Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 179 10 de novembro de 2012 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso de Filosofia Online. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos. Sejam bem-vindos. Esta semana, logo após o resultado das eleições aqui nos Estados Unidos, o Joseph Farah – que é o editor do WorldNetDaily – publicou um artigo lembrando que há muitos anos ele está insistindo no tópico da necessidade do que ele chama de uma contrarrevolução cultural. Então, ele traça um panorama de como, uma a uma, as instituições de cultura americanas foram caindo na mão de esquerdistas, comunistas, pró-radicais islâmicos etc., criando uma atmosfera psicológica cujo resultado político só pode ser exatamente aquilo que tem sido. E ele diz: “Mas poucos me ouviram. Ao invés disso, os descendentes espirituais e ideológicos daqueles que fizeram a América grande e boa puseram todos os seus ovos na cesta política.” Exatamente como aconteceu no Brasil. Só que eu há trinta anos não estou fazendo um apelo por uma contrarrevolução cultural – eu estou preparando o terreno para isto. Ou seja, não estou pedindo que os outros façam: eu estou fazendo tudo aquilo que está ao meu alcance. E eu insisto com vocês: a única coisa que pode ter futuro no Brasil é este curso que nós estamos fazendo. Não há mais nada, nada, nada, nada. Não há iniciativa pelo lado político, pelo lado religioso, pelo lado educacional – não há nada. Se nós não prepararmos uma nova geração de intelectuais sérios, capazes, aptos a desbancar essa casta de farsantes que tomou conta de tudo, não haverá nenhuma esperança de um Brasil melhor sobre aspecto nenhum. Nem mesmo no mais simplório deles, que é o econômico. Nós sabemos que quando nosso governo se gaba de que o Brasil retomou o crescimento, quer dizer que tem um crescimento de 4,1% alguma coisa assim: não se compara com nada que teve em outras épocas. Mesmo no setor econômico é medíocre. Apesar de toda a ajuda internacional, que o Banco Mundial dá tudo mastigado para eles e ainda ajuda por todos os meios: mesmo aí, nada de notável se faz. E não se fará em campo nenhum, nem no campo da segurança, da saúde, da educação, coisa nenhuma, enquanto não houver outra atmosfera mental neste país. Ou seja, toda a atividade política no momento é burrice, é estupidez, é perda de tempo. Eu não cesso de receber aqui mensagens de pessoas: “Não, eu estou criando um movimento não sei das quantas, queremos fundar um partido etc.”. Tudo isto é besteira. Isto é tudo perda de energia e vai só contribuir para a tragédia nacional. Esta geração não tem nenhum dever propriamente político. Nós temos de tentar sanear a atmosfera cultural a partir de cima, dos produtos de alta cultura. Isto é a única coisa que é possível e necessário para fazer. Por isso mesmo eu insisto que aqueles que se sentem às vezes isolados, solitários e desguarnecidos, eles têm que fazer é criar mais laços com pessoas que estão fazendo a mesma coisa que eles, ou seja, que estão estudando as mesmas coisas e que têm as mesmas preocupações. Atendendo então à definição de amizade de São Tomás de Aquino: idem velle idem nolle – quer dizer: querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Vocês têm muita sorte porque podem fazer isto numa época em que já existe esta atmosfera porque nós a criamos aqui. Trinta ou quarenta anos atrás eu não tinha nada disso. Eu estava absolutamente sozinho, passei a minha vida fazendo tudo isto só e sem ter com quem dialogar. O primeiro brasileiro com quem eu pude ter algum diálogo neste sentido foi o Bruno Tolentino – isto aí quando eu já tinha cinqüenta e tantos anos. Ele também percebia o que eu estava percebendo. Ele via a degradação geral, sabia no que ia dar, e infelizmente ele não teve tempo para colaborar mais ativamente neste empreendimento – talvez não tivesse também a vocação para isto. Aqueles que buscam algum apoio, tentando lutar contra esta sensação de solidão e desamparo, se se aproximam de grupos políticos ou religiosos, eles estão perdendo o seu tempo. Especialmente comunidades religiosas. Eu advirto pela milésima vez: vocês vão à igreja, confessem, comunguem e saiam correndo. Não participem de nada. Não busquem fazer um círculo de relações dentro da igreja e não participem de movimento algum. Por quê? Porque a função da Igreja é manter os sacramentos e ensinar os princípios da doutrina e da moral – que são os mesmos de sempre –, e só. Todas as decisões que a Igreja tome no setor político, cultural, são todas decisões humanas que não têm poder de autoridade nenhum, e neste sentido, a elite da Igreja vem errando há cem anos. E nós não temos nada a aprender com eles, nada. Quando vocês analisam o caso do Concílio do Vaticano II, ora, quem inventou o Concílio do Vaticano II não foi nenhum idiota, foi o próprio Papa João XXIII, que diziam era um homem simplório – conversa mole: ele era um homem cultíssimo, e sabia o que estava fazendo. E planejou o Concílio em vista de facilitar o diálogo da Igreja com a sociedade moderna, com o mundo moderno e deu no que deu: perdeu completamente o controle da coisa e o resultado é que, já na geração seguinte, metade dos católicos fugiu da Igreja – uns foram para casa, outros foram para as igrejas evangélicas etc. Que também não resolve o problema, evidentemente. E se este plano, que foi o maior, o mais pensado, o mais elaborado deu no que deu, você imagina planos menores. Mas você pensa: “Ah, mas há a Igreja pré-Conciliar, tem a sociedade não-sei-das-contas, tem não sei o quê” – esse pessoal todo não sabe o que está fazendo. Eles não têm prática, não têm estudos suficientes nem de estratégia política, quanto mais de estratégia cultural. São todos amadores. São pessoas muito bem intencionadas e que no sentido da doutrina e da moral estão corretíssimas. Acontece o seguinte: que tanto a doutrina, quanto a moral católica são constituídas de juízos normativos universais. Prestem bem atenção: juízos normativos universais se aplicam uniformemente a quaisquer situações e, portanto, eles não estão feitos para nenhuma situação em particular. E a adaptação que você tem de fazer disso na situação particular não depende nem da doutrina nem da moral, depende da inteligência dos agentes que estão envolvidos na coisa. E, neste sentido, a coisa mais inteligente que foi feita nos últimos cinqüenta anos é este empreendimento do Papa agora de tomar os textos do Concílio e tratar de reinterpretá-lo à luz da tradição, ou seja, reinfundir o sentido tradicional naquilo que, às vezes, tem o sentido precisamente anti-tradicional. Isto é muito bom, só que o seguinte: não foram os textos do Concílio que marcaram a História. Foi o Concílio enquanto acontecimento, sobretudo, enquanto acontecimento midiático, de mídia. Foi isto que marcou a mudança de mentalidade na Igreja e no mundo – e não os textos do Concílio. Os textos, se você pensar bem, eles poderão vir a ter importância daqui a dois ou três séculos. Agora, o que sobrou foi a mudança efetiva – cultural e política – que o Concílio causou. Portanto, o Concílio como fato, como acontecimento histórico e não como conjunto de declarações escritas. O Papa está fazendo o máximo que ele pode fazer, mesmo porque ele está sozinho. O Papa está isolado. Uma vez ele disse: “Olha, a minha autoridade aqui termina naquela porta.”. É claro, nós temos toda a obrigação de apoiá-lo, mas apoiá-lo do nosso jeito, com a nossa estratégia, e não seguindo a orientação de algum bispo ou cardeal. Este pessoal todo, em termos de compreensão da História, está muito atrasado. Às vezes, eles têm compreensão quase pueril da coisa e, sobretudo – e não só os católicos, os protestantes –, eles começam a querer interpretar o que está acontecendo à luz da Revelação e da Bíblia – não é assim que se faz. Os fatos têm sua autoridade própria. Eles não dependem do que está escrito na Bíblia. Então, primeiro você tem de ter a compreensão dos fatos em si mesmos, e [0:10] depois busca inspiração na Bíblia para compreender seu sentido espiritual – não necessariamente o seu sentido histórico-social agora. Esse pessoal que tenta ver nos acontecimentos os sinais proféticos, bom, todo sinal profético é duvidoso pelo motivo seguinte: se você tentar prever o curso da História, está fazendo como se a história humana fosse um romance ou um livro de história – que tem começo, meio e fim. Bom, nós sabemos que tem um fim, mas quando é este fim? Jesus Cristo disse que nem ele sabia disso: “Só Deus-Pai sabe”. Aliás, a Igreja condena qualquer expectativa de especular o fim do mundo. Ora, se você não tem a menor idéia da duração duma história, você não sabe quais são os capítulos seguintes, portanto você não sabe qual o significado que dentro deste conjunto tem os acontecimentos atuais. Portanto qualquer tentativa – qualquer uma – de interpretar os acontecimentos históricos à luz da profecia é besteira. Vai sempre dar errado. Sempre, sempre, sempre. A não ser quando venha uma nova profecia: aí sim. Uma coisa é você ser um profeta, outra coisa é interpretar as profecias. Por exemplo: quando Nossa Senhora, em Fátima, disse: “Dentro de tanto tempo vai haver uma nova guerra dentro dessas condições: a Rússia vai fazer isto, assim, assim.”. Ela não está interpretando a profecia. Ela está fazendo uma. E não era sequer uma coisa que precisasse ser interpretada, porque tudo que Ela disse é no sentido literal, factual, assim, brutalmente visível. Não estou falando disso, evidentemente. Estou falando quando o pessoal começa, por exemplo, a associar acontecimentos de agora a algum versículo que está lá no Gênesis ou em São Paulo Apóstolo. Não dá para você fazer isto. Só Deus pode fazer isto. Por quê? Porque só Deus sabe quando é o fim da História. Deus sabe qual é a duração da vida de cada um de nós. Ele sabe exatamente o dia e a hora que nós vamos morrer. Por isso Ele sabe precisamente o significado que cada acontecimento da nossa vida tem no conjunto. Nós não sabemos. Ao contrário, nós temos de ir tateando por meio de interpretações hipotéticas que não darão conta do acontecimento, mas determinarão nossas ações em seguida. É como a canção dos guardas suíços, que diz: “Nós buscamos a nossa passagem, nosso caminho, num céu sem estrelas, onde não há indicações.”. É claro que estas interpretações proféticas dão algum prestígio às pessoas, e dão certa solenidade, certo peso àquilo que elas estão dizendo. Mas, no fim das contas, tudo isto é vazio. Para nós entendermos alguma coisa do que está acontecendo no mundo, só existe um jeito: você tem de pedir que Deus te inspire e te ilumine. Mas é Ele que irá te iluminar e não você que irá iluminar o sentido do que está acontecendo à luz do texto Bíblico. Você tem de usar os meios humanos de investigação: os meios científicos, os meios históricos, filosóficos etc., pedindo que Deus te ilumine e que te mostre, pelo menos, o próximo passo. Não o significado total da coisa. A nossa tendência, quase incoercível, é a de tentar descobrir um significado final no que aconteceu. Mas qualquer coisa que aconteça hoje e tem um significado hoje, vai ter outro amanhã. Porque outras coisas vão acontecer e – regra número um da História – o que quer que aconteça provoca novos acontecimentos. Então nenhum acontecimento está acabado. O máximo a que nós podemos chegar é uma descrição razoável daquilo que está acontecendo. E, note bem, há muito tempo eu procuro alguma descrição razoável, eu procuro alguém que esteja entendendo o que se passa e vejo que as pessoas entendem muito pouco – os melhores entendem muito pouco. Veja aqui o pessoal do Eric Voegelin Society, que são os melhores estudiosos de ciência política que existe nos Estados Unidos, nenhum deles entendeu o que era o Barack Obama. Eu explicava para eles: “Olha, o Barack Obama é isto assim, ela vai fazer isto, mais isto e mais isto.”. Eles diziam: “Não, você está exagerando. Ele é um político como qualquer outro, etc.”. Bom, agora, passados quatro anos eles dizem: “Você tinha razão.”. Digo: “Agora não adianta.”. Isto quer dizer: eu estou fazendo um esforço monstro para entender o que está acontecendo, e eu tenho um método para isto. Pensei este método durante muito tempo e paguei caro para adquiri-lo porque muita coisa eu não pude aprender em livro e tive de meter as caras e sofrer a experiência pessoalmente. Dizem que a curiosidade matou o gato, então muita coisa, muitos desses conhecimentos foram pagos até com risco de vida. E eu sei o que estou fazendo. Eu sei que estas minhas análises de conjuntura internacional são as únicas que prestam. Lamento dizer isto. Eu sei que vai parecer uma coisa de uma vaidade monstruosa, mas não estou falando por vaidade. Eu procuro, por toda parte, alguém que diagnostique o estado de coisas no mundo com clareza suficiente. Eu não encontro. E até hoje, os meus prognósticos têm todos se revelados bastante corretos. Por isso mesmo que eu digo para vocês: não há um partido, não há um grupo, não há uma escola, não há uma comunidade religiosa, na qual vocês podem se encostar. Vocês têm de suportar a sua solidão e saber que o seu único meio social possível é este aqui mesmo – não há outro. E não é um meio pequeno. Eu não estou dizendo: “Não, nós vamos virar uma seita, nós vamos nos fechar, só conversamos conosco mesmo”. Ora, este seminário tem três mil alunos, Meu Deus do Céu! E pessoas que estão enormemente distantes umas das outras. Então, nós temos elementos suficientes para criar um meio social suficientemente variado e capaz de representar um estímulo e também um suporte psicológico para todos. Se alguém disser: “Ah, nós vamos nos organizar.”. Não faça isto. Vocês não precisam de mais contato social do que já estão tendo. Vocês não precisam se organizar, não precisam se reunir – não, vocês já têm uma rede de contatos. Veja, em alguns dos períodos mais férteis da cultura ocidental, a maior parte dos contatos entre os estudiosos era por carta, por correspondência. E isto era mais do que o suficiente. Quando o sujeito encontrava o outro era uma vez na vida. Nós estamos de novo na mesma situação. Outra coisa: saber alguma coisa é saber o que os outros não sabem. Se você tenta aprender, evoluir vai saber um monte de coisas que as outras pessoas não sabem. E quando você sabe o que os outros não sabem, também sabe que eles vão julgá-lo desde o estado de ignorância em que eles estão. Portanto não vão entender o que você está falando, a não ser que se disponha a ensiná-los – o que dá muito trabalho e leva muito tempo. Algumas pessoas me perguntam: “Mas como eu posso argumentar em certas circunstâncias?” Olha, não é para argumentar: ou você senta e ensina o sujeito – como eu estou fazendo – ou então não perca seu tempo discutindo com um ignorante, porque você não vai poder, no curso de uma discussão, infundir nele os conhecimentos necessários para que ele veja as coisas corretamente, e, muito menos, você poderá infundir nele alguns graus a mais de QI. Você não pode infundir inteligência nas pessoas. Você pode despertar a inteligência das pessoas. Mas não mediante uma discussão, mediante uma polêmica. Não, você tem de se dedicar a uma atividade de ensino. Você diz para a pessoa assim: “Você quer aprender? Então agora senta aqui que eu vou te ensinar.”. No começo, haverá muitas pessoas rebeldes: vão espernear, vão dizer que você é malvado, que as está humilhando – todas as bobagens que ouvi durante vinte anos e que, felizmente, neste curso não ouvi nenhuma vez. Mas em outros cursos que eu dei, em outra época, havia pessoas que ficavam tão, tão, tão revoltadas com a possibilidade de ter de aprender alguma coisa. Quando elas viam que não sabiam tudo, elas levavam choque: “Meu mundo caiu.”. Quanto mais ignorante o sujeito, mais certeza ele tem. E quanto mais certezas absurdas ele tem, mais ele afirma que tudo é relativo, que não existem certezas definitivas etc. É uma coisa incrível. Bom, agora vamos voltar a um [0:20] tema que eu andei arranhando nas aulas anteriores, e que é o seguinte: eu não acredito na possibilidade de haver hoje uma filosofia especulativa no sentido em que Leibniz ou Descartes fazia, ou seja, um conjunto de teses universalmente válidas capazes de orientar todos os campos do conhecimento. Não acredito que isto seja possível. Mas eu acredito que a filosofia é um instrumento pessoal de orientação no mundo. Veja: uma doutrina que tivesse esta função, que as antigas filosofias especulativas se arrogavam, quer dizer, montar um conjunto de teses que são uniformemente válidas e obrigatórias para todos etc., ela resolveria o problema? Não. Porque este conjunto de teses estaria simplesmente registrado num texto e este texto teria de ser lido por pessoas reais e interpretado por pessoas reais e aí já começariam a diferenciação e os conflitos. Então, a finalidade da filosofia não é criar uma doutrina filosófica final. É criar filósofos. Isto está muito claro na atividade de Sócrates. Ele não passa nenhuma vez nenhuma doutrina. Ele está preparando pessoas. Está despertando inteligências. E colocando as pessoas na atitude filosófica perante os problemas. E não transmitindo uma doutrina. Pode parecer até um paradoxo, mas a finalidade da filosofia não é produzir uma filosofia, mas produzir filósofos. E os filósofos são pessoas eminentemente capazes de interpretar o que está acontecendo, e de lançar alguma luz sobre o destino da presente geração e das próximas. Isto é máximo que nós podemos fazer. Existe outro exemplo disso que estou dizendo e que nós encontramos em Aristóteles. Quando Aristóteles formula as regras da lógica, de onde ele tira aquelas regras? E, de onde, sobretudo, ele tira o sistema das categorias? Hoje nós conhecemos suficientemente a coisa para saber que a base imediata de inspiração da lógica de Aristóteles foram as observações que ele fez no campo da biologia, especialmente da zoologia no estudo dos seres vivos. Isto quer dizer que o sistema das categorias de Aristóteles não é um sistema de diferenças entre palavras. Mas de diferenças entre aspectos da realidade que aparecem na experiência. Neste sentido, a lógica de Aristóteles está muito próxima da percepção efetiva, do conhecimento intuitivo. Ela está perto do conhecimento intuitivo ao ponto de que toda a técnica da demonstração silogística se funda numa percepção intuitiva. Quando você faz um silogismo, A = B, B = C e, portanto, A = C, como é que você percebe a unidade entre a conclusão e as premissas que foram dadas anteriormente? Não é por um meio lógico. Você apreende a unidade daquilo num relance. Você percebe a igualdade de duas coisas. E esta percepção é intuitiva. Sem esta percepção intuitiva, não seria possível a demonstração do quer que fosse. Mais ainda, nós sabemos que Aristóteles acreditava que a lógica não fornece nenhum conhecimento. Ela apenas fornece meios de prova, meios de verificação. E a origem do conhecimento teria de ser buscada, a busca do conhecimento mesmo se dá por outros meios, especialmente pela dialética. E o que é a dialética? É a confrontação de hipóteses contrárias, hipóteses opostas. De onde ele tira as hipóteses opostas? Ele as inventa? Não. Ele as tira da tradição. Ele pega assim as sentenças dos sábios e, como ele diz que todo o conhecimento surge de outro conhecimento anterior, a primeira coisa que ele busca é quais são os conhecimentos que já existem; o que já disseram a respeito. Isto quer dizer que o material que ele começa a investigar não sai da cabeça dele, e não são puras hipóteses abstratas: são idéias e crenças que já estavam em discussão, já estavam imbricadas na cultura do tempo e que, portanto, refletem de algum modo a experiência adquirida na comunidade. A experiência viva que foi se mostrando e se revelando através de vários aspectos contraditórios: este via um pedaço, este outro via outro pedaço, aquele via outro pedaço. É a partir da confrontação destas visões contrárias que ele vai buscar o quê? Os princípios unificadores que permitem dar conta de todas estas diferenças e explicá-las: “Olha, a unidade do objeto está aqui e apareceram estas teses diferentes porque aqui existem estes aspectos e aqui existe aquele outro aspecto e cada um viu um aspecto diferente, mas a interconexão de todos estes aspectos é dada aqui pela verdadeira natureza do objeto que está sendo investigado.”. Quando você capta a natureza do objeto, e capta, portanto, os princípios fundadores a partir dos quais se pode obter um objeto seguro a respeito, este conhecimento seguro tem de explicar não somente o objeto, mas o surgimento das várias opiniões anteriores e parciais a respeito. A compreensão da natureza do objeto e dos seus princípios fundadores explica não somente o objeto, mas aquilo que se pensou sobre ele. Portanto, toda esta elaboração lógica está: (1) muito próxima da percepção sensível dos objetos; (2) muito próxima da experiência da cultura, da experiência viva da cultura. Mais ainda, se a dialética opera com opiniões opostas, ela opera a partir de opiniões retóricas, opiniões que não foram defendidas dialeticamente, mas que pareceram verossímeis à platéia que as ouvia. São, então, diferentes visões parciais que estão em disputa na sociedade num nível ainda puramente retórico. Então, partindo destas várias opiniões retóricas, ele vai elaborar o quê? A confrontação dialética, que vai finalmente encontrar os princípios fundadores daquele objeto, daquela questão, permitindo então o verdadeiro estudo científico. Porém, e de onde saem estas opiniões retóricas que circulam? Saem da percepção e da imaginação, da memória das pessoas. Portanto saem de um fator poético. Isto quer dizer que toda a lógica de Aristóteles tem uma raiz que penetra fundo no mundo da experiência. E que retorna a este mundo da experiência todo momento. Não é um processo de raciocínio puramente mecânico, que funcione por si – e que vai tirando conclusões etc. Aliás, este tipo de conseqüencialismo abstrato – o indivíduo que coloca certos princípios gerais e vai deduzindo, deduzindo, deduzindo – é o que pode haver de menos aristotélico. Aristóteles nunca faz isto. Na verdade, você não encontrará uma única demonstração lógica do que quer que seja em Aristóteles. Ele está sempre fazendo um exame dialético. Este conseqüencialismo doutrinário a gente encontra, por exemplo, no famoso Joseph de Maistre (1753-1821) – que é um dos ídolos do conservadorismo católico, embora ele fosse um maçom – é o típico conseqüencialista abstrato. No livro Du Pape (1819), por exemplo. Digamos aqui: o Papa é infalível em matéria de doutrina e de moral. Muito bem: ele coloca este princípio geral, daí vai tirando conseqüências, conseqüências, conseqüências. De uma maneira que, se você der a um computador, ele também tiraria todas as mesmas conseqüências. Estas consequências podem até ser válidas, mas somente válidas no plano puramente abstrato. Elas pouco ou nada têm a ver com as situações reais. Em primeiro lugar: quem é o Papa? Todos os Papas são iguais? Não, não são. Em segundo lugar: a eleição de um Papa pode ser contestada. E também a Igreja diz que se um Papa proclamar uma doutrina herética, ele não é mais o Papa. Sim, mas quem sabe que ele não é? Do momento em que o Papa proclamou uma heresia até o momento em que ele é destronado, toda a comunidade católica está em dúvida – ninguém sabe o que fazer. Portanto, este belo conseqüencialismo abstrato nunca adiantou para nada: não te ajuda a te orientar no mundo real. Se existe uma coisa que Aristóteles está o tempo todo olhando, é para o mundo real, é para o mundo da experiência. Acontece que, a partir do momento em que no fim do século XIX para o começo do XX, o pessoal começa a matematizar a lógica, com a idéia de tampar todos os buraquinhos da demonstração silogística – o que mais tarde o Kurt Gödel iria demonstrar que é impossível na verdade: sempre [0:30] haverá um buraquinho –, mas na idéia de se aperfeiçoar a mecânica silogística – então eles começam a usar sinais matemáticos – e chegam à conclusão de que as regras da lógica, as regras da silogística, são as mesmas da aritmética elementar – como de fato são. A partir deste momento, o raciocínio lógico se torna um procedimento inteiramente mecanizável – tanto que pode ser imitado por um computador. Mas acontece que esta parte da lógica é somente a silogística, ou seja, a arte de você articular premissas e conseqüências. Então, um computador consegue operar uma sequência silogística muito mais rapidamente do que nós, e de maneira muito mais perfeita do que nós. Mas ele não tem a conexão com o mundo da experiência. Quer dizer que se tornou uma espécie de silogística independente do mundo real, independente da intuição e independente da experiência. E as pessoas podem adquirir enorme treinamento nisto, adquirir uma destreza formidável disto sem ser capazes de relacionar isto, por exemplo, com a doutrina das categorias ou do antepredicamento. Ou seja, sem ter toda aquela noção que Aristóteles tinha do caráter problemático da transição da experiência para o pensamento lógico. Agora, vocês imaginam milhões e milhões de jovens que estão lidando com computadores no mundo: estão todos treinados na silogística e, justamente nesta medida, eles têm um sentimento de certeza daquilo que estão fazendo ao mesmo tempo em que o seu círculo de experiência real é muito limitado. Ou seja, os princípios da razão, tais como Aristóteles os formulou, estão muito ligados aos princípios da ontologia, aos princípios da ética, ao conhecimento da alma etc. E não têm um valor independente disto. Agora, toda esta lógica que hoje se pratica é independente de tudo isto: ela é um negócio puramente mecânico que funciona por si. Ao ponto de os computadores conseguirem, por exemplo, fazer cálculos que não são mais humanamente verificáveis – porque levaria tanto tempo e precisaria de tanta gente para se verificar que, ou você confia no computador ou então não faz nada. O momento em que o raciocínio lógico se desliga do mundo real e da experiência adquire uma autonomia, ele continua sendo um instrumento de operação sobre o mundo real: ele pode agir sobre o mundo real, mas ele não tem a conexão epistemológica com o mundo real. Quer dizer, você pode criar universos inteiros na base da pura silogística: eles não têm raiz no mundo real, mas eles podem se transformar em instrumentos técnicos de ação no mundo real. É a mesma coisa que dizer que pessoas que não têm a mais mínima noção do sentido experimental do conhecimento, do sentido da experiência viva, são ao mesmo tempo capazes de agir sobre o mundo e transformá-lo. Isto quer dizer que a atividade de transformação do mundo se tornou independente do conhecimento do mundo. Isto é evidentemente uma tragédia. Quando vocês vêem este festival de idéias cretinas e aberrações que estão circulando pelo mundo: tudo nasce disso. Quer dizer, são gerações inteiras que foram educadas assim: que têm um desenvolvimento lógico enorme, mas não têm a conexão de lógica com experiência. Principalmente – um dos resultados disso – é a capacidade de operar logicamente com palavras cujos correspondentes na realidade as pessoas não são capazes de identificar, porque elas lidam somente com definições nominais – que é tudo o que um computador pode absorver. Você coloca um monte de definições, daí tira meia dúzia de premissas e, destas premissas, vai tirando conclusões e conclusões e conclusões. É evidente que em qualquer discussão que você entre com uma pessoa assim está numa situação muito difícil porque a sua fala não pode transmitir experiência a ela: você também está operando dentro dum campo de meras definições nominais. O que você pode fazer é como Sócrates: apelar à experiência do seu interlocutor, mas precisa ver primeiro se ele se lembra da sua experiência. Em geral, este excesso de atividade raciocinante, ele encobre a memória da experiência direta – e a substitui. Se você falar, por exemplo: “O que é experiência virtual?”. Ora, hoje, 80 a 90 % da experiência que as pessoas têm é virtual, e está apenas lidando com símbolos convencionais ou definições nominais. Por exemplo, as pessoas discutem muito sexo, mas eu digo: “Meu filho, toda a experiência que você tem do sexo é através de película de látex. Você nunca se aproximou mais pessoalmente do sexo do que isto. Quer dizer, não houve contato carnal, não houve, meu filho. Então, você não sabe o que é o sexo. Você nunca esteve lá.”. Gerações e gerações anteriores tiveram esta experiência. Eles sabem, por exemplo, que num ato sexual, quando o sujeito tem o seu orgasmo, ele está expelindo sêmen: estão ali milhões de possíveis seres humanos. E que isto aí pode causar no corpo da mulher uma revolução, pode mudar a vida dela completamente, para sempre. Então, sempre houve uma espécie de tensão – e até de perigo – no ato sexual porque, por mais breve que ele seja, estão ali presentes todos os seus antepassados e todos os seus descendentes. Eles estão todos presentes ali: ou seja, você é mais um elo de uma cadeia que começou em tempos imemoriais e você não sabe quando vai terminar. E isto é o ato sexual na sua plenitude. Eu pergunto: como chegamos ao ponto de que o simples fato de você dizer que o sexo existe para a procriação causa escândalo nas pessoas? Elas ficam chocadas. Bom, existem outros aspectos no sexo. Ele pode ter um aspecto prazeroso, pode ter um aspecto doloroso, pode ter um aspecto deprimente, pode ter aspectos criminais envolvidos, mas qualquer pessoa com certo treino de lógica clássica percebe que estas coisas são propriedades e acidentes – não são a substância do ato sexual. É claro que estes outros aspectos dizem respeito não ao sexo propriamente dito, mas às emoções humanas relacionadas a ele, eles podem começar a predominar se a sociedade começar a chamar isto de sexo. Na verdade, qualquer ato sexual que não tenha nada a ver com a procriação é, evidentemente, uma forma de masturbação, e nada mais. Qualquer um: se ele não se encaixa na história da espécie, ele não é o sexo na sua verdadeira substância material, biológica. Ele é um aspecto subjetivo, é um efeito emocional do sexo. Efeito que às vezes está ligado ao prazer? Não está. Os elementos de prazer estão tão presentes nisso quanto os elementos de dor e de perigo. Por exemplo: os estupros, eles não têm finalidade pró-criativa, evidentemente. Eles têm outra finalidade que é prazerosa para uns e dolorosa para outros, por definição. Se você vai chamar de sexo toda a constelação de emoções que existe em volta, as emoções dolorosas e deprimentes não podem ser excluídas. Quando você associa o sexo com o prazer, já está a fazer uma segunda abstração. No primeiro caso, você já abstraiu as sensações e sentimentos [0:40] da sua base biológica originária – você decidiu pensar só nas emoções e esquecer que tem um fundamento biológico. Daí, dessas emoções, você faz uma segunda abstração: você separa as dolorosas e só deixa as prazerosas – e você começa a chamar isto de sexo. Isto só é possível para pessoas que foram acostumadas a raciocinar só na base das definições nominais. E que não são capazes de, olhando um objeto, um fato, um problema, perguntar: o que é isto? Quid est? E receber o impacto da natureza da coisa em toda a sua plenitude. Estão entendendo? Não confunda isto com o discurso moralista contra o prazer sexual, nem contra o prazer sexual separado da procriação. Por exemplo, se o camarada se casa com a mulher e depois descobre que ele é estéril, mas ele ama a mulher, eles vão continuar tendo relações sexuais do mesmo modo. Mas aí o velho Aristóteles ensinava que a privação não afeta a substância. O fato de uma pessoa não poder procriar não suprime a relação de identidade que existe entre sexo e procriação. É apenas um acidente – uma privação acidental. Do mesmo modo, o homem que seja privado dos seus órgãos sexuais, a constelação de emoções que ele acumulou na experiência sexual anterior, real ou imaginária, continuou existindo. E ele, portanto, continua tendo desejos e fantasias etc. Mas, aí, também, nós dizemos: é a privação. Hoje em dia, existem tantas idéias e crenças que têm validade pública, e até autoridade pública, mas que emanam, vamos dizer, de uma inteligência deficiente. Inteligência incapaz de lidar com a substância da realidade, e capacitada a operar somente no plano da abstração, das definições nominais. Ou seja, é uma inteligência que só lida com elementos já preparados verbalmente. Uma inteligência que é incapaz extrair da própria experiência os conceitos. A maior parte das discussões em que eu entrei, eu noto isto: todas as pessoas estão operando com definições que receberam prontas: ou dum dicionário, ou de algo que eles leram, ou que aprenderam na escola. Mas as pessoas nunca olharam o próprio objeto e tentaram tirar um conceito dele. Quando você não tem o conceito pronto, só tem o objeto, a experiência nua e crua: como é que você vai extrair dele um conceito que possa depois servir de base a raciocínios lógicos que não se afastem da natureza da coisa, mas que a esclareçam? Bom, não existe outro jeito senão você procedendo como Aristóteles procedia: ou seja, vai ter de olhar aquele objeto sob vários aspectos mutualmente contraditórios. Então você vai ter de saber buscar as contradições, mas não inventá-las. Porque eu olho o objeto: um gato – vamos supor que nunca vi um gato. Começo a perguntar: “O que é isto? Quid est?” E tento operar só com a minha experiência deste gato. E isto não é possível. Os conceitos todos nascem de uma experiência acumulada na sociedade, na cultura, e na história. Experiência, claro, que contém muitos erros, muitas visões parciais etc. Mas um homem sozinho não é capaz de delinear na sua mente todos os aspectos contraditórios que convergem naquele objeto. Então, por isso que Aristóteles nos dizia: “Precisamos nos basear nas opiniões dos sábios.”. Todo conhecimento nasce de um anterior. Eu não posso de uma simples percepção sensível, retirar um conceito – isto é impossível. Eu vou ter de ver como este objeto apareceu na percepção e na imaginação de outras pessoas e também terei de lembrar vários aspectos contraditórios, parciais e incongruentes, com que este objeto apareceu na minha própria experiência imaginativa. Aí eu tenho em volta do objeto um círculo de tensões. O que é este círculo de tensões? É exatamente aquilo que o desenhista faz quando ele vai desenhar um objeto, e ele mede o objeto em várias posições. Não só o perfil externo, mas também as suas diferenças internas. E, deste conjunto de traços, que não tem nada a ver um com outro, mas que naquele objeto eles se condensam e se sintetizam, é que ele vai tirar o desenho. Ora, ao longo desta minha porca vida, eu raríssima vez encontrei alguém capaz de fazer isto. Claro, eu conheci alguns grandes pensadores que sabiam fazer isto. Conheci o Julián Marías, por exemplo. Se você dava um problema para ele, em cinco minutos já tinha toda a constelação de dúvidas e problemas em volta. O padre Ladusãns fazia isto. Ele dava aulas memoráveis em que ele levantava uma questão e, em seguida, analisava esta questão do ponto de vista de todas as escolas filosóficas desde Tales de Mileto até ele mesmo. E você sobrava com aquele monte de contradições e um monte de perguntas. Eu digo: mas estas perguntas são as substâncias de onde você vai tirar o verdadeiro desenho do objeto. Eu não conheço quem faça isto hoje em dia. Não tem mais. Todo mundo opera com conceitos prontos, e acha que isto é normal: chama isto de pensar. Bom, eu digo: É pensar, como o computador pensa, mas não no sentido que um ser humano pensa. E eu vou dar um exemplo para vocês. Vamos supor uma definição: um sujeito que dá uma definição, e dela tira conclusões. Não é a definição de um objeto físico, mas a de um objeto histórico – e quem deu essa definição foi Lênin. Lênin assim definiu classe social. Eu anotei a página aqui, vamos ver: “Classes são grandes grupos de pessoas que diferem um dos outros pelo lugar que ocupam num sistema de produção social historicamente determinado. Diferem pela sua relação, em muitos casos, fixada e formulada em lei, para com os meios de produção. Diferem pelo papel na organização social do trabalho e, conseqüentemente, pela dimensão da parcela de riqueza social da qual dispõe e no modo de adquiri-la.” Esta é a definição que ele dá. Isto quer dizer que as classes sociais se diferenciam umas das outras pela sua diferente posição no modo de produção. De onde ele tirou esta definição? Ele tirou de Karl Marx. E Karl Marx, de onde a tirou? Tirou da primeira impressão que ele teve, porque se ele tivesse parado para pensar: “Será que é isto mesmo? Será que uma classe não pode ser outra coisa? Será que é só a diferença de posição no modo de produção que diferencia as classes? Será que não há outros fatores também?”. Bom, que o papel no modo de produção diferencia a classe é óbvio. Por exemplo, se um sujeito tem de pegar no pesado e o outro só quer ficar fazendo conta, é claro que eles desempenham diferentes papéis no modo de produção. Mas será que foi isto determinante? Por exemplo, se você se perguntar: como se formou a aristocracia européia? A aristocracia, no sistema de Karl Marx, está associada ao feudalismo, ao sistema de propriedade feudal. Sim, mas de onde surgiu o sistema de produção feudal? Cada um nasceu com o feudo pronto? Você pode dizer: “Não, ele herdou do pai.”. E o pai? Herdou de quem? E o outro herdou de quem? Bom, como que eles tomaram posse deste negócio? Você vai ver que aristocracia européia surge, em primeiríssimo lugar, no campo militar. Ou seja, quando houve [0:50] as invasões bárbaras, o Império Romano estava completamente desmantelado, havia alguns proprietários feudais, já que eram antigos políticos romanos, que quando o Império se desmantela se retiram cada um para a sua fazenda. Cada um tem sua fazenda e ele se retira para lá e cria uma espécie de administração independente. Mas eram poucos e tudo isto foi desmantelado pelas invasões bárbaras. Então, havia um feudalismo romano, mas ele foi desmantelado, pouco ou nada sobrou. Daí vai ter de surgir uma nova aristocracia que já não é mais constituída de nobres romanos, mas de plebeus europeus: alemães, italianos, franceses etc. Como é que eles se tornaram senhores feudais? Foi no campo da guerra – eles eram os líderes militares que resistiam contra os invasores bárbaros. Então, se criava naturalmente uma liderança, e quando eles se saíam bem e conseguiam vencer os invasores, então a população naturalmente oferecia a eles as propriedades que tinham sido dos antigos nobres romanos. Isto quer dizer que esses novos senhores feudais, eles não se diferenciavam dos outros pela posse dos meios de produção, mas ao contrário: primeiro eles se diferenciaram por meios militares, e depois tiveram acesso aos meios de produção. Do mesmo modo, você verá como se forma então, por exemplo, a moderna burguesia, num país europeu: a própria França. O que diferenciou as classes sociais depois da Revolução Francesa? Foi a posse dos meios de produção? Não. Primeiro eles se diferenciaram uns dos outros pelo favorecimento político dos novos governantes, que davam a uns o acesso a determinados bens. Mas, para que eles tivessem este acesso diferenciado a bens – um enriqueceu com a Revolução, outro perdeu tudo – é preciso que eles já estivessem diferenciados política e socialmente. Como que os indivíduos se tornam hoje acionistas e proprietários das grandes empresas? Bom, alguns herdaram de seus pais, alguns já estavam ricos – teríamos de remontar até a origem da família. Mas, hoje em dia, uma maneira muito comum é a seguinte: o sujeito estuda, estuda, estuda, estuda, adquire uma capacitação técnica, entra numa empresa, sobe, e quando ele se torna diretor, ele começa a comprar ações da companhia. E, no fim, ele tem a posse dos meios de produção, e por que ele tem isto? Porque ele já estava diferenciado socialmente antes. Isto quer dizer que esta definição de classe social, ela é uma abstração prematura. O indivíduo toma um fator, que lhe chamou a atenção, e define o conjunto da diferenciação de classes sociais por este fator. Ora, por que Karl Marx fez isto? De onde ele tirou esta diferenciação entre proletário e burguesia? Ele não tinha experiência nem duma coisa nem da outra. Ele nunca tinha entrado numa fábrica. Depois de ele ter dado esta definição, ainda se passaram anos antes que ele visse um proletário – claro, podia haver um proletário na rua, mas não na fábrica trabalhando. Ele não sabia nada disso aí. Quem passou alguma informação para ele, de repente, foi Engels. Ele era um capitalista e sabia alguma coisa do capitalismo real. Mas, Engels não tinha aquela inteligência criativa de Karl Marx, ao ponto de ele poder corrigir a teoria de Marx. Quando Marx enuncia sua teoria de classes sociais, Engels imediatamente se reconhece nela porque ele vê que existe uma diferença na relação dos meios de produção entre ele e os seus empregados. Mas é só esta diferença que existe? Não existe uma anterior que a provocou? Então, o que nós podemos dizer é o seguinte: existem classes sociais evidentemente. Classes sociais são distintos lugares e posições que as pessoas ocupam na sociedade, e que se diferenciam, não necessariamente pelas posses dos meios de produção, mas pela posse dos meios de ação, quaisquer que sejam. Por exemplo: um burocrata com uma caneta na mão, ele tem muito mais chance de se tornar proprietário dos meios de produção do que um sujeito que já é proprietário dos meios de produção, mas não tem proteção suficiente do governo. Então, você já tem outro meio de diferenciação social através da burocracia, ou através do conhecimento, ou através da influência cultural, ou através da posse das armas. Assim, a diferenciação pelos meios de produção é apenas um caso específico. Ou seja, ele não define este gênero como um todo, mas só uma das suas espécies, que Lênin, assim como Marx, toma pelo gênero. Isto quer dizer que Lênin não examinou o objeto do qual ele estava falando. Ele partiu de uma definição nominal, a aceitou, modulou seu imaginário por ela, e, portanto, modelou por ela as ações que ele empreendeu no terreno da sociedade russa sob a qual ele veio a ter um certo poder. Quando Lênin – como chefe da revolução – se torna o governante soviético, qual era a posição dele nas classes sociais? Ele tinha a posse dos meios de produção? Nada. Ele não tinha uma padaria. Ele tinha só o poder político e militar. Ora, se a posse dos meios de produção fosse o fator diferencial decisivo, Lênin não poderia ter mais poder que qualquer proprietário de terra. No entanto, ele tinha poder sobre todos os proprietários de terra. Porque ele tinha os meios de ação política e militar – ele tinha as armas na mão. Isto quer dizer que a ascensão dele imitou a ascensão dos primeiros aristocratas – ele subiu por meios militares. E não por meios econômicos. Não por posse dos meios de produção. Ademais, chega a ser até engraçado que alguém tenha chegado a diferenciar as classes sociais pela posse dos meios de produção porque nós perguntamos: o que é a posse dos meios de produção? O que é a propriedade? Uma propriedade só existe quando os outros a reconhecem. A propriedade no sentido econômico não é a mesma coisa que uma propriedade no sentido lógico. Uma propriedade no sentido lógico é algo que decorre de sua definição: o homem é um animal racional, portanto ele tem capacidade de aprender matemática, é o único bicho que pode aprender matemática. Isto é uma propriedade no sentido lógico. A propriedade é algo que, embora não faça parte da definição, da essência, decorre da essência. Ora, a propriedade no sentido econômico, não decorre da essência, e não é nada que esteja intrínseco ao indivíduo. A propriedade só existe quando o meio social em torno a reconhece. Se você diz que tem uma fazenda, por exemplo, o que quer dizer: que seus vizinhos reconhecem que não podem entrar e usar o seu terreno sem a sua autorização: são eles que reconhecem. Se eles pararem de reconhecer, você não tem mais propriedade alguma. A própria palavra propriedade é usada de maneira imprópria. A propriedade no sentido econômico não é uma propriedade lógica, de maneira alguma. É um acidente. E um acidente cuja realidade não está no indivíduo, não está no portador da propriedade, mas está na relação que os outros têm com ele. Portanto, a sua propriedade depende exclusivamente da aprovação de terceiros. E se é uma coisa que depende dos outros, então ela nunca pode ser um fator primário, um fator básico na produção dos acontecimentos sociais, na ação social. E a força de agressão? Ah, esta é intrínseca. [1:00] O uso da força, a possibilidade do uso da força, é uma diferença intrínseca entre determinadas pessoas: uns têm; outros não têm. Não só a força física, mas a agressividade – até a agressividade mental. Na origem da diferenciação das classes sociais, nós devíamos procurar isto: aquilo que nos indivíduos é intrínseco a eles e que os diferencia, e que depois de um longo processo de diferenciação, esta diferença pode se consolidar sob a forma da propriedade dos meios de produção – quando os outros já reconheceram o poder deste indivíduo. Antes da diferenciação por posse dos meios de produção, teríamos de procurar a diferenciação por posse de meios de ação. E estes meios de ação serão basicamente dois: a força física de agressão, com o decorrente uso das armas; e a capacidade de persuasão, ou seja, a força intelectual. Um guerreiro sozinho não vai poder muita coisa, mas se ele conseguir persuadir os outros a juntar-se a ele, então, ele cria uma força socialmente ativa. E esta força pode criar uma diferenciação que no fim, se tudo der certo, resulta numa diferenciação de classes pela posse dos meios de produção. Ou seja, Karl Marx e Lênin viram como o fator primário, aquilo que é uma decorrência última. Isto quer dizer que eles não tinham uma clara noção do que é a ação humana e do que é a ação histórica. Não tendo esta noção, era fatal que eles não entendessem exatamente – sobretudo Lênin, que foi o sujeito que passou da teoria para a ação – que ele não entendesse a sua própria situação e as decorrências inevitáveis da ação que estava empreendendo. Portanto, a capacidade de previsão de Karl Marx e de Lênin é diminuta por quê? Porque se eles não sabem nem o que é um objeto, como é que eles poderão saber como este objeto vai estar daqui dois ou três anos? Partindo de um conhecimento mais efetivo destas coisas, nós podemos colocar o problema de Lênin da seguinte maneira: Lênin estava consciente de que ele estava tentando implantar o socialismo num país economicamente atrasado, um país que era predominantemente agrícola, feudal, na verdade. E ele estava consciente também de que Karl Marx havia dito que o socialismo deveria aparecer como um resultado último do progresso do próprio capitalismo. Porque Marx acreditava que, com o progresso do capitalismo, os ricos iriam ficar cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, portanto o antagonismo entre a classe dos que tinham propriedade e dos que não tinham iria aumentar e se tornar tão grave que um dia ia explodir e trazer toda a casa a baixo – isto era o que Karl Marx acreditava. E Lênin dizia: “Bem, nós estamos aqui num país feudal, atrasado, não tem ainda o desenvolvimento capitalista suficiente para ter chegado neste ponto de ruptura, mas já que nós temos a chance de implantar o socialismo agora, nós não vamos perder e vamos ter de fazer um ajuste de tal modo que o próprio governo socialista, que assumiu o poder agora, crie o desenvolvimento dos meios de produção até chegar à condição em que você possa abolir a propriedade dos meios de produção, como profetizado por Karl Marx.”. Ou seja, você vai ter de entrar num sistema de progresso econômico e industrialização acelerada e forçada pelo Estado. Ora, o desenvolvimento forçado e a industrialização forçada são o que vão definir mais tarde os regimes fascistas. Todo regime fascista é isto: é um regime em que o Estado se torna o agente do progresso, e ele obriga a sociedade a se desenvolver, a se industrializar etc. E claro que não é possível fazer isto sem mandar um monte de gente para cadeia, matar um montão de pessoas e interferir em todo o tecido social – desmantelando todo o tecido social – para criar outra situação inventada pela burocracia. Isto quer dizer que o socialismo quando implantado num meio pré-capitalista, ele toma evidentemente o perfil de uma ditadura fascista – não tem outra solução. Lênin não fez a seguinte pergunta: “Se o socialismo segundo Marx deve surgir quase que naturalmente do desenvolvimento capitalista através do acirramento das contradições entre proletariado e burguesia, como seria isto acontecendo, não num país capitalista, mas num país que já tem um governo socialista?” A situação é completamente diferente. Ele não fez esta pergunta e a resposta todos nós a conhecemos: aquilo se transforma numa ditadura fascista evidentemente, na qual a hipótese da abolição futura do Estado se torna inviável pelo próprio crescimento do Estado. Se o Estado se sobrepõe à sociedade e quer remoldar a sociedade inteira, que energia sobrará para a sociedade mais tarde dissolver o Estado? Nenhuma, acabou: não existe nenhuma possibilidade. Foi assim que, nos anos 80, alguns políticos soviéticos chegaram à conclusão de que o regime era irreformável, não dava para mudá-lo mais: ou derruba tudo ou fica como está. Lênin não aprendeu nada disso porque ele partiu de uma incompreensão profunda do quadro do processo social. Ele não foi capaz de observar os fatos e puxar de dentro deles um conceito operante. Agora, existe a outra situação: o socialismo a ser implantado num país capitalista desenvolvido. Mas acontece que num país capitalista desenvolvido, em vez de os ricos se tornarem mais ricos e de os pobres se tornarem mais pobres, todos se tornaram mais ricos. Ou seja, o proletariado europeu e americano teve uma ascensão social formidável. Então, não houve nenhum acirramento da contradição social. Isto significa que o proletariado, como base da revolução, já não serve mais. O proletariado não quer revolução nenhuma. O proletariado está bem, está progredindo, tem uma situação cada vez mais vantajosa. Isto quer dizer que o partido revolucionário não pode contar com eles mais. Então surge o plano B: nós não temos a contradição econômica de base entre burguesia e proletariado, mas nós temos inúmeras contradições no sistema capitalista. Uma das contradições é a seguinte: o capitalismo traz a administração racionalizada da sociedade, ele destrói as instituições tradicionais, os valores religiosos tradicionais, e vai colocando em seu lugar a ciência, a tecnologia, a burocracia científica etc. Assim, o crescimento da burocracia estatal é um processo inerente ao capitalismo avançado. Ou seja, quanto mais um país progride no capitalismo, mais ele cria um Estado que estrangula este mesmo capitalismo – isto não tem saída, isto é necessariamente assim. É claro que pode haver movimentos conservadores que reajam contra isto e tentem limitar o crescimento do Estado – mas a verdade é que nunca conseguiram. Então esta é uma contradição que existe no capitalismo e, ao contrário do que Marx disse, não é uma contradição entre burguesia e proletariado, mas uma contradição entre Estado e sociedade. Ou entre o Estado e o capitalismo. Outra contradição, mais ou menos decorrente desta ou associada a ela, é a contradição de ordem cultural. [1:10] Com a formação daquilo que eu chamei de a burocracia virtual. Na medida em que o capitalismo progride, e sobra dinheiro, você começa a fundar universidades, instituições de cultura e dar educação para todo mundo. Acontece que você sempre educa mais pessoas do que o sistema econômico é capaz de absorver. Então sempre existe uma margem de pessoas com alto nível de educação, para as quais não existe o emprego ou, pelo menos, um emprego à altura das suas expectativas. É evidente que a educação universitária serve para formar uma elite, mas acontece que você deu educação de elite para as massas e não é possível que as massas todas se tornem elite. Então, cria-se uma tropa de descontentes que aumenta de ano para ano, e que sempre vai achar que a sua posição na sociedade está abaixo de seus méritos. Assim, cria-se uma nova classe revolucionária: que são os estudantes e os intelectuais recém-formados etc. Além disso, existem muitas outras contradições, pois em todos os sistemas sociais, há contradições, pontos de conflito. Assim, se num país economicamente atrasado a implantação do socialismo toma forma de uma ditadura fascista, qual é a forma que ela toma num país mais avançado? Ela toma a forma de uma revolução baseada em todos estes descontentamentos que o próprio progresso do sistema vai criando. E todos estes descontentamentos não são baseados numa diferença real, objetiva, da distribuição da riqueza, mas são baseadas em queixas subjetivas: o estudante que acha que ele, pelo simples fato dele ter um diploma universitário, deveria ter um lugar melhor na sociedade; ou a esposa que acha que, como agora os seus problemas econômicos de base agora estão resolvidos, ela tem direito à felicidade matrimonial e ela não a encontra; ou toda a massa de descontentes que você possa ver. É curioso que, quanto melhor a situação econômica, mais estes descontentamentos se acirram. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, se você analisa os negros – que são 13% da população – os negros nos Estados Unidos têm um padrão de vida superior aos brancos de qualquer outro lugar – e, no entanto, estão cada vez mais descontentes, sentindo-se cada vez mais descriminados, por quê? Porque, como a sua situação econômica melhorou, e eles têm acesso a meios de cultura etc., eles também acreditam que eles têm direito a um lugar melhor na sociedade. Ou seja, quanto mais melhora o seu lugar na sociedade, mais você quer que ela melhore. E mais isto cria descontentamento. Porque a expectativa de vida mais significativa, baseada no progresso econômico, não se cumpre: o progresso econômico pode melhorar sua situação econômica, mas não te dá uma vida mais significativa e não te dá satisfações subjetivas que você ingenuamente imaginava que o progresso econômico iria lhe dar. Quer dizer que a margem de insatisfação subjetiva aumenta, aumenta e aumenta. Isto quer dizer que a revolução socialista nos países avançados é baseada nestas insatisfações subjetivas. E, mais ainda, num país capitalista avançado não é possível você fazer uma insurreição popular mais. Por quê? Aquilo que observou o Hermann Rauschning no livro A Revolução do Niilismo: que a administração estatal se tornou tão complexa e tão abrangente que nenhum povo pode derrubar aquilo – então só é possível a revolução por cima. Então, qual é o caminho natural das revoluções socialistas nos países capitalistas avançados? É a revolução pelo voto. Você elege o sujeito e, ele, de cima, vai mudar o sistema. Para mudar este sistema, ele precisa – primeiro – aprofundar a desorganização da sociedade para criar mais insatisfação. Mas, ao mesmo tempo, para ele se manter no seu posto ele tem de contentar a sociedade de alguma maneira – senão ele não se elege novamente depois. O que acontece? Isto é inevitável: por um lado, o desmantelamento da sociedade, e, por outro lado, a indústria de favores. Isto acontece em todo lugar no mundo: Brasil, na França, na Inglaterra – quando os trabalhistas subiram ao poder: você tem de distribuir os favores com os recursos do Estado, ao mesmo tempo em que você desmantela a sociedade e estrangula o crescimento econômico que sustenta o Estado. Então, esta é uma nova contradição criada pelo próprio governo socialista – e isto é até regra universal. Também, na medida em que haja desorganização da sociedade e ao mesmo tempo a explora com impostos cada vez maiores – necessários para sustentar o crescimento do Estado –, a crise econômica é inevitável. Então, tem-se o crescimento formidável do Estado, aumento dos impostos, desemprego – fatalmente –, ao mesmo tempo em que este Estado tem de continuar mantendo a indústria dos favores. Com isto você cria uma nova divisão de classe social: os favorecidos, e os que pagam para os favorecidos. Aqui se diz que a diferença entre os americanos é a seguinte: há uns que assinam o cheque na frente, e outro assina nas costas – endossa para receber o cheque. É claro que uma metade vai odiar a outra. Cada um sente que está trabalhando para sustentar os outros. É como se nós fôssemos para o Alabama, paramos num posto de gasolina e lá um negão olhou para nós e ouviu a gente falar língua estrangeira e começou a fazer um discurso contra a gente: “Estes malditos estrangeiros vêm aqui para tomar os nossos empregos etc., e não pagam impostos.”. Ele tinha razão. Não se aplicava àquele caso específico, mas, de certo modo, ele tinha razão: “Eu estou aqui trabalhando, pagando meu imposto para sustentar estes vagabundos que chegam aqui e já entram na fila do Social Security.”. Na mesma medida, aumenta o quê? A criminalidade. E ela requer mais crescimento do Estado ainda, mas o crescimento do aparato policial não vai eliminar a criminalidade porque ela é fruto da própria crise que se torna crônica. E, acima de tudo, existe a posição ambígua do governante. Ele é eleito por uma parte que espera que ele faça a revolução – portanto que ele destrua a sociedade como está. E por outra parte que se espera que ele mantenha esta sociedade funcionando. Então, ele tem de agradar a gregos e troianos. E, evidentemente, isto só pode ser feito através da mentira sistemática – e, portanto, da confusão geral das consciências. Você pode deduzir isto do simples conceito de classe social, se você tomar o fenômeno classe social na sua inteireza, em toda a sua complexidade, em vez de reduzi-lo a um fator único, que é a posse dos meios de produção. Ou seja, tudo isto que eu estou dizendo agora era previsível. Em 1848, quando Karl Marx soltou o manifesto comunista, ele já podia ter previsto tudo isto, desde que ele tivesse obtido o seu conceito de classe social a partir da experiência viva da formação da classe social, e não a partir de um ato de abstração totalmente arbitrário. É por isso que eu digo: hoje em dia eu tenho procurado manifestações de inteligência humana onde eu veja este senso da realidade concreta – ao mesmo tempo operando junto com a capacidade abstrativa grande. Mas eu não encontro. E eu pergunto: por quê? Eu acho que um dos motivos disso é o establishment universitário onde, quando você entra, já encontra 20, 30, 40 professores te passando tudo pronto e nunca é obrigado a conhecer nada por si mesmo. Quando você vai estudar alguma coisa, leva todo o método que os caras te ensinaram e já vêm, de certo modo, com as conclusões prontas. Ou seja, você não tem pessoas que estejam vivendo dentro do corpo social, sofrendo junto com os outros e tentando compreender. A função da classe universitária não é tentar compreender, é manter sua posição no establishment universitário. [1:20] É uma função subjetiva, que só diz respeito a ela mesma. É aquela diferenciação do Zinoviev: em qualquer tipo de organização você precisa ter dois tipos de conhecimento: um que se refere às finalidades daquela organização – como, por exemplo, se você vai trabalhar numa fábrica de sabonetes, tem de entender alguma coisa de sabonete e da administração da fábrica etc.; a outra coisa é o sistema de conhecimentos que você precisa ter para sobreviver e subir dentro da hierarquia daquela empresa ou organização. Estes conhecimentos não têm nada a ver com as finalidades das organizações, e são mais ou menos os mesmos num partido político, numa igreja ou numa fábrica de sabonete. Só que quando a concorrência social é muita, esta segunda série de conhecimentos se torna mais complexa e mais exigente do que a primeira. Penso eu: o rapaz entra numa faculdade de ciência social ou de filosofia: o que ele vai aprender de ciências sociais ou filosofia é pouco em comparação com que ele precisa saber para sobreviver e subir dentro daquela escala. Então, quer dizer, a mente dele não está livre para examinar as coisas como são. E daí esta necessidade que diz o próprio Farah de criar instituições fora do establishment – que é exatamente o que eu estou fazendo há trinta anos. E não tenho outro meio de fazer. Então, quando ele fala em instituições, eu digo: “Ora, eu acho a palavra um pouco perigosa. Pois se nós nos institucionalizamos, nós entramos no mesmo sistema. Daí nós criamos aqui uma entidade, uma fundação, um instituto etc.”. Daí surge o seguinte problema: como que as pessoas vão crescer e sobreviver dentro desta estrutura? E daí os problemas de relacionamento, de conquista de favores, conquistas de simpatias, começa a se tornar um segundo corpo de conhecimentos que o sujeito tem de adquirir – e isto complica toda a guerra. É por isso que entre estes milhares de alunos que nós temos hoje, eu digo: o coeficiente de organização que nós temos já é suficiente, não precisa mais – não precisa institucionalizar. Assim está bom. Nós não somos uma instituição. Nós somos o quê? Somos uma rede de pessoas e de indivíduos independentes que estão preocupados como as mesmas coisas, e que, sobretudo, não têm satisfações a prestar uns aos outros do ponto de vista institucional. Então é a livre convivência entre os estudiosos, é, por assim dizer: é o grupo de amigos. E, se você estudar historicamente, você vai ver que toda história de florescimento cultural foi sempre criada assim: por relações informais entre pessoas que tinham interesse em saber a mesma coisa, e que não tinham de apresentar uma tese no fim do ano, não tinham de disputar notas, não tinham de puxar saco do professor, não tinham de disputar cargo etc. – foi assim. Que cargo Newton estava disputando com Leibniz? Nenhum. Eles estavam simplesmente trocando idéias: um achava isto; o outro achava outra coisa. E foi por isso que conseguiram fazer alguma coisa. Que cargo estava disputando São Tomás de Aquino com São Boa Ventura? Nenhum. Eles eram monges, pessoas que tinham de desistir da vida mundana – eles não queriam mais nada. Só queriam o conhecimento. É só quando o puro amor ao conhecimento – e não amor ao conhecimento no sentido estético ou diletante –, mas a necessidade ética de obter o conhecimento para entender o que está acontecendo. Só quando isto junta as pessoas, é que pode sair alguma coisa de bom – e é exatamente o que nós estamos fazendo aqui. Vamos fazer uma pausa e daqui a pouco a gente volta. Então vamos lá. O aluno pergunta: Aluno: Ele diz que numas aulas atrás eu mencionei a frase de Napoleão de que: “Napoleão Bonaparte dizia que se faz uma revolução com três coisas: dinheiro, dinheiro e dinheiro (...)”. Olavo: E ele não disse uma revolução, mas uma guerra, que é uma coisa completamente diferente. E daí ele diz: Aluno: (...) Nós todos sabemos que Lênin e seus revolucionários foram levados à Rússia em março de 1917 pelo Reich de Guilherme II. Sabemos ainda que Trotsky e seus duzentos revolucionários profissionais foram levados de Nova York para Rússia com passaporte americano e dinheiro de Wall Street. O Wall Street caiu no conto do vigário dando dinheiro aos bolcheviques ou o fato de que Lênin e Trotsky eram agentes do Wall Street no comando operacional de mais um dos experimentos da assim chamada New World Order? Olavo: Bom, não é uma coisa nem a outra. Este pessoal do Wall Street que já estava constituído como uma elite autoconsciente – na época bastante organizada –, tinham seus próprios planos, que eram mais ou menos na linha do socialismo fabiano. E acreditavam que a revolução russa poderia se integrar nisso aí de alguma maneira. Então, eles poderiam usá-la para chegar a seus próprios fins. Do mesmo modo que os comunistas também achavam que podiam usar este pessoal do Wall Street para os seus próprios fins. Na verdade, era uma concorrência entre dois esquemas globalistas – concorrência que continua até hoje. Concorrência que, às vezes, é conflito e às vezes, colaboração – é uma história muito complicada. Aluno: O senhor poderia nos explicar a teoria tridimensional do direito elaborada pelo Miguel Reale? Olavo: Olha, explicar aqui, brevemente, não dá. Mas, em suma, o que ele tentou foi unificar três aspectos do Direito que estavam sendo investigados separadamente. Dentre as várias definições do Direito, umas enfocavam, sobretudo, o Direito como norma. Como, por exemplo, Kelsen. Outros enfatizavam mais a relação íntima de Direito e moral, portanto enfatizando os valores. E, por fim, outros enfatizavam mais o Direito dentro da sociedade como a perspectiva sociológica, portanto, como fato de ordem social. E o Miguel Reale, ele teve esta intuição de que o Direito era justamente uma dimensão que estava na intercessão dessas três dimensões, inseparavelmente. O que quer que pudesse ser estudado só por um desses ângulos não era o Direito, mas era justamente a síntese inseparável de norma, fato e valor, que constitui a dimensão do Direito. Eu acho que este foi uma das grandes sacações da história da filosofia universal. Aluno: Como o senhor falou em Filosofia como meio de orientação do indivíduo no mundo, quero perguntar sobre isto. Além de Platão e do senhor mesmo, existe o livro de Karl Jaspers a fim se conseguir, por assim dizer, uma orientação filosófica na vida. Olavo: Bom, o Karl Jaspers é um homem de uma competência extraordinária, duma erudição filosófica monstra, monstruosa. Mas se você quer uma filosofia como uma orientação mesmo na vida, eu sugiro que você leia o Dietrich von Hildebrand, O que é Filosofia. Aluno: Interessa-me o assunto do simbolismo corporal, principalmente se for relacionada à dança. Mas também gostaria de estudar a simbologia dos órgãos humanos. Procurando algum livro que me desse uma orientação geral sobre o assunto encontrei o Le Symbolisme du Corps Humain de Annick de Souzenelle. O senhor o recomenda? Olavo: Sim, não é mau livro. O livro que eu sugiro, acima de tudo, é o da Mary Douglas: Símbolos Naturais. E também o nosso antropólogo brasileiro Luís da Câmara Cascudo escreveu uma série de estudos muito interessantes sobre órgãos do corpo humano – são estudos que estão separados, que você precisaria colher na obra dele, não existe um livro específico sobre isto. É sobre a mão, o pé, o olho etc. Ele fez vários estudos muito interessantes sobre isto, mas eu vou procurar mais. Aluno: Sou seu aluno há quatro meses do Curso Online de Filosofia e estou impressionado com a densidade dos conhecimentos verdadeiros que toda a filosofia cria. Estou na aula 90, e apesar de ainda ter muitas dúvidas sobre as formas corretas de se interpretar diversos assuntos, eu quero adiantar a possibilidade de uma resposta com relação à obra do compositor erudito Elomar Figueira de Melo, a obra dele é essencialmente cristã e simples – como ele mesmo diz: “Nos sertões as pessoas ainda vivem moralmente como na Idade Média.”. Olavo: Eu sei que a obra dele é muito interessante, mas eu a conheço muito pouco. Eu sei que é uma coisa de muito valor, mas eu sinceramente não sei [1:30] o que fazer com ela. Eu precisaria ouvir mais, estudar mais. Ele me dá aqui um link – que agradeço. Prometo que vou prestar atenção. Aluno: Algum tempo atrás pesquisei alguns livros sobre história da psicologia, porém, invariavelmente os tópicos dos livros são os mesmos: filosofia, Darwin, estruturalismo, gestalt, behauviorismo etc. Olavo: É muito difícil, eu não conheço nenhuma, já procurei alguma obra de história da psicologia que fosse mais abrangente, mas também não encontrei. Neste caso, nós mesmos que temos de reconstituir mentalmente a história, partindo daquilo que eu disse no curso da Auto-Educação: 1º) Estude a cronologia de tudo que aconteceu: sabendo de todas as datas, de tudo, para você fazer até um esquema – data e lugar. Mas ainda vou procurar mais. Aluno: Quando estava lendo o seu livro Filosofia e o seu Inverso, me chegou o livro de Michele Federico Sciacca, Filosofia e AntiFilosofia, o que o senhor me diz dele? (...) Olavo: É um livro excelente, excelente – é uma maravilha este livro. Aluno: (...) E de que forma Santo Agostinho o influenciou na elaboração do seu livro? Pegando um gancho da aula: até que ponto o estudo do Santo Doutor pode combater a crise da Igreja? Olavo: Olha, eu não sei. Eu não sou um conhecedor profundo do pensamento de Santo Agostinho como um todo. O que me influenciou muito foi o livro Das Confissões, por esta conexão íntima que ele cria entre a busca da verdade filosófica e o ato da confissão, da sinceridade. Isto eu acho que é alguma coisa básica, onde o aspecto científico da filosofia e o aspecto mais pessoal, confessional, estão ali unidos de modo inseparável. Eu acho que isto é um achado, e depois de Santo Agostinho ninguém tem desculpa para não fazer isto. Aluno: Pelo que entendi, a sabedoria do coração seria, por sua própria natureza, muda ou pré-lingüística. No entanto, precisamos do exercício da linguagem para nos humanizar. Podemos pensar nos exemplos de pessoas submetidas a estados de privação lingüística, ainda que depois sejam colocados em um ambiente social civilizado, jamais se humanizam. Isto mostraria a complementariedade entre as duas dimensões explicadas pelo senhor durante a aula, isto é, a sabedoria é mais profunda, que opera sobre a modalidade mais rápida e eficiente que é o conhecimento verbal, conseguido de forma muito mais demorada. Olavo: Sem sombra de dúvida, não temos como escapar nem de uma nem da outra. Você tem toda a razão. Esta complementaridade, ela existe, e o exemplo que você dá eu acho que funciona neste aspecto. Muito bem: hoje estou meio cansado e eu vou parar por aqui mesmo, não vou responder mais perguntas, mas eu estou para entregar a vocês uma lista de temas que eu gostaria de ver estudados nos trabalhos que vocês vão fazer. Em geral, são temas relativos à história e à cultura brasileira. E temas que eu acho que precisam ser investigados de alguma maneira. Claro que alguns têm interesse, muitos já me enviaram até alguns projetos de trabalho. Mas há muita gente que não escolheu tema nenhum e está livre, então, vou entregar algumas dicas para vocês de temas que eu considero úteis e urgentes e que eu jamais terei tempo ou energias para elucidar todos estes problemas. Então até semana que vem. E muito obrigado. Transcrição: Kênio Barros de Ávila Nascimento. Revisão: Antonia Javiera Cabrera Muñoz.