Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 225 26 de outubro de 2013 Hoje serão tratados dois textos que já tinham sido postados no Facebook e que estão reproduzidos no fórum do Seminário de Filosofia. Mas, antes de entrar nele, eu gostaria de contar para vocês algumas das idéias que ontem eu expliquei para um grupo de jovens reunidos na casa da Margarita Noyes, que estavam com algumas dúvidas sobre o mundo atual. E entre outros temas que eu toquei lá, havia o seguinte: aqui nos Estados Unidos e um pouco por toda a parte, a gente vê inúmeros livros de autores cristãos conservadores que tentam diagnosticar a crise do Ocidente – especialmente o fenômeno da descristianização da América. É uma bibliografia interminável. São milhares de livros que só se conhece por amostragem. Não é possível ler todos, por isso sabemos por amostragem randômica quais as idéias que circulam nesse meio. Os tópicos que sempre são abordados são, evidentemente, o Iluminismo do século XVIII, que desembocou na Revolução Francesa e, em parte, também na Revolução Americana – e seria o inaugurador de uma ideologia que os americanos chamam de humanismo secular, humanismo ateu. O humanismo ateu vem da Revolução Francesa, do positivismo, marxismo e toda uma série de movimentos ideológicos que atualmente culminam em gayzismo, abortismo, feminismo, direitos dos animais, etc. A linha de influências causais que eles investigam consiste de movimentos ideológicos ou formulações, discursos ideológicos que teriam se espalhado pela sociedade, conquistando os corações e mentes. Esse é o método de investigação que eles usam: pegam o conteúdo dessas idéias (que é francamente anti-cristão há pelo menos três séculos) e vêem que este tipo de influência vem crescendo. Acontece um pequeno problema. Em primeiro lugar, o Iluminismo não influenciou só a Revolução Francesa, mas influenciou decisivamente a Revolução Americana. Ele é responsável pela ideologia dos Founding Fathers. Portanto, se você vai jogar a culpa no Iluminismo, você vai ter de distinguir entre dois Iluminismos, um bom e outro malvado. Isso é um problema muito difícil de resolver. Em segundo lugar, como são pessoas nascidas na América e criadas nesse meio de influência predominantemente protestante, eles entendem como ponto de partida a sociedade cristã da qual o atual estado de coisas representaria uma negação, uma contestação ou uma decadência. Eles tomam a própria sociedade americana do início onde todo mundo lia a Bíblia, todo mundo ia ao culto dominical e as pessoas pautavam a sua vida pelos princípios cristãos, onde não havia fenômenos como abortismo generalizado, tatuagens, mutilações corporais e todas estas coisas feias que vemos hoje. Essa sociedade já surgiu numa etapa avançada do movimento revolucionário mundial, pois a própria sociedade traz elementos revolucionários contra os quais se torna indefesa. Todos esses movimentos ideológicos como Iluminismo, Revolução Francesa etc., têm uma grande diversidade de discursos ideológicos, uma grande diversidade de conteúdos. Só dentro do marxismo, há uma evolução desde o primado do econômico no tempo de Karl Marx até a fórmula do Ernesto Laclau de que a propaganda revolucionária cria a classe que lhe interessa. Portanto, temos a crença do primado da propaganda sobre a estrutura econômica real da sociedade. Sem contar o historiador inglês E.P Thompson que é marxista e chegou a conclusão de que é impossível você distinguir uma classe social somente por critério econômico porque existe elementos religiosos, culturais misturados, o que resulta em dissolver o conceito de classe que é básico no marxismo. Isto é para você ver o quanto um movimento ideológico pode mudar ao longo do tempo. Falar em marxismo está errado, existem milhões de marxismos diferentes. Isso se você pegar apenas uma dessas correntes ideológicas. Se você pegar as outras, elas variam muito mais. Nós podemos lembrar que o fundador da idéia da revolução sexual Wilhelm Reich, psiquiatra alemão, estava seguro que o homossexualismo era uma doença gravíssima que só existia no capitalismo e quando viesse o socialismo o homossexualismo ia dissolver. Passados 80 anos, o homossexualismo é a ponta de lança do movimento revolucionário. A variedade que existe é muito grande. Essa variedade nos mostra claramente que não é possível você identificar a unidade desse processo através do conteúdo dos discursos revolucionários. Foi por isso que anos atrás me surgiu a idéia de ver se surgia uma unidade no plano da forma, da lógica interna do movimento revolucionário. Essa lógica se baseia numa fórmula comum que é repetida igualmente em todos estes casos: a idéia de revolução. Uma revolução é uma proposta de refazer a sociedade de alto a baixo por meio da concentração do poder na mão de um grupo de guias ou intelectuais iluminados. Isto é comum a toda esta gente. Onde começou esse negócio? A primeira vez na história do Ocidente em que aparece esta idéia. são as revoluções hussitas e taboritas do século XV, que eram movimentos cristãos. Esses movimentos se caracterizavam pela idéia de uma reforma total da sociedade para impor o cristianismo tal como eles o entendiam. Tratava-se de certo modo de você apressar o Juízo Final ou aplanar o caminho para o Senhor para apressar a vinda de Cristo, então tinham de montar uma sociedade cristã na qual eles se sentissem à vontade. Quando, na verdade, o próprio Evangelho diz que quando o Cristo voltar, não haverá mais fé no mundo. Haverá ainda fé no mundo quando Cristo voltar? Isso está em algum lugar do evangelho. A vinda do Cristo é causada não pelo império mundial do cristianismo, mas justamente ao contrário pelo reino do Anticristo. Em segundo lugar, o pessoal também confunde a vinda do Cristo com o fim do mundo – que não é a mesma coisa. De qualquer modo, porém, o intuito deles era baseado no que eles haviam lido no evangelho. Esse cidadão chamado John Hus e o pessoal do movimento chamado taborita – porque eles se reuniam num monte que eles chamavam de Tabor, copiando o nome da montanha onde houve a transfiguração do Cristo, onde Cristo apresentou-se aos apóstolos – queriam eliminar o mal no mundo mediante a matança dos maus e instaurar o império dos bons. Isso foi evidentemente a primeira proposta revolucionária. Você não encontrará uma idéia similar em parte alguma da história do Ocidente e nem na história do mundo, pois você não tem um precedente. Eu descobri onde começou essa coisa. Essa coisa começou dentro do cristianismo, com um conteúdo ideológico cristão. Você pode dizer que não era ortodoxo, que era herético etc., [00:10] mas afinal de contas o que caracteriza uma heresia é a sua presunção de representar o verdadeiro cristianismo. Ou seja, uma doutrina não cristã – extra-cristã – não pode ser chamada herética. O marxismo e o positivismo, por exemplo, não são heréticos porque são outras doutrinas estranhas, alheias ou inimigas. A heresia tem de surgir de dentro do cristianismo. O conteúdo desses primeiros movimentos revolucionários é cristão. E se depois vão surgindo novos movimentos revolucionários, cada um com conteúdo ideológico diferente, quer dizer que o conteúdo não interessa. Só interessa o esquema originário. Este é o problema e não o conteúdo das ideologias. Quando você está combatendo o conteúdo das ideologias, aparece outra ideologia revolucionária e outra, podendo até aparecer ideologia revolucionária de tipo liberal. O que está acontecendo na China senão uma espécie de revolução liberal, onde um governo comunista está implantando uma economia liberal na sociedade sem que isto afete o esquema do poder centralizado. Nos anos 1990, os sábios iluminados aqui diziam que o liberalismo na economia ia liberalizar o regime e eu insistia que uma coisa tinha nada a ver com a outra. Um regime político não é determinado pela sua base econômica. Isso é uma coisa fundamental. Este é um ponto onde o marxismo está sempre errado. Aliás, o Ernesto Laclau é que tem razão: o governo comunista se impõe pela propaganda independentemente da estrutura social que tem embaixo. Tanto que governos comunistas se implantaram em países com estrutura social totalmente diferente, como a Rússia, a Hungria, Cuba, países da África etc. Esses países não tinham a mesma estrutura econômica e, no entanto, o marxismo vai lá e toma conta. O que tem a ver a situação de Angola com a situação da China ou de Cuba. São países completamente diferentes, mas o marxismo é o mesmo, a ideologia dominante é a mesma e o método de governar também é o mesmo. Vamos partir dos fatos, isto não é uma doutrina: não há conexão identificável entre estrutura econômica da sociedade e a forma de governo que um grupo iluminado implanta nela. Não quer dizer que não haja relação, mas que não há conexão causal identificável. Isto quer dizer que o cristão que tenta diagnosticar a situação atual com base apenas na idéia do humanismo ateu, ele está se esquecendo de que a coisa começa não fora e contra o cristianismo, mas de dentro do cristianismo. Portanto, deve haver algum ponto em que o próprio cristianismo – que é por sua própria natureza vulnerável a essas coisas. O ponto em que ele é vulnerável é exatamente a segunda vinda de Cristo. É uma coisa que ninguém sabe e o próprio Cristo disse que não sabe ou pelo menos ele disse que não sabe quando é a data do fim do mundo. Isso quer dizer que todo o universo cristão se funda num ponto que nós ignoramos e sobre o qual não temos nenhum controle. Onde quer que a situação social, econômica, moral, etc., se torna opressiva ao nível do insuportável, então as pessoas ficam querendo o fim do mundo ou a segunda vinda do Cristo já. Essa é a tentação permanente. O movimento revolucionário surge no século XV, mas a idéia de que a vinda do Cristo é para o dia seguinte surgiu no dia seguinte da morte de Cristo. Na primeira geração de cristãos tinha uma enorme discussão sobre isso. O próprio São Paulo Apóstolo não sabe o que pensar a esse respeito. Ele não está entre os que esperam a vinda do Cristo no dia seguinte e também não contesta isto francamente. Havia um imenso ponto de interrogação que está aí presente ainda. Este é o ponto fraco do cristianismo. O Cristo prometeu que vai voltar, mas não disse quando. Por mais cristão que você seja, esta é uma situação difícil de aguentar porque ela tira de nós imediatamente toda esperança de um melhoramento das coisas neste mundo. Na verdade, não é possível você ser cristão e ter alguma esperança nesse melhoramento. A idéia de um mundo melhor é então uma das idéias mais anticristãs do mundo. Se você é um cristão você tem de entender que o mundo nunca vai melhorar. Você conserta uma coisa aqui e arruma outro problema lá, é sempre assim. Por exemplo, o pessoal fala do progresso da medicina, sim, mas os progressos da medicina são concomitantes ao aumento do número de androgenia. Nos Estados Unidos são um milhão por ano. Nenhuma doença mata tanto quanto a medicina. O que não quer dizer que ela não mata todo mundo e que ela não seja boa para aquelas pessoas que escaparam da morte na mão de um médico. Isto quer dizer que a estrutura deste mundo não admite um melhoramento substantivo, admite melhoramentos adjetivos. Você tem esse exemplo historicamente e na vida pessoal. Quando por exemplo a sua situação econômica melhora, você se torna mais feliz por causa disso? Não necessariamente. A minha situação econômica já piorou e já melhorou muitas vezes. Eu não vejo como o meu nível de felicidade geral dependa disso. Eu até contei no facebook que uma das fases mais felizes da minha vida foi quando morava eu e meu amigo Otto. Eram três casais num quitinete em São Paulo com dois bebês. Todo mundo diria que é o inferno. Mas a gente ria o dia inteiro. Eu tenho saudade daquele tempo. Isso pode acontecer para qualquer um. Isso quer dizer que a expectativa de um mundo melhor, de uma sociedade mais justa etc., são idéias autocontraditórias, elas nunca vão dar em nada. Quem tem insistido muito nisso é o Jean Brun (que lemos alguns textos dele aqui e era um protestante): a esperança mundana é o contrário do Cristo. Ele diz que isso aqui vai acabar, haverá o Juízo Final e Eu criarei um novo céu e uma nova terra. Se você quiser felicidade terrestre você vai ter só na outra. Não é necessariamente no céu, não foi isso que Ele disse. Ele disse um novo céu e uma nova terra. Portanto, como diz um grande estudioso do evangelho, Gilles Quispel,1 que é suíço, ao fazer uma exegese do evangelho – o Cristo está falando da terra. Ele pode ter razão, não sei, não sou especialista no assunto. Você quer felicidade terrestre? Bem, na outra terra você pode ter. É a Ressurreição da Carne. Se for a ressurreição da carne tem de ser numa terra. O que a carne vai fazer no céu? Então tem de ser numa terra. Qualquer que seja o conteúdo da nossa esperança apocalíptica, ela é a única que realmente existe. O resto você não verá um único progresso, seja nas leis, na tecnologia, nas ciências, seja da política, que não traga malefícios talvez maiores do que você tinha antes. Quando vemos, por exemplo, o progresso do morticínio. Ele é uma das características mais notáveis no mundo moderno a partir do século XVIII. Cada vez que você tem um governo tirânico, ele mata mais gente que o anterior. Isso não é proporcional ao crescimento da população. A Revolução Francesa matou 200 mil pessoas. Quando chega a Guerra Civil Americana, mata 5 milhões. Na Primeira Guerra Mundial são 20 milhões. E em tempo de paz o Regime Soviético mata 20 milhões na sua primeira fase e não sei quantos na segunda. O Regime Chinês mata 70 milhões. A coisa vai crescendo. A população não cresceu na proporção de 500 mil para 70 milhões em dois séculos, se você comparar a Revolução Francesa e a Revolução Chinesa. Estou só mencionando a Revolução Chinesa, o resto não. Não estou contando Nazismo, nem União Soviética e os países satélites. Aquela estimativa do livro negro do comunismo já está superada hoje. Nesse ínterim, o R.J Rummel reavaliou os cálculos da Revolução Chinesa que na época se dizia 45 milhões de pessoas, ele disse que é pelo menos 70 milhões. A estatística do Livro Negro do Comunismo foi muito otimista. [0:20] Então, como é que nós vamos encarar a História, como dizia Benedito Crocce, como História da Liberdade, se cada época que passa você vê novos meios de controlar a população, de um governo totalitário controlar a população, chegando hoje em dia à possibilidade da penetração total nas vidas privadas? Nós podemos estar falando aqui e ter um camarada do FBI a 200m ouvindo tudo o que nós estamos falando. E vocês viram o negócio do NSA, da Agência de Segurança Nacional aqui, que grava todos os telefonemas. Se você contasse isso para o Mao Tsé Tung... Ele nunca pensou numa coisas dessas. Mao Tsé-Tung nunca pensou em gravar todos os telefonemas. Sempre houve um resíduo de vida privada que era inacessível ao governante. Mesmo em alguns dos regimes mais autoritários do mundo, por exemplo no Islã, em que há um uma polícia do pensamento, uma polícia ideológica ( por exemplo, se você pregar o cristianismo em público pode ser condenado à morte), ainda existe a reserva da vida privada. É proibido, seja à autoridade, seja ao cidadão, espionar a vida privada de quem quer que seja. Tem até uma história famosa do Califa Omar, que era um genro de Maomé: ele ouviu um barulho numa casa, espiou pela janela e estava havendo a maior suruba, sexo grupal... E ele então invadiu a casa e quis prender todo mundo, mas os caras falaram: “Não, nós é que vamos prender você porque nos espionou”. Aí ele falou: “Ih, é mesmo!”, pediu desculpas e foi embora. E isso é clássico no Islã. Ninguém tem nada a ver com o que se passa na vida privada. Também há as leis severas contra o adultério, mas para prová-lo é preciso de quatro testemunhas que tenham visto a “início pênis”. Se os dois estavam apenas pelados e se perguntar : “Mas você viu o pênis sendo inserido?”; e for respondido: “Não, não vi”, então não tem adultério. Então você vê até que ponto chega a reserva da vida privada numa das sociedades mais autoritárias e controladoras que já existiram no mundo. Até hoje, por exemplo, no Irã, se você pregar o cristianismo em público você é condenado à morte, mas dentro da sua casa ninguém pode espionar. Mas hoje isso já está sendo violado abertamente, não num regime oficialmente tirânico, mas na América! O que propicia isso? É o progresso das ciências, das tecnologias e, sobretudo, das ciências sociais. Os meios de controle não são levados em conta quando o pessoal pensa assim: “estamos caminhando para mais liberdade ou mais”, como diz a dona Chauí. Ela está pensando só nas leis. Quer dizer, as leis consagram novos direitos, então há mais liberdade para todo o mundo na cabeça dela. Acontece que o mundo não é composto só de leis. O mundo é composto de ações reais que usam instrumentos reais. Esses instrumentos são criados pela tecnologia. Os meios de controle não são determinados pela lei, mas pela tecnologia. Tanto a tecnologia material – equipamentos – quanto a tecnologia social, com todos os meios que você tem hoje de controle mental, engenharia comportamental, etc., o governante tem um leque de instrumentos à sua disposição para ele oprimir quem quer que seja e pior: oprime e proíbe de divulgar que as pessoas estão sendo oprimidas; controla o fato e controla a divulgação do fato. A questão dos documentos do Barack Obama... Como é que conseguem ocultar essa coisa na mídia? Agora já são seis ou sete anos. No caso do Brasil, o “Foro de São Paulo” foi ocultado durante dezesseis anos... Então você tem meios de controle hoje que os tiranos da antiguidade, do Antigo Regime, não podiam imaginar; iriam achar que você está louco: Luis XIV, Átila, o huno, Gengis Khan, Júlio César... nenhum deles pensou em ter esse nível de poder que hoje qualquer governo tem, mesmo os ditos democráticos. E se forem levados em conta então os efeitos deletérios de outras tecnologias, então a coisa não termina mais... Seja pelo lado tecnológico, seja pelo lado legal, todos os aparentes progressos da liberdade são pagos com o aumento do controle tirânico. Isso é assim mesmo! Assim como os avanços da medicina são pagos com o aumento de mortes por iatrogênia. Portanto, não podemos dizer de maneira alguma que o quociente de felicidade humana aumentou ou diminuiu em parte alguma. Quando você vê às vezes essas pesquisas de onde as pessoas se consideram mais felizes (mais felizes de acordo com pautas padronizadas), percebe-se que não há coincidência necessariamente com as nações mais ricas, nem com as mais avançadas tecnologicamente. Tudo isso é um julgamento inteiramente objetivo e a experiência de dois ou três séculos de Modernidade já nos ensina isso claramente. Não há um mundo melhor. Um outro mundo é possível, mas certamente é pior do que este. Por outro lado, o fato é que existe a moral cristã e as pessoas se sentem muito mal por ter de seguir a moral cristã onde os outros não estão seguindo. Então, das duas uma: ou elas desistem da moral cristã ou elas querem impô-la a todo o mundo. Daí vem a ideia da sociedade cristã. Porém eu não encontro em parte alguma, seja no Evangelho, seja na Doutrina dos primeiros Padres, um item que diga que nós temos de construir uma sociedade cristã. Ao contrário: você vê que a Igreja, desde que ela existe, adaptou-se às situações sociais e políticas mais diversas. Desde a França até o Japão, do Japão até o Uruguai, do Uruguai até a Amazônia e assim por diante. A Igreja existe em todos esses lugares, o que é sinal de que ela não tem um tipo de sociedade própria que ela deva implantar, ao contrário do Islã, porque o Islã não é uma mensagem de salvação, é um código civil que já vem com todas as regras que a sociedade deve seguir: no casamento, no comércio, no trato com os vizinhos, propriedade etc. Isso quer dizer que onde vai o Islã ele tem de islamizar a sociedade, porque ele é incompatível com outro tipo de sociedade. Tem até um versículo que era citado por Said Kutub, o grande teórico da Revolução Islâmica, que ele vivia lembrando, o qual dizia: “Tirano é aquele que permite o que Deus proíbe ou proíbe o que Deus permite”. Logo, a conclusão que ele mesmo tirava e que, de certo modo, é inevitável: todo o país que é regido por uma lei não islâmica é uma tirania. Então, qual é a obrigação do muçulmano? Virar a sociedade de cabeça para baixo e implantar o Islã. Então, a obrigação de implantar uma sociedade islâmica é inerente ao Islã. Onde tiver um muçulmano, ou ele está lutando para isso, ou ele está esperando uma oportunidade para fazer isso, ou ele está acomodado e os outros irão acusá-lo de omissão. Mas o cristianismo não é isso. Se você é um missionário cristão, você vai para a África, para o Uruguai, para a China, para qualquer lugar do mundo, qual é a sua obrigação? Ensinar o cristianismo para a salvação das almas das pessoas e ponto final. Você não tem nenhuma obrigação de mudar a sociedade. Claro que podem surgir conflitos entre o ensinamento cristão e a sociedade existente, mas esse é um problema que cada um vai ter que resolver de algum modo. A ideia da sociedade cristã aparece mais claramente em duas ocasiões. Primeiro, ela surge no séc. IV quando o Imperador Constantino transforma o cristianismo na religião oficial do Império. Notem bem, isso não foi uma ideia que os cristãos tiveram (“vamos construir um Império Cristão”). Não foi assim! Eles não estavam nem pensando nisso quando chega o imperador e entrega o Império na mão deles (“agora nós vamos ter que administrar essa porcaria”). Mesmo assim, desde o primeiro instante houve conflito entre a Igreja e as autoridades civis. Nos primeiros tempos a força ativa do negócio era mais a autoridade civil, os senhores feudais. O que acontecia? O senhor feudal mandava construir uma igreja, dava dinheiro para construí-la, então dizia: “Eu sou o dono da igreja, eu determino quem é o padre, quando tem missa... Eu determino tudo!”. Nessa época, a Igreja, o Papado, não tinha força para controlar isso; então cada um tinha a sua igreja à sua maneira. Se por caso o Papa mandasse um Bispo para lá [0:30] ou mandavam o cara de volta ou o matavam no caminho. O Papa não tinha controle nenhum. Então, a oficialização a Igreja, num primeiro momento, foi motivo de enfraquecimento e não de fortalecimento da Igreja. E esse conflito dura muitos e muitos anos. Isso quer dizer que não foi uma sociedade cristã que eles criaram. O fato é: todas as pessoas eram cristãs, eram católicas de algum modo, porque nem havia outra religião disponível. Eles nem imaginavam uma coisa dessas. Porém, o modo como cada um entendia a coisa era completamente aleatório. Nós podemos dizer que o Papado só teve algum controle de o que os padres estavam ensinando a partir do Concílio de Trento, que foi muito mais tarde, mil anos mais tarde. Até lá era mesmo uma bagunça. E a tendência geral era um fenômeno que os historiadores chamaram de patrimonialização da Igreja. A igreja era uma propriedade privada de quem a construiu e o que se passava ali dentro também era determinado por ele. Então, vocês vejam que não era uma sociedade uniforme montada de acordo com a Doutrina da Igreja. Não era nada disso. Isso é uma coisa que acho que foi criada por Hollywood. A ideia de que o Papa controlava toda a Europa... Mas como que ele controlava? Ele não tinha rádio, não tinha telefone... Uma ordem que ele mandava levava meses para chegar; você mandava e nem sabia se o destinatário estava vivo ainda. Ninguém podia controlar a Europa. Aliás, a gente chama de feudalismo justamente por causa disso. O próprio Império Romano mantinha um domínio precário do seu território. O número imenso de guerras e de rebeliões que houve já é prova disso. É uma coisa que dava um trabalho medonho para manter e era mantido na base da força militar. E frequentemente o exército romano era derrotado e voltava para casa. Imagine-se como seria a coisa quando você já não tinha mais esta unidade imperial, na época em que os senadores, os homens importantes de Roma, tinham se retirado cada um para a sua terra e criado ali uma força independente, um exército pessoal. Esses vários exércitos pessoais prestavam da boca para fora uma homenagem ao rei que era considerado o primus inter pares, aquele que, dos vários senhores feudais, era considerado o mais importante. Mas isso não quer dizer que o obedeciam. Ainda no tempo de Luis XIV, quando já havia um Estado central bem montado, uma administração, para formar um exército nacional Luis XIV teve de ir de cidade em cidade pedindo pelo amor de Deus para os caras se alistarem. Ele conseguiu formar um exército de 114.000 homens, que na época era o maior de Europa. Esse número hoje não é nada! Vocês vejam o número de pessoas que entraram 1º Guerra, na 2º Guerra... Isso para vocês verem que o poder central, ainda na época em que o Estado Moderno já estava constituído, era uma coisa muito frágil. Como seria no tempo do feudalismo, propriamente falando? Por exemplo, no tempo das Cruzadas, como fizeram? São Bernardo e outros foram de cidade em cidade pedindo para os senhores feudais cederem uma parte de seus soldados. Agora você imagina que sou eu o comandante da 1º Expedição das Cruzadas... Chega uma tropa daqui, outra tropa dali, outra tropa de lá, sem nenhuma disciplina em comum, cada uma com uma mentalidade diferente, sem ninguém querer obedecer o outro. É um caos total! Se nem o poder armado tinha poder da situação, quanto mais a Igreja. Então, a primeira ideia de uma sociedade cristã foi a seguinte: uma sociedade em que a maioria das pessoas são cristãs. Tinha lá uma quantidade de judeus, uma quantidade de muçulmanos, mas eram minoria. Agora uma sociedade estruturada de acordo com o cristianismo não chegou a existir nem nessa época em que praticamente não havia concorrência ao cristianismo. A ideia da sociedade cristã começa a se desenhar mais claramente somente no séc. XIX apenas. Com vários doutrinários baseados em parte na teoria social da Igreja. Então aparecem vários doutrinários, o mais importante talvez seja o Padre Patrice de La Tour du Pin que forma essa ideia. Ideia que reaparecerá depois, um pouco, na democracia cristã italiana e em outros partidos. Mas, ao longo da história da Igreja a sociedade cristã é considerada algo quase utópico. Não vai dar tempo! Tem de ser salvas as almas que estão aqui e a sociedade fica para depois. Mas, sempre permanece o drama constante de você ter que levar uma vida cristã num mundo não cristão e sofrer perseguição. Mesmo quando você está numa situação muito boa, quando você é apadrinhado do imperador, ainda assim você não tem o controle da sociedade. De qualquer modo, quando surgem as revoluções que deram origem à Reforma é esta a ideia: temos de cristianizar a sociedade a ferro e fogo. E notem: cristianizar a sociedade não é só converter as pessoas; é fazer leis que obedeçam preceitos cristãos, é fazer um Estado que se inspire na Bíblia e assim por diante. Essas rebeliões culminaram na Reforma Protestante. A Reforma de Lutero não foi propriamente um movimento revolucionário, foi uma tendência de estabilizar as conquistas obtidas pelos revolucionários até então e botar ordem no coreto. Portanto, sob certos aspectos, foi até um movimento moderador. Tanto é que os mais radicais, os que queriam continuar nas linhas revolucionárias de antes, Lutero mandou matar todos (“Essa gente só cria problemas”), tentando estabilizar a coisa. Porém, na Suiça João Calvino cria ali realmente uma sociedade cristã e foi o primeiro governo totalitário do Ocidente, se a gente entende que o governo totalitário se distingue de um governo autoritário porque ele pretende controlar todos os aspectos da vida social e privada. E Calvino de fato tinha uma polícia que investigava a vida privada das pessoas, as conversas... Se descobria que alguém tinha uma amante mandava os amantes para cadeia, então, como continuador do movimento revolucionário ele cria uma sociedade totalitária. Então, o modelo da mentalidade revolucionária e da sociedade totalitária que decorre dela necessariamente foi criada por cristãos dentro do cristianismo. Então, como vamos lançar a culpa no humanismo ateu se fomos nós que começamos essa porcaria? É aquele negócio do i-ching que você tem de corrigir primeiro a sua própria cidade... Se nós que somos cristãos não fazemos uma severo exame de consciência para ver como nós conseguimos nos infectar de mentalidade revolucionária , o que nos induziu a isso, e não corrigimos isso pela base, não adianta querer corrigir os vários movimentos revolucionários, não pelo que eles têm de essencial, que é essa fórmula, essa lógica do poder regenerador que está presente em todas elas, mas sim pelo que elas têm de acidental e diferencial. Isso aí é realmente você querer matar baratas jogando uma naftalina na cabeça de cada uma. Você vai combater o gayzismo, o estatismo, os impostos altos, o feminismo, o abortismo... não dá! O problema não é abortismo, nem marxismo, nem humanismo ateu, o problema se chama mentalidade revolucionária. E é importante reiterar mil vezes que o movimento revolucionário não é inerente à espécie humana. Ele é um fenômeno local que acontece dentro do Ocidente Cristão e só ali. É claro que depois ele espalha para outros lugares, tanto é que teve revolução na China, na África, etc., mas ele é um produto originário do Ocidente cristão e causado por uma dificuldade estrutural do cristianismo que é: estamos no mundo, mas não somos do mundo. O estar no mundo pode se tornar tão complicado, dificultoso, doloroso, [00:40] que você tem a tentação de dar um jeito no mundo. Claro que alguma coisa de bom tem na sociedade humana e nós podemos fazer, mas os limites reais da ação humana são muito estreitos, e por mais que você tente melhorar as coisas, elas pioram. E este é o nosso destino, as pessoas têm de entender isto: nosso negócio aqui é carregar a nossa cruz. Nós não vamos obter resultados, não vamos melhorar as coisas; vamos resolver problemas pequenos. Por exemplo, outro dia estava lendo um livro, The Pink Pagoda: One Man's Quest to End Gendercide in China, de um médico americano, doutor James Garrow, que está na China e descobriu aquele velho hábito chinês de matar as meninas. Os chineses não querem ter meninas, porque menina é fonte de procriação, e se tiver menina ela vai ficar grávida. Então, tem esse velho costume para qual o governo faz vista grossa: eu espero a menina nascer e jogo para o porco comer, e depois eles comem os porcos. E o cara ficou impressionadíssimo com isso, e soube do caso de uma menina que ia ser morta e salvou aquela menina. Depois, salvou outra e mais outra, e no fim salvou algumas milhares de crianças; ele trazia todas aqui para a América. O que aconteceu? As Nações Unidas o acusaram de tráfico ilegal de pessoas. O sujeito resolveu um problema, mas imediatamente ele sofreu outro problema. E a vida é assim: você cura de uma coisa, cria outra doença; você resolve um problema, vem outro. E isto é que se chama carregar a nossa cruz: isso aqui não é o paraíso e não será jamais. E, não obstante, o dever de amar o próximo e de ajudar quando possível continua vigorando. Às vezes, você ajuda o próximo e a situação dele piora. Isso nunca lhe aconteceu? E daí? Você fez aquela coisa certa. Fazer o certo sem a esperança de que dê certo: ser cristão é isto. E isto é uma dificuldade permanente; nós todos temos uma vida capenga. E pessoas um pouco mais impacientes sempre podem se revoltar contra isso e querer dar uma solução final. Eu usei esta expressão, “a solução final”, de propósito porque era isto que Hitler entendia. Ele achava que para ter um mundo melhor era preciso matar todos os judeus; os caras do século XV achavam que era matar todos os católicos. É sempre assim: você vai ter soluções radicais que implicam matar um montão de gente. E depois de matar um montão de gente, você tem de matar mais ainda; ou seja, não pára nunca mais. O que é necessário fazer é espalhar entre todos esses cristãos conservadores – que estão preocupados com a descristianização do mundo, com a criação da sociedade pós-cristã ou “cultura da morte”, como eles dizem – [o seguinte]: “Fomos nós que inventamos toda esta coisa. A culpa é nossa.” E se nós ensinamos os caras essa coisa errada, nós podemos voltar a ensinar a certa, mas tem de extirpar a mentalidade revolucionária na sua base. E a sua base é o problema do Juízo Final e do Segundo Reino de Cristo. Note bem que na Bíblia, no Evangelho, você não vê ninguém dizendo que o mundo será descristianizado porque os anti-cristãos vão nos atacar. Não, as pessoas vão perder a fé, Evangelho de Lucas, capítulo 18 [NT: provavelmente, versículo 18: “Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” Ferreira de Almeida, Corrigida e Fiel]. É a coisa que vem de dentro! Eu não estou fazendo aqui mea-culpa, não é assim, não é dramatizar a coisa. Depois de 40 anos de experiência, aprendi uma coisa: que você se arrepender perante Deus não é a mesma coisa de se arrepender perante pessoas. Perante pessoas você vai fazer uma choradeira, dizendo que não presta; mas você pode fazer isso perante Deus, não pode se acusar perante Deus. O arrependimento perante Deus é uma coisa muito mais serena, intelectualmente muito mais séria do que este drama. Você não está falando com seu acusador; isto é importante: Deus nunca acusa ninguém. O acusador é o capeta, e não é perante ele que você está se defendendo. E se você faz todo esse drama, você está falando com o acusador. Isto aí, evidentemente, não funciona. Você se dirige a Deus para que Ele te salve, e note bem: sem a esperança de que você vá fazer um bem capaz de neutralizar um mal, você nunca vai fazer isso. Vamos supor que você tenha assassinado uma pessoa: faça o que fizer, ela não vai voltar à vida. E de qualquer maneira, o passado sempre foi: se você ofendeu gravemente uma pessoa, e a pessoa ficou triste durante dois anos, você não vai dar dois anos de felicidade para ela, vai? E assim por diante. Nós não conseguimos reparar o mal que fazemos, e justamente para isso é que entra Deus: porque é Ele que preenche a coisa, e Ele pode fazer isso e nós não podemos fazer. E é isto que nós vamos pedir. Restaurar esse senso de que a nossa vida é capenga, de que nós vivemos aqui realmente como um amuleto o tempo todo, e nunca vamos parar de mancar. No simbolismo astrológico, até tem uma imagem eloquente, que é a divindade Saturno, o Senhor do Tempo, ele determina os acontecimentos da ordem temporal; e é, na verdade, uma muleta: o tempo em sim mesmo é capenga. Existem muitas outras imagens mitológicas que mostram a mesma coisa. Então, o que temos de estudar é a origem da mentalidade revolucionária de dentro do próprio cristianismo, que não afetou, evidentemente, só os protestantes: afeta os católicos também. O que queriam fazer os jesuítas na América Latina com os índios? Uma sociedade perfeita. Só que eles não tinham uma sociedade anterior para derrubar. Então, eles vinham, convertiam os índios muito facilmente e os disciplinavam. Só que era uma situação na qual os índios eram como se fossem menores de idade e em cima tinha o gênio iluminado jesuíta que determinava tudo. Veja que naquele filme, A Missão, os jesuítas são mostrados de maneira muito favorável. E decerto eles fizeram coisas muito boas – e coisas muito boas pelos índios –, mas era uma sociedade onde não é que não tivesse liberdade, mas que não era concebível o elemento liberdade. Era como a liberdade de crianças, uma sociedade totalmente administrada, como hoje se quer fazer de novo por meios científicos. Este era o sonho de Auguste Comte: a sociedade onde a política se torna científica. Comte dizia o seguinte: “não existe liberdade de pensamento na matemática, ou na astronomia, porque todo mundo sabe a verdade e tem de aceitar. Então, a política só será uma coisa boa quando vigorar nela o mesmo preceito científico.” Esta é a tendência atual de criar a administração científica, que controla perfeitamente a conduta das pessoas, de modo que a liberdade de opinião se torna irrelevante, na melhor das hipóteses. E é isto que nós estamos vivendo. Mas qual é a origem disto? É o humanismo ateu, o marxismo, o anarquismo, o fascismo, o nazismo? Não é nada disso, é a mentalidade revolucionária, que infecta pessoas das mais variadas correntes ideológicas e infecta a nós mesmos. Por exemplo, diante de uma situação atual, muita gente acredita que precisa fazer uma revolução cristã conservadora e implantar uma sociedade cristã. Então você está querendo ir para mais uma revolução? Note bem, a própria política, tal como nós a conhecemos hoje em dia, é uma coisa que ao longo da história humana não existiu; quer dizer, a disputa de poder entre todo mundo. Você pega a população europeia e quase a totalidade dela não tinha a menor ideia de quem estava disputando o poder. Tinha lá uma disputa dinástica, que os caras resolviam entre si, um matava o outro e levava vinte anos para a população ser informada de quem agora era o rei. A própria ideia de que a política é uma coisa de que todo mundo tem de participar é uma ideia moderna, e que muitas civilizações viveram perfeitamente bem sem isso durante milênios. Esta participação é incentivada cada vez mais: [0:50] a faixa de pessoas que se acredita habilitada a opinar em política é um negócio inabarcável. E, curiosamente, isto torna mais fácil controlá-las, por que elas têm mais acessos aos meios de comunicação, às universidades, e esses são instrumentos de controle social absurdamente maravilhosos. Quer dizer que quanto mais as pessoas estão exercendo a sua liberdade de opinião, menos elas têm efetiva liberdade de pensamento; e este é também outro problema sem solução. Todas as pessoas que necessitem de uma esperança mundana – esperança de um outro mundo possível – já estão fora do cristianismo e estão contribuindo para piorar o negócio ainda. O que nós temos de fazer é espalhar entre as pessoas a prudência e a sabedoria, e isto implica abdicar da mentalidade revolucionária. Aluno: Será possível elaborar uma lista dos seus filmes prediletos, ou os que considera mais importantes? Olavo: Eu já fiz isso, e se você procurar no fórum do Seminário de Filosofia, vai encontrar. Aluno: Gostaria, se possível, que o senhor comentasse o livro A Montanha Mágica, de Thomas Mann, 1984, de George Orwell, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Olavo: Eu posso fazer isso, e talvez até seja conveniente fazer como uma espécie de continuação daquele curso de educação liberal que eu dei no Paraná, mas eu não sei se haverá oportunidade para isto neste curso, porque eu precisaria encaixar isto dentro de uma das várias linhas de interesse que a gente tem seguido. Eu não sei se vocês repararam, mas eu exploro uma dessas linhas durante um tempo, depois mudo para outra, depois volto, de modo a sugerir, não uma unidade doutrinal, mas uma espécie de unidade, por assim dizer, imaginativa, que está no fundo de toda a filosofia. Mas pegar assuntos avulsos é meio difícil, só se eu conseguir encaixar aqui. Se conseguir, eu farei isso. Obrigado pela sugestão, de qualquer maneira. Aluno: Em uma discussão recente no Facebook, o senhor afirmou que o ecumenismo é fortemente influenciado pela ideia transcendente das religiões. Como se estabelece uma relação entre uma coisa e outra? Olavo: Aconteceu que a obra do René Guénon, que começa ser publicada na década de 20, teve uma influência absolutamente assombrosa, devastadora, em todos os meios intelectuais da França, e, sobretudo, nos meios católicos. É uma coisa que passou um pouco despercebida, porque cada indivíduo era influenciado profundamente por René Guénon, mas não se falava disso em público. Eu vou mostrar aqui uma coisa para vocês. Este é um livro de um estudioso chamado Xavier Accart, que é sobre a influência de René Guénon só na França, Guénon ou le renversement des clartés. Influence d'un métaphysicien sur la vie littéraire et intellectuelle française (1920-1970). Todos os autores que o leram foram profundamente influenciados por ele. Olha o tamanho do livro (NT: 1222 páginas, segundo a Amazon)! Não escapa nenhum. Então você pode dizer que Guénon foi, de longe, o pensamento mais influente da França, mas não é uma coisa, assim, publicamente reconhecida. E nos meios católicos a influência dele foi profundíssima, sobretudo por causa de um debate que ele teve com o cardeal Jean Daniélou – há, inclusive, uma tradução brasileira, Sobre o Mistério da História, que tem uma parte sobre essa discussão. Note que o Papa Bento XVI, nos tempos em que era cardeal, creditava ao Jean Daniélou e ao René Guénon o mérito de haverem transformado os estudos de simbolismo em uma área de estudos científicos, tinham feito um upgrade – e fizeram mesmo. Como é que uma coisa dessas poderia deixar de influenciar o pensamento católico e as altas esferas do Vaticano? É absolutamente impossível. Então você vê que um certo impacto desta idéia fundamental da unidade transcendente das religiões não poderia ter escapado de jeito nenhum. E acontece que este impacto é fonte de muitas confusões, por que esta teoria só afirma que todas as grandes religiões têm uma metafísica em comum, um conceito, uma noção mais ou menos idêntica da estrutura geral da realidade. E isto é verdade, esta teoria é 100% certa. Os que tiverem a dúvida, peguem o livro do Whitall N. Perry, A Treasury of Traditional Wisdom, que pega texto por texto das grandes religiões e vai comparando. E você vê que, de fato, a coisa é muito similar. Agora, se você considerar as religiões sobre o ponto de vista da salvação, a coisa muda completamente de figura, porque a salvação não depende da religião, mas de uma iniciativa divina, portanto, de uma ação divina. E tudo que as doutrinas religiosas podem dizer é o que nós sabemos a respeito; mesmo naquelas partes que são divinamente inspiradas, elas continuam tendo essa limitação: Deus sabe muito mais coisas além do que Ele disse. E o que vai funcionar na hora H é a ação divina sobre a qual nós não temos nenhum controle. Nós sabemos, em princípio, que essa ação não será contraditória com a doutrina da Igreja, mas não ser contraditório é muito pouco, na verdade. Diante dessa realidade avassaladora, dessa comunidade de visões metafísicas, é natural que a presunção de exclusividade, ou superioridade, da igreja católica, se tornasse, de repente, vítima de uma certa timidez. Eles foram obrigados, de algum modo, a reconhecer o valor espiritual cognitivo dessas outras religiões, e isto é suficiente para sugerir a necessidade de um diálogo. Porém, passado mais de meio século disso, hoje não é difícil entender que o problema da presença da ação divina não aparece nas outras religiões, como aparece no cristianismo: sob a forma dos milagres, que são intervenções no mundo físico. E isto é muito importante, você não vai ver fenômeno similar em parte alguma: não tem um Padre Pio no budismo, no hinduísmo, no Islã, isto não tem realmente. E isto é uma coisa que transcende a esfera doutrinal: já não estamos falando de doutrina, de coisas que nós pensamos ou acreditamos; não estamos falando do conteúdo da nossa crença, estamos falando de fato que aconteceram. E que, evidentemente, a realidade transcende tudo o que nós pensamos. Assim, acho que essa diferença específica não tem sido enfatizada, tanto que você pode ir em quantas missas queira, que não vai ver um padre falando de milagre, [isso] desapareceu. Se desaparece isso, desaparece o cristianismo inteiro, porque o cristianismo não aparece como uma doutrina, aparece como uma sucessão de milagres: o nascimento virginal, a ressurreição, as curas todas etc. E esses fenômenos continuam acontecendo ao longo da história; acontecem, às vezes, diante dos nossos olhos. E está é a nossa diferença específica do cristianismo: não uma diferença doutrinal; a doutrina reflete esses fatos, mas ela não é esses fatos. Isto é importante, ela não tem o alcance desses fatos. Mesmo que você conheça a doutrina inteira, isto ainda é um conhecimento seu, não é a ação divina – claro que existe a ação do Espírito Santo que está te esclarecendo etc., mas essas ação divina mais ostensiva, quase brutal, é a diferença específica. Não sei se me expliquei aqui. Olavo: Um aluno me pergunta sobre alguns personagens brasileiros. Eu não vou responder por que não acho justo ficar julgando e analisando pessoas. Se falar de tais obras, tais ideias que o sujeito defendeu, é possível. Aluno: Na descrição da revolução messiânica da peça Henrique VI, de Shakespeare, pode-se ver o germe de muitas ideias que os revolucionários sustentam ainda hoje. Olavo: Uma descrição maravilhosa do espírito revolucionário está no livro do Richard Hooker, que era um teólogo da Igreja Anglicana, no qual ele analisa a mente dos revolucionários puritanos na Inglaterra. [E] os puritanos eram realmente revolucionários. Aconteceu que – essa explicação eu dei ontem para os meninos na casa da Margarita [professora Margarita Noyes], mas não mencionei aqui. Por um lado, os puritanos eram revolucionários no sentido estrito – como os seus antecessores Taboritas etc. –, por outro lado, é fato que eles construíram aqui na América uma sociedade onde havia muito mais liberdade, não construíram uma sociedade totalitária. Por que isso aconteceu? O motivo é muito simples: eles se deram mal na Inglaterra, perderam a guerra contra o governo inglês e tiveram de fugir. Eles fugiram, atravessaram o oceano, encontraram aqui um território livre onde não havia sociedade nenhuma para ser derrubada. Então, o espírito revolucionário foi imediatamente substituído por um espírito construtivo: “vamos fazer alguma coisa.” Mais ainda, como havia muitas divergências teológicas entre eles, entre as várias comunidades, a solução que encontravam foi a seguinte: ou nós vamos entrar em guerra ou nós vamos embora daqui. Quer dizer, se você diverge de uma comunidade, você vai para outro lugar, o território está vazio, e cria outra comunidade. Assim, eles foram criando essas comunidades independentes sem ter de resolver as suas divergências teológicas; ao contrário, deixaram para depois. E daí surge a ideia de um Estado que não interfere na religião. A ideia americana da liberdade religiosa é a seguinte: o Estado não toma o partido de nenhuma das religiões existentes, ele as deixa discutirem entre elas. O Estado não tem opiniões a respeito – hoje em dia já começa a ter, essa é que é a verdade. Como é que os revolucionários criaram uma sociedade libertária? Não foi por uma decisão doutrinal deles, foi por uma situação de fato, que: 1º) abolia imediatamente a necessidade de um espírito revolucionário porque não havia uma sociedade para ser derrubada, e 2º) na hora de você construir uma nova sociedade, das duas uma: ou já ia começar fazendo uma guerra de religião desde o primeiro dia, ou ia adotar o expediente clássico americano, que é de explorar o território e abrir novas possibilidades em outras comunidades. Uma, que isto foi a raiz, não só da expansão americana, mas foi a raiz do estado teologicamente neutro criado aqui. Quando chega a Guerra Civil, a coisa começa a mudar de novo, no sentido oposto; e por quê? Porque a Guerra Civil foi empreendida por um Estado que se achava o guia, o líder moral da comunidade; e daí já começa a haver elementos totalitários já dentro do governo Lincoln. Não se pode esquecer, por exemplo, o fato que o líder da Confederação, Jefferson Davis, ficou preso até morrer, já velho e doente, sem processo, sem nada. Como é que isso aconteceu na democracia americana? Aconteceu porque era a ideia do Lincoln: ele era um líder revolucionário, estava infectado de mentalidade revolucionária, absorvida de autores alemães que leu. Lincoln tinha a ideia de criar uma sociedade autárquica, uma sociedade que produz tudo que ela necessita e que não precisa do exterior; ele acreditava nisto, não conseguiu realizar, mas acreditava nisto. E com o abolicionismo, Lincoln se torna o líder moral e investe o governo no papel de guia moral da comunidade inteira: o Estado passa a representar o bem contra o mal. Isso aí já era, de um certo modo, profundamente hostil ao espírito dos Pais Fundadores. Não que o Lincoln não tivesse suas razões contra o Sul – tinha! – mas, eu já recomendei aqui para vocês um debate entre dois historiadores, que são também os dois, pastores protestantes, para saber quem tinha razão: o Sul ou o Norte. E você ouve e ouve aquilo e chega sempre à conclusão de que os dois lados tinham razão. Lincoln tinha razão contra a escravatura, evidentemente, mas os outros lados tinham razão na preservação da federação, na independência dos estados, que é uma herança imediata deste espírito comunitário original. Eu vou ter de parar por aqui, porque todos vocês já devem estar com sono, e na próxima aula começaremos mais cedo para dar conta desse horário de verão. Tem aviso? Não tem aviso. Muito obrigado a todos e até semana que vem. Transcrição: Evandro Santos de Albuquerque, Jeferson Leandro Milani e Tamas Souza Revisão: Caio Augusto Limongi Gasparini