Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 162 07 de julho de 2012 Boa Noite a todos! Sejam bem vindos! Como a duração dessa aula vai ser naturalmente mais curta,vou evitar a introdução de novos temas e vou simplesmente fazer alguns adendos àquela análise que fiz entre o debate dos gayzistas e evangélicos; principalmente por que, uma vez publicado meu artigo a respeito, “Psicólogos e psicopatas”, e divulgada a gravação da aula do Seminário, que coloquei na área livre, surgiram, evidentemente,reações; algumas delas bastante indignadas ou perplexas, ainda que expressando essa perplexidade de maneira educada e respeitosa, em geral. Então aquilo que disse (espero que vocês todos tenham ouvido a conferência de apresentação do livro A Filosofia e Seu Inverso) sobre o pensamento metonímico é amplamente ilustrado por esse debate; e o pensamento metonímico corresponde a uma das manifestações mais claras e mais disseminadas do fundamentalismo, no sentido que Eric Voegelin entendia essa expressão: o fundamentalismo consiste eminentemente em tomar as palavra e expressões que denotam experiências humanas como se elas fossem a tradução direta de coisas e de fatos do mundo exterior. Portanto é a coisificação do sentido de algo que não é coisa de maneira alguma, e que às vezes tem um sentido muito mais profundo do que pode parecer à primeira vista. E isso hoje em dia é a regra geral, e as consequências desse tipo de vício moderno são incalculáveis. Por exemplo, as ideologias de massas não teriam metade do poder que têm se não fosse o pensamento metonímico. Eu creio que, de algum modo, posso associar o pensamento metonímico ao fenômeno da paralaxe cognitiva e o da mentalidade revolucionária. Só não sei exatamente onde se encaixam historicamente. Conceitualmente eu sei, mais não é a mesma coisa. Então o que nós observamos nesse debate, e, sobretudo, na persistente alegação que o homossexualismo é anti-natural, tem como base, sobretudo, a epistola de São Paulo em que ele diz que os homens abandonaram o uso natural das mulheres e passaram a se interessar uns pelos outros. Poderia fazer várias observações a respeito. Desde logo existe um sentido literal das palavras; sentido que parece um na tradução, mas é um pouco diferente no original. Em primeiro lugar, Paulo não falava em nenhum momento de anti-natural: ele usa a expressão parafusion, que quer dizer fora ou diferente da natureza. Ele não usa anti-natural de maneira alguma, como lê-se na tradução da Bíblia, tanto na de João Ferreira de Almeida quanto na do Rei James. Entende-se isso como se fosse a expressão final, e as vezes não se lembra de ver no original (nem todo mundo pode ler o original grego do Novo Testamento, mas não custa fazer uma consulta quando há um caso de dificuldade). Em segundo lugar é preciso ver que essa frase em Paulo está isolada, mas ela é a continuação de algo que ele já vinha dizendo no versículo anterior, e que diz que os homens passaram a reverenciar e servir a criação para além ou acima do criador. Então a palavra criação e natureza aqui tem exatamente o mesmo sentido. Isto quer dizer que se eles estão servindo a natureza acima do criador, não podem estar contra a natureza: estão atendendo as exigências da própria natureza num sentido que se volta contra os mandamentos do criador. É outra coisa completamente diferente. Em nenhum momento Paulo está se referindo a uma conduta anti-natural, ou seja, que viole as leis da natureza. Só o exame do texto original já mostra que estão forçando o texto do apóstolo a dizer o que ele não disse. Mas o elemento metonímico, portanto fundamentalista, entra no sentido que tomamos a palavra natureza como se fosse sinônimo de uma coisa efetivamente existente no mundo físico; de um objeto de experiência humana sensível. Ou seja, estão coisificando o sentido da natureza. Ora, a palavra natureza e os adjetivos derivados dela têm uma longa historia, e essa historia reflete as mudanças do conceito de natureza, e, portanto, as mudanças do imaginário humano a respeito da natureza ao longo dos tempos. Quando nós lemos a palavra natureza num autor de nosso tempo, nós não estamos tendo acesso a uma coisa, mas a uma concepção da natureza através do qual essa coisa era vista. Quanto mais se lermos em um autor de tempos remotos. Então Paulo não está se referindo nem a natureza como nós a entendemos hoje, ou nossa cultura a entende, e nem como a Idade Média a entendia, mas esta falando dentro da concepção local e temporalmente determinada. Ora, quando nós usamos as palavras no sentido chapado, como se significasse coisa, essas coisas refletem as estruturas permanentes da realidade, então isso quer dizer atribuímos a uma palavra cujo uso está condicionado para um tempo histórico e por uma circunstâncias cultural determinada, um sentido universal idêntico e imutável ao logo dos tempos. Ou seja: nós entendemos as palavras com o fetichismo de crianças e confundimos a palavra com a coisa. Quando Paulo se refere à natureza, ele usa a palavra physis, isso reflete a concepção que essa palavra evocava na língua na qual foi dita, e no momento em que foi dito, e na cultura que foi dita. Assim, nas expressões do apostolo existe uma série de ambigüidade, de tensões que são propositais. Uma delas é esta: ele diz que eles se submeterão à criação mais que ao criador, e na linha seguinte diz que eles foram para fora da natureza. Então se eles estão se submetendo a ela, como podem estar fora dela? Então isso significa que Paulo esta claramente consciente da ambiguidade da situação; esta ambigüidade não é um defeito semântico do texto, ela não é uma imprecisão vocabular do sentido do apostolo, ao contrario: essa ambigüidade existe na própria natureza, objetivamente, porque a natureza é, junta e inseparavelmente — isso é importantíssimo —, ela é a natureza depois da queda de Adão, portanto a natureza já decaída. Mas ela é também, inseparavelmente, a imagem da natureza primordial, tal como Deus a criou; ela não pode deixar nem de ser uma coisa, nem de ser a outra. Então como todo símbolo, ele tem essa ambiguidade, essa tensão intrínseca: o símbolo é o simbolizado e não é o simbolizado. Isto é da natureza do símbolo [0:10]: não podemos separar uma coisa da outra, não podemos traçar uma linha demarcatória exata, porque não se trata de uma distinção entre coisas, mas de uma distinção entre diferentes profundidades da compreensão que temos do símbolo. Então, tomado num certo sentido, a natureza é apenas um fato empírico, tal como hoje nós a entendemos; num outro sentido é a natureza escrava, deformada pelo pecado original; e num terceiro sentido, ela é o símbolo da natureza primordial, da natureza criada por Deus para que aí se realizasse o destino eterno e verdadeiramente natural do ser humano. A ambiguidade, a aparente contradição de Paulo, que afirma que por um lado eles se submeteram à criação, ficaram escravos delas, e por outro lado diz que escaparam dela, esta ambiguidade já mostra que a palavra natural não pode ser entendida no sentido coisificado que esse pessoal, quando lê, está dando a ela. É uma coisa horrível ter que dar lições de interpretação bíblica a pastores e pessoas que vivem ensinando a mensagem bíblica para outros, mas a dura realidade é esta: eles estão lendo dentro de uma mentalidade metonímica que toma a palavra como se fosse a coisa, em vez de tirar proveito desta magnifica ambigüidade com que Paulo revela a ambiguidade da própria coisa; a ambigüidade verbal com a qual Paulo revela a ambigüidade intrínseca do próprio objeto do qual ele esta falando, chamado natureza ou criação. Qual é o pecado que ele imputa a esses homens? O pecado de terem se submetido mais a natureza do que ao Criador; e, por incrível que pareça, no instante em que eles fazem isso, eles saem da esfera da natureza; mas não da esfera da natureza como fato empírico, não da natureza decaída, e sim da natureza primordial. Essas duas linhas são um primor absoluto de linguagem mito-poética; linguagem que condensa em poucas palavras toda uma tensão constitutiva do objeto, da realidade da qual ele está falando. Paulo foi um dos grandes escritores da humanidade, e quando ele escreve uma coisa ambígua, não é porque ele está distraindo, porque ele não percebe a ambigüidade, mas é a expressão literária criadora de uma tensão inerente ao próprio objeto. Ele poderia ter dado as explicações que estou dando, só que para isso teria de dispor de instrumentos analíticos e dialéticos que só vieram a se desenvolver muito depois, com a filosofia escolástica, e assim por diante. Ele está percebendo a mesma coisa que estou percebendo. Aliás, está percebendo com muito mais profundidade, porque eu percebi graças a ele, e não ele graças a mim. Porém, ao expressá-lo, tem que expressa-lo poeticamente. Portanto de maneira compactada, de modo que os sentidos se superpõem, e é a nossa mente analítica que tem de distinguir as várias camadas de sentido. Distinguir não quer dizer separar. Coisas serem distintas não quer dizer que são separadas objetivamente. A natureza, no sentido de natureza escrava, natureza decaída, e a natureza como símbolo da natureza primordial não são duas, são a mesma; e esta experiência só aparece aos homens sob a forma de uma tensão inseparável. Não há um limite determinado. Paulo explica a paixão homossexual como uma escravização à natureza (no sentido empírico) e em seguida a explica como algo que escapa à natureza (no sentido da natureza tomada como reflexo símbolo da natureza primordial da perfeição divina). No instante em que se constituí a ciência moderna, a distinção entre essas duas faixas de sentido do termo natureza desaparece, porque o método da ciência moderna só leva em conta a experiência sensível; e não sendo somente a experiência sensível, mas é muito pior do que isso: a experiência sensível que pode ser compartilhada por todos os observadores igualmente. Então se trata de uma espécie de redução; uma intersecção, no sentido de teoria dos conjuntos: eu tenho uma experiência, você e ele outras, e essas experiências têm uma interseção em determinada zona. Ora, num diagrama, tal como eu fiz na apostila Problemas de método nas ciências humanas, marca-se um objeto como se fosse um círculo, e a experiência que cada um dos observadores teve desse círculo como se fosse um outro círculo que tem uma zona de interseção com o objeto (não percebeu o objeto inteiro, mas somente uma parte dele). Em seguida, faz-se um terceiro círculo que representa a experiência de um terceiro observador, e assim por diante... No fim, vemos que a zona de interseção vai diminuindo, então o dado de observação comum e igual a todos os observadores nunca é o objeto inteiro: é apenas um pedaço; e é esse pedacinho que a ciência moderna estuda. Quando se diz que a repetibilidade da experiência com resultados idênticos é um dos critérios de veracidade ou de adequação em ciência, quer-se dizer precisamente isto: não se observa o objeto inteiro, mas somente um pedaço, um aspecto observável idêntico. É, portanto, uma faixa mínima. Ora, essa faixa mínima supõe duas seleções: primeiro, trata-se somente daquilo que é observável pelos cinco sentidos; segundo, trata-se somente daquilo que pode ser observado igualmente por todos os observadores. É óbvio que isso exclui a natureza tomada como símbolo da natureza primordial, já que o vislumbre desta é, sim, objeto de experiência, mas não igual para todas as pessoas. Por exemplo: Moisés teve uma idéia da natureza primordial quando subiu no alto do Monte Sinai e Deus se lhe mostrou. Não temos motivo para duvidar dessa experiência, mas o fato é que não a tivemos. A experiência do mundo divino, do mundo das leis eternas, das leis não escritas etc., essa experiência existe e está amplamente documentada, mas não pode ser obtido a nosso bel prazer, no instante em que quisermos, e, muito menos, submetida ao critério de que todos têm de ver a mesma coisa. Na verdade, os depoimentos das pessoas que tiveram acesso a isso são bastante convergentes. Porém, ao mesmo tempo, cada um tem uma novidade que não tinha no outro. Isto quer dizer que não se trata de um objeto que foi reduzido à zona de interseção comum a todos os observadores. Por um lado, essas experiências não podem ser negadas. Por outro, não atendem exatamente ao critério da comunidade e repetibilidade voluntária das experiências, tal como exige o método científico. O mundo das leis eternas existe, é acessível ao ser humano parcialmente, momentaneamente, fugazmente; mas ainda é acessível. Não é, porém, controlável cientificamente, e não é possível fazer essas experiências de maneira programada, como se fazem nos laboratórios. Elas simplesmente acontecem quando e do jeito que Deus quer; às vezes acontecem numa tal dimensão de profundidade que o indivíduo que passou por ela tem dificuldade para relatar o que se passou. Na hora de relatar, ele tem de fazer uma conversão analógica de modo que a descrição não é precisa, embora possa ser reconhecível por quem a teve ou por quem é capaz de imaginar experiência idêntica. Dias atrás, eu observava as pinturas de Akiane, uma menina americana de ascendência lituana cuja família era ateísta, de modo que nunca ali se falava da Bíblia ou de Jesus Cristo. Aos quatro anos, Akiane teve uma visão do Céu: Jesus se mostrou a ela, e mostrou-lhe o Paraíso. Instantaneamente, ela começou a desenhar e a pintar o Paraíso como um mestre da pintura — aos quatro anos de idade. Ela continuou evoluindo no domínio da técnica e hoje tem dezessete anos e é um dos grandes pintores da humanidade — uma espécie de Velázquez. Nas pinturas da infância, já se vê um domínio técnico absolutamente impossível de se obter sem nenhum aprendizado. Mas ela nunca teve um professor de pintura. [0:20] Começou a desenhar repentinamente, e não há uma passagem de esboços deformados, infantis, para uma conquista progressiva de técnica: a técnica já veio pronta, integral e total. Ora, o próprio fato de ela poder pintar assim é, de certo modo, um testemunho a favor do conteúdo e da veracidade do conteúdo do que ela pinta. Quando eu vi isso, lembrei-me de que, ainda muito pequeno eu tive algo como essas visões. Mas não me lembro delas com exatidão. Lembro-me, sim, do sentimento que elas despertavam, embora não seja capaz de reproduzir o conteúdo das imagens, nem mesmo imaginariamente. Acredito que muitas pessoas tiveram isso, senão todas. Em seguida, porém, nos esquecemos. Por quê? Porque o apelo, a pressão, o atrativo do universo físico circundante nos distrai e preenche a nossa imaginação de outros conteúdos. Fazemos, portanto, exatamente como os pecadores mencionados por Paulo faziam: passamos a servir à Criação mais do que ao Criador, ou seja, fechamos o nosso imaginário dentro do círculo daquilo que é imediatamente acessível aos sentidos. É justamente esse círculo, diminuído pela exigência da experiência comum e repetida, que a ciência estuda.A ciência faz isso para obter uma certeza socialmente legitimada. É claro que todos nós podemos ter acesso à verdade, mas ninguém é obrigado a acreditar em nós. Eu acho que o padrão de certeza mais elevado é o do testemunho individual direto. Por exemplo: se alguém vê um sujeito matar outro e é a única testemunha, somente ele sabe o que se passou, mais ninguém. Ele possui uma certeza absoluta, que não tem, porém, autoridade social, pois ninguém é obrigado a acreditar nele. A ciência visa criar não um padrão de veracidade, mas um padrão de veracidade socialmente legitimado e, até certo ponto, obrigatório. Essa veracidade socialmente legitimada refere-se a um recorte ínfimo do universo da experiência humana. E tem de ser ínfimo justamente para poder ser comum e idêntico para todos. E, vejam que coisa, idêntico num sentido estritamente controlado e mensurável. Imaginem, por exemplo, as pessoas que viram um quadro da Akiane, de Velázquez, de Rafael, de Michelangelo, e tudo aquilo que esses quadros despertaram no imaginário e na emoção delas: em cada um desses casos houve uma experiência real, que aconteceu de fato. Contudo, em primeiro lugar, essa experiência não pode ser totalmente documentada, pois as pessoas não têm meios de expressão para dizê-lo; em segundo lugar, ela pode ser enormemente variada; em terceiro lugar, pode acontecer que elementos da experiência que em si mesmos são idênticos sejam expressos de maneira diferentes e pareçam experiências diferentes. Isso quer dizer que, se reuníssemos o conjunto das reações individuais ao quadro de Velázquez, ou a qualquer outra coisa, teríamos uma variação, uma diversidade absolutamente inabarcável. Mas é claro que essa diversidade inabarcável refere-se a experiências concretas e realmente vividas, e não a um recorte específico feito para ser controlado cientificamente. Existe, evidentemente, uma tensão dialética entre a investigação científica e o conhecimento da realidade concreta. Ninguém que não tenha a consciência dessa tensão pode sequer entender o que é ciência, pois tomará esse recorte como se fosse a coisa mesma. O que é isso? Pensamento metonímico. O objeto de uma ciência nunca é um ente concreto, e, muito menos, um fato concreto. Não pode sê-lo porque, se fosse um fato concreto, a diversidade das experiências referentes a ele seria inabarcável. E o que a ciência faz? Reduz tudo isso a um pontinho em comum cuja experiência pode ser, em todos os casos, repetida e registrada segundo um protocolo uniforme em todos os casos. É nesse sentido que se fala de fenômenos naturais em física, em biologia, em medicina etc. Ora, assim é impossível provar que qualquer coisa seja antinatural, pois a ciência moderna define a natureza como o campo dos fenômenos acessíveis ao método científico, de modo que nada ali pode ser antinatural. Tudo o que seja definido como antinatural, sobrenatural, preternatural, extranatural está, por definição, fora do âmbito de estudos da ciência moderna. Dizer que algo é antinatural nunca tem nenhum sentido científico. Quando, porém, as pessoas alegam isso no curso de um debate, elas são ouvidas como se estivessem emitindo um juízo cientificamente válido. Nem sempre têm essa intenção, mas é assim que se entende porque numa sociedade que não se autodefine pela aceitação comum de princípios religiosos ou de realidades reveladas, a única autoridade existente e uniformemente reconhecida por todos, crentes e não crentes, é a da ciência. Então, o que quer que se diga com ares de uma autoridade que expressa a realidade objetiva, soa como verdade científica. E a afirmação de que o homossexualismo é antinatural não pode ter, em hipótese alguma, validade científica, porque a ciência não estuda o que é antinatural, extranatural, sobrenatural, preternatural; ela só estuda o campo daqueles fenômenos controladamente repetíveis, e é o conjunto desses fenômenos que ela chama de natureza. Desse ponto de vista, a pretensão de que o homossexualismo seja antinatural não faz o menor sentido, a não ser que se refira ao antinatural no sentido de Paulo. Esse antinatural, porém, não expressa uma revolta contra a natureza física, mas denota a tensão que existe entre a natureza física e a natureza primordial. Não é por ir contra a natureza física que aqueles homens pecadores são acusados de uma conduta antinatural, mas porque, seguindo a natureza, opõem-se à natureza primordial ou à vontade do Criador. Digo novamente: todo esse pessoal que cita Paulo está complemente errado, não entendeu nada do que ele disse e, pior, não leu sequer o versículo anterior, onde está dito que aqueles homens pecaram por servir à Criação mais que ao Criador; por submeter-se à natureza, e não por ir contra ela. A natureza impele a fazer uma coisa, e Deus manda fazer outra: esquecemos de Deus e fazemos outra coisa. É este o problema. Quando, porém, seguimos a natureza, o que acontece? A natureza — no seu sentido empírico — não é uma realidade em si, pois está dentro da realidade maior da Lei Divina; quando se pretende autônoma, entra em contradição consigo mesma. É a uma contradição, a uma tensão inerente ao próprio fenômeno chamado natureza que Paulo se refere. Não se refere a uma conduta antinatural. Ele mesmo não usa essa expressão, pois está escrito παρα φυσιν — e παρα quer dizer fora, extra, diferente. É o mesmo que dizer que, quando a natureza é deixada a si mesma, ela cai abaixo do padrão daquilo que Deus escolheu para ela. É isso que Paulo quer dizer. Na hora em que saem a proclamar que o homossexualismo é antinatural, ou seja, contrário à natureza, achatam, deformam e coisificam o sentido do versículo do apóstolo, e perdem a profundidade enorme da mensagem. Há toda uma cosmologia ali. [0:30] Há uma segunda camada de ambiguidade e de tensão que aparece no uso que o apóstolo faz do verbo no tempo passado, quando ele diz que os homens abandonaram ou se desviaram do uso natural da mulher, e passaram a se interessar uns pelos outros. Bom, a noção de uso natural está subentendida em toda essa explicação que eu acabei de dar. Mas no uso do verbo tem uma segunda faixa de ambiguidade. Se nós perguntarmos: abandonaram quando? Um sujeito que incorreu nesse pecado, ele fez isso: abandonou o uso natural da mulher e se interessou pelo vizinho, pelo empregado, por qualquer outra pessoa. Mas ele fez isso quando este pecado já estava disseminado na sociedade. Então ele é apenas mais um. É deste que Paulo está falando? Bom, ele está se referindo também a estes, mas o uso que ele faz do verbo contém também uma alusão à origem primeira desse pecado. Houve um pecado primordial, do qual decorre esse pecado individual observado pelo seu fulano agora. Então ele não esclarece se está falando de uma coisa ou da outra, porque ele está falando das duas inseparavelmente. Então aí também existe uma tensão dialética: ele está falando do pecado empírico, mas ao mesmo tempo está falando do pecado original. O próprio uso do verbo denota, de novo, a tensão entre natureza empírica e natureza primordial. Agora, quando as pessoas, além de cometer este lapso de interpretação... Vamos chamar de lapso, mas na verdade é uma deformação, e até uma blasfêmia, porque está reduzindo a profundidade da mensagem do apóstolo àquela imbecilidade cultural atual, na qual a pessoa acredita. Fala-se anti-natural sem fazer a distinção entre a natureza no sentido da ciência. A natureza no sentido da ciência é a natureza decaída? Não, ela é uma parte ínfima da natureza decaída. Mas é a parte sobre a qual pode haver uma certeza socialmente obrigatória (ou pelo menos idealmente obrigatória) para toda a sociedade. Não é assim, porque nem todo mundo acredita literalmente na ciência. Mas a palavra da ciência tem um peso, por exemplo, num processo judicial. Então ela tem uma autoridade que se estende a toda sociedade, ao passo que verdades percebidas por indivíduos podem ter uma autoridade socialmente válida se for em uma sociedade fundada em princípios religiosos. Se não, não. Como a nossa não é, então ninguém é obrigado a aceitar isso. Isso quer dizer que para aceitar o versículo do apóstolo como expressão de uma veracidade seria necessário primeiro persuadir as pessoas a aceitar a autoridade da Bíblia, que é justamente o que elas não aceitam. É mais fácil, evidentemente, e mais prático, você oferecer argumentos eficazes contra uma legislação gayzista do que você repentinamente fazer toda a sociedade se curvar ante a autoridade da Bíblia ou de Moisés. Então, pra que complicar a guerra, se o que nós queremos não é a título imediato, não é a conversão universal, mas apenas queremos nos livrar de uma legislação que vai nos fazer mal? Até por um motivo prático, seria mais sensato concentrar-se na discussão contra a proposta legal sem discutir o fenômeno do homossexualismo em si. Em segundo lugar: na mesma medida em que transformam esta questão numa Cruzada para demonstrar a anti-naturalidade do homossexualismo, eles se desviam da realidade a tal ponto que acabam não percebendo a verdadeira extensão da gravidade da proposta gayzista. E ao criticá-la, fazem uma crítica fraca e limitada, baseada em quê? No dano que vai trazer à liberdade religiosa. Eu já tenho demonstrado em outras aulas e artigos que o dano a ser causado pela implantação dessas leis gayzistas vai infinitamente além disso. Restringir a liberdade religiosa só faz mal para quem é religioso. Porém, no instante em que a lei, impondo a igualdade de valor e de respeitabilidade entre o casamento tradicional e o casamento gay, impõe que ninguém pode distinguir entre uma mulher e um homem vestido de mulher. Esta distinção será ilegal. Se for dado tratamento diferenciado será discriminação, e pode levar à cadeia por causa disso. Ou seja, a pessoa é obrigada a negar o que os seus olhos vêem. Isto é um atentado contra a liberdade religiosa? Não! Isso é um atentado contra a estrutura de percepção humana; isso é tornar um sintoma histérico legalmente obrigatório, porque um histérico não sente o que seus olhos enxergam, ele sente aquilo que ele imagina, o que o discurso lhe mandou imaginar, exatamente como uma pessoa hipnotizada. A pessoa hipnotizada, encosta-se o dedo nela e diz que é um cigarro aceso; tira o dedo e aparece a queimadura! A psique dela força o corpo a sentir não o que se passou no mundo físico, mas aquilo que foi dito. Então, essa lei colocará todo mundo imediatamente num estado hipnótico obrigatório, e isso é disseminar uma doença, é disseminar a histeria de modo epidêmico. Esse é um dano para toda a humanidade religiosa ou ateística. Isso é muito mais grave do que a simples restrição da liberdade religiosa. Então eu digo: por que nenhum desses pastores e apóstolos etc., dizem isto? Porque eles não percebem. E por que não percebem? Porque estão com a atenção centrada no aspecto moralístico que ele extrai de uma interpretação coisificada e achatada do texto do apóstolo. Isso quer dizer que a falsidade e a mentira têm um caráter sistêmico: quando entra um contra senso lógico na sua cabeça, ele nunca fica sozinho, ele produz outros iguais, e paralisa a sua inteligência. Essas pessoas que estão tão entusiasmadas no seu combati anti-gay estão paralisadas por uma deficiência intelectual auto-infligida, paralisadas pela mentalidade metonímica. Mais ainda (e isso eu até analisei na outra aula): quando o homossexualismo se impõe, não como uma conduta que pode ser mais duradoura ou mais fugaz, mas como uma identidade, como um modo permanente de ser, que tem de ser aceito pela sociedade como, por exemplo, a identidade racial, com a qual se nasce, e em qualquer lugar é reconhecida; ou a estatura, a pessoa nasceu baixinho, e vai continuar baixinho, e assim por diante. Se aceitamos que existe essa identidade, então ela tem de ser aceita por todas as pessoas do seu meio, e não podemos mais ver aquele indivíduo apenas como um ser humano comum e normal que, de vez em quando, mais ou menos, tem uma atração por outro do mesmo sexo e faz alguma coisa com ele. Ele passa a ser uma espécie de classe distinta, e isto interfere diretamente no problema da adoção das crianças. Agora, aí temos o problema de como se forma e como se impõe a identidade gay. Veja, a identidade hétero – feminino e masculino – vem junto com a constituição anatômica, não precisamos pensar nela. Ou seja, a pessoa tem identidade de homem ou de mulher quando não está pensando nisso, e na verdade nós não estamos pensando nisso a maior parte do tempo. Porém, a identidade gay só existe por meio de símbolos [0:40] culturais criados que têm de ser continuamente repetidos e reforçados para manter a identidade gay, pois caso o sujeito que é gay se dispa de toda essa roupagem simbólica a conseqüência é que ele não será reconhecido como gay, portanto não poderá mais impor a sua identidade gay; ele vai ser aceito apenas como uma pessoa como qualquer outra, e isso ele não quer: ele quer ser aceito como gay. Existem dois tipos de símbolos: aqueles que denotam a identificação com o outro sexo, que é o caso por exemplo dos transexuais, efeminados (sissies, como eles chamam aqui nos EUA); e há o caso dos homossexuais que não têm esse componente vagamente transexual – digamos os homossexuais machos –, em que os símbolos tem de ser os símbolos da atração. Ou seja, o individuo tem de estar o tempo todo mostrando que ele tem atração por outro do mesmo sexo, senão ele perda a identidade gay. Isto quer dizer que, implantada essa lei, os elementos teatrais da cultura gay se tornam obrigatórios, se tornam uma presença obrigatória na sociedade, interpondo-se entre o indivíduo percebido e a percepção natural que temos dele. Eu sou um ser meio retardado mental por ter ficado doente por muito tempo quando criança. Millôr Fernandes que dizia: “Millôr Fernandes nasceu no Rio de Janeiro, aos oito anos de idade etc.”. Isso é uma piada, mas no meu caso é verdade: eu nasci não aos oito, mas aos sete anos de idade, quando eu saí daquele estado de febre e delírio, e comecei a viver como uma pessoa normal. Então, todas as informações chegaram para mim com sete anos de atraso. Resultado: o meu interesse por esses assuntos também foi muito tardio; e a minha insensibilidade à esse negócio era tal que o que quer que acontecesse, não me dizia respeito, não era da minha conta. E eu lembro, quando eu era jovem, que eu tive um grande amigo que era super gay, exageradamente homossexual. Ele nunca mexeu comigo, nunca fez proposta nenhuma, sempre foi enormemente respeitoso, foi realmente um grande amigo, não se interessava sexualmente por mim, e eu nunca pensei naquilo. Nunca. Nem uma única vez. Nós alugamos um apartamento e moramos juntos, então muita gente achava que havia um caso, e não havia caso nenhum, e quando as pessoas comentavam eu não sabia do que elas estavam falando. Foi só depois que eu percebi que realmente isso podia dar margem à falatório. Mas eu estava ali com plena inocência, com plena confiança nele. Eu só comecei a prestar atenção nesse assunto muitos anos depois, quando ele mudou para a Europa, para a França, e lá arrumou um soldado da guerra da Argélia que era igualzinho ao capitão do Timtim, o Haddock, que era um homem barbudo (que ele achava divino e maravilhoso). A hora em que ele apareceu pendurado no capitão Haddock foi a primeira vez que eu prestei atenção e fui pensar no assunto. Se fosse hoje, a relação de amizade franca, aberta e assexuada que eu tinha com aquele camarada seria considerada ofensiva, porque eu o aceitava como um ser humano igual aos outros, e não como um homossexual. Ou seja, a própria amizade genuína, verdadeira, sincera, seria considerada uma ofensa e, talvez, um delito. Eu era tão indiferente a essas coisas, que quando eu tinha dez ou onze anos, um sujeito gayzíssimo, na congregação mariana, onde tinha um cineminha, me bolinou durante a sessão. Eu não fiquei assustado, não fiquei traumatizado, achei apenas um sujeito chato: “O que ele está fazendo, o que é isso?”, pensei. Depois eu, inocentemente, contei aos outros meninos, e eles ficaram alarmados, foram contar ao padre, deu um rolo... Daí eu me senti como aquele japonês que estava apertando a descarga no instante em que estourou a bomba de Hiroshima: eu não queria criar todo esse forrobodó, eu não sabia que a coisa era tão importante. Depois, mais tarde, fui bolinado num ônibus, numa viagem São Paulo – Ibitinga, por uma velhinha, uma senhora tarada que sentou do meu lado e ficou me bolinando. Eu só achei aquilo uma chatice: “Putz, esta porcaria vai durar quatro horas!”. Quando nós chegamos em Ibitinga eu falei: “Graças a Deus que acabou!”. Foi só isso. Eu vejo pessoas dizendo que ficaram traumatizadas. O trauma depende de sua reação subjetiva. No meu caso a simples idéia de ter sido prejudicado, traumatizado, usado etc., parece-me altamente cômica, porque de fato não aconteceu nada, aquilo foi apenas uma chatice, como um bêbado sentado num bar tentando me contar a história dele por doze horas. A sensação que eu tinha era mais ou menos essa. Eu vou ter de ficar sentadinho aqui por horas a fio até acabar o filme, ou então com essa velha até chegar a Ibitinga. Isso vai ser um problema. Ibitinga é a terra do Paulo Ghiraldelli. A idéia da vida sexual dos adultos — eu até já mencionei aqui (no COF) — nunca me passou pela cabeça. Eu tinha um monte de tias que ajudaram me ajudaram a me criar. Eu gostava muito delas. Se uma delas era lésbica eu não tinha a menor idéia, e se fosse não faria a menor diferença, porque elas não estavam me impondo a sua identidade. Elas tinham lá os seus costumes sexuais, ou a falta deles, e isso não me interessava nenhum pouco, porque nessa época eu estava interessado era em colecionar figurinhas de jogador de futebol, jogar bolinhas de gude e colecionar autógrafos de jogadores de futebol. Eram esses os meus máximos interesses na vida. Um dia — a grande realização da minha vida — eu encontrei todo o time do Corinthians num restaurante e peguei autógrafo de todos. Cheguei esfregando na cara dos moleques. Esse era o meu mundo. A vida sexual da minha tia? Pelo amor de Deus! Pode haver coisa mais chata? Mais tarde, quando eu arrumei uma namoradinha, a perspectiva de eu estar lá trocando amassos com ela e aparecer uma das minhas tias ou a minha mãe era o anticlímax total. Aquilo era o mundo do anti-erótico. Se houvesse a imposição de identidade, essa felicidade que eu tive de permanecer alheio a essas coisas e não poder ter preconceito algum porque eu não via diferença alguma, essa oportunidade me teria sido tomada. Eu estava ali que nem o menininho que entrou no banheiro e viu os dois homens se amassando e disseram que eles eram casados. Daí o menino diz: “Eu vou ali tomar um sorvete, vocês querem vir?” A minha reação foi exatamente essa: eu estava interessado era no sorvete, não na vida sexual dos adultos. Todo esse mundo da espontaneidade, sobretudo da espontaneidade infantil, estaria condenado para sempre. Houve algo disso também no movimento anti-racista, quando insistiam que expressões como sorte negra, um destino negro, eram expressões racistas. Na época escrevi um artigo dizendo que não, que aquela idéia era radicalmente enganosa. Primeiro, porque a cor da sua pele não é negra, você é marrom. Até o Pedro, quando era pequeno, chegou em casa e falou: “Mãe, a professora bateu num menino marronzinho.” Ele era muito pequenininho. Não foi um menino preto, não existe menino preto, existe menino marronzinho. Em segundo lugar, o simbolismo da cor negra é universal. Lembro-me de ter ilustrado isso com vários dados da cultura Ioruba, onde a cor negra tinha exatamente o mesmo sentido que tinha no Ocidente, que é o sentido que, ou designa uma coisa sombria, ou perigosa, ou a inconsciência total; [0:50] ou designa a nuvem de desconhecimento de que vieram falar os místicos, que é a travessia entre você e Deus, ou seja, você passa por uma noite negra, como diria São João da Cruz. O simbolismo é exatamente igual. E se a idéia de que o simbolismo tenebroso da cor negra era um dado de inspiração racista tivesse sido adotada nos livros escolares, na arte, em toda a educação, o que aconteceria? Esse simbolismo primordial, que remonta à criação da humanidade, teria sido proibido e nós não poderíamos entender mais a linguagem, nem dos nossos poetas, nem de S. João da Cruz, nem da cultura Ioruba. Seria um dano à cultura humana que configuraria, tal como no caso da identidade gay, uma crise de dimensões antropológicas. Quando eu me oponho a essa legislação gaysista, eu estou levando tudo isso em consideração e medindo a gravidade do dano. Eles se queixam de restrição à liberdade religiosa ou da imoralidade. Meu filho, a imoralidade é dos males o menor. Ela sempre existiu. Mas destruir o aparato da percepção humana é uma crise antropológica. Não é brincadeira e, portanto, é uma proposta que não pode sequer ser aceita para discussão. Não pode haver uma lei que me proíba de ver as coisas como meus olhos as vêem. Essa insistência no moralismo fundamentalista, numa interpretação achatadora do texto do apóstolo desarma o pessoal evangélico e católico contra o inimigo e os faz atacá-los com armas frágeis. Pior: quando se passa da acusação de anti-natural para a acusação de doença, também se comete uma infinidade de erros metodológicos básicos e elementares. Por exemplo, de todas as pessoas que levantaram objeções ao que eu disse, só uma tentou discutir seriamente, e não foi um brasileiro, foi o Matthew Hoffman — que faz parte de um site evangélico de defesa religiosa, muito amigo do Júlio Severo — que me mandou uma carta com argumentos: “De fato, dizer que anti-natural é um argumento filosófico e não científico.” Se é filosófico, então não pode ter autoridade pública. Tudo que é filosófico está sujeito à discussão. Não pode haver uma lei que torne obrigatória a filosofia de Leibniz. A tentativa de tornar obrigatória a filosofia de Karl Marx na URSS deu no que deu. Ele, reconhecendo isso, passa a argumentar que é doença e coloca o argumento (abaixo): “A promiscuidade dos homossexuais leva não só a um nível muito alto de enfermidades sexuais, mas também a doenças físicas associadas a atos sexuais que são medicamente insalubres, como a AIDS, a hepatite C, sífilis, etc.”. Nenhuma generalização científica vale algo se não for confrontada com as hipóteses contraditórias, ou com outras hipóteses explicativas possíveis. E esse estudo comparativo jamais foi feito. Por exemplo: a incidência de doenças de origem sexual é maior entre os homossexuais do que entre os adúlteros ou freqüentadores de bordéis heterossexuais? Foi feita essa comparação? Não podemos comparar os homossexuais com os casaizinhos monogâmicos. Não são fenômenos do mesmo tipo. Se você diz que a comunidade homossexual é promíscua, então ela deve ser comparada com outra comunidade promíscua. As grandes epidemias de doenças sexualmente transmissíveis que vieram antes da AIDS, como a sífilis no século XIX, tiveram pouquíssimo a ver com homossexualidade. A sífilis era transmitida eminentemente nos bordéis heterossexuais, por mulheres. O número de infectados pela sífilis foi uma coisa monstruosa até que se descobriu a penicilina, quando a coisa acabou. Não houve estudo comparativo, então não podemos dizer que o homossexualismo em si é a causa disso, e que a causa disso é a promiscuidade. Nunca foi investigado se essa promiscuidade é maior entre os homossexuais do que entre os heterossexuais. Mas eu garanto: o estudo da história da literatura ocidental mostra que o adultério é o seu tema predominante, ou quase único. Isso é o mesmo que dizer que a promiscuidade sexual é um fator constante na sociedade ocidental não é de hoje. Essa afirmação só pode ser sustentada se houver um estudo comparativo. Uma hipótese científica não se confirma pelo número de fatos que a atestam, mas pela exclusão das hipóteses contrárias ou divergentes. O método científico, repito, consiste em pegar um número de fatos, levantar uma hipótese, ou descritiva ou explicativa, e em seguida tentar destruí-la pela confrontação com os fatos, pelo exame lógico. Se isso não for feito, a análise não é científica de maneira alguma, é apenas retórica científica. “Existem muitos estudos que dizem que o estilo de vida gay é caracterizado pela instabilidade social, especialmente a promiscuidade. Suas relações são de curta duração e não exclusivas.” A comparação é entre a comunidade homossexual e os casais monogâmicos estáveis, os quais, por definição, estão excluídos da pesquisa. Esse raciocínio é um tipo de profecia auto-realizável: “Todo mundo que não é estritamente monogâmico é promíscuo”. Isso é o mesmo que dizer que tudo que tiver quatro lados e quatro ângulos iguais é um quadrado. E quem é que não sabe disso? O que deveria ser feito é comparar a comunidade gay com a comunidade de adúlteros. Os adúlteros são estáveis? Alguns o são. Por exemplo, um sujeito que casou, arrumou uma amante, e ficou com a amante a vida inteira. Em Iguape, cidade em que eu morei, todo homem tinha três ou quatro mulheres. Você tocava na campainha e dizia: “Seu fulano está aí?” e a mulher respondia: “Não, ele está na casa da outra mulher dele”. O cara tinha três ou quatro famílias estáveis. Mas isso, que eu saiba, é uma exceção, só acontece nessa cidade, que tinha três habitantes. O meu irmão dizia que o comércio de Iguape se constituía de dez notas de dez reais que tinham sido distribuídas lá há trinta anos e continuavam circulando. (Sem desfazer de Iguape, que sob o ponto de vista arquitetônico é um documento histórico fantástico, onde eu e meu pai fizemos muitos amigos). Existe o adúltero estável, mas esse é o caso da maioria? Prestem atenção: não existe oficialmente casamento gay, então todas as relações gays são extra-casamento. Todas as relações matrimoniais são internas ao casamento, então aquelas estão fora. Então você tem de estudar relações extra-matrimoniais entre heterossexuais e entre gays e daí fazer a comparação. Como não foi feito, isso aí não quer dizer nada. Matthew Hoffman é um homem muito inteligente, e ele não percebe isto porque o fundo a mente dele está determinada pelo raciocínio metonímico. Ele acredita na realidade física da metonímia, e por aí vai. [1:00] Ele diz que há taxas altas de depressão, estupro, abusos físicos, suicídios etc. Vamos compará-los com a comunidade dos adúlteros heterossexuais e ver o resultado: se percebermos que há uma diferença muito grande, poder-ia-se dizer que os adúlteros heterossexuais vivem uma vida mais saudável que os homossexuais; mas a pesquisa jamais foi feita. Esta é uma falha metodológica elementar. Se o indivíduo não tivesse lido a Epístola aos Romanos 1, 26 -27 e ficado impressionado com aquilo, ele não estaria argumentando desta maneira. É uma interpretação coisificada da sentença do Apóstolo Paulo, transformada em mandamento socialmente obrigante que os leva a essa obrigação de coletar argumentos anti-homossexuais sem fazer o teste diagnóstico diferencial, que é obrigatório no método científico. E, com isto, acontecem duas coisas: a) como nada disso tem sentido científico mesmo, eles podem ser acusados de charlatanismo; b) como existe uma lógica fundamentalista –– que é mais grave ainda –– no fundo da sua interpretação da Bíblia, o militante gayzista percebe isto e imediatamente os acusa de fundamentalista, superpondo a este sentido lógico, hermenêutico da palavra fundamentalismo, outra conotação diferente que está associada ao fundamentalismo islâmico, o que também é tomar a unidade de uma palavra pela unidade de um fenômeno. Os cristãos não são terroristas islâmicos. Ao contrário, eles são vítimas do terrorismo islâmico, porque o maior divertimento dos terroristas islâmicos é matar cristão. O cristão que é vitima do terrorismo islâmico passa a ser associado e identificado com o terrorista islâmico, e às vezes, como nos Estados Unidos da América, acusado de terrorismo pela identidade da palavra que os designa. E a retórica gayzista não cessa de se prevalecer disso. Diante disso, o debatedor cristão fica desarmado e argumenta que isto é contra a liberdade religiosa. O argumento do cristão é fraquíssimo, porque ele está discutindo com pessoas que são psicopatas que querem impor sua fantasia sexual como um direito superior aos direitos da percepção espontânea humana, e que querem destruí-la. Já expliquei que o casamento gay será a destruição completa do direito de família. Todo o edifício do direito de família vai cair. Quando eu falava isto pensavam que era loucura, mas agora estão começando a ver. Já existe a proposta de lei para reconhecer que uma criança pode ter duas, três ou dez mães. Então a introdução da poligamia, poligenia e de outras variantes, será absolutamente inevitável a partir do precedente do casamento gay, porque é o mesmo princípio lógico, não é só por extensão. Por exemplo, você dá o pé e recebe mão. Você precisa ver que o edifício das leis tem uma lógica interna, e quando você coloca uma outra premissa, modifica o edifício inteiro automaticamente. Portanto, havendo argumentos mais decisivos e muito mais irrefutáveis, que podem ser apresentados contra a proposta gayzista, os cristãos se apegam ao tema da imoralidade, antinaturalidade ou do caráter mórbido do homossexualismo, e no mesmo instante desviam a questão da proposta gay para uma cruzada anti- homossexual. E só pode ter como resultado dar uma prova suplementar aos gays de que eles estão sendo perseguidos por motivos fundamentalistas. E algum fundamentalismo –– não no sentido truculento da coisa, mas no sentido lógico ––, estará presente nisto. Mas quando a população ouve a palavra fundamentalismo não distingue o sentido lógico e hermenêutico do sentido terrorista. Veja que a confusão nesse debate é algo terrível e trágico, e que está levando a causa gayzista a alcançar a vitória. Essa vitória terá consequências devastadoras para toda a população, independentemente da orientação sexual, pois quando começarem a ensinar as crianças que não se pode acreditar no que se vê, mas acreditar no que os gayzistas mandam –– na cultura e fantasia deles –– , a inteligência humana é destruída. Assim como, por exemplo, durante o nazismo ou comunismo existiram leis desse tipo: se o sujeito tinha um amigo judeu –– para ele era uma pessoa como qualquer outra –– , teria que ver o judeu de uma maneira diferente porque ele seria um conspirador e estaria roubando o sujeito –– e de fato ele não estava roubando nada. Mas se o sujeito dissesse isto, ele seria preso. Então você é obrigado alterar a sua percepção da realidade para seguir o que a autoridade mandou, e isto é a justiça da rainha de copas de Alice no País das Maravilhas: primeiro sentença e depois julgamento –– primeiro corta a cabeça do sujeito e depois o julga. Na verdade, no comunismo aconteceu que o ex-ministro romeno de economia, Mihail Manoilescu, foi assassinado na prisão e depois do assassinato foi julgado e condenado a morte. Quer dizer, portanto, que a justiça da rainha de copas pode acontecer e virar uma realidade histórica. E isto é claro que é um fenômeno em si infinitamente mais grave do que qualquer atentado a liberdade religiosa. A liberdade religiosa já sofreu restrições ao longo do tempo e sobreviveu a elas, mas contra a total devastação da percepção humana ninguém sobreviverá. Eles criarão um mundo onde simplesmente não valerá a pena viver. Até semana que vem e muito obrigado. Transcrição: Anderson Marinho e Guilherme Santos Zomkowski (Instituto de Olavo de Carvalho), Eduardo Afonso Aguiar e Evandro Santos de Albuquerque. Revisão: Luiz Felipe Adurens Cordeiro