Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº nº 208 22 de junho de 2013 Boa noite a todos. Sejam bem-vindos. Vocês estão com uma apostila que passei sobre René Guénon, mas como há muitos pedidos, antes eu vou ler, e comentar minimamente, uma análise que estou fazendo sobre a situação brasileira. Ainda está em elaboração, e só será divulgada nos próximos dias. Primeiro vou ler a análise que estou fazendo da situação brasileira e comentá-la o mais brevemente possível para que possamos passar ao estudo sobre René Guénon. Nossos liberais e conservadores lêem Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek e, vendo que eles tratam o marxismo como uma pseudo-ciência econômica, concluem alegremente que ele não vale nada, não merece maior atenção. Acontece que o marxismo enquanto ciência e técnica da ação revolucionária não depende em nada da “base econômica” que nominalmente o sustenta. (...) Ou seja, estou afirmando aqui taxativamente, baseado em experiência histórica, que não há conexão nenhuma entre a estratégia do movimento comunista e a suposta base econômica da teoria marxista. (...) Essa ciência e essa técnica são de uma exatidão assustadora e não podem ser compreendidas só com a leitura dos “pais fundadores” do movimento ou com a da sua crítica liberal: requer o acompanhamento de toda uma evolução do pensamento estratégico marxista, que começa com Marx e se prolonga até Saul Alinsky e Ernesto Laclau. Este último, invertendo a fórmula clássica das relações entre “infra-estrutura” e “super-estrutura”, propõe abertamente a tese de que a propaganda revolucionária cria livremente a classe da qual em seguida se denominará representante. (...) De acordo com a teoria marxista originária, existe um fator objetivo chamado “interesse de classe”. Quando se forma, um partido comunista se apresenta como o porta-voz do interesse da classe proletária, assim como os partidos burgueses são porta-vozes dos “interesses” dos burgueses, mas Ernesto Laclau diz o contrário. Segundo ele, isso não existe, pois, mediante a propaganda, nós agrupamos pessoas e criamos idealmente uma classe da qual, em seguida, nos denominamos representantes. (...) Maior independência de toda “base econômica” não se poderia conceber. Aqueles que imaginam ter dado cabo do marxismo tão logo refutaram seus princípios econômicos se acreditam muito realistas, porque eles próprios são crentes devotos da “base econômica” do acontecer político, a qual os próprios marxistas já superaram há muito tempo. O marxismo deve ser estudado, em primeiro lugar, como uma “cultura”, no sentido antropológico do termo. Remeto os interessados a três artigos em que resumo o que penso a respeito [“A natureza do marxismo”, “Marxismo esotérico” e “Diferenças específicas”]1. Em segundo lugar, deve ser estudado como ciência e técnica da ação revolucionária, da intervenção ativa da elite revolucionária na sociedade e na história. Essa ciência é tão veraz, e a técnica que nela se arraiga é tão eficiente, que delas resulta este fato, tão fundamental entre todos e tão solenemente ignorado pelos críticos do marxismo: há pelo menos um século e meio o comunismo é o único — repito: o único — movimento político organizado unitariamente em escala mundial e dotado de uma consciência clara da sua continuidade, bem como das suas metamorfoses estratégicas. Todos os seus pretensos adversários e concorrentes são fenômenos locais, inconexos e passageiros, espalhados no tempo e no espaço como grãos de poeira soltos no vento, incapazes não só de fazer face ao rolo compressor do movimento comunista, mas até de enxergá-lo como um todo. Sem nenhuma presunção de expor aqui o fenômeno no seu conjunto, mas raciocinando antes em função exclusiva dos últimos acontecimentos no Brasil, destaco adiante alguns pontos que, se não forem levados em conta, tornarão inviável qualquer tentativa de compreender os lances mais recentes da história continental e nacional. O primeiro desses pontos é o seguinte: nenhuma ação comunista tem jamais — repito: jamais — um objetivo único e linear. Todas as decisões do comando estratégico comunista são sempre de natureza dialética e experimental. De um lado, jogam sempre com uma multiplicidade de forças em conflito, não interferindo jamais no quadro antes de ter uma visão bem clara das contradições em jogo e dos múltiplos sentidos em que elas podem ser trabalhadas. Sob esse aspecto, o pensamento marxista não mudou muito desde o começo. Apenas aprimorou formidavelmente a sua visão das contradições, integrando no seu retrato mental da sociedade inúmeros tipos de conflitos novos que, ou não existiam no tempo de Marx, ou ele não julgou relevantes; por exemplo, o conflito entre os impulsos sexuais e a ordem social, ou entre pais e filhos. De outro lado, a essa visão dialética cada vez mais sutil e aprimorada o marxismo acrescenta o caráter experimental e não dogmático de todas as suas decisões e ações estratégicas. A articulação de dialética e experimentalismo permite que as ações do movimento comunista se beneficiem, [0:10] por um lado, de uma multiplicidade de direções simultâneas que desnorteiam o adversário, e, por outro, de uma capacidade de agir por avanços e recuos mediante contínuas e não raro velocíssimas mudanças de rumo. Quem quer que, ao analisar a recente explosão de protestos, concentre sua atenção nas reivindicações nominais — redução das tarifas de transporte público, “mais educação”, “mais saúde” etc. — para discutir sua justiça e viabilidade já prova, só nisso, sua total incompetência para lidar com o assunto. (...) Quer dizer, o conteúdo nominal das reivindicações não tem a mais mínima importância. Se não fossem essas, seriam outras. E se não houvesse nenhuma, se inventaria alguma. (...) Mas quem quer que, furando essa primeira barreira de aparências, procure encontrar por trás delas um objetivo determinado e único que explique o conjunto, se engana talvez ainda mais desastrosamente. Se os protestos têm um objetivo político determinado, este só é definido, na mente dos seus planejadores estratégicos maiores, em termos muito gerais e vagos. (...) Quando o Lula disse: “Não sabemos ainda qual o tipo de socialismo que queremos”, foi a coisa mais profunda do movimento comunista nos últimos vinte anos. Não saber exatamente para onde vai é essencial no movimento comunista: é essencial manter a definição do objetivo a mais vaga e genérica possível, para não criar uma camisa-de-força e não pôr todos os ovos na mesma cesta. (...) Gerais e vagos o bastante para admitir, a cada momento, novas e — para o adversário — imprevistas mudanças de rumo. Tomando como ponto de partida o fato de que “o movimento” — já nomeado propositadamente como substantivo genérico — teve como seus criadores e mentores o Foro de São Paulo e a elite globalista condensada simbolicamente na pessoa do sr. George Soros, (...) E não é apenas George Soros, é um monte de gente. Ouve-se dizer George Soros fez isso, George Soros fez aquilo, e às vezes não é nem o George Soros. (...) o seu objetivo geral já foi declarado muito antes de que o movimento eclodisse e não requer nenhum esforço especial de interpretação. Trata-se, em resumo, de encerrar a fase “de transição” e partir para a “ruptura” ou destruição ativa de um “sistema” já cambaleante e debilitado pela onipresente “ocupação de espaços”. (...) Então esse é o objetivo genérico. Ninguém precisa saber o que é exatamente a ruptura ou o sistema. Quanto mais genérico ficar, melhor. (...) Os slogans escolhidos para instigar a massa não têm, em si, a mais mínima importância. Podem ser trocados a qualquer momento, conforme o rumo que as coisas vão tomando. A técnica da mutação também não é rígida, mas adapta-se velozmente a uma conjuntura em constante transformação; transformação que o próprio movimento acelera por sua vez. Não se trata, portanto, de alcançar este ou aquele objetivo concreto em particular, mas de operar com um leque de possibilidades em aberto e conservar, na medida do possível, algum controle do conjunto. Essas possibilidades são exploradas simultaneamente e, conforme uma ou outra se revele mais viável ou mais problemática, será intensificada ou refreada pelo comando do processo. As mais importantes, a meu ver, são as seguintes: (a) Trocar a própria liderança visível da esquerda, substituindo os agentes da “transição” pelos agentes da “ruptura”, decididos a ações mais drásticas. (...) Claro, se estamos passando da fase da transição para a da ruptura, então é normal que aconteça uma das duas coisas: ou se troca a liderança ou a liderança, que está no poder e que operou a transição, tem de se adaptar velozmente a novos objetivos. Então de certo modo a liderança é testada, como neste momento está acontecendo com a Dilma Rousseff. Se conseguir acompanhar a transformação rápida do movimento, ela continua lá; senão, vai ser jogada no lixo. (b) Espalhar o caos para justificar medidas de força, aproveitando para, no mesmo ato, testar os “agentes de transição”: se conseguirem controlar repressivamente a situação e aumentar o poder do grupo dominante, sobreviverão; caso contrário, serão trocados. (c) Incitar à ação pública as forças antagônicas (cristãos, patriotas, conservadores etc.), para mapeá-las e averiguar as possibilidades de controlá-las ou extingui-las. Esses três objetivos são todos simultâneos, eles estão fazendo tudo isso ao mesmo tempo. (d) Caso a evolução do movimento se mostre majoritariamente favorável aos objetivos dos planejadores, fomentá-lo ainda mais para que a própria ação da militância enragée adquira autonomia e conquiste autoridade por si própria, transmutando-se em nova estrutura de governo. Note bem que, com os vários movimentos que controla, a esquerda já tem uma nova estrutura de governo extra-oficial, totalmente separada do funcionalismo público, que em algumas regiões já manda mais do que o próprio funcionalismo público. Isso aconteceu exatamente como na URSS, em que havia aquela rede dos sovietes, uma espécie de sindicatos rurais, cuja influência e onipresença era tal que do dia para a noite eles se transformaram na nova administração pública, passando por cima da administração oficial, quando veio o lema “Todo poder aos sovietes”. Essa possibilidade, é claro, é a mais extrema de todas. Eu vou repetir as quatro porque isso é importante. Eles estão fazendo quatro coisas ao mesmo tempo: (a) Trocar a própria liderança visível da esquerda, substituindo os agentes da “transição” pelos agentes da “ruptura”, decididos a ações mais drásticas. Aí teria, por exemplo, o velho PT encarnado na Dilma, e os novos partidos ditos mais radicais de esquerda seriam então os agentes da ruptura, e não mais da transição. Sempre que se cria uma situação de transição, o governante colocado ali pelo movimento revolucionário está em uma posição ambígüa, pois tem dupla lealdade: por um lado, tem de fomentar as transformações exigidas pelo movimento revolucionário, ao mesmo tempo que precisa desempenhar um cargo público de acordo com as leis existentes, usando as estruturas já existentes. Isso quer dizer que vai ser língua dupla o tempo todo: vai estar sempre falando uma coisa e fazendo outra ou invertendo. E no curso desse processo, essas pessoas normalmente se comprometem, por assim dizer, com os dois lados. Só sobrevivem a isso se forem muitíssimo hábeis, mas em geral isso não acontece. É por isso que todo processo revolucionário tem pelo menos duas fases: uma inicial, que está ainda comprometida com efetuar transformações dentro do quadro legal existente, como, por exemplo, quando Luís XVI convocou os Estados Gerais, que estavam lá para fazer uma modificação, uma revolução dentro da lei, por assim dizer. Essa primeira fase é logo superada, sucedida pelo terror, que já é a fase de ruptura. Na Rússia foi a mesma coisa. A Revolução de 1905 criou uma democracia progressista etc. e etc., apesar de ter sido uma revolução, foi dentro da lei e idealmente pacífica. E isso durou doze anos. A maioria das pessoas não sabe, mas, em Cuba, quem colocou Fulgêncio Batista no poder foi o Partido Comunista. Ele ficou no poder por muito tempo. E, naturalmente, não só não operou ruptura nenhuma como eternizou a transição, de modo a tirar vantagem pessoal da situação, então acabou sendo jogado fora. Uma segunda possibilidade que também é explorada simultaneamente é fomentar o caos para depois entrar com medida de força e aumentar o poder do governo existente, que daí concentra a maior quantidade de poder e pode ele próprio operar a ruptura. Quase todo mundo que está interpretando o negócio acredita que esse é o objetivo central, que isso tudo é disfarce de um golpe. Não, o golpe é uma das possibilidades. Mas eles estão explorando todas ao mesmo tempo. (c) Aproveitar para incitar à ação pública as forças antagônicas (a “direita”), para saber quem é, onde está e qual o poder que tem essa direita, e então aproveitar para fichar todo mundo e obter um controle maior da situação. E, finalmente, (d) se for possível, fomentar [0:20] o próprio movimento de protesto, para que adquira força autônoma e se transforme em uma nova estrutura de governo, como aconteceu nos sovietes. Eles estão fazendo essas quatro coisas e apostando nelas simultaneamente, embora sejam, por assim dizer, contraditórias. Se é para o governo dar um golpe de força, então não é naturalmente o movimento popular que assume o poder. Mas essas quatro são úteis ao movimento e, como eles operam sempre experimentalmente, tateando, em vez de botar todos os ovos numa cesta só, eles estão fomentando essas quatro. E essa é a dificuldade que as pessoas têm de entender a coisa, pois, ou não estudaram, ou têm conhecimento muito superficial do marxismo. Os liberais, sem exceção, acham que conhecem o marxismo porque leram o livro do Ludwig von Mises sobre socialismo. Eles viram ali a demonstração da impossibilidade da economia socialista e, da impossibilidade da economia socialista, deduzem a impossibilidade de revolução socialista, o que é uma coisa de jumento. Se algo é economicamente inviável não quer dizer que seja politicamente inviável. E ser economicamente inviável significa apenas que, uma vez instaurado, o socialismo trará miséria, atraso etc., como aconteceu em toda parte. Mas acontece que miséria e atraso, para um governo comunista, podem até ser bons. As crises econômicas, as dificuldades materiais derrubam um governo em uma democracia porque as pessoas estão acostumadas a desfrutar de certos direitos e ter determinado padrão de vida; quando isso cai, elas ficam revoltadas e derrubam o governo. Mas isso só acontece em um processo democrático. Se o processo democrático já acabou e você instalou uma ditadura, então as relações entre economia e política já não são essas. E a própria miséria pode ser explorada como instrumento de controle até o limite da arma da fome, como Stalin usou na Ucrânia, restringindo o acesso e não permitindo o transporte de comida, ou seja, matando os caras de fome. Cuba vive em uma miséria desgraçada há quarenta anos, e o regime, em vez de enfraquecer, está cada vez mais forte. Se o povo não tem nem o que comer, como é que vai ter meios de reagir a uma situação tirânica? Houve revoluções na Rússia e na França porque, pelo menos cinqüenta anos antes da revolução, o crescimento econômico desses dois países era formidável, eram as economias que mais cresciam na Europa — a França, no século XVII, e a Rússia, nos últimos cinqüenta anos do século XIX. É preciso ter um excedente de riqueza para poder criar uma revolução, para se ter meios de destacar pessoas, tirá-las da produção e alimentá-las como militantes profissionais. Isso custa muito dinheiro. E se simplesmente não há dinheiro, se todo mundo, exceto o governo, está na miséria, a sociedade entra em um imobilismo que pode durar eternamente. Se não fossem as pressões externas, o regime soviético jamais cairia, teria ficado lá eternamente. Mas acontece que há concorrentes externos, e o regime não era capaz de produzir na velocidade necessária para concorrer com esses adversários. Esta última possibilidade, que é a mais “revolucionária” de todas [esta última, que é a de um movimento mesmo, se transforma na nova estrutura do Estado], parece já ter sido excluída, na medida em que as forças antagônicas, malgrado sua total desorganização e ausência de comando, se mesclaram ao movimento, ocuparam as praças públicas e acabaram, em certos casos, por acuar e sobrepujar a militância esquerdista. A esquerda começa a bagunça e em seguida vê que não tem o controle da praça pública, porque aparece um monte de loucos de tudo quanto é lado protestando contra as coisas mais disparatadas, em geral de maneira hostil à esquerda, francamente hostil. Os caras gritando: “PSTU, vai tomar no **” era algo com que ninguém contava, e aconteceu. Se não temos sequer o controle da praça pública, significa que o movimento não tem autonomia suficiente, e não é ainda uma força revolucionária capaz de “tomar o poder”. O próprio comando da esquerda militante ordenou que as manifestações cessassem, o que imediatamente deixa o campo livre para as massas antagônicas (...) Quer dizer que, se houver protesto daqui para adiante, vai partir da “direita”. (...) e favorece, ipso facto, a adoção da via repressiva para estrangular a ameaça de um “golpe teocrático e fascista”. (...) A maior possibilidade nas próximas semanas é de que o endurecimento do regime venha a acontecer, com novas legislações que visem controlar em princípio as massas em geral, mas controlar somente as massas de patriotas, cristãos etc. e etc. — controlar ou estrangular completamente. Parece que, das quatro possibilidades, foi essa a única que se mostrou viável, na verdade, por enquanto, mas, como diria o Vicentinho, a luta continua. Isso quer dizer que os próximos objetivos, ou seja, a troca de lideranças e a aceleração do processo revolucionário, ainda estão na pauta. Não que sejam urgência imediata, o problema maior é que nós atiçamos as cobras para que saíssem das tocas; elas saíram e são em número muito maior do que imaginávamos, então agora precisamos dar um jeito de controlá-las. Essa é a urgência maior, e isso, portanto, favorece o endurecimento do regime, o qual não precisa tomar necessariamente a aparência pelo menos de um golpe, pode ser um golpe legislativo, algo assim. (...) Se esse estrangulamento tomará a forma de uma repressão policial violenta ou de um simples incremento do aparato de investigação e controle social, é cedo para dizer. O detalhe mais importante, aí, é que as forças antagônicas se constituem exclusivamente de massas amorfas e desorganizadas, sem o mais mínimo comando estratégico e até sem aquelas figuras de heróis improvisados que um erro terminológico denomina “líderes”, quando o certo seria chamá-los apenas de “símbolos aglutinadores”. (...) O sujeito que aparece de repente da massa e vira um símbolo, às vezes um mártir — como o caso do Edson Luís, um estudante que foi morto pela polícia no tempo do regime militar —, torna-se o símbolo do movimento. Mas o símbolo aglutinador, seja morto, seja vivo, não é um líder. Isso é importantíssimo. Liderança é comando estratégico e controle, e não a personificação de um vago espírito das massas. Por exemplo, o próprio Lula, que se tornou tardiamente um líder quando começou a controlar o Foro de São Paulo — mesmo assim de maneira precária. Ele sempre foi um símbolo aglutinador. Quando, pelo Facebook, eu dizia que não há liderança, os caras diziam: “Venha para cá, e você vira o líder”. Eu seria um símbolo aglutinador, e seria jogado fora e expelido com a maior facilidade. Para ser um símbolo aglutinador, o sujeito precisa ter vocação teatral, que consista em ser um nada, mas que pareça alguma coisa. Não foi este o destino que a minha mamãe sonhou para mim, eu queria ser alguma coisa, ainda que parecendo um nada — eu prefiro isso. É aquela máxima do Ronald Reagan: “Você pode conseguir tudo o que quiser, contanto que não faça questão de levar o mérito”. É por isso que eu não ligo quando os caras repetem as minhas idéias com quinze anos de atraso e não citam meu nome. As idéias estão aí, eu botei em circulação, e a coisa está funcionando. Decorridos quinze, vinte anos, não me interessa reconhecer o mérito, não faz o menor sentido. Quando eu falo em liderança, quero dizer comando estratégico. E quando o pessoal, no Brasil, fala em liderança, querem dizer símbolo aglutinador. O que é um sinal de que todo esse pessoal envolvido nesses movimentos não tem a menor idéia do que é uma liderança. Não que não tenham uma liderança, eles não sabem o que é. Agora, a massa por si, o número tem um poder evidentemente, mas é um poder cego, que não sabe para onde vai, pode fazer burrada ou até cair em uma armadilha, como parece que está sendo montada. (...) Essa massa é numericamente superior, seja à militância organizada do Foro de São Paulo, seja às tropas de arruaceiros subsidiadas pelo sr. George Soros [e outros similares]. Sua presença nas ruas, bem como a vaia multitudinária que despejou sobre a presidenta Dilma Rousseff, são, no sentido mais estrito do termo, explosões espontâneas e anárquicas no [0:30] mais alto grau, contrastando, nisso, com a ação bem planejada dos militantes do outro lado, que ocupam o espaço público armadas de instruções precisas, de slogans bem ensaiados (em Brasília, viu-se até o texto de uma convocatória inteira recitado em côro pela multidão). (...) Veja o nível de organização. Além disso, eu recebi a cópia de um folheto, que era distribuído aos militantes, sobre como enfrentar a polícia, como se livrar do gás lacrimogêneo. É uma instrução inteira, coisa de profissional. E, lá em Brasília, você vê a multidão. Milhares de pessoas repetindo: “Dia tal, às tantas horas, em tal lugar, vamos fazer isto e aquilo”. Como é que você vai pensar que isso é uma manifestação espontânea? Não, isso é um negócio altamente planejado e trabalhado — da parte da militância esquerdista que começou as mobilizações. Daí quando os patriotas revoltados, cristãos etc. começaram a ir para as ruas, começaram a dizer qualquer coisa. (...) Desse modo, o que se viu nas ruas não foi uma competição entre forças de um mesmo gênero — duas militâncias, duas ideologias, duas forças políticas —, mas entre dois tipos de multidão radicalmente heterogêneos: a massa e a militância, a revolta confusa e a ação premeditada. (...) E viu-se que a massa confusa era tão superior numericamente que o negócio ia escapar ao controle dos planejadores iniciais. Então, das quatro alternativas, a possibilidade de um endurecimento e de um fortalecimento do governo existente se torna a mais racional e a mais viável, portanto a mais previsível. (...) Quem não levar em conta esses fatores não entenderá absolutamente nada do que está acontecendo e estará privado até da mera possibilidade teórica de uma ação conseqüente. *** O que acabo de dizer pode levar o leitor [ou ouvinte] surpreso a concluir que, no meu entender, ou mesmo na realidade das coisas, os mentores do movimento comunista são gênios fora do comum, capazes de pensar em todas as alternativas ao mesmo tempo e de manejar todas as peças do tabuleiro. Decerto não é bem assim. Comparado com a vastidão do seu alcance, o movimento comunista teve um número relativamente pequeno de gênios estratégicos, a começar por Lênin e Stálin, e um número um pouco maior, mas nada notável, de talentos estratégicos secundários, como Saul Alinsky, Ernesto Laclau ou a dupla Cloward & Piven. Mas algumas regras explícitas e tácitas que esses e outros seguiram acabaram por se incorporar à “cultura” comunista, isto é, a um conjunto de hábitos, reflexos de pensamento compartilhados por toda a militância, que os assimila sem grande exame crítico, às vezes até num nível semiconsciente e pré-verbal. Isso quer dizer que essas regras transparecerão nebulosamente na conduta de líderes e militantes como as regras da gramática transparecem, deformadas, mas não abolidas, na fala de quem nunca estudou gramática. (...) A fala do analfabeto é gramaticalmente analisável, e reflete o que é a estrutura do idioma, portanto as regras da gramática que o sujeito desconhece. Mesmo desconhecendo as regras, por imitação ele sabe aplicá-las, e elas ficam evidentes no discursoEle sabe aplicar por imitação, mas ele desconhece as regras. Mas elas aparecem ali. Nesse negócio comunista é a mesma coisa. Quer dizer que um conjunto de hábitos de pensamento que já estão ali incorporados, e que passam sem educação formal e, sem leitura nem nada, mas na simples convivência, então fará com que as contribuições dos grandes estrategistas apareceremçam na fala dos seus militantes e continuadores mais incapazes e imbecis. (...) Não é preciso dizer que, na passagem dos princípios estratégicos explícitos e criticamente elaborados às regras semiconscientes automatizadas, o que era tirocínio estratégico se rebaixa ao estatuto de cacoetes mentais e de uma espécie de estupidez astuta; a complexidade do raciocínio dialético aparece agora como pensamento dúplice e escorregadio, uma espécie de incompreensão maliciosa que tudo deforma, mas deforma num sentido coerente com os propósitos gerais do movimento comunista e benéfico aos interesses do Partido. (...) Quando os caras comentem erros de análise ou , erros de descrição da situação, até esses erros são benéficos à estratégia geral, porque eles refletem a estratégia geral do mesmo modo que a fala do analfabeto reflete a estrutura da língua ou as regras da gramática. (...) Quem estudou o livro do psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski, Political Ponerology, reconhecerá aí a queda de nível desde uma liderança original psicopática a uma classe de epígonos histéricos. (...) Esta é a tese do Lobaczewski: os criadores desse movimento são psicopatas, isto é, pessoas extraordinariamente inteligentes e , extraordinariamente realistas, só quemas desprovidas de sentimentos morais. Sentimentos morais que, no entanto, eles conhecem e são capazes de manipular. O teste mostra que, por exemplo, vendo certas cenas comoventes, uma pessoa normal reage ativando as áreas emocionais do cérebro, ao passo que, quando o psicopata vê essas mesmas situaçõesno psicopata, as áreas que são ativadas, quando vê essas situações, são as áreas lingüísticas. Então ele não sente as emoções, ele apenas conhece os seus símbolos e conseguem manejá-los. O sujeito não participa da emoção, mas ele tem apenas um conhecimento frio e, por assim dizer, científico da emoção. Então esses são psicopatas. Mas dois psicopatas em ação são suficientes para criar uma multidão de epígonos histéricos. E oO que é o histérico? Quando o pessoal falaO histérico é, popularmente conhecidoé como a pessoa que tem chilique, que grita, mas i. Isso não tem nada a ver com histeria, isso é uma caricatura de histeria. A histeria significa quase um comportamento auto-hipnótico, onde em que o sujeito não acredita no que vê e no que sabe, mas acredita sim no que imagina e, fala, sobretudo, no que ele fala. É uma espécie de persuasão retroativa: o indivíduo disse certas coisas, e, porque disse, ele começa a acreditar naquilo. É um mundo de fingimento, é um mundo de teatro, só que esse teatro não é premeditado ou, não é controlado. O psicopata controla toda a situação, ele sabe exatamente o que está fazendo, sabe quando está mentindo ou, sabe quando está dizendo a verdade. O, mas o histérico já não sabe, porque . Por quê? Eesse teatro se incorporou à sua personalidade e, na verdade, corroeucomeu a personalidade, já não há mais personalidade alguma, há somente o teatro. E esse teatro é um meio de ação criado pelo psicopata, ; meio de ação que depois se propaga e continua agindo por automatismo. E é por isso que a visão deformada que o histérico tem da realidade continua funcionando como se fosse realista, mesmo porque ele está lidando com uma multidão que é de histéricos como ele mesmo. Então, quando ele deforma a coisa, faz issoele deforma num sentido que é útil, por assim dizer, não por premeditação, mas por um reflexo incoercível: ele não consegue controlar aquilo, ele não consegue ser outra coisa porque, na verdade, ele não é mais nada. (...) A psicopatia é compatível com elevado grau de inteligência e aguda consciência da situação real. (...) Quando vocês lêem aAs análises que Lenin faz da situação, da conjuntura do dia-a-dia, a coisa é de um realismo absolutamente implacável. (...) O epigonato histérico copia a conduta psicopática sem compreendê-la muito bem e, por isso, não diferencia claramente o diagnóstico objetivo da situação e o discurso de auto-identidade partidária. (...) Ou seja, em termos das funções da linguagem tal como descritos por Karl Bühler, o sujeito confunde a função nominativa — , que é falar da sobre ou descrever a realidade, descrever a realidade —, com a função apelativa —, que é agir na consciência do ouvinte ou agir sobre si próprio. O psicopata distingue ambas perfeitamente, ele sabe quando está dizendo uma coisa que é objetivamente verdade e quando ele está dizendo uma coisaalgo apenas só para influenciar alguémvocê. Ao contrário do Mas o histérico já não sabe, ele, que mistura essas duas coisas, mas apesar disso. Apesar da mistura, a coisa continua funcionando. (...) Dito de outro modo: não percebe muito bem quando está descrevendo uma situação objetiva e quando a está deformando para reforçar o sentimento de unidade da militância, fomentar o ódio ao inimigo ou persuadir a militância a seguir determinada linha de ação. O psicopata, quando mente, sabe que mente. No histérico, a mentira conveniente já se interiorizou ao ponto de não poder ser discernida como tal. O resultado é que uma visão totalmente falsa da situação pode, paradoxalmente, produzir uma ação relativamente eficiente, na medida em que reflete ainda, de longe e obscuramente, a visão estratégica originária. É como [0:40] se disséssemos que o epígono ou militante histérico é louco, mas não rasga dinheiro: tem uma visão deformada da realidade, mas deformada num sentido que, por força dos automatismos acumulados na cultura comunista e da sua raiz longínqua numa visão estratégica consciente, ainda favorece a ação partidária. Um exemplo claríssimo desse fenômeno é o recente pronunciamento do sr. Valter Pomar [um sujeito que é do Foro de São Paulo], reproduzido abaixo como Apêndice 2. Ele começa assim [só vou dar um exemplo entre muitos]: “Quem militou ou estudou os acontecimentos anteriores ao golpe de 1964 sabe muito bem que a direita é capaz de combinar todas as formas de luta.” Historicamente isso é falso. A direita brasileira nunca teve, por exemplo, um partido de massas ou uma militância adestrada e organizada. Muito menos teve uma rede mundial de partidos aliados, uma “internacional”. Nem teve uma rede organizada de editoras de livros, como o Partido Comunista sempre teve. E, durante todo o tempo de ocupação esquerdista do governo, nunca teve à sua disposição centenas de jornais “nanicos”, como a esquerda teve durante o regime militar. (...) A esquerda Ela dominava a grande mídia e tinha ainda a imprensa de oposição. Isso nunca aconteceu com a direita. (...) Muito menos uma militância estudantil significativa. Muitas são as “formas de luta” que lhe faltaram e faltam. Pomar não parece ter a mínima consciência disso. No entanto, tomar a falsidade como um fato ajuda a fortalecer a unidade da militância esquerdista pelo temor a um inimigo comum evocado de um passado quase mítico. (...) Ou seja, como descrição da realidade não funciona, mas, na clave apelativa do discurso, ou seja, de agir sobre a mente da militância, funciona é eficaz do mesmo jeito. Isso que eu chamo a de estupidez astuta. (...) Pomar não está mentindo intencionalmente. Está mesclando e confundindo os dois níveis de discurso — a descrição da realidade e o apelo à unidade do grupo ouvinte —, como é próprio dos epígonos histéricos e da “estupidez astuta” a que me referi, quase que uma “deficiência eficiente”, expressão paradoxal que corresponde à natureza paradoxal do fenômeno mesmo. Você veja que mMuitas vezes, ouvindo o discurso das pessoas, o liberal, o conservador amador que não tem estudos sérios a respeito, ele percebe a inferioridade intelectual dessas pessoas e acha, portanto, que a luta está ganha, e então ele se sente infinitamente superior. Mas não está contando com este o fato da estupidez astuta, que esse tipo de deformação da realidade está impregnado em num movimento e que ele funciona. Quando ele não funciona como diagnóstico objetivo para embasar uma ação, ele funciona como apelo à unidade da militância e estímulo emocional. Então acaba funcionando do mesmo jeito. Por isso que eu chamo “estupidez astuta”, não é uma estupidez simples. O sujeito que é realmente estúpido comete erros e puxa o seu próprio tapete, serra o galho em que está sentado. E a esquerda, por mais que Reinaldo Azevedo ou Rodrigo Constantino, os jornalistas liberais, formadores de opinião liberais, façam sarcasmo a respeito, por mais que gozem da burrice esquerdista, às vezes a burrice é do próprio analista liberal que não entende que é uma burrice eficiente, que é uma deficiência eficiente. Por isso que, quanto mais derrotas sofre no campo intelectual, mais vitórias a esquerda tem no campo político. Então a superioridade intelectual, no caso, existe evidentemente, a superioridade intelectual da direita e dos conservadores existe, mas ela não se transforma por si em numa arma política eficiente. Qualquer coisa, para ser uma arma política eficiente, precisa se impregnar no espírito de uma militância e depois no espírito das massas seguidoras, até criar uma série de reflexos que permitam provocar reações quase que automáticas. Eu vou ler mais um pedacinho trecho do Valter Pomar. Ele diz: “(...) o discurso dominante na esquerda brasileira era, até ontem, de dois tipos. Por um lado, no petismo e aliados, o contentamento com nossas realizações passadas e presentes, acompanhadas do reconhecimento mais ou menos ritual de que “‘precisamos mais” ’ e de que ‘“precisamos mudar práticas”.’. Por outro lado, na esquerda oposicionista (PSOL, PSTU e outros), a crítica aos limites do petismo, acompanhada da crença de que, através da luta política e social, seria possível derrotar o PT e, no lugar, colocar uma ‘esquerda mais de esquerda’.”. Falamos do objetivo de trocar a liderança. Dos quatro objetivos, um deleso possível era trocar a liderança, mas não trocar necessariamente porque, se a liderança antiga, a liderança de transição, se adaptar às novas finalidades do movimento com a devida rapidez ou se mostrar capaz de controlar a situação, ela vai continuar lá. “As manifestações populares ocorridas nos últimos dias, especialmente as de ontem e de 20 de junho [de 2013], atropelaram estas e outras interpretações. Primeiro, reafirmaram que os movimentos sociais existem, mas que eles podem ser espontâneos. E que alguns autoproclamados “‘movimentos sociais”, ’, assim como muitos partidos “‘populares”,  ’, não conseguem reunir, nem tampouco dirigir, uma mínima fração das centenas de milhares de pessoas dispostas a sair ás às ruas, para manifestar-se.” Ou seja, a turma da esquerda estava controlando uma fração mínima, a maioria estava ali ou por objetivos anárquicos ou frontalmente contra a esquerda. Não só contra o PT, mas contra toda a esquerda. Daí prossegue ele: “Em seguida, mostraram que a direita sabe disputar as ruas, como parte de uma estratégia que hoje ainda pretende nos derrotar nas urnas.” (...) Opa! Mas então são movimentos espontâneos ou é uma estratégia? Ele não percebe a diferença, ele não percebe que está se contradizendo, absolutamente. Mas as duas coisas servem. Por quê? SeQuando você diz que são movimentos puramente espontâneos, então são anárquicos, mais adiante ele diz que não são sequer de direita, então isto isso dá ao ouvinte esquerdista um senso de superioridade, o reforça: “Somos um movimento consciente, que queremos mudar o Brasil, e esses caras são apenas um bando de loucos, bêbedos bêbados que estão aí na rua”. E quando você diz que é uma estratégia, apela para o senso de paranóia e, o senso de perseguição: “É a direita que vemvindo com uma estratégia paraquerendo nos derrotar”. As duas coisas funcionam. É isso o que quero dizer com estupidez astuta. Para que uma estupidez se transforme numa em astúcia, é preciso que ela esteja impregnada de numa linguagem coletiva já de entendimento imediato pela platéia, de maneira que os dois sentimentos — o de superioridade da militância organizada ante a massa anárquica e o de união paranóica para se defender contra um inimigo estratégico perigoso — funcionem sempre. Então é claro que, intelectualmente falando, esse sr. Pomar é absolutamente desprezível, o sujeito mete sorvete na testa. Porém, como porta-voz do discurso de incitação à militância, a coisa funciona maravilhosamente, ele se torna um dos controladores do processo. Você veja que É muito fácil “ser contra o comunismo” ou conhecer meia dúzia de críticas ao comunismo. Acontece que o comunismo tem 150 anos de existência oficial. Quer dizer que aA Internacional Comunista foié fundada em 1844, tem mais de 150 anos, mais de um século e meio de existência oficial contínua, em que cada geração examina o desempenho da anterior, corrige o percurso, modifica, cria novas estratégias, novas táticas e vá vai aumentando o patrimônio. Se você for pensar na bibliografia marxista, é um negócio monstruoso. Como você pode olhar tudo isso e, tendo lido o livro do Ludwig von Mises contra a economia socialista, se achar superior? Só se for realmente idiota, pior que o Valter Pomar. Isto Isso quer dizer que a simples gozação, a simples afetação de desprezo, não resolve absolutamente nada. Ou você compreende efetivamente o que os caras estão fazendo ou é melhor você ficar em casa e não se meter na briga. Agora, para compreender o que eles estão falando, é uma vida de estudos, algo que, . E se você perguntar assim: “Nna ‘“direita’ direita” conservadora, quantas pessoas têm essa vida de estudos?”, quase ninguém tem. Você veja, pPor exemplo, a imensa bibliografia imensa que a esquerda produziu sobre o golpe e o regime militarde 64. São milhares e milhares e milhares de livros. Enquanto . Agora, qual éque a bibliografia produzida pelaque a direita, pelos conservadores e liberais, produziram sobre a história da esquerda no Brasil é ? É quase nulanada. É Há o livro do Heitor de Paola, A Conspiração de Portas Abertas, e duas ou três coisinhas. Portanto, na competição de ignorância, a direita está ganhando evidentemente, e ganhando de longe, [0:50] ainda que tenha no seu meio inteligências mais brilhantes do que os comunistas. Está todo mundo indo contra Isto quer dizer que a regra número um do Sun Tzu, “conheça o seu inimigo”, todo mundo está indo contra essa regra, achando que não precisa conhecer, e às vezes até proclamando que o comunismo não existe mais, o comunismoque já morreu,i e chamandom até de teórico da conspiração quem está tentando acompanhar os acontecimentos. Isto Isso quer dizer que a burrice da esquerda não é bem burrice, é estupidez astuta: são formas automatizadas de pensamento, que tem umcom apelo imediato. Q e que, quando não funcionam na clave de da descrição da realidade, funcionam na clave do apelo. Sempre funciona. Nada se perde, tudo é reciclado e funciona para o bem do conjunto, até as descrições erradas da realidade. MesmoAté a deformação caricatural que eles fazem da realidade os ajuda. Por exemplo, o Paulo Henrique Amorim inventou aquela expressão “o PIG” — Partido da Imprensa Golpista. Imprensa golpista então é a Folha, O Globo, o Estadão, etc. e etc., que são amplamente dominadas dominados por gente de esquerda, e que sempre tratouaram o Lula, o PT e até esses outros partidos mais radicais de uma maneira extremamente paternal ou maternal. Se não fosse a grande mídia, essas organizações jamais chegariam à existência. Em segundo lugar, se você ler todos os exemplares da Folha, do Globo e do Estadão dos últimos vinte anos, você não vai ver encontrar a mais mínima incitação à a golpe, mas, ao contrário, você vai ver uma participação ativa dessa grande mídia na campanha anti-militar e na criminalização dos militares. Então o que você quer dizer com imprensa golpista? É evidentemente uma hipérbole pejorativa. Isso não existe, você está falando de um fenômeno que não existe. Mas, se você conseguir fazer a militância acreditar que existe, eles vão ficar com um tremendo ódio da própria grande mídia que os protege, o que e isto favorecerá evidentemente a radicalização do processo revolucionário. A grande mídia faz parte do quê? Dada transição. , porque aA ascensão do Fernando Henrique Cardoso já foi o começo da transição. A mídia está mais ou menos identificada com a época de amizade entre o PSDB e o PT. E, na linguagem da esquerda, isso passou a ser a direita, que é a sua própria direita colocada no poder para operar a transição. Exatamente como na Revolução Russa, o primeiro governo democrático era evidentemente de esquerda, Kerensky e todos os outros eram de esquerda. Porém, tão logo eles tomam o poder, passam a ser a direita para a esquerda mais radical. Então essta assimilação das duas correntes é um hábito profundamente arraigado da mentalidade comunista. Você Nnão se faz revolução contra um inimigo, e sim você faz contra um ex-amigo. Todas são assim. Quando veio oO Terror Revolucionário, quando surgiu, ele não era contra o antigo regime, era contra os moderados da Assembléia. Isso por toda parte é a mesma coisa por toda parte. A Revolução Cubana não foi contra o inimigo, e sim foi contra uma criatura mais velha do Partido Comunista. ÉE é sempre assim. É pPor isso que os nossos liberais e conservadores são loucos quando apostam na divisão da esquerda e achamacreditando que a divisão vai enfraquecê-la, quando é a divisão que a fortalece. Você Dividir-se e lutar se dividindo e lutando contra você si mesmo, você monopoliza todo o campo todo dos debates e dos conflitos e controla mais ou menos o conjunto. E isto isso é um hábito já tão arraigado que mesmo umo puro militante histérico e, cego, como o Valter Pomar, consegue mais ou menos controlar o processo porque ele está trabalhando, não em cima de uma burrice pessoal, mas de toda uma tradição de 150 anos que já está impregnada na mente dele. Espero que isso ajude a compreender mais ou menos o que está acontecendo. E eu digo tudo isso sem a mais mínima ilusão de influenciar o curso dos acontecimentos., porque — repito — para influenciar, você precisa... Eu vou até ler a mensagem de aqui para vocês o que botei... Tem uma menina aqui no Facebook. Ela que me perguntou : “Então o que é para fazer?”. Eu digo : euque não tenho fórmula pronta, mas a experiência histórica mostra que a formação dos grandes movimentos políticoas passa por uma seqüência que é mais ou menos fixa e imutável, é uma fórmula que não existe outra. Começa com a livre iniciativa dos intelectuais: um sujeito diz uma coisa, outro diz outra, começa a botar umas idéias em circulação — que é exatamente o que estou fazendo aqui. Numa segunda etapa, os intelectuais se organizam em num debate formal. Vou dar um exemplo tirado da história da esquerda nacional: Quando houve o Golpe de 64, imediatamente houve alguns intelectuais que reagiram ao novo regime, especialmente Carlos Heitor Cony, Otto Maria Carpeaux, Antonio Callado — iniciativas individuais de intelectuais que nem sequer tinham participação em qualquer movimento ou partido político. Numa segunda etapa, funda-se um negócio chamado a Revista Civilização Brasileira, cuja intençãoque era formalizar o debate da esquerda para que as idéias não se perdessem. Aoscam, para irmos aos poucos iam sendo somadassomando a contribuição de um, de outro, de outro, até termos uma visão completa da coisa. Então, primeira etapa: iniciativa individual isolada. Segunda etapa: o debate formal, em que onde as várias contribuições vão aos poucos se integrando em numa visão global. Terceira etapa: coleta de recursos financeiros para fazer a passagem do mero debate à ação, sendo que o mero debate organizado já custa algum dinheiro. Quarta etapa: 4ª etapa: a formação de um Estado-Maior para estudar a coisa já não de um ponto de vista analítico e da compreensão, mas do ponto de vista das estratégias possíveis — o Foro de São Paulo é isso. No Exército, você temhá o comando e tem o Estado-Maior, o Estado-Maior não toma decisões, ele sóapenas faz análises estratégicas e propõe estratégias possíveis, que o comando depois vai acionar. O Foro de São Paulo não é bem um comando, é um Estado-Maior. Depois que você tem issodisso , daí você começa a formação da militância. Quando você chega na formação da militânciaNessa etapa, o custo da coisa já é monstruoso, porque você não pode formar militantes se você não tem há profissionais. Não é possível Você não vai formar uma militância nas horas livres e nos fins de semana, você é precisoa ter muitos, muitos e muitos profissionais treinados para formá-losar militantes. Ou seja, são pessoas que vão ser, para usar o termo comunista, desligadas da produção e colocadas no trabalho partidário profissional. A partir daí é que há condição de, com base nas análises feitas pelo Estado-Maior, o comando tomar decisões quanto a esta ou àquela ação. E, depois de tudo isso, é necessário que você tenhater uma continuidade de comando e uma continuidade de ação do Estado-Maior para controlar os resultados atingidos e corrigir os rumos, etc. e etc. Tudo isso pode levar trinta anos. Quando você se parte de um movimento já preexistente, como no caso da esquerda brasileira, pode levar dez, digamos, ou até cinco ou seis anos. Mas partindo , quando você parte do zero, quando não há você não tem nenhum movimento preexistente, então certamente leva de vinte a trinta anos. No caso de aceleração máxima, [1:00] vamos supor que já tivéssemos passado da iniciativa intelectual individual... Estamos nesta fase de iniciativa intelectual individual, a começar pela minha mesmo: ela não tem finalidade estratégica, ela não propõe ação nenhuma, está simplesmente tentando compreender o que está acontecendo para que não sejamos afogados e ou atropelados pelos acontecimentos, e fiquemos fique como cegos em tiroteio. Supondo que já tivesse tivéssemos passado dessta fase (a fase do debate organizado), então já teríamos coletivamente, digamos, um círculo de umas mil pessoas, mil intelectuais de gabarito, uma compreensão integrada do conjunto. Então se pode-se começar a passar a fase do Estado-Maior, ou seja, não vamos apenas analisar a situação, mas e sim vamos pensar e analisar estratégias. A passagem do debate intelectual para o Estado-Maior custa uma montanha de dinheiro, porque você é precisa preciso muitos profissionais aí, é gente que vai vão se dedicar a isso em tempo integral. E, quando chegar a fase da formação de militância, precisa de mais dinheiro ainda. Então, entre o debate organizado e o Estado-Maior, tem umahá outra a fase da que é a coleta e a ampliação de meios financeiros. Eu pulei uma coisa: não existe só apenas conquista de meios financeiros, você temé preciso de conquistar e ampliar meios de ação. Como vocêE isso é feito pela faz isso? Oocupação de espaços. São ocupados Você ocupa sindicatos, você ocupa escolas, pessoas se alistam você entra nas Forças Armadas, você se infiltram em tudo quanto é lugar. Para fazer o quê?absolutamente n Nada. A intenção é Você só vai ocupar espaço. E para que, quando o Estado-Maior tiver discutido tudo e o comando tiver tomado a decisão, essas pessoas são acionadasaí você é acionado. O período que pode passar aí é de dez anos, quinze anos. Por exemplo, aqui na Virgínia, você vê claramenteé evidente a ocupação islâmica de espaço, você vai nas faculdades, só tem muçulmanos. E oO que eles estão fazendo? Nada, eles estãoapenas ocupando espaço, eles estão esperando um comando, que pode vir amanhã, depois, no ano que vem, daqui a vinte anos. A conquista dos meios financeiros é também a conquista dos meios de ação, não para você agir, mas para simplesmente para ter o controle deles. De tudo isso, o que a “direita” brasileira fez? Não fez nada, absolutamente nada. O que aconteceu é que você temhá massas indo espontaneamente indo às ruas porque elas não aguentam mais, estão fartas elas estão por aqui com dos mensaleiros, com os ladrões, com os narcotraficantes, até tão por aquimesmo com odo movimento gayzista e desse negócio de dar terras para os índios, dar terra para o MST. Eles nãoNinguém aguentam mais mais nada disso aí. V, estão vendo que fatalmente isso vai acabar com o país, as pessoas então saem para as ruas para protestar, mas o problema não é que elas , não é que não têm liderança: não tem têm liderança, não tem têm comando, não tem têm Estado-Maior, não tem têm organização, não têem nada. Então, há você tem um lado que tem tudo isso: eles já fizeram o debate, já organizaram o debate intelectual, já conquistaram os meios financeiros e os meios de ação, ocuparam escolas, sindicatos, igrejas, etc., e etc., estão por toda parte, já criaram o Estado-Maior, que é o Foro de São Paulo, e já passaram à fase da ação. Mas eles têm pouca gente, eles não têm massa, a massa está toda dou outro lado. Mas,E do outro lado, só tem a massa. Então é uma cabeça sem corpo lutando com um corpo sem cabeça: esta essa é a situação real. O Valter Pomar percebe vagamente percebe isso, mas como ele tem de expressar isso nos termos daqueles slogans e cacoetes mentais, dosaqueles chavões tradicionais, então ele vai falar do PIG — “é a mídia de direita” —, ele vai chegar ao ponto de dizer que é a direita que controla a estrutura político política do Brasil. É a direita da esquerda, é aquela mistura de PSDB com PMDB. Sim, estes de fato controlam, mas eles não são direita. Então que a direita é esta que saiu às ruas n? Não é a direita do PIG, não é O Globo, não é o Estadão, porque a grande mídia está toda contra isso. Então é o que eles vão chamar a extrema, a ultra-direita: “a ultra-direita tomou as ruas”. Ser ultra-direita significa que você éser contra o aborto. Quer dizer que a noção de ultra-direita já foi ampliada para abranger pessoas como eu e o, Pe. Paulo Ricardo. E, na verdade, uma ultra-direita só poderia existir se existisse uma direita organizada, daí uma parte dela se torna radical e quer ações drásticas e violentas. Mas se não existe sequer a direita como movimento político organizado, não existe ultra-direita. Podem existir radicais malucos individuais, um skinhead aqui, outro ali, isso é o máximo que pode acontecer. Não há uma direita contra a qual se possa lutar. A direita no Brasil é um estado de espírito disseminado na massa amorfa, contra a qual não é . Como você vai lutar contra ela? Você npossível ão pode lutar contra a massa toda, então é preciso você vai ter de controláa-la de algum modo — isso é o máximo que você se pode fazer. Quer dizer, é uma situação paradoxal como nunca se viu no mundo, e que resulta, em parte, da continuidade e unidade da história da esquerda, e, por outro lado, da total fragmentação da direita. Mas como esse pessoal da esquerda confunde a direita com a sua direita, isto é, com o PSDB e PMDB, então eles achamacredita que a direita controla a situação. E eles podem chegar ao absurdo de ver em mim um porta-voz do PIG. Eu, que fui expulso de toda a grande mídia nacional, sou representante do PIG. Eles podem chegar a este nível de alucinação, mas é alucinação que funciona, pois. Por quê? F fortalece o senso de unidade de uma militância que se sente acossada e ameaçada. Então é mais ou menos essa a situação. Não creio que seja possível entender isso nos termos da análise política usual e, sobretudo, sem recorrer ao Dr. Andrew Lobaczewski. Não que ele dê todos os conceitos necessários, mas alguns pelo menos ele tem. Vamos fazer um intervalo, depois responderemos. Respondemos rapidamente a algumas perguntas, rapidamente e deixamos o texto do René Guénon que, inclusive, para a compreensão disto daqui é importante. [intervalo] Aluno: Na última aula, o senhor se referiu às expectativas espirituais do mundo pré-cristão, e isso me inculcou um sentimento muito deprimente, como se a vida antiga fosse um inferno na terra. (...) Olavo: Até certo ponto, era. Se você ler o Satírico de Petrônio ou a HistóriaA Vida dos Doze Césares de Suetônio, você vai ver o que era realmente um inferno. A parada gay de São Paulo vai parecer a Congregação das Filhas de Maria. Aluno: (...) Me chama a atenção que há um certo empecilho quando se estuda todo objeto que perturba os sentimentos. Por exemplo, ao estudar o Brasil histórico sociologicamente, você fica irritado, e todo mundo sabe que a irritação atrapalha o juízo. Assim, estudar o mundo antigo é se deprimir, e a depressão também compromete o juízo. Eu digo o mesmo de outros objetos. Por exemplo, ao ler Aristóteles, eu sinto um certo exagero de conteúdo que espanta e agita a imaginação. Olavo: A solução é sempre aquela que já está dada na mitologia grega, na história de Perseu: não é para olhar a Medusa diretamente, mas através de um espelho que lhe é dado pela sabedoria. Se o objeto o perturba, não o olhe diretamente, mas o olhesim através da visão de intérpretes abalizados que estejam mais próximos da sua sensibilidade. Por exemplo, duvido muito que, você ao ler lendo o que Eric Voegelin fala do mundo antigo, você vai se sentir tão deprimente quanto se sentiria se você fosse mexer diretamente com o material do mundo antigo. Estes Esses materiais exigem aproximação lenta, de fato, têm de se aproximados lentamente, devem ser abordados lentamente, passo a passo, até você acostumar o foco e não se sentir perturbado ou até transformado negativamente por eles. Quando você estáAo lidar lidando com um material que é simplesmente de fonte primária, do qual não há e que não existem interpretações que elevem o nível da coisa – isso aconteceu quando eu estava estudando o fenômeno das seitas –, como por exemplo, quando eu estava estudando o fenômeno das seitas, aí esse o problema não tem remédio, porque você está lidando com materialacessando conteúdo que é deprimente mesmo, e não tem ninguém para guiar os seus passos ali e atenuar. . Não háVocê não tem nenhum Virgílio o levando conduzindo pelo inferno e explicando as coisas, você está vendo o inferno diretamente. Não recomendo que façafazer isso, aconselho recomendo sempre que oolhar semprelhe através de uma inteligência superior, e que seja mais próxima à sua sensibilidade, que, em vez de lhe o assustar, vai, ao contrário, lhe o tranquilizar ze e lhee acalmare. É muito bom que você faça essa observação. H, porque, hoje em dia, as pessoas não têm essa precaução que você está tendo, elas acham que podem meter o nariz em qualquer coisa assunto e que vão entender tudo imediatamente, e mas acabam sendo são profundamente transformadas em sentido negativo no curso desse estudo ou dessa observação. Você mostrou que tem sensibilidade, você está percebendo que há algo : “Isto aqui é mais forte do que vocêeu, e que não , eu não estouestá aguentando, por isso precisa então eu preciso de ajuda”. A solução é ir através dos intérpretes qualificados mais próximos de você no tempo e também na sensibilidade também. Com relação ao mundo antigo, a obra Order and History, com toda a certezado, o Eric Voegelin, com toda a certeza o Order and History, é o grande guia, aí. Mas não só o Eric Voegelin,e você pode se aproveitar das indicações bibliográficas que Voegelin ele dá ali também. Aluno: O que de fato ocorre no Brasil? Corrija-nos se estivermos errados: o Foro de São Paulo estaria sendo atacado pelos globalistas. Alimentaram o bicho, que ficou grande demais, e agora é necessário abatê-los.(...) Olavo: Não, não, não. Isto Isso não está acontecendo de jeito nenhum. Por quê? Se quisessem fazer algo contra o Foro de São Paulo, era só parar de dar dinheiro para ele. Se não pararam, então não querem eliminá-lo. As análises que o Fernando Henrique faz ali, me para mim, parecem-me totalmente irrelevantes. Aluno: (...) Diz que estaria ocorrendo uma guerra direta entre dois blocos pelo poder no continente. Olavo: Não, não tem guerra nenhuma. O pessoal globalista e a turma do Foro de São Paulo estão agindo exatamente no mesmo sentido. Você veja que aA idéia da ruptura já estava sendo discutida dentro do Foro de São Paulo há havia muito tempo, há pelo menos três ou quatro anos, e de repente você vê uma organização internacional, financiada pelo George Soros, acionar o começo dessa ruptura. Não há contradição alguma e não háou conflito, de maneira alguma algum. Você não pode esquecer que o Foro de São Paulo nasceu em estreita associação com o Diálogo Interamericano, que é o think tank do Partido Democrata. Também não pode esquecer que o Partido Democrata está no poder no momento, e está fazendo aqui exatamente o tipo de transição que o Lula fez:, estão preparando a ruptura. Todo esse pessoal está agindo de maneira extremamente harmônica e convergente. A Celina Vieira me faz uma pergunta que não sei a resposta. Ela diz: Aluno: Você define a histeria como sendo um auto-fingimento hipnótico, onde em que a personalidade vai sendo perdida e o doente já não sabe mais o que é mentira e incorpora o teatro existencial. Em qual doença de Constantin Noica se encaixam os histéricos? Olavo: Eu não sei. Eu não saberia responder a isso imediatamente. Eu teria de reler o livro e pensar. Essa comparação é interessante, mas ela não é fácil. Eu vou pensar um pouco nisso e tentar responder emn uma das próximas aulas. Aluno: Concordo com boa parte de sua análise, mas, no entanto, tenho uma perspectiva particular sobre o evento. Quando se fala que a esquerda perdeu o controle, se faz uma afirmação muito relativa da questão porque não se explora a natureza da própria rede social. O aspecto viral, para mim, é o ponto que fundamentalmente deve ser entendido. Ninguém tem controle sobre esse tipo de manifestação, pois, uma vez lançada na internet, uma mensagem, um movimento ou uma reunião atinge dimensões imprevisíveis, certamente contraditórias. (...) Olavo: Não, definitivamente não é assim. Você lLeia o estudo da Rand Corporation, que já tem quase 20 anos, sobre o que eles chamam cyber wars, as guerras cibernéticas. Este Esse processo é muito mais controlado do que você está admitindo aqui. E a prova disso é, primeiro, a simultaneidade de manifestações convergentes que esse pessoal pode consegue fazer, por exemplo, as primaveras árabes, os protestos na Europa, etc. e etc. — não há conflito. Acontece que, como existe uma ação, existe uma reação, e esta essa reação se utiliza do mesmo meio cibernético. No Brasil, por exemplo, o pessoal patriota, cristão, conservador viu essa cambada indo às ruas para fazer e fazendo protesto, eles então decidiram fazer protestos também. Estes não faziam parte da rede originária, eles improvisaram uma rede imediatamente. Então não é que o processo originário saiu do controle, apareceu um outro processo reativo que, e este processo saiu do controle. E isto isso não sou eu que estou dizendo, é o Valter Pomar, é o homem do Foro de São Paulo. Ele diz: “Nós começamos a coisa e não conseguimos controlar p. Por quê? Porque a direita veio às ruas, não contamos com o elemento espontâneo”. Isto Isso quer dizer que não é verdade que qualquer movimento desses, tão logo lançado, tem um efeito anárquico. Em geral, isso nunca aconteceu no mundo. Preste atenção: em todos os lugares onde eles desencadearam foram desencadeados, os movimentos desse tipo, o movimento foieram convergentes e coerentes, como é na Primavera Árabe, como é nos protestos europeus etc., foi só no Brasil que, por uma circunstância muito local e muito peculiar, houve esse para-movimento ou esse contra-movimento que acabou se revelando majoritário. Isso acontece no Brasil por quê? por causPa daela inexistência de uma direita, quer dizer, se você bane a direita do espaço político, então isso aí é como um impulso, um instinto negado, na psicanálise freudiana: vai para o inconsciente e reaparece com outra cara. Então você tem uma manifestação anormal e neurótica, por assim dizer, de um direitismo que foi reprimido. Isto Isso em geral não aconteceu em outros lugares, quer dizer, você não tem uma massa de pessoas... Veja, segundo as pesquisas, 70% da população brasileira é altamente conservadora, sobretudo do ponto de vista moral, religioso, etc. e etc. Essa gente não tem voz de voto. Você vê que a simples escolha de um sujeito, Marcos Feliciano, para uma comissão causou uma reação de ódio extraordinária. Quer dizer, já não tem espaço para um, quanto mais para 70% da população. Foi com isso que os planejadores da coisa não contavam [1:20] inicialmente. Mas, não posso dizer que não contavam porque eles também fizeram essas manifestações para tirar as cobras da toca, para que fossem vistas e, se mostrarem para podeassim, r ser eliminadas. Eleas só não esperavam que fossem tantas cobras, porque eles próprios não têm idéia da anormalidade da situação que eles impuseram ao Brasil. Se você quer eliminar totalmente a direita do cenário, só tem um jeito de fazer: botar com uma ditadura soviética. Pronto, acabou, daí cala a boca de todo mundo. Mas, não estamos em numa ditadura soviética, estamos em numa fase de transição. Então você mantém essa casca de democracia ao mesmo tempo em que você impede o exercício da democracia. Isso cria uma situação inteiramente anormal. E não existe situação similar em parte alguma do mundo que eu conheça, e foi isso que aconteceu. Aluno: (...) Creio que essa manifestação foi apenas um teste, um laboratório. (...) Olavo: Não. Sempre que você disser que tal coisa foi apenas istoisso, com relação ao movimento comunista, você está enganado. Você precisaria estudar mais a estratégica comunista ao longo do tempo e ver que a multiplicidade de objetivos e o jogo entre os vários objetivos conforme o desenrolar, conforme o andar da carruagem, é inerente ao movimento comunista, eles sempre fazem isso. Nunca dá para dizer que “isto isso foi apenas para tal coisa”, não, isto foi para quatro, cinco coisas diferentes, todas ao mesmo tempo. Isso faz parte da própria natureza do movimento comunista e faz parte da natureza da mente dialética, que, já dizia o Hegel, é o espírito de contradição sistematizado. Então sempre jogar com as contradições, jogar inclusive com objetivos contraditórios. É só na mente liberal que a sociedade é uma máquina que funcionando como uma empresa, que temcom objetivos determinados e meios racionais de alcançar os seus objetivos por uma espécie de via linear. Eles imaginam que a sociedade é assim. O pessoal marxista, que se aprofundou nas leituras de leu Hegel pra caramba, há muito tempo eles sabem que não funciona assim. Quer dizer, que a base da vida histórica é a contradição e é o conflito. Então não adianta você querer imprimir às coisas um movimento linear, você tem de jogar com forças contraditórias. Você está jogando com forças contraditórias, então nunca são apenas duas forças, você temhá várias, e tem de contar com todas elas. Nunca , isto nunca vai acontecer de : o movimento comunista fazer uma coisaalgo apenas como para fazer um teste. Existe o teste também, mas não é apenas, nunca é apenas. São aquelas quatro coisas de que eu falei, e não somente as duas que você está levando em conta aqui. Aluno: (...) (1) aumentar o poder do Estado, criando leis adequadas aos desejos das massas, mesmo que isso implique em dar mais poder ao Estado (...); (2) terminar com a oposição. Olavo: São dois objetivos possíveis, mas, eles não resumem a coisa. Porque você está raciocinando como se o governo Dilma fosse o centro agente, e ele não é, o centro agente é o Foro de São Paulo. E o Foro de São Paulo não está se mobilizando para fortalecer o governo Dilma, e sim mas para fortalecer o processo revolucionário com o governo Dilma ou contra ele — issto é importante. Você precisa ver que os indivíduos que fazem parte do movimento comunista, os líderes, nunca têm uma posição inabalável, eles sempre podem ser trocados a qualquer momento. A não ser naquelas raras ocasiões em queonde um pequeno grupo consegue obter o controle total, mas isso não é como uma Dilma, a Dilma não é Stalin. A Dilma, aposto, não pode ver sangue, se ela vir sangue na televisão, desmaia. Você vê os pronunciamentos dela, a mulher está tremendo, gaguejando. A Dilma é só exibição de força, há rumores de diz que ela grita com as pessoas, até um dia deu uma bronca em num cara chefe do departamento, e o cara começou a chorar. É porque, no Brasil, todo mundo está capado, então até a Dilma parece valente. Mas o primeiro que gritar com a Dilma, a manda para o hospital, como foi com a Maria do Rosário: “O que é isso? O que é isso?”. Essa mulher não é de nada, realmente não é de nada, de nada. Ela foi era uma qualquer que pegaram láfoi escolhida, porque não tinha outra para entrar no lugar, então botaram ela lá. Ela não tem capacidade para ser uma ditadora do Brasil. O Foro de São Paulo não fez tudo isso para fortalecer o governo da Dilma. I? Não, isto sso é impossível, meu filho. Agora, eles lançam o movimento e, se o governo Dilma se mostrar capaz ou de acompanhar a velocidade da ruptura ou de controlar e estrangular a oposição, ela pode continuar por mais algum tempo. Veja, eEsse negócio de ser contra o culto da personalidade está profundamente arraigado no movimento comunista. Eles não gostam de que nenhuma personalidade se projete além do estritamente necessário. Eles permitiram que o Lula fizesse isso por quê?porque Porque o Lula é o militante mais humilde que já houve no movimento comunista, o Lula nunca bate de frente com ana decisão da maioria. A carreira dele no sindicalismo foi feita assim, ele deixava os acontecer a discussão caras discutirem na assembléia e, saía para tomar tomava umcom cafezinho, quando voltava, e perguntava o que tinha sido decidido, então : “O que vocês decidiram?”, “Tal coisa”. Ele vestia a camiseta e saíai repetindo o que a maioria quis. O sucesso dele no Foro de São Paulo foi, a mesmíssima coisa. O Lula tem um amor tão profundo pelo movimento revolucionário, que ele sacrifica tudo, inclusive a sua própria vaidade, pelo movimento revolucionário. Nesse sentido, ele não tem vaidade nenhuma. Por essa sua capacidade conciliatória dele é que o deixaram lá, ele pois nunca criou problema para ninguém. O LulaVeja, ele tem uma longa carreira de serviços prestados, e a Dilma, não tem. Exterminar a oposição e aumentar o poder do Estado são possibilidades que terão de ser exploradas conjuntamente com outras possibilidades opostas. Isso é sempre assim. Você aqui ainda está um pouco raciocinando um pouco na base do objetivo linear: o que eles querem é isso ou aquilo. No movimento comunista, nunca, nunca, nunca é assim. Você veja, por exemplo, que oO Barack Obama, por exemplo, é uma criatura do Saul Alinsky, do Frank Marshall Davis, de uma liderança comunista. E, eles o fizeram e o colocaram lá, certamente com a ajuda da KGB e comprovadamente com a ajuda de forças islâmicas. Tão logo o colocam lá, começam a antagonizáa-lo desde a Rússia. Veja, comI isso significa que o esquema comunista e eurasiano domina os dois lados do cenário. E, eles sempre fazem assim: eles produzem a divisão, eles criam uma possibilidade e criam instantaneamente ou logo depois a possibilidade contrária, porque senão eles estão arriscando tudo em numa coisa só. Você acha que o movimento comunista internacional comunista vai arriscar tudo em num Zé Mané que tiraram do lixo para botar na presidência dos EUA? Não, eles põem o cara lá e já têm o plano B, o plano C, o plano D e o plano E. Aluno: Eles que dão as alternativas... Olavo: Eles criam o conjunto das alternativas. Mas, escuta, oO pessoal marxista começou lendo Hegel. Quantas pessoas que você conhece no Brasil que são capazes de ler Hegel? Não quer dizer que os líderes atuais sejam expert em Hegel, Valter Pomar certamente não é. Mas, como eu disse, a cultura comunista já incorporou essas coisas, de maneira que você pode ter um líder burro que, se seguir a receita, vai funcionar mais ou menos. Assim como numa em uma fábrica de qualquer coisa, nem todos os empregados precisam compreender todo o processo da produção, muito menos a estratégia geral da firma. Eles vão agir de maneira harmônica com o conjunto, como Valter Pomar está agindo. Aluno: Gostaria de saber se as pessoas que entraram agora no curso receberãoam o mesmo tempo e atenção que o senhor dá aos veteranos, como, por exemplo, a correção dos exercícios e do trabalho final. Olavo: Certamente. Agora, quanto aos trabalhos, eu estounão lendo tudo o que me mandam, mas eu não vou começar a mexer com isso ainda porque, quando começar, vai ser uma trabalheira danada para vocês e para mim também. Eu vou avisar quando vou começar isso aí. Aluno: Ontem foi noticiado no na Globo, Jornal Nacional, que o movimento MPL, por notificação de seus líderes, está se retirando dos próximos protestos, pois os objetivos deles já haviam sido alcançados. (...) Olavo: Não é que os objetivos foram alcançados, é precisamente porque não foram alcançados. Houve uma reação [1:30] desproporcional, eles não sabem o que fazer e agora tem têm de parar para pensar. Aluno: (...) Logo, a não ser o movimento gay, [1:30] que hoje de manhã tinha confirmação de participação, em São Paulo, com mais de 70 mil contra o Pastor Feliciano, e os já tradicionais vândalos, parece-me que a população do protesto, como o senhor observa, será formada por pessoal não de esquerda. Olavo: Se o movimento continuar nos próximos dias, será essa turma patriota, cristã etc. E, que eu recomendo que não façam isso, eu recomendo que voltem para casa. Façam novos protestos daqui a um mês,ou dois meses, mas não agora, porque . Por quê? Eesses protestos da direita teriam valido a pena se houvesse uma liderança organizada capaz de tomar a dianteira e fazer alguma coisa efetivamente. Mas acontece que o único elemento organizado que existe aí à direita são as Forças Armadas, e elas parecem que não estão não estar querendo interferir. A chance de interferir já passou, que foi quando o STF condenou os mensaleiros. O Joaquim Barbosa deveria ter imediatamente convocado as Forças Armadas: “Prendam esses caras de qualquer jeito”, quer dizer, execute a sentença. Como ele não fez isso, e as Forças Armadas também não tomaram a iniciativa de fazer, então os mensaleiros estão todos à solta, e foi tudo como se nada tivesse acontecido. Este Esse movimento daria às Forças Armadas um pretexto para agora agir agora e fazer cumprir a lei. N, não com um golpe militar parae tomar o poder, porque, se der houver um golpe militar e a tomada tomar do poder, eles provam que são completamente loucos. Deixa Dona Dilma lá, só vão fazer cumprir a lei mesmo contra a vontade da Dona Dilma: “Prendemos os mensaleiros, estão aqui em prisão militar e, ninguém vai tirá-los daqui, pronto, acabou”. Se as Forças Armadas fizessem isso, ganhariam uma autoridade tremenda sobre todo o país, e daí teriam envergadura para investigar, ir atrás do Foro de São Paulo, narcotraficantes, banditismo etc. Tudo isso sem tomar o poder, sem dar o golpe. Seria apenas uma iniciativa: já que ninguém está cumprindo a lei, fazemos cumprir, doa a quem doer — que é exatamente o que a população está pedindo. Vocês não esqueçamcem que, em 1964, ninguém pediu que os militares tomassem o poder, ninguém. NaSe você pegasse aquela massa toda que estava na Marcha da Família com Deus pela liberdade, ninguém esperava e perguntasse: O que você espera, que tenha houvesse um governo militar? Ninguém esperava, e sim isso, esperava que que tirassefosse tirado o João Goulart e fizesse houvesse nova eleição dali a seis meses. Era isso que todo mundo estava pedindo. Daí os militares chegaram lá, gostaram de ficar e ficaram por vinte anos, e saíram queimados. Aluno: E a responsabilidade dos militares não é para com o governo, é para com a República. Olavo: Claro. Ela está lembrando que a responsabilidade dos militares não é para com o governo, é para com o Estado brasileiro, com a República. Então eles têm o direito e a obrigação de fazer cumprir a lei quando ninguém mais está cumprindo. Agora, emEm 64, disseram que iam fazer isso, mas não fizeram isso, tomaram o poder, o que foi uma burrada fora do comum. Mais ainda: se você perguntar por que nNão existe direita organizada no Brasil , é porque a demolição da direita começou no governo militar. Eles tomaram o poder, falaram “agora os civis calam a boca”, caçaram Juscelino Kubitschek, caçaram Carlos Lacerda, caçaram Ademar de Barros, acabaram com toda a organização. As organizações que criaram a Marcha da Família, que foi a maior manifestação pública no Brasil até então, todas foram todas desativadas, todas saíram do cenário. Quando aEntão, quer dizer, tinha a sociedade civil organizada que pediu a ação dos militares, elesos militares foram lá e desorganizaram a sociedade civil e criaram um governo militar de tecnocratas, e, naturalmente, deu no que deu. Vocês querem tudo isso de novo? “Ah, precisa de um golpe militar”, o sujeito que fala golpe militar na minha frente tem de apanhar, por que vocês não aprenderam nada, não? Não precisa de um golpe, precisa haver uma intervenção militar para fazer cumprir a lei — essa é outra coisa completamente diferente. Eu acho que por hoje é só, já fomos longe de mais. Tem mais algumas perguntas que vou deixar para a semana que vem. Aqueles que quiserem ajudar o Instituto, escrevam para a Marcela, e ela lhes dará as explicações necessárias. No meu entender, não é se eu entendi o problema, se eu entendi o que a Imigração está querendo, não é uma questão apenas de ter o dinheiro para pagar a mais e deixar uma reserva em caixa, não é isso. Eles precisam de compromissos: o doador que se compromete a dar “x” por mês durante “x” tempo. E para aqueles que quiserem contribuir anonimamente, também há solução. Mas a Marcela explica depois para vocês. É marcelacandrade@gmail.com Até a semana que vem, muito obrigado. Transcrição: Jussara Reis de Abreu, 24/07/2013 [jussarareis10@gmail.com] Revisão: Elisabete Franczak Branco, 17/09/2014 [elisabete_franczak@yahoo.com.br]