Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 127 22 de outubro de 2011 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos! Sejam bem vindos! Eu disse que faria a aula de hoje só com base em perguntas, porém me ocorreu que seria interessante indicar para vocês algumas fontes de informação sobre o período estudado. Não chega a ser uma bibliografia, nem sequer um grupo de sugestões de leitura, pois se vocês forem parar para ler tudo isso agora, pode atrapalhar o andamento normal do curso, onde temos outras leituras programadas. Mas, em todo caso, são títulos para vocês anotarem, e, se algum dia quiserem aprofundar o assunto, então podem recorrer à estes livros. É uma quantidade muito pequena, na verdade tudo isso foi extraído da bibliografia total da Mente Revolucionária, que são mais de quinhentos títulos, dos quais eu li mais ou menos metade, e falta ler e anotar ainda muita coisa. Em primeiro lugar quero destacar este livro, Les sixième et dix-septième siècles, de Roland Mousnier (Les XVIe et XVIIe siècles), aproveitado pela PUF (Presses Universitaires de France). Isso aqui pode ser considerada uma espécie de obra padrão a respeito deste período, pela riqueza de informações e perspectivas diferentes sob as quais ele enfoca o período. Com uma única restrição, ou único cuidado, que é o seguinte: ele toma a cosmovisão científica moderna como se fosse uma coisa definitivamente conquistada, à luz da qual as concepções do período anterior podem ser julgados. Ele diz, por exemplo, que muitas das crenças que circulavam na época eram apenas o efeito de uma cosmologia errada, e depois, a física de Galileu e Newton viriam a corrigir. Hoje em dia sabemos que isto é absolutamente falso e inaceitável. Mas, praticamente todos os historiadores do século XX, pelo menos até a década de 60 e 70, subscreviam esta crença, ou seja, a entrada da modernidade teria sido marcada sobretudo pelo advento de uma ciência natural confiável. Hoje sabemos que, em primeiro lugar, a confiabilidade dela não é tanto assim, e, em segundo, que em boa parte, a cosmovisão anterior jamais foi contestada, de alguma maneira. Houve apenas uma mudança de direção, sem contar a possibilidade de que muitos erros catastróficos tenham se introduzidos nesta época. Então, como uma espécie de antídoto à esta crença devota na infalibilidade da ciência moderna, eu sugeriria a leitura do livro Galileo was wrong, de Robert Sungenis. Até onde eu li, eu acho que as provas que este cidadão juntou contra a cosmologia de Galileu são devastadoras, não sobra pedra sobre pedra. Mas não acredito que este livro seja lido e ouvido pelas próximas décadas. Embora as coisas que ele diga não sejam desconhecidas da maior parte dos cientistas, ninguém se lembrou de juntá-las e tomar a questão à sério. Mas o fato é que até hoje não existe a menor prova de que a terra se mova. Então, nós podemos adotar um sistema geocêntrico, héliocentrico, conforme nossas preferências, ou nossas necessidades, mas nunca se pode acreditar que na passagem do geocentrismo para o heliocentrismo houve uma passagem da ilusão à verdade, ou seja, da crendice à ciência. Isso não é de maneira alguma mais aceitável. Esses detalhes são muito importantes, pois quando queremos compreender estes períodos, essas etapas da história, não podemos ter medo de examinar a coisa por todos os ângulos possíveis, e de fazer todas as perguntas necessárias. Se, porém, nós já temos uma crença dogmática assentada, e essa crença se fundamenta em algo que nos parece ser o consenso científico, consenso académico, de uma época, então, certamente estamos nos deixando levar por uma ilusão perigosíssima. Não existe nada que seja mais frágil do que um consenso científico, embora para um público leigo isso pareça ter uma autoridade tremenda. Não se pode esquecer que um consenso é apenas um consenso. Se você perguntasse qual é a possibilidade de que uma determinada verdade seja percebida uniformemente por toda uma classe de pessoas ao redor do mundo inteiro? Ou seja, todos vão perceber exatamente a mesma coisa? Do mesmo jeito? É só fazer esta pergunta e você entenderá que consciência científica não quer dizer coisíssima nenhuma. Se você tomar o fenômeno universal como um todo, tal como ele nos aparece na experiência direta, e perguntar quanto deste imenso campo fenomênico pode ser recortado de tal modo que milhões de pessoas praticantes da mesma profissão enxerguem o mesmo fato da mesma maneira, e fundamentem nisso uma certeza absoluta? Essa possibilidade é mínima, e, portanto, entendemos, em primeiro lugar, que, se existe alguma validade do consenso científico, ele só pode se referir à aspectos quase que infinitesimais da realidade, deixando o conjunto à mercê da fantasia de cada um. E, em segundo lugar, esse consenso é mais imposto na base da retórica e da propaganda do que da verdadeira prova científica. Hoje em dia sabemos que existe uma consciência mais aguda da falibilidade de qualquer prova científica, sobretudo da falibilidade da transmissão de conhecimento. A idéia do consenso científico e da autoridade acadêmica, é uma das idéias mais danosas que um sujeito pode por na cabeça, e cria uma falsa confiança em que acredita ser assim, pois a maioria dos cientistas acreditam em tal ou qual coisa. Porém, em primeiro lugar não há como saber. Esta estatística jamais foi feita, e, em segundo lugar, existe todo um caráter intrinsecamente problemático da prova científica, que depende, como já expliquei, de equipamentos e treinamentos, onde entra um elemento quase esotérico de transmissão pessoal. Enfim, hoje em dia tudo isso já é bastante conhecido; Têm muitos autores que tratam disso, e quando examinam a história da ciência à luz disso, então vê-se que na passagem de uma época para outra há rombos enormes de conhecimento, e que, no entanto, os resultados obtidos nesse período são repassados para as escolas, para as crianças, e para a massa ignara em geral, como se fossem coisas definitivamente conquistadas. Lembro-me, por exemplo, quando escrevi uma pequeno artigo sobre Newton, dizendo que a física de Newton havia espalhado uma onda de burrice no universo ocidental. Eu recebi centenas de cartas de pessoas que estavam absolutamente traumatizadas, passadas, profundamente ofendidas com aquilo. Eram pessoas que tinham estudado matemática ou física, mas não tinham estudado história, e não tinham a menor idéia dos efeitos que o mecanicismo teve sobre a civilização européia, para eles isso era novidade. E, de repente, um sujeito falando mal de Newton. Então, perguntavam-me como eu ousava falar mal de Newton. Uai! Mas Newton é Deus? Então qual é a autoridade especificamente divina de que ele dispõe? Outra coisa que me espantou muito foi a quantidade enorme desses correspondentes que diziam que Newton tinha a obtido a lei da gravitação universal a partir de observações, quando não é verdade! Newton coloca certas premissas que são experimentalmente inverificáveis, como, por exemplo, a idéia do espaço absoluto – um espaço sem nada dentro. Ora, o espaço não é nada mais do que a possibilidade de conter algo dentro: se você tirar esta possibilidade não há espaço de jeito nenhum. Então, e apenas uma palavra, um flatus vocis. [00:10] E, também, o tempo absoluto, ou seja, o tempo sem acontecimento, o tempo sem transformações. Mas o que é isto? Toda a estrutura da demonstração de Newton está baseada nesses dois conceitos que ele tirou do nada, ele inventou. São postulados que ele coloca no começo, e, sem os quais, a teoria da gravitação não funcionaria. O fato de que esta teoria coincida com a realidade em determinados pontos não prova que os conceitos fundamentais do qual ele partiu tenham alguma validade, pois estes conceitos são usados apenas como instrumentos lógicos. Você pode inventar: de três ou quatro premissas absurdas, que, cruzadas, formem um aparato de observação que, na verdade, funciona como um sistema de medições. Outro exemplo: todo mundo usa o sistema métrico. De onde saiu o sistema métrico? Saiu da idéia de medir a circunferência da terra e dividir por certo número. Bom, hoje sabemos que essa medida estava errada, nem por isso o metro deixa de funcionar. Quando você está lidando com a ciência quantitativa, os conceitos fundamentais em que você monta o seu esquema, não precisam coincidir com a realidade, mas só o resultado final é que precisa. Todas aquelas pessoas que eram professores de matemática, ou de física, pareciam não entender isto. Ou seja, da ciência newtoniana, haviam estudado aquele pedacinho que é usado no ensino secundário, e ponto final. Não tinham idéia da origem histórica da coisa, e de seus efeitos culturais. Ali é que vi que dificilmente existe uma comunidade humana na qual uma crendice se espalhe tão facilmente quanto a comunidade científica, justamente por causa da confiança acumulada na sabedoria da comunidade ao longo dos séculos. Karl Marx dizia que a maioria geralmente está errada. No mundo científico também a maioria geralmente está errada, só que colocar este erro em dúvida requer das pessoas uma mudança de atitude mental que às vezes é impossível. Um indivíduo que está sobretudo envolvido na prática científica, na vida de laboratório, de todos os dias, ele não pode parar para questionar os conceitos fundamentais em que ele está se baseando. Simplesmente não dá tempo de fazer isso. Então, quando uma ciência questiona seus conceitos fundamentais, isso é o que chamam “crise científica”, ou seja, a atividade normal da ciência prossegue na base de não questionar estes conceitos, que muitas vezes são puramente convencionais. Isso quer dizer que o exame crítico dos fundamentos da ciência não faz parte da própria ciência. Aliás, a prática diária exige que isto seja até proibido, pois têm certas coisas que você não discute, você parte de um ponto e vai adiante. Façam o experimento: peguem qualquer livro de tratado de química. Já viram que um tratado de química começa com quarenta páginas de definições e axiomas, e a química mesmo, só começa quando terminam essas definições e axiomas, e então você vai usar tudo aquilo para estudar tais ou quais fenômenos. E se você colocar uma daquelas definições em dúvida? Parou a química e vai ter de começar a análise crítica dos fundamentos da química. Então é outra atividade completamente diferente. Como a prática científica está geralmente separada do exame dos seus fundamentos, quando começam a tentar fazer o exame dos fundamentos, até mudam de faculdade, mas dizem já não ser assunto deles e indicam a faculdade de filosofia ou outra, isso significa que a prática científica está geralmente separada da consciência dos fundamentos da própria ciência, e, se for para espremer, pelo menos noventa por cento dos profissionais de qualquer ciência, se verá que eles têm muito pouco conhecimento disso. Portanto, no fundo, toda esta atividade é baseada na pura fé, não que seus resultados sejam de fé, pois são empiricamente verificados, mas os conceitos explicativos, os conceitos fundamentais, em geral são altamente duvidosos: todos podem ser postos em dúvida à qualquer momento. Porém, no decorrer da atividade prática não convém fazer isto, e as pessoas não o fazem normalmente. O fato de que tantas pessoas de nível universitário desconhecessem os efeitos devastadores que o mecanicismo teve sobre a civilização européia, mostrava uma incultura histórica monstruosa a respeito do próprio setor da ciência que eles estavam praticando. Eu, como não sou nem químico, nem geólogo, nem coisa nenhuma, como meu interesse não é a prática dessas ciências, mas a compreensão de seu desenvolvimento histórico dentro de um horizonte cultural maior, então eu posso tranquilamente questionar os fundamentos de qualquer coisa, e não tenho obrigação de acreditar em nada. Nós estamos procurando um conhecimento histórico mais fundamentado possível. Só que, quando você não tem o consenso científico no qual se fundamentar, então lhe falta um elemento retórico importantíssimo, ou seja, a crença estabelecida sempre serve de premissa para você provar o ponto particular que deseja. Se você não pode se apoiar no consenso como premissa, isso significa que o poder da sua retórica fica diminuída. Então você necessita de um grau de certeza maior. Este é o grande problema do estudioso, filósofo ou historiador, que tente enxergar o passado de uma ciência, ou o passado da cultura européia, de uma maneira que não seja padronizada, que não esteja aprovada pelos manuais escolares. Então aí você é forçado a levar seu desejo de prova, de evidência, mais longe do que levaria se estivesse dizendo a mesma coisa que todo mundo diz. Só que, em história, geralmente você só consegue obter certezas negativas, quando você sabe que alguma coisa não aconteceu de jeito nenhum. Agora, quanto às certezas positivas, são um problema, por que qualquer fato histórico, e, sobretudo, conjuntos complexos de fatos históricos, podem ser encarados de mil e uma maneiras, e a possibilidade de uma prova definitiva é remota: você tem de se contentar com uma sugestão razoável. Mas, essa razoabilidade tem de estar estritamente firmada e fundamentada. Às vezes, a prova de um único ponto pode requerer anos de estudo, como, por exemplo, esse tópico que o Robert Sungenis estudou: ele não está interessado em toda a história daquele período, mas está interessado somente na discussão de Galileu com São Roberto Belarmino, é só este o ponto. Ele vai dizer que São Roberto Belarmino estava mais certo do que Galileu. Do ponto de vista científico ele estava muito mais fundamentado do que Galileu. Isto é um detalhe dentro do imenso conjunto da época que nós estamos estudando aqui. Mas, esclarecer detalhes pode levar dez ou quinze anos de trabalho. Isso quer dizer que toda visão geral que você procura obter de um período depende de que vários pontos específicos já tenham sido esclarecidos por especialistas, portanto, é uma imensidão de trabalhos monográficos, ou seja, sobre um assunto pontual que já tenha esclarecido vários outros pontos. E, embora nesse caso a gente disponha de uma infinidade de estudos desse tipo, a quantidade de perguntas sem resposta é maior ainda. Só o tópico “quando começou a modernidade?”, revendo os historiadores, percebe-se que eles divergem entre o século XI e o XVIII, ou seja, ninguém sabe se eles estão falando da mesma coisa. Só esta pergunta: “podemos datar o começo da modernidade?”, evidentemente isso [00:20] varia de acordo com seu conceito de modernidade, mas mesmo dentro de um conceito uniforme, você teria uma certa elasticidade da data de início. Este ponto não foi esclarecido até hoje, não se tem uma resposta satisfatória. Portanto, estamos trabalhando sobre um terreno mais ou menos movediço. O que facilitou as coisas para mim, ao menos dentro deste curso, ou desse grupo de estudos, foi o fato de que eu não estava interessado só nas origens, mas só nos elementos que permanecem constantes. Isso certamente diminui o campo. Coisas que só serviram como gatilho, ou seja, dispararam um processo, e depois foram esquecidas, já não têm interesse para nós. E, desses elementos constantes que destaquei, como, por exemplo, a matematização da natureza; a influência crescente do elemento secreto, ou, se quiserem, clandestino; a proliferação dos planos de poder, esquemas e projectos de poder; a centralização da autoridade; o processo de burocratização da sociedade; o processo de jurisfação, como o chama o Miguel Reale, ou seja, cada vez mais setores da vida passam do controle natural ou tradicional para o controle legal, havendo, portanto, uma proliferação de leis que encobrem o campo todo das relações naturais e que, pelo acúmulo se tornam às vezes mais complexos do que elas. Antes se tinha um conjunto de relações não regulamentadas, portanto, difícil de se abarcar. Se pegarmos, por exemplo, o comércio como era antes da Revolução Francesa: existiam milhões de regulamentos não escritos, ou tradicionais, ou para cada cidade, ou para cada bairro ou distrito; milhares de sistemas de medidas diferentes; moedas diferentes, etc. Então vem a Revolução e unifica tudo isto, cria uma legislação. Acontece que a legislação é crescente. O número de detalhes que em seguida precisam ser regulamentados é enorme. Tão logo foi feita uma legislação principal, por exemplo, um código comercial, parece que unificou. Porém, em seguida, os princípios desse código terão de ser aplicados a novos e novos fenômenos. Acontece, então, um processo de crescimento da lei, ao ponto de que certos poderes legislativos votam vinte mil leis por ano. E quando se chega a cem mil leis, quem conhece cem mil leis? Uma vez fiz um teste: quando havia aquele problema dos anões do orçamento, como é que você faz para saber que alguma coisa foi ilegal? É preciso conhecer a legislação do orçamento. Fui então ver como era a legislação do orçamento. Só para regular o orçamento federal haviam cinco mil leis. Quem as conhece? Ninguém! Então você sempre corre o risco de estar fora da lei sem saber. Depois, descobri que essa é a situação normal do cidadão em certas sociedades. No Brasil é caracteristicamente assim: a lei, não só o código penal, o civil, o comercial, etc., tudo é feito de tal maneira que as exigências legais estejam acima da possibilidade real do cidadão, de maneira que, em princípio, a população inteira está na ilegalidade. Se a população inteira está na ilegalidade, então o governo tem em suas mãos um instrumento para destruir quem quer que ele precise destruir em certo momento, ou que lhe pareça conveniente destruir. Então a lei já não tem tanto a função reguladora, mas tem uma função de represália. Em muitos países acontece isso, e nos Estados Unidos também está ficando assim. Existem leis que ninguém vai cumprir. Ótimo, ninguém cumpre. Então quando precisamos destruir um sujeito, já sabemos que está na ilegalidade sob este ponto, então nós o pegamos por aí. Não era assim há alguns anos atrás, mas está ficando. Este processo de imperialismo legal começa no período que estudamos aqui e prossegue até hoje numa linha de evolução muito nítida, evolução só quantitativa, ou seja, aumenta sem parar, e nunca vai para trás, nunca há uma simplificação. Por exemplo, quando há uma revolução, dizem que vão começar do zero. Não! A revolução não começa do zero. Enquanto não se criam as novas leis, as antigas ainda estão vigentes. O que vai ser feito? Não irão abolir todas, vão modificar uma por uma, e elas tornam-se então mais complexas ainda. Este é um processo pelo qual o próprio impulso de ordenação, organização e racionalização, cria um caos. Esta é, sem dúvida, uma constante da modernidade. Quando a gente vai pegando estas várias constantes, acho que temos um grau de certeza suficiente em todas elas. Podemos dizer que, em linhas gerais, e com exceções locais ou temporárias, as coisas foram realmente assim. Podemos traçar uma curva de evolução da modernidade. Em certos momentos há um salto, o processo acelera, de modo que o número de controles aumenta e vai penetrando em sectores da vida que antes eram regrados pela lei natural ou por hábitos tradicionalmente consolidados. Por exemplo, quais são os lugares onde você pode fumar ou não pode fumar? Quando eu era criança, lembro que isso era uma questão de boa educação: você não devia fumar na igreja, numa sala de operações, e assim por diante. Porém, a partir do momento em que o Estado começa a regular isso, então existe uma séria de exceções e casos particulares que a lei não abrange, mas que vai tentar abranger. Então, imagine o número de leis sobre o fumo que apareceram no mundo inteiro nos últimos vinte anos! O conjunto não é legível. Então, quer dizer que este simples ato banal do sujeito fumar ou deixar de fumar se tornou uma especialidade legal. Não deixa de ser curioso que o chamado império da lei seja uma das características fundamentais da democracia. Com a expectativa de que aquilo que está sob o domínio da lei assegura os direitos e liberdades dos cidadão. Mas isto é só nominalmente. Materialmente falando, isto é impossível! É impossível dizer que quanto mais regulamentada está uma coisa, mais a liberdade estará assegurada. Isto é absolutamente auto-contraditório. Como esta contradição é um dos elementos fundamentais da democracia moderna, é aí que começa a valer aquela regra do Georges Bernanos, de que a democracia não é o contrário da ditadura: é a causa dela. É o mesmo que dizer que onde há uma democracia haverá uma ditadura necessariamente, ou porque a democracia será derrubada, ou porque, por sua própria evolução interna, ela se transmutará numa ditadura, não posso dizer imperceptivelmente, mas quase que inconscientemente. Ou seja, a população não se dará conta de que o processo da normatização legal da sua conduta constituirá numa rede de amarras que vai restringir tremendamente a sua liberdade. Sem contar o fato de que existem leis que estão permanentemente em discussão, ou seja, há um grupo de pressão que tenta impor uma lei, e esta lei, é rejeitada; bom, não custa nada apresentar o mesmo projeto três meses depois. Na [00:30] Comunidade Européia, têm muitas decisões que dependem de um plebiscito, mas se o plebiscito não aprovou o que você queria, você faz outro plebiscito, e outro, e outro, e, mais dia, menos dia, aquela lei é aprovada, e então você não faz mais plebiscito. Quando se vê a fronteira que existe entre o mundo das leis e o mundo da política, essa fronteira é bastante nebulosa. Então é sempre possível que um grupo de pressão faça valer sempre a sua vontade, se ele tiver os meios para isto. Suponhamos que você tem os meios de comprar um congresso inteiro. Vamos tomar o exemplo do Mensalão, pois tão bonito quanto o Mensalão, ninguém fez. O Mensalão comprou o parlamento inteiro. Nunca ninguém precisou fazer isso, pois contentavam-se em comprar meia dúzia de senadores, mas ali compraram todos. Bom, depois disso, o que quer que este grupo pretenda, será lei. Então qual a diferença entre o império da lei e o império da arbitrariedade? Materialmente falando, nenhum. A lei se tornará apenas a arbitrariedade com o carimbo. Este fato acontece, faz parte de nosso quotidiano. E quando se rastreia a origem, os conceitos do Estado moderno, os direitos humanos, etc., quando a coisa começou, já dava para prever que seria assim. Porque ninguém avisou? Porque isso não despertou o caráter auto-contraditório do sistema legal e não chamou a atenção de ninguém? Pois para que o elemento de contradição se tornasse importante na análise disso foi preciso esperar chegar um sujeito chamado Hegel. Acho que Hegel foi o primeiro a perceber que os conceitos às vezes significam o contrário do que eles dizem. Na hora em que um conceito abstrato se torna prática política, ou seja, que abandona o céu das idéias puras, e entra na história, entra no fio do tempo. Com muita freqüência se torna o seu contrário. Ele disse que sempre se torna seu contrário. Não sei se é sempre. Antes de Hegel, para encontrar uma compreensão aguda do fenômeno da contradição, é preciso remontar até Aristóteles. Podemos dizer, que boa parte destas discussões se travaram entre pessoas que tinham uma noção um pouco ingênua da função das idéias na história. Acreditavam que, ao se fazer um projeto, assim ou assado, e ao implantá-lo, as coisas se passariam linearmente, de acordo com aquilo que você planejou. E Hegel disse que isso nunca acontece — Bom! não precisa concordar, mas ao menos quase nunca. A própria noção de direitos. A expansão dos direitos. Hoje todos ouvimos dizer que a expansão dos direitos é um progresso maravilhoso! Só que, como é que funciona isso? Cada vez que se tem um novo direito, evidentemente é uma nova lei. E o que é um direito? É uma obrigação que o outro tem para com o titular do direito. Essa é a explicação da Simone Weil. O direito seu é a obrigação de um terceiro, se não tiver a obrigação correspondente, então você não tem direito nenhum. Por exemplo, a mulher separada tem o direito a uma pensão de alimentos. Isso quer dizer que o marido tem a obrigação de dar uma pensão para ela. Agora, se ela tiver o direito e o sujeito não tiver a obrigação de pagar uma pensão, então o direito não existe. Então cada direito que é atribuído a um grupo de pessoas é um conjunto de obrigações que é imposto aos demais. Esta é a verdadeira substância do direito. E o cumprimento dessa obrigação, por sua vez, tem de ser controlado, e tem de haver sanções penais, ou civis, para aqueles que não a cumprem. Portanto, cada novo direito são novos tribunais, novos funcionários, mais fiscais, e, portanto, mais opressão. Este processo começa nesta época, na da Revolução Francesa. Na República Romana os juristas já tinham a idéia que chamavam summum ius summa iniuria, ou seja, quanto mais perfeito o direito, mais injustiça haverá. Então, eles tinham a sabedoria de refrear seu desejo de fazer leis mais vastas e mais perfeitas. Mas neste período, que estamos estudando, a consciência disso simplesmente desaparece. E, resultado, temos uma enxurrada de leis que caracteriza o mundo moderno. Eu digo isso com um grau de certeza elevadíssimo. Eu acho que provar que as coisas não foram assim é impossível. Então, pelo menos, a certeza negativa eu tenho. Se esta tese não está certa, ao menos, sua contestação é praticamente inviável. Também tem outro processo que expliquei aqui e do qual eu tenho certeza suficiente. Aquilo que expliquei na aula de ontem; a idéia de que a experiência direta humana, por exemplo, a experiência que temos na convivência de pessoa a pessoa, vai sendo cada vez mais removida do universo da observação científica e se concentrando num setor que chamamos de literatura ou arte. Pergunto, se o mundo onde vigoram as leis de Newton, ou, onde vigora a relatividade geral de Einstein, é ou não é, o mesmo mundo onde temos as experiências pessoais de convivência, de pessoa a pessoa, destas percepções diretas? Aonde existe uma fronteira natural objetiva entre uma coisa e outra? Não existe nenhuma! Só existe o regulamento de faculdade, que diz que tal coisa se estuda numa faculdade e tal outra noutra faculdade, ou seja, você precisa sair de um prédio e ir para o outro para estudar outro assunto. Bom, mas isto é uma convenção administrativa que se impregnou na cabeça das pessoas ao ponto de elas acharem que o mundo é realmente assim, que é uma coisa separada. E pior, as pessoas acreditam que aquilo que as ciências descobrem, e que é aceito pelos consenso dos cientistas é uma coisa mais segura e mais objetiva que a impressão pessoal. Isto é uma confusão, evidentemente! Por exemplo, se você dá uma martelada no dedo, a dor que você sente é uma certeza objetiva muito mais forte do que qualquer lei científica! E a credibilidade, a certeza maior ou menor no conhecimento não depende do número de pessoas que a comprovam. Ao contrário, se precisar de muitas pessoas para comprovar, é justamente porque não é tão certo. Vamos supor que você é a testemunha de um homicídio: você vê o sujeito puxar uma faca e enfiar na barriga do outro. Só que é o seguinte: só você viu. O assassino sumiu, a arma do crime desapareceu, e não há mais nenhuma pista para o assassino, e você está com a certeza absoluta de seu testemunho. Só que você é o único pilar onde se assenta a prova. A falta de outros testemunhos e a falta de outros elementos de prova, podem liberar o assassino. Isto acontece com uma freqüência muito grande, onde a certeza máxima corresponde a um indivíduo isolado que foi testemunha direta. O testemunho direto passa a valer menos do que um simples consenso de opiniões. É claro que isto é uma confusão entre o grau de certeza [00:40] objetivo e o valor da autoridade. Isso são coisas que podem se somar ou se subtrair, mas não são jamais a mesma. Isso quer dizer que, para todos os efeitos, o argumento de autoridade do consenso vale mais do que o testemunho direto. Isto vai contra toda racionalidade humana e contra o método científico, mas esta é a prática diária na sociedade moderna. Nós queremos alcançar um conhecimento válido mesmo que não possamos impô-lo como consenso para ninguém – não quero saber se vão acreditar em mim ou não, eu só quero descobrir como as coisas realmente aconteceram. Este era o ideal do Leopold Von Ranke, o grande fundador da história moderna. Ele diz que a finalidade da história é de saber como as coisas efetivamente se passaram. Bom, se é isto que você quer, em primeiro lugar, terá de desistir de fazer com que suas conclusões se imponham a uma coletividade. Ou você quer a verdade, ou você quer a credibilidade. Às vezes as duas coisas vêm juntas, mas às vezes não vêm. Isto para mim é uma decisão que eu já tomei trinta ou quarenta anos atrás: eu quero saber as coisas como elas realmente são, ainda que ninguém vá acreditar em mim. Eu quero saber para minha orientação. Não é preciso dizer que todo movimento filosófico científico que trouxe algum proveito para a humanidade começou assim, porque alguém quis fazer exatamente isso, pois se fosse uma mera questão de aceitar a autoridade do consenso, então continuariam todos dizendo a mesma coisa que disseram desde o primeiro dia, e ninguém teria descoberto coisíssima nenhuma a mais. Portanto, toda descoberta da verdade — por definição, se você descobriu algo, é porque os outros não sabiam, pois se descobriu o que todo mundo já sabia, então não descobriu nada — em princípio, toda e qualquer descoberta vem com um elemento de incredulidade, necessariamente. Se você se deixa impressionar por isso, então paralisou a pesquisa aí mesmo. Eu sempre esperei dos alunos desse curso que se dispusessem a isto. Querer investigar as coisas, ainda que os resultados de nossas pesquisas nos levem à conclusões que ninguém vai aceitar. Vocês têm de saber o que vocês estão querendo, se é desempenhar uma autoridade sobre a sociedade, se estão querendo que suas palavras sejam aceitas, ou vocês estão querendo saber o que está se passando para a sua orientação? Todas as conclusões que estou dando aqui, são conclusões de anos de estudo, leitura, meditação, etc. E algumas delas eu tenho certeza que não podem ser impugnadas, mas também, tenho a certeza de que elas não são fáceis de engolir. Por exemplo, a dialética interna da democracia: a democracia é um negócio suicida na sua origem. Portanto, haverão períodos curtos de democracia em certos lugares, e isto é tudo o que podemos esperar. Nunca haverá nada melhor que isto. Todo mundo sabe que as coisas de fato tem sido assim. Mas, ao mesmo tempo, todo mundo quer acreditar que a democracia vai imperar no mundo: aí está o Barack Obama, dizendo que vai derrubar todos os tiranos e impor a democracia à ferro e fogo. George Bush também acreditava na mesma coisa. Bem, eu acho que quem pensa isso deveria ser eletrocutado imediatamente, pois os resultados serão absolutamente desastrosos. Por exemplo, quando se vê o custo da guerra do Iraque, em termos da perda de credibilidade do governo, inclusive, em termos de perdas financeiras, foi algo imenso, que jamais poderão pagar. Só que agora o Bush fez duas guerras, Barack Obama já está fazendo dez, baseado no mesmo argumento: derrubar os tiranos. Que disto resulte na democracia e império da liberdade no mundo, é materialmente impossível. Se as pessoas sabem que foi sempre assim, por que elas querem acreditar que no futuro será diferente? É o negócio do Roberto Carlos: Daqui para frente tudo vai ser diferente. Mas quem lhe disse? Me dê um único indício de que isto tem alguma probabilidade de se tornar realidade! Ninguém dá indício nenhum, mas é uma crença tão profunda e tão arraigada que o simples fato de contestá-la deixa as pessoas revoltadas contra você. Me dizem que sou o profeta do caos, o profeta da tirania, que tudo vai ser sempre uma porcaria. Mas não tem sido sempre uma porcaria? Então, se você teve a sorte de nascer num lugar e num período de democracia, dê graças a Deus e saiba que isto não vai durar muito. Inclusive vim para cá para aproveitar um restinho, antes que acabe. Não tenho a ilusão de que isto vai durar muito tempo. Agora, que a massa precise desta ilusão para continuar se esforçando, sim, mas por que os intelectuais e os estudiosos também? Aí é que se vê que a elite intelectual que o mundo moderno formou é, em geral, de muito baixo nível, pois são pessoas que têm necessidade de ter as mesmas crenças da massa, e quando elas crêem em algo que a massa não acredita, elas se sentem isoladas, sozinhas e saem pedindo socorro! Então foi nisso que resultou o Iluminismo? Não era o Iluminismo que iria abrir a mente de todo mundo, ninguém mais seria crédulo, ninguém mais seguiria um autoridade, agora todo mundo pensará com sua própria cabeça e vai buscar a verdade? Kant prometeu isto! Foi isso que aconteceu? Não, foi exatamente o contrário! Nem mesmo uma elite intelectual capaz de enfrentar a realidade se encontra mais. Portanto, esse processo todo, que começa no Renascimento e culmina no Iluminismo, fez é baixar as trevas sobre a inteligência humana. Porém, nominalmente falando, em termos oficiais, milhares de livros dirão que foi ali o período em que a autoridade perdeu credibilidade, e a razão se torna soberana. Aonde aconteceu isso? Não aconteceu em lugar nenhum! Outro traço bem característico da modernidade é a disseminação de falsas imagens biográficas dos seus heróis. Eu acho que não tem um personagem importante da modernidade cuja biografia, tal como se espalhou pelo mundo até a primeira metade do século XX, não seja 80% falsa. A vida de Newton não era nada do que as pessoas pensavam. A vida de Galileu e Descartes também não. A partir dos anos quarenta e cinquenta, os historiadores tomam coragem e, também por causa da existência de novos meios técnicos, entre os quais o computador, a pesquisa de documento se tornou muito mais fácil. Começam a desenterrar novas informações e acabam descobrindo que nada era do jeito que se imaginava. Mas por que imaginaram? Quando você não sabe, qual é a necessidade que se tem de inventar uma ficção? Inventar uma ficção é um direito seu, mas impô-la a gerações e gerações de idiotas, como se aquilo fosse a verdade definitiva? Um exemplo desse tipo de livros, que eu recomendo, é o de Xavier Martin, Voltaire méconnu (Voltaire Desconhecido - Aspectos ocultos no humanismo das luzes). Ele simplesmente leu as obras e correspondências de Voltaire, colheu alguns depoimentos em volta e viu o seguinte: Voltaire jamais foi um apóstolo da liberdade, mas sempre esteve do lado mais forte, era um sujeito que subscrevia genocídios, era tão anti-semita quanto Hitler, para dizer o mínimo. Mas não é possível! Na minha juventude ouvia dizer que Voltaire era um campeão da liberdade, dos direitos humanos, etc. [00:50] Não! Isso foi uma imagem pública que usaram apenas como instrumento de propaganda! Mas ainda tem gente que acredita nisso. O Rodrigo Constantino acredita no Voltaire de almanaque. Esse livro eu recomendo, é muito gostoso de ler inclusive, e muito bem feito. Não vai requerer muito tempo de estudo. Ainda tem um outro estudo mais antigo, que é sobre a vida de Lutero, de um autor alemão chamado Friedrich Heinrich Suso Denifle, Luther et le luthéranisme; étude faite d'après les sources (Luther und Luthertum in der ersten Entwickelung). Só tenho aqui, o primeiro volume, mas são quatro. É extremamente meticuloso. Em primeiro lugar se vê que Lutero não queria fundar religião nenhuma, ele queria ficar dentro da Igreja e ser apenas um monge como os outros, só que com umas idéias estranhas. Em segundo lugar, ao longo da vida ele foi passando a afirmar tudo aquilo que ele negava, e negava tudo aquilo que ele afirmava, de maneira que, com relação ao Lutero, não sabemos exatamente o que ele pensava. Terceiro, embora o protestantismo criasse todo este culto do texto bíblico, Lutero não tinha nenhum respeito pelo texto bíblico. Tanto que, quando mostraram um trecho do evangelho de Marcos, onde ele tinha simplesmente pulado algumas frases, o pessoal apontou para ele e disse que estava errado, ele respondeu que ficaria assim mesmo. O que? Quer dizer que então ele decide o texto da bíblia, ao mesmo tempo que diz este texto ser a única autoridade? Então, o pessoal evangélico que me desculpe, mas essa coisa começou com uma palhaçada, com uma mentira. O que não quer dizer que tudo o que Lutero disse a respeito da Igreja estivesse falso. Não, ao contrário, ele tinha razão em muita coisa, mas aonde que um indivíduo tem razão em certas críticas que faz a uma autoridade não o autoriza a fazer uma monstruosidade como esta, ou seja, mutilar o próprio texto ao qual ele atribui autoridade absoluta! Nesse caso é como dizia Stanislaw Ponte Preta: “entrou no perigoso campo da galhofa!” Não se pode levar um negócio desse a sério! Outro ponto importantíssimo da modernidade, e que é reconhecido pelos historiadores, mas é dificilmente ressaltado pelos intérpretes gerais do período, é o fato de que os séculos XVI e XVII são a era de ouro da astrologia, da alquimia e da magia. Ou seja, foi uma enxurrada de ocultismo como nunca tinha vindo antes na história, e acho como que não houve em civilização nenhuma. Justamente no período que é tido como aquele que inaugura a era da razão e soterra, então, as crendices. E, pior: a época do Iluminismo foi outra enxurrada. O Iluminismo é a época onde vai aparecer o Mesmerismo, o hipnotismo, o espiritismo, etc. Ora, como é possível que você caracterize como império da razão e das ciências o período de máximo florescimento do ocultismo e da magia? Ora, qualquer historiador profissional hoje em dia sabe disso, e a quantidade de livros que existe sobre isso é monstruosa. Mas a imagem mitológica continua intacta, ou seja, os fatos não alteram a crença. É aquele negócio: “eu já formei minha opinião, não me venham incomodar com fatos”. Isto vigora. Existe, então, um abismo enorme entre o que é pesquisa historiográfica e o que é a imagem cultural consolidada. Mas, se toda pesquisa historiográfica está provando que as coisas não foram assim, nós não temos mais de ter tolerância nenhuma com esta imagem! Sobretudo quando é um historiador profissional que a subscreve! Na História Universal, de Will Durant, ele tem um volume que se chama A era da crença, e, depois, A era das luzes, é uma imagem, e esta imagem é absolutamente falsa, ela chega a ser o contrário da realidade. No entanto, ainda quando você sabe que as coisas não foram assim, você continua raciocinando como se fosse, ou seja, você tira conclusões práticas de premissas que você sabe serem falsas. Por exemplo, como avaliar uma opinião qualquer, ou a discussão de uma lei, etc. Você vê que insistentemente, as mesmas figuras de retórica voltam, são recorrentes: “essa lei é obscurantista”, “isto é um retorno à Idade Média”, não tem esse argumento? Ora, a validade destas figuras de linguagem se apóiam numa interpretação histórica que é o contrário da realidade! Se você quer saber no que as pessoas realmente acreditam, não adianta você perguntar para elas, você tem de ver as figuras de linguagem e os instrumentos lógicos que elas usam para provar os seus pontos, pois ali é que está a verdadeira estrutura do seu sistema de crenças, e não só no conteúdo desta ou daquela crença em particular. Por exemplo, outro dia alguém me falou da entrevista que houve com o cabo Anselmo, no programa Roda Viva, em que disse que foi um tribunal da inquisição. Eu mesmo repeti esta figura de linguagem, depois me perguntei o que eu estava falando! O Tribunal da Inquisição não era assim! O Tribunal da Inquisição botava um sujeito no meio e ficava quinze camaradas descendo o cacete nele? Se fossem sugerir isso ao inquisidor ele ficaria escandalizado! Ele diria que isso não se faz, que primeiro é preciso conversar com o sujeito e ouvir o que ele tem a dizer antes de fazer a sessão do tribunal, de modo que, ao encontrá-lo, já se saberá o que ele vai dizer e o que o inquisidor irá dizer. Ou seja, é um procedimento brutal que não pode ser chamado inquisitorial, pois a inquisição, em primeiro lugar, ela inquire. Vejam que existia o sistema inquisitorial como oposição ao sistema acusatorial. Se é inquisitório, não pode ser acusatório. Portanto, em certas épocas, bastava reunir algumas pessoas que faziam a acusação do sujeito e o condenavam pelo simples fato de estarem sendo acusados. E quando aparece a Inquisição, já possuíam um conceito um pouco mais civilizado, levando em conta a necessidade de fazer uma investigação, descobrir a verdade, e por isso mesmo se chama inquisição. Hoje vemos a volta do sistema acusatorial, onde o simples fato de tentar se defender já é a prova do crime. Por exemplo, se você é acusado de homofobia, e tenta provar que não é homofóbico, o simples fato de você tentar provar já prova que você é homofóbico. E isto vigora! No caso brasileiro, por exemplo, se você quer criar uma lei para punir o crime de homofobia, se você argumenta contra a lei, é prova de que você já está incurso na mesma lei, e portanto, já pode ser punido por esta lei antes de ela entrar em vigor. Isso já tem acontecido no Brasil. Se você sugerisse isto ao mais feroz dos inquisidores, ele acharia um absurdo. Talvez até nos processos de Moscou achassem isso, talvez até Stálin achasse isso absurdo, pois quando Stálin mandava condenar um sujeito por um crime que ele não cometeu, ele sabia perfeitamente o que estava fazendo, e o acusado concordava em confessar um crime inexistente para o bem da república socialista, o bem do partido. Então, se auto-sacrificavam pelo bem do partido. Mas agora não é isso que está acontecendo, não é um sacrifício voluntário que as pessoas estão fazendo. A volta do sistema acusatório é um mecanismo inerente à democracia. Começa com a democracia e vai terminar necessariamente assim. O que não quer dizer que seja impossível [1:00] lutar contra esse mecanismo de auto-destruição da democracia, mas certamente terão de ser inventivos, inventar novos meios de combate político que não existiam antes para compensar. Este processo não é algo contra o qual a democracia em si mesma tenha meios de defesa. A democracia, pelo simples fato de ser uma democracia, é indefesa contra isso. Portanto, vão se criar novas e novas situações onde a aplicação dos mesmos preceitos que em certa época garantiam a liberdade se tornam meio de estrangular esta liberdade. Com relação a esta onda ocultista na era moderna, tenho alguns livros aqui a sugerir: Astrology and the Seventeenth-Century Mind, de Ann Geneva, publicado pela Manchester Univesity Press. É a biografia de William Lilly, o grande astrólogo da corte inglesa, mostrando que nessa época, século XVII, poucas pessoas dispunham de mais autoridade do que William Lilly, ao ponto de que, quando ele tomou partido de uma certa corrente política contra o rei, o rei disse que daria um braço para ter aquele sujeito de seu lado, pois era um cara em que todos acreditavam. William Lilly tinha mais autoridade do que a própria Igreja. Outro livro, sobre o retorno da astrologia, alquimia, etc., trazido nos braços do interesse renascentista pela antiguidade, de Joscelyn Godwin, The Pagan Dream of the Renaissance, publicado pela Weiser Books. Há também outro muito interessante, é a história da astrologia no ocidente. O autor chama-se Benson Bobrick, The Fated Sky: Astrology in History, publicado pela Simon & Schuster. Este livro é importante sobre o aspecto do que eu disse sobre o teatro como imagem do mundo, é um tema que eu abordei em várias aulas do seminário de filosofia e que voltei a tocar aqui. A época do surgimento da ciência moderna é uma época de enorme florescimento do teatro, e, volta e meia, a imagem do mundo como um teatro reaparece. Esse processo foi incentivado pela redescoberta da arte da memória greco-romana. Nessa época, quando o pessoal começa a abandonar o estudo da lógica aristotélica e se volta para o estudo da retórica antiga, eles querem recuperar todo o instrumental dos oradores greco-romanos, e um deles era a arte de memória, ou seja, o orador greco-romano decorava inteiramente os seus discursos, às vezes discursos de duas ou três horas. Então tinha de se ter uma memória extraordinária, e criaram instrumentos, uma técnica mnemônica baseada na idéia de distribuir os argumentos e idéias por uma figura espacial – poderia ser uma praça, um prédio, mas nessa época, portanto, usa-se muito a imagem do teatro. Não deixando de ser significativo que é a época em que começa o estudo mais cientifico da anatomia e a classe, a sala onde se estuda anatomia é um teatro. Esse outro livro aqui eu já mostrei para vocês. Ele é importante sobre a questão do debate astrológico no começo da modernidade. São dois ensaios de Éric Weil: “A Filosofia de Pietro Pomponazzi” e “Pico della Mirandola e a Crítica da Astrologia”. Um livro fundamental para a compreensão do período é este de Edmund Husserl: “A Crise das Ciências Européias e a Fenomenologia Transcendental”. Eu li na tradução italiana, mas existe uma tradução francesa, e existe uma tradução inglesa — que eu saiba — e deve existir uma tradução espanhola, também, para quem não lê alemão. Não se preocupem muito com esse livro porque no Seminário nós vamos ler, mais tarde, a segunda parte, da Crise das Ciências Européias, que é “A origem do contraste moderno entre objetivismo fisicalista e subjetivismo transcendental”, uma coisa que dá mais ou menos umas cem páginas. Eu pretendo que isso entre no curso de leituras que nós estamos fazendo, mas não sei ainda como vamos fazer porque não temos tradução portuguesa, então vamos ter de usar alguma outra. E mais do que tudo - este eu recomendo como leitura mesmo – “A Crise da Consciência Européia”, do Paul Hazard. Isso é uma obra prima de história, além de ser um livro maravilhosamente escrito. Ele estuda a mudança da mente européia entre 1680 e 1715, isto é, a passagem da primeira etapa da modernidade para o iluminismo. Aqui se segue outro livro dele que é “A História das Idéias no Séc. XVIII”. Esse aqui eu considero um dos meus dez livros preferidos. Raramente você vai encontrar uma coisa tão bem feita como esse negócio, que faz você ver mesmo o que se passou. Ele é tão bom quanto o Huizinga. Também queria recomendar este livro aqui. Vocês não precisam ler todos esses livros agora, nem agora nem depois. É só para anotar e talvez algum dia seja útil. Mas o Paul Hazard eu recomendo para leitura geral mesmo. E este aqui, The Wreck of Western Culture (A Destruição da Cultura Ocidental), do John Carroll, sociólogo australiano, onde ele analisa as mudanças de mentalidade justamente neste período, mas sobretudo a partir de elementos que ele colhe da pintura. Esse sujeito é um analista de artes plásticas que é um negócio do outro mundo. O sujeito olha um quadro e vê coisas que você jamais veria lá, mas depois que ele diz, você vê que estava lá mesmo. Essa é uma parte do material que foi usado para esse curso. Infelizmente o curso é um pouco curto, mas eu creio que deu para dar uma idéia do que se passou. Vamos fazer uma pausa e daqui a pouco voltamos com as perguntas. Aluno: pode-se dizer que a perspectiva cristã dos Founding Fathers, apesar de serem maçons, gerou uma constituição mais duradoura, mais perene, exatamente porque se fundamentava em princípios cristãos? Olavo: A minha resposta a isso é decididamente não. Não há nenhuma constituição que possa, por si mesma, ser duradoura pelo seu simples conteúdo. A constituição é apenas um documento escrito, e se não houver as forças político-sociais capazes, não só de colocá-la em [01:10] prática, mas de manter a interpretação originária, tudo se estraga muito rapidamente. O que realmente fundamentou e tornou a democracia americana um pouco mais duradoura do que se poderia esperar não foi a constituição, mas a existência de uma classe aristocrática profundamente comprometida com os destinos do país, que sentia o país como coisa sua, e que portanto zelavam pelo país. Pode parecer um paradoxo eu dizer que a democracia funcionou por causa de uma aristocracia, mas isso é verdade. Tão logo a classe dominante americana começou a ser reciclada, começou a parecer outras pessoas de outras origens, já não comprometidas com a história americana, como, por exemplo, os Rockefeller. Quando aparece os Rockefeller, eles já sobem na vida por meios completamente diferentes desde o início, a história do John D. Rockefeller é a história de um verdadeiro criminoso, o sujeito que sufocou uma greve na base do banho de sangue, e daí se tornou uma espécie de inimigo público número um, e, para melhorar a sua imagem contratou um grande publicitário - que aliás era genro do Dr. Freud -, e levou vinte anos para melhorar a imagem dele, mas todo mundo sabe quem é o sujeito. Quando aparece um fulano como este, como Morgan, como George Soros, então a classe dominante mudou, e não adianta você ter a mesma constituição escrita. É a força efetiva da ação humana que mantém as coisas funcionando. E a ação humana é evidentemente determinada pelos valores que estão em jogo. Os valores que orientavam a conduta dos Founding Fathers não são os valores que orientam a conduta Rockefeller, George Soros, etc., e é exatamente por causa disso que a coisa está mudando. Se você pegar a própria elite intelectual americana, a transfusão que você teve de intelectuais europeus que fugiram da guerra, foi um fator determinante na mudança do curso das coisas aqui. Quer dizer, eles abriram as portas e veio um monte de marxista maluco e em poucos anos a universidade americana tinha mudado completamente a mentalidade. Em suma, a Constituição pode ser muito boa, mas não é ela que segura as coisas. O que segura é a ação de um grupo de pessoas que está envolvido na coisa. Você veja que no Brasil nós só tivemos um grupo de pessoas assim durante o Império. Se você ler o livro do Octávio Tarquínio de Sousa (que é um livro que todo brasileiro deveria ler; não é um livro, é uma coleção de dez livros), A História dos Fundadores do Império, ali você tinha uma classe aristocrática que realmente considerava o país como uma coisa sua, e que ela tinha de cuidar. Mas isso durou muito pouco. Quando chega na República, já sobe um monte de arrivistas, cara que você não sabe da onde veio - Floriano Peixoto... Você dê uma olhada no Paço Imperial, que era a residência do Imperador, e dê uma olhada no que hoje é o Museu da República, que era o Palácio do Catete. O Imperador morava numa casa que parecia uma casa de fazenda, um lugar modesto; quando fizeram a república já tiveram de construir um palácio. Imediatamente, no dia seguinte. Por que precisavam disso? Eram pessoas que já não tinham a mesma mentalidade de serviço ao país. Veja, a aristocracia fundadora de fato considera o país coisa sua; quero dizer, ela já tem a propriedade do país, então ela tem de cuidar. Quando você não tem mais essas pessoas, quando o país não pertence mais a ninguém, então naturalmente entra em leilão. Aí começam os arrivistas, cada um pega um pedaço. Então o que sustenta uma ordem legal é a existência de uma classe aristocrática comprometida. A democracia depende da aristocracia. Acabou aquela aristocracia, então começa a formar uma oligarquia, que é um negócio completamente diferente. Quando você observa o que aconteceu nos EUA nos últimos vinte anos: vinte anos atrás os EUA era o maior credor do universo, hoje é o maior devedor. Tinha a maior indústria do mundo, agora, está em quinto, sexto lugar; e ao mesmo tempo você vê que o dinheiro americano está fundamentando o crescimento de países que são virtualmente inimigos. Então, como é que você vai identificar o interesse desta classe dominante com o interesse do país, quando é obviamente contrário? Eles começam com a demolição da economia. Veja, no século XIX, a Inglaterra teve a idéia de fazer economia global. O que aconteceu? Caiu a Inglaterra e subiu os EUA. No século seguinte, o mesmo país que foi beneficiado pelo fracasso da economia global britânica não aprendeu nada com a lição, e ele quer fazer economia global. Então abre os mercados, e todo mundo diz: “ah, livre mercado, livre mercado!”. Muito bem, só que agora acabou a indústria americana, só tem indústria chinesa, um desemprego monstro, um endividamento trilionário, mas a elite econômica não está perdendo nada com isso, ela está ganhando - só que agora ela ganha contra o país. Então, o que decide o destino de um país é o seguinte: quem manda nele, e o que essas pessoas têm na cabeça. Não deveria ser preciso dizer isso, porque é uma coisa bastante óbvia. Quem mande decide o que vai acontecer e daí as coisas acontecem. As leis, as instituições podem ser de caráter democrático ou aristocrático, mas o que interessa realmente é quem é a classe dominante. Se você pensar bem, quem é a classe dominante no Brasil, hoje? É um bando de arrivistas petistas, e um grupo de empresários que vende até a mãe. Então é por isso que o país tem cinqüenta mil homicídios por ano, por isso é o país que mais cresce no consumo de drogas, por isso que está uma roubalheira generalizada; eles estão lá para isso. Então, o sujeito está subindo na vida, e que apesar de estar subindo se considera um excluído, é um criminoso em potencial. É o tipo mais perigoso que existe. Quando eu vi no Rio de Janeiro a Benedita da silva, depois que ela era governadora do estado, ela ainda se achava que “ah, eu sou mulher negra, excluída”. Não minha senhora, excluído sou eu. Eu sou um preto excluído, a senhora não. A senhora é a branca que está na elite, a senhora está mandando, não percebeu ainda? Ninguém avisou que a senhora agora é a governadora? Se a pessoa ainda se sente excluída, ela sente que não tem a participação que ela merece. Então, tem de pegar mais e mais e mais, e quanto mais roubar, mais vai se sentir excluída e prejudicada. O único lugar, o único grupo social brasileiro, onde você vê pessoas identificadas com a nação são, de fato, as forças armadas. Então se você estudar a vida dos presidentes militares, com todos os erros que eles possam ter feito, nenhum deles ganhou um tostão, nenhum saiu rico, e não acrescentou nada ao seu patrimônio. Você pega o patrimônio antes e depois, ou ficou o mesmo ou diminuiu. Isso durante vinte anos. E os camaradas tinham um poder enorme na mão. Vai ver o patrimônio do seu Lula! Vai ver o patrimônio do seu Zé Dirceu! Por que presidentes militares não roubavam? Porque eles já sentiam que o país era deles, e não iriam roubar ao que se sentiam pertencentes. Se você tem essa identificação com o país, então você cuida. Eu já assinalei esse fenômeno que você vê em São Paulo, onde a classe dominante, os ricos, constroem um bairro, um monte de casa bonita; daqui a pouco aquilo começa a ser invadido pelas firmas, então deixam de ser casas, e passam a ser empresas. Mas daqui pouco vem prostitutas, etc., então as empresas vão embora; ali não está cheirando bem, então eles vão embora. No fim vão embora até as prostitutas e ficam os mendigos. Então a gente pensa assim: por que esta classe dominante não defende o território que ela conquistou? Porque ela não sente que é dela. Então não tem de defendê-la; está pensando apenas na sua comodidade. “Ah, aqui piorou, a gente vai embora, a gente abandona”, e se a classe dominante abandona, quem vai defender o negócio? O povo? O povo não tem condição de se organizar para se defender. Então esse fenômeno geográfico brasileiro - a fuga da burguesia cada vez para mais longe -, [1:20] mostra que essa é uma classe dominante absolutamente irresponsável. E as novas camadas que estão se tornado dominantes, são mais irresponsáveis ainda. Um fenômeno como este do Mensalão, por exemplo, era absolutamente inevitável. A hora em que os milicos desistiram, abriram as portas e chamaram de volta toda aquela gente, meu Deus do céu! Elas passaram apertados durante vinte anos, uns estavam na cadeia, e outros estavam no exílio, sem dinheiro... Você acha que eles vão se contentar com pouco? Nunca podia ter entregado o poder a essa gente, mas nunca. Agora, os milicos ficaram lá vinte anos, e não trataram de formar uma classe política, aliás, não faziam política nenhuma, só faziam administração. Quer dizer, fizeram um golpe militar para impedir que os comunistas fizessem no Brasil o que fizeram em cuba. Mas não fizeram uma campanha anticomunista por um único minuto. Não educaram a população contra o comunismo. A hora que acabou a ditadura, volta o comunismo, e todo o país recebe aquilo de braços abertos. E no Brasil você já tem uma tradição de que esse pessoal comunista é também ladrão. A esquerda é um bando de ladrões desde o tempo de Getúlio Vargas. Quem não sabia que isso ia acontecer? Todo mundo sabia, mas fizeram vista grossa. Por quê? Porque esse negócio não tem dono. A existência da classe aristocrática capaz de se sacrificar pelo país, e que não precisa roubar o país, porque ela sente que o país já é dela, é isso que garante a democracia, a ordem, os direitos humanos, etc., senão vai tudo para o brejo, não adianta você ter leis maravilhosas. Tem muita gente que acredita que como foi um negócio que teve inspiração cristã, então a coisa tem força por si mesma. Não têm, isso não é verdade. Quer dizer, por que você escreveu um livro de inspiração cristã, agora você tem um contrato de exclusividade com Deus, que Deus vai te proteger só por causa daquilo? Da onde você tirou essa idéia? Se você escreveu um negócio de inspiração cristã, ótimo, agora você cumpre. O documento em si não tem um poder mágico. Mas aqui existe esse culto. Você não pode esquecer que o americanismo é uma espécie de religião. É uma mistura de protestantismo com patriotismo americano. Tudo baseado em coisas que não são falsas, mas que são apenas valores, e não realidade. E valores só se convertem em realidade pela ação humana. Agora se você acredita que aqueles valores estão imantados de uma certa força espiritual, você está é muito doido, isso realmente não existe. Aluno: Por que as sociedades secretas começaram na Inglaterra? Na China, os intelectuais não ambicionavam o poder por estar numa cultura que respeite os mais velhos? Olavo: Em primeiro lugar, havia muitas sociedades secretas na China também. Mas tinham um caráter mais defensivo, e você vê ao longo do tempo uma espécie de estabilidade do poder imperial, isso você vê. Durou muito tempo. Eu acho que nada durou tanto quanto o Império Chinês. Eu acho que uma das explicações para isso é o sistema de ensino chinês, que era baseado na repetição, na cópia servil. O sujeito educar-se na china significava ele se tornar igualzinho à geração passada. Agora você pensa bem, o sujeito aprender a escrever em chinês não é brincadeira. Leva uma vida. Então quer dizer, se o sujeito conseguir escrever igualzinho ao seu antecessor, isso é uma vitória intelectual formidável. Agora ele decide inventar alguma coisa! Não dá tempo meu filho. Você acabou de aprender e você já está para morrer. Então existe este fato: a própria dificuldade inerente da língua favorece um ensino de tipo tradicionalista, baseado na obediência e na cópia. Por outro lado, você não pode esquecer que toda esta coisa de liberdades individuais, diretos humanos, isso aí só surge com o cristianismo. Se não fosse com o cristianismo ninguém teria essa idéia. Se você não aprende a encarar os outros indivíduos como almas imortais, então eles jamais vão ter uma importância em si mesmos. Isso é o que a gente observa em várias culturas do oriente onde o indivíduo não tem valor nenhuma, você pode trocar uma pessoa pela outra, não faz a mais mínima diferença. Agora, o que você observa é quando essas sociedades tradicionais do oriente começam a absorver não o cristianismo, mas a técnica ocidental (a técnica também surge a partir do cristianismo. Você não pode esquecer que o grande foco irradiador de técnicas foram os mosteiros, e depois a ordem jesuíta. Esses fizeram mais descobertas técnicas do que todo o resto da humanidade). Mas aos poucos esse progresso técnico se torna independente da sua raiz religiosa e adquire uma dinâmica própria. Essas sociedades orientais rejeitaram o cristianismo, na época da renascença, não foram capazes de absorver, não quiseram absorver, mas depois, mais tarde, quiseram absorver a técnica. E isto criou certas situações muito peculiares. Quando você observa a história do Japão, onde você tem uma estrutura política rigidamente hierárquica, uma sociedade tradicionalista, e que de repente se industrializa. Você está criando uma situação econômico-social que não bate com a estrutura de poder que você tinha antes. Então essa estrutura de poder poderia cair. Para não cair, o que ela faz? Ela resolve se potencializar e se fortalecer na base da técnica. Então você cria uma espécie de regime fascista-imperialista, no Japão. Para que a mudança econômico-social não abalasse os fundamentos do poder foi preciso que este mesmo poder açambarcasse o poderio técnico e o pusesse a serviço dos seus objetivos. No debate com o Duguin eu pus ali um anexo depois contando a história do Karl Haushofer, fundador da geopolítica. Ele morou muito tempo no Japão e ele viu o seguinte: que havia ali uma campanha no Japão para expansão territorial sob a alegação de que não tinha mais espaço, de que tinha mais japonês do que metro quadrado. E ele fez a contas e viu que no Japão a densidade populacional é menor do que na Alemanha, e que eles não precisam de espaço nenhum. Então ele descobriu que era uma idéia que um ministro tinha tido; o ministro sabia que não precisava de espaço coisa nenhuma, mas precisava de uma expansão imperialista. Para quê? Para fortalecer o imperador. Então inventaram a história do espaço vital - que depois o Hitler veio copiar -, mas que era totalmente mentira. Mas isto evidentemente foi esta adaptação pela qual passa o governo japonês, transformando-se de um simples governo tradicional num governo ditatorial, tirânico, de tipo fascista, é simplesmente a adaptação que o governo passa para poder se amoldar a novas sociedade técnica capitalista que ele mesmo estava criando. Capitalista não, era meio socialista, porque tudo pertencia ao governo. Ontem eu estava mencionando que há certas coisas só Deus e o Diabo sabem, daí a Regina pergunta: Aluno: Deus e o Diabo para nós católicos e protestantes. E como a outras religiões vêem isso? Olavo: Um conceito claro do Diabo você só encontra no cristianismo. O diabo islâmico, por exemplo, não é um anjo caído. Ele é simplesmente o chefe dos Jinn. Jinn são espíritos da natureza, como se fossem duendes. E o diabo ali é entendido apenas como se fosse o Jinn chefe. Então não é realmente um poder espiritual. O Islam não aceita que o mal vem do diabo. O bem e o mal vêm ambos de Deus. Alguma noção de espíritos malignos há em todas as religiões do mundo, mas esse espíritos malignos freqüentemente estão integrados no culto, e você faz sacrifícios a ele. Você pega religiões africanas: você faz sacrifício para as entidades boas e más, do mesmo jeito, esperando captar a sua simpatia, onde você tem uma espécie de zona indecisa entre o que seria a religião e o que seria magia. Magia supõe que você até, certo ponto, manipula os poderes espirituais, ao passo que na religião você não pode fazer isso. [1:30] Você se limita a pedir, mas você não controla o processo. Mas existe em algumas religiões africanas uma zona indistinta entre religião e magia, e nesse sentido você não pode dizer que as entidades malignas, que são reconhecidas ali, correspondam ao nosso conceito de Diabo, que é um bicho irredutivelmente mal e não manipulável, ou seja, incomparavelmente mais inteligente do que qualquer ser humano e que não pode ser enganado de jeito nenhum. Ele pode ser enganado por Deus, mas não por nós. Aluno: Existe um defensor do criacionismo americano chamado Kent Hovind que apresenta uns argumentos que até parecem sustentáveis, dizendo que a terra tem apenas dez mil anos e Deus realmente criou a terra em sete dias. Olavo: Olha, essa questão de criacionismo, eu não me meto nisso. Eu acho que esta questão é insolúvel. Eu acho que evolucionismo e criacionismo não tem solução. Eu acho que isso transcende a capacidade humana de responder essa pergunta, por muitos séculos à frente. Tudo que eu leio a respeito eu sempre acho que o sujeito tem razão: eu leio um argumento evolucionista, e vejo que está certo; leio do criacionista, e também está certo. Então eu realmente não sei o que fazer. Agora, o que eu sei, o que eu realmente observei historicamente, sem encarar a coisa do ponto de vista de ciência natural - que eu considero que transcende um pouco a minha capacidade - mas encarando apenas do ponto de vista histórico, nós vemos que o evolucionismo já mudou de versão tantas vezes, já diz o contrário do que ele dizia, então uma é teoria camaleônica que toda hora muda de cara, e quando o negócio está mal parado ele inventa outra coisa, eu não consigo levar muito a sério. Começa uma lei implacável que dirige os acontecimentos; termina dizendo que é tudo resultado de um acaso. Como é que você diz que é a mesma teoria? Tem uma lei ou tem um acaso? Se a mesma teoria pode dizer as duas coisas, então ela vai vencer todas as discussões, porque quando estiver perdendo ela muda. É que nem o marxismo: o marxismo também vai mudando de figura; toda vez que está perdendo a discussão ele começa a dizer outra coisa. Então não me parece ser uma coisa intelectualmente muito séria. Aluno: O senhor mencionou o sistema métrico e explicou que o fato e o tamanho definido como metro não ter correspondido à definição original(...) não foi particularmente prejudicial às medições, afinal todas as outras medidas são feitas em relação a este novo comprimento, sendo esse uma nova definição do metro que superpõe ao original? Recentemente tem havido um esforço para unificar as unidades de medida num sistema internacional e assim evitar confusões. Apesar dessa potencial vantagem de todos aderirem ao sistema internacional, fico pensando que mesmo que haja equivalência quantitativa entre essas unidades, talvez isso contribua para empobrecer as ciências demais, que seriam recursos valiosos para a imaginação de quem quer que esteja abordando qualquer problema da natureza. Olavo: Bom, isso acontece realmente. O que é medir? É você comparar o tamanho de uma coisa com outra. Da onde você vai tirar unidade de medida? Existe unidades de medidas naturais, por exemplo, o tamanho do corpo humano, uma média do corpo humano. Isso quer dizer que facilita para você imaginar o tamanho das coisas. Mas se você coloca uma medida abstrata, então automaticamente as medidas se tornam apenas números, que não correspondem à imagem nenhuma. Isso pode ser bom para a administração, poder ser bom para os cientistas, mas no dia a dia isso realmente não é bom. Aluno: Eu estava lendo para a faculdade alguns textos de Karl Popper, percebi que essa idéia da comunidade científica como árbitro da verdade aparece ali como neutralidade institucional. Diz ele que na ciência tudo o que se pode saber com certeza é devido a esta dita comunidade científica e na possibilidade da crítica de todo axioma. Parece-me que os pares são responsáveis não por dizer o que é verdade, mas por testar se aquilo que se diz é verdade, visto que na concepção de Popper, somente estes seriam capazes, habilitados para tal. Olavo: Bom, tudo isto aqui para mim é uma ilusão monstruosa. Aí você está confundindo a definição do ideal científico com a realidade histórica da classe científica. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Você não pode deduzir de um ideal uma realidade. O que ele está querendo dizer é que a classe científica deveria agir assim, assim. Bom, a gente pode discutir o próprio conceito de ideal científico dele. Eu acho que esse conceito não diz absolutamente nada. Porque dizer “a nossa função não é descobrir a verdade, mas apenas apontar os erros”, então nessa mesma noção de erro, a possibilidade de você testar cientificamente - ou, como dizia ele, falsificar, falsear - nesta própria atividade se está supondo uma aproximação da verdade, como se fosse uma assíntota, uma curva que vai chegando, vai chegando, mas nunca chega. Nisto aí está dado o que Edmund Husserl chamava o ideal teleológico da ciência, quer dizer, nós não temos a verdade, mas nós sabemos em que direção nós temos de ir para alcançá-la. Se você abole este ideal teleológico você vai testar as coisas em relação a quê? Quer dizer, o Popper tenta fugir da questão da verdade reduzindo tudo a uma questão prática de você testar as hipóteses e afastar as que estão erradas, e recusar aquelas que não são falseáveis (que não podem ser expressas em termos científicos). Bom, mas a definição de ideal teleológico de ciência está lá embutida, só que está escondida. Então ele não está acrescentando absolutamente nada. Ademais, a definição que o Popper vai dar das ciências, se vocês estudarem os tópicos de Aristóteles, a dialética de Aristóteles, você vai ver que é exatamente a dialética de Aristóteles. É a confrontação de hipóteses. Agora, Aristóteles deixa muito claro que a dialética não produz conhecimento firme, ela produz apenas um conhecimento razoável. O razoável é medido como tal em função de algum conhecimento que você admite como certo. Se sumir completamente a certeza, some também a razoabilidade. E o que o Popper está propondo é isso: uma razoabilidade sem certeza nenhuma. Mas isso é impossível! Isso é fazer buraco na água, esta coisa jamais vai dar certo. Então eu acho que todo o método do Popper é apenas uma bela desconversa. É uma maneira de desculpar a classe científica pela sua incapacidade de descobrir verdades, e tornar honrosa a mera substituição dos erros. Substituir um erro pelo outro seria válido se esse erro se aproximasse de algum modo de um ideal de verdade. Se some o ideal de verdade, qual é o princípio de validade da correção? Também tem outra coisa: o fato de uma hipótese ser impugnada agora, sob certos aspectos, não impede de maneira alguma que ela seja restaurada amanhã ou depois sob outro aspecto. Então, o velho Aristóteles tem razão: não há como você fugir dos quatro discursos. Você tem uma gradação de credibilidade. Então você tem o que é absolutamente certo, certeza absoluta, você tem o razoável, você tem o verossímil e você tem o possível. Nunca ninguém inventou nada fora disso, nem inventará. Se você quiser ficar só com o razoável, você não terá sequer o verossímil. Agora, note bem, o Popper, apesar de todo o treinamento lógico que ele tinha, filosoficamente estava muito mal equipado. Popper não sabia sequer ler um texto filosófico. Depois que você lê a analise que o Voegelin faz do livro A sociedade aberta e seus inimigos, e viu um monte de burradas que o sujeito fez na leitura de Platão, eu digo, não é possível! Se o cara não sabe ler um texto filosófico ele não deveria opinar sobre essas coisas. Então, eu nunca levei o Popper muito a sério não. [1:40] Aluno: Existe alguma semelhança, guardadas as proporções, entre o que o Popper disse e o que eu estou dizendo? Olavo: Não. Pode ter uma semelhança aparente. Se eu estou dizendo que nós estamos lidando com as coisas num nível de mera razoabilidade, então pode parecer que eu estou sendo um popperiano. Quer dizer, nós não temos a verdade final, nós temos uma razoabilidade. Só que eu sei que a razoabilidade é medida em função de uma certeza absoluta que você consegue imaginar, mas que você sabe que substantivamente você não pode alcançar. Agora, pergunto eu, existem certezas absolutas? Existem. Agora, não confunda certeza absoluta com autoridade universal, uma prova que todo mundo tem de engolir. Qualquer pessoa conhece certas coisas com certeza absoluta. Só que ela não pode provar aquilo para mais ninguém. O exemplo supremo é o da testemunha única. Cada indivíduo é também testemunha única de seus próprios atos e pensamentos solitários. E ele conhece isso com certeza direta e absoluta, e, no entanto, só tem validade para ele. O objetivo, nesse sentido, não se opõe ao subjetivo. Por exemplo, eu sei o que eu fiz ontem. Por exemplo, ontem estava precisando de um dinheiro, sou caixa do banco, fui lá peguei um dinheiro. Eu sei isso com certeza absoluta. E não é subjetivo. É individual, mas não é subjetivo. É um fato objetivo que aconteceu, e do qual eu tenho experiência direta. Então, você tem um conhecimento objetivo de natureza estritamente individual. Toda esta patacoada moderna que imagina que o que é subjetivo só tem validade íntima para o indivíduo, eu digo, não. Se eu roubei alguma coisa, eu sei aquilo com certeza absoluta, com total objetividade, e, no entanto, eu não posso provar aquilo para ninguém. Então você vê que o uso da palavra subjetivo para designar algo que depende do arbítrio do indivíduo, como um vago sentimento, uma vaga imaginação que ele teve, e o objetivo para designar aquilo que é objeto de consenso científico, está invertendo totalmente. O consenso científico é necessariamente subjetivo-coletivo. É intersubjetivo. Não é nunca objetivo. O que é objetivo é aquilo que não precisa de maneira alguma de provas científicas. Por exemplo, a existência de um mundo. Já viu alguma pesquisa científica para provar se o mundo existe? Não, porque qualquer prova científica se fundamenta na existência do mundo. Então eu digo, este é um conhecimento objetivo, e por isso mesmo ele não pode ser objeto de prova cientifica. Se é objeto de prova científica, é porque existe um coeficiente, não só de incerteza, como também de subjetividade. Agora, se eu roubei um dinheiro do banco, como eu posso provar que fui eu que roubei o banco, se não tinha mais ninguém vendo, se eu não deixei nenhum indício? Eu sei que eu roubei, mas eu mesmo não posso provar. E se as pessoas não acreditam em mim, eu chego lá e digo que fui eu que roubei. Os caras dizem “ah, você não, nunca que você ia fazer uma coisa dessas”. Então eu não posso provar que eu mesmo sou o culpado do crime. E no entanto aquele conhecimento tem uma validade objetiva absoluta, por ser testemunho direto. Veja, o mundo moderno começa, também, com René Descartes, com o império da subjetividade, o império do eu. Mas aos poucos esse eu vai perdendo cada vez mais autoridade. Quer dizer, aquilo que o indivíduo diz já não pesa absolutamente, tudo precisa ser confirmado por uma comunidade. O conhecimento objetivo que o individuo tem vale menos do que a opinião subjetiva que um grupo tem. Essa é outro paradoxo que nos mostra novamente que Hegel tinha razão: um conceito abstrato, quando se torna um fato histórico, ele se torna o seu contrário. O império do eu, inaugurado por René Descartes, se torna a completa anulação do eu. Vocês estão acompanhando o que eu estou falando, está ficando claro o que eu estou dizendo? Aqui alguém me faz uma pergunto sobre Cornelius Castoriadis. Eu nunca li uma linha desse cidadão, não posso dar palpite. Alguém pergunta: Aluno: Gostaria de saber que fim teve o projeto de edição do Mario Ferreira dos Santos, pela É Realizações; eu sei que a É Realizações publicou alguns livros do Mário, organizado pelo Mauro Sá Martino. Olavo: Bom, o que aconteceu foi o seguinte: esses dois livros, Tratado de Simbólica e Filosofia Concreta foram publicados separadamente antes que aparecesse esse projeto. O projeto surge no instante em que a É Realizações compra os manuscritos do Mário, que pertenciam à família dele. E eu já tinha colocado alguns alunos meus para trabalhar na correção desses textos, e eu estava naturalmente esperando - como eu que estou trabalhando nesta coisa há muitos anos, e, eu fui o único sujeito que fez uma edição decente de um texto do Mário, que é a edição da Sabedoria das Leis Eternas. O Tratado de Simbólica e o outro não foram corrigidos como deviam. O Mauro Sá Martino ainda teve a cara de pau de dizer que “nós conferimos o texto da edição com os textos das edições anteriores”. Espera aí, isto não é um texto, isso é um rascunho, uma transcrição feita por terceiro a partir de gravações, então você não tem um texto para você comparar. Você compara várias edições quando tem um texto de próprio punho do autor, aprovado pelo próprio autor, com a sua versão definitiva, aí sim você compara várias edições. Comparar várias edições de uma mera transcrição de textos é não fazer absolutamente nada. O que é preciso fazer ali é a edição do texto. Você vai ter de pegar aquela coisa que está meio disforme ainda, com aquela oralidade caótica, e você redigir linha por linha de acordo com a coerência interna do texto e comparação com outros textos, como fizeram por exemplo com o livro do Bernard Lonergan sobre educação. Foi uma série de conferências que ele fez, e que vinte alunos dele levaram cinco anos para preparar aquilo. Então fica um texto com começo meio e fim, e que tem uma confiabilidade, aquilo corresponde efetivamente ao pensamento, corresponde mais ao pensamento do Bernard Lonergan do que a mera transcrição bruta de gravações, que reflete apenas um improviso, erros, distrações do autor, etc. É este tipo de trabalho que precisava fazer com o Mário Ferreira dos Santos, e daí o pessoal da É Realizações se recusou a fazer, e disseram que iriam publicar tudo como está. Eu disse, se fizer isso é um crime, e seu eu o encontrar na rua, eu dou-lhe uma cuspida no seu olho. O tipo de edição que o próprio Mário fez dele é um negócio quase criminoso, e ele fez isso porque ele sabia que ele iria morrer, e que não havia tempo, e ele dizia que “depois de eu morrer virá alguém e corrigirá isso aí”. E de fato aconteceu, eu peguei lá a Sabedoria das Leis Eternas e corrigi linha por linha. Onde tem um ponto em que a minha redação está divergindo da transcrição, eu explico porquê: aqui o Mário usou tal palavra, mas isso foi um lapso, não foi isso que ele quis dizer, ele quis dizer outra coisa, por isso, por isso, por isso. Era esse tipo de trabalho que eu esperava que se fizesse, e que é obrigatório fazer. Porém, o homem quer apenas lançar livro na praça e ganhar dinheiro, muito bem, então faça, como é que eu posso te impedir? Você quer brincar, vai brincar. No Brasil tudo á assim. O pessoal tem uma presunção enorme, mas não é capaz de agir a altura da sua presunção. Aluno: O senhor poderia me dizer se algum curso gravado seu, ou outros textos que ajudem a esclarecer a teoria dos quatro discursos, ou se só o que há de escrito sobre isso é o livro Aristóteles em Nova Perspectiva? Olavo: Não, eu dei uns cursos no Rio de Janeiro sobre isso, e nós devemos ter ainda as gravações, só que eu não conseguiria localizá-las agora. À medida que vai passando o tempo, a gente vai colhendo esse material antigo e vamos depositando isso aí no site do Seminário, mas eu não posso te prometer que eu vou conseguir localizar esse mês ou essa semana. Aluno: Não conheço praticamente nada da história dos EUA, mas tenho a impressão de que os períodos norte-americanos de democracia são pelo menos mais duradouros se formos comparar com o que acontece nos países da América Latina. Isso é verdade? Olavo: Não, não é verdade. Quando começa a guerra civil, Lincoln implanta uma ditadura. Você [1:50] não tem mais garantias legais, as pessoas são presas sem processo, tem censura a imprensa, tem tudo isto. E acabou só porque deram um tiro no Lincoln. Quer dizer, o Lincoln libertou uma parte da nação e colocou a outra parte na cadeia, quer dizer, ele trocou. Então, isso evidentemente deixou marcas profundas, criou um ressentimento enorme. Quando terminou a guerra ele disse: “agora nós vamos pacificar todo mundo, não tem mais nem sulista nem nortista”, mas não foi isso que aconteceu realmente. O que aconteceu foi uma mudança social forçada no sul, por meios muito violentos. Então a coisa não apaziguou. Até hoje você vê ressentimento. Uma coisa nós não podemos negar: o Lincoln era um patriota, e ele queria preservar a nação, a integridade na nação de qualquer maneira. E nós podemos dizer que se aquele negócio desmembrasse teria sido um desastre. Então ele teve uma razão para preservar. Essa foi a grande obra dele. Se existe um treco chamado Estados Unidos e não desunidos é graças a ele. Mas também não se pode negar que ele defendeu a economia americana contra interesses estrangeiros, e isso também fez muito bem, mas não se pode negar que o homem foi um ditador. Então quanto tempo durou a democracia americana? Durou sessenta e poucos anos. Depois voltou, mas já voltou meio capenga, e quando começa o séc. XX, a partir do governo Wilson, você já vê um processo centralizador que nunca mais parou. Aluno: Então só nos resta a fé e executar as Virtudes Teologais – Esperança, Fé e Caridade - e muito bom humor para conseguirmos driblar o incompreensível. Correto? Olavo: Perfeitamente correto, isso é tudo o que nós temos, porque se não existe nem fé, nem esperança, nem caridade, a sua razão não funciona. Eu escrevi todo um trabalho sobre isso. Eu escrevi um negócio que chama o Trauma da Emergência da Razão. A razão é uma carga que nós carregamos. Não é uma faculdade maravilhosa que nos foi dada de uma vez para sempre, e da qual podemos desfrutar. Não. Existe uma certa incompatibilidade estrutural entre e modalidade de existência do ser humano e o exercício da razão. Em primeiro lugar: nós nascemos com a capacidade do pensamento racional. O que é o pensamento racional? É o pensamento que tem integridade, pensamento que não se contradiz. Todos nós temos essa capacidade. Mas alguns bichos também a têm — mais limitada do que nós, mas também a tem. Mas acontece o seguinte: a razão não funciona se ela não tiver os materiais, quer dizer, se você não tiver as informações. Você começa a exercer a razão desde o instante que você começa a falar e se mover. Mas a partir de uma base de informações muito estreita. Então isto significa que você já tem a responsabilidade da razão muito antes de você ter os meios materiais efetivos de exercê-la. O que quer dizer que, por exemplo, muitos complexos, muitas reações neuróticas se estabilizam no indivíduo muito cedo devido ao uso da razão sem a devida experiência. Então aí eu tenho de concordar com René Descartes. Ele dizia que todos os nossos problemas vem do fato de que antes de sermos adultos nós somos crianças. Agora, crenças que nós adquirimos quando éramos muito crianças permanecem. Certas reações de base - que são não resultado de um trauma, mas o resultado do exercício da razão - se consolidam ao longo de toda a vida. De modo que nós carregamos a razão como quem carrega uma cruz. Eu não uso essa imagem à toa, porque a cruz tem a mesma estrutura quaternária de uma proporção, e razão, no sentido latino da palavra ratio quer dizer uma proporção, tipo a/b=x/y, então é exatamente uma cruz. Isso quer dizer que o pensamento humano tenta equacionar tudo de uma maneira proporcional, e nós podemos definir a razão como senso da proporcionalidade integral. Não confundir, portanto, com o mero raciocínio, que é o senso da integridade do discurso, o senso do discurso coerente. O mero discurso coerente não basta para definir a razão, a razão é algo mais, o senso da proporcionalidade total. Só que a proporcionalidade total implica o conhecimento da totalidade do que existe, do qual nós não dispomos. Então nós criamos estruturas proporcionais, mas que são parciais, só abrangem um pedaço, uma fração mínima da realidade. Mas para nós, essa estrutura total que nós montamos, isso passa a ser para nós o mundo e a realidade, e o que está fora, nós fazemos de conta que não existe. Então a razão, desde o início nos induz a viver num mundo de pensamentos, e nos fecharmos para a experiência. Esta tensão entre razão e experiência começa no dia em que você nasce e termina no dia que você morre. Nunca uma coisa vai estar perfeitamente ajustada à outra. Então isso quer dizer que ao invés da razão ser uma solução, não, ela é um dos dados do problema. A razão no sentido integral só pode ser exercida por quem conheça todos os dados, ou seja, tenha o conhecimento universal. Então, por isso que a Bíblia diz que em Deus está tudo contado, pesado e medido. Eu digo, sim, na cabeça de Deus. Ele sabe exatamente as quantidades, as proporções, as relações, etc., e nós só conhecemos certos pedaços. Esse pedaço para nós forma um sistema, e esse sistema às vezes é tão grande que nós acreditamos que ele é o universo. Por exemplo, quando o pessoal fala de concepção científica do cosmos. Eu digo, isso jamais vai existir. Quem quer que diga que criou uma concepção científica do cosmos está mentindo. Isto é auto-contraditório. Você não pode dizer que a sua ciência segue um método experimental e que ao mesmo tempo você tem uma concepção científica do todo. A ciência só lida com partes, por definição. E quando ela soma partes e diz: “ah cheguei a uma concepção do todo”, não, você chegou a uma concepção de certos aspectos que você acha que são universais, mas que foram tirados de certas linhas factuais muito determinadas, muito precisas e muito limitadas. Então, só quem tem uma concepção científica do universo é Deus. É ao mesmo tempo uma concepção total e exata em todas as suas partes. Então, nós só temos concepções mitológicas ou imaginativas do universo. Isso é o máximo que nós podemos ter, e isso é o máximo que um cientista também pode ter. Eu acho que a Igreja está muito certa quando diz que o exercício da razão só funciona quando está condicionado a essas virtudes. Em primeiro lugar, a Fé. A Fé - como eu já expliquei milhões de vezes -, não é crença numa doutrina, é a confiança numa pessoa, numa pessoa divina. É a confiança como um bebê confia na sua mãe quando se deposita no colo dela. Quer dizer, você não está sendo enganado, não é uma força maligna que está mandando em tudo. Se você não tem isso de cara, se você acredita que pode ser uma força maligna, uma força impessoal louca, então você já está na defensiva contra o universo, e naturalmente você vai perder. Agora, você imagina o tamanho, a complexidade e a rigidez do esquema defensivo que você tem de montar na sua cabeça para se defender do universo, Junto com isso naturalmente vem os projetos megalômanos de controle do fluxo dos acontecimentos, projetos de poder. Se vigora o sentimento gnóstico de que o universo é um lugar hostil, criado por uma divindade maligna, então nós estamos num mato sem cachorro, e nós temos que criar uma ciência e uma técnica universal que nos proteja contra tudo. Esta inspiração está no fundo de muitas teorias filosóficas e científicas modernas, mas são todas malucas evidentemente. Em segundo lugar, se você acredita nisto, o próprio funcionamento da sua razão começa a operar de uma outra maneira, onde a sua subjetividade tem de ter o controle de tudo. Então, daí o sonho recorrente da ciência universal, que aparece em Francis Bacon, aparece em René Descartes: “agora descobri o segredo de tudo”’. Não descobriu o segredo de nada. No máximo você descobriu uma coisinha ou outra, como todo mundo. Nós temos de entender: o senso do [2:00] todo nos transcende, nós não temos o controle do todo, nós estamos dentro do todo. Nós só conhecemos partes, e não precisamos conhecer o todo, porque ele está às nossas costas, e ele nos leva. E nos leva de uma maneira benévola, senão não poderíamos entender nada. Então nós temos de ter esta confiança no todo. E o que é o todo? É o conjunto da vontade de Deus. Se você perdeu isso, você já entrou no domínio da loucura, da paranóia e da autodefesa gnóstica. Tanto o homem que tem fé quanto o que não tem, os dois estão usando a razão, só que um está abusando, porque está esperando dela o que ela não pode dar: criar uma ciência universal que te dê o controle, pelo menos, intelectual de tudo, e que te defenda contra a própria estrutura da realidade. Isso é maluquice. Embora o procedimento interno seja racional, a finalidade é irracional. Agora, se nós temos a fé, note bem, não é crença numa doutrina. É confiança na bondade de Deus. É confiança no amor divino. Se nós temos isso, então, primeiro: nós sabemos que não precisamos controlar tudo, e que se a gente agir com uma certa prudência e honestidade, Deus fará com que aquela parte que nós enxergamos, aquela parte ínfima que nós enxergamos, seja harmônica com o todo, tal como ele conhece. Então nós não vamos errar muito. Nós não precisamos conhecer o todo, e muito menos precisamos controlá-lo. Não é concebível que uma criatura finita conheça quantitativamente o infinito, não tem sentido. Então também que uma criatura que vive na relatividade, no engano, em todo esse vai-e-vem da vida humana, em toda esta incerteza da vida humana, alcance um controle intelectual da realidade universal, isto é absurdo. Mas daí as pessoas dizem que “então você está defendendo o ceticismo, a limitação do conhecimento humano”. Não! Eu estou mostrando que esta limitação do conhecimento humano corresponde a limitação da estrutura da existência humana. Quando o limite do conhecimento coincide com o limite do ser, então isto é um conhecimento estritamente válido, objetivo, e universalmente válido, ainda que seja limitado. É como você conhecer, por exemplo, uma figura geométrica e saber as propriedades dela, ainda que você não conheça as outras. Você não precisa ter estudado um tetraedro para saber que um quadrado tem quatro lados iguais com quatro ângulos retos. Quer dizer, isso é uma certeza universal, universalmente válida ainda que o seu objeto seja limitado. Então é isso que nós devemos buscar. O máximo de certeza dentro dos objetos limitados, mas de tal modo que entre esse conhecimento limitado e o conhecimento divino não exista antagonismo. Então esta é a função da fé no conhecimento. Sem essa fé não existe conhecimento nenhum, só existe loucura. Transcrição: Filipe Santos Zomkowski e Fernando Chemello Opis — Instituto Olavo de Carvalho. Revisão: Carlos Felice Zaccardelli Relação de livros citados na presente aula: 1)Roland Mousnier Les XVIe et XVIe Siecles: La Grande Mutation Intellectuelle de l'Humanite, l'Avenement de la Science Modern, et l'Expansion de l'Europe Paris, Presses Universitaires de France, 1965 Edição em português: A Grande Mutação Intelectual da Humanidade, trad. Vítor Ramos, J Guinsburg e Geraldo Gerson de Souza Difusão Européia do Livro, 1968 2)Robert A. Sungenis & Robert J. Bennett Galileo Was Wrong: The Church Was Right CAI Publishing Inc. http://www.galileowaswrong.com/galileowaswrong 3)Xavier Martin Voltaire Méconnu: Aspects Cachés De L'Humanisme Des Lumières (1750-1800) Dominique Martin Morin, 2006 4)Friedrich Heinrich Suso Denifle, Raymund Volz Luther und Luthertum in der ersten Entwickelung, 2 vols. Mainz: Kirchheim [1904-1909]; Zweite, durchgearbeitete Aufl. [2nd, revised edition]. Edition (1904) Luther et le luthéranisme: Étude faite d'après les sources, 2 Vols. Nabu Press, 2011 Luther and Lutherdom, from original sources Nabu Press, 2010 5)Ann Geneva Astrology and the Seventeenth Century Mind: William Lilly and the Language of the Stars Manchester: Manchester University Press, 1995 6)Joscelyn Godwin The Pagan Dream of the Renaissance Red Wheel Weiser, 2005 7)Benson Bobrick The Fated Sky: Astrology in History Simon & Schuster, 1st edition, 2005 Escrito En El Cielo: Una Historia De La Astrologia Argentina: El Ateneo, 2007 8)Éric Weil La philosophie de Pietro Pomponazzi; Pic de la Mirandole et la critique de l’astrologie Trad. des notes latines par L. Besconde Édité par E. Naert et M. Lejbowicz Librairie Philosophique J. Vrin 9)Edmund Husserl Die Krisis der europaischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie Darmstadt, Wiss. Buchges., 1999 La Crise des sciences européennes et la phénoménologie transcendantale Paris, Gallimard, 1989 The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology Evanston, Northwestern University Press, 1970 La Crisis de la ciencias europeas y la fenomenologia trancendental Argentina: Prometeo Libros, 2010 La crisi delle scienze europee e la fenomenología trascendentale Milão: Il Saggiatore, 1965 10)Paul Hazard La crise de la conscience européenne: 1680-1715 Paris, Gallimard, 1961 A Crise da Consciência Européia (1680-1715) Trad. Oscar de Freitas Lopes Lisboa, Cosmos, 1948 La Pensée européenne au XVIIIe siècle, de Montesquieu à Lessing Paris, Fayard, 1978 O Pensamento Europeu no Século XVIII – 2 Volumes Trad. Carlos G. Babo Lisboa, Editorial Presença, 1989 (Livraria Martins Fontes) 11)John Carroll The Wreck of Western Culture: Humanism Revisited Intercollegiate Studies Institute, 2nd Edition, 2010 12)Octávio Tarquínio de Sousa História dos Fundadores do Império do Brasil – 9 Volumes Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1988