Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 172 15 de setembro de 2012 Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Desculpem-me pelo atraso, que espero que não se repita. Eu quero, hoje, voltar bastante e pensar novamente sobre as finalidades de todo este trabalho e sobre quais são as responsabilidades que uma pessoa assume pelo simples fato de estar assistindo a este curso. A ocasião desta explicação é fornecida por um aluno — cujo nome não vou divulgar neste momento1 — que organizou uma coletânea muito bem feita de textos meus, sobretudo dos textos que dizem respeito menos à situação política ou a temas filosóficos explícitos, mas que dizem respeito à existência humana nas condições do Brasil de hoje. É muito importante entender que uma cultura nacional não se faz apenas com belos trabalhos na área de filosofia, letras ou ciências sociais. Uma cultura nacional existe quando há uma espécie de diálogo existencial, isto é, quando há um número suficiente de escritores, filósofos, cientistas, artistas bem qualificados, capazes de um intercâmbio existencial, ou seja, de uma espécie de diálogo sobre o significado da existência humana naquele momento e naquele lugar. Nesse sentido não existe nenhuma cultura superior no Brasil, hoje. Outro dia um rapaz me escreveu dizendo que eu fui muito injusto com a USP porque lá há alguns filósofos de verdade, pessoas boas: tem o Rolf Kuntz que acabou de aposentar — o qual, aliás, é meu amigo —, tem o fulano e o sicrano, que fazem um belo trabalho. Porém fazem um belo trabalho universitário: são trabalhos especializados dentro de uma área que eles estão, mas não há diálogo cultural nesse sentido. Eu reconheço que existam essas pessoas. Inclusive, na lista dos nomes que o rapaz fornece, notei a falta do Rubens Rodrigues Torres que fez belos trabalhos sobre Schelling. Claro que existem essas pessoas altamente competentes, devotadas e sérias, mas o simples exercício das suas funções profissionais dentro de uma universidade não cria alta cultura. Falta muito para isso! Sobretudo o isolamento e a ignorância mútua impedem que exista esse diálogo. Por exemplo, o simples fato deste desinteresse nacional sobre a figura do Mário Ferreira dos Santos durante 30 ou 40 anos mostra que não existe alta cultura no Brasil. Onde existe alta cultura uma obra como essa não passa despercebida, porque ela tem uma importância real para as pessoas; afinal, é a vida nacional e é o conjunto da cultura sendo observado por uma inteligência privilegiada e por um homem de uma sinceridade e de um valor extraordinários. É claro que isso tem importância para as pessoas. Quando considerações de tipo meramente corporativo ou profissional, burocrático, predominam sobre isso, e as pessoas ficam discutindo se o sujeito é filósofo ou não porque tem diploma ou não, é porque a situação degradou-se. Meu Deus do céu, a que ponto nós baixamos! Sobretudo em um país onde todos os filósofos notáveis não tinham diploma — Mário Ferreira, Vicente Ferreira e Miguel Reale não tinham diploma de filósofo, ninguém tinha. Então por que levantar este problema? Por que discutir isso? É, evidentemente, por um interesse corporativo mesquinho da parte justamente das pessoas mais medíocres e tolas. Quando isso acaba predominando e vira um tema de interesse é porque a coisa baixou a um nível quase pré-verbal. Quando observamos a cultura brasileira de outras épocas, vemos que tudo o que qualquer autor fazia de interessante em qualquer área do conhecimento repercutia imediatamente em todas as outras, de maneira que as pessoas compartilhavam a experiência de ser brasileiro naquele momento e compartilhavam a preocupação sobre o que significaria ser brasileiro no contexto geral da história humana, dos valores universais etc.. Havia esta preocupação constante; ou seja, havia uma troca de experiências humanas. É como acontece, por exemplo, num grupo de psicoterapia onde todo mundo conta a sua experiência, mas as pessoas estão interessados na experiência do outro tanto quanto estão na sua própria. Isso inexiste no Brasil há muitas décadas; tornou-se impossível ou quase proibitivo. Na melhor das hipóteses, aquilo que se faz é julgado do ponto de vista dos interesses políticos de um determinado grupo. Por exemplo, o Ricardo Musse fez aquela resenha dos meus livros, que saiu na Folha de São Paulo. Ele é evidentemente um militante, um representante de um grupo que está examinando um discurso do adversário para ver em que isso pode ser útil para o seu movimento. Isso é o máximo que acontece no Brasil. Mas não vemos um sinal disso ao longo de toda a cultura brasileira até os anos 60. Ninguém fazia isso. E quem fazia era considerado apenas um militante, um sujeito de segunda ordem, que não fazia parte da grande cultura. Onde o interesse existente é o político-partidário, ele está fora da alta cultura, não faz parte da troca de experiências humanas. E, note bem, o que o Ricardo Musse escreveu a meu respeito foi a melhor resenha que se fez dos meus livros até hoje. Resenha, cá entre nós, de muito baixo nível, porque o sujeito lê dois livros meus e chega à conclusão de que “o interesse maior do Olavo de Carvalho é a crítica cultural”. Anos antes eu já tinha, numa apostila, explicado que a crítica cultural é o gatilho que dispara uma investigação filosófica, ela é apenas o começo. Então, evidentemente, a crítica cultural corresponde àqueles escritos meus que são mais populares, que são publicados em jornais, ou a coisas que eu disse no meu programa de rádio, e não a investigações de maior profundidade. Quer dizer, o indivíduo lê o cardápio e já acha que aquilo é o jantar inteiro. Há essa propensão quase automática, quase inconsciente, de reduzir os outros à medida, ao tamanho e à estatura intelectual do observador. Se o Ricardo Musse fez bem uma resenha direitinho, ótimo! Mas isso eu já fazia aos dezoito anos. Isto é, quando o sujeito estuda e chega a ser um líder intelectual, ele faz aquilo que eu conseguia fazer aos dezoito anos. Não estou exagerando, isso não é modo de dizer; aos dezoito anos eu fazia uma resenha tão boa quanto aquela, até melhor. Para hoje chegar nisso o sujeito precisa ter vinte anos de experiência como professor universitário. A situação cultural no Brasil é catastrófica e isto significa que a situação humana também é catastrófica, porque se você não pode sequer discutir a sua situação — não pode tomar consciência dela, não há palavras, não há vocabulário suficiente, não há uma linguagem suficiente para descrever a experiência humana de ser brasileiro —, então não é que você esteja numa situação ruim, é tão ruim que você não pode saber o que está se passando. Você está realmente em um estado de coma: o sujeito que está em um estado de coma não sabe o que se passa com ele, e quando ele começa a tomar consciência é porque ele saiu do coma, ele acordou um pouquinho. Não há como exagerar isso. E sendo essa a situação, não estranha que a situação social também seja [00:10] calamitosa: que nós tenhamos esses 50 mil homicídios por ano, que sejamos o recordista mundial do consumo de crack, que sejamos o recordista mundial de casos de depressão, e assim por diante. Será que ninguém vai se preocupar com isso? Eu respondo: não, ninguém vai. Por quê? Porque o Brasil, justamente nessas situações, torna-se ainda mais um país de pessoas amedrontadas que estão tentando salvar-se a si próprias da situação e buscando uma garantia, um empreguinho, uma proteção, algo assim. Todos são assim, sem exceção. Eu não conheço ninguém que não seja assim a não ser este que vos fala. Eu não sou assim; eu era assim 30, 40 anos atrás. Percebi que não poderia ser assim e mudei. Claro que todo mundo quer participar desse trabalho, acha bonito e se inspira por ele; mas quais são os critérios que orientam a sua vida? Você precisa entender que uma situação dessa exige atitudes heróicas, exige sacrifício total da sua pessoa — ou, como diziam os Founding Fathers, da sua pessoa, da sua liberdade, dos seus bens e da sua honra. Você arriscará tudo isso. Mas eu não conheço ninguém que vai arriscar tudo isso. Conheço pessoas que até querem participar do trabalho, mas quando se mexe com uma dessas coisas a pessoa aterroriza-se e começa a buscar outras soluções. Ou seja, o problema é grande demais para pessoas pequenas demais. Se você entende que a situação é essa e que não se trata de realizar a sua vocação, de encontrar a sua profissão, nem mesmo de desenvolver o seu talento, mas de intervir beneficamente em uma situação calamitosa, então você entende que tem de ser movido nesse sentido não por interesse cultural, nem pelo desejo de se realizar, nem pelo encanto que certos temas e elaborações despertam em você, mas por um ato de caridade, de compaixão. É isso que tem de nos mover. Nós temos de sentir pena desses milhões de brasileiros que estão sofrendo à toa sem entender o que está acontecendo. Nós não podemos resolver o problema — não temos o poder político, nem econômico, nem nada —, mas há uma coisa que podemos fazer: podemos restaurar as condições de um diálogo que permita a esse povo ter um pouco mais de clareza quanto ao que está acontecendo com ele, pois sem esta clareza não há esperança nenhuma. Não adianta vir com planos de restauração nacional, de segurança pública, de saúde etc. Tudo isso é besteira. Antes de fazer planos é preciso tornar-se capaz de fazê-los — capacitar as pessoas que possam discutir o problema. Essa é a única urgência que existe no Brasil; o resto é tudo besteira, é tudo derivação, é tudo perda de tempo. Então eu lhes estou convocando para uma obra de caridade. E quando o indivíduo entra nisso ele tem de entender que ali terá de sacrificar tudo. Ora, não cabe a mim, evidentemente, dizer o que você vai ter de sacrificar; não cabe a mim tomar decisões quanto a com que você vai trabalhar, como vai viver, onde vai morar, com quem vai se casar etc. Se eu tentasse tomar decisões desse tipo seria a mesma coisa que dizer que a gravidade da situação me subiu à cabeça, que fiquei louco e decidi criar uma seita. Então eu não tomo essas decisões e não gosto que me coloquem esses problemas pessoalmente. Quando o sujeito chega para mim e pergunta o que deve fazer, eu respondo que não sei, que ele deve resolver. Estou dando o critério geral no qual você deve se basear; quer dizer, não sou eu quem deve tomar essas decisões para você, mas você tem de tomá-las tendo em vista uma clara escala de valores. Eu vejo que a confusão moral na cabeça do brasileiro é tanta que eles não conseguem distinguir as coisas mais elementares. Por exemplo, vieram me falar a respeito da conduta de uma pessoa que, por causa dela, caracterizava-se evidentemente como psicopata. Não é preciso entrar em detalhes. Depois de terem descrito tal conduta vieram me cobrar que desse uma bronca naquela senhora. Mas querem que eu dê uma bronca em uma psicopata e faça com que se arrependa? Quer dizer, vêm-me me dizer que a pessoa é uma psicopata e portanto não tem sentimentos morais normais, em seguida exigem de mim que dê-lhe uma bronca, comova-a e faça com que se corrija. Isso é impossível! E notem bem que os que vieram cobrar isso de mim estão entre os mais inteligentes — ou seja, os mais inteligentes são muito burros moralmente. É menos difícil adquirir uma cultura literária e filosófica relativamente ampla que adquirir alguma lucidez na vida moral real. Sobretudo, eu vejo que as pessoas se corrompem quando, após terem tomado consciência da necessidade de voltar à religião, principalmente à católica, cristã de modo geral, acabam frequentando a igreja e pedindo orientação de modo geral aos padres. Eu não conheço um padre, com exceção do Padre Paulo Ricardo e de um outro padre americano que eu conheço aqui, capacitado a orientar quem quer que seja. Ou seja, participar desses grupos ou se envolver muito em uma paróquia é um risco que você está correndo. Então, evidentemente, quando o padre abre a boca você imagina que tem por trás dele uma igreja de dois mil anos e a autoridade do próprio Cristo. Você imagina, mas não sabe discernir que ele só tem essa autoridade no que diz respeito à doutrina tomada na sua mais ampla generalidade e à moral tomada na sua mais ampla generalidade. O que ele pode fazer por você? Ele pode repetir a doutrina — é isso o máximo que ele pode fazer. Quando chega na situação concreta, a autoridade do padre é igual à minha — ou seja, é nenhuma. Ele não pode lhe dizer o que fazer; ele também não sabe, e, em geral, os padres de hoje não sabem mais que ninguém — incluindo os padres da ala conservadora. Veja a confusão que está ocorrendo atualmente dentro dessa ala conservadora: uma parte quer reintegrar-se à igreja pós-conciliar e outra parte não quer. Então há aquela chuva de anátemas dos dois lados; é um espetáculo evidentemente decadente. Está na cara que essas pessoas não sabem o que fazer. Sobretudo não sabem o que fazer em relação à situação específica de vocês. O que são vocês? São estudantes brasileiros, dentro de uma situação social e cultural muito peculiar e que nenhum desses padres jamais estudou; eles não têm a menor idéia do que está se passando. Só quem estudou essa coisa fui eu, então estou fazendo o melhor que posso para dar uma orientação geral — não individual —, a mais pertinente e cabível nessa situação. Quando vim aqui para os Estados Unidos, fi-lo com a idéia de formar um grupo capaz de fomentar aos poucos a criação de uma nova camada de intelectuais no Brasil, consciente dessa situação e imbuída dos valores morais necessários para efetuar, mais dia menos dia, uma intervenção benéfica no panorama nacional. Uma intervenção que não é de natureza política, mas que é simplesmente um incentivo, um empurrão no sentido de despertar nas pessoas o senso de responsabilidade intelectual por essa situação. A responsabilidade intelectual consiste eminentemente num esforço brutal de entender o que está acontecendo e de explicá-lo da maneira mais clara possível. Esta é a função dos intelectuais: dizer para a sociedade mais ou menos o que está acontecendo e, mais ou menos, qual é o leque de escolhas que temos pela frente. Hoje em dia não há quem faça isso. Agora mesmo eu recebi um e-mail [00:20]. Vocês lembram do Luiz Felipe de Alencastro, professor de História do Brasil na Universidade de Paris e colunista da Veja, que assegurava que o Foro de São Paulo não existia? Onde está esse sujeito agora? Está no programa do Paulo Henrique Amorim. Ou seja, está trabalhando para o PT. Isso quer dizer que ele não disse aquilo por ignorância; ele era um colaborador do esquema: mandaram-no esconder e ele escondeu. E é isso que as pessoas fazem hoje no Brasil com o nome de curso de história, de atividade intelectual e assim por diante. O senso de solidariedade grupal e partidária dessa gente predomina sobre quaisquer mandamentos morais. O regulamento do PT está acima dos Dez Mandamentos, está acima da aritmética elementar, está acima da lógica, está acima de tudo! Ou seja, pelo sucesso do seu grupo eles farão tudo. Acontece que a vida brasileira, sobretudo a vida mental brasileira, está hoje entregue na mão dessas pessoas. E, quando vemos que a situação não pode ser assim, que precisa retornar a um mínimo de sanidade, espero sinceramente espero que os meus alunos entendam que foram convidados a um empreendimento que pode exigir deles uma mudança moral-existencial muito mais profunda do que podem imaginar num primeiro momento. Eu observo a evolução e o aprendizado dos alunos não pelo que eles dizem, não pelo que eles escrevem, mas pelas suas decisões na vida. Porque as decisões reais condensam tudo que o sujeito sabe. E se na hora de decidir ele apaga 80% do que sabe, para levar em conta só determinados pontos que são os mais atraentes ou os mais doloridos no momento, então significa que sua consciência não está à altura de seus conhecimentos. Conhecimento é uma coisa e consciência é outra; conhecimento é aquilo que você aprendeu, e consciência é aquilo que está diante de você nas situações reais da vida, ou seja, é o conjunto de referências que você tem para decidir na realidade. Então a consciência aparece nas decisões. Vou dar-lhes um exemplo. Quando fiz o estudo sobre Maquiavel, a minha pergunta essencial era a seguinte: qual é o horizonte de consciência do sujeito? Até onde ele enxerga e a partir de onde ele é cego? É evidente que tudo o que Maquiavel escreveu ele sabia, eram conhecimentos que ele tinha. Porém, para medir o horizonte de consciência é preciso comparar uma coisa com outra e é preciso ver se quando ele escreveu a página 30 ele ainda sabia o que escreveu na primeira, ou se aquilo foi apenas uma inspiração do momento que depois ele não levou mais em conta. Não se trata de buscar incoerências lógicas, porém de buscar incongruências reais, quer dizer, existenciais: coisas que o sujeito sabia e, de repente, deixou de saber. Deixou efetivamente, não apenas cometeu um erro. Buscar incoerência lógica é coisa de vagabundo, é ocupação de gente do Orkut. Mas quando você tem incongruência efetiva, e incongruência entre ações ou entre decisões, ou entre propostas de ação, então nesse caso o negócio é grave. O mesmo método que usei para o Maquiavel eu uso para observar a conduta das pessoas. Este curso não tem exames, eu não dou nota para ninguém. Então como é que avalio o progresso das pessoas? Uma boa maneira de avaliar é pelas perguntas que elas fazem — toda semana me mandam perguntas e eu vejo que elas têm melhorado muito; ou seja, elas revelam uma consciência maior da complexidade das coisas. Em duas linhas o sujeito formula a pergunta e eu vejo que, por trás dela, ele está consciente de uma multidão de fatores que se condensam, por assim dizer, naquele questionamento. Essa é uma maneira. A outra maneira é ver a conduta das pessoas quando está ao meu alcance. É claro que eu tenho de agir mais ou menos por amostragem estatística: porque eu vejo uns cinco ou seis e tenho de concluir a respeito de cinquenta; então a margem de erro é muito grande. Por isso não se trata de uma avaliação formal, mas apenas de uma informação que eu tomo para a minha própria orientação, e não para a orientação do aluno. E isso se refere, sobretudo, às bases da sua vida econômico-social. Eu sempre recomendo às pessoas que não se mexam muito socialmente, ou seja, não se preocupem muito com as dificuldades econômico-sociais do momento, mas tentem fazer o melhor possível na posição em que estão. Se você tem um emprego ruim, ainda que ruim possa ser ele, você não precisa sê-lo também. Você pode enobrecer aquele emprego por sua conduta dentro dele; pode fazer tão melhor do que ele exige que você acaba “transbordando”, por assim dizer. E quando isso acontece, existe uma espécie de harmonia pré-estabelecida que abre um caminho para você. Isso eu digo com 65 anos de experiência; isso acontece mesmo. Gaste as possibilidades do emprego ou da situação social em que você está antes de procurar uma melhor. Tente tudo o que você pode dentro do que você tem antes de começar a reclamar e achar que a maldita sociedade não lhe deu um lugar tão bom quanto você achava que merecia. É preciso ver que a realização de obras — ou literárias, ou filosóficas — de valor extraordinário não depende absolutamente da posição social em que o sujeito está. Às vezes, uma posição social muito modesta, que exige pouco comprometimento interior, pode ser a melhor possível. Mas se você arrumar uma vaga de professor de filosofia num departamento universitário, ficará cheio de compromissos: pertencerá a uma classe acadêmica, terá chefes, terá uma congregação inteira que dará palpites quanto aos seus atos; e você vai ser julgado por essa congregação o tempo todo. Será mesmo esta uma posição conveniente? Quando Max Horkheimer criou a Escola de Frankfurt, a idéia era exatamente a de que não se podia investigar certas coisas dentro do quadro da universidade alemã presente, porque estava tudo muito arrumadinho, estava tudo regulamentado e não havia flexibilidade, de modo que seus membros tinham de fazer alguma coisa fora da universidade. Por sorte, ele recebeu uma grossa contribuição de um argentino — vejam que coisa: a Escola de Frankfurt nasceu da exploração do Terceiro Mundo, o dinheiro veio da Argentina para fomentar a cultura na Alemanha. É claro que depois a Escola de Frankfurt se comprometeu com mil correntes de influência não-recomendáveis, mas a idéia inicial era muito certa: seu fundador viu que tinha de permanecer fora de duas organizações: 1) a universidade alemã; 2) o partido comunista; não assumir compromisso nem com um, nem com outro, porque senão teria de prestar satisfações. Então a idéia desta independência e a da necessidade de outro tipo de instituição que não era nem universitária, nem partidária, apareceu-lhe naquelas circunstâncias. Para mim, apareceu a mesma idéia na circunstância brasileira. Ou seja, nós não podemos nos comprometer com ninguém. Porém, embora não me caiba dizer onde o aluno deve trabalhar, que emprego deve ter etc., eu espero que o indivíduo leve estas coisas em consideração. Nessa antologia2 que o menino organizou há várias citações que fiz de escritores que mostraram que o seu único comprometimento na vida era com a missão de conhecimento e criação na qual eles estavam envolvidos, e que o resto realmente não interessava — [0:30] onde iam trabalhar, quanto iam ganhar, nem com quem iam casar. Há ali um diálogo entre o Jorge Luis Borges e o Adolfo Bioy Casares3 em que este diz que eles realmente só estavam interessados em descobrir a verdade, que era só isso o que queriam e que o resto não lhes interessava. Bem, acabaram virando escritores de sucesso. Mas houve escritores que não tiveram sucesso durante a vida e foram muito injustiçados, mas cuja obra é importante porque contém aquele elementos da verdade da situação. Um exemplo é Lima Barreto, que levou uma vida miserável. Eu recomendo muito que vocês o leiam, pois a situação de muita gente no Brasil é a dele: a do sujeito que está qualificado intelectualmente, mas que tem uma posição social inferior às suas qualificações. Então, o que fazer? Você tentará realizar o que pode dentro da situação, ou lhe será o mais importante alcançar uma situação melhor primeiro para depois realizar os seus maravilhosos talentos? Na maior parte dos casos é este o problema: as pessoas não dão o que têm porque acham que estão numa situação que está abaixo dos seus méritos. Se eu fosse pensar assim este curso não existiria; eu não teria feito tudo isto aqui. “Eu vou esperar que uma instituição convide-me, dê-me os meios para realizar o Seminário de Filosofia e então eu o realizarei.” Eu estaria esperando até hoje e nada disto teria sido realizado. Para realizá-lo, eu impus sacrifícios a mim mesmo e à minha família que vocês não imaginam; sacrifícios não só sociais e financeiros, mas sacrifícios de cunho humano — nós ficamos expostos à maledicência, à intrigas etc. Vocês não têm idéia de quanto isto custa. Vocês não tem idéia de como é gostoso falar do Olavo de Carvalho pelas costas, sondar a vida privada dele, saber com quem ele trepou ou deixou de trepar. “Vamos descobrir os pecados, vamos descobrir o ponto cego do Olavo de Carvalho”. Vocês não imaginam como isso é gostoso e quanta gente é dedicada à isto — e, às vezes, as pessoas nas quais vocês mais confiam. Quando está diante de um público grande como este, você está exposto o tempo todo, mas os membros da platéia não estão. Eles podem cochichar pelos cantos o quanto quiserem. Nós fomos expostos a tudo isso, e nós, minha mulher e minha filha, sabemos o quanto isso nos custou. Não estou me queixando, pois quem sai na chuva é para se molhar; mas, mediante esse tipo de coisa, é possível fazer com que anos de trabalho desenvolvidos com a mais séria e sincera das intenções tenham os seus efeitos completamente revertidos. O menino que organizou a antologia colocou uma série de frases de autores célebres que eu coletei, além das minhas próprias, e tem uma de Leibniz em que ele diz que a maior demonstração de mediocridade é admirar apenas moderadamente. Isto no Brasil é considerado obrigatório. Se admira-se um pouquinho mais, as pessoas dizem que é idolatria. É incrível: simplesmente dizer que um sujeito é um gênio virou idolatria. Goethe é um gênio, Shakespeare é um gênio. Você acende vela para Shakespeare? Pede a intercessão de Shakespeare ou de Aristóteles para não ir para o inferno? Não, você não faz isso. Então o que tem de idolatria dizer que o sujeito é um gênio? No Brasil é assim. E nunca faltarão pessoas para serem os fiscais de sua admiração. Eu vejo quantas pessoas entram no meu Facebook apenas para dizer que os outros “só puxam o saco do Olavo de Carvalho, que são idólatras etc.” Não acontece isto? Dirão que isso nunca lhes dá aquela tentação de só admirar moderadamente?! “Eu vou admirar, mas vou ter de fazer algumas restrições para não dizer que admiro muito.” Eu não me lembro de jamais ter feito alguma restrição a Platão ou Aristóteles, mesmo quando corrijo um errinho que eles possam ter cometido. Isso não é restrição, a admiração não diminui por causa disso. Eu não estou querendo me fazer de superior. Vocês não imaginam o número de pessoas que me escrevem dizendo assim: “Olha, eu até que gosto bastante de algumas coisas que você escreve”. Mas falam num tom como se fosse o de um velho de 90 anos — como se fosse o Meira Pena, o Paulo Mercadante —, com toda a sua experiência, julgando o trabalho do jovenzinho principiante Olavo, que começou agora. “Tem uma parte que está boa, outra que não está tanto”. Quer dizer, é uma questão de tom. E se eu digo que eles estão falando num tom de superioridade eles me respondem que não, que jamais se fariam de superiores pois são pessoas muito modestas. Ou seja, chegamos num ponto em que pessoas universitárias, que estudaram, não são capazes de perceber o tom daquilo que eles mesmos estão dizendo; o sujeito é insensível ao tom do que ele fala e escreve. Chegamos nisso, minha gente! Eu acompanho debates internéticos aqui nos Estados Unidos constantemente. A gente vê muita gente falando besteira, mas este tipo de inconsciência radical não se vê. Quer dizer, se um sujeito fala num tom de arrogância, ele sabe que está sendo arrogante — às vezes propositalmente. Se você não domina o tom do que fala, então você está realmente em nível pré-verbal. Outra coisa: quando, por uma coincidência, alguém age de uma maneira um pouco inconveniente e eu chamo a atenção — seja pessoalmente, seja por internet —, eu vejo que a reação geral é negar. “Não, eu não fiz isso, blá, blá, blá!”. Por quê? Você não está sendo julgado, eu não sou seu juiz, não vou condená-lo; eu só estou querendo fazer você ver alguma coisa. Eu sou professor 24 horas por dia; não sou juiz (nem interino); não tenho a capacidade de julgar, condenar ou absolver ninguém; eu só posso ensinar. Então se eu estou lhe mostrando alguma coisa é porque é importante para o desenvolvimento da sua consciência que você perceba o que você fez. Note bem que eu nunca falo da conduta das pessoas, mas da interpretação do mundo que está por trás da sua conduta. Eu estou falando da sua consciência, não dos seus atos; seus atos não me interessam, meu filho. Sobretudo, não me cabe corrigi-lo moralmente, mas cognitivamente, sim. As decisões e ações que são moralmente erradas geralmente refletem uma imperfeição da sua consciência, e esta imperfeição é justamente da minha alçada. O horizonte de consciência — que é um termo, um conceito e uma técnica que eu mesmo inventei — é a minha especialidade. É olhar para o sujeito, ver o que ele escreveu, o que faz, o que diz etc. e demarcar ali o seu horizonte de consciência. Claro que é um empreendimento limitado e de validade muito relativa, totalmente experimental. Mas é fundamental para entender o que as pessoas estão fazendo, e se você não entende o que um sujeito está fazendo, como é que vai tentar entender uma sociedade? Por exemplo, comentei outro dia, acho que num programa, quando falava da discussão existente sobre a moral sexual, que da dialética da atração sexual é parte intrínseca e inseparável a repulsa; a atração por uma coisa subentende a repulsa por aquilo que nega ou destrói o seu objeto de desejo. A isto assemelha-se a história dos sete anos de Jacó como pastor4: Este está apaixonado por uma mulher e o pai dela lhe diz: “olha, se você trabalhar durante sete anos [0:40] para mim você poderá casar-se com ela.” Depois de sete anos o pai, em vez daquela, oferece a outra filha. Ué, não é normal ter repulsa? Mas acontece que Jacó era um homem santo, então ele engole seco e concorda em trabalhar durante outros sete anos etc. Mas ele era um santo profeta, não se pode esperar que todo mundo faça isso. Se o sujeito quer uma e se satisfaz facilmente com a outra então ele é um cara de uma leviandade terrível. Quanto às circunstâncias, se o indivíduo está querendo ficar sozinho com a sua namorada num canto para curtir a presença exclusiva dela, e as pessoas ficam-no empurrando para ir para uma festa, para encontrar mil pessoas que não o interessam etc., não sente ele repulsa? É do mesmo modo, quanto ao objeto do desejo; por exemplo, eu conheci um sujeito homossexual, gayzézimo, quatro cruzes, radical intolerante, sem concessões, e, aliás, era excelente pessoa. Foi um grande amigo meu, a mim sempre respeitou, nunca fez a menor insinuação, e me ajudou num momento de dificuldade. E ele dizia o seguinte: a única vez que ele tinha tentado fazer sexo com uma mulher, vomitou em cima dela. Quer manifestação mais clara de repulsa do que essa? Não existe. Então, se existe algum direito à expressão pública do desejo sexual, tem de haver o direito à expressão pública da repulsa. Porém, das pessoas que escrevem contra determinadas condutas sexuais, quantas estão conscientes da seguinte diferença: “estou escrevendo contra isto por motivos morais objetivos ou porque me causa repulsa?” A expressão de sua repulsa não é mais digna nem mais nobre do que nenhuma expressão do desejo sexual, mesmo que seja atração sexual por uma tartaruga. Então é apenas uma coisa física, provavelmente hereditária, Szondiana: você gosta de umas coisas e repele outras. O teste de Szondi não é escolher, entre aquelas carinhas que se lhe apresentam, qual é a simpático e qual é a antipático? Isto é, a simpatia e a antipatia vêm interligadas, então o seu padrão de simpatias e antipatias, e de atrações e repulsas, é a constelação da sua personalidade. É algo Szondiano. Então por que o meu perfil Szondiano seria mais digno ou mais elevado que o do seu fulano? Não é. Às vezes o indivíduo está escrevendo, por exemplo, um artigo contra o homossexualismo, o pentassexualismo, ou qualquer sexualismo que você queira; e está escrevendo a coisa mais certa do mundo, mais racional, mais correta, baseando-se na doutrina da Igreja, em Platão, em Aristóteles etc.; só que ele usa a linguagem da repulsa. Isso significa que um sentimento baixo dele está se introduzindo dentro de um assunto onde não deveria. Quantas pessoas estão conscientes disso? Agora que eu falei, porque falei, todo mundo percebeu, mas antes não percebiam. Então quando um gayzista lê um tal texto, ele não vai prestar atenção no argumento racional que está subentendido, vai prestar atenção no tom, porque este é um comportamento quase instintivo no Brasil: a pessoa presta atenção no tom e não no que está sendo dito, e acreditam que o tom é o conteúdo — ou seja, não captam o tom enquanto tom, mas enquanto conteúdo, e daí saem gritando “é homofóbico!”. Mas isso é um diálogo de loucos! Gostaria muito de treinar os meus alunos para que eles percebessem essas sutilezas e não caíssem nessa esparrela. Se você vai escrever sobre um assunto tão delicado quanto esse das atrações e repulsas sexuais, a primeira coisa que terá de fazer será separar o argumento do tom, distinguir uma coisa da outra, porque o argumento apropriado tem de ser logicamente adaptado ao tema, mas o tom de ser retoricamente apropriado à platéia. O que é a retórica, afinal de contas? Quintiliano já a definia como a arte de adaptar o discurso à platéia, de falar diferentemente a pessoas diferentes. Isto está ali no Evangelho: Cristo disse que para uns falava de uma maneira e para outros de outra. Hoje em dia as pessoas usam a palavra retórica no sentido pejorativo, mas retórica é isso. Cristo está dizendo que você tem de fazer assim, você não pode falar igual para todo mundo. Se está usando o argumento logicamente certo mas retoricamente errado, você vai obter uma reação oposta. Quando você está no certo, quando o que disse é verdade, é inegável e está no tom certo, só as pessoas de extrema má vontade vão rejeitar aquilo. E a má vontade delas se expressará no tom psicótico das reações: não saberão o que dizer e irão apenas xingar. E depois de xingar vão dizer que só você xingando e que não está argumentando. Mas isso é batata. Outro dia aquele senhor Bertone escreveu um monte de coisas, dizendo que eu sou Adolf Hitler, que sou isso e aquilo, atestando a minha periculosidade, e por fim dizendo que eu não tenho argumentos, que apenas xingo as pessoas. Então é evidente que o sujeito não se enxerga, não sabe o que está fazendo, deve estar totalmente desorientado. Ele está esperneando, está ruim do pé da mesa. Uma exposição bem feita e séria terá de obter ou a persuasão do ouvinte ou essa reação, que é inevitável em certas pessoas. Portanto, o que vocês escreverem também deverá ser assim. Muitos já estão escrevendo em blogs, emitindo as suas opiniões etc.. Eu pedi que não fizessem isso, mas sabia que no fim iriam acabar fazendo de algum modo. Só peço que moderem, pois ainda não está na hora de vocês atuarem publicamente. Uma boa maneira de medir se você está pronto para isso (ou não) é saber qual é a hierarquia de critérios que define as suas decisões básicas com relação a emprego, casamento, educação de filhos etc. Se o sujeito disser que segue os Dez Mandamentos, que segue o Magistério infalível, eu lhe digo que não segue de jeito nenhum. É impossível fazer isso, porque se você não tem uma idéia da escalaridade dos critérios dentro da medida humana, muito menos a terá da Divina. Note que o que quer que se leia na Bíblia vem com um nível de generalidade máxima; aquelas são palavras que vieram da eternidade. Isso significa que nenhuma daquelas palavras foi dita para a sua situação particular e concreta — nenhuma delas —; nem foi dita para o seu tempo, para a sua época, para a sua sociedade. Aqui nos Estados Unidos, há muitos que interpretam a Babilônia da Bíblia como sendo os EUA, e acham que todas as profecias dos profetas hebraicos foram feitas para o país. Modestamente, acho que a Babilônia fica na Babilônia, e que para adaptar suas profecias para os EUA será preciso fazer uma série de mediações que são enormemente difíceis e que, no mínimo, deveriam ser feitas com muito cuidado. Do mesmo modo, quando você lê os mandamentos Bíblicos sobre o que quer que seja, você tem de saber que daquilo até a sua situação particular e concreta, ou à situação particular e concreta de quem quer que seja, há uma infinidade de mediações [0:50] que têm de ser feitas com sabedoria e com inspiração divina. Isso quer dizer que se o próprio Deus não inspirar a sua interpretação da Bíblia, você vai parar longe. Embora você possa pedir para Deus que lhe inspire, pergunto-lhe: você tem certeza de que fez a sua parte do trabalho? Ou você está pedindo para Deus fazer tudo no seu lugar? Vocês já devem ter reparado que eu raramente faço interpretações Bíblicas, e quando faço é com um cuidado medonho. Mas o mundo está cheio de pessoas que fazem isso o tempo todo. E daí ficam uns aos outros se acusando de anátema. Dentro da Igreja Católica e da Igreja Protestante acontece a mesma coisa. Não há nada no mundo que substitua uma compreensão intelectualmente diferenciada, intelectualmente elaborada, da sua situação concreta. Eu já recomendo isto desde o primeiro dia: faça uma análise sociológica de você mesmo. Em que classe social você está? Quais são os hábitos e os valores familiares que pesam sobre as suas decisões? Quais são as pressões familiares? Quais são os critérios morais grupais que estão subentendidos nas suas decisões? E uma vez que você tenha todos esses dados na mão, você poderá julgá-los à luz dos critérios mais intelectualmente elevados que possa conceber. Se você não é capaz de fazer isso, então não pode escrever um romance ou um conto sobre a sua própria situação, porque o quadro sociológico estará errado. E quando não temos a percepção sociológica concreta, apelamos ao estereótipo e nos escondemos por trás dele. Outro dia eu decidi rever o filme “O poderoso chefão”. O primeiro filme é uma maravilha porque o autor da história, Mário Puzo, conhece aquela gente; ele sabe quem são os mafiosos, pois cresceu no meio deles. Então estava indo muito bem. Quando chega no segundo “O poderoso chefão”, já entra um negócio de um bandidão traficante, americano-judeu, operando em Cuba. Aí o sujeito já não sabe mais do que está falando, e então vai para o estereótipo. O que é o estereótipo? É o seguinte: os americanos dominavam Cuba e houve uma revolução que libertou Cuba do Batista e dos americanos, a revolução comunista. Mas foi tudo ao contrário: o Batista foi colocado no poder com a ajuda do partido comunista e foi derrubado pelos americanos, que daí abriram caminho para Fidel Castro. Evidentemente, nem o Mario Puzo nem o diretor do filme sabem disso, e como não sabem, eles não têm a vivência concreta nem por experiência direta e nem por estudo, então apelaram para o estereótipo. Naquele ponto a narrativa só convence a outro ignorante como eles, mas para mim soa completamente inverossímil. Quando chega no terceiro filme, o negócio complica-se mais. O que o Mario Puzo sabe das intrigas da Igreja Católica? Ele não leu três livros a respeito. Eu já li um montão. Em primeiro lugar, leia as obras completas de Malachi Martin para começar a ter uma idéia. Depois leia outro e outro e outro. Eu, sinceramente, li uns duzentos livros a respeito e sei da complexidade da coisa; como ele não sabe, apela ao estereótipo. Quem é o culpado de tudo? O culpado de tudo são as grandes fortunas e a máfia. A máfia e os bilionários mataram João Paulo I. Mas isso é um estereótipo, evidentemente. Se mesmo esses camaradas, que têm todos os recursos de estudo — Mario Puzo tem dinheiro suficiente para comprar dez bibliotecas como a minha, para botar quinze pesquisadores trabalhando para ele —, não têm uma noção muito clara da sua posição na sociedade, e, portanto, têm uma visão errada de toda a sociedade, quão mais facilmente não pode isso acontecer com vocês! O seguinte é característico do brasileiro: ele encosta num canto tudo o que estudou, tudo o que sabe, e acredita que a sua vida particular obedece a outros critérios, que são indizíveis e não se aplicam ao restante da humanidade. Isso é adentrar na irracionalidade completa. Eu pergunto: o que a sua vida tem de tão diferente que para ela deve haver uma sociologia diferente da dos outros? Ou seja, todos os seus conhecimentos são anulados na hora de você tomar uma decisão com relação à emprego, casamento etc., porque você acha que a sua situação é tão individual que só você compreendê-la. Bom, há situações que são realmente assim, que são tão particularizadas e tão individualizadas que somente um gênio da psicologia pode compreendê-las. Mas não é possível que todo mundo seja assim. Em geral, os problemas que as pessoas têm são altamente padronizados e repetíveis. Há muito tempo eu não vejo, entre os meus alunos, nenhum caso que seja muito individualizado e com o qual tenhamos de tomar cuidado. Isso dificilmente acontece. As pessoas vêm com problemas que são comuns a todos os outros e vivem situações que são comuns a todos os outros. Então comece por fazer a sociologia de si próprio. Sinceramente, se você não é capaz disto, nada do que diga com relação à sociedade humana vale, pois você não sabe onde está. Mas para fazer isso, onde estão os documentos que você vai usar para fazer a análise sociológica de si próprio? Estão na sua própria memória, imaginação, sentimento etc. — ou seja, são indefinidamente falsificáveis, a não ser que você queira realmente saber a verdade. E a verdade nunca é tão horrorosa quanto você teme, e nunca é tão linda quanto você deseja. Ela é uma outra coisa, sempre. Isso quer dizer que, se o temor não é afastado, se o instinto de auto-defesa não é afastado, se o desejo de auto-glorificação ou de auto-humilhação não é afastado, e não aparece em lugar disso uma tremenda curiosidade, você não conseguirá. Qual é o problema de querer mesmo saber? Por exemplo, aqueles que já se submeteram a algum tipo de análise sabem que você terá de passar por muitas decepções a respeito de si próprio para descobrir as coisas. Antigamente havia grandes psicanalistas no Brasil, mas hoje não tem mais, a profissão acabou; porém trinta anos atrás ainda havia. Então aqueles que se submetiam à análise pegavam alguma prática disso aí e entendiam que não era para ter medo, que só lhe faria bem; que descobrir tudo a seu respeito, todas as decepções, só o libertará. Também desta análise deve fazer parte a origem das suas crenças e das suas reações; estas são mais importantes do que as crenças explícitas, pois para saber em que o sujeito acredita mesmo não basta ouvi-lo dizer “eu acredito nisto, nisto e nisto”; é preciso ver as decisões que ele toma, porque é [1:00] nas decisões que ele coloca em ação as suas crenças reais, aquelas que são profundas, que estão ali e que são determinantes para a sua vida. Então as reações e as decisões expressam as crenças verdadeiras. Pense bem: você é capaz de rever alguma decisão que tomou, expressar em palavras a crença subentendida e, em seguida, rastrear sociologicamente a origem daquilo? Se você não fez isso nunca, então faça, porque é aí que começará o seu estudo das ciências sociais; até lá, tudo é só “blá, blá, blá”. Não deixa de ser engraçado ouvir frases como “temos aqui um professor marxista”. Ele explica as suas idéias, você as examina e vê que ali estão os preconceitos mais bobocas de classe média, os mais desprezíveis do ponto de vista marxista. Acho que não tem coisa que Marx desprezasse mais do que a classe média, a pequena burguesia. Mas ali está a quintessência da pequena burguesia acreditando que é marxista, tentando desempenhar esse papel e enganando a outros pequenos burgueses que, também iludidos pelas mesmas ficções interiores, precisam daquela imagem, daquele espelho, para dizer “nós somos marxistas”. Eu sei o que é um marxista, eu já vi alguns. E, se você quer saber, hoje em dia eu acho que o Antonio Negri é marxista, mas os outros eu não sei, não. No Brasil, tem alguns que pretendem realmente ser e não tem falsidade nisso. Por exemplo, o Quartim de Moraes pretende ser um marxista e não há falsidade, ele não é um “classe média” disfarçado. Mas ele não tem cabeça para isso; não há o impedimento psíquico mas há o impedimento intelectual. A mesma coisa ocorre com o professor Gianotti: agora ele não é mais marxista, mas é wittgensteiniano. A facilidade com que passou de uma coisa à outra já mostra que ele não era muito marxista no tempo em que era marxista. Ninguém é marxista se não é um assassino revolucionário em potencial — isto é básico. Você está disposto a matar pessoas pela revolução? Se não está, se não encara isso como uma coisa banal, jamais será um marxista; você não está dentro do estado de espírito necessário para isso. Você pode até querer ser quando crescer, mas você não vai crescer, não vai chegar neste ponto. Por exemplo, aquele pessoal todo da escola de Frankfurt sempre achou que era marxista, mas nunca foi. Eu contei a história do Theodor Adorno, de como ele morreu: as menininhas foram fazer a revolução sexual na sala de aula dele, ele ficou chocadíssimo, achando que havia sido incompreendido, elas começaram a esfregar os peitos na cara dele, o velho ficou chocado e morreu; teve um piripaque e logo na semana seguinte morreu. Quer dizer, ele não estava preparado nem para isso; então ele nunca foi um marxista. Ele queria ser, era um marxista em ideal. Quando falo desse nível de comprometimento do marxista, digo que nós também temos de ter esse nível de comprometimento. Não necessariamente de matar pessoas, mas de morrer. Então pense assim: “aqui eu vejo 180 milhões de brasileiros sofrendo como cachorros, levando bala perdida por tudo quanto é lado, vendo os seus filhos se enchendo de drogas, sem saberem o que fazer, sendo enganados por uma elite de delinqüentes o tempo todo e sem esperança de uma vida mais dotada de sentido, e eu tenho pena dessas pessoas, eu tenho amor por essas pessoas e vou dar a minha vida para que as coisas não sejam assim amanhã”. É este o seu sentimento? Esse é o meu. Não é patriotismo, porque patriotismo supõe um amor a valores históricos sublimes que se encarnam na história da sua pátria, e isso não há no Brasil. A história do Brasil não encarna nenhum valor sublime; é uma história vergonhosa do começo até o fim. Há homens de grande valor — José Bonifácio de Andrada e Silva, Mário Ferreira dos Santos e tal. —, mas a história como conjunto não encarna valores, então não é patriotismo. É, simplesmente, amor e piedade por uma massa de pessoas, uma massa anônima. Por exemplo, vocês assistiram ao filme tropa de elite. Todas aquelas pessoas que viviam no meio daquela confusão entendem o que está acontecendo ou têm alguma condição de entender? Nunca! Estão como bichinhos que estão apanhando sem saber de onde. Isso não é de chorar? Ficar chocado com a violência é uma coisa — e quem não fica? Você vê um tiroteio e fica com medo; então você está chocado com a violência. Mas, espere aí: mas e aquelas pessoas que vivem isso o tempo todo? Pouco antes de sair do Brasil eu tive um encontro com alguns soldados do BOPE, graças à Maria Angélica Portugal, filha do meu falecido amigo Portugal, a qual era madrinha da corporação da PM Carioca. Ela, durante um jantar, disse que queria me apresentar algumas pessoas. Cheguei lá e era a turma do BOPE. Eles começaram a contar suas vidas e faltou pouco para eu chorar. É uma coisa tão desesperadora, tão sem saída, tão sem esperanças, que não se pode continuar assim. O que eu posso fazer para tentar melhorar isso? Você começa a ver o tamanho da situação e vai medindo, medindo, até chegar naquele “tamanhico” do pouco que você pode fazer. Eu não sou um político, eu não sou um líder revolucionário, eu não sou um general cinco estrelas; eu só tenho um poder: eu posso explicar e ensinar. Isso é tudo que posso fazer. Mas eu vou fazer isso até o fim dos meus dias na esperança de que, se houver uma camada de pessoas qualificadas para discutir esses problemas com seriedade, talvez se possa fazer alguma coisa. Ou seja, estou apostando tudo numa possibilidade de que surja uma discussão séria. Vocês vejam a que distância nós estamos da solução dos problemas; a uma distância enorme! Não estou pensando na solução dos problemas. Estou pensando numa condição prévia sem a qual não se pode nem pensar em solução dos problemas. Mas é o que posso fazer e tenho a obrigação estrita de dedicar a minha vida a isso. E eu estou me dirigindo a pessoas na esperança de que elas tenham a sensibilidade para isso. Não adianta eu dizer para vocês que somos chamados para uma missão nobre, etc. Não, isso aí faz parte do “lamber ego”. Missão nobre coisíssima nenhuma; nós estamos chamados aqui numa emergência, horrível. Eu não tenho de enaltecer a nossa missão. Até acho que a palavra missão não é apropriada. Eu não uso a palavra missão, mas uso a palavra obrigação, dever, porque missão dá a impressão de que você foi escolhido, que Deus foi lá e descobriu o profeta Jonas e o chamou. Mas é preciso que Deus o chame para uma coisa dessas, que você está vendo na sua cara? Se você não é sensível nem mesmo à situação que está diante dos seus olhos, como é que vai ser sensível ao chamamento divino? Deus fala com você às 3 horas da manhã: “Zezinho!”, e você pensa “ah, prefiro dormir...”. Então não é um chamamento divino, não é uma missão; é uma obrigação óbvia imposta por uma situação evidente. Você tem de ser sensível; se você for sensível a isso, talvez algum dia tenha até alguma missão divina — espero eu que tenha. Eu não tenho nenhuma, Deus não me chamou para coisa nenhuma. Estou fazendo isso porque eu vi [1:10] e, em vez de considerar isso uma missão divina, digo que, se eu der o melhor de mim para tal, talvez até Deus me livre dos meus pecados por conta da boa intenção que tive nisso. Se você foi chamado para uma missão divina, você já é um dos eleitos; eu não tenho essa pretensão, não, meu filho. Então eu não usarei essa retórica de dizer que vocês foram chamados para uma grande missão porque eu lhes estaria enganando. Imagine assim: sua mãe caiu da escada e está lá estrebuchando no chão e você diz que foi chamado para uma missão divina, que a levará para o hospital. Ora, você tem de ser muito sem vergonha para pensar uma coisa dessas. Não é missão divina, é a pressão imediata das circunstâncias. Ortega & Gasset dizia que a absorção das circunstâncias é o destino concreto do homem; ou seja, você está vivendo dentro de uma circunstância concreta e ela lhe diz o que você tem de fazer. No caso brasileiro, olhe em torno: veja a loucura generalizada, veja a impossibilidade que os brasileiros têm de tratar de qualquer assunto de uma maneira razoável, o número de idéias absolutamente loucas e psicóticas que estão vigendo. A situação social já é ruim, daí vem meia dúzia de loucos militantes impor as coisas mais absurdas. Aqui também o pessoal tenta se impor, porém há aqui uma retaguarda cultural, moral e religiosa muito sólida. Então a coisa é pesada em confronto com a outra. Agora, no Brasil não tem nada; no Brasil é arrombar uma porta aberta. Isso quer dizer que inovações revolucionárias, loucas, extravagantes, do dia para a noite, se incorporam na mente brasileira como se fossem mandamentos divinos milenares. Aqui, por exemplo, estão fazendo uma campanha — em duas ou três cidades — dizendo que as pessoas têm de tratar os transgêneros como se fossem mulheres. Mas isso é obviamente impossível. Para eu tratar um transgênero como mulher subentende-se que eu conheço a distinção anatomofisiológica entre homem e mulher e sei que não se aplica àquele caso. Para um sujeito poder ser um transgênero é necessário que exista o sexo feminino biológico que ele possa imitar, o que quer dizer que ser um transgênero é imitar algo o sujeito fisicamente não é. Isso quer dizer posso tratar a um transgênero de maneira diferenciada, de transgênero, mas não lhe dar um tratamento de mulher — isso é impossível. Você não pode ser obrigado a acreditar que uma mulher e um homem vestido de mulher são a mesma coisa; ninguém pode ser obrigado a uma coisa dessa. Mas você pode ser obrigado a fingir. E quando o fingimento é imposto por lei, estamos numa situação absolutamente psicótica. Você é obrigado a dizer que está vendo o que o chefe mandou ver e não o que seus olhos vêem. Querem uma coisa mais grave do que essa? Isso quer dizer que, a pretexto de não maltratar ou não destratar um transgênero, você é obrigado a furar os próprios olhos e ver o que se lhe mandaram ver. Ou seja, estão fazendo com você uma ofensa muito maior do que você poderia fazer com ele. Ademais, a campanha não distingue entre o transgênero verossímil e o inverossímil. Pois tem transgênicos que realmente parecem mulher, e às vezes são até mais femininos do que algumas mulheres que conhecemos, então não é difícil chamá-los de senhora ou senhorita. Mas em outros casos isso é esteticamente impossível. Aquele sujeito horroroso, que aparecia vestido de mulher e que forçou para entrar no banheiro feminino, o tal de Laerte. A ele sou obrigado de chamar de senhor doutor, porque ele não parece outra coisa; ele não se parece com uma mulher feia, ele se parece com um homem feio. Então só porque ele se vestiu de mulher eu tenho de chamá-lo de senhora ou senhorita? Não! Isso é uma violência psicológica tão grande, e as pessoas estão aceitando isso e não discutem sob este aspecto, discutem sob o aspecto da moralidade sexual, quando isso não tem nada a ver com moralidade sexual; isso tem a ver com um estupro psicológico monstruoso. O pior lado da questão desaparece e tudo é tratado na base do moralismo usual. Esse é um dos inumeráveis exemplos de absurdidades que estão sendo impostas, e as pessoas fiquem intelectualmente indefesas. E quando esperneiam, esperneiam com aquele moralismo baseado na repulsa e se tornam ainda mais vulneráveis por causa disso. Ou seja, não estão dominando intelectualmente a situação, não a estão entendendo, e, se não entendem a situação, é melhor não entrar na briga. Como a maior parte das pessoas não entendem, elas ficam quietinhas. Mas ficam quietinhas para sempre. Não é assim: eu vou ficar quietinho até entender, na hora que eu entender sairei para a briga — que é a coisa certa a se fazer. Todo mundo ou se intimida ou se encoraja para fazer besteira. Por exemplo, houve aquele abaixo-assinado que nós fizemos para defender a liberdade do Carlos Ramalhete, naquele artigo. Escrever aquele artigo é dar a capa à tapa, porque é inteiramente baseado em sentimentos de repulsa — ainda que usando de argumentos logicamente válidos. E, assim como esse, muito outros são. O sujeito entra nessas brigas para perder, não para ganhar. Por exemplo, quando dou esses conselhos para essas pessoas, às vezes elas ficam bravas, dizem que estou defendendo o gayzismo. Meu Deus do céu! Tem um artigo que já escrevi faz tempo em que digo que eu — que não tenho dó de mim mesmo — sinto-me como o médico que tivesse prescrito a medicação e depois encontrasse aquele remédio no armário, intacto, no dia do enterro do paciente. “Mas vocês não deram o remédio?” “Ah, não...” É assim que eu me sinto. Apesar disso, nós temos conseguido muito coisa. Infelizmente, muitas pessoas entendem no sentido de que nós estamos fomentando o movimento conservador. Eu vou lhes dizer uma coisa, e com o perdão da palavra — porque aqui na aula não é lugar de dizer palavrão (que é só no programa) —: eu estou cagando e andando para o conservadorismo. Eu não quero saber disso e não estou interessado em fomentar um movimento conservador. Quando aparecem movimentos conservadores eu dou alguma força para eles pois eles são minoria e eu sigo ao pé da letra aquela máxima de José Ortega & Gasset: “Noblemente prestad vuestro auxilio a los que son menos contra los que son más.” Por, no mínimo do mínimo, uma questão de equilíbrio. Mas, ideologicamente, não vejo como eu vou me petrificar numa ideologia conservadora; isso não faz o menor sentido. O Rosentock que tinha razão; ele dizia: “eu não sei como as pessoas podem ser [1:20] ou progressistas ou conservadoras, porque toda pessoa normal é progressista e conservadora ao mesmo tempo”. Ele tinha toda a razão! Não é possível querer mudar tudo nem é possível querer conservar tudo — ou é? A gente tem de julgar as coisas conforme a situação concreta. Ademais, eu não vejo muito sentido em tomar posição quanto ao que deve e ao que não deve ser feito. O que deve ser feito e o que não deve ser feito são muito posteriores ao entendimento da realidade da situação, e o entendimento da realidade da situação mal começou! Tudo o que tenho feito nesses artigos e até nas aulas é dar uma “lambida” no assunto, aqui e ali. Mas ainda falta muito. Os meus livros estão cheios de nota de rodapé; metade delas são deste tipo: “para resolver esse problema, precisar-se-ia disto, e mais disto e mais disto”. Quer dizer, eu não estou resolvendo, estou sugerindo que se resolva e indicando linhas pelas quais aquilo poderia ser resolvido; mas para isso são necessárias milhares de pessoas trabalhando. Se você ler O Jardim das Aflições verá que ali, nas notas de rodapé, há sugestões de, pelo menos, cem teses universitárias que precisam ser feitas e que, evidentemente, não terei tempo de fazer. No livro do Aristóteles e no A filosofia e seu inverso é a mesma coisa. O que eu queria era abrir um leque, abrir um campo de dificuldades a serem resolvidas, de problemas a serem esclarecidos, e entregar isso tudo a vocês e dizer-lhes que vocês têm o resto da vida para fazer isso. Só que só conseguirão fazer se entrarem num assunto com o sentimento correto. É normal que uma pessoa jovem esteja mais preocupada com ela e com o seu futuro que com os outros. O jovem é egoísta demais, todo jovem é; ele acha que a sua e a sua auto-realização são tudo e que o futuro da humanidade delas depende. E justamente isso impede que façam alguma coisa que preste, pois esse egoísmo corrói a sua auto-realização. Nós só nos realizamos quando esquecemos de nós mesmos. Eu me lembro que na sala de espera do consultório do Dr. Müller tinha um folhetinho — devo tê-lo ainda — em que ele dava uma orientação para os pacientes recém-chegados. Ele dizia o seguinte: “Lembre-se que os seus problemas podem ter origens familiares, históricas, sociais, culturais, naturais e cósmicas, que estão infinitamente acima da sua compreensão; e, portanto, tenha paciência, vá devagar e faça isto, mais isto e mais isto.” Ele dava alguns conselhos e dizia que, se o paciente os seguisse, esqueceria e, na hora que se esquecesse, começaria a amar e estaria pronto para fazer alguma coisa. Vejam o tamanho do problema que está em volta de vocês. Imaginem a multidão de pessoas sem a mínima instrução, pessoas que não conseguem falar, que estão no nível pré-verbal e que estão sofrendo sem saber de onde vem a chicotada. Essa gente precisa que vocês façam alguma coisa, que vocês façam a sua parte. E fazer a sua parte é a única auto-realização que você terá. Mas não adianta estar consciente disso se, na hora de tomar as suas decisões, você acha que o seu caso é muito diferente e que você tem de resolver os seus problemas primeiro. Não é possível! A vida é movida por algo chamado motivação: um motivo pelo qual você faz as coisas. Não um motivo alegado, mas um motivo real. Se a sua motivação não vem de suficientemente profundo, se ela não expressa uma necessidade objetiva real, você vai com pouca força. Você acha que os seus interesses ou probleminhas pessoais são motivações suficientes para orientar uma vida, mudar o seu destino e lhe dar um destino melhor? Você acha mesmo? Eu conheço muita gente que ficou milionária. Como? Fazendo alguma coisa; algo que não tinha nada a ver com eles. Por exemplo, Henry Ford ficou milionário fabricando milhares de automóveis. Ele fabricou milhares de automóveis para ele mesmo? Ou será que ele, na sua vida, só precisava de automóvel, não precisava de mais nada? Notem bem, ele só fabricou automóveis. No Brasil existe uma discussão assim: a empresa deve visar somente ao lucro ou deve atender a finalidades sociais — prestar trabalhos, fazer assistência social etc. Mas só num país como o Brasil pode surgir uma discussão idiota como esta! A finalidade de uma empresa não é nem o lucro e nem fazer assistência social: É fabricar alguma coisa ou prestar algum serviço. Ou estou errado? Existe alguma empresa que venda somente a sua necessidade de lucro? “Olha, eu preciso de dinheiro e, portanto, vocês me darão dinheiro”. Alguma empresa faz isso? Não. Há outra empresa que diga: “nós não queremos ganhar nada, nós só queremos prestar assistência social, ajudar todo mundo, e nós não ganharemos nada”? As duas hipóteses parecem-me absurdas. A mim me parece, por exemplo, que uma fábrica de sabonetes fabrica sabonetes e esta é a sua função social. Se fizer tudo direitinho pode ter algum lucro; se tivé-lo, poderá fabricar mais sabonetes, e, se der prejuízo, ela vai parar de fabricá-los. Um escritório de advocacia faz o quê? Presta assistência aos delinqüentes. Um advogado não pode prestar serviço só a si mesmo, não pode ser ele o único delinqüente; ele pode até também sê-lo, mas terá de servir aos outros delinqüentes. Então a finalidade de qualquer empresa é vender algum objeto ou vender algum serviço e esta é a sua função social; o lucro é um efeito possível disso aí. Pronto, está respondida a pergunta: a finalidade não é nem o lucro e nem ajudar aos pobres desamparados. Quem é que não sabe disso? No Brasil tem 180 milhões de pessoas que não sabem e que, pior, nunca pensaram nisso. Eu vi esse debate ser levantado milhões de vezes. Então apareciam discípulos da Ayn Rand defendendo o princípio do lucro: “a empresa foi feita para dar lucro, para criar riqueza etc.!” Mas, espere aí: antes de criar a riqueza ela precisa fazer alguma outra coisa. Ou não? Esta alguma coisa é a finalidade dela, a riqueza é um efeito colateral. É também como o negócio do prazer. Santo Tomás de Aquino explicava, com aquela obviedade de tudo o que ele dizia, que o prazer é o resultado subjetivo de uma coisa que deu certo. Mas não pode ser objetivo! Por exemplo, se você faz sexo por prazer. Você já foi para a cama com o prazer? Não, você tem de ir com alguém, e com esse alguém você fará alguma coisa — que não é prazer — e esta coisa pode lhe dar algum prazer — ou pode também não dar. No Brasil acho que até já passou a moda, mas durante vinte anos as pessoas só falavam de prazer, como se ele fosse objetivo. Correr atrás do prazer é como querer segurar o vento: ele às vezes vem na sua direção, vem na direção do outro, às vezes vem na direção má. O prazer também: às vezes vem, às vezes não; não é uma coisa controlável. Controlável são os seus atos concretos. Do mesmo modo, o lucro também não é controlável; não se pode fazer um planejamento empresarial em função dele, é impossível, pois o lucro é uma simples relação numérica [1:30] que resulta de milhões de atos anteriores. Discussões como essas do lucro ou prazer mostram uma alienação total. E, no entanto, no Brasil, o fato de as pessoas só pensarem nessas coisas — dinheiro e sexo — é considerado realismo. É claro que isso é um hospício. E nós não somos as principais vítimas do hospício, nós não somos os maiores sofredores na brincadeira. Tanto não somos que temos ainda o lazer e a possibilidade de estar aqui discutindo isso. Isso significa que miséria e o sofrimento não nos engolfaram completamente, não estamos totalmente submergidos; nós podemos estar por aqui mas ainda estamos respirando e, por isso mesmo, podemos enxergar um pouquinho acima disso. Vamos fazer uma pausa e daqui a pouco voltamos. [intervalo] [1:30] Vamos recomeçar aqui. Aluno: O senhor poderia falar mais a respeito das meta-narrativas e seus ecos na atual cultura brasileira? Olavo: Essa idéia de meta-narrativa entende que, por trás das sequências de acontecimentos históricos conhecidos e também desconhecidos, existe uma história abrangente que dá conta da existência humana inteira, desde a sua origem até a suas supostas finalidades. Um exemplo de meta-narrativa é a própria Bíblia, que mostra uma origem, o desenvolvimento da humanidade e um fim. Só que este fim, que é o juízo final, não faz parte da história; quer dizer, não é um acontecimento histórico, mas o fim do universo tal como o conhecemos e a passagem para um outro plano, de eternidade, onde todos os momentos do tempo são simultâneos, onde estão todos presentes. É um outro quadro de referência totalmente diferente do atualmente conhecido, embora parcialmente imaginável pelos seres humanos. Quer dizer, a noção de eternidade não nos é totalmente estranha. Porém, existe uma série de outras meta-narrativas. Algumas de ordem mítica, como por exemplo a doutrina hindu dos ciclos, que até matematiza a ordem dos tempos mostrando que toda a história humana se subdivide em certos segmentos perfeitamente quantificados; isso com bastante detalhe. Porém, a mesma idéia de quantificar períodos de tempo que ultrapassam a capacidade de imaginação humana coloca a coisa num plano que tem de ser tratado claramente como mítico e não como uma coisa material. Todo esse pessoal da escola tradicionalista guenoniana usa muito essa doutrina dos ciclos num sentido material pretendendo localizar certos acontecimentos históricos dentro dessa escala dos ciclos. Eu acho que, sinceramente, isso não funciona, porque os ciclos têm, evidentemente, um sentido simbólico e analógico, e ali tudo que pode ser interpretado num sentido pode ser interpretado no sentido inverso também, como aliás ensina o próprio René Guenon. Embora René Guenon diga que todos os símbolos tem interpretação direta e interpretação inversa necessariamente e que você só apreende o sentido quando leva em conta essa tensão dos opostos, é curioso que na aplicação da doutrina dos ciclos ele não leva isso em conta. Quando fala em Kali-Yuga — que seria o ciclo final, descendente — ele interpreta tudo ali em sentido descendente. Mas, se o símbolos têm dois sentidos, o que é descendente sob certo aspecto é ascendente sob outro; parece que ele perde um pouco essa dialética nesse momento. Isso acontece mais ainda num livro, por outro lado admirável, de Gaston Georgel, Les quatre âges de l'humanité (As quatro eras da humanidade), onde ele expõe essa teoria dos ciclos e a aplica aos acontecimentos da modernidade. Outra meta-narrativa é a própria idéia do progresso humano, que surge entre o séc XVIII e VIX: tudo está indo na direção de um progresso, de um melhoramento. Outra idéia é a famosa idéia de Benedetto Croce, a história como história da liberdade: a de que estamos indo num sentido da liberdade crescente. Outra meta-narrativa é a lei dos três estados de Augusto Comte, segundo a qual passamos por três etapas: a) uma etapa mítica na qual acreditamos em Deus etc.; b) depois uma etapa metafísica no qual acreditamos nas meta-narrativas; e, por fim, c) a fase positiva na qual nos só acreditamos nos resultados da ciência experimental. Não deixa de ser curioso que a lei dos três estados, sendo ela própria uma meta-narrrativa, faz parte do estágio metafísico e não do estágio positivo. Em termos de ciência positiva é impossível comprovar a lei dos três estados. Então no momento em que apresenta a sua idéia positivista como a superação da etapa metafísica, subordina-a à etapa metafísica na medida em que ele apresentou a meta-narrativa. O Arthur Lacerda me xingará caso me ouça, mas o fato é que Comte faz isso, não há escapatória. Ele diz: Nós só podemos acreditar no resultado das ciências experimentais, então não podemos acreditar na lei dos três estados porque não há possibilidade mínima de sua comprovação por meio científico. Ainda outra meta-narrativa é o marxismo com a sua idéia de que a história passa por uma série de etapas definidas por diferentes modos de produção, até culminar na passagem do capitalismo ao socialismo. Então, curiosamente, toda essa escola que se denomina pós-moderna tem por característica mais pronunciada a recusa a todas as metas-narrativas. Acontece que não há nenhuma possibilidade de uma concepção da história sem alguma meta-narrativa. E, por outro lado, não há nenhuma possibilidade de comprovar cientificamente qualquer meta-narrativa. Então as meta-narrativas devem ser usadas, evidentemente, como símbolos de ordem mítica; e o símbolo, como dizia Susanne Langer, é uma matriz de intelecções. Quer dizer, olhado o conjunto da história sob o aspecto dessa narrativa, começam a aparecer novos aspectos que sem ela não apareceriam — por exemplo a própria idéia de humanidade. A idéia de humanidade não existe sem a idéia monoteísta; é impossível conceber uma coisa sem a outra. Quer dizer, se não existe um Deus único também não existe uma humanidade única. Por outro lado, a recusa das meta-narrativas não impede que autores declaradamente pós-modernistas tomem atitudes que subentendam de certo modo uma meta-narrativa, inclusive que eles subscrevem a meta-narrativa progressista. Mas se não há meta-narrativa nenhuma, qualquer progressismo cessa de fazer sentido; tanto faz, do ponto de vista qualitativo, ir numa direção ou na outra: se você não pode sequer falar em progresso, em desenvolvimento — ou em subdesenvolvimento —, todas essas noções vão para as cucuias. Parece-me que a coisa mais certa é usar essas meta-narrativas como escalas simbólicas perante as quais os acontecimentos reais são medidos. Qualquer tentativa de se encontrar uma unidade real, material, na história humana sempre falhou e sempre vai falhar, e falhará também qualquer tentativa de se abster de toda meta-narrativa, porque senão ficamos sem nenhuma referência de conjunto. Há aí é uma tensão: não podemos acreditar nas meta-narrativas mas também não podemos viver sem elas. A meta-narrativa apocalíptica é diferente porque ela subentende uma passagem para a escala da eternidade, então não é propriamente uma meta-narrativa histórica, é literalmente meta-histórica. Também o fato de que há uma passagem para a eternidade muda completamente o sentido mesmo da idéia de [1:40] meta-narrativa, porque a eternidade não é uma coisa que vem depois da história, a eternidade já está aqui, nós estamos dentro dela. Isso quer dizer que a história inteira não passa de um segmento dentro da eternidade e sem a eternidade ela não faz nenhum sentido. Aqui um aluno observa muitíssimo bem: Aluno: Ainda não vi nenhum livro que desse uma boa paulada nos tropicalistas. Olavo: Uma história crítica do movimento tropicalista: como é possível que não exista isso num país de 180 milhões de habitantes e que tem uma universidade em cada esquina? Há livros de auto-glorificação do movimento tropicalista — o próprio Caetano Veloso escreveu Verdade Tropical —, e existe um ou outro artigo de jornal que polemiza com eles. Não só quanto ao tropicalismo, mas a toda aquela fase, dos anos 60, 70 e 80; ninguém escreveu a história cultural, crítica e sobretudo a história psicológica desse período. Não há nada sobre isto. Tudo isso aconteceu, foi guardado no subconsciente, continua influenciando as pessoas e não há sequer uma descrição da coisa. Então onde é que nós fomos parar? Um país que não é capaz de contar a sua própria história recente... Às vezes não há os elementos para fazer uma narrativa histórica, não há a documentação, mas é possível fazer a história imaginária, ficcional, que sintetiza ficcionalmente aquele período, sintetiza pelo menos o modo de sentir das pessoas naquele período. Os últimos documentos que eu vi, que documentavam de alguma maneira o estado de espírito pelo menos das classes letradas no Brasil, foram os livros que surgiram logo depois do golpe de 64, como o Quarup do Antônio Callado e o Pessach: A travessia do Carlos Heitor Cony, que mostravam o estado de espírito da intelectualidade esquerdista. E, pronto, acabou ali. Nunca mais apareceu nada que documentasse o que era estar no Brasil, o que era ser brasileiro nesse período; não há absolutamente nada. Até pedi para um dos meus alunos — não vou dizer qual, mas ele sabe que é dele que estou falando — que documentasse, com relação a esse período, este fenômeno do amor da nossa intelectualidade ao banditismo, que é uma coisa que surgiu em parte pela influência do Herbert Marcuse nos anos 60 e que deixou no Brasil marcas mais profundas do que em qualquer outro país. Até, a respeito disto, escrevi o artigo no Jornal do Brasil, “Bandidos letrados” — o artigo já tem acho que trinta anos. E até hoje ninguém tentou estudar isso. Se há uma coisa que é constante na intelectualidade de esquerda no Brasil é esse amor ao banditismo. Não vou dizer idealização ou glamorização do banditismo, pois não há nenhuma. Glamorização há aqui em Hollywood. Mas o que acontece no Brasil não é glamorização. Naqueles filmes do cinema novo eles não estão embelezando o bandido; mostram-no feio como ele é e insinuam que a sociedade é ainda mais feia e que, portanto, esses bandidos, de algum modo, são a expressão de um desequilíbrio estrutural do qual eles não são culpados, e, logo, a culpa corresponde a um universal abstrato chamado a sociedade. Isso aí é constante, isso aí é em todo lugar, e não há um estudo a respeito! É uma das constantes mais claras da cultura brasileira; e se há essa constante na literatura, no cinema, no teatro etc., como seria possível esperar que isso não se transformasse em realidade na própria sociedade, como acabou se transformando? Então como isentar esses intelectuais e artistas todos da responsabilidade pelo estado das coisas? É absolutamente impossível! É a transformação dos pensamentos em realidade. Como dizia Hugo von Hofmannsthal: nada está na política de um país se primeiro não estiver na sua literatura. Então podemos supor que aquilo que está na literatura, que pelo menos ocupa um espaço considerável na literatura, mais dia, menos dia, estará na realidade político-social do país — e isso de fato aconteceu e não se tem um puto de um estudo que documente isso. O pessoal não quer entender a situação. Quando digo hoje, por exemplo, que você tem de fazer a sociologia da sua própria situação social. Se você encontrar um professor de sociologia que seja capaz de fazer isso com relação a ele mesmo, eu lhe dou um doce. Garanto-lhe que os professores de ciência social nesse país não sabem qual é a posição social deles. Então é tudo “blá, blá, blá”, é tudo fingimento, é baile do Escala Gay, é tudo palhaçada. Não é uma coisa séria, não há um comprometimento efetivo. Alguém me mostrou uma entrevista do Paulo Coelho, dizendo ele que é o maior intelectual do Brasil. Mas por que as pessoas querem ser intelectuais no Brasil? Para entrar nessa palhaçada? Qual a vantagem de ser o maior intelectual do Brasil ou o maior intelectual de Vila Inhocunhé? Isso não significa absolutamente nada! Se você quisesse ser um intelectual brasileiro nos anos 60, ainda significaria alguma coisa; mas hoje não significa nada. Intelectual hoje é o Vladimir Safatle, o doutor Emir Sader. Quem quer ser? Deus me livre de ser o maior intelectual do Brasil! Eu quero ser tudo, menos um intelectual brasileiro. Aluno: Num dos textos de A filosofia e seu inverso o senhor faz referência a alguns dos grandes comentadores e estudiosos modernos de Platão: Stenzel, Taylor, Voegelin e Shorey. O senhor poderia fornecer uma lista semelhante a respeito de Aristóteles? Olavo: De certo modo eu já forneci na bibliografia do estudo Aristóteles em nova perspectiva. Mas, de cara, eu acho indispensável, se você quer começar mesmo, iniciar pela leitura os textos do Eric Weil sobre o Aristóteles; são textos curtinhos mas primorosos. Não perca o livro do Jean Paul Dumont, La Methode d’Aristote. Não perca os estudos dos dois Mansion: Augustin Mansion e Suzane Mansion (que era a sobrinha do primeiro). Tudo isso é de um valor extraordinário. Mas consulte a bibliografia do Aristóteles em nova perspectiva que você encontrará tudo mastigadinho lá. Aluno: Achei essa sugestão da auto-análise de si próprio em termos sociológicos fantástica. Eu sempre tentei buscar algo semelhante a isto mas sempre tive muitas limitações. Gostaria de saber como pode ser feito para se obter as categorias fundamentais referenciadas à realidade para o indivíduo se analisar sociologicamente. Olavo: Acho que quem articulou muito bem essa questão da vida pessoal com a sociedade foi o Julian Marías. Ele escreveu muitas coisas importantes sobre isso que pode ser um começo, mas é só um começo. De modo geral, seria interessante você ter a idéia do desenvolvimento inteiro das ciências sociais. Existe em tradução brasileira um livro muito bom chamado Teoria Sociológica, do autor Nicholas Timasheff — talvez vocês ainda encontrem, foi publicado pela editora Zahar. É uma breve história e exposição das teorias sociológicas. O sociólogo russo Pitirim Sorokin escreveu várias resenhas; existe o livro dele Novas teorias sociológicas, que tem tradução brasileira pela editora Globo. Aí você pegará a idéia da coisa inteira. Mas cuidado para não perder o foco; o foco não são as teorias sociológicas em si mesmas, mas as teorias sociológicas como instrumentos de descrição da sua própria realidade. Uma outra coisa que você pode fazer é ler a grande literatura ficcional e os grandes romances, e tentar tirar dali as categorias sociológicas que [1:50] os autores estão usando para enquadrar os seus personagens. Em alguns casos isso é bastante simples quando se sabe, por exemplo, que o autor é de uma formação marxista, como acontece com o Graciliano Ramos. Em seu São Bernardo, as pessoas estão claramente colocadas nas suas classes sociais de acordo com uma visão marxista — felizmente não muito esquemática da coisa, pois o Graciliano era um artista de verdade, e o artista de verdade tem mais em vista a situação concreta que ele está descrevendo do que as categorias abstratas; mas de qualquer modo as categorias abstratas estão lá. Também é interessante, na prática da leitura desses romances, aprender a distinguir quando o personagem sociologicamente enquadrado é um ser humano de carne e osso ou é apenas um estereótipo. No caso do Lima Barreto, vejam que alguns personagens dele são maravilhosamente realizados e outros não, em outros ele cai no estereótipo. Às vezes porque está com muita raiva da sociedade e queria caricaturá-la, então apelava para o estereótipo. Em outros casos o enquadramento social é tão sutil e tão complexo que vemos que a coisa estoura com todos os estereótipos. Um livro em que esse problema, digamos das classes e grupos sociais, é muito claro é Il gattopardo (O leopardo) do Tomasi di Lampedusa, que foi adaptado para o cinema pelo diretor Luchino Visconti. Trata de contradições dentro de uma própria classe social que vê o seu fim próximo e se ajusta rapidamente a uma nova situação; quer dizer, o aristocrata que casa o seu sobrinho com a filha de um arrivista — um burguês enriquecido do comércio. Tudo isso existe e tudo isso pode ajudar. O número de conhecimentos sociológicos que você pode precisar para isso é praticamente ilimitado, mas isto é uma grande aventura. Outro exemplo é escrever a história da própria família à luz desses critérios sociológicos, compreender a origem da sua família. Não que você precise escrever — isso seria uma obra prima e poderia levar muitos anos — mas pelo menos escrever imaginariamente. Nunca escrevi a história da minha família, mas sociologicamente eu sou capaz de analisar a coisa de trás para diante, pois já pensei nisso muitas vezes. Se eu conseguisse escrever isso, seria um prêmio nobel de literatura; não vou conseguir, porém. Por hoje já fomos longe demais. Vamos deixar as outras perguntas para a próxima vez. Então até a próxima e muito obrigado. Transcrição: Mariana Belmonte. Revisão: Lucas Félix de Oliveira Santana.