Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 229 30 de novembro de 2013 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Nós temos um texto bastante longo e espero que vocês já tenham conseguido achar na página. Só tem um detalhe: esse texto não pode ser divulgado fora do curso, para pessoas de fora — de jeito nenhum — antes de ser publicado no Indigesto Econômico. O que deve acontecer entre 10 a 15 dias. Então, por enquanto é segredo. Mas, antes de entrar nesse texto, eu quero ler para vocês dois artigos que acabo de enviar para o Diário do Comércio que dão uma idéia do estado mental dos nossos professores universitários que, quando sempre que você imagina que está ruim, não há nada que esteja tão ruim que não possa piorar um pouco. A coisa está virando uma calamidade mesmo. É coisa séria. A Leila até postou no Facebook que quando um sujeito fala da espécie humana, ele não sabe que nela está incluso ele mesmo. Não estou brincando. As pessoas raciocinam realmente assim. Um juízo que engloba o sujeito, as pessoas não conseguem mais pegar. Só vou ler este artigo aqui, com pouquíssimo comentário, e depois passar para o texto da aula propriamente dito. O primeiro artigo chama-se “Bobinha”. “Na Carta Maior desta semana, uma professora de ciências políticas da Universidade Federal de Pelotas, Luciana Ballestrin, adverte que enxergar alguma hegemonia comunista nas instituições superiores de ensino é “paranóia” e insinua que, ao contrário, o verdadeiro perigo que se esboça no horizonte nacional é o fascismo. A prova que ela oferece desse deslumbrante diagnóstico é que três pessoas reclamaram contra o comunismo universitário. Firmemente disposta a dizer qualquer coisa contra essas três minguadas vozes, ela as acusa, ao mesmo tempo, de provir de “um gueto” e de obter “grande repercussão na mídia”. É notório que entre os estudantes universitários brasileiros, quatro em cada dez são analfabetos funcionais. Temo que entre os professores da área de humanas essa proporção seja de nove para dez. A profa. Ballestrin é mais um exemplo para a minha coleção. Ela fracassa tão miseravelmente em compreender o significado das palavras que emprega, que no seu caso o adjetivo “funcional” é quase um eufemismo.” Ela não é analfabeta funcional. Ela é analfabeta stricto sensu. “Desde logo, se os direitistas vivem num “gueto”, quem os colocou lá? Enclausuraram-se por vontade própria ou foram expelidos da mídia, das cátedras e de todos os ambientes de cultura superior pela política avassaladora de “ocupação de espaços” que a esquerda aí pratica desde há mais de meio século? Um gueto, por definição, não é um hotel onde a minoria se hospede voluntariamente para desfrutar os prazeres de uma vida sombria, fechada e opressiva, sem perspectivas de participação na sociedade maior. É uma criação da maioria dominante, um instrumento de exclusão usado para neutralizar ou eliminar as presenças inconvenientes. A maior prova de que o esquerdismo domina o espaço é que a direita vive num gueto. Ao acusá-la precisamente disso, essa porta-voz do esquerdismo oficial só dá testemunho contra si própria.” Com igual destreza ela maneja a segunda acusação: a de que as três vozes obtiveram “grande repercussão na mídia”. Que grande repercussão? Alguma delas foi manchete de um jornal, foi alardeada no horário nobre da globo, deu ocasião a uma série infindável de reportagens, congressos de intelectuais e debates no Parlamento como acontece com qualquer denúncia de “crimes da ditadura” ocorridos cinqüenta anos atrás? — Nada disso. Foram apenas noticiadas aqui e ali, discretamente, num tom de desprezo e chacota. Mas, para a professora Ballestrin, mesmo isso já é excessivo. Ela nem percebe que, ao protestar que três direitistas saíram do gueto, ela os está mandando de volta para lá. “Mas onde ela capricha ao máximo em não entender nada é ao enxergar uma “paranóia” em três denúncias isoladas, só notáveis pela raridade, e nenhuma nos gritos de alarma contra a “ameaça fascista” que pululam aos milhares, com estridência obscena, em publicações e salas de aula por todo o país. Na própria Carta Maior o toque de alerta antifascista ressoa diariamente. Qualquer observador isento nota a desproporção entre a iminência objetiva desses dois perigos e a intensidade do temor real ou fingido que despertam. Apontar o avanço comunista é apenas registrar as vitórias que centenas de organizações comunistas alardeiam e celebram nas assembléias do Foro de São Paulo (prontas, decerto, a negá-las em público quando lhes convém). Mas e o fascismo? Onde estão as organizações que o representam, os partidos que buscam elevá-lo ao poder, as verbas bilionárias que o sustentam, a militância adestrada para impô-lo a um povo inerme, os milhares de livros que infectam com o vírus fascista as prateleiras das livrarias e as bibliotecas das universidades? Nada disso existe. Nada, absolutamente nada. Tanto não existe, que, para fingir que existe, é preciso até mesmo chamar de fascistas as massas de agitadores comunistas pagos pelo governo para espalhar o terror nas ruas e forçar a transição para o socialismo explícito e descarado. A inversão das proporções é, decerto, um dos traços mais típicos e constantes da mentalidade revolucionária, mas nem todos a ostentam com a cândida desenvoltura dessa mulherzinha boba.  Saber qual orientação ideológica predomina em determinado ambiente social não deveria ser muito difícil para uma “cientista política”, especialmente quando esse ambiente é o dela própria; — o seu departamento universitário. Ela poderia perguntar, por exemplo, quantos de seus colegas votam na esquerda, quantos na direita. Ou poderia, com um pouco mais de esforço, averiguar a linha ideológica majoritária dos autores cuja leitura eles recomendam a seus alunos. Poderia até, se quisesse, fazer inspeção semelhante em outros departamentos de ciências humanas pelo Brasil a fora, para verificar se as várias correntes de pensamento estão aí representadas equitativamente ou se uma delas predomina até o ponto do monopolismo absoluto. Tudo isso, no entanto, para a professora Ballestrin, é esforço excessivo, cruel e desumano. Tudo o que se pode exigir dela é que raciocine pelo método histérico da auto-impregnação auditiva. Eis como funciona. Nos seus anos de estudante, você faz um esforço danado para macaquear o discurso dos seus professores. Ouve, presta atenção e imita cada gíria de linguagem, cada cacoete, cada chavão. Quando por fim consegue falar como eles, você ouve o que você próprio diz e, orgulhoso de tamanha realização, acredita que é tudo verdade. Então está maduro para lecionar e para escrever artigos na Carta Maior.” Tenho duas observações a acrescentar a isso aqui. Duas observações que até dariam um artigo independente. Em primeiro lugar, como é possível que em pleno ano de 2013, alguém ainda negue que haja uma hegemonia marxista nas universidades brasileiras? Como é possível isto? Isto é possível porque há mais de vinte anos atrás eu fiz alguns projetos de pesquisa destinados a elucidar exatamente isto por meios estritamente científicos: — A hegemonia marxista na mídia e nas universidades. Propus isto a organizações liberais, às Forças Armadas, às empresas etc., etc. Mas ninguém achou que isso era importante: — Importante era fazer propaganda das idéias liberais. Acontece que todo debate político se dá sob um fundo de fatos bem estabelecidos. Portanto, se você não tem a demonstração científica do que você está falando, as discussões jornalísticas, e até parlamentares, são perfeitamente inúteis. Isso é algo que a esquerda sabe a não sei quanto tempo. Quando ela quer lançar uma discussão é porque ela já tem dez, vinte ou quarenta estudos — podem ser até falsos — mas pelo menos têm uma aparência científica que fundamentam aquilo de modo que as discussões têm premissas pelas quais se baseiam. Você pode citar uma fonte. Agora, quando tem um fato notório, mas que não está comprovado de maneira alguma. Não tem fontes que o atestem. Qualquer um está livre para negar o fato notório e dizer “prove que existe hegemonia”. Aí você tem de começar toda a discussão de novo, levantar fato por fato e cada vez que vai começar a discussão de novo, tem de refazer a pesquisa de novo, de novo, de novo e de novo. [0:10] Essa Luciana Ballestrin escreve estas coisas não só por culpa dela mesma e por culpa da Carta Maior, mas por culpa de todas as organizações liberais, das nossas Forças Armadas, do nosso empresariado e de toda essa maldita direita brasileira que insiste nesse seu imediatismo oportunista e idiota achando que com isso é muito esperta. A idéia destas pesquisas é uma coisa estritamente obrigatória. Nesse próprio artigo desta Luciana Ballestrin, ela fala da imprensa hegemônica direitista. Eu sei que não é direitista porque eu estive lá, conheço cada um dos diretores de redação, cada um dos colunistas e sei que são 99% esquerdistas, mas você não tem isso atestado num trabalho, numa obra científica, numa pesquisa. Você transfere a coisa do plano do fato para o plano da mera opinião, ou da impressão. Tem impressão que a coisa é esquerdista e o outro tem a impressão que é direitista. Isto continuará acontecendo enquanto as pessoas não entenderem que discussões públicas não podem ser feitas só na base de artigo de jornal, discurso no parlamento, programa de rádio, mas que é necessário ter livros e obras científicas bem fundamentadas. Por exemplo, a discussão sobre comunismo mudou muito depois do Livro Negro do Comunismo, onde você tem a coisa toda documentada. Qualquer coisa puxa o livro negro do comunismo e estão lá as fontes. Tão logo saiu o Livro Negro do Comunismo, os caras tiveram que fazer uma paródia, o Livro Negro do Capitalismo, que é uma coisa totalmente falsificada e não convence ninguém. Mas você percebe que é muito fácil distinguir entre o que é empulhação e o que é um trabalho científico. Se não há esses trabalhos científicos de fundo, todas as discussões são inúteis. Você pode gritar vinte e quatro horas por dia, nunca vai funcionar; — é impossível. Acho que vocês estão bastante conscientes disso, mas fora deste curso as pessoas continuam achando que o importante é fazer artigo, entrevista no jornal, ou seja; — é tudo questão de propaganda. Isto quer dizer que estas pessoas se imbuíram da onipotência do falatório. Em matéria de falatório você jamais vai poder concorrer com um histérico ou com um psicopata. No puro falatório eles sempre vão ganhar. Se você tem a autorização para mentir o quanto queira, tudo bem. Se não tem uma barreira de fatos bem comprovados para deter o fluxo do falatório, ele vai continuar indefinidamente e você vai tentar concorrer com os caras na base do falatório. Em segundo lugar, o que eu resumi como método de auto-impregnação auditiva parece uma brincadeira, parece que estou fazendo uma piada, mas esse é outro ponto que deve ser estudado e provado cientificamente. A educação universitária, nas áreas de ciências humanas, consiste apenas em impregnação de linguagem. Como dizia o Richard Rorty, nós temos que incutir nosso linguajar na cabeça das pessoas. O homem diz que esse é o problema. Ele disse isso na década de 1980. Isto está institucionalizado no Brasil hoje. Existe uma homogeneidade de estilo em tudo o que esse pessoal das ciências humanas escreve: — Uns de maneira melhor, outros pior. Os cacoetes são os mesmos. Quando o sujeito entra na Universidade, saindo de um ambiente de classe média, pobre, isolado e sem perspectivas culturais, a universidade é para ele o universo da alta cultura. Ele sofreu um upgrade formidável, os horizontes dele se ampliaram. Ele quer participar daquilo e se sentir participante. O método científico é aprender a falar como as pessoas e nisto consiste todo o aprendizado deles. Creio que isto é possível ser demonstrado cientificamente por pesquisas lingüísticas. Pergunto: “O que esse pessoal liberal e conservador esta esperando”? Dentro do pessoal da esquerda, você encontra um respeito muito maior pelo conhecimento, pela ciência, do que o pessoal da direita. Na direita predomina esse pragmatismo idiota e imbecil que é característico do Brasil. Não precisamos estudar, não precisamos saber nada; — a linguagem só serve para fins de propaganda. Quando você começa a pensar assim, você está infectado do que existe de pior no seu inimigo e você se torna o seu pior inimigo. Vamos levar a análise da linguagem dessa mulher um pouco mais adiante para vocês. Com esses artigos estou exemplificando o que estou dizendo da auto-impregnação histérica. O segundo artigo chama-se “O Nariz do Viking”: “Desculpem voltar ao assunto, mas a inépcia da classe universitária neste país é uma fonte de inspiração inesgotável para este deslumbrado colunista. Há coisas que o gênio mais excelso não conseguiria inventar, que não existem nem entre o céu e a terra nem na nossa vã filosofia, mas que jorram da idiotice aos borbotões, num fluxo incessante de criatividade que só encontra igual, mutatis mutandis, no primeiro capítulo do Gênesis. Leiam esta frase da nossa já conhecida professora Luciana Ballestrin: ‘Mesmo os velhos e os contemporâneos clássicos do liberalismo político moderado são capazes de aceitar a tolerância, a diferença, a liberdade de expressão...’” Vamos descontar o estilo miserável da dona. Não é disto que estou falando por enquanto, mas somente da semântica de certos termos que ela emprega. O tom de superior condescendência sugere que a tolerância, o respeito à diferença etc., são virtudes tão bem repartidas entre vários regimes políticos, que até mesmo os liberais são capazes de praticá-las um pouquinho. No mundo real, porém, ninguém ignora que essas virtudes foram inventadas pelos liberais e só existem nos sistemas políticos que o liberalismo criou ou nos quais deixou sua marca profunda. Elas são o liberalismo. Em todos os outros regimes, só o que se vê é rigidez, intolerância, perseguição, encarceramento e matança dos divergentes. Não podendo negar esse fato, mas odiando reconhecê-lo, a articulista da Carta Maior apela ao expediente pueril de atenuá-lo mediante o uso do modo comparativo. Aí há uma comparação implícita: — mesmo o fulano consegue fazer tal ou qual coisa. Ou seja, outros conseguem — o que é normal —, mas até estes conseguem. “Mas comparações só funcionam quando há elementos a ser comparados, e no caso não há nenhum. No mundo moderno não há exemplos de tolerância e liberdade fora do liberalismo. Não se trata portanto de uma comparação autêntica, mas de um fingimento, de uma comparação postiça, absurda, produzida à força para fins puramente pejorativos. Fingindo louvar um mérito, a professora o achincalha ao dividi-lo com quem não o tem, deixando ao seu portador único e genuíno só um tiquinho, uma lasquinha da virtude supostamente geral, como quem dissesse: — Até mesmo os ovíparos botam ovos.” Como se botar ovo fosse universal: — elefante bota ovo, leão bota ovo, dona Ballestrin bota ovo e até os ovíparos botam ovos. “Para piorar um pouco mais as coisas, ela não reconhece essas virtudes políticas nem mesmo em todos os liberais, mas só nos “moderados”. Fica subentendido que existem radicais liberais que as negam. Mas a única facção radical que existe nas hostes liberais é o libertarianismo, que em vez de negar a tolerância e a liberdade as amplia até à demência. Se alguém entre os liberais aceita moderá-las em vista de outras considerações, são precisamente... os moderados.” Vem mais: “Seria um tanto contraproducente esboçar nessas linhas (...)” Ela escreve “nessas linhas”. Mas quais linhas? Aquela que ela está escrevendo, portanto tem de ser “nestas” e não “nessas”. Se vai falar de um outro artigo que você escreveu, então se usa “nesse” artigo. Mas se você está falando do próprio artigo, o certo é “neste”. Nem isso a mulher sabe. No tempo em que eu estava no ginásio, isso produzia um zero. “‘Seria um tanto contraproducente esboçar nessas linhas argumentos e razões que tentem comprovar que o Brasil não é governado por comunistas e que a universidade brasileira não está intoxicada pelo marxismo’. Se ela dissesse que esboçar esses argumentos é ‘desnecessário’, entenderíamos que, na sua opinião, são pontos pacíficos, fatos notórios que nem é preciso provar. É obviamente isso o que ela deseja que o leitor acredite. Mas, ao escolher a palavra com que vai dizê-lo, ela se trai e diz o inverso. Reiterar a demonstração do óbvio pode ser desnecessário, tedioso, supérfluo. Contraproducente, nunca: uma demonstração é contraproducente quando, em vez de dar o resultado esperado, produz o seu oposto e, no esforço de repetir a pretensa certeza adquirida, acaba por demoli-la. A professora sabe que é precisamente isso o que aconteceria se ela tentasse provar a inexistência da hegemonia marxista nas nossas universidades, pela simples razão de que essa hegemonia é um fato. Em tão constrangedora circunstância, ela tenta fazer o leitor engolir como verdade notória e arqui-provada algo que ao mesmo tempo ela confessa não poder provar de maneira alguma. Tentando ser esperta, só prova que é mesmo uma boboca. [0:20] Numa das tiras de Hagar, o Horrível, o robusto viking encontra seu amigo magrinho, cujo nome esqueci, esmurrando vigorosamente o próprio nariz. “Que raio de coisa é essa?”, pergunta o chefe. E o outro, todo orgulhoso: “Um guerreiro precisa vencer-se a si mesmo.” A professora Ballestrin estudou nessa escola. Completando: “Da mesma maneira estéril, argumentar que o eurocentrismo, o colonialismo e o progresso moderno não são completamente afastados do marxismo e que justamente por isso, ele encontra resistência nos movimentos decoloniais latino-americanos.” Não liguem para a palavra “decoloniais”: é o neologismo pedantíssimo com que alguns intelectuais anticolonialistas de Nova York insinuam que ainda são colonizados, coitadinhos. O que a professora está dizendo é que eles se irritam com os parágrafos em que Marx reconhece o papel positivo do colonialismo europeu no desenvolvimento das forças produtivas. Mas ver nessa ranhetice de detalhe uma resistência ao marxismo. é como dizer que Lênin resistiu ao marxismo quando achou que podia fazer a revolução com meia dúzia de intelectuais em vez de esperar pelo proletariado. Não faz o menor sentido ressaltar a “importância das várias correntes do marxismo, do vulgar e ortodoxo para o crítico e arejado“ e depois imaginar que as diferenças que as separam sejam resistências ao marxismo. Todas essas divergências e uma infinidade de outras brotam dentro de um marco conceitual que permanece estritamente marxista. Cada vez que os comunistas divergem uns dos outros, isso é explicado, dentro do movimento, como uma prova da sua pujança e riqueza de perspectivas, e, fora, como uma prova de que o comunismo acabou e de que preocupar-se com ele é paranóia. A professora Ballestrin pensa que pode fazer as duas coisas de uma vez. Por isso mesmo, acaba não fazendo nem uma, nem a outra. Não acredito que ela seja capaz de acompanhar esta análise que estou fazendo aqui. Ela não é um caso excepcional, uma exceção, isto é a média dos nossos professores universitários: — eles são analfabetos funcionais mesmo. No tempo do Imbecil Coletivo, os caras não entendiam o que eu escrevia, agora eles já não entendem mesmo o que eles escrevem — foi um progresso extraordinário. Realmente não compreendo como os alunos aceitam esta situação e tenham até certo temor reverencial perante o professor. Na minha geração ninguém respeitava o professor no Brasil, na Europa não, mesmo no maio de 1968, estava o pessoal fazendo aquela gritaria, de repente passava um professor da Sorbonne, todo mundo parava e cumprimentava: “Monsieur professeur”. No Brasil, porém, o normal era o estudante ter uma atitude de rebeldia, de não aceitar a autoridade de ninguém. Depois de toda essa era petista, os professores viraram como se fossem cardeais: — as pessoas têm uma atitude de obediência e temor reverencial. Do mesmo modo que, nos anos 60 e 70, o culto aos diplomas já havia acabado. Todo mundo já havia incorporado a lição da literatura brasileira de que o culto aos diplomas é algo de subdesenvolvido, que já vinha sendo denunciado e demolido pela literatura desde 1910 com Lima Barreto. Finalmente, nos anos 1960, os estudantes rebeldes já tinham entendido que isso não funciona, que é uma palhaçada. Agora isso voltou; — o culto do diploma, o culto do senhor professor... Ao mesmo tempo em que esse professores vão se rebaixando ao nível de retardados mentais mesmo. As pessoas aceitam isso. Isso é para vocês verem como a situação está brava e como é muito importante — se você estuda numa universidade — de jamais aceitar a autoridade desses caras. A autoridade do professor tem de ser testada. Ele tem de ser espremido na parede. Uma vez, duas vezes, dez vezes para ver se ele sabe do que está falando e, se ele não sabe, você tem de ir à diretoria da faculdade e dizer; “esse sujeito é inepto e não pode lecionar essa matéria”. Isso é o que as pessoas têm de fazer; — é obrigatório. Você não pode fazer sozinho, mas tem de juntar duas ou três testemunhas, documentar, gravar as coisas e não há outra maneira de nos livrarmos desse pessoal se não desmoralizar um por um. Não desmoralizar com xingamentos. Não desmoralizar como fizeram com o Paulo Ghiraldelli, que os próprios alunos invadiram a sala e quase bateram nele. Não é assim que se faz. É fazer uma coisa séria. É provar que o sujeito não tem capacidade de lecionar o que está lecionando e pedir realmente a sua remoção. Tem de fazer isso com um, dois, três, cem, mil, dois mil ou até dez mil. Tem de ser um por um, pois não há meio de se livrar desses caras de uma maneira genérica, como passar um spray. É um por um. Isto é uma coisa que tenho tentado explicar a liberais e conservadores há trinta anos. A luta política não é uma luta de idéias; — não estamos aqui para derrubar idéias — mas pessoas. O poder é ocupado por pessoas e não por idéias. Quem está na Presidência da República não é uma idéia da Dilma Rousseff, mas é a própria. E assim por diante. Não há outra maneira senão remover um por um. A esquerda sabe disso há cinqüenta anos. Agora vamos ao texto da própria aula, que é um texto que vai nos dar certo trabalho porque está tentando analisar um processo bastante complexo. Vou lê-lo e comentá-lo. Chama-se “O mundo da Rainha de Copas — Ciência e anticiência na história da mentalidade revolucionária”. É um assunto que mencionamos aqui de passagem algumas vezes, mas que vale um exame aprofundado. Isto foi escrito para ser uma apostila deste curso, mas neste ínterim o Digesto Econômico pediu-me um artigo e mandei este texto. “Entre os anos 80 e 90 do século passado, muitos filósofos e cientistas começaram a se perguntar, angustiados, que raio de futuro poderia ter ainda a nossa civilização se nela viessem a predominar as correntes de pensamento pós-modernistas, relativistas e desconstrucionistas, que contestavam a autoridade da ciência e chegavam ao extremo de negar a existência de qualquer verdade objetiva, consagrando em seu lugar a onipotência soberana dos slogans e chavões revolucionários; — a vontade de poder em estado puro e cínico.” Esse é um processo que algum autor aqui, eu creio que foi o Allan Bloom, chamou de nietzschiezação da esquerda. Nietzsche dizia que toda verdade ou prova é uma falsidade, uma hipocrisia e que no fundo, quando você tenta provar alguma coisa você está apenas impondo um poder. É claro que esse argumento é inteiramente absurdo porque quem quer impor um poder precisa provar coisa nenhuma. Você manda fazer e está acabado; — tapa a boca do sujeito. Confundir o plano da imposição do poder com o plano da discussão e da prova, esse é o grande crime intelectual de Nietzsche. Todavia, pessoas que têm dificuldade de mover-se na esfera da prova — e que se atrapalham com as sutilezas da lógica —, acharam aquilo ótimo. Não se precisa provar mais nada, é só gritar mais alto. Se for uma vontade de poder contra a outra, nós impomos a nossa. Isso inicialmente, atraiu as pessoas de mentalidade fascista. Mas, de onde saiu o fascismo? Isso é muito importante. O fascismo surge não no meio da burguesia nem no meio do proletariado, e nem sequer no meio estudantil e intelectual, ele surge com os veteranos da guerra de 1914. Todos os primeiros fundadores, líderes e adeptos desses movimentos fascistas eram veteranos de guerra. Vocês não podem esquecer que quando estourou a guerra de 1914, ela acabou com quarenta ou cinquenta anos de paz européia. Um ambiente tão maravilhoso que o pessoal chamou de belle epoque, a bela época. Ela acabou abruptamente em 1914, onde havia quarenta ou cinqüenta anos de liberalismo, democracia parlamentar, liberdade de imprensa e prosperidade. Tudo isso acaba repentinamente em 1914 quando estoura a guerra e aqueles milhões de jovens perdem todas as suas perspectivas de carreira — seja na indústria, no comércio ou na vida intelectual — e são jogados para uma trincheira, onde ficam longe por quatro anos numa guerra que não avançava. [0:30] E aqueles garotos, milhões de jovens então perdem todas as suas perspectivas de carreira, seja na indústria, no comércio, na vida intelectual, e são jogados para uma trincheira, onde ficam lá quatro anos, numa guerra que não avançava, era realmente uma guerra de trincheiras, tinha uma trincheira aqui, outra aqui, ninguém consegue avançar um metro, e ficam se matando nas trincheiras sem que a coisa ande, e no meio ali da lama, da sujeira, do sangue — uma coisa horrorosa. É uma experiência inédita em toda a história das guerras européias. Não se pode esquecer que até o começo do século XIX, você ainda tinha o conceito do campo de batalha, quer dizer, marcava-se um lugar para os exércitos se enfrentarem e os exércitos evitavam danos à população civil e de repente não tinha mais nada disso. E também, o volume de gente que foi mobilizada pra esta guerra é uma coisa quase apocalíptica, para, vamos dizer, à medida que os europeus tinham das coisas. Então, para milhões de jovens, sobretudo para os mais intelectuais, os mais sensíveis, o que a guerra representou foi a total decepção com aquele mundo da ordem democrática, racional, parlamentar, etc., etc.., acabou tudo isso. Ou seja, a realidade não era nada daquilo, nós vivíamos numa ilusão, a realidade é isto aqui, é o sangue, o bombardeio, a morte, etc., etc.. O mundo do liberalismo burguês, para eles estourou como uma bolha de sabão, então, quando eles voltaram para casa, já não conseguiam retornar a este mundo, então muitos deles aí leram Nietzsche, e o Nietzsche dizia, era que o mundo da razão, da liberdade, da discussão democrática, etc. etc., era tudo uma enganação, tudo no fundo, um confronto de poder, e eles disseram, “é isto, a nossa experiência confirma, porque os cara ficam falando em discussão democrática, mas na hora de provar o que eles estão falando, nos mandam morrer na trincheira”. Foi esta gente que aderiu àquele irracionalismo fascista, que lhes parecia uma forma de vida mais sincera e mais real do que o mundo da belle époque. Fica, então, subentendido nesta expressão, que decorridos 70-80 anos da guerra de 14, o mesmo espírito nietzschiano, que renega a discussão racional e parte para a imposição da vontade de poder, tinha infectado a mentalidade de toda a esquerda militante. E justamente esses autores, que eu estou falando aqui, estavam assustados com isto. “Esta preocupação aparece, por exemplo, em; The Closing of the American Mind de Allan Bloom, em On Looking Into the Abyss: Untimely Thoughts on Culture and Society de Gertrude Himmelfarb, Tenured Radicals de Roger Kimball, Higher Superstition: The Academic Leftand Its Quarrels with Science de Paul R. Gross e Norman Levitt, Uncommon Sense: The Heretical Nature of Science do físico Alan Cromer, que eu publiquei no Brasil pela Faculdade da Cidade da editora, no ensaio de Paul Hollander, The Attack on Science and Reason, publicado na revista Orbis no outono de 1994 e em muitos outros estudos.” É uma infinidade de livros que existe sobre isso, quer dizer, o número do pessoal que ficou assustado com o processo é muito grande. “Assim como o marxismo clássico tinha servido de base ideológica para os movimentos revolucionários até a década de 60, as novas correntes intelectuais denunciadas nesses escritos alimentavam de entusiasmo feroz e de uma retórica infinitamente presunçosa e tola; o gayzismo, o feminismo, o afrocentrismo, o ecologismo radical e outras tendências que àquela altura já tinham se tornado dominante em praticamente todos os ambientes universitários nos Estados Unidos e em muitos países.” Todas estas correntes tinham sido profundamente influenciadas pelo próprio Nietzsche, quer dizer, a análise nietzschiana da linguagem, da lógica — etc. etc. — tinha invadido todos esses movimentos e a esquerda que até certa época odiava o Nietzsche, passou a adorá-lo, porque via que ele estava lhes dando, lhes fornecendo um porrete, uma arma quase invencível, que é a arma do irracionalismo em nome da ciência. Quer dizer, a análise, segundo eles, científica, do discurso, prova que por trás de todo esforço de persuasão e argumentação existe apenas a vontade de poder; — na cabeça deles é assim. Isso realmente não é assim, porém, a argumentação nesse sentido está em milhares e milhares de livros que são lidos diariamente nas universidades. Então de repente as pessoas sentiram aquele alívio. Falaram “opa, nós não precisamos mais argumentar, nós não temos mais compromisso com a racionalidade, nós temos apenas que gritar mais alto e impor os nossos slogans”. Ou como diz o Richard Rorty — que também foi profundamente influenciado por Nietzsche nisso ai —, ele diz que, com relação a todas as questões da política, da moral, da religião, etc. etc., não é possível provar nada, não é possível saber quem tem razão. Portanto, é inútil argumentarmos racionalmente em defesa das nossas posições e contra as do adversário. Daí, diz ele, tudo que nós temos que fazer é incutir nas cabeças das pessoas o nosso modo de falar. Isto está comentado num artigo de 20 anos atrás que eu publiquei no imbecil coletivo. Richard Rorty, o usa demais. O método rortiano de educação é puro adestramento de animal, não se trata mais de discussão racional, de prova nem de coisa nenhuma, mas de simplesmente treinar as pessoas para que elas repitam os nossos cacoetes mentais. E, tão logo elas comecem a repetir esses cacoetes, irão fazer o que nós mandarmos. Himmelfarb e outros autores que mencionei falaram que isso aí não é só Nietzsche, é todo um complexo de correntes de pensamento que convergem para esse ponto, para legitimar, vamos dizer, estes procedimentos de imposição de linguagem, que se tornaram praticamente o meio universal de ação de toda esquerda mundial. “Himmelfarb e os outros autores que mencionei assinalavam — nos discursos novos dos guias iluminados da juventude universitária — várias inconsistências que raivam o puerilismo puro e simples, tornando-o inaceitável para qualquer pessoa sensata. É só capaz de agradar a dois tipos de indivíduos; os psicopatas que produziam comum sorriso maquiavélico no canto dos lábios e a multidão dos histéricos que se persuadiam dele por auto-impregnação auditiva, mimetismo simiesco e subserviência aos grupos de pressão. Desde logo, os próceres do politicamente correto negavam toda presunção de conhecimento científico objetivo, mas é claro, não renunciavam para fins de agitação e propaganda a sua própria dose da mesma autoridade científica que haviam denunciado como fraudulenta.” Ou seja, se na ciência é tudo fraude, enganação, imposição da vontade de poder, a autoridade científica não deveria significar mais nada, e, portanto um título universitário não deveria significar mais nada, mas justamente eles se prevaleciam disso; “eu sou premio Nobel num sei das quantas, sou PhD num sei do que”, e exploravam em proveito próprio a mesma autoridade científica que eles solapavam por outro lado. Muitos autores pegam estas inconsistências, essas incoerências e as denunciam. Mas acontece o seguinte, de nada adianta você assinalar incoerências lógicas em alguém que começou por negar a lógica inteira; — é inútil. O que é preciso fazer é analisar essas incoerências como processos psicológicos, analisá-los no plano existencial. Já falei aqui mil vezes, existem contradições lógicas — meras contradições lógicas — que qualquer garoto de 14 anos é capaz de pegar — você diz uma coisa aqui e depois se desdiz, depois de dois minutos, qualquer um percebe —, existem contradições ontológicas, que se referem a aspectos efetivamente contraditórios observados na realidade, coisas que uma parte dos indícios indica A e outra parte dos indícios indica não A. Isto acontece realmente, e existem contradições existenciais ou psicológicas, ou anímicas, ou espirituais se quiser, onde você vê que a vida do indivíduo é montada sobre uma farsa, um alto engano; “o sujeito está mentindo pra si mesmo”. Não é que ele está caindo apenas numa contradição lógica. Então assinalar contradições lógicas é coisa de adolescente. Sobretudo se por trás delas não há uma contradição existencial, nem uma contradição ontológica. Por exemplo, um autor que você está lendo, ele pode incorrer em contradições lógicas, sem que haja aí uma contradição profunda, um erro profundo. Ele apenas cometeu um erro de raciocínio, às vezes está demonstrando uma coisa que é inteiramente verdadeira e ele se autocontradiz por engano, por distração — isso aí não tem a mais mínima importância. Mas é claro, o adolescente, ranhento, adora ciscar estas coisas na obra de cada um e você ai encontrar isso em Aristóteles, em Platão, em São Tomás de Aquino, todo mundo tem isso; — até na doutrina da igreja você encontra isto. Ontem mesmo eu estava lendo obra de um santo — esqueci o nome do santo —, em que ele diz isso aqui; “a igreja está dentro do estado e não está dentro da igreja”, o santo diz isso. Ou seja, é um santo católico que está então legitimando o que a igreja oriental, a igreja estatal russa no fim das contas diz, sem perceber. Estas contradições são contradições verbais na verdade. Quando você encontra contradição verbal, precisa procurar pra ver se por trás dela existe uma contradição profunda de ordem ontológica, existencial ou espiritual. Se não há, então é apenas um lapsos lingue, um pequeno erro de pensamento que não tem importância nenhuma. “Por exemplo, os porta-vozes do movimento gayzista impugnavam com vigor toda presunção médica ou psiquiátrica de distinguir entre o normal e o patológico, quer dizer, o normal e o patológico é apenas convencional, o que se considera normal numa sociedade é apenas a conduta majoritária dos seus membros e isso não tem fundamento científico nenhum, ao mesmo tempo em que pressionavam e intimidavam a associação psiquiátrica americana para que aceitassem o homossexualismo como normal.” Então você está tirando proveito de um conceito cuja validade você mesmo impugnou, isso não é uma contradição lógica, isso é uma contradição existencial. Se eu tenho um negócio, você é um líder gayzista, um prócer gayzista, que lê um bocado de Nietzsche, de Heidegger de Jacques Derrida etc. etc., e você diz; “olha esse negócio de normal e patológico isso é tudo furada, isso é tudo conceitos convencionais, isso é apenas vontade de poder”. Mas se é assim, então porque que precisa que uma associação psiquiátrica legitime a sua conduta como normal? Isso mostra que você está numa insegurança, quer dizer, você é valente contra os conceitos, mas na hora H você precisa deles como de uma muleta. Isto acontece o tempo todo, isso não é uma contradição lógica, isso entra já como uma contradição existencial. Outro dia eu mesmo li um gayzista descendo o cacete na igreja católica dizendo; “não nós queremos a respeitabilidade, portanto nós queremos casar na igreja, pra ter uma respeitabilidade como os outros casais”, eu digo, escuta, mas se a igreja é tudo uma palhaçada, se toda a moral cristã é toda uma vontade de poder, então pra que que você precisa que essa mesma instituição que você desmoralizou completamente, venha dar respeitabilidade ao seu casamento? Isso não é uma contradição lógica, isso é uma debilidade profunda da personalidade que tenta se apoiar numa autoridade que ela mesma está solapando, o que significa que no fundo, ela reconhece essa autoridade. É isso que eu chamo de contradição existencial, quer dizer, o indivíduo está vivendo com base em algo que ele mesmo está tentando destruir o que significa que a tentativa de destruição não é totalmente séria, é como esses garotos que são valentes, é o que eu disse no “Imbecil Juvenil”, o garoto que é valente contra o papai e a mamãe que só o ajudam, e que o amam, e que farão tudo por ele, mas que é subserviente, no seu grupo de referência, a pressão dos pares; — peer pressure na escola. Então você vai ver fragilidades psicológicas profundas. Isso não tem nada a ver com uma mera contradição lógica. “Também era notável que todos proclamassem energicamente a relatividade dos valores morais, assegurando que não existem costumes inferiores ou superiores; o canibalismo e os sacrifícios humanos são tão respeitáveis quanto qualquer outra conduta, ao mesmo tempo que apelavam a critérios de julgamento absolutos dogmáticos e indiscutíveis quando se tratava em condenar a civilização ocidental ou acusar alguém de racismo, homofobia e delitos semelhantes. Com o detalhe especialmente sádico, que qualquer tentativa de tentar defender-se dessas acusações ou de questionar a validade dos julgamentos, passava a ser automaticamente uma prova do crime. Se você diz que alguém não é racista ou homofóbico, fica provado que você mesmo o é.” Isso tudo são coisas que aparecem nas obras destes autores. Eles estão analisando os discursos politicamente correto, os discursos dos desconstrucionistas, relativistas etc., e observando essas inconsistências, sejam lógicas sejam existenciais. “Era óbvio que uma vez impregnados da mentalidade de qualquer meio social — para não falar da sociedade como um todo —, esses hábitos ou cacoetes de pensamento tornavam impossível e criminosa qualquer veleidade de discussão racional, substituindo-a pela imposição automática das preferências arbitrárias dos grupos de pressão mais ricos ou mais barulhentos. Por isso aqueles autores se perguntavam qual destino poderia ter num mundo onde semelhantes critérios se tornassem dominantes, uma civilização que até então se baseava na ciência e na razão. Decorridas duas décadas este futuro já chegou, quase que imperceptivelmente. O raciocínio circular que dá todas as questões por resolvidas antes da mera possibilidade de discussão e consagra a pressão, a intimidação e a fraude como únicos critérios válidos de julgamento, e para a solução de todos os problemas, foi se alastrando para fora do meio universitário até dominar, hoje em dia, praticamente todos os governos do ocidente, a grande mídia e os organismos internacionais. Impor teorias científicas por meio de campanhas maciças de propaganda e da criminalização das objeções, bloquear discussões por meio da calúnia e do assassinato moral, proibir mediante chantagem psicológica a investigação de fatos adversos aos interesses dos grupos de pressão, tornar esses procedimentos universalmente aceitos como normais e até obrigatórios nos meios de comunicação, nas discussões públicas e nas decisões de governo. A vontade de poder já substituiu a razão e a expeliu da sociedade decente. Já vivemos no mundo da rainha de copas de Alice do País das Maravilhas, onde a sentença precede o julgamento. Aliás, é sempre a mesma; — cortem-lhe a cabeça! Nesse panorama, a sociedade como um todo torna-se completamente indefesa contra as imposições dos grupos mais cínicos e psicopáticos que a forçam a aceitar passivamente, como verdade absoluta, o contrário daquilo que os seus olhos vêem e que a razão demonstra. Os discordes recalcitrantes são imediatamente estigmatizados como loucos, extremistas ou criminosos até perderem todo o desejo de continuarem discutindo e tornarem-se assim presas voluntárias da espiral do silêncio.” Espiral do silêncio é um conceito técnico criado pela socióloga Elisabeth Noelle-Neumann, que foi citada em vários artigos meus. “Talvez nada exemplifique isso mais claramente do que a controvérsia entorno do aquecimento global e de suas pretensas causas humanas. Não há uma só prova científica que o fenômeno exista, muito menos que seja causado pelas emissões terrestres de CO², isto é, pela maldita indústria capitalista, ao contrário, todas as medições indicam que o clima do planeta está esfriando há pelo menos 18 anos. Em compensação, há provas cabais que os partidários da teoria aquecimentista planejaram em segredo usar de todo tipo de fraude e manipulação para impor a sua idéia e fazer dela o argumento final para a criação do imposto global que as nações mais industrializadas teriam de pagar a governos corruptos do terceiro mundo, as objeções à teoria, bem com a revelação da fraude, no entanto, não afetaram no mais mínimo que fosse, o entusiasmo dos organismos internacionais pelo projeto do imposto cujos fundamentos científicos continuam sendo alardeados como se nada tivesse acontecido, ao passo que os adversários da idéia são persistentemente submetidos a toda sorte de ataques pela grande mídia e pelos governos interessados. Uns meses atrás um vice-presidente americano John Baeder, chamou-os publicamente de terroristas, numa ameaça velada de apelar para o uso da força policial contra eles.” Note bem, o mesmo tipo de pressão e intimidação que você via nas universidades, nas salas de aula, nos anos 60, 70, 80, agora viraram critérios de discussão nos organismos internacionais; na ONU, OMS, OIT, Banco Mundial etc. etc.. Aqueles mesmos estudantes malucos dos anos 70, 80, agora são os dirigentes dessas coisas, e continuam pensando as mesmas coisas. Esse modo eminentemente fraudulento de defender as suas posições e tentar impô-las, se universalizou. Nós já estamos naquele mundo que esses estudiosos previam. “O caso mais chocante é o dos documentos do senhor Barack Hussein Obama. Em termos estritamente científicos é impossível sob todos os aspectos continuar acreditando que a certidão de nascimento, o comprovante de alistamento militar e o número do social security do atual presidente, sejam autênticos.” Li o relatório da investigação de Joe Airpaio e vários relatórios de técnicos que examinaram esses documentos — inclusive o próprio técnico tinha sido contratado várias vezes pelo próprio escritório de advocacia que defende o Obama —, e não tem jeito, não tem como, não tem barriga me dói, os documentos são falsos mesmo, não há a menor possibilidade de argumentar em favor da autenticidade deles. Não é uma suspeita, não é uma opinião, é um fato que não tem mais discussão possível; — na esfera científica. É a coisa examinada sob vários aspectos, sob a ótica de várias técnicas, não só a técnica dos computadores, mas também, na técnica tipográfica. Lá é um exame totalmente diferente, uma coisa é você observar que existem várias camadas no documento e que ele foi montado, mas outra coisa totalmente diferente é você observar os tipos de letras que foram usados por uma pretensa máquina de escrever nos anos 60, e uma das coisas que o técnico de tipografia demonstra, é que as letras têm um espaçamento diferente. Ora, máquinas de escrever com espaçamentos diferentes só foram inventadas muito depois, na época todas as letras tinham exatamente a mesma largura. Segundo, você vê o uso de tipos de letras diferentes, quer dizer, famílias de letras diferentes. Você tem letras H Roman, Times Roman etc. etc.. Ali, tem várias famílias de letras misturadas; — que raios de máquina de escrever miraculosa foi esta. Existe ainda a possibilidade de examinar a coisa sob um terceiro aspecto que seja já histórico propriamente, que são as seqüências dos números das certidões que foram emitidas e assim por diante. No caso do certificado de alistamento militar não precisa nem isso, nem do laudo técnico, porque a falsificação é visível ao olho nu. Não há a menor possibilidade de negar isto aí. Alguém deve tê-lo avisado durante a campanha eleitoral de que precisaria apresentar um certificado do alistamento militar e como ele não tinha nenhum, produziram no ano de 2008 um certificado retroativo com data de 1980. Para fazer isso, pegaram um carimbo de borracha de 2008, cortaram os dois últimos números, e transformaram o 08 em 80, só que ficou faltando o 1900, o 1 e o 9, então tem só dois numerinhos, o que não acontece com nenhum outro carimbo dos correios que só tem o 80 e está completamente fora do lugar. Então você vê, é coisa de criança, o cara cortou um carimbinho de borracha e virou de cabeça pra baixo; — é grotesco. “Não há mais razão plausível para duvidar que o Obama se impôs como candidato presidencial mediante fraude, de certo o mais lindo caso de estelionato já registrado nos anais da criminalidade mundial. Não obstante, a nação americana inteira parece impotente para reagir a usurpação da presidência da república por um farsante chinfrim, sem documentos e com a biografia totalmente inventada. Embora a popularidade do Obama tenha baixado para níveis nixonianos graças a uma sucessão de escândalos e fracassos jamais igualada por qualquer outro presidente americano incluindo o próprio Nixon, todo mundo na elite falante dos Estados Unidos parece ter desenvolvido o reflexo automático de rejeição que impede de pensar, mesmo por minutos, na hipótese que a nação não esteja sendo governada simplesmente por um incompetente ou traidor, mas por um bandidinho que enganou o país todo com documentos grosseiramente falsificados. Essa reação defensiva contra o temor de um vexame que se anúncia grande demais para ser suportado, leva muita gente a se enredar no escândalo que vai inevitavelmente estourar mais dia menos dia. Os juízes morrem de medo de tocar no assunto, rejeitando os processos in limine, para não ter de entrar no exame da matéria, ao passo que a grande mídia em peso se recusa a falar das provas materiais da fraude preferindo qualificar como racistas, terroristas ou caricaturar como loucos e fanáticos os que ousem mencioná-los.” A possibilidade de uma discussão racional sobre os documentos do Obama está totalmente afastada. Para a grande mídia, para o establishment, para a quase totalidade da classe política, não se trata de uma questão objetiva que possa ser decidida na base da perícia técnica, trata-se de uma imposição de discurso, eles querem falar de provas, nós falamos de racismo, nós falamos de terrorismo, falamos de doença mental, etc. etc.. Está se impondo uma outra linguagem, transferindo a discussão desde um terreno factual e material para um terreno psicológico. Então o que é Richard Rorty? É a incucação. Ele usa a palavra incucar, incucação de discurso. “Na mais doce das hipóteses, os jornais e a tv confundem a opinião pública desviando a discussão para o estatuto do Obama como cidadão nativo, uma controvérsia constitucional já velha que nada tem a ver com o caso dos documentos falsificados.” Se o Obama é elegível ou não, quer dizer, se ele nasceu nos EUA ou não, não tem nada a ver com o fato de os documentos dele serem falsificados; — são duas questões completamente diferentes. Mas isso aqui já se tornou quase um cacoete na mídia. Você diz, “os documentos do Obama são falsos” e eles respondem o “Obama nasceu nos EUA”. O que é isso aí? É a incucação de um modo de falar. Você não quer discutir aquela questão, quando o sujeito levanta uma questão você responde a outra, porque esta lhe interessa, porque provar que o Obama nasceu fora dos EUA é muito difícil, e, além disso ninguém sabe onde realmente ele nasceu. Então você transfere a discussão para um terreno que você domina melhor. “O modo de argumentação irracional que três décadas atrás predominava no meio universitário, tornou-se endêmico e obrigatório no establishment inteiro.” Claro que essas pessoas que hoje estão no governo, estão no parlamento, todas elas foram educadas no desconstrucionismo, no relativismo, elas pensam assim. “A degradação da vida intelectual ampliou-se numa crise dos próprios fundamentos da democracia americana.” É por isso que eu digo que não é possível enfrentar isso no terreno da discussão de idéias, pois a mesma já está viciada de antemão, pelo fato de que essas pessoas não aceitam a prova racional; — não querem. O que elas querem é apenas a confrontação de vontade psicológica. E o que nós temos que fazer? Temos que quebrar essa vontade psicológica. Temos que mostrar os pontos de insegurança deles; — para que eles tenham medo. O sujeito que não se rende a um argumento racional, se rende à denúncia da sua fraqueza. Porque nesta história de vontade de poder, só há um pecado, o pecado da fraqueza. “Os temores de Alan Bloom e outros observadores mostraram-se, portanto, mais que justificados. No entanto, algo nas suas análises de duas ou três décadas atrás estava miseravelmente incompleto. Todas elas partiam da premissa de que a sociedade americana e a democracia em geral têm por base a discussão racional e de que esta é representada eminentemente pelo modelo da ciência experimental moderna. O que escandalizava esses analistas era precisamente o fato de que, nos meios acadêmicos, a crítica dos fundamentos da certeza científica tivesse se ampliado numa legitimação cínica dos meios irracionais e até psicóticos de persuasão e manipulação. A premissa não declarada dessa análise era a identificação ingênua de razão e ciência moderna. Se esta última era a única [1:00] encarnação possível da razão, qualquer ataque mais sério a ciência acadêmica produzia ipso facto a destruição da confiança na razão em geral e portanto a consagração do irracional e da violência psicológica como meios normais e decentes de ganhar qualquer discussão. Acontece que, em grande parte, os ataques pós-modernistas e desconstrucionistas a ciência moderna eram sérios. É muito difícil responder a coisas como a teoria dos paradigmas de Thomas Kuhn, a Arqueologia do Saber de Michel Foucault, ou o anarquismo metodológico proposto por Paul Feyerabend em Against Method, mais tarde reforçado em The Tiranny of Science.” Ou seja, os argumentos levantados por essas pessoas e muitas outras contra a racionalidade do método científico não têm de favorecer necessariamente o irracionalismo, eles podem ser usados perfeitamente no sentido de um aperfeiçoamento da razão. A razão científica tal como está sendo exercida diariamente nos laboratórios e nas discussões é insuficiente. Demonstrar isso não está destruindo a razão, necessariamente, está apenas mostrando as limitações de uma das suas encarnações possíveis. Aquilo que se entende como ciência moderna não é inatacável e tem pontos furados, de modo que nós podemos perfeitamente usar essas contribuições de Thomas Kuhn, de Michel Foucault, de Paul Feyerabend, até de Jacques Derrida e outros, no sentido de aperfeiçoar e aprofundar a razão. Aliás: “Inconsistências e limitações graves do método científico já tinham sido postas em evidência muito antes por pensadores insuspeitos de qualquer contaminação irracionalista ou ‘politicamente correta’. Nas suas célebres conferências dos anos 30, depois reunidas sob o título geral de A Crise das Ciências Européias, Edmund Husserl perguntava se as ciências existentes ainda eram ‘científicas’ no sentido do ideal normativo que as legitimava, e respondia com um taxativo ‘não’.” Ou seja, ele tinha a idéia — a expressão que ele usa é “a ciência como ideal teleológico”— de um ideal do qual estamos nos aproximando. Não existe a certeza científica absoluta, mas temos esta idéia da razão científica como um ideal normativo que nos orienta e do qual nos aproximamos. E ser científico, consiste justamente em estar se aproximando continuamente dele por um processo autocrítico, de correção e de aproximação progressiva. Mas, ele dizia que fazia tempo que a ciência já tinha perdido de vista esse ideal normativo, ou seja, ela se conformava apenas com o seu protocolo e métodos rotineiros de averiguação sem tentar afiná-los em vista de uma exigência mais profunda da razão. “A substituição sistemática da realidade da experiência por modelos abstrativos matematicamente recortados tinha produzido, desde os tempos de Galileu, as mais extraordinárias distorções, que Husserl se propunha corrigir mediante um retorno geral ‘às coisas mesmas’.” Esse era o lema deles: voltar às coisas mesmas, parar de falar de modelos, conceitos, etc., e tentar descrever os objetos de experiência tal como eles se apresentam na experiência real. Este é um ponto de partida muito bom, excelente, contra o qual nada se pode realmente alegar. O máximo que se pode dizer é que apesar de ser um programa muito bonito, é muito complicado, muito difícil de realizar; — pode ser tudo isso, mas nem por isso deixa de ser obrigatório. Por exemplo, a questão dos modos de apresentação, ele diz, por exemplo, que a Terra, como um planeta que gira no espaço, só existe desde um ponto de vista astronômico, não como objeto de experiência — ninguém anda sobre uma Terra móvel. Do ponto de vista da experiência humana e da experiência histórica a Terra é imóvel. O geocentrismo corresponde à descrição exata da nossa experiência real ao passo que a científica é experiência hipotética, só podemos fazer através, não só de aparelhos, mas de toda uma rede de interpretações que estão subentendidas no uso e nas conclusões que tiramos dos aparelhos. Se você começa a transmitir para as pessoas a imagem da Terra girando no espaço como se fosse uma realidade existencial, você está acostumando-as a confundir um conceito científico altamente abstrativo com a experiência real; — experiência que elas jamais poderão ter, pois jamais ninguém andou numa Terra móvel. Não temos a experiência de andar num planeta móvel, nenhum de nós jamais teve, e a história humana inteira transcorre num planeta estático. Existe até uma conferência dele que se chama; “A Terra não se Move”; — o que se move é a Terra da astronomia; a Terra da história não se move, a Terra da nossa experiência não se move, e assim por diante. Confundir a perspectiva de um conceito científico com a perspectiva existencial é uma coisa horrível. A partir da hora que se faz isso, já se entrou num universo de mentira, de fingimento. Por exemplo, já assisti milhares de filmes aqui nos EUA em que nas discussões domésticas entre marido e mulher, pai e filho, etc., os personagens usam conceitos da psicanálise. Mas, você têm alguma experiência disso aí? Quer dizer, estão discutindo um problema pessoal, imediato, existencial, um problema entre nós, e, de repente, alguém apela à um conceito hipotético que foi criado por uma escola de pensamento e que não sabemos se corresponde à algo da realidade. Por exemplo, os tais dos complexos: existem ou não? Muito provavelmente sim, mas não existem no sentido da nossa experiência imediata. Então, a intromissão de elementos científicos altamente problemáticos e hipotéticos na vida diária; — simplesmente a destrói. Por exemplo, a devastação que foi feita aqui, na própria infância americana, pelo doutor Spock e outros pedagogos dos anos 60; — criaram uma geração de imbecis, psicopatas, etc., etc. Porque em vez de tentar puxar elementos científicos da experiência imediata real, já pegaram noções de um discurso científico altamente impostado e trataram aquilo como se fossem realidades existenciais concretas. O que acontece com o método de alfabetização sócio-construtivista? De um ponto de vista lingüístico, as palavras são unidades de sentido e as letras, não. Então, se aprender a ler é aprender o sentido, temos de aprender palavras, e não letras. O sujeito olha o formato da palavra e daquele formato já tem de aprender os significados. Ou seja, ele não vai aprender a montar palavras, montar fonemas, ele aprende por impressão visual do conjunto; — é uma hipótese científica. Só que na hora que se começa a usá-lo no dia-a-dia dá esse desastre: — está se produzindo milhares de analfabetos funcionais, e assim por diante. “Pouco importando o que se pense do método husserliano de descrição da experiência imediata, o fato é que muito das suas críticas ao método científico foram depois aproveitadas, com sucesso, por teorias relativistas, desconstrucionistas e pós-modernistas que o próprio Husserl não aprovaria de maneira alguma.” Além do que, nem tudo que é desconstrucionismo e relativismo é uma bobagem. Muitas coisas são críticas profundíssimas e muito corretas. Fato é, que se só existem duas alternativas: ou o método científico estabelecido nas universidades [1:10] ou o irracionalismo total, então, o irracionalismo vai ganhar. “O ponto importante é que Husserl distinguia entre a razão científica tal como praticada usualmente nos laboratórios, e as exigências mais profundas da razão em si mesma (que ele chama o ideal teleológico da razão), no sentido universal e normativo do termo, que a ciência moderna ao mesmo tempo personificava e mutilava.” A ciência existente historicamente é uma incorporação, representação e personificação do ideal teleológico da ciência até o ponto em que conseguimos realizá-la. Mas este ponto, naturalmente, está sempre atrás daquilo que deve ser alcançado amanhã ou depois. Portanto, a ciência deve progredir, não só no sentido do aumento dos conhecimentos, mas no aprimoramento da consciência crítica das autolimitações que ela tem ao personificar a razão. Ou seja, ela nunca é suficientemente racional. Só que a partir do momento em que a ciência historicamente ou sociologicamente existente passa a ser a única personificação da razão, o ideal teleológico some, e portanto só há duas alternativas: ou a ciência atualmente existente ou o irracionalismo. E daí o irracionalismo ganha porque faz mais barulho. “Theodor M. Porter, no livro Trust in Numbers (Confiança nos Números), mostrava que a confiança científica usual na uniformidade das medições como critério de objetividade — um dos pilares da ciência moderna — era em grande parte uma ilusão criada pelos fabricantes dos aparelhos de medição e pelos técnicos encarregados de manejá-los.” Ele entrava até na descrição mais meticulosa do processo, dizendo que para fazer a experiência você necessita do aparelho, e o aparelho necessita do técnico para manejá-lo. Como se formou este técnico? Um técnico forma outro através da experiência diária no manejo daquele aparelho. E isto é uma transmissão de pessoa à pessoa, em que há o elemento de comunicação subjetiva enorme — o sujeito ensinando o outro como calibrar a máquina, como manejar, o quanto deve pressionar o botão, e assim por diante. Há uma margem de comunicação não-científica enorme no manejo dos aparelhos, e na medida em que os técnicos aprendem a fazer a mesma coisa — calibrar um equipamento pelo equipamento anterior, que foi calibrado pelo equipamento anterior, que foi calibrado pelo equipamento anterior, e que todos os técnicos repetem as mesmas ações — produzirão os mesmos resultados. Mas isto não reflete nenhuma regularidade ou constância dos fenômenos, e sim, a regularidade e constância do manejo dos aparelhos. “Harry Collins, em Changing Order e em Artificial Experts, ia até mais longe, afirmando que a reprodução exata de qualquer experimento científico é tecnicamente impossível.” Por causa da interferência deste elemento que é o técnico que maneja. Pior ainda, como anotei num artigo de 2007: “Num dos últimos números da Prospect (revista inglesa), Ian Stewart, professor de matemática na Universidade de Warwick, observa que os computadores tornaram possível construir demonstrações matemáticas que se estendem por milhões e milhões de páginas, subtraindo-se ao controle humano. Acreditar nessas provas — ou negá-las — será um salto no escuro: — o hiperdesenvolvimento da racionalidade matemática ameaça desembocar na total irracionalidade.” Porter observava: ‘A natureza, supomos, é uniforme: outro pesquisador, usando os mesmos procedimentos, mesmo em outro continente ou outro século, deve obter os mesmos resultados. Esse princípio, no entanto, de pouco vale se não pode ser exemplificado em práticas. Na prática, a reprodução de um experimento não é nada fácil. Se as descobertas experimentais não são quase nunca reproduzidas de maneira independente (ou seja, de várias maneiras diferentes), mas em vez disso são sempre reproduzidas usando instrumentos que foram calibrados segundo o instrumento original, então as regularidades experimentais devem talvez ser interpretadas antes em termos de habilidade humana do que de entidades [objetivas] independentes e da operação de leis da natureza.’” Ou seja, os experimentos deram os mesmos resultados porque fizemos as mesmas coisas do mesmo jeito e não porque a natureza esteja se repetindo. Fomos nós que repetimos os gestos: — E note bem que nenhum deles (Porter, Harry Collins) era desconstrucionista e nem relativista, muito menos Edmund Husserl. “Diante desses fatos, uma conclusão impõe-se inexoravelmente: — o assalto desconstrucionista e pós-moderno à confiabilidade das ciências não provinha unilateralmente de uma profissão-de-fé irracionalista ou de um puro ativismo ideológico, mas explorava uma contradição, uma ferida aberta no próprio corpo da ciência moderna. Sua presunção de personificar a forma mais alta ou única da razão e, ao mesmo tempo, sua incapacidade de prescindir da ajuda de outras modalidades de pensamento racional cuja autoridade ela negava.” Ou seja, a ciência necessita do ideal teleológico da razão pelo qual se orientar sabendo que ela jamais vai alcançá-lo, sabendo que toda forma de racionalidade científica já presente e já realizada é insuficiente em face das exigências mais gerais da razão. Então, das duas uma: ou a ciência se cristaliza numa espécie de ritual ou de uma crença religiosa nas verdades adquiridas da ciência, ou ela tem de se submeter às exigências do ideal teleológico da razão. Ou seja, a ciência só continua científica na medida em que ela se submete às formas mais elevadas e mais universais da razão. Se, ao contrário, ela tenta ser a única personificação da razão, então, ela própria entra no irracional, e daí não tem o que alegar contra desconstrucionistas, pós-modernistas etc. Vamos deixar o restante do texto para a próxima aula. Aluno: Alguma recomendação específica para aqueles que percebem em si mesmos sintomas de histeria tal como o senhor os vem descrevendo? Olavo: É evidente que existem inúmeras explicações para a origem das histerias, mas, de modo geral, toda histeria se baseia na percepção de uma insuficiência, de uma fraqueza profunda que o indivíduo tenta superar mediante a imitação (assimilando cacoetes, gestos, entonações etc.) — esta assimilação é um processo normal de aprendizado. Só que esse processo começa a se tornar problemático na medida em que você não sabe que está imitando, em que esquece que está imitando e em que assimila essas coisas como se fosse você mesmo. Existe até um ditado: “A imitação é a mãe do aprendizado”. Sem sombra de dúvidas tudo que aprendemos é por imitação, só que se estou imitando fulano, sei que eu sou eu e que ele é ele, e que portanto, na transição da conduta dele para a minha existe alguma mediação, alguma interferência e alguma ação criadora minha. Então, a imitação só funciona quando há uma consciência crítica que acompanha o processo e que consegue distinguir os dois personagens envolvidos, mas quando a imitação começa a se tornar totalmente inconsciente, aí você perdeu o controle do processo e não é mais você mesmo, e começou a ser uma cópia inconsciente de um outro. É claro que tornar a imitação inconsciente e automática é um modo de apressar o resultado, quer dizer, você deixa de fiscalizar o processo e entra no piloto automático, só que isso é evidentemente muito perigoso. Se um indivíduo não está agüentando a própria solidão e quer assimilar a figura e a entonação de um outro para sentir que está participando, sentir que é um igual, então perdeu completamente o controle da situação. A solidão e a consciência de solidão são a condição básica de [1:20]todo o progresso da consciência humana. Se você não está agüentando a solidão e tem de imitar de qualquer jeito, então, você já está lascado. A solução para isso seria você aprofundar a consciência do estado de solidão e começar a gostar dela, porque é na solidão que você conversa com Deus; — não tem outro jeito. É aquilo que dizia Goethe: “O talento se aprimora na solidão, o caráter na agitação do mundo”. Quer dizer, na convivência com outras pessoas. E você deve saber sempre qual é a transição de uma coisa para outra e ficar atento a essa transição. É a sugestão que tenho para dar para o momento. De algum modo, isso responde a pergunta seguinte de um cidadão que pede para não dizer o nome e diz que na cidade dele existem vários alunos deste curso com os quais sente que tem uma amizade no sentido de Santo Tomás de Aquino (idem velle idem nolle: querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas, portanto, uma amizade autêntica), mas que, ainda assim, ele prefere ficar em casa estudando sozinho. Tudo bem, mas preste atenção nisto aqui: — você vai aprimorar o seu talento, mas o caráter é justamente na confrontação e na dificuldade de convivência que você vai aprimorar. Aluno: Estive comentando com um sujeito que queria porque queria me fazer crer que se não houvesse uma cópia perfeita deste mundo num plano transcendental já com todas as formas, então, os valores universais seriam apenas convenções humanas e cada povo teria a sua. Fiquei pensando: aceitar esse mundo das idéias de Platão é dizer que Deus é um demiurgo imperfeito que copiou nosso mundo desde idéias mais perfeitas. E ele me respondeu que Santo Tomás de Aquino não tinha tido acesso às obras de Platão e que a filosofia do motor imóvel de Aristóteles é tudo imanente e susceptível aos desconstrucionistas que não vêem valores imutáveis. Olavo: Em primeiro lugar, a coisa está partindo de uma noção confusa. Ele disse aqui: “Se não houvesse uma cópia perfeita deste mundo num plano transcendental já com todas as formas”. Mas espere um pouquinho, faça uma medida da passagem do plano deste universo para a eternidade, ou seja, do finito — o universo é grande mas não é infinito, é apenas indefinido —, na passagem do indefinido para o infinito, existe não somente este mundo, mas uma infinidade de outros. Quer dizer, esse problema não existe absolutamente. Você está dizendo que “existe na mente de Deus uma cópia perfeita deste mundo da qual Deus copiou esse mundo”. Mas tem não só a cópia deste mundo, mas de todos os mundos possíveis. Esse problema não existe de maneira alguma. Ou seja, não só este mundo existe na mente eterna de Deus, mas existem infinitos mundos possíveis. Todos os mundos possíveis estão na mente de Deus. Será que existe na mente de Deus uma cópia perfeita deste mundo? Não, existe este mundo, Deus não fez uma cópia. Este mundo está sendo pensado por Deus neste mesmo momento. Quanto ao modelo perfeito deste mundo: tem não só o modelo perfeito deste mundo, mas de todos os mundos possíveis, de maneira que esse problema não existe de maneira alguma. Não é verdade que Santo Tomás de Aquino não tinha acesso à obra de Platão, mas nem precisaria conhecê-la para saber uma coisa dessas, pois está na própria doutrina cristã. Aluno: Iniciei o curso há menos de um mês e estou muito satisfeito. Tive, no entanto, ao iniciar as primeiras aulas, uma dúvida quanto à recepção das leituras ficcionais. Sempre tive gosto de fazer uma leitura imediata dos livros principalmente clássicos evitando um pouco as explicações gerais sobre o livro, sinopse, crítica literária etc. Somente depois de receber esse primeiro impacto, eu me motivaria a procurar as opiniões emitidas ou as críticas. Gostaria de saber se essa é uma leitura adequada para ficção ou há outra melhor (...). Olavo: Se a obra está escrita numa linguagem a qual você tem acesso imediato, que é de certo modo a sua própria língua ou a língua da sua época e que não há grandes problemas filológicos a ser transpostos, então esta leitura é a ideal: — você ir direto para a obra. Sei lá, você vai ler um livro de Graciliano Ramos, ou Herberto Sales, ou Josué Montello, ou mesmo William Faulkner, ou Ernest Hemingway, é melhor você ir direto antes de passar pela crítica. Você pega a sua impressão imediata e depois a elabora mediante comparação com a experiência que outras pessoas às vezes mais experientes, mais tarimbadas nessas coisas, tiveram. As duas coisas são boas, mas o melhor de fato é você entrar direto na obra. Porém, em muitas obras isso é impossível porque foram escritas... Vamos supor, você vai ler Camões, Os Lusíadas. Vai encontrar milhões de referências a acontecimentos históricos que você desconhece por completo, você não sabe quem são aqueles personagens. Portanto, sem algum suporte filológico você simplesmente não vai conseguir ler. A sua experiência imediata não será experiência nenhuma. Esse é um grande problema porque em princípio as obras poéticas falam à nossa imaginação, então quanto mais direta e íntima for a experiência melhor para você. Acontece que o tempo passa e as referências culturais e históricas vão sendo esquecidas, e você vai ter de refazê-las. E esse é justamente o trabalho da filologia, dar esse suporte para você. E se a leitura requer um suporte filológico, então a experiência já não é tão imediata. Ou seja, você vai ter de ter primeiro uma experiência intelectual refletida, pensada, de estudo, para depois você ter a experiência imaginativa. E isto é um problema que não tem solução, nós sempre teremos isso. Algumas obras nós não poderemos ler sem esse suporte filológico e, portanto, a experiência imaginativa não será a primeira, ela será já de segundo grau. Mas com o tempo você se habitua com isso, de tal modo, que esse suporte filológico acaba não atrapalhando você. No começo é meio difícil porque dá a impressão que para chegar até a experiência das emoções que o indivíduo está lá transmitido você vai ter de primeiro pegar um dicionário, estudar a época e ter o suporte histórico etc. Você vai ter de fazer tudo isso. No começo é muito chato, mas depois você se habitua. Então a resposta à sua pergunta: — essa leitura direta é boa, quando ela é direta mesmo, quer dizer, quando não há esse abismo filológico a ser transposto, mas quando ele há, é inútil você fazer de conta que não existe. Por exemplo, você vai ler as peças históricas de Shakespeare, mas você não sabe nem que existiu Júlio César, fica difícil. Não existe nenhuma obra de imaginação que seja totalmente de imaginação e que não tenha referência ao mundo histórico-social, ao mundo humano existente. De algum modo você respondeu a coisa quando diz: “Isso não é tão fácil no caso de leituras como as traduções de Odorico Mendes”. Eu acho que as traduções do Odorico Mendes são tão difíceis, que às vezes é mais fácil você ler no original. Aluno: (...) Nesse caso tropeçante, sinto a necessidade de buscar algum atalho porque a defasagem no texto é maior. Desse modo seria mais proveitoso buscar um texto de mais fácil português. O primeiro impacto de um texto rico, como a Ilíada de Odorico Mendes, seria melhor. Olavo: Eu acho melhor você procurar uma tradução que lhe seja mais acessível. No caso, o trabalho filológico já feito pelo tradutor ou espera-se que tenha sido feito pelo menos. Aluno: Muito grato pelos ensinamentos que o senhor transmite, tenho crescido enormemente com as suas sábias palavras. Poderia dizer se há alguma predestinação de algumas almas se perderem em razão de não atingir o mínimo necessário para a visão beatífica? Olavo: Esse problema da predestinação e do livre-arbítrio é inevitavelmente colocado de maneira errada. Se Deus é onisapiente, já sabe tudo o que vai acontecer, e, portanto, aquilo que nós estamos pensando ou fazendo não tem a mais mínima importância. Você esquece que Deus não está só pensando lá no céu, mas também está pensando em você. Você tem a ação do Espírito Santo em você, portanto é parte do processo divino. Não um Deus que está lá e você que está aqui: Deus está lá, mas, também está aqui. É o que diz São Paulo, o Apóstolo: “Nele vivemos, nos movemos e somos”. Portanto, é parte desta onissapiência divina. Sem ela você não existe, você não pensa, portanto é como se você fosse uma célula do cérebro divino — a imagem é muito ruim, mas desculpe, é o que me ocorreu no momento. Portanto, se Deus não fosse capaz de criar criaturas que têm alguma liberdade e que, portanto, participam da própria liberdade divina, então ele seria somente um demiurgo no sentido platônico da coisa, seria só um executor material. Acontece que você participa da liberdade divina já nesta vida, porque Deus tem o conhecimento de tudo, mas não está predeterminado a nada, ele tem a liberdade. Por exemplo, quando perguntam a Nosso Senhor Jesus Cristo quando será o fim do mundo, ele diz: “Eu não sei, só Deus Pai sabe”. Mas Jesus Cristo não é o Logos, não é a Inteligência divina, não é a Razão divina? É. Então isso significa que o fim do mundo não é uma coisa que esteja predeterminada na razão divina, mas é uma decisão livre da vontade divina que é representada por Deus Pai. Deus Pai é onipotência, Deus Filho é a Razão divina. Quer dizer, não há uma razão predeterminada para o mundo terminar neste momento ou naquele momento, será uma livre decisão de Deus Pai. Porém, desta liberdade nós participamos, nós não estamos totalmente separados dela. Claro que participamos em escala infinitesimal, quase nula, mas não totalmente nula. Portanto, se você estivesse totalmente predeterminado, isso significa que Deus não conseguiu infundir em você nada da liberdade d’ele, Ele fez você apenas como uma coisa. Então ele seria um demiurgo e não o Deus criador. Deus cria entes livres porque eles participam da liberdade d’ele, assim como participação da razão d’ele. Justamente por isso que existe em nós essa tensão permanente entre o determinismo e o livre-arbítrio, nós temos as duas coisas. Se não estivesse nada determinado para nós, teríamos a liberdade divina integral. Mas se não tivéssemos liberdade nenhuma, estivesse tudo predeterminado, isso significaria que Deus nos fez apenas como coisas, não como entes que participam da sua liberdade. Portanto, esse problema não pode ter solução porque a existência humana é uma tensão entre determinismo e livre-arbítrio. E as pessoas que procuram resolver o enigma só mostra que elas não entenderam o próprio enigma. O enigma somos nós; — essa tensão é a natureza humana. Isso não é uma questão que se possa colocada abstratamente fora de mim: aqui existe o determinismo, aqui existe o livre arbítrio, e eu tenho de resolver isso aqui teoricamente. Não posso resolver teoricamente porque essa questão me envolve, eu estou lá. Esse problema pode ser resolvido não na esfera da discussão teórica, mas na esfera da autoconsciência. Por exemplo, nós podemos facilmente identificar em uma situação qualquer, quais são os elementos que já estão predeterminados e quais os elementos que nós vamos introduzir na situação por criação nossa. Na prática você percebe isso. E esse é o único método para tratar deste problema. Discussões acadêmicas, discussões abstratas tipo lógica (escola analítica, filosofia analítica) para resolver isso aí, são de uma estupidez fora do comum. Isso não é um problema que possa ser colocado fora de nós. Se eu mesmo pudesse resolver teoricamente o problema de determinismo e livre-arbítrio, eu teria de me colocar totalmente fora e acima do problema. Porém, como quem criou o determinismo e o livre-arbítrio foi Deus, eu teria de me colocar assim do próprio Deus para resolver isso aí. Isso é evidentemente impossível. Contudo, na medida em que entendo como um problema de autoconsciência, um problema que está sendo vivido na prática e na esfera da ação agora mesmo, então posso identificar o coeficiente de determinismo e livre-arbítrio que existe em cada situação e em cada ação humana, na medida em que dentro de um quadro predeterminado eu exerço a minha ação e modifico esse quadro, introduzindo nele elementos que não estavam lá. Cada vez que você faz uma escolha, você faz isso. A escolha não está predeterminada, mas o quadro no qual você faz a escolha está: — você escolhe, mas escolhe entre elementos que já estão dados e que você não pode modificar. Essa questão ilustra da maneira mais clara possível porque não pode existir a filosofia só como profissão, como uma técnica profissional; por que a filosofia tem de envolver necessariamente a pessoa real do filósofo com todas as suas tensões, suas decisões, seus valores, etc. e etc. A filosofia é necessariamente ao mesmo tempo um conhecimento e um modo de existência. Ela é o quê? Ela é a unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Essa é a única definição de filosofia que funciona. Eu acho muito engraçado quando os filósofos começam os seus livros de filosofia dizendo que não se pode definir a filosofia, mas eles já estão definindo nesse mesmo ato. O que eles estão fazendo é exatamente isso: — a unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa. Se fosse só unidade do conhecimento, seria a enciclopédia de todos os conhecimentos, então seria a mente divina ou uma cópia humana da mente divina, mas nós sabemos que o nosso conhecimento é imperfeito, só sabemos o que sabemos até agora, não sabemos ainda o que saberemos amanhã ou o que vamos ignorar amanhã. Portanto, não é a unidade do conhecimento em si mesmo, mas é a unidade do conhecimento na medida em que é acessível a essa consciência concreta que eu tenho hoje aqui. Portanto, é a mesma coisa que dizer: existe uma unidade do conhecimento para cada consciência diferente, porque cada um sabe uma parte diferente da coisa. É uma tensão entre a universalidade do conhecimento e a individualidade da consciência. Essa tensão também não é solúvel, nem precisa ser resolvida porque ela é nós, nós somos isso. Nós participamos da razão universal, temos acesso a verdades universais, mas dentro de uma limitação individual que nós não conseguimos superar de maneira alguma. Estamos sempre entre uma coisa e outra. Por mais universal que seja a verdade que você apreende, você vai expressá-la até para você mesmo na sua linguagem individual. Então será uma expressão imperfeita que guarda com a verdade universal que ela transmite uma relação puramente analógica e, portanto, há sempre uma tensão entre individualidade e universalidade, entre consciência e conhecimento. Por hoje é só. Tem muitas perguntas boas aqui. Alguém me pede para explicar melhor a noção de forma inteligível. Pode ficar para a próxima? Aproveito para dar uma aula só sobre forma inteligível, um tema essencial. Por favor, este texto, “O mundo da rainha de copas”, não mostrem para ninguém. Até a semana que vem. Muito obrigado. Transcrição: Evandro Santos de Albuquerque, Jackson Almada, Cláudia Makia e Jussara Reis de Abreu. Revisão: Felipe Mathews Nicolosi da Silveira