sentimento de uma rede de obstáculos em volta. Não importa que esses obstáculos não existam; as pessoas os veem. Então, para elas, passam a existir. “Nesse ínterim, é claro, a produção de obras literárias significativas reduziu-se a zero, milhares de indivíduos incapazes de conjugar um verbo tornaram-se professores catedráticos, as citações de trabalhos científicos brasileiros na bibliografia internacional foram se reduzindo até desaparecer e o número de analfabetos funcionais entre os estudantes universitários subiu a quase 50%. Não por acaso os alunos das nossas escolas secundárias começaram a tirar sistematicamente os últimos lugares nos testes internacionais, ficando abaixo de seus colegas da Zâmbia e do Paraguai – resultado que um ministro da Educação achou até reconfortante, pois, segundo ele, "poderia ter sido pior" (até hoje ninguém sabe o que ele quis dizer com isso).” Ou seja, poderiam ter inventado um lugar depois do último para colocar o brasileiro. Em um exame, o que existe de pior senão você tirar o último lugar? O que existe depois do último, meu Deus do céu! Num entanto o ministro disse isto — declaração oficial: “Poderia ter sido pior”. “A devastação geral da inteligência lesou até alguns cérebros que poderiam ter dado exemplos de imunidade à estupidez crescente.” E isso eu acho que foi o índice mais significativo, se vocês querem saber. “Nos anos que se seguiram ao golpe de 1964, os partidos comunistas conseguiram cooptar, sob o pretexto de "luta pela democracia", vários intelectuais até então cristãos e conservadores, que, travados pelo senso das conveniências imediatas, foram então perdendo seus talentos até chegar à quase completa esterilidade.” Isso é normal. Na hora em que você se compromete no movimento político, não pode falar disso, tem que badalar um pouco o Seu Fulano, ou seja, [0:30] já perde toda a espontaneidade criadora e você começa a escrever apenas o que é conveniente para o grupo. E isso, evidentemente, liquida o seu talento. Ao perder a espontaneidade criadora, você perdeu tudo. Sobrou só o seu papel social, que serve para aquela organização, para aquela entidade, para que ela use como garoto-propaganda. “Desse período em diante, Otto Maria Carpeaux nada mais escreveu que se comparasse à História da Literatura Ocidental (1947) ou os ensaios de A Cinza do Purgatório (1942) e Origens e Fins (1943). Ariano Suassuna nunca mais repetiu “os tour de force” do Auto da Compadecida (1955) e de A Pena e a Lei (1959). Alceu Amoroso Lima deixou de ser o filósofo de O Existencialismo e Outros Mitos (1951) e de Meditações sobre o Mundo Interior (1953) para tornar-se “poster man” da esquerda e garoto-propaganda do ridículo Hélder Câmara.” Note bem, esta decadência, forçada por essa situação de você usar os intelectuais como garotos-propaganda, esse processo chegou até fora do Brasil, influenciou até gente de fora do Brasil. Na Inglaterra tem um grande romancista, Graham Greene, que escreveu livros absolutamente maravilhosos, obras-primas, como O Poder e a Glória, Bela e Querida Inglaterra, Viagens com a Minha Tia etc. São obras primas. O último livro dele foi Monsenhor Quixote, que é uma badalação grotesca do Hélder Câmara. Quer dizer, saída de leão, chegada de cão. Resultado: o homem já não estava se inspirando na vida real, mas em slogans de propaganda. Se você começa a glorificar uma criatura que não existe, que foi inteiramente criada por um sistema de propaganda, você cortou o fio que liga o ficcionista à sua fonte de inspiração. Um ficcionista não pode trabalhar com material de segunda mão fabricado especialmente para enganá-lo. Ele tem que trabalhar diretamente com a realidade. Até o Graham Greene caiu nisso. Quer dizer, a decadência brasileira foi exportada. “Nada disso foi coincidência. A total subordinação da cultura superior aos interesses do partido é o objetivo explícito e declarado da estratégia de Antonio Gramsci, um sagui intelectual que se tornou, entre os anos 60 e 90 do século passado, o guru máximo das consciências e o autor mais citado em teses acadêmicas no Brasil. Comparados aos feitos da esquerda no campo da educação e da cultura, o Mensalão, o dinheiro na cueca e a roubalheira na Petrobras recobrem-se até de uma aura de santidade.” Ou seja, todo o prejuízo financeiro que deram é nada comparado a essa total devastação que fizeram na cultura e na inteligência do Brasil, que já era um país fraco. Então, isso quer dizer que hoje a situação, do ponto de vista político, é ruim, péssima, mas comparada à situação mental, ela não é tão ruim assim. Se você pensar bem, o que é esse esquema comuno-petista? Com um pouco de inteligência, a gente tira esses caras de lá. Mas o que falta é um pouco de inteligência. E como é que nós vamos fazer para infundir essa inteligência em quem já conseguiu destruí-la quase que por completo? Não dá para fazer. Quando eu vejo o tipo de reação que aparece ao meu trabalho, eu percebo que os caras são loucos mesmo. O que tem na cabeça de um Julio Lesma, Francisco Razzo etc.? Por que que eles estão com raiva quando tudo o que eu estou fazendo é para o bem deles? Então, o que é isto? É a reação baseada não em uma, digamos assim, régua universal que possa justificar aquilo, mas em fofoquinhas de grupos. Não passa disso. É claro que isso não impede que meu trabalho renda frutos e tenha rendido muito mais do que eu imaginava. Por exemplo, quando eu comecei o Seminário de Filosofia, eu esperava ter cem alunos. Tem três mil. E mais ainda, você vê o trabalho que alunos e ex-alunos estão fazendo e que vai ocupando um espaço cada vez maior. A coisa está funcionando maravilhosamente. E digo mais (para falar como o Lula): “não é pra me gambá”, mas essa é a única esperança do Brasil. Não há mais nada. Vocês têm que entender isso aí. Se não houver uma camada intelectual bem preparada, capaz de dialogar racionalmente, o resto da sociedade também não vai entender nada. Se os caras mesmo que estudam não entendem, como é que os outros vão entender, meu Deus do céu? Então, criar uma intelectualidade séria, sã e preparada é a única coisa de urgente que há no Brasil. O resto vem depois. Mas e a nível político, o que é que nós vamos fazer? Existe uma série de procedimentos que são normais na formação de qualquer movimento político. Mas acontece que, no Brasil, as pessoas se recusam terminantemente a tomar essas providências, porque foi o Olavo que disse, então nós não podemos fazer assim, tem que ser de outro jeito. Quer dizer que se eu disser que dois mais dois são quatro, você tem de dizer que são cinco só porque você não gosta de mim? Tá certo, não precisa gostar de mim, mas não precisa mudar a aritmética elementar só por causa disso. Quando eu estou dizendo coisas óbvias, você não precisa concordar comigo, você repete aquilo e não diz que fui em quem disse. Tudo bem, eu não me incomodo com isso, mas não distorça tudo só porque fui eu quem disse. Tem um provérbio árabe que diz: “não pergunte quem eu sou, mas recebe o que te dou”. No Brasil, os caras perguntam quem nós somos e se eles não gostam da gente, você pode dar uma barra de ouro pra pessoa que ela joga fora. Faz vinte anos que eu estou dando a receita, que é extraída da experiência universal. Todo e qualquer movimento político nasce segundo esta receita. Não tem exceção. Ninguém conseguiu fazer de outra maneira porque não existe outra maneira. Mesmo assim, as pessoas insistem. Quando decidiram fazer aquela passeata pedindo intervenção militar, eu disse: pelo amor de Deus, o que é isso, gente? Uma intervenção militar teria sido justa e eficiente em outras circunstâncias. Agora, não. Outros querem apostar tudo na luta eleitoral. A luta eleitoral, o golpe militar, não vão resolver nada. Porque seja por uma via, seja pela outra, se você não tiver um movimento político montado com antecedência, nada funciona, é só aparência. O golpe militar de 1964 deu certo porque ele tinha uma base na sociedade, ele tinha uma rede imensa de organizações populares que o apoiavam. O golpe deu certo. Mas por que que o governo militar deu errado? Porque ele dissolveu essa base de apoio ao invés de se aproveitar dela. O governo militar pegou todas as organizações e as lideranças conservadoras e as boicotou porque achava que só aquele grupo iluminado que estava no poder sabia das coisas e não queria que civil desse palpite. Eles serraram o galho onde estavam sentados. Se até aquela milicada, que alguma coisa tinha estudado, se nem eles entendiam a importância da base social, por que que as gerações seguintes, que chegaram sem saber de nada e não tinham idéia do que veio antes, vão entender a coisa? Também não entendem. Para formar um movimento político existem as seguintes etapas: a primeira etapa é uma longa discussão entre intelectuais. Isso pode durar décadas e não tem efeito externo nenhum. Vai ocorrendo a condensação de uma linguagem, um conjunto de conceitos, que permite um diálogo. Sem isso, nada se pode fazer. Depois que você já dialogou durante décadas e não aguenta mais ficar conversando, você entende que é preciso fazer alguma coisa. Passamos para a segunda etapa. Nesta etapa deve ocorrer a coleta de dinheiro para poder adestrar a militância e a liderança. No Brasil, chegou na etapa da coleta de dinheiro? Não. Se não tem a coleta de dinheiro, também não tem a formação da militância e da liderança. Então, primeira etapa: o diálogo. Isso já tem. Segunda etapa: coleta de dinheiro. Não tem. Terceira etapa: adestramento da militância e da liderança. Não tem. Quarta etapa: penetração nos órgãos da sociedade civil (sindicatos, escolas, igrejas, clubes de bairro e, evidentemente, penetração nos órgãos de mídia e órgãos de educação). Isso pode levar 10, 20, 30 anos. Isso aconteceu? Não, não aconteceu. Depois de tudo isso, daí você começa a pensar nos meios de você tomar o poder de Estado, seja por via eleitoral democrática, seja por via insurrecional, violenta, golpe etc. É assim que sempre se fez e não existe outra maneira de fazer. No entanto, eu vejo que tem gente querendo partir para um golpe militar sem ter cumprido as etapas anteriores. Ou eleger um presidente da república sem ter cumprido as etapas anteriores. Meu Deus do céu, aí não dá. É como a pessoa que quer aprender a andar de bicicleta antes de aprender a andar. Não dá pra fazer isso. E faz vinte anos [0:40] que eu estou dizendo que não dá. O que vocês estão querendo fazer não dá pra fazer, portanto vocês não vão fazer. Vocês só vão dizer que fazem e não vai dar em nada. Até hoje, parece que há uma dificuldade de entender isso porque foi o Olavo que disse. “Do Olavo eu não gosto porque o Olavo fala palavrão, porque o Olavo é astrólogo, porque o Olavo é isso e mais aquilo”. Meu Deus, não interessa quem é o Olavo, eu estou falando que dois mais dois dá quatro. Nós voltamos sempre ao mesmo problema: você não tem uma audiência suficientemente preparada para discutir essas coisas. Então como não tinha essa audiência, eu decidi eu mesmo formá-la e essa audiência são vocês. O futuro do Brasil está nas suas mãos e de mais ninguém. Claro que pode acontecer de pessoas que nunca ouviram falar de nós, mas que receberam os efeitos desse ensino e que os absorveram sem saber de onde veio, façam alguma coisa boa, isso é sempre possível. Mas, em princípio, e na maior parte dos casos, o negócio está na mão de vocês mesmo. Agora vamos a algumas perguntas. Aluno: (...) Antes de começar a sua aula, mostrava a uma amiga a riqueza do que é o COF. Minha irmã, que paralelamente conversava com a minha mãe, perguntou-me o que tanto estávamos vendo. Disse que era um curso de filosofia. Então, ela perguntou com a simplicidade de uma criança: filosofia estuda o quê? Olavo: Muito bem. Se você quiser uma resposta rápida, eu já dei: filosofia é a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Você pode repetir essa frase que o conteúdo dela ficará cada vez mais claro pra você à medida que o próprio curso prossiga. Quando eu formulei essa definição, eu me baseei numa coisa muito simples: o que é que todos os filósofos têm feito? Todos, independentemente de suas diferenças pessoais. Evidentemente, uma boa definição, segundo Aristóteles, é aquela que contém todos os traços da coisa definida e nenhum fora dela. Não há nenhuma outra atividade que seja isso no mundo. Então, filosofia é a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Aluno: O “ponto arquimédico”, do Mário Ferreira dos Santos, é aquilo que o Sr. chamou de verdade da realidade? Olavo: Não, não é. O que o Mário Ferreira chama de “ponto arquimédico” é alguma afirmação, alguma tese, cuja validade seja universal, apodíctica, auto-evidente, inegável de toda e qualquer maneira. E ele acredita que ele encontra uma sentença assim na proposição “algo existe”. Bom, é de fato inegável que algo existe, então o “algo existe” é a primeira tese da filosofia concreta e daí ele vai explicando a noção de existência, a noção de mostração e demonstração etc. e daí vai tirando o resto da filosofia dele. O que ele está procurando é uma sentença, uma proposição. Quando eu falo de verdade da realidade, é o contrário disso. É a verdade que está embutida, imbricada na própria realidade da qual nós podemos tentar destacá-la e formulá-la como uma afirmação. A verdade da realidade é aquela que ainda está, por assim dizer, sepultada no campo dos fatos. Eu te dou um exemplo: se você procurar numa biblioteca o assunto “mineralogia”, você vai encontra um monte de livros de mineralogia e ali, certamente, você tem uma multidão de conhecimentos mineralógicos. Porém, existe muito mais conhecimentos mineralógicos nos minerais. Cada um dos que está nos livros de mineralogia foi, por assim dizer, extraído do mineral. Mas, nem tudo foi extraído ainda, e ainda tem muito o que está lá. Esta é a verdade da realidade. Aristóteles está certo quando diz que só há verdade no juízo, mas a verdade não poderia estar no juízo se ela não estivesse de algum modo embutida na realidade sobre a qual o juízo versa. Aluno: É possível articular o assunto da aula passada, o senso da verdade, e o da aula de hoje, a má formação intelectual crônica do Brasil? Sim, eu disse que eu ia falar sobre o senso da verdade, mas eu decidi fazer um parêntese. Por quê? Evidentemente, não existe senso da verdade quando você está doutrinando sobre o senso da verdade, assim falando urbi et orbi, universalmente, sem ter em conta a situação concreta onde você está. Eu tenho horror dessas coisas doutrinárias gerais quando o indivíduo está se deleitando no mundo das ideias e despreza a situação real da qual ele está partindo. Não que eu tenha horror de que outras pessoas façam isso, podem fazer o quanto quiser, mas eu não gosto de fazer. Cada vez que eu começo a fazer isso, “olha aqui uma doutrina sobre o senso da verdade”, eu me sinto um verdadeiro palhaço. Eu não sou a voz do universo falando, eu não sou a voz de Deus, sou apenas um rapaz latino-americano, sou apenas eu mesmo e eu só tenho um ponto de vista desde o qual eu posso falar que é o ponto de vista desde o qual eu estou, quer dizer, dentro da minha vida, da minha circunstância, aquele negócio do Ortega y Gasset, “yo soy yo e mi circunstancia”. Eu estou numa circunstância determinada e dessa circunstância determinada, claro, eu posso partir para chegar a verdades universais e indeterminadas, mas elas só terão sentido em função deste ponto de partida determinado. Então, nós vamos dar aula sobre o senso da verdade, mas esta aula deve ser considerada como uma introdução ao senso da verdade. Aluno: Recomendaram um livro de Álvaro Vieira Pinto, “Consciência e Realidade Nacional”. Pesquisei e encontrei algumas palavras chave: ISEB e CEPAL. Lendo o livro do Heitor de Paula, “Eixo do Mal Latino-Americano”, encontrei a seguinte referência: “A maioria dos membros do ISEB eram formados por pensadores nacionalistas influenciados pela ideia da CEPAL, entre eles Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Alberto Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Cândido Mendes e Álvaro Vieira Pinto. É interessante porque alguns desses nomes ilustram exatamente o que eu estava dizendo na aula sobre os escritores que foram cooptados por um movimento político e, tentando adaptar-se cada vez mais ao gosto daquele círculo de pessoas que os cercavam, acabaram se castrando intelectualmente. O Roland Corbisier é o exemplo mais característico. Se você ler os primeiros livros dele, especialmente A Responsabilidade das Elites, você vê que é um homem de um enorme talento que poderia ter virado um grande filósofo. Porém, a partir desta data, ele se mete ali no ISEB e vai sendo cada vez mais absorvido dentro do marxismo, até se tornar um simples doutrinador marxista como qualquer outro. Quer dizer, saída de leão, chegada de cão. O que a esquerda fez nessa área da diluição das inteligências dentro de uma pasta doutrinária e propagandística é uma grandeza. Eles destruíram praticamente tudo. Destruíram pessoas, você veja o Otto Maria Carpeaux, semanas antes de morrer, ele estava chorando e dizendo que tinha jogado a vida dele fora. Porém, não podemos esquecer que nos anos 70 ele escreveu, no prefácio da antologia que organizaram para ele, Vinte e Cinco Anos de Literatura, que a sua carreira de escritor e de crítico literário estava encerrada e que dali em diante ele iria apenas se dedicar à luta dos estudantes brasileiros, isto é, dos comunistas. Ele fez isso porque quis e começou a escrever aquela série de artigos ridículos que estão no Batalha da América Latina e no O Brasil no Espelho do Mundo, que são, em geral, informações erradas passadas pelo Partido Comunista e que ele repetia como um idiota. E depois vai pro hospital e diz “joguei minha vida fora”. Não, ele não jogou sua vida fora porque tudo o que ele fez antes disso ficará e já se incorporou no patrimônio brasileiro; muitas gerações vão precisar disso, vai ser útil para muita gente, como é até hoje. Mas, o que ele fez depois, bom, como diz o Jânio Quadros, “fi-lo porque qui-lo”, foi ele quem fez esta opção. Ele também cometeu um erro enorme na vida dele ao renegar o passado austríaco dele. A Vide Editorial vai publicar, proximamente, Caminhos para Roma, que foi o primeiro livro dele publicado na Áustria. E você vão entender então a mudança imensa na cabeça do Carpeaux depois que ele foi pro Brasil. E foi uma mudança para muito pior, foi uma mudança que coincidiu com a decadência dele. E ele termina a vida como um puxa-saco do Alceu Amoroso Lima, que não passava de um puxa-saco do Dom Hélder Câmara. E tudo isso, evidentemente, com a aprovação daquele círculo social do qual ele dependia o seu emprego. No Rio de Janeiro, evidentemente, se você brigasse com o pessoal da esquerda, você só tinha um lugar para correr, que era a revista Manchete, fundada por um judeu russo, Adolpho Bloch, que odiava comunista [0:50] e que era odiado por toda a classe jornalística do Brasil. O Carlos Heitor Cony, quando fechou o Correio da Manhã, o único lugar onde ele conseguiu encontrar emprego foi na revista Manchete. Note bem, o Cony, nos meses que se seguiram ao golpe de 64, virou um herói nacional, um cara que reagia praticamente sozinho contra aquilo. Dois anos depois, ele já tinha virado o demônio, pelo simples fato de trabalhar para o Adolpho Bloch, como se estivesse no arbítrio dele escolher patrão àquela altura. A gente sente no Carpeaux a necessidade de cortejar aquele círculo de pessoas que eram os amigos dele, dos quais dependia seu futuro profissional. Daí aquele negócio que o próprio Carlos Heitor Cony me contou, que o Carpeaux rezava escondido para os caras não saberem que ele era católico, que ia pegar mal. Veja a baixeza da situação. Vários desses decaíram depois. Alguns nunca foram nada, por exemplo, o Nelson Werneck Sodré sempre foi apenas um doutrinário comunista, nunca passou disso. A pessoa de maior talento que tinha ali era o Alberto Guerreiro Ramos. Ele não entrou nesta porque fugiu, veio para os Estados Unidos e continuou pensando do jeito dele. Escreveu um livro muito bom, aliás com um título inspirado no Voegelin, que era A Nova Ciência das Organizações, baseado na nova ciência da política. Ele estudou muito Eric Voegelin e ele é um homem que conservou seu talento até o último dia, porém, no Brasil ele desapareceu, nunca ninguém mais falou em Alberto Guerreiro Ramos, que era o melhor de todos nesse período. Aluno: É correto dizer que o senso da verdade é um dom natural do ser humano? Não, não é um dom natural. O desejo da verdade é um dom natural. Se a busca da verdade não tem um guiamento superior a isso, então não adianta nada. Você pode dizer que é um dom natural, mas que tem que se apoiar no Espírito Santo. Uma das funções usuais do Espírito Santo é a de sustentar a sua busca da verdade. Portanto, ele não é totalmente um dom natural. Aluno: O senso da verdade não seria sustentado ou se confundiria com o amor, no sentido do que o Senhor explicou da contemplação amorosa? Sim. Você conhece a verdade porque você a deseja e você a deseja porque você a ama mesmo antes de conhecê-la. Assim como você ama a Deus antes de conhecê-Lo. Outro dia eu até coloquei uma nota no Facebook dizendo que é muito difícil você amar a Deus porque você não consegue conceber uma bondade ilimitada. Você só consegue conceber a bondade na escala humana – o sujeito que é, no máximo, bonzinho. E tem muita gente que imagina que a santidade é ser bonzinho, que São Francisco de Assis era uma espécie de Betinho. A nossa imaginação é muito mesquinha. À medida que você vai abrindo e entendendo o que é a bondade divina, você entende o seguinte, por exemplo, você vai à igreja, confessa, comunga, etc., mas você não tem amor a Deus, ao contrário. No fundo da sua cabeça, continua aquele discurso de culpar Deus de tudo o que lhe acontece. Eu digo, peraí, mas esse Deus é o Deus que morreu para pagar as ofensas que você fez a ele mesmo. Quer dizer, o ofendido que vai lá e diz “Não, eu me sacrifico para salvar o ofensor”. Deus fez isso. Você já fez alguma coisa parecida? E Deus fez isso não por um, mas por todos. A gente tenta imaginar, por exemplo, a agonia de Cristo no Jardim das Oliveiras, onde ele pensa nos pecados da humanidade inteira, todos os crimes, todas as violências, todas as mentiras, todas as falsidades, tudo, tudo. Pense naquilo tudo e em tudo o que ele tem que carregar. Tente imaginar isso e você, aos poucos, vai entendendo que a bondade divina é inimaginável. Você não consegue transformá-la em um conteúdo da sua consciência. Ao contrário, você tem que ser absorvido por ela. É assim também com o universo, você não pode conceber o universo como um objeto, você está dentro da totalidade. Então, o modo de conhecimento chama-se participação consciente. E a participação consciente começa com a ideia da contemplação amorosa, que é abrir-se ao objeto, amá-lo, ao invés de você querer dominá-lo intelectualmente. Eu não digo que o senso da verdade seja a mesma coisa que a contemplação amorosa, mas ela está no caminho. Aluno: São duas perguntas: o Sr. falou sobre a apatia da sociedade e eu percebo que os advogados... Outro dia eu estava falando com um colega advogado e perguntei se ele já tinha ouvido falar do Foro de São Paulo, e ele pensou que eu estava falando do Fórum de São Paulo. Disse que conhecia, que já esteve lá fazendo umas audiências e eu disse, não, o Foro de São Paulo, aquela reunião lá do pessoal da esquerda... Eu gostaria de saber a que o Senhor atribui isso, um órgão da importância, do tamanho da OAB, que sempre esteve na vanguarda dos movimentos libertários e talvez até do conservadorismo do Brasil. A segunda pergunta seria o seguinte: a maçonaria seria um ponto de partida interessante para a defesa do movimento conservador? Ou a maçonaria é historicamente refratária a isso? Vou responder à segunda pergunta primeiro. Tem muita gente que imagina a maçonaria como uma força dirigente que está por trás dos acontecimentos. Isso é impossível. Porque a maçonaria é o lugar onde aparecem as divisões e as lutas primeiro. O que acontece fora geralmente ecoa brigas que começaram na maçonaria trinta anos antes. Muito mais do que ser uma força dirigente, ela é um termômetro, um sintoma do que se passa, principalmente no Brasil. Quanto ao Foro de São Paulo, a ignorância que as pessoas têm do Foro de São Paulo é uma das coisas mais espantosas que eu vi na minha vida. Você até comparou com a OAB, mas a comparação é muito modesta. O Foro de São Paulo é a maior organização política que já existiu em toda a história do continente latino-americano. Nunca houve uma coisa que congregasse duzentos partidos políticos, mais gangues de narcotraficantes, organizações terroristas etc., com um tremendo apoio internacional. Nunca existiu uma coisa desse tamanho. O Foro de São Paulo se torna invisível pelo seu tamanho, ele é maior do que a imaginação das pessoas. Também, você sempre tem o problema de que, assim como você não consegue imaginar a bondade divina, você não consegue imaginar o mal além de uma certa medida. E a medida, em geral, mesmo aqui nos Estados Unidos, é bastante modesta. Quando o sujeito quer imaginar o mal, ele imagina um pedófilo, um assassino de criança, você não consegue ir além disso, você permanece numa escala do mal humano chinfrim, caipira. E, ao longo do tempo, quando você vai vendo a verdadeira malícia, uma malícia demoníaca, capaz de agir ao longo de muitos séculos, você fica assustado com isso. E justamente pra isso é que nós precisamos estudar para ampliar a nossa imaginação e podermos nivelá-la às exigências da própria realidade, que não cabem no nosso caipirismo, no nosso provincianismo. Em suma, para entender as coisas, você tem que crescer um pouco. Agora, em geral, as pessoas fazem o contrário, elas não querem crescer, porque para crescer, elas vão ter que ver uma coisa que está para além dela e que vai dar medo. Até a bondade divina inspira medo, quanto mais o mal. Então, a pessoa não quer ver, não quer sair do bercinho, mas ao mesmo tempo quer exercer os privilégios de ser um cidadão adulto, que tem opinião sobre isso, sobre aquilo. Então, essa espécie de irresponsabilidade opinativa virou, no Brasil, um direito. Todo mundo tem o direito de opinar sobre qualquer coisa e, pior, tem o direito de que os outros ouçam. Por exemplo, eu venho aqui no fim de semana e falo durante uma hora, uma hora e meia. Mas, durante a semana, eu pensei durante oito ou nove horas nisso. Sem contar o que eu já tinha pensado antes. Então eu adquiri o direito [1:00] de ser ouvido pela quantidade de atenção que eu dei ao assunto. Agora, se eu não pensei nem dois minutos sobre o assunto, eu quero que me escutem durante duas horas? Isso é claro que é infantilidade. No Brasil está todo mundo assim. E está assim porque não existe uma camada de intelectuais capaz de transmitir às pessoas exatamente o padrão, a medida, do que é uma verdadeira discussão. Enquanto não houver isso, nós vamos continuar nesse negócio fragmentado – cada grupinho de três pessoas tem lá o seu mundo particular e acha que aquilo é o universo inteiro. O Facebook, e antigamente o Orkut, é um mostruário dessas coisas. São opiniões extravagantes, opiniões que não têm nada a ver com nada, que nem tem como você comparar com outras opiniões, porque não estão falando a mesma coisa. Pessoas que nem sequer dominam a linguagem, que não sabem falar e que, no entanto, querem opinar sobre tudo. Você não vê agora aqueles deputados e senadores analfabetos querendo baixar uma nova lei ortográfica? Mas, eu digo, você não sabe escrever, como é que você vai dizer como é que eu devo escrever? Você vai me ensinar a escrever agora? Então precisamos sugerir aquela lei, vamos votar uma lei dizendo: é proibido o sujeito sugerir modificações ortográficas se ele não se comprovar, primeiro, um dominador suficiente da língua. Você é alguém do ramo? Você é um gramático, um escritor, e domina a língua? Se sim, então você pode falar. Fora disso, não. Nós já temos esse vexame de uma reforma ortográfica assinada por analfabetos, reforma que eu não vou obedecer. Agora querem fazer uma outra, pior ainda? Isso aí é sintoma de loucura. Você veja, a ortografia francesa foi fixada pela Academia Francesa no século XVIII e nunca mais mudou. E ninguém está sentindo falta. Existe uma série de problemas na grafia. Na França, você tem, às vezes, vinte palavras que tem o mesmo som e que significam coisas diferentes e ninguém se atrapalha por causa disso porque você vai aprendendo, vamos dizer, a língua não é um código no qual esteja tudo resolvido de antemão. A língua requer prática e possui boa parte do seu aprendizado invisível, ou seja, está na capacidade de audição, na sensibilidade da pessoa. Isto é justamente o que é aprender a língua. Agora, querem transformar o negócio simplesmente em um manual do usuário. A própria concepção mostra que o sujeito não entende nada do que ele está falando. Esta sua pergunta, você fala com um advogado sobre o Foro de São Paulo e ele pensa que é o Fórum, o tribunal lá de São Paulo, pode acontecer isso aí. Você não é o primeiro que me conta isso, não, já aconteceu outras vezes. O pessoal está totalmente por fora. E, no Brasil, é normal estar por fora e dar palpite. Isso não é uma crítica que eu estou fazendo da sociedade brasileira, eu não estou falando isso desde cima, do ponto de vista de quem condena um país, claro que não. Eu sou um brasileiro também, eu estou sofrendo com isso. Isso não é uma bronca que eu estou dando no Brasil, eu estou falando de uma situação dramática que nós temos que resolver. E só tem um jeito de resolver: tem que criar uma camada de intelectuais e um pessoal em volta observando as discussões entre os intelectuais, aprendendo a discutir também. Então, eu acho que hoje já foi, acabou o nosso tempo. Tem várias perguntas interessantes aqui, tem uma longa pergunta. Esse é o problema, às vezes a pessoa manda uma pergunta muito interessante, mas enorme, eu não sei o que fazer com a pergunta. Eu li, estou notificado e agradeço. Até a semana que vem, muito obrigado. Transcrição: Charles Santos e Rodrigo Souza. Revisão: Éricson Rojahn.