Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 160 23 de junho de 2012 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Nesta aula prosseguirei com o tema lógica e psicopatia, que abordei na aula passada. Faz tempo que queria fornecer para vocês uma espécie de modelo reduzido de análise de um debate público: como se recua desde os termos em que a questão está colocada no debate público − na mídia, na Universidade, no parlamento − até à realidade substantiva da questão que está por baixo. Sempre que surge um debate público é porque algum problema existe, é claro, mas às vezes a distância entre o que as pessoas estão discutindo e o que está em jogo na realidade é muito grande, o que torna necessário escavar os discursos dos dois lados em discussão para descobrir do que eles estão falando, afinal. Quando digo “o que eles estão falando”, não quero dizer que tenham isso em mente. Existe algum dado objetivo que de algum modo perceberam obscuramente, nebulosamente, e do qual estão falando sem saber − sem saber, estão falando de outra coisa. É evidente que em todos esses casos a tentação inicial é tomar-se posição no debate a favor ou contra ou, ao contrário, fazer-se de superior − que é uma saída tipicamente brasileira: colocar-se à meia distância dos dois lados e achar que desde essa posição superior você domina todo o horizonte e olha os debatedores como se fossem formiguinhas agitando-se em vão, enquanto você os observa da sua esfera de divina superioridade. Isso é muito comum no Brasil. No Brasil só há três possibilidades: ou você está de um lado, ou está do outro, ou então é o juiz soberano. Todas essas são posições estereotipadas e que na maior parte dos casos ou na sua quase totalidade, não têm nada a ver com a questão substantiva que está por baixo de tudo isso. Esse debate reflete a vontade de vencer politicamente o outro, a vontade de impor certas medidas, impor certos critérios políticos ou morais. e de maneira alguma a vontade de compreender o de que se trata. Não é jamais uma abordagem intelectualmente sã ou respeitável. Curiosamente, as contribuições para esse debate, que são dadas por cientistas, filósofos, teólogos e outros, só pioram a coisa. Vamos tomar como ponto de partida o debate sobre a adoção de crianças por casais gays. Como eu disse só existem três possibilidades: ou o sujeito é a favor, ou é contra, ou está numa altitude sublime demais para que possa tomar uma posição, e então ele acredita que a verdade está num ponto intermediário, como se fosse possível encontrar a verdade simplesmente com uma régua: você tem aqui a verdade, tem aqui o erro, então a “verdadeira verdade” está num ponto intermediário entre a verdade e o erro. O bem está num ponto intermediário entre o bem e o mal, e assim por diante. Essa figura do neutralismo superior é um das figuras de linguagem mais comuns em qualquer debate público no Brasil. O que aconteceria se, ao invés de tomar posição ou até tendo tomado, nós procurássemos averiguar qual é realmente o problema e por que isso chegou a ser um problema? Vamos partir da seguinte observação: uma pessoa sozinha não pode criar uma criança? Evidentemente pode. Vamos partir desde as bases mais elementares. Se uma pessoa pode, por que duas não podem? Quaisquer outras duas, ou três, ou quatro. Desde logo, o simples fato de essas pessoas serem homossexuais, ou bissexuais, ou assexuais não tem por que interferir nessa questão, pela simples razão de que as crianças em geral, são alheias à vida sexual dos adultos. Esses são dados elementares da questão. Se você está criando um bebê de três anos, como é que ele vai saber se você é homossexual, heterossexual, bissexual ou qualquer coisa? Como você vai fazer para informar isso à criança? Mesmo supondo que você a informe será que ela vai entender do quê você está falando? Isso quer dizer que entre a vida das crianças e a vida sexual dos seus pais ou dos seus protetores, seja lá como queiram chamar, a distância é enorme. Por que isso chega a ser um problema? Como se pega uma questão tão clara e se transforma em um motivo de debate público? É evidente que isso só acontece porque entra em jogo a questão da identidade homossexual; ou seja: algumas pessoas querem adotar crianças, não simplesmente na posição de adultos que querem criar uma criança, mas querem adotar como e enquanto homossexuais. Portanto, será necessário que, de uma maneira ou de outra, a criança venha a saber da condição de homossexuais deles. A homossexualidade entra aí como um dado, não da relação entre os adultos, mas da relação deles com a criança. A primeira pergunta é: por que isso deveria acontecer? Com que idade a criança deve ser informada das atividades sexuais dos seus pais? Eu, por exemplo, não me lembro de ter tido a menor curiosidade a respeito, até que li o Dr. Freud, mais ou menos com dezoito anos. Foi a primeira vez em que fui pensar no que papai e mamãe poderiam estar fazendo na cama. Até lá eu tinha uma vasta gama de assuntos mais interessantes nos quais pensar e nada me pareceria mais tedioso e desinteressante do que a vida sexual de papai e mamãe. Ou seja: só fui alertado para esse tema por um elemento que recebi da alta cultura, muitos anos depois. Poderia ter acontecido de eu entrar no quarto e vê-los fazendo uma coisa a qual não estou entendendo. Poderia ter acontecido, mas não aconteceu. Se acontecesse eu levantaria a questão e, mais dia, menos dia, eu seria informado e poderia ter ou não ter interesse neste caso. Vocês devem se lembrar de um vídeo que havia no youtube de um garotinho que entra num banheiro público e encontra dois homens dando-se um “amasso”. Daí ele pergunta para eles: vocês são casados? Eles falam que sim. Que engraçado, todos os casais que eu vi eram um marido e uma mulher, aqui é marido e marido. Ah! Eu vou tomar um sorvete. Não querem vir comigo? Ou seja, suscitou certa estranheza, mas não uma curiosidade profunda. Creio que essa será a reação de muitas crianças. Então, por que isso tem que se transformar num debate público? Para responder a isso temos que analisar a própria questão da homossexualidade, que eu quero tomar como uma espécie de modelo de uma análise desse tipo, [0:10] para que depois vocês o apliquem em outras e outras questões. Não sei se vou conseguir colocar a coisa com toda a ordem que seria necessária, mas, de alguma maneira, vou tentar. Algum debate sobre a moralidade, sobre a conveniência ou a inconveniência do homossexualismo, já aparece em Platão, onde Sócrates toma uma posição francamente contrária à prática. Mas contrária em tese: ele não propõe que se faça nada e nem está especulando a possibilidade de exterminar essa conduta. Ele simplesmente diz que não é uma coisa boa porque pega-se um rapaz novinho, tira-o da família, vai criar conflitos; em suma: vai fazer mal ao rapaz que se tomou como parceiro. Esse é, em suma, o argumento de Sócrates: está-se prejudicando uma pessoa mais nova e desfazendo uma família. --- interrupção da gravação --- Eu estava explicando que ia tomar um exemplo de exame de um debate público conduzido de modo a retornar desde os termos estereotipados em que o debate está colocado até à substância do problema. Substância que, na quase totalidade dos casos, sempre escapa aos debatedores; e escapa pela simples razão de que não se trata de um debate científico, de uma investigação sobre o que quer que seja, mas de uma intervenção política. Então, os discursos respectivos entram, claramente, na categoria do que nós chamamos de discurso de agente. Entre o nosso discurso e o deles, há essa distância fundamental: o que eles estão querendo é introduzir certa mudança na sociedade. A mudança pode ser positiva ou negativa. Ou seja: ou introduzir uma novidade, ou bloquear a introdução dessa novidade: esse é o objetivo deles. O nosso é entender realmente o do que se trata e como o problema que pode estar no fundo de tudo isso pôde se converter nas posições respectivas, defendidas pelos dois, ou três, ou quatro, partidos em jogo. Esse debate se tornou mais intenso por causa da questão das adoções. Nos últimos tempos, aqui nos EUA, surgiram trabalhos e vários artigos a esse respeito: se os casais homossexuais devem ou não ser autorizados a adotar crianças. O debate é colocado nesses termos e de imediato as pessoas tomam posição como se esse fosse realmente o problema e como se esse fosse um problema substantivo. Mas a prova de que não é um problema substantivo em si mesmo − e que ele só se torna um problema e matéria de debate em certas condições culturais muito específicas, e não pela própria natureza das coisas − esse ponto pode ser esclarecido pela resposta às perguntas: uma pessoa pode criar uma criança? Pode. Então, por que duas não podem? Segundo: o que a vida sexual dos adultos tem a ver com a criança que eles estão criando? Por que a criança terá que ser informada a respeito da vida sexual que os adultos estão levando? Terceiro: em que idade ela deve ser informada? Quarto: em que medida isso terá um interesse efetivo para ela e uma influência efetiva na sua vida? Então vemos que o problema surge porque não deriva das coisas, não deriva da realidade das atividades sexuais dos pais, mas deriva da identidade sexual que eles querem exibir perante a sociedade e perante a própria criança e isso é, evidentemente, um dado cultural muito recente. Ou seja, eles querem adotar crianças, não como simples seres humanos adultos que querem criar uma criança, mas enquanto homossexuais e nesse sentido se torna importante que a criança saiba qual é a “identidade sexual” deles. Se a criança não ficar sabendo de nada, no que a coisa vai interferir na vida deles? Quando eu era criança tinha um montão de tias. Algumas delas eram lésbicas? Eu não tinha a menor idéia. Só fui ficar sabendo que algumas delas eram lésbicas muitos anos depois. Isso não interferiu em nada na relação delas comigo, e mesmo a vida heterossexual dos casais adultos só me interessou muitos anos depois, quando eu mesmo me vi em condições de ter alguma vida sexual. Isso quer dizer que quando desperta o apelo da sexualidade numa criança, num adolescente, ele está interessado sobretudo na vida sexual dele e não na de papai e mamãe. Aliás, até o contrário: a vida sexual de papai e mamãe pode parecer algo infinitamente tedioso e uma coisa que vai até arrefecer o entusiasmo deles. Imagine o sujeito pensar em algo assim quando está com a namorada. Ou até namorado, caso seja homossexual. A vida sexual dos pais é uma coisa que está distante da vida sexual dele próprio, até certo ponto sendo algo antagônico. Este problema da adoção por homossexuais só surge na medida em que o que entra em jogo é a identidade homossexual do casal tal como será apresentada à sociedade e à criança. Portanto, não é um problema que surge naturalmente: é um problema que surge numa condição cultural muito específica e naturalmente isso levanta a questão da homossexualidade em si mesma. Quando isso entra em debate, vemos que o primeiro argumento contrário a levantar-se é em nome da moral religiosa. As práticas homossexuais são francamente condenadas na bíblia, em vários trechos, e ao repetir esses ensinamentos os padres e pastores estão simplesmente continuando a ensinar sua religião − o que é sua obrigação e eu não vejo o que se possa alegar contra eles neste aspecto a não ser que se admita a hipótese de uma intervenção do estado para limitar a liberdade do ensino religioso, o que vai contra a constituição, as leis e toda a tradição jurídica do Ocidente. Até esse ponto não há muito que alegar contra o ensino religioso. Porém, o que deve decorrer para a sociedade civil do fato de se definir uma conduta como pecado? A prática desse pecado deve ser proibida e punida? No caso de ser proibida e punida, essa punição deve ser aplicada pela sociedade civil, e não pela Igreja. A Igreja não tem, nem nunca teve meios de punir diretamente os pecadores: sempre teve que recorrer, para isso, à sociedade civil. Isto quer dizer que, de algum modo, aquela conduta dita pecaminosa, terá que ser considerada delituosa, de alguma maneira. Ou seja: a condenação de uma conduta como pecaminosa, deve corresponder a uma condenação legal ou pelo menos moral da parte da sociedade. Em outras palavras: é preciso criar duas coisas: uma rejeição da sociedade, em que a sociedade inteira deve reprovar aquela conduta, [0:20] e essa reprovação tem de se cristalizar numa proibição expressa − numa lei − e esta lei terá de ser aplicada mediante todos os meios punitivos e repressivos de que o estado dispõe. Vemos que a coisa aí é bastante complicada porque da condenação moral até à condenação judicial, o caminho é bastante longo. Basta perguntar o seguinte: as leis proíbem tudo aquilo que a sociedade não gosta? É claro que não! Isso quer dizer que entre o código moral vigente na sociedade, que é quase sempre feito de regras implícitas, regras tácitas e não faladas, e um código legal, a distância é muito grande e a transformação de uma coisa em outra não é natural nem espontânea. Nos últimos anos vimos uma série de condutas que antes podiam ser socialmente reprovadas passarem a ser legalmente reprovadas. A proibição do fumo em tudo que é lugar é um exemplo. Sempre houve gente que não gostava de que se fumasse perto delas; gente assim sempre existiu. Mas para que isso se convertesse numa proibição legal foi necessária uma luta política, foi necessário criar organizações, buscar meios de financiamento para essas organizações, criar uma militância tanto na sociedade em geral quanto entre os cientistas, médicos etc., para depois isso adquirir um poder de pressão sobre os órgãos legislativos e aí converter-se em lei. Esse processo levou quarenta anos! Os primeiros esboços do movimento antitabagista, organizados em escala ocidental pelo menos, remonta aos anos sessenta, e as proibições só começaram por volta de dois mil (entre mil novecentos e noventa e dois mil). Isso que dizer que não é a mesma coisa. Entre uma coisa e outra existe a intermediação de uma ação humana organizada a qual é sempre difícil e que, portanto, não se pode empreender sem o apoio de poderes financeiramente armados para fazer isso. Esses movimentos custam muito dinheiro. No processo dessa conversão − da conversão de uma reprovação social tácita para uma proibição judicial explícita − existe a mediação de uma ação humana extremamente dificultosa e enormemente dispendiosa. No curso dessa ação é claro que as partes envolvidas apelarão para argumentos científicos. Porém, aí usarão da linguagem científica num contexto que não é científico: é o contexto de uma ação política e, portanto, evidentemente, as conclusões científicas serão selecionadas, não conforme a sua maior ou menor validade científica, mas conforme a sua oportunidade. E isto de parte a parte: os dois lados farão isso porque há a urgência de uma modificação e de uma mudança social que alguns desejam e outros repelem. É disto que se trata: a nossa sociedade vai mudar ou vai continuar como está? Portanto, os elementos cognitivos da história entram aí somente como pretextos e armas, esvaziados dos seus conteúdos específicos. Se formos tentar trazer a questão de volta para os elementos substantivos que estão sendo estudados cientificamente, o debate vai mudar por completo. Sem contar o fato de que muitos desses estudos científicos já foram feitos dentro da perspectiva de um debate político que já está em curso e que, portanto, são influenciados por esse debate e pelo desejo de provar isto ou aquilo. Nós sabemos que, na questão da homossexualidade, a associação psiquiátrica norte-americana retirou a homossexualidade das listas de doenças mentais em 1973, se não me engano, não em função de conclusões científicas obtidas a respeito, mas em função da pressão do lobby gay, que chegou à intimidação física dos membros da comissão encarregada do debate. É claro que essa pressão, essa militância, constitui um fenômeno em si mesmo, o qual em princípio não tem nada a ver com a questão que serve de pretexto ou de motivo para isto. Um fenômeno é a homossexualidade, outro fenômeno é a sua aprovação ou desaprovação social e um terceiro fenômeno é a criação dessa militância, desse debate público. Essas coisas, uma não tem nada a ver com a outra. Que a questão da homossexualidade não tem nada a ver com a sua desaprovação ou aprovação é uma coisa mais do que provada, pelo fato de que o número de homossexuais em circulação não tem uma relação de causa e efeito com a aprovação ou desaprovação. Houve épocas na história em que o homossexualismo era quase epidêmico ao mesmo tempo em que a atividade repressiva do estado voltada contra essa prática era a mais extrema possível. Em certas cidades italianas da renascença o homossexualismo era punido com pena de morte, e nem por isso ele deixou de ter dimensões epidêmicas. Isso quer dizer que o homossexualismo é um fenômeno, supondo que haja um (já vamos ver que não é bem assim) e sua aprovação ou desaprovação é uma coisa completamente diferente e não há vínculo de causa e efeito entre uma coisa e outra. No entanto, no meio onde há um debate sobre isto e a questão chega ao conhecimento de uma pessoa, esses dois aspectos já vêm mesclados. Então, o homossexualismo já não é simplesmente uma prática sexual: é um valor ou antivalor moral. Ora, quando, a partir da Renascença, vai se constituindo a ciência moderna, então, evidentemente, se cria uma nova dimensão da questão, que é sua abordagem científica destinada a favorecer ou desfavorecer um dos dois lados em debate. Essa é uma quarta camada do problema. Temos então o homossexualismo, a sua aprovação ou desaprovação social, o debate que se forma a respeito e a intervenção científica deste debate. São quatro fenômenos que não têm nada a ver um com o outro! Atitudes de aprovação ou desaprovação da conduta homossexual já existiam há milênios antes que alguém se lembrasse de fazer algum estudo científico a respeito e de que existissem as condições para a investigação desse problema. Essas condições, evidentemente, só começam a aparecer a partir do século XIX com a expansão das ciências biológicas por um lado e das ciências sociais por outro, que começam então a coletar dados sobre diferentes épocas, culturas e civilizações que antes eram totalmente desconhecidas e, de repente, esses dados estão à disposição de todo mundo e entram, inclusive, na mídia popular. Todos nós sabemos que os trabalhos da antropóloga Margaret Mead tiveram uma imensa repercussão popular nos Estados Unidos, fazendo do relativismo cultural uma moda cultural dentro dos Estados Unidos. Como viria a acontecer mais tarde com os estudos do professor Alfred Kinsey, que começaram a ser publicados em revistas científicas e terminaram na Playboy, e acabaram exercendo um papel determinante não só na mudança de valores culturais [0:30] mas também na mudança das leis. Vê-se, portanto, quantos fenômenos diferentes estão superpostos aí e aparecem mesclados na imagem que o cidadão comum recebe do debate no instante que toma conhecimento dele. Todas essas questões estão ali misturadas. Só por isso você já vê que a questão substantiva não tem vez; mas é justamente nela que nós estamos interessados: nós queremos saber do que se trata realmente. Enquanto o homossexualismo era discutido na clave religiosa e em seguida na clave puramente moral, o problema era um; a partir da hora em que se introduz o elemento científico, acontece uma mutação do debate: aquilo que era uma tomada de posição moral agora pretende refletir uma realidade objetiva. Ou seja: o debate já não está só na clave do dever ser, mas entra na dimensão do próprio ser. Surge, então, a questão de se saber se o homossexualismo é natural ou antinatural. Veja: a mudança que se opera aí é uma das coisas mais profundas e devastadoras que já se viu na história cultural humana, porque se você condena o homossexualismo como pecado, o que exatamente você está querendo dizer? Você está querendo dizer que a conduta homossexual pode prejudicar o ingresso da pessoa na vida eterna. Quer dizer: isso traria um dano à sua alma imortal. Ora, em que medida isto implica que esta mesma conduta deva ser condenada socialmente? A sociedade tem o poder de condenar ou absolver as almas para a vida eterna? Não, ela não tem. Ou seja: o que a condenação social tem a ver com a condenação divina no Juízo Final? Absolutamente nada! Ninguém, no Juízo Final, será condenado porque a sociedade estava contra ele. A opinião social não conta absolutamente, porque o Juízo Final não vai julgar este ou aquele, mas vai julgar a humanidade inteira, os vivos e os mortos desde o início da história humana. O Juízo Final é um tribunal cuja jurisdição é ilimitada; é universal e ilimitada. Ora, nenhum tribunal humano tem essa jurisdição, portanto a condenação ou a aprovação social de uma determinada conduta não tem nada a ver com a perspectiva do Juízo Final. Além disso, existem muitas condutas que são socialmente aprovadas, mas que não podem ser aprovadas por Deus; por exemplo, a questão da razão de Estado ou a absoluta necessidade da hipocrisia e do fingimento. O fingimento é um elemento fundamental da estrutura social e, no entanto, ele é pelo menos ocasião de condutas pecaminosas pelas quais o indivíduo terá de responder no Juízo Final. Isso quer dizer que a perspectiva religiosa, a perspectiva salvacionista, é uma coisa, e a perspectiva da moral social é outra. No entanto, é claro que o argumento religioso entra no debate social e aí se cria uma mistura do temporal com o eterno, da perspectiva mundana com a perspectiva divina, que pode transformar esse debate numa simples confusão dos diabos. Então, supondo-se que essa conduta − o adultério ou a licenciosidade de modo geral − seja conduta pecaminosa, ela é pecaminosa perante Deus e é Deus que vai julgar isso e nenhum ser humano tem a possibilidade de interferir nesse julgamento. Portanto, em termos da salvação, a condenação social é inócua. Pode-se alegar, no máximo, que se a sociedade condenar essa conduta, menos pessoas se entregarão a ela e, portanto, há uma possibilidade ideal de a condenação social contribuir para a salvação de mais almas. Mas nós sabemos que isso não acontece, porque, como eu observei agora mesmo, uma disseminação quase epidêmica do homossexualismo se observou em épocas em que não apenas essa conduta era socialmente condenada, mas em que ela era judicialmente condenada e punida com a morte. Então, não há como alegar que uma condenação social, por si mesma, contribuirá para a salvação das almas. Ninguém pode alegar isso! Isso é no mínimo uma presunção ousada e quase demencial. Também não há a mais mínima prova de que a condenação social exerça uma influência efetivamente restritiva na mente dos interessados. Ao contrário, existe toda uma cultura do prazer proibido, e se estudarmos um pouco da história do movimento gay, por exemplo, veremos que isso faz parte intrínseca da cultura gay. A atração do proibido − eu, pessoalmente, sempre achei isso muito estranho, para a minha experiência pessoal. Você ter atração por uma coisa só porque ela é proibida é a mesma coisa que você querer comprar uma coisa só porque ela é cara. Aí realmente você entrou no desejo mimético e foi parar longe da substancialidade da questão. Então, não há a mais mínima prova de que a condenação social de fato diminua o número de homossexuais em circulação ou contribua para a salvação da alma deles de maneira alguma. Só por esses dados já se vê como essa questão vem parar no nosso conhecimento com um complexo, uma mescla, uma massa confusa de elementos heterogêneos. Raramente alguém, ao tomar conhecimento disso, não sente a tentação, ou de tomar posição, ou de se fazer de superior. Mas fazer-se de superior e alegar uma neutralidade superior também não ajuda a compreender a questão de que se trata. Então, para nós, cujo interesse máximo é de ordem cognitiva, e que vemos até no desejo de conhecimento um dever moral − porque julgar as coisas segundo a sua realidade é abster-se de cometer injustiça, pelo menos intencionalmente − e vemos no conhecimento um valor moral incontornável, a coisa se coloca de maneira totalmente diferente. Ou seja: antes de tomar posição ou de abster-se de tomar posição em nome de uma neutralidade superior, nós temos é que nos perguntar: o que é isto? Fazer a famosa pergunta quid est? Ora, feliz ou infelizmente, a questão homossexual não chega para nós sob a forma de um fenômeno físico identificável. Claro que uma relação homossexual, como uma relação heterossexual, é um fenômeno físico perceptível pelos sentidos. [0:40] Mas, em primeiro lugar, a variedade das ações envolvidas é muito grande. Por exemplo: quem nos disse que o homossexualismo feminino é um fenômeno da mesma espécie do homossexualismo masculino? Quando ocorre o fenômeno do sexo anal, está-se colocando em ação um órgão que não é necessariamente, ou não é fundamentalmente, um órgão sexual. É um órgão que se destina a outra finalidade, e que pode ser usado sexualmente, mas que não existe para isso. Porém, na homossexualidade feminina isso não acontece: não há um terceiro órgão que entre em linha de conta na homossexualidade feminina. Ou seja: os atos da homossexualidade feminina se perfazem entre órgãos sexuais e a homossexualidade masculina apela a um terceiro órgão − e apela necessariamente. Então, a simples descrição do fenômeno físico já tem alguma dificuldade intrínseca. Mas, quando falamos em homossexualidade nós não estamos falando em ato homossexual, mas sim da atração ou da “tendência”, a qual pode estar apenas na cabeça do sujeito sem se manifestar em qualquer ato fisicamente identificável. Então, em todo o debate da homossexualidade, ninguém está falando do ato homossexual, mas do desejo homossexual e da tendência homossexual, de uma possível “identidade homossexual”, o que já complica a coisa formidavelmente. Então, até para definir o fenômeno de que se trata, nós não podemos partir de uma observação do fenômeno físico; mas nós temos de partir do quê? Dos discursos dos vários agentes e das interpretações que eles fazem de seus próprios atos. Então, já no curso deste recenseamento das opiniões, para, através desse recenseamento, tentar chegar ao fenômeno substantivo de que se trata, nós já temos algumas dificuldades, e a primeira delas é que se dá o mesmo nome de homossexualismo a uma infinidade de condutas diferentes. Eu sempre me reporto àquele famoso debate que houve dentro do movimento gay, no Brasil, por causa de uma sauna gay cujos freqüentadores estavam indignados porque a sauna admitia o ingresso de travestis ou transexuais, e aqueles homossexuais machões ficavam indignados. Eles diziam: ora, nós viemos aqui para procurar homens, em princípio homens musculosos, peludos etc., e de repente vêm esses camaradas com esses peitos e esses sutiãs... Nós estamos indignados! E um dizia assim: eu tenho nojo disso! (Já pensou: se um hétero diz que tem nojo do homossexualismo, vai pra cana; mas quando um homossexual tem nojo do outro, pode.) Então, o antagonismo entre essas duas formas de um mesmo fenômeno − se é que é o mesmo −, já nos coloca um problema: a unidade do “fenômeno gay” existe objetivamente ou é uma construção cultural baseada inteiramente numa proposta e numa ambição política? Eu, de cara, sei colocar o problema; mas só analisá-lo já iria parar longe. Então, se nós perguntarmos: como foi a construção da identidade gay? Bom, a própria expressão “identidade gay” já tem dois significados: primeiro, a identidade gay do indivíduo − ele se define como homossexual de uma vez para sempre e acredita que isso é um componente estrutural do seu modo de ser; não só da sua personalidade, mas do seu modo de estar no mundo. O segundo sentido é a identidade gay no sentido da unidade do movimento inteiro, ou unidade LGBT, como eles chamam. São dois problemas completamente diferentes. Então como se construiu a identidade gay no primeiro sentido e como se construiu a identidade gay no segundo sentido? Só por esse repertório de problemas já se pode concluir que o debate público a respeito é pura loucura. Ninguém está interessado em saber realmente do que se trata; é tudo na tomada de posição a partir de entidades no mínimo, no mínimo, hipotéticas. Na pior das hipóteses, totalmente fictícias, inventadas como instrumentos simbólicos para criar outra realidade, essa sim efetiva, que é a realidade dos movimentos políticos envolvidos pró ou contra a política gayzista. Dentre os argumentos científicos que aparecem neste debate − que aparecem como instrumentos, e já esvaziados do seu conteúdo científico próprio − existe a questão de saber se o homossexualismo é natural ou antinatural. Ora, é quase inevitável que entre os inimigos do gayzismo − os inimigos cristãos do gayzismo − a acusação do homossexualismo como pecado seja acompanhada de uma ênfase na suposição de que ele é também antinatural. A expressão antinatural, com relação ao homossexualismo, aparece muitas vezes, por exemplo, nos autos do processo da inquisição: o pecado contra a natureza. Porém, aí surge um problema: a palavra natureza no contexto doutrinal católico ou protestante nestas épocas tem um significado totalmente diferente da natureza tal como a entendemos hoje. Na perspectiva tanto da doutrina católica − da doutrina da Igreja − quanto na dos filósofos e teólogos católicos, a natureza de um ser se revela eminentemente na sua finalidade. Todo esse pessoal raciocinava aristotelicamente; então, o que é a natureza de um ser? A natureza só aparece em função de sua finalidade última: cada ente tem uma finalidade dentro do corpo da realidade total e é esta finalidade que define a sua natureza. No caso do ser humano, qual é a sua finalidade? A sua finalidade é a vida eterna. Isto quer dizer que a natureza humana só podia ser compreendida dentro de uma escala de vida eterna a qual incluía a sua passagem pela Terra como uma etapa importante, mas não final. A existência terrestre toda era um meio para uma finalidade. Isso quer dizer que quando usavam a palavra natureza, estavam se referindo sempre a um plano de legalidade divina eterna que continha o cosmos físico inteiro e dentro do cosmos físico inteiro os animais e os homens. Mesmo quando São Tomás de Aquino, ou Duns Scott, ou Santo Alberto, estão falando de uma perspectiva puramente filosófica ou científica – portanto, sem apoio na revelação − mesmo aí a perspectiva da eternidade continua sendo o quadro que dá o sentido de tudo o que eles estão falando. Então, quando diziam que um ato é contra a natureza, eles estavam dizendo que era contra a finalidade eterna do ser humano. Quando as ciências modernas constituem a noção atual de natureza, o quadro muda totalmente de figura, porque então entende a natureza como um domínio autônomo que deve ser compreendido na sua constituição interna e própria, sem qualquer referência ao plano da espiritualidade e da eternidade. Isso quer dizer que na perspectiva antiga a natureza tinha uma ação dialética com o sobrenatural. Ela, por um lado, estava colocada dentro do sobrenatural − o sobrenatural por definição abarca e transcende a natureza e é o sobrenatural que tem a explicação última da natureza − mas, ao mesmo tempo, a natureza às vezes tinha uma relação conflitiva com as finalidades sobrenaturais. Qual é a explicação disso? É uma explicação natural? Também é uma explicação sobrenatural: é a revolta de Satanás e assim por diante. [0:50] Quando a natureza, na perspectiva moderna, se constitui como um campo autônomo que pode e deve ser estudado sem qualquer referência ao seu fundamento na eternidade − fundamento real ou suposto na eternidade − a coisa muda totalmente de figura. Isto quer dizer que quando o inquisidor denominava o homossexualismo ou a pederastia, de pecado contra a natureza, ele queria dizer uma coisa. O sentido da expressão contra a natureza, claro, era de uma violação de uma lei natural, mas de uma lei natural que só tinha sentido dentro de uma lei divina, e que não era senão uma expressão local e temporal da lei divina eterna. No contexto moderno, dizer que uma coisa é antinatural não quer dizer que ela viola as leis de Deus, mas que ela viola as leis da biologia ou da zoologia. Isso quer dizer que, hoje, quando alguém diz que o homossexualismo é antinatural, ele não está dizendo que a pessoa está se arriscando a ser privado da glória eterna. E, note bem, o risco de ser privado da glória eterna é um risco futuro, hipotético e eminentemente reversível até o último momento da vida do cidadão. Então, quando o padre dizia para o homossexual: você está indo contra a natureza, ele estava querendo dizer isso: a sua natureza é a natureza humana voltada para a glória eterna, e você pode ser privado dela. Em que condições? Se até o último momento de sua vida você não se arrepender. Então, é um risco hipotético, futuro e eminentemente reversível. A reversibilidade da condenação é não só é um elemento fundamental da doutrina da igreja, mas é o elemento fundamental. Agora, quando você diz atualmente que o indivíduo está contra a natureza você o exclui agora, efetivamente, do reino da normalidade zoológica; quer dizer: o indivíduo é uma espécie de monstro; ele é uma deformidade viva. A proclamação de ser antinatural tem um peso infinitamente maior no contexto moderno. Eu penso às vezes se existe uma ofensa maior que se possa fazer a um ser humano do que essa. Porém, a condenação do homossexualismo como antinatural é respondida pelo lado gayzista com o argumento de que é natural sim e de que a prova é a existência de uma ampla amostragem de homossexualidade no reino animal. O que é pura verdade. Porém, como se coloca este debate? Eu vou ler aqui um pedacinho de um trabalho publicado por um cidadão chamado Luiz Sérgio Solimeo, que parece ser uma pessoa estudiosa, é um membro da TPF e é um sujeito que tem vários trabalhos publicados sobre teologia, filosofia etc.; não é nenhum ignorante. Ele resume o argumento gayzista da seguinte maneira: “Primeiro, a homossexualidade é genética ou inata. Segundo, a homossexualidade é irreversível. Terceiro, desde que os animais entram em relações de sexo entre entes do mesmo sexo, a homossexualidade é natural.” Detalhando mais o argumento: “O raciocínio por trás da teoria da homossexualidade animal pode ser resumido assim: o comportamento homossexual é observável em animais, o comportamento animal é determinado pelos instintos, a natureza exige que os animais sigam os seus instintos, portanto a homossexualidade está de acordo com a natureza animal. Desde que o homem é também um animal, a homossexualidade deve estar, portanto, de acordo com a natureza humana.” Daí, responde o Luiz Sérgio Solimeu: “Essa linha de raciocínio é insustentável. Se os atos homossexuais entre animais estão de acordo com a natureza animal, então, matar os recém-nascidos ou devorar membros da mesma espécie também estão de acordo com a natureza animal. Trazer o homem para dentro dessa equação complica as coisas mais ainda. Devemos concluir que o filicídio e o canibalismo estão de acordo com a natureza humana? Em oposição a esta linha de raciocínio eu sustento que: um, não existe instinto homossexual nos animais. Dois, é pseudociência ler motivações humanas e sentimentos no comportamento animal. Três, o comportamento animal irracional não é um padrão pelo qual devemos julgar a moralidade aceitável do homem racional.” Vê-se que em toda essa discussão − nos argumentos opostos que ele expõe e nos argumentos dele próprio, com os quais ele os rebate −, existe, evidentemente, a confusão entre três estratos da questão. A questão da lei divina, a questão da moralidade social e a questão da biologia, o fato biológico. Então, o objetivo dessa discussão é: ou normatizar a conduta homossexual e impô-la como uma coisa normal; ou expô-la à condenação pública como antinatural. Ora, nenhuma dessas duas coisas é sustentável nem por um minuto sequer. Nem um argumento e nem o outro. Por quê? Provar que uma coisa é natural, não é provar que ela é natural, não é provar que ela é moral, nem conveniente. E, inversamente, dizer que o homem não deve adotar as condutas dos animais não prova que essas condutas não sejam realmente naturais. Ou seja: se uma conduta é natural, ou não, só pode ser respondido por um único meio: pela observação e pela indução estatística. Hoje nós sabemos que existem mais de mil-e-quinhentas espécies animais que praticam o homossexualismo regularmente. Não é em condições excepcionais: não são animais em cativeiro, não são animais neuróticos, é uma coisa geral. Entre essas espécies estão os golfinhos, os elefantes, os ursos, os leões, as hienas... A simples existência disso já prova que o homossexualismo está presente entre as espécies animais e que ele é um dado da natureza. Eu não estou dizendo que existe um instinto homossexual (já vamos abordar isto). Em segundo lugar, os estudos genéticos mostram... [queda da transmissão] Retomando a análise. Toda essa discussão está repleta de conclusões que não são fundamentadas pelas respectivas premissas. O próprio Luiz Sérgio Solimeo está partindo do princípio de que a alegação de que um fenômeno é natural deve servir, no entender dos seus adversários, [1:00] como justificação moral dessa conduta, e esse pedaço da argumentação, evidentemente, está faltando. Saber se uma conduta é natural ou não, é uma coisa; saber se ela é moral ou não, do ponto de vista social, é outra; e saber se ela é aceitável ou não do ponto de vista da lei divina é outra ainda. Essas questões podem ser superpostas, mas as relações entre esses diferentes níveis são enormemente complicadas, dialéticas e conflitivas. Não é uma coisa que você, de uma faixa, pode tirar facilmente conclusões para a outra. Quando ele falou do filicídio e do canibalismo: se você aceita que a conduta é natural então o filicídio e o canibalismo teriam de ser aceitos como naturais. Pois eles de fato o são: inúmeras espécies animais os praticam. Mais ainda: houve várias civilizações que consideravam estas coisas naturais, onde não havia, portanto, a condenação moral. Esta condenação só aparece em função da Lei revelada que introduz outro elemento totalmente distinto. Por exemplo, o filicídio em Roma (ninguém vai dizer que Roma é uma civilização primitiva ou selvagem) era considerado uma coisa normal e um direito dos pais; se eles não queriam o filho eles simplesmente os jogavam para o macaco comer e pronto, acabou. Do mesmo modo os sacrifícios rituais humanos foram aceitos por inúmeras sociedades. Onde entra o elemento do relativismo cultural – que como preceito metodológico é válido até certo ponto – você é obrigado a entender que a condenação social de uma conduta jamais possui validade universal. Mesmo que abrangesse a maioria das civilizações, ou mesmo todas elas. A condenação universal só pode ser feita em nome de princípios universais que não são colocados pela moral social. São colocados ou mediante uma argumentação filosófica que pode continuar sendo discutida eternamente ou através de uma Lei revelada; não há como escapar disto. O argumento da antinaturalidade, assim como o da naturalidade, sempre leva a um non sequitur: “é natural, portanto é válido”, ou, “é antinatural, portanto é inválido”. Este portanto é, evidentemente, um non sequitur: uma coisa nada tem a ver com a outra. Quanto ao argumento de que o homossexualismo é doença – que decorre mais ou menos desta perspectiva de naturalidade ou antinaturalidade – nós não podemos esquecer que ele foi introduzido ao longo do século XIX exatamente como um argumento em favor do homossexualismo. Estudar o homossexualismo como doença, estudá-lo do ponto de vista médico, era tirá-lo do campo da condenação moral e transferi-lo para outro campo onde o homossexual, visto como doente, merecia não a condenação, mas o tratamento, o respeito etc. que se deve dar a qualquer outro doente. Com o tempo (e seria muito interessante escrever a história disto) este argumento que era favorável começou a ser usado desfavoravelmente; e começou a ser usado desfavoravelmente quando? Foi somente a partir dos anos 50 e 60, com a ideologia da Nova Era, que a saúde passou a ser alegada como um elemento moral. Como não havia mais referência à moral divina, transcendente, então se começa a procurar o guiamento moral na esfera imanente, na natureza. Nos anos 60 surge uma bibliografia imensa sobre a harmonia com a natureza, e, se dissemina uma noção ética de que as pessoas boas, que estão de acordo com a harmonia cósmica, serão pessoas saudáveis e felizes e as outras serão infelizes. Então a doença passa a ser usada como um argumento contra a moralidade da pessoa. Se o indivíduo está doente é porque ele está contra a harmonia cósmica e, portanto, alguma coisa de errado ele está fazendo. Eu não sei se vocês que são mais jovens têm informação disto, mas nos anos 60 e 70 a bibliografia sobre isso é imensa. Toda esta área que nós chamamos de “medicina alternativa” é em grande parte baseada nesse princípio. Ora, essa noção foi introduzida no ocidente por porta-vozes e agentes do movimento revolucionário, empenhados em corroer a moralidade cristã tradicional e substituí-la por uma moralidade imanente de tipo naturalístico. Você não vai dizer que estas pessoas eram inimigas dos gays, mas entregaram de bandeja, aos inimigos do gaysismo, este argumento: se a conduta é doente então ela é má. Claro que há aí um non sequitur. Nós sabemos que os fatores que determinam as doenças são enormemente complexos e que, se existe um problema de harmonia cósmica aí envolvido, ninguém sabe onde está esta harmonia e ninguém é seu porta-voz autorizado. Ao contrário, na história da espiritualidade humana, vê-se que alguns dos homens mais elevados espiritualmente eram doentes. Por exemplo, as chagas de Cristo nas mãos e pés de São Pio de Pietrelcina seria um sinal de que ele está contra a harmonia cósmica; então ele fez algo errado. O mesmo com São Francisco de Assis e outros. Outro exemplo, Ramana Maharshi, o grande espiritual hindu. Ele não podia tocar em metal que ele sentia dores horríveis. Imagina o que é um sujeito viver sem poder encostar-se a metal. De acordo com a moral da harmonia cósmica ele seria, não um exemplo de perfeição espiritual, mas ao contrário, estaria na escala mais baixa da espiritualidade. Já nos anos 80 este tipo de princípio moral, que foi introduzido pela medicina alternativa, pela Nova Era, se incorporou na cultura dominante e criou a chamada “geração saúde”. Até hoje eu fico impressionado com a quantidade de propagandas que eu recebo aqui, que nunca pedi, a respeito de saúde. Meios de você resolver todos os problemas de saúde; é um massacre de propaganda. Quando se vê os sites noticiosos metade das notícias são a respeito de saúde: descobriram a cura para não sei o que, descobriram um novo método de fazer ginástica para isso ou aquilo; é o tempo todo! A ostentação de saúde também é associada à beleza. É outra coisa que não tem nada que ver. Uma pessoa ser saudável não quer dizer que ela seja bonita. O Lula antes da doença era mais bonito? Ao contrário, depois que rasparam a barba e o cabelo dele ele melhorou, ficou um pouco parecido com Gurdjieff, adquiriu certa nobreza de aparência que antes não tinha. O Hugo Chávez não, ele nem melhorou nem piorou, não há nada que se possa fazer em favor dele. Saudável ou doente ele é igualmente feio. A associação de saúde com beleza e a obrigatoriedade de você preservar a sua saúde acima de tudo, virou quase que um mandamento. Nos anos 60 isto era uma corrente minoritária e marginal, por assim dizer, que se opunha à medicina estabelecida, que era moralmente neutra. Introduzem a ênfase moralística no elemento da saúde. Veja que na perspectiva (bem anterior) freudiana, por exemplo, a doença às vezes era um sinal de superioridade evolutiva, por assim dizer. Na filosofia de Nietzsche existe uma ambiguidade nesta coisa: ora ele faz a idealização da saúde, ora faz a idealização da doença, [1:10] quer dizer, os homens superiores às vezes são doentes. A identificação da saúde com o bem, da saúde com a beleza, ordem, liberdade, democracia etc., virou um princípio estabelecido na sociedade dominante nas altas esferas, e não somente em um movimento alternativo. A partir daí a alegação de que uma conduta é doente passa a vigorar como um argumento moral contra ela. Isto não aconteceria se não houvesse esta novidade introduzida pelo pessoal da Nova Era, o qual é maciçamente gaysista. Esta é uma contradição interna do próprio movimento, que abre o flanco ao uso de um dos elementos de sua retórica contra ele. Basta lembrar-se disto para se ver quanto a discussão − sobre se o homossexualismo é doença ou não − é complicada, cabeluda e que não se pode resolver nem por meio dessas tomadas de posição e nem mesmo por meio da neutralidade superior. Porém, se uma conduta é biologicamente natural, eu não vejo como concluir que ela é doente. Então, o argumento da naturalidade pode se considerar vitorioso; e, portanto, o argumento da sua sanidade ou inocuidade do ponto de visto médico também pode se considerar vitorioso. Não há nenhuma prova razoável de que a conduta homossexual seja antinatural e nem de que seja doente. Muito bem, chegamos até aqui. Porém, nós vemos tantas condutas doentes da parte dos porta-vozes do movimento gaysista que somos inclinados a rejeitar a conclusão científica. Dizemos: “não, espera aí; não temos prova de que é doença, mas deve ser doença de alguma maneira”. Para resolver esta questão, não vamos resolvê-la tomando partido, mas vamos tentar voltar aos fundamentos materiais e empíricos, por assim dizer, da questão. Que uma conduta, que em si mesma não é doente, pode se transformar em doença, é uma das coisas mais óbvias do mundo. Qualquer atividade que seja saudável pode se transformar numa atividade doente em determinadas condições. Por exemplo, fazer ginástica. Vocês haverão de se lembrar do filho do Antônio Carlos Magalhães que morreu de enfarte fazendo uma das coisas mais saudáveis do mundo (segundo seus propugnadores) que é o jogging. O sujeito está lá fazendo corrida, tem um enfarte e morre. Inúmeras práticas saudáveis podem fazer muito mal. O sexo heterossexual. Existe uma história, que eu creio ser verdadeira, que o ex-presidente Figueiredo teve um enfarte quando estava na cama com a mulher de um dos ministros. Motivo pelo qual sua digníssima esposa não foi visitá-lo no hospital. É uma história; não sei se é verdadeira, mas é uma coisa que já aconteceu com muita gente. Quanta gente não teve um enfarte no meio de um ato sexual? Quando, por outro lado, a medicina afirma que a prática constante do sexo é boa para o coração. Existe um livro que fez um sucesso enorme, Sex Can Save Your Heart and Life, não lembro o nome do autor, mas lembro de que eu mesmo, quando editor de revista médica, comentei este livro e achei muito bom, porque ele me convidava a fazer exatamente o que eu estava querendo fazer. É sempre assim: quando o que os outros dizem soa agradável você imediatamente acredita que aquilo é uma verdade científica. Até hoje eu não sei (e ninguém sabe) se a atividade sexual pode ser boa ou má para o seu coração; às vezes é uma coisa, às vezes, outra. Qualquer atividade humana saudável pode ser ocasião de doença conforme as circunstâncias naturais e sociais em que ela se exerce. Ora, toda e qualquer atividade sexual humana (heterossexual, homossexual, sexo solitário, sexo imaginário) implica elementos de tensão moral dentro do ser humano porque ela tem um elemento ambíguo e conflitivo em si mesma. Através da atividade sexual o ser humano busca romper o estado da sua solidão física e criar, por momentos, uma espécie de interpenetração da psique: de duas psiques. Mas nós sabemos que isto é sempre destinado ao fracasso, isto não acontece. A fusão é meramente imaginária e ela passa, e o sentimento de solidão volta. Isto é inevitável em qualquer atividade sexual; portanto, toda e qualquer atividade sexual vem junto com uma expectativa que é enormemente atraente antes e frustrante depois. Todo mundo sabe que é assim; qualquer pessoa adulta tem obrigação de reconhecer que as coisas são assim e que se depositam ali enormes esperanças que são frustradas. Para compensar isso, inventa-se (ou se recebe da sociedade) outros canais de comunicação amorosa: ajuda mútua, carinho, palavras doces etc.; tudo isto é o açúcar em torno da pílula. Ademais, a própria existência da sexualidade prova diariamente a insuficiência do ser humano: ninguém é um ser completo em si mesmo e por isto mesmo existe o sexo. Portanto a existência mesma da sexualidade é algo que implica no ser humano uma deficiência, uma falha, uma fraqueza, uma vulnerabilidade. Por esta razão não existe nenhuma atividade sexual que, do ponto de vista moral e psicológico, seja perfeitamente inócua e inocente; nenhuma é. O sexo, por um lado, é um canal pelo qual se busca o alívio de tensões, mas é a causa de outras tantas tensões. Às vezes é o mesmo tipo de tensão: ele é o alívio e a raiz da tensão ao mesmo tempo. Desde que o mundo é mundo, a atividade sexual implica a existência de estados psicológicos − alguns são exaltantes outros deprimentes −, mas que não se consegue separar um do outro completamente: eles estão sempre juntos. Ou juntos (conflitivos) ou aparecem em sucessão, quer dizer, no instante em que você está no momento de exaltação o elemento deprimente desaparece do seu horizonte de consciência, mas não desaparece da sua estrutura existencial; aquilo está no fundo; tão logo passou o instante de exaltação, o elemento deprimente também volta. Ou seja, a idealização do sexo como puro prazer é apenas um simbolismo cultural destinado a tampar metade do fenômeno. Mais ainda, se você observar toda a literatura ocidental no seu conjunto, você verá que pelo menos sessenta ou setenta por cento dos conflitos que ela retrata [1:20] têm algo a ver com a vida sexual. Portanto, se a vida sexual fosse apenas o mundo do prazer e de delícias, isto não aconteceria. Nós temos a experiência da vida, a literatura e a ciência médica − as três nos mostram a mesma coisa: a sexualidade tem elementos conflitivos absolutamente incontornáveis. Toda pessoa adulta tem a obrigação de saber isto. Quando você é um adolescente, e na verdade toda a sua experiência sexual consiste em ter fantasias solitárias no banheiro, então você pode se esforçar para enxergar o sexo só pelo seu lado entusiasmante, belo, atraente etc., mas nesse momento você já começou a mentir para si mesmo. O famoso dito latino: omne animal post coitum triste (todo animal fica triste depois do coito). Isto quer dizer que antes do coito ele está em um estado de excitação, e o estado de excitação não é totalmente confortável porque ele busca um alívio; tão logo encontra o alívio vem a tristeza; sempre foi assim. Essa tristeza pode ser aliviada (e de fato o é na maior parte dos casos) pela introdução de elementos não eróticos na convivência amorosa: bondade, compaixão, paciência, ajuda mútua, carinhos etc. Se não existisse nada disto, evidentemente após o orgasmo as pessoas se odiariam uma às outras, como acontece, por exemplo, entre os tigres. Um tigre, tão logo ele completou sua relação sexual com a tigresa, ele tem de sair correndo para que ela não o mate. Se você observar – já assisti filmes de amor entre os tigres – aquilo parece uma guerra, o negócio é realmente perigoso. Quando eles estão no máximo da excitação sexual eles estão no máximo da sua agressividade também. Há casais humanos que são assim – felizmente eles são uma minoria. Em geral, a excitação sexual é acompanhada de todos estes elementos amorosos extras sexuais que atenuam tanto o elemento de agressividade quanto o elemento de frustração. Se isto é assim em qualquer atividade sexual, por que não o será no homossexualismo também? E é inevitável que nesses momentos de depressão e tristeza surja a ideia da culpa. Sempre que as coisas estão dando errado nós perguntamos “o que foi que eu fiz de errado?”; é uma reação natural, humana. Não quer dizer que ela corresponda a uma culpa objetiva, mas o impulso de buscar as suas culpas no momento em que você está triste é um elemento universal humano. Por quê? Porque alguma culpa nós sempre temos. Do mesmo modo que a sexualidade, o impulso sexual em geral, é natural no ser humano, o sentimento de culpa também o é. Só que existem dois problemas com o sentimento de culpa (não estou querendo dizer que na hora que você fica triste e começa a perguntar “o que eu fiz de errado?” você tenha realmente feito algo de errado. Algo de errado nós sempre fizemos, mas nem sempre é pertinente àquele estado em que nós estamos e nem sempre é sua causa). O sentimento de culpa também é uma coisa universal, humana. Não existe nenhuma época ou civilização em que não se veja este elemento presente sob variadas formas culturais diferentes. A existência de culpa objetiva é uma coisa, a existência do sentimento de culpa é outra. A ideia da culpa objetiva é também universal entre os seres humanos, o que corresponde àquilo que eu chamei no curso de ética o “princípio de autoria”. Não há nenhuma civilização ou cultura na qual se considere que o responsável pelos atos de um indivíduo seja outro indivíduo. A possibilidade de ação vem acompanhada com a responsabilidade e (nos casos mais intensos) com a culpa; isto é universal. Não existe nenhuma cultura onde se decreta que todo mundo é inocente, faça o que fizer. A ideia de justiça, na sua imensa variedade de versões diferentes – onde até o que num lugar parece o suprassumo da justiça em outro parece monstruosamente injusto – é imanente, universal, e, portanto, a ideia de culpa também. Ora, não existiria esta ideia de culpa consolidada na cultura se não existisse o sentimento de culpa dentro dos seres humanos, porque as instituições culturais, as criações culturais, não nascem porque sim; elas sempre têm uma base na constituição anatomofisiológica do ser humano; todas elas têm. A base não quer dizer que uma coisa traduza a outra de maneira direta e literal; não. A tradução é complexa, dialética e conflitiva, tanto que um mesmo sentimento, uma mesma base de percepção emocional, pode ter traduções culturais diversas e conflitantes em culturas diferentes; mas a base tem de estar lá. Vamos partir desta verificação: o sentimento de culpa existe no ser humano − não há nenhuma cultura que seja isenta disto e ele pode ser considerado um dado universal da espécie humana tanto quanto o impulso sexual, ou o impulso de viver em sociedade, ou o impulso de manipular o ambiente físico para sua própria vantagem, isto também é universal no ser humano. Se este sentimento de culpa é universal existem dois problemas com relação a ele que também são universais, que são observados em lugares e culturas diversas, com maneiras, versões diferentes, mas, também, com a mesma presença universal, que são os seguintes dois problemas. Primeiro: o sentimento de culpa pode, em certas circunstâncias, se tornar insuportável. Ele pode ser insuportável ou porque a culpa objetiva era muito grande − uma pessoa que num momento de raiva matou um amigo, matou a mulher, matou um filho, a culpa dele pode ser objetivamente muito grande; ou, justamente ao contrário, porque o sentimento de culpa se desligou da sua base objetiva e adquiriu uma espécie de dinâmica própria e domina a vida psíquica do indivíduo: ele não consegue parar de pensar nas suas culpas, que podem ser imaginárias. Muitas vezes, o sentimento de culpa se desenvolve não no indivíduo que está culpado, mas naquele que está fracassado e derrotado. É uma espécie de conversão dos sentimentos: o sentimento de derrota é ruim demais, então o indivíduo transfigura aquilo no sentimento de culpa. Mas a culpa, por sua vez, também pode se tornar insuportável... Bom, não interessa agora sondar os motivos pelos quais o sentimento de culpa pode se tornar exagerado e insuportável; isso simplesmente acontece. A bibliografia psiquiátrica está lotada de documentos a respeito. Neste caso, pode surgir como reação uma busca de alívio, e a busca de alívio pode tomar a forma da repressão da consciência moral. Este fenômeno é muito bem descrito pelo psiquiatra ítalo-russo Igor Caruso. É um dos grandes nomes da psicanálise. E ele diz que a repressão da consciência moral é um fenômeno muito mais disseminado do que a repressão dos impulsos sexuais. [1:30] E eu acho que a experiência clínica mostra isso. Algum elemento de repressão da consciência moral eu acho que está presente em todo e qualquer quadro neurótico. Ao passo que a repressão do impulso sexual está presente só em alguns deles, a não ser que nós façamos um raciocínio freudiano de converter um símbolo em outro símbolo, em outro símbolo, e em outro símbolo e dizer que no fundo, lá no fundo, era um problema sexual. Mas é um raciocínio muito rebuscado demais. A repressão da consciência moral, então, instala uma neurose. Porque a consciência moral e, portanto, o sentimento de culpa, é um elemento estrutural do ser humano; ela não pode ser removida objetivamente. Ela só pode ser expelida para fora do horizonte de consciência. Mas ela vai continuar presente e vai se manifestar de maneiras indiretas e simbólicas em toda uma sintomatologia neurótica; por exemplo, condutas rituais compulsivas, paranóia etc. Vai-se dar todo o quadro das neuroses. A repressão da consciência moral e a neurose resultante é uma das possibilidades, é uma das patologias do sentimento de culpa. A outra patologia não tem nenhum correspondente nessa dinâmica interior de que nós estamos falando, mas ela surge de deficiências neurológicas: traumas cerebrais causados ou por acidentes, ou por doenças, ou por uma má configuração hereditária. Isto acontece. Isto é um fenômeno objetivamente verificável e a forma que ele assume é da simples inexistência do sentimento moral, e inexistência do sentimento de culpa, e inexistência do outro sentimento que faz par e está sempre acompanhado do sentimento de culpa, que é o sentimento de piedade e de identificação com outro ser humano. Existe toda uma galeria de seres humanos que não têm esses sentimentos. Não têm a identificação com outro ser humano e não têm sentimento de culpa, e esse é o que nós chamamos psicopata. Eu, durante muito tempo, usei o termo sociopata e, depois que ouvi as entrevistas da Ana Beatriz Barbosa, eu vi que eu estava cometendo um erro, porque este termo – independentemente das minhas intenções, é claro – denota uma origem social da coisa. E essa origem não existe. Essa origem ou ela é traumática, ou é hereditária. Praticamente, não há causas externas sociais ou culturais que se possa identificar para o fenômeno da psicopatia. Mas esse fenômeno pode ser diagnosticado por meio da neurofisiologia cerebral – não em todos os casos, existem vários tipos de psicopatias e tem uma que se chama psicopatia essencial e nesta, pode-se identificar o fator neurofisiológico presente. Como se faz isto? Exibem-se para o paciente várias cenas que, em princípio, deveriam comovê-lo. E nas pessoas normais, as áreas do cérebro que são correspondentes à produção das emoções, então, aparecem ativadas. Porém, em certas pessoas, não é esta área que é ativada quando elas vêem essas cenas; é a área lingüística. Isto quer dizer que, para elas, o elemento que normalmente suscitaria piedade numa pessoa normal, suscita nelas a representação verbal dos conceitos correspondentes, e só dos conceitos. Isso que dizer o seguinte: as pessoas sabem o que é a piedade. Elas só não a sentem pessoalmente. E isto configura, evidentemente, a psicopatia. A grande obra sobre a psicopatia é esta aqui: Ponerologia Política, do psiquiatra polonês Andrew Lobazcewski. Este trabalho surgiu durante o regime comunista na Polônia, quando, nas faculdades de psicologia e medicina, o partido comunista colocou certos agentes chamados “secretários políticos” para orientar o ensino de psiquiatria e psicologia nas bases da doutrina partidária. E, evidentemente, eram pessoa que não entendiam absolutamente nada de medicina nem psicologia e chegavam lá com aqueles discursos ideológicos e, de início, causava risos, mas depois, quando a coisa começou a se impor, todo mundo começou a ficar com medo e as pessoas não ousavam contraditar aquilo. Primeiro, não ousava contraditar em público; depois, não ousava contraditar entre seus amigos; e depois, as pessoas tinham medo de pensar alguma coisa contra. E Lobaczewski observou que vários dos seus colegas, depois de um ano ou dois desse tratamento, já tinham mudado de personalidade, estavam repetindo aquele discurso e estavam realmente se voltando contra as bases das ciências psicológica e psiquiátrica. Então, ele e outro grupo de amigos decidiram reagir: “como é que nós vamos nos adaptar a essa situação, nós mesmos que estamos passando por esse massacre psicológico, como nós vamos nos defender disto?” E perceberam que eles tinham na mão o melhor instrumento para impedir a sua contaminação, não totalmente, mas pelo menos de modo a sobreviver psicologicamente àquela situação. E o remédio era estudar o fenômeno, não do ponto de vista ideológico ou moralista, mas de acordo com as ciências psiquiátrica e psicológica. Então, passaram décadas estudando o fenômeno da psicopatia e, especialmente, da sua versão que eles chamam macro-social, que é quando um grupo excessivo de pessoas psicopatas se torna dominante na sociedade e provoca mudanças psicológicas na sociedade inteira. Esses estudiosos estavam eles mesmos envolvidos na situação; eles mesmos eram vítimas da situação, de modo que eles próprios eram até certo ponto cobaias, e o esforço de compreensão científica da coisa era, ao mesmo tempo, um esforço de auto-preservação do seu equilíbrio psicológico. Mais tarde, o governo polonês tomou consciência de que eles estavam fazendo isso e prendeu uma parte deles, matou outros e, de toda a equipe, sobrou apenas o Andrew Lobaczewski, que, evidentemente, não conseguiu publicar nada disto na Polônia, e veio para os Estados Unidos na esperança de que aqui ele poderia prosseguir a sua pesquisa e publicar os resultados já obtidos. Ele conservou várias notas − nem todas são de autoria dele − mas que estão aqui resumidas neste livro. A exposição do livro não é muito organizada justamente por causa disto. São notas que foram tomadas por ele ou por colegas dele. Ele diz que muito do material, da documentação que eles juntaram para isso se perdeu e ele teve de depender da memória. Porém, aqui, no meio universitário, ele encontrou um boicote formidável. E ele percebeu que agentes do mesmo aparato ideológico estavam ocupando posições importantes aqui, nos Estados Unidos. Um sujeito que teve uma atuação importante em boicotar a carreira do Lobaczewski foi o Szbignel Brezinski, que era de origem polonesa também, que era assessor de Jimmy Carter e era um dos ídolos ideológicos da esquerda americana. Era uma esquerda nominalmente anti-comunista por ser a favor de um socialismo moderninho. Nós conhecemos o tipo no Brasil. Isto quer dizer que Lobaczewski, em vez de ter aqui meios de prosseguir a sua pesquisa, ele foi boicotado, a possibilidade de ter um financiamento para fazer sua pesquisa foi afastada desde logo, a profissão universitária também foi fechada para ele e ele teve de voltar à clínica psicológica aos setenta anos de idade para poder sustentar a família. Mas no fim de muitos esforços, ele conseguiu publicar este livro no Canadá, e hoje já está traduzido em vários idiomas e se, aí o César Kin está me ouvindo, estou apelando para que publique isto pela Vide Editorial anteontem. [1:40] A edição canadense vem com umas notas feitas por uma psiquiatra também de origem polonesa. As notas, em grande parte, são deploráveis, porque o máximo de maldade que ela consegue conceber é o George Bush. É característico dos americanos. O americano tem uma vida muito confortável, então, o mal que ele imagina é sempre de escala pequenininha. O termo ponerologia vem do grego poneros que quer dizer “o mal”. Então, é um estudo das dimensões psiquiátricas do mal moral: por que existem pessoas que praticam sistematicamente o mal em dimensões maiores do que uma pessoa normal consegue? É eminentemente uma descrição do tipo do psicopata e da articulação dos psicopatas em grupos de ação social e política que acabam por adquirir o controle hegemônico da sociedade – não necessariamente o poder político, mas o controle hegemônico cultural, mental, por assim dizer – fazendo com que toda a sociedade se torne não psicopática, evidentemente, mas desenvolva uma série de características que ele chama histeriformes – as pessoas começam a reagir não ao que acontece, mas àquilo que elas imaginam e a desenvolver outras características sobretudo de depressão da inteligência moral, do discernimento moral. Evidentemente, observa-se que isto está acontecendo no Brasil, diante dos nossos olhos. Ora, se toda conduta sexual humana implica elementos de tensão e de conflito e eventualmente de culpa, independentemente de qual seja a moral social vigente, mesmo em meios onde haja uma maior aprovação da conduta homossexual ou de qualquer outra conduta sexual, os elementos conflitivos estarão lá, porque eles fazem parte da estrutura humana e não são um constructo social de maneira alguma. Isto quer dizer que qualquer grupo de pessoas para o qual a vida sexual seja um interesse dominante ou predominante, o elemento de conflito também será bastante intenso e, portanto, a tentação da neurose e da repressão da consciência moral também será intensa. E, justamente quando aparece uma geração de líderes psicopatas, estes que já não têm o sentimento moral de maneira alguma fornecerão àqueles outros todos os meios possíveis de reprimir e extinguir a sua consciência moral e aparecerão como a solução dos seus conflitos. Isso quer dizer que as pessoas que são ainda normais – neuróticas, mas normais – que têm conflitos – ou conflitos morais sérios ou conflitos neuróticos (há uma diferença aí) – para todas essas pessoas a abolição psicopática do senso moral, quando transfigurada num discurso ideológico aceitável, surge como um alívio e a solução de todos os seus problemas. Só que tanto a supressão neurótica da consciência moral quanto a sistematização disto em ideologia implicam, evidentemente, uma diminuição da acuidade psicológica. E a disseminação de falhas de percepção da realidade é absolutamente monstruosa. Isto quer dizer que os líderes psicopatas consolidam a neurose – a pressão neurótica da consciência moral – num direito, numa ideologia e num mérito e num novo modelo de sociedade. E quem quer que vá atrás da conversa deles, então, definitivamente, se tornou doente, porque o conflito moral inerente à vida sexual, especialmente à vida homossexual, pode ser vivenciado sem neurose. Como é que você faz? É só você aceitar o conflito e aceitar que você não tem solução para ele. Particularmente no Brasil, onde o suprassumo da literatura católica (e é na literatura que você observa os verdadeiros dramas de consciência das pessoas concretas e não somente as dificuldades doutrinais. Para você conhecer a substância da vida cristã num país você tem de ver a literatura cristã que tem ali e ver a profundidade da sua penetração psicológica nos dramas da vida real). Então, quais são as expressões máximas da literatura cristã e especificamente católica no Brasil? São três nomes: Otávio de Faria, Lúcio Cardoso e Cornélio Pena. Os três eram homossexuais. Isto quer dizer que motivos de drama moral não lhes faltava. Só que nenhum era neurótico. Não eram pessoas que quisessem reprimir e encontrar um alívio postiço para o seu conflito moral. Não, eram pessoas que sabiam vivenciar o conflito como motor do desenvolvimento da sua consciência e até da sua criatividade literária. E aí precisa entrar um elemento criado por outro psiquiatra polonês completamente diferente do Lobaczewski, que é Kazimierz Dabrowski, com a sua teoria da desintegração positiva (assim como Lobaczewski é o grande estudioso da anormalidade, da psicopatia, Dabrowski é o grande estudioso da sanidade). Dabrowski diz que o que caracteriza a pessoa normal e saudável é a presença do conflito e a capacidade de viver num estado de desintegração da sua personalidade quando a introdução de novos elementos de consciência desmantela o equilíbrio anterior e obriga o indivíduo a se refazer em bases mais complexas e abrangentes. Ele diz que as pessoas normais vivem assim. Portanto, Dabrowski negava que a neurose fosse uma doença. Ele diz que a neurose é um processo normal do crescimento humano. Ou seja: qualquer indivíduo metido num conflito de culpabilidade que num certo momento pareça transcender as suas capacidades, ele vai viver a tentação da neurose, ou seja, da repressão da consciência moral. Essa tentação está presente em todos nós. A simples existência de uma culpa insuportável nos induz a isso. Onde houver culpa haverá, portanto, já em germe, a repressão da consciência moral e, portanto, a neurose. Ela já está ali presente; a estrutura conflitiva, já está dada. Só que, em vez de apostar tudo na repressão da consciência moral, o indivíduo pode aprofundar o conflito e entrar então naquilo que Dabrowski chama a desintegração positiva: ele desmantela toda a sua personalidade e cria outra, como uma fênix renascendo das cinzas. E ele diz: uma pessoa normal vive neste estado. Isto quer dizer que ela não estabiliza num equilíbrio permanente: ela está numa espécie de desequilíbrio dinâmico que permite a ampliação da sua consciência em círculos cada vez maiores e em modalidades internas de integração cada vez mais elaboradas e meticulosas, e precisas, até que o sujeito morre. Então, esses escritores de que estou falando, viveram o drama homossexual sem apelar para a supressão da consciência moral, mas, ao mesmo tempo, sem conseguir “superar” esse drama. [01:50] Isso quer dizer que em vez de proclamar simploriamente que a homossexualidade é um direito, que ela é normal, que ela é natural, que ninguém pode dizer nada contra, eles mantiveram os dois elementos na sua mão: por um lado, aquele impulso natural que neles havia tomado esta forma homossexual (aqui o Solimeu diz que não existe impulso homossexual. Mas eu digo que também não existe impulso heterossexual. Existe impulso sexual, que pode tomar as formas mais diferentes possíveis). Então, por um lado, tendo este dado, por assim dizer, da natureza, profundamente arraigado nas suas pessoas e, por outro lado, tendo a perspectiva da vida sobrenatural – você veja que isto está muito acima de um mero problema de condenação ou aprovação social – e por consentir em viver numa espécie de permanente desintegração positiva, deram testemunho de conflitos inerentes à vida cristã e fizeram bem para muita gente e, se Deus quiser, estão na glória eterna. [Intervalo] Antes de responder às perguntas, eu quero complementar um tópico que fazia parte do problema inicial − talvez eu o desenvolva melhor numa aula posterior −, que é o seguinte: ao se examinar o discurso da ideologia gayzista ver-se-á que o primeiro efeito que ela busca ter nas pessoas é eliminar qualquer possibilidade de conflito moral. Não só normatizar o homossexualismo, como colocá-lo como uma prática meritória que está acima de qualquer possibilidade de crítica. Isso, evidentemente, contraria a própria estrutura da sexualidade humana, a qual é conflitiva por natureza e, a partir do momento em que o indivíduo assimila esse discurso, ele está lesando a sua própria psique; ele está se tornando incapaz de perceber os seus próprios conflitos e os conflitos alheios. Então, já cria uma situação histeriforme de cara: o indivíduo passa a viver num mundo de estereótipos imaginários que não corresponde à sua experiência profunda: o que quer que ele esteja sentindo, ele dirá outra coisa. Em segundo lugar, os sentimentos de culpa que são inerentes a qualquer atividade sexual e, na verdade, a qualquer atividade humana, como eles são impugnados, colocados como inválidos ou inexistentes ou antinaturais, por sua vez, então eles têm de ser explicados como constructos culturais. Isto quer dizer que reações normais e universais, que estão arraigadas na própria estrutura neurofisiológica do ser humano, são explicadas como meras convenções culturais, criando aí toda uma pseudociência social, o que significa, então, que o contato do indivíduo com a sua própria estrutura profunda fica totalmente bloqueado e passa a viver num mundo de auto-afirmação histérica. Ou seja, estes indivíduos estão adoecendo a todo um círculo enorme de militantes e simpatizantes. É o fenômeno tão bem descrito pelo Lobaczewski, de que a liderança psicopática gera neuroses; ela neurotiza todo mundo através, justamente, do fornecimento de elementos ideológicos e verbais para fortalecer a repressão da consciência moral. Isso quer dizer que o homossexualismo em si, ele nem é antinatural nem é doente. Ele pode ser moralmente condenado em nome da lei revelada; mas condenado por quem? Pelo próprio Deus. A sociedade, ao acrescentar à condenação divina a sua própria condenação, está fazendo como se ela fosse um participante ativo do juízo final, na banca de acusação e da defesa, coisa que ela não é. Ela está falsificando completamente a situação. Dito de outro modo: o problema do homossexualismo é como o problema de qualquer outra conduta sexual que vá contra o preceito evangélico. É, eminentemente, o problema da salvação da sua alma − um problema entre você e Deus − e a condenação social não vai ajudar nem um pouco nisso. Ao contrário, pode até prejudicar, porque a condenação social vai criar uma estase, um conflito permanente, paralisado, que não tem como ser elaborado; não tem como ser transcendido mediante a desintegração positiva. Então, vai contribuir também para neurotizar as pessoas e para induzi-las, de alguma maneira, ao reflexo de autodefesa através da repressão da consciência moral. E, sobretudo, a confusão entre os dois planos − da moral divina e da moral social − é uma coisa que tem efeitos absolutamente devastadores. Veja que a perseguição aos homossexuais ao longo da história tomou, às vezes, características monstruosas. Em várias cidades da Itália, na renascença, o homossexualismo era punido com pena de morte. É um ambiente terrorífico. Então, para preservar o sujeito de um pecado da carne, você o mata?! Você comete um pecado muito pior?! Então, é como se dissesse: “não, eu gosto demais de você, então eu vou matá-lo para você ir para o céu e eu vou para o inferno no seu lugar”. É um raciocínio absolutamente demencial! E, em segundo lugar, a partir da hora em que a noção de natureza assumiu o seu sentido moderno, a acusação de antinatural adquiriu uma gravidade imensa que não tinha antes. E quando esse pessoal gay reclama que eles estão sendo discriminados e aviltados, pelo menos sob este aspecto eles têm toda a razão. Essa acusação é gravíssima. Eu não acredito que possa haver uma acusação maior a um ser humano do que dizer: “olha, você está fora da natureza, você é uma deformidade viva, você está fora da biologia. Que raio de coisa é você? Você é um ET?” Em segundo lugar, a moral social moderna é toda desvinculada das suas raízes religiosas. Isto quer dizer que o homossexualismo passa a ser uma conduta errada ou condenada em função de valores mundanos e não da salvação da alma. Mas que valores mundanos existem senão aqueles que a ciência subscreve? Então, é uma coisa que fica cada vez mais gratuita e ela se transforma realmente num preconceito no sentido etimológico da coisa, quer dizer, uma conclusão que você tirou, uma conclusão a que você adere, sem ter examinado sequer os conceitos evolvidos. Francis Collins, o chefe do projeto genoma, que é um cientista eminente e é católico, diz o seguinte: o elemento hereditário é importante na constituição da homossexualidade; ele está presente. Só que ele diz que “isso cria uma predisposição e não uma predeterminação.” E dizer isto e não dizer nada é a mesma coisa, porque todos os fatores instintivos são assim! Basta você ler o Szondi. Ter um instinto que predetermine o seu comportamento é contraditório com a própria natureza do instinto porque nós temos vários instintos e eles estão numa espécie de interação constante, de maneira que a subida de um instinto implica a descida do outro. Nós temos, por exemplo, o impulso sexual, mas temos também o impulso do bem e do mal − que ele vai chamar o instinto Caim e Moisés: todos nós temos um Caim e um Moisés dentro de nós [2:00] e a prova disso é que, mesmo quando você está defendendo uma conduta que os outros consideram imoral, você a condena em termos morais. Por exemplo: todo discurso gayzista contra o preconceito é um discurso moral; ele está condenando as pessoas num tribunal quase que da justiça eterna, por assim dizer: “você é um preconceituoso, você é um perseguidor de homossexuais etc.” O impulso de anexar ou fundir valores morais às nossas preferências e opiniões é outro impulso universal. E às vezes ele opera em consonância com o instinto sexual, e muitas vezes contra ele. E é impossível que algum ser humano escape deste conflito. O desejo de se afirmar as próprias opiniões e preferências como se fossem a tradução do bem, e toda a oposição como se fosse a tradução do mal, é um impulso permanente do ser humano; impulso que tem base neurofisiológica. Todas as doenças derivadas da epilepsia têm a ver com isso: uma espécie de exarcebação de um sentimento ético freqüentemente pervertido. Este sentimento ético − sentimento da justiça, do bem etc. − todos nós temos. Ninguém consegue ser moralmente neutro; isto é impossível. O pensador mais neutro que eu conheci, foi o Emil Cioran. Emil Cioran mostra que todos os discursos moralizantes de qualquer natureza são assassinos; então, que o melhor seria você ter um ceticismo total. Mas ele considera que esse ceticismo total é moralmente superior à alternativa, porque “nós céticos não matamos ninguém e vocês matam em nome de uma coisa ou contra ela”. Ainda assim, o maior esforço mental de ceticismo e neutralidade, que foi o de Emir Cioran, fracassa completamente. Ele está reafirmando a superioridade da sua postura moral no instante em que ele condena todas as tomadas de posição moral. Estude no Szondi: o impulso moral − o impulso ético e de justiça, aquele que quer julgar, absolver e condenar − é tão forte no ser humano quanto o impulso sexual e, frequentemente, mais do que ele. Dizer que o instinto não predetermina é dizer simplesmente que ele é um instinto, pois ele não é algo como a lei da gravidade que se impõe para nós desde fora. Porém, a existência desse instinto, que é um dos elementos de predisposição no ser humano, já mostra que é um dado natural. Não tem como escapar disso. Agora, existem inúmeras condutas naturais que são consideradas pecaminosas pela Igreja, pela doutrina revelada, e outras são consideras socialmente destrutivas pela sociedade. Ora, a sociedade, por mais cristã que ela se pretenda, ela não tem a autoridade da lei revelada – nunca tem! − e frequentemente uma coisa está contra a outra. A existência da sociedade humana pressupõe a tolerância de uma série de mecanismos de ação social que são intrínsecamente pecaminosos. A hipocrisia é um deles. Existe alguma sociedade que possa sobreviver sem a mentira, a ocultação e o fingimento? Isso é absolutamente impossível. Por isso, jamais devemos imaginar que a lei social tem os mesmos fundamentos eternos e universais da lei revelada. A sociedade legisla em nome da sua conveniência e subsistência. A sociedade proibe o homicídio porque ele vai diretamente contra a subsistência da própria sociedade – ele é um risco para a própria sociedade. Ela é contra o filicídio pelas mesmas razões que em outros lugares é a favor do filicídio. Onde a sociedade achar que é bom para a sobrevivência dela, ela condenará ou autorizará o filicídio. A sociedade sempre legisla apenas em função da sua sobrevivência e conveniência puramente prática. Porém, existe também a presença do instinto ético que falava Szondi. O instinto incoercível de dar valores àquilo que nos é conveniente. Isso quer dizer que todo o discurso da moral social é um discurso de conveniências práticas, econômicas, políticas, jurídicas, reforçado retóricamente por valores morais absorvidos da tradição religiosa, e com frequência, dotados, nesse novo contexto, de um sentido completamente invertido. O homossexualismo oferece algum risco para a sociedade? É claro que não. Há a hipótese de que se todos fossem homossexuais a humanidade acabaria. Mas aí você está julgando uma situação de fato em função de uma hipótese impossível, porque acabamos de ver que o homossexualismo é um componente instintivo e como tal ele não é determinante, mas apenas predisponente. Ele jamais poderá se tornar universalmente dominante –– por mais propaganda que exista e que se faça, porque isto é impossível. Portanto, você inventa uma hipótese hiperbólica, impossível, aplicando suas conclusões e raciocínio para uma situação de fato que não corresponde à hipótese que você está aventando. Provar que o homossexualismo é definitivamente prejudicial à sociedade é algo impossível –– porque em alguns lugares ele foi prejudicial, noutros não foi, noutros foi útil, de acordo com uma infinita variedade de situações vividas pelas distintas sociedades humanas. O que é a utilidade social? É a conveniência de uma sociedade concreta em particular. Não é uma questão genérica. Não é possível dizer que determinadas coisas são úteis à sociedade e outras coisas são prejudiciais; não, porque isso varia de acordo com a infinita diversidade das situações vividas. Quando se fala de utilidade social é utilidade para uma sociedade concreta, em particular. Portanto, as questões de utilidade, que são questões pragmáticas, não podem ter soluções universais. Quem quer que tenha estudado um pouco de lógica entende isso imediatamente. A teoria de que alguma coisa é útil ou prejudicial à sociedade é sempre uma transposição indevida dum plano puramente pragmático para um plano de regras universais. Isso é coisa de gente pouco inteligente e iletrada, metida. Gente sem preparo científico suficiente para lidar com as questões e por isso começa a fazer essas confusões. É possível ter uma solução científica universal para o problema de ser o homossexualismo útil ou prejudicial à sociedade? É impossível! No máximo você vai ficar numa indução incompleta (aqui foi... ali não foi...). Se fosse doença, quem disse que a doença é socialmente inútil ou prejudicial? Quantas doenças não servem como mecanismo de controle espontâneo da natalidade, e acabam resultando em benefício para os sobreviventes? Então, a utilidade social não é uma coisa univoca porque a própria sociedade não é unívoca. A sociedade é composta de elementos contraditórios: o que hoje é prejudicial, amanhã pode ser útil –– e assim por diante. As guerras: às vezes a guerra é prejudicial à sociedade porque algumas foram destruídas por ela, mas outras viveram da guerra. Por exemplo: nós estamos aqui usando computador que nasceu de tecnologia militar. Aliás, se você pensar, todas as descobertas importantes do século XX, em todos os setores –– do computador ao leite condensado ––, nasceram da tecnologia militar incentivada pela guerra. Então, a guerra é boa para quem ganha, é ruim para quem perde, mas, às vezes, é boa até para quem perde. Se os alemães não tivessem perdido a guerra, eles seriam a maior potência econômica da europa? Outra coisa: Se os negros trazidos para a América não tivessem sido escravizados, eles teriam os imensos privilégios que desfrutam hoje? Ou seja, foram vitimas da escravidão durante um tempo, e depois sobem socialmente tornando-se uma camada dominante, prepotente e autoritária –– sem guerra. Tudo isso acontece na sociedade. A ideia da utilidade para a sociedade é ambigua, confusa, e só pode ser compreendida numa sociedade concreta e em relação a um momento determinado. [2:10] Por outro lado, é igualmente fato absolutamente comprovado que a estatização completa da conduta homossexual jamais existiu. Apenas existiu tolerância maior ou menor. O que significa o seguinte: o homossexualismo por si é um fenômeno suficientemente ambiguo e de múltiplas versões, para não poder sequer ser definido de maneira unívoca, quanto mais ser normatizado. E de onde surge a ideia da normatização? Surge da influência do grupo psicopático sobre a multidão da militância e simpatizantes neuróticos. Para o psicopata a coisa mais fácil é neutralizar um sentimento moral, porque ele não sente mesmo. Mais ainda, como o psicopata não tem certos sentimentos, ele tem a facilidade de provocar esses sentimentos nas pessoas –– provocar culpa, por exemplo –– , porque isto para ele é apenas um elemento conceptual que ele pode manipular no raciocínio muito facilmente, afinal o psicopata raciocina sobre as emoções que não tem porque ele sabe que os outros as têm e sabe que apertando determinados botões as pessoas vão ter essa ou aquela reação. A oferta da normatização é a oferta de atenuar, aliviar ou eliminar um conflito moral. E o conflito não será eliminado nun nível profundo no ser humano, mas pode ser eliminado no nível do diálogo coletivo e da cultura. O conflito continua e permanece como se fosse inexistente. A persistência dos sentimentos ruins que estão no fundo terá que ser explicada por outros motivos: os constructos culturais moralizantes que nos condenam. Na verdade, a coisa mais óbvia é o seguinte: o fato de a conduta homossexual ser condenada externamente não implica, de maneira alguma, que você introjete essa condenação e a transforme num elemento conflitivo interno. Não é porque as pessoas estão falando mal de certa coisa que você vai se sentir culpado por aquilo — às vezes sim, às vezes não. O conflito interno é uma coisa e o debate social é outra completamente diferente, sobretudo, se a sentença condenatória que está circulando pela sociedade é uma coisa que você rejeita. Como você poderia dizer que o seu conflito interno é causado por preconceitos que os outros têm –– isso é inteiramente absurdo! Só os seus próprios preconceitos podem criar conflito interno. Fora isso, é um conflito externo com a sociedade. São coisas completamente diferentes que já vêm aí confundidas. Isso significa que tentando abolir por meio do discurso ideológico os conflitos internos de ordem moral a liderança psicopática induz a militância neurótica a jogar sobre terceiros a culpa de seus conflitos interiores. Um dos mecanismos para se fazer isso é construir a identidade homossexual. Como pode haver uma identidade homossexual abrangendo toda essa variedade de condutas sexuais diversas que vão desde o traveco até o machão que vai na sauna buscar outro machão? Observe a academia de musculação e depois olhe a Roberta Close, e me diga se é o mesmo fenômeno. Até com os olhos da cara você percebe que não é o mesmo fenôeno. Pelo simples fato de ser uma relação sexual, ela pode ser desepenhada dentro do campo homossexual com identidade de papéis ou com diferenciação de papéis, mostrando que se trata de fenômenos estritamente diferentes e com uma dinâmica interior totalente diferente. A construção da identidade homossexual é um procedimento histérico que não corresponde ao sentimento real do indivíduo. Por exemplo, o caso da discussão na sauna gay, que mencionei, já mostra que essa identidade não existe porque os frequentadores da sauna tinham uma repugnância física pelos travecos, travestis e transexuais que estavam entrando lá. Como é possível dizer que há uma identidade de gênero aí? Ao contrario: há um abismo de gênero. Vamos supor: se entrasse ali um macho heterossexual, ele causaria menos repugnância do que um homem com aparência de mulher. Então, toda esta identidade homossexual, essa sim, é um constructo totalmente artificial, que as pessoas vestem, mas ao qual elas não se adaptam totalmente: o conflito continua. Daí a necessidade de encontrar um bode expiatório para o conflito, e o bode expiatório o que é? É o preconceito alheio. Ou seja: o desconforto interno passa a ser causado pelo que o terceiro diz. Terceiro que você despreza! Vê-se, então, que nós estamos no reino do fingimento histérico, e quando o fingimento histérico se espalha por toda uma comunidade, esta comunidade perde toda a capacidade de julgamento moral e começa a apelar a procedimentos judicativos os mais extravagantes e absurdos. Esta semana ocorreu a visita de um grupo de líderes gaysistas ao Obama, na Casa Branca. Eles aproveitaram para posar diante de uma foto do Ronald Reagan fazendo o famoso gesto correspondente ao nosso “vtnc” e um deles justificou: “O Ronald Reagan tem as mãos sujas de sangue, porque foi no governo dele que começou a AIDS.” A AIDS só pode ser transmitida mediante um contato corporal real. Como o Ronald Reagan poderia ter alguma culpa disso? Note bem: já na época em que começou a AIDS, o pessoal gaysista fazia passeatas contra os congressos médicos pelo atraso em descobrir uma cura, como se o atraso em descobrir a cura fosse o responsável pela existência da doença. E nunca você viu um líder gaysista assumir parcela da responsabilidade pela disseminação da AIDS, mesmo sabendo-se que a incidência da AIDS, ao menos no início, foi bem maior na comunidade homossexual do que nas outras. Nenhum disse: “Nós ajudamos a fazer isso”, quando é óbvio que ajudaram. Então, a incapacidade de sentir culpa é um traço psicopático. Quer dizer que todas as pessoas envolvidas nesta ideologia são psicopatas? Não. São apenas pessoas contaminadas de uma neurose histeriforme com discurso copiado de psicopatas. São falsos psicopatas. Bastam três psicopatas reais para infectar disso aí uma multidão inteira. E daí vão surgir outros falsos problemas mais confusos e mais enlouquecedores ainda, como, por exemplo, esse que eu estava discutindo no começo: o da adoção por homossexuais. Homossexuais podem criar uma criança? Claro. Quantos homossexuais já não criaram crianças que cresceram absolutamente normais? Eu mesmo conheço algumas. Uma coisa é um homossexual, ou dois homossexuais, ou três homossexuais criarem uma criança. Outra coisa é eles criarem esta criança enquanto homossexuais, passando para a criança a sua identidade homossexual. Essa identidade, nós vimos, é um constructo histeriforme. Ela não corresponde à verdade da experiência humana, à verdade da experiência psicofísica humana. Ela não corresponde à verdade dos sentimentos. Ela é, então, um recurso, uma muleta que você usa para sufocar um conflito que, no entanto, continua lá. Se você educa uma criança dentro de uma perspectiva em que ela tem de aceitar a sua identidade homossexual, você já está neurotizando a criança desde o início. Não porque você é homossexual, mas porque você aderiu a um discurso psicopático. O observador externo moralista, católico ou protestante, acha que o dano vai decorrer para a criança da homossexualidade do cara, mas não é da homossexualidade, é do fator ideológico neurotizante. Esses problemas aparecem superpostos, e as pessoas quando vêem coisas superpostas acham que é a mesma porque não têm a profundidade suficiente para separar as várias camadas do problema. Eu acho que isso encerra a nossa explicação, sem prejuízo de que possamos depois retomar o problema. [2:20] Este mesmo método que eu estou usando aqui − eu não estou expondo o método, mas exemplificando −, talvez mais tarde eu exponha a teoria do método, mas em parte está na minha apostila “Problemas de Método nas Ciências Humanas” − ele pode e deve ser aplicado para a análise de qualquer debate público; por trás de todo debate público existe sempre alguma questão real. Só que a questão real é tão complicada que o debate público só existe na base da sua simplificação abusiva e da transformação da verdade numa mentira convencional de parte a parte. Quando eu escuto estes argumentos de gaysistas e anti-gaysistas, eu vejo que esse pessoal está discutindo o sexo dos anjos, porque não é disso que se trata. O problema nunca é este. Nunca é do que eles estão falando: é sempre outra coisa; é um problema real. A solução é as pessoas serem educadas para suportarem os seus conflitos. E para elas suportarem os seus conflitos é necessário que elas sofram, não uma condenação social, mas um apoio social. Apoio social não significa desistir de dizer que aquilo é pecado. Você vai continuar dizendo que é pecado e que antes de morrer é necessário arrepender-se. Mais ainda, você vai ter de carregar o germe do seu arrependimento desde já, como todos nós carregamos o tempo todo. Qual é o problema de se sentir culpado? O normal é você sempre carregar o seu sentimento de culpa e usá-lo como uma força que vai incentivar o crescimento da sua consciência e a sua permanente desintegração positiva: desintegração e a recriação de uma estrutura mais complexa e mais forte e de uma personalidade melhor. Se o cara é homossexual, ótimo. Use isso como elemento da sua crise interior: você sabe que tem aquele impulso e que você dificilmente consegue reagir; por um lado você tem um impulso ético e por outro lado você tem a consciência religiosa. Você tem tudo isso junto e vai ter de se virar com tudo isso, como todos nós fazemos cada um com os seus pecados. Qual é a dificuldade? Então nós temos de nos esforçar para que essas pessoas tenham mais maturidade humana. Se ficarmos só descendo o cacete neles só para eles deixarem de ser homossexuais, talvez eles até consigam deixar, mas vai ser na base de uma auto-repressão histérica e a sua personalidade não vai se tornar mais bonita por causa disso e não vai assegurar absolutamente a salvação da sua alma, porque, na medida em que o sujeito abdica da conduta, ele pode desenvolver uma revolta contra isso. Essa abdicação forçada, por assim dizer, pode motivar uma repressão mais profunda da voz da sua consciência moral por achar que já fez um sacrifício excessivo. Eu comparo isso com o cara que quer consertar um relógio com martelo de borracheiro. É uma questão delicada, complexa, que deveria ser sempre abordada de uma maneira estritamente científica, mas quando eu falo científica eu não estou falando de uma pesquisa aqui, uma pesquisa acolá. Não. A consciência com que você lida, o negócio tem de ter uma objetividade científica. E note bem que não é possível objetividade científica sem a consciência também da dimensão eterna do ser humano; não é possível uma coisa sem a outra, porque se você resume tudo à vida presente, você está falseando a escala de tempo na qual o ser humano existe. Tem de misturar a mais estrita escrupulosidade científica com a consciência de imortalidade, com a paciência, e também com o cuidado com a ordem social; porque nós não podemos desmantelar a ordem social só porque um grupo quer. Não é assim. Tudo isso tem de ser levado em conta ao mesmo tempo. Nós temos algumas perguntas aqui. Aluno: Eu que vou fazer 59 anos saio muitas vezes abalado, no sentido de envergonhado, miserável, com o que ouço nas suas aulas e me pergunto se você tem idéia do que essas aulas podem estar causando nos jovens quando você passa, no meu entender, pouca esperança com relação ao Brasil e ao mundo, pelo menos para as próximas décadas? Em outras palavras: como ensinar fortalecendo aquele que ouve, sem deprimi-lo e frustrá-lo? Olavo: O que eu puder fazer para que as pessoas percam toda a esperança neste mundo eu farei porque esta é a obrigação número um. Leia na Bíblia: este mundo está condenado, este mundo é evanescente, este mundo se compõe de fragmentos de percepção que só formam unidade quase por um milagre e toda a nossa esperança está colocada na vida eterna e não nesta. Esta vida aqui não é para você ter esperança. Aqui você tem uma missão, um dever, e você tem de sair daqui bonito. É isso que eu espero que ocorra a todos, pouco importando se você é heterossexual, homossexual, tetrassexual, assexual. A sexualidade não é um elemento fundamental dessa coisa. Importa realmente o que Dabrowski chamava de desintegração positiva, conduzida por um ideal moral elevado, ideal não para o mundo, mas para você, porque hoje em dia todo mundo sabe como o mundo deve ser: eles querem um mundo melhor. Que tal um você melhor? Se você conseguir melhorar você, talvez consiga melhorar um segundo, um terceiro, um quarto. É o negócio do Confúcio: o homem corrige primeiro a si mesmo, depois corrige a sua família, depois corrige os seus vizinhos e assim vai, se ele conseguir até consertar o bairro, já fez muita coisa. Mas hoje em dia qualquer idiota, qualquer personalidade disforme, imatura, neurótica, às vezes psicopática, tem um projeto de mundo melhor. Eu não quero que vocês tenham isso. Eu estou dizendo que tudo isso é uma fantasia macabra. Uma bela vida aqui não é uma vida em que todas as suas fantasias mundanas se realizem. O sujeito só pode acreditar que todas as suas fantasias mundanas vão se realizar até aos quinze anos. Depois disso se ele continua achando isso é porque realmente ele é um idiota. Este mundo, como diz a oração (Salve Rainha) é um vale de lágrimas, nós vivemos entre os sofrimentos, as lágrimas, o trabalho, a dificuldade; e, no meio disso, nós temos de resgatar aqueles poucos elementos que tornam isso suportável: a bondade, a generosidade, o amor ao próximo, o perdão, porque isso vai constituir a nossa verdadeira personalidade. É isso que nós temos de criar durante a vida. Não é para ter esperança no mundo, é para sair daqui um pouco melhor do que entrou. Aluno: Hoje eu li o seu artigo “A Camuflagem da Camuflagem”[ Diário do Comércio, 21 de junho de 2012, disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/120621dc.html ] e ao término não pude deixar de lembrar de um artigo que eu li recentemente de Julius Évora, “Os Instrumentos da Guerra Oculta”. Nesse artigo ele enumera uma série de instrumentos utilizados por organizações secretas e anti-tradicionais para a subversão da ordem mundial. Entre estes instrumentos está a sugestão positivista, que ele descreve da seguinte forma: “É preciso acostumar-se à idéia de que o positivismo histórico não é tanto um produto espontâneo, o preconceito de uma mentalidade extremamente estreita, mas uma sugestão disseminada metodicamente pelas forças anti-tradicionais na cultura moderna para encobrir a sua ação. Aqueles que acreditam que a história é feita unicamente pelos homens e determinada por fatores econômicos, políticos, sociais, nada mais vêem para além disso. É precisamente de um mundo que não vê mais além que precisa aquele que quer agir secretamente (...). Olavo: Limitar a perspectiva humana, aquilo que Antonio Gramsci chamava de a terrestrialização absoluta do pensamento, é uma maneira de uma força historicamente agente ocultar a sua ação. É claro que é isto. Se você proíbe certas questões, fale por você. Você não pode investigar, mas eu posso. Não podemos aceitar as limitações positivistas porque elas são um forte instrumento de controle ideológico. Neste ponto Évora tem toda a razão. Aluno: (...) Há relação entre o que vocês dois estão dizendo? Olavo: Até certo ponto é a mesma coisa, neste parágrafo, porque Évora falou muita bobagem também em outros pedaços, não nesse. Aluno: Estive lendo Mário Vieira de Mello e uma coisa me chamou a atenção. Em Desenvolvimento e Cultura: O Problema do Estetismo no Brasil, o autor afirma que Aristóteles se afastou do projeto socrático-platônico ao pretender construir uma metafísica autônoma não subordinada a uma ética, rompendo assim a relação [2:30] indissociável e hierárquica que, na filosofia platônica, se manteve os princípios da verdade e do bem. Aristóteles aparece aqui, se bem entendi, como a origem remota da dissociação e finalmente da inversão de valores. O verdadeiro e o belo primeiro se tornam independentes do bom e depois o subordinam, sem o qual o fenômeno do estetismo não teria sido possível. Olavo: Isso aqui é uma distorção absolutamente monstruosa, mas ele não é o único que faz isso. Tem muita gente que acredita nisso: que Aristóteles se afastou do platonismo e depois se transformou numa espécie de naturalista, um antepassado dos materialistas etc. Isso é julgar o filósofo pelas conseqüências que apareceram dois mil anos depois dele. Isso não faz sentido. Se o aristotelismo tivesse realmente este sentido, já deveria ter-se manifestado ao longo da história em todos os aparecimentos dos vários aristotelismos e isso de fato não aconteceu. Não se pode esquecer que o aristotelismo foi o que fundamentou a construção de praticamente toda a teologia católica. Como você poderia dizer que na teologia católica o bem e a verdade estão separados? Essa é uma confusão entre distinção e separação. Uma coisa ser verdadeira e boa não é a mesma coisa numa esfera, mas em última análise a realidade suprema será efetivamente o supremo bem, o Deus. Quando Aristóteles define o espírito divino como noesis, noesius, a consciência da consciência, o autoconhecimento do autoconhecimento, é evidente que ele identifica isso como o supremo bem porque numa outra parte da obra ele já tinha dito que a vida contemplativa é o caminho do supremo bem. Se para nós a vida contemplativa é o nosso bem, aquele que já é a própria vida contemplativa é, evidentemente, o bem em si mesmo e não apenas como objetivo da vida como é para nós. Essa separação aqui é apenas uma distinção metodológica incontornável que o Mário Vieira de Mello, por ser mau leitor de Aristóteles, por lê-lo na verdade com preconceito — ele não era nada burro, mas era um homem duma emotividade exagerada: acompanhando aquela discussão dele com o José Guilherme Merquior vê-se que o homem ficava quase apoplético —, ele era um emocionalista. Isso não diminui o valor do livro dele sob outros aspectos; afinal de contas ele estava falando do problema do estetismo no Brasil, o que não significa que ele tenha uma compreensão adequada desse fenômeno em escala mundial e muito menos que ele entenda seriamente a filosofia de Aristóteles. Mas essa coisa que eu falei para vocês do noesis, noesius e da vida contemplativa como máximo do bem humano, eu acho que isso já responde inteiramente esta questão; o conceito que Aristóteles tinha de Deus era exatamente o mesmo de Platão: o supremo bem; eu não vejo como eliminar isso aí. Se na Física ele trata de Deus apenas como primeiro motor imóvel, não quer dizer que Deus seja para ele apenas o primeiro motor imóvel, uma força física que coloca tudo mais em movimento, porque em outro lugar ele já explicou que é noesis, noesius, e que Deus move o mundo não como uma força física, mas como a força do bem que tudo atrai para si. Dante vai condensar isso aí naquele verso maravilhoso: “l’amore que muove il sole e l'altre stelle” (o amor que move o sol e as outras estrelas). Essa é a expressão máxima do aristotelismo medieval. O Mário Vieira de Mello era menos um filósofo do que um pregador. Era como um Roberto Mangabeira Unger, um pregador. Ele está falando menos do que é do que ele acha que deveria ser. É um entusiasta, admirável sob muitos aspectos, mas é essa mesma falta de realismo filosófico que o induz a considerar Nietzsche o Sócrates do nosso tempo. Por que ele não perguntou isso a Nietzsche? Nietzsche odiava Sócrates e ouviria essa afirmação como altamente ofensiva. Muito bem, eu acho que por hoje nós temos de parar aqui. Temos aqui também uma questão sobre o prazer sexual e a procriação, mas eu vou deixar isto para outra vez. Nós podemos continuar com esse assunto outro dia. Espero que todos tenham entendido e que me ajudem analisando esse debate, essa coisa toda, os vários aspectos desse debate à luz dos vários princípios que eu coloquei aqui. Até semana que vem. Muito obrigado! [2:35:34] Tanscrição: Paulo Ricardo Costa Pinto, Marra Signoreli, Gio Fabiano Voltolini Jr., Leonardo Torres, Evandro Santos de Albuquerque, Eduardo A. Aguiar. Revisão e notas biográficas das pessoas referidas: Eduardo Garcia de Queiroz. Referências bibliográficas