Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 169 25 de agosto de 2012 Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Espero que todos tenham o texto em inglês The Keys of gnosis de Robert Bolton e uma tradução. As duas primeiras páginas são uma introdução que deve ser lida, evidentemente, mas que não interfere no que vamos dizer em seguida. Leiam a introdução e passaremos ao capítulo 1 – ''A natureza do verdadeiro eu''. Escolhi esse texto por vários motivos. Dr. Robert Bolton é um dos autores importantes da escola guenoniana ou tradicionalista aqui nos EUA atualmente. Seu livro vem sendo celebrado como um verdadeiro manual de libertação espiritual. Achei muito importante expor isso para que fique bem clara a diferença entre o que é essa perspectiva tradicionalista - ou gnóstica, na sua formulação atual pelo Dr. Bolton – e o que é o ensinamento tradicional da Igreja Católica, e, por outro lado, o legado da tradição filosófica. Há uma série de diferenças sutís que são de uma importância extraordinária e acredito que, se alguém entrar pelo caminho aberto pelo Dr. Bolton, se afastará para bem longe daquilo a que imagina estar chegando. Não acredito, em hipótese alguma, que seja possível alcançar qualquer resultado espiritual apreciável por meio de iniciações ou qualquer coisa parecida. Conheci vários desses iniciados e compreendo que eles adquiriram algumas capacidades extraordinárias, mas não creio que o futuro deles no mundo espiritual seja muito brilhante. Considero realizações importantes porque se dão dentro de um mundo governado por cientificismo, materialismo etc., e esta via aberta pelos tradicionalistas libera um facho de esperança para muita gente. E como os porta-vozes dessa escola são pessoas muito preparadas –– alguns dos melhores intelectos do mundo ––parece realmente ser uma alternativa maravilhosa à miséria espiritual do mundo circundante. Porém, hoje, começo vagamente a entender que a presença e a atuação do gnosticismo nos últimos séculos é uma das causas diretas de toda essa miséria espiritual à qual eles se apresentam como alternativa, saída ou cura. Neste livro mesmo, logo na introdução, Robert Bolton afirma que tudo depende de que as crenças e valores universais sejam liberadas da ideia de uma realidade popular, derivada do senso comum e profundamente falsa. Até este ponto ele está certíssimo, só que a via que ele abre para isto – e que esta escola está abrindo hoje - está entre uma das causas remotas que provocaram justamente o advento dessas crenças profundamente falsas. Qualquer esperança que você deposite nesse tipo de ''via espiritual'' equivale, mais ou menos, a pedir socorro ao bandido. E acredito nisso sem me desfazer das contribuições maravilhosas que eles têm sob muitos aspectos, e sem depreciar em nada a crítica que eles fazem do mundo moderno, ao cientificismo etc. Um exemplo é Whitall Perry, que era um dos braços direito do Schuon –– que tinha vários braços direito como um polvo ––, acaba de publicar um livro muitíssimo importante sobre evolucionismo; é uma crítica muito aprofundada desde pontos de vista que não são os costumeiros do debate anti-evolucionista. Esse pessoal guenoneano e schuoneano sempre tem a vantagem de entrar nos assuntos por uma perspectiva que vai muito além do debate religioso usual. Vamos a alguns trechos que destaquei, mas vocês devem ler o texto inteiro depois em casa, e nós poderemos comentá-lo na semana que vem. Diz ele: ''O verdadeiro eu sempre foi entendido como a alma imortal da pessoa. A alma que era concebida como proprietária e controladora do corpo. Essa ideia da alma trás consigo a tradicional dualidade entre corpo e alma. '' Em seguida, ele faz outro parágrafo expondo toda a hostilidade moderna à ideia desse dualismo entre corpo e alma. E continua: ''No entanto, para dar início ao autoconhecimento a concepção dualística da pessoa permanece necessária. Uma pessoa inteira vista somente como unidade não é conhecível por via conceitual. '' Já expliquei essa questão: a pessoa humana é cognocível, mas não é pensável. Você não pode pensar uma pessoa como um todo, mas só aspectos dela. No entanto, você a conhece como um todo. É justamente esse todo que dá sentido aos vários aspectos ou pedaços. Temos, então, o mistério de um conhecimento impensável. Algo que você pode conhecer, mas não pode transformar em objeto de pensamento. ''Não pode ser conhecido por via conceitual, mas somente com convivência e familiaridade. Esse tipo de unidade do eu é, além disso, um beco sem saída espiritual porque todo dinamismo e crescimento interno vêm de uma consciência das ações e reações entre a alma e a pessoa como um todo. Sem isso, só pode haver um sentido estático do eu vaidosamente compensado por uma mania de mudança e atividade em tudo mais. '' Ele está dizendo que o que você conhece de uma pessoa inteira só pode ser compreendido nas relações entre a alma imortal e a pessoa inteira. Essa visão já começa a ter um problema porque a pessoa inteira –– saiba você ou não –– inclui a alma imortal, ou antes: a pessoa que você só vê aos pedaços está incluída na alma imortal. Vamos ver aonde ele vai chegar. ''Para mostrar o dualismo de alma e corpo... '' Ele vai adotar a seguinte estratégia: mostrar que existe uma diferença entre a percepção e o objeto percebido. Que não há apenas uma diferença, mas um abismo. Aquilo que você percebe não são propriamente os objetos reais, são representações. ''A experiência comum é repleta de exemplos da diferença entre o que experimentamos e o que acreditamos que realmente existe. '' Tanto assim que ela é inteiramente dominada por isso. A nossa experiência é dominada pela diferença entre o que nós experimentamos, sentimos e apreendemos etc., e aquilo que nós acreditamos que realmente existe. ''Nós constantemente percebemos objetos retangulares ou quadrados, como losangos ou paralelogramos, como paralelas convergentes. E formas circulares como as moedas e copos que são quase sempre vistas como elípticas. '' Vamos pegar um objeto circular. Temos um DVD que é circular, no entanto, na maior parte do tempo você o percebe como elíptico. Você está vendo uma elípse, e isto é a sua percepção, mas você sabe que ele é circular. É dessa diferença entre o percebido e a estrutura real do objeto que ele está tratando. ''Mas estamos tão convencidos de que o mundo real consiste na sua maior parte de coisas que têm formatos e tamanhos fixos; e de que os objetos fabricados pelo homem têm, via de regra, formato quadrado ou retangular; que nos tornamos quase inconscientes da evidência que nos fornece nossos sentidos a qual continuamente contradizem essas crenças. '' Ou seja, nós estamos convencidos de que este DVD é circular. Não costumamos reparar na diferença entre a circularidade do objeto como tal e o fato de que nós o vemos como uma elípse. A circularidade, segundo Bolton, é uma crença que nós temos a respeito do objeto. Mas a nossa percepção, geralmente, nos oferece uma elípse. ''De maneira similar, acreditamos que o mundo real consiste na sua maior parte de coisas que existem de forma tão contínua como nós mesmos, apesar do fato de que não há evidência sensorial disso. '' Você vê o disco. E acredita que, enquanto fechou os olhos, o disco continuou sendo aquilo que ele é. Mas não existe prova sensorial da permanência do objeto que não está sendo percebido. Mais outro exemplo que ele está dando da diferença entre a nossa percepção e a constituição objetiva dos objetos tal como acreditamos nela. ''Esse é o fato de que cada experiência do nosso mundo necessariamente toma a forma de objetos dispostos em esferas ou círculos concêntricos cujo centro é nosso próprio corpo. '' A nossa percepção se organiza em círculos concêntricos a partir do lugar em que nós estamos. É assim que nós imaginamos o mundo. ''Nossa percepção é, portanto, ptolemaica, por assim dizer. '' Ou seja, ela é como se fosse geocêntrica. ''Dado que não há maneira na qual o mundo objetivo de fato poderia revolver em torno do nosso corpo, segue-se que todas as nossas percepções do mundo são representações privadas e pessoais que fazemos dele. '' A nossa visão do mundo se organiza em círculos concêntricos a partir do lugar em que nós estamos. Mas, não é possível que o mundo seja objetivamente uma coleção de círculos concêntricos –– cada um em torno de uma pessoa. A visão total que nós temos do mundo, segundo Bolton, é apenas uma representação pessoal e não um traslado do mundo objetivo. Cada um de nós vive dentro de um círculo de percepções; e segundo ele, esse círculo de percepções é uma representação privada e pessoal; não é o mundo real. De um ponto de vista mais sofisticado, nossas percepções divergem dos seus objetos de uma maneira ainda muito mais notável. Constantemente, percebemos coisas cuja obediência às leis da mecânica, ótica e eletricidade poderiam ser demonstradas, mas quase nunca refletimos que nossas próprias percepções desses fenômenos regulares não obedecem a nenhuma lei. Por exemplo, pegamos um círculo e podemos descrever todas as propriedades geometricas e aprofundá-las numa série de teoremas –– e você pode fazer um quadrado ou um triângulo ––, mas a constituição objetiva dos objetos obedece a determinadas leis –– da geometria, da aritimética elementar, da ótica, da eletricidade, da mecânica, da cinemática etc. A nossa percepção deles é totalmente anárquica, pois não obedece a nenhuma lei. Portanto, segundo ele, eis demonstrado mais um abismo entre aquilo que nós percebemos e o mundo como realmente é. ''Assim, as fases da lua aparecem apenas como uma desregrada mixórdia de fatos se a lua é observada de maneira irregular e sem nenhuma intenção particular. '' A lua aparece com vários formatos e aparências diferentes. Ora ela é um círculo brilhante, depois ela é um semicírculo, ora é como se fosse uma figura de uma foice e logo ela desaparece completamente. Quando é lua nova, não há lua nenhuma. ''Somente com as observações da regularidade das fases da lua é que perceberemos a lei das suas fases. '' O trajeto total na série inteira das aparências com que a lua se mostra para nós só mostra a sua coerência se você observar várias vezes este trajeto ou seqüência e for anotando as diferenças que se manifestam. Logo, você percebe a coerência e descobre as fases da lua. Isto não é um objeto que se mostre para nós na mera percepção sensível. ''Se restar alguma dúvida sobre a ausência de capacidade causal em nossas impressões mentais, basta considerar se por acaso nosso cérebro é aquecido pelas nossas impressões mentais no fogo ou se um fogo mental precisa ser extinto com água mental. '' Eis mais um exemplo do abismo. Estou vendo o fogo, e sei que o fogo é quente e queima. No entanto, a minha percepção do fogo não aquece meu cérebro, nem me queima e nem precisa ser extinto com água. ''Embora impressões mentais não tenham um poder causal, elas podem ser ocasião dos estados emocionais que experimentamos acerca dessas impressões. '' É claro que meus estados emocionais não são tão determinados pelos objetos em si mesmos quanto pelas impressões que eu tenho deles. Se houver um leão escondido debaixo da mesa e eu não vir leão nenhum, eu continuo tranquilo porque não é a presença real do leão que vai causar medo em mim –– mas o fato de eu tê-lo percebido. Do mesmo modo, posso ver um leão empalhado, e não sabendo que ele está morto, ficar com medo. Bolton diz que a relação entre objeto e percepção é inteiramente diferente da uniformidade das causas naturais. As causas naturais estão ligadas umas as outras por conexões que são empiricamente verificáveis e racionalmente formuláveis. A relação entre a nossa percepção do mundo e o próprio mundo não é assim porque não há conexão causal. ''Disso não há uma dedução muito longa até a conclusão de que o pensamento científico jamais poderia ter começado antes que o homem tivesse aprendido a distinguir entre representações de coisas realmente existentes e as representações vazias dos sonhos, fantasias e alucinações. Por exemplo, uma centena de pessoas observando o interior de uma sala de reuniões terá uma centena de representações dela, as quais todas juntas, não ocupam nenhum espaço na própria sala. E se houvesse apreensão direta dos objetos originais da percepção, isso significaria infabilidade sensorial.'' Se nós percebessemos os objetos diretamente, as nossas percepções seriam infalíveis. ''Dever-se-ia notar que não há de fato diferença entre percepções verídicas e ilusórias enquanto representações. Mas, somente há diferença no modo em que se relacionam com o que já é conhecido. '' Se você tomar duas representações –– uma falsa e outra verdadeira –– e fizer abstração do objeto a que elas se referem, não há nem como distinguir a verdadeira da falsa porque não vai haver nenhuma diferença efetiva entre elas. As representações falsas e verdadeiras não se distinguem entre si, mas se distinguem na sua relação com o objeto que, no caso da observação verdadeira, está lá, e no caso da ilusória, não está. ''Lovejoy chama atenção para um campo especialmente decisivo em que o dualismo é inevitável: a memória. Embora suas implicações sejam estranhamente negligênciadas pela maioria dos filósofos, a distinção entre objeto e representação sobressai da maneira mais clara na memória do que em qualquer outro lugar. Lembrar-se é estar consciente da diferença entre a imagem presente e o acontecimento rememorado. Ninguém pode negar isso sem negar a existência da própria memória. As dúvidas quanto à relevância do cogito ergo sum de Descartes poderiam ser sanadas, como mostra Lovejoy, pelo fato de que a mera passagem do tempo transforma-o em memini ergo fui. '' Ou seja: lembro-me, portanto fui. Em vez de “penso, logo sou” ou “penso, logo existo”, ficaria “lembro-me, portanto existi”. ''Algo muito menos exposto ao ataque cético. Qualquer que seja o caso, nossa capacidade de relembrar o passado recente desempenha um papel crucial em nossa experiência do presente. '' O que é verdade, sem dúvida. ''O resultado final disso é que, se num dado momento houvesse algo como uma experiência sem mediação - ou seja, uma experiência direta do objeto - o estatuto dela como experiência presente dependeria tão pesadamente do conteúdo memorial, o qual é dualístico por definição, que nenhuma verdadeira alternativa à representação poderia surgir. '' Se tivéssemos uma experiência sem nenhuma mediação e uma percepção direta de um objeto, isso dependeria muito do conteúdo memorizado anteriormente. Dependeria a tal ponto que não haveria possibilidade de você conceber as coisas de outra maneira porque não haveria alternativa, diz Bolton. ''O entrelaçamento de passado e presente também se estende para o futuro, dado que nossa capacidade de pensar construtivamente de maneira prática depende inteiramente da nossa capacidade de pensar sobre acontecimentos futuros de modo efetivo. '' Vocês podem se reportar à questão do círculo de latência. Se você nada percebe das potencialidades latentes de um objeto, você não o percebe. Se você olhar um gato e não perceber o que ele pode fazer no instante seguinte, você não sabe se é um gato ou um desenho de gato. ''Mas nossas atividades futuras ou planejadas nunca foram objetos de experiência presente. '' Ele está insistindo cada vez mais no abismo entre a representação e o objeto. Não temos acesso aos objetos como tais, pois tudo que nós temos é um conjunto de representações. Este conjunto de representações que nós chamamos “mundo” é apenas o nosso mundo pessoal. ''O conhecimento das coisas passadas e futuras funde-se continuamente com a experiência presente mostrando como necessidades práticas não dependem da experiência sem mediação.'' Como somos capazes de conectar experiências passadas com as experiências presentes –– e nós precisamos disso para as nossas atividades práticas ––, então, nem mesmo as atividades práticas requerem o que Bolton chama de conhecimento sem mediação: o conhecimento direto do objeto. Tudo isso se resolve dentro da esfera da representação. Este trecho é importante: O 'eu' verdadeiro e o 'eu' falso: ''Em vista da diferença entre essas duas realidades, inferimos a existência numa terceira realidade na qual elas podem relacionar-se de maneira a formar um sistema comum. Isso é precisamente o que se entende que seja o significado da alma. '' Nessa base, a existência da alma é tão certa quanto os fatos da representação. ''O 'eu' real ou alma, é assim uma esfera de consciência que contém ao seu modo o universo físico e muitas outras realidades sutís além dele. '' Prestem atenção aonde ele quer chegar: ''O que nós chamamos de mundo é um sistema de representações que se organiza em círculos concêntricos desde o lugar em que nós estamos. '' Consultando o livro original, ele diz que existe a nossa representação, e existe aquilo que chamamos de mundo objetivo fora de nós. Bolton continua: ''Mas acima disso, pode existir outro elemento chamado alma que transcende a diferença entre mundo-representação e mundo objetivo porque abarca os dois. '' A alma abarca o mundo inteiro da representação e o mundo objetivo inteiro. ''O 'eu' real ou alma é assim uma esfera de consciência que contém ao seu modo o universo fisico e muitas outras realidades sutís além dele. '' Bolton quer dizer que cada pessoa tem uma alma que abarca não só aquilo que nós nessa vida chamamos de mundo –– que é apenas o conjunto de círculos subjetivos de representação ––, mas abarca também o mundo objetivo inteiro e muitas outras realidades além dele. Tudo isso é o que ele chama de minha alma. A concepção atual da pessoa com uma realidade física que forma parte de um mundo físico, o qual, supostamente, é conhecido de uma maneira imediata tem o efeito de ampliar o poder do ambiente sobre o indivíduo para aqueles que acreditam nela, ou seja, aquilo que ele chamou de mundo no primeiro sentido ― o conjunto das minhas representações na cultura atual ― diz ele, nos é oferecido como uma realidade física dentro da qual nós estamos, quando ele está dizendo o contrário. Esse mundo físico é que está dentro de nós porque tudo é uma representação subjetiva. Então logo você começa a acreditar que tudo que o seu mundo subjetivo, o mundo dos seus círculos concêntricos é o mundo objetivo; esse mundo objetivo, diz ele, tem um poder sobre você porque você acredita nele. Ao mesmo tempo, essa visão da pessoa com sua negação do ser interior serve para suprimir as diferenças entre os indivíduos, dado que, aquilo que nós somos como egos observáveis em qualquer dado momento é muito limitado em comparação com o eu real. Isto está em consonância com a hostilidade tanto quanto à privacidade quando à ideia de superioridade. Terei que voltar um pouco atrás para esclarecer melhor os outros pontos antes de passar adiante. A mesma questão que ele coloca da diferença entre a nossa representação e os objetos reais é o que tem sido examinado na filosofia desde o tempo de, pelo menos, George Berkeley e David Hume ou de toda crítica do conhecimento pelos sentidos, vagamente herdeira do antigo ceticismo grego. Toda essa crítica forma o tecido mesmo de toda a epistemologia ou gnosiologia moderna que é altamente subjetiva ou idealista justamente por ter percebido essas coisas que ele está assinalando, ou seja, o abismo entre a nossa representação e a consistência objetiva dos objetos conhecidos. Só que eu já observei a vocês e assinalei em outras aulas que toda essa tradição de gnosiologia subjetivista só examina o problema do ponto de vista do sujeito e jamais do objeto, nunca. Uma coisa é a afirmativa: de fato esse objeto, que eu sei que é circular, vejo-o como elíptico. Mas podemos inverter a pergunta: Esse objeto, que é circular em si mesmo, tem a capacidade de mostrar-se como circular em todas as direções ao mesmo tempo? Independentemente da minha percepção dele. Porque, note bem, se esse objeto existe no espaço, as características objetivas dele são características espaciais, geometricamente descritíveis. Além das qualidades geométricas e físicas que ele contém em si, estará determinado, objetivamente, pela posição que ele ocupa no espaço com relação a outros objetos. Por exemplo, se esse objeto está colocado entre essa mesa e este outro objeto que está em cima dele então ele não está em cima de nenhum dos dois. Ele está colocado, precisamente, entre um e outro o que determina sua posição no espaço independentemente de qualquer conhecimento que eu tenha dele, independentemente do sujeito humano. Eu não posso falar de propriedades geométricas e físicas objetivas se não há um espaço objetivo no qual essas propriedades possam se manifestar. Isto que dizer que, um objeto que é circular, o que é plano, só pode se mostrar como circular desde duas direções, de frente ou de trás, não do lado e é ele que não tem essa capacidade. Para que ele se mostrasse circular em todas as direções, seria preciso que ele fosse esférico. É claro que rodando um objeto circular eu obtenho geometricamente uma esfera. Mas existe uma diferença entre rodar um objeto para obter mentalmente uma esfera e o objeto ser esférico por si mesmo. O objeto esférico em si mesmo se mostrará circular desde todas as direções e ele não terá essa capacidade que o objeto meramente circular tem de se mostrar como uma linha quando visto na perpendicular ou de se mostrar como elipse quando visto na transversal, a esfera não tem a capacidade que este objeto tem. Isso significa que cada objeto só tem determinadas capacidades de mostrar-se ou de relacionar-se com outros objetos, capacidades que são determinadas, que são finitas e que são estritamente objetivas e não tem nada haver com o sujeito humano. Alegar que este objeto circular nos parece elíptico quando visto neste sentido nos diz algo sobre um abismo da nossa percepção e a estrutura do objeto? Não. Diz-nos algo sobre a própria estrutura do objeto. Não sou eu que o percebo assim, ele é assim. Por que para ser visto como circular de todas as direções ele precisaria ser esférico, coisa que ele não é. Para chegar a sua concepção da alma imortal, o Dr. Bolton está valendo-se de uma longa tradição de crítica da percepção. Crítica que é cem por cento falha em cada uma das suas partes, em cada um dos seus capítulos, por sempre ter examinado a percepção exclusivamente desde o ponto de vista do sujeito, sem perguntar se os objetos teriam em si mesmos a capacidade de mostrar-se de maneiras diferentes. Desde logo, uma observação simples: eu só posso ver os objetos por determinados lados, eu não posso ver um objeto por todos os lados ao mesmo tempo porque eu não estou em todos os lados ao mesmo tempo. Mas o objeto tem a capacidade de estar uniformemente para todos os lados ao mesmo tempo? Não. Por exemplo, aqui eu vejo uma mesa de centro, de um lado tenho eu e do outro tenho um sofá. O objeto, a mesa de centro, tem a capacidade de estar na mesma posição com relação a mim e com relação ao sofá? Não, ela não tem essa capacidade. Basta você fazer toda essa crítica da percepção: a nossa percepção não apreende os objetos como tais. É muito fácil. Nenhum objeto se relaciona com nenhum outro como tal. Para um objeto se relacionar inteiramente com um outro como tal e não só por alguns aspectos ele precisaria se transformar no outro. Esta mesa está acima do chão e abaixo do teto, portanto, ela ocupa duas posições diferentes. E a reação que ela tem com o chão é uma e a que ela tem com o teto é outra. Você pode reduzir uma dessas relações à outra? Ou fundi-las? Não. Isso é a mesma coisa que dizer que toda e qualquer relação de um objeto com os outros no espaço, é limitada a posição, direção, ângulo, etc, e que as famosas limitações da nossa percepção não são nada mais do que a consciência que nos temos dessas relações. Isso quer dizer que a nossa percepção se aproxima ainda mais da constituição objetiva dos objetos do que as relações que esses objetos têm uns com os outros. Porque um objeto só pode tocar o outro e se relacionar com outro somente por um, dois ou um número limitadíssimo de aspectos e eu posso aprendê-lo por um aspecto sensorialmente, mas conceber outros aspectos mentalmente no mesmo instante e, aliás, se eu não concebo não houve percepção alguma. Como vemos na teoria do círculo de latência. Destarte, a nossa concepção dos objetos é até mais objetiva do que as relações dos objetos entre si, porque abarca aspectos, possibilidades, direções nos quais os próprios objetos não podem se relacionar efetivamente. Toda a crítica moderna da percepção é, em sua totalidade, um erro monstruoso. A tentativa de descrever uma relação levando em conta somente um dos sujeitos envolvidos, no que ela deixa de ser, automaticamente, uma relação faz com que ela se torne uma fantasmagoria. Esta crítica subjetivista do conhecimento foi justamente o prólogo idealista do moderno materialismo. O raciocínio foi o seguinte: idealismo, positivismo, materialismo. Foi essa a sequência. Se nada podemos conhecer do mundo objetivo, se conhecemos apenas as nossas representações, ou fenômenos das aparências e nada podemos saber dos objetos em si mesmos então, só o que nos resta, sob o nome de ciência, nos dedicarmos à descrição das aparências, descrição mais exata possível das aparências, sem nos pronunciarmos sobre a existência objetiva deles ou não e sobre as suas propriedades objetivas ou não. Isso é positivismo. Ora, o passo seguinte é este: de tudo que nos chega como fenômeno não há nada que não seja percepção sensível, então, só existe para fins de ciência e de conhecimento o mundo sensível e o resto é tudo fantasia ou imaginação, etc. Entenderam a sequência? (a) Crítica realista do conhecimento, (b) afirmação positivista do primado absoluto da fenomenalidade e (c) como conseqüência inevitável, como toda fenomenalidade é sensível à proclamação da prioridade absoluta do sensível e a existência única do sensível, com a (d) conseqüente exclusão de tudo o mais. O Dr. Bolton quer reagir contra esse materialismo e positivismo, só que com as mesmas armas deles. A que tipo de concepção isso nos levará? Ele quer dizer que, para além do mundo das representações subjetivas e do próprio mundo objetivo, existe algo chamado alma que transcende isso infinitamente. Ora, a alma é a verdadeira pessoa então temos que: eu sou maior do que todo o Universo efetivo dos meus pensamentos, maior que o Universo inteiro e maior do que a relação entre os dois. Isto é minha alma imortal. Mas se eu sou efetivamente isso, se eu sou isto necessariamente, para quê eu preciso de um Deus? Eu já transcendi tudo. Basta passar pelas iniciações - agora eu sou um adepto - já sou maior que o mundo. É assim que as coisas se passam. A alma imortal no paraíso é maior que o mundo físico. Mas e se ela for para o inferno? Suas possibilidades estarão restringidas ao mínimo do mínimo. Isso quer dizer que a alma humana não tem essa qualidade em si mesma. Ela tem potencialmente, como se diz, ela possui esta característica de direito, mas não de fato. Quando nós observamos a medida correta das coisas é outra. Disse o Padre Pio: “Tudo é Deus. Eu, por mim, tenho uma infinita miséria.” Esta é a situação real da alma, não essa autoglorificação, quase nietzscheana, que abarca tudo e pode ser ativada mediante tais ou quais ritos iniciáticos. Em contrapartida dessa crítica idealista que ele faz da alma, a Doutrina da Igreja que é baseada em São Tomás e Aristóteles diz que nós não percebemos fenômenos coisa nenhuma, nós percebemos objetos reais e desses objetos reais nos captamos a sua forma inteligível. O conhecimento da forma inteligível de um objeto permite-me conceber, em princípio, todas as relações possíveis que ele possa ter com qualquer objeto, não quantitativamente ao mesmo tempo. Por exemplo, eu vejo um gato e sei tudo o que um gato pode fazer, mas não sei quantitativamente, todos os minutos da vida do gato, mas sei o esquema central de possibilidades. Sei que o gato pode saltar, pode correr, pode miar, mas ele não pode cantar ópera, ele não pode aprender cálculo infinitesimal, ele não pode falar grego e não pode sair voando. Isso eu chamo de círculo de latência. A partir da apreensão da forma inteligível temos o círculo de latência. É possível que isso tudo seja uma aparência? Não, não é possível. É possível que isso seja apenas o meu mundo subjetivo? Coleção de círculos concêntricos? Não pelo seguinte: eu não posso ter um círculo concêntrico se eu não concebo que os outros seres humanos também tenham. Então ele disse: todas as nossas percepções do mundo são privadas e pessoais. A nossa percepção é ptolomaica, geocêntrica, central, egocêntrica, por assim dizer. Tome o mais egocêntrico dos seres humanos. A não ser que ele esteja num estado de altismo completo, ele sabe que qualquer outra pessoa leva consigo um conjunto de círculos concêntricos que têm intercessões e coparticipações com os dele. Ou não sabe? Será que alguém, algum dia duvidou disso? Será que só eu tenho essa série de círculos concêntricos dentro de mim e os outros são apenas objetos? Se eu pensar assim estarei num mundo completamente esquizofrênico, ou até psicopático, onde só eu sou um sujeito autoconsciente ativo e os outros são apenas pontinhos que se movem no espaço. Note que Descartes chega a vivenciar essa impressão. Ele olhava pela janela as pessoas olhando pela rua e dizia: de fato, não sei se essas pessoas têm consciência ou se são apenas objetos mecânicos que estão andando por aí. Em certos estados mentais muito peculiares eu posso até tentar imaginar as coisas assim. Mas, normalmente, vejo os outros seres humanos com seres conscientes e ativos e vemos assim desde quando somos apenas bebês. Por que é a sua mãe que trás a mamadeira, não é você que a manda buscá-la. Você descobre os outros como sujeitos ativos e autoconscientes, os outros como centro de círculos concêntricos, mas antes de conhecer a si mesmo como tal. Portanto, para mim, a existência dos outros como seres agentes e autoconscientes vem antes, até, da minha tomada de consciência de que eu também sou do mesmo gênero. Porque você quando nasce, nos seus primeiros meses de vida, não age, apenas padece, não tem capacidade de ação premeditada. Você padece de sono, fome, frio, etc., e vem alguém e socorre você. Então, esse alguém é o centro da ação e você é apenas o objeto passivo que recebe aquela ação. Isso significa que a visão que temos do mundo não é egocêntrica, é multicêntrica desde o início e é necessariamente assim. A existência da pluralidade dos “eus” conscientes é uma premissa da vida humana. E, se eu, para combater com materialismo a visão egocêntrica e fechada que a cultura atual impõe às pessoas, eu apelo para essa crítica idealista do conhecimento e subscrevo a teoria kantiana, ou até schoppenhaueriana, da representação, estou pedindo para satanás me proteger de belzebu. Este é o problema com essa proposta gnóstica. Você pode livrar-se do materialismo ambiente, apelando para esta ilusão dos estados superiores do ser que, através de iniciações, rituais, etc., o tornarão a consciência universal. Seria de fato assim se o esquema fosse conforme ele descreve: aqui tem o mundo das minhas representações subjetivas, que é o que, no dia a dia, chamamos de mundo, para além disso existe um mundo objetivo que é o que a ciência descreve e para cima desses dois existe minha alma imortal que abarca tudo isto. A minha alma imortal abarca isto de fato ou de direito? Somente de direito. Ora, se a alma imortal já sabe tudo ― no sentido que Aristóteles dizia: A alma é, de certo modo, tudo o quanto ela conhece, ou seja, tudo que você conhece, faz parte da sua alma ― nesse sentindo ela transcende, infinitamente, é claro, aquilo que nós chamamos de nosso mundo. Isso porque o nosso mundo, a representação visual dele, é composto por aquelas coisas que conscientemente nós sabemos. Mas, no fundo, sabemos muito mais do que isso. Eu mesmo, já expliquei muitas vezes, a questão do conhecimento por presença, etc. Porém, se a alma é tão sábia assim, por que nós nascemos? Por que temos que aprender a andar, comer, fazer cocô no penico ao invés de na fralda? Veja, nosso aprendizado começa com coisas desse nível. E, às vezes, não é fácil. Há crianças que fazem pipi na cama por muito tempo depois de saberem onde fica o banheiro ou o penico. E há pessoas que aprenderam a falar, mas continuam falando errado por muito tempo. Algumas atravessam a vida inteira falando errado e temos que receber informação dela assim mesmo. Se a alma sabe tudo efetivamente, ela não precisa aprender nada do mundo exterior. Se ele precisa saber de algo do mundo exterior é porque algo lhe falta. E o que lhe falta? Um mundo no qual ela possa se comunicar com outras almas. A alma, no instante do seu nascimento, é como se fosse um mônada, fechada em sim mesmo, ela só sabe dela mesma. O total egocentrismo de um bebê é uma cosa que qualquer mãe percebe. Um bebê só pensa nele mesmo. Só pensa assim: quero comer, quero fazer cocô, estou com frio, quero dormir, ou não quero dormir. Ele nunca pensa em mim que estou aqui lavando pratos, lavando as fraldas dele, um trabalho desgraçado. Ele é totalmente egocêntrico! E o aprendizado dele começa no instante em que ele começa a perceber os outros como centros, agentes autoconscientes. Nesse momento, ele está se humanizando. Outra coisa, se a minha alma fosse maior que o universo, maior que as representações subjetivas, maior que o mundo objetivo, transcenderia os dois; não poderia haver mais de uma alma. Porque assim você teria dois infinitos. Esta perspectiva termina de certo modo, numa espécie de auto divinização da alma individual humana. Esse é o problema com o gnosticismo. [Intervalo] Temos aqui algumas perguntas muito boas, acompanhamos a evolução dos alunos pela qualidade das perguntas. Aluno: A percepção quantitativa do círculo de latência dos objetos corresponde à onisciência? Ou essa é ainda mais ampla? Olavo: É claro que essa é mais ampla porque o círculo de latência corresponde aquilo que é da concepção de cada objeto em particular. Mas a onisciência abrange todas as suas relações possíveis e imagináveis e também abrange aqui que é da eternidade propriamente dita e que não tem nada haver, portanto, com o desenrolar do desenvolvimento dos objetos e dos seres no tempo. Aluno: O senhor considerou que recorrer à epistemologia kantiana ou mesmo schoppenhaueriana seria pedir auxílio a satanás para se proteger de belzebu. No caso, especificamente de Schoppenhauer que aponta a coisa em si como uma vontade cega e obscura, seria, de fato, considerar a essência do mundo como demoníaca? Olavo: Sim. Sem sombra de dúvida. Schoppenhauer ficou profundamente impressiona com a filosofia de Kant, aliás, como todo mundo ficou, porque os argumentos de Kant pareciam não ter saída e de fato não tem. Se colocarmos as perguntas como ele colocou e como essa tradição de crítica cética do conhecimento tinha colocado, de fato, você não tem saída, é obrigado a concordar com ele. Nós não temos acesso à coisa em si. O problema não é a argumentação, o problema é a estrutura inteira dessa abordagem que começa por tapar metade do problema, que é a parte do objeto. Sobretudo, uma coisa que Kant nunca faz, é considerar a si mesmo como objeto. Lendo Kant temos a impressão de que só ele enxerga as coisas, os outros não o enxergam. Talvez porque ele fosse pequenino demais. Mas, depois que você coloca essas perguntas fundamentais, sobre o que um objeto precisa para ele ser um objeto — tanto para ser objeto do meu conhecimento quanto para ser objeto de quaisquer relações com outros objetos — você vê que toda esta abordagem é uma falsificação monstruosa da estrutura da realidade. Mesmo porque, para você dizer "não temos acesso a coisa em si", coloca o seguinte problema: nenhum objeto pode jamais ser uma coisa em si. Ser um objeto significa ser um objeto no mundo: no tempo, no espaço e entre outros objetos — a não ser que a coisa-em-si seja um objeto totalmente separado não só do conhecimento humano, mas de todos os outros objetos. Então seria o gato-em-si. Seria um gato eterno que não nasceu de outro gato e de uma gata, que apareceu por si mesmo. Bom, mas isso aí é precisamente o que não existe — não é cognoscível, porque não existe e não pode existir. Então, mesma coisa, dizer que não conhecemos a coisa em si é a mesma coisa que dizer: não conhecemos o nada. Porém, Ortega y Gasset definia a filosofia do Kant como uma jaula, e ele diz que durante dez anos foi prisioneiro da jaula kantiana. Mas isto acontece mesmo, é uma pegadinha, é um truque demoniaco para limitar as suas possibilidades de conhecimento; e, portanto, determinar o curso da história cultural numa certa direção que ele determinou mesmo, esse negócio kantiano tem uma influência terrível ainda hoje, na cabeça de pessoas que jamais leram Kant. Por exemplo, se você pegar todo esse pessoal da Programação Neurolinguística, da Nova Era, todos eles acreditam nesta coisa, de que nós não conhecemos os objetos, nós temos apenas representações, não existem apresentações. Então, só que é claro que isto coloca mais problemas do que resolve; e, em última análise leva ao absurdo, a contradições absolutamente intoleráveis. Eu não posso dizer que fui prisioneiro da jaula kantiana, nem um único dia — eu não acreditei em Kant jamais, jamais, porque eu tive a sorte de, quando estava lendo isso, eu imediatamente, eu estava com o livro na mão e eu imediatamente me ocorreu a ideia "mas peraí, eu estou lendo o livro-em-si ou apenas a aparência fenomênica dele" e pronto. E aí, como diz o outro, com o perdão da palavra, fodeu. Não consegui mais continuar lendo aquele livro. Eu sempre recomendo às pessoas "leiam concordando, a não ser que isso se torne impossível". E, no caso do Kant, tudo se tornou impossível a partir daí. Acontece que o Schopenhauer foi completamente hipnotizado por esta coisa kantiana da coisa-em-si, e a coisa-em-si acabou lhe parecendo que era todo o processo universal, nós nada conhecemos a não ser a aparência fenomênica. Então, o que é que está para lá? O que está para lá é o totalmente incognoscível, irracional, inapreensível — e isto deve ser a verdadeira realidade. Então ele ficou com esta coisa, uma espécie de sonho de Maya, quer dizer, tudo é uma ilusão exceto este total incognoscível que é a única realidade e que é a causa de todos os processos temporais reais. De fato é uma fantasia demoniaca. Aluno: O senhor nos poderia explicar um pouco sobre a fenomenologia de Husserl e como ela tentou superar a gnoseologia moderna? Se eu quiser saber mais sobre a fenomenologia, o que poderia ler? Olavo: Olha, existe um livro de Husserl que se chama Filosofia Primeira, uma série de lições que foram publicadas postumamente; Husserl ao morrer deixou quarenta mil páginas taquigrafadas com o padre Van Breda, que está aqui decifrando o negócio — não sei se ele está vivo ainda, mas tem gente escavando o negócio até hoje — e cada coisa que sai, é cada vez mais interessante. E a primeira coisa a que isso nos obriga é reconhecer que não conhecemos a filosofia de Husserl — agora é que estamos começando a conhecer. Ela é muito maior do que se imaginava, de modo que as introduções e discussões da fenomenologia publicadas até os anos 60 são todas deficientes. A ideia fundamental de Husserl foi mais ou menos esta que eu expus a respeito do objeto, mas ele não chegou a ir tão longe. Ele investigou a estrutura do ato de cognição e a estrutura da própria consciência. Ele diz que ter consciência é ter consciência de alguma coisa — consciência vazia não é concebível. Então, como essas coisas, esses "objetos" se apresentam a consciência? Como é que eu sei que eles estão lá? Seja um objeto do mundo físico, seja uma simples coisa que pensei. Então ele descobriu a pólvora, ou seja, que os vários objetos que são dados à consciência aparecem, para ela, de maneiras diferentes. Ou seja, quando você toma consciência, por exemplo, do calor, ele não se apresenta pra você da mesma maneira que se apresenta uma idéia, ou como se apresenta um objeto da realidade física, ou como se apresenta, digamos, a conclusão de um silogismo, ou a estrutura de uma demonstração geométrica - existem modos de aparecimento, e ele criou então todo um vocabulário técnico para descrever esses modos de apresentação. A coisa é incrível, porque a linguagem é altamente abstrata, muito difícil. Mas ele está falando daquilo que existe de mais direto e elementar; quer dizer, ele não está criando uma teoria, ele está simplesmente descrevendo as coisas tal como elas aparecem. Então tudo isso é muito bom, mas no final o pensamento dele tomou simultaneamente duas direções opostas, e eu não sei, no fim das contas, a conclusão que ele chegou. Por um lado, ele começou a aprofundar um exame crítico de toda cultura científica moderna a partir da ideia da matematização dos objetos da experiência. Então evidentemente os objetos matematizados tal como estudaram Galileu, Newton etc. não são os mesmos objetos que se apresentam na experiência humana. Então ele começou a escavar nessa direção no livro A Crise das Ciências Européias. Por outro lado, na mesma época, ele estava indo na direção de uma espécie de filosofia idealista e foi muito criticado por isto. Inclusive existe o livro do Leszek Kołakowski, um livro de 100 páginas sobre o fracasso do projeto husserliano neste sentido. Mas nós não sabemos se foi realmente um fracasso porque, porque os livros continuam aparecendo, os manuscritos continuam aparecendo, e sinceramente não sabemos onde isso vai terminar. Então esse é o status quaestionis atualmente. De qualquer modo: sem Husserl, nada se faz. Quer dizer, o método fenomenológico é absolutamente obrigatório para nos tirar desta barafunda em que a crítica idealista do conhecimento nos colocou. Aluno: Há alguma conexão entre o pensamento gnóstico atual e o budismo? O budismo mal-interpretado influenciou o gnosticismo moderno? Olavo: Sem sombra de dúvida. Mas eu também não conheço o budismo com tanta profundidade, a ponto de poder saber exatamente se o budismo é uma gnose em si mesmo, ou se foi um budismo mal-interpretado. Eu sinceramente não sei, e acho que para tirar isso a limpo precisa muitos anos de estudo. Seria muito interessante se um de vocês dissesse "peraí, qual é efetivamente a relação entre budismo e gnose, historicamente falando?". Então isso aí é no mínimo uma tese universitária. E, evidentemente, como diria Julio Lemos, sem acesso aos textos originais, que podem estar em chinês, japonês, sânscrito etc., você não vai conseguir nada. Então se alguém tiver interesse em conhecer essas línguas e tirar o problema a limpo: o budismo é uma gnose em si mesmo, ou foi transformado em tal pelas suas interpretações ocidentais? Ninguém respondeu essa questão adequadamente até agora - para mim isso é um bicho de sete cabeças, mas quem resolver isso aí prestará um grande serviço à humanidade. Aluno: É muito dificil entender o que leva um indivíduo, tal como o sr. Bolton, a acreditar que o mundo objetivo não existe. Parece uma ideia tola, vindo de um ser extremamente egocêntrico. Parece coisa da Xuxa, "querer é poder". Olavo: Olha, ele está brincando, evidentemente, é uma piada, mas essa piada diz muito da realidade, porque esse negócio do "querer é poder" — que está no fundo, por exemplo, da Programação Neurolinguística e de muitas ideologias da Nova Era — também está no gnosticismo mais elevado e mais elaborado que é a dessa escola schuoniana, guenoniana etc. Eles não declaram isso, e eu não sei até se eles chegam a perceber a semelhança que eles têm com essas coisas da Programação Neurolinguística — eu acho que não, porque eles se consideram infinitamente superiores a isto, consideram que esse negócio de Nova Era é tudo coisa de estudante, de drogado etc., e o esoterismo deles é uma coisa de altíssimo nível. Mas para dizer a verdade, cada vez mais eu acho que esse pessoal está contaminado pela Xuxa e o "querer é poder". Você fez uma piada, mas a piada foi direto ao ponto. Aluno: Estou estudando a apostila "Problemas de Método nas Ciências Humanas", e noto que ela termina na página 16 com uma observação de continuidade. Existe essa segunda parte da apostila? Olavo: Escrita não existe, mas acho que, o que eu tinha a acrescentar nessa apostila, fui acrescentando ao longo desse curso. Tendo na mão as transcrições das aulas eu posso pegar aqui e ali as partes que complementam. Eu acho que o que eu tinha que dizer a respeito dos problemas de método já foi dito, e talvez não tenha mais nada a acrescentar — mas foi dito um pedaço aqui, outro pedaço acolá. Gente, se eu tivesse capacidade de escrever tanto quanto eu tenho explicado nessas aulas, eu seria Prêmio Nobel de Literatura, mas lamentavelmente como diz quem trabalha em rádio, “vinte linhas é um minuto”. Uma página de livro tem mais ou menos 32 linhas, e uma lauda de jornal 20 linhas. Então, se você fala um minuto, tem uma lauda de jornal, um minuto e meio e você tem uma página de livro. As transcrições dessas aulas dão 40 páginas, 50 páginas - agora, quanto tempo alguém leva para escrever 50 páginas? Vamos supor que de 40 páginas por transcrição, corrigidas e cortadas, desse umas vinte. Temos 20 laudas por semana, 20 páginas por semana, 80 por mês. 80 por mês, quer dizer um livro a cada três meses. Só este curso já seria uma coleção de uns 15, 20 livros. Eu não tenho capacidade para escrever isso, e é por isso mesmo que preciso das transcrições. Grande parte da bibliografia filosófica é constituida de transcrições de aulas; por exemplo, o próprio Husserl, Hegel, as famosas Lições sobre a história da Filosofia universal, é tudo transcrição de aluno. Se não fosse isso a bibliografia filosófica simplesmente não existiria. Então eu realmente eu preciso da sua ajuda para isto. A Juliana e o Mário Chainho, por exemplo, já juntaram todas as aulas sobre a questão do método da auto-educação, de algum modo me ajudando muito para meu próximo curso. Eu realmente dependo da ajuda dos alunos. O certo seria ter uma assistente para qual possa ditar coisas o tempo todo, e um redator pegando essas transcrições e dando uma forma final, seria ótimo. Mas isso seria trabalhar em condições nas quais trabalhava um milionário como Jung, ou o doutor Szondi, mas nós aqui somos apenas uns pés-rapados. Aliás, nós estamos inventando alguns expedientes para fazer mais dinheiro, para poder, em parte, trazer mais alunos para cá e para poder contratar mais auxiliares. Logo, logo, vocês terão noticia disso. Mas, sem esses recursos, nós vamos ficar sempre na base da gravação e da transcrição não-revista. Aluno: Quais são as obras essenciais que mais lhe impressonam de Ferreira de Castro, além de A Selva? Olavo: Eu só li A Selva. Depois disso eu emprestei o volume para a Isabela, a qual jamais me devolveu. Então, quando ela devolver, lerei o resto. Mas tive sapeando, aqui e ali, um ou outro texto, inclusive dos livros de viagem do Ferreira de Castro, e olha, é um tremendo escritor, é um monstro de escritor. Primeiro, onde fica a Amazônia? A Amazônia fica no Brasil. Quando você lê as coisas que os brasileiros escrevem sobre a Amazônia é só impressão física: é só sapo, minhoca, cobra, jabuti — é tudo puramente naturalístico, é só ecológico. O Ferreira de Castro consegue dar uma ideia da Amazônia na escala da civilização, e é um português, tem que vir um português para fazer isso. Quer dizer, ele entendeu a Amazônia na escala humana e histórica — coisa que nenhum brasileiro tinha conseguido. Ou seja, tem que vir o português para nos ensinar. Aliás, isto acontece em muitos setores. Aluno: Tenho pensado nos argumentos contra a burra e maliciosa comparação entre as asserções de Platão, no sentido de formar a alma da população, sobretudo nas Leis, e a engenharia social do século XX. O senhor poderia dizer algo sobre isso? Olavo: Posso. Primeiro lugar: como é que termina a República? Termina dizendo que vai dar tudo errado! Termina dizendo que, se você fizer a sociedade mais perfeita, as leis cíclicas que determinam o correr da história vão acabar com tudo aquilo. Então, a República não é uma proposta de construir uma sociedade, é um estudo hipotético sobre como seria a sociedade perfeita, e o que aconteceria com ela. E a conclusão é a seguinte: ou não dá para fazer, ou se fizer vai acabar muito mal. A República não é uma utopia, a República é o estudo científico de uma hipótese, analisada em todas as suas consequências. Então não tem absolutamente nada a ver com engenharia social. O engenheiro social é o cara que leu a República acreditando que é uma proposta, quando o próprio Platão está dizendo que vai dar errado. Platão não acredita na sociedade ideal, mas o engenheiro social acredita e diz que foi Platão que ensinou. Poxa, tem tantas perguntas boas aqui, mas iria precisar de muito tempo. Aluno: Eu me inscrevi no Curso de Filosofia recentemente, eu quero saber se devo assistir as aulas em sequência, desde as mais antigas? Olavo: Você deve fazer as duas coisas, você deve assistir as mais antigas com muita atenção, e fazer os exercícios que lhe dei, e que o Mário Chainho e a Juliana resumiram — eles fizeram uma exposição muito bem feita de todos os exercícios e práticas dadas na primeira fase do curso. E deve também assistir as atuais, mas sem prestar muita atenção e sem se preocupar muito. Você vai assistir uma vez agora e depois quando chegar a vez dela na sequência ordenada. Você assiste agora só para ter o sentido da participação no grupo. Eu me inspirei muito na academia de artes marciais do Michel Weber, onde ele colocava os recém-chegados junto com alunos que tinham 7, 8 ou 10 anos de treinamento. É claro que eles não iriam desempenhar a mesma coisa, mas eles iam ver — uma coisa é dois principiantes treinando um com o outro, e outra coisa era você assistir o desempenho dos mais velhos e experientes, e do próprio Michel Weber. Você ia se aproximar gradativamente daquilo, e ia levar algum tempo para chegar lá, mas você já estava vendo o que eles estavam fazendo. Então, o aluno recém-chegado aqui, é a mesma coisa, se ocupar das primeiras aulas e este é o assunto dele, esta é a vida de estudos dele. E ao mesmo tempo ele já está vendo o que os outros estão fazendo mais tarde. Daqui a algum tempo nós vamos começar a examinar trabalhos escritos dos alunos. Aliás, eu repito o apelo que fiz na aula passada: não me enviem trabalhos por enquanto, pois não vou ter tempo de examiná-los. Eu vou ter que reestruturar toda a minha vida funcional para poder ler pelo menos um trabalho escrito por semana, ler e comentar, é o que vamos começar a fazer daqui a pouco, depois vou dar o regulamento desse negócio — porque eu quero que, quando eu analisar o trabalho, todos os outros assistam. Isto é absolutamente fundamental. Então serão aulas que serão dadas inteiramente a partir do comentário de um trabalho de aluno — trabalho que será colocado no Seminário e ficará no alcance de todos. Mas só me mandem trabalhos quando eu avisar, agora não adianta porque eu não vou ler. As vezes a gente dá uma sapeada, vê que é uma coisa de alto valor, e eu fico louco para ler isso, mas agora não dá. Aluno: Minha pergunta tem muito a ver com sua aula, eu gostaria de saber se aquilo que o senhor chama de imaginação nas aulas iniciais do seu curso é o mesmo que Louis Lavelle chama de consciência no livro A Presença Total. Olavo: Não. A imaginação é evidentemente um componente da consciência. E é um componente essencial justamente por causa do problema do círculo de latência, que até o próprio Robert Bolton estava falando. Quer dizer, sem algum conhecimento do futuro nós não percebemos nem o presente. Só que ele diz que nós não temos experiência desse futuro — nós temos sim, experiência do círculo de latência que é, por assim dizer, o futuro potencial imediato. Eu ainda não tive nem a capacidade, nem o tempo, de descrever fenomenologicamente como é a percepção do círculo de latência. Para isso aí precisaria dedicar uns três meses só a este assunto, quer dizer, como é que se dá, no ato da percepção, a percepção do círculo de latência. Não se dá pelas mesmas maneiras pela qual eu tenho a mera percepção sensível. Se eu estou aqui, estou andando e vejo um cachorro deitado, por exemplo. Bom, vejo o cachorro deitado por certos estímulos luminosos que minha retina pegou etc, mas ao mesmo tempo eu sei que ele é um cachorro e que ele tem certas possibilidades de fazer certas coisas, ele pode latir, ele pode correr, ele pode me ameaçar, tem uma série de coisas que ele pode fazer que são coisas caninas, e se eu não perceber isto, eu não percebi que é um cachorro, percebi apenas uma forma visual. Mas há alguma diferença entre a percepção do círculo de latência e a percepção da mera forma visual. Entre outras coisas no círculo de latência existe um elemento muscular, de reação, e entra em ação aquilo que São Tomás de Aquino chamava de faculdade estimativa. Estimativa é a faculdade pela qual uma ovelha que nunca viu um lobo, quando vê o primeiro sabe que não presta, que não é coisa boa. Então precisaria fazer uma descrição fenomenológica disto, mas acontece o seguinte: pelo menos na parte escrita do meu trabalho eu não tenho nenhuma ambição de fazer uma exposição completa das coisas. Inclusive, quando inventei este curso, porque o chamei de Seminário? É porque estou aqui, espalhando sementes e não criando arvores inteiras. Eu mesmo, no próprio livro Jardim das Aflições, observava que cada nota de rodapé dá para fazer um estudo acadêmico de dois ou três anos, e esta é justamente a função que eu vejo que tenho. Se eu quero fomentar uma restauração cultural, eu tenho que espalhar as sementes, e não dar o produto inteiro. São muitas sementes que não vou poder desenvolver uma por uma, e nem esta é a minha ambição. Se você oferece um sistema filosófico pronto, acabado e arrumadinho, sempre que isto acontece, ato seguinte: este sistema começa a entrar em decadência e se torna objeto da crítica. Então a exposição completa de um sistema é, de certo modo, o seu fim. Veja que quando a escolástica chega ao seu auge, com São Tomás de Aquino, no século seguinte a coisa já se perdeu. Agora, se você quer não um templo, um edifício acabado, uma catedral, mas fomentar um movimento cultural, histórico, você deve fazer o contrário, você não deve dar nada acabado e pronto, mas você tem que dar vários começos. Esses começos, claro, estão articulados entre si de algum modo e tem um sistema latente. Mas é está a minha função. Então quando eu digo que precisaria fazer tal coisa, eu digo que precisaria e que eu gostaria de fazer, mas que eu não terei tempo de fazer. E às vezes não tenho a capacidade para fazer. Então, por exemplo, esses trabalhos que este menino Augusto Fleck tem me mandado, desde que escrevi Aristóteles em Nova Perspectiva, eu sabia que precisava fazer uma sondagem histórica mais profunda do negócio, mas que eu não iria ter tempo e talvez nem a capacidade para fazer, mas alguém pode ter. Então, entre outras coisas, na última mensagem que ele me mandou, ele descobriu que uma espécie de consciência dos quatro discursos estava mais disseminada na antiguidade do que parecia. Quando eu digo, ali no começo de Aristóteles em Nova Perspectiva, que só dois autores afirmaram isso, eu digo que só dois autores disseram isso explicitamente — e na verdade houve mais, ele mesmo descobriu que existiram mais. Porém, a questão dos quatro discursos como as quatro direções do espaço, quer dizer, diferenciações máximas das possibilidades do discurso humano, isso é uma necessidade tão premente, tão universal, que ela tem que estar presente em qualquer cultura mais ou menos saudável — e, quando se perde, ela continua latente, lá no fundo. Quer dizer, já há uma espécie de confusão geral dos discursos, mas aquelas quatro direções maximamente diferenciadas continuam presentes e servem sempre como instrumento para mapear de novo, assim como as direções do espaço, por mais perdido que você esteja, o norte continua no norte, o sul continua no sul, e você sempre pode tentar reestruturar sua orientação no espaço com base nisso. Até semana que vem muito obrigado. Transcrição: Evandro Santos de Albuquerque, Paulo Ricardo Costa Pinto, Bruno Rodrigues da Cunha. Revisão: Fernando José da Silva