Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 184 15 de dezembro de 2012 Parte 1 [00:00 – 00:30] Boa noite a todos, sejam bem- vindos. Eu queria tomar como ponto de partida algumas notas minhas que eu tomei sobre diversos vários assuntos diferentes, além dee coisas coisas que eu gostaria de complementar. São coisas que eu dissetemas de em outras aulas, mas que de algum modo esses assuntos se unificam. Eu queria partir de uma observação feita em, 1932 pelo romancista Alemão austríaco Hermann BrochRobert Musil, que era um bom dominador dos problemas da Filosofiafilosofia, embora seus escritos sobreda filosofia sejam muito poucos. Ele está eEscrevendo uma carta a umao amigo Frank TisThiess, Broch dizrelata: “Você conhece minha tese sobre o estado atual da Filosofiafilosofia: a A Filosofia filosofia enquanto tal, na medida em que não se matematize, não pode nada demonstrar, ao passo que ela teria o dever de fazer issto enquanto ciência; e é reconhecendo este esse estado de coisas, ela se voltou por seu lado para os assuntos que são do interesse dos matemáticos. Mas o imenso resíduo metafíisico, nem por isso foi evacuado para fora do mundo. Ele está presente, suas questões e seus problemas estão presentes, eles são mesmo mais prementes do que jamais o foram, só que é preciso buscar a sua base de demonstração em outro lugar, e esta matemática não pode se encontrar senão, no irracional, na poesia. Se existe uma tarefa que cabe a à poesia, e desde Goethe é certo que ela existe, é a de criar e levantar esse relicário da mística demonstrativa.”. Essta era de fato a situação a em que a Filosofia filosofia haveria chegadestavap, pelo menos dentro do círculo pelo número de pessoas que era afetadas pela Escola Neopositivista ou Analítica. Vocês devem se lembrar de que o Tractatus Logico-us PhilosophicusFilosoficus de Wittgenstein termina com a famosa frase: “Aquilo que n ão se pode falar, deve-se calar”, o. Ou seja, o universo inteiro do conhecimento humano ficava dividido entre a demonstração matemática. Isso q, quer dizer que, a total explicitação da linguagem demonstrativa, em todos os seus passos, é a linguagem perfeitamente clara, com todos os seus termos definidos, exatamente como a matemática, e tudo articulado de acordo com as regras da lógica. E do outro lado, o silêncio da contemplação mística. O que Musil está escrevendo aqui, aliás, Musil não! Eu falei que era Robert Musil? Perdão! Não era Robert Musil, é o Hermann Bloch .Aquilo que o Hermann Brloch diz menciona aqui é um reflexo desse um estado de coisas, e até um certo ponto uma descrição, mais ou menos exata da situação a que que os filósofos haviam chegadotinham chegado, como se tivessem sido que espremidos a um canto:, “ou matematizamos tudo, ou ficamos calados”. Mas aí vementão o Hermann Broch [aqui Olavo repete Musil, mas acho que ele queria dizer Hermann então coloquei corrigido] diz que ainda se pode fazer a mística demonstrativa, a poesia. A poesia como uma maneira de expor realidades que não podem ser matematizadas ou totalmente expressas em uma linguagem totalmente clara e definida. Então, Broch acreditava que a poesia tem, de algum modo, alguma força demonstrativa de algum modo e constitui um conhecimento talvez mais importante do que a ciência. T, tudo isso pode ser se discutidor. O caso é Mas acontece que nada disso, nenhum desses problemas jamais teriam acontecidosurgido teria mais aparecido, se, a Filosofia a partir do séculoSéc. XII ou XIII, a filosofia não tivesse tomado o rumo de se tornar uma ciência totalmente puramente teórica, ou seja, uma ciência cujoa o objetivo é fornecer um discurso que tenha uma descrição suficiente da realidade como um todo, discurso esse que deve poderpossa ser demonstrado em todos os seus passos, sem nenhuma ambiguidade, sem nenhuma nebulosidade de linguagem, etc e etc. Issto se tornou tão óbvio para todos que o caminho daí por diante o caminho estava aberto para, justamente para o racionalismo clássico, onde em que, conformecom Descartes e Spinoza, a razão sozinha deve poder dar conta do conteúdo inteiro da realidade sem nenhum apelo da à experiência. De alguma maneira, a concepção de filosofia que ainda vigora ainda no mundo universitário e em toda parte é estaessa, com a ressalva de que o fracasso dos grandes sistemas do racionalismo clássico diminuiu as pretensões da ffilosofia e, por outro lado, a criação da lógica matemática moderna aprimorou de tal modo os meios de demonstração que uma boa parte dos filósofos foram, se desviouaram-se para esta a direção , quer dizer, para a direção da demonstração científica, e acabouaram se dedicando a uma coisa totalmente diferente doa que era a antiga fFilosofia. A, quer dizer, a Filosofia filosofia fica na função, ou de uma ciência puramente demonstrativa, que não chega a se realizar jamais, ou na função de apenas uma análise da linguagem científica. Bom acontece que, eEm relação a isso, podemos fazer várias observações. A primeira é o seguinteque, se fosse possível transformar todo o universo da ffilosofia emn um discurso universalmente coerente e demonstrativo, esse discurso deveria ser igualmente válido para todos e seria um discurso totalmente impessoal, como é o discurso de qualquer ciência. Na hora em queQuando uma ciência qualquer chega a determinadauma conclusão, e consegue expô-la matematicamente, então essta expressão pode ser padronizada e usada por todos os profissionais e por todos os investigadores daquela ciência. Por exemplo, para você estudar a Teoria da Relatividade de Einstein, você não é precisa preciso de maneira alguma apelar aos textos do próprio Einstein, pois qualquer outro texto que contenha as mesmas fóormulas matemáticas exporá aquilo com igual eficiência, ou aàs vezes até melhor do que o criador originário da teoria. Eu não conheço ninguém que tenha estudado, por exemplo, a Mecânica de Newton nos textos de Newton, a não ser pessoas muito interessadas na História das Ciências, e não na física, mas na Ciência Newtoniana mas, na História da Ciências. Isto Isso quer dizer que, por causa d a linguagem com que se expressa, na Filosofia, ela se tornará tornar-se-á estável, e as proposições filosóficas assumirão aquela forma padronizada e universalmente transportável das fóormulas cientíifico- matemáticas. Mas, basta você ler três linhas de qualquer dos filósofos da Escola Analítico ou PositivistaPoliteísta para você ver e notar imediatamente que está presente ali um enorme resíduo estilístico, ou seja, a filosofia de Wittegenstein, expressa na linguagem de outra pessoa, não é a filosofia de Wittegenstein; ou a de Bertrand Russell, transportada ou exposta por um terceiro, já não é a mesma filosofia. Então, Isso quer dizer que Emem momento algum a Filosofia filosofia conseguiu se formalizar ao ponto de poder se cristalizar em fórmulasformas anônimas e transportáveis, como são as fórmulasformas de qualquer ciência. Mesmo as dos filósofos que pretendiam fazer exatamente istoisso. E, por outro lado, é fato que a poesia moderna, a partir de Baudelaire, e Mallarmé e outros,tal, ela foi se tornando cada vez mais hermética, mais difícil de compreender. Quando você lêEm Mallarmé , você vê que existe ali uma forma, uma estrutura, mas você não sabe o que ele estáa querendo dizer, então é como se o objeto poético, como se uma obra poética constituísse um objeto por si mesmo, um objeto que é quase independente do significado a que ele [00:10] alude. Você podeAquilo pode ser preenchido preencher aquilo com muitos significados, mas nenhum deles vai ser perfeitamente satisfatório, enquanto que mas o poema como estrutura, como objeto, permanece lá, assim como um objeto de contemplação. Isto quer dizer que, tEodo este sse problema surge da ideia de você retirar do discurso filosófico todo o resíduo subjetivo. Entendemos que o subjetivo é o reino do que é inexato, do daquilo que é vago, do não científico, daquilo que é, como diz o Broch, irracional. Isto Isso aí criou uma espécie de tradição, um conjunto de cacoetes que equalizam, por assim dizer:, o objetivo está para o racional, assim como o subjetivo está para o irracional, q. Quando é absolutamente a coisa mais fácil do mundo é você verificar que uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra, quer dizer, estes esses conceitos não se correspondem de maneira alguma. Um elemento importante para fazer essa diferenciaçãovocê diferenciar isso, é, ao você quando ler um texto filosófico, perguntar o seguinte-se: “Em que medida este esse indivíduo acredita nistonisso”? Você verá que aA LeiTeoria da Gravitação Universal de Newton, ou a Mecânica Quântica, ou a Teoria da Relatividade de Einstein continuariam verdadeiras ainda que, seus autores não acreditassem em uma só palavra. Se eles tivessem feito tudo aquilo por pura brincadeira e tivessem acertado aquilo por acaso, a teoria continuaria verdadeira e se incorporaria, então, ano conjunto dose conhecimentos científicos como parte de um legado muito, muito precioso. Ou seja, em Ciência não existe este o problema da credibilidade. Se o indivíduo que expressa uma teoria acredita nela ou não, é absolutamente indiferente. A teoria se torna totalmente independente do indivíduo que a enunciou. Portanto, ela é exatamente a mesma na fala de todos em todas as bocas que a repetem. É absolutamente nula Eu digo, qual a possibilidade de um discurso assim concebido corresponder a à estrutura do mundo objetivo? – Eentendendo por mundo objetivo aquele que existe por si mesmo, que não é criado, por nós, que não énem modelado, por nós, que não énem recortado, e nem selecionado por nós, é o mundo simplesmente que está aí. simplesmente, Que é aquela grande presença que está diante de nós e na qual nós próprios estamos desde o instante em que nascemos. Resposta, essa possibilidade é absolutamente zero. Nenhum discurso que seja estabilizado, e que seja uniforme e que possa ser repetido igualzinho por todo mundotodas as bocas, pode dizer respeito ao mundo objetivo concebido neste nesse sentido, p. Porque toda a fforma órmula fixa a que você chega, se ela é perfeitamente definida em todos os seus termos, ela só pode corresponder aos objetos externos, que por sua vez correspondeam a esses termos e no sentido exato em que esses termos foram formulados. Isso aqui é muitíssimo importante, isto quer dizer que, como esse discurso lógico e científico, ele tem um sentido estável, uniforme e padronizado, isto quer dizer que ele só pode versar sobre objetos do mundo exterior, do que quer que seja, que correspondam aos termos ali definidos. Isto quer dizer que Eele só pode versar sobre objetos que estão apreendidos em num alto nível de abstração. A e que estão, abstrair significa separar, ou seja, você pega seleciona certos aspectos da realidade, isola-os de todos os outros aspectos possíveis e, limpa as suas arestas, de maneira que eles não se confundam com mais nada e parem, por assim dizer, em num espaço vazio, em uma espéecie de céu das ideias puras. E é só porque você faz esta essa operação que você pode chegar ao discurso perfeitamente estabilizado. Ou seja, isto isso só pode corresponder a uma apreensão intersubjetiva válida para todas as pessoas que fizeram as mesmas operações abstrativas e que chegaram a exatamente o mesmo resultado. Isto Isso não pode ter validade alguma para o um mundo objetivo, apenas. Só para aquele recorte intersubjetivo objetivo que se chama o mundo das ciências físicas. E eEsse mundo não é absolutamente é o mundo em geral? Absolutamente não. Os aspectos que as ciências físicas abordam sobre o mundo são estritamente limitados, e justamente porque são limitados é que seus termos podem ser perfeitamente definidos. Isto quer dizer que Para ser verdadeiro, qquanto mais exato, objetivo e perfeitamente definido nos em seus detalhes estiver o discurso, mais ele ele depende para ser verdadeiro de um recorte intersubjetivo das percepções dos vários indivíduos que estão envolvidos nesta nessa operação, de tal modo a garantir que todos eestão stejam olhando apenas para aqueles mesmos aspectos repetitivos que estão sendo olhados pelos outros. Você já viu algum universo assim? Alguém já existiu em num universo assim? Eu não. Isto Isso aí só pode existir em um Tratado de Ciências. Então, significa queO o discurso das ciências nunca tem nada a ver com o mundo objetivo, mas sim. Ele tem que a ver sempre com o recorte intersubjetivo. E é precisamente por isso que ele pode ter aplicabilidade técnica. Porque a aplicabilidade técnica depende precisamente de que certos processos observados sejam isolados dos processos que podem se mesclar com eles, e atrapalhá-los. Por exemplo, se você constrói um motor a explosão. O motor a explosão pode ser afetado por um milhão de fatores que não tem têm relação algumanada a ver com a lógica interna do motor a explosão. Ele pode ser afetado, por exemplo, por um raio que cai ali, ele pode ser afetado por um motorista inepto que bata o carro em num poste, ele pode ser afetado por uma chuva, ele pode ser afetado pela corrosão ou pelo tempo. Nenhum desses outros processos podem ser explicados pelos mesmos princípios que explicam o motor a explosão. São fenômenos totalmente externos e totalmente heterogêneos. No mundo real, todo e qualquer motor a explosão funciona sujeito a todos esses fatores e a uma infinidade de outros, entre os quais a indisponibilidade dos materiais, quer dizer, se você não temnão há um minério bom para você selecionar os materiais, então você faz com um minério de segunda qualidade e o motor quebra estraga depois de seis meses de uso. E o que isso não tem nada a ver com os princípios do motor a explosão? Nada. Estes Esses princípios são abstrativos. D, eles separam somente se de todos os fatores envolvidos no processo, eles separam somente aqueles que correspondem a à lógica interna do conceito de motor a explosão, do conceito de motor a explosão. Isso jamais Quando que isto pode ser objetivo. ? Eu digo, jamais. No mundo objetivo,s todos os fatores estão sempre presentes sempre. Não pode Pode haver, d e maneira alguma, alguma ciência que leve em conta todos estes esses fatores ao mesmo tempo? De maneira alguma, porque o mundo assim concebido, com todos os processos simultâneos –, homogêneos e heterogêneos – atuando ao mesmo tempo, esse é o mundo concreto. E, esse é o mundo objetivo no qual vivemos. E isto isso não pode ser abarcado por ciência nenhuma, nem mesmo e digo mais, nem pelo conjunto delas. , porque na medida em que você, pPor exemplo, eu quero fazer aqui uma inter ciência, então eu pego 20 ciências e começo a cruzar os resultados de vinte ciênciasdelas. O problema é que Mas, pera aí o cruzamento dos resultados [00:20] não garante de maneira alguma garante a coerência entre os métodos e conceitos usados? Não, não garantem de maneira alguma. Quando vocêJ faz isso você juntar os resultados de duas ciências, sem tê-laster unificado essas duas ciências desde a sua base teórica, ou seja, sem ter desenvolvido conceitos comuns que valham para as duas ao mesmo tempo, o que você está fazendo é justamente somar fatores heterogêneos, então este esse resultado jamais será científico. Ele pPode ser um resultado técnico, sem dúvida, mas, não é um resultado cientíifico porque ele não remete ao mesmo corpo de princípios explicativos. A ideia de uma ciência universal que possa reduzir todo o universo a um mesmo corpo de princípios explicativos é uma ideia totalmente auto-contraditória. Ela não vai, mMesmo supondo que se chegue a à famosa teoria geral que se quer chegar na física, e, essa teoria é apenas unificará duas teorias existentes, que são a relatividade e a física quântica, e deixará de ter alcance sobre uma infinidade de outros processos causais. Quer dizer, a ideia de reduzir tudo a quatro ou cinco princípios, é uma ideia utópica. O e, o curioso é que muitas pessoas raciocinam como se esta essa ciência unificada já existisse e como se já se possuíssehouvesse a explicação universal de todos os processos. O sonho, a aspiração de chegar a essa teoria unificada geral, funciona em muitas cabeças humanas como se já garantisse já a posse dessa ciência e já fornecesse aos seus praticantes a explicação de tudo o que acontece no mundo. Eles raciocinam assim. Apesar de saberem , eles sabem que não é assim, mas eles continuam raciocinando na base de que a teoria geral é uma realidade. Ela pode ser uma realidade daqui a um século, dois, séculos, três séculos ou, novecentos séculos, mas, ela já dispõe da autoridade de uma teoria universalmente explicativa. Então, o que nós estávamos dizendo aqui é que um discurso que seja totalmente separável do sujeito que o emite e que seja uniforme na fala de todosem todas as bocas que o pronunciam, ele requer a perfeita definição de todos os seus termos, de modo que, um termo seria esclarecido por todos os outros. E istoisso, naturalmente só é possível se os objetos a que estes esses termos se referem tiverem sido separados do mundo concreto e perfeitamente definidos nos seus aspectos essenciais. Ora, os seus aspectos essenciais, não são os seus aspectos existenciais, portanto não são os seus aspectos reais. O que nós dizemos que pertence a à essência do objeto é apenas aquilo que o faz com que ele sejaser ele mesmo, quer ele exista ou não. As condições necessárias para a sua existência nunca estão dadas na mera essência, a não ser que se trate da essência divina, quer dizer, Deus é o ser Absoluto, Onipotente, Infinito, etc, etc., e Então, por aquele famoso raciocínio de Santo Anselmo, Ele tem que de existir necessariamente. Mas, tirando essa definição de Deus, não há nenhum outro objeto cuja essência implique necessariamente a sua existência e, menos ainda, um objeto cuja a simples definição, cuja a simples essência preencha já todas as condições possíveis para a sua existência. Isso não existe de maneira alguma. Então, isso quer dizer, que só pode haver ciência mediante um recorte abstrativo, e um recorte abstrativo só vale para o grupo intersubjetivo que realizou as mesmas operações, que concordarem com todos os passos dados e com os métodos de verificação, etc, etc. Tudo issto, passível desujeito a discussões sem fim, evidentemente. Então, a ideia de que as ciências nos dão uma descrição do mundo objetivo, pressupõe que o mundo objetivo é composto de aspectos absolutamente separados e incomunicáveis. Ora, nNós sabemos que a vida não é assim. P, por exemplo, se você estudar e se você estudarficar sabendo tudo a respeito d o corpo humano sob os aspectos da sua fisiológico e patológicoogia e patologia, ainda assim não você ficar sabendo tudo a respeito, você pode daí tirar as conclusões econômicas necessárias para dizer se o indivíduo está recebendotem acesso a , se ele tem acesso a alimentação correta, se ele está exposto a um ambiente fisicamente hostil e assim por diante. A? Não, e a fisiologia não pode te lhe dar tudo isso, mas nós existimos no meio de tudo istoisso. Portanto, para você seria impossível para você até fazer um diagnóstico de um paciente sem você saber nada , nada, nada sobreda sua condição socioeconômica em que ele vive e do lugar onde ele vive, dos fatores geográficos, geológicos, geotérmicos, ecológicos, etc. Nós vivemos, justamente no entrelaçamento inseparável de todos esstes fatores, e nenhuma ciência pode abrangê-los. Portanto, o mundo objetivo é precisamente o mundo do concreto, o mundo onde todos os fatores estão presentes ao mesmo tempo, e inseparavelmente. Ao passo em que a ciência começa precisamente no instante em que você consegue separar um fator. Então, nós vemos que há algo errado na análise que faz ode Hermann Bloch Brochjá tem alguma coisa que está errada. Ele acha que, se a Filosofia filosofia pretende ser uma ciência, ela teria que nos fornecer um discurso universalmente válido, matematizado. Ora, oO discurso, se fosse matematizado, seria totalmente independente do sujeito que o pronunciou. A fórmula matemática é a mesma, ela pode ser repetida igualzinha nos em livros de milhões de autores, p. E, portanto, não haveria, por assim dizer, nos discurso filosófico nenhuma dificuldade de interpretação. Nós não precisaríamos perguntar, o que o sujeito quis dizer com isso.? Num Em um discurso cientíifico, tudo o que o sujeito quis dizer, está dito, definido e claro para todos. E isto isso só é possível, justamente, graças justamente aos recorte abstrativo. Dizer que a Filosofia filosofia pretendeu chegar a este esse ponto, ou seja, dizer que, para cumprir o seu objetivo de ciência, a filosofiaela precisaria se matematizar inteira, é supor a possibilidade deque é possível um discurso inteiramente matematizado sobre a totalidade do existente. Isto Isso é auto-contraditório! A totalidade do existente não pode ser definida. NãoVocê é capaz de é possível imaginar um vocabulário onde em que estejam definidos de antemão e de maneira exata todos os entes, todos os processos, todos os fatos, todas as condições, todos os acidentes, isto isso é obviamente impossível. Ou seja, não há uma ciência exata da totalidade. A totalidade é onde nós estamos. O que pode haver no máximo é uma adequação racional entre o ser humano e essa experiencia experiência da totalidade, isto é o máximo que é possível chegar. Ou seja, a mente humana pode se adaptar de tal modo a à circunstância total,, que até certo ponto ela obtenha dentro dessa totalidade um posto de observação privilegiado privilegiado que lhe permita permita entender vários processos que cheguem a seu conhecimento. As vezes, isto é exposto como uma espécie de harmonia cósmica ou uma sabedoria. Aquele indivíduo se desenvolveu de tal modo, que a sua psique, que a sua interioridade está bem ajustada, bem adaptada não só ao meio físico e imediato, mas ao meio cósmico na sua totalidade, e ao meio espiritual que o circunda de maneira que é como se ele estivesse no centro da realidade e teria chegado aí ao cume da sabedoria, como Moisés no alto do Sinai. Mas este homem saberia tudo? Ele teria o domínio intelectual da totalidade? Jamais. Ele graças a sua centralidade, a sua posição harmônica no conjunto ele teria simplesmente uma compreensão realista e adequada [00:30] dos processos que chegassem ao conhecimento dele. Transcrição: Cynthia Leite Parte 2: [00:30 – 1:00] (...) isto é obviamente impossível. Ou seja, não há uma ciência exata da totalidade. A totalidade é onde nós estamos. O que pode haver, no máximo, é uma adequação racional entre o ser humano e estas experiências da totalidade. É o máximo em que é possível chegar. A mente humana pode se adaptar de tal modo à circunstância total, que até certo ponto obtenha, dentro desta totalidade, um posto de observação privilegiado que lhe permita entender vários processos que cheguem ao seu conhecimento. Às vezes, isto isso é exposto como uma espécie de harmonia cósmica ou uma sabedoria, ou seja, um: aquele indivíduo se desenvolveu-se [0:30] de tal maneira que sua psique, sua interioridade, está bem ajustada e, adaptada, não só ao meio físico imediato, mas ao meio cósmico na sua totalidade, e ao meio espiritual que o circunda, como se ele estivesse no centro da realidade e tivesse chegado ao cume da sabedoria. Como Moisés no alto do Sinai. Será que ele Moisés saberia tudo? Teria o domínio intelectual da totalidade? Jamais. Graças a à sua centralidade, sua posição harmônica no conjunto, ele teria simplesmente uma compreensão realista e adequada dos processos que chegassem a seu conhecimento. Ele entenderia, melhor do que os outros, as situações que estivesse vivendo. Quando, por exemplo, Moisés desce do Monte Sinai e encontra seu o irmão e os amigos cultuando o bezerro de ouro, ele é o único que sabe que estes todos ali saíram de dentro da ordem, ao passo que eles não sabem. Ou seja, Moisés ele tem uma visão da ordem mais adequada e realista do que os outrosa dos outros. Eles acreditam em numa conexão entre aquele bezerro de ouro e os processos naturais, enquanto Moisés sabe que issto não existe. Moisés sabe que a única fonte dos processos naturais é Aquele que ele encontrou lá em cimaencima. Aquele que ele não pode pôde nem enxergar, porque Deus lhe dissez “ninguém me viu e saiu vivo”. Isto Isso significa que este homem que chegou ao topo da sabedoria não enxergou a resposta última de todas as coisas, somente soube que ela existia. E, a partir do momento em que ele está chega lá, quem é o fator ativo não é a? A inteligência de Moisés, ? Não, é a palavra do próprio Deus que se dirige a ele. Moisés até pergunta a Deus aquilo que Deus quer que ele Lhe pergunte. A iniciativa está totalmente nas mãos de Deus. Isto Isso é exatamente o contrário de uma posse intelectual da realidade. O que Moisés teve no Monte Sinai foi uma percepção imediata, e não uma posse intelectual. Percepção imediata pode ser de algo que você enxerga nitidamente, mas não sabe o que é. Toda percepção imediata é assim. A descrição que Hermann Broch faz do estado de coisas da filosofia naquele momento, não corresponde à realidade, mas a uma impressão a que os indivíduos chegaram após vários anos de esforço no sentido de criar a enciclopédia geral das ciências, tal como havia concebido Bertrand Russell. É a metalinguagem de todas as ciências: aqui estão todos os termos científicos definidos, e com isso unificamos o discurso de todas as ciências. Nós sabemos que este esse projeto deu errado. O próprio Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein é a confissão de que deu errado. Conforme diz Wittgenstein, Ele diz que estão caminhando na definição dos termos, e de repente eles se esbarram no indizível, e se dão conta de que : não conseguirãoemos dizer istodefinir certas coisas. E, embora saibamossoubessem que existiae, não havia como descrever. A partir disso, Wittgenstein tomou um rumo completamente diferente. Desistiu deste do projeto de criar a linguagem científica unificada e passou o resto de sua vida analisando termos da linguagem corrente, frequentemente de uma maneira inconclusiva e bastante confusa. Porém, era assim que as coisas estavam para um determinado grupo de filósofos. Você nNão se pode esquecer que uma boa parte da filosofia neo-positivista surge na Alemanha e desenvolve-se bastante na Áustria, em Viena, respectivamente com Hans Reichenbach e Moritz Schlick (o próprio Wittgenstein é um filhote espiritual de Viena, como também Hermann Broch). É evidente que Wittgenstein recebeu o impacto desta da experiência vivida por estes esses filósofos. Experiência esta que se expressa na frase o final do Tractatus Logico-Philosophicus: a constatação da presença do indizível. Então Hermann Broch diz que aquilo que não pode ser dito em termos de lógica- matemática, talvez possa ser dito em uma linguagem poética. O que é a linguagem poética? É a linguagem plurisense, a linguagem que tem muitos sentidos superpostos (não necessariamente incoerentes entre si), de algum modo articulados uns com os outros, mas de tal maneira que você não é possível possa decidir qual deles é precisamente o adequado, pois estes esses sentidos estão muito interligados pelos nexos de analogias, semelhanças, simpatias etc. Isto Isso significa que um poema pode ter vários significados, conforme seus vários leitores e suas experiências reais. Mas estes esses significados não são totalmente arbitrários, eles têm uma coerência uns com os outrosentre si. No mesmo sentido em que duas pessoas observando um mesmo conjunto de fatos e vivendo as mesmas experiências, podem expressar este esse conjunto em frases totalmente antagônicas. Por exemplo, eu estava lendo o relato de Gene Lyons (que foi correspondente de um jornal americano em Moscou na década de 20, 30), em que ele observa o começo da construção do socialismo. Ele Lyons pesou os vários fatores que estavam em jogo: imenso esforço de criação de um novo regime, criação de uma sociedade utópica, todo o entusiasmo e a participação afetiva de milhões de pessoas neste nesse projeto, e ao mesmo tempo uma miséria desgraçadaatroz, morticínio, repressão. Isto Isso tudo era tão confuso que as pessoas descreviam a situação com frases perfeitamente contraditórias. Aquilo era o progresso ou o fracasso do socialismo? Podia ser um ou outro, conforme o ângulo em pelo qualque se olhasse. Por queEra era assim ? Pporque o sucesso e o fracasso estavam misturados naquele complexo de fatores, e ninguém sabia exatamente qual destes desses fatores iria predominar depois. Aquele aspecto contraditório estava presente no próprio conjunto complexo de fatos que estava sendo observado. Suponha que dois observadores estrangeiros igualmente honestos (ninguém está levando dinheiro da KGB) estejam descrevendo as coisas de maneiras contrárias. Entre estas essas duas narrativas existem pontos de convergência, e com base neles você pode praticar a dialética de Aristóteles e ver qual é o fundamento comum da divergência. Ou seja, a divergência se articula sobre pontos que são unânimes e que correspondem à convergência dos dois ângulos de visão sobre o mesmo corpo de fenômenos. É o mesmo que dizer que esta essa situação só poderia ser descrita mediante uma contradição, pois ela própria é contraditória, e, não está ao alcance de nenhum ser humano reduzi-la a à unidade de uma explicação unívoca. [0:40] Será queI isto sso não significa que nós apelamos a uma linguagem poética,? Não, porque, desste tipo de descriçãoões (situações político-sociais, por exemplo), faz parte um esforço de esclarecer (porém, não definir) os termos que você está usando. Existem termos que não podem chegar a uma definição unívoca, mas podem ser explicados ou explicitados mediante a tomada de consciência das tensões e contradições a que aquele termo se refere. Quando você lê, por exemplo, o conceito da ordem ou da gnose em Eric Voegelin, não encontra. Não há uma definição lógico-matemática destes desses termos, mas também não se pode dizer que eles são pluri-sensos no sentido poético, que podem livremente evocar qualquer sentido nos vários leitores, desde que a leitura de todos esteja coerente com a forma interna do poema. Há uma zona intermediária entre a linguagem poética e a linguagem lógico-matemática. Esta Essa zona intermediária é constituída de tensões e contradições que correspondem precisamente à nossa experiência mais verdadeira do mundo objetivo real. O que significa você estar no mundo? Existir no mundo? É ter diante de si, portanto acessível a à sua percepção e inteligência, um objeto que ao mesmo tempo está em torno de você e o abrange. É ou não é assim? Se você estiver emn um mundo que o cerca completamente, sem que nada esteja diante de vocêsi, então você não está vendo nada, não está sabendo de nada, mas está presente no mundo apenas como uma pedra. A Uma pedra está sujeita a todos os fatores universais que a envolvem, mas não está sabendo de nada. Portanto, a pedra está apenas dentro do mundo, não tem o mundo diante de si. Se você tivesse todo o mundo diante de si sem que ele o envolvesse, você seria Deus, seria transcendente. Deus não está envolvido no mundo. Ele esteve quando quis, quando veio ao mundo, se encarnou, mas depois voltou para fora. E mesmo assim, foi apenas uma das pessoas da Trindade que veio, e não as três. A verdadeira condição do ser humano consiste em ter diante de si um objeto que por sua vez o envolve até pelas costas. Isto Isso é ou não uma contradição? O mundo é uma totalidade que nos envolve completamente e nos domina, ? Sim, mas, simultaneamente, é um espetáculo presente em uma tela diante de nós que podemos compreender e dominar até certo ponto. A condição mais básica e elementar do ser humano é constituída de uma tensão ou contradição, e não de um conjunto de processos inteiramente racionais que se desenvolvem de maneira perfeitamente compreensível e que podemos dominar intelectualmente e até fisicamente. Realmente não é assim. A verdadeira condição na qual nós existimos consiste em uma tensão permanente entre o objetivo e o subjetivo, o racional e o irracional, e assim por diante. Ela não é corretamente acessível nem à linguagem da demonstração lógico-matemática, nem à linguagem puramente analógica da poesia. Tem de haver algo no meio, que . Este algo é, por definição, um saber que jamais se completa, não pode chegar ao fim porque aí seria o domínio intelectual total da realidade, ou seja, teríamos a teoria geral de tudo, e a filosofia teria cumprido não apenas a sua missão, mas também como a missão de todas as ciências, o que é absolutamente utópico. Por outro lado, ela também não pode cair no puro subjetivismo da alta expressão, que é o limite da poesia lírica. A poesia lírica expressa a impressão de um momento, e você jamais pode saber se esta essa impressão é autêntica ou simplesmente uma invenção do poeta. A filosofia, por sua própria natureza, constituição e origem, não pretende chegar a um discurso universalmente válido e explicativo, como alguns filósofos (Espinoza, Descartes, Malebranche, entre outros) tentaram fazer no racionalismo clássico. Ela não pretende chegar a istoisso, m. Mas também não é pura expressão de impressões, como é a poesia. A filosofia exige essencialmente a discussão e a problematização de cada termo. Não para chegar a uma definição estável, mas para que as palavras com que o discurso filosófico se expressa, despertem no seu ouvinte aquela revivescência das experiências contraditórias e tensionais similares àquelas a que o filósofo está expondo. Há uma imensa comunicabilidade do discurso filosófico, ele tem de ser comunicável e compreensível, não pode ser obscuro. NSe você pegar a poesia de Mallarmé, verá que ninguém jamais a entendeu a poesia de Mallarmé, no entanto, as pessoas ficam fascinadas por elacom aquilo, p. Porque ela cumpre a finalidade do discurso poético tal como compreendido na modernidade (houve outro tipo de poesia no passado, mas a poesia moderna é toda assim). O discurso filosófico não pode contentar-se com istoisso, p. Porém, ele também não pode chegar ao outro extremo, do discurso inteiramente probante a respeito da totalidade do real, no qual todos os termos estão definidos. As duas coisas são utópicas: Depor um lado, à uma linguagem absolutamente fascinante e incompreensível, e do de outro, a uma linguagem totalmente compreensível sobre a totalidade do existente. EO que são estas ssas duas coisas, ? São respectivamente, a poesia e a ciência, são utópicas. Ou seja, tudo o que você consegue, no fim das contas, é fazer filosofia. A atividade do filósofo não é utópica, pois está justamente na zona intermediária entre o discurso polis senso, que expressa uma impressão imediata, e o discurso inteiramente unívoco da teoria geral de tudo, a que alguns cientistas aspiram. Ela está dentro da medida humana, algo que é possível fazer. Do conjunto do que uma cultura produz de ciência e poesia em um determinado momento, o que sobra? o que sSobra é uma filosofia, isto é, uma tentativa de articulação racional da experiência que nunca chega à racionalidade final nem mergulha no totalmente irracional. A filosofia está exatamente entre os dois extremos de que fala o Hermann Broch. Ela não é nenhum deles. Quando Hermann Broch reduzia a filosofia à poesia, ele devia saber que isto isso não é possível, é utópico. Quanto mais a filosofia se reduzisse à poesia, mais ela teria de se reduzir também à expressão imediata de impressões subjetivas, [0:50] chegando até o grau da total incomunicabilidade. Não haveria mais diálogo filosófico. Se ela chegasse ao outro extremo (o discurso matemático universal da teoria geral que tudo explica), seus problemas teriam desaparecido e haveria um discurso uniforme que deveria ser repetido por todos, o que nós também sabemos que é utópico. Portanto, quando ele fala da impossibilidade da filosofia, Broch ele está demonstrando o contrário. A filosofia é a única possibilidade que existe. Faz parte da natureza das ciências –, pelo menos tal como elas se definem, a como se professam ser – sua autocorreção crítica permanente. De tal modo que não pode haver nenhuma teoria científica que seja terreno conquistado, tudo pode ser corrigido e modificado amanhã. As ciências buscam o discurso mais estável e unívoco possível, sabendo que não podem alcançáa-lo. O que ocorre com as teorias que foram impugnadas? Todas as teorias são impugnadas, sempre. Não há nenhuma que se estabiliza estabilize ao ponto de estar concluídadizer “pronto, acabou”. As teorias científicas se transformam em hipóteses filosóficas o tempo todo. Elas não são conseguem se demonstrardas totalmente e definitivamente como queriam, mas conservam o um valor cognitivo como possibilidades da inteligência humana que foram maximamente realizadas em certos momentos. Suponha que amanhã ou depois você seja demonstradoe que a teoria da evolução está totalmente errada, mesmo assim ela vai . Ela conservar o valor de uma hipótese filosófica indispensável. A visão do universo como um todo evolutivo faz é uma parte estrutural da experiência humana, não podemos descartar issojogá-la fora. O difícil não é ter essta experiência, mas converteconvertê-la em uma experiência científica que possa ser demonstrada. Porque, para issto, é preciso definir todos os termos e, fazer com que eles correspondam a entes perfeitamente separadinhos e arrumadinhos no conjunto. Isso, isto não é possível. Por isso que as discussões sobre a teoria da evolução, assim como as discussões filosóficas, jamais terminarão. Por isso a importância deÉ por este motivo que, na leitura de textos filosóficos, é importante sempre ter em vista aquele resíduo subjetivo, que é a intenção do filósofo. Você tem um texto na sua frente: algo ele quis dizer. Ele pode ter conseguido dizer mais ou menos, mas jamais esgotará o significado, jamais chegará a um discurso perfeito que pode ser repetido uniformemente por todas as pessoas, consistindo, portanto, em uma verdade universal definitiva e irrevogável. Eu tomei umas notas sobre este esse aspecto: “Acreditar significa dar crédito, ceder em confiança algum bem material ou imaterial, contando com que disso não resultará perda ou decepção. Os dois elementos aí envolvidos são o valor do bem emprestado e a confiança no retorno. Acreditar é uma decisão pessoal intransferível. Conselhos, pedidos ou razões externas podem reforçá-la, mas não determinadeterminá-la, muito menos criá-la. O acreditar envolve por isso uma responsabilidade. Aquele que acredita hoje há de responder amanhã perante si mesmo ou perante terceiros pela veracidade ou confiabilidade daquilo em que acreditou. O acreditar não é somente uma atitude cognitiva, mas uma decisão, um ato moral interior. A autenticidade da crença confirma-se quando se tomam novas decisões baseadas nela, sobretudo se estas essas decisões implicam alguma responsabilidade perante terceiros.” Ou seja, você prova que acredita em algo quando age baseado naquilo. E age, de tal modo que haja nisso uma responsabilidade perante sua própria consciência ou perante terceiros. “Você pode acreditar numa pessoa, numa promessa, numa doutrina. Nos três casos, a estrutura do acreditar é a mesma. Você pode continuar acreditando numa pessoa que o decepcionou, numa promessa que nunca se cumpre ou numa doutrina que se demonstrou falsa.” Quando a doutrina se demonstra falsa você pode continuar acreditando nela na esperança de que surja uma demonstração melhor no futuro. “Quanto mais evanescente as razões de acreditar, tanto maior o investimento psicológico necessário para sustentar a crença. Isto Isso pode ir desde uma decisão corajosa de opor-se a à opinião do meio até a ruptura com o mais elementar senso de realidade.” Ou seja, quando o sujeito decide acreditar em numa estupidez completa, a estrutura do ato de acreditar permanece a mesma que se verifica quando ele acredita em algo razoável. Em todos estes esses casos, a estrutura do acreditar continua inalterada. Ela tem algo a ver com o seu comprometimento com a crença, e este esse comprometimento se revela quando você toma decisões na sua vida real baseado nela. Issto acontece independentemente da veracidade ou do valor da crença. Quando falamos de uma ideia ou doutrina, qual o valor da crença genuína como indicador da sua veracidade? O sujeito me expõe uma teoria ou ideia qualquer, então eu me pergunto: “Sserá que ele acredita mesmo nistonisso? Ou está apenas dizendo?”. Em segundo lugar: o fato de ele acreditar ou não acreditar, acreditar mais ou acreditar menos, me indica alguma coisa sobre a veracidade intrínseca da ideia ou não? Ambas as coisas (a crença e a veracidade) têm ou não uma conexão ou não? Se um homem não acredita no que diz, por que deveríamos acreditar que diz a verdade? Não é impossível que ele diga a verdade. Há o famoso exemplo de Espinoza: um louco que em pleno dia diz: “É dia.” Issto é verdade? É verdade se você tomar aquela frase em si mesma, separá-la do sujeito e colocáa-la na boca de outro que saiba o que está falando. Nenhuma frase dita a esmo é verdadeira em si. Uma frase não pode ser verdadeira em si por um motivo muito simples: u. Uma frase é apenas um elemento material, uma proposição constituída de sons ou grafismos. Ela se torna-se verdadeira ou falsa somente no ato do juízo, em que uma pessoa (um ser humano concreto) a compreende e diz “sim” ou “não”. Aristóteles diz que a verdade existe no juízo, e não na proposição. Quando você pensa que dois mais dois resultam em quatro, isto isso é verdadeiro. Mas o simples grafismo “2 + 2 = 4” não é verdadeiro nem falso, é simplesmente um objeto. O mais curioso é que todo o esforço do pensamento moderno é para reduzir tudo a proposições que sejam válidas por si mesmas, independentemente do juízo. Isto Isso é obviamente impossível, é uma confusão miserável entre a veracidade potencial de uma proposição, que pode revelar a sua veracidade quando transformada em juízo, e a veracidade efetiva dessta proposição aqui e agora. Toda proposição só tem veracidade (ou falsidade) potencial. Toda verdade é verdade para alguém. Tem de haver um sujeito. Se não houvesse um sujeito, oO que significaria a verdade em um universo constituído apenas de minerais inermes, sem vida, sem consciência, sem coisa nenhuma, sem nem mesmo um Deus externo para observar aquilo? A verdade não seria nada O que seria a verdade neste nesse contexto? Nada. [1:00] A verdade se estabelece no encontro entre um sujeito e um objeto. Se não há sujeito, não há verdade alguma. (...) Transcrição: Gio Fabiano Voltolini Jr., 10/03/2013 [gio.fabiano2@gmail.com] Parte 3: [1:00 – 1:37] [00:57:53] Se não houver um sujeito, o que significaria a verdade num universo constituído apenas de minerais inermes, sem vida, sem consciência, sem coisa nenhuma e sem até mesmo um deus externo para observar aquilo? O que seria a verdade nesse contexto? Nada. Isto quer dizer que a verdade se estabelece no encontro entre um sujeito e um objeto. Se não há sujeito, não tem verdade nenhuma. A verdade não pode estar nem inteiramente no objeto, nem inteiramente no sujeito e, mais ainda, não pode estar sequer reduzida à relação entre eles, ela tem de ter um valor que se propague para outras relações possíveis entre outros sujeitos e o mesmo objeto. Na técnica da argumentação — lógica, dialética ou retórica —, ensina-se que a sinceridade ou insinceridade do emissor é indiferente ao quociente de veracidade da tese que ele afirma. Negar essa tese com base na insinceridade do interlocutor é o que se chama tradicionalmente um argumentum ad hominem, e o argumentum ad hominem é tido como geralmente inválido. Na medida em que as afirmações versem sobre uma realidade que é independente dos indivíduos envolvidos na discussão, nada do que se diga a favor ou contra estes pode confirmá-las ou impugná-las. Esse é um preceito da arte da argumentação, isso e não é uma tese filosófica. A filosofia, porém, vai muito além da mera arte da argumentação. Por mais perfeita que essta técnica se torne, algumas das suas regras, aplicadas de modo raso e direto às discussões filosóficas, às vezes falham miseravelmente. [1:00] Desde logo, nenhuma tese filosófica pode legitimamente ser amputada do “sistema” que a gerou, (...) Você não precisa entender sistema no sentido estrito e totalmente organizado que tinha no racionalismo clássico. Qualquer filosofia constitui de algum modo um sistema, mesmo que ela seja incoerente, porque ela busca a coerencia coerência e busca a unidade. Portanto, dentro dessa unidade real ou potencial da filosofia do seu Fulano de Tal é que as várias proposições que ele escreve ou enuncia têmtem sentido. Amputadas do sistema, elas significam outra coisa. Quer dizer, a mesma frase dita por outro filósofo, em num outro contexto e num outro sistema, significaria outra coisa. (...), nem a expressão formal do sistema em palavras pode ser considerada separadamente da concepção do mundo ou da experiência do mundo que subjaz a ela na mente do filósofo. (...) Portanto, cada proposição filosófica, seja de Aristóteles, de Hegel, de Descartes ou de qualquer um, só faz sentido dentro do conjunto, ou da harmonia, ou da unidade real ou potencial do pensamento de cada um desses cavalheiros, e não se reduz de modo algum à sua expressão em palavras. Por exemplo, para você entender uma única expressão desses filósofos, você precisa de algum modo ter uma visão da estrutura inteira do de seu pensamento ou do seu esforço filosófico, mesmo que esse seja incompleto e inconclusivo, porque, se não existe nenhuma tendência à unidade do conhecimento, não há filosofia alguma. Quer dizer, observações soltas feitas sem nenhum propóosito de unidade e coerência não são filosofia de maneira alguma, são apenas experiências pessoais. (...) Esta observação permanece válida mesmo se tomamos a palavra “sistema” no seu sentido mais vago e frouxo, no sentido que adquiriu no pensamento moderno após o descrédito dos grandes sistemas construtivos do racionalismo clássico. Se é assim, nenhuma “tese” filosófica se esgota no seu próprio enunciado genérico, mas subentende um mundo de nuances e intenções inexpressas, que o intérprete deverá tentar desencavar para chegar a uma compreensão adequada do pensamento do filósofo. Nesse sentido, a intensidade, seriedade ou sinceridade da crença que o filósofo deposita nas suas teses faz parte delas intrinsecamente. (...) Ou seja, você não vai entender uma tese filosófica se você não souber o quanto o filósofo acreditava nela. Portanto, isso quer dizer que, em filosofia, o argumentum ad hominem nem sempre é inválido, porque a atitude do homem que admitiu emitiu a proposição diz algo a respeito do sentido da proposição. Por exemplo, o valor que ela tem dentro do conjunto: ela é uma tese fundamental, ela está no coração mesmo do sistema ou ela é uma observação periférica que pode ser dispensada, sem que o sistema nada sofra na sua integridade? Nesse sentido, a intensidade, seriedade ou sinceridade da crença que o filósofo deposita nas suas teses faz parte delas intrinsecamente. No mínimo, a consideração desse fator é indispensável para se avaliar a importância, o peso e o verdadeiro significado de uma determinada tese no conjunto do “sistema”. (...) Issto aqui já basta para você ver que a filosofia não pode ser reduzida nem à matemática e, nem à poesia, que ela está em num território intermediário e que, se suprimir esse território intermediário for suprimido, instantaneamente a matemática e a poesia se tornam totalmente incompreensíveis. A coisa situação fica ainda mais complicadamais complica mais ainda na medida em que um discurso perfeitamente coerente e definido em todos os seus pontos teria de ser absolutamente independente do mundo exterior, porque os termos se definem uns pelos outros, e aquilo constitui um sistema fechado. É claro que toda a ciência aspira a ser, nesse sentido, um sistema fechado. Só que ela aspira a ser um sistema fechado que coincida experimentalmente com alguns pontos da realidade exterior, mas ela coincide só no fimnal. Quer dizer, a única conexão da teoria com o mundo não está na teoria, e simestá na experiência. Você constrói todo o edifício lógico-matemático e depois descobre algumas conexões possíveis, e então e testa esstas conexões para ver se aquele o conjunto funciona ou não. Mas acontece que nenhuma língua é um sistema fechado, nenhuma comunicação humana prescinde da referência a um universo extralingüístico de seres, coisas e fatos que linguagem alguma poderia jamais produzir. Desde logo, não há linguagem sem sinais corporalmente sensíveis — visuais, auditivos ou tácteis — que, enquanto dados do mundo físico, não dependem da linguagem nem nela se originam., (...) Por exemplo, a sua capacidade de emitir sons depende da língua que sevocê fala ou, ao contrário, é a língua que depende da sua capacidade de emitir sons? Do mesmo modo, a sua capacidade de enxergar, necessária para que você apreendera os grafismos, não depende da língua. E, finalmente, quemse você não dispõe nem de nem uma coisa nem de outra, você é dotado de tem os sinais tácteis. Se não tiver houver nem sinais visuais, nem auditivos, nem tácteis, não há linguagem. Vamos fazer uma pausa, daqui a pouco nós voltamos. [Intervalo] Antes de passar às perguntas, eu quero aqui concluir rapidamente esssa explicação. Desde logo, não há linguagem sem sinais corporalmente sensíveis — visuais, auditivos ou tácteis — que, enquanto dados do mundo físico, não dependem da linguagem nem nela se originam, mas têm de ser encontrados prontos na natureza para poder integrar-se ano sistema de comunicação no papel de signos lingüuísticos. Eu falei signos visuais, auditivos ou tácteis. Você veja que nNo caso de pessoas das cegas, surdas e mudas, como Helen Keller e Marie Heurtin, foi possível estabelecer uma linguagem por sinais tácteis, na pele. Se suprimir o sinal táctil for suprimido, acabou, daí não vai ser possíveltem jeito. Esta sensibilidade cutânea eElas já tinham sensibilidade cutânea antes de aprender a linguagem, tanto que foram aprender quando já eram quase adultas. Issto quer dizer que a existência mesma da linguagem, o simples fato de existir a linguagem, prova que a linguagem não é uma rede que abrange o mundo e que determina a nossa visão do mundo, mas justamente ao contrário: a linguagem é apenas um aspecto dentro do mesmo mundo, no qual certas realidades do mundo se tornam, por assim dizer, transparentes a nós graças à linguagem. Mas aquela idéia de que a linguagem domina o horizonte cognitivo do homem é absolutamente inviável. E quanta gente não gastou neurônios e, não gastou toneladas de talento explorando essa possibilidade absolutamente inviável e, se você for pensar bem, boba, no fim das contas?. E mesmo essa integração [ou seja, quando esses sinais são integrados na à linguagem como signos lingüísticos] não é jamais completa: um som, um sinal gráfico, um estímulo sentido na pele conservam sua realidade de fenômenos corporais independentes [1:10] de sua função linguística, como o prova a simples existência de várias línguas diferentes: o som Schweinerei pode ser ouvido perfeitamente por quem não compreenda uma só palavra da língua alemã, (...) Vocês acabaram de ouvir. Os que entendem, entendem; os que não entendem, ouviram do mesmo jeito. (...) assim como nada impede que um chinês recém-desembarcado no Rio de Janeiro, incapaz de dizer mesmo “Bom dia” em português, ouça, se não for surdo, tudo o que estou lhes dizendo aqui. Para aqueles que conhecem a Teoria dos Quatro Discursos, vocês vão entender imediatamente que esse dilema colocado por Herman Bloch Broch resulta da supressão dos dois discursos intermediários — retórico e dialético —, que constituem justamente o terreno da filosofia. Isso [1:10] Por que acontece issoporque? Acontece porque, a partir de uma certa época — podemos datar os séculos XII, -XIII —, a filosofia desenvolve essa ambição de ser o discurso universalmente coerente. E ela se desenvolve no preciso instante em que a profissão de filósofo, no sentido universitário, se constitui na Universidade de Paris. E entãoaí acontece o seguinte: aconteceu nos anos 90, do século passado, surgiu um dos desenvolvimentos mais interessantes na disciplina da História da Filosofia, que é o estudo das filosofias antigas como escolas de sabedoria, e. E a conclusão é a seguinte:que todas as escolas filosóficas eram escolas de sabedoria que implicavam uma ética, um modo de vida, práticas disciplinares, o desenvolvimento da personalidade etc. e etc., no preciso sentido em que a mesma coisa é adotada aqui neste curso. Eu queria aqui destacar três livros importantes sobre esse assuntoisso aí que vocês podem ler. Não serão objeto de estudo neste curso, mas apenas para a sua informação. Pierre Hadot, Qu'est-ce que la philosophie antique? (O que é a Filosofia Antiga?). E aA resposta a esta essa pergunta é que a filosofia antiga era eminentemente um modo de vida, o ensino de um modo de existência que predispunha o indivíduo ao conhecimento da verdade, sem lhe dar jamais a verdade pronta. André-Jean Voeelke, La philosophie comme thérapie de l'âme (A filosofia como terapia da alma), que são estudos de filosofia do período helenístico. A tTerapia da alma que não é compreendidao no sentido da atual moda de filosofia clínica. A denominaçãoSe você fala “de filosofia clínica” , você já está limitando a filosofia a uma atividade psicoterapêutica que, em princípio, deve ser independente de preceitos morais, religiosos, etc. e etc., ou seja, independente de tudo aquilo de quedo qual a filosofia antiga era precisamente dependente. Finalmente, a obrao do filósofo polonês Juliusz Domanski, La Philosophie: Théorie ou manière de vivre? (A Filosofia: teoria ou maneira de viver?). Esses três filósofos convergem no seguinte ponto: toda a filosofia antiga era assim, continua assim no período helenístico e parou de ser assim quando foivocê constituídai a filosofia escolástica, . Por quê? Pporque toda a parte disciplinar, ética e, por assim dizer, psicopedagógica tinha sido transferida para o domínio da prática religiosa. Como A filosofia não precisava tratar disso, a filosofia então ela se concentrou nas questões teóricas. Acontece que toda essa filosofia escolástica só vale alguma coisa se for inserida dentro do quadro disciplinar, ético e religioso do Cristianismo medieval, senão ela não faz sentido. A separação que houve foi mais uma coisa formal que valia para aqueles indivíduos naquele meio, mas, quando nós olhamos a filosofia separadamente da teologia medieval, nós não entendemos nada. E eu confesso que cometi esse erro por anos a fio, achando que podia entender bem a filosofia medieval me concentrando nos textos filosóficos e esquecendo os textos de ordem mais puramente teológica, sem contar os tratados ascéticos, místicos etc. Hoje eu vejo que todas as dúvidas e confusões que me surgiram apareceram na minha cabeça, a respeito de filosofia medieval, foram por causa disso. Um erro que eu pretendo sanar doravante. É claro que não caíi nesse erro totalmente porque tenho alguma formação cristã, algo do Cristianismo que não só conheço, como vivencio isso. Mas é, por assim dizer, o Cristianismo atual, o Cristianismo dos séculos XX-XXI, e não o Cristianismo da Idade Média, sobre do qual eu, na verdade, sei muito pouco, embora conheça bastante da filosofia medieval. Quando Sto. Tomás de Aquino escreve a Suma contra os Gentios, São Tomás de Aquino ele professa que ali vai usar ali apenas argumentos filosóficos, porque daí ele pode discutir com quem não compartilha a fé cristã, como os judeus e os mulçumanos, ao passo que, na Suma Teológica, ele está partindo justamente do texto sacro. Mas você veja, Sãoto. Tomás podia fazer isso porque ele tinha a Suma Teológica, ele tinha escritos de ordem teológica, que constituemi a maior parte da obra dele. E, na ilusão de que podia entender isso de maneira puramente filosófica, eu descuidei da minha formação em matéria da teologia medieval, o que eu pretendo corrigir doravante, inclusive para poder entender este o processo de: como e por que que isso aconteceu.? Por quê? A partir do momento em que a filosofia se constituiu como atividade puramente universitária e puramente teórica, qual pode ser o objetivo dessa atividade teórica senão o de chegar à teoria universalmente válida e ao discurso uniformemente coerente? Daí surge então o racionalismo clássico e surge todo o movimento da filosofia moderna, que se destaca da sua raiz religiosa, o que é uma bobagem que os filósofos antigos — Aristóteles, Platão e até o próprio Epicuro — jamais fariam. Vamos passar a algumas perguntas. Aluno: Eu gostaria de saber a sua opinião sobre o livro O Governo Mundial: a Perversão perversão de Bertrand Russell e H. G. Wells, do Lyndon LaRrouche. Olavo: O Lyndon LaRrouche tem uma organização de informações de alcance mundial, quer dizer, tem pesquisadores para descobrir tudo o que ele quiser. Issto significa que nos livros dele sempre tem há muitas informações interessantes e, em geral, atomisticamente confiáveis. O problema de LaRouchedele é o mesmo problema que o Millôr Fernandes dizia que o Antonio Houaiss tinha com a língua portuguesa, ou seja, conhecia: ele conhece todas as palavras, ele só não sabiae juntá-las. O Lyndon Larouche conhece todos os fatos, ele só não sabe juntá-los, e não sabe juntá-los por dois motivos. Eu não tenho nenhum preconceito contra o Lyndon LaRrouche. Há quem o odeie, o considere fascista Aqui tem jeito que o odeia, “ele é um fascista”, mas. Eu eu não penso nada disso.. Ele falou de mim. Eleu disse que as informações atomísticas são válidas. A, algumas não são. E: ele diz, por exemplo, que eu sou um globalista, ou seja, e. Ele me entendeu tão bem quanto o Alexander Dugin. O Lyndon LaRouche conhece todos os fatos, só não sabe juntá-los, e não sabe fazer isso por dois motivosO problema com o Larouche é o seguinte: ele tem uma mentalidade eminentemente belicosa e ele gosta de ver antagonismo e incompatibilidade em tudo. Por exemplo, a visão dele é baseada no seguinte: existe aqui uma linha platônica e uma linha aristotélica que tem têm um conflito de morte desde o tempo da Grécia; na China, existe uma linha taoísta e uma linha confucionista que tem têm uma briga de morte desde aquele tempo até agora. E ele pega considera esses antagonismos, que, na verdade, não existem... Sobre o taoísmo e o confucionismo, é só vocêbasta ler o René Guénon, A Grande Tríade, de René Guénon. Na obra, Guénonque ele mata completamente o problema do aparente antagonismo entre essas duas correntes. Quanto aoE platonismo e aristotelismoAristóteles, em tudo o que eu estudei, eu nunca vi incompatibilidade alguma; quando Aristótelesele fala:, “ nós, os platônicos”, ele sabe por que está falando isso,: ele está tentando desenvolver certos aspectos específicos da obra do seu mestre, contra o qual ele jamais se voltou no que quer que fosse. Mas, na cabeça do Lyndon LaRrouche, tudo no mundo é guerra e conflito, e essas brigas estruturais, que vêm desde o começo dos tempos, são o princípio explicativo de tudo o que está acontecendo hoje. Então ele vê algumas continuidades históricas que só podem valer analogicamente, como, por exemplo, os: ele pega esses globalistas de hoje, que LaRouche considera e fala que são os comerciantes venezianos do século XV. [1:20] Pode haver uma analogia, mas não há uma continuidade histórica concreta, não são as mesmas famílias, não são as mesmas pessoas. Ele às vezes está confundindo o que são linhas de identificaçãosignificação, como diz o Eric Voegelin, com linhas de continuidade direta da ação, como você se vê em numa dinastia nobiliária, uma dinastia qualquer, os Rockefeller, por exemplo. Ali você tem uma continuidade concreta de uma ação que vem do bisavôó para o avôó, para o pai, para o filho, para o neto, etc. e etc. Ou em num partido político, ou em numa igreja. Você temHá uma continuidade material da ação. Agora,Porém, entre os comerciantes venezianos e os globalistas de agora não tem há isso, de fato não são as mesmas pessoas. E mesmo onde haja algum parentesco, isso o parentesco por si só não prova a continuidade de uma ação dinástica. Além do parentesco, precisa ter haver o ensino, precisa ter a transmissão, precisa ter a disciplina passada de pai para filho. Se você não comprova isso, então... Aqui teve Um sujeito de determinada um fulano da família tal que dissedizer tal coisa no século XIV e teme outro que dissedizer uma coisaalgo parecidoa no século XX, [1:20] isto não quer dizersignifica que há uma continuidade de ação dinástica. Aluno: O senhor tratou da questão de o indivíduo entregando-se a à carne e libertar-se do mundo. Isso não é coisa dos gnósticos? Olavo: Claro que é. Com o negócio doO gnóstico temé uma revolta contra o mundo criado, então a destruição do mundo está nos em seus objetivos. Essa destruição pode ser alcançada pelo ascetismo total, pela total renúncia à vida material sob todos os seus aspectos, inclusive o sexo e a procriação. Curiosamente, os gnósticos jamais renunciaram à alimentação, que eu saiba. Seria a coisa mais fácil. QVocê quer se libertar do mundo? Basta parar Você pára de comer agora, e, em uma semana, está resolvido o problema. Para mim, Mas evidentemente o gnosticismo, para mim, é evidentemente uma palhaçada — uma palhaçada trágica, mas uma palhaçada. E outrosHá quem ache achavam que ao contrário: se entregando-se ao último grau de dissolução nos dos prazeres da carne, o indivíduovocê também estaria de alguma maneira se destruindo e destruindo o mundo. Tudo isso, é sem dúvida, é é gnosticismo. O que éE esse dualismo trágico do Lyndon LaRrouche é? É gnosticismo. Problemas sem solução são invenção do diabo. Todos os problemas que Deus inventou têm uma solução; mesmo que não tenham se não tem uma solução aqui, têem uma solução na eternidade. Mas para o diabo, não, o problema é eterno. Aluno: De que modo o exercício de uma atitude, por exemplo, a de não julgar, se desdobra no aperfeiçoamento de outras atitudes? Ou melhor, como o treinamento de evitar uma determinada atitude menos nociva pode redundar no auxílio do melhoramento da alma, mediante a supressão ou transformação de vícios muito piores? Olavo: Em sua pergunta, vVocê já deu a resposta de alguma maneira. Na própria formulação da pergunta, você já disse “que evitandoevitar determinada certas atitudes”... Vou dar exemplo de uma: não é possível seUma só, falar: eu não posso me livrar de todos os pecados, mas você pode evitar vou me livrar deste aquialgum em particular. Por exemplo, eu vpropor-seou parar de fazer fofocas, parar de me se interessar pela vida particular alheia e não vou falar mal de ninguém — é uma disciplina. Isso aí evidentemente repercute em todos os demais setores da personalidade. E quando qualquer impulso passa pelo filtro dessa atitude, quando esse impulso tem algo a ver com essa situação em particular, você vê que ele já sofre ali uma alquimização imediata. Agora, oO único ponto a observar é é o seguinte: o Dietrich von Hildebrand diz que o pior obstáculo à moralidade não é a imoralidade, mas simé um problema interno inerente à própria moralidade, quando ela se expressa sob a forma de regras que devem ser obedecidasvocê tem de obedecer. Cada uma dessas regras pode até ser válida em si, mas acontece que você seguir uma delas não implica que você não esteja estar cometendo imoralidade em tudo o mais. TE toda a moral social é constituída dessas regras soltas, e as pessoas se apegam a isso; e, na medida em que se apegam, elas se deformam e se pervertem. Por exemplo, hoje nós temos a atual consideração que há pela a intocabilidade do dinheiro público. Mas e se oVocê ter um político ali que não rouba dinheiro público, ele só rouba apenas dinheiro de particulares, dorme com come a mulher do próximo, toma pico etc. e etc.? Quer dizer, a personalidade moral não pode ser constituída pelana obediência a essas regras materiais, elas têm de ser a busca do bem tomada no seu sentido mais amplo. E esste bem, que você conhece universalmente, tem de ser identificado em cada situação concreta. O que implica, que às vezes, o bem não vai coincidir exatamente com aquela regra material externa. Quer dizer, se você pretende obedecer a todas as regras que lhe impuseram, você vai deformar completamente a sua alma, você vai criar perfeições parciais que se tornam bloqueios à perfeição mais geral. Aluno: Muitas vezes, o senhor se referiu ao fato de que atualmente a Nova Ordem Mundial emprega uma estratégia muito mais sutil e eficiente no que diz respeito à implantação de políticas e medidas de reengenharia social. Não é mais o caso de se valer doso parlamentos, das leis e das grandes declarações de direitos. Esses instrumentos têm certa visibilidade e sempre despertam, de uma forma ou de outra, resistência dentro da sociedade. Nesse sentido, já faz algum tempo que os próceres da Nova Ordem Mundial descobriram que podem alcançar os mesmos resultados, com muito mais eficácia, rapidez e praticidade, por meio de atos e portarias administrativas, decisões judiciais. Daí a questão que eu proponho: em que medida as decisões so do Supremo Tribunal brasileiro, notadamente nos casos dos fetos anencefálicos e da união civil gay, materializam no Brasil a agenda da Nova Ordem Mundial? A resposta me parece clara, mas eu pretendo investigar as conexões materiais (...) Olavo: Voltamos à questão de distinção entre linhas de significado e conexões materiais. Aluno: (...), a influência dos grupos globalistas e o trabalho prévio desses vários agentes que, em última análise, desembocaram nessas decisões judiciais. Olavo: Esste é um trabalho maravilhoso para você fazer. Eu tenho certeza de que nenhuma lei foi promulgadase baixou no Brasil, nos últimos vinte anos nem, e nenhuma dessas grandes decisões judiciais, nenhuma delas foi tomada sem se tomou que já não viesse de algum modo modelada, pronta, desde Genebra. Os caras já tomaram essaA decisão já foi tomada lá, implantaram essa política foi implantada e todo mundo vai segui-lar. Existem duas maneiras de fazer isso: uma maneira delas é pela influência cultural disseminada, a técnica da revolução cultural, ou seja, você domina o vocabulário, domina a simbologia, domina o imaginário, e e. Então, por média estatística, as pessoas vãao acabar seguindo aquilo. Evidentemente, o fato de o sujeito, não é por ele ser ministro do STF não quer dizer que ele está imune a essta influêencia. E aA outra [maneira] é a linha da influência material direta: são os grupos de pressão, propinas, comprometimentos pessoais. E é claro que é mais fácil você estudar no primeiro sentido do que no segundo. Mesmo assim, não é fácil. Mas, no segundo, é um trabalhoa trabalheira miserável atroz, porque você depende dae reconstituição der relações pessoais: fulano participou de certa entidade, em tal época, onde ele conheceu o seu fulanobeltrano, do qual ele recebeu tal e qual ensinamento assim, ou então que recebeu tal e qual favor assim, o qualque depois ele retribuiu desta ou da outra maneira. Isso é perfeitamente possível fazer, mas é um trabalho [1:30] infernal. S, e sozinho, você não vai conseguir, precisa de mais gente para fazer isso. Um exemplo de coisa algo desse tipo é, por exemplo, o site do de David Horowitz, Discover the Networks. Lá háele tem fichas com dados de pessoas e, pessoa por pessoa, e por organizações, e também por temas. E, lLendo aquilo, você vai reconstituindo quem conhece quem. Aqui nos EUA, existe uma vasta tradição de investigações desse tipo, quer dizer, os livros baseados nesse tipo de informação são muitos, sempre uma obra dessas está sendo publicadatoda hora estão saindo, então aqui é difícil você esconder as coisas. Você É possível consegue esconder do povão, mas do estudioso e do pesquisador, você não se esconde nada, o pessoal descobre tudo. Descobre, mas às vezes a coisa fica em num circuito limitado. Este O último livro do Stanton Evans, Stalin’s Secret Agents, isto é uma investigação maravilhosa desse tipo: quem conheceu quem, quem estava ligado a quem, em que contexto, quem devia favor para quem, quem influenciava quem — um por um. Este é um trabalho maravilhoso. OPorém, o outro livro do Stanton Evans, Blacklisted by History, sobre a história do Joe McCarthy, também é uma investigação desse tipo. Herbert Romerstein fez muitas investigações maravilhosas exatamente desse tipo. [1:30] Isso aí leva muitos anos. E esse pessoal todo que eu estou citando não trabalhava emn um terreno nu e cru. No Brasil, você não tem há nada disso aí. Veja, nNo Brasil, até hoje, não existe um trabalho, um único trabalho, uma única investigação sobre o sistema petista de informaçõesão que o José Dirceu, com a tecnologia que ele aprendeu em Cuba, montou nos anos 90, que era chamado de os caras chamavam PTPol. Aquilo era uma coisa que existia. Em 93, eu passei fiquei um ano estudando a CPI das Empreiteiras. Fui contratado pelpaor uma empreiteira, a Odebrecht, para estudar o negócio e fazer um relatório para eles. Enquanto fazia isso, , eu fiz. E ali eu percebi essa PTPol em ação. Como estava com verba da Odebrecht, eu cheguei a contratar dois pesquisadores para que eles fossem procurar alguns desses informantes do PT que trabalhavam em empresas, para saber como funcionava, : como é que é isso, vocês estão aí em tal e qual empresa, que tipo de informação vocês passavam para quem, qual é era o canal que seguiame. Foi a única coisa que foi feita nesse tempo todo. É claro que, sem esse sistema petista de informação, não teria sido possível nem tomar o poder, nem criar coisas como o Mensalão. N, nada disso poderia ter acontecido. Já se passaram passou quase vinte anos— para não dizer vinte, passou dezenove —, e ninguém estudou esse trecoisso. Mais ainda,: até hoje ninguém quem estudou mais a fundo o Foro de São Paulo, direto? Até hoje ninguém. Por isso que eu digo: Oo Brasil é uma sociedade que vive no escuro. São vinte ou trinta anos de trevas, e ninguém sabe o que está acontecendo. N não só no domínio da cultura e da história psíquica, na história cultural, mas também na história material. Nós não temos nada disso. São trinta ou quarenta anos de história psíquica que se desenrolaram, trouxeram transformações imensas, sem que ninguém se se desse conta docomo o que está acontecendo. O, de maneira que oss indivíduos já nascem no escuro, eles não têm a informação que vem da geração anterior, então ninguém sabe o que está acontecendo não só nessa história cultural, mas também nessa história material. Nós não temos nada disso. Eu sei que alguns de vocês vão fazer, e espero que façam, investigações nesse sentido. Esse vai ser um trabalho heróico, porque vocês estão trabalhando sem financiamento, sem ajuda nenhuma e contra tudo e contra todos. Não é um problema de oposição política, não, é o muro da ignorância. A ignorância é uma força física, acreditem. Quando eu falo “muro da ignorância”, não é força de expressão, a ignorância é um trecoalgo que resiste, então é como você tentar empurrar um muro mesmo. Mas se você empurrarndo, um dia o muro cai. Eu mesmo estou felicíssimo de ter conseguido esclarecer tanta coisa, quando havia tanta gente fazendo o possível para obscurecer os fatos, para fazer você todotomo mundo esquecer, para que ninguém soubessesaber de coisa nenhuma. As circunstâncias não são propícias para esse tipo de investigação, mas isso mesmo torna esse o desafio ainda mais fascinante e quase irresistível. Então vá em frente nessa sua investigação. Antes de encerrar. Quanto ao apelo Naquele apelo que eu fiz para ter de assistentes aqui, eu recebi várias ofertas, mas a. A maioria delas eu não posso aceitar porque são as pessoas não têmque dizem “eu não tenho conhecimento suficiente da língua inglesa”. Então assim Eu digo: não dá, isso é impossível. Nós não vamos ter tempo para que a pessoa começcear a treinar o inglês aqui, isso realmente não dá. Agradeço a todas todos as que ofereceram ajuda, mas nós já estamos aqui mais ou menos fechando negócio com duas moças. Não vou dar os nomes aqui agoraainda, depois eu informo. Eu agradeço imensamente o interesse, a generosidade das de suas ofertas, mesmo daqueles que dizem que não falam inglês. Mas sSem o inglês, não dá. Aqui, o Pedro de Lima diz que está trabalhando em numa novela, num romance. Gostei muito, não precisamos comentar aqui. Nós vamos comentar esses projetos depois, mas, vá em frente, Pedro, a idéia é boa. Tomara que dê certo. Também aqui, o Diogo de Almeida Fontana apresenta um projeto. Eu sugiro que esstes projetos sejam mandados por para o e-mail para , informando, no e no subject : você põe “projeto COF”. Assim eu posso colecionar todos eles, organizá-los em botar numa pastinha e depois, daqui a uma semana, começar a comentá-losar, dar conselhos, etc. e etc. Até a semana que vem. Muito obrigadaobrigado. Transcrição: Jussara Reis de Abreu, em 03/04/2013, [jussarareis10@gmail.com] Transcrição: Cynthia Leite, Gio Fabiano Voltolini Jr., [gio.fabiano2@gmail.com], Jussara Reis de Abreu. [jussarareis10@gmail.com]. Revisão: Elisabete Franczak BrancBranco. o [elisabete_franczak@yahoo.com.br]