Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 130 12 de novembro de 2011 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos! Sejam bem vindos! Continuaremos com as meditações de Descartes, onde aparecerão algumas novidades bem interessantes. Paramos no parágrafo cinco da meditação terceira. Ele diz que vai examinar se pode existir um Deus enganador: “E a fim de que eu possa ter a ocasião de examinar isto sem interromper a ordem de meditação que me propus, que é de passar gradativamente das noções que encontrar em primeiro lugar no meu espírito para aquelas que aí poderei achar depois, cumpre aqui que eu divida todos os meus pensamentos em certos gêneros e considere em quais destes gêneros há propriamente verdade ou erro.” Ele vai classificar os tipos de pensamentos que ocorrem na sua mente e, em seguida, distinguir quais podem ser objeto de erro, evidentemente só aqueles que podem ser verdadeiros podem também ser falsos. Onde não há veracidade também não há erro, não há falsidade. “Entre meus pensamentos, alguns são como as imagens das coisas, e só àqueles convêm propriamente o nome de idéia; como no momento em que eu represento um homem ou uma quimera, ou o céu, ou um ano, ou mesmo Deus. Outros, além disso, têm algumas outras formas: como, no momento em que eu quero, que eu temo, que eu afirmo ou que eu nego, então concebo efetivamene uma coisa como o sujeito da ação de meu espírito, mas acrescento também alguma coisa por esta ação à idéia que tenho daquela coisa; e deste gênero de pensamentos, uns são chamados vontades ou afecções, e outros juízos.” Então esta é a famosa distinção da lógica entre a chamada simples apreensão, ou seja, que forma uma idéia simples no momento em que você pensa num objeto – você pensa numa bola, numa cabra, numa casa – “sem nada afirmar ou negar”, isso é como está em todos os manuais de lógica aristotélica até hoje. Em seguida, existem os pensamentos mais complexos que afirmam ou negam algo, e este afirmar ou negar pode tomar duas formas: pode tomar a forma de uma decisão, de um ato de vontade; ou pode tomar a forma de uma afirmação explícita sobre algum objeto. Por exemplo: “esta bola é azul” ou “esta casa está no topo da montanha”, ou “o gato está dormindo”. Você não está apenas pensando o objeto, mas você está atribuindo a ele a ação de um verbo. É isto que se chama propriamente um juízo ou julgamento. Segundo Aristóteles, só existe verdade ou falsidade nos juízos, na simples apreensão não há verdade nem falsidade. Quando você pensa “cabra” você não disse nada a respeito da cabra, então isso não pode ser em si nem verdadeiro nem falso. Descartes segue aqui essa distinção da seguinte maneira: “Agora, no que concerne às idéias, se as consideramos somente nelas mesmas e não as relacionamos a alguma outra coisa, elas não podem, propriamente falando, ser falsas; pois, quer imagine uma cabra ou uma quimera, não é menos verdadeiro que eu imagino tanto uma quanto a outra. 8. Não é preciso temer também que se possa encontrar falsidade nas afecções ou vontades; pois, ainda que eu possa desejar coisas más, ou mesmo que jamais existiram, não é por isso, todavia, menos verdade que as desejo. 9. Assim, restam somente os juízos, em relação aos quais eu devo acautelar-me para não me enganar. Ora, o principal erro e o mais comum que se pode encontrar consiste em que eu julgue que as idéias que estão em mim são semelhantes ou conformes às coisas que estão fora de mim; (...)” Portanto, ele diz que só há verdade ou falsidade nos juízos. Mas, a verdade ou falsidade que existe nos juízos reside principalmente no fato de eu acreditar que estes juízos, ou que as coisas mencionadas nos juízos, correspondem a algo fora de mim. Por exemplo, se eu penso que a cabra está pastando, aí só pode existir verdade ou falsidade se eu acreditar que existe realmente uma cabra fora de mim, pois se eu penso “a cabra está pastando”, é um fato que eu pensei isto. Entretanto, se este fato corresponde ou não a uma cabra externa, bom, isto é outro problema, segundo Descartes. É evidente que todo este raciocínio, a meu ver, está viciado desde o começo. Este é um dos pontos da filosofia aristotélica que me parece mais espinhoso – quando ele diz que só existe verdade ou falsidade nos juízos e não nas idéias simples, e Descartes acrescenta “também não há verdade ou falsidade nas afecções ou atos de vontade”. A mera idéia de um objeto pode ser pensada de duas maneiras: ela pode ser pensada somente como idéia ou como representação de alguma coisa. Se, por exemplo você pensa uma “tartaruga”. Muito bem, isto pode ser apenas uma idéia na sua cabeça ou pode conter uma referência a uma tartaruga real: quando você vê uma tartaruga, você não está tendo somente a percepção sensível, mas há um equivalente, por assim dizer, no seu cérebro. E este equivalente, esta imagem interna de tartaruga tem uma referência à tartaruga externa. Isso quer dizer que as idéias simples podem ser pensadas como meras idéias, ou como representações, e as representações evidentemente têm em si um coeficiente de verdade ou erro. Como, por exemplo, se eu vejo um objeto e penso que é outro: vejo uma maçã e penso que é uma pera, ou vejo uma cobra e penso que é um lagarto, e vice versa. Quando há uma referência a um ente externo, então é claro que existe verdade ou falsidade na mera idéia enquanto tal, pois a idéia não vem sem uma afirmação implícita da realidade do objeto a que se refere. Se você examinar direitinho, verá que a quase totalidade das nossas idéias “simples”, são, de fato, representações, e não meras idéias. Sempre que você está pensando em alguma coisa, dificilmente você pensa os seus pensamentos só como pensamentos: sempre tem uma referência a alguma coisa que está além do pensamento, não necessariamente a uma coisa física, mas, quando você pensa numa idéia mais abstrata, “a sociedade humana”, por exemplo, você está supondo que existe algo chamado sociedade humana e que não existe somente na sua cabeça. Você não pode se pensar a si próprio como membro de uma sociedade humana fazendo abstração de que a sociedade humana existe para além de você e te envolve. A idéia de sociedade pode estar na sua cabeça, mas você não pode estar numa idéia que está somente na sua cabeça, tem de estar numa sociedade humana que te envolve e que te contém. Esta idéia de sociedade humana não é jamais pensável como mera idéia, porque se eu pensar isto, estou pensando não “sociedade humana”, porém meu conceito de sociedade humana. Claro que eu posso me referir ao conceito, por exemplo, há um conceito de sociedade humana que existe em Karl Marx, outro que existe em Émile Durkheim, outro em Max Weber, etc. Então, neste caso estou me referindo não à sociedade humana, mas àquilo que Karl Marx ou Durkheim ou Max Weber pensaram sobre a sociedade humana. Porém, mesmo nesse caso, eu não posso pensar estes conceitos somente como conceitos ou produtos mentais, pois senão não teria nem como compará-los. A comparação existe na base de um objeto externo ao qual as três concepções se fererem, e, por outro lado, eu tenho também a minha. Então eu sei que penso algo da sociedade humana, e sei que o que penso dela não corresponde a ela em sua totalidade. Ou seja, eu sei algumas coisas da sociedade humana, mas não tudo. Portanto, existe um limite, uma fronteira [00:10] entre meu pensamento e a realidade a que ele se refere. Do mesmo modo existe uma fronteira entre os conceitos de sociedade humana de Karl Marx, Durkhein, Max Weber e a própria sociedade humana. Então todos nós, eu e estes três, estamos nos referindo a um objeto que nos transcende, e é justamente porque ele nos transcende que as várias concepções que nós temos a respeito deste mesmo objeto podem ser comparadas, senão você não teria o termo de comparação. É como você ter várias opiniões a respeito de uma pessoa. Por exemplo, um sujeito diz que o Lula é um santo homem, e outro diz que o Lula é um canalha, etc. Bom, um pensa uma coisa, outro pensa outra. Mas vocês dois sabem que o seu pensamento não corresponde exatamente ao Lula, à pessoa real do Lula. Ele não esgota esta pessoa. Por exemplo, se o Lula fosse um canalha, bom, é possível um sujeito ser somente um canalha? Não, ele não pode ser somente um canalha, ele também tem de ser um membro da espécie humana, um objeto que existe no espaço, e tudo isso nada tem haver com a canalhice. A canalhice é apenas um acidente desta pessoa. O que quer que você pense, sempre tem uma presunção de um objeto que transcende o sujeito, seja um objeto material, seja um objeto ideal, seja um conceito geral, seja um ente em particular. E sem esta referência, nenhuma comparação entre idéias seria possível, pois mesmo que eu diga que nada sei desse objeto, mas só sei o que eu pensei sobre ele, e você também nada sabe o que é o objeto em si, você só tem a sua idéia a respeito. Bom, se não há um terceiro objeto, estamos falando do quê? No mínimo ambos temos de nos reportar a um conceito. Este conceito pode ser, por exemplo, o sentido da palavra que está dicionarizado. E onde está o dicionário? Se ele estiver apenas nas nossas cabeças, então eu tenho o meu dicionário na minha cabeça e você tem o seu na sua cabeça, e eles são incomunicáveis entre si. Então até mesmo o mero conceito, tal como definido num dicionário, tem de ser externo e transcendente aos sujeitos que estão discutindo. Espero que estejam acompanhando esta demonstração a qual considero absolutamente apodíctica. Sem objeto externo, não há sequer comunicação ou comparação, e, neste caso, seria impossível Descartes escrever o que está escrevendo. Ou seja, o fato de ele ter escrito, prova que as coisas não são como ele as descreveu! Porque se ele está falando para nós a respeito de objetos do seu pensamento, é porque ele supõe que nós também temos objetos no nosso pensamento, e que não são os dele! E qual é o elo de ligação entre uma coisa e outra? Como podemos comparar duas meras idéia sem ter como termo de comparação um terceiro elemento que é comum aos dois? Por exemplo, se eu digo que o Lula é um canalha, e outro diz que ele é um santo, bom, estamos necessariamente nos referindo a alguém que não é nós e que existe independentemente do que pensemos dele. O próprio fato de eu atribuir uma qualidade a um indivíduo supõe que o indivíduo tenha essa qualidade nele, e não somente em meu pensamento! Porque se eu disser que o Lula é um canalha, mas só no meu pensamento, estou dizendo que ele não é um canalha de maneira alguma. Ou seja, ele não é um canalha, eu apenas penso que ele o é. Isso quer dizer que qualquer pensamento que você tenha, seja um juízo, ou seja uma mera idéia, sempre implica a possibilidade da representação. Se não há representação, não há comunicação, nós não sabemos do que estamos falando. Se supormos como os estruturalistas e desconstrucionistas supõem o seguinte: não há representação, existe apenas a referência de duas pessoas a um sistema linguístico. Então, tem-se todas as palavras com seus sentidos dicionarizados, consagrados pela evolução da cultura, e é a isto que nos referimos quando falamos, e não a objetos externos. Por exemplo, quando falo “elefante”, não estou me referindo propriamente a nenhum elefante físico, estou me referindo a uma idéia de elefante que está definida e dicionarizada e que faz parte do legado linguístico e cultural da nossa sociedade. Muito bem, mas onde está este legado linguístico e cultural, está somente na minha cabeça ou na sua cabeça? Ele tem de ser externo e tem de nos transcender, por que nós estamos dentro da tradição linguística, e, portanto, ela não pode nos envolver, nos conter e, ao mesmo tempo, estar apenas dentro de nós. Mesmo na hipótese de anular a representação, como fazem os desconstrucionistas, ou seja, não há representação, existem somente os significantes e significados que fazem parte da linguagem: existe somente a linguagem, em última análise. Mesmo nesse caso, a referência está lá presente, embora não seja a referência a objetos materiais, e sim, a referência a um sistema. Ora, o sistema linguístico não fui eu quem inventei, também não foi você quem inventou, ao contrário, nós o aprendemos desde fora, e se aprendemos desde fora é porque ele nos transcende. Portanto, não há idéia sem representação, e onde há representação existe a insinuação de uma verdade, ou seja, que a minha representação de tal ou qual objeto coincide com os sinais que eu recebi daquele objeto. Vejo uma tartaruga, estou supondo que a tartaruga, quando iluminada pelo sol, emite certos estímulos luminosos que atingem minha retina e chegam a meu cérebro de modo que é a isto que estou me referindo quando penso ou falo de tartaruga, e não somente algo que surgiu dentro de meu cérebro, de minha mente. Aliás, até cérebro, se você pensar bem, é uma idéia: você está supondo que seu cérebro existe como uma entidade material, e não somente como uma idéia. Se não fosse assim, então seria um cérebro inexistente, um cérebro que só existe como idéia, pensando outro cérebro que só existe como idéia, portanto, isto não é um cérebro de maneira alguma! É o mesmo que dizer que um cérebro inexistente está pensando alguma coisa. Vê-se que esta concepção nos leva a absurdo atrás de absurdo. E, no entanto, Descartes, que é um anti-aristotélico, está tomando este preceito de Aristóteles como se fosse uma verdade absolutamente indiscutível, sem sequer examiná-la, quando, evidentemente, se ele está propondo derrubar todo o sistema das ciências existentes e construir tudo de novo, bom, ele tem de examinar os princípios fundamentais dessas ciências. E, notem bem, um dos princípios mais fundamentais, e mais básicos, que é justamente este princípio da lógica de Aristóteles, de que só existe verdade no juízo, ele nem sequer examina: ele dá por pressuposto, aceita e vai em frente. Ele faz isso, pois isto se encaixa ao objetivo que ele pretende chegar: ele pretende demosntrar que o erro se introduz no pensamento humano, não por algum erro intrínseco do pensamento humano, mas pela presunção de que este pensamento se refira a algo externo, e o pensamento enquanto tal não pode ter erro. Acontece que desta idéia cartesiana de que o erro se introduz na referência a um objeto externo, surge, como precaução metodológica, examinar antes o pensamento humano do que os objetos externos, invertendo, portanto, em cento e oitenta graus a tendência da filosofia realista que predominava entre os escolásticos, onde se falava do universo, de coisas, de montanhas, de animais, de seres, de árvores, etc, e havia relativamente pouca atenção para o processo cognitivo considerado em si mesmo e separadamente dos objetos externos. É esta torção, esta virada que vai do objeto para o sujeito, ou de uma filosofia realista para uma filosofia [00:20] idealista, por assim dizer – sendo que a filosofia idealista também pode ser um idealismo objetivo, que considera que as idéias ou formas existem fora de nós, e outro idealismo subjetivo, como é o caso de Descartes, onde tudo só existe na mente humana - é esta passagem que marca justamente o começo da filosofia moderna. Mas, notem bem, isto não é somente uma tese: uma tese é algo que pode ser discutido. Quando discutimos uma tese, não a tomamos como pressuposta, evidentemente. Ela se torna um objeto de nosso pensamento e a examinamos, por assim dizer, desde fora. Mas, uma idéia filosófica frequentemente é algo mais profundo do que uma tese. Ela se torna uma maneira de ver, um modo de percepção e um hábito cognitivo, e é como hábito cognitivo que este idealismo se arraiga profundamente na tradição moderna ao ponto de constituir um vício. Notem bem, é como hábito mental, e não como tese. Isto quer dizer que pessoas que não subscrevem a tese, que não aceitam a tese do subjetivismo, podem continuar sendo subjetivistas na sua maneira de infocar os problemas sem mesmo perceber que são subjetivistas. Um exemplo que eu já dei em aulas passadas, quando Karl Marx enfoca toda a natureza existente, o universo existente, como sendo matéria prima da ação humana. Ora, qualquer idiota percebe que, da totalidade do universo, a ação humana alcança, toca apenas um pedacinho insignificante. Que modificação introduzimos na estrela Sirius ou nas galáxias? Nada. Nós mal chegamos lá! Na melhor das hipóteses, nós podemos observá-las de longe, através de instrumentos, ou seja, nós não mexemos em nada, mas arranhamos apenas a superfície de um planetinha! Isso quer dizer que quando você encara a totalidade da natureza como sendo um cenário passivo, e colocando a ação humana no centro dos acontecimentos, o que você está fazendo? Você está sendo subjetivista! Você está colocando o sujeito humano no centro e no topo da realidade, em vez de colocá-lo dentro da realidade, como faziam os antigos. Se estudarmos toda a filosofia grega e também a cultura romana, veremos que para todos aqueles autores, a coisa mais óbvia do mundo era que o homem era um dentre muitos animais. Portanto, o homem era parte da natureza! Ninguém jamais colocou isso em dúvida! E, se o homem é apenas parte da natureaza, então não tem sentido explicar a natureza pelo homem, mas tem de explicar o homem pela natureza. Quando Aristóteles define o homem como animal racional, isso significa que o homem tem em comum com os animais todos os atributos da animalidade, e tem mais um que eles não têm. Ou seja, você só vai compreender algo do homem se você compreender algo da animalidade. Existem milhares de tipos de animais, e nós pertencemos ao reino animal, e tem algo que nos distingue dos outros. Ou seja, nós não deixamos de ser animais. Para um grego ou romano isto era a coisa mais óbvia do mundo. Agora, quando você faz este giro e coloca a subjetividade, a consciência subjetiva do ser humano no centro da realidade, como você vai comparar isto com um animal? Agora os animais são apenas pensamentos que você tem. Então não é possível que as características deles determinem algo de você. Você se tornou uma espécie de observador externo da natureza, você não tem mais nada em comum com a natureza, você está acima dela, olhando tudo desde um ponto de vista quase divino. Então, você não pode mais ser explicado em função da natureza, você está acima dela, então só resta um ponto de comparação pelo qual você pode ser explicado. Este ponto de comparação está ainda mais acima da natureza do que você: é o próprio Deus. Portanto, esta conexão direta que explica o homem mediante Deus, e que explica o resto em função do homem, é exatamente a consequência última do cartesianismo. E esta consequência última entrará tão profundamente na consciência ocidental, que até mesmo os mais extremos adversários do subjetivismo - como Karl Marx - são vítimas do próprio subjetivismo sem perceber. A coisa é muito profunda, é como se fosse um complexo de infância que foi adquirido no berço. Isto está no berço da modernidade. E um complexo não pode ser desarraigado somente por uma discussão filosófica, é preciso uma sondagem na psicologia cognitiva de toda a civilização ocidental. Então, estas doutrinas já não podem ser examinadas somente como doutrinas, mas como modos de percepção que, repetidos e repassados de geração em geração se impregnam de tal como na mente das pessoas, que se tornam naturais, por assim dizer. As próprias reações que este hábito desperta e que pretende nos libertar dele, frequentemente vêm viciadas por ele, de modo que o subjetivismo se transformou numa verdadeira peste. Livrarmo-nos dele se torna tanto mais difícil, pois a modernidade começa com um voto de não aceitar mais a cultura antiga, ou seja, medieval e greco-romana. Ela começa com o voto cartesiano de fazer tábua rasa de derrubar tudo e começar do zero. Então dá a impressão que você reconhecer que os antigos tinham razão em alguma coisa é uma vergonha e uma humilhação que você não pode jamais aceitar. Esta atitude também se arraigou de tal modo que aqui nos Estados Unidos houve propostas de que o ensino de filosofia deveria começar com René Descartes, e esquecer, apagar o resto, porque o resto não contribuiu para formação da América, o que é historicamente falso, pois os pais fundadores eram profundos estudiosos da tradição greco-romana. E volte e meia se descobrem idéias de Aristóteles, Platão, dos escolásticos, etc. Mas toda esta parte foi esquecida, então dá a impressão que a América é o fruto apenas da modernidade, e que nada deve ao período anterior. Quando também surge este movimento ecológico, em parte com a idéia da nova era, nos anos cinquenta e sessenta, que fala da integração da natureza, contato com a natureza, etc, vê-se a marca do subjetivismo em tudo isto, pois a natureza aí é mostrada como um aspecto da experiência humana, como algo que você deve buscar, e não como o cenário no qual estamos e sempre estivemos. A natureza, então, vem encoberta com uma espécie de aura mística encantatória, aura mística e encantatória que, por incrível que pareça, em vez de nos abrir as portas para o fenômeno da linguagem natural do simbolismo natural, ao contrário, complica as coisas mais ainda, na medida em que mistifica. Eu gostaria imensamente de contribuir um pouco para restaurar a idéia de simbolismo natural e de linguagem da natureza, eu acho isto muito importante. Porém, isto não pode ser feito como esse pessoal da nova era fez, não é assim que se faz. Para entender algo disto, nós temos que voltar justamente àqueles que nós rejeitamos, e reler então os clássicos greco-romanos, Aristóteles, Platão, Plínio, o Velho, etc, e ver como eles entendiam isto. Ora, eles entendiam de uma maneira tão precisa, e tão exata que tudo o que a neurobiologia [00:30] vem descobrindo nos últimos trinta ou quarenta anos confirma tudo o que eles disseram, e nega o subjetivismo cem por cento. Porém, isto não quer dizer que os neurobiologistas, sobretudo os filósofos da neurobiologia, estejam conscientemente libertos do subjetivismo: não, eles ainda trazem aquele resíduo. Ainda mostraremos isso, pois é muito interessante. O suprassumo do subjetivismo foi alcançado com a escola desconstrucionista, onde toda referência desaparece e sobre somente o universo da linguagem: uma fala se refere a outra fala, que se refere a outra fala, um discurso que se refere a outro discurso, que se refere a outro discurso, e enfim, tudo é um jogo subjetivo que se dá dentro de um universo linguístico: o mundo real desaparece aí, não há como você atingi-lo. O fato de que o próprio universo do discurso exista para além das mentes individuais que o exercem, não parece abalar estas pessoas no mais mínimo que seja. E, também o fato de que um discurso não possa atingir outra pessoa, senão através de um meio físico que por sua vez não é discurso, por exemplo, quando eu falo, eu estou emitindo ondas sonoras que têm de alcançar seu ouvido, seja diretamente, seja através de um aparelho eletrônico que tenha de alcançar seu ouvido, se não ouver esta agitação do ar, não há comunicação alguma. E, se em vez de falar, escrevo, eu tenho de escrever num papel que existe fora da minha mente, ou seja, é um ato físico. Sem o mundo físico não há a mediação sem a qual não existe discurso algum. Mas, isto não parece abalar os desconstrucionistas o mais mínimo que seja. O Desconstrucionismo eleva o subjetivismo ao seu extremo, e contém, evidentemente, um forte elemento de ceticismo, não é um ceticismo professo, mas é um ceticismo implícito, que é tanto mais forte por ser justamente implícito. Se não há referência, não existe mundo. Se não existe mundo, nós só podemos falar de nós mesmos, de nossos pensamentos, e nunca acertar no mundo real. Aconteceu que, à medida que se desenvolveu muito a ciência da neurobiologia nos últimos trinta ou quarenta anos, os camaradas foram descobrindo coisas absolutamente espantosas. Primeiramente: quando você nasce, só metade de seu cérebro está pronto, a outra metade vai se formar durante a vida. E o que se demonstrou é o seguinte: a imensa plasticidade da sua rede neuronal; ela se adapta a qualquer coisa. E as impressões que vão chegando para você do mundo exterior criam novas sinapses - novas conexões neuronais - criam uma rede, e esta rede se torna habitual, se consolida. Isto quer dizer que as formas que você se habituou a ver nos primeiros anos da sua formação criam estruturas que depois você vai repetir, ou seja, a sua capacidade de aprendizado vai diminuindo e, à medida que diminui, aquelas estruturas que foram formadas pelo impacto do mundo exterior se tornam componentes da sua subjetividade, mas elas não nasceram da subjetividade, nasceram de fora. Por exemplo, houve uma experiência muito interessante, onde criaram gatinhos num ambiente onde só tinham linhas verticais, e eles se acostumaram com as linhas verticais. Só que mais tarde eles tinham dificuldades de reconhecer linhas horizontais, é evidente que os gatinhos não nasceram assim. De onde eles aprenderam isso? Do mundo exterior. Então, hoje, finalmente se sabe que o processo cognitivo é muito parecido com aquele que Aristóteles escreveu: o conhecimento nasce com os sentidos, aquilo que você aprendeu nos sentidos é retido na memória, é esquematizado na memória e daí se tira depois os esquemas com base nos quais você vai criar os conceitos. Isso quer dizer que o material que você recebe, e que não vem de sua mente, que vem de fora, ele é determinante na formação das próprias estruturas da sua subjetividade. Os estudos de neurobiologia provam de tal maneira, as provas são tantas, que não há mais como discutir. Houve até um famoso desconstrucionista americano, Brisson, eu acho, que quando leu este negócio, disse o seguinte: “nós estávamos errados em tudo. O universo cultural linguístico não tem este poder que nós imaginamos: por trás dele existe um treco chamado mundo”. Eu acho, e espero, que com o aprofundamento desses estudos as pessoas finalmente cheguem a perceber que todas as categorias do nosso pensamento estão dadas nas estruturas do mundo. As estruturas da gramática, da lógica, do imaginário, tudo isto está num negócio chamado universo, e nós simplesmente registramos isto aí, mas não registramos tudo, mas registramos principalmente aquilo que veio primeiro, ou seja, os estudos de memória demonstram que quando há uma falha de memória, você esquece primeiro as últimas coisas que você aprendeu, as primeiras continuam lá. Estas primeiras estruturas são determinantes, e elas vêm exatamente do impacto do mundo exterior. Então, ora, quem tinha razão eram os greco-romanos, e os medievais, que eram todos realistas. O mundo dos objetos, o universo, prevalece sobre a mente humana, nós somos apenas mais um bichinho que está aqui no meio pensando com os materiais que ele colheu do mundo exterior, e este é o máximo que nós podemos fazer, não vamos além disso. Só que o conceito moderno do que é um animal também está afetado de subjetivismo através da idéia evolucionista. O evolucionismo é subjetivista porque acredita que aqueles elementos de percepção que foram se incorporando, não a um indivíduo, mas à espécie, já vêm prontos, e determinam, portanto, o quadro de sua percepção. Eu digo: isto é impossível, pois mesmo supondo-se que existe a evolução de uma espécie, cada novo membro desta espécie nascerá não num universo pré-formado pela evolução, pela sua evolução, pela evolução de sua espécie, mas no mesmo universo onde nasceram os outros! Quer dizer, quanto se modificou o mundo, o universo inteiro, desde o surgimento das primeiras espécies dos animais? Muito pouco! Está tudo no mesmo lugar, as órbitas planetárias não mudaram. Quando acabaram os dinossauros, por exemplo, as órbitas planetárias foram afetadas em absolutamente nada. Os processos naturais foram afetados? Não, eles têm o seu próprio mecanismo causal que tem pouquíssimo a ver com a evolução animal. Você pode até admitir que a evolução animal se dá dentro de um quadro determinado por estes fatores extra-animais, por assim dizer, mas não o contário! Se existe uma evolução animal, ela se dá dentro de um quadro geológico, astronômico, climático, etc, que ela própria não determina. Então isto quer dizer que o peso do fator evolucionário, caso ele exista, não pode ser tão grande quanto em geral os evolucionistas imaginam. Outro dia estava lendo um autor cujo nome esqueci, que observa as falhas de percepção. Notem que Aristóteles já havia observado que, por exemplo, quando nós nos movemos num carro - e com os carros mais velozes que existem agora [00:40] a impressão é mais forte ainda – você tem a sensação de que é o mundo que está indo para trás, e não que você está indo para frente. Isto acontece às vezes. Aristóteles já havia observado isto aí. Hoje em dia se explica isto da seguinte maneira: existe uma diferença entre o que seu olho percebe e o que o seu cérebro registra. No momento em que você tem a impressão de que é o mundo que está se movendo para trás, e não você que está indo para frente, quem está percebendo isto não é o seu olho, é o cérebro, ou seja, o cérebro está funcionando de acordo com a sua mecânica interna e está fazendo com que esta mecânica interna se sobreponha ao estimulo real que está vindo de fora. Eu acho a explicação perfeitamente coerente: você recolhe as impressões, em seguida são trabalhadas no cérebro, e você pode prestar atenção no que seu cérebro está produzindo, de tal modo que se sobreponha à impressão atual que está vindo neste momento. Então, é como se você estivesse olhando não a impressão presente, mas um passado muito recente, de dois ou três segundos atrás, e então você inverte a percepção do movimento. Esse autor dizia que a maior parte de nossas capacidades sensoriais se desenvolveu em função da necessidade de buscar aquilo que nos é útil e evitar aquilo que é prejudicial, e dizia que é por isto mesmo que o desejo do que é útil e benéfico e o temor daquilo que é prejudicial são a maior fonte de erros de percepção. Percebi que havia algo que parecia errado: estava invertido. Se as capacidades sensoriais se desenvolviam, sobretudo, para buscar o útil e evitar o prejudicial, então porque elas têm de ser mais falhas precisamente em sua função essencial? É como se dissesse que o estômago existe para digerir alimentos, e é por isso mesmo que ele frequentemente falha em digerir alimentos. Quando o estômago falha, ele não está exercendo sua função corretamente, então isso não pode ser a norma. Não pode ser o próprio fato da digestão que produz problemas digestivos! O problema tem de vir de fora, de outro fator qualquer, por exemplo, a má qualidade dos alimentos. Se as nossas funções perceptivas existem sobretudo para buscar o útil e evitar o prejudicial, então as emoções de desejo e medo, ou repugnância, não poderiam fazer com que isso falhasse tão frequentemente! Ora, Aristóteles já observa que essas emoções interferem na percepção do real e induzem a erro: por exemplo, quando se tem medo de alguma coisa e se exagera a periculosidade: vê-se um gatinho e pensa que é um tigre, ou ouve um ruido qualquer se pensa ser um ladrão, um assassino que veio para matar você, mas na verdade foi apenas alguma coisa que caiu da mesa na cozinha; do mesmo modo que o desejo de alguma coisa faz com que esta coisa assuma para você uma importância desmedida no quadro geral. Portanto, o desejo e o medo são fontes de erros de percepção, é claro! Aristóteles já havia observado. Mas, isto não poderia acontecer se, de fato, as capacidades sensoriais tivessem evoluído principalmente para buscar o útil e evitar o prejudicial; elas devem ter muitas funções antes disso: a simples percepção do mundo, a percepção de algo chamado universo tem de anteceder tudo isto, ou seja, o útil e o prejudicial são apenas qualidades acidentais que algumas coisas têm. Por exemplo, não posso pensar que uma maçã é gostosa, e que um tijolo não é digerível se eu não souber que existem maçãs e tijolos! O desejo e a repulsa são posteriores ao conhecimento dos objetos. Quando um autor neurobiologista sério diz que nossos sentidos se desenvolveram sobretudo para buscar o útil e evitar o indesejável, isto é um mero preconceito evolucionista. O fato é o seguinte: nós não sabemos como estes sentidos se desenvolveram, e, sobretudo, eles não poderiam se desenvolver se não existissem. Isso quer dizer que a existência de um aparato sensorial “x” é uma condição prévia para que exista um aprendizado evolutivo, e não pode, por sua vez, ser determinada por este mesmo aprendizado evolutivo. O aprendizado evolutivo nos abre para algo chamado “mundo”, em primeiro lugar, e dentro desse mundo ele vai discernir várias características, algumas das quais se destacarão como desejáveis ou repulsivas. Porém, dêem uma olhada no ambiente que está à sua volta, todos os objetos que estão presentes – cadeiras, livros, parede, rua, automóvel, etc: quantos desses são agradáveis ou repulsivos? A maioria não é nem uma coisa nem outra! A emoção de agrado ou desagrado, de desejo ou repulsa, aparece e tem um poder muito impressionante sobre sua mente, precisamente por que ela destaca um objeto do fundo neutro dos outros objetos! Por exemplo: se um homem deseja uma mulher: quantas mulheres têm em volta? Milhares! E ele não está prestando atenção em nenhuma delas, pois só pensa em uma naquele momento! Claro que depois de cinco minutos ele pode pensar em outra. Isso quer dizer que se sua capacidade de perceber mulheres fosse determinada pelo fato de que algumas delas são desejáveis, você não poderia ter percebido nenhuma outra antes disso! E o fato é que a humanidade está toda dividia em homens e mulheres muito antes de que você pense em desejar uma delas! Por exemplo: quando pequeno você aprende a mamar em sua mãe, e não no seu pai! Então o aparato cognitivo humano não pode ser explicado evolutivamente, ele é o mesmo desde que a humanidade existe. No tempo do homem de Neandertal ou do Sinantropus pekinensis ele já era o mesmo, e cada pessoa que nasce, nasce com exatamente o mesmo! Onde vai haver um aprendizado evolutivo é na existência do indivíduo, não da espécie. É como se dissesse: a espécie nada aprende: todo mundo nasce burro, até a mãe do Lula nasceu analfabeta. Essa perspectiva de que o aparato cognitivo humano evoluiu ao longo dos milênios é uma projeção em escala da espécie de certas características que são próprias do indivíduo. O que é isto? É o subjetivismo! É a idéia de que aquilo que se passa na existência de um indivíduo, no aprendizado de um indivíduo, se repete na escala da espécie. Mas isto é impossível! É claro que um neurobiologista evolucionista conscientemente não pode ser um subjetivista, mas o subjetivismo está lá presente do mesmo modo. [00:50] Uma observação que foi feita nas últimas décadas por inúmeros historiadores da arte, a começar por Ernest Gombrich, é que a arte é um fenômeno universal. Não há nenhuma cultura, por mais primitiva e tosca que seja, que não existam produtos de arte altamente elaborados. Gombrich compreende que, se assim o é, se isto existe uniformemente em todas as culturas, isto não pode existir em função de uma causa cultural! Tem de ser uma causa natural. Porém isto é o que Aristóteles já dizia! E Aristóteles dizia que a arte nasce da imitação. Ora, hoje em dia, pelos estudos de neurobiologia, sabe-se que o que quer que você perceba, você está imitando imediatamente. Ou seja, a rede neuronal aprende a imitar as formas que você percebe. Se você não aprendesse imitá-las, você não poderia se lembrar delas quando os objetos já estão ausentes! Por exemplo: você vê um elefante, e depois a sua rede neuronal imita um elefante, e este impulso de imitar é tão importante, tão decisivo para nosso aprendizado que algumas das formas que nós imitamos mentalmente, fazemos delas uma imitação de segundo grau, produzindo objetos que as fixem: num desenho, numa estátua, etc. A neurobiologia também hoje mostra que, quanto mais vezes você imitar uma coisa – isso é importantíssimo – e quanto mais a forma imitada adquira um contorno estável, mais facilmente será lembrada. E a produção deste contorno estável é a arte propriamente dita. Quando o homem das cavernas desenha um bisão na parede, aquele bisão vai ficar lá parado: não é como o bisão de verdade que está se movendo. Então você se lembra mais facilmente da forma do bisão na medida em que você a estabilizou. Então é este impulso da imitação e da estabilização das formas que é o impulso da arte, exatamente como dizia Aristóteles: a arte é mimesis, é imitação da natureza. Isso hoje pode se considerar uma tese provada definitivamente pela neurobiologia. As provas são tantas que não dá mais para discutir. Isso quer dizer que o aspecto “criativo” da arte é secundário. O impulso da arte nada tem haver com criatividade, pode haver um elemento criativo que aparece mais tarde em formas excepcionalmente sofisticadas de imitação que vão além das necessidades cognitivas elementares do ser humano, e aí se fala, por exemplo, que uma paisagem pintada pintada por Poussin, ou um rosto humano pintado por Rembrandt é mais criativo que um desenho qualquer de um homem das cavernas ou um desenho feito por mim. Portanto, existe um elemento criativo mas ele não é o essencial na arte: o essencial na arte é imitação e estabilização das formas. Isto é uma necessidade biológica, como já dizia o próprio Aristóteles. Neste período moderno que estamos estudando aparece o impulso de auto-glorificação do ser humano. Isto é notável, por exemplo, no caso da idealização dos governantes poderosos, dos tiranos, a qual começa com a impressão, o impacto que teve sobre a Europa, a figura de Tamerlão, que vinha invadindo tudo, destruindo tudo pelo caminho e que era a própria imagem de um poder material avassalador. Todo mundo queria ser um Tamerlão, como mais tarde todo mundo quis ser um Napoleão Bonaparte, ou um Adolf Hitler, ou um Stálin ou algo assim. O surgimento de formas extremas de um poder avassalador ou atemorizante que antes não existia, não fazia parte da experiência humana tem então um impacto sobre a mente européia de tal modo que tudo passa a ser visto como a expressão de um poder humano, ou seja, um indivíduo poderoso. O subjetivismo aparece dentro disso: se o homem é visto como um ente plástico que pode tudo, que pode ser fazer a si mesmo, então nada mais natural do que colocá-lo acima da natureza, e se você o colocou acima da natureza, ele já não pode ser explicado pela natureza, ele tem de ser explicado por uma coisa que o transcende, e daí esta idéia de Descartes. Então o ser humano deixa de ser um simples animal racional e passa a ser um “eu abstrato, separado do mundo, transcendente ao mundo, o qual só pode ser explicado por outro mais transcendente ainda, que é o próprio Deus. É como se a narrativa do Gênesis fosse invertida: lá está escrito que Deus primeiro faz a luz, depois faz o céu, depois faz os planetas, depois a terra, depois o mar, e etc, e, no fim, coloca lá o ser humano, dentro de um ambiente já criado. Na perspectiva cartesiana é como se Deus tivesse criado o homem primeiro e depois feito o universo em volta, só como um pretexto para ter aquele homem ali. Pela narrativa do Gênesis, nada impedia que Deus parasse a criação no terceiro ou quarto dia, achando que assim estava bom. Daí viria um anjo e Lhe diria para fazer o ser humano e ele se recusasse, sabendo que só daria trabalho e problemas. Nada impediria! Ou seja, a existência do ser humano não é uma necessidade absoluta! E, sobretudo, a nossa existência pessoal não é uma necessidade absoluta. Se você parar para perguntar por que você existe, você verá que não há nenhuma lei necessária que determine sua existência! Então a nossa existência é o que se chama contingente, é o contrário do necessário. Agora, a existência de algo é contingente? Não. Algo, como diz Mário Ferreira dos Santos em sua premissa número um de seu sistema de filosofia, algo existe, algo sempre existiu e sempre existirá, ou, o nada absoluto não existe. Então, a existência de algo nos precede, e como existe algo, dentro desse algo pode caber também a nossa espécie e a nossa pessoa, de modo que a filosofia antiga greco-romana estava muito mais próxima da ordem real das coisas do que toda esta tradição moderna que começa em Descartes. Então, essa conexão direta do homem com Deus pode acontecer, mas ela não é o elemento estrutural como Descartes coloca, ela é um fato contingente. Deus pode se dirigir diretamente a algumas pessoas se ele quiser. Mas têm outras em que isso não acontece. Voltamos ao velho problema de São Tomás contra São Boaventura: São Boaventura achava que a idéia de Deus é um elemento primário, e que todas as outras idéias dependem dela, e que, portanto, a primeira coisa que nós conhecemos é Deus, e depois conhecemos as outras coisas, isso já é cartesiano. Mas, São Tomás dizia ser o contrário: conhecemos primeiro as coisas e, por analogia nós vamos subindo até a idéia de Deus. A diferença vem de que São Boaventura está falando desde um ponto de vista lógico, ele está falando da ordem de dependência interna das idéias, e não está falando do processo cognitivo real. Na verdade, você conhece primeiro as coisas, e quando você chega à idéia de Deus você percebe que as outras também dependem dela: [01:00] dependem logicamente, dependem como fundamento. Então São Boaventura está falando da ordem lógica, da hierarquia interna das idéias, e São Tomás de Aquino está falando do processo cognitivo real no qual ele segue exatamente Aristóteles: começamos pelas coisas dos sentidos e depois vamos para a memória, imaginação, etc. E hoje, todas as pesquisas neurobiológicas confirmam o que Aristóteles dizia: o processo é exatamente assim. O impacto das formas externas é tamanho, que ele determina e limita o que você pode conhecer depois. Ora, em termos de evolução animal, podemos dizer que a mesma coisa se repete? De maneira alguma. Para que isto se repetisse, seria necessário que as estruturas percebidas pelos nossos antepassados entrassem na nossa mente e determinassem e delimitassem o que nós podemos perceber depois, mas isto obviamente não acontece. Sabemos que não acontece porque as formas consagradas nas várias culturas são diferentes, e se existe uma evolução animal, todos nós passamos pela mesma – nós como os chineses, os bantos, os esquimós – todos passamos pela mesma evolução animal e deveríamos ter as mesmas formas perceptivas nas várias culturas, o que não acontece. Porque não acontece? Pois as culturas se constituem do quê? Das formas estabilizadas na arte e no conhecimento, que são registradas em objetos – estátuas, pinturas, livros, etc. – e que são passados de geração em geração. Nenhuma geração nasce sabendo, cada uma tem que aprender tudo aquilo de novo. Portanto, não existe, de fato, uma evolução da cultura, existe uma acumulação, e a coisa mais óbvia do mundo é que esta aparente evolução, da acumulação dos materiais não é repetida na escala animal: cada nova geração que nasce, nasce com o mesmo aparato cognitivo do homem de Neandertal. Só que, durante sua vida, a evolução daquele indivíduo será determinada e delimitada não somente pelos estímulos e impacto que recebeu do mundo físico, mas pelo impacto que recebeu da cultura também, por exemplo, através da linguagem. Por exemplo, Luis Farias sempre insiste que umas das descobertas mais importantes da pedagogia é que se você falar bastante com o recém nascido palavras que ele não entende, ele aprenderá um número de fonemas maior, e, portanto, quando ele for aprender as linguas, ele terá mais facilidade. O que é isto? É a neurobiologia, ou seja, o impulso que vem do exterior cria estruturas, e estas estruturas podem facilitar ou limitar o aprendizado depois. Ora, não só Aristóteles, mas Platão já tinha isto em vista: ele dizia que aquilo que era mostrado às crianças nos seus primeiros anos vai afetar profundamente a sua capacidade de aprendizado e a sua conduta depois. Por isso que ele dizia o seguinte: você não pode mostrar às crianças a má conduta dos deuses, senão eles vão aprender a ver o mundo sob o aspecto do mal. O mal existe, mas porque você precisa informar a criancinha desde pequeno? É melhor formar as suas estruturas na base do bem, e depois ela admite uma parte de mal. E vocês devem se lembrar, talvez alguns de vocês se lembrem de um artigo que escrevi anos atrás sobre Apeirokalia: a falta de experiência das coisas mais belas, onde eu comentava, por exemplo, que a feiura, deformidade e o caos visual das cidades brasileiras exercem uma influência fatal sobre o aprendizado! É só você percorrer aqui os Estados Unidos e verá a harmonia e beleza de todas as cidades pequenas, mesmo nos bairros mais pobres, e você entende porque os americanos são mais inteligentes que os brasileiros: é porque a geração anterior não lhes deu exemplo de feiura – claro que eles também existem, mas não são dominantes. Mas se você percorre as nossas cidades do interior, estão cada vez mais disformes, sobretudo a partir dos anos 50. Quando veio a indústria automobilística, todo mundo começou a ganhar dinheiro e começou a criar monstruosidades que lhes pareciam modernas. Portanto, as pessoas já são criadas num ambiente visual deformante, isto depois não tem concerto. No meio disso, pode haver pessoas que, por um motivo qualquer reajam contra isto, e se apeguem aos estímulos de beleza, rejeitando os outros e não querendo ver. Eu vejo que eu mesmo fui um destes, mas fui um desses porque quando eu nasci, fiquei sete anos na cama, num quarto, sem ver nada. Então quando eu comecei a sair, eu já tinha uma certa capacidade seletiva, eu não fui pego pela feiura totalmente desprevenido. Eu fui ver aos sete, oito anos, coisas que as pessoas viam desde os dois ou três. Então foi vantagem. De certo modo a doença me protegeu contra o impacto de uma feiura ambiente. Lembro-me de que quando fui sair para o mundo – para a escola, etc – eu tinha horror de tudo quanto é feio e não olhava, inclusive gente feia, quando as via, virava os olhos, e quando via gente bonita, eu me fixava. Lembro, por exemplo, que na minha infância o parque Pedro II era bonito, e quando as árvores floresciam eu ficava olhando aquilo horas e achava tão bonito. Lembro-me que tinha uma prima chamada Maria Luísa, que era lindíssima, eu olhava para ela e ficava bobo. Esse desejo da beleza, de certo modo fui protegido, pelo fato de ter ficado doente. E se eu tivesse sido exposto à feiura geral desde mais pequeno? Eu me acostumaria com ela, e buscaria mais feiúra, de novo e de novo. Vejam que isto, ou seja, o desejo da feiura é uma coisa onipresente na cultura brasileira de hoje. Ou seja, o desejo do grotesco, do ridículo, do humilhante, do deprimente, do degradante, é o que todo mundo quer! Não estou falando do ponto de vista moral, pois a feiura moral é inevitável quando existe a feiura estética. Se as pessoas não são capazes de distinguir entre o belo e o feio, muito menos serão capazes de distinguir entre o certo e o errado: uma coisa está estritamente ligada à outra. Tudo isso os antigos já sabiam, e isto fica obscurecido por este subjetivismo moderno que coloca o homem fora e acima da natureza, como se fosse alguém que já tem contato direto com as verdades eternas e para o qual o mundo é apenas uma coisa insiginificante que pode ser colocada entre parênteses. Não deixa de ser curioso que na mesma época aparece o desejo de conhecer a natureza, mas conhecer a natureza somente como objeto das ciências experimentais, que já não é a natureza, é um recorte intelectual feito em cima dela. Antes de responder a algumas perguntas, eu queria lembrar para vocês algo sobre o método, ou pelo menos o estilo de leitura que estamos fazendo. Este método é inspirado numa frase do Jorge Luis Borges, de que para você entender um único livro é preciso ter lido muitos livros. Então, isso quer dizer que em torno de cada frase [01:10] que você vai lendo, formam-se uma série de círculos concêntricos que vão para trás e para frente na história ou na evolução das idéias, conhecimentos humanos. Com isso você não está evidentemente fugindo do texto do livro, porque estas referências implícitas estão no próprio texto. Acabamos de ver que Descartes, sem citar Aristóteles, repete um conceito aristotélico. Se você não sabe que é aristotélico, então você não está entendendo realmente o que ele está dizendo. Ele está numa espécie de diálogo implícito com um filósofo da antiguidade, e não apenas enunciando uma idéia que ele teve sozinho. Então, essas referências têm de aparecer. Mas existem também o que podemos chamar de referências futuras”, ou seja, uma coisa que o filósofo não sabia na época, mas que, de certo modo, já estava embutido no que ele estava dizendo antes, e que vai aparecer depois como consequência histórica do que ele disse. Mas essas consequências já estavam ali embutidas de algum modo. Toda a evolução do subjetivismo posterior já estava dada no cartesianismo, ainda que de maneira obscura. E nós podemos perguntar quanto dessas consequências o próprio Descartes previu, e para quantas ele estava completamente cego. E é justamente nestas perguntas que vamos delimitar o que chamamos de horizonte de consciência dele: é no entendimento que ele teve da história do pensamento anterior, e da capacidade de projeção que ele tinha para as consequências de suas próprias idéias. Entre este passado e este futuro você delimita exatamente o lugar onde o indivíduo está, e qual é a função que ele desempenha como elo de uma cadeia, sem reduzi-lo a elo dessa cadeia, sem fazer dele um “produto de seu tempo”, ou coisa assim. Ou seja, por um lado conservando uma visão clara que temos do que é específico, do que é individual, característico de René Descartes enquanto indivíduo pensante, e por outro lado temos seu encaixe horizontal no meio onde ele estava, e vertical na evolução histórica. Então a leitura vai sempre para frente e para trás, mas entre o para frente e o para trás, você tem de tentar localizar o que é próprio daquele indivíduo, para você não falsear o pensamento dele, não reduzi-lo às suas consequências e nem aos seus antecedentes. Aqui temos uma série de perguntas interessantes. Aluno: Durante este primeiro ano em que assisti às aulas de filosofia, procurei seguir todos os seus conselhos. Demorei um pouco para entregar o necrológio, pois até então não tinha certeza de nada, além da vontade de saber a verdade e buscar saber as coisas como realmente se passaram. Agora posso compreender uma ínfima parte de meu ser, e posso vislumbrar, mesmo incompleto, o imenso horizonte de minha ignorância. Esse saber das coisas que desconheço é muito gratificante. Ele me tranquiliza na medida em que me oferece uma infinidade de possibilidades. (...) Olavo: O que eu chamo “mapa da ignorância” é também o mapa do curso inteiro dos seus estudos futuros. É você tomando consciência do que você precisa saber, ou seja: para entender isto, eu preciso entender aquilo, e aquilo outro. Portanto, embora não tenha estes conhecimentos, você sabe quais são os elos faltantes, e então você vai procurar preencher. Claro que, à medida que os preenche, o panorama inteiro da coisa pode mudar, o mapa inteiro pode ser alterado. Aluno: (...) Diante desse fato, deparei-me com a tarefa da escolha. Pensando durante algum tempo sobre a questão, lembrando-me da questão do ensino no Brasil, pensei nas minhas filhas: quem poderia educá-las além de mim? Percebi então que meus estudos e a educação delas estão diretamente ligados. (...) Olavo: Certamente Aluno: (...) Já faz um ano que eu e minha esposa ensinamos em casa nossas filhas. Por elas serem ainda muito jovens, uma com cinco anos, outra com sete, resolvemos concentrar seus estudos iniciais no domínio da linguagem oral e escrita, e na matemática básica, a fim de lhes oferecer os subsídios para uma vida de estudos mais elaborada no segundo momento (...) Olavo: Batata! É isto que tem de fazer: reading, writing and ritmitics, os três “r”. Isto aqui é o básico: se você já ensinou isto, já ensinou tudo, o resto elas aprendem sozinhas. Aluno: (...) É precisamente para este segundo momento que eu preciso me preparar. Estive estudando os métodos de ensino dessa modalidade educacional, e notei que não existe nada, pelo menos que eu conheço, voltado para o aluno brasileiro. Eu adquiri os livros de Feuerstein e de Mandia Mentis e outros que você recomendou, e eles se mostraram realmente maravilhosos em seus resultados. Porém, sinto falta de um programa coeso de ensino. (...) Olavo: Mas isto aqui é um abacaxi. Eu não sei fazer este programa, principalmente voltado para o aluno brasileiro. Isto aqui precisaria ser muito discutido e pensado, e eu não creio que tenha uma solução pronta para isso aí. Aluno: (...) A disciplina de história do Brasil é importante ser ensinada curricularmente? (...) Olavo: Eu vou lhe dar apenas uma opinião pessoal, não posso lhe dar uma resposta científica: com toda sinceridade, acho que é só importante ensinar curricularmente aquilo que você já ensinou. O resto deve estar em aberto, e o que se deve fazer não é ensinar as pessoas, mas dar a elas os meios de aprender, ou seja, estes conhecimentos têm de estar à disposição. Aqui nos Estados Unidos os alunos têm uma flexibilidade muito grande para construir seus curríulos, e acho que isto é uma preciosidade do ensino americano: as pessoas vão estudar o que querem aprender. Se o sujeito não quer, não adianta você dar um programa para ele. Eu me lembro que, quando estava no ginásio, haviam coisas que eu queria aprender, e outras que realmente não queria. As que eu não queria, eu não ia aprender de maneira alguma. Era inútil insistir naquilo naquele momento; talvez em outro momento eu estivesse mais aberto àquelas coisas. Eu sempre achei que a idéia de um programa fixo e uniforme para todo um país é uma monstruosidade! Cada professor em cada lugar tem de encontrar as soluções melhores para aqueles alunos que eles têm, para aquelas pessoas concretas. Você não está educando uma humanidade abstrata que já vem toda pronta, você está educando pessoas que já vêm com uma herança cultural, com uma mentalidade mais ou menos pronta que trazem de suas casas, completamente diferentes uns dos outros, e completamente diferentes de lugar para lugar. Não acredito, portanto, em um currículo uniforme: seria preciso construir um currículo de acordo com as possibilidades de seus alunos – no caso, suas filhas, e também de acordo com os desejos que elas mostrem. Acho que algo muito interessante é você simplesmente exibir para elas as possibilidades, por exemplo, levá-las num museu, num concerto, mostrar como funciona uma biblioteca, mostrar o conjunto dos recursos de estudo que existe, isto é mais importante do que ensinar para elas isto ou aquilo. Quando eu estava no terceiro ano do ginásio comecei a fugir da aula para ir para a biblioteca municipal. E daí eu vi que, de todas as coisas que eles tinham me ensinado, eles nunca tinham me ensinado como se lida com uma biblioteca, como funciona uma biblioteca. Então eu estava desarmado perante aquilo, e tive de aprender fora da escola uma coisa que me foi muito mais útil do que tudo o que aprendi na escola. Aluno: (...) Deve-se dividir a história em história geral e do Brasil? (...) Em primeiro lugar, se você entrega para elas uma disciplina chamada “História”, você já está entregando um produto cultural altamente elaborado que não corresponde necessariamente à percepção que elas já tem do tempo, da ordem narrativa, etc. Portanto, mais importante do que ensinar história, é desenvolver para elas o senso da ordem narrativa, o que se adquire através da literatura de ficção. Hoje sabemos que têm certas obras de ficção que documentam a história, por assim dizer, muito melhor do que qualquer obra de história. Se você ler Balzac ou Dostoiévski, você fica sabendo muito mais da história da época do que nos livros de todos os historiadores. Para encontrar um livro de um historiador que consiga dizer aquilo é muito difícil. A passagem da pura narrativa para a narrativa histórica tem de ser gradativo e muito cuidadoso. Sobretudo, eu acho muito bom o uso de recursos ficcionais e teatrais no ensino [01:20] da história: por exemplo, colocar as pessoas na posição de vários personagens históricos em momentos decisivos e ver como elas decidem a situação, para elas tentarem imaginar. E você não deve evidentemente se contentar com as primeiras decisões que elas tomem, você deve criticar as decisões e forçá-las a compreender mais a complexidade das situações. Imaginem, por exemplo, o famoso momento em que Dom Pedro I quer se retirar para Portugal e seus assessores lhe pedem que permaneça. O que você faria no lugar dele? Ele ter decidido ficar foi uma condição básica para que logo em seguida o Brasil pudesse tomar rumo de uma nação independente. As coisas poderiam ter ocorrido de outro modo. O indivíduo perceber essa tenção das decisões históricas é mais importante do que ele saber materialmente a sequência dos fatos, ou, pior ainda, sondar as causas de acontecimentos históricos. Ora, como é que eu posso saber a causa de um acontecimento histórico se eu não sei a causa do que eu mesmo fiz na véspera? Se não há uma compreensão das conexões de causa e efeito na vida pessoal, muito menos vai ter no plano histórico. Isso vai virar uma verborréia totalmente desligada da realidade. Outro dia, por exemplo, quando veio uma senhorita da revista Época me entrevistar, ela me perguntou se eu achava que estas rebeliões estudantis refletiam de fato uma crise do capitalismo. Ora, para eu relacionar estes acontecimentos com uma crise econômica, eu precisaria escrever uma obra histórica em dez volumes. Ou seja, isso que ela me perguntou é uma coisa que jamais saberemos. O que é propriamente uma crise do capitalismo? O capitalismo sempre viveu em crise: é próprio de sua natureza crescer através das crises. E, em segundo lugar, quem disse que uma crise econômica causa rebeliões? Será que o simples fato de as pessoas ficarem sem dinheiro as leva para as ruas para se juntar com outras milhões de pessoas e fazer um protesto? Ora, organizar um protesto é uma coisa muito difícil e muito cara! A falta de dinheiro jamais pode gerar um protesto! Protesto surge quando alguém decidiu que ele vai existir e que vai ter os recursos, não só financeiros como políticos, articulações, os agentes para montar tudo isso. Como é que eu sei disso? Eu sei disso porque no tempo do ginásio eu fugia da aula de história e ia, por exemplo, tentar organizar alguma coisa no grêmio, um baile para a coleta de fundos. Aquilo dava um trabalho medonho! Fazer uma porcaria de um baile, que não tem objetivo e periculosidade alguma, é um trabalho miserável! Portanto, com quinze anos de idade eu tinha uma idéia de como se organiza alguma coisa coletivamente, e isto me ajudou mais a entender os processos políticos do que entender qualquer coisa que eu estudasse na aula de história! A estrutura da ação humana: uma pessoa que não é capaz de montar um time de futebol não pode entender nada da ação histórica, é absolutamente impossível! Tem pessoas que certa idade entram no partido comunista, e se acostumam a raciocinar as coisas do jeito que lhes ensinam, mas não sabem de onde surgiu o partido, como ele se organizou, mas já recebem a coisa pronta, e passa a ser simplesmente natural imitar o que as pessoas estão fazendo, e não têm idéia das bases reais de onde aquilo surge, como é que se fez aquele negócio, e às vezes nunca se põem estas perguntas! Hoje mesmo eu estava vendo uma série de depoimentos de jornalistas dos anos sessenta, setenta, os jornalistas de oposição, todos do partido comunista. Algo espantoso era o número de jornais de oposição que existiam, eram centenas, e agente pergunta de onde arrumaram o dinheiro para fazer tudo isto? Se hoje se vê os conservadores que teóricamente são a burguesia, não têm dinheiro para fazer um site! E eles tinham dinheiro para lançar centenas de jornais, e publicar milhares de livros, etc. De onde saiu o dinheiro? Mas não é o marxismo que ensina que você deve estudar tudo pela base econômica? Qual era a base econômica da esquerda daquela época? Nunca vi ninguém perguntar! Então tudo aparece como se fosse um produto espontâneo do amor à democracia, como se o amor à democracia pusesse dinheiro no bolso deles e lhes permitissem fazer jornais. Também, todo aquele movimento era baseado em Cuba, a base de operações era Cuba. E Cuba, enquanto isso, tinha centenas de milhares de pessoas na cadeia sendo torturadas, morrendo, e os nossos esquerdistas montados em cima disso protestando contra a ditadura brasileira que tinha prendido trezentas pessoas. Mas isto é o suprassumo da alienação: eles não sabem quem são, não sabem qual é a base social histórica, econômica e política sobre a qual se assenta a ação deles! Eles estão no mundo da lua! Imaginando sua juventude como se tivesse nascido do mais puro sentimento, e só! Aliás, alguns, quando falavam, até choravam, lembravam de como eram lindos, faziam a coisa certa. Um momento: mas que coisa exatamente eles fizeram? Descrevam-me como fizeram? De onde arrumaram o dinheiro, quem mandou fazer, de onde vieram os planos, qual era o substrato real da ação? Ora, substrato real da ação é a própria definição da história! Contar como as coisas efetivamente se passaram, dizia Leopold Von Ranke! Então, se você quer saber, nós só conseguimos saber como as coisas se passaram com relação a acontecimentos muito limitados, nós não podemos ter uma visão substantiva, cheia, da história inteira. Portanto, a visão que teremos da história inteira é sempre esquemática e sempre errada. Dividir a história em períodos: isso se refere ao que aconteceu num pedacinho da humanidade, e está ignorando civilizações milenares que existiam ao mesmo tempo. Eric Voegelin queria fazer a história das sucessões dos modelos de ordem e viu que não tinha sucessão nenhuma, que enquanto uma coisa estava acontecendo aqui, aparentemente estava no capítulo III da história, outra no capítulo XV ou no I. Enfim, as cronologias não batem. Tentar obter um conhecimento histórico substantivo, ou seja, conhecer os fatos, é obra para uma vida inteira. É besteira achar que vai ensinar para eles um negócio chamado “história universal” ou ‘história do Brasil”, e que eles vão aprender algo. Se você tentar ensinar esta história inteira, você vai falsear tudo. Então, é mais importante desenvolver o senso histórico, que é o senso da estrutura real da ação humana, ainda que o conhecimento histórico, da narrativa, da cronologia, seja algo deficiente. Eu vejo que o meu é deficiente até hoje. Se me pedirem para fazer um perfil, uma cronologia da história humana, eu não consigo fazer. Eu sei com relação a certas etapas e períodos que estudei. Mas esta idéia de querer passar uma visão geral da história não é possível. Vão é passar uma história da caroxinha. Aluno: (...) É importante ensinar a história curricularmente? (...) Olavo: Bom, é importante você ensinar para eles lhes desenvolvendo o senso histórico. Quando você fizer isso, alguns terão despertado sua vocação de estudar história, e outros não. Então estes alguns aprenderão mais, outros não. Aluno: (...) Quais os livros de onde eu possa extrair uma história do Brasil mais fiel aos fatos? (...) Até os anos 50, 60, tinham livros maravilhosos de história do Brasil: História da República, de José Maria Belo, A política geral do Brasil, de José Maria dos Santos, a coleção de livros História dos fundadores do Império do Brasil, de Otávio Tarquínio de Souza, ou a História de Pedro II de Heitor Lira: uma quantidade enorme de livros maravilhosos. Brasileiros e portugueses sempre tiveram talento para a historiografia. Agora, depois que veio o golpe de 64, não tem mais história. Só tem as memórias [01:30] da elite esquerdista que está interessada em se auto-glorificar, e que omite praticamente tudo o que aconteceu. Então, vê-se que o tema único da história nos últimos trinta anos é a ditadura e os sofrimentos daquela elite durante a ditadura. É só disso que se fala! Quando eles dizem de 1968 “O ano que não terminou”, eles têm toda razão, pois eles não deixam terminar. Eles querem ficar lá eternamente, e tudo o que aconteceu depois? Não interessa! Eo banditismo, e a destruição da educação, e a destruição das famílias – o Brasil é campeão mundial de divórcios - e tudo isso que é a substância de nossa história social material não está nos livros de história! Agora, não está nos livros de história pois não está nem na ficcção, você não tem nem literatura de ficção para documentar isso aí. Por exemplo, vejam o que aconteceu com a Raposa Serra do Sol: aquela retirada de milhares de plantadores, para ser substituído artificialmente por outras pessoas... Meu Deus isso é uma epopéia! Se fosse nos Estados Unidos teria quinhentos filmes sobre isso. No Brasil não tem um livrinho! Lembro-me, por exemplo, do livro A farça Ianomâmi, do Coronel do exército Carlos Alberto Menna Barreto, que contava como se montou uma tribo do nada: juntaram índios de várias partes e inventaram uma tribo. E isto foi feito através de agentes de organizações internacionais. Criaram uma coisa do nada! Olha que filme maravilhoso! É uma farça completa! Mas isto também não faz parte de nossa história! A própria história da auto-idealização dessa geração de comunistas: como eles foram eliminando a história do Brasil e reduzindo-a à sua própria história, que é a história do grupo de duas ou três mil pessoas no máximo! E contam como se aquilo fosse o Brasil! Entramos, portanto, na alienação total, ou seja, a história desse período tem de ser feita diretamente nos documentos, não há livros, há depoimentos pessoais como A farsa Ianomâmi que o do Coronel Carlos Alberto Menna Barreto escreveu. Existem muitos e muitos documentos interessantes. Não é possível ter-se um ensino da história onde não houve a pesquisa histórica. E a pesquisa histórica no Brasil foi monopolizada por militantes que são, no seu próprio entender, o centro da realidade. Dê uma espiada nessa série de depoimentos que se chamam Resistir é preciso, e verão que eles se colocam no centro e no topo da realidade, e se comovem com suas próprias qualidades humanas, acham-se lindos e maravilhosos. Mas algum daqueles percebeu que eles estavam no topo de um sistema hierárquico baseado na opressão, no crime, no genocídio? Nunca sentiram isso nem por um momento! Nunca se perguntaram quantos cubanos precisaram morrer na cadeia para que estivessem ali. Aqueles que foram para Cuba e foram apadrinhados pelo governo cubano, nunca se perguntaram qual é a base social real da minha posição? Então é aquela famosa experiência do Meira Pena na universidade de Brasília perguntando para os alunos a que classe social eles pertenciam, e eles não sabiam! Isso significa o seguinte: estes professores de sociologia, de ciência política, de filosofia, todos estes jornalistas, eles não sabem a que classe social pertencem, qual é a base social da sua atividade, não sabem nada a respeito de si mesmos, estão no mundo da lua! Como a história do Brasil nos últimos 30 ou 40 anos virou esta bobagem de “anos dourados”. A expressão “anos dourados”, quem contou a origem da expressão foi o Daniel Mass. A origem da expressão é a mais degradante possível: a elitezinha intelectalóide carioca se reunia no Copacabana Palace para esperar a cocaína que era trazida por um boliviano e que vinha em pacotinhos dourados! E aí que se gerou a expressão “anos dourados”. Ele contou que uma vez estava lá sentado na pérgola do restaurante, tomando seu Uísque, todos esperando o boliviano, e o pessoal estava brincando de dar caldo nas pessoas, ou seja, jogavam elas dentro da piscina. Quando entrou o boliviano, imediatamente alguém pegou o boliviano e o jogou na piscina com todos os pacotinhos, e ele desesperado: “não, o boliviano não”. Todos pularam para dentro da piscina para salvar os pacotinhos. Esta é a origem da expressão anos dourados que depois adquire um glamour todo especial. Quando agente vê este pessoal da USP brigando para expulsar a polícia e respeitar seu direito à criminalidade, “nós temos direito de traficar tóxico, de matar pessoas, e aqui é a autonomia universitária, aqui cheiramos cocaína, fumamos maconha, estupramos as pessoas e ninguém tem nada haver com isto!” Esta mentalidade saiu destas pessoas da geração de 60, pois eles foram criados nisto! Este pessoal é filho da turma dos anos sessenta! Veja o impacto que estas coisas têm de uma geração para outra! Se você quer estudar a história do Brasil, não tem como ensinar a história do Brasil, a história recente tem de ser pesquisada. Quanto a história até os anos 50, bibliografia não falta. Eu considero que estes livros do Otávio Tarquinio de Souza, A História dos fundadores do Império do Brasil, deveria ser obrigatório para todo mundo, são livros maravilhosos. Assim como a história social de Gilberto Freyre, os livros do Oliveira Lima. O Brasil teve historiadores maravilhosos; isso nunca faltou. Aluno: (...) Até que ponto de matemática se deve ensinar? Por exemplo: qual a razão de se ensinar a geometria plana números complexos, plano cartesiano, etc? Olavo: Depende da necessidade e da disponibilidade de cada um. Se o indivíduo não quer aprender isso, se a sua imaginação não está voltada para isso, não adianta ensinar, pois ele vai apagar tudo, ou seja, o cérebro vai rejeitar. Já tem um mecanismo na cabeça do brasileiro que é assim: eu vou aprender isso até a prova. Ou seja, ele não vai aprender a matéria, ele vai aprender a fazer prova daquilo. Então não adianta. Se o sujeito quiser aprender, ele aprende qualquer coisa. O meu filho Luiz, o Gugu, quando ele tinha onze anos, ele pegou o livro do Szemanski, de física, da universidade, e disse “eu vou estudar esta coisa”. “Mas está em inglês!” “Não tem importância, vou aprender inglês e vou estudar este livro!” Ele ficou seis meses estudando inglês e daqui a pouco estava ele lá estudando um livro que eu não entendia, porra! Eu levei anos para entender uma coisa daquele negócio! Por quê? Por que ele queria! Do mesmo modo que eu ainda muito jovem pude desenvolver uma inteligência histórica, porque me interessava, ele desenvolveu inteligência física, científica, porque lhe interessava, por que ele queria. Os sonhos, desejos da criança são um negócio precioso, pois é dali que vem a força que ele tem para fazer as coisas, e se você manda ele parar de fazer aquilo para fazer outra coisa, você está atrapalhando a vida dele. Ninguém vai aprender tudo! A idéia de currículo daquele mínimo que todo mundo tem que saber: ora, se todo mundo sabe este mínimo, cada um só aprende o mínimo. E esse mínimo, se você for ver bem, se resume exatamente nos três “r”: o que sobrou? Eu sei ler, escrever e sei fazer um pouquinho de conta: é isso que sobra! Todo ensino que vai desde o primário até o fim do secundário sobra isto! O resto apagou tudo! Aluno: Qual é a expressão do termo unívoco e equívoco? Olavo: Um termo é usado de maneira unívoca quando ele designa um objeto perfeitamente identificável, e de maneira equívoca, quando ele designa dois ou três objetos diferentes ao mesmo tempo. Então, por exemplo, quando você [01:40] usa um nome de um objeto, por exemplo, agora estou olhando um quadro que tem uma águia: bom, é uma águia. Mas designa ao mesmo tempo a águia que está pintada e uma águia real que está voando no céu. Então, no caso está sendo usado de uma maneira equívoca. Existem termos que são equívocos no seu uso geral, onde pode ter até sentidos contrários entre si. Hoje em dia, quando você fala a palavra “direito”, direito às vezes significa o poder que você tem de negar o direito do outro. Isso é usado assim o tempo todo. É preciso escavar as camadas de significados diferentes para você saber o que o sujeito está querendo dizer na prática. Quando eu digo “o que ele está querendo dizer”, não é necessariamente o que ele está pensando, mas é o que ele quer que você pense, pois às vezes é diferente do que ele próprio está pensando. Equívoco, para Aristóteles, quer dizer que tem dois ou vários sentidos. Aluno: Essa semana li o seguinte trexo de Louis Lavelle: “resistir ao egoísmo é encontrar em si uma espontaneidade nativa anterior a todos os cálculos e, fora de si, um contato direto com a realidade que o interesse nunca permite. Esse lapso imediato entre a espontaneidade e a realidade, tal é a própria essência da sinceridade. A partir do momento em que a reflexão se interpõe entre elas e o que o indivíduo pensa em seu próprio bem, a sinceridade começa a se alterar.” Como fazer que o nosso desejo de conhecer não se torne apenas expressão do amor próprio, mas sim a aceitação amorosa pela realidade? Se, como nos diz Aristóteles: “toda ação humana visa o bem”? Olavo: O “Bem”, mas não necessariamente o bem egoísta. O bem egoísta é baseado naquilo que você imagina ser o seu interesse, mas que pode não ser realmente seu interesse. Então, eu acho que a abertura para a realidade é um bem enorme que nós podemos conquistar. E, de fato, somos afastados disso pelo fato de que recortamos a realidade e queremos só isto ou só aquilo, e vemos tudo mais em função daquilo. Esse processo é natural, mas a abertura também é natural. Tenho uma imagem que se gravou na minha mente, eu nunca mais esqueci: eu tinha um vizinho que morava em Ubatuba, e ele costumava nadar numa praia que tinha ondas de quatro metros. Então era só ele que nadava naquela praia, só ele era louco o suficiente para fazer isto. Mas ele pulava dentro da água e deixava a água levá-lo para onde quisesse, jogá-lo para cá e para lá, e ele ficava numa boa, e não estava fazendo nada, mas estava simplesmente aberto para o que desse e viesse. Se ele tentasse vencer as ondas, ele seria submergido. Então aquela imagem gravou-se na minha cabeça, e eu vi que esta abertura para o mundo real é um grande benefício, isso amplia nossa alma. Ela nunca vai ficar grande o suficiente para conter o universo inteiro, mas você vai abrindo cada vez mais sempre com esta idéia de aceitação. Nesse caso, é um pouco a norma do Augusto Compte, mas usado num contexto que não é do Augusto Compte: regrar o interior pelo exterior. Na verdade, como vimos na primeira parte da aula, isto é o que nós já fazemos, mas sem perceber que fazemos. Aluno: Na aula o senhor comentou que todas as categorias do pensamento se formam através das primeiras experiências. Tenho certa dificuldade de perceber e entender este processo. O senhor poderia comentar mais sobre o assunto? Olavo: Um exemplo que eu dou, tirado de minha experiência pessoal, é a noção de direções do espaço, que para mim foi muito importante desde pequeno pelo fato de eu ficar deitado durante muito tempo, e viver, por assim dizer, num mundo vertical. A noção de profundidade e de altura era para mim, de certo modo, mais importante do que direita e esquerda, pois eu não estava me movendo. Mas na hora em que comecei a me mover mais, então aparece toda uma dimensão horizontal que se revelou também muito interessante. E a idéia das direções também me apareceu num episódio das tartarugas: como eu tinha miopia num olho e hipermetropia no outro, eu via as coisas de dois modos diferentes. E eu tinha uma coleção de oito tartarugas, e as botava para nadar no tanque e, se olhava com o olho direito, aparecia de um jeito, com o esquerdo aparecia de outro. E, de repente, fosse com direito ou com esquerdo, notei que as direções permaneciam. Então percebi que há uma estrutura geométrica que não depende de meu olho, elas vão para onde estão indo realmente. Ainda que suas aparências – cor, formato, etc. - apareçam um pouco diferente, tem uma estrutura externa que é a mesma. Esta estrutura é das direções do espaço. Eu não tirei as direções do espaço de minha cabeça, eu estava dentro do espaço, e não é o espaço que estava dentro de minha cabeça, como diz o Kant. Experiências desse tipo marcam você para sempre. Agora, nem todo mundo lembra delas. E é claro: assim como a experiência das direções do espaço me impressionou, tem outra experiência que pode ter impressionado outras pessoas. Mas, se você rastrear, você fará o gênero literário do Allan, “a história dos meus pensamentos”. Fatalmente você verá que a maior parte deles veio de fora, que você aprendeu com o mundo Aluno: o cacoete mental - sujeito com a visão moderna do mundo, é apenas um erro cognitivo ou um desejo deliberado de não compreender, ou ambas as coisas? Olavo: Sem dúvida são ambas as coisas, pois depois que você se viciou nesta maneira, em primeiro lugar: você se torna incapaz de conceber a maneira contrária. Eu já comentei na aula passada como se tornou “natural”, para os estudiosos do processo cognitivo humano, querer explicar ao mesmo tempo o sujeito e o objeto, estudando somente o sujeito, o que é impossível. Então, o sinal de uma libertação disso praticamente só acontece com a neurobiologia, e mesmo assim alguns autores da neurobiologia ainda estão viciados na perspectiva que eles mesmos estão demolindo agora. Voltar a entender que existe um mundo, que nós estamos dentro do mundo – claro, diz o Cristo que nós estamos no mundo, mas não somos do mundo – esse “não somos” significa nós não somos essencialmente, mas existencialmente é aqui que nós estamos, e é o que nos dá o molde de tudo o que somos e aprendemos. Veja, você já comeu alguma coisa que viesse de dentro de seu organismo? Você já viu alguma coisa que viesse de dentro de sua mente? Não. Você pode pensar, mas ver, não. Quando você começa a ouvir sons que vêm da sua mente, significa que você está esquizofrênico, ouvir vozes, por exemplo. Em geral nós ouvimos coisas que vêm de fora. Quer dizer, tudo, tudo vem de fora! Precisa ser muito inteligente para perceber uma coisa dessa? Hoje em dia precisa, por que tem três séculos de subjetivismo dizendo que tudo está na nossa cabeça, ou então tudo está na cultura. E os caras tiraram a cultura da onde? Já dizia Aristóteles: tiraram da imitação da natureza. Só que dizem “isso foi antigamente, as pessoas não lembram mais como começou”. Eles pensam que o homem das cavernas criava aqueles bisões espontâneamente, nunca tinha visto um bisão, ele que inventou. Estamos, portanto, viciados nessa coisa. Este vício se torna depois um desejo de ignorar, uma espécie de horror do mundo, horror da realidade. Esse horror da realidade ecoa um terror primitivo. Já mencionei várias vezes o livro do Willian Woringer [01:50] que fala da arte primitiva que é toda geométrica e não uma arte de imitação da forma natural direta. Ou seja, também há uma imitação do pensamento humano: você está imitando coisas que você pensou. Mas por que esta arte tende à geometrização? Porque é a simplificação, e a simplificação é necessária para a estabilização. Quando você começa a desenhar bolinhas e quadradinhos, bom, você viu formas aproximadamente esféricas, aproximadamente quadradas, cúbicas, etc, e você simplifica e estabiliza, de modo que reconheça mais facilmente as próximas formas parecidas que você venha a perceber. Aluno: Carpeaux diz na história da música que todas as artes se encaram no conceito Aristotélico da mímesis, exceto a música. Olavo: Como exceto a música? Isto é absolutamente impossível! De onde o sujeito tirou o som sem a idéia de sequência de sons? Ele inventou? Todos os sons que nos chegam, nos chegam como sequências, e as sequências são memorizáveis e repetíveis: isto é música. É um som que você pode repetir. Então, é claro que é mais fácil você repetir um som simplificado. Por exemplo, batidas de um tambor, do que repetir uma frase inteira, ou a sequência dos cantos dos pássaros, ou os sons de uma floresta, ou de uma tempestade. Você pode lembrar tudo isso, é claro, mas você tem de começar com modelos mais simplificados, que são a música. Até semana que vem, e muito obrigado! Transcrição: Instituto Olavo de Carvalho – Curitiba Revisão: Juliana Camargo Rodrigues