Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 207 15 de junho de 2013 Boa noite a todos. Sejam bem-vindos. Eu estava vendo aqui pelo chat a extrema preocupação dos nossos alunos quanto à situação do Brasil e à situação mundial do momento. Exatamente por isso, queria tirar a aula de hoje para fazer alguns comentários sobre o que é necessário fazer para se compreender aproximadamente o que está acontecendo. Se vocês se lembram da minha apostila “Problemas de métodos nas ciências humanas”, devem se recordar que o princípio fundamental de todo o estudo da área é que a ação humana é empreendida por seres humanos, e os seres humanos agem segundo intenções, e as intenções por sua vez são delimitadas pelo horizonte de consciência do agente. É claro que todo mundo pode ter opiniões a respeito do que está acontecendo, mas as opiniões não querem dizer absolutamente nada. E nós, se estamos aqui neste curso, é porque, precisamente, temos o intuito de transcender o universo da mera opinião e chegar a ter algum conhecimento, alguma compreensão efetiva na medida do possível e na medida das nossas limitações pessoais. De modo que todo mundo pode errar, podemos chegar a ter uma visão totalmente fantasiosa das coisas, mas não há desculpa para não tentar. E tentar significa, em primeiro lugar, perguntar o que é preciso fazer, ou seja, como posso chegar a ter uma visão do que está acontecendo. Partindo do princípio da intencionalidade da ação humana e do horizonte de consciência, é claro que a primeira providência é tentar rastrear quem são os agentes e, em segundo lugar, você se documentar a respeito das intenções desses agentes e da visão geral (do horizonte de consciência) que delimita essas intenções. No caso, se vocês acompanharam o meu debate com o Prof. Alexander Dugin, sabem que existem três forças agentes, e cada uma delas tem uma longa história, uma longa tradição e, evidentemente, o material escrito que documenta essa evolução é enorme. Então, façamos a seguinte pergunta: De todas as pessoas no Brasil e, aliás, também no mundo que estão opinando a respeito, quais fizeram algum esforço para, no mínimo, pelo menos se documentar a respeito dessas tradições, de qual visão do mundo, qual horizonte de consciência que as delimita, e como compreender, em função desse horizonte de consciência, as intenções que estão por baixo dos planos e, por fim, os próprios planos e, no fim, as ações? Note bem, as ações não traduzem exatamente os planos, os planos não traduzem exatamente as intenções e as intenções não traduzem exatamente o horizonte de consciência, e o horizonte de consciência não traduz exatamente a totalidade do que se passa. Então, em cada caso, você vai ter de rastrear tudo – desde as ações até às intenções e o horizonte de consciência –, tendo em vista que, mesmo comunidades amplas e altamente preparadas, constituídas de intelectuais de primeiro plano, podem ter um horizonte de consciência mais limitado do que a situação real na qual estão agindo. Ou seja, o ideal é que o estudioso (nós) tenha o horizonte de consciência mais amplo do que o de todos os personagens envolvidos, porque se os agentes enxergam mais do que nós, então certamente são eles que vão nos entender e não nós que vamos entendê-los. Digo isso só como uma advertência inicial. Não estamos aqui para trocar opiniões, nem para dar palpite, nem para agir politicamente: estamos é fazendo um esforço monstruoso para entendermos o que está acontecendo. Quando propus o curso, disse que é exatamente para pessoas que querem compreender. Às vezes o esforço de compreensão pode ser tão complexo e pode requerer tanto tempo de estudo e de exame que você jamais chega a ter uma oportunidade de ação. Se você, por exemplo, estudar a vida de Karl Marx, ele teve alguma ação na I Internacional, mas se você comparar a ação dele na I Internacional com o conjunto da vida de estudos que teve de empreender para escrever O Capital, A Ideologia Alemã e todos os demais livros, você verá que a ação dele foi bastante tênue e não verá nenhuma ação afetiva em vista dos planos e intenções dele antes de 1917. Antes disso, houve uma “revoluçãozinha” comunista em Portugal, em 1910, mas não durou uma semana. Entre o Manifesto Comunista (1844) e a Revolução Russa, transcorre mais de sessenta anos. Isto quer dizer que Karl Marx jamais viu a ação dos seus pensamentos. Se não estamos dispostos a pensar num prazo igualmente longo, então não é que não podemos fazer nada, não podemos sequer compreender o que estão fazendo. A ânsia que as pessoas têm de opinar, de interferir nas coisas, às vezes é apenas uma perda de tempo porque, por mais que você opine, a sua opinião não vai interferir absolutamente nada. E todo arremedo de ação empreendido assim é como uma bolha de sabão: se desfaz. A nossa missão aqui é criar as condições intelectuais para que uma próxima geração possa entender o que está acontecendo e possa, então, talvez, fazer planos para um futuro. Ora, aí esbarramos também no seguinte ponto: todas as tradições espirituais da humanidade, todas as filosofias, todas as religiões antes do advento do Cristianismo encaravam esta vida, a nossa existência sobre a terra, como se fosse um erro ou um mal. É o negócio do Heráclito: existe um logos eterno, impassível e imutável e existe, embaixo dele, o universo que é constituído de luta, conflito, sofrimento, e a finalidade de tudo é apenas a cessação, o fim deste movimento e, de certo modo, a reintegração de tudo na eternidade. Então a existência é vista como um pecado, como um erro. Isto é, no fim das contas, a visão gnóstica. Isto quer dizer que a visão gnóstica antecede muito àquilo que chamamos “gnose”, ela está espalhada no mundo hindu, na cosmovisão chinesa. Se você comparar, por exemplo, os movimentos que aparecem no I Ching com a idéia do Tao, da eternidade imóvel que está no centro de toda ação, então a ação se desdobra como se fossem dois galhos de uma árvore indo para um lado, e depois se reintegra no Tao. Ou seja, esta visão de uma espécie de pulsação: dias e noites de Brahman: existe a manifestação do universo, o universo é criado, se expande, aparece, se expande e depois é recolhido, depois vem outro universo e assim por diante. Tudo isso implica a noção de que a existência no tempo é uma coisa má, é um erro, é como se fosse um pecado cósmico. E a única possibilidade de paz é o retorno à eternidade, à cessação de todo movimento, a cessação de todo desejo, de todo sonho, de toda esperança e etc. Você verá que, no Budismo, todo o esforço ascético é para a extinção do desejo. Ora, se o sujeito não tem desejo, ele não faz absolutamente nada. Não fazer nada, abster-se de toda a ação é como se fosse a antecipação, na escala da individualidade humana, da cessação de toda atividade cósmica e da [00:10] extinção de tudo e, portanto, o retorno a uma eternidade imóvel. Isto quer dizer que o aspecto que predomina na noção de eternidade em todas essas tradições é o da eternidade imóvel, da perfeita imobilidade. Ora, o aspecto criador da eternidade, a eternidade como ato, escapa a todas essas tradições e o ato criador é visto como se fosse uma deficiência. A eternidade é a verdade imóvel, eterna, imutável e a total ausência de ação. Com o Cristianismo aparece a noção da eternidade como eminentemente ativa e criativa. Vimos nos textos de Louis Lavelle que a característica principal do Ser é o ato, o Ser é ato, quer dizer, o ser não é uma pura imobilidade. Portanto, a noção da existência e do movimento existencial como um erro a ser corrigido não faz o menor sentido no Cristianismo. O que o Cristianismo promete para as pessoas não é um retorno à eternidade imóvel, nem a reintegração das individualidades numa universalidade abstrata, ele promete uma coisa que se chama a salvação da alma e o Paraíso, portanto a continuidade da existência num outro tipo de temporalidade. Quando ele fala da ressurreição da carne, está se referindo a uma corporalidade. Não sabemos como será essa corporalidade, será uma coisa completamente diferente. Mas, se não há transformação, se não há mudança, se não acontecesse nada, não faz sentido falar em corporalidade. Isto quer dizer que o Cristianismo traz uma ruptura nesta visão do mundo, uma ruptura e, na verdade, uma inversão da perspectiva. E é justamente por isso que o Cristo diz, “Todos que vieram antes de mim são ladrões”. O que eles estão roubando? Estão roubando a sua eternidade, estão roubando a sua salvação e estão propondo, como aspiração máxima, a cessação da existência. Ao passo que o que o Cristo está falando é a passagem a outro nível de existência, a outra temporalidade, a outra corporalidade que não será extinta jamais — isto é fundamental —, não haverá mais morte, não haverá mais extinção. Isto quer dizer que o Cristianismo é radicalmente incompatível com todas essas tradições. Eu levei quarenta anos para entender isto aqui. Durante muito tempo acreditei na história do René Guénon, que baseado em frases de Sto. Agostinho, Joseph de Maistre e outros, disse que o Cristianismo sempre existiu. Ele não apareceu no ano I da Era Cristã, mas ele existia desde o começo dos tempos. Existe uma espécie de supra-cristianismo supra-histórico do qual o Cristianismo é apenas uma manifestação. Nesta concepção, o que acontece é que o cristianismo histórico passa a ser apenas uma manifestação aparente de uma verdade universal imutável que o transcende. Então, o Cristianismo e a vinda do próprio Cristo se tornam um aspecto da Maya, do mundo ilusório destinado à extinção. E a manifestação individualizada do Cristo é vista, então, como um aspecto inferior, como se fosse um aspecto ilusório que camufla a universalidade divina. Então, a existência temporal e individualizada é vista aí como uma coisa muito inferior e quase como uma irrealidade. Essa perspectiva guenoniana tradicionalista levava a uma espécie de dissolução da história do Cristo num cristianismo anterior, universal, abstrato e imóvel, por assim dizer. Então o Cristo seria como na tradição hindu: você tem o Brahman, que é a realidade suprema, e você tem Ishvara, que é a manifestação externa, por assim dizer, e humana, a face humana da divindade. E, no fim, Ishvara, evidentemente, é reabsorvido em Brahman. No Cristianismo, no entanto, se diz que o Filho é gerado e não criado, Ele é consubstancial ao Pai. Portanto Ele não vem depois, Ele é o mesmo, Ele é outra Pessoa, outra face, mas não é posterior. Ele pode ser posterior na ordem lógica, não na ordem temporal. Portanto, essa face não se destina a ser reabsorvida. O Filho não será reabsorvido no Pai e o Espírito Santo não será reabsorvido no Pai, não vai sumir tudo. Caso suma a perspectiva dessa visão cristã da existência, voltamos à perspectiva da extinção. Então isto quer dizer que todo e qualquer movimento se destina apenas a produzir a extinção. Por baixo de todas as promessas revolucionárias, você tem a visão gnóstica da extinção de tudo. Portanto, o fato de que todas as revoluções, todos os progressos técnicos etc. acabem simplesmente aumentando o sofrimento dos seres humanos, não é um erro de percurso, é um elemento inerente à própria dialética de uma ação, cuja única finalidade é a sua própria extinção. Então, se cria uma espécie de máquina infernal de produzir mudança, e mais mudança, e mais mudança naquela perspectiva verdadeiramente guenoniana de que a aceleração do tempo produzirá a cessação do tempo e, portanto, a reabsorção de tudo na eternidade imóvel. Isso está por baixo de toda a mentalidade revolucionária, sem que os próprios revolucionários às vezes o saibam. Duvido muito de que Lenin ou Stalin estivessem conscientes disso aí. São autores que, se você estudar, pode delimitar o horizonte de consciência deles e marcar exatamente qual é o círculo do que eles estão enxergando e o que está por trás da ação deles e por trás da pessoa deles, e que eles não enxergam. Ou seja, em que medida a ação deles reflete forças causais anteriores mais complexas que os determinam, sem que eles percebam. A perspectiva cristã não está condicionada às transformações histórico-terrestres, por quê? Porque Deus não prometeu a salvação do planeta, nem a salvação da espécie humana, mas a salvação de alguns indivíduos, só isto. Isto quer dizer que toda a perspectiva de ação que seja orientada para resolver os problemas terrestres na escala puramente terrestre, como é o caso do movimento revolucionário, ecoa a dialética da extinção e vai terminar sempre em extinção. Quer dizer, você vai trocar um inferno por outro inferno, por outro inferno, por outro inferno e assim por diante. Nós sabemos que até mesmo os avanços técnicos, os progressos científicos, etc. e etc. criam tantos problemas quantos resolvem. E pior: criam problemas novos que você não entende. Por exemplo, se o sujeito descobre um tratamento para alguma doença, eu digo: quanto tempo leva para você perceber que esse tratamento pode ter efeitos colaterais, pode causar danos? Certamente, algum [00:20] tempo. Mesmo as pesquisas experimentais que você faça não lhe permitirão ter o controle integral da coisa, às vezes passam décadas antes que se perceba que um remédio miraculoso faz mal. Do mesmo modo, todos os progressos da mecânica, das telecomunicações, da indústria em geral, todos eles resolvem um problema e criam outro. Isso faz parte da natureza da vida terrestre, não porque ela seja essencialmente pecaminosa e porque a única solução para ela seja a extinção, mas porque toda ela decorre em vista da conquista de outro estado por certos indivíduos. Isto quer dizer que, se você é um sujeito cristão, então toda a sua ação se desenrola em dois planos ao mesmo tempo: no plano terrestre histórico e no plano da salvação. E o plano da salvação, evidentemente, predomina. Vocês devem ter ouvido o Papa Francisco I dizer outro dia que é obrigatório o cristão participar da política, porque é um ato de caridade. Porque é ato de caridade: isto é importante. Ele não disse que temos de participar da política para resolvermos todos os problemas, para criamos uma sociedade melhor, justa, etc. e etc., para alcançarmos um estado de equilíbrio e de justiça perfeita, ele não disse nada disso. Ele disse que temos de participar porque é um ato de caridade, ou seja, mesmo que não funcione, mesmo que não tenha efeitos históricos, é uma obrigação nossa. Isto quer dizer que o objetivo cristão não é fugir da existência, não é retirar-se da existência, não é a cessação de todo desejo e de toda ação, mas é de uma ação que é inspirada na caridade e não numa esperança utópica. Isso aqui é absolutamente fundamental. Mas àqueles que não têm essa perspectiva da salvação da alma, só lhes resta o quê? A esperança utópica, que é a mesma coisa que a dialética da extinção. Este é um primeiro problema que temos de resolver quando nos dedicamos a esses estudos. Quando vemos que tudo está mal parado, que o mundo está indo para o buraco, que as perspectivas são negras, para o indivíduo da mentalidade revolucionária e utópica, portanto gnóstica, isso é o fim, não há perspectiva, não há o que fazer. Mas para o cristão, quanto pior a situação, maior o motivo que ele tem para agir, porque ele não está agindo como base numa esperança histórica futura, mas com base num dever de caridade. Isso modifica completamente a perspectiva. Se a ação é feita apenas em vista de um resultado histórico a ser obtido, então se não houver resultado, não faz sentido fazer nada. Agora, da perspectiva cristã, mesmo que não haja nenhum resultado terrestre, há um resultado eterno: a salvação de sua alma e das outras almas. Isto quer dizer que tudo aquilo que não der resultado neste mundo, pode dar resultado no outro. Isto quer dizer que toda e qualquer ação sempre fará sentido se você não estiver totalmente intoxicado pela idéia dos resultados históricos a serem alcançados. Uma vez adotado então esta perspectiva: “Eu tenho que agir e fazer o que é certo, não porque haverá tal ou qual resultado, mas porque é uma questão da salvação da minha alma e das outras almas. E, se der para alcançar os dois resultados, um terrestre e um celeste, ótimo; se não der, alcançar pelo menos o celeste.” Então a ação sempre fará sentido, desde que você não esteja embriagado e hipnotizado pela visão dos resultados históricos, e desde que a sua perspectiva não esteja limitada a esse horizonte histórico. Na medida, porém, em que o sujeito perde a visão do destino celeste e tudo o que sobra para ele é o horizonte histórico, isto quer dizer que ele vai ter de acreditar necessariamente num sentido da história, e acreditar que esse sentido se realizará. Outro dia, lendo um livro muito interessante, Ensinamentos Secretos ou Discretos do general Charles de Gaulle1, ele dizia o seguinte: “Nós, os cristãos e os marxistas, temos em comum a fé num sentido da história”. Isso é completamente errado. E nesta frase se explica todos os erros e todos os fracassos do general de Gaulle, que é um dos governantes mais presunçosos de todos os tempos e um dos mais profundamente fracassados. Veja que toda a história dele da grandeza da França, la grandeur, só conseguiu quebrar as pernas da França um pouco mais e liquidar com a sua carreira política e sair com o rabo entre as pernas. Mas, ouvindo o sujeito falar, você vê que era de uma presunção, ele se achava uma espécie de sábio profeta, que sabia todo o movimento da história, para onde ia dar. Não sabia coisa nenhuma. Em primeiro lugar, numa perspectiva cristã, você não pode acreditar num sentido da história, porque não existe uma entidade chamada humanidade, uma entidade que tem unidade substancial e que continue existindo independentemente dos indivíduos. A humanidade só existe nos indivíduos que a personificam, e esses indivíduos saem do tempo, eles saem da história. Para o sujeito que morre, a história acabou naquele momento, ele passou para uma outra. E mais ainda: se você entende o que é imortalidade, entende que uma só alma imortal durará mais do que toda a história humana, e toda a história humana será para ela apenas um momento, um piscar de olhos, não foi mais nada. Como diz a Bíblia, o que é um milênio aos olhos de Deus senão um piscar de olhos? Não estaremos nessa escala, que é a escala de eternidade, mas na simples escala de imortalidade, que não é eternidade, porque o que é eterno existiu sempre, e nós começamos a existir num determinado momento. Simplesmente você não vai morrer mais, não existe mais a morte. Na escala de uma existência imortal, a história humana inteira significa muito pouco. O que terá sobrado da história humana inteira são as almas que foram para o paraíso, é isso que sobrou, o resto foi jogado no lixo. A continuidade, que é o requisito fundamental para que uma coisa tenha sentido, é algo que não existe na história. A história é escandida em momentos e cortada em áreas e regiões que não se conectam umas com as outras. Veja, hoje em dia que você tem a rede mundial de telecomunicações, ainda assim você vê os abismos de informação e de conhecimento que existem entre diferentes sociedades, e vê que uma não está sabendo nada do que está se passando na outra. E às vezes quando imagina que sabe, é pior ainda. Você imagina, agora, vinte e sete países fazendo manifestações por causa das tarifas de ônibus em São Paulo? Você imagina, esses holandeses e chineses têm sofrido horrivelmente com as tarifas de ônibus em São Paulo. E as tarifas são um negócio absurdo porque vai dar um prejuízo de U$ 5 por mês para cada pessoa. Quando uma coisa deste tamanho, um problema regional, miúdo, insignificante se torna motivo de manifestação em vinte e sete países, aí já não é uma questão de que as pessoas não estão informadas, não: não é que elas não estão informadas, elas estão no mundo da lua, todas. Mais ainda, sabemos que haverá manifestações nos próximos dias contra o Estatuto do Nascituro, “porque o Estatuto do Nascituro obrigará as garotas estupradas a ter os seus filhos”. Mas o Estatuto não obriga a isso. Então estão fazendo manifestação contra uma lei que não existe. Isto é um fenômeno maravilhoso, se você pensar bem. Ou seja, o alvo do seu protesto não precisa existir. Você pode fazer uma manifestação contra uma pessoa que não existe, que nunca nasceu ou que já [00:30] morreu, ou contra uma lei que ninguém propôs e muito menos votou. É claro que já estamos falando de um ambiente alucinatório, onde os pretextos das ações não têm nada a ver com elas, e teríamos de buscar, por trás delas, outros esquemas muito mais complicados que as explicariam. Mas, todas as pessoas que participam dessas manifestações têm a esperança de que as ações delas resultarão numa sociedade mais justa. Ora, sabemos no que deram os outros projetos de sociedade justa: uma sangueira e uma quantidade de sofrimento inimaginável. Não obstante, as pessoas vão continuar. Por quê? Porque elas acreditam na continuidade da história e no sentido da história, e acreditam que elas encarnam o sentido da história. Ora, o sentido da história não existe e não pode existir. Para que ele existisse, seria absolutamente necessária a continuidade e a unidade, a homogeneidade cognitiva de toda espécie humana, não cognitiva em relação à estrutura do seu modo de conhecer, mas com relação ao conteúdo do seu conhecimento. Ou seja, todos os seres humanos precisariam estar informados de tudo e participando conscientemente do mesmo enredo. Mas, na verdade, se você olhar a história humana, ela se parece mais com uma confusão de papéis, em que o ator que treinou para participar do Otelo entra na peça do Hamlet e o do Hamlet entra na do Henrique V, e assim por diante. Quer dizer, os papéis subjetivos que as pessoas desempenham — que elas acreditam desempenhar — têm pouco ou nada a ver com os papéis dos seus interlocutores, daqueles que contracenam com eles e têm menos ainda a ver com a situação total, ou seja, com o enredo total da peça. O simples fato de que morremos, de que a vida humana tem um prazo limitado, e de que, quando você morre, tudo o que você sabe morre com você, e o fio da sua ação é cortado implacavelmente, ou seja, ninguém age depois de morto ou pelo menos ninguém age controladamente depois de morto, nos mostra que a idéia de um sentido da história é absurda. Você pode observar às vezes uma continuidade local e temporária, quer dizer, um processo que começa, se desenrola e termina. Mas esse processo não se integra em outros processos que estão se desenrolando em outros lugares. Por exemplo, se você pegar uma coisa pequena, como essas manifestações que estão havendo no Brasil ou o Movimento Modernista de 22. O que ele tem a ver com a Revolução na China? Absolutamente nada. Não é possível conectar uma coisa com a outra. No entanto, dentro da perspectiva do sentido da história, tudo isso deve poder ser integrado e encontrar a sua explicação dentro de uma chave explicativa global, que não existe e não pode existir. Aqueles cuja ação está inspirada numa idéia de sentido da história entram necessariamente na dialética da extinção. E é nisto que está ocupada quase que a totalidade das classes falantes e agentes no mundo. Existe uma massa enorme que não está participando disso, que não conhece o sentido da história nem pretende conhecê-lo, mas conhece apenas a curva da sua própria existência: o sujeito sabe que nasceu, cresceu, casou, teve filho, vai trabalhar e um dia vai morrer, e às vezes pensa que tem de deixar umas coisas para os filhos, etc. e etc. Isto quer dizer que a visão temporal desse indivíduo está condicionada à sua existência biológica, o que é uma coisa muito mais realista no fim das contas do que você pensar em sentido da história. Aqueles que cuidam exclusivamente da sua vida privada têm uma visão das coisas que é mais proporcional com a realidade das coisas do que aquele que embarca num projeto baseado no sentido da história. Quando entramos nesse tipo de estudos, temos de levar isso em conta, porque a idéia de sentido da história está tão profundamente arraigada na cultura contemporânea, que tentamos interpretar as coisas em função de uma noção do sentido da história tal como nós a temos. E se você pensar bem, conhecer o sentido da história é conhecer o futuro, mas o fato é que não conhecemos. E não podemos conhecer não só por esse fator que eu disse, mas por aquele fator enfatizado por Eric Voegelin: para saber o sentido da história, você precisa saber onde e quando a história vai terminar. Por exemplo, você conhece o sentido de uma peça de Shakespeare porque a peça termina. Agora, se você entrasse no teatro, e aquela coisa não termina nunca mais, você nunca mais vai sair do teatro, qual é o sentido da história? Não tem sentido algum. Quando você pensa que é o sentido, depois acontece outra coisa e muda o sentido. Nós não sabemos onde vai terminar a história nem quando vai terminar, portanto não podemos conhecer o sentido dela, mesmo que esse sentido existisse, mesmo que esse sentido como totalidade existisse, do ponto de vista divino: Deus sabe o sentido da história. Eu acho que Deus não sabe o sentido da história porque Deus não se interessa pelo o que não existe. Então, o sentido da história não é um mistério humano que estamos tentando desvendar, e cuja solução só Deus sabe, não: é uma coisa que não existe e que, portanto, o próprio Deus desconhece. Se, no Juízo Final, você chegar para Deus e falar, “Passamos tudo aquilo, sofremos. Agora, por favor, me explica o sentido de tudo isso”, Deus vai dizer: “Do que você está falando? Eu já tirei você daquele negócio, trouxe você aqui para o paraíso e você ainda está reclamando?” — é isso que Ele vai dizer. Ou seja, Deus não pode lhe dar uma explicação quanto a uma coisa que não existe. Quanto à explicação ou a redenção de todos os sofrimentos individuais, um por um, é outro problema completamente diferente. A simples idéia de um juízo final implica um resgaste do sofrimento, uma cura do sofrimento, uma compensação pelo sofrimento na escala de cada um. Não faz sentido você ser compensado pelos sofrimentos do vizinho, muito menos pelos sofrimentos de toda a espécie humana. Ora, a idéia de sentido da história está reivindicando uma compensação pelos sofrimentos de toda a espécie humana, o que não faz sentido algum porque a espécie humana não peca em conjunto, um não responde pelo o que o outro fez. É claro que existe, no plano temporal, alguma continuidade em alguns processos históricos. E compreender esses processos é compreender a sua unidade como começo, meio e fim. Porém, só conseguimos fazer isso quando nos livramos do fantasma do sentido da história. Falo: não estou perguntando o sentido da história, estou perguntando o sentido disso aqui que aconteceu. E quando falo o sentido, não é o sentido último, porque o sentido último seria ou o sentido daquela série de acontecimentos dentro da escala maior do sentido da história, ou o sentido daquilo aos olhos de Deus, que não sei e não posso saber. Quando falo o sentido disso, é o sentido de uma série de acontecimentos dentro de um quadro de referências limitado. Limitado pelo quê? Pelo horizonte de consciência dos participantes e pelo meu próprio horizonte de consciência. Isso é o que podemos realmente conhecer. E, note bem, alguns desses processos podem ser bem amplos, podem ser até de escala quase mundial. Mas, se já entramos nisso com aquela idéia de que compreender uma coisa é encaixá-la dentro do sentido da história, aí não vamos entender é coisa nenhuma nunca. Posso entender, por exemplo, o processo de formação desse esquema de poder globalista considerado em si mesmo e na confrontação, na convivência, com outros projetos globalistas e com aquilo que sei da vida humana, da estrutura da existência, etc.. Isso é o máximo que eu posso fazer. Agora, saber qual vai ser o sentido último disso dentro do conjunto da história, não tem como saber e não faz sentido perguntar. [00:40] Agora, o que é certo, é um dado histórico, é que todos os personagens envolvidos nesses esquemas acreditam no sentido da história e acreditam que eles o encarnam. Este é o dado número um. Karl Marx acreditava no sentido da história, acreditava que ele seria o parteiro ou pelo menos o intérprete, o porta-voz desse sentido da história. Esse pessoal islâmico também acredita que existe um sentido da história, a história culminará na dominação islâmica mundial - todo mundo vai ser muçulmano-, e o sujeito que participa disso acredita que é um agente de maior ou menor escala, por modesto que seja. Ele pode ser um governante de um país islâmico ou pode ser um simples homem-bomba. Ele acredita que é um agente na construção ou no parto desse sentido da história. Do mesmo modo, o pessoal globalista, que se reúne aí no Bilderberg, CFR etc. tem a sua própria visão da história e acredita que a está realizando de algum modo. Mas, é evidente que a providência número um a ser tomada, é se documentar. Ou seja, você não pode adivinhar o que essas pessoas estão pensando, você tem de ouvir o que elas dizem, ler o que elas escrevem, e tentar entender aquilo, primeiro, nos termos do próprio personagem e, segundo, circunscrevendo o horizonte de consciência para abranger aquilo que ele não enxerga e que talvez os outros agentes enxergam, ou que pelo menos você enxerga. Às vezes pode acontecer de você confrontar a ação de um desses personagens com algo que só você sabe, isso é perfeitamente legítimo. Se você tem uma informação precisa, correta e comprovada, que ninguém mais tem, então pode confrontar isso com a ação de agentes de muito maior escala que você. O fato de o indivíduo ter um raio de ação superior não significa que tenha um horizonte de consciência superior a você. Se vocês acompanharam o meu debate com o professor Dugin, vão ver que o raio de ação dele é imensamente maior, mas o horizonte de consciência dele é só uma parcela do meu. Ou seja, eu entendo o que ele entende, mas ele teve de dificuldade de entender o que eu entendia, aquilo que eu estava dizendo era novo para ele. Tanto que no fim ele disse: “Isso aí é um pensamento (não lembro o termo que ele usou) muito individual”. Sim, é muito individual no sentido de que só eu penso desse jeito e só eu sei dessas coisas. Mas, você veja, o alcance público de uma idéia não tem nada a ver com a força explicativa dela — isso é uma coisa básica. Ou seja, uma idéia na qual todo mundo acredita é uma idéia que tem um alcance público e a idéia que explica realmente o que está acontecendo e o que vai acontecer em seguida tem uma força explicativa, uma força cognitiva. Não conseguindo expor uma idéia que tivesse mais força explicativa do que a minha, ele apelou ao alcance público, disse: “É só um indivíduo que pensa assim”. De fato, só sou que eu penso assim. Eu fiz um esforço desgraçado para formular alguma explicação que me satisfizesse e tenho certeza de que ninguém compartilha essa explicação porque é a primeira vez que estou dizendo isso em voz alta para alguém, então não tem alcance público nenhum. O meu primeiro público quem é? O professor Alexander Dugin, ele foi o primeiro a saber o que penso a respeito disso, até agora ninguém mais sabia. Então, é claro que não tem alcance público nenhum, é claro que é um pensamento individual. Porém, se você está discutindo uma idéia e, portanto, questionando a sua força explicativa, passar dessa clave para a clave do alcance público é uma fuga, evidentemente. “Eu não posso desmentir a sua teoria, mas é apenas a sua teoria, ninguém mais sabe dela”, é verdade. Só que isso não desmente. Quando Louis Pasteur dizia que não existia a geração espontânea, ele era o único sujeito que pensava assim, não tinha alcance público nenhum, só que tinha força explicativa. Então, é claro que não estou concorrendo com ninguém em alcance público. Sei que estou falando para meia dúzia de pessoas, porque se eu falar para o público em geral, não adianta nada. O público em geral só presta atenção periférica, todos padecem de déficit de atenção. Quero falar para pessoas que estão interessadas e que são capazes de entender. Não estou concorrendo nem com o professor Alexander Dugin, nem com ninguém, em matéria de alcance público. Se o meu problema fosse alcance público, teria de ter seguido uma carreira completamente diferente da minha. Sujeito que quer alcance público não vai se fechar dentro do escritório e ficar estudando dia e noite como um doido coisas que só ele está sabendo. Eu seria deputado, senador, fundar um jornal, alguma coisa assim, ia ser o Rupert Murdoch. Isso tudo me parece uma imensa chatice. Gosto de fazer exatamente o que estou fazendo. O que estamos buscando não é alcance público, é a força explicativa. Por quê? Mais dia menos dia, alguém vai precisar entender o que está acontecendo e vai perguntar. E se não houver nenhuma explicação pronta, eles vão ter de descobri-la por si mesmos. Para que começar daqui a trinta, quarenta anos um serviço que posso fazer desde já? É só essa a nossa ambição, é só essa a ambição desse curso, é só essa a ambição do esforço de formação do qual vocês estão participando. Vamos fazer a seguinte pergunta: de todas as pessoas que estão opinando sobre o que acontece no mundo, quantas tentaram se documentar sobre o horizonte de consciência, as intenções e os planos dos agentes fundamentais, que considero que são três? A resposta é: conheço uma pessoa que fez isso, e esta pessoa c’est moi. Eu vejo, por exemplo, que o próprio Eric Voegelin, que é um sujeito que tem uma visão abrangente, começou a se informar sobre o negócio islâmico muito tarde e, no fim da vida, andou até lendo alguma coisa do René Guénon, o qual já estava em ação na Europa fazia sessenta anos. Então é claro que quando percebeu, falou: “Isso aqui pode ser importante”. Só que daí era tarde demais para incluir isso na sua cosmovisão. As pessoas, por exemplo, que buscam entender esse processo da invasão islâmica, eu digo: “quantas chegaram a se interessar, partindo do fenômeno de massas da invasão islâmica?” O sujeito tenta se informar, então daí ele lê o jornal, tenta ver o que os líderes do terrorismo estão falando, o que Ahmadinejad está falando. Quanto tempo leva para o sujeito chegar no topo do pensamento islâmico, que é o esoterismo islâmico? Às vezes uma vida. E quando o sujeito descobre que isso existe, é tarde demais. Como preceito número um: você tem de buscar a fonte mais alta em primeiro lugar, sempre, porque tudo que se descobre no mundo é um sujeito que descobre uma coisa que os outros não sabem. Você veja, por exemplo, se estou dando aula para uma classe de trinta pessoas, é possível que um aluno entenda sem que os outros entendam. Mas é possível que a classe inteira entenda sem que nenhum deles entenda? Não é possível. Portanto, o processo da descoberta é sempre iniciativa de indivíduos e, por definição, é iniciativa de indivíduos que vêem as coisas diferentes que a maioria vê. É sempre assim. Quando Edward Jenner descobriu a vacina para a cura da varíola, ele descobriu uma coisa que todo mundo já sabia? Não, ele descobriu algo que as pessoas não sabiam. Portanto, em primeiro lugar, o mérito é dele, exclusivamente dele, e não dos outros. Hoje tem muita gente [00:50] que acredita que o processo de conhecimento é sempre coletivo. Não, você está confundindo o processo de transmissão do conhecimento com o processo da sua aquisição. Isto quer dizer que, por trás de toda ação abrangente, coletiva, existem planos, existem decisões. As decisões por sua vez são baseadas em intenções, que são baseadas em valores, e estes valores por sua vez são baseados num horizonte de consciência. Então você tem de buscar a versão mais clara, mais abrangente e melhor, do horizonte de consciência que está subentendido por trás de tudo, o horizonte de consciência da qual os agentes imediatos participam só parcialmente. Se você pegar, por exemplo, um sujeito como o Ahmadinejad, quanto ele entende da totalidade do horizonte de consciência que está no fundo de todo o processo de ocupação mundial islâmica? Ele entende só um pedaço, ele não é um erudito islâmico, ele entende muito pouco, ele entende o pouco necessário para desempenhar o seu papel. Qual é esse papel dentro do conjunto? Ele não sabe. Regra número um: procurar informação, procurar o material, ter todo o material na sua mão, mesmo que você diga que isso é mil vezes mais do que vai conseguir ler. Não tem importância, você tem de ter isso na sua mão, ter ao ser alcance, saber onde está pelo menos, porque, quando você precisa, você vai lá. Em segundo lugar: não se deixar iludir pelas opiniões imediatas que aparecem na mídia, que aparecem nos políticos porque essa não é a fonte, isso está muito distante da fonte. Essas pessoas são indivíduos que estão desempenhando o seu papel, que são papéis pequenininhos e limitados, dentro de um conjunto enorme do qual eles não têm uma visão completa. Então você tem de procurar quem tem a visão completa. Se perguntarmos: quem tem uma visão completa do marxismo? Karl Marx tinha? Eu acho que não, eu acho que nem ele tinha uma visão completa do papel que ele estava desempenhando, por trás dele devia ter gente que estava vendo mais. Mas neste caso não temos os documentos, então aí é uma interpretação conjectural. Mas nós temos sempre de rastrear os documentos. Então pelo menos com relação à história do movimento comunista temos os documentos, com relação à história do projeto islâmico temos os documentos e com relação ao globalismo ocidental temos mais documentos ainda, porque praticamente está tudo publicado. Então, dizer que é uma elite secreta, etc. e etc., eu digo, pode ser que o que eles estejam discutindo no Bilderberg agora seja secreto, mas a história inteira das intenções e planos está toda documentada por escrito e publicada. Não há nada secreto, absolutamente nada. Ver isso como uma elite secreta já é errado. Mesmo com relação às ditas sociedades secretas, o que há de secreto é muito pouco porque estamos pensando a coisa numa escala de séculos, e na escala de séculos ninguém mantém um segredo. Tudo o que é secreto acaba aparecendo. Então, temos acesso a esses documentos, e a providência número um é juntar os documentos. Se você perguntar: tem alguém preocupado em fazer isso? Eu conheço um cara que faz isso, que sou eu. A partir do momento que eu percebi que havia esses três esquemas em jogo, eu falei: tenho de me documentar, tenho de saber a história de cada um, de onde saiu. E aí é que você verifica uma coisa espantosa: você vê que em cada um desses projetos houve interferência de intelectuais de altíssimo gabarito que enxergam muito mais do que os seus comentadores atuais da mídia e da universidade. É o caso em que, é como se você estivesse num laboratório fazendo exames de fezes, e o cocô que você está examinando é mais inteligente que você. E ele já te analisou e já tem o resultado. Por exemplo, você quer compreender o processo revolucionário? O primeiro que o sintetiza de algum modo é um sujeito chamado Hegel. Quantas pessoas você conhece capacitadas para ler Hegel? São muito poucas. Então é claro que o processo revolucionário em si, o movimento revolucionário, vai ser mais inteligente do que os seus intérpretes externos. Um bom começo seria você ler o livro do Leszek Kolakowski, Main Currents of Marxism (As principais correntes do Marxismo) — que existe uma tradução em português —, e você vai ver que ele começa a rastrear o negócio lá no pensamento gnóstico antigo, e ele dá um sentido de continuidade e de unidade dialética, unidade conflitiva interna do movimento. Aí já é uma boa coisa. Porém, a partir da hora que você conseguiu ler as mil páginas do livro do Kolakowski, você não sabe nada a respeito de estratégia e tática revolucionária, só sabe as teorias da revolução. Daí você ter de rastrear o outro pedaço e vai ter que procurar quais são as fontes melhores a respeito dessas concepções estratégicas e táticas. Por exemplo, toda a teoria de inteligência e contra-inteligência, informação e contra-informação: se você não sabe isso, não sabe nada, porque sobretudo a ação soviética no mundo é eminentemente ação de serviço de inteligência. Agora, é curioso: quando você pega os historiadores americanos do comunismo, eles em geral não se interessam pelos serviços secretos, eles se interessam pela política visível, as decisões de chefes-de-Estado. Aí você nunca vai entender nada mesmo. Com relação à URSS, a lição número um é: quem governou a URSS foi sempre a KGB, foi e é. Se você não estudar a KGB, você não vai entender coisa nenhuma. Com relação à KGB, o material que vazou é imenso e o material que está guardado, escondido, é muito maior ainda. Vasili Mitrokhin, que escreveu o livro, com o Christopher Andrew, The Sword and the Shield, era um funcionário da KGB encarregado de coordenar a mudança do arquivo da KGB de um prédio para outro, ele tinha então de examinar cada dossiê na entrada e na saída. E esse processo levou dez anos. Você imagina o tamanho de um arquivo que você leva dez anos para transportar de um lugar para outro. Naquela época eram oito bilhões de dossiês, cada dossiê com mil páginas, duas mil, dez mil páginas. Nunca teremos acesso a isso, vamos ter de ir por amostragem, que é como essas pesquisas de opinião: você fica sabendo a opinião de mil pessoas, mas como aquilo é suficientemente aleatório deve refletir o conjunto. Mas só esse material que vazou e que é uma amostragem estatística mínima já é uma coisa enorme. Agora, faça uma pergunta: destas pessoas que estão comentando coisas na mídia, quantas leram um livro sobre a KGB? Um. Eu nunca vejo ninguém citar coisa nenhuma, portanto não devem ter lido. Sem contar o viés causado às vezes pela própria posição do narrador ou analista. Por exemplo, agora estou lendo o livro do Elio Gaspari sobre a ditadura militar. O livro está muito bom, na verdade. Nunca gostei muito do Elio Gaspari, e acho até que ele escreve mal, mas no livro ele está escrevendo bem. Não sei se alguém o ajudou. Só que tem umas falhas de perspectiva. Por exemplo, ele acha muito estranho, e fala até com certa ironia, que o general Silvio Frota estava denunciando a presença de comunistas infiltrados no círculo do Golbery. Ele acha isso muito [1:00] engraçado por quê? Porque ele próprio, Elio Gaspari, era um deles. Embora ele, na página 3, tenha confessado que era um membro do Partido Comunista, quando chega lá para adiante, ele não era um membro do governo, mas era a pessoa mais próxima do general Golbery, ele sabia tudo a respeito do Golbery. Então eu digo: você era um dos comunistas infiltrados no círculo do Golbery. Isto quer dizer que a visão do Silvio Frota não estava muito louca. Isto também pode acontecer. Mas, em geral, as pessoas que lêem o livro do Elio Gaspari não percebem isso. A partir da hora que você percebeu, falou, “espera aí, isto aqui está contado desde o ponto de vista de um dos comunistas infiltrados no círculo do Golbery, então eu tenho de levar esse dado em conta porque isso determina o conjunto da interpretação que ele está fazendo”. Quer dizer, mesmo nos pontos em que ele tenta ser honesto, mesmo aí existe uma parte que ou não está contada ou está mal contada. Todas essas precauções são absolutamente necessárias no estudo, e espero que vocês realmente as tomem. Espero que cada um de vocês assuma como dever da sua vida: “eu vou ter de entender essa coisa. Uma boa parte o Olavo já me deu mastigado, mas sobrou tanto problema por aí”. Vejo que essa preocupação existe porque estive lendo alguns resumos de trabalhos que vocês estão me mandando, e que daqui a alguns meses vamos começar a comentar um por um. Acho que esses trabalhos estão muito sérios e acho que a perspectiva de escolher temas que sejam urgentes para uma consciência do processo histórico, pelo menos, brasileiro, está sendo realmente atendido, esse meu apelo está sendo atendido. As pessoas entendem que existem enigmas, problemas e dificuldades que têm de ser destrinchados de qualquer maneira, porque já chegamos num ponto de confusão total, que a confusão já ultrapassou a esfera da mera discussão intelectual e está se manifestando, está se cristalizando em ações públicas de grande envergadura baseada na fantasia completa, como esse negócio do Estatuto do Nascituro. Agora, você imagina, cada pessoa que vai a essas manifestações acredita piamente que o Estatuto do Nascituro obriga a mulher estuprada a ter o filho, quando não a obriga. Como reagir a isso, por exemplo? As pessoas não sabem como reagir a uma situação dessa, porque não estão preparadas para lidar com uma situação psicopática. Vou ler aqui para vocês uns artiguinhos que escrevi essa semana — um já saiu, dois não saíram ainda — sobre um caso específico. O caso em si não tem importância, mas como amostragem do tipo de confusão que vamos ter de desfazer, destrinchar, é muito significativo. O primeiro artigo chama “Cientistas Sérios”:2 Nada que se diga sobre as relações entre política, ciência, moral e religião tem aquele mínimo indispensável de dignidade intelectual requerido para merecer alguma atenção, se não leva em conta o fato mais visível da História terrestre: todas as guerras de religião desde o início dos tempos, somadas, mataram muito menos gente do que as ideologias científicas modernas, socialismo e nazismo, mataram em poucas décadas. Aquele que, posando de defensor da espécie humana, toma a palavra em nome da “ciência”, das luzes e da modernidade, já traz na testa o emblema sinistro da mentira totalitária. (...) Para que inventaram ciência, tecnologia, etc. e etc.? Não foi para aliviar os sofrimentos humanos? Não foi para corrigir males? Acontece que a ciência tem um subproduto inevitável que é a ideologia científica. Na medida em que a ciência cria para si mesma uma autoridade cognitiva, serve de argumento de fundamentação para ações humanas, e daí criam-se as ideologias científicas. Pergunto eu: é possível existir uma atividade científica sem esse subproduto? Agora vamos fazer aqui só ciência pura, não haverá ideologia científica: é possível isto? Não é possível, porque isso desmente a própria condição social concreta na qual se dá o exercício da atividade científica. O exercício da atividade científica supõe o quê? Instituições, verbas, etc. e etc. as quais são votadas por políticos. Até para financiar a pesquisa científica, precisa de uma argumentação extra-científica que a justifique. E precisa então também de uma argumentação científica que justifique dar poder à classe dos cientistas. Não é possível atividade científica sem ideologia científica. E o sujeito que exerce a ciência, dizendo que não tem nada a ver com a ideologia científica, que é um cientista puro, etc. e etc., está desmentindo a própria condição social que possibilita a sua existência. Então está mentindo e a vida dele é baseada todinha numa mentira. Se o sujeito é honesto, ele diz “se eu quero ciência, quero a ideologia científica também. Só resta escolher entre essa ou aquela ideologia científica. Pode ser socialista, liberal, nazista, fascista, vou ter de escolher uma porque eu vou depender dela, porque se não tiver ideologia científica, não vou tenho verba para o meu departamento”. Se não existe o suporte do poder político-econômico, não existe ciência. E para que esse suporte exista, é necessário que a ciência argumente. E o argumento em favor do poder da ciência não é um argumento científico, é um argumento ideológico. Todo e qualquer cientista que exerce a sua atividade sem ter a idéia de que ele se sustenta numa ideologia científica ou é um bobão, um ingênuo, ou é mais esperto do que nós. (...) E é com perfeita hipocrisia, se não com inépcia autêntica, que semelhante paspalho alega entre seus títulos de legitimidade a diferença entre a “pseudociência” dos outros e a “sua” ciência genuína e respeitável. (...) Todo mundo que fala em nome da ciência faz questão de traçar uma fronteira entre o que é ciência pura, ciência verdadeira, e o que é a ideologia científica, o que é a pseudociência. (...) Pois essa diferença, desde logo, só existe e só aparece no interior da prática científica mesma: os pseudocientistas só o são, no julgamento alheio, porque antes disso são cientistas de profissão e não outra coisa. (...)  Se você pegar a genética de Lysenko, é uma pseudociência. Mas quem era Lysenko? Por que ele fez uma pseudociência? Porque ele era um geneticista. Se ele fosse motorista de caminhão e inventasse uma teoria genética, ninguém ia prestar atenção nele. Prestaram atenção por quê? Porque ele pertencia à classe científica. Portanto, quem produz pseudociência e quem produz argumentação pseudocientífica que fundamenta as ideologias científicas ou pseudocientíficas é a classe científica. Portanto, ideologia científica e pseudociência são componentes inerentes à atividade científica. E só dá para separar isso na esfera das idéias, idealmente, na prática não. (…) Quem produz pseudociência é a classe científica e ninguém mais, assim como os erros judiciários nascem das cabeças de juízes e as heresias dos cérebros de religiosos, não de ateus ou de indiferentes.3(...) Você já viu um ateu inventar uma heresia? Isso é impossível. Você já viu um sujeito que não é juiz cometer um erro judiciário? Impossível. Você já viu alguém que não é cientista inventar uma teoria pseudocientífica? Não. Isto aqui que estou falando é o óbvio do óbvio. E, no entanto, esse argumento da separação entre ciência e pseudociência reaparece a toda hora como se fosse uma coisa óbvia, como se fosse possível existir a ciência separada da pseudociência e da ideologia científica. Não é. Se você quer uma coisa, você tem de querer a outra. Se quer que o rabo do [1:10] cachorro abane, você precisa de um cachorro que abane o rabo, um rabo sozinho não se abana a si mesmo, nem abana o cachorro. Então se você quer o efeito, você quer a causa. Isso é um erro primário de método, é um erro primário de lógica. E, no entanto, ele é cometido até com orgulho: “Aqui estamos fazendo ciência séria, e lá tem os pseudocientistas”. Se não fosse o pseudocientista, não existiria você também. Claro que conceptualmente as duas coisas são diferentes, mas diferentes não quer dizer separadas, uma coisa vem com a outra. O camelo não é a mesma coisa que a corcova do camelo, só que aonde vem um, geralmente vem o outro, a não ser que você cortou a corcova. O cupim do boi zebu vem com o boi zebu e vice versa. Então, de cara, o que quer que fomente a ciência fomenta junto necessariamente a pseudociência e a ideologia científica. Essa foi uma escolha que a modernidade fez sem pensar no que estava fazendo. Os primeiros caras que apostaram na pureza da ciência, como Descartes e Newton, será que um dia eles pensaram: “Estou fazendo o que estou fazendo porque tenho dinheiro para fazer”. Mas outros caras que não têm dinheiro vão querer fazer também e alguém vai ter de dar o dinheiro para eles, e aí vai começar a pseudociência. Não pensaram nisso. Podiam não pensar porque estavam antes do processo. Mas nós, que já vivemos quatro séculos disso, temos a obrigação de saber: onde existir ciência, existirá pseudociência em dose ainda maior, e a ideologia científica em dose ainda maior, necessariamente. Portanto, se você confere um milímetro de autoridade para a ciência, você concederá muitos milímetros mais de autoridade para a ideologia científica e a pseudociência. Se perguntar por que aconteceu todo esse negócio do aquecimento global? Veja, tem a classe científica dividida 50% e 50%, cada metade acusando a outra de pseudociência. E aparentemente não tem solução esse debate. Tem solução conceptual: estudando, você pode saber qual dos lados está dizendo a verdade, mas, em termos de conquistar o consenso da comunidade científica, não há solução. E isto prova que a pseudociência e inseparável da ciência. Vocês já ouviram alguém dizer isso? Não. Tive que descobrir isso sozinho, e fiquei aterrorizado quando descobri, porque também acreditava que existe ciência e pseudociência. (...) O cientista que chama alguém de pseudocientista acusa um colega de profissão, e deve fazê-lo com a humildade de quem confessa os pecados da sua própria classe, não com os ares beatíficos de quem, vindo de fora, fala com a autoridade da completa inocência. (...) Você veja, quando o Papa fala dos padres pedófilos, ele pede perdão em nome dos padres pedófilos. Por quê? O cara é do nosso grêmio, é um de nós, não foi um terceiro de fora que veio fazer isso. Claro que houve interferência de fora, e isso aí a Igreja nem tem levado em conta devidamente a interferência de fora que produziu isso aí. Mas de qualquer modo os caras são padres, então você não vai falar a coisa arrotando autoridade como se fosse um terceiro. Agora os cientistas falam da pseudociência como se fosse coisa de terceiros, e não membro da própria classe. (...) Depois, aquela distinção não é um dado a priori e incontrovertido, não é uma premissa autoprobante, mas o resultado de discussões que podem prosseguir indefinidamente: (...) Ou seja, se uma determinada teoria é ciência ou pseudociência, não é uma coisa que já esteja na cara de todo mundo desde o primeiro instante. É preciso muito estudo e muita verificação para depois você saber. Não é fácil. (...) as teorias racistas do nazismo tiveram defensores entre os mais prestigiosos cientistas da época, e o marxismo ainda os tem às pencas. E ambos esses grupos nunca cessaram de acusar um ao outro de pseudociência. (...) E tem outras ainda, citei só dois. Está aí o aquecimento global, movimento abortista, essa coisa toda. Um chama o outro de pseudocientista. Eu digo: vocês são ambos pseudocientistas porque são ambos cientistas (...) Digo isso porque a antropóloga Débora Diniz, da UnB, entra no debate sobre o aborto falando em nome dos “cientistas sérios” (sic) (...) Ela diz: “Eu e os demais cientistas sérios...”. (...) e acredita piamente que pertence a essa classe (v. http://www.cebes.org.br/verBlog.asp?idConteudo=4428&idSubCategoria=304). Da minha parte, não sou cientista, e só sou sério em casos de extrema necessidade, que evito o quanto posso. Mas tenho a certeza de que não é sério, nem científico, alguém se meter a filósofo sem o menor domínio técnico da matéria e dizer uma coisa destas: “Nascituro é um não nascido. A palavra parece ser um nó filosófico — como alguém pode reclamar ser uma negação existencial? Essa é a confusão ética em curso no Congresso Nacional com a proposta do Estatuto do Nascituro.” Não, dona. O nó filosófico só existe na sua cabeça. Nascituro não é alguém que não nasceu, é alguém que foi gerado e já está em vias de nascer, o que o diferencia radicalmente de todos os simplesmente não-nascidos. (...) Todas as pessoas que não foram geradas são não-nascidos, então como você vai definir o nascituro como um não-nascido? (...) O particípio futuro latino que a palavra traduz não tem nenhuma acepção de “negação existencial”. Exatamente ao contrário: nascitur significa “começar a ser ou a existir”. (...) Ou seja, aquilo que já entrou na existência. (...) Não vou lhe recomendar que tire a dúvida lendo Cícero porque seria uma crueldade. (...) Imagina se essa mulher é capaz de ler Cícero, quanto mais em latim? Nem em português consegue ler. (...) No entanto, se o tivesse lido, a senhora não se submeteria ao vexame de escrever esta lindeza: “O nascituro é criação religiosa para dar personalidade jurídica às convicções morais de homens que acreditam controlar a reprodução das mulheres pela lei penal.” Ora, dona, não foi nenhum bispo nem pastor protestante que inventou o particípio futuro no latim. O termo designa um estágio na formação natural do ser humano e não uma noção religiosa qualquer, muito menos um dogma cristão. (...) Este verbo já existia em latim muito antes que aparecesse o primeiro cristão. (...) Mas como esperar algum conhecimento de latim da parte de quem não domina sequer o português? Não vou contestar a sua sentença, vou reescrevê-la para ver se a senhora aprende alguma coisa: “O nascituro é criação religiosa para dar personalidade jurídica às convicções morais de homens que acreditam poder controlar, pela lei penal, a atividade reprodutiva das mulheres.” (...) Não é controlar a reprodução das mulheres pela lei penal. (...) Do modo como a senhora escreveu, parece que a lei penal reproduz as mulheres ou que elas se reproduzem a si mesmas. Como a senhora obteve o diploma de ginásio? Não satisfeita com tão patente fiasco, prossegue a indigitada: “O nascituro é um conjunto de células com potencialidade de desenvolver um ser humano, se houver o nascimento com vida.” Entenderam? Se o bebê nasce vivo, então, só então começará o processo que fará dele um ser humano. A condição humana não é um dom natural, é uma criação cultural. O sujeito em gestação é um aglomerado de células, quando nasce ainda é apenas isso, e só depois, pela educação recebida, se torna um ser humano. Que o registro civil o inscreva logo de cara entre os seres humanos é, portanto, no mínimo, antecipação imprudente. Mutatis mutandis, um leão recém-nascido, deixado a si mesmo e desprovido do treinamento em atividades leoninas que ele receberá da sua mamãe, não é um leão de maneira alguma, não é nem mesmo um leãozinho, é apenas um conjunto de células que, beneficiado pelo Estatuto do Nascituro, não foi abortado em tempo. Mas que outro raciocínio melhor poderia vir de alguém que chama de “potencialidade” aquilo que acaba de rotular como “negação existencial”, confundindo potência com privação de existência, e ainda tem a presunção de desfazer “confusões éticas” no cérebro alheio? Por que estou dizendo isso? Porque a idéia que essa mulher colocou em circulação é a idéia que inspira esse movimento contra o Estatuto do Nascituro. Ela engana todo mundo — daqui a o pouco vamos ver isso aí —, ela tem um prestígio enorme nesses meios abortistas. É uma líder, uma mentora intelectual desse movimento e, portanto, o que ela pensa será aceito por essa massa de militantes, sem discussão. [1:20] Prosseguindo aqui. “A casca e a banana”5: A idéia de que um ser humano em gestação é um ser humano é das mais difíceis de contestar. Diante disso, a antropóloga da UnB prefere deformá-la e achincalhá-la, rebaixando o feto humano a um mero “conjunto” ou “punhado” (sic) de células. Tais expressões são de uma impropriedade vocabular subginasiana. Conjunto ou punhado é qualquer amontoado de elementos, independente da ordem que o articula. Se o feto fosse apenas isso, seria preciso juntar as suas células depois do nascimento para lhes dar feito humano. Seria uma trabalheira dos diabos. O que define o nascituro não é ter células, mas tê-las ordenadas e articuladas numa forma definida e específica, que é a forma do ser humano, inconfundível e única entre todas as espécies animais. (...) Isto quer dizer que se você pegar um feto de macaco e colocar num ventre de uma mulher, não vai nascer um ser humano. Mesmo porque, isso também se pode alegar: ele não tem a forma do ser humano, é o corpo da mãe é que o molda. Eu digo — molda se ele tiver a potência de ser moldado para isso. A capacidade de receber uma ação — é o que se chama nas categorias de paixão —, é determinado pela forma do objeto em questão. Por exemplo: um gato, não tem uma forma suficiente para que eu lhe ensine a falar grego ou alemão, nem português. Pior ainda, eu não posso se quer ensinar um gato a miar, porque o miado de um gato na orelha dele soa diferente do miado imitado pelo um ser humano, então se eu for ensinar um gato a miar ele não vai aprender. Há uma série de ações que ele não pode sofrer, não são só ações que ele não pode realizar. A forma do ente delimita as suas possibilidades de ação e paixão: as ações que ele pode fazer, as ações que ele pode sofrer, e as que ele não pode. Por exemplo, eu posso fazer com um pedaço de madeira uma mesa, mas não posso usá-lo para fazer uma limonada. Será que é difícil entender isso? O contrário também, com um limão eu posso fazer uma limonada, mas não posso fazer uma mesa com um limão. Embora o agente seja eu, e aqueles sejam apenas o instrumento, eles não se prestam para determinadas ações. Portanto, se o feto pode receber o influxo do corpo de sua mãe que o modelará como um ser humano, é porque já estava modelado como ser humano apto a receber esse tipo de ação. (...) Há, certamente, pessoas que, de tanto fingir que não entendem, terminam mesmo por não entender coisa nenhuma. Essas hão de dizer que o feto, no começo, se parece com um peixe (…) Se falou em forma humana, mas no começo ele parece um peixe, ou sei lá, um girino, ou qualquer coisa assim. (...) Dona Débora não se pronunciou a respeito (reconheço que ela não falou isso), mas não duvido que, possuindo a seriedade científica requerida para confundir potência com inexistência, ela encontre também alguma dificuldade em atinar com a diferença entre forma e formato, já explicada 2.400 anos atrás por Aristóteles. O autor do Organon ensinava que uma mão amputada tem ainda o formato, mas não a forma de mão (têm a aparência de mão, mas não a forma da mão). Forma não é aparência exterior, é articulação interna, é ordem constitutiva, é princípio de unidade e funcionamento ou, como diria o nosso Mário Ferreira dos Santos, lei de proporcionalidade intrínseca. É assim que se usa o termo em literatura, em música, em matemática e todos os demais setores do conhecimento (quando se fala em forma musical, ou forma literária). Os Lusíadas e a Lista Telefônica têm ambos o formato de livros. Diferenciam-se é pela sua forma, pela ordem e conexão interna das palavras que os compõem (…) Mais ainda, essa forma interna, de qualquer coisa, ela é verbalmente expressável, se expressa como uma lei. Por exemplo, se pode descrever qual é a forma literária dos Lusíadas e qual é a forma literária de uma lista telefônica. A forma de uma lista telefônica é a mais simples possível, são sobrenomes em ordem alfabética, seguidos de um número de telefone. É a forma mais simples que existe. Agora, um dicionário se define somente assim? Não, no dicionário também está em ordem alfabética, mas ele não é somente uma lista de nomes, ele tem que ter uma explicação dos significados dos nomes, e é essa explicação que o define como um dicionário. Se ele fosse somente uma lista de nomes, seria uma nomenclatura e não um dicionário. Percebe-se que todas as formas podem ser expressáveis. Um soneto é uma série de versos com quatorze linhas, quatorze versos, se tiver mais de quatorze não é soneto, se tiver menos também não é. Pode ter sete sílabas, oito sílabas, nove, dez, onze e doze em geral, às vezes tem até mais, mas em geral é isso. Sabe-se também que ele pode ser acentuado em tais ou quais sílabas, e que deve haver uma conexão sonora entre as várias linhas, se não tiver nada disso não é um soneto. Isso quer dizer que as várias formas, quer seja literária, musicais ou matemáticas, podem ser expressas. A forma se expressa em uma fórmula. Que é a fórmula? É a expressão verbal da forma. Claro que as formas mais complexas são mais difíceis de descrever. Para descrever o que é a forma de um ser humano, pois pode-se descrever, mas não é tão fácil como descrever a forma de uma lista telefônica ou mesmo a forma de um soneto. O que estou querendo dizer é que essa noção de forma é universal em todas as ciências. (…) A estátua de um ser humano tem formato, mas não tem forma intrínseca de ser humano, isto é, aptidão para crescer e funcionar como ser humano. (…) Resumidamente, forma humana significa isso, aptidão para desenvolver-se, crescer e agir como um ser humano – ainda não é uma definição, mas já é uma explicaçãozinha. (...) O feto, indiscutivelmente, tem (…) E ele é um feto precisamente porque tem. Por que, se abrir a barriga da mãe e lá estiver uma bolinha de gude, não é um feto. (...) Por isso os que não desejam vê-lo como um ser humano precisam fingir que não enxergam essa forma, e recorrem, para tanto, ao expediente de carimbá-la como “conjunto” ou “punhado”, expressões que designam precisamente o contrário, isto é, os elementos soltos e sem forma. Dona Débora troca os nomes das coisas para torná-las irreconhecíveis e acha que isso não apenas é ciência, mas ciência séria. Há tempos já parei de me perguntar se as pessoas fazem essas coisas por burrice ou desonestidade. (…) Porque todo mundo levanta essa questão: será que ela não sabe? Pode ser que ela tenha boa intenção? Ou, será que ela está com treta mesmo, e está enganando todo mundo? Eu já parei de me perguntar isso, por quê? Pelo seguinte: (...) A desonestidade, quando praticada com a devida persistência, consolida-se em burrice autêntica. (…) Eu acabei de dizer isso. O sujeito de tanto fingir que não entende, ele acaba não entendendo mesmo. (...) A burrice, quando passa da dose compatível com o cargo, o prestígio e as responsabilidades públicas do seu portador, é desonestidade pura. (…) Um sujeito inepto que está ocupando um cargo, ele estar lá, já é desonesto. Dei o exemplo, no outro artigo no qual eu falei sobre corte e costura, quando era moleque ouvia as minhas tias conversando sobre corte e costura e falavam aquele monte de palavras estranhas: sianinha, retrós, viés, pence, eu ouvia tudo aquilo e sei as palavras todas de cor, só não tenho a menor idéia do que são essas coisas e se essas coisas existem. Então, se com esses conhecimentos eu montasse uma escola de corte e costura, seria burrice e desonestidade ao mesmo tempo, quer dizer, estaria consagrando a minha burrice como fonte de um direito, que é profundamente desonesto. (...) Dona Débora exemplifica majestosamente a síntese indissolúvel dessas duas mimosas qualidades. Vejamos: Na sentença que analisei no artigo anterior, ao dizer que os autores do Estatuto do Nascituro querem “dar personalidade jurídica às convicções morais, etc. etc.”, ela não apenas comete as impropriedades lógicas e semânticas que apontei, mas capricha no vexame ao querer mostrar cultura mediante o uso de um termo jurídico cujo sentido lhe escapa. “Personalidade jurídica” é capacidade para ser titular de direitos e obrigações. É termo que não se aplica a convicções, opiniões ou idéias, (…) [1:30] Você não pode processar uma idéia. Você não pode processar uma convicção. Você só pode processar uma pessoa, e esta pessoa para ser processada ela tem que ter personalidade jurídica. Uma palavra ou idéia, por definição, ela não pode ter uma personalidade jurídica, é impossível isso. Ela não é titular nem de direitos, nem de obrigações. Portanto ela não pode processar, nem ser processada. Você já ouviu dizer que uma idéia chega lá no juiz e entrega uma petição? Uma convicção entrega uma petição? Não é possível isso. (…) mas somente a indivíduos ou coletividades humanas reais. (…) Quando você diz que há pessoas físicas ou jurídicas é disso que se está falando. Uma personalidade jurídica é um grupo de pessoas, agrupadas para uma determinada finalidade, e que, enquanto grupo, se torna personalidade jurídica, portanto passível de ser processada ou de processar, etc.. (...) Se entendesse o que escreve, se tivesse algum domínio, ainda que modesto, do assunto e do idioma, ela poderia dizer que os tais legisladores quiseram dar “teor” ou “valor” jurídico às suas convicções, ou então dar “personalidade jurídica” ao feto. “Dar personalidade jurídica a convicções” é expressão que não faz o menor sentido. (...) Quer dizer, realmente uma redação subginasiana. Se não sabe o que é personalidade jurídica, por que usa o termo? (...) Mas, quando alguém leva a seriedade científica a esse ponto, não é de espantar que, ao comentar um documento legal, falsifique também o seu conteúdo para fazê-lo dizer o que não disse e, assim, poder-lhe atribuir o sentido que bem deseje. Assim, do Estatuto do Nascituro, que prevê e estabelece explicitamente o direito ao aborto em caso de estupro, (…) Porque está lá, a estuprada receberá auxílio do Estado para ter a criança, ressalvado pelo dispositivo do artigo 128 do Código Penal que é justamente o que permite o aborto em caso de estupro. (...) Dona Débora faz um código de terror no qual “uma menina que tenha sido violentada sexualmente por um estranho (…)” Gozado, por que por um estranho? Os defeitos de redação aparecem a cada linha. Se ela for estuprada pelo próprio irmão, ou pelo próprio pai, ou, até pelo próprio marido, o código penal não vale para esses casos não? Por que por um estranho? Por que o estupro feito por um estranho é mais grave do que o feito por alguém mais próximo, o que, aliás, é moralmente muito mais grave. Um pai que estupra uma filha é muito mais grave do que um Zé Mané qualquer estupra uma Zé Manéia na rua. “(…) será obrigada pelo Estado a manter-se grávida, mesmo que com riscos irreparáveis à saúde física e psíquica"”. Podemos discutir pelos séculos dos séculos se isso é burrice desonesta ou desonestidade burra. É como perguntar se a banana está dentro da casca ou a casca em volta da banana. O que sei é que, quando alguém exibe num mesmo lance seus títulos de autoridade acadêmica e uma total incapacidade de raciocinar até mesmo sobre coisas simples, estamos diante de um exemplar típico da classe universitária brasileira de hoje, cuja função não é estudar ou conhecer o que quer que seja, mas fazer número nos grupos de pressão. É por isso que, da vasta produção de "trabalhos científicos" neste país, pouco ou nada se cita e se comenta no resto do mundo. Não há mesmo aí nada o que comentar, exceto do ponto de vista da teratologia intelectual, uma área de estudos especialmente repugnante e insalubre que só interessa a uns quantos masoquistas, entre os quais o autor deste artigo. Então você tem um fenômeno. Vamos rastrear esse fenômeno, rastrear quais são as condições que permitiram que esse fenômeno existisse. Se você disser: a burrice pura e simples. Não, a burrice pura e simples não tem que se expressar assim. Uma burrice pura e simples que tenha a pretensão de ser ciência séria, e que ocupa um cargo que lhe dá o prestígio de cientista séria, são coisas completamente diferentes. Então a burrice não explica. Então, a estrutura da universidade brasileira foi feita para carreirista e oportunista, etc. e etc., e só forma malandros, só isso explica? Não. Porque essa malandragem dela toma forma de uma modalidade específica de pensamento, que é o que eu chamo de pensamento metonímico. A burrice não precisa ser pensamento metonímico. A burrice do Lula não é metonímica, ele só sabe fazer metáforas futebolísticas. Então nós temos que perguntar: de onde surgiu esse pensamento metonímico, e como é que ele chega a se apossar da mente de pessoas supostamente alfabetizadas e letradas, ao ponto de levarem-nas a acreditar em coisas como estas? “Um feto é um punhado de células”. Você pensa que ela não acredita nisso? No momento em que ela diz, ela acredita. Em outro momento, ela pode saber que não se trata só de um punhado de células, mas naquele momento ela acredita. Quando é claro que, se ele fosse um punhado de células, não seria um feto. Por exemplo, um bife é um punhado de células. Mesmo assim, um bife, tem forma de bife. Ele tem que funcionar como um bife para ter o formato interno de um bife para ter o gosto de um bife. Quando ela se refere ao feto como um punhado de células ela está querendo rebaixar a importância. Muito bem, ela tem o direito de rebaixar a importância, de achar que uma coisa vale menos do que outra, de achar, por exemplo, de que a vida do feto vale menos do que a vida da mãe. É uma opinião! Sobre essa questão da opinião, já dizia o Guimarães Rosa: “Pode-se até argumentar em favor disso, mas para justificar isso, acreditar que um feto é apenas um punhado de células, isso é pensamento metonímico“. Daí continua aqui, “O maior dos problemas”: O leitor deve ter reparado que nos dois últimos artigos não dei nenhuma opinião sobre o Estatuto do Nascituro e sobre a questão do aborto em geral. Limitei-me a descrever o fenômeno de uma professora universitária que, pontificando sobre a matéria desde o alto de uma pilha considerável de títulos e cargos acumulados (…) Não digo de obras, mas de títulos e cargos. (…) dá mostras daquela típica mistura de radical incompetência e deplorável presunção que, somada às boas amizades nos altos postos, constitui requisito básico para o sucesso acadêmico neste país. (...) Quer dizer, a estrutura das universidades brasileiras não está excluída da explicação desse fenômeno, mas ela sozinha não a explica, precisa de algo mais. (...) Discutir leis e projetos é o que se faz numa democracia normal, onde a qualificação dos legisladores e opinadores está garantida como condição prévia, e só falta decidir o que fazer daí por diante. (...) Em uma democracia normal, há lá, senadores, deputados, juiz de direito. Bom, supõem-se que as pessoas que ocupam esses cargos tenham qualificação para isso. A qualificação delas não está em discussão, então pode-se discutir o conteúdo das leis e dos projetos. Mas, é aquele problema da retórica antiga, que é dividir os vários discursos em gêneros, e há um o qual eles chamavam de Genus admirabile, o tipo de discurso mais admirável que se possa fazer, que é aquele que se faz para um juiz inepto, o juiz que não está entendendo coisa nenhuma. Quer dizer, conseguir convencer um juiz inepto, somente um retórico admirável. Porque isso é dificílimo. Pode vencer a má vontade, pode vencer um argumento, mas, vencer a burrice? Tem que fazer um discurso que irá infundir inteligência no sujeito para entender do que se está falando, isso é mágica! Então, supõem-se, em toda democracia que está funcionando de modo normal, que as pessoas envolvidas no debate, com autoridade para opinar e decidir, são pessoas minimamente qualificadas. Supõem-se, por exemplo, que um juiz tenha estudado Direito. Supõem-se que um deputado conheça o regulamento da Câmara, conheça a Constituição, o Código Penal, etc. Que saiba algo dos problemas nacionais, e é por isso mesmo que se votou nele. (...) Na presente condição brasileira, o que tem de ser discutido é o material humano, é saber se as pessoas que incumbidos pensar e decidir sobre nós têm o mínimo indispensável de adestramento e idoneidade intelectual para não nos meter em enrascadas. (...) Então, sabe-se que as pessoas são todas ineptas, mas se quer discutir o conteúdo do projeto. Não se deve discutir o conteúdo do projeto, tem que se discutir o direito daquele fulano de estar lá. Isso é fundamental para o Brasil de hoje. Estamos sempre discutindo com gente inepta, e tentando concentrar o debate no conteúdo da questão. Ora, nos tribunais isso não funciona. Se houver um juiz inepto, ou não qualificado que não tenha jurisdição, a primeira coisa que se deve fazer é [1:40] remover o juiz. No júri, antes de começar o julgamento, o advogado tem que examinar quem são os jurados e indicar, este não é qualificado, porque é analfabeto e não vai entender o que vamos falar aqui, ou porque, ele já se pronunciou a respeito, antes do julgamento já deu uma opinião, esse daqui é vigarista ou por qualquer outro motivo. Antes de julgar o caso se deve julgar o julgador, isso é a coisa mais óbvia do mundo, mas eu não conheço um comentarista brasileiro, por mais revoltadinho que esteja com a situação, que aceite isso. Todos dizem: “Não, nós temos que manter o debate aqui na questão em si, não vamos discutir pessoas”. Não. Discutir sobre pessoas em primeiríssimo lugar. Se não, você vai aceitar a discussão com qualquer um e depois vai se dar mal. Então, discutir a qualificação das pessoas é o item número um da discussão. No debate que eu tive com o João Pedro Stédile, na Bienal do Livro de Porto Alegre em 1998, eu disse isso a ele, havia uma platéia de trezentas pessoas nos quais uns duzentos eram Sem-Terras. Eu disse a eles: “Vocês pensam que eu sou contra a ocupação de certas terras? Não sou de maneira alguma. Vocês pensam que eu sou contra o seu movimento? Não, não sou, mas sou contra vocês terem líderes como este cara que está sentado aqui do meu lado, que além de burro é mentiroso, e que vai induzir vocês a fazer a coisa errada, quando, às vezes, vocês estão até justificando algo, que teoricamente seria certo, só que não dá para discutir a questão da terra se nós temos que fazê-lo com tipos como o João Pedro Stédile.” E não dá para discutir aborto e Estatuto do Nascituro com uma mulher como essa Débora Dinis, tem que remover essa primeiro, Não, com você não! É o negócio do Enzo Jannacci, com aquela música Vengo anch'io? No tu no. Ma perche`? Perche` no, você não pode, vai para casa, fica quieto. Eu insisto há anos que este pessoal que se diz liberal, conservador, ou anti-petista, ou seja lá o que se denomine — pouco me interessa o que eles são —, se querem uma discussão séria, tem que começar a discutir as pessoas e tirá-las dos seus lugares, não aceitá-las como interlocutores. Mas daí vem a regra: discutir idéias e não pessoas, “aqui não se discute sobre pessoas, se discute sobre idéias, mantemos o alto nível”, isto o que é que é? Isso também é uma figura de linguagem, é uma figura de retórica. Captatio benevolentiae, você vai captar a benevolência da platéia, então você se apresenta ali como uma figura nobre, “aqui não discutimos pessoas, não ofendemos a ninguém, mantemos a discussão em alto nível”. Isso é justo se você parte do princípio de que os debatedores sejam qualificados, e que eles tenham o direito de estarem ali. Como é evidente que uma mulher como esta não tem o direito de ser professora universitária, não tem o direito de opinar sobre questão pública nenhuma, pois ela não sabe nem se explicar. Veja, o discurso dela é mais tosco do que o do Lula, ele não comete esses erros. Ele é tosco, mas é baixo-nível, e por saber que é baixo-nível, se mantêm na esfera do que pode entender. E ela está falando de coisas que estão infinitamente acima da compreensão dela. Está falando em personalidade jurídica, mas não sabe o que é isso. Personalidade Jurídica é uma noção que você aprende no primeiro ano de Direito, não é um requinte, é um conhecimento mínimo das leis, da compreensão das leis, que o cidadão comum tem que ter. Você tem que saber o que é uma Personalidade Jurídica porque, se quiser montar uma barraquinha para vende cachorro-quente na esquina, tem que abrir uma firma e se tornar uma personalidade jurídica. Como é que a mulher chega a ser professor universitário sem saber o que personalidade jurídica, meu Deus do Céu! Sem saber o que é Personalidade Jurídica ou o que Teor Jurídico, ou Valor Jurídico. Chegamos neste ponto. Vou continuar aqui e depois explicarei mais. (...) Explico novamente: um feto não é um conjunto ou punhado de células, mas a articulação de células na forma específica do ser humano em gestação, diversa da de todas as outras espécies animais, e por isso, indiscutivelmente humano. Chamá-la conjunto ou punhado não é uma afirmação científica de maneira alguma, é uma figura de linguagem destina não a realçar a especificidade de um dado objeto, mas a confundi-lo com os elementos isolados que o compõe, entorpecendo e ludibriando a inteligência que tenta pensá-lo. (…) Verão que todos os cientistas pró-aborto que se pronunciam, todos, usam essa expressão “um punhado de células, e que esse punhado de células não vale mais do que a vida de uma mãe”. Em primeiro, lugar não é isso que se está discutindo, isso já falseia toda a discussão, porque não se está discutindo entre matar o feto ou matar a mãe. Ninguém está propondo a morte das mulheres grávidas, é entre matar o feto ou deixar que a mulher tenha o filho, é essa que é a alternativa. Não é a morte de um contra a morte do outro, ai já falseia completamente a discussão. (…) Um feto não é um punhado de células exatamente como a 5ª Sinfonia de Beethoven não é um punhado de notas musicais e a Catedral de Charters não é um punhado de pedras. E cada uma dessas formas [isto aqui é fundamental] diferencia-se de um mero punhado não somente no seu estado final e completo, mas sim desde o início, desde a sua mais rudimentar concepção. (…) Quando Beethoven teve a primeira inspiração para a 5ª Sinfonia, no que ele pensou? Em um monte de notas soltas. Não, já veio a antevisão de uma forma. A qual, a partir dela, foi preenchendo e completando aos poucos. O arquiteto que concebeu a Catedral de Charters resolveu colocar um montão de pedras em um lugar, foi isso que o sujeito pensou? Ou teve a antevisão de uma forma? (…) Assim como a simples idéia de dispor elementos numa certa ordem, mesmo que não venha a ser realizada, se diferencia da decisão de jogá-las num canto em total desordem. (…) Quando se olha uma sala, e está uma bagunça, e resolve-se colocar uma ordem nessa coisa. Ah, eu não vou não, porque estou com preguiça, mas no que você pensou? Em uma ordem, uma forma. Não foi em uma confusão total, porque a confusão total já está. (…) Chamar o feto de um punhado de células é uma metonímia, é tomar a parte pelo todo. Um giro de linguagem perfeitamente legítimo só até o ponto em que não usa a parte como desculpa para suprimir o todo. Um feto contém um punhado de células, mas não é um punhado de células, é a sua integração na forma humana. E forma, já expliquei, não é formato, é ordem interna, é, portanto, no caso, a aptidão de desenvolver-se e funcionar-se como um ser humano, aptidão que o feto humano não compartilha com nenhum outro punhado de células. (…) Se fosse apenas um punhado de células indiferentes, então seria possível colocar um feto de hipopótamo e a mulher geraria um ser humano dali. Ela não geraria nem um hipopótamo, nem ser humano, nem coisa nenhuma. (…) Dona Débora, aliás, reconhece que células produzidas por um espermatozóide humano num óvulo humano são células humanas. (…) As células são indiscutivelmente humanas? As células? Não. São só células humanas, individualmente, ou elas estão ajuntadas em uma forma que é humana? Poderia se pegar células humanas e fundi-las com células de, por exemplo, um sapo, ou com qualquer outra coisa. Curioso, ela reconhece a humanidade da célula, mas não a do feto. Ora, células humanas às vezes podem ser indistinguíveis de outras células, mas as células articuladas na forma do feto não são indistinguíveis das de outra coisa qualquer, nem muito menos das de um feto de outra espécie. Elas não são indistinguíveis, são distinguíveis. (…) Mas como quer porque quer que essas células só existam isoladas e soltas, como um pedaço de unha quebrada e não articuladas numa forma total específica, não consegue, é claro, tirar daí a conclusão de que o feto é algo mais do que suas células. Com toda evidência, se um ente não é humano em razão da sua forma intrínseca e desde a sua mais remota origem, isso implica que a sua humanidade terá de lhe ser injetada depois por uma força externa, restando apenas decidir se será por intervenção divina ou por um decreto administrativo. Na primeira hipótese, os defensores dessa enormidade tem o dever de nos informar de onde obtiveram a revelação celeste quanto à data marcada de tão estupenda transfiguração da coisa em gente. (…) Quer dizer, o feto é uma coisa e depois é que vai virar gente, em um momento qualquer. Isso ai é revelação divina. Quando, e como, se dá essa transformação? O sujeito está lá, como se fosse um sapo, depois ele vira gente. Quem o transformou em gente? Como se transformou, e como isso se dá? E quem te contou isso? E a pessoa ainda se diz que é cientista, meu Deus do Céu! (…) Na segunda, a condição humana será uma concessão estatal, dependendo do capricho dos governantes e do parecer técnico de alguma Débora Diniz, com toda sublime competência que já demonstrou nessa matéria. Já tenho dito horrores do pensamento metonímico, [1:50] a praga maior dos debates nacionais. Aquele que designa o objeto por uma metonímia e tira conclusões dessa figura, imaginando que se aplica a um objeto real e até que se aplica a ele cientificamente, está no estágio mais baixo da inteligência humana, em que os signos se confundem com as coisas significadas e encobrem a sua realidade. [É um pensamento fetichista.] Uma pessoa que raciocina assim não está qualificada para discutir nada, muito menos para interferir numa questão importante de cuja resolução depende a vida de milhões de seres humanos. Mas a antropóloga da UnB não raciocina assim por burrice natural, e sim por aquela burrice auto-inoculada, viciosa, proveniente do desejo de camuflar uma escolha emocional e a vontade irracional de um grupo de pressão sob a aparência de uma racionalidade científica perfeitamente inexistente. Tirar conclusões científicas de uma figura de linguagem é o que pode haver de mais irracional, de mais imbecil, de mais tosco e primitivo no pensamento humano. Títulos, cargos e honrarias acadêmicas não enobrecem em nada esse tipo de estupidez, só o tornam mais revoltante e insuportável. Nem o ex-presidente Lula, com todo o seu auto-satisfeito analfabetismo e toda a sua coleção de diplomas dedecoris causa, teria o direito de baixar o nível da discussão a esse ponto. Para quem não estudou latim, dedecus, dedecoris = falta de vergonha na cara. (…) Dedecoris causa, por isso que ele recebeu vários diplomas. Já são cinqüenta e dois diplomas Dedecoris Causa. (…) O que tenho a dizer sobre a presença multitudinária desse tipo de opinadores nos debates mais vitais e decisivos é: Basta! Fora! Vocês são um problema maior e mais grave do que a miséria, o banditismo, as drogas, a delinqüência juvenil e tudo o mais, pois, entre os mais urgentes anseios nacionais e a sua realização vocês são o muro de chumbo que impede a passagem, fomentando a confusão proposital, abortando qualquer debate sério e impondo ao país, sob o pretexto de ciência, opiniões histéricas de grupos de pressão. Se você estudar, rastrear como foi a formação científica dessa dona, ela estudou antropologia. Isto quer dizer que os pilares da visão do universo dela são os grandes antropólogos: Malinowski, Margaret Mead, Ruth Benedict, essa gente toda, depois os estruturalistas, os desconstrucionistas. Então a formação dela começa com isso aí. Acontece que todas essas escolas entram como um elemento crítico dentro de uma tradição cultural e, como elemento crítico, eles têm a sua validade, quer dizer, dentro do conjunto, eles corrigem um pedacinho. Mas se você os toma como referências maiores, então a crítica do pedacinho se transforma na afirmação positiva de um todo. Por exemplo, quando Margaret Mead e Ruth Benedict entram com o relativismo cultural, elas têm a sua razão. Por quê? Ao fazer o estudo comparativo das culturas, você já não pode entrar com um partido tomado, sendo a favor de um e contra a outra. Você não pode fazer isso, porque isso de fato não seria científico. Porém, quando o relativismo cultural deixa de ter apenas esse papel corretivo e crítico e papel de precaução metodológica e se torna um postulado positivo, aí entrou no mundo da loucura completa, porque já quer dizer que todas as culturas se equivalem. Eu digo: como você pode saber disso, se você se proibiu de fazer comparações de qualidade entre elas? Então você proclama a equivalências das culturas porque não as comparou. Ou seja, do fato de que você não estudou algo, tira alguma conclusão. Quando a pessoa recebe esse tipo de formação, a mente dela já está deformada para o resto da vida. Se ela ouve o professor dizer isso e não percebe a contradição profunda — não é contradição lógica, é contradição ontológica, são coisas que são materialmente impossíveis —, e se aceita isso, a cabeça já está deformada para sempre. Quando que uma pessoa assim vai poder distinguir o que é o nome de um ente, de uma substância, do que é uma figura de linguagem que o designa por uma de suas partes? Ela não estudou lógica, não sabe o que é ciência, só sabe aqueles preconceitos bobocas que a formação antropológica meteu na cabeça dela. E é isso o que acontece no Brasil. As pessoas entram na universidade sem ter cultura nenhuma, sem conhecer história, sem conhecer a língua, sem conhecer coisa nenhuma, e daí chegam esses luminares da ciência e impõem para eles uma visão do mundo — visão do mundo que é válida enquanto observação crítica de detalhe, mas que não têm valor de axiomas universais positivos, e são aceitos como tais. Para entender o que essa dona está dizendo, temos de conhecer um pouco da história da universidade brasileira e um pouco da história das correntes culturais que influíram no Brasil. Por exemplo, quem foi o grande antropólogo brasileiro? O maior dele foi o Gilberto Freyre, sem sombra de dúvidas. Gilberto Freyre tem a cabeça totalmente entortada pelo Franz Boas, porque ele, quando mocinho, já recebe a influência do Franz Boas, que já vem com todo esse negócio do relativismo, e aquilo tem um eco profundo no coração do Gilberto Freyre. Por quê? Porque ele chega na universidade com um complexo de inferioridade de pertencer a uma cultura subdesenvolvida de terceiro mundo e, de repente, o professor fala: “Não, não há culturas maiores ou piores”. “Ah, que bom! Que maravilha! Agora eu vou dizer que o Brasil é uma civilização maravilhosa, um modelo para o mundo”, que foi o que ele fez. Tudo isso que ele fez, eu digo, é verdade relativamente, mas não pode ser afirmado de maneira positiva. Entre fazer uma restrição crítica e afirmar um postulado a diferença é enorme, enorme, enorme. É a diferença que existe entre, por exemplo, um delegado começa uma investigação: ele não tem provas contra ninguém, se as tivesse já teria acabado a investigação. O delegado fala: “Aqui não temos provas contra ninguém”. “Ah, não tem provas contra ninguém? Então vamos todos para casa, estamos todos livres”. É esta a conclusão que os caras tiram. Quer dizer, de uma restrição de método, tiram uma afirmação positiva. Se não há provas contra ninguém, em vez disso ser um motivo para investigar, não: a investigação já acabou porque estamos todos inocentes. Claro que são erros de pensamento primários, bobocas, coisa de retardado mental. Mas quando essas coisas vêm com o prestígio de ciência e encobrem milênios de civilização, dos quais nasceu essa ciência e sem a qual essa ciência não faz o menor sentido, então o que está fazendo? Você já se transformou numa metonímia viva, já é a parte tomada pelo todo. O relativismo cultural tomado como princípio positivo, ele em si é uma metonímia, porque quer dizer o seguinte: “Sob certo aspecto, não pode haver comparação de valor entre culturas, mas, sob outro aspecto, se não houver comparação de valores, não se pode entender as culturas, é impossível.” Quando diz que não se pode afirmar uma diferença de valor, não se pode afirmar de início — seria um preconceito. Preconceito é um pensamento pré-conceitual, antes de ter um conceito claro da coisa, já julgou. Isto é claro que você não pode fazer. Mas isso é um preceito metodológico, e não um juízo científico a respeito de um objeto que você mesmo acabou de dizer que não vai estudar. O sujeito que recebeu essa formação, a cabeça dele já virou um nó e ele mesmo é uma metonímia. Pensar, para ele, é tomar a parte pelo todo, sempre, e nunca vai saber que está falando apenas de símbolos inventados na sua mente e não de realidades externas. Acho incrível o número de pessoas que é vítima deste pensamento metonímico no Brasil. Não precisa ser petista nem comunista para fazer isso, todo mundo faz isso. Quer dizer, quando você descobre uma pequena objeção a uma coisa, transforma essa pequena objeção num novo princípio universal abrangente, então às vezes está mais enganado do que o erro que combate. [2:00] É a mesma coisa do sujeito que não sabe nada de Cristianismo, mas ele leu Nietzsche, e o Nietzsche diz que o Cristianismo é uma coisa de pessoas inferiores. E para não ser uma pessoa inferior, toma isso como uma régua universal, sai falando isso e já se transformou numa pessoa inferior imediatamente, se transformou no Janer Cristaldo, que é um sujeito que julga aquilo que desconhece e que vai olhar civilizações inteiras às vezes sob o prisma de um acontecimento incerto do qual ele ouviu falar. O que é isso senão deformidade mental, despreparo, falta de qualificação. Não adianta nada, falar mal dos outros, insinuar que aqueles outros são uns desqualificados, se nós fazemos a mesma coisa. Prestem atenção, nenhuma opinião é em si mesma melhor do que a outra. Nenhuma. Nunca. Porque a opinião depende dos fundamentos que ela tem. O valor da opinião está vinculado aos seus fundamentos. Então, uma opinião, só vale a mais ou a menos dentro do quadro total do pensamento do sujeito, e dentro do quadro total do assunto em discussão. Se não, não! Agora, uma pessoa, quando adere a uma opinião no Brasil, já acha que só por causa disso se tornou superior. E não entende que o problema do Brasil não é que esta ou aquela opinião predomine, é que este tipo de pessoa predomine. Não se trata das idéias, das doutrinas ou dos projetos, mas das pessoas. Quando eu falo em criar uma nova geração de intelectuais, não é criar uma nova geração de intelectuais que tenham opiniões diferentes dessas pessoas. Por exemplo, acabou de morrer o Jacob Gorender, eu tinha muitas opiniões diferentes das dele, mas, ele se aproximava muito mais do que eu entendo como um intelectual do que um Rodrigo Constantino, um Janer Cristaldo ou esses conservadores que estão opinando por aí. Uma intelectual muito mais respeitável, muito mais sério. Ele tinha alguma noção do que é a busca da verdade, e estava sinceramente empenhado dentro das limitações da sua inteligência, e das limitações do seu compromisso partidário também. O que nós temos que trocar não é de opiniões, é trocar de pessoas. E colocar pessoas melhores ocupando os megafones. Se isso não acontecer, não há esperança, e não adianta lutar por esta ou aquela opinião, é perda de tempo. Todo esse pessoal, liberal e conservador, quantos entre eles são melhores do que a turma do PT, do Partido Comunista? Se tiver um ou dois, é muito. Nem melhores moralmente, nem intelectualmente e nem em termos de coragem. Em termos de coragem, não há nem o que falar, porque os nossos liberais gostam de ficar em hotéis de cinco estrelas, viver bem. Alguns acham que, por terem lido a Ayn Rand, enchendo o bolso de dinheiro e vivendo bem, já estão sendo um exemplo para a humanidade. Não sou contra você viver bem, mas eu sei que aquilo que você come não me alimenta, não me faz bem nenhum, e nem isso esses chegaram a entender ainda. Então, nós temos é que trocar de gente. Pelas propostas de trabalho que eu tenho recebido aqui, estou muito satisfeito, eu estou vendo que este curso aqui está funcionando, que está realmente despertando o que tem de melhor nas pessoas, mas, o que se tem que ser feito daqui para adiante é imenso, e se continuar assim, e esses trabalhos forem realizados e vocês não desistirem da seriedade da vida intelectual, nós vamos dar uma lição para este país. Não é uma lição de política. Nós não iremos desbancar o PT, não é disso que se trata. Nós vamos simplesmente é mostrar como é que se faz, e vamos pegar toda essa geração de picaretas e jogá-los no lixo, que é o lugar deles. Pegar um monte de Débora Diniz, Emir Sader, Rodrigo Constantino, toda essa gente que está dando mau exemplo, e vamos tapar a boca deles. Eu sempre pensei assim: “Se houvessem cem pessoas fazendo um serviço como este que estou fazendo, acabaria toda essa pseudo-intelectualidade, e acabariam também todos os movimentos políticos baseados nela, porque todo movimento político sem intelectuais não é nada.” São os intelectuais que têm as idéias e que metem as idéias na cabeça dos outros. Se cortar as cabeças dos intelectuais, os movimentos pifam, perdem o embalo. Isso já teria acontecido há muito tempo, porque há muito tempo entendi que não se trata de se fazer predominar essa ou aquela opinião, esse ou aquele projeto, a questão é do tipo de pessoa que está envolvida. Naquele meu livro “O Imbecil coletivo” é todo isso aqui, não estou realmente discutindo idéias, estou discutindo pessoas, não do ponto de vista de seus pecados pessoais, mas do ponto de vista da sua falta de qualificação intelectual para entrar no debate. Assim como um advogado analisa os membros de um júri para saber se eles estão aptos à participarem do júri antes de começar o julgamento, agora, aqui o pessoal quer passar direto ao julgamento antes de discutir a qualificação do juiz e dos jurados. “Ah isso é proibido, porque isso é argumento Ad Hominem”. Pelo amor de Deus, que palhaçada é essa? Pelo fato de não poder fazer um argumento Ad Hominem, aceitando qualquer interlocutor, por mais imbecil, despreparado e trapaceiro que seja, você cai no jogo deles, evidentemente. Então, eu acho que por hoje é só. Dá tempo de respondermos perguntas depois ou ficou muito tarde? Acho que comi a segunda parte. Então hoje não teremos a parte de perguntas e respostas, só semana que vem. Muito obrigado por esses trabalhos que estão me enviando. São várias dezenas, muito satisfatórios. Todos eles, sem exceção. Todos são muitos sérios e muito bons. Nós temos que discutir um por um, e faremos isso depois. Então, até a semana que vem e muito obrigado. Transcrição: Jussara Reis de Abreu e Carlos Felice Revisão: Carlos Felice Revisão final: Maurizio Casalaspro