Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 170 01 de setembro de 2012 Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Eu queria hoje ler e comentar brevemente esse textinho que coloquei aí no site com o título “Fugindo da filosofia”, também analisar brevemente esse debate que houve na USP sob o título de “Ascensão do conservadorismo”, mas antes de tudo queria lembrar a vocês uma frase do José Bonifácio que o Sílvio Grimaldo acabou de me mandar e que é a solução de todos os problemas. A frase é a seguinte: “Os brasileiros mostram altivez nas baixezas, amor próprio nas bagatelas e obstinação em puerilidades”. Essa é a coisa mais verdadeira que eu já li a respeito do caráter brasileiro, se é que se pode falar de um caráter nacional. É difícil falar de um caráter nacional, mas em todos os grupos sociais que observei, sem excluir o nosso, este é, sobretudo, o problema. E vemos que isso já é assim desde o início do século XIX. Com o tempo só tende a piorar, na medida em que os dados, valores, símbolos fundamentais da civilização não penetraram profundamente no Brasil, incluindo o cristianismo, como já observava o Papa João Paulo II, “Os brasileiros são cristãos no sentimento, mas não na fé”. Ou seja, é um puro cristianismo emocional. Gilberto Freyre também observava que o cristianismo brasileiro se constituía, sobretudo, de festas, quermesses, procissões etc., e não tinha absolutamente nada a ver com a vida interior das pessoas. Então, essa espécie de superficialidade compulsiva é uma coisa que continua presente. E é justamente isso que torna o país tão vulnerável a qualquer força destrutiva que, vindo do exterior, tente penetrar no país e dominá-lo. Nós nunca vamos conseguir fazer nada contra isso se nós não começarmos a nos vacinar contra isso na nossa própria alma. Por exemplo, observo a presteza, a pressa que os brasileiros, em geral, praticamente sem exceção, têm em se indignar quando sofre qualquer pequeno dano, qualquer pequena ofensa. Vamos dizer, aquele sentimento de profunda indignação com que as pessoas ficam, elas ficam realmente passadas e não são realmente capazes de examinar o que elas próprias estão fazendo. Isso é a regra geral. Quer dizer, a idéia de um exame aprofundado de consciência simplesmente não existe. Porque uma população criada nesse “culto das bagatelas”, nessa “altivez das baixezas”, não tem como fazer um exame de consciência, ela não tem perante quem. É como se você dissesse que a consciência moral dessas pessoas fosse o olhar dos outros e isto é norma geral no Brasil. Eu levei mais de meio século para entender que também era assim e que não podia ser assim. Então, comecei a me colocar o que é esse problema da autoconsciência. É uma coisa muito evanescente, é muito difícil você estar vivenciando um estado e ter consciência clara dele ao mesmo tempo, quando você tem consciência é porque a coisa já passou e você está em outra situação, de modo que a autoconsciência é como você tentar pegar água. No entanto, nós sabemos que somos alguma coisa, que temos alguma coisa, somos alguma forma ontológica, que não somos um puro fluxo. Mas nós somos tudo isso perante a eternidade, então sempre me retorna o famoso verso de Mallarmé: “Tel qu’en Lui-même enfin l’éternité le change,...”, quer dizer, o indivíduo se torna na morte definitivamente aquilo que ele sempre foi e isso é a mais perfeita imagem do Juízo Final onde você já não pode mais mudar, você foi subtraído ao fluxo das transformações e agora você tem uma forma definitiva. Num texto brilhante, Titus Buckhart lembra, justamente, que esse estado fixo é simbolizado nos seis planos da superfície que compõem o caixão de defunto. O caixão de defunto tem seis lados sendo que esses seis significam os seis dias da Criação porque no sétimo Deus descansa. Então, ali o sujeito está completo. Insistentemente, pedia a Deus que me revelasse, na medida do possível, essa minha forma completa. É claro que eu não obtive isso, mas obtive, muitas vezes, a imagem correta da forma em que eu estava naquele momento, a forma do meu estado. Quer dizer, se eu morresse agora, quem eu seria definitivamente. Acho que só colocando as coisas assim é que você obtém uma imagem mais realista do que você é. O homem só é alguma coisa perante Deus. Perante os outros ele é apenas um fluxo de impressões ainda mais evanescente do que as impressões internas que cada um tem. Quer dizer, o que eu sei dos outros, é apenas um fluxo de impressões que não é nem contínuo como o meu fluxo de impressões pessoais, são impressões que aparecem somente quando a pessoa está presente ou quando eu penso nela. Então, é como se fosse uma impressão de uma impressão. E, no entanto, é no altar dessa impressão, vamos dizer, dessa impressão de impressão, é no altar, para usar a impressão do Machado de Assis, “Um sonho de uma sombra”. É nesse altar que nós nos colocamos para fins de consciência moral. Quer dizer que a nossa consciência moral é a imagem que nós supomos que outras pessoas, as quais nós não conhecemos, têm de nós. Isto é regra geral no Brasil e isso é uma tragédia cognitiva, uma tragédia psicológica fora do comum porque são duzentos milhões de pessoas. A pessoa ser religiosa ou ateia não tem nada, absolutamente, a ver com isso, porque o indivíduo pode passar a vida rezando e ainda ser assim, porque ele não tem aquela solidão perante Deus. Veja, não há ninguém mais solitário, nesse aspecto, do que Deus. Deus é sozinho, porque é o único. Então, nesse sentido, cada um de nós é único, então é só perante o observador onisciente que nós somos alguma coisa. Isso é uma prática na qual você tem de insistir longamente senão, vou ser sincero, nunca será nada, será apenas o sonho de uma sombra. Não adianta nada você ser católico, ser cristão, ser conservador, tudo isso é bobagem. Ser conservador não é mérito nenhum. Em certas circunstâncias se torna um mérito por ser uma alternativa melhor a uma coisa pior, que é exatamente o que acontece no Brasil. Mas, como dizia o Eugen Rosenstock: “Não sei como as pessoas podem ser conservadoras ou progressistas porque toda pessoa normal é, ao mesmo tempo, conservadora e progressista”. Pergunte, assim, se é possível ser unilateralmente conservador em tudo, ou unilateralmente progressista em tudo? Seriam termos que não fariam o menor sentido. Portanto, conservador, não chega sequer a ser um adjetivo, é uma expressão quase adverbial, não tem uma consistência substantiva. Quer dizer, você reage conservadoramente perante certas coisas e progressivamente perante outras. É uma diferença menor. Na realidade dos fatos é uma diferença menor. Em certos momentos pode se tornar uma coisa decisiva, mas, o próprio fato do indivíduo [0:10] se definir como conservador, ué, você só pode ser definido como conservador dentro de um panorama eleitoral, me parece, e o panorama eleitoral não é a substância da vida, ele também é um tecido de aparências mais ou menos momentâneas, sem contar que você pode ser conservador em relação a um e progressista em relação a outro. Aqui nos EUA as pessoas discutem seriamente quem é um conservador autêntico e quem é um falso conservador, quem é um semi-conservador etc. Bom. Isso teve importância na tática eleitoral apenas. O que importa de fato não é se você é conservador ou progressista, mas quem você é substantivamente e você só pode ser alguma coisa substantivamente perante quem tem substância. Quando Moisés pergunta a Deus: “Quem é você?” e Deus responde: “Eu sou ‘Eu Sou’”. Ele deu a solução de um enigma terrível – só existe um eu no mundo. Só existe um ser que pode dizer a palavra “eu” com plenitude. Porque nele não há alteridade, não há elementos externos. Em nós quantos elementos externos têm? Primeiro, você é composto por aquilo que você come e expele todo dia e isto modifica seu estado mental, sua conduta etc. Em segundo lugar, você tem todas as imagens e símbolos que foram se impregnando na sua mente, vindo da cultura, da educação, do meio ambiente etc. Tem todas as imagens que as outras pessoas projetam sobre você e que, de certo modo, lhe dão uma imagem reflexa de você mesmo. Tem todos os elementos hereditários que você desconhece completamente, então, penso assim, você estudando o Szondi, por exemplo, vê isto. Há muitos elementos estranhos na sua personalidade estranhos e totalmente desconhecidos. Por exemplo, se você teve um tataravô assassino, aquela tendência assassina está dentro de você, mas ela é você, você pode chamá-la de eu, você a assume? Não. Veja como nosso eu é mais composto de alteridades mais do que de outras coisas. A imagem que nós temos de nós mesmos é um fluxo de impressões evanescentes. E nós não podemos dizer a palavra “eu” de pleno direito, nós só dizemos por delegação, porque o “Eu Sou” nos conferiu, sob certo aspecto, uma pequena capacidade de ser um “eu”. Quer dizer, a consciência clara e plena de si mesma que assume tal responsabilidade por seus atos, estados, pensamentos, sentimentos, intenções etc. Só nesse momento você é, efetivamente, um “eu” e nesse momento você está à imagem de Deus, dentro da escala pequenininha. Quando você lê os escritos dos santos, eu não os leio muito porque eu não os aguento. A intensidade de autoconsciência dessas pessoas é uma coisa muito dolorosa. Quando, por exemplo, São Luiz de Montfort tentando explicar o rosário e dizendo que ele é um sujeito tão baixo que ele nem merece fazer isso, ele sabe do que está falando, eu não sei, mas ele sabe. Ele conhece sua imagem perante o olhar de Deus e sabe o quanto essa imagem pode ser feia. Não feia em termos do Juízo Final. No outro mundo, São Luiz de Montfort está muito bonito. Mas enquanto estava vivo, na Terra, ele carregava esta herança maldita do pecado original, das tendências hereditárias, do meio social, tudo isso. E nós vivemos no meio disso, e somos enormemente feios. Enquanto você não está disposto a encarar essa coisa, falar de autoconsciência é perda de tempo. Você não sabe quem é, é apenas uma criança delirando, brincado de soldadinho de chumbo, fingindo que você é John Wayne ou qualquer coisa assim. Mas é tudo mentira. Assim como também é mentira as imagens terríveis que você projeta de si mesmo quando está com vergonha. Por exemplo, na hora que você acha que os outros pensam algo de mal de você e você se encolhe de vergonha. Tudo isso sinceramente é uma palhaçada. Só existe um eu efetivo – aquele que Deus está enxergando. Ele te mostra pedaços quando você pede. Às vezes esses pedaços são muito feios e às vezes são muito bonitos. Confesso que eu já cheguei a perceber até deficiências neurológicas minhas. Má formação cerebral mesmo. Cheguei a perceber isso. Um elemento hereditário, e tudo isso é muito feio. Daí você não aguenta e pede pra Deus: “Mostre que você me ama!” E daí Ele te mostra outra coisa que você pode ser ou que está reservada para você. Este é o único conhecimento que existe. Agora, quando as pessoas falam de exame de consciência, as pessoas pegam um formulário (claro que o formulário pode ajudar no começo). Fiz isso, fiz aquilo, fiz aquilo outro. Pode ajudar, mas a única coisa que ajuda mesmo é uma total disposição de você saber o que Deus sabe a seu respeito. E Ele sabe tudo. Então Ele não pode te mostrar tudo, somente um pedaço de cada vez. A coisa mais urgente nesse país é que haja certo grupo de pessoas dotadas de capacidade para a autoconsciência, porque o que essas pessoas fizerem têm substância e o que tem substância tem efeito. Eu gostaria imensamente de ser uma dessas pessoas e tenho me esforçado para isso. Estou longe de ser isso, mas tenho idéia de como é que se faz. Fora disso, é tudo um blá-blá-blá, tagarelice. Tanto faz ser tagarelice comunista, tagarelice conservadora, tagarelice cristã, é tudo a mesma coisa. Agora, passa o tempo e você espera ver alguma ação humana real, substantiva. Sinceramente, nos últimos anos, eu não tenho visto isso. Tenho visto muita pose, muito fingimento, sobretudo baseado na necessidade que as pessoas têm de consertar a sua autoimagem, de projetar uma imagem melhor, e, com isso, o sujeito só acrescenta mais uma mentira à sua já formidável coleção de mentiras. E é justamente por isso que as pessoas se tornam tão vulneráveis aos que os outros falam delas porque se eu quero consertar a minha autoimagem perante mim mesmo, então, qualquer contribuição que venha de fora é bem-vinda, por assim dizer. Se falam bem ou mal de mim começa a se tornar uma coisa muito importante. Eu não sou indiferente ao que as pessoas falam de mim, evidentemente, mas, eu sei que, em geral, elas estão tão, tão, tão longe da verdade que incorrem naquele famoso provérbio árabe: “Se as pessoas te louvam por méritos que você não tem, elas vão acabar te acusando de defeitos que você também não tem”. E também tem aquele outro provérbio: “A fama é o conjunto dos equívocos em torno de um nome”. Eu confirmo isso diariamente, diariamente. Às vezes eu cometo algum erro e as pessoas me acusam de outro erro completamente diferente. Muitas vezes, ao longo da vida, eu menti e as pessoas tomaram a minha mentira como verdade, mas me acusaram precisamente disso. Acusaram-me de fazer o que eu apenas disse. Isso acontece muitas vezes. Não é que você não liga mais para essas coisas, mas você sabe qual é o peso específico que elas têm. [0:20] Mas, para você saber esse peso específico há algo a respeito de você mesmo que precisa saber e você só alcança saber alguma coisa se você chegar a este exame de consciência aprofundado, que vai até a raiz da sua existência, quando você era pequenininho. Quando você lê nas confissões de Santo Agostinho, por exemplo, ele se lembra dos maus pensamentos que ele tinha no bercinho. Um dia me toquei: preciso fazer uma revisão para saber quando eu comecei. A gente sempre parte dessa idéia de que “Quando eu era criança eu era tão inocente e depois foi a sociedade que me corrompeu”. Mas quem disse que é assim? Claro que a sociedade te corrompe, sem dúvida, mas você já traz algo, alguma semente em você. Onde está essa semente do mal dentro de você? É claro que é um puro idealismo imaginar que todos os meus alunos vão desenvolver esse nível de autoconsciência. Também, mesmo com alguns dos melhores, eu tive algumas decepções horrendas. Do tipo: “Amor próprio em bagatelas e obstinação em puerilidades”. Eu vi isso aí. Não sairei acusando pessoas porque eu mesmo sou assim, confesso que sou assim. A única vantagem que eu tenho sobre vocês é que eu nasci um pouco antes e tenho um pouco mais de experiência, então já não me engano tão majestosamente assim. Tento, na medida do possível, passar alguma tecnologia da sinceridade. A única sinceridade possível é a sinceridade perante Deus. A sinceridade perante seres humanos é apenas simbólica, uma vaga imagem do que podemos dizer a Deus e do que Deus diz a nós. É evidente que quando a gente fala em Deus aqui, não estamos falando de Deus no mesmo sentido que se pode falar de Deus, por exemplo, na USP, porque Deus, para a mentalidade uspiana é um objeto de crença. Bom, mas eu não posso fazer tudo isso perante um objeto de crença. Um objeto de crença, que eu saiba, é algo que só existe quando eu penso nela. Um objeto de crença não pode agir sobre mim. Um objeto de crença, por exemplo, não pode me ensinar o que eu não sei. Mas ao longo do tempo, você pode adquirir certa prática de permitir que Deus mude você de alguma maneira e na hora que você permitir isso e começar a acontecer, você entende: “Objeto de crença é uma pinóia, é uma pessoa que sabe as coisas, que age e que tem meios de ação que nós não conseguimos nem mesmo imaginar”. Sem um pouco dessa experiência, qualquer idéia religiosa que você tenha, crença ou descrença, não significa absolutamente nada. Isso quer dizer que a “fé” de muitas pessoas e a descrença de outras realmente não pesa e não significa nada. Disse isso só para lembrar a vocês que, mesmo uma vida de estudos, muito dedicados, muito sérios, pode não ser nada se não tiver por trás dela uma substância humana verdadeira e, lembrar aquilo que dizia Goethe: “O talento se adestra na solidão, no estudo solitário”, mas, “O caráter se adestra na agitação do mundo”. No meio das tentações, dos pecados, das ofensas recebidas. Aí é que você vai tentar ser alguma coisa. Não sou um grande especialista nisso. A minha prática também é reduzida, mas, quando eu vejo as pessoas se escondendo como ratos, acabam de fazer alguma, e imediatamente já tem todo um sistema de desculpas e de autodefesa que não serve para nada, só serve para torná-la mais culpada ainda, para complicar mais o negócio. Isso é uma coisa deplorável e seria ótimo que pelo menos uma parte dos nossos alunos aprendessem isso aí. Por exemplo, as pessoas vivem me perguntando: o que você acha do fulano, o que você acha do sicrano? Quer uma coisa mais idiota do que você ter uma opinião a respeito de uma pessoa? Um julgamento a respeito de uma pessoa? Para que Deus fez os dez mandamentos? Fez para que você saísse com uma régua medindo as pessoas? “Esse aqui ama a Deus, ama o próximo”. Houve uma discussão entre dois amigos meus, americanos, para saber se eu era ou não era um homem de Deus. Isso é lá da sua conta? É você que vai julgar se eu sou um homem de Deus? E se você chegar à conclusão de que eu sou e, de fato, não sou? O que isso vai mudar na ordem das coisas? Não sei quem é homem de Deus e quem não é, não tenho a menor idéia. Espero que todo mundo seja. Mas ter opinião sobre pessoas é uma dessas obstinações em puerilidades a que se refere José Bonifácio. Você pode ter alguma opinião sobre alguma coisa que é da sua alçada. Como eu estou metido nesse negócio de filosofia, educação e jornalismo, então nessas três coisas eu tenho opinião sobre o que as pessoas fazem quando é da minha conta, mas, normalmente, você deve usar o critério de Jesus Cristo: “Não julgueis para não ser julgados”. Não é para ter opinião sobre pessoas, é para ter opinião sobre o que é da sua área, da sua responsabilidade. Por exemplo, se um sujeito é um juiz de direito, e você apresenta um caso para ele, ele não pode dizer: “Não vou julgar para não ser julgado” e vai embora. Ele não pode fazer isso, a responsabilidade dele é julgar. Julgar esse caso em particular sob aquele aspecto. Ele não nem vai dizer se a pessoa é boa ou má, ele vai dizer se o sujeito cometeu ou não cometeu certo delito tipificado nas leis e só isso. Eu vejo que no Brasil é costume assim: o sujeito lê uma opinião que você deu sobre algo e dali deduz toda uma visão do mundo que ele acha que você tem, então responde essa visão do mundo e acha que respondendo a isso ele respondeu àquela sua opinião. Quando você vai ver ele não falou nada sobre a sua opinião. Quando eu publiquei aquele artigo sobre o positivismo inconsciente dos militares de 64, logo em seguida eu recebi uma carta, várias, aliás, dizendo: “Ah! O senhor está lançando a culpa de tudo no Regime de 64, mas os militares fizeram grandes coisas etc.”. Ou seja, eu não posso assinalar uma deficiência naquele governo sem que o sujeito imagine que eu vejo nele todas as deficiências do mundo. É incrível, por exemplo, que as pessoas não levem em conta nem mesmo o gênero literário daquilo que você está escrevendo. Um artigo de jornal tem certas características formais, entre as quais o tamanho fixo. Não sei se vocês repararam, mas meus artigos de jornal têm cinco mil e quinhentos caracteres, entre letras e espaços. Cinco mil e quinhentos. Nem mais, nem menos. Você vai entre os cinco quinhentos e um até os cinco mil quinhentos e noventa e nove, não pode passar daí. O simples fato de você ter um tamanho determinado limita as suas possibilidades de exposição e você deve, então, concentrar em um ou dois aspectos que são abordáveis naquele espaço. Isso quer dizer que é impossível conhecer a “opinião” do indivíduo lendo um artigo dele. Você tem de ler dez, vinte, trinta e aos poucos ir convergindo. A ignorância disso é tão grande no Brasil, mas tão, tão, tão, tão grande, que outro dia o nosso já velho conhecido, Sr. Júlio Lemos, escreveu um artigo contra as citações casuais, capengas. Ele acha que as citações têm de ser feitas rigorosamente com fontes etc. Isto é uma norma que existe nos trabalhos científicos acadêmicos, mas, uma pessoa habituada a ler livros sabe que todas as obras dos grandes filósofos, dos grandes escritores estão repletas de citações casuais sem fonte, citações às vezes muito precisas, feitas de memória. Estão repletas! Porque a citação precisa só é obrigatória quando a citação tem fim documental, o que acontece, precisamente, num trabalho científico acadêmico. Muitas vezes você faz a citação não porque você quer explicar algo a respeito do pensamento [0:30] do autor do trecho citado, mas, simplesmente, para esclarecer o seu próprio pensamento, neste caso, citar a fonte com página etc., seria absolutamente ridículo! Por exemplo, você menciona o discurso daquela dona de A Megera Domada. Você diz: “Shakespeare diz isso, diz aquilo”. A reprodução que você faz não é muito precisa. Mas você não está fazendo um estudo sobre Shakespeare, você está usando aquela imagem apenas para esclarecer algo que você quer dizer. Neste caso dar a fonte correta seria não apenas dispensável, mas seria despropositado, errado. Acontece que o senhor Júlio Lemos só lê trabalhos acadêmicos, não tem cultura literária, histórica, nada. Então ele acha que aquela regrinha que tem de ser seguida nos trabalhos acadêmicos é universal, e você tem de segui-la em ensaios, artigos de jornais etc. Ou seja, é uma coisa de inculto, de falta de cultura, evidentemente. Eu lembrei-me do meu filho Pedro, quando ele tinha três anos. Nós morávamos no décimo andar de um prédio, e eu o proibi terminantemente de chegar perto da janela. O que ele fazia? Ele não deixava ninguém chegar perto da janela. Aquela regra que foi adotada para um contexto específico, ele a universalizou. Então, o Júlio Lemos também não deixa ninguém aproximar-se da janela. E é um articulista, um cara que escreve numa revista de cultura, e representa o que é atualmente um intelectual brasileiro. Outros intelectuais brasileiros são esses que se reuniram na USP para fazer uma análise sobre a ascensão do conservadorismo. [interrupção da aula] Nesta reunião, onde participaram André Singer, Vladimir Safatle, Marilena Chauí, Ricardo Musse e quem mais? De cara tem um mérito, que é um mérito tradicional da esquerda. Não se pode esquecer que a esquerda no Brasil é uma força altamente organizada há muitas décadas. Organizações que remontam aos anos 30 e 40, com uma atividade constante. Essas reuniões para análise de conjunturas são um hábito arraigado, que nem sempre visam alguma ação imediata, mas são condição prévia da ação, e eles estão acostumados a fazer isso. O pessoal da direita, conservador, não tem a menor idéia do que seja isto. Eu tento explicar isto a liberais, conservadores etc., há aproximadamente vinte anos. Se você não tem um círculo de intelectuais que se reúne costumeiramente apenas para analisar a conjuntura, não haverá movimento político nenhum, nunca. É tudo fogo de palha, é tudo bobagem. Se você analisar as iniciativas tipo liberal-conservadora no Brasil nos últimos vinte, trinta anos, verá que elas não têm continuidade, eles não têm idéia de análise estratégica, nem coisa nenhuma. São apenas reuniões para fins de propaganda. Mas é como se fosse a propaganda de um produto que não existe, porque por baixo da propaganda deve haver um movimento organizado, com uma militância permanente, com fins táticos e estratégicos definidos, e daí se faz a propaganda em função disso. A atividade liberal-conservadora, como eles vêem os esquerdistas fazendo congressos, por exemplo, eles querem fazer congressos, se reunir, falar. Mas não tem o produto por trás. A coisa é de uma alienação psicótica. O pessoal esquerdista, especialmente comunista, tem prática disso. Estão acostumados a analisar as mudanças sociais. Analisam da maneira deles, que nós já veremos como é, mas pelo menos esse mérito eles têm. Outro dia eu escrevi um artigo que mandei para o Diário do Comércio que ainda não foi publicado e que pode servir um pouco de baliza para o que eu quero explicar aqui. O artigo chama-se “Visão curta e visão mais curta”: O livro dos Trinta e Seis Estratagemas chineses [que as pessoas atribuem erroneamente a Sun-Tzu] ensina: “Todo fenômeno é no começo um germe, depois termina por se tornar uma realidade que todo mundo pode constatar. O sábio pensa no longo prazo, isso porque ele presta muita atenção aos germes. A maioria dos homens tem a visão curta. Espera que o problema se torne evidente, para só então atacá-lo.” As duas perguntas que o trecho sugere são: 1) Onde estão os germes? 2) Quando os problemas se tornam evidentes, aparecem claros para todo mundo ao mesmo tempo? A resposta à primeira pergunta não é nem muito difícil. Todas as situações histórico-políticas nascem da ação humana, e a ação nasce da especulação de possibilidades. Claro, se você não consegue conceber nem como possível você muito menos consegue fazer. “Quem especula possibilidades são os intelectuais, numa gama que vai desde os estudantes tagarelas, passando pelos ideólogos de partidos, até os assessores e conselheiros de potentados da política e das finanças, culminando nos círculos discretos ou até semi-secretos de inteligências privilegiadas (como, por exemplo, a Fabian Society de 1883, o núcleo fundador da Escola de Frankfurt, o grupo de Stefan George na Alemanha ou a tarica de Frithjof Schuon). Das idéias que aí circulam, algumas são esquecidas, algumas se modificam até tornar-se irreconhecíveis, outras acabam por se transmutar em forças políticas num prazo mínimo de trinta anos.” Você veja, por exemplo, as idéias da Fabian Society que foi fundada em 1883. Os primeiros sinais de uma ação política baseada naquilo aparecem no governo do Woodrow Wilson durante a primeira guerra, mais ou menos trinta ou quarenta anos depois. “Não há um só partido, campanha ou movimento que não tenha começado assim, bem low profile. O analista que deseja saber para onde a política está indo, ou de onde ela veio, tem, portanto, de se interessar por uma vasta rede de discussões que, para a mídia usual, é totalmente invisível: só aparece em livros de poucos leitores, revistas acadêmicas, publicações nanicas, sites especializados, conversações pessoais, documentos reservados etc. Quando as opiniões dos intelectuais brilham nos jornais ou na TV, é porque já não são germes: são aspectos e sintomas do fato consumado, às vezes, empenhados, precisamente, em camuflar-lhe as origens. É por isso que o comentário jornalístico usual, simples reciclagem estilística do noticiário da véspera, quase nunca acerta em prever mesmo os desenvolvimentos mais inevitáveis da situação. [0:40] Ainda nos anos 50 o ressurgimento do Islã como força política decisiva, inevitável para meia dúzia de estudiosos, parecia hipótese mítica aos olhos dos luminares da mídia.” Parênteses: quando eu comecei a estudar este negócio do islã no Brasil, que foi na década de 80, isso ainda parecia tão, tão, tão distante da política que as pessoas nem sabiam por que eu estava estudando aquilo. “A queda da URSS pegou os jornalistas de calças na mão, assim como, dez anos depois, o renascimento mundial de uma esquerda que eles imaginavam defunta.” Leiam o livro do Jean-François Revel, La Grande Parade, escrito já perto do ano 2000, onde ele perguntava isso: “Como foi possível que aquilo que morreu na União Soviética, agora esteja dominando tudo por toda parte?”. Não digo que ele tenha dado as respostas corretas, mas é a perplexidade: o comunismo morreu, mas daqui a pouco esta aí o cavalo morto escoiceando todo mundo em menos de dez anos. “Até hoje há quem se recuse a perceber a mão da KGB na premeditação da perestroika (...)” O Rodrigo Constantino diz que eu sou paranoico porque disse isso. Está mais do que documentado que isso aconteceu. A KGB que inventou a perestroika porque viu: “Olha, o comunismo vai para as cucuias, o partido vai cair, mas vão-se os anéis e ficam os dedos; eles que se deixem levar para a lata de lixo da história, mas nós não vamos. Vai cair o partido e nós ficaremos, e ficaremos melhor que antes”. Foi exatamente o que ocorreu. “(...) ou a fonte globalista de movimentos como o gayzismo e as cotas raciais. E não preciso lembrar aos leitores que o Foro de São Paulo só apareceu no Globo e na Veja quando já dominava metade da América Latina, tendo, portanto saltando repentinamente, miraculosamente, da inexistência para a glória, sem escalas intermediárias. As idéias, é claro, não surgem como propostas políticas prontas, mas como interpretações da realidade, das quais pode-se deduzir várias propostas políticas diversas, e às vezes nenhuma. A transformação de uma coisa na outra é um processo lento, sutil e complicado. A própria disciplina chamada ‘história das idéias’ está mal equipada para rastreá-lo.” Exemplos de estudos bem sucedidos na área são Fire in The Minds of Men, de James Billington, que rastreia as influências mútuas dos movimentos revolucionários: como as idéias vão passando de um para outro, para outro, baseado menos no método das “histórias das idéias”, do que de métodos desenvolvidos em literatura comparada. Em literatura comparada você estuda, por exemplo, uma imagem, uma metáfora, desde seu primeiro aparecimento e como ela vai passando para outras literaturas e sendo mudada, e Libido Dominandi, de E. Michael Jones, que rastreia as idéias então do sex lib e suas relações políticas. “Mas mesmos esses morceaux de bravoure não exorcizam do meu cérebro aquele sentimento de frustração que Ortega y Gasset assim resumia: “Nunca se escreveu um livro que explicasse satisfatoriamente por que alguém fez alguma coisa.” Essa frase é monumental. “A análise política, mesmo praticada com os maiores escrúpulos de método, está longe de ser uma ciência: é no máximo um empirismo organizado. A segunda pergunta baseia-se na observação de que os fatos patentes não se tornam patentes para todo mundo ao mesmo tempo. Governantes, comandantes militares, chefes de serviços secretos, big shots das finanças, por mais lentos que sejam os seus cérebros, tomam conhecimento das coisas antes da população geral, porque têm assessores bem pagos incumbidos de informá-los. Têm o tempo e os meios, portanto, de desacelerar a divulgação dos fatos, ou de mandar remoldá-los para que pareçam outra coisa. Quando, depois de anos, o escândalo explode aos olhos de toda a população, é geralmente porque já é tarde demais para fazer o que quer que seja a respeito. E mesmo então as partes mais importantes da história permanecem ocultas, esquecidas ou incompreendidas. Em 1993, quando por obrigações profissionais eu estudava dia e noite a epidemia das CPIs, duas coisas já haviam se tornado claras para mim: 1º) Escorado num eficiente serviço particular de inteligência, o PT preparava a tomada do aparelho de Estado; e 2º) Já se guarnecia antecipadamente contra investigações. Usava as leis como escada para elevar-se acima delas. O futuro mensalão estava ali em germe. Não havia como negar. Mas a diferença entre o que eu lia nos documentos de fonte primária e o que saía na grande mídia era tal, que o partido do Zé Dirceu acabava parecendo mesmo o último bastião da moralidade no meio da roubalheira geral.” Eu fui contratado pela empresa Odebrecht para escrever para eles um relatório sobre as CPIs – relatório que idealmente eles iriam publicar. Não publicaram até hoje. Ficaram com medo de publicar. A verdade era ruim demais. Isso quer dizer que durante mais de um ano eu tinha na minha casa um quarto inteiro cheio de documentos das CPIs. Todas as transcrições de todos os dias, todos os documentos e mais o noticiário que saía nos jornais. Diariamente, durante um ano, eu comparava uma coisa com outra. Eu via: lá na CPI disseram isso assim e assim, e no jornal saiu outra coisa completamente diferente. Isto acontecia todos os dias. Evidentemente a impressão que ficava nos olhos do povo era uma, e o que estava acontecendo era outra coisa completamente diferente. Foi aí que eu vi o abismo que pode existir entre os fatos e sua imagem na mídia. Não se trata de uma mentira aqui e de outra acolá. Você tem uma espécie de distorção permanente. Em parte causada pela simples aplicação rotineira de técnicas jornalísticas que não são muito apropriadas à descrição dos fatos, em parte por hábitos mentais que já estão arraigados na cabeça dos jornalistas e que os fazem distorcer as coisas mais ou menos automaticamente. E, em parte, por uma distorção proposital feita para favorecer determinadas correntes políticas. Eu vejo, por exemplo, que na cabeça de todo jornalista brasileiro, pelo menos – aqui nos EUA também se vê a mesma coisa, existe um instinto de você reproduzir as palavras do indivíduo de maneira que possa comprometê-lo se você não gosta dele, e que possa neutralizar o perigo se for alguém de sua preferência. Isto significa que com uma frase pode-se destruir a carreira do sujeito, como fizeram aqui com este tal de Todd Akin. Ele falou uma besteira a respeito de estupro. Ao longo de uma carreira de cinquenta anos falou uma frase desgraçada, quase acabaram com ele. Ou o Maluf com o famoso: “Estupra, mas não mata”, que provavelmente não foi dito exatamente assim, mas foi resumido assim. Note bem: jornalistas quando fazem isso, ficam contentes. Eu lembro quando nós pegávamos algum político numa coisa dessas. Cortava uma palavra aqui, mudava uma vírgula, e dava um sentido demoníaco a alguma coisa. Todos ficavam muito orgulhosos de fazer isso. Isso era demonstração de força, demonstração de capacidade de redação no jornalismo. Isso já está incorporado nos hábitos, não é nem uma distorção ideológica, já é um hábito. “Quase duas décadas se passaram antes que a decepcionante realidade das coisas se tornasse patente aos olhos da multidão. A visão curta de que falam os estratagemas chineses torna-se mais curta à medida que se desce das altas esferas para o mundo ilusório do eleitor comum.” Nas altas esferas geralmente se sabe as coisas em tempo. Ainda que se saiba distorcido, alguma informação você tem. Quando o mensalão estourou aos olhos do povo? Quando foram as primeiras denúncias do mensalão? Foi há uns cinco ou seis anos. No entanto em 1993 estava claro que o PT tinha montado um serviço de inteligência, que depois as pessoas chamavam de “Os arapongas”. Mas isso já era uma versão diminuída da coisa. “Araponga” é um espião aqui, outro acolá. [0:50] Um serviço de inteligência não está lá para espionar e captar informações, mas também para difundir informações e passar sua própria versão das coisas. Naquela época, eu estava com o dinheiro da Odebrecht e eu contratei dois repórteres para irem atrás dos agentes do PT infiltrados em bancos, empresas, organizações estatais etc. Em geral eram pessoas amadoras que ofereciam gentilmente seus serviços para o partido e eles eram milhões de pessoas, isso já naquela época. Ninguém monta uma coisa deste tipo se não tem planos ulteriores. O mensalão já estava ali montado de alguma maneira. Num dos discursos do Zé Dirceu, ele falava de um sujeito que havia recebido uma propina de um empreiteiro, e ele dava os números das cédulas que o sujeito recebeu. Mas como ele ficou sabendo disto? Era porque havia um agente infiltrado que participou da operação e, portanto, é culpado dela também. Este detalhe não foi mencionado por ninguém na época, não suscitou a menor desconfiança. Muito bem, mas tudo isto é para vocês verem que esta coisa de examinar o germe dos movimentos políticos, coisa que o pessoal liberal direitista desconhece tanto, que quando eu mostro para eles um desenvolvimento que já está em curso, que já está acontecendo, mas que ainda não saiu no jornal, eles sempre dizem que é loucura. Como por exemplo, agora, no novo código penal que querem reduzir a idade de consentimento para ato sexual para doze anos de idade. É a consagração da pedofilia, como eu anunciei cinco, seis, sete anos atrás. Foi chute? Sacação? Não! Eu fui lá na discussão e vi o que os intelectuais estão discutindo. Ou são ideólogos de partido, ou são altos assessores de milionários, de potentados. É lá que está o germe do que vai acontecer. Eu não estou diagnosticando, estou dizendo um plano que eles têm. Pode ser que este plano seja abortado ou adiado. Às vezes eles não conseguem fazer a coisa no tempo devido, mas, não há uma só idéia ou proposta política em ação que não tenha essa origem, não há outra origem possível. Os próprios políticos em cargos elitivos não têm idéia nenhuma. Quando a coisa chega ao parlamento é porque já é velho. Você veja todo esse favorecimento aos drogados, bandidos, essa moleza que a polícia e as autoridades estão dando a criminosos. Tudo isso começa na década de 50 e 60. Está tudo nos livros de Herbert Marcuse, e já vinha sendo discutido na Escola de Frankfurt desde a década de 30. Então, até virar política passa um tempo. É um mínimo de trinta anos, pode ser sessenta, setenta, é um processo longo e complicado. Entre os direitistas, liberais, conservadores, ninguém parece saber disso. Quando você anuncia um processo que já não está nem mais em germe, mas que já está em movimento, eles acham que é teoria da conspiração. Eu estou querendo ensinar para eles como é que se trabalha, eles não querem aprender. Isso são todos, sem exceção: é milico, é cristão, é católico, é protestante, é jornalista, é empresário, são todos assim. Comparado com isso o pessoal da esquerda é muito mais profissional, pois eles já estão acostumados com a idéia de que é preciso estudar as coisas em germe. Algumas vezes eles são pegos de calça na mão. Por exemplo, em abril de 64 foram pegos de calça de na mão, por quê? Durante um tempo eles não prestaram atenção ao que estava sendo discutido entre os intelectuais conservadores e, de repente, aconteceu o golpe. Levaram a pancada e não sabiam da onde vinha. É claro que depois tiveram de fazer um mea culpa, e ficaram dois ou três anos vendo onde tinham falhado, qual a bobagem que fizeram, e fizeram bem de fazer isso. Agora houve este encontro na USP que fala da “ascensão do conservadorismo”. Ascensão que está evidentemente apenas em germe, um germe muito pequeno, mas que eles já dão como fato consumado. Analisando um pouco as falas de Vladimir Safatle, Marilena Chauí, André Singer etc., nós vemos vários pontos importantes a destacar. Primeiro: eles estão atentos a um germe que pode crescer e virar um movimento político amanhã ou depois. Este “amanhã ou depois”, embora eles não saibam, eu sei que é trinta anos; eles pensam que é duas semanas. Segundo: há um forte elemento paranóico na medida em que consideram o germe como uma ameaça real e presente. E, evidentemente, isto é feito em parte como um elemento de autojustificação, porque de fato não há nenhum partido de direita, conservador. A opinião conservadora está excluída da grande mídia. Depois de Dom Eugênio Sales, me mostre um colunista que defenda sistematicamente um ponto de vista conservador, cristão. Não tem. O último era o Carlos Ramalhete da Gazeta do Povo do Paraná, e o pessoal já está querendo tirar. Eu não posso dizer que eu mesmo seja um conservador nesse sentido, eu nunca estive presente na mídia para defender o ponto de vista conservador ou qualquer outro programa de ação, eu estou apenas analisando o que se passa. Eles podem me identificar como uma força conservadora, mas para mim tanto faz. É como se dissesse: “Eu não sou conservador, eu estou conservador”, neste momento eu represento aos olhos deles uma força conservadora. Nas universidades nem se fala, o ponto de vista cristão, conservador, está praticamente excluído, e, no entanto aparecem quatro ou cinco colunistas (hoje até são algumas dezenas de sites cristãos – protestantes ou católicos – muito batalhadores, com um forte movimento anti-abortista), e aos poucos isso foi configurando na cabeça deles um “conservadorismo”. A descrição que eles fazem do fenômeno não tem nenhuma apreensão objetiva sobre os fatos, nada! Os conceitos descritivos usados são totalmente inapropriados ao assunto. Não há conexão com a realidade, eles não são capazes de fazer uma descrição da situação real, e no fundo nem imaginam que isto é possível. O conjunto do que eles dizem pode ser interpretado não como uma descrição de um estado de coisas efetivo, mas como expressão do sentimento de identidade do grupo. Eles perfilam uma ameaça, e o exame desta ameaça reforça os elos de solidariedade entre os membros do grupo, portanto, entre a plateia e os palestrantes e demais militantes. Neste sentido, é um discurso ideológico na acepção mais técnica e objetiva do termo. Não é um discurso sobre a realidade, mas é um discurso de autoexpressão e de fortalecimento de um sentimento de identidade grupal. Olhado do ponto de vista da descrição da realidade, ou seja, sempre se pode tomar um discurso ideológico e examiná-lo como se fosse um discurso científico – porque às vezes ele vem com a pretensão de discurso científico, e neste caso, são professores, sociólogos, filósofos etc. Então, eles vêm com o prestígio da descrição da realidade. Como descrição da realidade, a coisa é evidentemente totalmente de um caráter delirante e invertido. Em certos pontos [1:00] até involuntariamente cômico, por exemplo, quando dona Marilena Chauí descreve a violência e a falta de educação das pessoas, a brutalidade, a barbárie reinante na sociedade brasileira e atribui isso ao conservadorismo. Ela quer dizer, portanto, que as pessoas xingam-se umas às outras e fazem quebra-quebra porque receberam educação cristã em casa e são muito conservadoras. Isso é um absurdo tão grande, que as pessoas só perdoam isso devido ao prestígio da Marilena, e mesmo assim, eu duvido muito que não haja pelo menos um comunista na platéia que não tenha entendido que isso é uma inversão total. Tanto é assim, que a própria Marilena, vinte anos atrás, dizia que seu sonho era encontrar uma moral sem culpas, onde ninguém é culpado de nada, não há o certo e o errado e tudo é estético. Ora, os estudantes da USP – que há menos de um ano estavam destruindo a universidade, invadindo a Reitoria, quebrando cadeira, dando um exemplo clássico desta barbárie a qual ela se refere –, foram educados em que base? Na moral cristã tradicional ou na moral sem culpa da dona Marilena? Além disso, na mesma semana, os estudantes deram outro sinal de barbárie no ataque que fizeram à coletiva de Dom Bertrand. Houve também aquele ataque aos oficiais na porta do clube militar – onde havia centenas de jovens saudáveis e vigorosos – xingando nonagenários e achando-se muito valentes por isto – eu até escrevi um artigo a este respeito [“Reação fraca”, Diário do Comércio]. É evidente que a raiz desta barbárie está na perda do sentimento moral tradicional e não tem nada a ver com conservadorismo, pois justamente a perda dos sentimentos conservadores cria isto. Houve um longo trabalho neste sentido, um trabalho de apresentação dos crimes dos delinquentes como se fossem vítimas da sociedade. A idéia de fazer a sociedade sentir culpa quando pune uma pessoa dessas – ou seja, um pouco da mentalidade de 68 de que é proibido proibir. Isso era uma idealização da barbárie e nós estamos vivendo sob esta cultura de idealização da barbárie pelo menos há trinta anos. Em pouco tempo as suas idéias viram acontecimentos, e os acontecimentos podem acertar em você. Deve-se lembrar, por exemplo, como terminou a vida do príncipe da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno: ele passou a sua vida tentando corroer todos os valores e critérios morais da civilização ocidental – demoli-la –, e os estudantes gostaram da idéia. Um dia invadiram a sala dele e fizeram o maior quebra-quebra. Ele tentou protestar e as alunas o que fizeram? Tiraram a roupa, mostraram os peitos, começaram a dar uns beijinhos insultuosos no velho. Ele teve uma crise nervosa e morreu logo depois. Este é o mesmo caso da dona Marilena: ensina as pessoas a serem desrespeitosas, ensina que os seus desejos sexuais, seus impulsos são muito mais sagrados do que os valores da civilização. As pessoas acreditam nisso, começam a agir assim e de repente pode estar a Marilena na frente e ela mesma sofrer o impacto de sua moral sem culpas, porém, ela irá dizer que é o ressurgimento do conservadorismo. É evidente que isto é uma inversão, eu não posso nem dizer psicopática, mas sim psicótica da realidade, absolutamente delirante. Até agora mesmo o Alessandro estava observando um fato ocorrido com a Marilena ao narrar uma dessas experiências de falta de educação e brutalidade das pessoas: houve um problema de trânsito, e a pessoa que estava no outro carro saiu e disse para ela: quem você acha que é para sair gritando com as pessoas assim? A pessoa estava muito brava, porém a própria Marilena é que estava contando e começou a gritar, sentindo-se agredida pela outra. Inverteu-se tudo neste caso, mas a inversão do episódio simboliza e condensa a inversão total da visão que ela está apresentando das coisas. Essa inversão também já se observa há muitos anos numa noção fundamental que esta gente usa para descrever um estado de coisas e o seu inimigo, sendo este inimigo chamado neoliberalismo. Eu já escrevi artigos a este respeito. No ano de 2000 – procurem em minha página por um artigo chamado “Longe de Berlim, fora do mundo” – houve uma reunião dos chefes de estado de esquerda e centro-esquerda em Berlim, e quem eram eles? Eram todos chefes de estado das nações mais poderosas do mundo: EUA, Alemanha, França, Inglaterra etc. Não eram chefes de estado do Paraguai e nem mesmo de Cuba, mas sim os chefes de estado das grandes potências – os quais eram todos de esquerda – sendo aquela a época do maldito neoliberalismo. E o que era o neoliberalismo? O neoliberalismo era representado, portanto, por Bill Clinton, Schröder na Alemanha, ou seja, era a própria esquerda. Segundo eles, o neoliberalismo é a política privatista baseada no mais extremo individualismo e desprezo pelos pequenos e necessitados, é o capitalismo na sua forma crua etc. Porém, quem está implantando isto? São vocês, pois vêem que o socialismo está falido e apelam às empresas, ao mesmo tempo em que procuram ampliar o controle do estado sobre tudo o mais – como eu descrevi no capítulo final de O Jardim das Aflições. Durante o governo de Bill Clinton, por exemplo, houve uma privatização de vários setores do estado, ao mesmo tempo em que o estado começava a dar palpite sobre tudo, penetrando mais profundamente no tecido social como jamais tinha penetrado antes, e sendo esta exatamente a mesma política que é seguida no Brasil até hoje. São conservadores que inventaram isto? Claro que não, é a própria esquerda. Porém, a esquerda se serve de um discurso que vem de setores liberais clássicos, como no Brasil, o pessoal do Fórum da Liberdade, as quais são pessoas que não exercem o poder – não são políticos, mas sim intelectuais –, e que possuem um discurso a favor da livre empresa e contra a intromissão do estado. Muitas dessas pessoas pertencem a uma sociedade chamada Mont Pèlerin, a qual é uma das grandes forças do globalismo, sendo que a elite globalista usou este discurso liberalizante para diminuir a autoridade dos estados no plano internacional, ao mesmo tempo em que aumentava o poder de controle desses estados sobre a sua população local. Na medida em que o estado perde poder sobre as economias nacionais e abre as portas ao comércio internacional, afrouxam-se os regulamentos nacionais, mundializa-se o comércio e surge a necessidade de regulações multinacionais ou globais. Se você me perguntar se sou a favor do livre comércio, eu direi que o problema não é esse, mas sim o de este livre comércio ser entre quem e regulado por quem? Este na verdade é o problema. Ser a favor de regulamentos protecionistas, por exemplo – eu estudei muito a doutrina protecionista em Celso Furtado e em seu guru Mihail Manoilescu, a propósito do qual, na Romênia no seu centenário, fizeram um belo congresso de discussões no Banco Central da Romênia, cujo presidente me parecia na época a pessoa mais competente e mais séria da Romênia. Este homem era um daqueles que entendia o seguinte: como economista, não faz sentido [1:10] ser protecionista ou anti-protecionista, pois o protecionismo é um instrumento político e não econômico. Do ponto de vista do puramente capitalista, o protecionismo não faz sentido, já que o livre comércio é muito melhor. Porém, se há o livre comércio entre um estado que está se enfraquecendo – perdendo sua soberania – e grupos multinacionais que dominam os organismos internacionais, é claro que isto se constitui numa transferência de soberania desde a escala nacional para a escala mundial. Matam-se assim os pequenos leviatãs, para libertar o grande leviatã global. Neste sentido, eu sempre ficava bravo com meus amigos liberais, pois eles tinham uma posição doutrinária em favor do livre comércio e não estratégica. É claro que o livre comércio é bom, mas você deve saber jogar, conhecer qual é o fator político que está em jogo e não somente a questão do progresso econômico. Se há uma abertura de fronteiras, a sua população terá acesso a uma imensidão de produtos baratos, hoje pode-se importar inúmeros produtos chineses – eu mesmo comprei um sapato chinês e tive chulé por uns seis meses. Eu nunca tive chulé por 63 anos, comprei um sapato chinês, usei por uma semana, e depois eu mesmo não me suportava, queria me jogar dentro da privada –, pode-se comprar tudo que é bugiganga a preços baixíssimos e a população fica muito contente com isso, aquecendo inclusive a economia. Porém, para onde está sendo transferida a autoridade que seu governo abdicou: para seu povo ou para uma entidade multinacional? E esta entidade multinacional é capitalista? De jeito nenhum, ela é socialista fabiana. Um problema que os conservadores têm é que todos são doutrinários: a favor de umas coisas e contra outras. Porém, não deve haver pressa de ser a favor, primeiramente deve-se saber o que está acontecendo. A tomada de posição depende do conhecimento – na linguagem futebolística – de qual é o time que está jogando e contra quem, às vezes não sabemos, então por que tomar posição? O problema não é livre comércio versus protecionismo, mas sim a soberania nacional versus o governo global. Este pessoal da USP, eles são os grandes beneficiados por este processo, pois à medida que vem a globalização da autoridade legisladora, vem junto uma imposição das entidades internacionais, de todos os itens do programa cultural que eles querem impor: gayzismo, feminismo, racialismo etc., sendo fortalecidos por isto e ao mesmo tempo demonizando o neoliberalismo. Na verdade, neoliberalismo nunca existiu, é uma ficção, o que existe é esta articulação de livre comércio com a mundialização da autoridade, no qual o livre comércio não é a finalidade, apenas o instrumento para a mundialização. Se ele fosse a finalidade, ter-se-ia um processo onde a globalização seria uma coisa e globalismo outra. Ah, mas na globalização do comércio tudo iria baratear, haveria circulação de capital, informações, mercadorias, cultura – é uma maravilha! E eu sou inteiramente a favor disto – porém, qual é o preço? Tudo isto foi feito para fortalecer o poder da elite globalista – a qual é socialista – e que alimenta estes mesmos caras: Fundação Rockfeller, Fundação MacArthur, Fundação Ford etc. Uma análise efetiva da realidade começa com a descrição da posição onde você está, assim como um desenhista, o qual tem de primeiramente medir a sua distância do objeto. Quando ele põe o lápis de determinada maneira, está tomando ele mesmo, sua posição, como unidade fundamental de medida em relação ao objeto: a distância dele em relação ao objeto, posição dele em relação ao objeto e do objeto em relação a ele. Se ele não sabe onde está, ele só pode fazer um desenho cubista, onde o objeto aparece desde mil perspectivas totalmente desencontradas e, evidentemente, isto não irá dar a menor idéia da estrutura objetiva do ente que você está desenhando. A verdadeira sociologia ou ciência política começa com a compreensão da sua posição na sociedade: Quem sou eu? De onde tiro meu dinheiro? Quais são as pessoas com que estou relacionado? Quais são as pressões que eu recebo? Quais são as expectativas que eu atendo? E assim por diante, porém eles não podem fazer esta análise. Se começassem a fazê-la, notariam: “Metade de nós aqui vive da Fundação Rockfeller ou do George Soros. Isto significa que todo este movimento neoliberal – que nós estamos condenando, ele abriu o comércio, favoreceu o livre mercado e, ao mesmo tempo inseparavelmente, a criação do poder multinacional que nos favorece. Portanto, nós apenas fingimos que somos contra”. Disto surge esta ambigüidade que eu já observei no ano 2000, doze anos atrás: os neoliberais são todos de esquerda! Leiam este meu artigo que foi publicado no ano 2000 [“Longe de Berlim, fora do mundo”, Revista Época]. Quem são os chefes de estado de esquerda? Todos. E era a época em que a esquerda no Brasil estava estrelando contra a política neoliberal, a qual era a política deles mesmos. É claro que como descrição da realidade isto é totalmente falho, mas construir este fetiche, fantoche, ou espantalho neoliberal, serve para fortalecer o senso de identidade e de solidariedade grupal, o qual é exatamente o propósito do discurso ideológico. Em suma: a coisa culminou no pronunciamento do Ricardo Musse – de um minuto e meio – no qual tudo que ele fez foi fazer a propaganda do candidato do PT à prefeitura da cidade de São Paulo, dizendo: “A cidade está um caos, com muita violência, mas felizmente nós temos um candidato marxista, e por isso temos alguma esperança”. Porém, não estamos cheios de marxistas já há trinta anos? Mais ainda: quando veio a Constituição de 88, as eleições e as Diretas Já, não foi a USP que chegou ao poder e que está dividindo até hoje o poder entre PT e PSDB? Seria o caso de dizer: tome que o filho é teu, este é o mundo que vocês criaram: o mundo em que velhinhos são agredidos por garotos e estes se acham muito valentes por isto, em que mulheres mostram os peitos dentro da igreja, o mundo da parada gay – onde aparecem homens se bulinando na rua – e você quer que depois de tudo isso as pessoas sejam respeitosas e educadas? E quando não o são a culpa por isso é do conservadorismo? Supõe-se, deste modo, que estes garotos que agrediram Dom Bertrand e que xingaram os velhinhos na porta do Clube Militar, o fizeram porque são muito cristãos, receberam uma formação conservadora e estão expondo-a. Notem que um estado de completa alienação em relação à realidade social, pode favorecer o senso de identidade e a força política de um grupo. Dentro de certos limites, pois se eles acreditaram no que estão dizendo e traçaram uma estratégia baseada nisso, irão dar com os burros na água, evidentemente. Um segundo ponto é o seguinte, eles sentem, e se queixaram, de que a esquerda está perdendo a hegemonia, porém, [1:20] como a esquerda conseguiu a hegemonia? Basicamente, através da estratégia preconizada por Antônio Gramsci: a ocupação de espaços, o boicote aos adversários – demitindo todos que não lhe interessavam e ocupando os espaços. Porém, as forças conservadoras estão fazendo a mesma coisa? É deste modo que estamos ameaçando a hegemonia deles? Não, já que não ocupamos espaço algum, não conseguimos emprego algum, não dominamos uma única instituição de cultura ou cargo público, apenas fazemos nossos blogs. E, no caso das pessoas ligadas à religião católica e evangélica, fazem um movimento anti-abortista quase sem dinheiro não tendo apoio de grupos multinacionais, nada. Portanto, se a opinião conservadora está obtendo algum pouco espaço na internet – não na grande mídia, que continua com as portas fechadas –, é por que, em algo, isso corresponde aos anseios do povo brasileiro, como demonstram pesquisas atrás de pesquisas sendo feitas, inclusive pela Folha de São Paulo: pelo menos do ponto de vista moral, o brasileiro continua sendo conservador, anti-abortista, contra o casamento gay etc. Porém, ocorreu que este povo, não tendo canais de expressão nem nos partidos políticos e nem nas instituições de cultura, se apegam àquilo que há: meia dúzia de blogs e as igrejas. É só isto que está acontecendo. Isto não é um movimento político ainda e quando aparece alguma expressão política é de modo localizado – como na política anti-abortista –, mas já é suficiente para alarmá-los. Isto ocorre, porque, entre outros motivos, eles estão acostumados com a idéia de que a situação normal é eles terem não só a hegemonia, mas o controle total. Se aparece uma voz discordante, eles ficam atemorizados, como se vê nessa espécie de mobilização nacional que houve contra o Carlos Ramalhete, que é colunista da Gazeta do Povo do Paraná. Um camarada escrevendo num jornal de um estado menor não pode existir. O jornal não é nem da capital, é um jornal do interior do Paraná! Um cara não pode falar, porque eles têm medo. Quando o Lula, na última eleição, disse que finalmente a democracia venceu, e agora todos os candidatos são de esquerda. Ele o fala até com certa inocência, achando que é realmente o normal, e esses camaradas também acham: é este o ponto ao qual nós chegamos. Agora eu volto ao começo da história. Há vinte anos eu digo: se vocês querem fazer um movimento, eu não vou fazê-lo, mas eu posso lhes ensinar como se faz. Posso dar conselho para vocês, assim como posso aconselhar os esquerdistas. Para estes, eu posso dizer para não acreditarem no que estão falando, porque se fizerem a estratégia baseada nisso, os conservadores irão rir da sua cara e acabarão vencendo. Isto que vocês disseram vale como propaganda, da boca pra fora. Para este fim, funciona, porque cria medo e fortalece a solidariedade grupal, mas não serve como base de informação factual – como se deseja – para se traçar uma estratégia. Portanto, este é o conselho que eu daria para eles: façam os outros acreditarem no que você está falando, mas você não deve acreditar. Do mesmo modo, eu poderia aconselhar os direitistas – como estou fazendo há vinte anos: primeiramente, deve-se criar uma geração de intelectuais altamente capacitados para fazer uma análise de conjuntura, toda semana, sem nenhum propósito imediato. Deve-se mapear a situação e estar consciente dela. Mais ainda, deve-se estar capacitado de apreender os movimentos em gérmen, para prever o curso das coisas, e assim traçar uma estratégia de modo a não ser pego com a calça na mão diante do fato consumado. Porém, isso é a mesma coisa que falar com uma porta. E por que isto ocorre de tal maneira? Devido àquilo que já disse o José Bonifácio: nós realmente estamos lidando com um povo fútil e conseqüentemente inseguro, sendo o mesmo que dizer que não possuem Deus, já que seu Deus é o olho do vizinho. Eles se interessam mais sobre o que falaram dele do que sobre o que ele é. Quando as pessoas falam de mim, sabe o que eu faço? Eu penso assim: esse pessoal não sabe nada, eu sou muito pior do que estão falando, Deus sabe de todos os meus pecados. Falar essas coisas é uma bobagem, mas se você não sabe disso, fica realmente ofendido porque falaram tal ou qual coisa, sentindo-se indignado, e protesta veementemente, porém, tudo isto, evidentemente, não passa de um teatrinho grotesco. Quando se inventa uma coisa ou outra a meu respeito na internet, eu só respondo quando noto ali uma oportunidade para ensinar outras coisas para outras pessoas. Nos casos, por exemplo, do Júlio Lemos ou Rodrigo Constantino, percebam que eu começo falando deles e termino falando de Shakespeare, Platão etc. Vocês não perceberam que é assim? Tomo-os como pretexto, apenas como gatilho para eu falar de outras coisas e somente para tal fim. Se eu fosse responder porque ele disse que eu sou isso ou aquilo, diria apenas: sou mesmo, e daí? O que me interessa isso? Há trinta anos atrás, eu já havia adotado como lema o de Dom Quixote: “Yo sé quién soy”. Este lema não era muito verdadeiro quando eu o inventei, mas hoje está quase se tornando – eu quase sei quem sou. Não será seu fulaninho ou dona fulaninha quem irá me informar quem sou. Em 100% dos casos, os palpites são errados – me acusam de algo, quando, na verdade, eu fiz outra coisa completamente diferente. Suponho eu, que se eu contar para você as coisas que eu fiz, você não falaria mais comigo. Mas você conhece alguém que não seja assim, exceto os santos? São todos assim. Não se impressionem, portanto, com essas coisas, não se ofendam. Quando alguém te xingar de alguma coisa, coloque-se diante de Deus e pergunte-se se você não é muito pior do que isto que esta pessoa está falando. Pode não ser por aquilo que foi dito, mas por outra coisa completamente diferente. Há muitos anos eu já desisti de ser compreendido como pessoa – apesar de que algumas palavras, coisas e dicas que eu dei, gostaria que fossem compreendidas, porque são para vocês mesmos, para seu bem e não para o meu. Vamos fazer uma pausa e depois voltamos. [interrupção da aula] Como sempre, há várias perguntas muito interessantes – algumas que não têm nada a ver com a aula de hoje – mas vale a pena responder. Aluno: Estou tentando montar uma bibliografia que me oriente no estudo da astrologia, não enquanto uma possível ciência, mas sim sobre o simbolismo astrológico. Procurando algum livro que me desse orientação geral sobre o assunto, encontrei um chamado O Simbolismo Astrológico, de Oswald Wirth, é bom? Sei o senhor tem um livro sobre o assunto, mas creio que esteja esgotado. Olavo: Não, eu não tenho nada sobre simbolismo astrológico – posso ter observações que eu fiz algumas vezes – mas alguns dos melhores livros sobre o assunto, talvez o melhor, seja Le Zodiaque de Marcelle Senard (Edições Traditionnelles). Este é um livro bastante erudito e me parece – até certo ponto – isento e confiável. Um astrólogo americano, chamado Dane Rudhyar, escreveu muitas coisas interessantes sobre o simbolismo astrológico. Há outro autor alemão, [1:30] o qual eu não me recordo o nome no momento. Caso você leia alemão ou tenha alguém que possa ler para você, procure as obras do autor Alfred Fankhauser, um clássico da astrologia. Existe também um ocultista, o eruditíssimo autor americano — você tem de lidar com cuidado, porque ele puxa a brasa para a sardinha maçônica e essa coisa toda — Manly Palmer Hall. Tem um livrão dele (uma espécie de dicionário) The Secret Teachings of All Ages, um livrão desse tamanho que é de uma riqueza incrível de símbolos astrológicos. E há evidentemente o livro do René Guénon, Symboles de La Science Sacrée (Símbolos da Ciência Sagrada). Você encontra também muita coisa no livro do Louis Chardonneau-Lassay, Le Bestiaire du Christ, um arquiteto e ocultista que percorreu as igrejas da França, copiando em desenho e explicando muito eruditamente todos os símbolos — animais e depois todos os florais, plantas — que representam o Cristo e sob que aspecto. Ele dá a história do simbolismo pré-cristão da coisa também e ali você encontra os vários animais e então vai aparecer o zodíaco necessariamente. A bibliografia sobre isso é muito rica. [Interrompem o professor Olavo para sugestão de bibliografia] Estão me sugerindo outro texto aqui, mas a fonte dele é o Chardonneau-Lassay. O grande astrólogo francês André Barbault escreveu muita coisa sobre o assunto. Note bem: é bom que você tenha distinguido aqui o que é simbolismo astrológico, porque há vários aspectos da coisa. Em primeiro lugar a possibilidade de um fenômeno astrológico: existe alguma relação entre os ciclos planetários e os acontecimentos terrestres. Isso em si mesmo nada tem a ver com a astrologia. O fenômeno objetivo, se ele existe ou não, é outra coisa. Hoje em dia é evidente que ele existe, essa é a primeira coisa, mas nós não o conhecemos em detalhes, não temos instrumentos descritivos e o único sinal ou pretensão de instrumento descritivo é a chamada astrologia. Mas a astrologia é uma palavra polissêmica, que quer dizer muitas coisas diferentes conforme época, lugares, civilizações etc. O que define o astrólogo é a pretensão de que ele conhece não só a existência dessa correspondência, mas todas as etapas e diferenciações das várias influências quase que minuto a minuto. Pretensão que, digo eu, é impossível. Mesmo que você tivesse tido observações sistemáticas e centralizadas ao longo de milênios, ainda estaria muito longe de cobrir todas as possibilidades combinatórias que os astrólogos acreditam conhecer, mas não conhecem. Algumas eles conhecem. O sujeito toma o mapa astrológico, tem duas coisas que ele sabe e com base nessas duas ele fala de duzentas e quinze. O terceiro problema é o do estatuto epistemológico dessas duas coisas. Primeiro do fenômeno: quais seriam os métodos admissíveis para estudá-lo? Como chegar lá? Como constituir uma ciência deste fenômeno? Em segundo lugar: o estatuto epistemológico da própria tradição astrológica, que é um bicho de sete cabeças pela imensidão da bibliografia existente. A astrologia e a alquimia talvez sejam os assuntos que têm mais bibliografia no mundo. Então qualquer generalização a respeito é sempre errada. E em terceiro, você tem o problema do simbolismo astrológico que é bastante universal e bastante uniforme, mas que tem também a sua história e as suas variações e que é também um problema separado. Curiosamente, os enganos que correm a esse respeito são tão monstruosos, tanto da parte dos astrólogos, quanto da parte dos críticos da astrologia. Tão imensamente monstruosos, que eu acho que este assunto foi a primeira e a mais profunda decepção que eu tive com a moderna intelectualidade acadêmica, porque é só besteira que sai para tudo quanto é lado. Existe um famoso estudo (considerado um dos melhores que existem) para tirar a limpo a questão que existe se Isaac Newton era um astrólogo ou não, a conclusão do sujeito. É claro que Newton usa os simbolismos astrológicos nos seus estudos de alquimia, mas não há o menor sinal de que ele acreditasse em astrologia judiciária: ler horóscopos (do cliente) e descrever o destino dele. Acontece que a astrologia judiciária é apenas uma aplicação prática dos princípios astrológicos, e aplicação remotíssima. Mas os princípios astrológicos são os mesmos princípios que fundamentam a alquimia, por exemplo, a correlação entre planetas e metais. Isto é fundamental na astrologia mundial e é fundamental na alquimia. Portanto, se Newton usava os simbolismos astrológicos com relação aos planetas e aos metais, então ele estava seguindo, evidentemente, uma lei astrológica. Por que ele deveria ter algum interesse na astrologia judiciária que é uma aplicação menor e remota? Isaac Newton era astrólogo? Sim, no sentido essencial do termo. Não, no sentido de ler horóscopos. Ler horóscopos não é o essencial da astrologia. O essencial da astrologia é a sua teoria e dessa teoria faz parte, evidentemente, a ligação de planetas e metais sobre as quais existem alguns estudos interessantíssimos. Por exemplo, o fundador da antroposofia, Rudolf Steiner, concebeu uma série de experimentos que foram depois levados adiante por uma discípula dele, Madame (Eugénie) Kolisko, e depois repetidos anos mais tarde por um camarada chamado Nicholas Kollestrom que era a seguinte: se existe realmente a correlação entre planetas e metais, então as reações dos metais devem ser diferentes conforme as posições planetárias. Então ela pegava dois metais respectivos de dois planetas em estado coloidal (gelatinoso) — por exemplo: a prata, referente à Lua; e ferro, referente a Marte — misturava e colocava num papel de filtro para ver o tempo de reação. Ia fazendo uma reação a cada dois minutos, por exemplo, e via se isso era alterado pelos trânsitos de Lua e Marte. E era brutalmente alterado de uma maneira sistêmica, repetitiva. Isso quer dizer que a correspondência entre planetas e metais parece ser um fato da natureza física. E é evidente que dentro do corpo da doutrina astrológica isso é muito mais importante do que qualquer aplicação que você vá fazer para ler o horóscopo de Napoleão Bonaparte ou do Seu Zé Mané. A confusão entre o que seria uma doutrina astrológica e o que seria a técnica astrológica de consultório, por assim dizer, é uma coisa que está disseminada na cabeça dos estudiosos a respeito. Então o cara diz: “Não, o Isaac Newton não acreditava em astrologia de maneira alguma, [1:40] ele só usava o negócio dos planetas e metais.” Mas isso é o essencial da astrologia. O campo das aplicações é imenso, variado e de valor imprevisível. Isso nunca foi testado e nem é possível testar. Então, você está entrando num estudo que é um bicho de sete cabeças. Aluno: De que trata o ensaio On Hegel: A Study in Sorcery, do Eric Voegelin? Olavo: Nós traduzimos isso para uma aula, não traduzimos? Isso não está no site do Seminário? Eu acho que nós traduzimos e que talvez esteja aí, mas se não estiver nós vamos colocar. Eu fiz uma tradução inteira disso aí para várias aulas que eu dei. Se você procurar, vai encontrar três ou quatro aulas em que eu comentei esse texto. Voegelin explica que o que Hegel monta em A Fenomenologia do Espírito não é bem uma filosofia, mas é uma espécie de operação de transmutação na qual ele próprio, Hegel, no fim das contas era colocado na posição de Deus. Ele não diz isso, ele não acredita nisso, mas esse acaba sendo o resultado final. Por isso que ele diz que tem o efeito de uma operação de feitiçaria. Você fica enfeitiçado por aquilo e acaba acreditando que, como você está entendendo mesmo o movimento do espírito na história, você está identificado com ele. É então uma espécie de iniciação gnóstica em que você se identifica com o espírito divino. Então não podemos dizer feitiçaria, que talvez seja uma expressão exagerada e brutal, mas que é um livro de tipo iniciático ou gnóstico, sem sombra de dúvida (ele) é. Nesse sentido não é bem uma filosofia. Existe uma passagem de nível, uma espécie de transmutação de ponto de vista. O seu olhar vai como que se identificando com a visão do universo inteiro e no fim, se você não acha que você é Deus, você acha que está bem próximo, mas é uma transmutação puramente mental, intelectual, pensada, não real. Quer dizer, o processo de divinização pelo qual São Paulo Apóstolo, por exemplo, diz: “Não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim”, não é uma coisa só que ele pensou. É a ação real do Cristo que está passando por ele, no sentido, por exemplo, de que quando Padre Pio operava seus milagres, não era ele que estava fazendo os milagres, era o Cristo pessoalmente que estava ali, então, o Padre havia de certo modo sido absorvido na pessoa do Cristo sem perder nada da sua individualidade. Mas esse é então um processo de transmutação real. No caso do Hegel, como das iniciações gnósticas em particular, a transmutação é meramente mental que eles acreditam piamente que é real. E não é só Hegel que acredita. Eu conheci os grandes gnósticos da modernidade, Schuon e outros. É aquele negócio de Aristóteles que diz que a alma é “De certo modo a alma é tudo que ela conhece”. De certo modo é segundo um quid, não materialmente, não substancialmente. Quer dizer, você pode ter a visão intelectual — intuitiva, quase divina — e continuar sendo o mesmo idiota, o mesmo canalha que você era antes, porque aquilo foi apenas uma sacação que você teve. Aquilo não se torna permanente em você, não se incorpora na sua personalidade e, sobretudo, não torna você um braço de Deus, um agente de Deus. Aluno: Há uma distinção entre a conversão e a iniciação? Olavo: Não. A conversão também não dá esse... Nada. A santificação produz essa... Paulo é incorporado a Jesus pelo processo da santificação. O que supõe que o indivíduo tenha se tornado tão, tão, tão, tão desgostoso com esse mundo que a única coisa que ele suporta é aquilo que vem diretamente que vem de Deus. Ele presta esse serviço a Deus e ele faz isso 24 horas por dia e não de vez em quando, como nós fazemos. Nós suportamos muita coisa do mundo e gostamos e às vezes não percebemos quanta coisa é má, mas o mal está em toda parte e a gente não percebe porque está imerso nele e na medida em que você vai percebendo tem de sair fora e daí é o processo de santificação. Santo é o separado, ele foi separado. Isto sim é uma coisa substantiva, mas o pessoal gnóstico acredita na transmutação por meio do puro conhecimento. Mas falta muito! Saber é uma coisa e você ser é outra completamente diferente. Eles acham que o próprio saber transmuta. Não dá para fazer isso. Isso não quer dizer que o conhecimento não tenha por si alguma força santificante, ele tem, sobretudo se for conhecimento inspirado pelo Espírito Santo, mas ele sozinho não vai fazer isso. Note bem, esta transmutação não é mental, ela é física. Aí é que está o grande mata-burro, o pons asinorum da discussão esotérica. É o ponto que as pessoas têm medo de atravessar. Bom, existem as várias doutrinas, os vários ensinamentos espirituais: a doutrina hindu e mais não sei o quê e tudo isso é muito bonito, mas o essencial é a ação divina no mundo físico, porque se Deus não age no mundo físico, então ele não é Deus, é uma idéia que nós temos. Por que esse desprezo pelo mundo físico? O próprio Deus prometeu que vai fazer um novo Céu e uma nova Terra e vai nos dar um novo corpo. Isso quer dizer que Deus não quer que a gente seja puro espírito pairando nas nuvens, não é isto. Ter grandes idéias, ter um conhecimento universal, muita gente tem. As pessoas dizem assim, que um poema de John Keats vale muito mais do que um gato, então peça para John Keats fazer um gato. John Keats escreveu vários poemas de John Keats, outros escreveram até melhores, mas nenhum fez um gato. Podemos fazer um gato em laboratório? Não, podemos tirar elementos de gato da natureza e apenas completar o processo. Quero ver inventarem um gato desde a origem, desde o germe remotíssimo. Então, nesse sentido, eu acho que qualquer gato vale muito mais que qualquer poema de John Keats ou que qualquer coisa que eu possa dizer, porque aquilo foi Deus que fez. A existência da matéria é a coisa fundamental. Deus criou o mundo. E a coisa espiritual? Você pode se elevar muito espiritualmente, mas Deus estará aí no seu corpo, agindo através de você? Se não tem isso, você não tem nada. Não é questão de você acreditar numa religião ou na outra. De jeito nenhum. Esse tipo de estudo que pega as várias doutrinas religiosas, nivela tudo, porque encara só do ponto de vista doutrinal. Você não pode esquecer, por exemplo, que o cristianismo não aparece como doutrina. A doutrina cristã foi inventada por teólogos ao longo dos tempos e está sendo inventada ainda e está sendo escrita. Agora, toda essa doutrina do mundo, se somada, não faz a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e a ação que ele teve neste mundo e que tem ainda. O teste da coisa é o mundo físico, como eu já expliquei milhares de vezes naquele trecho do Evangelho segundo São Mateus em que Jesus, perguntado se ele era o Messias ou se deviam esperar outro, diz: “Contem a João o que vocês viram e ouviram, os cegos estão vendo, os paralíticos estão andando...”: coisas do mundo físico. É um teste científico por assim dizer. [1:50] Então eu já não quero mais saber de doutrina. Ou tem a ação de Deus ou não tem nada. Tem aqui uma pergunta muito boa, do Bruno Braga, uma pergunta comprida, mas eu vou tentar dar aqui uma resposta sintética, na semana que vem. Aluno: Gostaria de saber se existe alguma maneira para deixar de ser brasileiro. Olavo: Uma boa maneira é você ser português, porque a civilização brasileira, em termos de valores universais, é praticamente nula. Não tem história, não tem raiz. A história brasileira consiste em cada geração você esquecer tudo o que a anterior fez. Então as pessoas ficam soltas no espaço como átomos e não podem encarnar verdadeiros valores. Valores e símbolos se encarnam em nós através da história — o tempo que passa — e da revivescência consciente de símbolos historicamente consagrados que incorporam valores. Quando você fala, por exemplo, da imitação de Cristo, que seria isso se não houvesse documentos, os monumentos, histórias que foram sendo acumulados ao longo de muito tempo? Então você precisa da mediação histórica para isso. Se não tem, não tem nada, vai ser um Cristo imaginário, que você inventou da sua cabeça. Para você incorporar efetivamente valores humanos, é preciso que eles tenham chegado para você através da documentação histórica e da educação e aquilo vai sendo passado de muitas maneiras de geração em geração: através de livros, através de personalidades, pessoas que você conhece que encarnam aquilo. Personalidades admiráveis que você conhece e que de algum modo encarnam aquilo. Personalidades de sábios, de heróis, de santos etc. Se não tem isso, então os seus modelos são tirados do Programa do Faustão, da Folha de São Paulo, da USP e é tudo muito pequeno e muito mesquinho demais. Veja que nossa própria literatura praticamente só tem mesquinharia. O ex-ministro da cultura Jerônimo Moscardo dizia que os temas da literatura brasileira são: “Ah! Ele usou a minha cueca.” Estes são os problemas, bagatelas de que falam. A primeira maneira de você se livrar disso é você confessá-lo: “Eu sou um cara que só vive na mesquinharia, no insignificante, eu não conheço nada de grandioso e quando eu vejo, acho esquisito e fujo (e não acredito que existe!).” O brasileiro não acredita que existam virtudes, pessoas boas. Nem nisso ele acredita. (Peça) um exemplo de pessoa boa e (logo) dizem: “Ah! O Betinho!” Eu digo: “Ahn?”. Eu ainda conheci algumas pessoas boas. Eu conheci o Dr. Müller, o conheci o Padre Miguel Pedroso, o Padre Caetano de Vasconcelos, pessoas de outras épocas que incorporavam algum valor que não vinha da cultura brasileira, mas vinha da formação religiosa que tiveram e, no caso do Dr. Müller, vinha da cultura suíça que ele tinha absorvido, pela influência pessoal que teve do Szondi, que era um homem de uma grandeza extraordinária. Então muitas coisas você tem de incorporar através de imaginação e quando você viajar pelo mundo, se você tiver a oportunidade, procure as coisas mais antigas e procure ver há quanto tempo elas estão lá. Por exemplo, quando eu viajei pela França e vi um aqueduto construído por Júlio César — que tinha quilômetros e quilômetros e (ainda) levava água para uma cidade —, uma obra de engenharia feita há dois mil anos atrás. Os caras não conseguiriam construir um negócio desses hoje. E você aquelas catedrais antigas que foram construídas com o sacrifício de muitas gerações. Você vê aquelas (obras) imensas e (pensa) como que os caras levantavam a pedra até lá, quanta gente deve ter morrido, dado sua vida com prazer, como sacrifício para o Cristo para construir isso aí. Bom, no Brasil também muita gente morreu para fazer a ponte Rio-Niterói, mas não foi pelo mesmo motivo, então não incorpora um valor humano, muito menos um valor divino. O mundo está cheio de coisas grandiosas e maravilhosas onde tem um sinal de Deus, sinal da eternidade marcado na história. Aproxime-se disso, absorva isso. Não vá só pelo gosto: “Ah, eu gosto disso, eu gosto de ouvir Bach!” Para com esse negócio. Se você vai só pelo que você gosta, você vai gostar sempre da mesma coisa e vai entrar no repetitivo. Não se trata do gostar, mas do absorver e do compreender. Leia a vida dos santos, mas não venha com negócio de carolice para cima de mim, porque as pessoas lêem um pouco disso e já começam a falar em linguagem evangélica ou então abrem a boca e parece que é Santo Tomás de Aquino que está falando. Isso tudo é imitação grosseira. Você tem de imitar o fundo. Faça o seguinte teste: experimente ser muito bom, generoso, perdoar sempre as pessoas. Sempre, por dentro e por fora. Já tentou isso alguma vez? Ou faça outro experimento mental: daqui para adiante, tudo o que me acontecer é culpa minha. Não vou culpar mais ninguém. Isso não é bem verdade, mas é uma disciplina. Quando você se irritar por pequena coisa, engula, fique quieto e faça de conta que não aconteceu, porque não existe coisa mais deprimente e mais prejudicial do que você se irritar por pequenas coisas. Por exemplo, com crianças: a criança às vezes derruba um prato e você fica louco da vida. Por quê? É um pecado você derrubar um prato? A criança cagou na fralda na hora em que você estava pensando em outra coisa. Isso é pecado? Ela fez alguma coisa moralmente errada? Mesmo que fosse moralmente errada, não é para você condenar. “Ah, mas aquilo me incomodou!” E é pecado incomodar você? Quem é você? Não é pecado incomodar o Olavo, não é pecado encher o saco do Olavo, então, por que eu vou ficar bravo com estas coisas? Pense o seguinte: de agora em diante eu só ficarei bravo, com aquilo que ofender o Nosso Senhor Jesus Cristo ou Nossa Senhora, ou o Espírito Santo. Se ofender só a mim, me ne frega. Experimenta isso. Daí você vai ver que mesmo que você esteja no Brasil, sem ocasião de sair daí você já vai se elevar acima da sociedade. É claro que você vai sofrer, as pessoas não vão te entender. Mas e daí, qual é o problema de não te entenderem? Quem jamais foi compreendido nesse mundo? Acredite que existe a verdadeira bondade, que existe a santidade, que existe o heroísmo, acredite nessas coisas porque elas existem mesmo. Agora, da sociedade brasileira elas não fazem parte. A mesquinharia é obrigatória. É disso que você tem de se livrar. Não é tanto do país. Não adianta, o brasileiro sai do país e observa a catedral de Chartres como ele observaria um supermercado. Não é isso? Esses ministros, altos funcionários brasileiros vêm aqui só para comprar bugigangas. Que você acha que Dona Dilma vem fazer aqui? O pessoal entra aqui e sai daqui (sem) ler os livros de Thomas Jefferson, ler os discursos de Lincoln, ler o que George Washington ensinou, aprender sobre a Guerra Civil, afinal de contas existe uma experiência histórica aqui — e muito rica —, mas esse pessoal não quer saber de nada (além) de ir comprar bugigangas em Miami. E ainda saem julgando o país. É uma coisa incrível. [2:00] E aprendi há muito tempo que a gente não deve ser assim. Você deve ser um bom viajante. Quando você chega num país você deve tentar ver tudo com amor e com respeito e não ficar criticando o país, afinal de contas você acabou de chegar! Eu tenho muito amor pelos países que eu visitei, até pelo México, que foi o país que eu menos gostei. No México eu vi muita coisa ruim, muita bruxaria, mas eu raramente vi um povo tão alegre quanto o mexicano e uma música popular tão maravilhosa quanto a mexicana que dá dez a zero na brasileira. Na Colômbia, na Romênia: eu vi modos diferentes de ser que trazem em si uma virtude, uma riqueza. E aqui na América nem se fala. O que eu vi aqui de exemplos de bondade, de honradez. Pessoas comuns. E uma coisa fundamental! O americano se preocupa sempre com o seguinte: “Qual é a coisa certa que eu devo fazer?” O brasileiro nunca faz esta pergunta. Ele parte do princípio de que ele é o certo, ele é a encarnação do bem e o que for contra ele está errado, então nunca aprende nada! Por exemplo, perante uma decisão, não pergunte o que é mais vantajoso fazer, o que vai me dar mais dinheiro, o que vai melhorar a minha vida. Pergunte qual é a coisa certa para se fazer ou, dito de outro modo, como eles colocam aqui: “O que Jesus faria?” Não existe outro meio de você incorporar o bem. O bem só tem uma fonte e, para incorporar esta fonte, você precisa da ajuda de muita gente, às vezes de uma sociedade inteira. Se você não tem a sociedade, se a sociedade está ruim, então você tem a história, os documentos históricos e tem um negócio chamado avião que você toma e vai parar em outro lugar. Está bom? Então até semana que vem e muito obrigado. Transcrição: Paulo Ricardo Costa Pinto, Gio Fabiano Voltolini Jr, Aramís José Pereira, Eduardo Afonso Aguiar. Revisão: Antonia Javiera Cabrera Muñoz.