Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 235 18 de janeiro de 2014 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Eu queria tomar aqui alguns acontecimentos da semana como pretexto para abordar alguns temas que já são mais ou menos costumeiros a respeito da linguagem, especialmente do estado do idioma brasileiro. Todos nós sabemos que todos os seres humanos usam uma língua geral (a língua que é a do seu país, a comum a todos os membros da sua sociedade) e, dentro dessa linguagem, existem várias outras setoriais especializadas (gírias, variações regionais, dialetos e terminologias técnicas-científicas que são usadas para uma profissão especializada). O problema é que se a pessoa não tem o domínio da língua geral e começa a aprender a língua especializada antes de ter uma espécie de maturidade lingüística, o efeito disso é uma coisa absolutamente desastrosa. Não posso provar, mas tenho a impressão de que, no Brasil, isso se tornou uma coisa endêmica, e quero sempre advertir aos meus alunos que o domínio do idioma é a coisa básica. Aqui nos EUA eles falam dos três R’s: reading, writing, arithmetics. Na verdade, ler e escrever é muito anterior a qualquer aritmética que você possa imaginar. Você imagina como seria ensinar contas a uma criança que não sabe falar ainda. É absolutamente impossível. Então o desenvolvimento de qualquer habilidade matemática, por mais elementar que seja, pressupõe já um amplo domínio da linguagem. Também existe a experiência mundialmente comprovada de que as crianças bilíngües ou trilíngües rendem muito mais na escola e são de modo geral mais inteligentes justamente porque pegam desde pequeno o senso das nuances diferentes que as palavras têm em idiomas diferentes; quer dizer, nunca as palavras correspondem exatamente. Elas vão se acostumando com essas transições e mutações, e, quando não acerta dizer uma coisa numa língua, apela para outra, e isso dá uma flexibilidade intelectual muito grande. Acontece que, no Brasil, sabemos que a nossa língua está em crise faz muitos anos. Já assinalei, é a única língua que perdeu duas pessoas verbais: a segunda pessoa do singular e a do plural. Isso não aconteceu em língua nenhuma do mundo. Eu já procurei para ver se tem outros casos, desconheço. Isso evidentemente cria dificuldades de comunicação terríveis. Eu lembro até que Paulo Francis, quando escrevia “sua”, punha entre parênteses his ou yours para distinguir se era sua da terceira pessoa ou da segunda. Então você tem de apelar a uma outra língua já que a sua não está resolvendo o problema. Na construção de frases longas isso cria dificuldades tremendas. Já tentei reintroduzir a segunda pessoa, mas isso já se tornou tão distante do uso comum que acaba soando muito estranho. Isso vai ter de ser feito mais dia menos dia, mas não sei como. Não só a língua está em decomposição, mas se mistura a isso dois outros fenômenos. O primeiro deles é o que pessoal está chamando de inteligência coletiva. Tem um autor chamado Pierre Lévy que estuda muito essa questão da internet e das redes sociais e diz que está se formando uma inteligência coletiva que será então a base da futura democracia participativa. Que é uma inteligência coletiva? É um monte de gente falando ao mesmo tempo, e o conjunto leva a certas conclusões gerais ou a repetição de certos esquemas de pensamento, e isso vigora como sendo opinião pública. Só que tem um problema: isto funciona na base da total neutralização da inteligência individual, porque cada um só contribui com um pedacinho, ninguém entende o todo, e o todo fica incumbido de entender as partes. Já dei aqui o exemplo de até que ponto isso pode ser desastroso. Se você dá uma aula e tem trinta alunos, é possível que vinte e nove não entendam e um entenda. Ou seja, um indivíduo entendeu, mas a classe não entendeu. Vejam se o contrário é possível: a classe entendeu, mas nenhum entendeu? É impossível. Isto quer dizer que o exercício da inteligência é uma propriedade dos indivíduos e não da coletividade. Falar inteligência coletiva, qualquer que sejam os meios técnicos em que você se apóia para criar esse conceito, ele será sempre um conceito metonímico. Ele não é uma descrição de uma entidade existente, é uma impressão criada por uma confluência de discursos individuais. É muito interessante ler mais ou menos juntos os livros Inteligência Coletiva de Pierre Lévy e Our Final Invention de James Barrat. O que Barrat descreve é uma situação absolutamente catastrófica na qual realmente os computadores escaparão a todo controle humano muito dentre em breve, e já estão escapando. Por quê? Conforme a programação que o computador receba, ele é capaz de ter um comportamento imprevisto, quer dizer, dentro de uma combinatória infinita, que é ilimitada, você não pode prever o comportamento dele. E na medida em que decisões de ordem administrativa, bancária, legal etc. são passadas para os computadores, será impossível vencê-los. Mesmo o indivíduo que programou o computador, que foi o primeiro na série, não terá controle sobre o que virá em seguida. Também já comentei aqui o fato de que os computadores podem fazer cálculos tão complexos e tão longos que nenhum ser humano pode verificá-los. Ou seja, confiar na conclusão do computador será um ato de fé — confiar ou desconfiar. Quer dizer, escapa totalmente a qualquer controle humano. Isso já está acontecendo. Houve uma discussão na revista inglesa Prospect a esse respeito. Realmente é uma coisa atemorizante. Por outro lado, na medida em que edifícios inteiros de leis, decretos e regulamentos se incorporam num computador, o computador pode naturalmente tomar decisões legais por si mesmo e ficará muito difícil discutir com ele. Hoje já enfrentamos esse problema do costumer service. Você liga para costumer service (serviço de atendimento ao cliente) e não consegue falar com um ser humano, e o computador foi programado justamente para reduzir a quantidade de pessoas necessária. Então você tem ali um funcionário e um gigantesco programa de computador que responde a todo mundo. Naturalmente as pessoas levantam o problema da inteligência dos computadores. E quando se discute isso, está se definindo inteligência apenas como a capacidade de operar segundo certas pautas lógicas, quer dizer, você tem uma série de regras que o raciocínio seguirá por via automática ou mecânica até às suas conclusões. E evidentemente essa é uma das funções da inteligência. Porém, pensem assim: um computador não tem responsabilidade moral, não tem responsabilidade penal e não tem consciência moral, quer dizer, um computador não pode ter uma crise de arrependimento, por exemplo. Se ele cometer um crime, pode até anotar que é um crime, mas você não vai poder processá-lo e ele não vai poder responder perante ninguém. Então a pergunta é: não há aí uma confusão entre o que é realmente a inteligência e o que são apenas funções ou mecanismos a serviço da inteligência? Para mim me parece claro que sim. Mais ainda: esse conceito da inteligência reduzido apenas aos seus elementos operacionais não serve só para os computadores, ele é usado hoje na educação. A idéia das pessoas é desenvolver habilidades cada vez maiores e se possível acoplar cérebros humanos a um computador, para que o cérebro possa funcionar com a sua capacidade máxima. Então você imagina o que seria uma geração de pessoas cujas decisões [0:10] fundamentais são tomadas em associação com um computador e no qual a idéia da responsabilidade moral e a própria idéia da consciência foi praticamente abolida. Falarmos de abolição da consciência humana não é nenhum exagero a essa altura. Mas não é realmente uma abolição porque, por cima de toda essa situação social, sempre vai ter uma elite que foi educada pelos cânones antigos e que sabem mais ou menos o que está fazendo. Com essas coisas se passa exatamente o que se passa com o fenômeno do patriarcalismo que mencionei num artigo tempos atrás, onde tem muitas pessoas, sobretudo cristãs, que estão escandalizadas com a destruição da família e passam a fazer a defesa da família. Mas na verdade não se trata da destruição da família como instituição, mas se trata da destruição de algumas famílias, não das famílias dirigentes do processo. Se você observar, todas as famílias milionárias e de gente de poder político, tanto esses grandes banqueiros internacionais quanto os potentados de países comunistas, conservam a sua família segundo um cânone estritamente patriarcal. Se você viaja para a Romênia ou Polônia, você vê que os netos ou bisnetos dos antigos dirigentes comunistas estão ou no poder ou voltando ao poder. Do mesmo modo você não vai ver nenhum Rockefeller ou nenhum Warburg dissolvendo a sua família e querendo casamentos gays lá dentro. Eles não vão aceitar isso de maneira alguma porque a família é evidentemente um dos instrumentos de ação ao longo do tempo. Projetos de longo prazo exigem a continuidade da conexão entre os agentes, então você tem de passar de uma geração para outra. Se não há essa continuidade, a ação se esgota no prazo da existência útil do seu agente individual. Então é de curto prazo. Pensa: quando você chega a poder fazer planos de grande envergadura para a sociedade humana, para a política, quantos anos você tem? Quarenta, cinqüenta, no mínimo. Em geral mais, sessenta, setenta anos. Os homens que mandam são homens de sessenta, setenta, então ele não vai ter muito tempo para ver o plano dele se desenrolar. Portanto, ele necessita da continuidade. Existe um número limitado de meios pelos quais o ser humano pode assegurar a continuidade da ação histórica. Uma delas seria, por exemplo, sociedades iniciáticas ou místicas que, pelos rituais, você vai comprometendo a pessoa a continuar com aquela atividade. A Maçonaria é um exemplo. Um outro meio seria uma tradição religiosa, onde as pessoas são formadas de acordo com os mesmos cânones morais e rituais ao longo dos tempos. Isto não funciona tão bem quanto uma sociedade secreta, mas funciona também. Porém, o meio mais eficaz é a continuidade familiar ou dinástica. Se você observar as famílias nobres que mandavam na Europa trezentos anos atrás, no tempo em que você tinha monarquia absoluta, são essas famílias que ainda mandam. Por quê? Pelo simples fato de que são famílias, e elas são capazes então de ter uma ação contínua ao longo dos tempos. Se você investigar a história da família Rothschild, por exemplo, ou os Rockefeller aqui nos EUA, você verá essa continuidade de uma maneira muito nítida. Não é que essas pessoas tenham algo contra a instituição da família, elas não querem que certas pessoas tenham família, elas necessitam transformar a sociedade humana numa massa de átomos soltos, coeridos tão-somente para a instituição estatal e pelos regulamentos dessas grandes corporações. Graças a este fenômeno, você vê que a idéia da democracia moderna nasce com uma contradição constitutiva. Por um lado, ela diz que vai abolir antigos privilégios, e na linha seguinte diz que vai assegurar o direito de reunião e associação. É preciso ser um verdadeiro jumento para não perceber que esses dois objetivos são antagônicos e, no entanto, o pessoal da Revolução Francesa os proclamava como se estivesse falando da coisa mais óbvia do mundo. Por quê? Todos os antigos privilégios nasceram do direito de reunião e associação: pessoas que se juntaram para determinados fins e obtiveram determinados resultados e, com isso, asseguram um patrimônio, meios de ação, poder, e isso acaba se consolidando em direitos — por exemplo, os direitos corporativos, os direitos regionais, os direitos das várias instituições etc. — e constituem então poderes intermediários. Quer dizer, entre o cidadão comum e o governo você tem uma série de instâncias intermediárias: a Igreja, as corporações, os governos regionais, as grandes fortunas, os proprietários rurais etc. Ou seja, é uma sociedade complexa feita de muitos poderes, todos nascidos do direito de reunião e associação. Por quê? Porque ninguém se torna poderoso sozinho. Seria muito engraçado o cara fazer a máfia de um só. Eu fiz uma máfia, mas o único membro dela sou eu mesmo. O que posso fazer com isso? Absolutamente nada. Essas organizações criminosas dão um exemplo multo claro de até que ponto o poder depende da associação. A associação tem de ser tão estrita que a deslealdade se torna impossível. Como no Rio de Janeiro, você desobedece ao Comando Vermelho ou, em São Paulo, desobedece ao PCC, eles o queimam numa pilha de pneus para você ficar irreconhecível. Então você não pode desobedecer de maneira alguma, e essa obediência é a associação, são elos de lealdade e de compromisso. Acontece que quando você desfaz os antigos privilégios, ou seja, dissolve os poderes intermediários, toma os bens da Igreja, dissolve as corporações, tira as propriedades dos nobres etc. o que você fez? Só existem dois andares agora: existe o poder, que é o poder central, e existe uma massa de átomos soltos que não estão coeridos nem protegidos por nenhuma associação, e ao mesmo tempo você diz que vai assegurar o direito de reunião e associação. Ou seja, você nivela tudo. Acabaram todas as associações, e agora vocês se reúnem para criar novas. Mas acontece que estas novas vão ter de surgir do nada e vão ter de competir com um poder enormemente mais poderoso, que é o do governo central. Então esse direito de associação e reunião se transforma numa balela. E este é um problema constitutivo das democracias, e ninguém sabe como resolver essa coisa. E aliás até o número de pessoas que perceberam este problema é reduzido. Com essa coisa da inteligência coletiva se passa a mesma contradição que temos entre a dissolução dos privilégios e os direitos de associação. Ou seja, você quer criar novas redes de comunicação onde todo mundo possa participar, e você tem então o senso de que está tomando parte nas decisões coletivas e que está por assim dizer exercendo a democracia direta, portanto já não é a democracia representativa. Na democracia representativa, você elege o sujeito, e daí para diante você tem um controle relativamente tênue sobre as pessoas. Você bota lá um deputado ou um senador, pode até tentar controlá-lo — o controle aqui nos EUA é muito mais eficiente do que no Brasil —, mas mesmo assim, depois que você votou no sujeito e se arrependeu porque ele está fazendo coisa errada, quanto tempo leva para tirá-lo de lá? Aqui existe o chamado recall. Você votou no cara, elegeu, mas se um certo número de eleitores pedir, ele é chamado de volta. Mesmo assim com essa instituição do recall, o negócio é complicado. Se você perguntar quantos fulanos investidos de cargos eletivos sofreram recall durante o ano passado? Dois ou três, no meio da massa de milhares que você elegeu. Este senso da democracia direta parece um alívio para muita gente porque elas pensam que agora não vão mais agir através desses deputados e senadores que se vendem e as traem, mas elas mesmas vão tomar as decisões. Acontece que se a decisão é tomada por uma inteligência coletiva, de fato ninguém está interferindo nela. Somente um planejamento muito geral é capaz de dirigir as discussões para um certo rumo [0:20] e, através da reprodução de certos discursos, de certos slogans, até de certos cacoetes mentais, você induzir uma multidão enorme a pensar do jeito que você quer e chegar às conclusões que você quer. Isso é muitíssimo fácil. Por exemplo, você pode dar a sua opinião num debate na internet, mas o outro lado tem uma firma trabalhando nisso, e ela produz trinta mil e duzentas identidades falsas que dizem outra coisa. O tempo que você leva para escrever a sua mensagem é o tempo que o computador dele levou para espalhar trinta e duas mil. Isso quer dizer que essa aparente democratização é uma centralização formidável do poder. Você veja que a representação eletiva é também um poder intermediário. Ela não tem poder executivo, ela não toma decisões, mas ela pode vetar, discutir, impugnar etc. Na medida em que você cria a democracia representativa, então o último poder intermediário que é reconhecido oficialmente como existente (o legislativo) é abolido. Hoje em dia o legislativo não é mais necessário. Isso porque a estrutura complexa da administração moderna se divide em milhões de centros decisórios de ordem puramente administrativa. Por exemplo, no Brasil o aborto é proibido, mas existe uma agencia governamental que ensina a abortar. Então você vai dizer que ela está indo contra as leis? Quanto tempo você levaria para, primeiro, descobrir todas as agências governamentais que estão favorecendo o aborto de uma maneira ou de outra, além de todas as ONGs e de toda a militância etc.? É uma coisa inabarcável. Isto quer dizer, você não precisa mudar uma lei para mudar os costumes e mudar os padrões de julgamento. Na verdade, em todo país há recursos pelos quais o governante pode até burlar a fiscalização do poder legislativo. E justamente a proposta da democracia direta, ou democracia participativa, vem de centros decisórios executivos que querem se livrar do poder legislativo e então abolir a última instância intermediária. Porque as outras instâncias intermediárias ainda existem, mas não estão incorporadas na estrutura do Estado. Veja que, por exemplo, quando houve a Revolução Francesa e eles convocaram a reunião dos Estados Gerais, os Estados Gerais eram um poder legislativo, mas quem estava lá? Havia a representação da nobreza, a representação do clero e a representação do povão. Nenhum dos três era órgão oficial. Eram poderes intermediários que não faziam parte da estrutura do Estado, mas que o Estado reconhecia. Hoje já não há mais nenhuma instituição desse tipo, você só tem o Estado. E existem outros poderes que já não são intermediários porque estão mesclados com o Estado, como por exemplo essas grandes corporações, os organismos internacionais etc. Não são poderes intermediários, são poderes da mesma altura do Estado e às vezes superiores a ele, são o supra-Estado. Sabemos que no Brasil praticamente todas as legislações votadas no Legislativo vêm pronta da ONU. Isso todo mundo sabe. Então já foi decidido em outra instância e o nosso Legislativo está lá só para carimbar. Então você não pode dizer que a ONU é um órgão intermediário, como era o Terceiro Estado ou o clero na Revolução Francesa. O último poder intermediário que sobra é o legislativo, e já está para acabar. Quer dizer que haverá de fato uma poeira de indivíduos soltos, sem conexão orgânica, de preferência sem família, quer dizer, sem conexões orgânicas com a sua família, portanto incapaz de associar-se aos parentes na defesa dos seus interesses. É o indivíduo isolado que só tem uma instância a qual pode recorrer, que é o Estado ou os parceiros do Estado. Então isso é uma centralização e uma hierarquização de dimensões quase inimagináveis, ainda com todo o aparato de computadores, centros de informação etc., que está tudo na mão do Estado e sobre o qual você não tem controle absolutamente nenhum; e com meios técnicos de ação que estão infinitamente acima da capacidade de manejo do cidadão. Estamos conversando aqui, a essa hora o cara do FBI pode estar a duzentos metros ouvindo tudo o que estamos falando aqui, mas eu não posso ouvir o que ele está falando, não temos dinheiro para comprar esses equipamentos. Entramos naquela teoria do Carroll Quigley (ele faz o raciocínio em relação às armas, mas vou ampliar): quando os meios de ação são baratos, eles estão na mão de todo mundo, e isso favorece a democracia, a liberdade etc.; quando eles se tornam caros, automaticamente hierarquiza. Ora, por definição, qualquer nova tecnologia é cara, e o progresso da tecnologia cria novidades toda semana. E essas novidades, quanto tempo se passa entre o momento em que o indivíduo inventa a tecnologia e o momento em que ela se torna de acesso popular? Aqui temos um mouse, todo mundo tem um mouse. Só que o mouse quando começou, era de aplicação militar. Quanto tempo levou para que todo mundo tivesse um mouse? Passa vinte, trinta anos. Nesse ínterim, já estão inventando novas tecnologias que não são de acesso popular. Então você nunca vai confundir esses dois elementos: a invenção de uma tecnologia, que é uma coisa, e a invenção da segunda tecnologia que permite a produção em massa é outra completamente diferente. Existem muitos produtos fabulosos para os quais você não tem nenhuma tecnologia para produção em massa, e às vezes é até impossível. Isso quer dizer que o progresso da tecnologia cria meios de domínios cada vez maiores e impossível de democratizar em tempo hábil. Isso quer dizer que a associação que a turma do Iluminismo, da Revolução Francesa, fazia entre progresso da ciência e democracia é contraditória; nós temos exatamente o contrário. O que pode criar a democratização é a tecnologia da produção em massa. Mas necessariamente a tecnologia da produção vai a passo mais lento, ela não acompanha a tecnologia propriamente dita. Então sempre tem um intervalo de vinte, trinta, quarenta, cinqüenta anos, nos quais apenas entidades muito poderosas dispõem daquela tecnologia. Você imagina, por exemplo, este macrocomputador que tem a Agência de Segurança Nacional nos EUA que grampeia todos os telefones. Daí eu pergunto: quando poderei ter um desse? Nunca vamos ter isso, é caro demais. Então a teoria do Quigley não vale só para as armas, mas também para todos os meios de ação. Os meios de ação são caros, você vai ter um domínio tirânico, queira ou não, ainda que, do ponto de vista legal e constitucional, você esteja numa democracia. Porque esta é outra ilusão, sobretudo o pessoal que estuda direito acredita que a evolução das leis é a evolução da sociedade. Estão enganados. Do ponto de vista do direito, temos evidentemente cada vez mais direitos, mas o problema não são os direitos, o problema são os meios de ação. Você consagrar uma coisa num direito não significa de maneira alguma uma farta distribuição dos meios de exercer aquele direito. Quer dizer, a evolução jurídica não é a evolução da sociedade. Se a palavra “democracia”, a palavra “liberdade”, a palavra “república”, tem algum sentido, ela não pode se referir somente ao universo das leis, mas ao tecido real da vida social, quer dizer, às ações que as pessoas realmente podem ou não desempenhar. Portanto, podemos dar como certo este princípio: o progresso da tecnologia vai a favor do controle centralizado, do aumento do poder e, portanto, da eliminação das liberdades — não das liberdades consagradas em lei, evidentemente, mas das liberdades realmente exercíveis. E isto quando chega neste ponto descrito aqui por James Barrat, dificilmente tem volta. Esta é a situação. Não estou falando isso para deprimir ninguém. Na verdade, eu me considero preparado para viver na pior ditadura que exista no mundo. Se disser [0:30] que eu não posso falar nada, não posso fazer nada, tenho de ficar quieto no meu canto, eu sobrevivo. Eu tenho alguma prática de viver sob ditadura — tivemos uma ditadura, muito mixa, mas tivemos — e depois, baseado naquele exemplo, eu estudei muita coisa e sei que quando você chega à situação de total impotência, às vezes isto abre a sua mente para dimensões maiores da existência que você não tinha percebido ainda. Também tem o fato de que os regimes piores produzem pessoas melhores. Não há comparação entre o caráter médio do brasileiro hoje e do tempo da ditadura. As pessoas eram muito melhores, inclusive todos esses comunistas eram muito melhores. Na época eu não conhecia nenhum comunista ladrão, eram todos honestíssimos; hoje são todos ladrões. Voltando aqui um pouco no negócio da linguagem. O que acontece é que se o indivíduo não tem o domínio da língua geral — e este domínio só se aprende com a tradição literária, cultural, histórica etc. —, mas ele tem o domínio de uma língua especializada, esta língua especializada vai ser o substitutivo da sua inteligência, e ele só vai conseguir raciocinar nos termos daquela língua especializada. E onde quer que você use, por coincidência, um termo que também pertence à língua especializada dele, ele vai achar que você está falando daquilo e vai racionar nos termos daquele aprendizado técnico-cientifico que ele teve. Resultado: o sujeito não vai entender nada e vai achar que está dominando o assunto porque ele conhece aquela parte especializada. Isso já aconteceu tantas vezes comigo! Pessoas que são estudantes de química, ou de biologia, ou de física, e que interpretam o que estou dizendo na linguagem da sua ciência em particular, e evidentemente distorcem completamente o que estou dizendo, porque eles não têm acesso à língua geral, não são capazes de compreender a língua geral, não têm cultura suficiente para isto. Então acontece coisa como esse rapaz que fez esse vídeo “Aprendendo física com Olavo de Carvalho”, onde estou falando de fraudes científicas que estão na origem da Modernidade e cito a carta de Alexander von Humboldt, acho que de 1810 — ele nasceu na segunda metade do século XVIII, ele devia ter uns 50 anos quando escreveu isso. Eu disse que todos nós sabemos que não existe nenhuma prova da teoria heliocêntrica do Copérnico. Citei isso, e o rapaz disse: “Ele quer impugnar o heliocentrismo com base na carta dum cientista de 1810, quando não tínhamos descoberto isso, mais aquilo, mais aquilo”. Quer dizer, a discussão era sobre heliocentrismo? O que eu estava dizendo era que uma teoria que não tinha provas foi imposta como verdade definitiva durante três séculos, desde o tempo de Copérnico (que nasceu em 1473) até o tempo de von Humboldt (que nasceu em 1769). Quer dizer, durante três séculos aquele negócio é impingido para todo mundo e não tem prova nenhuma — é disso que estou falando. Se essa teoria em si é verdadeira ou não, eu nem discuti isto! Ela pode até ser verdadeira, podem aparecer outras provas a favor ou contra, mas as provas que apareceram depois não impugnam a história que se desenrolou durante três séculos! Mas daí o neguinho entra lá numa defesa entusiasmada do heliocentrismo. Agora, pergunta para mim o que é verdadeiro: heliocentrismo ou geocentrismo? Eu não tenho a menor idéia! Aceitamos o heliocentrismo porque todas as instituições são baseadas nisso, os livros didáticos são baseados nisso, e continuamos raciocinando nesses termos. Eu mesmo nunca pus esse problema em questão, nunca me dispus a dedicar um tempo da minha vida para descobrir se o heliocentrismo ou o geocentrismo funciona. Nunca fiz isso, não vou ter tempo de fazer e não tenho sequer a qualificação para fazer isso. O que estou discutindo é que a história das origens da ciência moderna é uma coleção de mentiras e falsificações absolutamente extraordinária. Isso é um problema histórico e não um problema de astronomia. Mas se o sujeito tem aquela formação especializada, mas não é capaz de apreender uma discussão na língua geral, ele vai puxar para aquele ponto e vai achar que o que está sendo discutido é isto. Só que isto é uma falha de lógica chamada ignoratio elenchi, que é a incapacidade de o sujeito captar qual é o ponto em discussão. Ele muda a discussão e não percebe que mudou, acha que está por cima da carne seca. Isso acontece a toda hora! É o mesmo problema que aconteceu com o tal do Pirula. Eu dizia que a Pepsi está usando fetos humanos para produção de adoçante — a frase foi mais ou menos essa. Ele disse: “O cara não entende nada, o feto é usado apenas na pesquisa, não é incorporado no produto. Ele está achando que as pessoas estão espremendo feto para colocar dentro das latinhas”. O que estou discutindo é a responsabilidade moral de uma firma que usa fetos humanos. Se o feto é usado durante a pesquisa ou é incorporado no produto final é absolutamente indiferente, porque o feto foi sacrificado de qualquer maneira. Sacrificado e usado, este que é ponto. Isto quer dizer que se você usou o feto na pesquisa, mas depois ele não foi incorporado no produto final, quer dizer que você não matou o garoto, ele está lá vivinho da silva. Ora, que é isto?! Eu falei que qualquer elemento usado na preparação de um produto, seja na fase de pesquisa, seja na produção, está usado no produto e para o produto. E dei o exemplo (até botei no You Tube): quando você vai fazer um filme, você manda um fotógrafo tirar fotos de todos os locais de filmagem para ver quais são os mais adequados, e essas fotos não entram no filme, elas não aparecem no filme. Isso não quer dizer que elas não façam parte da produção do filme. A produção de todo e qualquer produto se divide em fases, nas quais muitos elementos usados na pesquisa inicial não são incorporados no próprio produto, mas foram usados no processo de produção. E é este o ponto da responsabilidade moral que estou discutindo. De onde ele tirou que criei a teoria de que eles botam fetos dentro das latinhas? Essa é a interpretação dele, interpretação boba. Por que acontece isso? O indivíduo é analfabeto funcional, ele não entende a língua geral. Agora, se ele não entende a língua geral, com tanto mais fervor se apegará à língua técnica da sua profissão, que é muito mais fácil de dominar do que a língua geral. Porque toda e qualquer linguagem técnico-científica é feita de conceitos perfeitamente delimitados, estáveis e sem ambigüidade. É como se fosse uma maquininha que, pensando bem, qualquer imbecil pode manejar. Isto quer dizer que o nível de inteligência requerido para o sujeito dominar uma linguagem técnica dessas é infinitamente menor do que o necessário para ele participar de uma discussão pública sobre um assunto responsável. E acontece que no Brasil você já não tem uma educação que prepare as pessoas para o manejo do idioma, para a compreensão do idioma, para participar de várias discussões em vários níveis, vários planos, sobre ações diversas. Você não tem essa preparação, que seria justamente a da filosofia e das ciências humanas. O que aconteceu na filosofia e nas ciências humanas no Brasil é um desastre e algumas áreas técnicas se preservaram, mesmo porque são mais fáceis de preservar. Então o resultado é que qualquer pessoa que tenha essa formação técnica sente uma segurança dentro do seu território e os outros territórios ela não compreende. E isso no Brasil virou regra geral. Isto quer dizer que as pessoas que têm o melhor ensino universitário no Brasil, que é nessas áreas técnicas, são burras. É isso o que está acontecendo. E o negócio da ignoratio elenchi se tornou endêmico. Estou descontando aqui qualquer desonestidade da parte dessas pessoas. supondo que fossem totalmente honestas, que estão sendo sinceras, ainda assim são de uma burrice extraordinária e mostram que não estão capacitadas para entrar nessa discussão. Mas quando entram, entram com uma segurança tremenda. Se você for acrescentar a isso o fator do viés ideológico, da identidade grupal ameaçada, de preconceitos, daí vira uma confusão que não acaba mais. Aonde foi parar essa confusão e [0:40] que dimensão isto está? Outro dia vi um documento publicado num blog chamado A Página Vermelha que achei maravilhoso, em que um leitor dizia: “Nós temos de tomar uma providência com esse Olavo de Carvalho porque esse cara é perigoso, ele está formando uma militância, exerce uma influência deletéria, e temos de pensar seriamente isso, mas não podemos ir fazendo as coisas a esmo, temos de sentar e estudar o problema. Em 1964, a intelectualidade esquerda toda parou durante cinco anos para examinar o que estava acontecendo antes de fazer um plano de ação. Eu sei disso porque tinham aquelas pessoas da revista Civilização Brasileira, que foi o centro da discussão comunista da época, das quais ainda conheço algumas que estão vivas ainda”. O que se conclui daí? O sujeito não é um jovem porque, se ele conhece esse pessoal da Civilização Brasileira, ele teve alguma convivência com eles. Então no mínimo uma pessoa de idade adulta. Em segundo lugar, ele está equiparando o surgimento de fenômenos como Felipe Moura Brasil, Gustavo Nogy (para não falar de outros mais populares em volta que dão uma repercussão não muito exata, mas barulhenta do nosso trabalho) ao golpe de 1964. Ou seja, a nossa presença na sociedade fará com que essa elite esquerdista precise se recolher e nos estudar durante cinco anos para depois fazer um plano de ação. Acontece que eu também estava lá em 1964, eu vi isso aí e toda essa discussão interna da esquerda eu participei. Eu era novo ainda para ficar dando palpite, mas eu sabia do que os caras estavam falando, lia esse material com enorme interesse e aquilo, naquele momento, era a minha vida. Posso contar toda a história do debate esquerdista dos anos 60 de cor. Só que o que aconteceu em 1964 foi que os camaradas estavam no poder, estavam no governo, e o perderam completamente do dia para a noite. Então foi um desastre do tamanho de um bonde — desastre como nunca tinha acontecido na esquerda nacional, nem no tempo da ditatura Vargas aconteceu uma coisa dessas. E o indivíduo, passado meio século, sentir que a mera presença de um professor dando aula e um círculo de alunos em torno é um fenômeno da mesma proporção daquilo e digna do mesmo exame sério, então algo aconteceu na cabeça nacional. Porque se você pensar, nós, aqui, tomamos o poder, estamos no governo? Não, quem está no governo são eles. Temos algum meio de tomar o poder? Não. Temos algum plano de tomar o poder? Não. No máximo somos aquilo que Machado de Assis chamava “a ameaça de possibilidade de suspeita”, tem alguma coisa que talvez um dia possa até acontecer. Mas a reação já é temor e preocupação. É evidente que essas pessoas se tornaram incapazes de fazer um exame sério da situação política e da estrutura social, coisa que os comunistas dos anos 60 não eram, eles tinham uma visão muito clara de qual era o estado da sociedade brasileira, qual era a estrutura social, qual era a distribuição de forças. Eles tinham essa visão e estavam confusos quanto a certos pontos para os quais não havia realmente um esclarecimento. Por exemplo, uma questão muito importante na época era saber se a tal da burguesia nacional existia ou não, porque a política tradicional do partido comunista era a política do front popular do Stalin, ou seja, nós não nos batemos pelo comunismo, mas nos batemos por criar uma situação democrática que nos favoreça e o comunismo vem depois. Isso era a política do partido comunista. Daí a aliança com outras forças políticas que não eram comunistas nem de longe, mas eram, como eles diziam, progressistas. Nesse sentido, eles acreditavam que existia uma parcela da burguesia cujos interesses coincidiam com os do partido comunista porque era a burguesia nacional interessada portanto no desenvolvimento do país, para distinguir da burguesia aliada dos poderes internacionais. Então havia a burguesia nacional e a burguesia internacional. E a burguesia nacional, segundo entendia Luiz Carlos Prestes e outros líderes do partido, era aliada natural dos comunistas na sua luta antiimperialista. Aconteceu que, quando veio o golpe de 64, surgiu a dúvida: “Parece que a burguesia nacional não estava do nosso lado. Fomos surpreendidos, a burguesia ficou toda do lado de lá e nós ficamos isolados”. Para discutir isso, eles foram rastrear até a história do tempo colonial. Se vocês lêem o livro de Caio Prado Jr., A Revolução Brasileira, ele foi rastrear a origem da burguesia brasileira até o tempo da colônia. Você vê que a discussão era série, eles estavam a fim de entender mesmo o que estava acontecendo. Ser brasileiro, todos nós sabemos, é uma condição existencial profundamente insatisfatória. É um país de pessoas que não se realizam, é um país de gente frustrada, é um país onde ninguém consegue fazer um plano de vida. Isso sempre foi assim. Em outras épocas, para uma elite muito pequena não foi assim — não necessariamente uma elite econômica. Se você for ver, na passagem do século XIX para o XX, muitos brasileiros de origem muito humilde tiveram vidas maravilhosamente realizadas. Se você pegar um tipo como Cruz e Sousa que sai do nada e vira um poeta nacional; outros não conseguem, outros ficam no buraco como Lima Barreto, embora se realizem artisticamente, não se realizam humanamente, e assim por diante. Mas se você lê os livros do próprio Lima Barreto, você vai ver que essa atmosfera de frustração, de derrota, era o sentimento nacional. Assim como nos EUA você tinha um sentimento de auto-realização do self-made man, do eu posso, faço e aconteço, no Brasil tinha exatamente o não posso, não faço nem aconteço. Esse sentimento é verdadeiro, nós o experimentamos na vida de todos os dias, e não é de hoje que o experimentamos. Se aparece uma corrente política que promete renovar tudo, virar tudo de cabeça para baixo, criar novas perspectivas, então muitas pessoas sérias e empenhadas em tomar uma atitude existencial mais séria vão aderir a essa corrente. E isso aconteceu com os comunistas entre os anos 30 e 60. Isto quer dizer que tinha muita gente boa que tentava equacionar a sua situação existencial nos termos e no vocabulário comunista, e até certo ponto conseguiam fazer isso — às vezes falsificando, é claro. Por exemplo, homens de classe média ou filhos até da classe rica que descreviam a situação como se fossem proletários oprimidos, isso aconteceu muito. Quer dizer, aquela visão estereotipada da luta de classes fornece uma linguagem na qual até certo ponto as pessoas podem expressar um drama existencial real, ainda que forçando um pouco aqui e ali para adaptar a experiência real ao vocabulário ideológico. Mas alguma coisa sempre se salva disso daí. Quando você vê lê, por exemplo, os romances de Graciliano Ramos. Ele era um homem de classe média que até subiu na vida de maneira relativamente precoce, ele foi prefeito da sua cidade, é um homem que tinha uma boa situação, mas que se expressa na língua da luta de classes e que percebe também toda a ambuigüidade da sua situação de classe média, como por exemplo no grande romance dele que para mim é São Bernardo. São Bernardo é o conflito entre um senhor de terras, que é um homem violento, vulgar, egoísta, e a esposa dela, que é uma professorinha, portanto não é uma proletária, é uma pessoa da classe média relativamente baixa, mas uma pessoa de cultura. O proprietário de terra ali aparece não como inimigo de seus empregados, mas como inimigo da intelectual que era a mulher dele. Neste sentido, você via que o intelectual como [0:50] um tipo marginalizado na sociedade. Você sabe que a situação de um escritor ou de um jornalista no Brasil sempre foi uma coisa precária, então naturalmente ele se sentia aliado dos mais pobres e, como tal, expressava o seu drama na linguagem da luta de classes, da luta dos oprimidos. Até certo ponto, até àquela época, isso era muito autêntico, muito verdadeiro. Nas décadas seguintes, isso se falsifica de maneira completa porque toda essa gente se torna a elite mandante, e continuam chorando como se fossem os coitadinhos. Isso significa que a literatura de esquerda no Brasil acabou, porque esta nova visão falseada na qual, além de você dissolver o perfil das classes, ainda entra outros elementos como gayzismo, feminismo, abortismo que só pertencem à luta proletária de maneira metafórica e quase inconcebível. Quer dizer, até parece que são as mulheres proletárias que estão querendo abortar e não as estudantes de classe média e as mulheres ricas. Tudo isso se confunde para fazer do imaginário esquerdista um conjunto simbólico eminentemente deslocado da situação real da sociedade. Ele consegue se expressar ainda através de discursos políticos, de propaganda etc., mas não da arte. A expressão artística depende de uma sinceridade profunda. Claro que a sinceridade artística não é a mesma coisa que a sinceridade pessoal nas relações humanas, mas ela existe e é uma exigência fundamental da arte. Aquilo que dizia Saul Bellow: os artistas, os escritores trabalham com impressões autênticas. Se eles vão pegar apenas um chavão político, acabou a representação artística, você pode criar um discurso de propaganda, mas não vai fazer um belo romance, um belo poema. Então a literatura de esquerda no Brasil acabou. Eu acho que a sua última expressão mais ou menos legítima foi o romance A morte do Brasil de Lêdo Ivo, que é dos anos 80. Quando Lêdo Ivo escreveu isso, ele já era muito velho, então ele é um homem da década de 60 ainda. Depois disso acabou. Por exemplo, o pessoal menciona muito um conto do Rubem Fonseca que se chama O Cobrador, que é o sujeito que se considera um cobrador da dívida social. Mas Rubem Fonseca era um tremendo reacionário e a visão que ele tem da sociedade certamente não coincide com a da esquerda. Como a imagem literária do Brasil acabou, estamos vivendo em plena época do discurso totalmente deslocado da realidade. A realidade da vida social, da vida de todos os dias, ninguém está sendo capaz de expressar porque ela se tornou tão complexa e tão miserável ao mesmo tempo, que não há como expressá-la. Só o que sobrou foram os estereótipos e a linguagem da propaganda política a favor ou contra. Você vê também que, quando o pessoal da direita fala, quase sempre o discurso deles também é deslocado em relação à situação da sociedade. Por exemplo, a famosa defesa da família: eles estão defendendo a família como princípio, mas o processo no qual estamos envolvidos não é a destruição da família como princípio, é a destruição da sua família e a preservação da família deles. Lula e Lulinha é uma transmissão patriarcal, é poder de um que vai passando para o outro, e vai o neto Lula, mini Lulinha, e depois o mini micro Lulinha, e assim por diante. Vai ter casamento gay ali? De jeito nenhum. Casamento gay acaba com o poder do patriarcado. Vai ter casamento gay na família dos outros. A defesa da família como princípio é fazer buraco n’água, é um discurso totalmente deslocado do que está acontecendo realmente. Agora, por exemplo, a mudança do panorama estético visual do Brasil nos últimos quarenta ou cinqüenta anos — isso começou ainda no tempo dos militares —, quer dizer, a destruição da beleza do Brasil. É curioso que os artistas deveriam ser sensíveis a isso, mas você não tem um único testemunho disso aí. Você pode procurar poemas, romances, filmes, ninguém mostra isso, e isso é a nossa vida de todos os dias, meu Deus do céu! Experimente, pegue uma foto de São Paulo nos anos 50, veja como era a cidade e veja como está hoje. As pessoas às vezes usam o termo favelização. Eu não sei, porque às vezes a favela é mais bonita do que isso. Na favela ninguém vai fazer pichação, você não tem grafiteiro nas favelas, fazer grafitagem é lá na cidade. Quer dizer, os termos não descrevem exatamente o que está acontecendo e o discurso expressa sempre problemas que são parecidos com a realidade, mas que não são a expressão direta da experiência. Então estamos vivendo num estado de alienação total. Outro dia um rapaz postou uma mensagem no meu Facebook, dizendo que ele ficou na Austrália trinta e cinco dias e que voltou, evidentemente, e ficou horrorizado com o Brasil. Eu tive essa experiência várias vezes. Toda vez que viajava e ficava um tempo fora, voltava para o Brasil, entrava numa depressão desgraçada. Eu me lembro que tinha feito uma viagem de Washington até a Virgínia (estava procurando casa), e tudo o que eu via era bonito. Daí cheguei lá, tinha de fazer uma viagem de São Paulo a Santos. Estava tudo quebrado, tudo devastado, parecia que tinha caído uma bomba atômica, e pensei como as pessoas conseguem viver nisto. Não era assim cinqüenta anos atrás, então algo mudou. Como é possível que a literatura, o teatro, as novelas de televisão não reflitam isso em nada? Porque elas estão preocupadas apenas em repassar estereótipos de propaganda. Por exemplo, o problema gay, quando você vê a intensidade com que isso aparece na Globo, você tem a impressão de que, dos duzentos milhões de brasileiros, cento e noventa e nove milhões são gays e estão desesperados porque ninguém os deixa fazer o que eles querem fazer. Ou então você a impressão de que o homossexualismo é eminentemente um problema das classes baixas, coitadinhas, que são oprimidas. No entanto, todo mundo sabe que você tem muito mais gays na classe média e alta. Quer dizer, o que eles estão tratando como problemas nacionais não são problemas nacionais, são problemas de uma elite. Ou seja, se você quer saber, os problemas da novela da Globo são os problemas da equipe da Globo, são os dramas existenciais deles que passam como se fossem o da nação. Agora, compare isso com o interesse que os romancistas, os ficcionistas da década de 20, 30, 40 tinham em conhecer o povo. Compara, por exemplo, o conhecimento que José Lins do Rêgo tinha da vida diária do povão pobre do Brasil, ele sabia tudo. O próprio Jorge Amado, às vezes escreve no estereotipo, mas sabia bastante coisa. Tudo o que tem na obra dele é expressão autêntica da vida nacional, assim como em Graciliano Ramos e outros tantos. E hoje? Se por um momento você toca numa situação real, você causa escândalo porque o imaginário das classes falantes, sobretudo da classe artística, não está preparado para isso, está preparado para expressar o seu drama, os seus interesses, os seus desejos. Vocês lembram aquela cena do filme Tropa de Elite em que eles estão na sala de aula, e aquele estudante que é um soldado também, ele diz: “O que vocês estão falando de narcotráfico? São vocês que alimentam o narcotráfico, vocês consomem a droga. Vocês têm dinheiro, vão lá e compram a droga. Se não fossem vocês, não existiria isso”. Isto é ou não é uma realidade? Isto é realidade, no entanto todo mundo ficou bravo com a cena. Isto quer dizer que expressar a realidade da vida no Brasil se tornou proibido. É por isso que acabou a arte! Ela só acerta [1:00] quando se engana, como foi o caso do filme Tropa de Elite: o cara cometeu um erro, e tem uma cena real. Também o cara que fez Central do Brasil. O que é? O garoto está num meio urbano totalmente corrompido, violento, sob o domínio do banditismo, e onde ele vai encontrar abrigo? Ele volta para o interior onde só tem aquelas velhinhas rezando. Eu assisti e falei: mas este é o filme mais reacionário a que assisti na minha vida. Ele está dizendo que o Brasil moderno é só corrupção e só o que resta de bom são as velhinhas que estão rezando lá no interior. O que é verdade. E o que aconteceu? Ninguém comentou que o sentido do filme era esse. Esse filme é uma apologia do velho Brasil: cristão, conservador, até rotineiro, onde as pessoas têm segurança, onde ninguém quer lhe matar. Não vi um comentário nesse sentido. Quer dizer, ele expressou uma realidade, isso existe mesmo, sabemos que as coisas são assim — se é que este Brasil do interior ainda existe, ele existia quando o cara fez o filme vinte anos atrás. Hoje não sei como está, talvez a Rede Globo já tenha destruído tudo. Por exemplo, o que é este ambiente da Rede Globo? O que essas pessoas pensam? Como alguém faz para subir na vida dentro da Rede Globo? Para quantas pessoas tem de dar, pouco importando se você é homem ou mulher? Existe algum romance que trata disso? Existe algum filme que trata disso? Não tem nenhum! E, no entanto, isso é um fator que decide a nossa realidade e o nosso imaginário está totalmente descolocado disso. O que é a vida nas redações de jornais? O que é a vida dentro da militância política? Qual é a troca de favores? Quem come quem? Quanto o dinheiro o sujeito leva? Você não tem uma obra de ficção que retrate isso! É claro que a mentalidade das pessoas é formada pelo imaginário social, e o imaginário social é produzido pelos artistas. Como a arte foi toda instrumentalizada para servir a PT, PC do B, essa coisa toda, então agora só pode ser propaganda, não pode mais ser expressão artística. Você não pode mais ter o contato direto com a realidade e expressar, como dizia Saul Bellow, “as impressões autênticas”. Resultado: você cria uma multidão de deformidades mentais que não acaba mais. E essas deformidades mentais podem ser úteis dentro de certos projetos políticos. Não que todos sejam uma militância organizada, é claro que não, mas por definição o idiota útil é idiota demais para saber que é útil. Então ele acredita piamente que está expressando a sua opinião livremente. Por que ele acha que a sua opinião é livre? Porque ele não tem capacidade de rastrear a origem das suas idéias; como ele não sabe de onde elas vieram, ele acredita que tudo aquilo saiu espontaneamente do seu coração; ao passo que um breve exame da origem das suas idéias já mostra que é muito difícil você ter uma opinião própria, você sempre está jogando com elementos que estão em circulação na sociedade. E qual é a sua possibilidade de livre escolha? Para o cidadão comum é quase nula; porque além das alternativas que são oferecidas diariamente pela mídia, pelo meio universitário, ele não conhece outras. Então ele vai seguir essa, que é o que tem, e vai achar que aquilo é a expressão mais pura da sua liberdade individual. Esta é a situação na qual estamos vivendo. Eu vejo que esse curso aqui já despertou muitos talentos que estão aí hoje atuando, falando, ensinando, e eu espero que isso tenha efeitos na produção literária daqui a um tempo. Ainda falta muito. Embora tenha já alguns alunos que escrevem muito bem, o problema de expressão lingüística ainda é um drama para muita gente, não dominam a língua. Às vezes me mandam uns poemas. O poema está bem feito, só que chega no meio tem um tremendo erro de gramática que estraga tudo. Eu comparo assim: pegar uma mulher bonita, mas faltam os dentes da frente. Quer dizer, ainda tem um longo caminho a ser percorrido. Mas vocês não se desencorajem. Por pior que esteja a situação, é justamente quando a situação é pior que você tem de levantar a cabeça, seguir em frente e fazer o que tem de ser feito. Eles querem afundar o país, que afundem, mas nós não vamos afundar, vamos levantar. Pelo menos onde estamos não vai cair, aqui não vai cair. Pensa assim: onde é o Brasil? O Brasil é aqui onde estou, eu é que o represento e vou fazer o melhor possível, e os outros, se querem fazer porcaria, que continuem fazendo. Aluno: Iniciei o estudo da Gramática Metódica de Napoleão Mendes de Almeida e tenho tentado decorar sonetos de Camões e os de Bocage estão para chegar. Além de ler a História da Literatura de Carpeaux, que o senhor já indicou, creio que outras duas obras importantes para o começo da reeducação seria a História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins e Os Ensaios Reunidos também de Carpeaux. (...) Olavo: A História da Inteligência Brasileira de Wilson Martins não, porque o que ele tenta fazer ali é retratar ano por ano todo o movimento editorial e por assim dizer o movimento das “idéias” no Brasil, de modo que, para isso, ele leu todos os livros ruins que foram publicados no Brasil. Quer dizer, é uma coleção de insignificâncias absolutamente esmagadoras. Não sei como ele conseguiu ler tudo aquilo, são páginas e páginas e páginas sobre idéias esquisitas, opiniões idiotas, coisas que é melhor esquecer. É um livro importantíssimo para documentar a história, mas ele não tem poder educativo. Ele é um livro não para quem quer se desenvolver literariamente, mas para quem quer conhecer a sociedade brasileira em toda extensão da sua miséria intelectual. O que não é o caso, não vai ter um efeito muito estimulante sobre a sua cabeça. Mais importante do que isso seria ler os grandes críticos literários dos anos 40 e 50, como Álvaro Lins, Augusto Mayer, inclusive críticos portugueses que moraram no Brasil, como Adolfo Casais Monteiro, Fidelino Figueiredo, e assim por diante. Esses são importantes para a sua formação. A História da Inteligência de Wilson Martins, não. Este é um livro de pesquisa e não tem finalidade pedagógica, tem finalidade documental. É uma excelente obra, claro, não estou criticando, só estou dizendo que não é um livro para a sua formação. Aluno: (...) Tenho 19 anos, e vejo que as minhas dificuldades com o idioma são muito mais profundas e básicas e que, portanto, talvez não devesse começar pelas obras citadas. Olavo: Deve começar por essas obras, sim. O negócio de vencer as dificuldades com o idioma, no fundo, no fundo, só tem um jeito: escrever as coisas e dar para alguém que tenha mais capacidade e tenha um senso crítico para corrigi-lo. Não vejo outra maneira. Se você não é capaz de saltar isso sozinho, você precisa de alguma ajuda, alguma pessoa mais experiente que saiba escrever. Eu tive muita sorte no começo da minha vida jornalística por ter um editor chamado Ciro Franco de Andrade que não só corrigia as nossas matérias, como [1:10] nos humilhava quando escrevíamos coisas que soavam mal, eram absurdas. Tinha um mural na redação, e quando chegava aquelas jóias da imbecilidade jornalística, ele não só as corrigia, mas as grudava no mural para a humilhação dos culpados. Eu tive várias coisas penduradas no mural, e hoje sou muito grato ao Ciro, que é uma pessoa que nunca mais vi, por ser capaz de ouvir aquilo que eu não ouvia. Ele pegava dissonâncias que escapavam ao espectro do meu ouvido. Não só eram erros de lógica, erros de formação, mas coisas que não pegam bem. O principal aí é ouvido. Aluno: Qual é o papel da música na formação do imaginário? Ela serve para desenvolver as emoções? Olavo: O que a música pega sobretudo é o senso do tempo e o senso da ação humana. A música é um enorme estimulante da ação. É quase impossível ouvir uma música e não ser impelido numa certa direção. A música, ao contrário das outras artes, exerce uma influência imediata sobre você. Por isto mesmo que ela sempre foi usada como um estimulante ou do trabalho, ou das artes militares, ou dos encontros sociais. Quer dizer, você tem vários tipos de música que favorecem determinadas atividades porque colocam a pessoa no ritmo e na temporalidade daquelas atividades. As marchas militares são as coisas mais características. Elas já foram feitas para colocar o indivíduo numa espécie de harmonia temporal com os companheiros, do mesmo modo as músicas que se destinam à dança. Você experimenta, pega uma moça e começa a dançar com ela sem música para ver o que acontece. Você tem de ser guiado pela música. Veja que coisa, no simbolismo das artes liberais, a música é associada ao planeta Marte, que é um planeta da voz de comando. Acho isso um simbolismo muito certo. Também hoje você tem uma série de estudos que mostram que através da música você pode desenvolver a inteligência humana ou curar certos distúrbios. Aqui nos EUA tem uma multidão de coisa que tem isso aí, e você vê que essas coisas funcionam mesmo. Tem música que toca e o QI do sujeito aumenta, por exemplo as músicas de Mozart. Não sou um grande apreciador de Mozart, mas ele tem esse dom: o sujeito ouve Mozart, o QI dele aumenta um pouquinho — dura uns dez minutos, mas funciona. Se eu ouvir sempre, vai fazer bem. A música serve eminentemente para isso. A música é uma arte do comando e do autocomando, comando de si próprio também. E a importância da música na linguagem é uma coisa terrível porque oitenta por cento da arte de escrever é ouvido, é saber como os outros vão ouvir o que você está dizendo e se a maneira que eles vão ouvir é aquela pela qual você imaginou ouvir. Por quê? Quando você monta as suas frases na sua cabeça, você acrescenta a elas tons musicais que elas por si mesmas não têm, quer dizer, você as associa. Não só musicais, mas, por exemplo, se você conhece certos lugares que para você tiveram uma importância afetiva em certa época da sua vida, então basta dizer o nome desses lugares que, para você, aquilo já evoca imediatamente. Você saber quais dessas palavras têm uma eficácia social e quais são subjetivas (apenas suas), é uma coisa importantíssima. Por exemplo, se você está falando de lugares de uma cidade, conforme a idade da pessoa que você está falando, ela vai saber do que você está falando ou não, quer dizer, a emoção é transmitida imediatamente ou não. E a grande dificuldade, quando você é muito jovem, é justamente que o seu repertório de imagens é muito pessoal e ainda não abarca a experiência coletiva. Isso aí só o tempo resolve. Isto é agravado no Brasil de hoje pelo fato de que as artes já não expressam a experiência comum, a experiência real das pessoas, então você não tem muito onde se apoiar para isso. Os escritores dessa geração vão ter de ter muito mais trabalho do que os das gerações anteriores porque você não tem esse suporte do imaginário coletivo ao qual possa apelar. Vou dar um exemplo para vocês. Se vocês leram Georges Bernanos, não os romances, mas os livros de polêmica dele que são livros de uma eloqüência arrasadora, vocês vêem que eles funcionam na França porque ele está falando de coisas e usa palavras que estão presentes no coração das pessoas. Eles tiveram uma experiência comum, por exemplo a experiência da guerra. Quando ele escreve no livro Les Grands Cimetières sous la lune (Os Grandes Cemitérios sob a Lua), que é uma polêmica contra o governo espanhol fascista, ele está se referindo a coisas que são de experiência comum dos franceses de uma certa idade. E ele sabe muito bem evocar isso aí e fazer com que, ouvindo, eles se sintam todos juntos. Quando ele fala “Nós todos vamos parecer juntos diante do trono de Deus”, ele está falando de uma geração e sabe despertar isso aí. Ou seja, ele conhecia muito a sociedade francesa, a sensibilidade dos franceses, e sabia apertar a tecla certa. No Brasil de hoje, isso é muito difícil porque o imaginário social está totalmente fragmento e não está condignamente representado na literatura. Então você vai ter de certo modo pegar a sua experiência pessoal, conferir se as outras pessoas têm a mesma experiência e aos poucos ir construindo o seu próprio simbolismo. Ou seja, escrever bem na atual situação brasileira é muito difícil. As dificuldades que tenho para fazer isso vocês não imaginam. Ou tento pegar o máximo possível da experiência atual, quer dizer, de jovens entre 20 e 30 anos, e criar um elo entre eles e a língua portuguesa do tempo em que existia língua portuguesa na literatura brasileira. É difícil fazer essas coisas, tudo tem de ser estudado, contado, pesado, medido. Portanto a sua dificuldade não é uma dificuldade pessoal, é uma dificuldade da sua geração. Tem muita gente escrevendo mal, mas no Brasil de hoje está difícil escrever bem porque você não pode escrever bem num deserto. A língua do escritor puxa os seus recursos da língua geral, mas não da língua geral em estado bruto, a língua que as pessoas estão falando na rua. Ela já tem de estar um pouco trabalhada pelos outros escritores, senão você tem de fazer praticamente uma mágica. Quer dizer, é a mesma coisa que você criar uma expressão verbal numa sociedade não alfabetizada. Se você pegar uma sociedade iletrada, você não vai poder sozinho criar uma literatura ali. É uma sociedade sem língua, é uma sociedade que não consegue se expressar, não consegue dizer a sua experiência. De certo modo, para aparecer um escritor que faça isso, ele está com que fazendo uma obra civilizatória, ou seja, ele está criando o imaginário coletivo. Isso é dificílimo. Alguém vai vencer isso aí. Mais dia menos dia, alguém vencerá, aparecerá um grande romancista, um grande poeta, um grande dramaturgo. O teatro é uma boa maneira de começar a trabalhar isso porque no teatro você vai ter de usar a linguagem cotidiana e [1:20] naturalmente vai dar a ela um valor simbólico, pelo simples fato de ela estar numa peça de teatro. Em suma: não tenho a solução pronta para o seu problema, mas continue se esforçando e sabendo que essa sua dificuldade não é incapacidade pessoal, não, você está tentando vencer uma barreira que no momento parece invencível. Eu tenho consciência de que venci essa barreira, mas não venci no domínio do romance, do teatro, da ficção. Consigo fazer ensaios e artigos, aí eu sei fazer. E levei muito tempo para conseguir o tom de voz, o vocabulário certo só para essas finalidades, que nestes domínios são mais fáceis do que no romance ou na poesia. Você ainda tem muito trabalho pela frente. Aluno: Há alguma coisa sobre a filosofia ecológica de Fetzer? Olavo: Não a conheço, não estudei, não li nada, não posso dar palpite algum. Aluno: O senhor comentou na aula passada a obra Geopsique (já esgotada) de Willy Hellpach, como sendo uma má tradução do original para o português. Não seria interessante que obras como essa pudessem relançadas pela Vide Editorial, assim como as obras de Antony Sutton? Olavo: Absolutamente. Isto é urgente urgentíssimo. A do Willy Hellpach menos do que a do Sutton. Sutton é questão de primeira necessidade porque o Brasil está na U.T.I. em matéria de informação, ninguém sabe coisíssima nenhuma, sobretudo sobre essa fase da história. Sutton foi o sujeito que fez aqueles estudos sobre a economia soviética, que mostrou simplesmente que a economia soviética era puro capitalismo americano. O capitalismo americano fazia aquilo andar. Até hoje você tem historiadores bons que ignoram esses estudos, é um erro terrível. Outro dia eu estava lendo um bom historiador soviético (esqueci o nome) que coloca que os americanos ofereceram uma ajuda e Stalin recusou — isso não é verdade. No Antony Sutton está toda saída de dinheiro dos EUA e a entrada na URSS. Aluno: Tenho interesse em cursar a Introdução à Filosofia de Louis Lavelle que o senhor vai ministrar em maio. Olavo: Eu já dei esse curso. O que você pode fazer é comprar a gravação. Está havendo um exterminador do futuro, está trocando o ano passado pelo ano que vem. Aluno: O que o senhor acha de religiões que acham que o mundo pode ser perfeito aqui mesmo, onde se busca a felicidade absoluta e o conhecimento pleno aqui na Terra? Olavo: Esse negócio da Terra é um problema sério, porque na Bíblia Deus não diz que a sua alma vai subsistir em estado celeste e etéreo eternamente, é o contrário, ele vai lhe dar um corpo. E diz ali: “Farei novo céu e nova terra”. Isto quer dizer que a vida eterna é de certo modo material. Não sabemos como e não sabemos que terra é essa, se Ele vai fazer outra terra ou se vai renovar essa. Não sabemos, e acho que especular isso não vai adiantar nada. Porém, esse simbolismo da nova terra confunde muito na seguinte base. Existe uma frase de Spinoza que diz, “Sentimus experimurque nos aeternos esse”: “Sentimos e experimentamos que somos eternos”. E de fato temos a imortalidade da alma. Acontece que esse sentimento de eternidade já está presente nesta vida, o que faz as pessoas terem a impressão de que não vão morrer nunca e torna difícil para qualquer um imaginar a sua própria morte. Porque se o sujeito imaginar a própria morte, ele vai tentar imaginar como extinção, mas essa extinção não existe. Então a dificuldade de imaginar a morte, a qual vem da própria consciência de imortalidade (tema de um curso meu), é uma fonte de inumeráveis confusões. Eu acho que só uma contínua meditação sobre a morte e o paraíso — o certo seria morte e transfiguração — pode resolver isso. Tenho a impressão de que a marcha fúnebre de Wagner na obra Siegfried é de uma grande ajuda para isso, porque ele teve uma certa visão da transfiguração após a morte. A marcha fúnebre segue a seguinte seqüência: o impacto da morte, a ascensão da alma, um retorno a terra onde é o enterro, a cerimônia do sepultamento, e as pessoas indo embora depois do sepultamento. Então algo dessa transfiguração ele pegou ali. Existe um poema sinfônico de Richard Strauss, Morte e Transfiguração, onde ele quis fazer isso, mas Wagner já tinha feito mil vezes melhor. Imaginar essa transfiguração, essa presença humana após a morte diante dos anjos, dos demônios, de Deus, eu acho que isso é um exercício muito bom. Os quadros de Akiane ajudam, os relatos da experiência de pessoas que estiveram clinicamente mortas ajudam. E saber se vamos ficar nesta terra ou se vamos para outra, não somos nós que vamos decidir isso. Agora, eu sei que nesta terra com este corpo aqui não vamos ficar. Vai haver uma transfiguração, vai haver uma transmutação, para nós absolutamente indescritível. E tem vários recursos imaginários que você pode usar, que às vezes não são filosoficamente ou teologicamente exatos, mas que podem ajudar. Uma delas seria um recurso que uso muito: imaginar que todo este nosso universo conhecido, até onde a astronomia alcança, é apenas um átomo na materialidade da outra vida; a diferença seria de tamanho descomunal. Isso não é necessariamente assim, mas é um recurso imaginário que ajuda. Eu acho que imaginar a morte, a transfiguração, o paraíso e inferno, é muito importante. O livro de Monsenhor de Ségur sobre o inferno — que não é uma teoria, não é um livro de teologia, são pessoas mortas [que] do inferno que falam com ele – ajuda muito. Na internet, no You Tube, tem vários relatos de pessoas que sofreram acidentes, estiveram clinicamente mortas, tiveram visões do inferno e do paraíso, tiveram a visão de serem atraídos pelos diabos e pedirem socorro, irem na direção contrário. Para cada pessoa existe uma variedade enorme de experiências. Mas pensar nisso, imaginar isso faz parte do realismo porque algum dia vamos morrer mesmo. Até a semana que vem, muito obrigado. Transcrição: Jussara Reis de Abreu. Revisão: Éricson Rojahn