Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 182 1º de dezembro de 2012 Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Vocês já devem ter encontrado aí um texto que nós vamos usar na aula de hoje, que é um breve ensaio de Bertrand Russell sob o título “Porque não sou cristão”. O objetivo aqui não é evidentemente polemizar pró ou contra as teses de Russell, mas tentar esclarecer, com base nele, um tipo de mentalidade, uma certa concepção um pouco vaga do mundo, que se disseminou amplamente no Ocidente e que teve, e tem ainda, uma influência enorme na formulação dos projetos globalistas. De modo que é importante nós entendermos essas idéias aqui não pelo seu lado de polêmica religiosa ou anti-religiosa, mas como concepção de fundo que inspira toda uma elite reformadora que hoje está na vanguarda da história do mundo, está formulando e criando um mundo no qual, esperam eles, os nossos filhos e netos venham a viver. Em geral as pessoas ignoram a tremenda influência que Bertrand Russell teve nesses círculos. Quando você vê nos livros de filosofia ou de história da filosofia, ele é apresentado apenas como um filósofo muito importante, mas o tipo exato de importância que ele tem não é perfeitamente esclarecido. Vocês não podem se esquecer que Bertrand Russell, até por nascimento, fazia parte de uma elite britânica que começou a conceber esses planos globalistas desde o fim do século XIX, e uma boa parte da discussão “filosófica” na Inglaterra está vinculada a esses planos. E, evidentemente, quando o indivíduo adquire prestígio nesses círculos, que são os donos das universidades, os donos da mídia etc., a fama do sujeito se espalhará por todo mundo. Mas, será sempre aquela fama ambígua onde uma parte dos dados é exibida com grande alarde e a outra é meio escondida ou abafada. Mas, é nesta segunda parte que você encontrará as verdadeiras razões do prestígio do indivíduo. Bertrand Russell fez alguns trabalhos importantes no domínio da lógica, no começo do século, junto com Alfred North Whitehead — que depois tomou uma direção completamente diferente. Foi, sobretudo, este projeto que ele resumiu no livro O Princípio e a Matemática, depois resumido no livro The Principles of Mathematics, que granjeou a sua fama. Mas, note bem, esta fama é no domínio estritamente lógico-matemático. Quando nós passamos a ler as análises que Bertrand Russell faz de problemas filosóficos substantivos e, mais ainda, de problemas históricos, sociais, políticos e etc., parece que encontramos uma segunda personalidade bem diferente da primeira. E é precisamente o que nós vamos observar neste texto aqui. Nós não vamos poder lê-lo por extenso durante na aula, mas eu peço que vocês o examinem depois. Talvez nós até voltemos ao assunto na próxima aula. Em primeiro lugar, ele diz que seria bom definir o que é um cristão e diz que há alguma dificuldade para definir isto hoje em dia porque a palavra assumiu diversos significados. E no fim ele fecha o negócio, dizendo: “[Para ser um cristão, você] precisa ter, no mínimo, a crença de que Cristo era, se não divino, pelo menos o melhor e o mais sábio dos homens. Se não tiverdes ao menos essa crença quanto ao Cristo, não creio que tenhais qualquer direito de intitular-vos cristãos.” A definição é tremendamente elástica. E nós sabemos que qualquer pessoa, até uma agnóstica, pode perfeitamente considerar que Cristo foi o mais sábio dos homens, de maneira que a definição é tremendamente elástica. O que é muito estranho num filósofo que fez toda a sua carreira — e nós veremos isso no fim — na base da idéia de que a principal função da filosofia é esclarecer o sentido das palavras, principalmente o sentido das palavras tal como é usado no debate filosófico-científico. Quer dizer, para um pensador cuja principal preocupação era precisamente a precisão, a exatidão no sentido das palavras, essa definição está enormemente elástica. Para complicar um pouco o negócio ele diz o seguinte: “Essa palavra não tem hoje o mesmo sentido que tinha ao tempo de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino. Naqueles dias, quando um homem se dizia cristão, sabia-se o que ele queria significar. As pessoas aceitavam toda uma série de crenças estabelecidas com grande precisão, e acreditavam, com toda a força de suas convicções, em cada sílaba de tais crenças.” Isto aqui é simplesmente ignorar toda a história de pululação de heresias que houve durante mais de quinze séculos, onde justamente o que se discutia era o que é ser um cristão. Porque uma heresia não é uma doutrina diferente da doutrina da Igreja, mas é uma doutrina cristã que a Igreja não aprova, ou seja, é uma versão do Cristianismo. Essas heresias pululavam em número muito maior neste tempo de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino do que hoje. Hoje praticamente nós podemos dizer que nós temos uma grande heresia circulando, que é o Modernismo, que culmina na Teologia da Libertação. Mas, nós não temos uma variedade tão grande de heresias quanto houve em outras épocas, de modo que aqui a narrativa está invertida. Nós podemos dizer que, ao contrário, o sentido da palavra “cristão”, pelo menos dentro do contexto da Igreja Católica, está muito mais claramente estabelecido hoje — ou na época de Bertrand Russell, no começo do século, anos 20-30 — do que estava no tempo de Santo Tomás de Aquino e, muito mais ainda, no tempo de Santo Agostinho. Nós não podemos nos esquecer que a história da doutrina da Igreja é uma história muito complicada, a doutrina não veio pronta. O que veio pronto, nos anos 40-50 da Era Cristã, foi o Evangelho. Mas, o Evangelho não é uma exposição doutrinal e, sobretudo, as palavras de Jesus Cristo, se você somar ali o que Jesus Cristo disse de boca própria, não dá quinze páginas. Então como extrair uma doutrina de dentro desta narrativa? Existe o famoso livro (acho que eu já usei aqui) do Alois Dempf, A Concepção do Mundo na Idade Média, que vai mostrando como surgiu essa doutrina cristã. Ela surge, em primeiro lugar, das oposições, ela surge da necessidade de responder às objeções. Se a doutrina é constituída ao ritmo dessas objeções, então de cara já não é uma doutrina organizada, porque as objeções podem vir de todos os lados, e sob os mais variados pretextos, e um conjunto de respostas a objeções soltas não constitui ainda uma doutrina propriamente dita, pelo menos não constitui uma doutrina no sentido arquitetônico da coisa. E nós podemos dizer que o primeiro sucesso relativo em obter uma doutrina organizada foi justamente com Santo Agostinho que já foi século IV. Mesmo assim o agostinismo ainda será objeto de muita e muita e muita discussão pelo menos até o século XIII. E neste interim começam a surgir corpos doutrinais bastante complexos, que são as chamadas heresias que são versões diferentes do Cristianismo. Então isto é a mesma coisa que dizer que, no tempo de Santo Tomás de Aquino, mais ainda, no de Santo Agostinho, ninguém sabia exatamente o que era ser um cristão. Se você tomar as duas coleções da Patrística, que são as obras produzidas pelos Padres da Igreja — tem uma coleção latina e uma coleção grega —, você verá que tem ali uma infinidade de textos heréticos. Quer dizer, camaradas que eram importantes na Igreja, que acreditavam piamente que eram cristãos e que estavam expondo a doutrina da Igreja, mas que divergem dela formidavelmente. Então isto quer dizer que mesmo dentro do corpo da cultura da Igreja, existe a divergência sobre pontos essenciais. Então o que é ser um cristão foi uma coisa que só muito lentamente foi se esclarecendo. [0:10] E de fato me parece estranho que um homem dessa importância como Bertrand Russell se meta a discutir o assunto sem saber nem mesmo isto, que é o capítulo I da história da doutrina da Igreja. Eu não vou examinar o texto inteiro, eu só vou analisar aqui os argumentos de ordem puramente metafisica. Quando ele entra na parte dos argumentos morais, a coisa já não tem tanto interesse para nós. Mas ele diz aqui que o primeiro ponto que ele vai discutir são os argumentos em favor da existência de Deus tal como formulados, entende ele, pela Igreja. Ele diz: “Sabeis, certamente, que a Igreja Católica estabeleceu como dogma que a existência de Deus pode ser provada exclusivamente pela razão.” Ou seja, a existência de Deus não é uma parte da revelação, é uma parte da razão natural: todo homem pode, a partir do raciocínio de analogia, chegar à conclusão de que Deus existe. Isto é um dogma da Igreja, de fato. “Tiveram de introduzi-lo porque, em certa ocasião, os livres-pensadores adotaram o hábito de dizer que havia tais e tais argumentos que a simples razão poderia levantar contra a existência de Deus, mas eles certamente sabiam, como uma questão de fé, que Deus existia.” Isto que ele está dizendo aqui, de fato, só veio a acontecer muito mais tarde. Esta doutrina de que a existência de Deus é um elemento racional e não um elemento de fé dogmática, isto é muito antigo na Igreja. E este típico argumento que ele atribui aos livres-pensadores não surge antes do século XVIII. Voltaire, por exemplo, era contra toda a doutrina da Igreja, mas ele acreditava em Deus. Aliás, a própria expressão “livres-pensadores” é uma expressão e um tipo humano que só aparece no século XVIII, quando essa doutrina de que a existência de Deus é uma tese racional e não um dogma de fé já existia desde há muito tempo. De modo que a noção que o homem tem da história da doutrina da Igreja é um pouco confusa, para não dizer que é um ignorante completo no assunto. Mas, vocês verão mais adiante, que o tom de certeza absoluta e tranqüila com que ele discute essas coisas transmite uma impressão de autoridade tremenda, sobretudo por ser o autor de importantes trabalhos de lógica. Então ele começa a examinar em primeiro lugar “O argumento da Causa Primeira”. Eu terei de ler este parágrafo inteiro para que tudo fique claro. “Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus. Esse argumento, creio eu, não tem muito peso hoje em dia, em primeiro lugar porque causa já não é bem o que costumava ser. Os filósofos e os homens de ciência têm martelado muito a questão de causa, e ela não possui nada que se assemelhe à vitalidade que tinha antes; mas, à parte de tal fato, pode-se ver que o argumento de que deve haver uma Causa Primeira é um argumento que não pode ter qualquer validade. Posso dizer que quando era jovem e debatia muito seriamente em meu espírito tais questões, eu, durante muito tempo, aceitei o argumento da Causa Primeira, até que, certo dia, aos dezoito anos de idade, li a Autobiografia de John Stuart Mill, lá encontrando a seguinte sentença: ‘Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta subseqüente: ‘Quem fez Deus?’. Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira. Se tudo tem uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se pode haver alguma coisa sem causa, pode muito bem ser tanto o mundo como Deus, (...)” Isto é, se pode haver algo sem causa, por que precisa ser Deus? Pode ser o próprio mundo, que não teve causa nenhuma. “(...) de modo que não pode haver validade alguma em tal argumento. Este é exatamente da mesma natureza que o ponto de vista hindu, de que o mundo se apoiava sobre um elefante e o elefante sobre uma tartaruga, e quando alguém perguntava: ‘E a tartaruga?’, o indiano respondia: ‘Que tal se mudássemos de assunto?’ O argumento, na verdade, não é melhor do que este. Não há razão pela qual o mundo não pudesse vir à existência sem uma causa; por outro lado, tampouco há qualquer razão pela qual o mesmo não devesse ter sempre existido.” Isto é, o mundo pudesse ser eterno. “Não há razão, de modo algum, para se supor que o mundo teve um começo. A idéia de que as coisas devem ter um começo é devida, realmente, à pobreza de nossa imaginação. Por conseguinte, eu talvez não precise desperdiçar mais tempo com o argumento da Causa Primeira.” Veja que ele considera o assunto encerrado mediante a esta simples alegação: se tudo tem uma causa, Deus deve ter tido uma causa, ou seja, quem sustenta a tartaruga, que sustenta o elefante, que sustenta o mundo. Mas, o que quer dizer esta hipótese de o mundo ser eterno, o mundo não foi criado. Se o mundo não foi criado, o mundo é eterno. Porém, nós não conhecemos nada dentro dele que seja eterno. Então o que quer dizer aí a palavra “mundo”? Ela não pode simplesmente significar o conjunto de todas as coisas, porque o conjunto de todas as coisas temporalmente extinguíveis não tem como ele mesmo ser eterno, a não ser que ele tenha uma propriedade a mais que as coisas não têm. Portanto, entre conjunto de todas as coisas e mundo existe um salto qualitativo: o mundo tem uma propriedade, a eternidade, que não é compartilhada com nenhum dos seus objetos. Portanto, entre o mundo e os entes repete-se o mesmo problema que ele viu entre Deus e o mundo. Se todas as coisas têm uma existência temporal (elas começam e terminam), mas o conjunto delas tem a propriedade de ser eterno, de jamais ter começado, então é evidente que esse mundo guarda, para com as coisas que estão dentro dele, uma relação desproporcional exatamente como a doutrina cristã diz que existe entre Deus e o mundo. Então nós temos de explicar essa propriedade miraculosa do mundo de transcender todos os seus entes. Dito de outro modo: nessa perspectiva, o mundo só pode ser compreendido não como mero conjunto ou soma das coisas, mas como princípio no qual ela se fundamenta. Isto é, tudo o que é temporal se sustenta na eternidade do mundo. Então, quer dizer, o mundo é a palavra que designa o princípio fundador de tudo o que existe. Dito de outro modo: ele simplesmente trocou a palavra “Deus” pela palavra “o mundo”, e não resolveu o problema de maneira alguma. É o caso de você perguntar como é que um dos grandes lógicos do século faz um treco desses. E pior: faz um treco desses e considera o problema resolvido. Quer dizer, canta vitória com um argumento chinfrim, um argumento vagabundo, que é uma mera troca de palavras, sem perceber a implicação mais óbvia do que ele está dizendo. Pior ainda: esta idéia de eternidade do mundo recorrerá depois num contexto completamente diferente. Eu queria chamar a atenção de vocês para isto: como é que um indivíduo que tem a fama universal de ser um dos grandes lógicos do século, quando ele vai analisar uma questão substantiva, questão que para ele interessa profundamente — ele mesmo diz que se preocupou muito com isso na juventude — e que ele sabe que é uma questão de importância histórico-social muito grande, como é que a capacidade lógica dele baixa a este ponto de soltar um argumento subginasiano, onde você troca uma palavra e acredita que resolveu o problema? Ou seja, no instante em que ele diz “o mundo pode ser eterno”, ele não se dá conta de que ele está proclamando a existência de um ente que tem uma propriedade específica que nenhum outro ente tem: a eternidade. Quer dizer, tudo o que existe no mundo é temporal, não conhecemos nada eterno dentro do mundo, nenhum dos elementos que compõem o mundo é eterno. Se o mundo em si é eterno, então ele transcende infinitamente os seres que o compõe e tem uma propriedade específica que o distingue de todos eles. Ora, como as várias secções do tempo [0:20] em comparação com a eternidade são uns verdadeiros nadas, não há comparação entre a duração mais longa possível e a eternidade, então nós teríamos de entender que essa eternidade não é somente o conjunto, mas é o fundamento de todas as secções de tempo que existem dentro dela. Então é a mesma coisa que dizer: a eternidade é a força criadora, ou o fundamento, ou o princípio de todas as existências temporais. Não tem como não ser assim. Então ele está implicitamente nos impondo uma outra definição de mundo que não é a de simples conjunto das coisas existentes, mas de princípios das coisas existentes. E ele não percebe que proclamar a eternidade do mundo é proclamá-lo como princípio da existência das coisas temporais. Daí ele começa a discutir o “Argumento da Lei Natural”: “Foi esse argumento predileto durante todo o século XVIII, principalmente devido à influência de Sir Isaac Newton e de sua cosmogonia. As pessoas observavam os planetas girar em torno do Sol segundo a lei da gravitação e pensavam que Deus dera uma ordem a tais planetas para que se movessem de modo particular — e que era por isso que eles assim o faziam. Essa era, certamente, uma explicação simples e conveniente, que lhes poupava o trabalho de procurar quaisquer novas explicações para a lei da gravitação. Hoje em dia, explicamos a lei da gravitação de um modo um tanto complicado, apresentado por Einstein. Não me proponho fazer aqui uma palestra (...) Vemos, agora, que muitas coisas que considerávamos como leis naturais não passam, na verdade, de convenções humanas. Sabeis que mesmo nas mais remotas profundezas do sistema estelar uma jarda tem ainda três pés de comprimento. Isso constitui, sem dúvida, fato notabilíssimo, mas dificilmente poderíamos chamá-lo de lei da natureza. E, assim, muitíssimas outras coisas antes encaradas como leis da natureza são dessa espécie. Por outro lado, quaisquer que sejam os conhecimentos a que possamos chegar sobre a maneira de agir dos átomos, veremos que eles estão muito menos sujeitos a leis do que as pessoas julgam, e que as leis a que a gente chega são médias estatísticas exatamente da mesma classe das que ocorreriam por acaso. Há, como todos nós sabemos, uma lei segundo a qual, no jogo de dados, só obteremos dois seis apenas uma vez em cada cerca de trinta e seis lances, e não encaramos tal fato como uma prova de que a queda dos dados é regulada por um desígnio; se, pelo contrário, os dois seis saíssem todas as vezes, deveríamos pensar que havia um desígnio. As leis da natureza são dessa espécie, quanto ao que se refere a muitíssimas delas. São médias estatísticas como as que surgiriam das leis do acaso — e isso torna todo este assunto das leis naturais muito menos impressionante do que em outros tempos.” Por um lado, ele diz que o mundo pode ser eterno, de outro lado, ele diz que não há leis naturais fixas, que tudo está em constante transformação e que o máximo que nós conseguimos obter são médias estatísticas do mesmo tipo que obteríamos se fosse tudo um acaso. Ora, a idéia de que não há leis naturais fixas e imutáveis invalida automaticamente a eternidade do mundo. Se tudo o que está no mundo está sujeito a transformações, não há nenhum motivo para supor que o mundo como um todo também não o esteja. Então não tem sentido você ao mesmo tempo proclamar a eternidade do mundo e dizer que nada dentro do mundo é regulado por leis fixas, você tem de escolher uma coisa ou a outra: ou existem leis eternas, ou o mundo não é eterno. Se não há leis constitutivas do mundo, a própria palavra “mundo” perde todo sentido. Se é uma coisa que está em plena transformação e que não se define de uma vez por todas por leis, então essa coisa não tem identidade fixa, é apenas um conjunto de aparências. Isto aqui é uma implicação que qualquer estudante deve perceber na primeira, agora como é que o grande lógico do século não percebe uma coisa dessa? Depois, se não há leis fixas que regem o universo, então das duas uma: ou ele não é regido por absolutamente nada, há apenas constantes estatísticas mais ou menos acidentais, então ele não é regido por absolutamente nada; ou ele é regido por uma vontade livre que o transcende. Não tem uma terceira possibilidade. Nós só temos: ou existem leis fixas que regem o conjunto da natureza, ou não tem lei nenhuma, é tudo um caos e há apenas coincidências estatísticas, ou, terceiro, há uma vontade livre e soberana que dirige tudo. Eu não vejo uma outra saída além dessas. Esta implicação, este problema, ele deveria perceber na primeira. Como é que não percebe? Então você vê que uma coisa é você escrever um tratado de lógica, outra coisa é você raciocinar logicamente sobre coisas que existem. Porque a lógica inteira, que ele identifica com a matemática — matemática e lógica para ele são a mesma coisa, e acho que nisso ele tem razão; e esta aliás foi a grande obra dele: a redução da matemática à lógica —. Enquanto ele está lidando com esse campo, ele está lidando apenas com esquemas de possibilidades. A lógica inteira não diz respeito à realidade nenhuma, só diz respeito a possibilidades. Enquanto está lidando com as possibilidades vazias, ele vai muito bem. Na hora em que tenta tratar algum assunto concreto que vem da experiência, dá nisto. E veremos que esse é um traço de personalidade que é comum a muitos filósofos de nossa época: quando estão no setor da pura lógica matemática, são muito inteligentes; quando passam para analisar qualquer assunto que tenha vínculo com a experiência, o Q.I. imediatamente baixa e começam a produzir essas coisas. Só que, qual é o efeito social dessa coisa? A autoridade que o sujeito conseguiu no campo da lógica-matemática se transfere para este campo e ele pode opinar nessas áreas onde ele não entende nada, ele não enxerga um palmo diante do nariz, com a mesma autoridade, a mesma segurança com que opinava no campo da lógica-matemática. Portanto, isso é uma transferência indevida de competência. Na verdade é charlatanismo, que dizer, você adquire competência num campo e depois começa a opinar num outro completamente diferente para o qual você não tem o mínimo preparo nem o mínimo discernimento. E, as pessoas, baseado no temor referencial que os seus trabalhos de lógica lhes imprimiram, aceitam e não percebem esses erros grotescos de lógica que o homem está cometendo aqui que, note bem, não são erros de dedução lógica, são erros já na concepção da coisa. Quer dizer, ele não sabe do que ele está falando. Quando ele usa a palavra “mundo”, por exemplo, esta palavra tem um sentido enormemente elástico e tem implicações óbvias que ele não percebe, e que constituiriam outros tantos problemas que ele teria obrigação de esclarecer. E não adianta você dizer que isso é apenas um ensaio casual, ele pode esclarecer isso melhor em outro lugar. Não, ele não pode esclarecer isso melhor, ele pode num outro lugar impugnar esse argumento e usar outro, isto pode fazer. Mas, uma idéia que é idiota na sua base não pode ser melhorada mediante uma exposição mais detalhada. Quer dizer, aí não é um erro de detalhamento, um erro de detalhe, um erro parcial, mas um erro que está nos conceitos mesmos que ele está usando, isto é, os conceitos são absurdos e são autocontraditórios. Não é que as conclusões que ele tira são contraditórias, o próprio conceito de mundo e o conceito de eternidade que está usando são autocontraditórias. Aí prossegue ele: “Inteiramente à parte disso, que representa um estado momentâneo da ciência que poderá mudar amanhã, toda a idéia de que as leis naturais subentendem um legislador é devida à confusão entre as leis naturais e as humanas. As leis humanas são ordens para que procedamos de certa maneira, permitindo-nos escolher se procedemos ou não da maneira indicada; mas as leis naturais são uma descrição de como as coisas de fato procedem e, não sendo senão uma mera descrição do que elas de fato fazem, não se pode arguir que deve haver alguém que lhes disse para que assim agissem, (...)” Um momento. As leis naturais são descrições de como as coisas de fato agem? Ou elas são meras convenções humanas, meras conveniências de cálculo nosso como ele acabou de dizer? [0:30] Se você segue aqui a famosa escola convencionalista, que tinha muito prestígio no começo do século, representada por Pierre Duhem, por Edouard Le Roy e pelo próprio Henri Poincaré que o Bertrand Russell certamente leu, então isto quer dizer que todas as leis científicas realmente não passam de convenções, convenções que nós criamos para facilitar a nossa manipulação dos dados. Mas ele ostensivamente adere a esta escola convencionalista quando ele diz que “muitas coisas que considerávamos como leis naturais não passam, na verdade, de convenções humanas”. Então não tem sentido você dizer que elas são convenções humanas e que, por outro lado, elas são uma descrição de como as coisas realmente são ou de como elas realmente procedem. Aqui há um problema. E como o sujeito pode não perceber que há um problema? E mais ainda: quando ele reconhece que a ciência está neste estado, mas ela pode mudar amanhã, então, além da convencionalista, você tem a mutabilidade. Ou seja, nós não podemos dizer que essas conclusões científicas descrevem o que as coisas realmente fazem, primeiro, porque elas são convencionais, segundo, porque a nossa opinião pode mudar amanhã. Quer dizer, é claro que há um problema aqui. E como é que o sujeito não percebe o problema? Se ele dissesse “estou dando aqui uma demonstração, mas ela é altamente problemática, isto precisa ser estudado melhor etc.”... Mas não, ele está dando problema como inteiramente resolvido! E com um senso de superioridade de quem acabou com o adversário com uma cuspida. “As leis humanas são ordens para que procedamos de certa maneira, (...); mas as leis naturais são uma descrição de como as coisas de fato procedem e, [portanto], (...) não se pode arguir que alguém que lhes disse para que assim agissem, (...)” Isto que dizer, primeiro, ele nega a existência de leis naturais estáveis e até de leis naturais objetivas, e depois apela à autoridade delas para dizer que elas valem por si e que não é necessário ninguém ter determinado que elas fossem assim. Digo: de fato não sabemos, mas, o que eu sei é que não é possível as leis naturais serem ao mesmo tempo uma expressão do que as coisas realmente fazem e serem apenas uma convenção humana mutável. Isto aí não é possível. Daí prossegue ele: “(...) porque, mesmo supondo-se que houvesse [um legislador], estaríamos diante da pergunta: ‘Por que Deus lançou justamente essas leis naturais e não outras?’ Se dissermos que Ele o fez a Seu próprio bel-prazer, e sem qualquer razão para tal, verificaremos, então, que há algo que não está sujeito à lei e, desse modo, se interrompe a nossa cadeia de leis naturais.” Isto quer dizer... Ele diz que ou o próprio Deus está sujeito à lei — então há algo que está acima dele —, ou então Ele faz as coisas a seu bel-prazer e, portanto, tem algo que está fora da lei. Mas um momento: ele estava falando de leis naturais, leis que imperam sobre a natureza, não que imperam sobre o próprio Deus. Ele evidentemente está confundindo o que são as leis naturais, as leis que imperam sobre o cosmos criado, e o que são as leis constitutivas do próprio Deus. Por exemplo, o poder de Deus é ilimitado? Eu digo, sim, ele só é limitado por uma coisa: pela contradição. Por exemplo, Deus não pode criar um outro Deus igual a Ele. Isso é uma exigência do quê? Do princípio de identidade. Então, toda a legislação interna constitutiva do próprio Deus é derivação imediata do princípio de identidade, não do princípio de causalidade. E ele está confundindo as coisas aqui, achando que, se existem leis que imperam sobre a natureza, o próprio Deus tem de estar submetido a essas leis. Porém, se Ele estivesse submetido a essas leis, Ele não poderia ser exatamente o que Ele é. Então aí você tem novamente uma contradição, quer dizer, uma confusão entre o que é identidade de Deus, e esta identidade evidentemente é regida pelas leis da contradição, e as leis que imperam sobre a natureza onde já entra causalidade, quantidade etc. Por exemplo, as leis da quantidade não se aplicam a Deus. Henry Corbin até dizia que a nossa noção de quantidade é baseada no 1+1+1+1+1, mas, quando você vai falar da eternidade, é outra matemática que é regida pelo 1 x 1 x 1 x 1 x 1. A noção de identidade eterna ele não consegue apreender como uma coisa distinta das leis da natureza, ele acha que ou Deus está submetido às próprias leis da natureza e, portanto, Ele não pode ser autoridade suprema porque Ele também está submetido a leis, ou então se Ele decidiu algo por sua própria livre vontade, então existem coisas que não obedecem às leis. Ora, mas é evidentemente uma contradição você querer que o princípio fundador de uma série seja também uma conseqüência dessa série. Ou seja, você quer que a premissa de um raciocínio seja também uma conclusão desse raciocínio. Também aqui há um erro de lógica evidente. Está na cara que ele não consegue de maneira alguma conceber a diferença entre a identidade de Deus e as leis da natureza. “Se dissermos, como o fazem os teólogos mais ortodoxos, que em todas as leis feitas por Deus Ele tinha uma razão para dar tais leis em lugar de outras — sendo que a razão, naturalmente, seria a de criar o melhor universo, embora a gente jamais pensasse nisso ao ver o mundo —, se havia uma razão para as leis ministradas por Deus, então o próprio Deus estava sujeito à lei, por conseguinte, não há nenhuma vantagem em se apresentar um Deus como intermediário.” Ora, a coisa mais fácil é você entender que, a partir da identidade de Deus, inúmeros universos poderiam ter sidos criados. Se você define Deus como onipotente e como identidade eterna, então ele não pode estar sujeito a nada que restrinja essa identidade dentro do campo da sua criação. A idéia de que Deus só pode criar um universo assim e assado se Ele próprio estiver regido por essas leis, é autocontraditório porque se Ele está regido por essas leis, Ele é um dos entes criados. E se Ele é um dos entes criados, Ele está limitado pelas leis da natureza, e não há nenhuma lei da natureza que determine que algum ser dentro dela possa criar um universo. Então tudo isso é totalmente autocontraditório e profundamente boboca. “Temos aí realmente uma lei exterior e anterior aos editos divinos, e Deus não serve então ao nosso propósito, pois que Ele não é o legislador supremo.” Vamos chamar de leis divinas aquelas que constituem o próprio Deus. Se você pensar que Jesus Cristo é o Logos divino, a inteligência de Deus, então significa que a estrutura inteira da possibilidade universal está ali contida de maneira inteiramente coerente, mas sem limites. A partir do momento que há uma criação, a criação é esta e não aquela, quer dizer que este universo e não aquele, então o desenvolvimento subseqüente das coisas já está limitado pelos princípios fundantes que foram impostos desde a fundação. E, portanto, eles não têm nada a ver com as leis constitutivas internas do próprio Deus, ou seja, com a inteligência divina, com o Logos divino ou a possibilidade universal. A coisa mais clara do mundo é que o nosso universo não é regido pela possibilidade universal apenas, mas por um conjunto definido e limitado de leis e possibilidades dentro do conjunto da possibilidade universal. A noção de possibilidade universal ele nem pega. É claro que as leis eternas, as leis do Logos divino, são coextensivas com o próprio Deus e são imutáveis, mas as leis que constituem este universo não o são porque este é um universo, e não dois ou três ou quatro. Também existe outra coisa. Ele diz que ou existe uma lei exterior que determina o próprio Deus, e neste caso Deus seria apenas um intermediário entre a lei e o mundo, ou então Deus faz as coisas do jeito que quer [0:40] e não há lei nenhuma e, portanto, a noção de leis universais não vale. Ora, ele usa a expressão “a lei e os editos”, ou seja, as decisões de Deus. Ora, é evidente que qualquer decisão de Deus relativa a um ente que existe no tempo só pode ser tomada no tempo, portanto, ela não é uma decisão eterna. A autoconstituição de Deus é evidentemente tida como eterna, mas as decisões que Ele toma com relação a mim, ou a você, ou a um determinado planeta, só podem ser tomadas durante a existência temporal desses entes — é a coisa mais óbvia. Portanto, o próprio fato de ele usar duas palavras, as leis e as decisões, já deveria esclarecer para ele que as decisões não são leis ou que são leis de menor abrangência ou de menor duração. Por exemplo, Deus, quando criou todas as criaturas, já pode ter predeterminado a duração de todas elas. Mas o próprio Deus não poderia colocar a decisão de extinguir tal ou qual criatura desde o início, Ele não pode ter decidido isto desde o início, Ele não pode colocar essa lei em ação a qualquer momento, senão eu teria morrido antes de morrer. Quer dizer, se Deus determinou que S. Fulano durará tantos anos, pode ser Matusalém, durará 1.120 anos, um dia ele terá de morrer: a decisão já está tomada de antemão. Mas ela pode ser posta em execução no mesmo momento? Não, ela terá de esperar que Matusalém viva os 1.120 anos. Portanto, é absurdo esperar que essa segunda decisão determine a lei, que é o que ele está fazendo. Estão percebendo? Outra coisa: ele não consegue conceber leis que sejam inerentes à própria natureza do sujeito considerado. Ele só concebe lei como uma força externa que se impõe a ela. Quer dizer, Deus está obrigado pelas suas leis constitutivas? Está. Mas não pode estar obrigado pelas leis que ele impôs à criação natural, porque senão Ele próprio seria um ente criado. E isto seria automaticamente contraditório com o seu estatuto de Deus criador. Nós temos um problema teológico aí? Temos. Mas ele nem mesmo percebe. Se você aplicar isso mutatis mutandis ao ser humano, é a mesma coisa que dizer que para ser livre o sujeito não precisaria ter nenhuma lei autoconstitutiva, então ele teria de ser totalmente indeterminado. Ora, você confundir a liberdade com a indeterminação é o fim da picada porque, para eu tomar uma decisão livre, eu preciso ser alguma coisa, portanto, eu tenho uma lei constitutiva que é minha. E quando eu ajo de acordo com a minha lei, eu estou sendo livre; quando eu ajo de acordo com uma lei que me vem imposta de fora, eu sou escravo. Agora, ele está dizendo que para ser livre, eu precisaria não ter nenhuma lei constitutiva, ou seja, eu precisaria ser um nada. Isto é uma coisa tão, tão, tão absurda que se eu estivesse presente nesta conferência, eu levantava neste momento, dizia um palavrão e dizia “vai para casa estudar, vagabundo!”, porque é uma coisa de tão baixo nível, tão idiota. Claro que houve gente que discutiu Bertrand Russell, mas eu tenho a impressão de que ninguém ousou perceber a burrice praticamente ilimitada dessas linhas, desses argumentos, que são inaceitáveis na base, inaceitáveis num trabalho de ginásio. E o sujeito vem com essas coisas, impõe e as pessoas ouvem. E isto continua sendo reproduzido e lido até hoje. Tem até um site de ateístas que reproduz isso aqui como se fosse um manifesto. Ou seja, evidentemente essas pessoas não pensam no que estão lendo, elas não lêem o texto, ou se lêem, não são capazes de meditar sobre o sentido dos conceitos usados. Quer dizer, você dizer que, se um sujeito está submetido a alguma lei, ele não é livre, é negar a existência de leis constitutivas. E se não tem nenhuma lei constitutiva, então não tem nenhuma definição do ser, então ele é um nada. Então, quer dizer, para ser livre seria preciso não existir. Este raciocínio se aplica aos seres humanos como se aplica a Deus, quer dizer, se Deus tem alguma lei, Ele não é livre, então a lei impera sobre Ele. Eu falo: não, a lei constitutiva é inerente ao indivíduo. A liberdade consiste não em você não ter lei alguma que o determine, mas em agir de acordo com a sua natureza, e não agir por uma lei externa que lhe é imposta. Quer dizer, não consiste em não ter natureza. Eu pergunto: que lógica estudou esse cara? Eu digo o seguinte: ele nunca estudou lógica, ele estudou só matemática. E você sabe que matemática é um negócio prodigioso, mas não tem assunto, está falando sempre sobre o nada, só sobre possibilidades. Na hora em que você arruma um assunto, você não entende nada dele e começa a fazer essas bobagens. Agora, essas bobagens que esse homem faz foram muito além disso. E essas bobagens são aceitas até hoje por gente muito poderosa. Toda essa elite globalista são todos discípulos de Bertrand Russell. Daí ele diz o argumento teleológico, o argumento do design inteligente. Ele diz: “Tudo no mundo é feito justamente de modo a que possamos nele viver, e se ele fosse, algum dia, um pouco diferente, não conseguiríamos viver nele. Eis aí o argumento da prova teleológica de Deus. (...) É um argumento fácil de se parodiar. Todos vós conheceis a observação de Voltaire, de que o nariz foi, evidentemente, destinado ao uso dos óculos. Essa espécie de gracejo terminou por não estar tão fora do alvo como poderia ter parecido no século XVIII, pois que, desde o tempo de Darwin, compreendemos muito melhor por que os seres vivos são adaptados ao meio em que vivem. Não é o seu meio que se foi ajustando aos mesmos, mas eles é que foram se ajustando ao meio, e isso é que constitui a base da adaptação. Não há nisso prova alguma de desígnio divino.” Primeiro lugar, isso não é bem assim, porque o meio também muda, e os seres também interferem mudando o seu ambiente — se não fosse isto, não existiria a ecologia. Então não é que é assim: existe um meio e os seres se adaptam a este meio. Não, existe uma dialética, uma interação. “Quando se chega a analisar o argumento teleológico da prova da existência de Deus, é sumamente surpreendente que as pessoas possam acreditar que este mundo, com todas as coisas que nele existem, com todos os seus defeitos, deva ser o melhor mundo que a onipotência e a onisciência tenham podido produzir em milhões de anos. Realmente não posso acreditar nisso. Achais, acaso, que, se vos fossem concedidas onipotência e onisciência, além de milhões de anos para que pudésseis aperfeiçoar o vosso mundo, não teríeis podido produzir nada melhor do que a Ku Klux Klan ou os fascistas? Realmente, não me impressiono muito com as pessoas que dizem: (...) Não estou muito impressionado pelo esplendor dessas pessoas.” Então, em primeiro lugar, a idéia de que este é o melhor dos mundos possíveis, esta idéia foi enunciada não pela Igreja Católica, não faz parte da doutrina da Igreja, mas é uma idéia de Leibniz no século XVII. Mais ainda: quando Leibniz expôs essa idéia, ele se referia ao mundo anterior à Queda, não a este mundo que está existindo agora — isto é a coisa mais óbvia do mundo. Quer dizer, “quando Deus fez o mundo, Ele viu que era bom”, então ele se refere ao período anterior à Queda. Com a queda de Adão, todo o mundo fica corrompido, não é só o ser humano. Portanto, o mundo que nós conhecemos não é este mundo perfeito e, eu creio que, nem o Cristianismo nem nenhuma outra religião jamais afirmou isso. Quer dizer, de onde ele tirou essa idéia? Então evidentemente ele está inventando uma religião que não existe que diz que o mundo é perfeito e, em seguida, ele a derruba. Isso é o que se chama, em Retórica, o homem de palha, ou o espantalho: você constrói um espantalho, dá um soco e diz que ganhou a briga. Você está ganhando a briga contra um adversário que você mesmo inventou à altura e à medida da sua inteligência, e não da inteligência dos outros. “Ademais, se aceitais as leis ordinárias da ciência, tereis de supor que não só a vida humana como a vida em geral neste planeta se extinguirão em seu devido curso: isso constitui uma fase da decadência do sistema solar. Em certa fase de decadência, teremos a espécie de condições de temperatura etc., adequadas ao protoplasma, e haverá vida, durante breve tempo, no sistema solar. Podeis ver na Lua a espécie de coisa a que a Terra tende: algo morto, frio e inanimado.” Ora, um momento: se você aceita a extinção da vida neste planeta, e até a extinção [0:50] de planetas, astros e galáxias, não faz sentido, por outro lado, você proclamar a eternidade do universo. Quer dizer que se os entes dentro desse universo estão sujeitos à sua extinção, como é que você pode garantir que o conjunto também não está? Daí recairíamos naquele argumento de que o mundo não é regido pelas leis da natureza, o mundo não está sujeito às leis da natureza que determinam a extinção de vários entes, mas ele tem um poder transcendente, ele tem uma qualidade transcendente. Então o mundo é o que nós chamaríamos de Deus. Agora vamos entrar num outro aspecto muito curioso. Ele diz: “Dizem-me que tal opinião é depressiva e, às vezes, há pessoas que nos confessam que, se acreditassem nisso, não poderiam continuar vivendo. Não acrediteis nisso, pois não passa de tolice. Na verdade, ninguém se preocupa muito com o que irá acontecer daqui a milhões de anos. Mesmo que pensem que estão se preocupando muito com isso, não estão, na realidade, fazendo outra coisa senão enganar a si próprias. Estão preocupadas com algo muito mais mundano — talvez com a sua má digestão. Na verdade, ninguém se torna realmente infeliz ante a idéia de algo que irá acontecer a este mundo daqui a milhões e milhões de anos. Por conseguinte, embora seja melancólico supor-se que a vida irá se extinguir (...) isso não é coisa que torne a vida miserável. Faz apenas com que a gente volte a atenção para outras coisas.” Note bem: se estudarmos outros textos de Bertrand Russell, nós veremos que a despreocupação dele com a extinção da humanidade não tem nada a ver com o fato de que ela se dará num futuro remoto. Seja num futuro remoto, seja amanhã, essa extinção não o preocupa no mais mínimo que seja. E isto está bem documentado em outras que ele escreveu que eu vou pedir para o Alessandro traduzir aqui para vocês. Estes textos estão em dois livros, A Perspectiva Científica e O Impacto da Ciência na Sociedade, não fazem parte deste texto aqui. “Mas tempos ruins, você pode dizer, são excepcionais e podem ser tratados ou lidados através de métodos excepcionais. Isto foi mais ou menos verdade durante o período da lua de mel do industrialismo, mas não permanecerá verdadeiro a menos que o aumento da população possa ser enormemente diminuído. No momento presente, a população do mundo está aumentando ao passo de cerca de 158 mil pessoas por dia. A guerra até agora não tem surtido nenhum grande efeito neste aumento, que continuou através de cada uma das guerras mundiais. A guerra até agora tem sido bastante decepcionante a esse respeito, (...)” Ou seja, a guerra decepciona porque ela não extingue o número de pessoas que seria necessário extinguir. “(...) mas talvez a guerra bacteriológica prove ser mais efetiva.” A guerra não é um instrumento suficientemente eficaz para o controle da população, mas talvez a guerra bacteriológica possa nos dar melhores esperanças. “Se uma peste negra pudesse se espalhar por todo mundo uma vez em cada geração, os sobreviventes poderiam procriar livremente sem tornar o mundo tão lotado. O estado de coisas poderia ser um tanto desagradável, mas qual é o problema com isso? Pessoas com altas preocupações são indiferentes à felicidade, especialmente a felicidade das outras pessoas.” High-minded people, quer dizer, as pessoas especiais, pessoas de alto gabarito não se preocupam muito com a felicidade, especialmente com a felicidade dos outros. De onde ele tirou isso? Que preceito moral é esse que quanto mais elevada é a sua mente, quanto mais elevado o seu nível intelectual e moral, menos você se preocupa com a felicidade, especialmente a dos outros? Vocês vejam que tem algo de errado na cabeça desse sujeito. Para dizer o mínimo, isso é mentalidade psicopática. O sujeito que encara a extinção de milhões e milhões de pessoas como uma simples providência técnica a ser tomada, certamente não é uma pessoa normal. Agora, qual é a relação entre essa anormalidade moral e a lógica dele? Nós veremos mais adiante. “Está inteiramente claro que há apenas uma única maneira pela qual as grandes guerras podem ser permanentemente evitadas. E esta maneira é o estabelecimento de um governo internacional dotado do monopólio de uma força armada poderosa. Um governo internacional, se este governo deve ter a capacidade de preservar a paz, deve possuir as únicas bombas atômicas, as únicas fábricas para produzi-las, a única força aérea, os únicos navios de guerra e, de maneira geral, o que quer que seja necessário para tornar-se o governo invencível. A autoridade internacional deve ter o monopólio do urânio e de qualquer outra matéria-prima que no futuro, por ventura, venha a ser determinada como sendo adequada para manufatura de bombas atômicas. Este governo deve ter um grande exército de inspetores, que deve ter o direito de entrar em qualquer fábrica sem notícia prévia. Qualquer tentativa para interferir com os inspetores ou qualquer tentativa de obstruir o trabalho deles deve ser tratada como caso de motivo de guerra. O governo internacional terá de decidir todas as disputas entre as nações diferentes e terá de possuir o direito de revisar os tratados.” Ou seja, as nações não terão mais o direito de estabelecer livremente tratados entre si, o governo internacional decide se os tratados são válidos ou não. “Este governo deverá ser limitado pela sua constituição para intervir pelo meio de uso das armas contra qualquer nação que se recusar a se submeter à moderação do governo internacional. Dado o monopólio da força armada por parte do governo internacional, tal intervenção será raramente necessária e terá um sucesso rápido. Nas áreas em questão, nós temos de impor [1:00] uma política populacional deliberadamente negativa.” Chegamos ao ponto. A preocupação do controle populacional é constante da família Rockfeller, quer dizer, dos fundadores da Comissão Trilateral, do CFR, que são os verdadeiros centros de expansão do globalismo desde o começo do século XX. E o que o Bertrand Russell está falando aqui é exatamente a linha-mestra da política deles: nós temos de controlar a população de qualquer jeito; se não conseguirmos fazê-lo através de guerras, nem mesmo através de guerra bacteriológica, nós temos de criar um governo internacional com poderes ditatoriais sobre todo o planeta e que imponha uma política populacional negativa, a diminuição da população. “Com campanhas de propaganda, especialmente na imprensa, no rádio, no cinema, nos panfletos, nos livretos de propaganda, nas apresentações educacionais e coisas do mesmo tipo, a população deve ser induzida ao pensamento de quão prejudicial é ter muitos filhos. Nós devemos apontar para os custos que estão envolvidos em ter filhos, e deveria ser também destacado o que poderia ser comprado com o dinheiro que se usaria para criar os filhos.” Ensinar as pessoas: “Tenham menos filhos porque daí você pode comprar mais isso e mais aquilo e mais aquilo outro.” “Os grandes perigos para a saúde das mulheres que podem surgir de nascimentos também podem ser indicados, e coisas do mesmo tipo.” É curioso que ele diz que ter filhos é muito perigoso para as mulheres, há muitos perigos. Bom, as mulheres estão tendo filhos desde o começo do mundo e a população não cessou de aumentar, o que prova que não é tão perigoso assim. Agora, os perigos inerentes ao controle populacional, ao aborto, à pílula anticoncepcional etc., ele nem pensa evidentemente. E nós vemos que esses perigos são monstruosos, sobretudo quando se espalhou a pílula anticoncepcional, começou a nascer gente deformada para tudo quanto é lado. É fácil ter essas idéias. Você veja que o indivíduo assume o papel de governante do mundo, com a maior facilidade, sem a menor preocupação: vocês devem fazer isto, mais aquilo, mais aquilo, mais aquilo, tem de mudar isso, mais aquilo e mais aquilo. E ao mesmo tempo se mostra incapaz de analisar uma questão não posso dizer elementar, mas tão simples e tão antiga quanto esta dos argumentos pró e contra a existência de Deus. “Além desta propaganda, uma generosa propaganda em favor dos meios de controle de natalidade deve ser espalhada ou divulgada. Uma indústria especializada em tais meios de controle deve ser criada. Nem a aprovação ou a disseminação de meios de controle de natalidade deveriam ser puníveis, nem o aborto deveria ser punível. Nós devemos absolutamente promover o estabelecimento de institutos de aborto. Parteiras e médicos podem ser treinados para executar abortos. Quanto mais profissionalmente forem executados, mais a população terá mais confiança a este respeito. Também se deve permitir que médicos façam abortos sem que uma violação do juramento médico venha a ser questionada. A esterilização voluntária também deve ser promovida. A mortalidade infantil não deve ser combatida.” Prestem atenção: não se deve combater a mortalidade infantil. “As mães não devem ser instruídas a respeito do cuidado em relação às crianças ou em relação a doenças infantis.” Ou seja, não se deve ajudar às mães a cuidar dos seus filhos quando ficam doentes, devem deixar morrer. “Uma vez que nós tenhamos convertido a massa da população à idéia de um sistema de uma ou duas crianças, nós teremos alcançado o objetivo ao qual almejamos.” Vocês vejam que todos esses projetos que Russell apresentava entre os anos 20-30, todos eles se tornaram realidade, não com a abrangência desejada. Ainda isso não está implantado em todo mundo, por exemplo, todo o mundo islâmico não segue essas coisas, em outros países há uma resistência bastante séria a isto. Mas, oficialmente todos esses planos já estão implantados. Agora vocês entendem de onde surgiu o prestígio de Bertrand Russell: não foi por sua obra filosófica, mas foi por ser o grande doutrinário da elite globalista. E quem essa elite globalista decide promover logo, logo é aceito como gênio pelo mundo inteiro, embora não seja gênio de maneira nenhuma. Fora do domínio estrito da lógica-matemática, é uma besta quadrada, para dizer a verdade. Em seguida ele vai dizer as suas concepções educacionais: “De maneira similar, os governantes científicos proverão um tipo de educação para os homens e mulheres comuns e um outro tipo para aqueles que deverão se tornar os detentores do poder científico. Espera-se que homens e mulheres comuns sejam dóceis, trabalhadores, industriosos, pontuais e sem que pensem muito e estejam contentes. Dessas qualidades, provavelmente o contentamento será considerada a mais importante, e para produzi-lo todas as pesquisas da psicanálise e do behaviorismo, da bioquímica deverão ser utilizadas. Todos os meninos e meninas aprenderão de uma idade tenra o que é ser chamado de cooperativo, ou seja, o que é fazer exatamente o que todo mundo está fazendo. A iniciativa será desencorajada nessas crianças. E se os educará de maneira que a insubordinação seja cientificamente removida deles.” Agora vocês comparem esse programa com o que está descrito no livro do Pascal Bernardin Maquiavel, Pedagogo. Vocês verão que no tempo transcorrido desde essas conferências até hoje, todas essas idéias foram transmutadas em técnicas operativas que já estão sendo adotadas mundialmente. O Pascal Bernardin demonstra ali que o sistema mundial [1:10] de educação não se destina a educar ninguém, mas a adestrar para certas condutas que são exatamente essas que estão aqui: todo mundo deve ser igual a todo mundo, deve estar contente, não reclamar, não pensar muito. Isto é exatamente o que está sendo aplicado hoje em dia no mundo inteiro. “Russell, no entanto, adicionou uma advertência bastante forte. Naquelas ocasiões raras ele advertiu: quando um menino ou uma menina, que já passou a idade na qual é comum determinar o seu status social, mostrar uma habilidade tão destacada que parece uma habilidade intelectual igual ao dos governantes, uma situação difícil surgirá, requerendo um sério tratamento e consideração. Se um jovem se contentar em abandonar os seus amigos anteriores e de todo coração compartilhar a sua fortuna com a fortuna dos governantes, ele pode depois de testes adequados ser promovido. Mas se ele mostrar alguma lamentável solidariedade com os seus companheiros anteriores, os governantes terão de concluir relutantemente que não há nada a ser feito com ele, senão mandá-lo à câmara de execução antes que a sua inteligência indisciplinada tenha tempo de espalhar revolta. Isso será um dever até doloroso para os governantes, mas eu acho que eles não vão se furtar [a fazê-lo].” Vocês vejam a concepção educacional. Quer dizer, se por acaso o sistema de uniformização das mentes falha num caso ou outro, e um rapaz ou moça mostra uma inteligência superior ao dos seus amigos, ele deve ser retirado desse meio e deve integrar a classe governante. Porém, se ele ainda sentir alguma identificação, alguma simpatia, alguma compaixão pelos seus antigos companheiros, pelo seu meio de origem, então será preciso mandá-lo para a câmara de gás, ou para a forca, ou para cadeira elétrica para que ele não se torne uma semente de revolta. Qual é a diferença entre esse sujeito e Joseph Stalin? A diferença é muito simples: Stalin tinha os meios diretos de implantar essas coisas e ele tinha de contar com a colaboração de toda uma coletividade de gente influente para que isso fosse sendo implantado no mundo aos poucos. Ou seja, a diferença entre o socialismo bolchevista e o socialismo fabiano, que é exatamente esta concepção. Você veja a facilidade com que ele fala da extinção de milhões e milhões de pessoas, de deixar deliberadamente ao desamparo as crianças doentes, em sonegar socorro aos recém-nascidos frágeis etc. mostra que a despreocupação dele com a extinção da humanidade não tem nada a ver com o longo prazo, ele diz: “Eu não me preocupo que isso vai acontecer daqui a milhões de anos”. Com a humanidade presente ele não está preocupado nem um pouco por quê? Porque as pessoas superiores não ligam muito para a felicidade dos outros. Precisa mais para caracterizar cientificamente um psicopata? Não precisa de maneira alguma, o homem é evidentemente um psicopata. Agora, qual é a relação disso com a parte mais propriamente filosófica da obra dele? Isto é o que nós veremos no livro Lógica e Conhecimento, que é um livro da década de 20, salvo engano, no qual ele expõe o programa filosófico que ele deveria desenvolver daí por diante. Agora tem este último texto, “Fact and Proposition”: It is rather curious fact… “É um fato bastante curioso em filosofia que os dados que são inegáveis e com os quais devemos começar são sempre bastante vagos e ambíguos. Você pode, por exemplo, dizer ‘Há um certo número de pessoas nesta sala neste momento’. Isto é obviamente em algum sentido inegável, mas quando você chega ao ponto de tentar e definir o que significa o que é esta sala, e o que significa para uma pessoa estar numa sala, e como você vai distinguir uma pessoa de outra e assim por diante, você descobrirá que o que você disse é vago de uma maneira mais temível e que você realmente não sabe o que você quis dizer. Que isto é um fato bastante singular, que tudo que você realmente tem certeza é algo cujo significado você realmente não conhece, e que o momento em que você obtém uma sentença precisa você não terá certeza se essa sentença é verdadeira ou não ao menos no primeiro momento. O processo de filosofar de maneira sensata, pelo menos para a minha mente, consiste principalmente em passar dessas coisas ambíguas, vagas e óbvias a respeito das quais nós temos muita certeza para algo preciso, claro, definido que, através de reflexão e análise, nós descobrimos que está implícito naquela coisa vaga com as quais nós começamos a nossa reflexão, e que é, por assim dizer, a real verdade da qual aquela coisa vaga é apenas uma espécie de sombra.” Nós já vimos que este indivíduo no aspecto moral e nas suas concepções sobre a humanidade é evidentemente um psicopata assassino dos mais perigosos, apenas sem os meios diretos de exercer as suas decisões, e tendo de persuadir um grupo poderoso a adotar essas medidas pouco a pouco, como de fato vêm sendo adotadas. Sem bem que não com o sucesso fácil que eles pensavam porque a idéia era ter esse governo mundial já implantado na década de 80 do século passado, e até hoje ele ainda está lutando e não vai muito bem das pernas, graças a Deus. [1:20] Mas, vejamos agora como o mesmo sintoma aparece nas concepções propriamente filosóficas dele. Ele disse que se você toma uma frase, como “Há um certo número de pessoas nessa sala”, isso lhe parece evidente no primeiro momento, mas se você perguntar o que é sala, o que é estar aqui e como eu defino a diferença entre uma pessoa e outra, você encontrará uma formulação muito mais precisa, porém, da qual você não terá certeza se é verdadeira ou não. De modo que todas as certezas imediatas que nós temos na experiência são uma sombra das verdades finais que nós obteremos quando nós tivermos esclarecido e precisado exatamente o sentido de cada uma das palavras que nós usamos. Então o que é isso? O próprio da linguagem humana é apoiar-se constitutivamente e permanentemente em dados não-lingüísticos. Por exemplo, quando você diz o nome de uma pessoa, você não precisa ter a definição completa daquela pessoa, você se lembra da convivência que você teve com ela e o conjunto de experiências que você teve e que perfilaram a figura dessa pessoa na sua memória, na verdade, este conjunto é inexpressável lingüisticamente, você não pode dispensá-lo. Se nós fôssemos substituir todo esse universo da experiência não-lingüística por definições perfeitas, nós teríamos uma linguagem que cobriria, envolveria e faria desaparecer todo o mundo da experiência por baixo de um conjunto de fórmulas da qual você não teria a menor certeza se é verdadeira ou não. Você acha que isso é um programa filosófico? Isto é evidentemente um projeto insano. Quer dizer, se você fizer com que todas as palavras se definam umas pelas outras da maneira a mais precisa possível, isso significa que você não precisará se apoiar nos dados não-lingüísticos — na percepção, na memória, nos sentimentos etc. — e você terá uma linguagem perfeita a qual dois computadores podem se comunicar, porque o computador não tem experiência pessoal, ele não tem experiência não-lingüística, tudo dele está envolvido na linguagem. Ou seja, à luz de tudo o que se sabe depois sobre a base não-verbal de toda comunicação verbal, isso aqui é uma loucura completa. Ou seja, o que ele quer dispensar é a necessidade do testemunho humano. Por exemplo, se eu digo que há certo número de pessoas nessa sala, é porque eu sou testemunha disto; mas se eu conseguir definir tudo perfeitamente, eu dispenso o testemunho humano, porque até a veracidade ou falsidade dessa sentença dependerá de critérios exclusivamente lógicos e, portanto, intralingüísticos. É claro que este projeto fracassou completamente. A idéia dele, quando ele fez Os Princípios da Matemática, era faz isso com toda a linguagem, quer dizer, nós vamos considerar primeiro a linguagem científica e elevá-la até a sua última precisão possível, e depois faremos o mesmo com a linguagem corrente. É incrível que alguém tenha levado isso a sério por um minuto. Foi preciso vir o Kurt Gödel e provar matematicamente que isso não é possível, e daí as pessoas se convenceram que não é possível. O que o Kurt Gödel demonstrou, em última instância, é o seguinte: se você pega um círculo e vai escrevendo um polígono dentro dele, e o polígono você aumentando cada vez mais o número de lados, você nunca vai alcançar o círculo, porque o círculo é construído por um princípio diferente do polígono. Ainda que pareça um polígono, não será um polígono. Portanto, a precisão total não existe e também a idéia da medição perfeita. A medição perfeita, nenhuma medição de uma linha pode acompanhar todos os pontos desta linha, você sempre terá de pular. São coisas óbvias, na verdade, mas que, quando o indivíduo substituiu a sua percepção direta das coisas por um raciocínio lógico-matemático, ele não se tornou mais inteligente, ele simplesmente tornou mais complicadas certas operações. Você já pensou o que aconteceria se cada vez que você diz uma coisa, você fosse obrigado a definir um por um não os termos-chave, não os termos de conceitos abstratos genéricos usados, mas todas as palavras usadas? É claro que isso torna impossível qualquer comunicação. E se fosse possível, cortaria todos os elos entre percepção e comunicação ou entre vida e pensamento. Então esta é a estrutura mental deste indivíduo. Ou seja, isso não é um grande filósofo, ele não é um filósofo de maneira alguma. Isso é um psicopata monstruoso que já deveria ter sido esquecido e jogado no lixo há muito tempo, mas que foi ouvido por outros psicopatas como ele que hoje estão fazendo tudo isso que esse homem concebeu. Eu dei esta aula porque um aluno, que eu gosto muito, me perguntou: “Mas o Bertrand Russell não é um grande filósofo, não resolve este problema?” Resolveu dois ou três problemas lógicos. Aliás, tem uma capacidade lógica enorme enquanto não está falando de realidades, enquanto ele está se atendo ao campo puramente lógico que é uma coisa que um computador também pode fazer. Então, é este tipo de pessoa desprovido de contato com a sua alma humana, desprovido de contato com a veracidade do seu testemunho interior e exterior, mas capacitado para criar grandes sistemas de argumentos, este tipo de pessoa é evidentemente psicopata, um tipo perigoso que deveria simplesmente ser excluído do nosso convívio e colocado para viver junto com outros iguais a ele dentro de uma prisão. Daqui a pouco voltamos. [Intervalo] Naturalmente eu vou ter de selecionar as perguntas, não vai dar para responder todas. Vou escolher meio a esmo aqui. Aluno: Eu gostaria de compreender melhor porque A República de Platão não é um projeto político. Assim pergunto: a partir de que elementos, eu posso distinguir com clareza a investigação platônica dessas monstruosidades à moda Russell? Olavo: Em primeiro lugar, todo o estilo da República é em modo irônico; em segundo lugar, é tudo em modo hipotético, quer dizer, em nenhum momento aparecem as coisas como propostas, mas como seria possível conceber; e, terceiro, a conclusão da República é que mesmo que você criasse o regime perfeito, ele acabaria sendo destruído pela fatalidade do ciclo das formas, onde ele coloca ali doze formas que se sucedem, e a coisa é de uma exatidão impressionante. Se a formação do Estado já está regida por ciclos que são fatais, então, por hipótese, a concepção do governo perfeito não existe, ela só pode ser compreendida num plano realmente de hipótese, não é uma coisa para ser realizada. Ao passo que aqui Russell não está falando como hipótese, ele está falando para um grupo de pessoas que tem os meios de realizar isso, e que estão de fato realizando. Aluno: Qual é o universo numérico dessa elite globalista? 10 mil, 100 mil? Olavo: Você pode começar por fazer a lista — aliás, esta lista já existe — dos membros da Comissão Trilateral, do Council on Foreign Relations, do Grupo Bilderberg etc. Você vai chegar aproximadamente numas trezentas famílias, não mais do que isso. Mas em volta deles existe um segundo escalão, que é o decisivo, constituído de assessores técnicos, intelectuais etc. Aí o negócio cresce muito. E você vê que no século XX a produção do prestígio nas esferas intelectuais foi, sobretudo, devido, não ao valor intrínseco, o valor acadêmico ou científico das obras, mas à relação de proximidade que tinha com esses círculos. Por exemplo, quando você toma um Arnold Toynbee, toda obra dele foi assessoria dada a essa gente e uma longa fundamentação da idéia de governo mundial. Cientificamente aquilo vale relativamente pouco. E os que tiverem dúvida, eu sugiro a leitura do livro do Ortega y Gasset, que é um curso que ele deu baseado no Toynbee, Una Interpretación de la Historia Universal, onde não sobra pedra sobre pedra das teorias do Toynbee. Aluno: Seria possível integrar a filosofia de Louis Lavelle e Xavier Zubiri, que estou lendo no momento, como conhecimento de si mesmo e apreensão da realidade? Se sim, como começar tal empreendimento? Olavo: Agora você me pegou! É claro que essa conciliação sempre é possível porque ela tem de ser feita desde um terceiro ponto de vista. [1:30] Quer dizer, não se trata tanto de fazer uma conciliação objetiva, dizer que o que sujeito está dizendo aqui concorda com o que o outro está dizendo lá — porque geralmente essas comparações são muito difíceis, as coisas são colocadas em planos diferentes, as perguntas que fazem são diferentes —, mas você pode criar uma terceira estrutura na qual possa integrar as duas. Quer dizer, a preocupação da concordância literal, concordância plana, não deve predominar sobre a idéia de você tirar proveito dos dois para o que seja a sua própria finalidade. Você veja que nem o próprio Santo Tomás de Aquino, quando decidiu conciliar Aristóteles com a doutrina católica, nem ele fez nesta base da concordância plana, mas inserindo ambas dentro de uma interpretação que as harmonizava para as finalidades do próprio Santo Tomás de Aquino. Isso é perfeitamente legítimo e acho que isso é o máximo que dá para fazer. Aluno: Considerando que a negação da existência de Deus resulta na entronização do mundo como realidade última, não poderíamos dizer que o ateísmo a rigor não existe, que a alternativa que se impõe é entre transcendência e imanência? Olavo: Nós vimos aqui na análise do texto do Russell que a palavra “mundo”, tal como ele a usa, tem um sentido transcendente: o mundo transcende o conjunto das coisas criadas e, portanto, guarda para com este uma relação que é similar à relação que existe entre Deus e a criação na doutrina bíblica. Você apagar completamente a transcendência é impossível, você só pode fazê-lo do ponto de vista metodológico onde você vai cair no agnosticismo. Quer dizer, nós não vamos considerar, não vamos examinar, nós não vamos pensar nisso, mas também nós não podemos negar a existência: isto é o máximo que você pode fazer. Mas é claro que as conseqüências disso ao longo prazo são terríveis, porque tudo aquilo que você coloca fora do seu campo de exame acaba ficando como se fosse inexistente. Então você passa da idéia de “não vamos examinar tal problema” para a conclusão de que “tal problema de fato não existe”, que é uma conclusão perfeitamente indevida. Mas isso é regra geral! No século XX praticamente todo mundo incorreu nisso de uma maneira ou de outra, quer dizer, todos os que aceitavam uma limitação metodológica acabaram por fazer dela uma conclusão ontológica. Aluno: Falando da onipotência de Deus, queria uma reflexão. Existem atos que Deus não poderia fazer, por exemplo, deixar de criar, auto aniquilar-se e amar? Olavo: Sim. Deus tem uma natureza, Ele é alguém, Ele não é um nada, Ele não é uma coisa totalmente indefinida, portanto, Ele tem as suas limitações intrínsecas. Extrínsecas, não tem, quer dizer, nada pode limitar o poder de Deus. Mas a sua própria natureza, por exemplo, quando se diz: “Deus é amor e Deus é eminentemente criador”, Ele não pode deixar de ser essas coisas, isso seria negar a sua própria constituição. Porém, isso não quer dizer que sejam leis limitativas que Lhe são impostas de fora, isto é a própria natureza. Ser livre é agir conforme a sua própria natureza, não significa que estaria indeterminado. Liberdade é uma coisa, indeterminação é outra. Aquilo que é totalmente indeterminado não existe de maneira alguma. É por isso que a famosa concepção do Rene Guénon do supra-ser, ou do não-ser, para mim, ela não faz nenhum sentido. Quer dizer, você não pode conceber que para acima do ser absoluto, eterno, onipotente exista uma outra coisa que o determine, isso seria absolutamente autocontraditório. Também a idéia de que tudo aquilo que é determinado tem de ser determinado por outro, daí você cai no recuo infinito, isso não faz sentido. Também, você veja outra contradição terrível no Russell, quando ele diz que se tudo tem uma causa, então Deus tem de ter uma causa. Mas, ora, a doutrina da onipotência não diz que tudo tem de ter uma causa, ao contrário: ela afirma taxativamente a necessidade de haver o incausado, ou seja, em vez de dizer que tudo tem uma causa, ela diz, não, nem tudo tem de ter uma causa — ela diz exatamente o contrário. Quer dizer, a necessidade de causa é limitada ao mundo criado. Então o que o Russell faz é inverter a proposição e em seguida fazer de conta que a derruba. Aluno: Poderíamos dizer que a autoridade do discurso lógico deriva da sua imitação na ordem do discurso da unidade metafísica, participando a seu próprio modo da autoridade divina? Olavo: Sim. Mas acontece que a lógica tal como a matemática é também uma técnica, e uma técnica tem possiblidades combinatórias internas que realmente não correspondem a nada, mas que só existem no plano daquela linguagem particular. Ou seja, assim como, por exemplo, você tomar a gramática de uma língua, ela permite milhares de combinações que não dizem absolutamente nada. Em princípio, qualquer palavra pode servir de sujeito de uma sentença qualquer. Isto quer dizer que gramaticalmente todas essas frases serão possíveis, mas elas não correspondem a nenhuma função objetiva da linguagem. A mesma coisa acontece em lógica e matemática. Mas acontece que o indivíduo, cuja formação é determinada pelo estudo dessas técnicas, acaba achando que essas possibilidades técnicas internas são o que há de mais importante no mundo porque são mais importantes para ele. Por exemplo, lembra daquela discussão sobre o Cantor? Se você encarar a teoria de Cantor do ponto de vista exclusivamente matemático, ela faz todo sentido porque é uma variante interna da própria técnica matemática. A possibilidade de você ter vários infinitos um dentro do outro, matematicamente isto é possível, mas ontologicamente não corresponde a absolutamente nada. Então você não pode [dizer] como esses imbecis que disseram que eu contestei a teoria do Cantor. Não, eu só mostrei que ela não pode ter um alcance ontológico. Mas se ela funciona matematicamente ou não, eu não sei, eu não seria nem capaz de julgar isso aí, mas ontologicamente não faz sentido. Aluno: O senhor poderia nos passar algum material contendo a lista dos patamares da filosofia? Olavo: Seria muito interessante. Eu entendi por patamar certos lances em que a consciência filosófica alcançou certas percepções, e você depois não tem o direito de estar abaixo daquilo, você tem de ir dali para adiante. Quer dizer, você não pode ficar remoendo problemas que já estão resolvidos e certezas óbvias que já foram alcançadas. Por exemplo, quando eu citei a descoberta do ápeiron, que tudo o que é limitado está dentro do ilimitado: depois que o sujeito percebeu isso, não tem jeito de você voltar atrás. Essa lista é importante, e eu vou fazer isso, mas não vou poder fazer agora, já, eu preciso pensar um pouco. Aluno: O senhor mencionou na aula 181 que um escritor competente tem habilidade de criar símbolos maximamente correspondentes a certa experiência vivida e que, por analogia, um outro indivíduo é capaz de compreender a tal experiência. Neste sentido, qual é a diferença entre a arte e a verdadeira filosofia? É correto dizer que a diferença estaria somente na forma do objeto criado? Olavo: Não. A diferença está também no nível de exame que você faz daquilo. A simples exteriorização, quer dizer, você ser capaz de tomar a experiência interior e condensá-la numa forma externa já é uma trabalheira miserável. Porém, isso ainda não corresponde à esfera dos conceitos abstratos, você tem símbolos concretos, quer dizer, uma coisa concreta que remete a outra coisa concreta. Se você quiser raciocinar em cima, você precisará operar uma abstração, e isto só é possível depois que existe o símbolo. Sem o símbolo, sem analogia, nada se faz. Todo e qualquer conhecimento que existe nasce da analogia entre alguma coisa e outra coisa. Porém, essa analogia precisa ser expressa. Enquanto ela está simplesmente dentro do indivíduo, ela não tem como ser manipulada. Tem até um trabalho que foi escrito, “Poesia e filosofia” — eu não se isso está no site e está na Dialética Simbólica também, não está? No meu website está —, onde esse problema está tratado ali com bastante detalhe. Aliás, existe uma infinidade de materiais que estão à disposição dos alunos e que eles não sabem. Por exemplo, aquela conferência sobre o que é um milagre, que está aí online tem um tempão, tem uns alunos que estão só agora descobrindo que aquilo existe. Olha, dêem uma vasculhada [1:40] no meu site. Muitas perguntas que vocês fazem já estão lá respondidas há tempos. Essa da poesia e filosofia está ali e eu acho que está bem explicadinho. Vamos parar por aqui hoje, já falamos bastante coisa e já é tarde no Brasil. Eu queria fazer um aviso. Eu, aqui nos EUA, preciso desesperadamente de uma secretária-executiva. As condições são as seguintes: tem de ser muito boa no inglês e no português; tem de ter disposição para trabalhar num horário totalmente anárquico, às vezes viajar se for possível; e acabar entendendo as peculiaridades de você ser uma secretária de um escritor, que é uma mistura de gerente, contabilista, mãe, babá, enfermeira, chofer e assim por diante. Nós pagamos um salário não muito alto, mas também não humilhante, e oferecemos moradia e alimentação da melhor qualidade. A pessoa para vir para cá precisaria também tratar do problema de visto que nós poderíamos conversar particularmente. Mas eu realmente preciso de alguém. Outra coisa: eu não quero homem para esta função, eu não gosto de homem na posição de secretário, precisa ser mulher. Se tiver dez filhos, não serve. E se tiver um marido, então o marido deve vir junto e deve dar o maior apoio para ela, porque ficar disputando secretária com o marido dela não faz parte dos meus talentos. Pensem nisso. Nós daremos toda a assessoria possível para que você consiga o seu visto. E acho que aqui você terá um ambiente muito bom, muito simpático, mas terá um bocado de trabalho. É isso. As candidatas, por favor, escrevam para olavo@olavodecarvalho.org. Até a semana que vem, muito obrigado. Transcrição: Jussara Reis de Abreu. Revisão: Antonia Javiera Cabrera Muñoz.