Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 126 15 de outubro de 2011 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material.[versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Como esta vai ser uma semana um pouco diferente das outras, já que nós temos aqui o curso presencial “As Raízes da Modernidade”, eu vou dar um descanso para vocês na leitura de Descartes e fazer algumas considerações gerais sobre o nosso curso. Mas antes eu gostaria de dar um aviso: a pedidos, vamos colocar à venda as gravações do curso “As raízes da Modernidade” ainda esta semana. Infelizmente, eu não posso cobrar um preço muito barato porque seria uma desfeita para com os alunos que vieram para cá com muito sacrifício. Será o seguinte: vamos cobrar R$ 300 reais por todas as gravações das seis aulas. Esta oferta vai durar somente esta semana e vale somente para os membros do seminário ou alunos regulares. Então, aqueles que quiserem, enviem o pagamento pelas vias normais, pelas mesmas vias por onde envia as mensalidades do curso, e imediatamente nosso webmaster Silvio Grimaldo colocará a gravação à disposição de cada um. Podendo ser estas gravações uma por uma, ou esperar para pegar todas no fim de semana. O Silvio também vai colocar um aviso na página explicando como é que funciona, mas é basicamente isso. É só você enviar R$ 300 reais pelas vias normais que nós já sabemos do que se trata, e imediatamente damos a senha para você fazer o download das gravações em vídeo e áudio. Eu queria dedicar a aula de hoje, interrompendo a leitura do Descartes, que será retomada não na próxima semana, porque será transmitida simultaneamente para os alunos que estão presentes e para os que estão assistindo pela internet, como sempre, mas daqui a duas semanas. Hoje eu queria esclarecer um ponto que vem suscitando muitas dúvidas entre alunos do curso. Quando eu peço aos alunos que se abstenham de qualquer participação em entidades políticas, militantes ou coisa parecida, isso na verdade não é apenas uma preferência minha, não, é só uma exigência disciplinar. Isso decorre de toda uma análise da situação presente do Brasil e de qual papel nós podemos desempenhar nela. Em primeiro lugar, quando as pessoas desejam agir politicamente é porque elas sentem evidentemente uma inquietação com relação à situação presente. Vêem que o Brasil, apesar do seu desempenho econômico relativamente bom (medíocre, na verdade, se comparado ao que teve nas décadas de sessenta e setenta), está entrando numa decadência acelerada. Decadência cultural, social, moral, jurídica, etc., muito, muito rápida, e se sentem oprimidas por causa disso, e querem encontrar uma saída, querem encontrar uma luz no fim do túnel. Em primeiro lugar é preciso ver que às vezes você pensa que está atravessando um túnel, mas você não está, você está caindo dentro de um poço. Quando você está no poço e não no túnel, não tem luz à frente; a luz está atrás e quanto mais você avançar mais vai se afastar dela. Existe em toda atividade humana uma espécie de paradoxo que as pessoas às vezes custam a aprender: você só consegue fazer alguma coisa, só consegue ter uma ação eficaz quando fez o repertório de todas as impossibilidades. Imagine que você está numa cadeia e deseja fugir dela. Você pode fazer um plano maravilhoso, mas antes de fazer um plano você precisa saber todos os impedimentos que existem à sua fuga. Então, fazer o repertório das impossibilidades, o repertório dos obstáculos com total realismo. Isto significa que às vezes a ação eficaz só é possível depois que você percebeu que nenhuma ação é possível. Quando você tem a medida exata de todos os obstáculos, de todas as portas fechadas, de todos os impedimentos, é somente aí que você tem alguma idéia boa de alguma coisa nova que possa falar, fazer e que escape desta rede de impedimentos. Fora disso o que você vai fazer é tentar coisas que já foram tentadas, que já fracassaram, vai tentar os mesmos caminhos já batidos, estereotipados e evidentemente você vai dar com os burros n’água. Para você ter uma medida de quanto qualquer ação política no Brasil se tornou estéril e inviável vamos, para simplificar o negócio, chamar de direita o conjunto de todas as forças que estão insatisfeitas, revoltadas com esta hegemonia esquerdista e que desejariam colocar o Brasil no rumo de uma democracia capitalista normal, no sentido em que eu a defini nos artigos “Democracia Normal e Patológica”. Claro que há pessoas que querem coisas ainda piores. Por exemplo, tem gente que é partidário do Alexandre Duguin, e desejaria que o Brasil se integrasse no projeto Eurasiano. Mas vamos excluir a hipótese. A coisa já está suficientemente ruim como está. Então, vamos chamar de direita este aglomerado de insatisfeitos. Estas pessoas insatisfeitas abrangem desde cidadãos comuns, estudantes, funcionários, comerciantes, empresários que não têm, pelo menos não atualmente, nenhum canal de ação disponível, e se compõem também de alguns jornalistas que têm canal na mídia e de certo grupo de políticos que tem meios de atuação já consagrados. Se você tomar o conjunto dessa gente e olhar, principalmente, pelo lado dos políticos, que são os líderes naturais deste movimento, vamos fazer algumas perguntas a respeito deles - o que eles pretendem fazer, o que eles planejam, quais são os sonhos e ambições deles. Primeira pergunta: a direita tem algum projeto de hegemonia cultural, psicológica e lingüística do país? A resposta é não. Ninguém pensou nisso e ninguém tem a menor ideia de como se poderia fazer isso. E, em geral, nem sabem que é necessário fazer isso. Segunda pergunta: a direita tem algum projeto de dominação hegemônica da mídia? A resposta é não. Terceira: a direita tem algum projeto de infiltração sistemática nos sindicatos, na polícia, no aparato judiciário, nós órgãos de inteligência, etc.? A resposta é não. Quarta: a direita tem algum projeto de controle hegemônico do sistema educacional - primário, secundário, faculdade? Não. Então, isso é mesma coisa que dizer o seguinte: a direita não quer o poder. Porque o poder, a hegemonia é a condição prévia do poder. Quer dizer, a hegemonia não é ainda o poder. Você pode ter o controle hegemônico de uma sociedade e ainda não ter o poder estatal. Agora, se você conquista o poder estatal sem hegemonia, você não dura lá dois dias, evidentemente. Se eles não querem nem mesmo a hegemonia, é claro que eles não querem o poder. É a mesma coisa que dizer: não há uma direita que esteja competindo com a esquerda. E mais ainda, não há se quer uma direita que pretenda competir com a esquerda. Dividindo esta direita entre os cidadãos comuns e os políticos, os cidadãos comuns desejam apenas protestar, reclamar de alguma coisa, escrever um blog, de vez em quando pode até querer fazer uma passeata ou coisa assim, e os políticos querem apenas alguns cargos eleitorais. Cargos que eles podem ocupar tranquilamente sem que isso perturbe no mais mínimo que seja o esquema esquerdista de dominação. Evidentemente querem conservar as posições de importância e de prestígio que conseguiram, e, para isso, de vez em quando, tem de dar um palpite, dar alguma uma opinião (que às vezes pode ser contrária ou até favorável ao governo), e muitos deles, inclusive lideranças empresariais importantíssimas que inauguraram no Brasil um movimento chamado liberal, [00:10] perceberam que a única maneira de conservarem alguma importância no conjunto é colaborando com o governo. Ou seja, todo mundo só quer um pedacinho muito pequeno do bolo e isto é a direita que nós temos. Então, é só você analisar isso aí, é só você responder estas quatro perguntas com relação à hegemonia e você vai ver que falar em qualquer ação política nesse momento é de uma estupidez, é coisa de louco, maluco. As pessoas podem perguntar: e a Marcha para Jesus? A marcha contra a corrupção, etc.? Ora, a primeira característica destes movimentos é serem apartidários e supra ideológicos, ou seja, eles não estão concorrendo com a esquerda. Você pode perfeitamente protestar contra a corrupção todo dia que isto não vai arranhar no mais mínimo que seja a hegemonia esquerdista. Protesto contra a corrupção, denúncia de corrupção, havia aos montes dentro do Partido Comunista da União Soviética, dentro do próprio comitê central: “Você roubou, você desviou dinheiro etc.”. Ou seja, a luta contra a corrupção é o que sobra quando acabou a política. Isto, inclusive, aconteceu no próprio período militar quando a atividade política tinha sido praticamente neutralizada, só quem mandava no Brasil eram os generais e os tecnocratas, então não havia necessidade de políticos; os generais conservaram o congresso funcionando por uma questão de amabilidade e de manter as aparências, mas o congresso só servia para carimbar os decretos que vinham assinados da presidência ou dos ministérios. A atividade política propriamente não existia e sobrava o quê? Eu estava no jornalismo político nesta época. O que sobrava? Denúncias de corrupção! Porque partimos do princípio de que o sistema desejava, precisava de um feedback [por mais que estivesse sufocado à atividade política]; quer dizer, o sujeito está no poder, [portanto] ele precisa saber qual dos ministros dele está roubando, qual deputado está roubando; é o mínimo de condição que você precisa para administrar um país. Mesmo que ele seja o presidente, e que seja o maior ladrão de todos, ele também precisa saber quem está roubando. Você acha que um capo mafioso, um chefe duma quadrilha de gangues, não precisa saber quando algum associado, algum cúmplice, o está roubando? Claro que precisa mais do que ninguém. Então, as denúncias de corrupção são aceitas. É o canal que sobra para dar vazão à insatisfação. Um protesto religioso já tem um pouquinho a mais de conteúdo ideológico, mas não há nada, nada, nada, naquele discurso religioso da Marcha para Jesus que não possa ser honradamente subscrito por um esquerdista, ou por um petista. A esquerda está cheia de pessoas que são moralmente conservadoras. O pessoal que foi criado no meio da antiga esquerda brasileira ainda é moralista e patriarcal, como foram os líderes do partido comunista. E garanto para vocês que não é sem insatisfação que eles ouvem o protesto da Marcha para Jesus. A importância destas bandeiras culturais ligadas ao sexo, ao feminismo, gayzismo, etc., é claro que é grande, mas ela é relativa, é sempre uma faca de dois gumes. Vocês vejam que não existe nenhum regime comunista no mundo que pratique sex lib. Eles são todos terrivelmente opressivos, sob este aspecto, e isto não é sem razão. Se você pretende exercer um controle estatal sobre toda vida social, é evidente que você vai ter que entrar na vida privada das pessoas e dizer o que elas podem fazer e o que não podem. E é claro que a maneira mais simples de fazer isso é o bom e velho moralismo burguês. Se você admite outras variedades de conduta, isto torna a coisa um pouco mais difícil de administrar. Então, todos os pontos que têm sido levantados como bandeiras de luta são, praticamente, ideologicamente vazios. Além disso, há outros fatores de ordem propriamente cultural - eu vou daqui a pouco ler um negócio que eu escrevi, eu não sei se vai dar para publicar isso no Diário do Comércio, porque está ficando muito cumprido, e eu não terminei de escrever ainda. Então, este é o panorama. Não há canais de ação política. Qualquer protesto, qualquer reclamação que você faça é fazer buraco na água. Como você pode pensar em ação política, se você não é capaz sequer de encarar a realidade e aceitar a situação como está? Um sujeito que está preso, que não consegue admitir a realidade, que ainda está naquele sentimento de perplexidade que diz: “eu não acredito que isto está acontecendo, é ruim demais para ser verdade!”; enquanto você está com este sentimento, está absolutamente incapacitado para qualquer ação. É somente quando você aceitou plenamente a realidade e ela já não está mexendo com você por dentro, ela já não está te deprimindo, não está te derrubando, não está te enfraquecendo, somente aí você pode agir. Enquanto você está sofrendo, está no passivo, meu filho. Por exemplo, você acha que Lênin, quando estava tramando a Revolução Russa, estava chocado e deprimido pela miséria dos operários e camponeses russos? Será que ele ficava deprimido com isso? “Ah! Esse maldito Tzar está nos oprimindo, a vida ficou tão ruim”. Absolutamente! Ele ficava frio diante da coisa. Enquanto você não tiver este reconhecimento frio e total da realidade da situação, não está capacitado para agir. Ora, chegar a este ponto supõe alguma formação intelectual e alguma formação moral e humana também. Só quando você fez uma opção definitiva pela realidade e disser: “olha, pode estar ruim o quanto se queira, eu quero saber como é que está. Eu quero saber o que está acontecendo. E vou encarar isto com a neutralidade, com a tranquilidade de um médico que está cuidando do paciente”. É claro que você tem dó do paciente, mas você não é ele. E se você tem de prestar atenção na cirurgia que você vai fazer, certamente não é este o momento de você ficar comovido com a situação do paciente, de ficar derramando lágrimas, muito menos de ficar sofrendo. Que é exatamente o estado em que está todo mundo no Brasil. Toda a chamada direita, está todo mundo sofrendo. O único sujeito que é cínico o suficiente para encarar as coisas como elas são sou eu! Claro que eu vim para cá, para os Estados Unidos, justamente para eu poder fazer isso; para eu poder ver as coisas um pouco mais de longe e conseguir obter um quadro, uma descrição muito exata da situação, para saber o que está acontecendo antes de poder pensar o que fazer. Vejam que quando houve o golpe de sessenta e quatro, o que fez a esquerda brasileira? Chorou durante duas semanas e depois sentou e disse: “Bom, agora vamos ver o que está acontecendo”. Eu acompanhei tudo isso. Eu acompanhei todo o debate interno da esquerda naquele tempo e vi que o coeficiente de choradeira e de depressão era muito pouco. Eles estavam era dando tratos à bola para ver se entendiam o que estava acontecendo e ver o que dava para fazer. E foi graças a isso que eles conseguiram não só se recuperar, como conseguiram subir - claro que levou trinta, quarenta anos - e dominar o país. O pessoal da direita não está privilegiado com relação à esquerda. O trabalho que a esquerda teve a direita vai ter de ter, igualzinho. Não existe atalho! Não há uma estrada real que você possa seguir e encontrar a solução de todos os problemas. Não, não! Tem de começar do começo. A esquerda naquela época era um conjunto de entidades que já existiam há bastante tempo, organizações já bastante tarimbadas, já com um enorme know-how etc., então ali nem precisava os líderes da esquerda dizerem: “olha, não reaja, não faça besteira nenhuma, fique quieto no seu canto e vamos estudar”. Não precisava nem dizer por que todo mundo sabia disso. E se algum sujeito partisse para reações anárquicas e emocionais, ele estava automaticamente fora do movimento esquerdista significativo. [00:20] Era considerado um marginal, um maluco, alguém com quem não se pode contar. Mas na direita a gente precisa dar este aviso, sim. Por quê? Porque não há uma tradição de organizações de direita experientes, capacitadas. Não há nenhuma! Aliás, nunca houve no Brasil. Para não dizer nunca, houve a ação católica nos anos cinqüenta e sessenta. Então não há ação de experiência política na direita. O que eu estou dizendo para vocês é uma coisa que, na época do golpe de 64, um líder comunista diria aos militantes comunistas: “Olha, vocês fiquem quietos. Aconteceu um negócio que nós não estamos entendendo e enquanto a gente não entender não dá para a gente fazer nada”. Mas na direita é necessário a gente dar este aviso hoje. O número de iniciativas estéreis que a gente vê pulando, uma pra cá, outra pra lá é muito grande, tudo isso baseado [em boas intenções]. Eu não acredito muito em boas intenções. Eu não acredito que exista boa intenção quando você não quer saber da realidade. A fuga da realidade jamais expressa uma boa intenção. Pode expressar um bom sentimento, mas um bom sentimento não quer dizer uma boa intenção. Além disso, existe um fator propriamente cultural que torna o Brasil diferente de todos os outros países. Eu vou ler aqui o que eu escrevi a respeito. Em seguida vamos analisar o negócio. Eu vou lendo e comentando: Lendo a bela resenha que Gertrud Himmelfarb consagrou na New Criterion de outubro ao livro recentíssimo de Adam Kirsch sobre Lionel Trilling (Why Trilling Matters, Yale Univ. Press, 2011), tento, em vão, medir a diferença entre um país onde se busca, com justiça, recuperar a memória perdida do grande crítico e outro país onde a influência dele jamais penetrou nem pode penetrar. Se nos EUA o estudo sério da literatura nas universidades foi quase inteiramente soterrado sob toneladas de propaganda feminista, gayzista, islamista, comunista, africanista, o diabo, no Brasil a própria literatura desapareceu por completo — fato inédito na história de qualquer país do Ocidente —, mal subsistindo uma vaga lembrança do que essa atividade possa ter representado em épocas passadas. Até a Academia Brasileira que por algum motivo continua a chamar-se “de Letras” já não sabe direito do que se trata, imaginando ser coisa relacionada às pessoas dos Srs. Lula, Ronaldinho Gaúcho, João Havelange, Diogo Nogueira e outros ali homenageados por sua absoluta falta de méritos literários visíveis ou invisíveis. Não se trata de falar mal da academia brasileira, mas o que tá acontecendo na academia é expressão de uma confusão generalizada. Mas não é só por isso que a mensagem de Lionel Trilling repercutirá nestas plagas como a campainha do recreio soando num cemitério. É também, e sobretudo, porque ela fornece o padrão de medida com que se pode avaliar a extensão da calamidade cultural brasileira, e esta última, aferida por semelhante critério, mostra já ter passado daquele ponto em que tomar consciência de um estado de coisas miserável é um princípio de esperança. O Brasil mal chegou a desempenhar um papel insignificante na história intelectual do mundo, e já abdicou até mesmo das condições mínimas que lhe permitiram fazê-lo durante algum tempo. A opção preferencial pela barbárie e pelo grotesco foi levada às suas últimas conseqüências, e não existe via de retorno. Brasileiros podem, é claro, continuar estudando, criando, descobrindo, escrevendo coisas boas. Mas serão contribuições individuais, isoladas, não integráveis em qualquer conjunto que valha o nome de “cultura nacional”. Só para dar um exemplo. O que eu próprio estou fazendo: onde você coloca minha obra na história da cultura nacional? Não tem lugar para ela. Você veja que algumas obras realizadas nas décadas anteriores já não tem lugar dentro da cultura brasileira. A do Mário Ferreira não tem, ela não cabe. Quer dizer, não há uma continuidade histórica que você possa dizer: “olha, primeiro aconteceu isso, depois aconteceu isso, depois aconteceu o Mário Ferreira dos Santos...”. Não. A história estava indo pra lá e de repente aconteceu um Mário Ferreira dos Santos, que é um sujeito que não tem nada a ver com a história, que é, por assim dizer, como se fosse uma tradição por ele mesmo. Isso quer dizer que mesmo que você seja um gênio, mesmo que você seja um Mário Ferreira dos Santos, o que você vai fazer não vai se integrar num todo chamado cultura nacional. Pode se integrar num outro todo. Eu já até pensei: o Mário Ferreira cabe muito bem dentro da filosofia portuguesa e, curiosamente, num site novo de filosofia portuguesa que apareceu aí, estava lá: fulano, fulano, fulano, Leonardo Bruno, e Mario Ferreira dos Santos. Então, o Mário pode ter algum diálogo com os filósofos portugueses, brasileiros, não. Esta situação tende a se agravar. Pelo menos é essa a conclusão a que chego quando examino a história mental deste país nas últimas décadas com os olhos de um aprendiz devoto dos ensinamentos de Lionel Trilling, um autor que li muito desde a juventude, com satisfação imensa, e do qual não posso dizer que tenha jamais discordado em algum ponto essencial. O principal desses ensinamentos é que uma sociedade, sua história e sua política só podem ser compreendidos à luz daquela “imaginação moral” que se adquire com a assídua freqüentação da grande literatura. A imaginação moral não é a absorção de um código moral, mas, ao contrário – nas palavras do próprio Trilling –, “a consciência das contradições, paradoxos e perigos de viver a vida moral”. Dito de outro modo: num código, que é um sistema de regras, é, evidentemente, constituído como uma coerência lógica. Então dentro do código não pode haver contradições nem paradoxos, mas, como dizia São Tomás de Aquino, todos os problemas da vida moral advêm de que as regras são gerais e universais, e as situações são sempre individuais e particulares. Ou seja, não há nenhuma situação moral que se enquadre perfeitamente dentro de um código. As situações reais não são exemplos particulares de casos que estão no código. Isso você observa, por exemplo, no próprio sistema legal. Você tem lá um código penal, um código de direito penal, um código processual penal, e assim por diante. Para que uma determinada conduta humana seja punível pelo código, ela precisa ter um negócio chamado tipicidade. Ora, os tribunais se contentam com atipicidade relativa, ou seja, se a sua conduta se perece com aquela que está prevista no código, isto é suficiente para que você seja punido. Não é preciso jamais descer às últimas consequências, não é preciso conhecer profundamente os componentes morais do ato e as intenções mais secretas do indivíduo; basta arranhar um pouco a superfície, de modo a que se você alegar, por exemplo, intenções do suspeito, aquilo coincida esquematicamente com as noções da culpa e do dolo, e isso é suficiente para saber se você condena ou absolve o infeliz. Mas na vida moral as coisas não são assim. Isso quer dizer que o sistema judiciário coexiste tranquilamente com um coeficiente enorme de injustiças, que são criadas pela justiça aproximativa. Todo mundo sabe disso. Há uma tradição, de que dificilmente você encontra uma classe na qual tenha mais corruptos do que na classe dos advogados. Isso aí decorre da própria natureza do sistema jurídico, que é um sistema normativo que funciona por aproximação, e que se contenta com a tipicidade relativa. Isso quer dizer que o indivíduo que é condenado pela justiça, ele não precisa necessariamente se sentir culpado; ele pode ser condenado pela justiça e ele moralmente saber que é inocente, embora judicialmente esteja culpado. [00:30] Mas na vida moral não é assim, porque nós não podemos ter ações relativas. Na vida moral, ou você faz, ou você não faz. Você pode ser relativista nas suas idéias. Por exemplo, se você quer transar com a mulher do vizinho, ou você faz isso, ou você não faz. Não tem um meio termo. Então, isso quer dizer que a vida moral exige uma distinção mais fina do que o sistema jurídico exige. E quando chegamos nesse nível de distinção mais fina, nós vemos que, para cada regra, existe um número ilimitado de exceções, e de casos aproximativos, e nós ficamos numa confusão miserável. Um dos motivos disso é o fato de que, pelo menos na sociedade moderna, você não pertence a um esquema cultural simples, como numa tribo de índios, mas você está dentro de uma rede complexa de diferentes padrões culturais que exigem de você respostas diferentes. Todos nós participamos da família, participamos de uma igreja, participamos de um clube, participamos de um partido político, de um grupo de amigos, de uma empresa, etc., e cada uma dessas entidades tem certo tipo de cobrança, de exigência moral em cima de você, e essas exigências são antagônicas. Por exemplo, a família tem uma cobrança de que você faça isso, faça aquilo, esteja presente, e etc., mas você pode ter deveres de outra ordem, cultural, religiosa, que são antagônicos com isso. Então esses antagonismos, esses paradoxos da vida moral é a abertura, é a compreensão, é a consciência disto que constitui aquilo que o Lionel Trilling chama a “imaginação moral”. E com toda a evidência, a literatura universal, toda ela, sem exceção, se constitui precisamente de um conjunto de exemplos de situações morais. Se não há drama moral, se não há ambiguidade moral, se não há paradoxo moral, não há por que escrever um romance, um conto, ou uma peça de teatro. Não há nenhum enredo possível que não seja constituído de alguma ambiguidade moral. A “imaginação moral” ele define como a consciência das contradições, paradoxos e perigos de viver a vida moral. A gente poderia dar uma infinidade de exemplos, mas eu vou dar um de paradoxo que a mim me parece insolúvel. Eu até mencionei vagamente isso no programa True Outspeak, e estou escrevendo alguma coisa a respeito, mas está complicado, está difícil de terminar. Eu estive observando uma coleção grande de sites, de movimentos, de publicações evangélicas e católicas que fazem oposição ao movimento gay, e vi que todas elas tinham um pressuposto que tomavam como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: que existe uma invasão gayzista na cultura que representa então um incentivo ao homossexualismo, que induz as pessoas ao homossexualismo. Eu pensei: todo mundo acha isso; eu também achava até a véspera. Se existe uma cultura gayzista, então as pessoas estão sendo convidadas a se tornar homossexuais, ou caso sejam homossexuais, são convidadas a permanecer nisso mesmo que não queiram. Eu li primeiro o livro do Randy Engel, que se chama The Rite of Sodomy, O Rito da Sodomia. É um livro de mil páginas, uma pesquisa imensa, feita por um sujeito que é um anti-gayzista total, mas muito criterioso, muito honesto. Eu vi o seguinte: não existe nenhuma cultura humana no qual o fenômeno homossexual não esteja presente. Mas nenhuma, absolutamente nenhuma. Essa foi a primeira coisa que eu observei. Este fato, este mero fato, já induz à pergunta: mas se o mesmo fenômeno está presente em todas as culturas, então como ele pode ter uma causa cultural? Segundo: vamos ver se existe mais incidência de casos de homossexualidade nas culturas que são favoráveis, ou que são neutras. A resposta é não. Alguns dos períodos onde houve uma cultura mais hostil ao homossexualismo, como, por exemplo, na Itália da Renascença, onde o homossexualismo era crime e dava pena de morte, a despeito disso, foi um dos períodos em que o homossexualismo mais floresceu na história. Por outro lado você vê que em Esparta o homossexualismo era aceito como uma coisa normal, porém, era considerado normal numa certa idade. Era comum que o sujeito fosse homossexual até uns quinze, dezesseis anos, e depois quando ele se tornava um guerreiro, ele casava com uma mulher e levava uma vida heterossexual normal, ele simplesmente esquecia aquilo. A mesma coisa acontece em tribos de índio no Brasil, onde aquele negócio é brincadeira de criança. Então isso aí está muito mal explicado. Você ter a cultura mais gayzista do mundo não tem absolutamente nada a ver com a conduta homossexual ou heterossexual dos indivíduos concretos. O sujeito pode ser o maior gayzista da paróquia, e não ter nenhum impulso homossexual. Aqui nos Estados Unidos está cheio de heterossexuais irredutíveis que são defensores da cultura gay. Assim como você tem o fenômeno oposto. Você veja que dois dos maiores, mais importantes escritores católicos do Brasil, que foram o Lúcio Cardoso e Otávio de Faria, eram ambos homossexuais. E foram durante muito tempo. Claro que com conflito, etc. Ou seja, o sujeito está imbuído de uma cultura católica, que é totalmente contrária àquilo, e, não obstante, ele continua tendo aquele impulso e atendendo ao impulso. Então eu falei: é evidente que não é a cultura que faz isso. Daí perguntei eu: alguém sabe a causa do homossexualismo? Eu comecei a ver as teorias, e cheguei a uma conclusão: ninguém sabe, ninguém tem a menor idéia. Tem tantas teorias, mas tantas e tantas, e são tão contraditórias entre si, e nunca nenhuma foi provada. Então o fato é o seguinte: nós realmente não sabemos. Não adianta dizer que foi a mamãe dominadora, foi o pai repressivo, foi a genética, ou foi a influência dos astros. Ninguém sabe. Mas se você não sabe qual é a causa de uma coisa, como você quer erradicá-la na base de uma suposta causa cultural? Não faz o menor sentido. Ao contrário. Se você move uma oposição muito forte à cultura gayzista, você fortalece o esprit de corps, a corporação, o senso de corporação. E o senso de corporação, por sua vez, cria mais cultura gayzista. Isto é uma situação de uma ambiguidade terrível. O sujeito pode ser cem por cento contrário ao homossexualismo e continuar homossexual, e outro pode ser heterossexual e cem por cento a favor do homossexualismo. Meu filho, isso aí é um saco de gato, é uma confusão. Ora, eu examino essas situações assim com uma relativa facilidade. Para eu equacionar um problema desses não preciso de muito tempo. Eu pego um tema desses e dedico um mês a ele, no fim de um mês eu já entendi do que se trata. Mas por que eu faço isso? É a longa experiência literária. Ou seja, eu tenho uma certa facilidade de imaginar enredos humanos, de imaginar situações humanas, de imaginar, portanto, esses paradoxos. [00:40] Em primeiro lugar, a longa frequentação da literatura de ficção criou na minha mente uma certa elasticidade para admitir uma variedade sem fim de situações humanas que a gente percebe, mas que realmente a gente não compreende; quer dizer, você compreende imaginativamente, você capta imaginativamente, mas da qual você não tem um domínio intelectual. Ou seja, você não tem uma explicação causal, você não tem uma teoria científica – ou não tem nenhuma teoria científica ou tem cento e cinquenta, o que é a mesma coisa que não ter nenhuma. Então, abrir-se a essa variedade das situações humanas é justamente o que você aprende na literatura. Quer dizer que se as pessoas não têm uma prática de ler enredos e mais enredos, ela não consegue imaginar muitas situações humanas diferentes, além daquelas que ela conhece do seu círculo imediato, então ela vai julgar coisas que ela não entende. “Himmelfarb observa que, ao longo das obras de Trilling, algumas das palavras mais freqüentes são ‘variedade’, ‘possibilidade’, ‘complexidade’, ‘dificuldade’, ‘sutileza’, ‘ambigüidade’, ‘contingência’, ‘paradoxo’ e ‘ironia’.” Ou seja, tudo aquilo que está mais distante da clareza e da limpidez de um código moral. “São os termos que traduzem a própria substância da vida moral, não como aparece no esquematismo abstrato dos códigos e regras, mas na realidade da existência concreta, que não é acessível à compreensão intelectual antes de ser elaborada em símbolos pela imaginação literária.” Aristóteles já explicava por que é assim. O conhecimento começa pelos sentidos: você pega as formas sensíveis que se apresentam, dessas formas sensíveis você guarda algumas na sua memória (que para ele é a mesma coisa que imaginação), e é em cima dessas formas que se conservam na memória, já num certo nível de abstração, é que a inteligência pode operar, e daí puxar um conceito abstrato. Então, se não passa pela imaginação, não chega à inteligência. E, portanto, se a imaginação é estreita, a inteligência também vai ser estreita. Isso não quer dizer que ela não vai ter lógica, porque a lógica é natural no ser humano. Todo ser humano, instintivamente, raciocina com lógica; nem sempre com acerto, mas “pensar” e “pensar logicamente” são exatamente a mesma coisa. Então você tenta aplicar os padrões da lógica a uma experiência humana que é limitada, e que não foi ampliada pelo exercício da imaginação moral. Resultado: você vai provavelmente escapar da realidade, via cometer injustiça etc. “Os humanistas do quattrocento e do cinquecento, e antes deles os pedagogos das escolas monacais dos séculos XI e XII, já haviam compreendido isso com muita clareza. Era na leitura dos clássicos que eles adquiriam o senso da compreensão, da benevolência, da misericórdia e da delicadeza de sentimentos – as virtudes propriamente humanas que os preparavam para a piedade e a caridade cristãs.” Eles entendiam que havia certo patamar de perfeição interior humana sem a qual as virtudes cristãs não teriam onde germinar, ou germinariam no vazio, ou, pior ainda, elas seriam absorvidas como exigências de um código moral que não encaixa direito na forma da alma do indivíduo. Então, naturalmente, ao invés de isto cristianizar o indivíduo, isto iria apenas dividi-lo mais ainda. A alma dele vai para um lado, e as suas obrigações vão para o outro. E daí vai nascer o permanente fracasso na vida moral, e vai levar o sujeito, no fim das contas, ao desespero, que é o pior dos pecados, que é quando você desiste da salvação da alma. “Foi com base em considerações dessa ordem que Lionel Trilling escreveu seu célebre estudo da ideologia americana dominante, The Liberal Imagination (1950). A palavra “liberal”, nos EUA, não tem nada a ver com o liberalismo econômico clássico que ela evoca espontaneamente no Brasil. Designa, bem ao contrário, o progressismo esquerdista que favorece os programas sociais, os impostos altos e o intervencionismo estatal, não raro o comunismo puro e simples. O progressismo, observava Trilling, era de fato a única tradição intelectual dos EUA. Entre o povo havia sentimentos conservadores, mas não, entre os intelectuais, uma história contínua de idéias conservadoras em debate. Daí a importância de examinar o fundo de símbolos e emoções por baixo das idéias esquerdistas em evidência. E a primeira coisa que o crítico aí notava era a rigidez esquemática das reações morais, a falta daquela abertura para a variedade e ambigüidade das situações humanas, que tão nitidamente transparecia entre os conservadores como Samuel Johnson, Edmund Burke, Samuel Taylor Coleridge, Mathew Arnold – ou, acrescento eu, Balzac, Dostoievski, Leonid Andreiev, Manzoni, Papini, Henry James, Conrad, Mauriac, Bernanos, Soljenítsin, V. S. Naipaul, Eugenio Corti. “Se o progressismo tem uma fraqueza desesperadora, é uma imaginação moral inadequada.” Inadequada porque simplista e irrealista. “O progressista pensa que o bom é bom e o mau é mau: ante a idéia de bom-e-mau, sua imaginação falha.” Ou seja, na cabeça do progressista, não é possível descrever uma pessoa que seja boa e má ao mesmo tempo. Ou tem de ser boa, ou tem de ser má. A diferença aparece com ênfase máxima na maneira como os romancistas traçam os personagens de seus virtuais antagonistas políticos. Os romances escritos pelos conservadores pululam de revolucionários, comunistas, anarquistas, terroristas e assassinos políticos retratados com toda a complexidade moral da sua vida interior e das situações que atravessam. Nos romances “de esquerda”, o adversário político quase sempre aparece sob forma caricatural, desumanizada ou monstruosa, sem qualquer atenuante, sem qualquer ambigüidade, sem qualquer concessão relativista ou mera simpatia humana. Leiam Gorki, Barbusse, Brecht, Hemingway, John Steinbeck, Ilya Ehrenburg, Theodore Dreiser, Lillian Helman, Howard Fast, e entenderão do que estou falando. É quase impossível conceber, na obra desses e outros romancistas de idêntica filiação ideológica – pelo menos enquanto permanecem sob a influência direta do movimento esquerdista – um personagem conservador ou de direita que tenha alguma virtude humana, alguma qualidade moral, alguma razão aceitável para ser como é e pensar como pensa. Há exceções, é claro, mas, em linhas gerais, a “imaginação moral”, ou mesmo a simples compreensão humana, parece ser monopólio da literatura conservadora. Não deixa de ser significativo que o próprio Georg Lukacs, o príncipe dos críticos marxistas, procurando na literatura de ficção exemplos de realismo objetivo à altura dos mais altos cânones do marxismo, os encontrasse antes nas obras de Balzac e Dostoievski – ou do apolítico Thomas Mann – do que entre os escritos de qualquer autor comunista. A explicação de fenômeno tão uniforme e constante não me parece difícil de encontrar. O esquerdismo é quase que invariavelmente uma tomada de posição militante, que, se não leva necessariamente o escritor a filiar-se a um partido, ao menos faz dele um “companheiro de viagem” cujo círculo de convivência é preferentemente escolhido (por ele ou pelo próprio círculo) entre correligionários ideológicos. O próprio Partido Comunista sempre se encarregou de fazer com que fosse assim: ao menor sinal de que um escritor ou artista tinha simpatias de esquerda, agentes comunistas tratavam de assediá-lo, infiltrando-se em todos os meios que o infeliz freqüentava e fazendo o que podiam para tirar o máximo proveito político de suas palavras e induzi-lo a atitudes cada vez mais militantes, tanto na vida quanto na obra (leiam Stephen Koch, Double Lives: Spies and Writers in the Secret Soviet War of Ideas Against the West, 1994). Já o conservadorismo é na quase totalidade dos casos uma pura preferência pessoal, desacompanhada de qualquer empenho de combatividade militante e livre de envolvimento direto ou indireto em organizações políticas de qualquer espécie.[00:50] É normal que, ao desenhar o perfil de seus possíveis antagonistas políticos, o romancista conservador se atenha antes às exigências do realismo psicológico e da “imaginação moral” que às de qualquer intuito pedagógico-partidário de “transformar o mundo”. É uma coisa característica dos escritores conservadores, que muitos são conservadores justamente por ter uma certa ojeriza do curso que as coisas na política vão tomando, então os camaradas se retiram da política, se retiram da vida ativa, e desde um isolamento voluntário, fazem a crítica do que está acontecendo. Ou seja, são apenas indivíduos que estão dando a sua opinião, dando o seu testemunho, não são lideres, não são pedagogos, não estão tentando convencer ninguém de nada. Se você quer alguns exemplos desse isolamento político majestoso, você tem o historiador suíço Jacob Burckhardt, que é um luminar do pensamento conservador no fim do século XIX, e que o era justamente porque não conseguia participar de nada, ele estava achando tudo muito ruim. Outro exemplo é o próprio Goethe. Sempre foi um conservador - no começo da juventude chegou a ser quase revolucionário, mas por pouco tempo. Depois se fecha numa espécie de isolamento olímpico onde ele julga o mundo de cima e sem ter nenhum intuito de liderança, ou de orientar as pessoas politicamente. Na América Latina, você tem o exemplo do Nicolás Gómez Dávila, um escritor colombiano maravilhoso - do qual aliás ontem o Sílvio me mandou uma frase maravilhosa: “o reacionário é um sujeito no qual nunca ninguém quer prestar atenção, nunca ninguém tem interesse de ouvir. No momento que ele escreve não querem ouvi-lo por que acham que é absurdo. E depois de alguns anos não querem mais ouvir por que acham que é óbvio”. Isso aí é o retrato deste que vos fala. Isso é o que acontece comigo o tempo todo. Eu escrevo um negócio, todo mundo acha absurdo, ruim, e passa alguns anos, todo mundo está falando daquilo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, e, naturalmente, não houve nenhum mérito em que eu o dissesse com dez ou vinte anos de antecedência, porque é coisa que todo mundo sabe. “Consolidada na literatura há quase dois séculos, a diferença entre as imaginações morais respectivas da direita e da esquerda acabou se transmutando em automatismo verbal e se espalhando pelos debates públicos, pela mídia, pela linguagem cotidiana. Comprovando uma vez mais a regra de Hugo Von Hofmannsthal de que nada está na política sem ter passado primeiro pela literatura, o modo como os romancistas das duas alas concebem seus personagens politicamente antagônicos tornou-se o modo como a direita e a esquerda se imaginam uma à outra (é claro que me refiro à direita e à esquerda “normais”, institucionais, e não a extremismos loucos, que têm de ser analisados sob outra perspectiva). Quase que invariavelmente, o conservador, ou o “liberal” no sentido brasileiro do termo, concebe o esquerdista como uma alma carregada de boas intenções, inspirada em nobres propósitos, tão-somente um pouco imatura, iludida por uma falsa visão do mundo real e condenada, por isso, a cometer erros colossais. Já o esquerdista raramente fala do seu adversário sem lhe atribuir motivações perversas, sem explicar suas idéias como ferramentas a serviço de tramóias obscuras, desejos egoístas e “interesses inconfessáveis”. Até mesmo eu já fui acusado de ter interesses inconfessáveis. Eu até gostaria de ter, porque se eu tivesse um interesse inconfessável, eu ia ganhar alguma coisa com isso. “Na mais generosa das hipóteses, faz abstração da sua diferença individual, reduzindo a “interesses de classe” tudo o que ele diz ou faz. A esse fenômeno, tão regular e constante, soma-se um outro, dele derivado e ainda mais acessível à comprovação estatística: os representantes da esquerda legítima, “respeitável”, permitem-se falar de seus adversários numa linguagem de virulência tal que, na direita, somente a minoria de extremistas desequilibrados ousaria usar contra a esquerda. É a “querra assimétrica” verbal, que precede a guerra assimétrica stricto sensu. A vultosa amostragem colhida por Cliff Kincaid em www.aim.org/wls/ e por Fred Gielow em I Can’t Believe You Said That. Hundreds of Liberals Speak Their Minds (Washington D.C., Accuracy in Media, 2008) é mais que suficiente para ilustrar, se não para provar o que estou dizendo.” Ali tem uma amostragem de frases ditas por pessoas muito importantes da esquerda, tipo Hillary Clinton, ou Ted Kennedy, e coisa de uma violência tão grande, que quem quer que dissesse aquilo contra a esquerda desde a direita seria considerado maluco. Por exemplo, o número de pessoas que disseram que alguém precisa dar um tiro na Sarah Palin; milhares de pessoas sugerem isso como se fosse uma coisa banal. Agora, um político de direita jamais diria uma coisa dessas. Você pode parecer um esquisitão, um cara que está fora, que não é militante de coisa nenhuma, tipo Clint Eastwood, [que se alguém perguntar]: “Se o Michael Moore parar você para fazer aquelas perguntas no meio da rua, o que você faz?” “Dou um tiro nele”. Ele não sugeriu que desse um tiro. [Ele disse que se o Michael Moore vier amolar daria um tiro nele]. Mas o Clint Eastwood não participa de coisa nenhuma, é o tipo do conservador esquisitão isolado. Mas eu imagino um deputado, um senador da direita dizendo uma coisa dessa, e é absolutamente impensável. “Na literatura como na política, a tendência da direita é para humanizar a imagem do adversário, para torná-lo compreensível em termos de motivações racionais aceitáveis, enquanto na esquerda prevalece o impulso de reduzir a individualidade concreta do direitista a algum esquematismo sociológico despersonalizante, quase sempre repulsivo e odioso.” No Brasil é uma coisa característica que entre os cientistas sociais, o preferido da esquerda é Karl Marx, e entre os direitistas é Max Weber. Então, o que faz cada um desses? Toda a sociologia de Marx a redução da conduta individual a estereótipos de classe; um é proletário, outro é burguês, etc., e Max weber é o contrário, é o que eles chamam a sociologia compreensiva: é o método que vai sondar as intenções do agente. É saber o que o sujeito está querendo com a s ações que ele praticou. Ou seja, você tem de entender o indivíduo nos seus próprios termos, seja um agente individual, seja o coletivo. Então isso aí já mostra todo um universo de diferença. Uma coisa é você explicar o indivíduo por um grupo, ou por uma classe social a que ele pertence, fazendo abstração da diferença individual. O outro caso é exatamente você tentar construir aos poucos acima das realizações sociológicas a partir da compreensão das intenção de inumeráveis agentes. “Essa diferença de imaginação e de linguagem basta para explicar por que a esquerda, embora seja a recordista número um de crimes contra a humanidade, continua se concebendo como a detentora do monopólio das virtudes mais excelsas. Ela pensa assim não porque tenha algum dia feito algum bem capaz de compensar o genocídio soviético, chinês e cambojano, mas precisamente porque é, das duas facções majoritárias em que se divide a arena política do mundo, a mais insensível, a mais brutal e desumana, a menos capaz de estender ao adversário um olhar de simpatia, compreensão e piedade. Na ausência desse olhar, toda comparação é impossível e o senso do bem e do mal se enrijece num muro intransponível entre “nós” e “eles”,(...)” Ou como diria Karl Schmidt, amigos e inimigos. Karl Schmidt até definia assim a política. Ele dizia que a política é a atividade que começa quando, sendo impossível arbitrar racionalmente as diferenças, só resta agrupar aqueles que estão a nosso favor, e aqueles que estão contra e partir para a guerra. Então quer dizer que a politização de todas as situações e atividades humanas é exatamente um empreendimento característico da esquerda. Quer dizer, ele não quer saber se você tem razão, ele quer saber se você é amigo ou inimigo. A possibilidade de que você tenha alguma razão não negada; é simplesmente irrelevante, não interessa. “(...) onde a diferença já não é de escala, mas quase que de constituição ontológica, separando os seres em duas espécies estanques, tal como no título do romance comunista de Elio Vittorini: Uomini e No.” “Homens e Não”. [1:00] Ele nem diz o que são. É um Não. Aqui tem os homens e do outro lado tem um não. “Não espanta que, nessas condições, a absoluta indiferença ou cumplicidade cínica ante o genocídio de centenas de milhões de pessoas coexista pacificamente, na alma esquerdista, com as mais lacrimosas efusões de coitadice quando um terrorista é preso, condenado ou submetido a maus tratos. A esquerda se acha a melhor justamente porque é a pior. A mais humana, porque é a mais inumana. A direita, por sua vez, ajuda solicitamente na manutenção do engodo, na medida em que sua natural ojeriza a deformar a imagem do adversário mediante estereótipos pejorativos acaba se pervertendo numa compulsão de lisonjeá-lo a todo preço e até numa recusa obstinada de enxergar as motivações dele com um mínimo indispensável de realismo. Ambas se enganam a si mesmas, uma a favor dela própria, a outra contra ela própria. Também não espanta que, mantendo o adversário sob um bombardeio constante de imprecações, ofensas, falsas acusações e apelos sumários ao seu assassinato, a esquerda busque nas mais neutras e inócuas declarações dele um sinal de “hate speech”, de racismo, de homofobia ou de qualquer outra aparência de delito que lhe permita expô-lo à execração pública como um monstro asqueroso e, se possível, privá-lo de sua liberdade e de seus meios de subsistência (mesmo os mais modestos, como era o caso do Julio Severo). Nas universidades americanas, onde a todo momento se ouvem apelos ostensivos ao assassinato de conservadores, basta um destes ou mesmo um professor apolítico insinuar educadamente que talvez os papéis sociais de homens e mulheres sejam distinções naturais em vez de construções culturais arbitrárias, e pronto: o infeliz está sujeito não somente à acusação de racismo e nazismo, mas, por incrível que pareça, a um processo por “assédio sexual”. Não pensem que é exagero meu ou generalização retórica de casos excepcionais. Os processos dessa natureza se disseminaram de tal maneira que a National Association of Scholars, importante entidade de estudiosos conservadores, está espalhando um apelo dramático a todos os reitores de universidades para que coíbam esse uso abusivo das leis de proteção à mulher. Abusivo, é claro, no entender dos conservadores: para o esquerdista – e não me refiro só à extrema-esquerda -- é tão natural farejar crime de assédio sexual numa mera hipótese sociológica exposta em sala de aula quanto enxergar uma ameaça iminente de genocídio homofóbico na simples atitude profissional de um psicólogo clínico que tente ajudar a libertar da compulsão homossexual um paciente que lhe peça, que lhe implore para fazer exatamente isso. Novamente, não estou criando hipóteses no ar: o caso da psicóloga Rozangela Justino é (ou deveria ser) bem conhecido no Brasil. Duzentos anos de deformação pejorativa da imagem do “inimigo” desembocam na perseguição tirânica exercida em nome da proteção contra perigos não só inexistentes como até mesmo impensáveis. Embora o extermínio preventivo de adversários hipotéticos tenha sido a prática mais constante da esquerda nas nações sob o seu domínio, é curiosamente a direita que tem a fama de “paranóia”, de enxergar comunistas embaixo da cama. Paradoxo, sim, mas efeito patente da retórica invertida que mencionei acima.” Então aqui nós temos critério, baseados na sugestão do Lionel Trilling para você descrever uma sociedade a partir do fundo imaginário que é fornecido pela literatura. A literatura funciona de duas maneiras: primeiro ela é um instrumento pedagógico para a ampliação e enriquecimento da sua própria imaginação, de maneira que você possa conceber e compreender, senão intelectualmente, ao menos afetivamente, uma quantidade grande de situações humanas que você jamais viveria pessoalmente. Por outro lado ela funciona também como documento da própria sociedade, como eu mesmo já usei aqui nos dois sentidos. Por um lado eu me eduquei a mim mesmo na base da imaginação moral, e por outro lado, eu estou usando, neste mesmo texto que eu acabo de ler para vocês a literatura como um documento a respeito do critério de imaginação moral que está colocado no fundo das atitudes políticas. Isso que dizer que muitas atitudes políticas emergem quase que diretamente de certos sentimentos básicos que depois podem se recobrir de uma argumentação pseudo racional, de uma racionalização ideológica. Mas quando você identifica qual é o sentimento que está no fundo, aí é que você compreende qual é o verdadeiro sentido daquele discurso ideológico. No caso brasileiro, todos nós aqui, eu sugiro mesmo, insisto que vocês treinem as suas imaginações lendo o máximo que puderem da grade literatura universal - às vezes da pequena também; tem livros ruins que também ajudam nisso. Mas por outro lado nós temos um problema: não há documentação literária dos últimos quarenta anos de vida no Brasil. Não há literatura. Ou seja, o que ainda se publica no Brasil reflete a cosmovisão de um grupo pequeniníssimo de pessoas que acredita ter sofrido durante a ditadura, e que acredita piamente que as gerações vindouras, pelos séculos dos séculos, devem ter como centro da vida emocional aqueles sofrimentos que eles passaram entre os anos sessenta e oitenta, e isso é o tema único. O que há por baixo de todas as novelas da Globo, de todos os filme que fazem? É sempre isso. Quando, por exemplo, eles fizeram o filme Tropa de Elite, aquilo era uma exceção, porque era algo que refletia o que estava realmente acontecendo. Então, a sensibilidade do artista transcende o seu quadro ideológico e mostra o drama da realidade tal como ele efetivamente acontece. Mas tão logo feito isso, o que aconteceu? Protestos gerais. “Ah, você não pode fazer isso, agora você tem de fazer outro filme que conserte isso, por que esse filme está muito direitista”. Ou seja, qual é o critério? O critério não é para saber se ele me mostrou as coisas como elas realmente são. O critério é saber: isso está a nosso favor, ou está contra? O Paulo Francis contava que o cartunista, o Jaguar, ele dizia o Jaguar é um gênio idiota. O jaguar não tem a menor percepção política das coisas. Então às vezes ele fazia umas charges, as charges eram engraçadíssimas, mas aí o Paulo Francis, o Ziraldo, viam a charge e diziam: “ Ô Jaguar, isso aqui é contra nós!”. Daí o jaguar tinha de modificar o negócio. Eu lembro de uma charge dele, engraçadíssima, duas pessoas saindo do cinema e dizendo assim: o filme é uma merda, mas o diretor é um gênio. Então com está charge ele esculhambou com todo com cinema nacional, que era feito na base do culto de gênios que nunca conseguiam fazer nenhum filme que prestasse. É evidente que um artista de verdade, um narrador, um cineasta, um dramaturgo, coisa qualquer, ele não tem como se deixar levar pelos seus quadro de preferência ideológica, é impossível fazer isso, é impossível fazer isso porque ele não está trabalhando com idéias e argumentos, ele está trabalhando com imagens concretas, e se há uma pequena interferência do elemento ideológico na imagem concreta, acaba havendo então um outro critério seletivo que já não é o do discurso poético, mas é do discurso retórico, e, evidentemente, isso aí trava e enfraquece o impacto das próprias imagens. Por exemplo, nós continuamos assistindo peças de Anton Tchekhov com um interesse enorme, enorme, ou peças de Shakespeare, mas se nós vemos uma peça de Bertolt Brecht hoje em dia, você sente que aquilo tudo é muito artificial; ele está fazendo um discurso comunista — um discurso até interessante —, mas não tem verdadeira significação artística. E, por exemplo, os filmes do Serguei Eisenstein: eles funcionam se você fizer abstração [1:10] de toda a mensagem política que ele quis botar no filme. Então isso às vezes é possível, às vezes não é. Por exemplo, quando ele fez Alexandre Nevski um belíssimo filme, que é uma guerra patriótica dos russos contra os invasores, os cavaleiros teutônicos, é um episódio da história russa. Só que ele fez aquilo com a idéia de motivar os russos na segunda guerra mundial. Bom, nós quando estamos assistindo hoje não estamos vendo Segunda Guerra Mundial nenhuma. Nós estamos vendo somente aquele combate dos russos contra os cavaleiros teutônicos, e daí o filme funciona, porque a alusão política era externa ao filme. Quer dizer, dentro do filme não precisava ter nenhum elemento político, bastava contar a história e ela, naquele contexto social, histórico, automaticamente sugeria a patriotada do Stálin. Claro que você apresentar o Hitler como se fosse o malvado cavaleiro teutônico, e o Stálin como se fosse o heroico e bondoso Alexandre Nevski, é completamente falso, historicamente. Na verdade eram dois ogros, vampiros, em luta um contra o outro, isso seria a realidade histórica da situação. Então muita gente na Rússia viveu esse paradoxo: por um lado o sujeito era uma patriota, queria botar os alemães para fora, mas por outro lado sabia que a Rússia estava sendo governada por um cara tão ruim quanto o próprio Hitler. Então você era obrigado a ajudar a política Stalinista, não porque você concordasse com ela, mas pelo seu patriotismo. Olha aí um exemplo de drama moral, onde você tem dois códigos morais simultâneos que estão lhe exigindo coisas contrárias. Então como a arte da narrativa simplesmente desapareceu nos últimos quarenta anos nós não temos documento. Isso quer dizer que foram quarenta anos de vida nacional dos quais nenhuma imagem significativa, nenhum símbolo condensador existe. Então se nós nos perguntarmos: o que se passou nesses quarenta anos? Onde está a memória afetiva? O que as pessoas realmente viveram? Bom, existem pessoas que estão com a minha idade e que observaram uma série de mudanças e transições, e algumas delas com a preocupação específica da memória histórica. Quer dizer, “eu não quero esquecer essas coisas por que eu gosto de passá-las para as gerações seguintes”. Mas o que sobrou como documento histórico são somente, ou obras realísticas, ou obras históricas propriamente ditas, baseada numa interpretação predeterminada dos acontecimentos. Resultado: de uma geração para a outra você perde você perde completamente o fio da meada. Tem uma pergunta aqui sobre os livros do Paulo Francis. Bom, os livros dele queriam fazer isso. Queriam documentar a vida interior do brasileiro num certo período. Primeiro: perspectiva do Francis estava limitada a um grupo carioca, então seria a história do que eles chamavam a patota. A patota era ele, o jaguar, o Ziraldo, etc. Então é a vida deles. Assim como no livro do Fausto Wolff, A Mão Esquerda. A Mão Esquerda é a história de um grupinho muito pequeno, que se imaginava enormemente significativa; aquela turma que fez O Pasquim, eles se imaginavam a quintessência da cultura nacional, mas não eram absolutamente. Eram um grupo pequeno, local, provinciano, com interesses muitíssimo limitados, e que a história passou em cima dele como um trator. Não sobrou nada daquilo. Se você tenta ler o pasquim hoje, aquela linguagem já lhe parece artificial; a linguagem que na época(esse foi o grande mérito d’O Pasquim) acompanhava a fala cotidiana do carioca. Mas do carioca dos anos sessenta e setenta, mas nós não somos cariocas dos anos sessenta e setenta. Nós nem somos cariocas e nem estamos naquele período histórico. Então aquela linguagem já se tornou muito esquisita, por que era linguagem constituída toda de gírias que foram abandonadas, e que vieram outras, sobretudo com o advento da internet, então houve uma enxurrada de novas gírias de origem internacional, e aquela linguagem d’O Pasquim, então, virou uma antiguidade. O sinal mais característico disso foi quando o mesmo grupo de pessoas tentou reviver os feitos do tempo d’O Pasquim criando a revista Bundas, que era uma revista grotesca, fazia agente chorar. Eram meia dúzia de velhinhos tentando brincar que eles são ainda jovens criativos dos anos sessenta. Era uma coisa assim muito triste na verdade. Então, isso significa que as transformações da moral brasileira não foram documentadas, e quando elas não são documentadas você perde o senso de unidade histórica, e não tem mais sentido você falar de identidade nacional hoje. Não tem mais nenhuma. Se aquilo não está registrado na memória afetiva, ou seja, na literatura, nas artes, desapareceu, não há mais. Então o Brasil de hoje não é mais um país, é um lugar, e esse lugar tem uma unidade administrativa. Mas se você perguntar para as pessoas o que significa exatamente ser brasileiro, elas podem responder com dois ou três estereótipos que eles pegaram de anúncios de propagandas, ou do falatório do governo. E acontece que como a imaginação está deslocada da memória real dos acontecimentos, todo o julgamento que as pessoas fazem sobre a situação são deslocados. Aqui você tem uma situação, mas você não tem um símbolo, e quando você não tem um símbolo você usa um estereótipo, e o estereótipo naturalmente não se encaixa com aquilo. Para ilustrar isso: eu vou ler aqui um negócio que eu escrevi. Vocês não contem para ninguém, que isto é um artigo do diário do comércio, que se chama Glórias Acadêmicas Lulianas: O sr. Paulo Moreira Leite, que assumiu como missão na vida nunca entender nada, escreve que as reclamações contra a pletora de títulos universitários concedidos ao ex-presidente Luís Inácio da Silva, reflete um preconceito, um pedantismo acadêmico, e não se conforma em ver subir na vida um self made man, cuja pobreza o impediu de adquirir uma educação escolar. Anos atrás, movido, confesso, por maus instintos, dei ao sr. Moreira o apelido de sr. Moleira, por me parecer que a formação do seu aparato craniano tinha sido ainda mais incompleta que a educação do sr. Lula. Seu palpite de agora sugere que ela tenha mesmo retrocedido um pouco. Quem quer que conheça a história intelectual do nosso país, sabe que é uma constante da sociedade brasileira o ódio a inteligência, misto de temor e despeito, e acompanhado, à guisa de compensação neurótica, pelo culto devoto dos títulos, cargos e honrarias exteriores, que substituem a inteligência eficazmente em festividades acadêmicas e homenagens parlamentares. A mentalidade geral, já antiga e tão bem retratada por Lima Barreto, segue a das vizinhas fofoqueiras do major Policarpo Quaresma, que, ao ver pela janela a biblioteca daquele infausto patriota, comentavam: “Para que tanto livro se não é nem bacharel?” Um querido amigo meu, nascido e criado no morro da Rocinha, no Rio de Janeiro, confessava: “Sofri mais discriminação na favela por ler livros do que aqui na cidade por ser preto”. E todo mundo sabe que neste país, parra subir na carreira universitária, não é preciso conhecimento nenhum, apenas ter as amizades certas, e emitir nos momentos decisivos as opiniões políticas recomendáveis. Pessoas ilustres, como o Dr. Emir Sader, o ex-ministro educação Fernando Haddad, o ex-reitor da UNB Cristóvão Buarque, e inumeráveis outras, cujos pensamentos e obras exaltei em O Imbecil Coletivo já deram provas sobejas de que uma sólida incultura de uma inépcia pertinaz não são somente úteis, mas indispensáveis ao sucesso acadêmico, desde que acompanhadas de uma carteirinha do PT, ou documento equivalente. Se os títulos acadêmicos são tidos como valores absolutos em si mesmos, independentemente de quaisquer méritos intelectuais correspondentes, e se estes por sua vez nada valem se desacompanhados daqueles, a razão disso está nos profundos sentimentos democráticos do povo brasileiro. A inteligência e o talento são dons inatos ou divinos, que a natureza e Providência distribuem desigualmente entres os seres humanos, criando uma diferenciação hierárquica, que do ponto de vista dos mau-dotados é uma humilhação permanente, uma ofensa intolerável, e um mecanismo de exclusão verdadeiramente fascistas. [1:20] Os títulos acadêmicos foram inventados para aplanar essa diferença, dando aos incapazes e medíocres uma oportunidade de se sentir, ao menos em público e oficialmente, igualados aos maiores gênios criadores das artes, das letras, das ciências, da filosofia, senão mesmo aos santos da Igreja e aos anjos do céu, como é precisamente o caso do sr. Lula. Ao contrário do que diz o sr. Moleira, o que faltou a este último não foi a educação formal. Foi justamente a educação informal, aquela que um trabalhador, impedido de freqüentar a escola, adquire em casa, no ônibus, em trens, ou no metrô, lendo livros. O sr. Lula já expressou mais de uma vez a sua invencível ojeriza a esta atividade dolorosa, na qual tantos escritores brasileiros, pobres como ele, ou ainda mais pobres, adquiriram a única formação que jamais tiveram. A diferença entre eles e o sr. Lula reside precisamente aí. Eles conquistaram seus méritos intelectuais por seu próprio esforço solitário, sem a ajuda de professores, do Estado, ou de qualquer organização que fosse. Ao passo que o sr. Lula preferiu subir na vida sem precisar de méritos intelectuais, contando apenas, heroicamente, com a ajuda de algumas dezenas de organizações milionárias, empresas, bancos, sindicatos, partidos, e do dinheiro do mensalão. Isso não o torna nem um pouco diferente dos bacharéis e doutores, apenas mostra que ele levou a perfeição o sonho de todos eles: ostentar um punhado de títulos universitários sem precisar, para isso, ter estudado e aprendido absolutamente nada, exceto a arte sublime do alpinismo social. Quando bacharéis e doutores reclamam das glórias acadêmicas lulianas, não o fazem, como imagina o sr. Moleira, por elitismo intelectual genuíno, que ao menos supõe algum amor ao conhecimento. Fazem-no por pura inveja do concorrente desleal que conquistou mais títulos sabendo ainda menos, passando à margem da burocracia universitária, e confiando-se tão somente ao poder da propaganda política. Quem fala pela boca deles não é a inteligência humilhada pelo sucesso da ignorância; é o corporativismo do establishment acadêmico que gostaria de reservar para si o monopólio da produção de analfabetos diplomados, sem dividi-lo com a mídia e os partidos políticos. O sr. Moleira imagina que se opõe a essas criaturas, mas na verdade expressa melhor que ninguém os sentimentos delas todas ao proclamar que os títulos acadêmicos de Lula devem ser motivo de orgulho nacional. Que maior motivo de orgulho existe numa alma de brasileiro, senão o título enquanto tal o título em si, o título sem nada dentro? O sujeito está tentando analisar uma situação, um fato do presente, e usa para isso as categorias que ele tem. O que é uma categoria? Tem duas categorias: você tem a classe letrada, diplomada, e você tem o trabalhador que não pôde estudar e que teve de subir por seus próprios esforços. Ele usa essas categorias para explicar as coisas, mas acontece que as categorias estão totalmente deslocadas. Primeiro, porque a classe dos doutores e diplomados é tão ignorante quanto o Lula, não difere dele nesse aspecto. Segundo, por que ele não é um self made man; terceiro, ele não estudou, não é porque foi impedido pela pobreza de frequentar a escola, mas porque ele não quis. Não é que ele ficou privado da educação formal. Ele ficou privado de ler livros. Mas quem o impediu de ler livros? Ele mesmo, porque ele não gosta de fazer isso. Então este é um exemplo do estereótipo que não se aplica de maneira alguma a situação concreta. Praticamente tudo o que eu leio na mídia brasileira é assim. E o que é isto aí? É imaginação pobre. Como você não tem literatura, você não tem grande arte, nada, você só tem os estereótipos que são consagrados nas piadas, na fala popular, na propaganda, em alguns programas de televisão, é só isso que você tem. Esse é o seu imaginário. E você com este imaginário pobre, miserável, você tenta entender situações complexas de um país de cento e oitenta milhões de habitantes. Só pode dar nisso mesmo. Quer dizer, o que essas pessoas pensam e escrevem vai se tornando cada vez mais deslocado da realidade, cada vez mais ridículo, cada vez mais grotesco, e este próprio grotesco, por sua vez, não é documentado também na literatura. Então nós já estamos numa segunda fase do esquecimento. Primeiro: toda a transição que se deu no Brasil, desde o tempo da ditadura até agora, não foi efetivamente documentada. Se você quer saber, não se sabe nada do que aconteceu a respeito. Sabe-se somente aquilo que foi consagrado pela mídia como um estereótipo de auto glorificação esquerdista. Então, até eu mesmo já escrevi um outro artigo sobre isso dizendo que nas novelas de televisão, nos filmes, artigos, aparece sempre os jovens idealistas militantes, lutando contra os velhos generais etc. Espera aí, eles estão fazendo uma contraposição ideológica, estão superpondo uma contraposição de gerações. Mas se você pegar o pessoal da esquerda, e o pessoal do governo, as faixas etárias eram exatamente iguais, porque os comandantes das coisas eram todos velhos, homens de sessenta, setenta anos, e os militantes e os soldados, os cara que pegavam no pesado e iam dar tiro, era gente de dezoito, vinte e vinte e dois anos. Então essa diferença de geração não existia. Você não pode confundir um conflito ideológico com um conflito de gerações quando esse conflito de gerações não existe. Ou seja, quando as idades são as mesmas de parte a parte. E, no entanto, esse estereótipo se consagrou de tal maneira que se tornou uma coisa natural: Pensar nos guerrilheiros dos anos sessenta como jovens. Espera aí: o Carlos Marighella era jovem? O Toledo era jovem? O Jacob Gorender era jovem? Que história é essa? Quando eu conheci o Jacob Gorender ele estava com noventa anos, e já tinha passado então uns quinze anos. Então ele estava lá com setenta e cinco para oitenta. Então de parte a parte eram velhinhos do comando e os jovens pegando no pesado, como é em todas a s guerras do mundo. Então é um caso onde o estereótipo se sobrepõe a realidade e não deixa você ver. Uma outra coisa que desapareceu, mas desapareceu por completo, da visão histórica, é o seguinte: desses militantes brasileiros, muitos foram exilados para Cuba e outros já estavam em cuba. Ou seja, a história do Brasil, na época, é intimamente ligada à história de Cuba. Todos eles foram treinados em Cuba, seguiam orientação cubana, muitos moraram lá, trabalharam para o governo cubano, etc. Sem a história dessas pessoas não se pode compreender o que aconteceu no Brasil. E cadê a história? Houve um repórter espanhol chamado Luís Mir, que andou sondando um pouquinho dessas coisas, mas muito superficialmente. O estudo dele foi feito inteiramente no Brasil, sem nenhuma pesquisa feita em Cuba, e feita apenas na base do depoimento daquelas mesmas pessoas. Agora, pergunta: nós sabemos, por exemplo, que o seu Zé Dirceu trabalhou para o serviço secreto militar cubano. Quantos outros fizeram a mesma coisa? E a pergunta: havia milhares de brasileiros lá. Eles viviam do que? O governo os sustentava, os pôs num hotel de cinco estrelas, nunca exigiu nada deles? Nunca trabalharam, nem um dia? Trabalharam no que? Vender o charuto na esquina? Então, é evidente que todos eles faziam parte do aparato repressivo do governo cubano, é a coisa mais óbvia do mundo. Então pesa nas costas deles um número de crimes infinitamente maior do que a ditadura possa ter cometido aqui, que ela cometeu, sem dúvida. Mas esta parte da história foi esquecida, não existe, não tem documento, ninguém contou nada. Os que sabem não querem contar. E os que não sabem não querem saber. Então eles podem criar um negócio chamado até comissão da verdade, cuja principal finalidade é esconder metade da verdade, e fazer com que a outra brilhe sozinha, com todo o seu horror asqueroso. Então o quer é isso? Isso é comédia brasileira. Na medida em que a esquerda se tornou hegemônica, o auto engano dela se tornou o auto engano nacional. E se você tenta averiguar alguma coisa, automaticamente você é compreendido com se fosse um militante, direitista, querendo derrubar o sistema, ainda que você seja um cara completamente sozinho, e sem perspectiva de ação política nenhuma. Resultado: isso virou um tecido de enganos. E um estado de loucura geral. Dentro deste estado, que ação política é possível? Você vai fazer uma revolução no hospício? Se você não tem uma cultura, pelo menos uma cultura literária, que lhe permita imaginar as coisas de uma maneira que o ajude a se orientar na realidade, você não consegue ter idéias [1:30] ou elaboração intelectual, e se não tem elaboração intelectual, como é que você vai fazer planos de ação, meu Deus do céu? Então só existe uma coisa urgente a fazer no Brasil: quando eu digo restaurar a cultura brasileira significa, criar obras de arte, criar narrativas, criar obras de história, e se possível reconstruir a continuidade da história nacional desde dentro, sendo que esses quarenta anos são história inconsciente. Então você refazer essa história é como um psiquiatra refazer a história interior do seu paciente. Um paciente que desconhece a sua própria história, então você tem de analisar direto o inconsciente do cara, através dos indícios que a fala consciente dele, toda incoerente, picotada e fragmentária vai lhe dando. Então a história inconsciente do Brasil nos últimos quarenta anos. História inconsciente sem a qual você já não pode entender, por exemplo, o florescimento do banditismo, que é uma coisa totalmente posterior ao advento da nova república. Os níveis de banditismo durante o regime militar eram mínimos. A partir de oitenta e cinco, quando acabou o regime militar [o nível do banditismo aumentou muito]. Então, você vai de dois ou três mil homicídios por ano a cinquenta mil, mas muito rápido. Como é que isso aconteceu? Ninguém sabe contar a história disso. Em parte nós sabemos que houve a aliança entre os guerrilheiros, e o pessoal do comando vermelho, eles ensinaram umas técnicas... mas o que aconteceu depois? Qual é a rede de contatos que se estabeleceu com as Farc, com o Mir Chileno, etc., como é o treinamento dessas pessoas, da onde elas surgem, da onde vem o armamento? Ninguém sabe meu Deus do céu. Então quer dizer, estão vivendo no escuro. E se nós estamos vivendo no escuro, bom, toda ação consiste de dar tiro no escuro. Então significa o seguinte: esta geração a qual vocês pertencem não terá nenhuma ação política proveitosa. Desistam completamente, cem por cento. Claro que isso não nos exime de tomar atitudes morais quando existe alguma injustiça muito flagrante, como aconteceu com o Julio Severo. Então agente está lá e bota um protesto moral, mas sem nenhuma intenção de que aquilo tenha resultados políticos. É apenas o cumprimento de um dever moral, às vezes até um dever cristão. Mas somente nesses casos. Você pode fazer, e pode também documentar o que acontece, tentar elaborar intelectualmente, contar o que acontece, mas ação política é besteira. Se for possível uma mudança política no Brasil, se o Brasil tiver que ser uma democracia normal, isso não será em vinte ou trinta anos. Isso não vai acontecer. A tendência geral me parece que é de dissolver a unidade nacional dentro de um bloco latino americano comunista. Então daqui a pouco você falar de Brasil não significará mais nada. Parece que é isto que está acontecendo. Às vezes a formação desses blocos, como aconteceu na união europeia, esbarra num fundo cultural de identidade que eles não conseguem dissolver. Então talvez exista uma identidade nacional, quase inconsciente, que sobreviva a isso. Nós não sabemos se existe. Então é nisso aí que nós temos de trabalhar. Agora, quando eu digo que nós temos de criar uma cultura nacional não é só escrever belos livros. Você pode escrever um belíssimo livro sobre a filosofia de São Tomás de Aquino, sobre Aristóteles etc., de tal modo que a sua obra, o seu trabalho, se integre facilmente dentro do diálogo internacional, por exemplo, você apresenta aquilo num congresso, etc., mas é preciso fazer isso de tal modo que a raiz brasileira não se perca. É preciso reconstruir a árvore toda, desde a raiz que está mergulhada nessa confusão, nessas trevas, nessa doença brasileira, até a elaboração mais alta. Não é você partir para a elaboração mais alta como se nada tivesse acontecido antes, não, não. Tudo o que eu estou fazendo é um esforço para isso, eu estou aqui lendo descartes, ensinando filosofia, mas toda hora tem de voltar e ver a raiz disso, quer dizer, o que foi que me pôs na busca dessas verdades maiores da filosofia, etc.? É uma situação existencial que partiu do Brasil. E também eu não posso esquecer que eu estou falando para um público brasileiro, e que seria até um crime dizer para esquecer essa porcariada toda, e falar de filosofia, falar de São Tomás de Aquino. Daí você vira um Sidney Silveira, meu Deus do céu, que é o supra sumo da alienação. Nós não queremos ser caricaturas. Um certo arraigamento pessoal na condição social da qual você emergiu é absolutamente necessária para a autenticidade da sua vida. Transcrição: Fernando Chemello Opis – Instituto Olavo de Carvalho - IOC Revisão: Antonia Javiera Cabrera Muñoz