Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 148 31 de março de 2012 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos! Sejam bem vindos! Gostaria antes de tudo agradecer ao Ronald Pinheiro por traduzir o livro de Ernesto Laclau Hegemonia e estratégia socialista, livro extremamente importante para entendermos a presente fase da revolução mundial. Evidentemente é um livro que nós não iremos divulgar, mas que para nosso conhecimento é muito importante. Para divulgar não faltam editores prestimosos no Brasil. Começarei a aula de hoje com a menção a um acontecimento político recente. O acontecimento não é, no entanto, o assunto da aula, mas apenas o gancho, como se diz em jornalismo, para introduzirmos o nosso verdadeiro assunto. Lerei para vocês um artigo que escrevi para o Diário do Comércio, que dará o quadro sociológico presente do qual surge a investigação que faremos em seguida. O artigo chama-se Virtudes Nacionais: “Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. Trezentos jovens insultando duas dúzias de octogenários – eis a imagem daquilo que, no Brasil de hoje, se considera um exemplo de coragem cívica. É possível descer ainda mais baixo? É. Nenhum dos agressores se lembrou sequer de perguntar se algum daqueles velhos, a quem cobriam de cusparadas, xingamentos e ameaças, esteve pessoalmente envolvido nos episódios de tortura que lhes eram ali imputados, ou se o único crime deles não consistia em puro delito de opinião. Que eu saiba, nenhuma acusação de tortura pesa ou pesou jamais contra aqueles oficiais atacados na porta do Clube Militar. O único acusado, o Cel. Brilhante Ustra, não estava presente e foi queimado em efígie. Os outros pagaram pelo crime de achar que Ustra é inocente, que o governo militar foi melhor do que a alternativa cubana ou que as violências praticadas por aquele regime pesam menos do que as suas realizações. Por isso, e só por isso, foram chamados de assassinos e torturadores. Não apenas a “coragem” é o nome que hoje se dá à covardia mais sórdida, mas o “senso de justiça” consiste em acusar a esmo, sem ter em conta a diferença que vai entre aplaudir um regime extinto e ter praticado crimes em nome dele. Se o simples fato de avaliar positivamente um governo suspeito de tortura faz do cidadão um torturador, então os arruaceiros reunidos na porta do Clube Militar, bem como o seu instigador, o cineasta Sílvio Tendler, são todos torturadores, e o são em muito maior escala do que qualquer militar brasileiro, pelo apoio risonho e cúmplice que, uns mais, outros menos, por ações e omissões, têm dado a regimes incomparavelmente mais cruéis do que jamais o foi a nossa ditadura. Essa observação aplica-se especialmente, e da maneira mais literal possível, aos militantes do PC do B, a organização mais representada naquele espetáculo. É o partido maoísta, nascido e crescido no culto a um monstro genocida, estuprador e pedófilo, campeão absoluto de assassinatos em massa, que se zangou com a URSS por achar que o governo de Moscou não era violento e cruel à altura do que o exigiam os padrões da revolução mundial. Por todas as normas do direito internacional, a lealdade retroativa a um regime reconhecidamente genocida é crime contra a humanidade. A carga dessa culpa imensurável é a única autoridade moral com que a massa de jovens revoltadinhos se apresenta ante os oficiais das nossas Forças Armadas, acusando-os de crimes que talvez alguns de seus colegas de farda tenham cometido, mas que eles próprios jamais cometeram. O sr. Silvio Tendler diz que sua mãe foi torturada. É possível. Mas isso dá a ele o direito de instigar uma multidão de cabeças ocas para que acusem de tortura qualquer saudosista do regime militar que encontrem pela frente? Não entende, esse pretenso intelectual, a diferença entre crime de tortura e delito de opinião? Opinião por opinião, pergunto eu: os méritos e deméritos do regime militar brasileiro já foram examinados com isenção e honestidade, em comparação com a alternativa comunista que suas pretensas vítimas lutavam para implantar no Brasil? Os brasileiros que, exilados ou por vontade própria, se colocaram a serviço dos regimes de Havana e de Pequim não se acumpliciaram com uma violência ditatorial incomparavelmente mais assassina do que aquela contra a qual agora esbravejam histericamente? Ou será que os cadáveres de cem mil cubanos, dez mil angolanos e setenta milhões de chineses, assassinados com o apoio dessa gente, pesam menos que os de algumas dezenas de terroristas brasileiros? Havana, é verdade, fica longe, Luanda fica ainda mais longe, a China então nem se fala, e o Doi-Codi fica logo ali. Mas desde quando a gravidade dos crimes é medida pela razão inversa da distância em que foram cometidos? Também é fato que os mortos de Cuba, de Angola e da China nunca foram manchete no Brasil, mas devemos acreditar, a sério, que a extensão do mal é determinada objetivamente pelo escarcéu jornalístico concedido a umas vítimas e negado a outras por simpatizantes ideológicos das primeiras? Essas perguntas, bem sei, não se fazem. Não são de bom tom. Mas, na dissolução geral da própria idéia das virtudes, que senso do bom-tom poderia sobreviver num país cujo presidente se gaba, veraz ou falsamente, de haver tentado estuprar um companheiro de cela, e ainda diz ter saudades do tempo em que os meninos da sua região natal faziam sexo com cabritas e jumentas, se é que faziam mesmo e não foi ele próprio quem os inventou à imagem e semelhança da sua imaginação perversa? E será preciso lembrar que essa mesma criatura, indiciada em inquérito pelo maior esquema de corrupção de que já se teve notícia nesse país, reagiu com um sorriso cínico, alegando-se protegida não pela sua inocência, que nunca existiu, mas pela lentidão da Justiça? Será exagero, será insulto criminoso chamar de cafajeste o homem capaz de fazer essas declarações em público? E será insana conjetura suspeitar que esses e outros tantos exemplos da cafajestada oficial, copiados por milhares de incelenças, louvados em prosa e verso por uma legião de sicofantas, repassados com orgulho do alto das cátedras, transfigurados por fim em “valores culturais” e aceitos com sorrisos de complacência entre paternal e servil pelas nossas “classes dominantes”, criaram o modelo de coragem e justiça que hoje inspira os bravos agressores de anciãos?” A descrição dessa situação degradante, e que todos já conhecem, pode servir de introdução a uma pergunta platônica que surge em vários diálogos: se a virtude pode ser ensinada ou se é uma coisa inata. A vida inteira de Platão é apostada na hipótese de que a virtude pode ser ensinada, ou seja, de que os homens podem ser melhorados. Mas isso exige determinadas condições: exige, em primeiro lugar, que a autoridade moral da sociedade seja transferida das presentes figuras públicas e de prestígio para um filósofo qualificado que tenha o conhecimento efetivo das virtudes. O conhecimento das virtudes não consiste em conhecer a definição delas, nem mesmo em tê-las analisado, mas em ter participado de uma experiência do Supremo Bem, o Agathón. Essa experiência é aquela que só se obtém na morte, podendo ser a morte física efetiva, ou o que se chama a morte iniciática – uma experiência pessoal de um estado de morte no qual todas as limitações da vida terrestre são transcendidas, todas as defesas que a condição corporal nos fornece são abolidas e então a alma é exposta a uma dimensão infinitamente maior no qual a estrutura da realidade se apresenta com toda sua crueza e todo seu caráter definitivo, de juízo final. Sócrates, na República, conta um mito do soldado chamado Er, o Panfílio, ou Panfiliano, Panfília seria a região de onde ele veio, mas na verdade Panfílio quer dizer um membro de todas as tribos: é a mesma coisa que dizer “uma pessoa qualquer”. Er morre numa batalha e é levado à presença dos juízes. [00:10] Ele vê uma fileira enorme de mortos esperando seu julgamento e os juízes dão um castigo para uns, prémio para outros, e após serem castigados ou recompensados eles são chamados de novo para escolher as novas vidas que eles vão ter. E o momento da escolha da nova vida é extremamente perigoso, pois embora as almas tenham consciência da experiência que já viveram, nem sempre sabem avaliar esta experiência corretamente. Por exemplo, aqueles que levaram uma vida mais ou menos virtuosa correm mais perigo, porque eles não tentam se precaver contra suas próprias fraquezas, então escolhem modalidades de vida que os podem expor a novos perigos, tentações, corrompê-los e fazer com que percam o estatuto moral adquirido na existência anterior, ao passo que aqueles que levaram uma vida dedicada ao mal e ao pecado estão mais assustados, pois levaram um castigo, então procuram escolher com mais cuidado situações de vida que os exponham menos à tentação, e escolhem vidas mais anônimas, mais humildes, não querem ser pessoas importantes justamente para evitar a tentação. Esse mito evidentemente não precisa ser interpretado no sentido reincarnacionista, e nem deve, porque na verdade Sócrates está se apresentando perante os seus interlocutores como alguém que passou por essa experiência: ele não poderia ter criado esse mito sem que ele mesmo tivesse esta experiência. Não se trata, evidentemente, da morte física, mas da morte iniciática, isto é, de uma vivência da morte não necessariamente acompanhada da morte física. É curiosa a relação entre o papel de Sócrates nesse diálogo e o episódio da vida nacional que acabamos de narrar, porque Sócrates, no começo da República diz “desci hoje para o Pireu”, uma cidade onde havia uma festividade dedicada a Ártemis, uma deusa ctônica, espécie de divindade infernal, do mundo inferior. Havia uma grande festa naquela cidade, e Sócrates tinha descido para assistir as festividades da deusa ctônica. O Pireu funciona ali como um símbolo do Hades, o inferno. Naquela cidade ele encontra um grupo de amigos e é convidado para ir à casa de Céfalo, pai de um dos amigos que o acompanham. Céfalo é um homem muito rico e importante, já muito velho, sabe-se que é um homem que levou uma carreira muito honrada, nada se sabe contra ele, mas Céfalo não aguenta a conversação, e vai dormir: não tem muito interesse. Vejam como Eric Voegelin interpreta essa cena. Isto não é somente algo que Eric Voegelin viu, mas algo que está muito claro no próprio trecho: “Céfalo representa a velha geração num tempo de crise, os homens que ainda impressionam pelo seu caráter e conduta, que foram formados numa época melhor. A força da tradição e do hábito os mantêm no caminho correto, mas eles não são corretos por amor à sabedoria, e num tempo de crise eles não têm nada a oferecer à geração mais nova, que está então exposta à influências mais corruptoras. O ancião venerável que desperta nossa simpatia não a perderá num exame mais próximo, mas a simpatia será temperada por um toque de condescendência, senão de desprezo pela sua fraqueza, pois os homens desse tipo são a causa do súbito vácuo que aparece num período crítico com a quebra das gerações, de repente evidencia-se que a velha geração se omitiu de construir a substância da ordem na nova geração.” Isso é exatamente o pecado e a culpa daqueles velhos oficiais que foram insultados na porta do Clube Militar. Eles não são culpados de tortura, eu os conheço – conheço o Juarez Gomes e outros – e sei que eles não têm absolutamente nada haver com os órgãos de repressão, e que na verdade eles estavam ali pagando pelo simples fato de defenderem o Coronel Ustra, que de fato é acusado de tortura – se é culpado, não sei – mas como ele não estava presente, não é dele que se trata. Podemos dizer que eles foram acusados, insultados sem culpa nenhuma? De maneira alguma: eles têm culpa! Mas não é nem aquela que eles pensam: imaginam que foram insultados sem culpa alguma, que foram injustiçados, e seus atacantes acham que eles são culpados de tortura. Porém, a culpa não é nem uma nem outra, a culpa é exatamente esta: eu conheço bem essa milicada, a geração que governou o Brasil durante vinte anos, e sei que é exatamente este o caso: eram pessoas corretas – se vocês estudarem a história dos nossos ex-presidentes militares, nenhum saiu da presidência rico, nenhum roubou um palito de fósforo sequer e, com relação aos delitos de tortura, alguns fizeram todo o possível para apurar e parar com aquilo. De modo geral eram pessoas com um nível moral muito maior do que hoje podemos sequer imaginar. Mas eles eram virtuosos por força do hábito, do treinamento que receberam e da própria moral militar que os formou, só por isso, e não porque tivessem o amor à sabedoria, ou porque tivessem um desejo de se transcender, de tornarem-se melhores. Numa situação normal da sociedade essas pessoas bastam para ir tocando o barco para frente. Mas em época de crise é preciso algo mais: pessoas que tenham em si mesmas a raiz da virtude e que possam exemplificá-la de algum modo, e que não apenas a tenham por força do hábito, mas a tenham como efetivo conhecimento de modo que possam transmitir aos outros. Ter certas virtudes não quer dizer que se saberá ensiná-las, muito menos infundi-las. A palavra “ensinar” para essas circunstâncias é fraca, pois nelas é preciso mais que um ensino: é preciso uma espécie de infusão, infusão esta que, como vimos nos livros do Julio Stenzel sobre Platão Educador, se fazia não só por uma instrução teórica, mas por uma influência pessoal direta, de alma para alma. Se esta, ou estas pessoas faltam numa geração, a geração seguinte não tem mais idéias do que são as virtudes, pois ela não tem mais exemplos, muito menos tem a verdadeira educação no sentido socrático da coisa. Quando as influências corruptoras se tornam, portanto, mais fortes, a juventude está totalmente à mercê e não é sequer capaz de conceber as virtudes que lhe falta; chega ao ponto não só de perder as virtudes, mas de imaginá-las de maneira totalmente invertida, como se vê nesse caso. O que se está discutindo aqui não é o regime militar de 64, não é disso que estou falando, mas daquele caso específico dos oficiais que foram insultados na porta do Clube Militar. [00:20] São todos inocentes de tortura, não têm absolutamente nada a ver com isso. Deles todos, o único que trabalhou no serviço de repressão, e que eu conheci, é alguém que não frequenta mais o clube, o coronel Gustavo Borges. Os outros estavam em outras funções e não tinham nada haver com isso. Como é possível cercar duas dúzias de octogenários e acusá-los sem nem saber quem eles são? Não há, evidentemente, nenhum senso de justiça ali, mas aqueles jovens acreditavam estar fazendo justiça. Isso mostra que o conceito de justiça deles já é invertido e, mais ainda, o conceito de coragem: que coragem é preciso para juntar trezentos jovens vigorosos para cuspir em velhinhos? É o que normalmente se consideraria covardia, mas eles sentem bater o coração mais forte, na emoção cívica de seu ato de “coragem”. Os octogenários são todos a imagem do Céfalo, na República, e o retrato que é pintado do Céfalo na República é bastante melancólico; ele não fez nada de errado, mas ele teve uma posição na sociedade que exigia alguém muito melhor do que ele, alguém muito mais sólido, com uma raiz muito mais profunda do que ele tinha. As virtudes dele eram, por assim dizer, rotineiras e superficiais. É por isso que Platão afirma insistentemente, não só nesse diálogo como também em outros, o problema de como a virtude pode ser ensinada, infundida. Um dos principais meios a que Sócrates recorre para tanto são os mitos. Na própria República há o mito da caverna, o mito de Er, e uma infinidade de outros, como o da bipartição das pessoas, no Banquete, segundo o qual as pessoas eram bissexuadas na outra vida e foram depois repartidas e, desde então, procuram a sua outra parte. E, assim por diante, há toda uma série de histórias míticas que ele conta. E Platão diz que o mito é aquilo que pode nos salvar, se nos deixarmos persuadir por ele. É preciso acreditar no mito, porque ele nos abre uma possibilidade. Na hora em que leio isso, lembro-me de algo que li no livro de Andrew Newberg, que mencionei na semana passada, onde se diz que a abertura para a transcendência é uma função cerebral essencial, havendo toda uma seção do cérebro que funciona na abertura para um infinito desconhecido. É justamente nas experiências de morte iniciática ou morte próxima que o indivíduo é transposto para esta outra região, onde, por assim dizer, a atividade cerebral transcende-se a si mesma, e já não mais é o cérebro que capta as coisas. É uma realidade infinitamente maior, imensa, que penetra na alma do indivíduo por meios desconhecidos. Não sabemos como isso funciona, porque não há atividade cerebral registrada. O fato, contudo, é que há uma infusão de conhecimento. Essa infusão acontece por momentos e não aparece sob a forma de ensino doutrinal, de modo a que o indivíduo emerja daquela situação e possa dar lições aos outros. Ela aparece sob a forma de episódios, de coisas que aconteceram, como no caso daquele menino de quatro anos, Colton Burpo, que conversou com Jesus Cristo, encontrou o avô e a irmãzinha que já haviam morrido. Esses são fatos, são coisas que aconteceram, são narrativas, assim como a narrativa mítica de Sócrates. O único contato possível com essa região última se dá sob a forma de acontecimentos que assistidos e participados de algum modo, tal como Er participa daquele Juízo Final. O máximo se pode fazer, portanto, é contar, narrar. É evidente, porém, que não basta ouvir aquilo: é preciso acreditar, é preciso deixar-se persuadir. Essa seria justamente a função da fé ou da confiança. Notem bem que, como não é um ensino doutrinal, mas uma narrativa, o indivíduo não está diante de um pregador que ensina que se deve crer nisso ou naquilo, mas diante de uma testemunha que conta que algo que viu acontecer. Não se trata de acreditar numa doutrina, mas de ter confiança numa testemunha que passou por experiências que transcendem a esfera da experiência corriqueira, trazendo-nos notícia de uma esfera superior de realidade em direção à qual todos vamos, porque todos morreremos e passaremos pelo Juízo Final. Nos vários mitos que nos foram transmitidos pela filosofia, pela religião ou por qualquer tradição até mesmo folclórica, vemos que existem várias maneiras de interpretá-los, mas, em geral, essas maneiras se concentram na interpretação do texto. Eu vou fazer a abstração da interpretação do texto — os famosos quatro níveis de interpretação de que fala Dante, pois não é nisso que estou interessado — e me concentrar no entendimento da própria narrativa, dos próprios fatos narrados. Não estou interessado em textos, na transmissão literária do fato, mas na sua própria substância, no seu próprio conteúdo, no qual, seja no caso do mito de Er, do mito da caverna, do mito budista da Iluminação ou do mito de Maomé e sua ascensão, há no mínimo três elementos. Primeiro, o caráter salvador — ou salvífico, para usar um termo mais técnico — do mito, que nos é oferecido para ser acreditado pelo valor e confiabilidade da testemunha, em quem reconhecemos um homem melhor do que nós, que não mentiria e que teve acesso a uma experiência que não conhecemos pessoalmente; através de sua narrativa, contudo, experimentamos uma abertura imaginativa para uma esfera que transcende o nosso círculo de experiência e revela algo do sentido e da meta final da nossa vida. Então, em primeiro lugar, essas narrativas devem ser encaradas como mitos salvadores, histórias que mostram simbolicamente algo do nosso destino final, do destino de nossa vida. Em segundo lugar, a substância histórica do mito, isto é, de onde ele veio e se o seu conteúdo narrativo é real ou fictício. No caso, sabemos que existiu realmente um indivíduo chamado Sócrates, que ele conhecia algo do destino final da vida humana, que tinha acesso a esse outro nível da experiência e, que, portanto, tinha passado pela morte iniciática e conhecido, por assim dizer, o “lado de lá”. Essa é a realidade. Aqui, a realidade do mito não está nos acontecimentos narrados, mas na pessoa do narrador, em algo que podemos confirmar historicamente. Então, o mito salvador é um dos níveis; o segundo nível é o da realidade histórica subentendida. No caso de Buda, sabemos que efetivamente existiu um indivíduo chamado Gautama Buddha, que teve uma série de experiências. Ele era um príncipe, um homem muito rico criado em berço de ouro que, a partir de certo momento, teve a experiência do mal, da morte, da doença, da desgraça, [00:30] da miséria e, sentando-se num canto, disse que só sairia dali quando obtivesse a iluminação, a explicação de tudo aquilo. Ele tem, então, uma dessas experiências ascensionais, compreende a realidade da vida humana e, contando para as pessoas o que se passou consigo, ensina-lhes como deveriam viver para poder ter acesso a essa realidade e levar uma vida justa. Há também o caso do mito de Maomé, que faz uma famosa viagem celeste atravessando várias etapas iniciáticas, que são muito bem descritas por Ibn’Arabi, de acordo com as várias esferas planetárias; em cada uma delas Maomé recebe um novo grau de iniciação, tem acesso a um novo tipo de conhecimento, até chegar à esfera das estrelas fixas e ao primum mobile, onde está Deus. Em todos esses casos, o substrato histórico não está nos acontecimentos narrados, mas na vida do narrador. Isso é absolutamente fundamental. Não vimos aonde foi Buda na sua ascensão, não vimos aonde foi Sócrates, aonde foi Maomé, mas sabemos que Sócrates, Buda e Maomé existiram, e que eram pessoas de excepcional envergadura humana, dotadas de alguma confiabilidade. No caso do mito de Er, Sócrates faz um pendant, um equilíbrio, uma balança com o mito da caverna, pois o mito de Er é um mito ctônico, que vai para baixo, para o Hades, onde o personagem é julgado — assim com Sócrates desceu para o Pireu; o mito da caverna, que aparece no mesmo livro, é o contrário: o indivíduo que estava preso na caverna tem uma experiência ascencional, vai do fundo da caverna para a luz. Há, então, a experiência do Hades, por um lado, e a experiência do Ágaton, por outro. Outra narrativa desse tipo é a Divina Comédia de Dante, onde ele é primeiramente conduzido aos infernos, conhece os sete círculos do inferno, e, depois, sobe até ao Paraíso. Embora Dante tenha colocado ali varias figuras históricas verdadeiras — ele encontra alguns papas no inferno, por exemplo —, não sabemos efetivamente o que se passou. Mas sabemos que existiu um indivíduo chamado Dante, que era uma pessoa de elevadíssima moralidade e de enorme sabedoria que nos desvelou todo esse mundo. Para relembrar, o primeiro nível é o do mito salvador enquanto tal, de uma história que é contada; na medida em que acreditamos nela, a nossa imaginação é aberta para uma dimensão que vai além de nossa experiência corriqueira e que revela algo do post mortem, algo da finalidade última da existência humana; o segundo nível é o do fato histórico, isto é, a substância histórica da vida do narrador ou da própria narrativa. O terceiro nível é o da teologia dogmática: as conclusões que se podem tirar do mito, o que ele nos ensina em termos explícitos, o que ele diz quando descompactamos seu simbolismo. No caso de Platão, não chega a se desenvolver uma teologia dogmática propriamente dita; ela fica, por assim dizer, em germe: não existe uma igreja socrática que tenha deduzido dessa narrativa um ensino sistemático e, portanto, normas de conduta, ritos etc. O que existe a partir disso, porém, é o início da tradição filosófica. Nos demais casos, o de Buda e o de Maomé, existe uma teologia dogmática budista e uma teologia dogmática islâmica. A elaboração da teologia dogmática é enormemente complicada e o empenho em transformar os símbolos em afirmações gerais sobre a estrutura da realidade e estas em normas de conduta práticas, seja de conduta moral, seja de conduta ritual, faz com que, ao mesmo tempo, o mito inicial perca muito da sua substância e do seu impacto. O mito é narrado em uma, duas ou três páginas; e se contarmos quantas páginas há no Corão sobre viagem de Maomé, veremos que são poucas; o mito de Er não passa de cinco ou seis páginas. A teologia dogmática, porém, pode se multiplicar em milhares e milhares de páginas e controvérsias cabeludíssimas resolvidas, às vezes, na base da violência. Nas histórias dos concílios, aconteceu muitas vezes de os bispos, quando não conseguiam persuadir os seus adversários de sua interpretação, partirem para a porrada. Ao longo da formação da teologia dogmática, forma-se também a autoridade religiosa, que, em certos casos, adquire uma autoridade civil, policial e judiciária, seja diretamente, como no caso islâmico, seja indiretamente, como aconteceu na Europa cristã. Aos poucos, então, a mensagem salvadora inicial transforma-se em sistema judiciário, que se torna obrigatório para todas as pessoas que estão sob a sua jurisdição, quer entendam o mito, quer não o entendam; quer tenham recebido a mensagem salvadora ou não; quer sejam sensíveis ou insensíveis. Isso quer dizer que a qualidade do mito salvador perde-se ao longo do tempo. Outro dia alguém me enviou uma cópia de uma parte da Suma contra os gentios, o livro de Santo Tomás cuja leitura eu mais recomendo, e no qual ele fala sobre a legitimidade das relações sexuais e do prazer sexual. Aquilo era muito bonito, mas, se formos ver, a quantidade de regulamentos judiciais, policiais e de pressão social envolvidas ao longo do tempo nessa situação transformaram-na num verdadeiro pesadelo. Isso basta para explicar a explosão do sex lib a partir dos anos 60. Aqui nos Estados Unidos pode-se ver isso muito claramente, pois a pressão moralista da sociedade é algo absurdo; o curioso, porém, é que essa pressão se concentra em certas pessoas, ao passo que outras são liberadas e louvadas justamente pela sua vida libertina, formando um contraste absolutamente enlouquecedor. A literatura ocidental, porém, sobretudo a partir dos séculos XVII e XVIII, documenta o caráter opressivo da pressão moralística da sociedade. Tudo isso se originou num mito salvador, mas foi parar tão longe que o que temos é a realidade dos tribunais, dos vizinhos intrigantes, da pressão familiar, do constante estado de chantagem em que o indivíduo tem de vivenciar a sua vida sexual, a qual se torna, então, mais um motivo de angústia do que qualquer outra coisa. Esse é um exemplo de como o mito salvador se transforma em doutrina e teologia dogmática e, depois, em teologia moral que, por sua vez, inspira o direito, forma estados, forma estruturas inteiras de dominação e controle. A coisa fica cada vez mais distante do mito salvador, ao ponto de este começar a ser interpretado de maneira inversa, como, por exemplo, [00:40] no ódio que Nietzsche vota não só ao Evangelho, mas ao próprio Sócrates. Ele enxerga o mito salvador não na sua fonte originária, mas através do vidro ou da grade do conjunto da rede do imenso sistema de controles repressivos que foram criados a partir dessa fonte. Repito: não se trata de interpretar os textos. Trata-se da coisa mesma. Supondo que os textos sejam fidedignos e que já foram bem interpretados pelos filólogos, sobra-nos uma narrativa que foi feita em certas circunstâncias historicamente comprovadas, da qual se desenvolve uma teologia dogmática com todas as consequências de ordem moral, sociológica, política, jurídica etc. e que formará a civilização inteira. Vemos que isso acontece em todos os mitos, sem exceção. Todos eles têm pelo menos os dois primeiros níveis e um terceiro nível que se insinua a partir deles. Pode acontecer de esse terceiro nível se desenvolver efetivamente, como no caso do cristianismo e do islamismo, ou de ocorrer a insinuação, como em Sócrates, de um conteúdo doutrinal que poderia ser expresso a partir da descompactação do mito. Parênteses: vocês perceberam a que distância estamos da proposta da filosofia analítica, que reduz tudo a um esforço técnico de análise da linguagem, um procedimento que não compromete o indivíduo em absolutamente nada? Qualquer imbecil pode fazer uma análise da linguagem, bastando que tenha um pouco de inteligência lógica; o conceito de filosofia oferecido por Sócrates, porém, compromete o indivíduo até à raiz do seu ser, pois o filósofo tem de passar pela morte iniciática para poder contar algo, tendo sido com um risco pessoal que ele obteve tudo. É por isso que ele pode fazer uma transmissão que vai de dentro de si para o fundo da alma dos seus ouvintes. É evidentemente uma ocupação muito mais séria. Entretanto, quando aplicamos esses conceitos ao mito cristão, deparamo-nos com algumas dificuldades. Em primeiro lugar, no mito cristão a descida aos infernos e a ascensão aos céus não se dão no começo da história, mas no fim. Elas não são o princípio da revelação, mas o seu fim. Cristo só desce aos infernos e sobe ao céu depois de morto. Assim termina a história; em seguida vem a ressurreição e sabemos muito pouco ou quase nada a respeito do que se passou depois disso. Em segundo lugar, existe em todos esses mitos um personagem que parte de um estado humano normal e comum e, através de uma experiência de morte iniciática ou experiência próxima da morte, tem a ascensão a um conhecimento divino, por assim dizer. No caso cristão nós não temos isso. Cristo não passou por isso; ele não subiu aos céus, ele veio dos céus. De acordo com a narrativa, ele era o próprio Filho de Deus vivo, e já era o Logos encarnado no momento em que nasceu. Existe o episódio em que, com sete anos, Ele é encontrado na Sinagoga e está dando lição aos rabinos. É claro que ele não teve tempo de passar por essa experiência. É como se a história começasse já num outro plano. E o elemento de verdade histórica aí já não se refere apenas à vida do narrador, mas à vida do próprio personagem. Cristo, no decorrer da sua vida, atesta a Sua Missão e a Sua condição através de uma série de milagres. Esses milagres foram atestados por muita gente, porém nós poderíamos duvidar deles caso eles não continuassem acontecendo desde então até hoje, através da sucessão apostólica. Eu acho que dificilmente existem acontecimentos históricos que estejam mais bem documentados que os milagres dos santos da Igreja. Se perguntarmos: qual é a prova que existe de que Napoleão fez isso ou aquilo durante a batalha de Waterloo? Bom, existem algumas provas. Mas nenhum desses atos históricos está tão bem provado e tão bem documentado quanto os milagres que são propositadamente examinados por um tribunal constituído para isso, onde a maior parte dos milagres sugeridos é rejeitada, e só sobra uma quantidade relativamente pequena – pequena em relação aos milagres sugeridos, mas enorme na sua totalidade. De modo que a realidade histórica do mito cristão aparece de uma maneira não só diferente, mas inversa à dos outros mitos. Em todos os casos, existe a ascensão de um ser humano normal, mortal, a um outro plano de realidade, e a realidade da sua vida continua sendo a realidade de uma pessoa normal, embora dotada de conhecimentos e capacitada, portanto, a infundir nos seus ouvintes a inspiração dessa mensagem a que ele teve acesso, mas termina por aí, não ficamos sabendo de milagres de Sócrates, nem milagres de Maomé. Mas no mito cristão, a realidade já não é a realidade do narrador, mas a realidade do próprio personagem, o que nos obriga a encarar esse mito de uma maneira totalmente diferente, porque ele não é o que está nos evangelhos, ele é aquilo que prossegue através do testemunho dos milagres ao longo dos tempos. E se nós não levarmos isso em conta, não vamos entender absolutamente nada. Esses milagres não são realizados pelos santos, mas são atribuídos à própria intervenção de Jesus Cristo. Vejam que durante a missa, o sacerdote está ali, ele é de novo a pessoa do Cristo. Isso quer dizer que este prosseguimento na história dos milagres é o próprio mito que está se desenrolando na nossa frente, na atualidade. E esta diferença nos obriga a encarar esse conjunto de uma maneira totalmente diferente daquele com que encaramos o Mito de Er, ou o mito da ascensão de Maomé, ou o mito da iluminação do Buda, e assim por diante. Eu vou parar esta aula por aqui porque ontem, como nós temos muitos cachorros em casa, de vez em quando tem de tomar um remédio para lombrigas, e eu tomei um remédio, mas eu não sabia que o remédio era para a lombriga, eu pensei que fosse para mim, mas era um remédio a favor da lombriga. Tem lá uma advertência: isso pode dar um pouco de mal estar, dor de cabeça, calafrios, tontura, etc., e eu tomei e à lombriga está fazendo muito bem. Eu é que não estou muito bem das pernas. O remédio mata a lombriga assim: mata o portador da lombriga, daí ela não tem mais o que comer, então ela morre. Em vista desta circunstância eu vou encerrar por aqui, mas ainda vou responder algumas perguntinhas. Vou fazer um intervalo e daqui a pouco agente volta. Antes de tudo eu queria dar uns esclarecimentos a um aluno. Durante a aula ele observou que Krishna também nasceu em condição divina, como Cristo. Bom, Krishna é uma figura mítica. Portanto a objeção não se aplica de maneira alguma. Não nem a mais mínima prova histórica de que tenha existido um sujeito chamado Krishna que teve 16.900 esposas. Então a coisa não se aplica. O que existe historicamente são os rishis, que são as pessoas que ditaram os Vedas, mas dos quais também não sabemos absolutamente nada. Depois o aluno me enviou uma pergunta, uma observação, ou antes, uma objeção, perfeitamente idiota. Me desculpe, mas é de uma idiotice fora do comum, que eu jamais esperaria de um aluno meu. Diz ele: Aluno: O livro “Chistian Slaves, Muslim Masters – White Slavery in the Mediterranean” de Robert Davis, utiliza de métodos não confiáveis para determinar a quantidade de brancos escravizados, visto que os registros são escassos. Quando o professor diz que os africanos estão recebendo o troco, acho um tanto perversa a afirmação, visto a desproporcionalidade da comparação. A África não é um país ou um estado com uma única nacionalidade. Pelo contrário, sempre foi de uma imensa diversidade de povos e nações. Não justifica escravizar africanos em geral, porque alguns povos do norte da África foram totalmente desconectados culturalmente e etnicamente de outros africanos. Realizaram incursões para a escravização de europeus seria constituir um conceito de Karma coletivo ou responsabilidade geográfica. Meu povo é C, e eu moro na mesma região que o povo A, A ataca B, e então B tem o direito do atacar o povo C. podemos falar ainda, voltando ao assunto da proporcionalidade, sobre as consequências dessas escravizações (...)mesmo porque a distância da África e da Europa não era tão absurda, não sendo muito complicado para o europeu escravizado fugir e retomar o seu lugar de origem, mesmo caso tivesse liberdade. Já no caso da escravidão das Américas foi bem um regime cruel, e que tem sementes germinando ainda hoje nas formas dos mais diversos preconceitos. Olavo: Fulano, você é muito metido, burro e vem querer enfrentar... Se você quer enfrentar uma discussão, então, por favor, estude. Em primeiro lugar, você leu esse livro do Robert Davis, então eu vou lhe mostrar alguns outros livrinhos a respeito que você deveria ler: Islam's Black Slaves, de Ronald Segal; L'esclavage en terre d'islam, de Malek Chebel; Bernard Lugan: Afrique : l'histoire à l'endroit; Quand les noirs avaient: des esclaves blancs, de Serge Bile, autor africano; Murray Gordon: Slavery in the Arab World; Les Négriers en terres d’islam: La Première traite des Noirs, VIIe-XVIe siècle, de Jacques Heers; Le génocide voilé: Enquête historique, de Tidiane N`Diaye; White Gold: The Extraordinary Story of Thomas Pellow and Islam`s One Million White Slaves, de Giles Milton; White slaves, African Masters: An Anthology of American Barbary Captivity Narratives, de Paul Baepler; Histoire de l’Afrique des origines à nos jours, de Bernard Lugan; Pour En Finir Avec la Repetance Coloniale – Daniel Lefeuvre; L’esprit du sérail: Mythes et pratiques sexuels au Maghreb, de Malek Chebel. Então, dê uma estudada no assunto e depois venha discutir. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar: você nunca viu um globo terrestre. Você não estudou geografia, ou provavelmente foi reprovado na escola. Dê uma olhada: olhe a distância que o sujeito teria de percorrer para ir do Sudão à Inglaterra; agora veja a distância de Pernambuco, que era o ponto de desembarque dos escravos, até o centro da África. Ou seja, a distância aqui era esta, e aqui era esta. Antes de dizer que a África é mais perto da Europa observe que a região onde havia os grandes escravizadores na África era exatamente no Sudão, Etiópia, nesta região. Em terceiro lugar: ele diz que ‘a África não é um país ou um estado com um uma nacionalidade’. E a Europa é? Meu filho, porque toda a raça branca deve ser culpada da escravidão negra? Vamos supor: no Sul dos EUA, que é tida como uma região escravagista por excelência, apenas seis por cento dos proprietários de terra tinham escravos. Porque os outros noventa e quatro por cento deve pagar, deve sofrer insultos até hoje, e deve ouvir gente falando besteira como você? Se a diversidade vale para a África, vale muito mais para a Europa, que é um negócio que vai desde a Rússia até a Espanha, e tem uma diversidade, até racial, visível a olho nu. Em segundo lugar ele diz que justificar a escravidão africana porque os africanos escravizaram brancos seria constituir um conceito de karma coletivo ou responsabilidade geográfica. Mas não é exatamente isso que o pessoal faz com os europeus e americanos até hoje? Não é isso exatamente o que você está fazendo, dizendo que no caso da escravização das Américas foi um regime cruel que tem sementes germinando ainda hoje nas formas dos mais diversos preconceitos? Não tem não, você não sabe o que está falando. Aqui você tem preconceito em favor de negro. Negro é favorecido de todas as maneiras neste país. Chega a ser chocante. Vou lhe dar um exemplo: os negros entre dezoito e trinta e seis anos são dois por cento da população; eles cometem um terço dos crimes violentos daqui. Agora, dizer que “ah, a polícia examina mais negros do que brancos”, bom, por lei das probabilidades é exatamente isso que eles têm de fazer; até mesmo quando o policial é negro se diz que ele fez isso por preconceito. Isso é abusar da palavra preconceito. Em segundo lugar, os dados que tinha o Robert Davis eram de fato escassos, mas a coisa andou muito depois disso. Eu sugiro que você comece a ler a História da África do Bernard Logan, e continue estudando seriamente. O tom em que você escreve dizendo que a minha interpretação é perversa, não vou nem lhe responder. Todo mundo tem o direito de fazer objeção, mas me acusar de perversidade, interpretação perversa? Quem é você moleque? Você não sabe nada do assunto, vem aqui para criar confusão; eu não sei quem você é, não sei o que você está fazendo aqui, mas estudar certamente não é. É claro que todo mundo pode, num momento de distração fazer uma afirmação errada ou desproporcional, todo mundo pode; mas perversa? Espera aí moleque. Onde você pensa que está? Vá estudar e pelo menos olhe o mapa. Dizer que ‘ah, a África fica mais perto da Europa do que as Américas’. Ora, o Brasil foi o país mais escravagista da história humana. O ponto de entrada era Pernambuco. Pernambuco para a África é bem pertinho, até o Sudão. Quer dizer, o sujeito não sabe nem o mínimo de geografia e vem dar palpite numa coisa dessas. Então, resolvido este problema, passemos às outras perguntas. Eu não gosto de ter aluno como você, moleque. Aluno: Tendo lido o Mito do Eterno Retorno, de Mircea Eliade, me pergunto se nos ritos periódicos de regeneração do mundo e da sociedade descritos por ele não haveria uma síntese de elementos prejudiciais da percepção da realidade, como a imposição de certos esquemas abstratos aos eventos, e a desvalorização de fatos particulares, e outros benéficos para a abertura da transcendência como a re-encenação periódica da insegurança e do caos primordial, e a mudança periódica de perspectivas dentro do mundo nas diversas estações do ano religioso. Também vejo a mesma ambiguidade na vivência histórica e linear do tempo contrastada com a ontologia arcaica; por um lado há uma valorização de fatos concretos e sua riqueza, e por outro há o perigo de instalar uma determinada perspectiva perante o mundo e não trocá-la regularmente. Olavo: Em primeiro lugar você precisaria distinguir aí o que são esses mitos coletivos e os mitos salvadores a que eu estou me referindo. Esses mitos tribais, por exemplo, não se sabe exatamente a origem deles, e nós já tomamos conhecimento deles no estágio institucional, onde eles já se tornaram obrigatórios para toda uma coletividade. Então a análise que eu fiz evidentemente não se aplica a esses mitos. Eu acho que a sua observação é muito pertinente, e é um assunto que vale a pena lembrar. No mínimo seria preciso recorrer à distinção do Guénon entre iniciação e contra-iniciação. Existem iniciações infernais, e muitas delas ainda estão disseminadas por várias comunidades, não só comunidades “primitivas”, mas temos aqui mesmo iniciações infernais; aqui, na Europa, no Brasil. No Brasil eu cheguei a tomar conhecimento de uma organização que fazia ritos com assassinatos sacrificiais de crianças, e não eram nem uma nem duas crianças, chegaram a algumas centenas. Em mil novecentos e oitenta e seis eu tomei conhecimento disso, e até hoje essa turma não foi descoberta. Havia, na história do Brasil, o famoso rito da Pedra Bonita, que o Ariano Suassuna, num momento de loucura, considerou um mito que devia ser tomado como mito fundador do Brasil, que eram uns malucos que faziam rituais esmigalhando cabeças de crianças numa pedra. Evidentemente é um rito satânico. Se isso foi o mito fundador, então explica o estado em que o país está, mas eu não posso acreditar nisso. Ele pergunta: Aluno: O estudo da correta participação no tempo para a abertura a realidade seria um bom tema para a monografia para a conclusão do curso? Olavo: Seria um tema maravilhoso, maravilhoso. Isso aí é fundamental. É evidente que o tempo biológico tem uma estrutura objetiva. É aquele negócio que ninguém está ficando mais jovem. Isso todo mundo sabe, isso é experiência universal, passagem do tempo, envelhecimento, e, no entanto, existem concepções imaginativas do tempo que são uma inversão disso; inversão ou mutação disso; uma negação. Frequentemente uma confusão da eternidade com o próprio tempo. Todo este mito revolucionário não passa de uma projeção da idéia da eternidade num tempo futuro. Quer dizer, é um tempo onde a história vai parar, o fim da história. Vai chegar a perfeição e a história vai parar. Isso é absolutamente contraditório com a estrutura da vida biológica a com a estrutura do próprio tempo. Como é que essas coisas se disseminaram? Isso pode ter raiz em alguns desses ritos que você está falando, raízes remotíssimas. Se você quer estudar isso, vá em frente. É fundamental. Por falar nesses trabalhos, eu tenho recebido muitos e-mails consultando sobre trabalhos. É impossível responder isso por e-mail. Eu terei de responder oralmente, ou no próprio curso, ou numa extensão que nós faremos dele, quer dizer, um horário especial para orientações para os vários trabalhos. Eu gostaria que quando eu estiver dando a orientação para um trabalho em particular, os outros também ouvissem, porque muita coisa que eu estou falando para um trabalho, serve para outro também, e também porque é bom todos estarem informados do que todos estão fazendo. Então nós já estamos chegando à época de começar a pensar nesses trabalhos. Eu ainda não resolvi como nós vamos operacionalizar isso em termos práticos. Talvez tivesse que fazer uma reunião especial num outro dia, ou uma segunda sessão de sábado; nós teríamos de começar a nossa aula mais cedo, para poder dar tempo de ter pelo menos uma hora das várias orientações. Então eu aviso a vocês: os que pedirem orientação por e-mail, eu não vou responder agora porque é impossível. Eu já estou sobrecarregado de e-mail. Eu recebo setecentos e-mails por dia, dos quais eu respondo uma parte insignificante. Eu peço desculpa a todos aqueles que eu não respondi, mas é materialmente impossível, mas para dar explicação oralmente é mais rápido. Um aluno pede para eu voltar a falar sobre as redondilhas de Babel (“Sôbolos rios que vão por Babilónia, me achei, Onde sentado chorei...”), de Camões. Isso evidentemente merece uma análise, inclusive a luz do que nós falamos aqui, porque é um eco do mito platônico. Isso aí de fato é um dos grandes momentos da literatura em língua portuguesa, e mereceria uma análise. Aliás, Camões está cheio de coisas que merecem este tipo de análise. Camões era um platônico acima de tudo. O que você não entendeu no Platão, Camões explica. Aluno: Lendo o capítulo sobre o simbolismo na História da Literatura Ocidental de Carpeaux, deparei-me com a seguinte afirmação: “Assim como o romantismo, o simbolismo foi uma revolta, mas os românticos pretendiam inaugurar um mundo novo enquanto os simbolistas se sentiam representantes de um mundo em decadência”. A pergunta é: o romantismo contribuiu para a formação da mentalidade revolucionária? Olavo: Muitíssimo. Começa-se com o próprio Jean Jacques Rousseau. Uma das coisas que o romantismo fez, num sentido aparentemente reacionário, foi a revalorização da Idade Média, trazendo de volta histórias da Idade Média mostrada a uma luz mais favorável. Mas tudo isso estava projetado num futuro, eram ideais de futuro. O número de poetas revolucionários que apareceram no romantismo foi imenso. Muitos deles, inclusive, foram vítimas da revolução, como André Chénier. No próprio Brasil encontramos Castro Alves, Gonçalves Dias. Esse pathos revolucionário está muito evidente em toda a literatura romântica, ao passo que os simbolistas estavam muito menos interessados neste mundo, no curso da história, do que na descoberta de outros mundos, ou mundo interiores ou mundos verdadeiramente espirituais e em uma literatura voltada para a intimidade humana, para a parte mais secreta e íntima do ser humano. Ele não tinha, então, efeito político. A maior parte dos simbolistas era indiferente à política. Mas alguns poetas simbolistas tiveram, independentemente disso, uma atuação política interessante, como William Butler Yeats, que foi um patriota irlandês, na medida em que o seu esforço de penetração esotérica fazia uso de elementos do folclore irlandês, mitos e lendas irlandeses que ele queria valorizar. Com isso, ele cria uma conexão entre o nacionalismo irlandês – que não é uma coisa dele, mas uma coisa disseminada, pois não há um irlandês que não seja patriota – [e o seu esoterismo], e valoriza a cultura irlandesa em face do dominador inglês. Aluno: Escrevo para saber mais sobre o que o senhor pediu na última aula, quando nos disse para pensar num tema para pesquisa. O primeiro critério para isso seria “que o tema tenha importância extraordinária para você e para sua orientação na vida; o que você precisa saber é onde está e o que vai fazer”. O tema ao qual venho me dedicando o tempo todo, o tema que não me sai da cabeça, é o da santidade e o de como atingi-la nos dias de hoje neste país miserável. Mas não sei se sou talhado para isso nem porque gosto tanto desse tema. Olavo: Esse é o tema da aula de hoje. É disso que estamos falando. Se não existe a transmissão da virtude de homem a homem não existe sequer a possibilidade de recuperar as virtudes. E note bem: o indivíduo que faz essa transmissão não é um santo, é um filósofo, apenas um sujeito que teve a visão de alguma coisa; não que ele pessoalmente seja isso. Sócrates não é Deus nem um mensageiro dos céus, mas apenas alguém que viu algo, e essa é a função do filósofo. Se você quer pensar em termos de santidade, deve pensar por onde começar: quantos santos efetivamente produziu, em cinco séculos, o maior país da América Latina, um dos maiores países do mundo? É um número insignificante. Além disso, se observarmos a história da religião no Brasil, veremos que esta é de uma superficialidade e de uma fraqueza monstruosas. Não podemos esquecer que durante todo o império a religião católica esteve praticamente estrangulada. Não banida, mas estrangulada. [1:10] Quando começou o império, o Brasil tinha três mil monges, o que não é nada para um país deste tamanho. Quando terminou o império, tinha oito! Os dois imperadores eram maçons e boicotavam a Igreja. Assim, o Brasil ficou praticamente um século sem instrução religiosa, culminando naquele cristianismo meramente estético das procissões, das festas populares, etc., dando no resultado de que falou João Paulo II, que disse que os brasileiros são católicos no sentimento, mas não na fé. Eles sentem e imaginam como cristãos, mas não têm aquela confiança efetiva que os levaria na vida real a transmitir algo da sua fé, representá-la de alguma maneira. Não de maneira perfeita, que seria a santidade, mas da maneira imperfeita acessível a todos nós. Veja que, se estudarmos a composição do clero brasileiro durante todo o século XIX, veremos que era comum o padre ter não uma, mas várias mulheres. O clero era completamente corrupto. Por incrível que pareça, isso começou a melhorar com a República, quando a Igreja fez um acordo com uma parte da maçonaria, que estava revoltada com outra parte (todas as brigas políticas no Brasil começam na maçonaria), e conseguiu, por exemplo, o direito de criar novas escolas religiosas, o que estava proibido durante o Império, conseguiu o direito de trazer os superiores das ordens para fiscalizar o que estava se passando dentro do Brasil, que também ficou um século sem isso. Se não vinha um superior, virava tudo uma gandaia, evidentemente. Portanto, a formação religiosa no Brasil foi extremamente deficiente. E se você for investigar a santidade no Brasil, sugiro que comece por uma coisa mais modesta, que é a da simples ideia da virtude, que está desaparecendo a olhos vistos. Noutro dia recebi uma lista de letras de músicas populares brasileiras, com músicas da década de 30 até hoje. No princípio, havia letras que expressavam emoções muito elevadas, nobres e a coisa termina com “o lobão comendo a chapeuzinho vermelho” e “vai ter festa lá no meu apê, vai baixando a calcinha”. Isso quando há ainda algum conteúdo verbal, pois muitas vezes há apenas urros e grunhidos. Isto é, o negócio baixou para a expressão meramente fisiológica. Não estou falando isso por moralismo. Sou até imoralista, não me escandalizo com nada, a não ser com a estupidez. Quando ela passa de certo limite, do normalmente aceitável, começo a ficar um pouco chocado. Na verdade, já vivi o suficiente para não ter altas expectativas. Ele (o mesmo aluno) diz que esse tema despertou nele quando ele leu a frase de Clemente de Alexandria: “a filosofia é o pedagogo que nos leva ao Cristo”. E depois quando começou as aulas de religião com meu filho Luís, o Gugu. Esse tema é maravilhoso, mas você está trabalhando no deserto. Se você examinar qual é a atmosfera cultural e social da qual surgiram os grandes santos, verá que não temos nenhuma das condições básicas [na sociedade brasileira]. Dentro da própria Igreja Católica você verá que não temos. O catolicismo [no Brasil] hoje consiste numa mescla de bom-mocismo, de um resíduo de moralismo sexual e de política esquerdista. Estamos, assim, numa situação muito pior do que aquela em que se encontrava Sócrates, pois ele ao menos estava rodeado de uma geração inteira de pessoas relativamente cultas, que tinham o melhor da formação da época, que era a retórica. Hoje não temos isso. O Brasil está no estado de barbárie, estamos pior do que os jesuítas. Os jesuítas, quando chegaram no Brasil, encontraram os índios e estes pelo menos tinham costumes estabelecidos, leis, não era a barbárie. Barbárie é o que há hoje. Aluno: Considerando que há uma relação direta entre religião, cultura e civilização, seria possível dizer que a queda de uma civilização se dá quando a religião [que a sustenta] entrou em decadência? Sendo assim, o ateísmo atual seria um mero interstício entre duas civilizações, duas religiões, como aconteceu no fim do Império Romano? Olavo: Perfeitamente. Eu já disse isso várias vezes. A civilização laica não existe, é um intervalo entre o mundo cristão e o mundo islâmico. Esse intervalo pode ser de dois ou três séculos, o que não é grande coisa. À medida que o ateísmo militante se torna mais forte, o Islã se torna mais forte ainda. Criou-se um vácuo, [que será ocupado pelo Islã]. A proposta de civilização laica nasce em parte com Augusto Comte, o qual tinha com isso o intuito de preencher o vácuo deixado pela Revolução Francesa. Diz Comte que a Revolução Francesa instituiu novas leis, um sistema judicial melhor, mas deixou um vácuo espiritual, que deveria ser preenchido, o que fez que ele inventasse uma pseudo-religião chamada “Religião da Humanidade”. Isso não funcionou, evidentemente. Ninguém acredita nessa porcaria. Portanto, é preciso escolher entre um vácuo que começa no marxismo e culmina no niilismo. A trajetória de muitos intelectuais começa no marxismo e termina no niilismo. É o caso de Michel Foucault. E esse vácuo é preenchido pelo Islã de uma maneira esplendidamente eficaz. O Islã veste a camisa no sujeito e o cerca por todos os lados, de maneira que ele não conviva com infiéis, que ele tenha de regrar todos os seus costumes diários pelo Islã. Existem mais de quarenta mil regras islâmicas, as quais o fiel tem vinte e oito anos para aprender. É ensino islâmico todo dia, todo dia. É um negócio que não deixa tempo para pensar. Como brasileiro não gosta muito de pensar, o Islã é ótimo, pois aparece o Imã e dá tudo mastigado para ele. E ele recebe imediatamente aquele reforço grupal que, para o indivíduo inseguro, imaturo, fraco, é o principal. Ele tem o total reforço grupal, está cercado de muçulmanos e, portanto, está seguro de si. Aluno: Quanto à morte iniciática, como podemos saber se o mestre não foi ao inferno acreditando que era o céu? Olavo: A descida aos infernos precede a iniciação, e ela tem de ser realizada de modo consciente, o sujeito tem de saber que está no inferno. Não esqueça que, na própria profecia de Fátima, a primeira coisa que Nossa Senhora faz é abrir o inferno para mostrá-lo às crianças. Ou seja, antes mesmo de fazer a profecia, ela já mostra como é o inferno. O conhecimento do inferno, então, é fundamental, mas você não vai descer lá como um condenado, mas como Dante, como um observador. Há nessa experiência um sofrimento, mas um sofrimento intelectual. Há uma espécie de humilhação da sua inteligência. O discernimento claro entre o que é a descida e o que é a subida faz parte da própria estrutura da iniciação. Se houver a menor confusão nesse aspecto, recomendo que você fuja. Porém, como Sócrates deixa muito claro, a descida ensina muita coisa. Assim como a descida aos infernos – como ocorre no Inferno de Dante – serve para que o indivíduo reconheça e faça um retrospecto de todas as possibilidades, as mais inferiores e degradantes que existem não só no mundo, mas dentro dele. Às vezes as do mundo aparentemente transcendem as nossas. Mas como possibilidades humanas em geral, as possibilidades infernais estão em nós. O que não quer dizer que deste modo nos livramos imediatamente dos pecados. Nada disso. A morte iniciática é um processo cognitivo. Depois desse processo é que começa a haver a transfiguração progressiva da alma do indivíduo. Se houver a menor possibilidade de confusão entre a experiência dos infernos e a da subida, é o caso de que fala Simone Weil: a pessoa está no inferno acreditando estar no céu. O sentimento de lutar pela justiça, de estar do lado das boas causas, vem junto às vezes com a total impossibilidade de se analisar criticamente o que se está fazendo, como é o caso do exemplo que demos, dos jovens na porta do Clube Militar. Eles acreditam que estão fazendo o melhor possível [1:20]. Mas, medidos pelos padrões usuais da humanidade, vemos que eles estão muito abaixo, que eles não têm ideia desses padrões. Isso começa com a estase imaginativa, a qual é o estado mental no qual se torna impossível o acesso às virtudes. Já se está fechado num circuito onde a ideia de virtude é estereotipada, geralmente associada com o apoio do grupo. Acredita-se estar fazendo o certo porque o grupo diz que é o certo. Isso quer dizer que a sua alma não tem mais a flexibilidade para sentir o seu próprio mal. Portanto, a descida aos infernos está bloqueada. A pessoa já está no inferno, não cognitivamente, mas existencialmente, sem saber. A descida aos infernos é um processo consciente, extremamente sofrido e extremamente humilhante. E a estase imaginativa impede que o indivíduo a realize, pois ele não percebe o mal que está nele. Muitas vezes na vida observei, por exemplo, que certos sintomas físicos que se desenvolvem são defesas contra a percepção de certas realidades, no sentido em que falava Igor Caruso da repressão da consciência moral. Está-se fazendo algo mal, mentindo para si mesmo, sem querer ver aquilo, e então se desenvolve um sintoma estranho. É preciso dissolvê-lo. Mas para dissolvê-lo é preciso entrar num estado de abertura total: “quero conhecer o mal que está em mim, quero de qualquer maneira”. A descida aos infernos não consiste em você ser punido, embora no Mito de Er ele morra efetivamente e desça aos infernos. Mas quem está contando a estória não é ele, mas Sócrates, o qual apenas em parte se identifica com ele, se identifica do ponto de vista cognitivo, mas não do existencial. Aluno: Li o capítulo O Grande Inquisidor, de Os Irmãos Karamazov, e a aula de hoje me remeteu a ele. Nesse capítulo, Ivan Fiodorovitch troca em miúdos com seu irmão uma narrativa por ele elaborada, que trata do que se passa na Europa da Inquisição. Nela Jesus é preso pelos jesuítas e no cárcere é chamado a conversar com o inquisidor, que num diálogo puramente retórico revela as providências mundanas do cristianismo em favor da humanidade. A exposição é forte e lança a dúvida: o cristianismo pode ou até pôde de fato ser corrompido na transposição do mito às suas conclusões? Olavo: É claro que pôde. A elaboração da doutrina teológica é uma das coisas mais complicadas e perigosas que existem no mundo. Não podemos esquecer que no próprio decreto do século XIX, que determinou a infalibilidade papal, afirma-se que essa infalibilidade está limitada ao aspecto doutrinal e à moral geral, não à moral especial. Mas todos os problemas da vida são problemas de moral especial. Como julgar este ou aquele fato. Estamos, nestes casos, num terreno escorregadio, onde não podemos contar nem mesmo com a autoridade do Papa. À medida que se consolida a doutrina também se consolida a estrutura de poder da Igreja. Foi após a renascença que o Papa adquiriu o controle sobre as universidades da Europa e o controle da própria Igreja. A Igreja, portanto, se torna uma autoridade centralizada e centralizadora após o término da grande fase do cristianismo. Na melhor fase do cristianismo, ele era uma confusão, não havia autoridade central nenhuma. O Papa não mandava nada. E o crescimento do poder veio justamente junto com a degradação interna e externa. Então, tudo isso é muito perigoso. Qualquer acréscimo de poder neste mundo é sempre perigoso. Por outro lado, a Igreja não teria como fugir dessa responsabilidade. Desde o início ela foi chamada a atender finalidades que não eram as dela. Já na queda do Império Romano, a Igreja foi chamada a funções administrativas, já que não havia governo. Quem servia de registro civil, quem fazia a escritura da compra de um terreno, era a Igreja. Ela foi forçada pelas circunstâncias a assumir uma autoridade mundana cada vez maior. No curso desse processo, ao longo de muitos séculos, surge a ideia de se inspirar um estado, de se criar um estado cristão, etc. E isso sempre deu em confusão. Mas também é preciso saber que a visão que Dostoiévski tinha da Inquisição advinha da ideia popular russa sobre o assunto. Em russo “jesuíta” é palavrão. Há um lado de preconceito, portanto, mas a imagem que ele dá é bastante eloqüente. [1:27] Transcrição: Filipe Zomkowski, Guilherme Zomkowski, Fernando Opis e Emanuel Franchetti Silva. Revisão: Murilo Resende Ferreira.