Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 204 18 de maio de 2013 Vamos retomar um texto que já lemos, de Philippe Perrot, Sobre a ontologia de Louis Lavelle, um texto mais curtinho cujo comentário irei começar. Eu pretendo continuar com Louis Lavelle por algum tempo. O texto é do prefácio de Perrot para a Introdução à Ontologia na nova edição do Louis Lavelle. Essa numeração é minha; fui eu quem a inventou para facilitar. E eu não estou traduzindo o texto inteiro, apenas pegando determinados trechos. Começa Perrot: 22. “É impossível que o eu se identifique com a inteligência, pois a inteligência nos representa por toda parte aquilo que nos ultrapassa e que nos é exterior.” Vocês podem estranhar um pouco esse uso do verbo representar porque no caso quer dizer representar para nós, ou seja, representar é um apresentar indireto: nos mostra de algum modo, nos indica. Mas este é um uso comum em filosofia. “Por isso Malebranche dizia, com justeza, que a verdade, não a vemos no nosso próprio entendimento, mas no entendimento mesmo de Deus. Em contrapartida, é impossível que o eu não se identifique ele mesmo com o querer. Pois o querer é o ser mesmo na medida em que o assumimos. De tal modo que ele é individual, como a inteligência é universal, o que basta para explicar por que ele é temporal, ao passo que a inteligência é intemporal.” Acho que esse parágrafo nem mesmo precisa de explicação. É através da inteligência que apreendemos verdades que nos transcendem infinitamente. Por exemplo, todas as verdades da matemática não são verdades pessoais, são verdades universais as quais temos acesso pela inteligência. Portanto, não pode haver a identidade entre a inteligência e o eu. Embora as duas coisas estejam, evidentemente, interconectadas. Ao passo que o querer sempre se refere a alguma coisa concreta que está de algum modo ao alcance da nossa individualidade. Nenhuma pessoa tem uma vontade universal, a vontade é sempre pessoal. 23. “A tensão inevitável a que nos submete a disjunção da inteligência e da vontade [leva-nos de volta] à categoria central da existência e ao conceito que a condiciona: o da participação. O ponto de vista da inteligência é justo, mas ele tende a nos dissolver no Todo; ele está sempre marcado pelo caráter da representação, cuja universalidade é obtida ao mesmo tempo pela referência ao espaço e por colocar entre parênteses a singularidade do eu em proveito de um sujeito neutro e anônimo.” É fácil perceber que em todas as operações da inteligência, o que está funcionando é um aspecto seu que idealmente é igual em todo mundo. Quando você faz um cálculo, todos os resultados têm de ser iguais para todas as pessoas; todas as relações lógicas e matemáticas são sempre iguais. Isto quer dizer que através da inteligência você salta para cima da sua individualidade e se coloca num plano de um sujeito anônimo e universal. “Lidamos assim com um ponto de vista abstrato e no fim das contas estático, incapaz de levar em conta a dimensão criadora do Ser da qual participamos e que experimentamos na reivindicação que o eu faz de ser causa de si mesmo.” Isto quer dizer que a inteligência não age sobre os objetos; ela conhece e apreende essas relações universais, mas ela não está agindo sobre eles. Nesse sentido ela não tem uma ação criadora. Esta ação criadora é a vontade que cria a si mesma. A vontade tem essa característica que ela mesma se cria; ela surge do nada, ela é você mesmo. Não há diferença entre você dizer “eu” e dizer “minha vontade”. Por outro lado, isso é fundamental em Louis Lavelle, só temos algum acesso ao conhecimento do ser como tal porque participamos da dimensão criadora do ser. As ações pelas quais nos criamos a nós mesmos e nos fazemos a nós mesmos, que escolhemos a nossa vida – os valores que vão nos orientar e a partir daí nós moldamos a nossas ações em vista de nos tornarmos tais ou quais - tudo isso tem uma dimensão ontológica. São fatos que não se passam apenas no seu pensamento, mas que criam realidade. Portanto, você está participando do ser não como observador, mas como um agente; ou um pseudópodo do ser – e este é o ponto de ligação que nós temos com o ser: é o único contato efetivo que nós temos com ele. É através do conhecimento que nós temos da nossa própria vontade que podemos saber alguma coisa do ser. Se fôssemos puros entes cognoscentes, nada saberíamos do ser. Só saberíamos as relações lógicas e, portanto, totalmente hipotéticas e a própria inteligência por si não tem esse ponto de ligação com a realidade e nem com o ser. Nós existimos não como entes genéricos, mas como indivíduos. Portanto, é só através de um aspecto puramente individual nosso que nós temos um ponto de ancoragem no ser e não pela inteligência – que é genérica e igual em todo mundo. Dito de outro modo, podemos conhecer através da inteligência, mas existimos através da vontade. É justamente porque existimos que podemos conhecer a existência – a nossa forma específica de ser. Lembrando que Lavelle distingue esses três termos: o ser, a existência e a realidade. O ser é a fonte infinita de onde tudo jorra; o ser é uma subjetividade criadora sem limites. A existência é a nossa forma específica de ser e a realidade é o campo de experiência específica na qual nós nos encontramos e onde temos de nos realizar. O que cria esse ponto de ancoragem tanto na realidade quanto no ser é a vontade e não a inteligência. A vontade é nós mesmos; ela é a nossa existência. “Dito de outro modo, o que falta à inteligência é essencial, pois é o caráter vivente do Ser, a sua liberdade, a sua interioridade e a sua fecundidade inesgotável.” O caráter vivente é a liberdade. A inteligência de fato não tem liberdade: só pode reconhecer aquilo que é e a sua interioridade. Como as operações da inteligência são anônimas e impessoais, elas não requerem esta participação puramente pessoal, que é o próprio ato de vontade. A própria inteligência não se move sem um ato de vontade. Nós conhecemos as coisas porque queremos conhecer as coisas. Portanto, o que vai nos dar a nossa consistência ontológica não é a nossa inteligência, mas a nossa liberdade; a capacidade que temos de nos tornar existentes através de um puro decreto da vontade. Você faz as coisas porque você quer e essa é a sua forma específica de existência. “Nota de rodapé de Philippe Perrot: Segundo Lavelle, a inteligência é uma das funções da consciência, que comporta duas outras: a vontade e o amor. Estas três funções são inseparáveis.]” Ele voltará a este tema mais tarde. Porém, uma vez esclarecido que a vontade é a própria substância do eu, ele diz: 24. “Não se deve identificar a vontade com a liberdade; esta última é a marca da nossa participação no Ser. Se a liberdade nos aparenta ao Ato puro, parece que a vontade nos remeta, antes, para o lado da natureza.” A vontade tem essa coisa ambígua, pois está, por um lado, ancorada no ser, no ato puro e, por outro, ela parece estar condicionada a natureza externa. Dito de outro modo, a vontade, como o próprio ser humano, está entre o ser e a realidade. A natureza faz parte da realidade. “Ela parece exprimir, pelo menos, tanto as aspirações do corpo quanto as da alma. A vontade engaja-nos fisicamente no mundo... donde a tese possível de uma vontade brutal, inconsciente, pura expressão de um querer-viver amoral.” Nesse caso, a vontade seria identificada com o puro instinto. Mas, é evidente que isto aqui acontecesse então ela não mereceria o nome de vontade, já que ela estaria condicionada totalmente por causas materiais ou biológicas que antecedem – e neste sentido, não seria uma vontade pessoal, como não é a vontade de um animal. O animal não tem a margem de escolha entre o seu instinto e alguma outra coisa, portanto é errado falar em vontade animal. Na medida em que você identifica a vontade com uma força obscura, animal e inconsciente, já não se trata obviamente de vontade porque o característico da vontade é essa natureza ambígua, por assim dizer, e o fato de ela ter alguma margem de escolha. Dito de outro modo, a liberdade é a marca da nossa participação no ser, quer dizer: a liberdade é apenas uma das possibilidades da vontade. Ela tem essa possibilidade como tem a possibilidade de se dissolver naquilo que é puramente instintivo, animal e pré-condicionado. Se ela não tivesse isso, ela seria uma liberdade absoluta, total e incondicionada. Então, não seria a vontade humana, mas a vontade divina. “Tal não é o ponto de vista de Lavelle, para quem a vontade, ainda que ligada intimamente à natureza, não tem a função de encerrar-nos nela, mas, ao contrário, de nos liberar dela a fim de nos alçar ao cume de nós mesmos.” Mas é claro que isso é um processo temporal e, é óbvio que a vontade aparece, em primeiro lugar, como puro instinto animal. Se você é um bebê, a sua vontade vai ganhando autonomia muito gradativamente, por um processo cheio de complexidades e dificuldades. Esta séria de dificuldades é a história da vontade e a história da própria pessoa. Se as dificuldades prevalecessem completamente, você seria um animal. Você seria totalmente pré-determinado por fatores naturais e instintivos. E se não houvesse dificuldade alguma, você seria Deus. Não acontece nem uma coisa nem outra. Já dizia Platão que o homem é um intermediário entre o animal e o anjo. Pode-se dizer que você vem dessa natureza animal, mas algo vai se desenvolvendo depois em você que lhe dá a alternativa, inclusive, de contrariar a natureza animal – coisa que o próprio animal não pode fazer. 25. “Se a vontade pode parecer desde logo buscar fins materiais, bem sabemos que nenhum desses fins que asseguram o reino do corpo é capaz de satisfazê-la.” Isso aqui é importante porque o ser humano quer coisas que transcendem a possibilidade de ser atendidas pelo puro instinto animal. Ele tem aspirações que vão infinitamente além do que um animal pode querer – e mesmo que ele satisfaça todos os seus desejos e necessidades animais, ainda não está bom, é preciso algo mais. É justamente esta insatisfação do ser humano com a sua própria condição material é que marca para nós o fato de que a vontade não se limita a esfera instintiva e animal. Ela tem por si mesma um algo mais. Um algo mais que ela própria não pode satisfazer de algum modo, ela vai ter que buscar esse algo mais na própria dimensão do ser do qual ela emerge. Ela vai ter de aprofundar a participação no ato criador do ser para daí poder realizar isso que Perrot disse, ou seja, chegar ao cume de nós mesmos. “Através de todas as modificações que ela introduz no mundo, a vontade nada mais busca do que reencontrar a unidade mesma do ato que a inspira e do qual é preciso que ela se separe, para assumir ela mesma a responsabilidade dele.” Existe o ato criador – a liberdade – que inspira o movimento da vontade humana que vai desde o puro instinto animal até as aspirações mais elevadas. Porém, esse processo não acontece em nós automaticamente, mas apenas nos empurra. Em certo ponto é preciso que a vontade se separe do ato criador originário para assumi-lo ela mesma. Ela assume a responsabilidade de prolongar o ato criador. Há uma separação, a nossa vontade se distingue da vontade de Deus para que possamos assumir essa vontade responsavelmente por nossa própria iniciativa. Se não, a transfiguração da vontade humana em vontade espiritual seria um processo automático e, por assim dizer, inconsciente. Se não houvesse distinção, mas uma continuidade perfeita entre o ato criador do espírito e a vontade individual, nós nem perceberíamos nada. Nós nos tornaríamos anjos sem a nossa participação, não haveria o elemento da liberdade ou da escolha humana. A existência dessa escolha pressupõe que num certo ponto qualquer a vontade se separe do ato criador para que ela própria assuma a vontade do ato criador por iniciativa dela própria. Você tem de aceitar a sua liberdade. Você já tem a liberdade de algum modo porque o ato criador já lhe instituiu como um ser livre, mas é preciso que você a assuma e seja livre por sua própria escolha. Se não a liberdade não se perfaz evidentemente. Ela seria apenas uma liberdade virtual. “Não se pode imaginar uma vontade que não seja uma vontade de valor.” Uma vontade voltada para algum valor e não somente para uma coisa, para um objeto ou para o atendimento de uma necessidade. O valor é algo que está colocado para além de todos os objetos e que aparece como uma espécie de justificativa da existência desse objeto. Portanto, o valor só chega para nós como algo que ainda não está realizado, mas que deve ser realizado. 26. “O que vale não é somente aquilo que está em condições de atender aos nossos desejos, porém, mais profundamente, aquilo que nos torna capazes de dominá-los, de elegê-los ou de rejeitá-los, de hierarquizá-los e, portanto, de julgá-los.” Portanto, existem os nossos desejos e nossas necessidades, mas para escolher quais os valores que você vai preferir e quais valores você vai preterir, quais você vai atender e quais valores você vai abandonar, essa escolha se faz baseada num valor. O valor se torna o conceito fundamental da vontade; a vontade é voltada para um valor. É evidente que os próprios desejos e necessidades do corpo são também valores num certo momento, porém o ser humano é capaz de conceber outros valores e aprender outros valores superiores em função dos quais estes possam ser julgados, escolhidos e hierarquizados etc. O simples fato de você escolher entre fazer uma coisa ou a outra, sendo que as duas coisas podem ser desejáveis do ponto de vista do corpo, subentende que a própria necessidade corporal não é o critério de escolha. Tem de haver outro critério que abranja as duas alternativas e as hierarquize de algum modo. “O princípio do valor desloca-se, seu centro de gravidade tende a subir do mundo sensível ao mundo inteligível...”. Evidentemente é um processo temporal. Essa é a substância da nossa biografia. Se não fôssemos capazes de ir aos poucos transcendendo as puras necessidades e desejos animais para nos orientarmos em função de valores espirituais que permitem hierarquizá-los, nós simplesmente não teríamos uma biografia interior, como um cachorro não tem biografia interior porque ele não sai do plano das necessidades iniciais. Os desejos e necessidades que os cachorros têm ao nascer são os mesmos que ele terá sempre. Não há uma biografia interior, não há uma evolução ou crescimento interior do animal. E nós só temos uma biografia interior por causa disto. Isso torna claro que se desde o início da vida nós somos a nossa vontade, no fim da vida – quando você tem a sua essência já realizada ou em vias de realização –, isso só se torna aqueles valores que você incorporou ao longo da vida que você agora representa e personifica. Tudo o mais que você recebeu da natureza – que já veio pronto – não faz parte de você mais. Quando você morre, naturalmente desaparece. Outro dia eu estava comentando com um amigo. O processo de estupidificação e animalização das pessoas chega a tal ponto que há uma senhora – professora universitária, negra – dando uma entrevista e o sujeito contou a biografia dela, o que ela tinha feito na vida. Então, ela disse que o sujeito não disse o principal: ela é mulher e negra. Eu pensei que a senhora fosse um homem japonês. Você veja que a verdadeira biografia dela tinha menos importância que os dados biométricos que não são méritos dela de maneira nenhuma. Não foi ela que se fez negra e mulher; já nasceu assim. Portanto, ser mulher e negra literalmente não faz parte da biografia da senhora. É um dado externo que ela tem de contar. Faz parte da história da família dela e da história da espécie, mas é como se dissesse que ela tem absolutamente nada a ver com isso – assim como você nascer branco com olhos azuis não tem nada a ver com aquilo. Não há mérito e nem demérito, é um dado neutro. Do mesmo modo, os seus instintos básicos também nascem com você e eles não fazem parte da sua história, ela é marcada com o que você fez com eles. À medida que você os transforma em instrumentos ou obstáculos para a realização dos valores que você escolheu; isto é a sua biografia. As escolhas que você teve de ir fazendo para realizar isso com maior ou menor sucesso. Não tem outra biografia e você não é mais nada. “Há uma dialética do querer, que, tomando apoio sobre os desejos, nos impele progressivamente, de ultrapassagem em ultrapassagem, em direção ao supremamente desejável.” Isso quer dizer que incorporar o valor mais alto é o destino do ser humano. Nós só existimos para isso e para mais nada. Da mesma maneira que existe um processo inerente ao ser humano, por assim dizer, dessa ultrapassagem que está tão bem simbolizada naquela escalada que Platão faz desde a beleza sensível até a beleza inteligível. Essa escalada está embutida na natureza humana. Também existe, dentro do ser humano, o elemento antagônico de apegar-se ao biométrico. É a cor da pele, número de sapato, DNA, tamanho da calcinha, etc. Tudo isso que para nós deveria ser um instrumento para a nossa auto-realização, pode-se transformar num fetiche e obter sobre nós um poder hipnótico. E note bem, essa é a tendência da sociedade hoje, porque na medida que a ideia mesma dos valores vai desaparecendo da cultura, todo esse lado biométrico vai adquirindo uma importância extraordinária. “A vontade seria portanto, por essência, aquilo que em nós dá testemunho da nossa relação com o Absoluto.” É preciso ver que sem relação com o Absoluto, você não existe de maneira alguma. Você é apenas uma sombra que passa. Essa relação com o absoluto é uma escolha, mas, na verdade, você não tem outra escolha. É a única possível. É a única escolha que faz sentido. Isso é fundamental: 27. “A dialética do querer coloca-nos assim em condição de compreender por que não cabe separar as categorias ontológicas das categorias axiológicas...”. O conhecimento do ser é inerentemente o conhecimento do valor. Não tem como separar uma coisa da outra. Dum ponto de vista metodológico prevalece em toda a parte a norma de Kant: do fato não se deduz o valor e nem do valor o fato. Esta é realmente uma dificuldade que nós temos. Esta dificuldade existe e Kant expressou bem. Do fato que uma coisa aconteceu não se pode deduzir que a coisa seja boa. E do fato que a coisa seja boa ou má não se deduz que ela aconteceu ou não. Porém, essa dificuldade está no nosso entendimento e não na estrutura da realidade. Na estrutura do ser, o aspecto do ser e do valor é inseparável – por mais dificuldades que tenhamos de apreender essas duas coisas juntas. Por que o valor está inerentemente imbricado no ser e no próprio ser humano? O valor é aquilo que orienta a nossa vontade. É através da vontade que nós passamos a existir como seres humanos, temos uma biografia e, portanto, uma essência. Lembrando que para Louis Lavelle, a existência precede a essência – não no sentido da espécie, mas no sentido do indivíduo. O que o indivíduo vem a ser – o que se torna a sua essência –, é resultado de uma série de escolhas que foram feitas por sua vontade. Estas escolhas, por sua vez, são feitas em termos de valores. Isso quer dizer que sem o valor, você não teria existência alguma. É através da sua existência que você tem um ponto de ancoragem no ser e, portanto pode chegar ao conhecimento do ser. Por exemplo, quando um estudo qualquer feito pelo ser humano que vai se abster de fazer juízos de valor. Isto pode ser um preceito metodológico para evitar o cometimento de injustiças ou projetar sobre um fenômeno valores que são apropriados a outro. Mas, se você tomar esse preceito metodológico como uma regra ontológica, você apagou metade do ser. Você vai entender mais nada. Atualmente os antropólogos ensinaram as pessoas que não existem culturas superiores às outras. Não é que não existe, pois quando o antropólogo quando vai estudá-las, não pode levar pronto o valor de uma cultura para julgar a outra a partir dessa. Se não, ele estaria distorcendo tudo. Mas, você abolir o valor do estudo das culturas é totalmente estúpido e, na verdade, impossível porque as culturas se constituem de atos e escolhas que os seres humanos fizeram em vista de valores. E se os valores que eles escolheram não valem nada para você, você não vai compreendê-los e não poderá participar deles. Isto quer dizer que em última análise é impossível você evitar um juízo de valor no estudo de qualquer cultura. [0:30] Max Weber dizia que não podemos fazer juízo de valor mas nós temos que levar em conta a existência dos valores, eu digo, bom, isto ai é apenas uma desconversa, porque se eu levo em conta a existência de valores na cultura que eu estou estudando, mas ao mesmo tempo eu não faço nenhum juízo de valor a respeito, isto significa que eu não participo desses valores nem positivamente nem negativamente. Ou de outro modo, esses valores para mim não são valores mas são apenas fatos ou coisas, portanto eu não os compreendo como valores? Compreender um valor é absorvê-lo positiva ou negativamente, não há outra maneira de fazer. Portanto a abstinência de juízo de valor é um preceito metodológico, bom no começo, mas inviável no do estudo. Então, você veja aqui, o Marx Weber está tentando ser o mais honesto que podia dentro de um conceito positivista da honestidade que é ater-se aos fatos. Mas quando os fatos com que você está lidando são necessariamente valores, você transformá-los em puros fatos é esvaziá-los do seu conteúdo de valor e portanto, você não compreende mais. Por exemplo, vamos supor que você está ouvindo uma composição de Johann Sebastian Bach; ali evidentemente tem valores. Se você não participar dos valores, nesse caso, positivamente, você não entende, a música é apenas uma sequência de sons, é como você ter surdez tonal, ou seja, para ouvir Bach, objetivamente, eu tenho que me tornar doente de surdez tonal, para que eu não possa participar da emoção que ele está me transmitindo. Então, do mesmo modo, o método positivista ou relativista, ele contamina o estudioso de surdez tonal para que ele não cometa o pecado de valorar positiva ou negativamente os valores que está estudando, quer dizer, ele tem que, obrigatoriamente, encarar os valores como se fossem coisas ou fatos, mas na hora que se transformou em fato, não são mais valores, então você não pode nem participar deles nem rejeitá-los, então você não os entende como valores, você os entende apenas, vamos dizer, como valores que existiam na cabeça de um personagem. Por exemplo, se um indivíduo que você está estudando gosta de determinada coisa, você pode anotar que ele gosta dessa coisa, só que você não sabe, pessoalmente, se essa coisa é “gostável” ou não. Então, você não entende o sentido que aquilo tinha para ele. Quer dizer, na verdade, você esvazia o próprio verbo “gostar” de qualquer significado. Desta ambiguidade nós não temos como nos livrar, por um lado é verdade que de um fato não se deduz um valor, nem do valor se deduz o fato, por outro lado, também é verdade que os fatos esvaziados dos seus valores, são absolutamente inexplicáveis; e também é fato que eu não posso, simplesmente, anotar a existência de um valor na cabeça de determinado personagem, sem que, eu, ou participe desse juízo de valor ou rebaixe esse valor a um mero fato desprovido de valor. Então, isto aqui, só este tema aqui, já dá para fazer um curso inteiro em função disso, esses preceitos a respeito da abstinência de juízo de valor. Eles começam como preceitos metodológicos nas ciências sociais, mas eles acabam se tornando, eles próprios, valores dos quais a comunidade inteira participa. Afirmar taxativamente, que não há culturas maiores ou menores se transformou em um mandamento moral, porque se você valoriza mais uma do que a outra, então, você é preconceituoso, você é racista, etc., etc, ou seja, a abstinência de juízo de valor, se torna ela mesma, o único valor. Como esta abstinência implica não compreender nada do que você está estudando, torna-se necessário e obrigatório, que você não entenda nada e proclame a igualdade de tudo. Como essa igualdade não existe, nunca pode existir, e o próprio fato de você estar afirmando este valor, já o diferencia dos outros. Então, o que se tornou obrigatório é uma confusão total, no qual só o que predomina é a vontade do freguês. Não há, valores reconhecíveis, mas eu posso impor como valor supremo aquilo que eu quiser. Você entra em um negócio nietzschiano onde o valor é pura criação, eu crio o valor do jeito que eu quiser. E quem não gostar, eu mando matar. Chegamos a esse ponto de estupidez e de degradação da inteligência humana. “...a existência na medida que é assumida pela vontade é correlativa do valor,” E se a existência não for assumida pela vontade, ela não existe de jeito nenhum, quer dizer, a vida que fosse, é inconcebível, mas vamos tentar conceber a vida, com ausência de escolhas e portanto a ausência de valores orientadores, não existe nenhuma vida humana assim, ela estaria reduzida ao puro reflexo condicionado animal. Ela não seria existência no sentido humano e não haveria uma biografia da pessoa. Uma biografia anterior. “o ser coincide com o bem,” Não tem para onde fugir disto. “se, com efeito, nos recusamos a confundir o ser com a realidade,” Que é a confusão que todo esse pessoal faz: “Não é possível identificar a aspiração ao ser com o movimento negativo. Tender ao ser significa optar por aquela plenitude interior da qual só Deus desfruta eternamente” Então, quer dizer, o caminho natural do ser humano e ir em direção a essa plenitude da liberdade, que ele só vai realizar participativamente: “não há diferença entre dizer que esse querer se quer a si mesmo, e dizer que ele afirma o seu próprio valor, e estabelece nele mesmo a identidade do ser e do bem” Ou seja, a essa identidade do ser e do bem, ela é reafirmada cada vez que você escolhe alguma coisa. Com isso terminamos esse texto, ainda vou continuar com ele nas próximas, semanas. Agora entramos aqui num texto bem mais difícil do próprio Louis Lavelle, que é especificamente sobre a noção, do ser. Então, isso aqui faz parte de uma coletânea chamada De l’Intimité Spirituelle, que foi feita logo depois da morte do Louis Lavelle, e que reune vários textos individuais nos quais todos os temas principais dos grandes livros do Louis Lavelle se encontram de maneira mais compactada e resumida, eu quero dizer que algum destes textos são até mais dificeis do que os livros mesmos, mas pelo menos eles têm a vantagem de ser um pouco menores. Então diz ele aqui: “... o próprio da filosofia, o que nós lhe pedimos o que ela nos promete, e fazer-nos sentir aquela presença do absoluto, que transfigura o acontecimento mais humilde da vida, e lhe dá, por assim dizer, um plano de fundo sem limites” Ou seja, o objetivo da filosofia é fazer com que você veja tudo, à luz do absoluto, que a presença do absoluto está manifestada nos seus menores detalhes, o que é a mesma coisa que dizer, que não há mais, uma vida puramente empírica, constituída tão somente de dados que estão ai. Dados soltos, separados, fragmentários e inconexos. “E ainda por evocar o absoluto, o qual ele nega, que o pensamento relativista é um pensamento filosófico” O pensamento relativista, na medida em que ele nega o absoluto, está se referindo ao próprio absoluto; por isto então, ele pode ser admitindo ainda como um pensamento, filosófico, ou, no mínimo, como um capítulo da dialética interior da sua própria busca do absoluto. Um certo coeficiente de relativismo é absolutamente necessário, como preceito metodológico, como nós acabamos de ver, quer dizer, você não pode partir, da afirmação prévia dos valores que você escolheu como se eles fossem os únicos valores, ou como se fossem predominantes. Temporariamente você tem que colocar os valores entre parênteses, até que novos valores se revelem. Então, nesse sentido, vamos dizer, o relativismo é um preceito metodológico perfeitamente aceitável, mas você tem que saber que ele vai ser temporário, você não pode continuar com o relativismo até o fim, porque senão você colocará entre parênteses todos os valores, inclusive o valor da própria investigação que você está fazendo. “só que uns sustentarão que o absoluto está, por definição, fora de alcance, que não o estabelecemos jamais, senão como origem e suporte de todas as nossas iniciativas, ou então como um objeto de fé ou de esperança, mas que não pudesse se realizar para nós, se que a nossa existência individual fosse aniquilada” [0:40] Bom, você vê isso claramente, na metafísica indu, se pode encontrar exposições muito claras dela no René Guénon. Diz o René Guénon que o objetivo de tudo é você transcender a sua existência individual e integrar-se no absoluto, você cessar de existir como indivíduo. Essa é a perspectiva no absoluto, é, metafísica indu, todos nós, a nossa verdadeira realidade, não é? É o Brahma o primeiro e único e no fim todos nos transformaremos, nele, ou seja, seremos absorvidos e cessaremos de existir como indivíduos, existe até a pretensão de que, ainda em vida, certos indivíduos já transcenderam a sua individualidade e eles já são, o Brahma caminhando por ali, coisa da qual eu duvido. Mesmo porque eu conheci alguns deles e eles me pareciam ser perfeitamente individuais como o restante de nós. Então, com a ressalva de que o maior dos metafísicos islâmicos, que era segundo René Guénon, o seu próprio guru que era Mohieddin Ibn Arabi, ele fazia toda essa metafísica do absoluto, exatamente como os indus, mas no fim ele dizia, que alguma dualidade tem de ser preservada até o fim para que possa haver uma relação de amor, entre Deus e a criatura, então nesse sentido o Ibn Arabi, parecia muito mais, com o cristão, não é, ou como São Tomás de Aquino, que dizia assim: “no paraíso estaremos fundidos mas não confundidos”, ou seja, as identidades individuais se preservaram sob a forma dos valores que foram incorporados durante a vida, e que nos diferenciarão uns dos outros. “outros esperam que o absoluto lhes seja revelado, como um termo que ao mesmo tempo suspendesse e satisfizesse todos os nossos esforços e todos os nossos desejos, e no qual pudéssemos obter o repouso e a posse de todos os bens, que nos venham jamais a ser propostos” Na verdade é a mesma coisa, se o absoluto pode lhe ser revelado, trazer a satisfação de todos os seus desejos. De repente então, você já está transfigurado nele e, não só não há nada mais a desejar como não há nada mais a conhecer, isto é importante. No livro A metafísica oriental que não é um livro, é um folhetim, o Guénon diz exatamente que isso: “depois que chegamos no Brahma não há mais nada a conhecer”. Então, você próprio passaria a ter uma existência, universal e diferenciada, eterna e imutável. Na verdade, conforme o entendimento do hinduísmo, não se fala de criação, se fala dos dias e noites de Brahma, inspiração e expiração, quando o Brahma expira, então aparece os mundos e quando ele inspira traz tudo de volta e tudo cessa de existir enquanto tal. Bom, eu acho que isto é imagem mítica, só; é uma figura de linguagem. Tanto que essa doutrina exige, também a necessidade da criação infinita dos mundos, os mundos estão sendo criados infinitamente e não vai parar tão cedo. E este universo no qual vivemos é apenas um dos muitos que serão então colocados em uma fileira, como em uma espécie de um colar de pérolas que não termina nunca e que no fim das contas se morde pela cauda como a serpente ouroboros. É tudo me parece totalmente desprovido de qualquer sentido. É possível acompanhar a metafísica do René Guénon até esse certo ponto, depois você tem que parar, falar, espera ai, não, simplesmente não pode ser assim. Porque isto vai chegar em contradições tão flagrantes, que você só aceita como um ato de decisão, porque você quer. Também isto implica o seguinte: que, nós pobres mortais, nós aspiramos no máximo a salvação da alma, mas os iniciados, eles têm uma outra coisa, melhor do que salvação que é a sua transfiguração no próprio Brahma. E eu conheci algumas dessas pessoas e elas me pareciam ter todo as limitações individuais que eu tenho e até mais algumas. Aquele negócio, como é que você sabe que isto não funciona? Pelos frutos conhecereis, eu conheço os caras; iniciados que já passaram do trigésimo terceiro grau faz muito tempo, e, em muitos aspectos, alguns deles me pareciam estúpidos e, sob certos aspectos, até malignos. “mas não é assim que o absoluto deve ser enfocado, pois ele não é uma finalidade situada fora de nós e a qual aspiramos, ele é o terreno sobre o qual a nossa vida deve aceitar estabelecer-se deste o seu primeiro movimento,” O absoluto não é para ser buscado, não é objetivo que está para além de nós, ele está embaixo de nós, e está nos sustentando na existência. Portanto, não é como objeto de contemplação que você pode conhecê-lo. Mas é como objeto de participação, quer dizer, na medida em que você mesmo, ao escolher realizar-se; você, adquire uma dimensão ontológica, já não só cognoscitiva mas ontológica, você participa do ato de criação, então você sabe algo a respeito dele, mesmo porque essa criatividade e essa liberdade, elas aumentam ao longo do tempo; a medida que você a aceita, mas aumenta, mas nunca ilimitadamente, não, ai você vai dizer: a por causa das limitações corporais. Vou falar, não! As limitações corporais, elas determinam o quanto de realização você vai ter durante a sua vida e esta realização nunca vai ser infinita, ela vai ter que parar em algum ponto, portanto o ponto em que parou, isto marca a forma, definitiva da sua individualidade, que não será transcendida jamais e nem tem porque ser transcendida. “ele não é o termo onde a nossa atividade completando-se, viesse, por assim dizer, morrer, mas o principio vivente de onde ela não cessa de extrair todas as forças de que ela dispõe e toda a eficácia de que ela é capaz” Muito bem, essas forças evidentemente são limitadas, não só porque, você tem uma condição corporal e espacial de vida, mas porque também você tem um tempo limitado e a quantidade do que você vai poder realizar é limitada e essa limitação é a forma final da sua própria essência, o famoso: “Tel qu'en lui-même enfin l'éternité le change” (Mallarmé). “Ninguém se desvia jamais do absoluto, como se crê por prudência ou por humildade...” Tipo kantiano, quer dizer, não vamos falar dessa coisa do absoluto, por que está para além da nossa experiência. Então parece que isto é um ato de humildade cognoscitiva. Você parar de falar de coisas que estão acima do seu alcance, para você falar daquilo que você, efetivamente, conhece, ai pelo menos a coisa é apresentada assim, porém diz o Lavelle: “ninguém se desvia jamais do absoluto, como se crê, por prudência ou por humildade, mas sempre por falta de coragem.” Então, porque seria estranho realmente que nós pudêssemos nos privar do absoluto, totalmente, você dizer: o absoluto é totalmente incognoscível então não vamos mais, falar dele, bom, mas ele continua estando por baixo de tudo aquilo que você faz, age e fala, ele continua presente de algum modo, você simplesmente, não querer falar dele não o desativa. Então, você impõe sobre a inteligência humana uma limitação artificial, só pode falar de tais ou quais objetos. E tudo que está para lá, você diz: é a coisa em si. Inatingível, só que, nós sabemos que a coisa em si, sempre estará ai. O tamanho da mutilação que isso impõe à inteligência humana é um negócio imensurável, porque ao mesmo tempo que você está afirmando que tudo o que você conhece está boiando dentro da infinidade do desconhecido, você também está afirmando a presença deste desconhecido o tempo todo. E, ao mesmo tempo, você está afirmando que as coisas que estão dentro desse desconhecido, podem ser conhecidas em si mesmas, sem referência a esse desconhecido, o que é, no mínimo, arriscado, pois se você está dizendo que o próprio em si, delas, é o que está por baixo da sua aparência. Você diz: bom, mas agora então só vou conhecer as aparências em si mesmas, você quer, por favor, me dizer o que que é uma aparência em si mesma? Uma aparência em si mesma é uma aparência que você examina, sem levar em conta se ela é aparência de alguma coisa [0:50] Ou apenas um fantasma, ou seja, a distinção entre o que que é uma realidade substantiva e o que que é apenas um fantasma fica proibida, só que você conhece as coisas sem saber se elas são, entidades substantivas ou fantasmas, o que que você sabe a respeito delas? Absolutamente nada, por mais que você, observe, classifique, meça e compare as aparências, a totalidade do conhecimento continua sendo absolutamente nada, porque a distinção fundamental, que é, vamos dizer, entre o existir e o não existir, entre o ser apenas uma aparência ou ser alguma coisa, está completamente proibida, isto é a mesma coisa, vamos dizer que impor, ao ser humano a obrigação de não conhecer nada e e que apenas eles estejam uns em acordo com os outros, quanto a figura das aparências e toda a ciência kantiana e toda a que saiu do Kant como, positivismo, neopositivismo, escola analítica é tudo isto aqui. Não podemos conhecer nada, mas temos que estar em acordo, uns com os outros, no que diz respeito à aparência dos fantasmas. Então, isso é a mesma coisa a declarar que esse conhecimento não existe, e note bem, que até nos maiores progressos da ciência, da ciência física, por exemplo, a dúvida quanto, a existência ou não de uma entidade substantiva por trás dos fenômenos permanece e a ciência física não tem como resolver isto, e é por isso que os maiores físicos confessam que se você pegar a melhor das teorias físicas, a mais comprovada, que é a teoria quântica, eles dizem: eu não entendo isto, nem sei se há o que entender ai, está tudo contado, pesado e medido, mas não sei do que está falando. Muito bem, isto é o limite inerente aos métodos da ciência física e nós não podemos condená-la por ela não descobrir aquilo que ela jamais tentou descobrir nem pode tentar descobrir. O problema é quanto esse estado da ciência física é tomado como limite último das possibilidades humanas, ou seja, se a ciência física não descobriu, nós não podemos descobrir por nenhuma outra maneira, isto é impossível. Ademais, por exemplo, quando Einstein diz que não há, esquemas de referência fixos e universais no universo, ou seja, os esquemas de referências são sempre relativos uns aos outros. Se você pensar bem, eu digo, bom imagine a hipótese contrária: se existisse no universo físico uma medida constante, isso ai significaria a existência de um absoluto físico, de uma absoluto corporal, o que é absolutamente inaceitável. O absoluto só existe na escala do ser infinito, que transcende infinitamente a dimensão física, então o que Einstein está dizendo é o óbvio, ele diz que não há nenhuma escala de referência, não há no universo físico nenhuma escala de referência fixa, porque se existisse ela seria só próprio absoluto ela seria o próprio Deus e nada disso existe. Muito bem, é claro que isso vale para o universo físico, só que, baseado nisso, o que o pessoal fez: transpuseram isso para todos os domínios do conhecimento. Então, onde não há escalas de referências fixas, no universo físico, elas passaram para, não há escala de referência fixa em parte alguma. O que vai resultar, numa coisa evidentemente, numa confusão dos diabos. Por exemplo, você dizer, que não há uma escala de referência fixa, ontologicamente? Ou seja, que a totalidade do ser se comporta como o universo físico do Einstein? Olha que prova você tem disso? Não tem nenhuma. Então, isso quer dizer que tanto no caso, vamos dizer, daqueles exemplos que eu dei das ciências humanas, quanto nesse caso, você está pegando limitações internas de uma ciência e transformando-as em limitações da realidade como um todo ou do ser como um todo, o que é evidentemente uma forma de raciocínio metonímico, está tomando a parte pelo todo, “pois a palavra absoluto não é nunca usada para marcar uma ambição ilegitima do pensamento puro, e sim aquela atitude de suprema gravidade interior que traduz o engajamento de todo o nosso ser, que lhe impõe a responsabilidade daquilo que ele poderá vir a ser e lhe exige arcar com ela” É claro se não existe absolutamente nada absoluto, quer dizer, se a totalidade do real, e como se fosse o universo fixo do Einstein, onde vamos dizer as escalas de referência são tão móveis e inconstante que ele as chamava de moluscos. Seria como se todas as réguas fossem de borracha, todo o ser é composto apenas de moluscos de referência, quer dizer, tudo é mole, então, evidentemente todos os valores que existem são criados livremente por aquele que deseje criá-los, só que, para que ele crie ele tem que ser uma referência fixa. Então logo a seguir você demonstra que o homem também não é uma referência fixa e que o ser humano também não existe, e é nesse ponto que nós estamos hoje, se o ser humano não existe, então nós podemos inventar outro e colocar no lugar dele, nós podemos fazer um clone, mas nós podemos fazer, vamos dizer, um robô humanizado e assim por diante, quer dizer que, o cume deste processo é a total abdicação da condição humana. Então não é bem um resultado muito glorioso. “Todos os homens bem sentem que é por esse engajamento da sua vontade a mais constante, a mais profunda, antes que pelo conhecimento, que se estabelecem as suas relações com o absoluto” Ou seja, é na medida das suas escolhas, e portanto dos valores que as condicionam, que você adquire uma existência, e portanto você adquire uma dimensão ontológica, você não está apenas existindo como uma possibilidade mas como uma realidade efetivada. E esse é o nosso ponto de ancoragem no absoluto, mas se você não acredita em absoluto nenhum, se tudo o que existe são moluscos de referência, está certo? Você não pode, sequer, afirmar a sua própria realidade, é a famosa profecia do Giordano Bruno, que dizia: “bom se vocês negam Deus, vocês vão acabar chegando a conclusão que vocês mesmos não existem”. O cara disse isso cinco séculos atrás, veja que coisa certa, não é? “Só então eles descobrem sua vocação metafísica que é a de tomar lugar no mundo enquanto contribuem a criá-lo, invés de lhe permanecer exteriores como espectadores curiosos ou indiferentes”, Você veja que é interessante você observar que toda a Teoria do Conhecimento que se desenvolveu desde o século XVI até o começo do século XX toda ela toma o ser humano apenas como observador. Nunca como sujeito criador. Nunca como parte do processo ontológico. E daí, evidentemente, o mundo se torna uma tela que está na sua frente e que você pode até discutir se ela existe ou não. Ao passo que se você passa desta atitude a atitude ativa e criadora, de você participar da criação, bom, aí a dúvida sobre a existência acabou. Por que você mesmo está existindo, está certo? E está existindo num contexto que exige a realidade [1:00] do cenário e instrumento das suas ações. Portanto, a questão, vamos dizer, a famosa questão sobre a existência do mundo exterior não pode ter uma resposta puramente lógica, que seria uma resposta universalmente válida independente da existência do sujeito. Mas, que sentido faz eu tentar encontrar, vamos dizer, uma resposta sobre a existência do mundo no qual eu mesmo estou existindo a qual fosse independente da minha existência. Isso não faz o menor sentido. Quer dizer, para eu colocar essa pergunta eu preciso existir. Portanto, a minha participação na existência é uma condição básica da colocação da questão. Ela faz parte da própria estrutura interna da questão. Isto quer dizer que a existência só pode ser provada na medida em que ela é assumida, ou seja, que você reconhece que você está dentro do quadro e não fora dele. Agora, se você se coloca fora do quadro você já falseou a questão desde o início, e quaisquer respostas que você encontre -- positivas ou negativas -- não valerão nada. *********************************************************************** Aluno: Ao afirmar que “é ainda por evocar o Absoluto -- o qual ele nega -- que o pensamento relativista é um pensamento filosófico” e ao dizer o senhor mesmo que é necessário “uma certa dose de relativismo” não se poderia assumir uma forma a desenvolver-se a chamada “moral temporária” que Descartes assume em seu método? Como aplicar essa moral temporária sem cair no solipsismo do Eu cartesiano? Olavo: Bom, em primeiro lugar, não sei se, eu não saberia dizer se a “moral temporária” tem algo a ver com o relativismo no sentido em que eu estou usando aqui que é o relativismo no sentido atual. Não é? Alguma moral temporária, alguma moral provisória todo mundo tem, evidentemente, por que se você segue algumas normas em geral na sua vida, dificilmente você sabe a justificação última de todas elas. Mesmo que você siga, por exemplo, sei lá, os dez mandamentos, eu digo, bom, você tem alguma ideia do fundamento ontológico último de tudo isto? Você não tem. Portanto, você está seguindo aquele mandamento num sentido provisório que você lhe atribui, estando ainda aberto a se corrigir e complementar as coisas à medida que você vá adquirindo uma compreensão mais profunda. Quer dizer, nesse sentido, toda moral que você siga é sempre provisória. Não é isso? Mesmo as pessoas que têm um conhecimento mais profundo de teologia elas não podem garantir que no instante seguinte elas não vão adquirir uma compreensão mais consistente da coisa. E, portanto, vão ter que mudar, adaptar, o sentido da regra que elas estavam seguindo. Ademais, você não pode esquecer que qualquer conjunto de mandamentos morais é um conjunto de juízos universais normativos, está certo? Cuja correspondência no terreno dos fatos concretos é sempre complexa e sempre problemática. Ou seja, nenhum sistema de regras traz em si a receita da próxima ação que você deve empreender ou evitar. Não é? Deste modo o problema moral está sempre presente e nesse sentido todas as regras serão sempre provisórias, porque elas serão apenas instrumentos com que você vai tentar entender uma situação concreta que nunca se enquadra perfeitamente na escala de universalidade das regras. São Tomás de Aquino dizia que esse era o principal problema da moral -- as regras são universais, mas as situações são particulares. O órgão com que você intelige o sentido das regras não é o mesmo com que você apreende o sentido do que está acontecendo aqui agora. Então, na verdade quando Descartes diz que vai seguir uma moral provisória, não me pareceu que ele estivesse dizendo nada -- porque todas as morais são provisórias. Aluno: Se as escolhas determinam a efetividade da nossa existência em relação ao ser então pode-se afirmar que quanto menos atenção a pessoa dá em atribuir valor à suas escolhas menos essa pessoa existe? (...) Olavo: Então, muito bem. Depende do sentido que você usar a palavra existe, porque como disse o próprio Lavelle, o Ser não é graduável -- ou uma coisa existe, ou não existe. Isto no sentido ontológico absoluto. Mas se você falar -- não em termos de existir mais ou em menos, mas -- em termos da densidade ou da riqueza da existência, sem dúvida, você pode usar essa expressão. “O sujeito existe menos do que o outro”. “Ele não é tão real, tão presente quanto o outro”. Isso aí, sem dúvida. Não é? Na Bíblia já tá dito que Deus vai pesar as pessoas e aqueles que forem leves Ele vai jogar no lixo.Quer dizer, é que não tem densidade, as ações da pessoa são levianas, ou leves. Elas não têm razão de serem, elas não têm, por assim dizer, um fundamento no Absoluto. Não é? Então se o indivíduo se deixa simplesmente, levar por seus desejos, fantasias, temores, etc., sem buscar muito seriamente a realização dos valores mais altos e do sentido da vida, então é uma pessoa leviana, evidentemente. Não é? Só que hoje em dia isso se tornou praticamente [01:10] obrigação. Se você não for um cara leviano você não é um “cara legal”. Está entendendo? Quer dizer, se você tenta encarar as coisas com a seriedade devida que advém da consciência da morte, bom, tem muitas coisas que as outras pessoas acham terrivelmente divertidas e que vão começar a lhe parecer, pelo menos, macabras. Não é isso? Vamos dizer, a consciência da morte é uma coisa absolutamente essencial para isso. Quer dizer, se você vive na impressão da sua eternidade -- não que você acredite na sua eternidade intelectualmente, isso aí ninguém é suficientemente idiota para acreditar nisso, está certo? -- a pessoa sente e decide como se fosse viver eternamente nessa terra. É como se ela fosse imune à morte. Então aí, as coisas menores e mais insignificantes podem adquirir uma importância hipnótica para você. E elas vão constituir o último limite do seu horizonte e você vai viver em função delas. Não é isso? Agora, quando você vê as coisas na perspectiva da morte essas coisas repentinamente se esvaziam. Não é? E isso aí é como, sei lá, é como o sujeito ficar transando com bonecas de borracha o resto da vida. Um dia ele vai descobrir que elas não estavam lá. Não é isso? Então é um vazio, não é? É um vazio tremendo. Então, nesse sentido não posso dizer que são vidas inexistentes, mas são vidas fictícias e como ficções elas existem, evidentemente. Mas só como ficções. Não é? E eu acho isso a pior coisa que pode acontecer para um ser humano. Não é? Aluno: (...) É como se ela participasse muito menos da existência, do ser, e tendesse então a ter uma vida nula, desperdiçada. Olavo: Perfeitamente. É disso mesmo que está falando o Lavelle que a consciência do Absoluto é uma exigência de seriedade. Quer dizer, você está levando sua vida a sério, está certo? E você não pretende ser como uma bolha de sabão que, de repente, estoura e desaparece. Aluno: O que acontece com a nossa vontade no Paraíso? Olavo: Bom, essa é uma questão teológica. Quer dizer, isso aí já escapa terrivelmente do meu “horizonte de competência”. Mas, se você quer um palpite... Aluno: A vontade fica suprimida por uma visão beatífica ou é ampliada para horizontes que desconhecemos? Eu acho que há esses horizontes que desconhecemos. Eu acho que o simples fato de você ter percepções. Vamos dizer e os depoimentos de pessoas que tiveram essas experiências similares à morte, ou outras que tiveram revelações pessoais você vê que essas pessoas têm percepções. Se elas têm percepções alguma coisa elas aprendem. Não pode ser que tudo aquilo que elas percebam elas já conhecem. Seria -- como é que se diz -- seria absolutamente contraditório não é isso? Eu me lembro da história do Colton Burpo, o menino de quatro anos que viu Jesus e voltou contando um monte de coisas que ele não poderia saber por outros meios, inclusive coisas da vida da família que ele não sabia.1 Ele ficou muito surpreso ao ver que no paraíso existiam animais, não é isso? Mas quando ele viu isso ele já estava no paraíso não é? Então isso quer dizer que ele tomou ciência de algo que ele não sabia. E eu acho também impossível que a infinitude divina não tenha nada de novo a nos revelar só porque nós fomos para o paraíso. Quer dizer, não é porque você foi para o paraíso que você adquiriu uma inteligência divina e você já sabe tudo. Não é isso? Então eu acho que, quer dizer à luz do pouco que eu sei da doutrina eu posso concluir isto aqui. Ainda pode haver novidades no paraíso. Mesmo porque você estará muito mais próximo da criatividade divina. Eu acho que vai até ter mais novidades. Quer dizer, uma coisa que é constante em todos esses depoimentos, é o fato de que as percepções se tornam mais agudas. As cores, os sons, etc. Então, bom, eu acho que tem muita coisa pra você ver ainda. Vamos dizer, e quanto ao exercício da sua liberdade? Bom, você pode fazer uma analogia. Cristo quando esteve na terra, ele tinha ou não tinha liberdade? De escolha? Ele tinha. Só que essa escolhe excluía o mal e o pecado. Então, se você está num estado paradisíaco e você está excluído do pecado, está excluído do mal, isso não elimina necessariamente sua liberdade de escolha. Por exemplo, se Cristo ia fazer uma viagem -- eu vou pra lá ou vou pra cá? Ele pode decidir isso livremente. Não é? Então quer dizer, mesmo amputada a dimensão do pecado ele conservava a sua liberdade. Então, eu não vejo por que nós no paraíso não tenhamos que tomar decisão nenhuma. E, portanto, não vejo como nossa liberdade poderia ser amputada justamente no instante em que você vai estar mergulhado e muito mais perto da liberdade divina. Isto não tem valor canônico. Aluno: Chegamos a captar princípios ontológicos através da inteligência e esses princípios são a causa da nossa inteligência. O que acontece no ato de captar um princípio? Seria correto afirmar que a inteligência é como a dimensão inespacial e atemporal à qual temos acesso mais do que uma coisa que possuímos? Olavo: Eu acho que sim, eu acho que o que você tem é uma via de acesso, mas quando você apreende algum princípio universal -- sei lá, o princípio de identidade, de não contradição, do terceiro excluso -- você está entrando numa dimensão que transcende você. Eu mesmo expliquei isso num artigo.2 Quer dizer, o que é o espírito? O espírito é aquilo que você só tem acesso através do pensamento, mas que transcende o pensamento. Quer dizer, que não é explicado pelo próprio pensamento. Não é? Então, eu acredito que o mais certo seria dizer que o que nós chamamos de nossa inteligência é simplesmente a abertura que nós temos para o mundo dos princípios Aluno: Tratar o Absoluto como incognoscível não é de certa maneira descaracterizá-lo como Absoluto? Olavo: Perfeitamente. Isso aqui é exato. Quer dizer, se o Absoluto fosse absolutamente incognoscível, ele não poderia ser o Absoluto. Se ele fosse totalmente cognoscível então nós seriamos o Absoluto. Se ele fosse totalmente incognoscível, se nada pudéssemos saber dele ele estaria excluído de uma das dimensões da existência, então não seria Absoluto de maneira alguma. Aluno: Kant nega o argumento de Santo Anselmo afirmando que a existência é antes uma qualidade adicionada aos seres (...) Olavo: Não ele pode dizer que é uma qualidade adicionada ao conceito dos seres. Se eles não tiverem existência, serão meros conceitos. Agora, você não pode adicionar uma qualidade a um ser sem que o ser exista. Você não pode somar algo ao nada. Se uma coisa não existe e existe somente o conceito dela nada pode ser acrescentado a ela. Agora, você pode ter ao lado do conceito -- que é uma mera possibilidade lógica -- você pode ter a existência. Não é isto? Então, qualquer pessoa quando faz alguma coisa ela tem primeiro o conceito. Você vai aqui, e vai construir uma mesa. Bom, primeiro você tem o conceito da mesa, você tem uma imagem, etc., etc. E depois você realiza algo com esse conceito. Então, você não pode dizer que você acrescentou existência à mesa. Não. A mesa não existia antes que você a fizesse. Está entendendo? O que você acrescentou foi uma dimensão a mais que o conceito por si mesmo não tinha que é a dimensão da existência. Aluno: (...) Kant parece não ter entendido que Santo Anselmo estava tentando dizer que é precisamente esta adição que é inconcebível num ser infinito. Olavo: Você veja, mas a contradição não está só aí. Na tábua das Categorias de Kant existem os juízos de existência. Está certo? Mas, ao mesmo tempo, ele vai ver, vamos dizer, a existência, quando ele raciocina sobre Santo Anselmo, ele mesmo está excluindo a existência da tábua das Categorias. Então, quer dizer, tem uma contradição mais funda no Kant do que isso aí. E nós podemos, outro dia, pegar esse assunto e... Aliás, eu fiz uma gravação sobre isso. Sobre o negócio de Santo Anselmo. Aluno: O senhor leu o livro Um Judeu Marginal: repensando o Jesus histórico do Pe. John P. Meier? Olavo: Olha, eu nunca me interessei muito pelo Jesus histórico. Porque, você veja, nós sabemos se Shakespeare existiu? Não. Apesar de todos os documentos -- você tem a obra completa de Shakespeare, tem um monte de depoimentos, mas -- ainda não sabemos se Shakespeare existiu. Não é? E Jesus Cristo foi há 1600 anos antes de Shakespeare e tem muito menos documentos. Está certo? De maneira que isso aí, toda esta especulação é altamente conjectural. Agora, é mais fácil você conhecer o Jesus presente pelas suas ações no mundo, pelos milagres, etc., do que conhecer o Jesus histórico. Por exemplo, o Padre Pio conhecia Jesus muito bem e duvido que ele fosse um grande erudito a respeito do Jesus Histórico. O Jesus que nos interessa é aquele que está vivo e atuando. Claro, você pode tentar conhecer o Jesus histórico, até para você interpretar melhor as escrituras? Pode! Mas eu acho que isso aí levanta perguntas que nunca serão respondidas, a não ser que venha o próprio Jesus e conte. Mas quando ele conta as pessoas não são obrigadas a acreditar. Por exemplo, existe o caso da Maria Valtorta, que é uma vidente italiana, que teve uma doença e ficou paralisada na cama. Então Jesus aparecia para ela e contava partes da sua vida, complementando o Evangelho com detalhes e detalhes... O negócio deu 10 volumes de 500 páginas cada um! No começo apareceu até o próprio Jornal do Vaticano e disse que era uma obra de ficção. Mas quando foram ver todos os detalhes históricos, todos conferiam, e ela não tinha o menor meio de saber aquilo por que ela estava entrevada na cama, só tinha três livros na casa dela. Está certo? Ela não era nenhuma historiadora, não sabia hebraico, não sabia nada disto. Não é? E, no entanto, estava tudo exato! Está certo? Se vocês quiserem saber alguma coisa do Jesus histórico eu acho que a Maria Valtorta sabia mais do que o Padre Meier! Porque foi o próprio Jesus que contou. Eu nunca terminei de ler esse livro. Só li uns pedacinhos e são muito impressionantes! Têm uma multidão de detalhes, não é? E eles não pesquisaram tudo, mas tudo que eles pesquisaram não tinha um erro sequer! Quer dizer, a descrição das casas, a descrição das comidas, as roupas, os costumes, não é? Os meios de transporte, os animais que eles tinham em casa, tudo estava certinho. Então eu prefiro ler a Maria Valtorta do que ler essas coisas. Não estou negando valor ao livro! Como estou falando, não conheço o livro, não li. Mas, é evidente que essa coisa do Jesus histórico já serviu de pretexto para as pessoas escreverem tanta besteira que, sinceramente, dá preguiça! Você veja, quantas pesquisas existem sobre o Jesus histórico? Dez mil? Vinte mil? Trinta mil? Aluno: Sou aluno do curso há alguns meses e fico pensando que uma área em que eu gostaria de atuar seria a Literatura, no entanto eu percebo, lendo os grandes romancistas -- que o senhor indicou no início do curso -- que meu domínio da língua é muito baixo, com erros frequentes de ortografia e alguns outros problemas. Gostaria de saber o que eu posso fazer para solucionar isso?(...) Olavo: Não tem outro jeito senão você ler tudo com o dicionário! Tudo, absolutamente tudo! Quer dizer, qualquer escritor profissional vive com dicionário embaixo do braço. O dicionário é o grande instrumento.? Um escritor só escreve sem dicionário quando ele está na cadeia. Às vezes acontece isso, Soljenítsin, não é? Mas você, que eu saiba, está livre aí, então pode andar com seu dicionário para cima e para baixo. Você veja, o Louis Lavelle escreveu a primeira tese dele sem ele ter um livro de filosofia para consultar! Não tinha nada, teve que sair tudo da cabeça dele! Mas claro que isto não é a maneira ideal de você trabalhar. Mas o dicionário tem que ser o seu companheiro infalível. Eu ainda recomendo o bom e velho, Caldas Aulete, em vez do Aurélio e outros que têm por aí. Aluno: (...) Também pensei em fazer como tema para o trabalho do final do Curso, um livro sobre a importância da literatura na sociedade. Seria um tema valioso? Olavo: Claro! Um tema valiosíssimo sem dúvida. Daí ele faz uma pergunta com relação à aula. Aluno: Qual a nossa primeira noção da existência? Quando percebemos que, de fato, existimos? Fiquei com essa dúvida. Olavo: Bom, eu também tenho essa dúvida! Não tenho a menor ideia! É possível que você, remontando através de uma meditação muito profunda você chegue lá. Não é? Eu escavando as minhas memórias eu descobri muita coisa a respeito disso. O momento em que eu descobri as direções do espaço, que eu descobri que todas as minhas percepções estavam condicionadas pela estrutura do espaço externo e não por mim mesmo. Quer dizer, uma descoberta Anti-Kantiana que eu fiz, mas, a este ponto de você ter chegado primeiro a uma noção da existência... eu acho que qualquer experiência que você tenha tido você sempre vai ver que a noção da existência antecede a esta experiência. Quer dizer, está tão profunda, tão profunda, que está pressuposta. É o que diz o Lavelle, todas as experiências pressupõe a esta primeira. Quer dizer, se não houve esta primeira não há mais nenhuma. Transcrição: Evandro Albuquerque, Geraldo Magela de Oliveira Junior e Rui Moura Uhlmann. Revisão: Caio Augusto Limongi Gasparini