Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 258 2 de agosto de 2014 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Eu queria continuar com algumas explicações das notinhas que coloquei no Facebook na outra semana e talvez mais algumas que coloquei esta semana. Eu já o uso exatamente como livro de anotações das coisas que pretendo depois desenvolver em aula. Apareceram também no Facebook algumas perguntas, mas elas escapam bastante daquilo que seria o assunto de hoje, e tem mais a ver com as ultimas notas que eu coloquei lá a partir das minhas observações sobre Peter Kingsley. Ele escreveu livros importantes de fases da filosofia antiga, é um grande estudioso de Empédocles, mas depois, com base nisso, criou uma espécie de mística da espiritualidade global e está enganando todo mundo com esta porcaria. É uma coisa absolutamente lamentável; se o sujeito é um erudito universitário, por que não se contenta com isso, por que quer posar de mestre espiritual? Esse era também um problema de Frithjof Schuon, na verdade em outra escala, muito mais elevada, evidentemente. Schuon era um grande filósofo, um grande pensador, um grande escritor, um grande artista, mas ele acreditava ser um mestre espiritual, mas é evidente que não era. O que eu observei nele foi: era uma inteligência brilhante, fora do comum, um gênio mesmo, mas com uma falta de discernimento psicológico que em um mestre espiritual, em um sujeito que pretende guiar espiritualmente os outros, é absolutamente imperdoável. Ele não tem de entender só das idéias, das doutrinas, do absoluto, mas tem de entender a alma dos seus discípulos; tem de ser capaz de perceber o que se passa ali, ou pelo menos ter uma intuição da camada de personalidade em que o sujeito está. E ele era absolutamente “tapado” nessas coisas, se cercava de “puxa-sacos”, gente da mais baixa qualidade, desconfiava das pessoas erradas e confiava nas pessoas erradas. Portanto, eu pensei que isso era como um barco com piloto bêbado. Isso, evidentemente, não diminui em nada o mérito da obra escrita [dele] – esta é toda maravilhosa. Era como guia das pessoas na prática espiritual que ele falhava e se confundia. O que também não quer dizer que em algum dos seus confrontos polêmicos ele não tenha tido razão, como teve na discussão com [René] Guénon, sobre os sacramentos cristãos – ele estava com a razão e Guénon se limitou a ficar bravo e romper relações com ele; que é o que se faz quando não tem mais o que argumentar mais. Porque se você tem o argumento e está discutindo com um amigo, senta e explica para ele uma, duas, três, dez vezes. Os próprios inquisidores no tempo do Santo Ofício faziam isso: antes de acusar um sujeito de qualquer coisa, eles iam pessoalmente discutir com a pessoa, ou para ver se ele tinha razões ou para mudar a idéia da cabeça dele. Por exemplo, o inquisidor de Pedro Abelardo foi São Bernardo de Claraval, que era um amigo de infância dele. E ficou lá meses, vendo se mudava a cabeça do sujeito, e não conseguiu. Guénon, porém, ao primeiro sinal de que Schuon discordava dele, simplesmente mandou um recado: avisem ao Schuon que se ele vier aqui, eu não vou recebê-lo; quer dizer, ficou “brabinho”. A tese de Guénon era de que o cristianismo tinha surgido como um esoterismo, isto é, como se fosse uma sociedade iniciática, e que em função das necessidades, da decadência da religião romana, ele se tornou exotérico, cresceu além do que estava previsto no inicio, e que, então, os sacramentos cristãos perderam seu caráter iniciático, ou então havia outros ritos que ele substituiu. E Schuon disse que isso era inteiramente absurdo, que os ritos eram iniciáticos desde o começo e teriam de continuar iniciáticos para sempre. Em função disso, e sobre Peter Kingsley, surgiram algumas questões que talvez voltemos a discutir no fim da aula. Eu gostaria de voltar àquelas notinhas que tinha feito sobre a teoria da percepção, que acredito que sejam a base. Para o sujeito entrar em uma via de estudo filosófico frutífera, ele tem de levar isso em consideração desde o início. E o primeiro [assunto a tratar] é sobre o conhecimento por presença: sem isto, não se vai à parte alguma. Você não pode nem provar, por meio de uma prova lógica, que o mundo exterior existe, e muito menos pode perceber este mundo exterior como um todo: quer dizer, todas as nossas percepções são fragmentárias e todas as nossas demonstrações lógicas se apoiam em dados que colhemos dos sentidos. De modo que se nós acreditarmos por um único minuto que o mundo, a existência do universo, depende de uma prova nossa, ou de uma confirmação nossa, jamais obteremos essa confirmação. Mas o fato é que só [é possível] colocar esse problema porque havia uma presença anterior. Esta presença, por sua vez, não pode ser provada, porque ela é a base de toda prova possível. Até para você provar que todo o mundo exterior existe somente na sua mente, até para isso, você precisa de que ele esteja presente. Se estivesse absolutamente ausente, esse problema jamais se colocaria; então, o fenômeno básico é a presença. Porém, a presença é constante e não é eliminável. Se você pensar, por exemplo, que nada existe, algo continua existindo. É a famosa tese de Mario Ferreira dos Santos: algo existe, algo há; um algo sempre há, uma presença sempre há. Então, por que deveríamos supor que é a nossa mente, é o nosso aparato raciocinante, que deveria fundamentar isto ao invés de fazer o contrário? Se algo se impõe a você como condição da pergunta que você formula a respeito, é evidente que a resposta à pergunta não vai poder abarcar esta pré-condição e prová-la ou fundamentá-la. As percepções humanas não se destinam a testemunhar para nós a existência de um mundo, porque elas pressupõem a existência desse mundo. Elas não podem provar o mundo porque se recortam dentro dele. Então, o mundo não depende das nossas percepções, mas elas dependem do mundo, que se oferecem a nós apenas como uma presença, a presença de um algo indefinido, que não é nem objetivo nem subjetivo. Todas as distinções são evidentemente posteriores. Mas, se ao invés de partir dessa presença do mundo, você colocar perguntas e tentar obter uma prova da existência dele, estará fazendo um exercício puramente mental. O que você deveria fazer é aprofundar a consciência dessa presença. E quando faz isso, está adquirindo uma posição real e efetiva no concerto das coisas. Vocês devem se lembrar de alguns exercícios que eu dei no começo deste curso – eu não sei se fizeram – e que um deles seria deitar no chão – no jardim, na grama – em uma noite escura, sem lua, e se conscientizar da presença do chão embaixo de você e da densidade desse chão. Quando se deita no chão, você sabe que ele não é só um plano, sabe que ele tem uma profundidade, senão não se deitaria ali. Ninguém pode se deitar em uma folha de papel, ou, mais ainda, em uma figura bidimensional. O papel ainda tem alguma espessura, mas imagine você deitar em uma superfície sem espessura. O fato de você deitar já te ensina, ilustra isso: a densidade do chão no qual você está deitado em confronto com o espaço que se abre dentro de você. [É importante] conscientizar-se, por exemplo, das três direções do espaço, saber que elas estão em toda parte, onde você for elas estarão lá. E tudo o que existe para nós fisicamente, tudo que nos é acessível, obedece a essas três direções. Foi a pergunta que coloquei hoje mesmo no Facebook: “eu vejo tudo em três dimensões por que meu olho exprime tudo em um molde tridimensional – essa é a tese do Kant: nós recebemos informações caóticas e fragmentárias, como uma poeira de impressões, e nós a estruturamos na forma do espaço, na tridimensionalidade – ou por que meu olho é ele próprio um corpo tridimensional, sujeito às leis do espaço que o abrangem e o transcendem ilimitadamente?" É evidente que se meu olho não fosse tridimensional, eu não poderia perceber tridimensionalidade alguma. Portanto, não pode ser o olho, não pode ser o sujeito que determina a tridimensionalidade, desde que as informações que ele recebe a respeito venham do seu próprio corpo, o qual está dentro da tridimensionalidade. Se fosse bidimensional, não perceberia coisa alguma. Se Kant tivesse feito esta pergunta, ele escreveria “A Crítica da Crítica da Razão Pura”. O subjetivismo se impregnou na filosofia ocidental de tal maneira que – até assinalei isso na aula passada – a palavra perception em inglês quer dizer apenas o fenômeno subjetivo, quando, na verdade, o fenômeno subjetivo é apenas uma impressão, uma sensação. Nem é uma impressão, é uma sensação, porque “impressão” supõe um impressor. Se você usa a palavra “percepção” para designar apenas a experiência subjetiva, ou seja, a sensação, o que você passa a chamar de realidade não pode ser o percebido evidentemente: existe a percepção de um lado, existe a realidade de outro e existe um abismo entre as duas. Quem vai tapar este abismo? É a ciência, que vai dizer o que é a realidade. Acontece que as ciências só operam sobre um recorte pré-determinado, que nunca abrange o mundo concreto enquanto tal, mas somente uma fração dele, que é recortada e definida segundo o interesse da pesquisa, segundo a pergunta que se está fazendo. Se você juntar todas as perspectivas científicas possíveis, jamais vai compor um mundo concreto, porque todos esses recortes dependem de que haja uma presença sobre a qual você opere o recorte. O conhecimento por presença é o fundamento da possibilidade de qualquer conhecimento, sobretudo o conhecimento científico, e não cabe, evidentemente, à ciência dizer o que é a realidade. No entanto, grande parte da autoridade quase religiosa que a comunidade científica adquiriu vem desse subjetivismo moderno: todas as nossas impressões são puramente subjetivas, ninguém conhece o mundo real, então nós temos de perguntar a uma autoridade superior, que nos dirá que só faz parte do mundo objetivo aquilo que foi obtido por medição e comparação. Mas medição é uma atividade eminentemente subjetiva, é algo que o ser humano faz. Assim, isso quer dizer que o mundo real é constituído das medidas que eu tomei, das medições que eu operei e tudo mais é subjetivo. Isso, evidentemente, é uma inversão tremenda, e se você investigar direito, verá que tudo aquilo que designei em outro estudo como inversão revolucionária não teria sido possível sem esta inversão inicial. Nós podemos falar realmente de uma inversão, ou perversão da percepção do mundo, que permeia quase três séculos de filosofia. É claro que nem todos os filósofos foram infectados por isso: o bom e velho Leibniz jamais caiu nessa. Existem muitos outros filósofos que não se deixaram arrastar para isso. Quando eu digo que essa ideia se alastrou pelo Ocidente, ela se alastrou pela comunidade acadêmica, em geral pelo mainstream, mas isso jamais afetou a percepção que as pessoas comuns têm da realidade, e também não afetou a percepção que vários filósofos individuais, maiores do que outros, tinham durante este período. Quando se vê o mainstream fanaticamente cartesiano e newtoniano no tempo de Leibniz, e este nadando contra a corrente, percebe-se que ele era maior do que todos os outros juntos, maior do que o próprio Newton. A inteligência de Newton era grande, mas era muito limitada, especializada em uma certa área; por exemplo, se você pega os trabalhos teológicos de Newton, eles têm pouquíssimo valor hoje em dia, ao passo que tudo que Leibniz escreveu sobre qualquer assunto tem cada vez mais importância: teologia, jurisprudência, física, ética, religião, metafisica etc. Leibniz foi certamente o maior gênio do Ocidente desde Aristóteles. E ele nunca se deixou enganar por isso, sempre soube que, para um objeto existir não basta que ele tenha medidas, que seja uma coisa extensa, ele precisa ser alguma coisa. Pegue uma banana e um tratado de epistemologia. Meça os dois em todas as direções possíveis e imagináveis: você não vai descobrir a diferença entre uma coisa e a outra, porque isso não vem das suas medidas espaciais, mas do fato de que elas são algo. A velha noção aristotélica da forma substancial é absolutamente indispensável para conseguir equacionar a relação correta entre as percepções – que são evidentemente apreensões do mundo objetivo, mas parciais – e a presença da realidade como um todo que embasa isso. Toda a questão é esta: percepções todo mundo tem, mas ou esse mundo das nossas percepções se abre ao conhecimento por presença, que está embaixo delas, ou ele se fecha, pretende constituir o todo da realidade, e o passo seguinte será reduzir ainda mais esse mundo da percepção, aceitando nele só aquilo que foi contado, pesado, medido por tal ou qual ciência. E aí inverte-se a ordem natural das coisas, e sem essa profunda perversão da inteligência humana eu creio que a mentalidade revolucionária jamais teria tido a menor credibilidade. É evidente que nem Descartes, nem Newton, nem nenhum dos outros pretendia fazer uma revolução, não era esse o objetivo; mas a possibilidade de grandes erros, e de erros desastrosos, na esfera da política, da moral e da conduta diária das pessoas, só é aberta se existe antes um erro mais profundo e menos perceptível na esfera da lógica e do pensamento. Primeiro, quebram-se os princípios do pensamento humano para que depois essas distorções possam se acumular à vontade. É claro que existe algo a ser corrigido, porém, é importante o seguinte: as pessoas podem perguntar qual é a diferença entre o que eu estou dizendo e o que diz Peter Kingsley: que durante dois mil e quatrocentos anos houve uma distorção, uma falsificação completa, e agora nós descobrimos a verdade. Em primeiro lugar, há uma diferença de proporção: eu acabei de dizer que durante esses trezentos anos de primado do idealismo moderno, nem todo mundo se deixou enganar. Na verdade, era apenas uma facção minoritária, só que era a mais falante, que acreditava nessas coisas, e o restante continuava percebendo de acordo com o padrão natural e universal, embora, às vezes, sem conseguir formulá-lo verbalmente, e é esse o problema. Existe um sujeito que está percebendo a verdade, mas ela é demasiado complexa para que ele a formule, enquanto existe outro que percebe uma mentira simplificada e consegue explicá-la perfeitamente. Isso acontece com frequência; então, a verdade estará do lado da facção muda, da facção que não consegue se expressar. Eu estou falando de um período muito breve, e não de um engano universal, ao passo que Kingsley diz que depois de Empédocles todo mundo falsificou tudo, então temos de voltar a Empédocles. É claro que isso é loucura. A possibilidade de que todo mundo tenha se enganado e só o Peter Kingsley tenha despertado para a realidade é mínima, ou seja, isso é uma presunção absolutamente megalômana na qual, graças a Deus, eu jamais caí. Nós podemos corrigir erros muito duráveis, mas nunca vamos poder corrigir a humanidade inteira. Nem mesmo as tradições de dois mil anos, de cinco mil anos. Então, na outra semana eu coloquei a seguinte nota: “Provas só servem para dar validade social a uma crença esquemática, que simboliza de uma maneira distante e vaga alguma intuição originária.” A intuição originária é sempre pessoal e intransferível, você não pode passar para alguém algo que percebeu. O destino do ser humano é ser sempre a testemunha solitária da verdade; o que ele pode transmitir ao outro é uma representação esquemática, na vaga esperança de que ele consiga, por seus próprios meios, obter uma intuição originária semelhante à dele. Mas isso jamais é garantido; quer dizer, entender o sentido de uma afirmação não significa jamais compreender a realidade que está por trás dela. Entender o sentido de uma afirmação lógica é uma coisa e entender os fatos e coisas a que aquilo se refere é outra completamente diferente. Somente este ponto já daria para dar uma aula inteira. Hoje mesmo eu coloquei no Facebook uma coisa que aprendi com Schuon: ele dizia que o sentimento de concordância que você tem diante de uma afirmação não quer dizer que a compreendeu; quer dizer apenas que você tem a aptidão para talvez vir a compreendê-la um dia. Isso é a uma das grandes dificuldades da vida humana: a linguagem humana sempre pressupõe a presença do mundo, o mundo é o mediador da linguagem humana; ou seja, longe de a linguagem abarcar o mundo como uma rede que o contém, ao contrário, ela só interconecta pessoas e suas percepções de maneira sempre parcial e fragmentária. Tudo isso ocorre dentro de um mundo que é o suporte da linguagem. Se o mundo for retirado, a linguagem desaparece, evidentemente. Então, se não houvesse coisas, fatos e processos ocorrendo em torno de nós, simplesmente não conseguiríamos falar. Qualquer frase, por mais banal que seja, pressupõe a presença de um mundo, que é conhecido e compartilhado pelo falante e pelo ouvinte. É por isso que digo que a linguagem nunca chega a ser um sistema, ela tende a se estabilizar como um sistema, mas é constantemente diluída, pelo falo de que a realidade, que ela não abrange, a penetra e a absorve. O próprio Deus, quando decide fazer uma Revelação, se submete às limitações da linguagem humana, assim como Cristo se submeteu às limitações da condição corporal humana: Ele teve de comer, dormir e sentir a dor como todo mundo. Quando Deus fala aos profetas, Ele se submete voluntariamente às limitações da linguagem humana. Então, a mensagem divina é transmitida numa linguagem humana. É evidente que daí surge uma situação ambígua na qual o valor, a importância, a riqueza da mensagem transcende infinitamente a própria fórmula verbal usada. E acontece o seguinte: a linguagem humana tem uma espécie de ambiguidade, ou um caráter paradoxal, que é inerente a ela. Santo Tomás de Aquino dizia que nós falamos com palavras, mas Deus fala com palavras, coisas, seres e fatos. Nós não temos essa propriedade, porque aquilo que Deus fala é a realidade, a própria realidade é um discurso divino. É por isso mesmo que o discurso divino vem com autoridade absolutamente avassaladora. A linguagem humana não tem essa propriedade, ela opera através de signos, coisas que substituem outras. Por exemplo, um signo, um grafismo, substitui “um animal”. [Por exemplo], eu desenho um elefante ao invés de mostrar um elefante, supondo que você também saiba o que é um elefante e que, ao ouvir esse som, você vai saber o que eu estou falando. Mas esse “do que”, o famoso referente, nunca está presente na linguagem, isto é uma coisa básica. O que está presente na linguagem é o signo e o significado. O referente é uma coisa externa que transcende infinitamente a linguagem. E por isto mesmo, como nós não somos capazes de fazer como Deus, isto é, presentificar sobre formas existenciais, ontológicas, corporais, as coisas das quais falamos, temos de contar com a memória do ouvinte e com a sua capacidade de associar uma coisa à outra. E a própria língua dos profetas, a língua em que Deus ditou aos profetas, sofre essa limitação também. Então, uma das limitações estruturais – não é bem uma limitação, apenas uma característica estrutural da linguagem humana – é que nenhuma afirmação por si mesma traz completamente à nossa consciência os seres e coisas de que se trata. Ela dá apenas os seus nomes. Ora, os nomes também adquirem diferentes conotações em diferentes situações. Isto é o mesmo que dizer que nenhuma frase ou afirmação humana por si mesma é inteligível. Nenhuma informação humana isoladamente é inteligível, o que cria para nós um equivalente linguístico ou lógico da realidade, de modo que o seu pensamento tenha alguma apreensão sobre ela. Trata-se do uso do contraste dialético. É por isso que tudo aquilo que é afirmado só adquire alguma consistência para nós em comparação com aquilo que está negado ali mesmo. Por exemplo, toda afirmação contém a negação de alguma negação. Às vezes não é uma negação só, são várias, ou seja, toda afirmação humana pressupõe uma discussão, é uma intervenção numa discussão. O próprio Deus, quando decide falar em linguagem humana, se submete a essa limitação. Quando, por exemplo, você lê qualquer frase do Evangelho, vai ver que nenhuma dessas frases se impõe por si, sem ter por trás de si todo um leque de negações e atenuações dentro da qual ela adquire um sentido. Quando o Apóstolo fala: “Nele vivemos, nos movemos e somos.” [Atos 17,28a], esta frase pode facilmente ser interpretada no sentido panteísta, quer dizer, Deus seria o universo. Nada na frase impede que você a interprete assim. Logo, a possibilidade da interpretação errada já está dada na própria frase, e você, para saber que não foi isso que o Apóstolo dizia, precisa não só comparar essa frase com outras, com outros dados obtidos do Evangelho, mas tem de confrontar essas várias acepções possíveis, essas várias interpretações possíveis, para saber quais são as mais razoáveis. Isto quer dizer que a audição de qualquer afirmação pressupõe um rápido trabalho dialético dentro da mente humana. Este trabalho, é claro, pode ser desacelerado e reproduzido, por exemplo, eu posso explicitar toda a constelação de dúvidas e ambigüidades dentro de mim ao ouvir a frase, até que eu chegasse a uma conclusão quanto ao significado preciso da frase, ou quanto à intenção do falante. Isso quer dizer que, para toda percepção da realidade até a formulação de uma afirmação geral que a torne acessível a vários ouvintes e lhe dê alguma validade social, o caminho é longo, complexo e cheio de erros possíveis. Na Bíblia, vê-se que o próprio Deus é obrigado, na medida em que Ele fala a linguagem humana e se submete às limitações dela, a explicar a mesma coisa de várias maneiras e sob vários ângulos. Você pode fazer uma idéia disso quando compara com um desenho. Para desenhar algo do mundo exterior, você tem que medi-lo em várias direções, isto é, você vai usar um processo dialético. Por exemplo: eu estou vendo uma pessoa sentada no sofá, ela tem certa distância em relação ao braço do sofá, uma distância em relação ao outro braço do sofá, eu já formo ali um contraste para poder localizá-la. Ou seja, há todo um sistema de coordenadas cartesianas que é feito de medidas opostas, contrárias e convergentes de algum modo. Qualquer pessoa que tem um mínimo de treinamento em desenho sabe que as coisas são assim. E na linguagem passa-se o mesmo. Assim como nenhum traço isolado do desenho pode corresponder à realidade sem um conjunto de proporções e relações com outros aspectos em volta, do mesmo modo nenhuma frase por si mesma pode expressar a realidade, a não ser dentro de todo um sistema de comparações, antíteses etc. A mente humana faz tudo isto automaticamente com uma velocidade absolutamente impressionante. Faz e em seguida esquece. Às vezes, não se percebe todo o trabalho que houve para entender uma simples frase. O fato deste trabalho ser rápido, e estar quase automatizado não quer dizer que ele não exista. Todo filósofo com algum treinamento tem de saber que, entre a verdade que ele percebeu e a formulação verbal que ele lhe deu, existe uma distância, um problema e uma tensão por assim dizer. Se ele pretende que essa sua afirmação adquira uma validade universal, isto é, seja universalmente obrigante, ele vai ter um trabalho praticamente sem fim! O próprio sentido da frase depende da refutação das frases alternativas que a negam. Então, a frase solta por si não significa absolutamente nada. Nenhuma frase solta por si significa nada. Nem mesmo as da Bíblia, porque, se você disser “a linguagem da Bíblia é a linguagem divina”, [estará errado]. A linguagem da Bíblia é a linguagem divina adaptada à língua humana. Por exemplo, quando Deus narra a travessia do Mar Vermelho, em que Moisés abre as águas e passa no meio delas, e surge o Faraó atrás e as suas tropas são submergidas pelas águas, o que você está lendo ali não é a palavra divina. A palavra divina foi o que fez isso acontecer! Aquilo é o Verbo Divino, que criou a realidade deste mundo. Ele criou, o mantém, e o opera o tempo todo! E a versão narrada na Bíblia é só um aspecto muito remoto disso. Mas e o fato mesmo? Este é indescritível. Porque se você for descrever com todos os detalhes tudo o que se passou ali, não terminaria nunca. Então, se você disser que a linguagem divina é o que está na Bíblia, estará se esquecendo que a linguagem divina não só escreve livros, mas faz coisas. E ela eminentemente faz coisas por quê? Porque [é o que] está na Bíblia: no princípio era o Verbo. E o Verbo criou tudo o que existe! Se o próprio Deus, para falar aos homens, se submete às limitações da linguagem humana, mais ainda temos nós de aceitar as limitações da nossa linguagem e entender que aquilo que é realidade, que é verdade, só é longinquamente representável na linguagem, e isto só funciona porque nós sabemos a verdade anteriormente à linguagem. Volto ao exemplo: você viu o sujeito matar outro, você é a única testemunha, não tinha mais ninguém no lugar. O crime e o criminoso desapareceram, não há testemunhas e não há outro modo de se chegar ao criminoso, a não ser através do seu testemunho. Então é uma verdade que só você conhece, e a conhece por evidência imediata. E por isto mesmo você não pode prová-la para ninguém, porque você é que é um dos elementos da prova. Esta é a situação humana mais constante: saber a verdade e não poder prová-la, não poder transmiti-la. Isso é o normal do ser humano. E nós temos que saber que todos os homens são assim. Todos eles sabem infinitamente mais verdades do que seriam capazes, já não digo nem de provar, mas até de expressar. Isto quer dizer que a transmutação de uma verdade numa afirmação já é um processo altamente redutor, e esse processo só funciona porque você supõe que o seu ouvinte ou o seu leitor, tem na cabeça um descompactador, que é capaz de assimilar aquela pequena forma e evocar experiências similares enormemente complexas. Todos são capazes de fazer isso. Por exemplo, eu digo para a Roxane: “Roxane, por favor, vá ali no posto e compre um maço de cigarro para mim.” Veja quanta coisa ela precisa saber para entender esta simples frase: o que é posto, o que é gasolina, o que sou eu, o que é cigarro, o que é pedido, o que é atender um pedido, tudo isso ela tem que saber instantaneamente para poder entender esta simples frase. O conjunto dos conhecimentos requeridos para entender isto não é verbalmente expressável. E isto está sempre presente em toda comunicação. Se a passagem da percepção à afirmação é um processo morbidamente redutor, mais redutor ainda é o processo que vai transformar esta frase numa afirmativa universal passível de prova, a qual vai provar apenas a validade interna desta afirmação. Quer dizer, ela não tem contradição, não contradiz outros dados disponíveis. Mas nada disto seria possível se o conjunto, o universo inteiro dos conhecimentos subetendidos na compreensão desta frase não estivesse presente em cada um dos ouvintes. É por isso que eu digo que dar uma importância excessiva à prova, é um sinal de inversão. Nós estamos buscando o quê? A verdade. Todos nós temos o conhecimentos por presença, temos o universo e somos capazes de entender a linguagem, portanto, capazes de invocar imediatamente uma constelação inteira de imagens, associações e idéias, sem as quais nenhuma frase seria compreensível. Todos nós somos capazes de fazer isto! Então isto quer dizer que estamos o tempo todo nos comunicando como se fosse através de um fiozinho verbal que não contém a totalidade do que nós estamos transmitindo, mas apenas alude a ela, dentro de um sistema de signos em particular que é a linguagem falada e escrita. Toda discussão e toda prova, portanto, ocorrem dentro da esfera lógico verbal, não sai dela. E nada disso valeria se cada um de nós não tivesse o conhecimento por presença, a capacidade da intuição de evidências. É por isso que, em geral, provar é quase sempre uma ocupação de desocupados. E provas só surgem, evidentemente, quando há uma contestação. A prova consiste apenas em dar a uma afirmação credibilidade suficiente para que outros a verifiquem por si mesmos. Mas a melhor das provas ainda dependerá de que eles queiram fazer essa verificação. Portanto, o que importante não é provar nada, mas evocar nas pessoas esta capacidade de trazer de dentro de si, das suas memórias, das suas experiências etc., os elementos necessários para entender o que o outro está falando. Isto é o verdadeiro esforço: apreender a verdade da maneira mais franca e aberta possível, e chamar outras pessoas para que participem desta verdade, desta experiência. Mais adiante eu dizia assim: “A minha própria continuidade não pode ser percebida como objeto dos meus pensamentos. Mas se impõe a mim de maneira avassaladora como condição sine qua non da minha possibilidade de pensar.” É evidente que, se eu não tivesse continuidade alguma, eu não poderia completar um silogismo, porque, como posso saber que a pessoa que chegou à conclusão é a mesma que formulou a premissa? A própria possibilidade do raciocínio se baseia na nossa continuidade ontológica e temporal, assim como na continuidade temporal do mundo. Eu não posso provar essa continuidade porque toda prova se baseia nela. É isto o que eu chamo de “conhecimento por presença”, ou seja, a presença de uma realidade sem a qual nenhuma pergunta seria feita. E supor que um conjunto de afirmações que você faça, isto é, uma “filosofia”, vai poder abarcar e fundamentar isto, é loucura. A filosofia jamais teve esta função. Ela tem apenas a função de esclarecer certas experiências para que outras pessoas possam participar delas. Em todos os diálogos socráticos, é exatamente isso que o Sócrates está fazendo o tempo todo: Ele chama as pessoas para que testemunhem pela sua própria experiência, o que ele está dizendo. Testemunhem, e não provem. Se o indivíduo percebe que ele não pode dar uma prova da sua própria continuidade ou da continuidade do mundo, e em seguida diz que esta continuidade é só uma crença – como faz – ele estará redondamente enganado. Porque a crença que eu posso ter é numa afirmação, que resume o que designa longinquamente a experiência da continuidade do mundo. Eu posso crer nesta frase, mas na continuidade do mundo eu não posso nem crer nem descrer, porque ela é a condição para que eu creia ou descreia. Assim como quando a pessoa fala “você crê ou não crê em Deus?”, geralmente ocorre a mesma confusão. Ou seja, você crê em Deus, ou você crê numa afirmação de que Deus existe? A afirmação de que Deus existe, não contém em si nenhuma presença de Deus. Ela é apenas uma coisa que um ser humano falou. Você pode discutir esta afirmação o tempo todo, e nunca vai chegar à conclusão alguma. Se você não pode sequer provar a sua continuidade, como vai provar a existência do Eterno, do absoluto, do imutável, do infinito etc.? Tudo isto é o pressuposto para que se possa falar a respeito, e tudo o que você diga jamais vai abarcar isto de tal maneira a poder prová-lo. Sobrepor a busca da prova à busca da verdade é a grande perversão da modernidade, porque a prova é a moeda de troca, ela tem circulação na sociedade, e o conhecimento da verdade não tem. O conhecimento da verdade não é transferível. O que é transferível são apenas os signos dela, que são como se fossem comida em pó, como um leite em pó, em que você tem que botar água para transformá-lo em leite novamente. E onde está a água? Não pode estar no próprio leite em pó. Não tem leite em pó que já venha misturado na água. A água é você que tem de fornecer desde fora. É por isso mesmo que o pressuposto cartesiano de “deve-se duvidar de tudo, devo duvidar de tudo o que não tenha prova suficiente” é a coisa mais impossível que alguém já propôs fazer, porque a prova é um pequeno fragmento do conhecimento da verdade. O que o filósofo deveria fazer é o contrário: aprofundar nas pessoas a experiência da verdade, ainda que não possa prová-la. Provar uma coisa só serve para você adquirir uma autoridade sobre o vizinho. Provar não aumenta em nada o seu conhecimento, isto é básico! Aristóteles já dizia isto: a prova lógica não acrescenta nada. Ela só dá alguma solidez, alguma consistência a coisas que já se disse. O que interessa, portanto, não é obter a prova, mas o conhecimento. A prova é necessária só em certas circunstâncias muito especiais. Por exemplo, no maravilhoso livro de Alois Demphil, A Concepção do Mundo na Idade Média ̶ que na verdade é um título exagerado, pois esse livro é a história dos gêneros literários nos quais a Igreja se expressou ̶ , [o autor] diz que durante séculos os apologistas da Igreja, os pregadores, respondiam apenas a objeções determinadas, uma aqui, outra ali, e explicavam apenas pontos que as pessoas consideravam obscuros. Passaram-se mais de 10 séculos antes que eles se lembrassem de sistematizar um conjunto de provas. Ora, algo que durante 10 séculos pôde ficar para depois não é tão importante assim! Tornou-se importante por certas circunstâncias sociais e históricas particulares. O próprio Evangelho [significa] “uma boa notícia”, é uma boa nova, ou seja, é a narrativa de um fato. O fato ele tem uma autoridade por si mesmo. E quando você o transmite, pode fazê-lo de duas maneiras diferentes: uma é puramente verbal, quer dizer, apenas narrando; a outra ocorre quando você exemplifica a continuidade daquele fato no tempo, na medida em que você, como um santo, opera milagres em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. [Neste último caso], o fato de certo modo ainda está presente, mas na expressão meramente verbal ele é somente aludido. Você pode perceber imediatamente a diferença brutal entre essas duas coisas. Existe uma enorme diferença entre ouvir uma pregação na igreja e ouvir esta mesma pregação do homem que naquele mesmo momento opera um milagre em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. São fenômenos completamente diferentes. O milagre é a continuidade do fato que está presente diante de você, ao passo que a transmissão verbal é apenas a alusão a fatos que se passaram há dois milênios e aos quais você só terá acesso por um destes meios: ou pelo meio puramente verbal, ou pela presença do milagre. Não há outro. [Isso pode ser relacionado àquilo] que Schuon ensina: “o sentimento de concordância que você tem com uma afirmação não quer dizer que você a compreenda, mas que tem aptidão para compreendê-la.” Quando eu defini a filosofia como “a busca da unidade do conhecimento na unidade de consciência e vice versa”, eu condensei aí uma experiência de vida que, por tudo o que verifiquei, corresponde à experiência de vida de todos os demais filósofos. Todos eles fizeram exatamente o mesmo. Ou seja, quando se diz “a busca da unidade do conhecimento”, isto já quer dizer, de imediato, que o conhecimento não chega a você sob a forma de uma unidade coerente, mas sob a forma de fragmentos inconexos, freqüentemente incoerentes, e isto é a confusão do mundo. O conhecimento nos chega sob a forma da confusão do mundo. O primeiro passo que o filósofo dá é impregnar-se da confusão do mundo, que, quando ele nasce, já está dada na sociedade, na cultura etc. Ele vai impregnar-se dela, para depois, como explica [Eric] Voegelin, restaurar a ordem na sua alma, para que ela, por sua vez, sirva de padrão para espalhar um pouco de ordem no ambiente em volta. Então, impregnar-se da confusão é o primeiro requisito [para ser um filósofo]. À medida que você vai encontrando [a ordem] dentro de si, no padrão de unidade que lhe dá o senso da sua própria continuidade, da sua própria presença no mundo e do seu próprio papel dentro dessa confusão, você descobre algumas coisas que são verdades, e aí \percebe que essas verdades já estavam de algum modo formuladas sinteticamente na doutrina da Igreja, e diz: "Ô, raios! E não é que é verdade mesmo?". Isso significa que você obteve desta doutrina uma compreensão efetiva, porque ela lhe aparece não como uma afirmação, mas como a expressão verbal de toda uma experiência vivida. Porém, pode acontecer o contrário: o sujeito, aos dezessete ou dezoito anos, antes de ter se impregnado da confusão do mundo, lê a doutrina e aceita aquilo como verdade. Mas ele não tem a menor condição de compreendê-la, porque ele não tem as superfícies de contraste que vão dar densidade a essa mensagem verbal. É por isso que muitas pessoas se apegam, por assim dizer, à repetição da doutrina; mas a doutrina, amputada de toda a confusão da cultura contemporânea, são apenas frases ininteligíveis. Se você é realmente um filósofo, se se impregnou da confusão da cultura e aos poucos foi encontrando um fio da meada aqui, outro ali, e então encontra nas frases bíblicas a formulação perfeita da resposta que estava procurando, você entendeu certamente um pouco melhor. Não digo que tenha esgotado o assunto, porque isso é impossível, mas você passa a ter uma idéia do que aquilo quer dizer, ao passo que, se se contentou com a fórmula verbal apreendida, você vai transformar essa fórmula verbal num fetiche; então, você não estará cultuando a Deus, mas a fórmulas bíblicas, palavras. Claro, essas palavras são originadas em Deus, mas elas não são Deus. Então, como eu disse, o próprio Deus, para falar a linguagem humana, tem de passar por um funil, que vai estreitar barbaramente as possibilidades da Sua linguagem, para reduzi-las à escala humana. Ainda no mesmo sentido, eu coloquei este último parágrafo na outra semana: "Se, olhando um cubo, só posso ver três das suas faces, isso não é uma limitação das minhas capacidades perceptivas, é uma limitação estrutural do próprio cubo, o qual, sendo um objeto tridimensional, não pode ter as suas seis faces voltadas para o mesmo lado sem deixar de ser um cubo e tornar-se uma figura plana (...)" Como em geometria descritiva: você pega as faces do cubo, desdobra, e cria uma figura que pode ser recortada para a montagem do cubo; mas esta figura, em si mesma, não é um cubo de maneira alguma — é apenas uma alusão indireta a um cubo. "Do mesmo modo, se olhando um urso só vejo a sua superfície peluda e não os seus órgãos internos, não é porque haja um abismo entre percepção e realidade (...)" Esta é a tese mainstream, até hoje, por incrível que pareça. Ao ver um urso, eu só tive uma “percepção” – no sentido aglo-americano da palavra, isto é, um conjunto de sensações – e do lado de lá, existe um urso real que é inapreensível e que eu só posso conhecer por meio de tal ou qual ciência. A ciência, por sua vez, não lida com o urso concreto mas apenas com certos aspectos dele, propositadamente recortados para os fins da investigação. Isto quer dizer que eu tenho uma ilusão subjetiva individual de um lado, e uma ilusão subjetiva coletiva do outro. E isto é tudo. "(...) se olhando um urso só vejo a sua superfície peluda e não os seus órgãos internos, não é porque haja um abismo entre percepção e realidade, mas porque nenhum urso pode sair andando por aí com seus órgãos internos à mostra sem cair morto depois de alguns metros." Imagine um urso carregando seu intestino, seu pulmão e seu coração: ele morre. Isto quer dizer que há uma limitação do próprio urso, e não minha. Então, quando Kant fala das formas a priori da percepção, ele está ignorando as condições a priori da existência dos objetos. É claro que as minhas formas a priori existem: eu tenho um formato e não outro, portanto tudo que percebo é propriedade do meu formato. Mas é só do meu formato? Não. Tem de ser a propriedade do formato do objeto e as condições que possibilitem a sua existência. Se o cubo pudesse se mostrar por seis lados ao mesmo tempo, como numa pintura cubista, e eu insistisse em só ver três, aí sim isso seria uma limitação da minha percepção. Ou seja: eu estaria reduzindo aquele objeto às formas da minha percepção. Mas na verdade ele próprio está reduzido às formas da sua presença, às formas da sua apresentação — ele só pode se apresentar de certas maneiras porque, se [o objeto] mudar a maneira de se apresentar, ele deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa completamente diferente. Espero que vocês estejam entendendo a doutrina que eu chamo de "Intuicionismo Radical". Tudo isso são pontos de Intuicionismo Radical que eu coloquei um pouco aqui, um pouco ali. Tem pessoas que vão interpretar “Intuicionismo Radical” no sentido bergsoniano e dizer que é herético. Então eu só posso responder: “Vá lamber sabão!” Não se deixe iludir pela palavra que eu usei. Usei esse termo por falta de outro, mas com isso eu quero dizer uma coisa muito precisa que não é, de maneira alguma, um irracionalismo, pois intuição e razão não se colocam no mesmo plano. A intuição é a única maneira de conhecimento, é o único acesso que nós temos ao conhecimento, ou seja, perceber uma presença. Todo o resto nós construímos na nossa cabeça: são presenças potenciais, presenças aludidas, símbolos etc. — e não propriamente conhecimento. Só a percepção de uma presença justifica falar em conhecimento; o restante, como dizia Kant, não é conhecimento, é apenas pensamento. Aquilo que é só pensamento pode ser um conhecimento, mas pode não ser também. Mas aquilo que é intuído, na presença, não tem mais como negar. Tão logo você intui, pode já recortar aquilo, para preservar na memória só um elemento; então você já não tem a realidade, mas um símbolo dela que se conservou na sua memória. Logo, já houve uma distorção. Mas esse símbolo pode ser corrigido mediante o esforço da própria memória de reabsorver aquilo que estava na experiência e que não foi conservado na imagem. *********************************************************************** [1:00] Aluno: O que eu posso dizer de Maurice Halbwachs (autor do livro Memória Coletiva)? Olavo: 'Memória Coletiva' é uma figura de linguagem, uma metonímia. Eu já me referi várias vezes aos desastres que o pensamento metonímico tem produzido sobre a humanidade, pois o indivíduo localiza um fenômeno, esse fenômeno é recortado, de modo a poder ser apreendido somente com os conceitos de uma ciência em particular, o que significa que ele não existe em si mesmo, mas apenas desde o ponto de vista de determinado método — é o método que o determina. Como diz Kant: o método determina o perfil do fato. Sabemos que, excetuada a hipótese de percepção extra-sensorial — que não entra em linha de conta aqui —, não existe memória sem um aparato nervoso que a fundamente, a memória não existe no ar. Portanto, falar em memória coletiva é, evidentemente, uma metonímia. São sinais, símbolos, hábitos, valores que estão impregnados em inumeráveis indivíduos, e que estão impregnados de maneira mais ou menos uniforme. A memória coletiva não passa senão da memória uniforme que é sustentada por muitos indivíduos. É evidente que a pressão desses indivíduos sobre um indivíduo em particular dá a ela uma impressão de impessoalidade, de uma coisa que não vem de lugar algum. Todos nós somos freqüentemente iludidos por isso. Quando, por exemplo, nós recebemos inúmeras pressões do ambiente, e surge a impressão de que existe uma mão invisível coordenando aquilo, na verdade não tem mão invisível alguma, mas apenas muitos indivíduos fazendo a mesma coisa. Quer dizer: esta somatória de iniciativas individuais não cria uma entidade supra-individual; mas, do ponto de vista sociológico, funciona como se assim fosse. O próprio Durkheim, aliás, define fato social, em geral, exatamente desta maneira: são forças e elementos presentes independentemente de qualquer vontade individual. Ora, sabemos que no ser humano, em cada indivíduo, a parte individualizada e personalizada é muito pequena. No restante, ele coincide com a sua família, com o seu grupo social, por meio de uma infinidade de automatismos inconscientes, que estão em cada indivíduo humano e vão passar a impressão de uma força impessoal, mas é apenas uma impressão. Para fins de pesquisa sociológica, pode-se dizer que é uma memória coletiva, desde que se saiba que o ponto de vista sociológico não tem validade ontológica, mas apenas metodológica. Então, creio que esse trabalho do Halbwachs conserva toda a sua validade, se não se der uma dimensão ontológica a algo que é apenas uma impressão sociológica. No entanto, [o aluno] diz que eles estão usando este livro num curso de liturgia: Maurice Halbwachs juntamente com Eric Hobsbawn. Evidentemente esses professores entendem tanto de liturgia quanto eu entendo da criação de galinhas d’Angola ou bicho da seda. Se eles só tem essas fontes, saia correndo! Aluno: O Intuicionismo Radical se fundamenta na noção da simples apreensão? Olavo: Já escrevi, há muitos anos, que praticamente não existe simples apreensão — no sentido da apreensão de um dado sem nada afirmar ou negar dele. A presença já é afirmada automaticamente; portanto, simples apreensão também é uma metonímia, um modo de dizer. Quando você estuda a formação do conceito do ponto de vista não psicológico – ou seja, real –, mas lógico – ou seja, do ponto de vista da sua estrutura lógica –, então pode haver a divisão entre a simples apreensão, o termo, o juízo etc. Mas psicologicamente, as coisas não se passam realmente assim. Este 'sem nada afirmar ou negar' seria quase uma espécie de estado extático e hipnótico, seria a sensação pura praticamente — que é uma abstração, e não existe na realidade. Aluno: Existiu historicamente um processo de afastamento entre homem e natureza ou esse afastamento é fruto da dissonância entre realidade e percepção, inerente à espécie humana? Seyyed Hossein Nasr diz que no mundo ocidental esse processo de afastamento se acentuou devido à crise espiritual, enquanto outros autores culpam a ciência newtoniana. Olavo: É preciso lembrar, como sempre, a distinção feita por Wolfgang Smith entre o que é ciência e o que é mitologia científica. Claro que a lei da gravitação universal de Newton não poderia produzir este efeito se ela não fundasse toda uma concepção do mundo, mecanicista, que é uma espécie de hipertrofia literária de uma descoberta científica. Ou seja, dá-se a uma descoberta científica um alcance infinitamente maior ao que ela tem na realidade. Então, tudo o que Newton fez foi descrever matematicamente um certo sistema de aparências recortado sobre o fundo geral da realidade. Ele não está explicando como funciona a realidade, mas somente alguns aspectos dela que são matematizáveis. Pode-se, com base nisso, criar uma filosofia de que tudo funciona assim, e de que esta concepção matemática destes aspectos da realidade contêm a explicação de tudo. Basta explicitar essa presunção que ela já se torna demencial imediatamente, mostra que é uma loucura; quer dizer, não existe nenhuma prova de que as coisas sejam exatamente assim e nem de que sejam longinquamente assim. No entanto, nós podemos dizer que a filosofia mecanicista produziu um desastre considerável. Ainda há pessoas gravemente lesadas por isto, inclusive os grandes cérebros, as grandes inteligências, como Stephen Hawking ou Richard Dawkins. Eles evidentemente estão dominados por um íncubo mecanicista no fundo. Mas isso não é ciência, é apenas mitologia científica. Em toda teoria científica, é preciso descobrir qual o campo efetivo de validade dela e distinguir isso das extrapolações metafísicas. Freqüentemente, pessoas sem talento, às vezes até sem um treinamento filosófico necessário, como Richard Dawkins, não sabem analisar filosoficamente uma questão e, evidentemente, analisam dados científicos e extrapolam infinitamente além do seu alcance. Quando se fala em afastamento homem e natureza, esse afastamento é um processo, por assim dizer, natural. Eu já contei a história do Orlando Villas-Bôas, que dizia: "Você pensa que índio gosta de mato, que gosta da natureza? Eles têm horror a isso. Eles ficam fechados dentro da taba o tempo todo e só permitem que saiam os índios mais experientes, que conhecem as trilhas, que conhecem os animais, que sabem caçar etc., os outros não. Eles ficam lá dentro". O desejo de criar uma espécie de muro de proteção entre o homem e a natureza é, de certo modo, natural, não só ao ser humano mas a todas as espécies animais, todas elas fogem do ambiente em aberto, e se refugiam na zona que lhes é mais apropriada. [Por exemplo], um castor andando na terra está muito mais sujeito a ser pego por um lobo ou por um puma do que se ele estiver dentro d'água; por isso mesmo ele fica dentro d'água o maior tempo possível. "Ah, então você está rejeitando a natureza, você odeia a floresta da qual você vive!" Muitos desses discursos ecológicos são uma distorção mental baseada na ignorância do fato fundamental de que todas as espécies animais se refugiam do ambiente aberto da natureza no ambiente mais restrito, que é próprio à sua proteção e sobrevivência. O ser humano leva isso às suas últimas conseqüências ao criar a cidade. No famoso livro do Wilhelm Worringer, Emoção e Abstração, que é maravilhoso (Worringer escreveu três ou quatro livros, todos pequenininhos, mas geniais), ele observa que uma arte voltada a representar a natureza como um objeto de beleza só aparece dentro das cidades porque, enquanto as pessoas estavam soltas no meio do mato, elas buscavam uma arte esquemática, abstratista, que lhes permitisse recuar para um mundo em que a inteligência humana dominava e na qual eles se sentiam protegidos contra aquele caos em aberto da natureza circundante. Então, o afastamento entre homem e natureza é natural, como é natural o afastamento de qualquer espécie em relação à natureza. O que pode-se fazer em torno disso é introduzir aí elementos cristãos – Chesterton dizia que o mundo está repleto de idéias cristãs enlouquecidas –, introduzir um viés do pecado original e dizer que o nosso grande pecado foi voltar as costas à natureza, inserindo aí então um elemento de condenação moral. Roma [Antiga, por exemplo], creio que nunca passou de um milhão de habitantes. Hoje em dia qualquer cidade, capital de terceiro mundo, possui vinte, trinta, quarenta milhões de habitantes. É um “formigueiro”. De modo que o ambiente social pesa sobre os indivíduos de uma maneira infinitamente mais presente, mais grave e mais coercitiva do que a natureza. Forma-se, então, uma espécie de segunda camada sobre o homem e a natureza, a camada social, que pesa de maneira formidável. Ao longo do tempo, as pessoas podem tomar esse ambiente como se ele fosse a condição humana geral e universal. Há muitas idéias circulantes que não são nada mais do que lendas urbanas, e que se formam dentro do ambiente da sociedade humana, mas que, confrontadas com mundo físico ao redor, não fazem o menor sentido. Eu já mencionei aquela série "Atração Fatal", sobre pessoas que se apaixonam por animais ferozes, começam a criá-los dentro de casa, e acabam sendo comidos por ele. Isso é um efeito reativo desse desejo estereotipado de reintegrar-se à natureza. Não é possível essa reintegração. Você só estaria integrado à natureza se estivesse totalmente inerme contra ela, como está, por exemplo, um girino que acabou de nascer; ele não pode fazer nada, ele está totalmente integrado. Porque o sapo pai e o sapo mãe já são um pouco espertos e não se deixam integrar plenamente, eles recuam para onde lhes é conveniente. Por exemplo, os lobos e as raposas fazem parte da natureza, as águias também, e o sapo poderia se integrar à natureza sendo comido por uma águia. Ele não quer isso, então ele se isola. Este instinto de autodefesa, que faz o indivíduo recuar do ambiente em aberto para o recinto que lhe é mais propício, é universal e faz parte da própria natureza. Tudo no mundo tem um preço. Recuando, pode-se, inclusive, observar essa natureza de mais longe e ela se tornar inofensiva; então, começa-se a ver nela um objeto de beleza. Depois, quando você já está cansado da vida urbana, começa a idealizar essa natureza como se fosse algo sagrado. Daí surge a confusão — que hoje em dia é muito comum —, que pessoas como o Sr. Peter Kingsley ajudam a disseminar, entre o simbolismo natural e a sacralidade da natureza. Se a natureza por si fosse algo sacro, nós estaríamos no paraíso; no entanto, nós todos sabemos que a natureza implica um coeficiente enorme de absurdidade, de feiúra, de maldade, de sofrimento. Mas, vista à distância, desde um edifício de Nova York repleto de socialites, a natureza adquire um tom encantatório e os bichos começam a parecer anjos. "Os jacarés são pessoas tão amáveis, os ursos são tão gentis, vamos comprá-los e trazê-los para casa, afagá-los e defendê-los dos malvados homens que os matam." É claro que isso é um processo de infantilização que resulta do crescimento excessivo [das cidades]. Ninguém pode negar que as cidades, as grandes metrópoles, cresceram excessivamente, elas passaram do limite. Creio que o limite de população saudável para cada cidade seria um milhão, não mais do que isso. À medida que vai aumentando, as pessoas se afastam e criam outra cidade. [Além disso,] existe na modernidade uma pressão, deliberada ou inconsciente, para centralizar cada vez mais as pessoas nas cidades e tirá-las do campo —, por exemplo, na Romênia houve um plano deliberado do governo de reduzir a classe camponesa ao mínimo e levar todos para a cidade. Nos países comunistas isso aconteceu muitas vezes, mas nas democracias também acontece, não por uma política de governo, mas espontaneamente. As cidades, portanto, crescem desmesuradamente, e logo surge o banditismo, as drogas, a perversão sexual etc., e toda esta mitologia endêmica da natureza, que é um sintoma tão maluco quanto esses outros que eu falei. Isso é um produto do aglomerado urbano excessivamente grande. Isso não quer dizer que não haja uma realidade naquilo que diz Seyyed [Hossein] Nasr quanto à perda do sentido do simbolismo natural, que aconteceu efetivamente. Mas perder o simbolismo natural é uma coisa e perder a integração na natureza edênica é outra completamente diferente, não podem ser confundidas. Ainda em Santo Tomás de Aquino, a noção do simbolismo natural está plena ([como] em toda civilização cristã na Idade Média). No livro do Louis Charbonneau-Lassay, Le Bestiaire Du Christ – o autor era arquiteto, e foi de catedral em catedral desenhando explicando todos os animais que representavam as várias qualidades do Cristo – o simbolismo natural ali ainda estava com toda a força, na própria estrutura das catedrais, na orientação espacial delas, ali estava presente. E isto de fato se perde [na Modernidade]. Mas lamentar essa perda ao ponto de querer um retorno à visão edênica da natureza, é uma distorção monstruosa. Essa terra definitivamente não é mais o Jardim do Éden. Roxane me pergunta se o meu livro A Nova Era e a Revolução Cultural ajuda a entender isso. Em parte [sim], mas eu não acredito que ali fiz uma crítica suficientemente profunda disso. Sobretudo esse fenômeno dos animais ferozes transformados em bichinhos domésticos é algo que chamou a minha atenção muito recentemente, e é claro que isto vem de toda essa mentalidade, do culto ecológico dos anos 60. Aluno: As mensagens divinas se transferem por intermédio de palavras ou por meio da sabedoria infusa? Não existe uma dicotomia; a sabedoria infusa terá de se expressar através de palavras, e ao fazer isso, ela terá de se submeter às limitações da linguagem humana — não há como escapar disso. Quando o Cristo nasce, Ele se encontra submetido a todas as limitações físicas e sociais da espécie humana — Ele não escapa de nenhuma delas. Ele é o Logos Divino; portanto, o próprio Logos se amolda a um formato que está infinitamente abaixo dele. Com a linguagem divina, [ocorre] a mesma coisa. André Lira pergunta: “O senhor poderia discorrer um pouco sobre a Ievsektzia (sessão criada por Lênin segundo Isaias Golgher em A Tragédia do Comunismo Judeu)? (...)” Olavo: Esse é um livro esplêndido, escrito por um autor brasileiro. Eu o li muitos anos atrás e me lembro que na época foi uma das coisas que mais me chocaram a respeito do comunismo (porque eu era comunista na época). [Continuação]: “(...) Eles ajudaram Stálin a dizimar os seus pares, dentro e fora da União Soviética; logo, os judeus ajudaram a dizimar o seu próprio povo?” Olavo: Eu já falei: judeu é especialista em criar cobra, cria os seus próprios inimigos. Depois diz: “não, o cara é patrício, é da nossa comunidade”, afaga a cabeça do desgraçado, até que este ingressa no Partido Comunista, ou na sessão judaica do Partido Comunista, e começa a prender rabino etc. Isso aconteceu mesmo: várias ondas de perseguição anti-judaica [ocorreram] na União Soviética, algumas empreendidas até por judeu, o que não é de estranhar, porque a origem familiar do sujeito não determina a sua conduta adulta. Ele sofre outras influências às vezes. “Ah, o sujeito foi educado, ia na sinagoga, fez Bar Mitzvá etc.” Mas daqui a pouco entrou para o Partido Comunista e receber uma influência totalmente diferente. Aliás, o próprio Karl Marx não recebeu educação judaica, mas recebeu educação cristã primorosa, e na adolescência, era muito devoto. De repente, [ele] recebeu outra influência, de um tal Moses Hess – que era um judeu, mas não religiosamente, era um judeu materialista – e mudou completamente. Mais ainda: a comunidade judaica, por viver em condições quase nômades, favorece o surgimento deste fenômeno. Porque a adaptação da comunidade a uma sociedade maior implica que ela se torne vulnerável a mil e uma influências dessa sociedade. Aliás, isso acontece também entre os católicos, os quais absorvem várias influências que só servem para destruir a Igreja. Isso é natural. Eu me lembro daquela história em quadrinhos chamada Pego: "fizemos contato com o inimigo, e ele é nós". Então, hoje vamos parar por aqui. Eu queria avisar a vocês uma coisa: vocês devem ter notado que a nossa imagem está muito melhor; nós adotamos um outro sistema. Nos próximos meses vamos adotar também um sistema melhor de cobrança, no qual o sujeito, quando paga a mensalidade recebe automaticamente o acesso, sem precisar passar por mãos humanas — hoje são o Silvio e a Leilah que têm de ficar colocando um por um. Nós vamos automatizar isso e tudo funcionará de maneira menos trabalhosa. Estão me lembrando de um curso que vou dar na última semana de Novembro, mas que ainda nem sei sobre o que é. Avisarei no devido tempo. No mês de setembro, eu me ausentarei durante algum tempo para “cuidar” dos ursos, talvez fique duas ou até três semanas fora, porque a caçada mesmo é uma semana, mas a preparação é enormemente complicada. Até a semana que vem e muito obrigado a todos. Transcrição: Tamas Souza, Camila Manuella e Felipe Vitorino Revisão: Caio de Souza Cazarotto [caio.cazarotto@terra.com.br]