Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 157 02 de junho de 2012 Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Nesta aula vamos ter algumas novidades. A primeira é que ela terá que ser traduzida em inglês, por que aqui está presente a nossa amiga Marguerita Noyes e uma convidada especial: Judith Reisman, que muitos de vocês já conhecem pelos livros que escreveu. A segunda é que nós temos um texto on-line do Romano Guardini, que tem um interesse excepcional para nós. Mas antes de entrar na breve análise desses textos eu gostaria que a Judith Reisman falasse com vocês durante 10 minutos. Muitos de vocês já a conhecem, mas outros não, e é alguem cujo trabalho tem que ser acompanhando, em razão de sua extraordinária importância histórica para a cultural americana. Judith: Hello, nice to speak with you, I'm honored to be here with Olavo and to speak to his students, and you want to know something about me, okay. I'm an elder statesman, in a sense that I have very grey hair, and... in older, so I can speak to you a little bit historically, and would be delighted to do so. Okay, so, I have the PhD which people consider to be some of important, Doctor of Philosophy, and I got that because people consider that to be important, and because it was very important, really, to have some sort of a degree in the USA, an advanced one, in order to write certain kinds of books, and speak to critical issues. I don't necessarily agree with that concept, but it was important and so I did that, and have written several books on some important issues to anyone out there right now, and globally. I had a grant from the United States Department of Justice, Juvenal Justice and Delinquency Prevention, and I was principal investigator on a scientific project that looked at images of children crime and violence in Playboy, Penthouse and Hustler. Our grant identified child sexual abuse and child pornography in Playboy Magazine, from 1964 through cartoons, up through, recently actually, but the end of the grant was 84. It was a grant that therefore established the promotion of children as sexual targets, to unsuspecting readers, not readers, unsuspected consumers at the time. I did that, I exposed, was a whistleblower, or exposed the research of Dr. Alfred Kinsey, who, in fact created the body of human sexuality education that has come to dominate the world, much to our distress, globally. So, now when we, looking at internet pornography and the sex trafficking industry and all the things that have taken place in our societies, almost all our societies, we have to ask ourselves how this happened. And I hope that the books that I have written will help identify exactly how that did happen. So, Olavo will allow you to go on to my website and you will be able to read some of the work that I done, but instead of teaching people about Socrates and Aristotle and the history of our societies, we have now gotten to a place where we are increasingly ignorant, ignorant of our own society's history, and ignorant of human behavior, and obviously human sexuality. So, I have, thank you very much for this opportunity to speak to all today, and I personally look forward to hearing Olavo speak to you today about Socrates and all of the other wonderful things that, wonderful information, wonderful body of knowledge, that he will bring to you. What an opportunity that you now have, and I wish that everyone had such an opportunity, so thank you very much, it's good to be here. Judith: Olá. É bom falar com vocês, estou honrada de estar aqui com o Olavo, e de falar com seus alunos. Vocês querem saber algo de mim? Ok. Sou uma velha figura pública, no sentido de que eu tenho o cabelo bem branco, assim eu posso falar com vocês um pouco do ponto de vista histórico, e eu gostaria muito de fazê-lo. Eu tenho Ph.D. (Doutora em Filosofia), o que algumas pessoas consideram importante, e eu o tenho por que algumas pessoas o consideram importante, e por que foi de fato muito importante ter algum tipo de formação avançada para que eu pudesse escrever certos tipos de livro, e poder falar de temas críticos. Eu não concordo necessariamente com isso, mas foi importante. Então eu fiz o Ph.D. e escrevei vários livros sobre algumas questões que são importantes para qualquer um aqui e globalmente. Ganhei uma subvenção do Departamento de Justiça, Justiça Juvenil e Prevenção à Delinquência, e fui a principal pesquisadora em um projeto científico que observou as imagens de crime contra crianças e violência na Playboy, Penthouse and Hustler. Nossa subvenção identificou abuso sexual de criança e pornografia infantil nos cartoons da Playboy, de 1964 até recentemente, na verdade, mas a subvenção foi em 1984 nos seus cartoons. Foi uma pesquisa que mostrou a promoção de crianças como alvos sexuais a leitores insuspeitos, não leitores e consumidores insuspeitos a época. Fiz isso: eu expus, fui um apito, ou expus as pesquisas do Dr. Alfred Kinsey que, na verdade, criou o corpo da educação sexual humana que veio a dominar o mundo, muito para nossa angústia, globalmente. Tradução: Ela disse que ela teve uma espécie de financiamento para pesquisar imagens de sexo, violência nas revistas Playboy, Hustler e Penthouse, e desde então ela conseguiu estabelecer certas conexões entre essas revistas e a promoção da pornografia. Essa pesquisa terminou em 1985 e ela também fez uma pesquisa importante sobre o Alfred Kinsey, a influência do livro dele sobre a vida sexual americana. Então, analisando a pornografia na internet e a indústria de tráfico sexual, e todas as coisas que acontecem hoje na maioria das sociedades, temos de nos perguntar: como isso aconteceu? E espero que os livros que escrevi ajudem a identificar como exatamente essas coisas aconteceram. O Olavo convidou vocês a irem ao meu site e vocês poderão ler alguns dos trabalhos que fiz, mas ao invés de ensinar as pessoas sobre Sócrates e Aristóteles e a história de nossa sociedade, chegamos a um estado de ignorância crescente, ignorância sobre a história da nossa própria sociedade, e ignorância sobre o comportamento humano e, claro, sobre a sexualidade humana. Então, eu agradeço a todos por esta oportunidade e falar com vocês hoje, e eu pessoalmente estou ansiosa para escutar Olavo falar hoje com vocês sobre Sócrates, e todas as coisas maravilhosas, as maravilhosas informações, o maravilhoso corpo de conhecimento que ele lhes trará. Que oportunidade vocês, agora, têm, e eu desejaria que todos tivessem tal oportunidade. Portanto, eu lhes agradeço muito. É muito bom estar aqui. Olavo: Então, eu espero que vocês visitem o site da Judith Reisman e leiam seus livros, que são de uma importância extraordinária; um dos documentos mais incriveis sobre a história americana, e que mostram como grandes mudanças sociais, históricas, podem acontecer sem que ninguém tenha a menor idéia da origem das coisas, e como tudo se revela 30 anos depois. E, além disso, é uma grande alegria ter a Judith aqui: ela é uma das pessoas mais extraordinárias que eu tenho conhecido; onde ela está é sempre uma festa, é uma alegria extraordinária. Então agora vamos ao assunto de hoje. Vocês vão encontrar ai um texto de Romano Guardini, que é mais conhecido como teólogo, mas é um dominador completo [00:10] da técnica filosófica. E eu, quanto mais o leio, mais descubro que ele é um dos meus gurus (uma espécie de guru retroativo), porque várias coisas que eu acreditava ter descoberto, ele já tinha descoberto nos anos 40, 50. Eu vou ler o texto do começo até o fim e depois voltar e comentar pedaço por pedaço. A situação do texto é a seguinte: Sócrates encontra com Eutifron na frente do tribunal, e Eutifron lhe conta que está processando seu próprio pai, e então Sócrates fala da dificuldade, às vezes, de discernir o certo do errado, e lhe pergunta o que seria a verdadeira piedade. E Eutífron responde que piedade é, naturalmente, agir como os deuses, citando o exemplo de Saturno e Júpiter, que puniram seus próprios pais. Então daí segue-se o comentário de Romano Guardini, que apesar do nome de familia italiana, é alemão. “A resposta que Eutífron dá à pergunta filosófica de Sócrates é a resposta mítica – mais exatamente a resposta mítica que no curso da evolução histórica perdeu seu sentido apropriado. Para ser uma verdadeira resposta, ela pressupõe uma certa visão do homem e da religião com seu tipo particular de experiência da vida. Para essa visão, a realidade é ao mesmo tempo primeiro plano e plano de fundo. Ela consiste, não de sistemas cientificamente transparentes de matéria e energia, mas de forças de ordem ao mesmo tempo natural e numinosa, que conflitam umas com as outras, e desse conflito incessante emerge continuamente a vida. A verdade mítica reside no fato de que essas forças e sua relação mútua se revelam ao espectador em formas e processos válidos. As imagens, portanto, pelas quais isso se faz são algo diferente das formas irresponsáveis de uma arte posterior, esteticamente emancipada. Elas são a expressão imediata da verdade essencial: e o homem que sabe delas e está familiarizado com elas vive dentro da ordem existencial. A atitude mítica implica, ademais, que o homem ainda não tenha se dissociado daquelas forças por meio do julgamento crítico e da habilidade técnica, mas seja ainda controlado diretamente por elas. Ele tem uma percepção constante do funcionamento delas, não somente nas constelações, nos processos atmosféricos, nos ritmos de crescimento, mas também no seu próprio ser. Elas determinam a sua vida instintiva, regulam as emoções e paixões da sua mente, e se mostram em sonhos e inspirações. O destino dele é sempre obra dessas forças: a ordem da família e da comunidade resulta da operação delas e ao mesmo tempo concede uma proteção contra a sua tirania. Enquanto tudo isso se mantém em funcionamento, a piedade significa um olhar reverente, uma respeitosa auto-rendição, uma constante interpretação da própria vida, assim como da vida do mundo circundante, em conformidade com aquelas figuras e lendas que foram recebidas de experiências dos visionários do passado e transmitidas pela tradição religiosa; e a questão do que é verdade e não-verdade num sentido religioso, do que é certo e errado, realmente é respondida mediante a referência à figura de um deus ou aos feitos de um herói. Tudo isso ainda não tem nada a ver com a filosofia. Mas no curso da História a constituição mental que o produz vai-se dissolvendo gradualmente. As idéias dos filósofos jônicos da natureza marcam, sob certos aspectos, o ponto crítico. A “Água” de Tales, o “Infinito sem Forma” de Anaximandro, o “Ar” de Anaxímenes, o “Fogo” de Heráclito, certamente ainda não são conceitos filosóficos no sentido próprio, são apenas imagens da realidade primal; mas neles já emerge uma nova relação com o mundo. O homem começa a destacar-se do conjunto dos poderes que tinham sido até então uma experiência direta e que o abrangiam completamente; ele começa a perceber a realidade diferentemente e a examiná-la de uma maneira nova, a maneira crítica e científica. Ele não apenas contempla os fenômenos, mas tenta ir até o que está por trás deles. Ele não apenas investiga o sentido das imagens válidas, mas toma consciência da coerência de causa e efeito, de todo e parte, de meios e fins, e se sente desafiado a dar uma explicação racional. Ele já não se vê envolvido num jogo misterioso de poderes naturais e divinos, que conforme a sua natureza têm de ser evitados ou dirigidos por meio de ritos e precauções cerimoniais e mágicas; ele começa a ver as coisas em torno como objetos naturais, e a adquiri-las e usá-las conforme suas qualidades efetivas. Assim, o desenho tradicional do mundo perde seu caráter originário. Os homens continuam a viver nele, mas sem estar profundamente comprometidos com ele. A crítica vai crescendo; e, como ela ainda não conquistou seus padrões apropriados, ela tem um caráter amplamente arbitrário e destrutivo.” Então, aí Guardini vai dizer que nesse ponto da história é onde entra Sócrates, que tenta recuperar, já nos termos de uma linguagem filosófica, os valores que foram perdidos quando da depauperação, do empobrecimento do simbolismo cosmológico. Então o ponto que importa, que mais nos interessa, é que no momento dessa ruptura, nesse “momento onde o homem se retira do ambiente cosmológico em torno", como disse o Guardini, acontecem duas transformações fundamentais [00:20]: uma delas é a autoconstituição da razão como um domínio independente; e a segunda é a constituição da natureza como puro objeto exterior. Vejam que até aquele momento não existia natureza no sentido em que nós a entendemos hoje; o que existia era um ambiente cosmológico total, onde a idéia de uma presença de puro objeto e o sentido (ou, digamos, a voz dos acontecimentos) ainda não estavam separados. Notem que essa experiência mítica do cosmos é ainda a que todos nós temos na nossa infância. E notem também que a separação entre objeto e sentido, com a qual nós nos tornamos acostumados, é, no fim das contas, apenas uma convenção. O momento em que a razão se destaca do universo circundante e adquire uma existência independente, a existência dum poder independente, marca o instante em que uma nova dimensão dos significados se abre para o ser humano. Digamos, é o instante em que a nova possibilidade de compreensão do significado se abre para o ser humano, porque o significado já não é buscado apenas naquilo que está patente nas aparências do cosmos, mas agora é possivel buscar o que nós chamaríamos de o significado transcendente. Ou seja: o significado da totalidade da existência pode estar para além do cosmos. Então isso, evidentemente, abre o acesso à idéia de um significado puramente espiritual. Porém, evidentemente, esse significado puramente espiritual não é objeto de experiência; ele é conhecido somente através da intervenção profética, ou seja, das revelações, e também pode ser buscado através da especulação filosófica. Por outro lado, as revelações proféticas também têm de ser interpretadas e transfiguradas em termos doutrinais, de uma maneira que se parecem muito com as teorias filosóficas. A única diferença entre uma teoria filosófica e uma exposição teológica é que esta última parte do texto revelado, e a primeira pode ou não fazê-lo. Isto significa que essa nova modalidade de acesso ao significado da existência toma a forma da teoria, ou seja, de uma visão puramente intelectual; ou seja, ela já não tem aquela presença imediata das forças da natureza que antes representavam o significado das coisas. Isto quer dizer que antes dessa ruptura que, segundo Guardini, é marcada pelo advento dos filósofos jônicos, o significado era algo que estava imediatamente presente nas próprias forças que circundavam a presença humana, então era como se o homem vivesse imediatamente dentro de um teatro de cujo enredo ele mesmo fazia parte, e onde todos os objetos presentes eram personagens da trama. Isto quer dizer que, por exemplo, as transformações da atmosfera, a chuva, a tempestade, ou o sol, o tempo quente do verão, tudo isso dizia alguma coisa [00:30]: não haviam objetos inertes, tudo era personagem. Depois dessa transformação que introduz a razão como um domínio separado, temos o seguinte: a experiência de penetrar num plano mais alto do significado, ao mesmo tempo em que não estamos mais em um diálogo direto com as coisas, e sim num diálogo com nós mesmos. Vejam: a possibilidade de que esse significado seja compartilhado por várias pessoas depende de uma técnica de comunicação filosófica. Sócrates e Platão conseguem se comunicar com um grupo reduzido de pessoas por que os elementos portadores de significado já não são forças visíveis, mas conceitos abstratos. Ou seja, a possibilidade de participar, de formar uma comunidade de significado dependia do domínio da técnica conceptual, que é uma coisa evidentemente muito mais sutil e evanescente do que a presença das forças da natureza. Para complicar mais ainda, a comunicação por meio de conceitos podia ser obstaculizada por infinitas objeções lógicas, de modo que a discussão lógica também se afirma, a partir daí, como um domínio independente, e o acesso ao significado podia ser adiado infinitamente por meio de discussões e objeções. Vejam que Sócrates nunca confia completamente na sua capacidade persuasiva porque a eficácia de sua comunicação dependia de que as pessoas com quem ele conversava tivessem as mesmas experiências interiores; experiências que não eram fáceis e de acesso público, como as experiências do tipo mítico, de maneira que o acesso a uma dimensão mais profunda ou mais elevada do significado veio junto com a perda da sua comunicabilidade. Mais ainda: a relação entre esse significado mais alto e os objetos físicos da experiência era altamente problemática. Vejam que a Bíblia diz: “os céus e a terra cantam a glória de Deus”. Mas agora já não temos uma técnica interpretativa que existia na era mítica. São Francisco de Assis conversava com os passarinhos e com as pedras, mas nem todos nós temos a capacidade de fazer isso, de modo que desde os primeiros tempos da constituição da linguagem filosófica abre-se um abismo entre o universo do significado e o universo da presença física. Desde esse momento até a Renascença há um imenso esforço para reconquistar a conexão, o elo entre significado e presença. Acontece que o universo do significado ia se reduzindo cada vez mais ao universo da razão ou do pensamento, e o progressivo aperfeiçoamento da técnica racional foi cavando cada vez mais profundamente esse abismo entre significado e presença, porque o universo da razão é constituído de puras relações lógicas, que em princípio não têm nada a ver com a presença dos objetos físicos. Foi essa a razão do imenso sucesso da Física de Newton, porque no instante que ele acreditou ter descoberto o princípio matemático do funcionamento do universo físico, [00:40] o universo da razão e da presença estavam novamente conectados; já não estavam conectados como um universo mítico sob a forma de vozes ou de personagens que falavam. O significado se mostrava através de personagens que falavam, mas agora o universo físico ilustrava leis matemáticas que regiam o universo como um todo. Essas leis matemáticas, por sua vez, eram, na perspectiva de Newton, a própria voz de Deus. Ou seja, Deus concebeu o universo em termos matemáticos e a presença física ilustrava a vontade divina: entre a presença física e o significado, a razão matemática aparecia como a mediadora. Porém, é claro que essa ligação é bastante sutil e evanescente, e as relações entre a razão e a presença física continuam sendo objeto de análise crítica, e até de negação. Como, por exemplo, vemos em David Hume, com a sua separação abissal entre impressões e idéias, de modo que até hoje nós não temos muita segurança de que essas leis matemáticas expressam a realidade da presença física, a realidade da conexão entre significado e presença. Na mais avançada das ciências, que é a física quântica, não há nenhuma certeza de que os objetos que ela estuda correspondam à realidade física, correspondam efetivamente ao mundo físico, ao mundo material. Os quanta, na verdade, parecem ser mais entidades puramente matemáticas. Esses entes aparecem na experiência, mas de uma maneira indireta, e ninguém sabe exatamente qual é a relação entre aquele mundo infinitesimal que a física quântica estuda e os objetos físicos acessíveis aos sentidos. Há até quem sugira que o uso de instrumentos, que são entidades macroscópicas, introduz uma distorção nas observações por se tratar de uma mescla de dois planos distintos de realidade. Enquanto as coisas estão acima do domínio das ciências, a nossa cultura continua vivendo numa atmosfera que ainda é a desses primeiros filósofos jônicos, em que a natureza se constituiu em puro objeto independente, ao passo que o significado fugiu para uma dimensão quase inacessível. O senso da conexão entre presença e significado de fato se perdeu, e a única conexão efetiva entre razão e a presença física é o domínio técnico que nós temos sobre alguns processos naturais. Mas, evidentemente, o domínio técnico não nos dá uma resposta. Não é a mesma coisa você conseguir dominar tecnicamente um processo e compreender o significado dele. Aliás, uma das características eminentes da técnica é a sua capacidade de fazer coisas que nós não compreendemos; ou seja, nossa capacidade de ação sobre o mundo parece que transcende a nossa capacidade de compreensão. Por exemplo, não sabemos exatamente qual a relação entre o ser humano e as demais espécies animais [00:50], e no entanto nós já estamos ao ponto de poder mesclar essas duas espécies. Neste momento está sendo estudada a geração de seres híbridos entre, por exemplo, homens e macacos, ou seja, nós estamos misturando uma coisa que não sabemos o quê é com outra que nós também não sabemos o quê é; nós progredimos muito nos conhecimentos dos objetos da natureza, mas é um conhecimento que nada tem a ver com o significado. Essa perda do significado provoca fenômenos como, por exemplo, a Nova Era, que é uma tentativa desesperada de retornar ao universo mítico; tentativa de, por exemplo, poder conversar com as árvores, de decifrar o sentido dos fenômenos atmosféricos. É como se as pessoas estivessem cansadas de viver em um mundo de objetos inertes e mudos. Ao mesmo tempo, a técnica de acesso ao significado transcendente, através da prece, da revelação, que nunca foi compartilhada por muita gente, vai se perdendo cada vez mais, de modo que continuamos vivendo num mundo onde, por um lado, há uma imensidão de objetos inertes e mudos, que não nos dizem nada e que, em certos momentos, podem parecer totalmente desprovidos de significado, induzindo-nos à experiência gnóstica do Universo absurdo e hostil; e por outro lado temos um gigantesco aperfeiçoamento dos instrumentos da razão, especialmente sobre a forma das matemáticas e da lógica matemática. Mas aí surge um problema: recentemente, alguém enviou a um grupo de matemáticos na internet a minha crítica a teoria dos transfinitos de Georg Cantor, em que ele afirma que pode haver um infinito maior que outro. A maioria deles reclamou que eu estava dando indevidamente um sentido ontológico à teoria de Cantor, ao invés de compreendê-la em seu sentido puramente matemático. Essa crítica não era desprovida de sentido, porque eu, propositalmente, não queria compreender a teoria de Kantor no seu sentido puramente matemático. O que eu queria demonstrar é que ela não faz sentido do ponto de vista ontológico. Pois eu perguntava: o que é o puramente matemático? O mundo puramente matemático é constituído de puras relações sem objetos, sem substâncias. Onde podem existir puras relações sem objetos? Evidentemente elas só podem existir como hipóteses, no pensamento, de modo que quanto mais se aperfeiçoa as técnicas puramente matemáticas, mais se penetra num universo de puros pensamentos. Seria absurdo presumir que esse mundo de puros pensamentos tivesse alguma validade objetiva, o que significa que o aprofundamento na técnica matemática levará, cada vez mais, a um isolamento do mundo ontologicamente consistente. No entanto, essas relações matemáticas, para aquele que as estuda, têm uma autoridade, embora elas se constituam inteiramente de puras possibilidades pensáveis. Mas quando eu digo que são possibilidades pensáveis, a palavra “possibilidade” aí não tem mais sentido ontológico. [1:00] Ou seja, é possiblidade no sentido mais fraco da palavra. E eis o motivo pelo qual a ciência que estuda o mundo real usa uma parcela ínfima dessa matemática. Propositadamente eu não queria encarar a teoria de Cantor como puramente matemática, porque de um ponto de vista puramente matemático é possível um infinito maior que outro, mas ontologicamente essa frase não faz o menor sentido. Então o mundo puramente matemático não existe, ele é definido apenas pelo regulamento de uma profissão. Ou seja, é um aspecto da “realidade” que só existe se aceitamos as regras daquela profissão. Então vejam como, a partir dessa primeira ruptura, nós fomos parar longe. E nós só vemos de novo o significado aparecer na presença através dos milagres, que são justamente a presença do transcendente no imanente. Porque nesse caso o homem fala com Deus e Deus fala com o homem, de novo, através da natureza física. Não é a mesma coisa que uma revelação recebida subjetivamente por um indivíduo. Quando o paralítico anda e o cego enxerga, ou quando Moisés atravessa o Mar Vermelho, Deus não está falando com o ser humano por meio de palavras, mas por meio de coisas, de fatos da natureza física que têm inclusive uma presença muito mais maciça e muito mais contundente do que no tempo mítico. Porque nos tempos míticos esses elementos da natureza, esses fatos da natureza ainda tinham de ser interpretados, e só podiam ser interpretados através de toda uma rede de códigos culturalmente estabelecidos, ao passo que no milagre a expressão do significado divino é direta. Ou seja, ver o paralítico andar não depende de nenhum código cultural. Então o milagre é o modo de presença mais maciço e mais contundente do significado na natureza física. Na verdade, é a única forma de presença do significado que existe de fato. Portanto, quando houve naquele tempo mencionado por Romano Guardini a ruptura entre razão e presença, não existe nenhum meio humano de restaurar essa conexão, porque essa ação humana é limitada pelo pensamento. E o que quer que o homem faça, ele só verá o retrato do seu próprio pensamento. Quando nós vemos imensos edifícios, cidades de vinte milhões de habitantes, foguetes espaciais etc., tudo isto é apenas o pensamento humano materializado. Tudo isso é o que nós estamos falando para a natureza, não é o que a natureza esteja falando para nós. A única linguagem da natureza pela qual ela nos transmite o significado transcendente são os milagres. De modo que a recusa generalizada de um estudo sério dos milagres nos coloca de novo e de novo [1:10] na situação em que nós tentamos forçar a natureza a falar, mas nós lhe estamos impondo a nossa linguagem. Ou seja, é como se disséssemos que nós não queremos mais compreender a natureza como canal do significado divino, mas nós queremos que ela nos fale a linguagem humana. Só que quando ela nos fala assim, somos nós mesmos que estamos falando. Mas voltando ao exemplo, que eu já citei várias vezes, quando a menina sem pupilas se apresenta ao padre Pio e diz: “Padre Pio, fale com Deus, peça para Ele me curar”, e o padre Pio fala com Deus, e Deus responde através de um fenômeno físico visível com os olhos da cara, aí não podemos dizer mais que é uma linguagem humana; não podemos dizer que isso foi projetado pelo ser humano, que foi algo que nós projetamos sobre a natureza. Nem que a natureza concebida no sentido científico, ou seja, a natureza como puro objeto, está falando conosco, porque no conceito cientifico de natureza ela, em princípio, não fala; só o que o que ela pode fazer é comportar-se, às vezes, como nós esperamos que elas se comportem. De modo que através dos milagres nós recuperamos aquele sentimento de participação no universo dos sentidos, que é ao mesmo tempo o universo da presença física. Ou seja, aquela fusão de significado e presença na qual o homem mítico vivia é restaurada, agora num nível superior, onde não estamos apenas dialogando com o cosmos através de uma rede de códigos culturais, mas é o próprio universo do significado que desce até nós e nos fala. Ou seja, os fatos que são mais significativos na ordem da natureza são os fatos de ordem miraculosa: são os fatos que trazem em si o seu significado de maneira evidente. Agora, o universo, como mera presença física, sem significado, jamais existiu; ele é apenas a projeção. Eu estou me referindo a uma situação cultural em que o ser humano é induzido a olhar para uma de duas coisas: ou ele olha para o universo da sua razão, do seu pensamento, e encontra um significado meramente subjetivo; ou ele olha para um mundo de objetos externos do qual o significado foi expulso por definição, e justamente aqueles fatos nos quais o significado se mostra na própria imanência da natureza, ele não quer olhar. E, para cúmulo de absurdo, nós buscamos a explicação dos fatos de ordem miraculosa numa concepção da natureza que é constituída de puros objetos, quando nós deveríamos fazer exatamente o contrário. Os únicos fatos transparentes são os fatos de ordem miraculosa, os outros fatos são opacos por definição. Então buscar a explicação do transparente no opaco me parece ser uma inversão – é o que os latinos chamavam explicar obscurum per obscurius (o obscuro pelo mais obscuro ainda) – [1:20] ao passo que o trajeto normal do conhecimento é ir do conhecido para o desconhecido. Ou seja, uma verdadeira filosofia da natureza, uma verdadeira cosmologia, só pode ser desenvolvida tomando os fatos de ordem miraculosa como modelo por excelência. A partir deste modelo nós iríamos baixando daquilo que é mais transparente, mais translúcido e mais auto-evidente para outras modalidades de presença do significado que são mais atenuadas, de modo que o universo se mostraria como uma série de círculos concêntricos, que vão da área mais luminosa à área mais obscura. Vamos fazer uma pausa aqui e daqui a pouco nós continuamos. Recado do Olavo para os alunos: ele infelizmente não poderá continuar a aula hoje. Ele se sentiu muito cansado depois do término da primeira parte. Ele gostaria de pedir desculpas e retomar na semana que vem. Portanto, a aula está encerrada. Boa noite a todos e até semana que vem. Transcrição: Bruno Rodrigues Cunha, Paulo Ricardo Costa Pinto e Jussara Reis. Revisão: Luiz Felipe Adurens Cordeiro