Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 233 4 de janeiro de 2014 Boa noite a todos. Sejam bem-vindos. Hoje quero continuar com aquele texto de Robin Phillips [“O Ilusionista”], que é um texto muito elementar e, em alguns pontos, o autor simplifica as coisas demais. Nós poderemos remediar isso talvez mais tarde fazendo uma leitura comentada do livro de Marcuse, Eros e Civilização. Acho que vale a pena. No fim das contas, o pensamento deles é mais complexo do que está exposto aqui. Robin Phillips está descrevendo o fenômeno pelo efeito global que teve no seu público e não propriamente pelo conteúdo interno do pensamento de Marcuse e nem do restante da Escola de Frankfurt. Para conhecer a Escola de Frankfurt creio que o melhor é começar pelos livros de Max Horkheimer, sobretudo A Destruição da Razão – talvez esse seja seu melhor livro. O estudo que mais marcou a presença deles nos Estados Unidos foi uma obra coletiva chamada A Personalidade Autoritária, em que eles tentavam psicologizar a ideologia fascista associando-a a um tipo de personalidade mais ou menos patriarcal, grosso modo, o que é inteiramente absurdo. Historicamente, isso não faz o menor sentido, sobretudo porque o fascismo não surge entre pais de família e pessoas bem colocadas na sociedade, mas, ao contrário, entre veteranos sobreviventes da guerra de 1914 que estavam totalmente deslocados na sociedade, que eram realmente marginais em toda sociedade aonde voltaram. Foi esse pessoal que começou o fascismo e eles são o primeiro público onde se recruta [para] o fascismo. De maneira que associar fascismo com personalidade patriarcal não faz o menor sentido, é totalmente errado. Mas, por incrível que pareça, como o americano gosta de tudo o que falam de mal dele, prestou uma atenção enorme a isso e acreditou. Pelo viés dessa teoria da personalidade autoritária, olhando só por esse aspecto e fazendo abstração de todas as diferenças, a sociedade americana ficava igual à sociedade nazista. Isso é um caso extremo do que eu chamo de paralaxe cognitiva porque todos os membros da Escola de Frankfurt que vieram para os Estados Unidos eram judeus, sem exceção. Eles saíram da Alemanha, onde corriam risco de vida, e aqui foram recebidos de braços abertos, tiveram os melhores empregos e foram paparicados pela mídia. Se o sujeito não percebe a diferença entre essas duas sociedades, então não percebe coisa nenhuma. Esse é um caso de paralaxe cognitiva elevada à enésima potência, a meu ver já assumindo realmente o perfil de uma fantasia histérica. Eu não acredito que nenhum deles fosse realmente psicopata, mas são histéricos, sem dúvida. Em geral, os intelectuais são histéricos e os líderes políticos condutores de povos – Lênin, Stalin etc. –, são psicopatas. A personalidade autoritária é um ente de ficção, um tipo ideal, que pareceu muito persuasivo porque, em parte, coincidia com o tipo do pai de família protestante nos Estados Unidos. Mesmo assim, a coincidência era apenas parcial e fazia abstração de milhões de fatos e dados importantes. Talvez esse livro A Personalidade Autoritária tenha sido a maior distorção sociológica de todos os tempos. Uma completa fantasia que não confere nem com a sociedade que ela está tomando como objeto imediato e nem com a outra sociedade remota, alemã ou italiana, com a qual ela quer fazer um paralelo. De qualquer modo, ainda que o valor científico disso seja realmente nulo, ainda é um livro que merece ser lido porque marcou a história da América e, de certo modo, a história cultural do mundo inteiro. Isso é como você ler Mein Kampf ou Manifesto Comunista: não é pelo seu valor científico, mas pela sua importância histórica. Depois de analisar isso, eu voltarei a outro assunto que surgiu com um breve parágrafo que eu coloquei no facebook sobre a questão do poder. Uma coisa está muito ligada à outra e de alguma forma quero conectar esses dois temas. Vamos voltar ao texto de Robin Phillips. “Quando Hitler se tornou chanceler em 1933, a Escola de Frankfurt foi forçada a dissolver-se, mudando-se primeiro para a Genebra e, mais tarde, depois que a maioria de seus intelectuais fugiram para os Estados Unidos, para a Universidade de Columbia. De Columbia suas idéias foram divulgadas para toda a academia norte-americana. Superficialmente, a América do pós-guerra parecia ser o último lugar que daria atenção a uma filosofia anti-ocidental como essa. Afinal de contas, todo o mundo ocidental, mas especialmente a América, estava plenamente consciente do modo pelo qual o fascismo quase tinha conseguido dar cabo da civilização. Os nazistas chegaram ao poder graças a uma onda de neo-paganismo e tribalismo primordial que se apresentava como uma alternativa para a cultura do Ocidente moderno.” Esse neopaganismo e tribalismo primordial é verdade, havia realmente esse elemento. Mas aí é preciso voltar aos estudos de James Gregor, que é o grande estudioso do fascismo. Este impulso de retorno ao tribalismo e o gosto pelo irracionalismo e pela violência como tal, tudo isso reflete imediatamente a mentalidade daqueles jovens marginalizados que voltavam da guerra e não encontravam lugar na sociedade. Existe aqui nos Estados Unidos uma multidão de gente assim, que voltaram da guerra do Vietnam, só que esses não criaram nenhum movimento político. Se fossem criar, esse movimento provavelmente teria as mesmas características de irracionalismo, de revolta contra toda e qualquer forma de civilização. Na verdade, existe uma espécie de analogia entre essa mentalidade fascista e a da própria Escola de Frankfurt. O ódio que eles têm a toda forma de civilização conhecida é exatamente o mesmo. O desprezo deles, o ódio deles, pelo mundo burguês, pela ordem burguesa, pela democracia parlamentar, também é exatamente o mesmo. Justamente essas semelhanças é o que eles próprios não querem ver de maneira alguma. Eles querem marcar uma distância, uma diferença, entre eles e o fascismo sem ter em vista as semelhanças. É uma falsa analogia evidentemente. Eu acho que a possibilidade de perceberem essa semelhança devia lhes inspirar um tal horror, que o cérebro deles imediatamente desligava: “Não vamos falar disso, vamos mudar de assunto.” E aquilo que era uma obra de jovens desgarrados e marginalizados eles quiseram dar a impressão de que era obra das famílias patriarcais, organizadas e disciplinadas etc.; famílias estas que eram o que podia haver de mais diferente deles, porque nenhum deles tinha uma família organizada. Georg Lukács dividia a mulher dele com outro sujeito no mesmo apartamento – era um socialismo, dividiam a mulher. Todos eles tinham uma vida muito complicada sob esse aspecto. A coitada da família patriarcal entrou aí como Pilatos no credo, quer dizer, nada tinha a ver com a história, mas era o bode expiatório ideal para isentar esse grupo de intelectuais frankfurtianos, para limpá-los de toda a semelhança com os jovens que criaram o fascismo e que compartilhavam muito dos seus sentimentos. O fenômeno que mais tarde se chamou de “nietzscheização” da esquerda já reflete isso aí. Como é que a partir da década de 1970 a 1980 o pessoal esquerdista começa a cada vez mais se interessar por Nietzsche, que era um autor enormemente influente sobre os jovens fascistas de 1918? Esta convergência [0:10] já é possível por causa de uma raiz comum; não uma raiz ideológica, mas a raiz de uma experiência humana vivenciada por inúmeros intelectuais: a desilusão que aqueles jovens europeus tiveram com a democracia parlamentar da Belle Époque coincide no tempo com a desilusão que este pessoal frankfurtiano estava tendo não só com a democracia parlamentar, mas com o próprio comunismo soviético. Havia pessoas desiludidas com tudo. Partiram da idéia de que é melhor acabar com tudo. O mesmo fundo niilista que inspira esses jovens fascistas é o que inspira também os frankfurtianos. Eu acho incrível que eles se digam sociólogos. Um sociólogo tem a obrigação de saber a que grupo social pertence e quais são os traços comuns e diferentes que há entre ele e os demais grupos. Se ele não sabe isso, é a sociologia do mundo da lua. É como aquele teste de Meira Penna na Universidade de Brasília, que perguntou aos alunos do curso de teoria política a que classe social eles pertenciam, e nenhum sabia. Em que classe social ou em que lugar da sociedade você está? Qual é o seu posto de observação? Desde onde você está observando as coisas? Eu acredito que toda a sociologia decente começa com uma auto-sociologia: tenho de saber onde estou, qual é a minha posição, quais são as pressões que pesam sobre mim, quais são as aspirações que tenho em comum com outras pessoas do mesmo grupo e o que me diferencia realmente de outros grupos. O fato de que todos os membros da Escola de Frankfurt eram judeus não é por si um fator diferencial suficiente com relação ao fascismo porque existiu um fascismo judaico em Israel com Jabotinsky. Onde existe esta situação de um grupo marginalizado, revoltado contra a civilização, e esse grupo ao mesmo tempo sobe ao poder e tem a necessidade urgente de levantar a economia ou de criar um aparato industrial, aí estão todos os elementos do fascismo. O próprio nacionalismo entra como um elemento anticivilizacional porque é um apego local, tribal, como ele disse aqui; você está muito ligado aos seus semelhantes e você rejeita aquela idéia dos direitos humanos abstratos, toda aquela idéia universalista da própria revolução francesa. É como aquele pensamento “right and wrong, my country”, ou seja, não importa se o meu país está certo ou errado, ele é o meu. É um espírito um pouco mafioso. Isso esteve presente nesse radicalismo judaico com Jabotinsky. É uma composição ideológica que cria um fascismo. Então ser judeu vacina o sujeito contra o fascismo dos outros, contra o fascismo dos alemães, mas não vacina contra o seu próprio fascismo. O texto segue falando do pós-guerra: “Por isso, a derrota de Hitler representava, em vários sentidos, um triunfo dos valores ocidentais. Nos Estados Unidos, a essa vitória seguiu-se o renovado otimismo cultural característico do final dos anos 40 e 50, o qual se manifestou, entre outras coisas, na explosão demográfica conhecida como baby boom. O gênio da Escola de Frankfurt residia em sua capacidade de converter essa nova confiança em uma força destinada a sabotar a sociedade.” Você está num momento de entusiasmo pelos valores ocidentais, pela democracia etc., e aparece esse pessoal e vai converter isso no seu contrário. Mas, na base, todo esse entusiasmo pela democracia ocidental já estava convertido no seu contrário desde os acordos de Ialta, pelo menos. O grande vencedor da Segunda Guerra foi Stalin. Stalin conseguiu tudo o que queria. Eu já contei aqui para vocês como se deu esta origem da Segunda Guerra. Há vários livros a respeito de como Stalin incentivou o crescimento do nazismo, ajudou materialmente com dinheiro, armas e cedendo o próprio território soviético para criar um exército alemão clandestino com a idéia de usar os fascistas como – na expressão dele – um “navio quebra-gelo”, quer dizer, [os nazistas] vão na frente e derrubam todas as democracias européias, mas como são todos loucos, não vão conseguir governar essa coisa. Então eles ganham e nós levamos. Eles vão na frente derrubando e nós vamos atrás ocupando. Todo o cálculo dele só deu errado porque Hitler invadiu a União Soviética antes que ela invadisse a Alemanha. Na União Soviética estava tudo pronto para invadir a Alemanha, mas [Stalin] não queria fazer isso naquele momento porque ele esperava que Hitler derrubasse ali a França, o Império Austro-Húngaro, tudo o que tinha na frente e só então o exército soviético invadiria a Alemanha por trás para tomar tudo. Estava tudo pronto. Havia armamentos ao longo de toda a fronteira da União Soviética com a Alemanha. Acontece que a informação vazou para Hitler, que achou que eles estavam preparando uma invasão para o dia seguinte, e não era nada disso, era para muito depois. Hitler decidiu imediatamente invadir a União Soviética e com isso Stalin não contava; tanto não contava que ele levou dias para acreditar que a coisa tinha acontecido. Foi o único ponto da estratégia de Stalin que deu errado. Mas imediatamente ele conseguiu dar a volta por cima: com a invasão ele apelou então para um discurso nacionalista, patriótico, fundindo um pouco com o discurso fascista o discurso socialista, e isso deu certo porque houve uma onda de entusiasmo nacional guerreiro. Os russos realmente se sacrificavam. Nos combates morriam 20 russos para cada alemão. Muitos russos iam combater sem armas apropriadas, e tinham de ir para a frente de batalha porque se não fossem baleados pelo alemão na frente seriam baleados pelo sargento atrás. Eles tinham de ir para a frente de qualquer jeito. Stalin conseguiu dar a volta por cima e transformar o ataque germânico num instrumento de reorganização político-militar não só da Rússia, mas de todo o movimento comunista mundial. A idéia dele de usar os alemães como ferramenta para tomar outros países deu perfeitamente certo porque quando chegou na Conferência de Ialta o Roosevelt estava orientado por um sujeito que era espião da KGB, o tal Harry Dexter White. Roosevelt estava doente e completamente gagá na Conferência de Ialta. Ele nem entendia direito o que Stalin falava, dormia no meio das conversações, assinava qualquer porcaria que lhe dessem na mão e assim cedeu metade da Europa para a União Soviética. De modo que esse processo que Robin Phillips está anunciando aqui, a reviravolta na qual a aparente vitória das democracias ocidentais de repente torna-se uma derrota, não veio só por dentro dos Estados Unidos através da Escola de Frankfurt, pois já estava acontecendo naquele mesmo momento no plano da política internacional. Estava sendo atacado por fora e por dentro. “A estratégia envolvia uma astuta redefinição do fascismo, transformando-o em uma heresia da extrema direita.” Esta noção também não veio só da Escola de Frankfurt, mas também de Stalin: a noção de que fascismo é ideologia da extrema direita, dos conservadores etc. Não é possível isso porque na Europa inteira eram os conservadores que sempre arregimentavam suas nações para reagir contra o fascismo, ao passo que a esquerda estava acomodando. Graças aos seus planos, Stalin precisava que o fascismo progredisse, então não atacava diretamente, apenas falava um pouco contra e deixava andar, ajudando por baixo dos panos. Na França isso foi mais evidente, talvez, do que em qualquer outro lugar porque era a Action Française – essa sim era a extrema direita nacionalista francesa, era o fascismo francês – que propunha o rearmamento da França para a guerra contra a Alemanha, ao passo que a esquerda estava acomodando. Quando Hitler invade a União Soviética o discurso muda imediatamente [0:20] e o nazismo, ex post facto, vira uma ideologia de extrema direita. É a propaganda stalinista repetida com outros termos – intelectualmente muito mais elegantes – pela Escola de Frankfurt. “De acordo com essa narrativa, o nazismo foi a consequência de uma sociedade entrincheirada no capitalismo. ‘Quem quer que não esteja preparado para falar sobre o capitalismo também deve permanecer em silêncio sobre o fascismo’, comentou o sociólogo Max Horkheimer.” Para explicar o fascismo eles evocavam a teoria com que Lênin explicava o imperialismo. Lênin achava que o imperialismo era a última fase do capitalismo; que o capitalismo esgotava suas possibilidades em escala nacional e partia para o imperialismo para conquistar mercados; o que é uma coisa inteiramente absurda! Conquistar mercados, equipamentos industrializados, na África, no Brasil, no Paraguai? A coisa não faz o menor sentido. “As culturas que davam grande importância à família, à religião, ao patriotismo e à propriedade privada eram, segundo diziam, terrenos que já eram, de fato, férteis e preparados para o fascismo.” Que negócio é esse? Agora o fascismo se tornou defensor da propriedade privada? O fascismo é um regime totalmente estatista, não tem o menor respeito por nenhuma propriedade privada, muito menos pela família e pela religião. A idéia, por exemplo, da educação estatal – a idéia de que as crianças pertencem ao Estado, é o Estado que as educa e o pai e a mãe não têm de dar palpite – foi adotada in totum, tanto na Alemanha quanto na Itália, assim como foi adotada na União Soviética. “O revisionismo histórico da Escola de Frankfurt atingiu seu auge com Marcuse, que se estabeleceu como o membro mais conhecido do movimento por causa de sua capacidade de se comunicar com a juventude de forma eficaz.” Eu não sei se esta explicação está muito certa, pois os livros de Marcuse não são fáceis de ler. Não sei se ele, pessoalmente, falando, tinha algum dom especial de comunicação, mas se fosse pelos livros... Não foi por isso que Marcuse fez sucesso. Acho que ele fez sucesso pelo conteúdo mesmo do que estava dizendo: que o proletariado ocidental havia todo se corrompido, havia se vendido ao [capitalismo], e que agora as verdadeiras classes revolucionárias eram os estudantes e os marginais: bandidos, drogados, prostitutas etc. Isto soou como música aos ouvidos da estudantada, ainda que fosse dito em uma linguagem muito complexa. “O movimento hippie o adotou como seu guru intelectual, e Marcuse, por sua vez, abasteceu a geração mais jovem com um fluxo constante de propaganda destinada a santificar os impulsos rebeldes da juventude. Foi ele quem inventou o slogan ‘Faça o amor, não a guerra.’” A idéia da revolução sexual foi lançada primeiro por Wilhelm Reich, que tinha, de algum modo, uma ligação, uma afinidade com a Escola de Frankfurt, embora não pertencesse à sua equipe. E Wilhelm Reich acreditava que todas as doenças, todos os desvios de conduta sexual, eram subprodutos do capitalismo, a começar pelo homossexualismo; ele achava que o homossexualismo era uma perversão capitalista que desapareceria no socialismo. Ninguém quer falar disso hoje; esta aliança do pessoal esquerdista com o gayzismo exige que se jogue alguns fatos para debaixo do tapete, entre os quais esta teoria do Wilhelm Reich. Wilhelm Reich acreditava que toda a educação moral que as pessoas recebiam se impregnava não só na mente deles, mas no corpo, criando estases musculares que, em seguida, determinavam, mais ou menos, a conduta. E Reich achava que desfazendo esses nós musculares, a estrutura da personalidade iria se desfazer e o sujeito estaria pronto para ser remontado de uma outra maneira. Esta teoria não é totalmente absurda, porque essas estases realmente existem; elas somente não têm a forma e a função como [Reich] as descreveu. E realmente não há nenhuma diferença substantiva entre as estases musculares ou a pessoa no capitalismo, no socialismo, e assim por diante. Segundo ele – mais tarde a teoria dele evoluiu –, a circulação da libido era alterada e bloqueada por essas estases musculares. E Reich achava que a principal das deformações da circulação da libido era a libido anal, induzir o sujeito ao sexo anal – o pessoal gayzista não quer ouvir falar disso aí hoje. E que, portanto, ao se desfazer aqueles nós musculares a libido sairia da esfera anal e voltaria para a esfera genital, e o seu homossexualismo estaria curado, de maneira que a primeira cura gay veio dos comunistas. A gente não pode esquecer, embora ninguém queira falar sobre isso hoje. Mais tarde, a teoria de Wilhelm Reich foi tomando aspectos cada vez mais requintados e esotéricos, e ele partiu da idéia da circulação da libido para a circulação de uma energia cósmica que ele chamava de “orgônio”. Segundo ele, o orgônio existe em todo o universo, e no corpo humano toma a forma específica da libido, mas existe também sob outras formas. E Wilhelm Reich achava que ele podia ser condensado em laboratório e que havia um meio mais prático, mais rápido, para modificar a circulação do orgônio, ou para liberar a sua circulação, sem aquelas massagens complicadíssimas com que ele desfazia no começo as estases musculares. Então Reich criou uma caixa com várias camadas de metal para condensar orgônio no corpo humano, para enchê-lo de orgônio. O doutor Müller comprou uma dessas caixas e a levou para o Brasil, e eu fiquei dentro dela por mais ou menos uma hora; fazia uma certa cosquinha, mas eu não sei se o meu orgônio aumentou ou não. Ele também tinha uns experimentos nos quais ele conseguia condensar uma energia luminosa azul, que ele dizia que era o orgônio. Mais tarde, disse que o orgônio era o próprio Jesus Cristo, era o logos divino que estava ali aparecendo e sendo condensado em laboratório. Aí o sujeito já estava completamente doido, mas isso não quer dizer que a obra dele não tenha muitas observações clínicas valiosas; Reich não era nem um pouco burro. Marcuse também levou muito a sério esta coisa da personalidade autoritária, fascista. Curiosamente, eles nunca examinaram a personalidade autoritária de um comissário do povo comunista, que é muito mais hierárquico, muito mais autoritário, muito mais moralista do que qualquer pater familias de país latino. “Para Marcuse, a única resposta para o problema do fascismo era o comunismo. ‘Os partidos comunistas são, e continuarão a ser, o único poder anti-fascista’, declarou.” Esta noção elástica do fascismo, que acaba chamando de fascismo tudo o que é anticomunista, penetrou profundamente no Brasil. Muitos acreditam nisso e não sabem a origem, não sabem que foi Stalin que inventou – tardiamente, quando o fascismo já não lhe interessava mais. Ao mesmo tempo em que Stalin disseminava essa propaganda – do fascismo como extrema-direita –, também estava fortalecendo o exército alemão para torná-lo um instrumento de agressão contra as democracias ocidentais. “Por esta razão, pediu aos americanos que não fossem muito [0:30] duros com os experimentos totalitários de seus inimigos comunistas, afirmando que “a denúncia do neo-fascismo e da socialdemocracia devem prevalecer sobre denúncia da política comunista.” O que era a socialdemocracia? Era o regime alemão antes de Hitler. E, curiosamente, a socialdemocracia alemã – chamada República de Weimar – criou o regime da maior liberação sexual que já se viu no mundo; a Alemanha inteira era um puteiro durante a socialdemocracia. E os socialdemocratas eram, segundo os comunistas, o seu pior inimigo. Veja que os socialdemocratas na Alemanha estiveram muito mais próximos de realizar a idéia da revolução sexual do que os comunistas jamais estiveram. E ao mesmo tempo o discurso da revolução sexual e do antiautoritarismo fascista já estava em circulação na Alemanha. Quer dizer, é um bolo de contradições e absurdidades que para destrinchar leva muitos anos. E a diferença entre o discurso dos camaradas e a situação social real onde eles estão chega a ser abissal. Assim, não é mais paralaxe cognitiva, é histeria mesmo: a fantasia histérica em que o indivíduo inventa perigos, inventa um inimigo, e só vê os outros através daquela grade de figuras de fantasia. E foi justamente esta visão que eles tinham da socialdemocracia a causa imediata da ascensão do nazismo; o nazismo jamais teria subido ao poder se isso não ajudasse os comunistas a destruir a socialdemocracia. Se houvesse uma aliança entre a socialdemocracia e os comunistas, seria barrada a ascensão de Hitler, pois ele não tinha votos suficientes para isto; mas estavam ambos interessados em destruir a socialdemocracia alemã e o fizeram. E, na hora em que o fizeram, como Hitler tinha uma militância maior, mais organizada e mais armada, ele acabou com os comunistas. “Os pensadores de Frankfurt ensinavam que aqueles que tinham opiniões conservadoras não estavam apenas errados, mas eram neuróticos.” Ou seja, qual era a neurose? Era este autoritarismo, a personalidade autoritária baseada na repressão da sexualidade – veja que aplicar isso à socialdemocracia alemã era bastante difícil. “Ao converter idéias conservadoras em patologias, eles colocaram em movimento a tendência de silenciar os outros através de diagnóstico, em vez de diálogo. A ‘psicologização’ dos adversários políticos tornou-se um substituto para o debate com eles.” Mas é evidente que essa “psicologização”, por sua vez, não é somente um recurso estratégico e tático, ela é também uma inclinação psicológica. Você tem a necessidade de ver o outro sob uma lente deformada e usar um vocabulário médico como arma de propaganda contra eles. Veja que a idéia de inverter esse negócio e examinar a mentalidade revolucionária, a mentalidade comunista sob o aspecto psicopatológico não surgiu de nenhum movimento político, não surgiu de nenhuma KGB, não surgiu da CIA... Surgiu de médicos que estavam vivendo sob o regime comunista, como o doutor Andrew Lobaczewski, e que, evidentemente, sem nenhum apoio de ninguém, começaram em segredo a fazer suas observações clínicas, que depois resultaram no livro Political Ponerology. Do mesmo modo, outro médico americano, acho que Lyle Roberts, que escreveu Liberalism is a Mental Disease1, também não é um representante de nenhum movimento político e de nenhum governo. São cientistas mesmo, que estão interessados em descobrir como a coisa funciona. A diferença é brutal, porque algumas pessoas podem dizer que eu também estou dizendo que eles são psicopatas. Mas só um momento: eu estou dizendo isso por observação e sem nenhum movimento por trás, não tem nenhuma fundação, ninguém me mandou dizer isso. Estou dizendo isso porque eu observei isso. E ademais: eles [os pensadores da Escola de Frankfurt] começaram com esse negócio de psicologizar, ou psicopatologizar os seus adversários e usaram isso como propaganda política violentíssima durante décadas. E quando se observa isso, vê-se que quando uma coisa dessas se transforma em arma de propaganda política – e, aliás, nasce como arma de propaganda política – não é uma conduta normal de maneira alguma. Você usar, de repente, a medicina como instrumento de propaganda, isso por si mesmo já é uma conduta patológica. Quando se observa que para fazer isso eles distorceram completamente os dados que tinham à mão, então se vê que os patológicos aqui são eles: estamos lidando aqui com o doutor Simão Bacamarte, o sujeito que diz que a humanidade inteira está louca, mas o louco é ele – e no fim, o próprio reconhece que o doido é ele. “Não foram apenas seus adversários políticos que foram atingidos pelo martelo da psicanálise.” Aliás, o primeiro que lançou esse negócio da psicologização foi Nietzsche: quando analisava os filósofos da Antiguidade, ele não analisava suas idéias, traçava um perfil psicológico – inventado por ele – com traços eminentemente patológicos. Nietzsche faz isso com Sócrates, faz isso com Jesus Cristo. Ele não discute as idéias, mas tenta desmoralizar as pessoas. No entanto, Nietzsche não faz isso por propaganda política, ele acredita realmente nisto; era um indivíduo que tinha uma visão muito peculiar das coisas, determinada pela sua própria patologia. Sabemos que Niezstche desde a sua juventude sofria de sífilis, e nos seus anos finais, a doença estava tão grave que ele mal podia trabalhar uma ou duas horas por dia – o resto ele ficava lá embriagado de analgésicos e mercúrio –, por isso que ele escreveu aforismos, aquelas coisinhas curtas, porque não conseguia fazer um texto com começo, meio e fim. No caso de Nietzsche, a sua visão patologizada dos outros é evidentemente o fruto da sua própria patologia. E no caso deles [da Escola de Frankfurt], existe o elemento patológico e existe o elemento de interesse ideológico. É claro que também não podemos analisar isso aí de maneira correta sem levar em conta os elementos reais que existem na teoria da personalidade autoritária. Aquela personalidade existe, de algum modo, em alguns lugares e podemos identificá-la. Lembro que quando estudei isso, era muito jovem e identificava várias famílias que eram exatamente daquele jeito. E eu as via, sobretudo, entre as famílias de imigrantes árabes; que não eram muçulmanos, eram árabes cristãos maronitas. E a família deles era pater familias mesmo. Só muito depois é que eu me toquei que todos os exemplos que colhi eram de famílias árabes, não eram famílias tipicamente brasileiras. “Ao ser a pioneira de uma disciplina conhecida como ‘Teoria Crítica’, a Escola de Frankfurt conseguiu desconstruir toda a civilização ocidental.” Chamava-se Teoria Crítica precisamente porque não propunha nada. Ela dizia: “nós temos de concentrar naquilo que Hegel chamava o trabalho do negativo, nós não temos de propor uma nova sociedade, um mundo melhor, só temos de destruir tudo que tem pela frente. O positivo surgirá por si mesmo, se surgir.” A crítica da sociedade torna-se a única finalidade da filosofia. “Em vez de mostrar que os valores do Ocidente eram falsos ou deficientes, os frankfurtianos diagnosticaram a cultura como sendo inerentemente logocêntrica, patriarcal, capitalista, institucional e patriótica.” Eu entendo, pelo que conheço de história, que patriarcal e capitalista são termos antagônicos. É evidente que foi o advento do capitalismo no século XIX que destruiu completamente a família patriarcal. Essa é uma outra observação que eles poderiam ter feito e tinham a obrigação de ter feito, mas que não lhes convinha; então, disseram que as famílias capitalistas são patriarcais. Mas, [0:40] no capitalismo, as únicas famílias patriarcais que existem são as famílias de milionários; porque a família patriarcal permite uma ação continuada ao longo das gerações – o pai passa para o filho –, então a família patriarcal é um órgão de poder, evidentemente. Porém, na mesma medida em que essas famílias de milionários concentravam o seu poder patriarcal, dissolviam o patriarcalismo no restante da sociedade para enfraquecer as outras famílias. Por isso sou contra dizer: “os caras querem a destruição da família”. Isto é um slogan. O pessoal católico e protestante usa muito esse slogan: “eles querem a destruição da família.” Não, meu filho, eles querem a destruição da sua família, não da deles. Não são idiotas. Se hoje você vai à Romênia ou à Polônia, logo vê que quem está subindo no governo lá são os netos e bisnetos dos antigos governantes comunistas. Eles conservam as suas famílias patriarcais porque sabem que elas são um instrumento de poder. Então não se trata de dizer: “ah, eles são uns loucos que querem destruir todas as famílias”. Não! Eles são pessoas muito inteligentes que querem destruir a sua família para que a deles fique no poder. Então esse slogan abstrato “a defesa da família” está completamente falho. Aliás, em qualquer conflito político, quem levanta uma bandeira baseado em valores abstratos, valores genéricos, está sempre errado. Porque política não é luta por valores e não é luta por símbolos; é luta pelo poder, e o poder não é ocupado por valores nem por símbolos, é ocupado por pessoas e por grupos concretos. [Quem diz:] “Ah, eles estão contra a família, nós vamos defender a família”, já errou o tiro. Tem-se de destruir a família deles, é muito simples, e assegurar a continuidade patriarcal das famílias do povo, para que o povo possa se defender. Porque, dissolvidas as famílias, as pessoas ficam como átomos humanos soltos e daí elas precisam pedir socorro para o governo, para as instituições públicas, para a previdência social, para as escolas etc. Mas as grandes famílias, que têm o dinheiro e o poder na mão, são estritamente patriarcais. Então, ninguém nunca foi contra o patriarcado, muito menos esses caras (ou pelos menos aqueles que os financiavam). Por exemplo: Felix Weil, que foi o sujeito que deu dinheiro para a Escola de Frankfurt; de onde ele tirou esse dinheiro? Do pai dele – um milionário que enriqueceu na Argentina e deu dinheiro para o filho, que com isso fundou a Escola de Frankfurt. Você acha que a família Weil se desfez porque é contra o patriarcalismo, ou é o contrário? As famílias Warburg e Rockefeller estão aí até hoje. Todas estas são patriarcais. Então não se trata nunca da luta por valores nem contra valores. São grupos determinados: nós podemos estar a favor da elite revolucionária ou podemos estar a favor do povão. Por exemplo: esse pessoal que é a favor do casamento gay; você acha que algum dos que financiam isso quer para si um casamento gay? É claro que não. Isso é para enganar um bando de trouxa. Dos gays que conheci – eu conheci muitos –, nenhum queria saber de casamento. Eles queriam ir à sauna gay, brincar de navio negreiro, transar com quarenta homens num dia. E você acha que todos eles vão querer acabar com essa mamata, e de repente: “está aqui, temos um matrimônio monogâmico indissolúvel”. Meu deus do céu, isso é arrumar sarna para se coçar. O casamento gay é apenas um símbolo; por trás dele existe o jogo de uma estrutura de poder muito determinada. Do mesmo modo é com todas as outras bandeiras que eles lançam. Nunca temos de combater as bandeiras em si. Temos de ver que essa bandeira está colocada dentro de um discurso retórico – que é um discurso de autojustificação – e por baixo desse discurso há um outro, que é para fins internos, que é a lógica real do processo que eles querem colocar em movimento. E é isto que tem de se combater, e não as bandeiras. Note a própria palavra “bandeira”; num campo de batalha onde é que se atira: na bandeira do adversário ou no próprio adversário? Você deixa a bandeira cheia de furo e eles atiram em você. Então todas essas coisas são o pano vermelho para atrair o touro enquanto lhe põem a espada nas costas. Alguns falam de luta ideológica e luta cultural, mas isto é só um aspecto. A luta cultural que existe nunca pode ser a propaganda, como protestantes e católicos estão fazendo: a luta por valores em público. Não. A luta cultural consiste nisto que nós estamos fazendo aqui: estudar e entender o processo para que possamos fazer alguma coisa. Isto é luta cultural. Lutar contra bandeiras e símbolos é ser o touro que está sendo levado pelo pano vermelho. Tem-se de lutar contra pessoas e grupos, sabendo claramente que, com freqüência, os valores deles são exatamente os nossos. Eles criam outros valores, ou pseudo-valores, só para enganar a massa. O patriarcalismo é a coisa mais óbvia. Não há nenhum grupo bilionário ou um grupo de pessoas poderosas da elite comunista que não seja patriarcal. Quem é Putin? É filho de um agente da KGB. Quem é Alexandre Dugin? É filho de um agente da KGB. Aquilo vai passando de pai para filho. Sejam os meios de ação políticos, sejam os meios de ação econômicos, sejam os meios de ação militares, tudo é governado pelo patriarcalismo. Vai passando de pai a filho. Como eles não são trouxas, eles não querem dar [os meios de ação] para os outros, mas conservar nas suas famílias. Esse pessoal da Escola de Frankfurt, com o seu discurso antipatriarcal, era financiado por grandes grupos econômicos, todos eles patriarcais – mas falavam contra o patriarcalismo dos outros. E [daí veio] aquele pessoal todo que a partir da década de 60 começou, por exemplo, a deixar dissolver a sua autoridade paterna, passando a obedecer aos filhos. Aquele negócio que aparece a toda hora nos filmes americanos, o pai se humilhando perante os filhos: “ah meu filho, eu sei que eu errei”. Eu até postei outro dia no Facebook, brincando: “meus filhos, eu sei que eu errei, eu confesso para vocês, eu comi a sua mãe.” Isso é o máximo que eu posso confessar. A idéia do conflito de gerações... Eu não sei o que é conflito de gerações, eu tive oito filhos e não sei o que é isso. Você só tem se quiser. Se você se deixa infectar por esse tipo de idéias, mesmo que seja um pouquinho – tendo lido, por exemplo, o Doutor Spock, nos anos 60 e 70 –, você já se culpa por ser pai; e quanto mais culpado mais irritado você fica com seus filhos. Então você grita com seus filhos e depois pede perdão a eles. Faça o seguinte com eles: nem grite e nem peça perdão. Porque na Bíblia está escrito: “não atormente o seu filho” – esse é o princípio de educação patriarcal. Você está aí para proteger e ajudar o seu filho e não para encher-lhe o saco. É só botar isso na cabeça para descobrir esta coisa maravilhosa que eu descobri por experiência: crianças não são naturalmente rebeldes, crianças são naturalmente obedientes. Qualquer gatinho segue a mãe aonde ela vai, e faz o que ela está fazendo. Cachorro, a mesma coisa. Onça... Qualquer um sabe. Com os seres humanos é a mesma coisa: eles imitam você. Então se você começa a gritar, seus filhos não vão prestar atenção no conteúdo – na mensagem do seu grito –, mas no próprio grito; se você grita com eles, eles aprendem a gritar. Você fica bravo com eles, eles aprendem a ficar bravos com você. Se você não comete esses erros – e você os cometerá tanto mais quanto mais culpado se sentir – logo verá que educar criança é a coisa mais fácil do mundo. Não precisa fazer nada; é só ir tocando a sua vida e eles vão atrás fazendo a mesma coisa. Então, todo esse pessoal da Escola de Frankfurt serviu de instrumento na mão destes grandes grupos patriarcais, dissolvendo o patriarcalismo do povo e, portanto, fortalecendo o dos senhores do capital. Agora o cara diz que é sociólogo, e não calcula os resultados das suas próprias ações? Ele acha que o sujeito que o pagou para escrever isso [0:50] vai ler, acreditar e fazer igualzinho? Sendo que foi ele mesmo quem pagou por isso? “Nenhum aspecto da sociedade ocidental, desde a limpeza até Shakespeare, ficou imune à crítica. Mesmo o ato de assobiar foi desconstruído por Adorno, para quem o assobiar indicava o ‘controle da música’ e era sintomático do insidioso prazer que os ocidentais gozavam de ‘possuir a melodia.’” Aí realmente a histeria já vira paranoia – o sujeito começa a ver coisas. Quer dizer: alguém está assobiando e por trás do ato de assobiar existe uma maligna estrutura de poder capitalista que o faz assobiar. É absolutamente ridículo. “É de se duvidar que Marcuse tenha alguma vez ficado irritado, de fato, com o ato de assobiar. O que o levava à loucura, na verdade, era o trabalho. Um bom dia de trabalho honesto era, para ele, um dos aspectos mais repressivos da civilização que ele esperava solapar. Como alternativa, ele exigia aquilo que denominara de ‘convergência de trabalho e lazer.’” Ora, mas convergência de trabalho e lazer é o que existe em toda parte. Toda a vida da sociedade industrial, capitalista ou comunista, se divide em trabalho e lazer. Não há uma terceira coisa, [percebe-se], ao se estudar toda a história da civilização ocidental. Por exemplo, na Idade Média as pessoas só trabalhavam seis meses por ano. A cada seis meses era festa, era dia santo, e assim por diante. Todo o calendário litúrgico da Igreja você acha que serve para quê? E, além disso, as próprias condições climáticas exigiam que o sujeito concentrasse o trabalho numa certa época. Eu já recomendei para vocês os documentários Mountain Men e Yukon Men, que mostram a vida de famílias que moram numa região muito inóspita do Alaska, onde o frio é terrível e eles não têm comunicações, não têm estrada, não têm luz elétrica, não têm coisa nenhuma. Eles têm de viver dos recursos do próprio local. Então durante parte do ano eles trabalham o tempo todo, quinze horas por dia, e têm de pensar em tudo senão morrem. O preço do erro é a morte. E depois quando vem o inverno bravo? Eles se trancam em casa e ficam lá jogando xadrez, batendo um papo, lendo um livro, rezando, fazendo qualquer outra coisa. E na Idade Média o pessoal vivia exatamente assim. A maior parte do tempo não era nem trabalho e nem lazer, era a devoção. Era isso que as pessoas faziam a maior parte do tempo. Então a devoção desaparece e sobra o trabalho e o lazer. É isso o que o capitalismo e também o socialismo têm a oferecer. “A libido era a chave para essa utopia pré-civilizada. Marcuse demandava uma ‘sexualidade polimorfa ’[...]” É a mesma coisa que dizer “perversidade polimorfa”. O sujeito é homossexual? Não. Ele é homossexual, bissexual, sadomasoquista, pratica bestialidade, é um pouco pedófilo – não discrimina ninguém. Faz a sacanagem com todo mundo, tudo que existe é objeto de prazer. Só que Marcuse esquecia uma coisa: isso [a “sexualidade polimorfa”] só pode existir na sociedade de consumo, meu deus do céu. Isto é um elemento inerente do próprio capitalismo. O sujeito que acha que disseminar a sexualidade polimorfa é fazer algo contra o capitalismo, não é sociólogo de maneira alguma. Não convidaria ele para fazer o estudo sociológico de um posto de gasolina, porque ele não entende nada. Isso aí é a apoteose do capitalismo. Sexo custa dinheiro, sempre custou – no mínimo tem-se de pagar o motel. Quanto mais a sexualidade está polimorfa e livre, mais há uma atividade capitalista por trás. Existe algum estado socialista que possa prover aos cidadãos toda a imensa variedade de prazeres e perversidades que o capitalismo pode? Nunca. Isso não pode ter uma administração estatal. Não tem um estado que possa satisfazer a isso. Por exemplo, quando surgiu o negócio do movimento gayzista, eu imediatamente disse – não porque conjeturei, ou adivinhei, mas porque li as conversações dos caras – que eles tinham um plano de primeiro impor a homossexualidade, depois a pedofilia, depois os casamentos poligâmicos, depois casamentos poliândricos e a sexualidade coletiva, a sexualidade grupal, depois a bestialidade, depois a necrofilia e assim por diante. Tudo isso está no programa, não sou eu que estou interpretando assim. Eu só estou vendendo o peixe pelo preço que comprei. Não cito a fonte agora porque não tenho de cabeça, mas depois posso informar a vocês onde começaram essas conversações – sobretudo na França. Veja que para transformar isso tudo num aparato estatal dá um trabalho miserável e leva muito tempo. Quanto tempo levou desde que começou a propaganda gayzista, até que um estado ou outro aprovasse o casamento gay? Foram cinquenta anos. Agora vai começar o próximo passo: a pedofilia. Vão levar outros cinquenta anos. E assim por diante. No entanto, se não for por via estatal, mas por via da iniciativa privada, então pronto, já está disseminado. Aí é homossexualismo, pedofilia, o que se quiser. Pode transar com tatu-bola, com jiboia, com o que quiser! No capitalismo tem lugar para tudo. Então, é claro que essa coisa da sexualidade polimorfa é um poderoso instrumento de fortalecimento da sociedade de consumo. Agora, como é que um sociólogo não sabe disso? Como é que ele acha que isso vai ajudar o socialismo? O que se formou foi essa aliança de ideologia, de discurso socialista e, ao mesmo tempo, de florescimento inaudito da indústria das comunicações de massa, da indústria da sexualidade, da indústria de diversões públicas etc. Esta mistura horrível, com a qual os caras não chegam a criar um socialismo, mas transformam o capitalismo num inferno. Isto é que é a verdade. “Uma vez que esta transformação ocorresse, o trabalho já não ocuparia um papel tão importante no Ocidente.” Por quê? Ele acha que a indústria da sexualidade não dá trabalho? Os discos se fazem sozinhos? Os puteiros nascem espontaneamente do chão? Tudo isso dá trabalho e cria uma imensidão de subindústrias em volta. Inclusive a própria indústria farmacêutica: o que seria da indústria farmacêutica, por exemplo, sem as camisinhas? E a indústria farmacêutica é do Rockefeller – que está entre os grandes financiadores desta mesma porcaria. Então, esta simbiose de economia capitalista com ideologia e discurso socialista é a sociedade na qual estamos. “Em Eros e Civilização, Marcuse escreveu que ‘o tempo de trabalho, que é a maior parte do tempo de vida do indivíduo, é um tempo doloroso, pois o trabalho alienado é a ausência de gratificação, a negação do ‘princípio do prazer.’” Essa própria dicotomia entre trabalho e prazer já é totalmente falsa. Porque é claro que em qualquer trabalho existem elementos prazerosos e dolorosos. Por exemplo: trabalhar na Escola de Frankfurt. Eles gostavam do assunto, mas o Max Horkheimer pagava-lhes um salário de fome. Para os de fora eles eram o “senhor doutor”, mas chegada a hora, não tinham dinheiro para pagar as contas. Então, elementos prazerosos e dolorosos qualquer trabalho tem. Se há os elementos prazerosos e dolorosos, então não pode ser nem um e nem outro o que define o trabalho. Deve ser uma terceira coisa. No Brasil isto [essa dicotomia] virou instituição: a pergunta “você faz isso por necessidade ou por prazer?”; quando é evidente que esses dois elementos estão presentes. Você não fica por muito tempo em um trabalho que lhe seja totalmente desagradável. Eu conheci um sujeito – um homem gordo, enorme – que trabalhava no subsolo de um banco lidando com umas fichinhas o dia inteiro. Daí um dia veio uma assistente social fazer uma pesquisa no banco. Ela então perguntou para ele: “você gosta do seu trabalho?” Ele disse: “essas fichinhas são a minha vida, você não imagina que maravilha que é isto.” Ele foi demitido. [1:00] Eu acho que nós fomos longe demais hoje, não dá pra entrarmos no segundo assunto. Uma hora? Vou parar com este assunto e voltar àquele parágrafo que coloquei no Facebook, que eu queria desenvolver, tanto numa aula, quanto num artigo. O parágrafo que coloquei foi o seguinte: “A mais satânica e desgraçadamente a mais popular das ilusões, na compreensão da História e da política, é acreditar que aquele que tem poder sobre os outros homens tem também, por isso, o poder de guiar o curso das coisas. Mesmo a obediência de milhares, de milhões, de bilhões, da humanidade inteira, não daria ao mais possante dos tiranos os meios de determinar o que vai acontecer no dia seguinte. Para isso ele precisaria ter voz de comando não sobre os homens, mas sobre a estrutura da realidade, a qual, ao contrário, reina soberanamente não só sobre ele e sobre a multidão inteira dos seus comandados, mas sobre todas as gerações passadas e futuras.” Em primeiro lugar: existe uma realidade, dentro da qual nós estamos, que nos abarca e que está em volta de nós e que está dentro de nós. Ela constitui o ambiente no qual nós estamos e constitui o nosso próprio ser, que você não determinou e não escolheu. Você não escolheu qual altura vai ter, em que família vai nascer, em que classe social vai nascer, quantos cabelos terá em sua cabeça – se algum houver – e assim por diante. O que quer que nós façamos, fazemos dentro dessa estrutura da realidade, que não apenas nós não dominamos, mas nós não conhecemos. Nós só conhecemos por partes, aquilo que está imediatamente acessível a nós ou que já foi estudado. Aristóteles, no livro chamado Questões ou Perguntas – um livro com 300 páginas só de perguntas que no tempo dele não haviam sido respondidas e que, até hoje, a maior parte delas continua sem resposta –, fez o mapa da sua ignorância: “O que eu não sei? Não sei isso, aquilo etc.” Quanto ele conseguiu preencher de todas as perguntas que levantou? Sei lá, dois por cento, três por cento e o resto é um ponto de interrogação até hoje. É evidente que se nós não conhecemos a estrutura da realidade na sua inteireza, então as nossas ações dentro dela serão apenas ações parciais e pontuais, que podem, em função de mecanismos desconhecidos, levar a consequências totalmente diferentes daquelas que planejamos. É tanto que Max Weber define: “A História é o conjunto de resultados impremeditados das nossas ações.” Já lembrei dezenas de vezes e lembro de novo a regra do Georg Jellinek: tudo nas Ciências Sociais e na História depende de você graduar a relação entre o que é premeditado ou planejado e o que acontece independente da sua vontade. Mas, onde quer que você faça este confronto, verá que o elemento impremeditado predomina monstruosamente. É bonito estudar isso, estudar a vida dos grandes estrategistas, que fizeram planos de longo prazo e puseram aquilo em execução. O maior estrategista do século XX – talvez o maior de todos os tempos – é Stalin. Durante quarenta anos ele conseguiu obter praticamente tudo o que queria. Mesmo assim, houve erros no percurso. Porém, depois que ele obteve o que queria, tudo foi dissolvido, acabou. Isso estava nos planos de Stalin? O auge da glória de Stalin foi o fim da década de 40, quando ele dominou metade da Europa. Ele tinha planos de que antes de meio século, em 30 anos, isso iria acabar? Claro que não. Hitler não era um estrategista tão grande. Comparado com Stalin, era uma besta quadrada. Quando ele falou “vou fazer um Reich de mil anos”, durou doze! Estudando Napoleão percebe-se que ele era um grande estrategista militar; politicamente, tudo que fez foi desfeito. Sobraram uns pedaços do Código de Napoleão, que ainda estão vigentes na França, e o resto acabou. Todas aquelas dinastias que ele criou “foram pro brejo”. Acho que a autoridade de mais longo prazo que existiu foi Moisés, porque aqueles preceitos que ele baixou até hoje são obedecidos por judeus – não todos, notem bem, mas tem uma boa parte, uns 10 ou 20 por cento, que continuam vivendo de acordo com a Lei Mosaica. Isso é um prodígio! Mas isso não quer dizer que Moisés sabia tudo que iria acontecer depois. Ele simplesmente baixou a regra, morreu, nada mais disse e nem lhe foi perguntado e as pessoas continuaram obedecendo porque queriam. Não é mais a mente de Moisés que está obrigando os caras a fazerem isso. Isso quer dizer que, ao longo de toda a história humana, todas as gerações e todas as civilizações viveram conscientes de que o curso da vida humana depende de fatores incontroláveis e de que a nossa margem de ação é muito pequena. Todo mundo soube disso até o século XVIII. Naquele século teve um “treco” chamado Iluminismo, quando disseram: “Agora nós vamos tomar as rédeas do destino nas nossas próprias mãos. Não vamos mais obedecer Deus nem nenhuma autoridade transcendente. Agora nós é que mandamos no pedaço!” Isso aconteceu no plano da ação político-histórica e no plano cognitivo também. Agora vamos desfazer todos os mistérios e chegar à iluminação, ao conhecimento. Kant lança o brado “aude sapere!”, quer dizer, “ouse saber!”. “Não se conforme mais com fé, com coisas obscuras etc., agora nós vamos ousar saber.” Kant começa gritando “ousar saber!” e termina fazendo uma lista de tudo que não se pode saber. E a lista é quase tudo! Ele disse: “Nós só podemos saber o que está em nossa própria cabeça. O que as coisas em si são, em si mesmas, jamais saberemos.” Portanto, todo o nosso conhecimento não passa da projeção das formas da nossa mente sobre um mundo exterior, que continua desconhecido. Mas isso é o tal do “ousar saber”? Começa por “ousar saber”, e no fim “não dá pra saber”. O mesmo processo “saída de leão e chegada de cão” acontece no plano da ação político-histórica: “agora a humanidade, o homem, o ser humano vai tomar nas mãos as rédeas do seu próprio destino.” O que significa isso? Agora a humanidade inteira vai mandar nesse negócio? Não. Significa que alguns caras, que se dizem representantes da humanidade, vão mandar nos outros, e é evidente que vão mandar cada vez mais. Isso quer dizer que tomar as rédeas do seu destino nas suas próprias mãos consiste eminentemente em transferi-las a uma outra pessoa que vai mandar em você em tantos aspectos da vida, que os maiores tiranos da antiguidade jamais ousaram pensar. Se você dissesse assim para Genghis Khan, Átila, o Huno, ou Júlio César: “Nós vamos inventar uma maquininha que permite a você ouvir as conversações privadas do sujeito na casa dele.” Ele ficaria horrorizado! Existe um episódio no Islã, que aconteceu com Califa Omar, um dos sucessores de Maomé: estava andando pela rua e ouviu uns barulhos esquisitos em uma casa; entrou e estava a maior suruba, sexo grupal generalizado. Puxou a espada e disse: “Está todo mundo preso!” E eles disseram: “Não! Quem está preso é você, porque você espionou a nossa casa!” Ele se tocou e disse: “Ih, é mesmo!” Embainhou a espada e foi embora todo envergonhado. Essa era a mentalidade geral. Isso quer dizer que nenhum governante tinha esta ambição de poder investigar a vida privada dos outros. Isso não passava pela cabeça. Hoje, qualquer Barack Obama grampeia seu telefone, põe um drone, um aviãozinho teleguiado, com uma câmera que vara a parede da sua casa, “aparecem” as figuras luminosas, e vê o que vocês estão fazendo. Isso foi o que resultou da idéia de que o ser humano vai tomar as rédeas do destino nas suas próprias mãos. Quer dizer, a idéia de que todos nós temos meios de ação e poder sobre nosso destino resultou nisso, e só poderia resultar nisso, por um motivo muito simples: a humanidade não é sujeito de ações, não é uma pessoa, ela é um universal abstrato! Ela se compõe de individualidades e grupos distintos. Existe a possibilidade de se fazer uma assembléia para toda a [1:10] humanidade tomar uma decisão? Não! Portanto, os sujeitos de ações são os indivíduos e grupos que têm os meios de ação; os outros não ficam nem sabendo. Isso é assim e é necessariamente assim. Quando se pretende colocar todas as informações ao alcance de todo mundo o que se cria é uma confusão dos diabos, uma psicose informática, na qual a pessoa não só é incapaz de acompanhar o fluxo crescente de informações, como também tem o seu cérebro paralisado. Essa psicose informática existe realmente. É um quadro clínico em que o cérebro paralisa, ele não quer mais saber, não consegue processar novas informações. Então, a consequência imediata da psicose informática é que o indivíduo se torna obediente. “Eu não estou entendendo mais nada, então me diga o que fazer.” A partir daí o sujeito aceita qualquer coisa. Como diz aquele conjunto de rock: “Aquilo deu nisso.” Deu nisso por quê? Porque houve algum erro de percurso? Não! A coisa já estava visível no seu conceito inicial. A humanidade vai tomar as rédeas do seu próprio destino? Cadê a humanidade? Você a consultou? Consegue falar com toda a humanidade? Mas nem o Papa! “Urbi et Orbe”? Não, não! Ele irá falar para meia dúzia de caras em Roma e têm outros que vão escutar aqui ou ali. Isso aí é o pensamento metonímico, em que a parte vale pelo todo. Metonímia é a desgraça da humanidade. É um instrumento linguístico normal, porém na hora em que você começa a acreditar em metonímia, fica doido. Fala-se em humanidade, e na verdade a humanidade são cinco ou seis pessoas que vão decidir por nós. É a parte pelo todo. O que eles fazem vale pela humanidade. O que se chama de luta pelo poder, no mundo moderno, é a luta pela conquista dos meios de se fazer o impossível. Naturalmente, quando se tenta fazer o impossível o resultado é uma modesta fração do possível. Essa fração, pela sua pequenez mesma e por sua insuficiência, não constitui nem um símbolo, nem um anúncio, nem uma promessa da totalidade anunciada, mas constitui a sua negação, a sua caricatura. Isso acontece não só no socialismo, mas nas democracias também. Quando se diz que a democracia é o governo do povo pelo povo e para o povo, isso é possível? O povo pode governar? Não. Isso é metonímico! Na mais elegante das hipóteses tem meia dúzia de funcionários eleitos, você vota neles uma vez a cada quatro anos e não sabe o que estão tramando em Washington ou Brasília; eles dizem ser o governo do povo, mas isso é metonímico, não é substantivo. Estávamos em uma situação mais realista quando sabíamos que havia um rei que não tinha satisfação a prestar, mas também sabíamos que os meios de ação dele eram limitados. Por exemplo, se ele quisesse fazer uma guerra, teria que formar um exército e, para isso, teria que pedir que as pessoas se alistassem. Não tinha recrutamento militar obrigatório, que foi invenção da Revolução Francesa. Nenhum rei tinha o poder de colocar o seu povo em guerra. Isso não existiu no mundo até o século XVIII. Isso é básico! Quem entrava nas guerras eram os militares, eram as pessoas profissionalmente ou vocacionalmente devotadas a isso e havia um “treco” chamado campo de batalha, que ficava longe da cidade para não afetar a população civil. Depois do século XVIII, quando a humanidade tomou nas mãos as rédeas do seu destino, o mundo virou um campo de batalha. Você não está protegido na sua casa, na igreja, no porão, em lugar nenhum! A guerra tornou-se “a guerra do povo inteiro”, como disse Hugo Chávez. Esse foi um conceito inventado pelos comunistas e pelos nazistas. Isso é o normal hoje. Quando os desiludidos das sucessivas revoluções veem que deu tudo errado e que as promessas de liberdade, fraternidade, etc. resultaram em aumento da opressão, não é impressionante que eles só tenham percebido isso depois, quando o conceito inicial já estava gritando do alto dos telhados que iria dar exatamente nisso? O sujeito promete que a humanidade vai tomar as rédeas do destino nas suas mãos! Mas quem é a humanidade? Eu ou você? Quando as pessoas ficam desiludidas e se revoltam, elas o fazem contra um fracasso e não percebem que se tentarem de novo vai dar a mesma coisa, porque ninguém jamais vai poder superar esta dificuldade, que é: a humanidade não é sujeito de ações. Se você pretende agir em nome de um grupo de pessoas, você terá que ter um poder que esse grupo de pessoas não tem. Se você quer governar em nome da humanidade você terá que ficar mais poderoso do que a humanidade inteira. Por outro lado, esse poder que eles têm é só sobre pessoas e não sobre a estrutura da realidade. Poder sobre a estrutura da realidade tem Jesus Cristo, que chega lá para Lázaro, diz “levanta daí” e Lázaro sai andando. Isso aí nós não temos. Poder sobre a estrutura da realidade só tem quem fez a estrutura da realidade. Você conhece? Só o Logos Divino pode ter o poder sobre a estrutura da realidade. Essa estrutura está nas mãos Dele, por assim dizer, não está nas nossas, nos estamos dentro dessa estrutura. Nós não podemos pegá-la. Não podemos sequer concebê-la. Mesmo que você diga: “Ah! Agora conhecemos quase o universo inteiro! Já chegamos ao fim!” Não tem fim. Mas depois do fim tem mais coisa. Pois se você disser “ah, agora conhecemos tudo!”, eu digo: bom, agora você me explica por que é assim? Deve haver forças e causas que transcendem o próprio universo e que nós também não conhecemos. Isso é como diria o falecido Ignácio da Silva Telles, que começava o seu discurso assim: “Meus amigos, a minha ignorância deste assunto é incomensurável!” Então a nossa ignorância deste “treco” é incomensurável! O grande segredo da ação bem sucedida é o seu limite, quer dizer, quando você delimita um território que está temporariamente imune a outras influências e age só ali. Por exemplo: eu decidi fazer estas estantes e têm vários fatores que não posso levar em conta, que não posso controlar, como a chuva, a lei da gravidade, cair o “raio” do arquivo no meu pé... Tudo isso não estava no plano, mas, até certo ponto, deu pra levar esse plano e montei o escritório do meu jeito. Uma coisa interessantíssima é estudar a estrutura da ação bem sucedida. O filósofo francês Alain deu um curso inteiro sobre a campanha que os americanos fizeram em Cuba no começo do século XX para erradicar a febre amarela, e foi bem sucedido. Ele deu um curso inteiro para entender como as coisas funcionam e como se faz um negócio que dá certo. Existem muitas ações bem sucedidas, mas nenhuma delas consiste em transformar o mundo, e sim em fazer alguma coisa que está à altura dos meios de ação disponíveis. Isso é tudo que o ser humano pode fazer. A própria limitação insere o indivíduo dentro da ordem da realidade, o harmoniza com a ordem da realidade, que lhe determinou um lugar modesto e pequenininho. Quanto mais você limita, mais no certo você está. Imagine, por exemplo, uma luta de artes marciais. Uma luta bonita. Em quanta coisa cada um dos lutadores presta atenção, a cada momento? Uma coisinha só. O que o outro vai fazer no segundo seguinte, na fração de segundo seguinte. Ele não tem o plano da luta inteira. Não dá pra ter! Então a sua ação está concentrada naquele momento e ela funciona por causa disso. Isto quer dizer que a limitação, a modéstia, [1:20] é uma das condições da ação bem sucedida. Veja que, no Brasil, a cada eleição o sujeito tem de vir com um plano de governo que abarque o Brasil inteiro. E as pessoas esperam que o sujeito faça isso: “Qual é o seu projeto de Brasil?” Eu falaria: Meu filho, eu não tenho nem um projeto de Vila Nhocunhé, porque eu não posso planejar um bairro inteiro, quanto mais um país inteiro ou um mundo inteiro. Tudo isso começa na ilusão iluminista de que podemos ser senhores do nosso próprio destino. Não, nós somos senhores de algumas ações nossas. Por exemplo, se você tem um vício ou um defeito, tente se livrar dele. Você vai ver que vai levar anos — isso com ajuda do Espírito Santo, porque sem a ajuda d’Ele vai levar séculos. Então, quer um mundo melhor? Experimente querer um você melhor, para ver o que dá, para ver como é difícil. Quando chega nesse negócio de Escola de Frankfurt, os caras querem destruir a civilização inteira. É um projeto de uma abrangência absolutamente psicótica, não tem medida. E acontece que, hoje em dia, se espera que todos os pensadores e todos os filósofos tenham um plano do universo: o que mostra que já chegamos a um ponto de alienação que ultrapassa todas as piores previsões. No começo do século XX surgiram vários livros que previam desgraças para o futuro: A Crise do Mundo Moderno, de René Guénon; Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset; A Traição dos Clérigos, de Julien Benda, e o livro do historiador holandês Johan Huizinga, Nas Sombras do Amanha (In the Shadow of Tomorrow). É um livro maravilhoso, mas tudo o que ele disse que ia acontecer de ruim já aconteceu e já está pior. Eu acho que hoje vamos parar por aqui. Que horas são no Brasil? Dá tempo de fazer a segunda parte com as perguntas? Então vamos fazer um intervalo e daqui a pouco voltamos. Não prometo responder muitas perguntas, mas algumas. E eu tenho de dar alguns avisos também para o pessoal que se propôs estudar a questão do revisionismo comunista — Antonio Carlos e outros alunos se propõem a estudar esse assunto e eu mesmo propus que fizessem isso, na segunda fase eu vou dar algumas dicas para eles. ************************************************************************ Antes de tudo, eu queria dizer umas palavrinhas para o grupo de alunos que aceitaram a minha convocação para um estudo do revisionismo comunista. Revisionismo comunista é uma moda que surgiu, com um cidadão chamado Grover Furr, nos Estados Unidos, creio que já mais de dez anos atrás, e que tenta, exatamente como o revisionismo do holocausto, mostrar que nada aconteceu, que Stalin era um doce de pessoa, que não matou ninguém e que tudo isso é uma conspiração da CIA. Na Itália tem um sujeito chamado Domenico Losurdo, que é um pouco mais sensato, mas vai no mesmo sentido. E no Brasil começam a surgir então, os novos apologistas de Stalin – sobretudo dentro do PCdoB. O enfrentamento dessas correntes, é claro, não tem na discussão acadêmica o seu ponto mais forte ou mais importante. Mas, de qualquer modo, o material acadêmico e as pesquisas científicas, são uma retaguarda que sempre tem de estar pronta antes de você entrar na discussão, porque se já existe uma vasta bibliografia num sentido e no outro não tem nada, você já entra ali desarmado tentando enfrentar, com a sua mera opinião pessoal, algo que já vem com a chancela de uma autoridade acadêmica ou científica. É claro que, no resto do mundo, a quantidade de livros produzida pelo revisionismo comunista é ainda muito pequena, infinitesimal, para poder concorrer com a imensidão de livros que surgiram das pesquisas posteriores à abertura dos arquivos de Moscou; de maneira que o revisionismo comunista não é levado a sério nem pelo pessoal da esquerda. Porém, no Brasil, isso corre o risco de virar uma coisa importante. Então já temos de ter preparado o material de pesquisa para, no momento devido, enfrentar esses camaradas, se isso for necessário; se não for, de qualquer modo o estudo será útil para nós. Para aqueles que querem se dedicar a isso, eu recomendei que, em primeiro lugar, estudassem a bibliografia geral sobre comunismo e marxismo que eu coloquei no artigo “Estudar antes de falar”; tem lá uma série de livros que são uma espécie de curso de marxismo antes mesmo de entrar neste detalhe do revisionismo. O revisionismo, depois, deve ser enfrentado com as pesquisas que surgiram da abertura dos arquivos de Moscou – as pesquisas mais recentes –, onde você vê que a dimensão do genocídio soviético era até maior do que as pessoas tinham pensado e a responsabilidade de Stalin não tem como ser negada. É um caso mais ou menos similar ao que aconteceu com David Irving, na Inglaterra. David Irving fez um estudo sobre Hitler no qual o método foi analisar todos os documentos que entravam e saiam da escrivaninha de Hitler – tudo que ele leu e assinou. Nesse estudo ele observa que ali não passara nada sobre liquidação dos judeus etc. E daí ele concluiu que Hitler não sabia de coisa nenhuma. O estudo é bom, mas a conclusão é inteiramente absurda. Não é possível alguém fazer uma operação com essas dimensões sem o conhecimento do governante – ainda que não haja nenhum papel oficial assinado por ele. De fato nunca foi encontrado, mas uma ordem oral funciona também. E, de qualquer modo, é impossível que tudo aquilo tivesse se passado sem que Hitler tivesse a menor consciência da coisa. Então, a mesma coisa, o mesmo argumento, o pessoal revisionista usou com relação a Stalin. Só que aí eles deram um pouco mais de azar porque os documentos, as ordens assinadas pessoalmente por Stalin, acabaram aparecendo justamente nos arquivos, e algumas delas estão reproduzidas neste livro, que é importante: The Road to Terror, J. Arch Getty e Oleg Naumov. Este livro, para os que vão se dedicar a esse estudo, é extremamente importante porque é constituído em grande parte de documentos transcritos e traduzidos. Outro livro importante para isso é este: Stalin’s Curse (A Maldição de Stalin) de Robert Gellately – esse é um nome húngaro e eu não sei como os americanos pronunciam esta coisa, mas se escreve G-e-l-l-a-t-e-l-y –, que também é baseado nos arquivos de moscou e documentos recentemente descobertos. Isso é para eles, agora vamos passar às perguntas. Aluno: Você poderia traçar um paralelo entre Escola de Frankfurt e Antonio Gramsci? Olavo: A principal diferença é a seguinte: os frankfurtianos estão em ação desde a década de 20. O livro do Georg Lukács, História e Consciência de Classe, criou um bafafá dentro movimento comunista. E os frankfurtianos sempre desenvolveram a sua atividade em colaboração ideológica, mas independentemente do partido comunista. O Georg Lukács não, esse era um membro do partido comunista e chegou a exercer um cargo como ministro da educação no governo de Béla Kun, na Hungria, onde introduziu várias reformas visando a erradicar da cabeça da mulecada todos os valores da civilização ocidental. O governo do Béla Kun durou pouco, caiu, e a Hungria só voltou ao comunismo muito mais tarde. Ao passo que os escritos de Antonio Gramsci ficaram inéditos até a década de 50 [1:30] na Itália. No Brasil começaram a ser publicados em 1965 pela editora Civilização Brasileira. A influência de Gramsci é muito tardia em relação à da Escola de Frankfurt. De certo modo há uma convergência, mas há uma diferença essencial. Gramsci traça toda uma estratégia para a tomada do poder, ele não fica somente na parte destrutiva. A destruição da civilização ocidental, para ele, é só um aspecto ideológico da coisa, mas o fundamental é a ocupação de espaços e a construção do novo homem socialista já dentro capitalismo; que a cultura se torne socialista primeiro e só depois haja a transmutação política oficial, por assim dizer. Mas ele traça planos muito definidos, então você não pode dizer que ele fica somente na parte crítica e destrutiva como os frankfurtianos. Essa é a diferença principal. Aluno: Qual das duas escolas tem mais influência no esquerdismo brasileiro? Olavo: Bom, aí também os frankfurtianos chegaram muito antes e tiveram uma influência muito grande entre os intelectuais. Nos anos 60, já tinha muita gente que os tinha lido. O próprio Marcuse foi publicado nos anos 60 e foi muito lido no Brasil, ao passo que a influência de Gramsci foi muito mais sutil. Foi publicado em 1965, mas uma versão completa só saiu muito tempo depois por outra editora — eu não sei se foi a editora de Emir Sader, a Boitempo ou outra, que lançou os Cadernos do cárcere e as Cartas do cárcere, tudo junto, numa outra ordem um pouco diferente daquela que o Ênio Silveira tinha dado na edição da Civilização Brasileira. A influência de Gramsci é mais lenta e mais profunda. Houve um estudo, que se chama “Gramsci e a escola” – esqueci o nome da autora –, em que ela documenta que Gramsci é o autor mais citado em trabalhos universitários no Brasil. Ela fez a pesquisa nos anos 80, e eu acredito que ainda seja assim. Então, só por isso, já dá para avaliar a dimensão da influência. Essa influência maior de Antonio Gramsci, em comparação com a escola de Frankfurt, se explica pelo simples fato de que Gramsci está dando indicações precisas para a organização da militância e para ação revolucionária; coisa que você não encontra na Escola de Frankfurt. A maior parte dos escritos da Escola de Frankfurt são de natureza puramente teórica; são estudos sobre elemento da filosofia, da estética etc. Então não tem esse impacto direto sobre o movimento revolucionário. Muito bem, acho que isso responde. Aluno: Gostaria de saber a opinião do senhor a respeito da importância de David Hume para a filosofia e a possibilidade da ampliação do estudo desse pensador para os conservadores, dada a sua ênfase na experiência, incluindo a política, conforme os ensaios políticos. Olavo: Hume é uma figura altamente ambígua porque, por um lado, tudo o que ele fez... Ele era, politicamente, um conservador, e achava que, enfatizando antes a importância da experiência, da tradição etc. e deprimindo a influência da razão, estaria contribuindo para a estabilidade das instituições. Isto porque, no século dele, a razão era um instrumento revolucionário por natureza: a idéia de que a sociedade tem uma ordem mais ou menos mecânica e que, apertando certos botões, podemos manipular a sociedade ou até criar uma sociedade inteiramente racional. Era essa a idéia a que Hume se opunha, mas, ao mesmo tempo, para combater isso ele cria uma espécie de ceticismo radical que nega até a existência de um Eu autoconsciente, e diz que só existem estados. Ele parte para o empirismo radical, o qual está evidentemente errado. Hume cai em contradições e entra em um caso de paralaxe cognitiva extrema. Eu já dei aula sobre isso, se você procurar vai encontrar aulas que dei sobre David Hume. Eu não conseguiria repetir tudo aqui agora. O Hume é o sujeito que pode servir para fortalecer a sua inteligência, na medida em que você vai percebendo as limitações da razão, tal como entendiam seus contemporâneos revolucionários. E, por outro lado, ele cria uma série de dificuldades, cujo enfrentamento é muito útil para o desenvolvimento da sua inteligência. Alguns raciocínios do Hume são realmente invertidos em relação. Ele diz que está praticando o empirismo, mas contraria a experiência na medida em que projeta sobre ela uma expectativa negativa que distorce tudo. Um exemplo é o negócio das duas bolas de bilhar, quando ele vai contestar a noção de causa: “você diz que é o movimento da primeira bola, quando bate na segunda, que causa o movimento da segunda, quando, na verdade, nós só vimos dois movimentos separados – nós vimos o movimento da primeira bola e o da segunda bola e nós conectamos uma à outra através de uma noção de causa, que está na nossa cabeça”. Isso não descreve perfeitamente a experiência porque você não sabe exatamente qual o momento em que cessa o movimento da primeira bola e começa o da segunda. Você vê um processo inteiro e o decompõe. Então, não é que você tem dois elementos separados e você junta-os mentalmente. Não. Você tem um processo inteiro, que depois você decompõe analiticamente. Hume descreve a experiência ao contrário. Aluno: Ele abstraiu um fator simples. Olavo: Sem dúvida. Ele pega duas abstrações e as entende como se elas fossem a realidade da experiência – abstrações separadas. Quando, na verdade, vê-se que o movimento das duas bolas é um processo único. Não é assim: a primeira bola pára e a segunda começa a rolar. Não acontece isso. É uma fração de tempo que você realmente não enxerga. Você é que mentalmente supõe que houve uma interrupção. Em vez de construir a junção como ele diz, você constrói a separação, a abstração. Então existem vários erros desse tipo e, às vezes, [Hume] leva a paralaxe cognitiva a extremos. Mas isso não quer dizer que esta crítica não seja útil, pelo menos para fins de exercício. Discutir com David Hume é uma das coisas mais proveitosas que o estudante de filosofia pode fazer. Aqui tem um cidadão — não vou dar o nome porque é um assunto pessoal — que diz: Aluno: Fiz vários testes pela internet e descobri que muito provavelmente tenho DDA - Distúrbio de Déficit de Atenção. O que o senhor sabe sobre essa doença? Olavo: Eu sei que ela não existe! O próprio “descobridor” dela confessou que foi tudo uma fraude. O déficit de atenção, em geral, significa que você não está interessado naquilo. É muito simples! Agora, àquilo que lhe interessa você presta atenção. Então é o problema do amor maior ou menor que você tem sobre o assunto. Às vezes você está tentando ler ou estudar alguma coisa, cuja substantividade você não percebe. Aquilo lhe parece apenas um monte de palavras. Então significa que o nível de abstração requerido por aquilo está acima do nível que você pode desempenhar no momento. A minha sugestão é esta: quando não se interessa por uma coisa busque outra até encontrar algo que lhe interesse. “Mas só o que me interessa são revistas em quadrinhos”, então leia revistas em quadrinhos, não há nada de errado nisso. Acompanhe o fluxo do seu interesse. Você já é aluno aqui há bastante tempo, você se interessa por essas aulas, então quer dizer que seu interesse não é apenas por histórias em quadrinhos. Mas nem todo texto filosófico que você pegar vai igualmente falar à sua imaginação. Quando você lê um texto filosófico, o trabalho de imaginação é muito maior do que o que você tem de fazer para ler um romance. O romance já te dá símbolos concretos e você imagina aquilo facilmente. Há romances em que parece que você está visualizando a coisa. Eu lembro que, quando li Os Noivos de Alessandro Manzoni, parecia que eu estava assistindo a um filme. Às vezes, quando você lê Balzac, também a impressão é de estar assistindo a um filme. Mas quando você lê um livro de filosofia, se não houver um trabalho de imaginação, você vai deslizar apenas de um conceito abstrato para outro e no fim a verdade é que você não está entendendo nada, porque se você não é capaz de relacionar esses conceitos abstratos com a experiência concreta, você não pegou nada. Nestas aulas aqui eu faço o trabalho de imaginação por vocês. [1:40] Eu puxo dos conceitos abstratos para os exemplos concretos e a coisa acaba ficando mais fácil. Nem todos os filósofos fazem isso. Existe uma linguagem filosófica técnica e o filósofo tem o direito de se explicar só naquela linguagem sem dar o aporte literário, imaginativo, para facilitar as coisas. O filósofo não tem obrigação de facilitar isso aí, não tem obrigação de ser um bom escritor ou um bom professor. Alguns dos grandes filósofos são os mais difíceis de ler, como Edmund Russerl; não está ali para facilitar. Outros acumulam funções: são excelentes filósofos e bons escritores como Henri Bergson, Ortega y Gasset ou o próprio Louis Lavelle – quem não entende o Louis Lavelle é um caso perdido. Às vezes o Lavelle é tão óbvio no que ele está falando que você não aguenta, você lê dez linhas e tem de parar e depois voltar no dia seguinte. Essa é outra técnica: ler de pouquinho. Mas essa doença realmente não existe. Aluno: Quais as diferenças e ligações da Escola Fabiana com a de Frankfurt? Olavo: Foram desenvolvimentos independentes, mas até certo ponto convergentes. A Escola Fabiana surge de planos globalistas da elite britânica já no século XIX. E, desde o século XIX, Cecil Rhodes – o homem que fundou a Rhodesia e que via na Inglaterra o agente da criação de um governo mundial – começa então a arregimentar intelectuais e acadêmicos, dando bolsa de estudos para todos, para que trabalhassem para este fim. Depois acabam fundando a London School of Economics – não sei exatamente a data em que surge –, que é até hoje uma espécie de think tank globalista. A idéia deles é chegar a uma sociedade totalmente administrada, um socialismo no fim das contas. E mais, acreditam que não se pode fazer isso de maneira abrupta, é preciso fazer lentamente através da legislação e de meios administrativos, e isto é exatamente o que está sendo feito. Isso, evidentemente, converge com os objetivos dos frankfurtianos, na medida em que a instalação do governo global não consiste só em um governo global, mas em um modelo inteiramente novo de civilização. Em parte o livro do Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, expressa o tipo de civilização que eles têm em mente. E parece até que o Aldous Huxley escreveu esse livro a pedido deste mesmo pessoal para tentar imaginar como seria e o que aconteceria depois. Claro que deram a ele toda a liberdade de expor o projeto e criticá-lo ao mesmo tempo. Ali, naqueles altos círculos, tem de prevalecer a mais completa liberdade de opinião. A mentira é para outros, mas internamente eles não saem mentindo uns para os outros. Não querem se enganar a si próprios, eles querem enganar a nós. Então, esse livro de Huxley contém já a descrição do que seria essa sociedade inteiramente administrada e a sua crítica aprofundada. Isso é mais ou menos como Platão faz n’A República, em que ele descreve aquela sociedade ideal e ao mesmo tempo diz que aquilo não vai dar certo. São experimentos imaginativos. Mais tarde, Aldous Huxley, na década de 80 ou 90, publica o livro Brave New World Revisited – Admirável Mundo Novo Revisitado –, que não é uma obra de ficção, mas um ensaio, no qual ele vai mostrando que daquelas previsões que ele tinha feito muitas já haviam se cumprido. Ele achava que aquilo era um processo que duraria séculos, mas assume: “em poucas décadas eles já fizeram isso, e tem outras coisas que não fizeram.” Então tem de ler esses livros juntos, um depois do outro. E a gente vê que o Huxley está altamente insatisfeito com aquele projeto; ele não está achando boa a sociedade administrada. Aluno: Em que medida a obra dos frankfurtianos é engenharia social auto-consciente? Olavo: Ela não é engenharia social. Nas obras dos frankfurtianos você não vai ver nenhum projeto. Eles inspiraram projetos. Na medida em que eles dão elementos para a destruição da civilização do ocidente, isto pode ser integrado em outros projetos de outras fontes, inclusive na Escola Fabiana. Eles acreditavam no que escreviam. Acho que poucos autores mentem para si mesmos com a sinceridade dos frankfurtianos. Eles eram eminentemente uns sofredores; eram pessoas que estavam realmente desiludidas com tudo, realmente revoltadas contra o universo, contra Deus, contra a história e contra tudo o que existia. E realmente estavam querendo que o mar pegasse fogo, não para comer peixe frito, pois queriam torrar o peixe também. Então acho que por hoje é só. Até a semana que vem e muito obrigado a todos. Transcrição: Evandro Santos de Albuquerque, Tamas Souza, Felipe Vitorino, Wilson Garcia Carvalho e Charles Santos. Revisão: Ageu Marinho.