Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 165 28 de julho de 2012 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Antes de tudo queria lembrar que realizaremos o curso Princípios e Métodos da Autoeducação, de 1 a 6 de outubro, aqui em Colonial Heights. Não sabemos ainda se o curso poderá ser transmitido online ou não, então não prometemos nada a ninguém. Hoje eu vou ter de pedir desculpas a vocês porque o assunto da aula vai ser um pouco exótico, por um motivo que me ocorreu durante a semana. Geralmente uso a quinta ou a sexta-feira para estudar um pouco e pensar naquilo que vou dizer na aula, mas tive de ocupar esses dois dias redigindo umas observações a respeito de um sujeito que escreveu 120 páginas de livro a meu respeito. No mínimo pelo tamanho da coisa, achei que aquilo merecia alguma atenção e, de fato, como ele lida muito com documentação, isso deu algum trabalho. Este assunto, evidentemente, cabe mais no Mídia Sem Máscara ou até no Diário do Comércio do que aqui. Lamento, mas não consegui pensar em outra coisa nos últimos dois dias, de forma que vou dar aula sobre isto mesmo. O texto com as notas que tomei está online para vocês. Vou lê-lo e comentá-lo aqui. De qualquer modo, é uma coisa boa para vocês avaliarem o estado de coisas na sociedade brasileira e verem até onde chegamos. “Um Sr. Gustavo Moreira, que se diz historiador e que a condescendência de seus pais talvez aceite como tal, ainda que num sentido muito elástico e generoso do termo, tem dedicado à minha pessoa mais atenção do que jamais imaginei merecer. Imprimi alguns dos artigos que ele escreveu contra mim e somavam 70 páginas em formato A4, o que corresponde a umas 120 páginas de livro.” E continua, pois ele não vai parar. “Por mais débil e apagada que seja a personalidade intelectual do referido, seria uma crueldade deixar tão devoto detrator falando sozinho, sem direito a uns míseros quinze minutos de atenção da parte daquele que o fez perder tantas noites de sono. Infelizmente, à volúpia de falar contra mim não corresponde, na mente do Sr. Moreira, um equivalente interesse por ler aquilo que escrevo. A totalidade das fontes textuais em que ele apoia seu extenso julgamento da minha obra e da minha pessoa não ultrapassa umas trinta linhas, espalhadas em artigos e comentários radiofônicos. Talvez em compensação, inclui algumas frases extraídas de outros autores, como Júlio Severo, Graça Salgueiro e o deputado Bolsonaro, que aparentemente ele imagina serem a minha própria pessoa multiplicada em clones, dublês, pseudônimos, duplos etéricos ou coisa assim.” Já que ele responde às opiniões deles como se fossem as minhas. “Mais ainda, a enxurrada de palavras que ele despeja sobre a minha cabeça não versa sobre nada da minha filosofia, nem da minha obra educacional, nem da variedade de estudos que realizei sobre tópicos de literatura, religião e história cultural. Enfoca exclusivamente algumas opiniões esporádicas que emiti sobre a escravidão islâmica, um assunto muito distante das minhas preocupações centrais. Mesmo supondo-se que aquelas trinta linhas estivessem repletas de asneiras, preconceitos e erros escabrosos, catalogar ideologicamente o autor de doze livros publicados e não menos de trinta mil páginas de apostilas transcritas de cursos e conferências, condená-lo in totum e negar-lhe até mesmo a condição de filósofo com base tão-somente naquela amostragem microscópica já seria um feito divinatório notável, capaz de reduzir Mãe Dinah a um humilhante segundo lugar.” Muitas pessoas escrevem a meu respeito, geralmente contra mim. Elas pegam uma frase aqui, um tópico ali, uma coisa que eu disse no rádio, e escrevem um montão de coisas. Aquilo dá trabalho e se prolonga por debates e mais debates, pois outras pessoas também mandam comentários. E é sempre sobre uma ou duas linhas de meus escritos, não passa disso. Então, vejo que cada linha minha dá muito trabalho para essas pessoas. Imagine uma obra inteira! Então já pensei algo assim: se juntassem todos esses meus “críticos”, quanto tempo levariam para tentar obter uma visão geral da minha obra? Quanto tempo para ler e avaliar todos os meus livros, fazer um estudo científico a respeito, assistir às aulas do Seminário, assistir aos vídeos da História Essencial da Filosofia etc., e a partir daí fazer realmente uma crítica estrutural a respeito? Levaria alguns séculos. Pensei em sugerir que nomeiem uma comissão universitária de umas três mil pessoas — uns três mil professores — e, talvez, se cada um pegar um pedacinho, eles consigam abarcar, não digo tudo porque seria um exagero, mas digamos uns 30 ou 40 por cento da minha obra e produzir uma crítica em regra, talvez até devastadora. É de fato uma coisa terrível a dificuldade que essas pessoas têm. Eles querem criticar e falar do assunto, mas ao mesmo tempo não querem conhecer nem se expor à influência do Olavo porque este vai fazer lavagem cerebral em suas cabeças e eles têm de se resguardar disso; suas alminhas puras não podem ser contaminadas com essas coisas. Acho que isso é um drama, um sofrimento muito intenso para essas pessoas. Então talvez dividindo o trabalho doa só um pouquinho em cada um e eles consigam. Mas não podem ser estudantes, precisamos de professores universitários. Três mil professores universitários talvez dessem conta do recado. A situação no Brasil é exatamente essa. É claro que existe uma dificuldade física em discutir com três mil pessoas. Eu não poderia redigir uma resposta para cada um individualmente e teria de abordá-los no conjunto. Mas, sinceramente, acho que a totalidade da classe universitária brasileira não está mesmo qualificada para apreender o conjunto da minha obra e das minhas ideias. É uma coisa muito complexa e abrangente para eles. É uma coisa que jamais imaginaram. Todos os que se metem a discutir não imaginam realmente o que eu penso a respeito. Eles pegam uma frase ou duas e julgam tudo com base nisso. Parecem arqueólogos que acham um pedaço de um pote e depois constroem toda uma concepção histórica ou arqueológica de uma civilização. O serviço deles é mais ou menos este: pegam uma frase minha e a partir dali traçam um perfil ideológico com associações a correntes políticas que na maior parte dos casos eu desconheço ou desprezo, imaginando que estão fazendo uma interpretação ou até uma crítica à minha obra. Esta simples amostragem dá uma ideia da situação cultural no Brasil, tão deplorável que é digna de nos fazer chorar. “Aliás, a propósito de assuntos africanos foi que Georg W. F. Hegel escreveu balelas depois desmentidas in loco pelo antropólogo Leo Frobenius.” Hegel escreveu que não havia civilização alguma na África, que a África estava fora da história e que não tinha a menor importância. Depois Frobenius foi lá e encontrou ruínas de cidades inteiras enormes, uma civilização pujante, e viu que Hegel estava completamente errado, isto é, não sabia do que estava falando. “Nem mesmo os críticos mais ferozes de Hegel tiveram jamais a ideia de condenar sua obra com base nessas páginas, sem ter lido as outras. Mas o sr. Moreira, com aquela valentia fácil de quem não sabe onde está se metendo, não recua diante desse desafio. Decerto um dos motivos pelos quais ele não hesita em arriscar tão temerariamente sua reputação acadêmica é o fato de que não tem nenhuma.[00:10] Não encontro na internet qualquer menção a livros de sua autoria, e uma breve consulta ao site do Lattes fornece o currículo de vários Gustavos Moreiras que não são ele. A existência acadêmica e até física do Sr. Moreira era inteiramente confidencial até que a breve menção que fiz a ele no meu programa de rádio atraísse para o seu blog, como ele próprio veio a confessar, o número surpreendente de 1.300 visitantes, decerto a maior glória que ele já alcançou nesta vida. Meu currículo, ao contrário, é um documento público, onde constam realizações, prêmios, louvores da crítica e reconhecimentos acadêmicos, que o Sr. Moreira não poderá igualar mesmo que viva muitas vidas. E todos eles, para grande indignação desse meu crítico, foram obtidos “sem diploma”. O Sr. Moreira, que tem lá o seu sem que ninguém no mundo acadêmico internacional, nacional, estadual, municipal ou distrital ligue a mínima para isso, tem razão de se queixar. Ó mundo injusto! Talvez consciente de uma penúria curricular que pode levar o leitor às lágrimas, o sr. Moreira não se fia muito nos seus próprios argumentos e prefere apoiá-los em extensas citações de autoridades na matéria, que ele escaneia diretamente das páginas de livros e reproduz no seu site. “Essa medida seria prudentíssima e louvável, se não fosse pelos seguintes inconvenientes: “Primeiro. Numa discussão que versa sobre escravidão islâmica, quantos estudos especializados sobre esse assunto aparecem na bibliografia citada? Nenhum. Ou são livros sobre o tráfico atlântico, que só mencionam o concorrente islâmico de passagem, ou são obras históricas genéricas sobre a escravidão africana, que não concedem ao caso islâmico a atenção detalhada que se requer para uma discussão atualizada do tema (é o caso de A Manilha e o Libambo, de Alberto da Costa e Silva, obra aliás notável sob outros aspectos, que trata do caso islâmico numas poucas páginas no meio de um total de oitocentas). “Segundo. Das obras estrangeiras, a mais recente que ele cita é de 1999 — a de Paul Lovejoy, publicada em tradução brasileira em 2002, alheia, portanto, a tudo o que se descobriu da escravidão islâmica nos últimos treze anos. Para piorar as coisas, Lovejoy, por sua vez, baseia-se em estatísticas dos anos 70 — o hiato entre suas opiniões e as pesquisas recentes amplia-se, portanto, de treze anos para quatro décadas. “Terceiro. O homem confessa que mal passou na seleção de mestrado arranhando um pouco de espanhol e de francês e aceita, até com certo orgulho, o rótulo de ‘erudito monoglota’, sem notar que é um oxímoro proposital. Nessas condições, não tem mesmo acesso à bibliografia especializada mais recente, que não chegou ao Brasil. Claramente ele ignora todas as obras que citei no programa True Outspeak de 25 de julho, e ainda cai na esparrela de alegar contra elas, de novo, os dados que havia encontrado em obras anteriores, os quais justamente elas contestam e impugnam sem que ele o saiba.” Ele fez até uma resposta ao True Outspeak, questionando: “como que o Olavo diz isso, se o Paul Lovejoy disse aquilo?” Mas Paul Lovejoy disse aquilo antigamente, meu filho, e depois se descobriu alguma coisa. Isso é um exemplo daquilo que já mencionei aqui, no programa de rádio e em artigos: o ambiente numa universidade brasileira é assim: o indivíduo vem de um meio inculto, às vezes de classe pobre, chega à universidade e aquilo para ele é uma abertura, um novo mundo que se descortina. O indivíduo fica ali impressionado achando que aquilo que chega até ele na discussão da universidade é a cultura internacional, embora quando chega a ler alguma coisa é em português — isso quando chega a ler em português, já que 38% dos alunos universitários brasileiros não sabem ler nem escrever —, portanto reflete apenas aquilo que as editoras populares do Brasil publicam, isto é, coisas para o público em geral. A hipótese de lerem trabalhos especializados publicados, por exemplo, em revista científica estrangeira, é uma coisa que está totalmente fora da perspectiva, exceto em alguns domínios técnicos — em uma faculdade de física, matemática ou biologia, você ainda encontra gente capaz de ler isso, mas na área de história, filosofia ou ciências humanas é impossível. Isso quer dizer que o senso de autoridade que o indivíduo adquire na universidade é de fato um bloqueio, uma redoma mental da qual ele não pode sair. Ele sai dali com uma segurança tremenda, porque comparado ao ambiente de origem, em geral, ele é realmente um homem culto e fala com autoridade. Que existam outras coisas para além do horizonte mental da universidade brasileira é uma coisa impensável, eles não têm a menor ideia. Entre outras causas está o que acontece com este aqui, impedido de consultar a bibliografia técnica recente por desconhecimento da língua — não é arranhando espanhol ou francês que você vai poder ler as coisas. Sem inglês você não vai poder ler nada e mesmo em espanhol ou francês a situação não é simples assim. O conhecimento requerido simplesmente para acompanhar o debate jornalístico na França — sem falar na bibliografia científica — vai além das noções básicas do idioma. Você precisa saber muito francês e muito espanhol para poder acompanhar a bibliografia. Como a pessoa não tem condição de fazer isso, seu próprio bloqueio ou incapacidade funciona como reforço de seu sentimento de certeza e de qualificação. Ou seja, criou-se um estado realmente psicótico, onde aquele grupo de pessoas está separado do mundo, amputado, sem comunicações e sem meios de resgatá-las. Então, quando aparece uma informação de fora que soa esquisita, a primeira reação do sujeito é rir. É o caipira que ri daquilo que está chegando ao seu conhecimento pela primeira vez e que é muito esquisito para ele. Admito que seja esquisito. Tudo é esquisito para quem não conhece. Ele diz ser um absurdo eu falar que a questão da escravidão islâmica só entrou em linha de discussão pública nos últimos quinze anos, porque que, em 1960, certo fulano já falava disso. É claro que se falava da escravidão islâmica! O que se descobriu nos últimos quinze anos — aliás, até antes disso — e que só se tornou objeto de debate público depois disso foi a dimensão da escravidão islâmica, enormemente maior do que todo o tráfico transatlântico. Além disso, também foram descobertas as características infinitamente mais cruéis e perversas da escravidão islâmica — uma coisa que permanecia escondida. Por exemplo, aqui mesmo, mais adiante neste texto, cito um documentário onde aparece uma comemoração da UNESCO a respeito da escravidão onde só se fala do tráfico transatlântico. Simplesmente não se menciona a escravidão islâmica. Isso acontece por dois motivos: primeiro, porque a ideologia terceiro-mundista estabeleceu que o ocidente tem de ser condenado como a civilização escravagista e racista por excelência. Segundo, quem não sabe que existe uma aliança entre comunistas e islâmicos? Terceiro, por lealdade religiosa. Até mesmo africanos de religião islâmica têm medo de falar contra e contar o que sabem sobre a escravidão islâmica, porque isso seria considerado uma deslealdade religiosa, além do fato de que o Corão autoriza a escravidão. Logo, falar contra a escravidão seria de algum modo contestar o próprio Corão. Uns por medo, outros por cumplicidade, outros por comprometimento ideológico, sempre varreram o assunto para debaixo do tapete. Não é que não se falava de escravidão islâmica. Falava-se, mas ou num sentido diminuído ou, na melhor das hipóteses, no sentido de estabelecer uma equivalência, como veremos daqui a pouco. As descobertas a esse respeito começaram na década de 1960, mas romper essa barreira foi difícil. Já mencionei anteriormente que um sinal de que essa barreira finalmente caiu foi o fato de o livro do antropólogo africano Tidiane N’Diaye ter sido publicado pela Gallimard, a editora francesa de maior prestígio. Assim, isso já não é mais um assunto marginal ou uma teoria da conspiração. Já entrou no mainstream, só que muito recentemente. No Brasil, vemos que a ideia que se tem do assunto no meio universitário é exatamente a que esse Gustavo Moreira transmite. Ou seja, estou analisando o caso dele não pela característica individual, mas pela tipicidade. Isto aqui é o que se pensa [00:20] a respeito na universidade brasileira, e o que se pensa é a repetição do discurso já consagrado da ideologia terceiro-mundista, onde existem os povos africanos e asiáticos, que são as vítimas, e o Ocidente, que é o escravizador, o malvado etc. Evidentemente, essa versão é apoiada por todos os governos e partidos islâmicos do mundo, porque lhes interessa. Todavia, a mesma não pode mais ser sustentada cientificamente, apenas como discurso ideológico. Só que no Brasil as pessoas ainda acreditam que isso é a versão científica. Vai levar mais uns vinte anos para as pesquisas recentes chegarem ao Brasil, quebrarem a barreira universitária e chegarem a uns quantos ouvidos dentro da universidade brasileira. “Quarto. Os procedimentos bibliográficos do cidadão são um tanto exóticos. Nada sabendo do antropólogo africano Tidiane N’Diaye, que citei naquele programa, e não tendo condições de lê-lo na edição francesa, o elemento vasculhou rapidamente a internet e ficou todo feliz de encontrar um vago homônimo, Pap Ndiaye...” Como não achou o original, resolveu ficar com um genérico. “...brandindo-o vitoriosamente contra mim...” Ele pega uma estatística que viu no livro do Pap Ndiaye. “...sem nem sequer notar que este Ndiaye mal tem com o primeiro a semelhança do nome: jamais publicou qualquer estudo sobre a escravidão islâmica e nem sequer esteve na África, sendo toda a sua carreira de erudito voltada à condição dos negros nos Estados Unidos e na França.” Trata-se de um historiador da América. São obras de história da América e mais recentemente um estudo comparativo com a França. O que isso tem a ver com a escravidão islâmica, meu Deus do céu? No mínimo, o cara não é uma autoridade neste assunto, mas em outro. “Aliás, nesse mesmo ponto o anseio histérico de autojustificação leva o rapaz a fazer de si próprio o objeto de uma piada involuntária, ao dizer que estava impedido de ler o verdadeiro N’Diaye por encontrar-se convalescente de uma operação na bacia. Não entendo como a recuperação do seu órgão sentante poderá ajudá-lo a entender melhor uma língua da qual ele acaba de confessar que não sabe nada, ou quase nada — mas, afinal, cada um lê por onde pode, não é mesmo? Não posso ler em francês porque estou com a bacia quebrada? “Quinto. Para provar que estou redondamente enganado ao dizer que um debate mais fundamentado sobre a realidade da escravidão islâmica é coisa muito recente, datando dos últimos quinze anos, o Sr. Moreira me esfrega na cara, com os ares triunfais de sempre, o fato de que estudiosos anteriores a esse período, como Lovejoy e Costa e Silva, já haviam tratado do assunto. Nem lhe passa pela cabeça que tratar do assunto nos anos 70, 80 ou 90 é uma coisa, estar atualizado com os dados mais recentes é outra totalmente diversa. E uma terceira ainda é saber que estes dados contradizem muitas opiniões correntes entre os que haviam ‘tratado do assunto’ anteriormente, nos quais o Sr. Moreira continua a confiar como se tivessem dito a última palavra a respeito. Na verdade, todos os principais estudiosos que lidaram com essa matéria nos últimos anos se queixam, como Herbert S. Klein, de que ‘mesmo hoje, malgrado um quarto de século de pesquisas internacionais sofisticadas, o fosso entre a opinião comum e o conhecimento erudito permanece tão profundo quanto no momento e que o tráfico de escravos foi colocado em questão nos círculos cultos da Europa, no século XVIII’.” Ou seja, a imagem pública que se tem ainda é a mesma do século XVIII, só organizada e transformada em instrumento de agressão ideológica por parte do pessoal terceiro-mundista. Prossegue Klein: “Aí não houve somente o fracasso do diálogo entre os universitários e o público letrado, mas houve também uma surpreendente ignorância no seio mesmo do mundo acadêmico.” Por exemplo, as estatísticas que Paul Lovejoy cita já estavam impugnadas na própria década de 1970, só que não era uma coisa que se sabia, mas que tinha sido publicada em trabalhos especializados aqui e ali, e talvez tenha escapado à atenção dele. Lovejoy é um historiador sério, ninguém vai negar isso. “Já em 2004, Olivier Pétré-Grenouilleau observava: ‘enquanto o cidadão comum e o não especialista acreditam, com frequência, tudo saber a respeito do tráfico de escravos, mitos e lendas persistem, ao passo que espessas brumas continuam a obscurecer aspectos essenciais’.” Vocês verão que aspectos monstruosamente importantes foram esquecidos, pelo menos até a década de 1990. “Ora, nunca pretendi ser nada mais que um mero cidadão comum alheio aos estudos especializados, mas a ninguém esse rótulo cabe mais apropriadamente do que ao monoglota cujas fontes de informação estão limitadas ao mercado editorial popular de um país notoriamente deficiente nessa área, aonde as obras chegam, quando chegam, com trinta ou quarenta anos de atraso. Este sim está reduzido a papaguear ‘mitos e lendas’, sem ter a menor ideia de que ninguém mais, nos meios científicos, lhes dá o menor crédito. A própria candura real ou fingida com que ele cita estudos mais antigos para fazer de conta que assim compensa seu desconhecimento dos dados recentes mostra que sua visão do assunto não é de maneira alguma a de um estudioso acadêmico sério, mas apenas o de um discutidor barato empenhado em validar, por todos os meios lícitos e ilícitos, a ideologia terceiro-mundista que faz do tráfico transatlântico o flagelo supremo e atenua, capciosamente, os crimes bem maiores cometidos pelos muçulmanos contra a população africana. Antes de mentir sobre a escravidão islâmica, o Sr. Moreira prepara o terreno com uma espécie de captatio benevolentiae às avessas, mentindo sobre a minha pessoa. No seu artigo Balelas de Olavo de Carvalho, de 25 de abril, ele começa assim: “Olavo de Carvalho, filósofo e jornalista sem diploma, é uma das maiores celebridades conservadoras da Internet, na qual constantemente se queixa da falta de reconhecimento institucional”. Desafio o Sr. Moreira a mostrar uma única frase minha onde eu me queixe da falta de reconhecimento institucional. Bem ao contrário, tenho dito e repetido que títulos concedidos por qualquer universidade brasileira, nas áreas de filosofia e ciências humanas, não valem nada como provas de capacitação intelectual. Veremos adiante como o próprio Sr. Moreira é mais uma prova disso, entre milhares. Além disso, reconhecimento, da parte de instituições e pessoas verdadeiramente qualificadas, nunca me faltou. O Instituto Brasileiro de Filosofia, a Maison des Sciences de l’Homme, o First World Congress and School on Universal Logic, Montreux, Suíça, 2005, a Georgetown University, o New Europe College de Bucareste, sem contar celebridades internacionais no campo da filosofia como Miguel Reale, Alexandre Costa Leite, David Walsh, Jean-Yves Béziau, Romano Galeffi e tantos outros que me honraram com convites para aulas e conferências, quando não com louvores expressos, são com toda a evidência mais qualificados para julgar o meu trabalho do que a universidade que concedeu o título de ‘historiador’ a um monoglota confesso, incapacitado para atualizar-se com a bibliografia da sua profissão. Quando se considera que sem o domínio cabal de pelo menos uma língua estrangeira o estudante não pode ser aprovado nem num exame vestibular, um título de mestrado concedido nessas condições é em si mesmo um escândalo que bem denota o estado das nossas universidades. Como é que o cara entra num mestrado “arranhando” um pouquinho de espanhol? Bom, arranhar espanhol é coisa que o brasileiro faz por instinto. Já notei que todo brasileiro entende um pouco de espanhol quando ouve alguém falando nesta língua, o que não é verdade ao contrário. Se você vai na Argentina, no Peru ou na Bolívia, o pessoal não entende português, mas o brasileiro entende um pouco de espanhol, digamos, “por orelhada”. Todos nós falamos portunhol. Arranhar um pouco de espanhol não passa de portunhol. O sujeito foi aprovado num mestrado com portunhol? Isso é motivo para fechar a universidade que deu o título para ele. Prossegue: “Olavo de Carvalho produz teorias da conspiração em doses generosas. Previsivelmente, em boa parte de seus artigos os muçulmanos ocupam o papel de vilões, de ameaça constante à civilização ocidental. Todavia, no afã de combater o ‘inimigo’, ele não economiza disparates e juízos de valor que mais caberiam ao chefe de uma torcida organizada.” Eu gostei do “previsivelmente”. Ele já tem uma expectativa: “esse cara deve ser um antimuçulmano, portanto ele é um antimuçulmano”. “A tentativa grotesca de me expor à execração pública como inimigo visceral do Islam é uma prova cabal de que o sujeitinho se imagina qualificado para me julgar e condenar sem ter sequer examinado por alto o meu currículo, [00:30] onde consta o prêmio recebido do governo da Arábia Saudita por um estudo sobre as origem do Islam, e aliás sem ter tido nem mesmo o cuidado de procurar, no meu site, outras menções à civilização islâmica, para ver se confirmam a imagem de detrator sectário que ele deseja pintar de mim.” Você quer saber o que um sujeito pensa sobre o Islam? Bom, você não pode dizer que porque o sujeito falou uma coisa sobre a escravidão islâmica, então evidentemente é um detrator sistemático do Islam inteiro. É aquele negócio do arqueólogo: você pega um pedacinho de um pote e deduz toda a história de um milênio. “Se tivesse o mínimo indispensável de idoneidade requerido para ler os escritos de um autor antes de vociferar contra ele, o infeliz teria encontrado, entre outras amostras, as seguintes: ‘Na verdade, o Islam, acusado de sectarismo estreito, é a mais ecumênica das religiões: na sua doutrina da sucessão dos profetas, de Adão a Maomé, estão incluídas e legitimadas todas as religiões monoteístas, concebidas como patamares históricos de uma revelação única que culmina na Laylat-al-Qadr, a ‘Noite do Poder’, quando o Arcanjo Gabriel começa a ditar a Maomé os versículos do Corão’.” Você pode achar o que quiser dessa concepção. Pode até ser contra a mesma, mas não pode dizer que ela é sectária e exclui as outras religiões. Isto está no Corão: os povos que têm os livros revelados são chamados “povos do livro” e a salvação deles está explicitamente garantida. Tem até um versículo que diz: “concorrei na prática do bem que no Juízo Final eu dirimirei as vossas divergências”. Isso é falado para mulçumanos, cristãos e judeus. Tem outra passagem onde é dito que no Juízo Final Ele enxugará as lágrimas de todos os membros do povo do livro. Ora, mais garantia do que isso não é possível. Continuo eu no artigo citado: “... essas considerações impugnam a tirada antimuçulmana com que o historiador Paul Johnson deu substancial ajuda involuntária tanto aos inimigos do Islam quanto aos de Israel e do Ocidente. Pretendendo demonstrar a radical hostilidade do Islam às demais religiões, especialmente ao cristianismo, Johnson citou a Sura IX:5: ‘Matai os idólatras onde quer que os encontreis, e capturai-os, e cercai-os e usai de emboscadas contra eles’. Mesmo em seu sentido mais geral possível, o termo ‘idólatras’ não se aplica aos povos monoteístas. Nessa passagem em especial, ele se refere aos politeístas de Meca mencionados no versículo anterior.” Quando o Corão fala “persiga-os” e “mate-os” está se referindo a um alvo muito específico. Isso foi publicado em 20 de outubro de 2001. Segue-se outra citação mais recente: “Depoimentos e mais depoimentos, documentos e mais documentos comprovam que o radicalismo muçulmano não brotou espontaneamente da sociedade islâmica, da cultura islâmica, mas foi criado pelos serviços de inteligência soviéticos e é ainda alimentado e monitorado por agentes russos.” Neste ponto eu cito um artigo de Ion Mihai Pacepa, que liderou essa operação, e outro de Claire Berlinski, filha de David Berlinski. “Apesar disso, o governo americano continua tratando Vladimir Putin como parceiro confiabilíssimo, enquanto os intelectuais conservadores produzem toneladas de retórica piedosamente cristã para lançar a culpa do terrorismo em tradições corânicas de quatorze séculos, ajudando a ação da KGB-FSB a recobrir-se da camuflagem islâmica que, precisamente, estava nos seus planos desde o início.” Vê-se que não são palavras de um antimulçumano sectário, como ele deseja me pintar. “No artigo “Três pistas falsas”, publicado em Época em 29 de setembro de 2001, menos de duas semanas após o atentado ao World Trade Center, que despertava ódio anti-islâmico por toda parte, eu escrevia: ‘Explicar os atentados como efeitos do ‘fanatismo’, da ‘belicosidade’ ou do ‘atraso’ da religião islâmica é talvez o erro mais grave de todos, pois fomenta um conflito geral entre o Islam e o Ocidente.’ O esforço do sr. Moreira para me retratar como fanático antimuçulmano é, portanto, algo mais que mera desonestidade intelectual. É um crime de difamação em toda a linha. Fique claro desde o início, portanto, que não estou aqui discutindo com um adversário intelectual, mas com um criminoso chinfrim, o qual, no intuito de jogar contra mim a comunidade islâmica que tanto prezo e respeito, não hesita em me atribuir opiniões que não tenho e que são de sua própria invenção exclusivamente.” Prossegue ele: “Refratário a Barack Obama, a quem acusa alternadamente de ser muçulmano, comunista e queniano...” “Desde logo, nunca escrevi nem disse que Obama tivesse nascido no Quênia. Dou ao sr. Moreira um prazo de dez anos — ou de um século, se ele quiser — para localizar, nos meus escritos e emissões de rádio, qualquer afirmativa minha nesse sentido. Com relação aos termos ‘muçulmano’ e ‘comunista’, o advérbio ‘alternadamente’ dá a entender que se trata de qualidades mutuamente excludentes e contraditórias, que às tontas atribuo a Barack Obama, no puro intuito de dizer alguma coisa, qualquer coisa, contra a criatura. Na verdade, nunca escrevi que Obama fosse nem uma coisa, nem a outra. Escrevi, sim, que ele trabalha em favor de um esquema de poder internacional em que se aliam, contra os EUA, comunistas e radicais islâmicos (não “muçulmanos” tout court). A existência desse esquema é notória.” Posso acrescentar uma bibliografia com trinta obras a respeito. “Para o cidadão comum desinformado, que entende as sentenças apenas pelas acepções nominais dos termos, sem referência aos fatos subententidos que ele desconhece, os qualificativos de “muçulmano” e “comunista” podem soar mesmo contraditórios, dando a impressão de que sou um louco empenhado em xingar Barack Obama per fas et per nefas. O sr. Moreira usa aí da própria ignorância como instrumento para explorar a ignorância alheia. O procedimento é caracteristicamente difamatório e não é de maneira alguma aceitável numa discussão intelectual séria. Após esse começo triunfal, que retrata o seu autor muito mais claramente do que a mim, ele qualifica de ‘pérola’ a seguinte afirmativa que encontrou num artigo meu (de 2009): ‘O Islam... é a cultura mais escravagista dos últimos dois milênios’. Essa afirmativa bastou para que o sr. Moreira acreditasse, ou fingisse acreditar, que via em mim um inimigo jurado da civilização islâmica. Como já expliquei, ele nem mesmo tentou confirmar essa impressão mediante a consulta a outros textos meus, que a desmentem frontalmente. Deduzir de uma afirmação isolada um perfil ideológico inteiro, caracterizando-o como uma tomada de posição unilateral e até fanática, é um procedimento típico de quem está, ele próprio, infectado de veneno ideológico ao ponto de nem de longe conseguir vislumbrar que a vítima de seus ataques pode ser um intelecto equilibrado, capaz de perceber aspectos contraditórios no seio da realidade e admitir, como no caso, que uma civilização possa ser ao mesmo tempo portadora de valores universais e autora de crimes abomináveis.” Aliás, para vocês que acompanham minhas aulas há muito tempo: a tolerância às contradições da realidade é condição básica da vida intelectual. Se você não aceita a contradição, se não aceita a dúvida nem estados de perplexidade ante fatos que aparentemente se desmentem uns aos outros ou expressam valores contraditórios, você não tem condições de estudar. Se você quer apaziguar sua alma de imediato, como que se mantendo num estado de homeostase, você não tem como estudar, porque o que alimenta nossa vida intelectual são problemas, dificuldades, contradições, e não adianta negá-los. Procurar contradições num discurso é espírito de contradição, portanto, é espírito de porco. Isso aí brasileiro sabe fazer. Agora, aceitar as contradições que se apresentam na própria realidade, isso ninguém consegue fazer. Todo mundo quer aquela coerência fácil que aplaca as dúvidas e reafirma suas posições instantaneamente. Ora, pessoas assim estão desqualificadas para estudar. Você tem de fazer o contrário: quando você lê um discurso, não tem de buscar contradições nele. Contradição verbal ou lógica às vezes não é importante. O sujeito pode dizer verdades imensas de uma maneira que pareça contraditória. O que você tem de procurar num texto ou numa afirmativa é, ao contrário, sua coerência e sua unidade, principalmente quando se leem os escritos dos filósofos. Por outro lado, a realidade por si mesma vai lhe mostrar milhares de contradições que você não sabe resolver. Essas contradições são precisamente preciosas. As pessoas questionam-nos, por exemplo: o que você acha do Islam? Se o sujeito quer que eu diga “gosto” ou “não gosto”, “sou a favor” ou “sou contra”, não percebe o absurdo que existe em esperar que uma pessoa seja a favor ou contra uma civilização inteira. Por exemplo, o que você acha do Budismo? Você é a favor ou contra? Eu respondo: você sabe quanto tempo tem o budismo? Ou o hinduísmo? Ou a civilização islâmica? Você acha que essas coisas — budismo, civilização islâmica, a Roma dos Césares — são partidos políticos nos quais você pode votar a favor ou contra? Você acha que isso aí é o PT ou o PSDB? [00:40] Ou que é como artigos de supermercado onde você gosta deste e não daquele? Então você já provou que é um burro, um incurável. A postura mínima que você tem de ter perante essas totalidades históricas complexas é justamente o respeito pela sua complexidade e riqueza. Fatalmente você encontrará, ao estudar qualquer dessas civilizações, valores universais absolutamente indispensáveis à formação da humanidade e horrores imensuráveis. Tudo isso está junto e você nunca sabe exatamente como separar uma coisa da outra ou como articular uma coisa com a outra. Por exemplo, nesses dias estive lendo um livro de Malachi Martin, Declínio e Queda da Igreja de Roma. É uma história da Igreja, mas contada apenas do ponto de vista dos papas. Ele não fala dos santos, dos missionários, de tudo o que a Igreja estava fazendo em volta, mas só do que estava se passando no Vaticano. É uma historia de horrores de você ficar absolutamente deprimido e nunca mais querer ouvir falar na Igreja Católica. No entanto, enquanto estava acontecendo isso — enquanto os caras estavam lá fazendo sacanagem, um tentando expulsar o outro da cátedra de Pedro a pontapés, ou matar o sujeito para tomar o lugar dele, ou comprando todo mundo para votar nele — também estavam acontecendo milagres extraordinários. Havia aquelas figuras monumentais como Santa Tereza, São Francisco de Assis, São Vicente Ferrer, que estavam fazendo milagres para tudo quanto é lado. São Vicente Ferrer fez uma pregação em Paris em que falou vinte dias sem parar. O pessoal fala que Fidel Castro falava durante oito horas. São Vicente Ferrer falou por vinte dias e, pior, ninguém saiu dali. O pessoal ficou vinte dias ouvindo. Isso é uma coisa altamente documentada. Todos os telhados das casas tiveram de ser reformados depois, porque não cabia gente na praça e o pessoal subia nos telhados. Isso é um dos grandes acontecimentos da história humana. É claro que houve milhares de conversões, e isso estava acontecendo enquanto tinha lá um cardeal ou papa filho da mãe mandando matar o outro, corrompendo, soltando propina... tinha tudo isso. Mas isso é a realidade, meu Deus do céu! A realidade é maior do que as nossas ideias simplórias, maior do que o nosso desejo de uma resposta. Se isso é assim até para estudar a Igreja Católica, como não há de ser para estudar o Islam ou qualquer outra coisa. O sujeito não concebe, não tem ideia do que é um intelecto sério, que é justamente aquele que é capaz de lidar com isso e que até aprecia essas contradições. “O ódio do sr. Moreira à civilização cristã é que é inteiramente coerente consigo mesmo, um bloco sólido onde não há espaço para atenuantes e concessões. É evidente que ele me imagina à imagem e semelhança dele próprio, apenas com signo invertido.” E não é só ele, é um monte de gente. “Seguem-se várias páginas, nas quais, baseado em dados que Paul Lovejoy extraiu de estatísticas colhidas entre 1970 e 1979, o sr. Moreira conclui que o tráfico muçulmano e o ocidental fizeram aproximadamente onze milhões de escravos cada um, donde...” Conclui ele: “...na melhor das hipóteses para Olavo de Carvalho, o quadro seria de um tenebroso empate técnico”. Sigo eu: “Sim, seria, mas só se os estudos a respeito, como os conhecimentos que deles tem o sr. Moreira, tivessem parado em 1979. Desde então, descobriram-se algumas coisinhas. Vejamos algumas, só a título de amostras: 1. Os traficantes muçulmanos não levaram para seus países 11 milhões de escravos. Levaram entre 15 e 17 milhões. 2. Sete séculos antes que os europeus chegassem à África, os muçulmanos foram os genuínos inventores do tráfico negreiro. Antes deles, praticamente não havia escravidão naquele continente. O que havia era um regime de servidão, semelhante ao do feudalismo europeu, onde o servo, malgrado a posição social inferior, tinha sua renda própria, estava vinculado ao seu senhor por um juramento de fidelidade mútua e em geral era considerado um membro da família. Os árabes não só introduziram ali a escravidão em larga escala, mas criaram todo um sistema comercial de dimensões continentais, devastando comunidades e nações, demolindo estruturas sociais milenares e infectando de espírito escravagista, primeiro alguns indivíduos e grupos locais, depois povos africanos inteiros, que com o decorrer do tempo acabaram aprendendo, como o malfadado reino de Oyos no século XVIII, a se tornar aprisionadores de seus irmãos. 3. Pelo menos oito séculos antes que ideias semelhantes ocorressem aos europeus, os muçulmanos foram os primeiros a criar e disseminar, em todas as classes sociais, da intelectualidade ao povão, teorias da inferioridade racial dos negros para justificar a escravização em massa dos povos africanos.” Ou seja, você tinha todo o sistema comercial, o aparato policial e militar suficiente para colocar a coisa para funcionar e todo um sistema de justificação ideológica pronto muito antes que chegasse o primeiro português na África. “O sr. Moreira leu o artigo em que demonstro isso, já que o menciona numa de suas críticas. Mas, espertamente, desviou os olhos do assunto central ali abordado para concentrar-se numa afirmação de passagem que fiz sobre a invasão da Etiópia (voltarei ao assunto mais adiante).” Vou ler um pequeno trecho desse artigo para vocês verem do que se trata. Chama-se África às Avessas: “O terceiromundismo, que foi uma invenção de Stálin, acabou por se tornar — e é até hoje — uma das fontes maiores da autoridade do espírito revolucionário, instilando na alma da civilização ocidental um complexo de culpa inextinguível e obtendo dele toda sorte de lucros morais, políticos e financeiros. Subscrita pelos organismos internacionais,...” Acabei de mencionar a UNESCO. “... alimentada por fundações bilionárias e várias dúzias de governos, trombeteada por incansáveis tagarelas como Noam Chomsky e Edward Said, entronizada como doutrina oficial por toda a grande mídia da Europa e dos EUA, essa ideologia toda feita de mendacidade oportunista acabou por se impregnar tão profundamente na opinião pública que qualquer tentativa de contestá-la, mesmo em tom neutro e acadêmico, vale hoje como prova inequívoca de ‘racismo’. Um de seus dogmas principais é justamente a acusação de racismo, atirada genericamente ao rosto de toda a cristandade por incontáveis exércitos de intelectuais ativistas e, nas últimas décadas, por todos os porta-vozes do radicalismo islâmico. Imbuído da crença na inferioridade congênita dos negros, o homem branco europeu teria sido, segundo essa doutrina, o escravagista por excelência, dizimando a população africana e financiando, com a desgraça do continente negro, a Revolução Industrial que enriqueceu o Ocidente. Tudo, nessa teoria, é mentira. A começar pela inversão da cronologia. Os europeus só chegaram à África por volta da metade do século XV. Muito antes disso o desprezo racista pelos negros era senso comum entre os árabes, como se vê pela palavra de alguns de seus mais destacados intelectuais. Extraio estes exemplos do livro de Bernard Lugan, Afrique, l'Histoire à l'Endroit (Paris, Perrin, 1989). Ibn Khaldun, o historiador tunisino[00:50] (1332-1406), assegura que, se os sudaneses são caracterizados pela ‘leviandade e inconstância’, nas regiões mais ao sul ‘só encontramos homens mais próximos dos animais que de um ser inteligente. Eles vivem em lugares selvagens e grutas, comem ervas e grãos crus e, às vezes, comem-se uns aos outros. Não podemos considerá-los seres humanos’.” Isso vem de Ibn Khaldun, o maior historiador do mundo islâmico, embora não deponha em nada contra o restante da sua obra. É um erro grosseiro, preconceituoso, assim como aquilo que Hegel escreveu sobre a África, mas, como disse, não invalida o restante de sua obra. “O escritor egípcio Al-Abshihi (1388-1446) pergunta: ‘Que pode haver de mais vil, de mais ruim do que os escravos negros? Quanto aos mulatos, seja bom com eles todos os dias da sua vida e de todas as maneiras possíveis, e eles não lhe terão a menor gratidão: será como se você nada tivesse feito por eles. Quanto melhor você os tratar, mais eles se mostrarão insolentes; mas, se você os maltratar, eles mostrarão humildade e submissão.’ Iyad Al-Sabti (1083-1149)...” Quinhentos anos antes de os portugueses chegarem lá! “... escreve que os negros são ‘de todos os homens, os mais corruptos e os mais dados à procriação. Sua vida é como a dos animais. Não se interessam por nenhum assunto do mundo, exceto comida e mulheres. Fora disso, nada lhes merece a atenção.’ Ibn Butlan, reconhecendo que as mulheres negras têm o senso do ritmo e resistência para os trabalhos pesados, observa: ‘Mas não se pode obter nenhum prazer com elas, tal o odor das suas axilas e a rudeza do seu corpo’.” E assim vai... Esse é o assunto do artigo, mas ele ignora toda essa parte. Lá pela frente eu falo algo sobre a Etiópia e ele se pega ali para criar um debate — por enquanto o assunto não interessa, vou tratá-lo mais adiante. “Ora, a simples prioridade temporal e ampla disseminação social do racismo antinegro nos países islâmicos já bastaria para demonstrar, mesmo sem os dados suplementares aqui fornecidos, que ‘o Islam foi a cultura mais escravagista dos últimos dois milênios’. O sr. Moreira fez bem em fugir do assunto, lendo do artigo só as partes que julgava poder contestar. 4. Dos escravos negros que vieram para a América, a quase totalidade não foi aprisionada por europeus, mas por muçulmanos. O escravo, quando é vendido, simplesmente troca de dono. A condição de escravo lhe advém desde o instante mesmo da sua captura. Antes de ser escravos de portugueses, espanhóis ou franceses, os africanos que eles compraram foram escravos de árabes. O total de escravos aprisionados e vendidos por muçulmanos sobe, portanto, para a casa dos 25 milhões, na mais branda das hipóteses. O equivalentismo numérico do sr. Moreira é, em toda linha, uma trapaça. No arrebatamento da sua fúria antiocidental, o sr. Moreira exclama: ‘A transferência de mais de 6 milhões de homens e mulheres da África para a América, somente no século XVIII, é um processo sem paralelo na História, que não pode ser minimizado ou justificado’.” Comento eu: “Tem razão. Não pode ser minimizado ou justificado. Mas pode ser comparado. Afinal, o que o sr. Moreira propõe não é precisamente uma comparação, na qual o Ocidente sai com a pecha de malfeitor supremo, muito pior que os muçulmanos? Pois façamos a comparação. É de fato uma crueldade abjeta jogar pessoas no fundo de um porão de navio, para que atravessem o oceano deitadas num chão de madeira, em condições de higiene abaixo de deploráveis. Mas que é isso, comparado ao crime hediondo de fazê-las caminhar milhares de léguas entre florestas e desertos, atravessar às vezes um continente inteiro com os pés sangrando, atadas umas às outras por ferros e cangas, sob o chicote do feitor, para chegar ao porto onde o porão da caravela portuguesa ou espanhola, uma vez atingido esse paroxismo de sofrimento, era ao menos uma promessa de descanso?” Existe comparação entre deixar os caras deitados por dois meses no porão de um navio e obrigá-los a atravessarem deserto, floresta, às vezes a África inteira, até chegarem ao porto? Pegavam os caras lá no leste da África e traziam-nos até o ocidente para venderem-nos para os portugueses no porto. Chegava a morrer 80% no caminho. Eu nem entrei na questão da mortandade dos dois lados, nem no problema das castrações que ele discute. Ele diz que é impossível quando digo que 90% eram castrados porque senão eles não teriam procriado. Mas esta é a característica: eles não procriaram mesmo. Enquanto a população de descendentes de escravos no Brasil é metade do país e nos Estados Unidos é de 10 a 15%, no mundo árabe não sobrou quase nenhum, porque eles só queriam as mulheres. Os homens só serviam para duas coisas: ou para castrar ou para mandar para o exército, onde iriam morrer. Os árabes ficavam com as mulheres, faziam sexo com elas, tinham filhos e iam branqueando a descendência — eles inventaram o branqueamento —, de forma que só sobrou árabe. É difícil achar um preto verdadeiro no mundo islâmico. Claro que há nações africanas islâmicas, mas isso é outra coisa. No mundo árabe, não se encontram os descendentes dos milhões de escravos africanos que foram para lá, porque os homens foram capados e as gerações obtidas das mulheres foram sendo branqueadas. O que ele diz ser impossível foi exatamente o que aconteceu. Existem muitos livros sobre isso — alguns dos quais mostrei no programa True Outspeak —, mas nem esse rapaz nem ninguém no Brasil têm interesse de ler. “Tal é mais uma diferença entre o tráfico muçulmano e o ocidental, que o sr. Moreira, cego de ódio à civilização cristã, não quer ou não pode enxergar. Incapaz de contestar essa diferença, o sr. Moreira tenta lançar uma cortina de fumaça sobre a realidade, alegando que no século XV, antes mesmo da sua chegada oficial à África, portugueses andaram capturando escravos negros em vez de comprá-los dos árabes. Em apoio desta afirmação, ele reproduz um trecho do renomado historiador Charles R. Boxer,...” Charles Boxer era um historiador inglês que morou muito tempo no Brasil e escreveu coisas importantes a respeito. “... segundo o qual, diz o sr. Moreira, ‘antes da metade do século XV, quando os europeus ainda não haviam chegado a Angola, os portugueses já promoviam razias em busca de escravos na África Ocidental e nas Ilhas Canárias’. E aí o charlatanismo visceral do sr. Moreira chega a um de seus pontos altos, recorrendo ao expediente de citar um texto na esperança de que o leitor não o leia, ou só leia o começo, e não perceba, portanto, que ele diz o contrário do que se pretende fazê-lo dizer.” Esse tipo de atitude é muito comum nessa gente. Por exemplo, o pessoal que disse há não muito tempo atrás que haviam encontrado a prova de que o golpe de 1964 foi tramado nos EUA. Eles usaram uma gravação de um telefonema entre o embaixador Lincoln Gordon e o presidente Johnson em que o embaixador diz: “Sr. Presidente, os milicos aqui colocaram os tanques na rua, o que é que nós vamos fazer?” Ora, isso prova que eles planejaram o golpe ou, ao contrário, que eles estavam vagamente informados de que havia um golpe, mas que foram surpreendidos quando a coisa foi lançada? Mas os caras dizem que essa é a prova. Quem fica sabendo da notícia não ouve a gravação e acredita que a prova confirma aquilo, quando na realidade ela desmente. Portanto, quando alguém disser que tem uma prova, recomendo: leia ou escute até o fim para ver se a prova não é exatamente do contrário. Já vi isso acontecer muitas e muitas vezes. Tem aquele famoso caso do sargento que diz ter sido incumbido de queimar certos documentos comprometedores do exército e que, como não teve tempo de queimá-los, enterrou-os. Ora, quanto tempo leva para se acender uma fogueirinha e quanto para fazer um buraco de dois metros de profundidade? A coisa prova exatamente o contrário do que está se querendo dizer. A prova é contra o depoente e não contra as pessoas que ele está acusando. No jornalismo brasileiro isso é quase regra, embora não se limite ao jornalismo: isso se impregnou na mente desse pessoal esquerdista brasileiro, de forma que todos eles fazem isso. Esse aqui, que não é jornalista, acaba de fazer a mesma coisa. Charles Boxer teria provado que os portugueses estiveram lá, mas vamos ver como termina o negócio. “Pois Boxer afirma, sim, que os portugueses fizeram aquelas razias, mas, conclui ele: ‘Depois de alguns anos de contato com as populações negras da Senegâmbia e da Alta Guiné, os portugueses compreenderam que poderiam obter escravos muito mais facilmente através da troca pacífica com os chefes e mercadores locais’.” Eles ficaram alguns anos tentando essas razias, daí pararam e começaram as trocas pacíficas. “Ou seja: após algumas investidas esporádicas, pararam de capturar escravos e passaram a comprá-los durante quatro séculos. E de quem poderiam comprá-los, senão de quem os havia capturado? O texto confirma o que eu disse, [01:00] não o que o sr. Moreira pretende insinuar com um blefe pueril.” Ele fala de Charles Boxer sem ter lido e acredita que tem uma confirmação das próprias idéias, quando na realidade Charles Boxer diz que os portugueses fizeram lá algumas incursões, logo perceberam que aquilo não ia dar camisa a ninguém e depois, durante quatro séculos, ficaram comprando escravos, exatamente como eu estava dizendo. É uma pequena exceção que confirma uma imensa regra geral. “Sendo impossível contestar a quase completa ausência de europeus nas investidas para captura de escravos, o sr. Moreira procura minimizar a diferença moral entre ocidentais e islâmicos explicando aquela ausência por meras dificuldades materiais. A manobra mal calculada leva-o porém a dar com a língua nos dentes ao proclamar, logo antes da citação fraudulenta de Charles Boxer: “Lamento decepcionar as olavetes. É óbvio que o tráfico ‘consentido’ para o Ocidente...” Ele se refere a escravos comprados e não aprisionados. “... superou em muito a captura direta, pois não haveria meios para apanhar mais de 11 milhões de pessoas a laço em menos de quatro séculos.” Ele não poderia nos fornecer uma prova mais evidente da sua condição de analfabeto funcional, incapaz de entender o que escreve. Se o tráfico europeu comprou onze milhões de escravos, mas não poderia tê-los capturado diretamente, de quem mais poderia tê-los comprado se não de quem os havia capturado antes? E se onze milhões de pessoas que estavam à venda não poderiam ter sido capturadas em quatro séculos — nem mesmo pelos muçulmanos —, então seus antepassados já tinham sido capturados ao longo de muitos séculos anteriores e suas famílias tinham vivido como escravas, de geração em geração, durante todo esse tempo. O tráfico ocidental inteiro, nessa perspectiva, surge como um mero apêndice do escravismo muçulmano. O sr. Moreira nem de longe se dá conta de que, com esse raciocínio de mentecapto, ele prova a minha tese em vez de refutá-la. Felizmente, não preciso desse tipo de ajuda. Posso argumentar perfeitamente bem por minha própria conta, sem me prevalecer da exploração de incapazes. Mesmo atentando só para o aspecto quantitativo da coisa (há outros aspectos até mais graves, que veremos adiante), não há como refutar a conclusão de Tidiane N’Diaye: ‘Podemos sustentar, sem risco de erro, que o comércio negreiro arábico-muçulmano e as jihads provocadas por esses impiedosos predadores para obter cativos foram, para a África negra, bem mais devastadores que o tráfico transatlântico’.” Vejam como esses foram realmente os maiores escravagistas de todos os tempos. Comparemos isso com o Império Romano, onde chegou a haver três milhões de escravos — no auge — que eram aproximadamente 30% da população — quase todos brancos, aliás. Só nos países muçulmanos foram cinco vezes mais do que isso. O Império Egípcio submetia os trabalhadores a condições cruéis, mas estes não eram escravos, e sim empregados pagos. Claro que levavam chibatadas, mas pelo menos juridicamente tinham independência — não eram obrigados a trabalhar; podiam ir embora—, enquanto os escravos não. Na história inteira da humanidade — eu tinha falado dos últimos 20 séculos, mas podemos nos referir à história humana inteira — não há nada que se equivalha às dimensões e à crueldade do escravagismo islâmico. Por uma ironia, são justamente os radicais islâmicos que, se aliando aos comunistas, querem fazer do ocidente o grande escravagista e racista. É uma falsificação histórica completa. “Guardo para mais adiante a bibliografia comprobatória, que já citei parcialmente no meu programa de rádio, e que é inútil, em todo caso, para o sr. Moreira, o qual terá de aguardar sua tradução por umas três ou quatro décadas. Só para adiantar o expediente, forneço aos demais leitores a indicação de alguns documentários, consciente de que também de nada servem para o sr. Moreira, já que vêm em inglês ou francês.” Listo ali alguns documentários que são apenas uma amostra, porque existem mais. Peço encarecidamente que vocês assistam a isso para terem uma ideia: (a) do estado atual das investigações a respeito; (b) da monstruosa ocultação que fundamentou essa ideologia terceiro-mundista na qual a universidade brasileira inteira continua acreditando como se fosse a tradução da verdade. Esse Gustavo Moreira não é um caso isolado. Ele tem a tipicidade e diz o que milhares de outros universitários brasileiros diriam até com alguma sinceridade, porque realmente acreditam nisso. Intervalo Antes de tudo queria agradecer à Juliana Rodrigues e ao Mário Chainho pelo trabalho espetacular que fizeram juntando todos os exercícios e práticas que eu havia recomendado ao longo dessas aulas do seminário — deu mais ou menos umas 300 páginas. Queria pedir que nos autorizassem a colocar isso à disposição dos demais alunos, pois será de uma utilidade extraordinária, sem prejuízo de que vocês depois o publiquem em livro se quiserem. Está realmente um trabalho muito bom — muito melhor do que eu poderia esperar — e realmente dá gosto ter alunos como vocês. Temos aqui uma pergunta que estranhei um pouco. Aluno: Já foi dito que nada do que o senhor disse pode ser entendido, apenas aceito como autoridade, pois julgar e entender o que diz é avaliar a sua filosofia, e que isso ninguém pode fazer antes de ler toda a literatura universal. Olavo: Quem disse isso para você? Eu não fui. Quem disse tem algum problema. Em primeiro lugar, isso é uma coisa impossível. Se você observar a própria forma lógica do que estou dizendo, verá que é impossível aceitar o que digo como autoridade. Na medida em que eu mesmo estou colocando problemas, confrontando contradições etc., como você vai aceitar uma contradição na base da autoridade? Isso é impossível. Em segundo lugar, se ninguém pode entender a minha filosofia antes de ler toda a literatura universal, eu também não estou entendendo nada porque ainda me falta muito para ler toda a literatura universal. Isso é uma coisa inteiramente absurda. Ou foi algum detrator ou alguém que realmente não está bom da cabeça. Espero que não tenha sido você mesma que tenha pensado uma coisa dessas. Estou evitando as perguntas muito longas. Algumas são impossíveis de serem lidas, ainda que sejam interessantes. Aluno: Nos últimos anos tenho me deparado com uma questão que vem crescendo na minha vida. Gostaria de entender melhor o que é servir a Deus e fazer sua vontade nas situações concretas da vida. Eu sei que a pergunta é ampla demais, mas o fato é que tenho me deparado com o apelo das pessoas para servir a Deus na igreja. Confesso que nunca me envolvi seriamente em nenhuma igreja. Meus pais são presbiterianos, mas não desempenham nenhuma tarefa na igreja e nunca pareceram se incomodar com isso. Minha ex-namorada, ao contrário, é de uma igreja pentecostal em células que ministram estudos bíblicos constantemente... Olavo: Eu não tenho uma fórmula para você. Fazer qualquer trabalho para uma igreja ou associação religiosa não é necessariamente servir a Deus, pois lá você tem toda uma cadeia de comando que às vezes pode estar truncada, contaminada ou intoxicada de algum modo. Fazer a vontade de Deus é seguir explicitamente aquilo que Jesus Cristo pediu e que já estava expresso nos 10 mandamentos. Entretanto, a primeira coisa que você tem de tentar entender é o que isso significa nas situações concretas da vida, e para isso não há resposta. Tenho uma fórmula pessoal — você diz que é presbiteriano —, mas essa fórmula só serve para católicos; os protestantes não vão poder fazer isso. Sugiro que você — para aqueles que podem fazê-lo — reze o terço todos os dias pedindo o dom do perfeito arrependimento. Peça só isso. Peça bastante tempo e um dia o Espírito Santo começa a desempenhar aquilo que é exatamente a função d’Ele: mostrar exatamente qual é o seu pecado. Se soubéssemos exatamente qual é o nosso pecado, provavelmente não o cometeríamos, mas vivemos em uma espécie de confusão. [01:10] Você não pode esquecer o seguinte: todos nós temos um “eu” substancial — aquilo que realmente somos no plano da eternidade; que seremos eternamente. Durante a experiência desta vida criamos várias imagens de nós mesmos: umas nascem da nossa própria experiência, de atrações, repulsas e temores que sentimos com relação ao mundo ambiente, outras nascem da impregnação de papéis sociais que desempenhamos, outras da pressão do grupo etc. São como que pequenos enredos ou filminhos que você vai criando — às vezes sem perceber — e que acredita que são você. São eles que você realmente chama de “eu”. Mas essas coisas não são realmente o seu “eu”. O seu “eu” só pode aparecer perante Deus Todo-Poderoso. É só nesse plano que você tem um “eu”. As outras imagens não são “eus”, são simulacros de “eu”; tanto que são provisórias e mudam a toda hora, mas por baixo disso há algo que não muda. É possível conhecer esse “eu”, mas é necessário se afastar das estimulações ambientes. Só que quando você se afasta das estimulações ambientes você dorme, a não ser quando está orando. Quando você está orando um terço inteiro, começa a funcionar num outro ritmo, mais lento e mais permanente, e aos poucos quem você verdadeiramente é vai aparecendo: primeiro sob a forma de quais são realmente os seus pecados — aqueles mais antigos, mais constantes, mais permanentes, que são, por assim dizer, as mães de todos os outros. Aí você começa a se conhecer, conhecendo primeiro o seu estado espiritual. Entretanto, quando você pensa sobre os seus pecados, geralmente cai naquele discurso interno de acusação e defesa, onde se imagina pior do que realmente é e começa a argumentar em defesa própria, como se tudo se passasse num tribunal que você mesmo inventou. Não é o tribunal de Deus, mas um tribunal de sua própria invenção e que você teme. Então, quanto mais você se defende, mais se acusa e assim por diante, em um diálogo interior absolutamente sem sentido. Noventa e nove por cento do que as pessoas chamam de moral é isso, quando na verdade é tudo tremendamente imoral. O que você tem de fazer é se apresentar sinceramente perante o Deus eterno e dizer: dai-me o arrependimento perfeito de modo que eu saiba quem eu sou e não minta mais para Vós. Frequentemente mentimos para as pessoas ou para nós mesmos. A mentira é um elemento fundamental da vida social — aquela história de Kant de que nunca podemos mentir, nem para um ladrão que pergunta onde escondemos o dinheiro, é uma moral absolutista inteiramente psicótica. Na própria bíblia temos exemplos de mentiras: quando Abraão mente para um sujeito fingindo que sua mulher era apenas sua irmã, mente para se livrar de uma situação. Todos nós fazemos isso e não há como escapar dessas coisas. Bem diferente e pior é mentirmos para Deus, como é o caso de Caim: Deus procura e ele se esconde, mas não há onde se esconder de Deus. Você só tem um lugar para se esconder d’Ele e é n’Ele mesmo. Então, você acaba aceitando se abrir para Deus — estou falando isso por experiência pessoal, não porque tenha aprendido em livro de teologia ou em qualquer outro lugar; posso até estar dizendo besteira, mas é a minha experiência, e ela foi observada e séria. Depois de rezar o terço por muito tempo e entrar naquela espécie de monotonia consciente — onde você realmente entra em outro ritmo, mais profundo e mais permanente —, pela primeira vez você tem um vislumbre de quem você é de maneira permanente, desde o instante em que nasceu, e percebe que será eternamente. É isso que eu chamo de consciência de imortalidade. Todavia, uma vez que você alcança essa consciência de imortalidade, não consegue permanecer nela, pois é intermitente. Você vai cair na dispersão de novo e de novo, mas pode voltar também de novo e de novo, quantas vezes quiser. Creio que uma pessoa santa, como o Padre Pio por exemplo, vive permanentemente nessa esfera; já não cai mais na dispersão. Aí acontece que as suas ações no mundo cotidiano começam a expressar algo daquilo que você realmente é e, portanto, algo daquilo que Deus quer que você seja. Nesse momento você começou a servir a Deus. Até então você não servia nada. Ninguém está servindo a Deus, porque tudo o que fazemos é pedir alguma coisa para Ele — embora pedir seja realmente o único serviço que podemos fazer. Chega uma hora em que Ele faz você fazer certas coisas cuja conexão com a vontade d’Ele você às vezes não percebe. É aí que você está servindo a Ele sem perceber, e essa é a melhor maneira de servi-Lo. Essa é uma solução prática que tenho encontrado. Garanto que para mim funciona, mas não posso saber se para os outros vai funcionar porque também não sei se as palavras que estou usando para explicá-la tornam a coisa mais clara. Aqueles que puderem, reportem-se ao curso Consciência da Imortalidade, porque tudo o que eu disse ali é, de certo modo, um prefácio ou prólogo para as pessoas que estão tentando responder a essa pergunta. Se você não meditar sobre a imortalidade, não adianta nada dizer que quer se arrepender dos seus pecados, que quer levar uma vida santa, que quer isso ou aquilo. Como dizia Miguel de Unamuno: “ora, se não existe alma imortal, Deus serve para quê?” Isto é, não faria o menor sentido. Então, antes de pensar em Deus, pense na sua imortalidade, porque esta só vai aparecer perante o próprio Deus. É só perante o próprio Deus que você é imortal. Você não pode ser imortal perante os mortais. Na escala da mortalidade nós não entendemos a imortalidade de ninguém mais, nem a nossa própria. Então, primeiro é necessário pensar na imortalidade, no Paraíso, nas experiências de morte clínica, nas visões que as pessoas tiveram do Paraíso e do Inferno. Temos o livro do Monsenhor de Ségur sobre condenados do Inferno que voltaram e contaram coisas, temos essas inumeráveis narrativas de pessoas que sofreram morte clínica — eu mesmo no curso Consciência da Imortalidade dei toda a bibliografia a respeito —, temos o livro do Colton Burpo, o livro The Boy Who Met Jesus, os outros livros de Immaculée Ilibagiza, as pinturas maravilhosas dessa menina Akiane. Tudo isso é um material precioso. Se você não está interessado na sua imortalidade, também não está interessado em Deus. Só quem se comunica com Deus é a nossa alma imortal, porque os estados mortais pelos quais nossa mente passa não têm acesso a Deus. É impossível formar sequer a ideia de Deus com base nisso, e o fato é que a maior parte das pessoas vive apenas na escala das suas preocupações mortais — inclusive preocupações morais de ordem mortal — e querem que os outros sirvam a Deus nessa base. Ora, isso é pedir o impossível. A consciência da imortalidade só aparece se, em vez de pedir ela própria, você pedir o arrependimento perfeito. Creio, sinceramente, que são necessárias duas coisas: Irmã Lúcia dizia que não há problema, por mais difícil que seja, que a recitação do Rosário não resolva. A isso eu acrescento: a chave do negócio é o arrependimento perfeito. O que geralmente chamamos de arrependimento é um simples sentimento de remorso que entra em choque com o sentimento de autodefesa e cria mais conflito, sobretudo quando confundimos o arrependimento perante Deus com a vergonha que temos perante o meio social, o que não é a mesma coisa, sobretudo num meio social totalmente mundano, laicizado e anticristão como aquele em que vivemos hoje. [01:20] Por isso creio que o meio de se alcançar isso é realmente através dessas duas coisas: o Rosário e o arrependimento perfeito. Para quem é presbiteriano ou batista, não sei que outra prática recomendar, sinceramente. Talvez haja alguma. Sei lá, reze o quanto puder. Reze o Pai-Nosso insistentemente, mas só pedindo isso. Eu fiz isso durante muito tempo: só pedia o arrependimento perfeito. Depois de um tempo começou a funcionar. Demora. Não é assim na primeira não. Não sei por que demora, mas você não pode esquecer que Deus é mais velho que o mundo. Ele não está com pressa de coisa nenhuma, quem está com pressa é você. E também é necessário que você mude o ritmo da percepção e passe para um estrato mais profundo e permanente. Para isso é necessário uma espécie de silêncio, mas não pode ser um silêncio total porque senão você dorme. Esse negócio de “para meditar você precisa parar seus pensamentos” não funciona. Se você parar os pensamentos ou você dorme ou vira um idiota perfeito. O negócio é substituir o fluxo anárquico dos seus pensamentos pelo fluxo da prece. Ela o mantém desperto, e quando vierem outros pensamentos não brigue com eles: deixe-os vir e volte à prece, volte à prece... Um dia isso começa a funcionar. Tem o negócio da prece perpétua, mas isso exige outras coisas, como um diretor espiritual que saiba a prática etc. Um terço custa apenas cinco reais. Aluno: Iniciei há pouco o curso on-line de filosofia. Estou gostando muito e queria agradecer pelo seu trabalho. Já no início tenho observado como estudar filosofia me ajudará na minha prática médica. Já tenho tentado aumentar o conhecimento de literatura com melhores escritores. Interessante como isso quase não é comentado na faculdade de medicina. Ler os grandes autores nos ajuda a conhecer melhor o ser humano. A ciência médica avança muito em conhecimentos técnicos, não há dúvidas, mas acaba muitas vezes por não conhecer o ser humano em uma dimensão maior. Isso com certeza atrapalha o médico. Dentro do assunto medicina estou procurando um bom livro sobre a história da medicina. Olavo: Eu não tenho nenhum livro sobre a história da medicina para lhe indicar diretamente, mas indico a série da History of Magical and Experimental Science, de Lynn Thorndike, que é absolutamente indispensável. É uma série em sete volumes, verdadeira obra-prima, e tem muita coisa da evolução da medicina articulada com a evolução das demais ciências. Ele também não chega até a atualidade: vai até o começo do século XIX e para aí. Não sei se os volumes seguintes chegaram a ser publicados, mas só com isso aí você já terá uma ideia. Existe um breve livro de história da medicina publicado em português cujo autor chama-se Richard Gordon. É muito bom, mas um pouco decepcionante porque ele mostra que ao longo da história só houve doze descobertas médicas. O resto é tudo floreio em torno disso. Também recomendo esse livro. Se você está interessada em Idade Média e Antiguidade, então o de Lynn Thorndike ainda é o que permite ir a fundo. Aluno: Gostaria de saber como posso diferenciar o pedantismo e o arcaísmo da linguagem culta normal. Como posso saber que certas palavras ou expressões são pedantes, arcaicas ou de uso comum? Por exemplo: a palavra alhures. O Senhor comentou em certa aula que ela é tratada, equivocadamente, como uma palavra pedante, mas a verdade é que o problema está nas pessoas que não a conhecem mais ou não sabem como usá-la. Olavo: Em primeiro lugar você vai ter de tomar algum exemplo como medida padrão. Os escritores que melhor usaram a língua mais cotidiana do Brasil e souberam trabalhá-la artisticamente são, no meu entender, Marques Rebelo e Herberto Sales. Mesmo que ainda não seja uma solução definitiva, mesmo provisoriamente, tome esses dois como unidade padrão. Qualquer coisa que esses dois escreveram não se pode dizer que seja pedante nem vulgar, por motivos que depois veremos. É sempre assim que a gente faz: temos de aprender imitando com quem soube lidar com a língua. Quando você ler esses dois verá, sobretudo em Marques Rebelo, a tremenda naturalidade. Às vezes tem algumas palavras que saíram de moda, porque os livros foram escritos nos anos quarenta e cinquenta, mas o linguajar é muito baseado na fala cotidiana do carioca. Tome Marques Rebelo e Herberto Sales como medida e você não vai errar. Manuel Bandeira também serve. Aluno: Reza a lenda que o João Alfredo César Müller certa vez lhe deu um medicamento homeopático que, dizem, lhe deu um clarão. Olavo: Isso de fato aconteceu, mas eu não sei se foi um clarão genérico ou um clarão específico para aquela situação. Ele estava dando um curso que se chamava Geografia das Emoções, no qual articulava conhecimentos de homeopatia com símbolos astrológicos, alquímicos, geométricos etc. Ele não era um expositor muito claro: era um sujeito incapaz de dar uma aula, simplesmente falava coisas soltas, uma aqui, outra ali, como quem estivesse conversando. Era um conversador maravilhoso, mas não um conferencista muito bom. Eu via que por trás daquilo que ele estava falando havia um sistema, uma articulação, como uma espécie de mapa, um diagrama, por isso mesmo chamava-se Geografia das Emoções. Eu tentava reconstituir aquele mapa: deve ser assim, deve ser assado, mas não acertava de jeito nenhum. Ele tinha me contratado para redigir seu livro em português, porque ele era argentino — escrevia em português, até elegantemente, mas um português espanholado. Também havia me contratado para escrever o livro a partir do curso e eu disse: “Dr. Müller, desiste, não vai dar, porque eu não posso explicar um negócio que não estou entendendo. Sei que tem um sistema, uma unidade por trás de tudo isso, mas não consigo pegar”. Ele pediu que eu esperasse um pouco, pegou um vidrinho de argentum metallicum (C-30), deu-me cinco gotas diluídas em água e cinco minutos depois tive um estalo. Entendi a tal da geografia das emoções. Fui para casa e fiz um imenso diagrama com todas as correspondências simbólicas possíveis. Levei para ele e perguntei se era aquilo. Ele disse que era exatamente. Funcionou para essa situação, mas não sei se para outra situação funcionaria. A partir da associação do argentum metallicum, que é prata, a lua e o simbolismo da confusão lunar daquela situação, tudo se condensou. A partir do símbolo da lua, o resto começou a se articular na minha mente. Claro que em grande parte eu não estava acertando porque não tinha conhecimento suficiente de homeopatia. Havia várias substâncias que eu desconhecia, mas fui, aos poucos, tampando os buracos pelo mesmo método do Hammermann, que estudava as substâncias experimentando um pouco para ver como ficava sua mente. Eu não recomendo que ninguém faça isso, pois você pode ficar louco no meio do trajeto. Mas, enfim, era tudo pela causa: tinha de fazer as apostilas. O livro acabou não saindo, essa que é a verdade, mas o sistema inteiro estava articulado. Mais até do que o sistema, consegui pegar outros elementos da técnica, por assim dizer, do Juan Alfredo César Müller. Ele tinha, por exemplo, uma série de ideias sobre psicologia de casamento e divórcio. Ele soltava uma ideia aqui e outra ali, e mais ou menos na mesma época consegui explicar qual a teoria dele a respeito. Ele leu e disse: é exatamente isto. Também na mesma época, tive muitas aulas [01:30] no consultório do Dr. Müller sobre a obra de Léopold Szondi. Inclusive havia a Sociedade Szondi Brasileira, fundada pelo Dr. Müller, e ele trazia grandes conhecedores da matéria como Claude Van Reeth, da Bélgica, e outros professores que davam aulas a respeito. Meu acesso à bibliografia era limitado porque na época eu não lia alemão — hoje leio muito mal. Então eu tinha pouca coisa do Szondi em espanhol, inglês e francês, mas mesmo assim, com uma bibliografia pequena, mas ouvindo as explicações daqueles gurus e do próprio Dr. Müller, consegui fazer uma exposição de conjunto da psicologia do Szondi que foi levada a ele pessoalmente pelo Claude Van Reeth, que a traduziu para o francês. Szondi disse que estava perfeitamente correto. Acho que esse argentum metallicum funcionou pelo menos durante um ano na minha cabeça. Não estou dizendo para tomar argentum metallicum — naquele momento, dado pelo Dr. Müller, na hora certa, funcionou. A base da Geografia das Emoções era o lema: uma substância é uma emoção e uma emoção é uma substância. No fim, eu mesmo formulei: o que o senhor faz aqui é uma análise junguiana abreviada, porque com o seu uso de remédios homeopáticos complementa o símbolo faltante do imaginário do sujeito, de modo que desencadeia uma série de intelecções e ele acaba rearticulando melhor sua vida. Ele disse que era isso mesmo. Era engraçado conviver com o Dr. Müller porque tudo o que ele fazia dava certo, mas na hora de explicar ele não se explicava muito. Às vezes, dizia uma frase aqui, outra ali, e a gente tinha de buscar articulação, mas creio que cheguei a entender bastante coisa. Para mim, a convivência com esse homem foi um dom de Deus. Eu saí dali muito mais inteligente do que entrei. Infelizmente não posso fazer essa análise junguiana de símbolos com vocês, pois não tenho as qualificações para isso. Aliás, admirava demais o Dr. Müller, aprendi demais com ele, mas jamais tive a menor intenção de ser psicoterapeuta na minha vida. Eu tinha horror daquilo! Pensar naquele homem sentado doze, quatorze horas por dia ouvindo malucos... Você precisa ser um santo mesmo. Se há uma vocação que eu não tenho é esta de aconselhar pessoas sobre os problemas de suas vidas. Então, é essa a história. Aluno: O senhor conhece alguma técnica para melhorar a concentração de quem tem hiperatividade? Olavo: Olha, estamos falando disso! A homeopatia é um meio excelente. O problema é que o único médico homeopata que eu conhecia no Brasil em quem realmente confiava, o Dr. Carlos Armando de Moura Ribeiro, que era o guru homeopático do Müller — ensinou a ele tudo o que o Dr. Müller sabia sobre homeopatia — e um gênio assombroso, morreu. Tinha quase cem anos de idade e lembro-me que com oitenta e dois anos se casou. Casou pela segunda ou terceira vez, estava muito feliz no casamento, trabalhou muito tempo — até os noventa e tantos anos —, daí se aposentou, fechou o consultório, disse que tinha um hospital no interior que tinha de ajudar e largou tudo. Não é que ele tenha parado de trabalhar: ele foi trabalhar em um hospital. O Carlos Ribeiro era realmente um assombro. Entre outras coisas que fez, das quais sou testemunha, disse para que eu não vacinasse nenhum dos meus filhos. Havia, inclusive, epidemia de meningite em São Paulo, mas ele disse para não vacinar os filhos de jeito nenhum. Se desse problema era para levar até ele. Um dos meus filhos, Percival, pegou meningite e ficou internado no hospital. Telefonei para o Dr. Carlos Ribeiro, ele foi lá e deu um remedinho para o Percival, que no dia seguinte já estava bom. Ele tinha autoridade suficiente para isto: não vacine que eu resolvo o problema. Nunca houve um problema médico que o Carlos Armando Ribeiro não resolvesse. O Müller na época tinha uma coleção de colegas, amigos, médicos que eram o suprassumo da competência. Tinha um médico que se chamava Dr. Roberto de Barros, clínico geral. Quando você chegava até ele e começava a contar os seus problemas ele suava frio, sofrendo com o seu problema. Você estava meio apavorado e ele o deixava mais apavorado ainda porque falava: “meu filho, nós precisamos dar um jeito nisso”. Ele sofria tanto com aquele negócio que acabava sempre acertando. Ele não transmitia nenhuma sensação de segurança. Médicos geralmente falam com aquela autoridade, mas ele era exatamente o contrário: ficava desesperado e por isso mesmo acertava. Havia uma pequena plêiade de gênios que o Dr. Müller, com a prática, foi conhecendo. Tudo isso, de fato, me ajudou muito e lamento não conseguir transmitir tudo para vocês. Seriam necessárias outras capacidades que não tenho. Posso contar o que aconteceu, e só. Outro psicólogo clínico como o Dr. Müller eu nunca mais vi — pode até ser que exista. Uma vez perguntei: “Dr. Müller, como o senhor faz para curar os pacientes?” Ele disse: “é o seguinte, o sujeito entra aqui, eu sinto qual é a doença dele, absorvo aquela doença e fico doente no lugar dele. Daí eu trato de mim mesmo e ele sara”. E era mais ou menos isso. Também era por identificação: uma dose de compaixão que eu raramente vi na minha vida. O Müller não chegava a suar frio, mas já o vi acordar às três horas da manhã pensando num problema de um paciente e ligar para este dizendo: “descobri a solução do seu problema”. Meu irmão estava com problemas, fui até o Dr. Müller, contei, expliquei, ele me fez várias perguntas e concluiu: “seu irmão não tem nada, ele precisa é de uma namorada. Diz para ele vir aqui no dia tal que eu arrumo uma namora para ele”. E arrumou! E de fato resolveu o problema. Assim foi. Com isso encerramos. Fico feliz que vocês tenham assistido à aula. Transcrição: Marra Signoreli, Murilo Carlos Muniz Veras, Paulo Ricardo Costa Pinto, Júlio Cézar Ribeiro Jorge. Revisão: Fabiano Rollim.