Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 178 03 de novembro de 2012 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Desejo nesta aula aprofundar tema sugerido nas aulas passadas, que mencionei também no meu programa de rádio, a respeito de algumas discussões ocorridas no Concílio Vaticano II, em que tinha observado que as duas posições, as duas correntes — que chamaremos como eles denominavam a si mesmos —, progressistas e conservadores, se enfrentaram como numa justaposição, quer dizer, numa oposição mecânica, em que a cada nova proposta dos progressistas os conservadores opunham a doutrina tradicional da Igreja simplesmente dizendo: “Isso que você propondo está contra a doutrina tradicional” — que nem era uma coisa necessária de se informar porque os progressistas estavam perfeitamente cientes disso. No entanto, todas as propostas dos progressistas se baseavam em análises sociológicas, históricas, psicológicas etc., perfeitamente defensáveis de um ponto de vista acadêmico naquela ocasião. E me surpreendeu muito o fato de que não existisse uma verdadeira discussão; houve apenas uma oposição: um sujeito diz uma coisa e o outro lhe opõem um não, e fundamenta essa negativa na doutrina tradicional da Igreja. De maneira que não houve efetivamente nenhuma troca, nenhum intercâmbio, ocorreu apenas uma confrontação, por assim dizer, física: um sim e um não. E no final tudo acabou sendo resolvido na base da votação, evidentemente. Tudo se transmutou num conflito político no sentido de Carl Schmitt: onde não há possibilidade de um diálogo racional, então só resta partir para a contagem de cabeças: quantos amigos e quantos inimigos. E foi assim que tudo se resolveu ali. Lendo, no livro do Roberto de Mattei, os pronunciamentos da ala conservadora, vi que tudo o que disseram ali, praticamente tudo, já estava dito anteriormente. Sobretudo, na Encíclica Humani Generis de Pio XII e nas obras do cardeal Louis Billot, um gigante intelectual do conservadorismo, que, nos anos 30 e 40, já tinha impugnado todas aquelas teses. Ademais, essas mesmas teses já estavam impugnadas desde 1864, no Syllabus de Pio IX. Tudo o que os bispos conciliares conservadores fizeram foi repetir o que Pio IX, Pio XII e o cardeal Billot haviam dito anteriormente. Se fosse para isso, podia-se tê-lo feito por correspondência, era só trocar papéis, não precisavam gastar um dinheirão para reunir todo mundo em Roma. E, evidentemente, no momento em que a questão se transmutou num conflito político, quem saiu ganhando? Aqueles que tinham a mentalidade mais política, isto é, os progressistas que já foram preparados para isso com a idéia mesma de dar um golpe de Estado. Partindo desse tema, que inclusive mencionei no programa, seria conveniente aprofundar o exame desta questão por dois lados: primeiro, pela diferença de enfoque quando se analisam certos problemas do ponto de vista da moral e quando a análise parte do ponto de vista psicológico. Nós vemos que a articulação dessas duas coisas é enormemente falha, e, sobretudo, foi falha durante o Concílio porque os progressistas vinham armados de toda psicologia do mundo e os conservadores lhes opunham uma doutrina moral que não tem absolutamente nada a ver com a história e que não responde efetivamente às postulações dos progressistas. Vou dar um exemplo muito interessante como exercício para nós. Um dos temas levantados no Concílio pela ala progressista foi o da superpopulação. Não sei se esse pessoal já tinha algum contato com Fundação Rockfeller, mas apareceram lá vários bispos alertando para este problema. Do fato da superpopulação eles tiravam uma conclusão de ordem doutrinal: a procriação tinha de deixar de ser a finalidade prioritária do matrimônio e teria de ser mais enfatizada a união do casal em si mesma. É claro que tirar uma situação doutrinal de uma situação de fato já não é muito legítimo. Mas também não creio que seja legítimo opor um mandamento moral a uma situação de fato. O mandamento moral não responde a situação de fato, as coisas se colocam em planos totalmente diferentes. Como foi possível essa confusão? O que está faltando na mente desses debatedores para que o princípio moral tradicional possa continuar vigorando depois de integrado nele o reconhecimento da situação de fato? Se você opõe um mandamento moral à situação de fato, pode ter certeza que a situação de fato ganhará. Contra fatos não há argumentos, dizia Santo Tomas de Aquino. Se realmente o problema da superpopulação fosse tão dramático quanto esses camaradas diziam, de pouco adiantava alegar que a finalidade do matrimônio é a procriação porque esta teria se tornado uma coisa inviável e até perigosa. De fato não é assim, falta muito para que nós cheguemos a este ponto. Examinando a argumentação conservadora, encontramos o seguinte: aqui, por exemplo, tem uma alocução, vários cardeais falaram contra essa proposta, e aqui tem o cardeal americano Brown, que disse o seguinte, repetindo o Magistério da Igreja: “O fim primário da obra Finis primarius operis, como se diz, é a geração e a educação dos filhos. O fim secundário é duplo: a) a ajuda mútua ou os serviços recíprocos que se dão os esposos na sociedade doméstica; b) o remédio da concupiscência. Mas é preciso ainda dar uma atenção ao amor conjugal (quer dizer, dizem os opositores, que é preciso conceder um lugar a um amor conjugal). Sem duvida, mas para dar-lhe um posto, é preciso distinguir entre o amor de amizade, segundo o qual a pessoa quer e procura um bem para o seu amigo como a outro, e o amor de concupiscência, segundo o qual ele quer e procura um bem para si mesmo. O curso natural das coisas faz com que, na vida conjugal, quando um dos esposos é dominado pelo amor sensível de concupiscência, o seu amor de amizade diminui em igual medida”. Eu digo: muito bem, essa distinção é muito clara no plano da doutrina moral. Porém, a doutrina moral é geral e universal; ela vale para tudo e para todos. Essa distinção vale universalmente, independentemente das situações concretas. Porém, suponha, por exemplo, numa relação sexual, onde termina o amor de concupiscência e onde começa o amor de amizade? Isso é absolutamente impossível de distinguir porque uma coisa se transforma na outra e a outra na primeira continuamente. Ou seja, psicologicamente é muito difícil fazer essa distinção. No século XIX, Herbert Spencer falava dos sentimentos ego altruístas, em que, quando se visa o bem a outro, você está automaticamente e no mesmo ato visando um bem para si mesmo, e vice-versa. E podemos lembrar ainda de Santo Agostinho que dizia: “as virtudes são feitas da mesma matéria dos vícios”, ou seja, a transformação de um impulso no outro é a realidade concreta não só da relação conjugal, mas de muitas outras relações humanas. A simples oposição à proposta de uma nova doutrina matrimonial - exposta pelos progressistas – por meio da evocação da doutrina tradicional, que distingue o amor de concupiscência do amor de amizade, realmente não responde ao problema. Também não faz sentido dizer que a crise matrimonial contemporânea vem do simples abandono dos princípios cristãos, porque a conduta efetiva não é determinada diretamente por princípios, mas por impulsos, desejos etc. O problema é saber como que uma coisa se encaixa na outra e como se transfigura o impulso à luz do princípio, como se ilumina o impulso pelo principio, e não simplesmente opor uma coisa à outra, porque não estão no mesmo plano. Um princípio não pode estar no mesmo plano dos fatos. E, quando um dos partidos enfatiza os fatos e o outro enfatiza os princípios, o que está acontecendo? Os princípios estão sendo nivelados aos fatos. O que seria preciso fazer? Reconhecer algo que o próprio Pio XII já havia ressaltado na Humani Generis, quando ele diz que muito dessas teorias novas, liberais, modernistas etc. têm a sua parcela de verdade. Seria preciso então captar essa parcela de verdade e transmutá-la dialeticamente para mostrar como ela reafirma aquilo que está na doutrina, ou seja, que essa distinção do amor de concupiscência e o amor de amizade continua válida moralmente mesmo nas situações em que seja empiricamente difícil de se distinguir uma coisa da outra. Mas aí surge outro problema que não vem do Concílio, mas da psicologia do século XX. E esta confusão de algum modo se infiltrou nas discussões conciliares — e em muitas outras discussões contemporâneas —, e é uma confusão que continua na mente de todo mundo. Vamos formular da seguinte maneira: o ser humano nasce com um feixe de instintos egoístas que aos poucos são transmutados em instintos altruístas, ou instintos de amizade, pela educação, pela cultura, etc., ou esses dois impulsos existem desde o início? Essa questão é absolutamente fundamental. Porque se pela natureza o homem é apenas um ser concupiscente que tem que ser educado para se transformar num verdadeiro ser humano e aprender os valores da amizade, do amor ao próximo, etc. e etc., a coisa se coloca de uma maneira. E se você diz que o ser humano já é por natureza um composto onde existe este conflito e interação dos dois instintos no coração humano desde o início, então o tratamento do problema tem de ser outro completamente diferente. E curiosamente essa questão, que está na base do problema que os bispos estão discutindo aqui, nem apareceu por ali, então não foi efetivamente uma discussão muito lúcida, mas apenas uma oposição, no sentido etimológico da palavra “oposição” que é op-osição. “Op” quer dizer contra, posições contrárias. Se fosse só uma questão de posições contrárias, eu diria: elas já existiam antes do Concilio, continuaram existindo durante ele e depois dele. Na verdade, não houve concílio algum, não houve discussão alguma, houve apenas uma oposição. A verdadeira discussão ainda está para começar. Segundo o Dr. Sigmund. Freud, a primeira dessas teses é que é válida: o homem nasce apenas com instintos egoístas e depois, à força da autoridade social representada, sobretudo, pelos pais, é imposta ao indivíduo uma repressão, e entre o id - que é o conjunto dos impulsos básicos - e a exigência de fora imposta pela autoridade, o ego tem de se virar e arrumar ali um modus vivendi, havendo então vários modos de adaptação do ego a essa situação. Alguns desses modos são saudáveis outros são neuróticos. Desde que Freud colocou as coisas nesses termos, houve muita discussão entre os psicólogos da linha psicanalista, sobretudo quanto à natureza desses impulsos básicos egoístas. Alfred Adler, por exemplo, dizia que os impulsos básicos não são de natureza sexual, mas sim um desejo de poder. Ele havia lido Nietzsche, foi muito influenciado por ele. Adler acreditou então que o desejo de poder é o instinto básico e que, portanto, se trata de trabalhá-lo, modificá-lo e modulá-lo, no curso de sua existência. Não é o impulso sexual, mas o desejo de poder que tem de encontrar canais viáveis, canais de socialização que tornem aquele indivíduo socialmente possível. Lipot Szondi vê a coisa de uma maneira mais complexa, como uma constelação de impulsos básicos, todos evidentemente de natureza irracional, mas de algum modo trabalháveis, através da atividade consciente do ego, o que ele chama de ego pontifex, isto é, o ego é aquela instância onde se dá o diálogo entre os vários impulsos contrários. O mundo do Szondi é muito mais elegante do que o do Freud, porque ele vê que você já tem impulsos contraditórios. Por exemplo, você tem, é claro, o impulso sexual, o impulso de agressão, até um impulso assassino, mas você tem impulso social também, um de contato, um de autopreservação e um de autotranscendência — tudo isso já está na constituição do ser humano. E ele compara esse conjunto de impulsos como se fosse um palco giratório onde a cada momento um impulso toma a dianteira, mas é automaticamente reequilibrado ou controlado por um impulso contrário de maneira que o palco continua girando. E ele define a doença mental como se uma quebra do motor que gira o palco, quando então um impulso se torna dominante e sufoca os demais. A descrição que ele coloca dos impulsos, embora seja mais completa e mais sofisticada que a do Freud, ainda insiste no tema de que a transformação desse feixe de impulsos numa criatura socialmente viável é obra da cultura, da educação e, diz ele, sobretudo das escolhas. O ego faz as escolhas e as escolhas moldam pouco a pouco o destino, podendo primeiro socializar e depois humanizar os instintos, de modo que o esquema continua mais ou menos o mesmo: a base é um negócio chamado instinto e os valores e os princípios são coisas que vem de fora. Todas essas psicologias que mostram o homem como basicamente um feixe de impulsos, que é depois trabalhado, atenuado, modificado e melhorado pela cultura, deixa sempre no ar a seguinte pergunta: como pode ter começado a cultura? Se todos somos seres instintivos e se a cultura sempre se opõe aos nossos instintos então deve ter havido um primeiro sujeito que contrariou seus próprios instintos. Mas ele contrariou seus próprios instintos em nome de um instinto ou em nome de outra coisa misteriosa que não sabemos o que é, o que poderia ser, digamos, um apelo divino, uma intervenção extraterrestre ou qualquer coisa assim? E esse problema continuou sem solução. Carl Jung percebeu mais ou menos que o problema existia e não aceitou a idéia de dividir o ser humano numa parte obscura e numa parte clara, ou seja, uma parte instintual subconsciente e uma parte refletida consciente que seria portadora de todos os valores da cultura, etc. e etc. Ele achava que o centro mesmo da consciência estava no subconsciente, então havia uma parte luminosa no fundo do próprio subconsciente que se poderia chamar o eu ideal que está contido ali no fundo e que busca se realizar na vida. No entanto, o fato é que, na prática, os próprios analistas junguianos continuavam raciocinando em termos de uma parte obscura e uma parte clara. A distinção de inconsciente e consciente correspondiam ainda ao obscuro e ao claro, ainda que admitindo que no fundo da escuridão do subconsciente havia uma luminosidade maior que poderia refletir até idealmente, segundo Jung, a imagem de Deus no homem. A coisa se torna um pouco mais esclarecida quando o psicólogo suíço Paul Diel, com os estudos sobre o simbolismo na mitologia grega e sobre o símbolo de Deus nas várias culturas, descobre que no universo dos sonhos e dos símbolos do inconsciente está dada de algum modo uma legislação moral implícita, de modo que as forças atenuantes e civilizadoras não são coisas que vêm de fora para o ser humano, mas que já estão dadas pelo menos em germe no próprio mundo do inconsciente. Também, paralelamente, aparece o psicólogo russo-italiano Igor Caruso, com a idéia de que a consciência moral é um elemento instintivo e básico no ser humano e que, longe de o processo formador das neuroses ser a repressão dos instintos pela consciência moral, é o contrário: a repressão das exigências básicas da consciência moral é que geram as neuroses. A coisa estava indo mais ou menos nesse pé. Também Victor Frankl não modifica os termos da equação com a idéia do sentido da vida. Ele acredita que o sentido da vida é uma coisa que existe objetivamente e que há um sentido da vida para cada um, portanto esse sentido da vida é estrutural, ele é permanente no ser humano, nasce com o homem e tem de ser descoberto, pois não é inventado. Ora, se o sentido da vida é inerente ao ser humano, então evidentemente ele só pode ser inconsciente e o curso da vida é descrito como a transmutação de um sentido de vida que está inconsciente para um sentido de vida que é conscientemente aceito e que daí para adiante se torna a linha-mestra da existência do indivíduo. Então as coisas estavam neste ponto. Vou mostrar aqui alguns livros Importantes. Os livros do Paul Diel infelizmente sumiram da minha biblioteca, não sei onde estão. Nesse desenvolvimento, também foi interessante a contribuição do Milton Ericsson, quando descobriu a comunicação não-verbal. Ele mostra que, para baixo da comunicação consciente na qual o indivíduo se reconhece, existe outra racionalidade escondida que opera de uma maneira muito rápida e sutil e que se transmite através de olhares, de gestos, etc. e etc. Então existe todo um vocabulário de gestos, de posições, etc. e etc., de tal modo que, quando o indivíduo está dizendo uma coisa verbalmente, ele pode estar dizendo outra por baixo, e essa outra coisa que ele diz por baixo atinge o seu interlocutor, de maneira que há sempre dois discursos paralelos, tanto quando falamos para os outros como quando para nós mesmos. Tudo isso reflete certa insatisfação de toda a psicologia do século XX com o seu ponto de partida, que foi a distinção feita por Freud entre o consciente e o inconsciente. Algumas pessoas reclamaram; argumentaram que o inconsciente não é somente uma lata de lixo, não é somente a parte animal do homem porque se, quando nascemos e está tudo inconsciente, tudo ali são apenas elementos instintivos animais, então a própria transformação desse ser instintivo no ser humano continua sendo algo absolutamente inexplicável, a não ser que você atribua a um universal abstrato, que é a sociedade ou a cultura, uma ação efetiva sobre aquele indivíduo. Freud tem o mérito de ter descoberto que existe uma psique inconsciente, mas esse conceito do inconsciente continuou obscuro durante praticamente todo o século XX, levando algumas escolas de psicologia ao desespero e à medida radical - como fizeram os behavioristas - de ignorar completamente o inconsciente, argumentar que não precisamos observar isso; temos apenas de ver a conduta e modificá-la. Ou seja, a conduta é consciente e a modificação da conduta também é consciente, então esqueça o conceito de inconsciente. Porém, a existência do inconsciente continua inabalável. Como dizia Dr. Gérard Mendel - um psiquiatra francês, quem, durante anos a fio, assistiu pacientes no divã - existe um treco chamado inconsciente, que é uma força terrível e enormemente astuta, que engana o paciente e o próprio psicanalista mil vezes. De uns tempos para cá, começaram a aparecer descobertas muito interessantes. Uma delas foi este aqui: Malcolm Gladwell, Blink – o poder do pensar sem pensar. Vocês devem se lembrar daquela aula sobre o teste com os dois baralhos, em que uma espécie de pensamento não-verbal, pensamento táctil, funcionava de maneira muito mais rápida e muito mais eficiente do que o pensamento refletido. O motivo era muito simples: é porque uma dessas formas de pensamento operava com os próprios objetos e outra operava com a sua representação na mente, ou seja, uma fazia uma operação e a outra fazia duas e era naturalmente mais lenta. Ora, se existe esta possibilidade do pensar sem pensar, quer dizer, este raciocínio que está implícito até no toque, na visão, na audição etc., tudo isso se dá de maneira inconsciente. Não totalmente, é lógico, mas se dá de maneira tão rápida que é imediatamente esquecida. É a mesma coisa que dizer que a parte melhor e mais eficiente da nossa inteligência é rápida demais para a nossa consciência, ou seja, somos seres brutalmente inteligentes, mas não temos consciência disso. Então imediatamente o conceito do consciente e do inconsciente muda 180 graus. Quer dizer, em vez de você ter um feixe de impulsos obscuros e incompreensíveis, por um lado, e, do outro a luz da inteligência e da consciência que ilumina isso, não. A luz da inteligência já está dada no inconsciente e consciente é que é estúpido e lento demais para poder perceber o modus operandi dessa inteligência mais rápida. Em seguida apareceu nos EUA um psiquiatra chamado Robert Langs. Ele estava um dia conversando com uma paciente que estava com problemas matrimoniais, e ela disse: “Talvez o senhor você devesse conversar com meu marido, talvez se devesse fazer aqui uma sessão a três”, e insistiu pra que ele fizesse isso. Ele não queria, mas ela insistiu. Mas aí continuou a conversa, e ela contou várias estórias - que não tinham nada haver com o problema - de pessoas que interferiam na vida alheia, na vida de um casal, por exemplo. E a intervenção de um terceiro provocava um desastre, fazia dar tudo errado. Ela contou uma estória assim, duas, três. Quando chegou à terceira, o Dr. Langs falou: “Opa! Você está me dizendo que chamar o seu marido aqui não vai dar certo. Ou seja, de boca você disse uma coisa, mas as estórias que você está contando mostram que um é pouco, dois é bom, três é demais!” Então ela estava dizendo realmente o contrário do que havia dito. Comentando isto, um discípulo do Dr. Langs, Andrew Rogers, que escreveu um livro maravilhoso chamado A Confissão de Obama: conta a estória de um amigo que lhe pediu um conselho a respeito de um novo emprego que lhe tinham oferecido numa firma de investimento, num outro estado, e no qual ele ganharia muito dinheiro etc. Mas ele temia o sujeito que seria sócio dele nessa empresa, pois era um camarada muito problemático e imprevisível. Ele dizia: “Eu só tinha medo disto”. E o Dr. Rogers disse: “Como você é um sujeito meu amigo, nós convivemos há muito tempo, eu não posso atender você como seu analista, mas posso lhe dar um conselho profissional”. E assim foi. Foram conversando a respeito daquilo até que o sujeito teve um sonho no qual um terremoto destruía a casa dele, e ele perdia toda a família. O sujeito evidentemente não relacionou uma coisa com outra, mas, quando foi para seu novo emprego, aconteceu exatamente isso: houve um terremoto, toda a sua vida foi destruída, ele perdeu tudo o que tinha, a mulher o abandonou, levou os filhos, foi uma desgraça total. E daí o Dr. Rogers observou: “Espera aí, isso aí é que estava no seu sonho, foi o que aconteceu. Quer dizer, você estava me dizendo uma coisa e o seu sonho estava lhe dizendo outra”. Mas foi muito depois. O Dr. Langs, a partir dessa observação, e depois o próprio Dr. Rogers, começaram a observar a facilidade que o ser humano tem de negar coisas que ele sabe perfeitamente bem. E ele nega porque sabe apenas numa linguagem narrativa ou de imagens, e não numa linguagem conceptual. Então ele dá um exemplo de quando era estagiário num hospital, muito novinho, e tinha um menino de 12 anos que estava com leucemia. E ele ficou lá tratando do garoto, mas não foi possível fazer nada, o garoto morreu. Então, na hora de comunicar para a família a morte do garoto, sobrou para ele, e ele novinho, sem experiência, chegou lá e explicou. Estavam vários familiares reunidos no hospital, ele disse: “Infelizmente o menino faleceu, nós não podemos fazer nada e tal”. E a mãe do garoto disse: “Doutor, o senhor deu algum remédio para tosse dele?” Ele repetiu: “Minha Senhora, o menino morreu”. E ela disse: “Mas o senhor deu o remédio para tosse, está dando o remédio para tosse”? Daí os outros familiares falaram: “Deixa aí, doutor, pode continuar com o seu serviço, vai trabalhar, que nós resolvemos isso aqui com ela”. Ele disse uma informação verdadeira, mas inaceitável para a mãe. Note bem, ela não podia ser inaceitável para a pessoa inteira, era inaceitável apenas para parte dela porque outra parte sabia que aquilo era verdadeiro. Você pode saber uma verdade num determinado plano, e ignorá-la ou negá-la completamente em outro. Então foi aí que o Dr. Robert Langs e o Dr. Rogers criaram esse conceito da inteligência mais profunda e começaram a estudar isso em milhares e milhares de casos e viram que era sempre assim: tudo que o sujeito não sabe, mas que precisa saber - não o conhecimento universal, mas coisas práticas - para tomar as decisões corretas na vida, ele sabe, mas por algum motivo aquilo é inaceitável para a parte que faz o processamento consciente no nível conceptual, verbal. Então apreender a verdade é uma coisa e representá-la mentalmente é outra. Voltamos então ao caso do baralho. A apreensão imediata é de uma eficiência brutal, porque opera diretamente com a realidade percebida, não há representação. E, no outro caso, você elabora uma representação, mas até transformar os dados diretos numa representação a coisa pode se complicar. Você sabe a verdade, mas não sabe processá-la conscientemente. O numero de casos coletados por eles nessa investigação é absolutamente monstruoso e mostra que a inteligência inconsciente é muito mais eficiente do que a consciente. Existe, por assim dizer, um instinto da verdade, nós nascemos com isso. Então o problema não pode estar no próprio inconsciente, mas na dificuldade de trabalhar isso em termos conscientes. Isto me remete de novo ao tema, que expliquei aulas atrás, do trauma de emergência razão. Ora, todos nascemos em situações que têm de ser elaboradas racionalmente de algum modo, ou seja, as situações são muito mais complexas do que qualquer animal jamais viveu. Esses problemas nos atingem, por assim dizer, fisicamente, realmente, desde que nós somos pequenos, mas, para poder elaborá-los racionalmente precisamos adquirir os instrumentos da razão, principalmente a linguagem. E esta aquisição é demorada e complexa, porque se trata de transformar a ordem dos fatos, a ordem dos dados, na ordem de sua representação lógica. E isto é enormemente difícil. Você imagina, por exemplo, as categorias da gramática: para poder raciocinar verbalmente ou conscientemente alguma coisa, temos de catalogar tudo segundo as categorias da gramática, as categorias da morfologia e da sintaxe. Temos de saber substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, preposição etc. e etc., temos de saber sujeito, verbo e objeto direto. É um sistema complicadíssimo. Ora, tudo isso para poder elaborar conscientemente dados cuja ordem e interconexão você já percebeu imediatamente, porque se não tivesse percebido ordem nenhuma, você não teria o que transmutar verbalmente. Se tudo que você percebesse fosse apenas caos, então a elaboração racional não seria uma simples tradução, seria uma criação. E seria absolutamente impossível. Então isto quer dizer que, na percepção direta, existe já ordem, sentido, organização, conexão e toda uma lógica interna, só que ela é percebida em modo concreto, diretamente nos objetos e fatos. Pode ser conservada na memória como imagem. Porém, para você conseguir elaborar isso ao ponto de poder comunicar, você precisa possuir todo um treinamento lingüistico-cultural enormemente complexo. E é isso que eu chamo o trauma da emergência da razão. Nós nascemos com a capacidade racional, mas a conquista dela é um negócio longo e problemático, e nunca suficiente. Tanto não é suficiente que na vida adulta continua acontecendo este fenômeno assinalado pelos doutores Langs e Rogers, de que nós sabemos e compreendemos perfeitamente certas situações muito complexas, mas que não conseguimos elaborar verbalmente ou conceitualmente. Só conseguimos elaborar, na melhor das hipóteses, narrativamente, porque neste caso estamos lidando com imagens diretas. Preste atenção: você tem três camadas: (a) percepção direta, que é mais veloz, você tem (b) a sua representação em imagens que se conservam na memória e você tem, finalmente, (c) a elaboração conceitual e verbal, que é a mais lenta de todas. A elaboração puramente narrativa, ou em imagens não é tão veloz quanto a percepção direta, mas é certamente mais veloz do que a elaboração conceptual. Por isso, esse mundo dos sonhos e das narrativas é ainda a via de acesso que a inteligência conceptual tem para chegar até a profundidade daquela percepção direta. O que essas experiências de Langs e Rogers mostram é que o ser humano é muito mais inteligente e perceptivo do que ele normalmente imagina. E existe também a interferência de outro elemento, quer dizer, não só existe uma diferença de velocidade que impede que a inteligência conceptual apreenda o que ela já sabe, mas existe também o fenômeno da resistência. Você pode ter desenvolvido, no curso de sua educação, certos valores, certos critérios, certas normas e um conjunto de convicções, e estes podem ir contra aquilo que você mesmo percebe. O simples problema da sinceridade é o conflito da conversão de uma linguagem enormemente veloz numa outra que é muito lenta, ao ponto de poder ser escrita. Isso evidentemente não é fácil. Note bem: se eu não sou capaz de acompanhar a velocidade das minhas próprias percepções, de reconhecer a verdade que eu mesmo percebi, como posso ser eu sensível à mensagem de Deus, que é muito mais rápida do que tudo isso? A resposta é: não posso. Quer dizer que se não existe uma ponte de intercomunicação entre a inteligência conceptual, verbal, e essa inteligência imediata mais profunda, muito menos haverá comunicação com a mensagem divina que é mais profunda ainda e muito mais rápida. Em face disso eu pergunto: o que a moral pode nos ensinar? Nada. Ela simplesmente vai nos colocar uma obrigação que não podemos cumprir porque não temos o aparato mental suficiente para cumpri-la. Nós vivemos no mundo da insinceridade, da mentira e do fingimento não porque que nós pessoalmente sejamos maus, mas porque há um defeito estrutural no ser humano — defeito que não é irremediável. Mas esse descompasso entre a inteligência imediata e a inteligência mediata faz com que, quase que fatalmente, cada um de nós caia na mentira, no fingimento, na hipocrisia e assim por diante. Então isso é universal. Então digamos: essa é uma marca do pecado original, é uma deficiência da espécie humana. Agora surge a seguinte pergunta: como é, do ponto de vista emocional, a relação que se estabelece entre a sua inteligência conceptual verbal e a sua inteligência mais profunda? Ou seja, você confia que, dentro de você, existe uma inteligência mais profunda que vai lhe dizer a verdade das situações sem você precise pensar; ou você acredita que está continuamente sendo enganado por ela? Em suma, você tem uma relação de confiança ou de medo em relação ao seu próprio coração? Porque isto nos remete ao antigo simbolismo, que é o da cabeça e coração. Isto que Langs e Rogers estão dizendo é uma coisa que já estava dada na velhíssima idéia de uma inteligência do coração, o coração entendido como núcleo do ser humano; e este núcleo sabe muita coisa: sabe da verdade de todas as situações que você vive, mas, ao mesmo tempo, só sabe aquilo dentro de você, numa região muito profunda e oculta dentro de você, quase inacessível ao seu pensamento conceptual. A não ser que esse pensamento conceptual, depois de já ter levado anos para aprender a falar, a dominar os códigos sociais, etc., reverta sobre si mesmo e descubra essa instância mais profunda, e aprenda a segui-la, reconhecendo aquilo que sabe. Esse é o segredo da sinceridade. Ou seja, o ser humano, na sua dimensão mais profunda, não tem a posse da verdade, mas ele tem a posse da sinceridade, sem a qual não há verdade. Outro dia, eu assistia, por exemplo, as conferências daquele do Dr. Ricardo Castañon — eu espero que vocês tenham visto —, médico boliviano. Ele era um sujeito ateu, mas começou a investigar certos fenômenos tidos como miraculosos, talvez no impulso de desmascará-los. Porém, entre outros inúmeros acontecimentos espetaculares que pontilharam a vida deste homem, ele foi chamado para examinar uma hóstia, que havia caído no chão durante a comunhão numa na Igreja e que o padre, seguindo-se então a norma tradicional da Igreja — quando a hóstia cai, é colocado num copo d’água para que se dissolva pois não se pode jogá-la fora, uma vez que , após a Consagração, se diz: “Ali esta o corpo de Cristo efetivamente”. E, se ela se dissolve e perde a sua forma, então já não é mais uma hóstia, apenas água. O padre colocou a hóstia no copo d’água e, passado alguns dias, foi ver e havia um líquido vermelho. Ele chamou o Dr. Ricardo Castañon, que examinou e viu que era sangue. Inconformado com o resultado, levou o líquido para um laboratório, primeiro na Austrália, depois na Itália e depois nos EUA. Procurem Ricardo Castañon no Youtube, tem várias conferências dele. Quando chegou ao último exame, ele procurou o Dr. Frederick Zugibe, o maior patologista cardíaco do mundo. Dr. Zugibe examinou aquilo e disse: “Isto aqui realmente são células do miocárdio de um paciente que sofreu muito, porque tem as marcas do sofrimento cardíaco aqui; o excesso de glóbulos brancos mostra uma reação a uma invasão, a um ataque. E a coisa mais absurda é a seguinte: no instante em que você colheu essa amostra, essas células estavam vivas”. Bom, isso é um fato, um fato da ordem física. Por que a nossa mente reage a isso? E por que tanta gente ainda assim não se persuade? Não é porque há uma resistência, porque uma crença impede. É porque esse fato é direto demais para poder ser processado pela nossa inteligência conceptual, ele só pode ser compreendido no nível da inteligência imediata. Mas se não temos acesso à inteligência imediata, muito menos teremos acesso a um fato da ordem divina que está clamando para que nós o enxerguemos. Isto quer dizer que essa dificuldade não provém necessariamente de uma má vontade individual, mas ela reflete novamente uma espécie de deficiência estrutural do ser humano. Para nós isso traz uma lição das mais óbvias. Se vocês se lembram do comentário que fiz ao texto do Romano Guardini sobre Sócrates, se lembram que o esforço do filósofo não era persuadir as pessoas nem provar nada logicamente, mas apelar ao testemunho dos seus ouvintes. Ele dizia as coisas e perguntava: “Agora vocês me digam se não é assim, se não foi assim com vocês também”. Esse testemunho esbarra evidentemente em duas camadas do problema da sinceridade: a primeira, a sinceridade para com os outros e, segundo, a sinceridade para consigo mesmo. Se a primeira pode ser obstaculizada por interesses, temores, preconceitos etc. e etc., a segunda é obstaculizada por essa diferença de ritmo e de velocidade e intensidade entre as duas inteligências a que estou me referindo. Voltando ao exemplo de Sócrates como fundador da filosofia, eu pergunto: qual é a função da filosofia? Fornecer provas e mais provas em favor de alguma doutrina? Ou, ao contrário, aplainar sempre que possível o trajeto entre a inteligência conceptual e inteligência imediata? Essa que tem sido a minha idéia aqui. É por isso que os alunos que freqüentam este curso se tornam efetivamente mais inteligentes e perceptivos e não simplesmente aprendem mais coisas de filosofia com o passar do tempo. E esta é a função da filosofia. A função da filosofia é criar filósofos, ou seja, pessoas que são o quê? Amantes da sabedoria! O que é um amante da sabedoria? É alguém que, em vez de ter medo e desconfiança em relação àquela inteligência mais profunda que está no seu coração, ele a ama, está aberto a ela. E, nessa condição, pode estar aberto também à realidade divina. Senão nada é possível. Depois dessa explicação, retornem ao que comecei dizendo sobre as discussões no Concilio e você verão como tudo aquilo foi enormemente tosco e primitivo no fim das contas. Eu digo: o que podia sair de bom daquilo? Absolutamente nada. É isso. Vamos fazer uma pausa aqui, daqui a pouco nós voltamos. [INTERVALO] Aluno: A partir da sua exposição, como poderemos compreender a literatura e as artes, uma vez que, por um lado, elas são uma elaboração intelectual, uma abstração, mas, por outro lado, estão totalmente voltadas para a experiência? Olavo: É mais que evidente que as artes são uma tentativa de mediação entre essa inteligência mais profunda e a inteligência conceptual refletida. E sem dúvida o treinamento na leitura, nas artes facilitará a compreensão disso. Se você souber ouvir as estórias e compreender a mensagens delas. Agora, note bem que, quando eles falam em estórias, tanto o Dr. Langs quanto o Rogers dizem que nessas estórias que você mesmo elabora nos sonhos ou até as estórias que você conta durante o dia a respeito do que aconteceu, em tudo isso existem mensagens, mas estas são só para você; elas se referem a situações concretas suas, de modo que de alguma maneira só você tem a chave disso. Clelton de Farias me manda dois projetos de estudo. Olha, pelo o que li aqui — só um pouquinho —, o negócio está excelente, mas não vai dar para eu tratar disso aqui porque tem 3 ou 4 paginas. Então eu sugeriria que você colocasse isso no Fórum do Seminário para discussão ou, melhor ainda, eu peço que você deixe isso para mais adiante, quando eu começar a analisar os trabalhos e propostas de trabalho. Porque eu ainda acho que é muito cedo até para discutir propostas. Aluno: Na palestra sobre o totalitarismo islâmico, Maomé, como estadista, foi um gênio absolutamente extraordinário. Mas se era assim, como é que ele não pensou sobre a própria morte, no que ia acontecer no dia seguinte? Porque logo que Maomé morreu, a sociedade islâmica já virou uma confusão, uma guerra de todos contra todos. Olavo: Eu não conheço um único estadista que tenha agido de maneira sábia para além da sua própria morte, nenhum faz isto. Agora, você não pode negar que o sujeito que consegue, ao longo de apenas vinte e oito anos, unificar centenas de tribos diferentes e transformar aquilo num império, é um governante de gênio. É impossível negá-lo. Eu não disse que ele era um legislador de gênio. Aluno: Estou no início do curso e tenho uma dúvida que pode parecer pueril, mas tem me dado o que pensar. Na aula 29, o senhor fala do livro Didascálicon de Hugo de São Vitor e se refere a maneira como se lia no passado, em voz alta ou mexendo os lábios, subvocalizando. Confesso que, para mim, a leitura movendo os lábios é lenta e fastidiosa, e então eu reservo essa modalidade para textos filosóficos ou outro de maior densidade. Para ler ficção, continuo adotando a forma silenciosa. (...) Olavo: Para ler ficção, você tem de adotar a forma silenciosa porque de alguma maneira você vai tentar visualizar as situações, e para isso, precisa ler com maior velocidade. Você mesmo encontrou a solução; se você lê à maneira antiga - apenas subvocalizando - textos de maior complexidade e quando você ler ficção faz a leitura muda, esta perfeito, é assim mesmo que se faz. Porque na ficção o que interessa não é tanto a formula verbal, por apenas remeter a acontecimentos reais e possíveis, terá que ser imaginado, táctil, o que é algo mais importante que o texto em si. Aluno: (...) Daí pergunto eu: é possível chegar ao mesmo grau de envolvimento e compreensão num texto, através da leitura silenciosa, como se chegaria lendo em voz alta e mexendo os lábios? Olavo: Você mesmo já encontrou a solução. Se você diz que só lê à maneira antiga, subvocalizando, textos que são de maior complexidade e, quando você lê ficção, você faz a leitura muda, então você já encontrou a solução perfeita. Exatamente assim que se faz. Porque, você veja, na ficção o que interessa não é tanto a fórmula verbal, você está lendo um texto que remete a acontecimentos reais ou possíveis, quer dizer, estes acontecimentos vão ter de ser imaginados. Então existe aí um elemento visual ou até táctil que é mais importante do que o texto em si. Aluno: Você poderia falar mais sobre o pecado original referido há pouco? Olavo: Eu não disse que isso é a marca do pecado original. Eu disse: isso é certamente uma das marcas do pecado original. Quer dizer, a impossibilidade ou a dificuldade que o ser humano tem de se comunicar consigo mesmo. Se ele não tivesse essa dificuldade, ele não teria dificuldade de ouvir a mensagem divina. O problema não está tanto colocado entre nós e Deus, mas entre nós e nós mesmos. Aluno: Ao ler o artigo “A família em busca da extinção”, fui levado a refletir não somente sobre esse assunto em particular, mas sobre o conservadorismo em geral. O que não posso deixar de notar, quando confronto o meu posicionamento político à minha situação existencial, é que parece haver um hiato intransponível entre ambas as coisas. Por exemplo, o valor das instituições intermediárias como anteparo ao individualismo atomístico, de um lado, e, de outro lado, ao estatismo. Parece-me algo evidente no plano intelectual, mas no meu caso não corresponde a nada de vivenciável na prática. Não consigo imaginar meios de compartilhar objetivos duradouros com a minha família, ao menos com a maior parte dela, nem de que modo poderiam revitalizar essas demais instituições intermediarias. Olavo: O fato de nós termos chegado a uma conclusão num diagnóstico histórico sobre como a destruição das autoridades intermediárias, das instâncias de poder intermediário, facilitou a ascensão do estado totalitário, não quer dizer que tenhamos um remédio para isso e muito menos que possamos viver esse remédio na nossa vida pessoal. Não, nós estamos falando de uma desgraça, de plano de escala mundial. Como poderíamos resolver isso na nossa escala pessoal? Isso é impossível. Essa divisão que você diz entre as suas convicções políticas e a sua vida pessoal, eu digo: você vai ter de viver nessa divisão e você vai ter que suportá-la. Isso não tem solução; tem arranjos. Mas é o tal negócio: a idéia de solução... Outro dia eu vi numa conferência do Thomas Soul, ele disse uma coisa maravilhosa: todo o problema dessa mentalidade revolucionária é que as pessoas acreditam que existem problemas e soluções. E acrescentou: “Não existem soluções, só o que existe é você melhorar um pouquinho uma coisa à custa de piorar um pouquinho outra coisa”. A vida sempre foi assim. Quer dizer, a perspectiva de solução, a própria idéia de um estado de equilíbrio paradisíaco, seja na nossa vida pessoal, seja na escala social, faz parte da idéia revolucionária. Ao passo que a concepção cristã tradicional é a seguinte: esta vida é um desequilíbrio, ela é um teatro do absurdo, e suas finalidades só se revelam e se cumprem na escala da eternidade, e não aqui. Recomendo um ensaio do Julián Marías chamado: “Mundo e Paraíso”. Aluno: Assisti a uma conferência do Roberto de Mattei sobre Concílio Vaticano II, onde ele cita o nome de Dom Helder Câmara, falando do relacionamento com os representantes da ala progressista. Poderia explicar o papel de Dom Helder em todo esse processo?(...) Olavo: Dom Helder teve um papel muito discreto no Concílio, muito discreto, mas muito importante. Ele se pronunciou pouco, mas ele era o grande articulador, era o camarada que reunia os sujeitos da ala progressista e foi um dos grandes forjadores da unidade dessa ala progressista durante o Concílio. Então foi um papel mais político do que outra coisa. Aluno: (...) O papa Bento XVI, ao manifestar o propósito de retomar os documentos do Concilio Vaticano II, tem alguma pretensão de corrigir ou pelo menos amenizar todos equívocos e distorções? Olavo: Obviamente tem. Agora se isso será possível fazer apenas mediante uma reinterpretação dos documentos conciliares, é o que veremos. A idéia dele é o seguinte: só valem as interpretações que forem coerentes com a doutrina tradicional da Igreja; no que se afastar da doutrina tradicional da Igreja, está errado. Isso é absolutamente inquestionável. Mas eu pergunto: se isso basta, porque se reafirmar a doutrina tradicional é uma coisa e usar a doutrina tradicional como instrumento para a compreensão das situações reais do presente e um instrumento para você encontrar caminhos da situação presente é outra completamente diferente? Foi isso mesmo que eu falei a respeito do Concílio: eles se limitaram a dizer que tais ou quais coisas estão contra a doutrina tradicional. Não precisava nem dizer, porque os caras que inventaram as novidades já as inventaram contra a doutrina tradicional mesmo. Então isso é a mesma coisa que você informar um comunista que ele é um comunista. E quando eu leio os documentos do pessoal católico conservador, vejo que eles, por uma compreensível reação emocional, ainda estão na pura e simples reafirmação da doutrina tradicional. Pouquíssimos são os que fazem um esforço de reinterpretar as coisas. O próprio Roberto de Mattei faz esse esforço. O simples fato de ele recontar a história do Concílio Vaticano II já é um esforço de compreensão. Eu acho que hoje vamos parar por aqui. Até a semana que vem, muito obrigado. Transcrição: Murilo Carlos Muniz Veras. Pré-revisão: Jussara Reis de Abreu. Revisão Final: Fernando José da Silva.