Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 106 04 de maio de 2011 Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Retomarei aqui o assunto da semana passada (vocês me perdoem por atrasar os comentários de texto mas, enquanto eu não me livrar do prof. Duguin, não conseguirei fazer outra coisa). O número de problemas levantados por esse debate com o prof. Alexandre Duguin é tão vasto, e de tal envergadura – tanto sob o aspecto filosófico quanto sob o aspecto das conseqüências políticas que a ação desse grupo eurasiano pode desencadear no mundo –, e, por outro lado, os estudos a respeito são tão deficientes (mesmo aqui nos EUA, o assunto é ao mesmo tempo tão importante e tão desconhecido), que eu não pude resistir à tentação de explicar e tornar aquilo o mais compreensível que eu pudesse. Evidentemente, isso dá um trabalho muito grande. A bibliografia eurasiana é enorme. Esse assunto vem sendo discutido desde o século XIX, e, como nós veremos daqui a pouco, essa doutrina passou por várias transformações, sua história é muito complexa. Também não se deve de maneira alguma imaginar que se trata apenas de uma doutrina, de uma teoria filosófica. Não; isso é uma estratégia que já está em ação há muitos anos, modificando o panorama do mundo sem que em geral as pessoas, mesmo os “analistas mais preparados”, tenham condições de compreender o que está se passando. Um exemplo: alguém me enviou aqui o link para um estudo feito pelo Woodrow Wilson Center, por uma senhora chamada Marlène Laruelle, com o título Alexandre Duguin: Uma Versão Russa da Direita Radical Européia? Ela tenta analisar o Alexandre Duguin e o eurasismo como um movimento de direita, o que é perfeitamente inexato. Se existe um fenômeno ao qual as categorias de direita e esquerda não podem se aplicar, é um movimento que pretende justamente unir as duas. A resposta que eu estava elaborando para o debate com o prof. Duguin (minha terceira mensagem) foi crescendo até alcançar sessenta e seis páginas de texto, mas mesmo isso não era suficiente para esclarecer o problema, porque ali eu estava ocupado apenas em responder aos argumentos que ele colocou dentro do debate, e não em fazer uma análise da doutrina e da atuação política dele. Então, paralelamente às respostas, comecei a elaborar um outro estudo que será colocado no meu website e no Seminário de Filosofia à medida que as partes vão ficando prontas. Nesse estudo eu coloco uma série de informações tão indispensáveis para a compreensão do assunto que, em vez de continuar lendo e comentando as respostas que redigi, vou ler agora a parte desse estudo que está pronta e que dá o quadro geral onde inclusive acontece o próprio debate. O estudo chama-se provisoriamente “Alexandre Duguin e a Guerra dos Continentes”. Eu vou ler e comentar aqui. 1 “Em matéria de teorias da conspiração, o prof. Alexandre Duguin é algo como uma autoridade. Não apenas escreveu um livro a respeito — abrangendo invasões de marcianos, templos subterrâneos e até uma casta de répteis governantes —, mas também se notabilizou, se não como inventor, ao menos como bem sucedido propagandista de uma delas, certamente a mais ambiciosa de todas. Ambiciosa não só no alcance de seu alegado poder auto-explicativo, que abrange nada menos que toda a história humana, mas também nos efeitos político-militares que aspira desencadear: aliança da Rússia com a China e os países islâmicos, além de parte da Europa Ocidental, numa guerra total contra os EUA e Israel, seguida da instauração de uma ditadura mundial. O prof. Duguin não é um sonhador, um poeta macabro, a criar hecatombes imaginárias num porão escuro infestado de ratos. É o mentor do governo Putin e o cérebro por trás da política externa russa.” Quando vocês ouvirem alguém dizer que o Duguin não está mais exercendo influência na Rússia, isso é claramente desinformação, despistamento. Nós veremos daqui a pouco por que isso é assim. “Suas idéias desde há muito já deixaram de ser meras especulações. Uma de suas encarnações materiais é a Organização de Cooperação de Shangai, que reúne Rússia, China, Cazaquistão, Quirziguistão, Tajiquistão e Uzbequistão e pretende ser o centro de uma reestruturação do poder militar mundial.” Em 2006 escrevi um artigo, no Diário do Comércio, a respeito disso com o título “Sugestão aos bem pensantes” [http://www.olavodecarvalho.org/semana/060130dc.htm]. “Outra (encarnação do pensamento do Duguin) é o eixo Paris-Berlim-Moscou, há anos a menina-dos-olhos da diplomacia Rússia (que já é uma realidade hoje). A teoria da ‘guerra dos continentes’ foi criada por um geógrafo inglês na passagem do século XIX para o XX, sob o impacto de um dos episódios mais interessantes da época: a luta da Inglaterra contra a Alemanha e a Rússia pelo domínio da Ásia Central. O “Grande Jogo”, como chamou Rudyard Kipling, foi uma história rocambolesca, que envolveu, além de militares e diplomatas, todo um elenco de espiões, políticos comprados, ladrões, contrabandistas, chefetes de tribos, seitas secretas, místicos visionários, feiticeiros, marajás corruptos, cortesãs sedutoras e um exército de homens de ciência: geógrafos, lingüistas, botânicos, zoólogos e etnólogos. Na ocasião, o que o governo de Londres mais temia era que uma aliança entre Rússia e Alemanha cravasse as garras naquela área tão cobiçada por suas riquezas naturais e sua posição estratégica, pondo em risco a segurança do Império Britânico. A disputa arrastou-se por décadas, ora com vantagem para um lado, ora para o outro, desembocando, no fim, na I Guerra Mundial.” Darei aqui a primeira origem da doutrina eurasiana da “guerra dos continentes”: “Em 25 de janeiro de 1904, o geógrafo e cientista político Halford John Mackinder (1861-1947) apresentou à Royal Geographical Society de Londres a tese de que a Ásia Central era o ‘pivô da história’ e de que nas décadas seguintes a Rússia estaria em posição mais que vantajosa para expandir o seu poder com base naquela área. Sem nenhuma pretensão de criar uma teoria geral da História ou de postular um determinismo geográfico à moda de Buckle, antes reconhecendo que tudo o que podia fazer era especular ‘alguns aspectos’ dos condicionantes geográficos do processo histórico, Mackinder enfatizava que a geografia impunha limites precisos à iniciativa humana, favorecendo umas ações e dificultando outras. Especialmente favorecido tinha sido, pela configuração geográfica das estepes russas, a ação das hordas nômades que, vindas do fundo da Ásia, por ali passaram a cavalo para invadir a Europa Ocidental (isso é um processo que começa por volta do século III e vai até o século XV pelo menos). As conseqüências disso [00:10] tinham sido portentosas. ‘Um tipo repulsivo’, diz Mackinder, ‘pode desempenhar uma função social útil ao unir seus inimigos: foi sob a pressão do barbarismo externo que a Europa criou sua civilização’. Prossegue ele: ‘Por mil anos, povos cavaleiros emergiram da Ásia através dos amplos intervalos entre os montes Urais e o Mar Cáspio, cavalgaram através dos espaços abertos do Sul da Rússia e vieram atacar a Hungria, no coração mesmo da península européia, formando, pela necessidade de lhes opor resistência, a história de cada um dos grandes povos em torno — russos, alemães, franceses, italianos e gregos bizantinos.’” Talvez o Mackinder exagere um pouco a função do elemento antagônico na criação e na origem da civilização européia, mas, que esse elemento existe e foi importante, é claro que foi. Já mencionei, aulas atrás, que toda a formação da casta nobre européia se deu justamente aí. Quando das invasões bárbaras, algumas lideranças locais se destacavam na defesa do território, e essa força espontânea de resistência foi a origem da casta aristocrática militar européia. “O que virou a sorte a favor dos europeus foram dois fatores. Primeiro, as limitações intrínsecas do potencial de ataque dos bárbaros. Explica o Mackinder: ‘Que a invasão bárbara estimulasse uma saudável e poderosa reação, em vez de esmagar toda oposição sob um despotismo amplamente disseminado, foi devido ao fato de que a mobilidade do seu poder estava condicionada pelas estepes, e cessava necessariamente nas florestas e montanhas circundantes.’” Estepe é um espaço aberto com uma pastagem relativamente rala mas onipresente (aonde quer que você vá, há comida para os cavalos). É também uma área plana, que os cavalos atravessam facilmente. Isso facilitava a travessia das hordas bárbaras. “Segundo, a evolução da técnica marítima, que inaugurou a era das grandes navegações. Explica o Mackinder: ‘O importantíssimo resultado da descoberta da via para as Índias através do Cabo foi conectar as navegações ocidental e oriental da Euro-Ásia... e assim, neutralizar em alguma medida a vantagem estratégica da posição central dos nômades da estepe, pressionando-os pela retaguarda. A revolução iniciada pelos grandes marinheiros da geração de Colombo dotou a Cristandade da mais ampla mobilidade de poder...’” Quer dizer, a vantagem dos bárbaros é justamente a mobilidade. O desenvolvimento da navegação criou a possibilidade de uma mobilidade ainda maior, virando então a balança de poder. Prossegue Mackinder: “‘O efeito político foi inverter as relações da Europa e da Ásia, pois, enquanto na Idade Média a Europa estava enjaulada entre o intransponível deserto ao sul, um oceano desconhecido a oeste, e imensidões geladas ou florestais ao norte e nordeste, e no leste e no sudeste era constantemente ameaçada pela mobilidade superior dos homens montados em cavalos ou camelos, ela agora emergia sobre o mundo, multiplicando em mais de trinta vezes a superfície dos mares e as terras costeiras a que tinha acesso’. Mas isso não acarretou o fim do poder terrestre. Se este se concentrou a leste, enquanto o Ocidente desenvolvia mais o poder marítimo, não foi só pela diversidade das condições geográficas, mas por uma diferença de culturas. Explica o Mackinder: ‘Foi provavelmente uma das mais espantosas coincidências da História que as expansões marítimas e terrestres da Europa continuassem, de algum modo, a antiga oposição entre romanos e gregos. Poucos fracassos maiores tiveram conseqüência de mais longo alcance do que o fracasso de Roma em latinizar os gregos. Os teutônicos foram civilizados e cristianizados pelos romanos; os eslavos, na maioria, pelos gregos. Foi o romano-teutônico que, em tempos posteriores, embarcou no oceano; foi o greco-eslavo que cavalgou nas estepes, conquistando os turanianos (os habitantes daquele antigo lugar). Assim, o moderno poder terrestre difere do poder marítimo não menos na fonte do seus ideais do que nas condições materiais da sua mobilidade.’” Notem que Mackinder está muito longe de advogar um determinismo geográfico estrito. Mais adiante ele explica que a balança de poder é estabelecida, de um lado, pelas condições geográficas e, do outro lado, pela inventividade, capacidade e, diz ele, até pela virilidade dos povos. “Se a era das grandes navegações havia favorecido a Europa, a evolução da técnica em tempos mais recentes indicava uma retomada de vigor do poder terrestre, portanto da Euro-Ásia. Explica ele: ‘Uma geração atrás, o vapor e o canal de Suez pareceram ter aumentado o poder marítimo em relação ao poder terrestre. As ferrovias então funcionavam principalmente como alimentadoras do comércio oceânico. Mas as ferrovias transcontinentais estão agora transmutando as condições de poder terrestre, e em parte alguma elas podem ter esse efeito como no centro fechado da Euro-Ásia, em vastas áreas onde nem madeira nem pedras são acessíveis para construção de rodovias...’” Ou seja, na hora que criaram as rodovias transcontinentais, as ferrovias deixaram de ser apenas um auxiliar do comércio marítimo e se tornaram um meio de transporte efetivo, um meio de transporte de mercadorias por seus próprios meios. “‘O exército russo na Manchúria é uma prova tão significativa da mobilidade do poder terrestre quanto o exército britânico na África do Sul o foi do poder marítimo...’” Na verdade, os russos transportaram muito mais soldados por via terrestre do que o Império Britânico jamais havia transportado por via marítima. “Tudo favorecia, a médio prazo, a hegemonia da Rússia. Prossegue Mackinder: ‘Os espaços dentro do Império Russo e da Mongólia são tão vastos, e suas potencialidades em população, trigo, algodão, combustíveis e metais tão incalculavelmente grandes, que é inevitável que um vasto mundo econômico, mais ou menos à parte, se desenvolverá ali, inacessível ao comércio oceânico’. E aí vinha a generalização decisiva, que fez a fama de Mackinder: ‘Quando consideramos essa rápida revisão das correntes mais amplas da História, não se torna evidente uma certa persistência da relação geográfica? Não será a região pivotal da política mundial aquela vasta área da Euro-Ásia que é inacessível aos navios, mas que na Antigüidade esteve aberta aos nômades cavaleiros, e que hoje está em via de ser coberta por uma rede ferroviária?... A Rússia substitui o Império Mongol. Sua pressão sobre a Finlândia, a Escandinávia, a Polônia, a Turquia, a Pérsia, a Índia e a China substitui os ataques centrífugos dos homens da estepe. Ela pode atacar e ser atacada por todos os lados, exceto o Norte. O pleno desenvolvimento do seu sistema ferroviário é apenas questão de tempo’. E aí vem a previsão que viria a ser tão determinante sobre a política internacional do século XX: ‘O desequilíbrio da balança de poder em favor do Estado pivotal, resultando na sua expansão sobre as terras marginais da Euro-Ásia, permitiria o uso dos vastos recursos continentais para a construção de uma frota marítima, e então o Império Mundial estaria à vista”. Ou seja, tão logo aquela região se desenvolvesse, o poderio russo poderia se estender até a área costeira, criar ali estaleiros e começar a fabricar navios, criando assim uma frota até muito maior do que a do Império Britânico. Neste caso você teria o Império Mundial já naquele tempo (isso foi em 1904). “‘Isso pode acontecer caso a Alemanha se alie à Rússia. A ameaça dessa eventualidade deve, portanto, atrair a França para uma aliança com os poderes marítimos (Inglaterra e EUA). E a França, [00:20] a Itália, o Egito, a Índia e a Coréia se tornariam outras tantas cabeças-de-ponte por onde as marinhas de fora dariam apoio a exércitos para compelir os aliados do pivô (da Rússia) a posicionar forças de terra e impedi-los de concentrar toda a sua força na fabricação das frotas... Os desenvolvimentos das vastas potencialidades da América do Sul podem ter uma influência decisiva sobre o sistema. Pode fortalecer os Estados Unidos’. São bem visíveis, no comunicado de Mackinder, os seguintes traços: 1. Ele não propõe nenhuma teoria geral da História, exceto a regra metodológica, de resto óbvia, de que ‘o balanço efetivo do poder, em qualquer momento do tempo, é o produto, por um lado, das condições geográficas, tanto econômicas quanto estratégicas, e, por outro, do número relativo, da virilidade, do equipamento e organização dos povos em competição’. 2. As generalizações que ele apresenta são bastante prudentes e limitam-se a um período determinado, acessível à verificação histórica: aquele período que começa com as primeiras invasões bárbaras e culmina na época do ‘Grande Jogo’ (que é a época de que ele estava falando). 3. Ele não traça nenhum plano de dominação mundial, insistindo, ao contrário, no equilíbrio relativo entre as várias potências — a ‘balança de poder’, como ele chama. Descrevendo o potencial de crescimento da Rússia, em nenhum momento ele sugere obstaculizá-lo ou frustrá-lo, mas apenas tomar providências para que o poder terrestre incomparável do Império Russo não se transfigure também em poder marítimo dominante, pois então ‘estará à vista o Império mundial’.” Essa foi a primeira versão da teoria que hoje o Duguin representa. Mas essa primeira versão é muito diferente daquilo em que ela veio se transformando ao longo dos tempos. A primeira transformação se deu quando, na Alemanha, um general chamado Karl Haushofer leu essa conferência (tenho aqui o original dela, tal como foi publicado no Geographical Journal, em 2004, seguido das discussões que houve ali na ocasião). Haushofer leu essa conferência numa época em que ele estava exercendo uma função diplomática no Japão. Lá ele teve uma experiência muito interessante. Por um lado, ele estava meditando o fracasso alemão na I Guerra Mundial e notou que a formação da oficialidade e da liderança política alemã dava muita atenção aos aspectos jurídicos e administrativos, mas nada àquilo que ele viria a chamar geopolítica. Antes da geopolítica existia naturalmente o que se chama geografia política, que é a descrição das várias fronteiras, jurisdições, enfim, a divisão política do planeta (existe um mapa geológico, um mapa econômico e um mapa político, que mostra as fronteiras dos diversos países). A geografia política é apenas descritiva. No Japão, Haushofer viu em ação algo ao qual depois ele daria uma formulação explícita e teórica e que chamaria de geopolítica. Primeiro, o regime japonês era um regime quase totalitário, o governo controlava tudo. Existia um parlamento, mas sua função era apenas carimbar os decretos do imperador. O governo exercia controle total sobre a opinião pública e fazia isso num ambiente já socialmente propício, onde os indivíduos não tinham a menor importância – o que importava era as famílias e a comunidade –, onde não se tinha sequer a idéia de uma independência de opiniões individuais. Nessa atmosfera, o governo japonês exercia uma pressão constante sobre a opinião pública para mantê-la em estado de alarma, anunciando dois problemas: primeiro, a superpopulação; segundo, a possível falta de comida. Diziam que a população japonesa estava crescendo mais do que o território comportava e que em breve não haveria comida para todos. As duas coisas eram mentira, conforme o próprio Haushofer percebeu: a densidade populacional do Japão na época era menor do que a da Alemanha e não havia problema de falta de comida – o Japão era totalmente auto-suficiente em matéria de produção de alimento, praticamente não tinha de importar nada, e a alimentação era abundante. Então ele notou que, se havia essa constante propaganda do governo para manter as pessoas em estado de alarma quanto a esses pontos, não era para enfrentar problemas reais que já estivessem se manifestando ou que se pudesse esperar para as próximas décadas. O que o governo japonês estava fazendo realmente era preparando uma expansão imperialista. Isso logo se confirmou quando um oficial japonês foi morto na Coréia e, imediatamente, sem declarar guerra nem dar qualquer explicação, o Japão simplesmente invadiu a Coréia e tomou posse do lugar extra oficialmente. Como não houve declaração de guerra nem coisa nenhuma, como tudo foi feito mais ou menos na moita, simplesmente não houve reação da comunidade internacional. Haushofer vê aquilo e fica maravilhado: “É isso que nós precisamos fazer!” Volta para a Alemanha, funda o Instituto de Geopolítica e uma revista, começa a tentar fazer a cabeça dos políticos no sentido de despertar o interesse deles para essa nova disciplina que ele tinha acabado de criar. Ora, a geopolítica consiste em fazer exatamente o que o Japão fez: usar todos os dados fornecidos pela geografia política, pela geografia humana, pela geografia econômica etc. em vista de um plano de governo. A geopolítica não é uma ciência teórica; é uma ciência que visa, diz ele, a preparar o estadista. É uma ciência na qual o Estado é visto não como uma entidade estática tal como na geografia política — na geografia política você vê lá uma fronteira definida, jurisdições definidas etc. —, mas vê o Estado como uma entidade dinâmica, uma entidade em crescimento. A idéia da expansão internacional – a idéia do imperialismo, em suma – está no coração mesmo da geopolítica. Podemos definir a geopolítica quase como “a arte do imperialismo”, a ciência e a arte do imperialismo. É uma ciência ou uma arte que vive numa fronteira muito indefinida entre o conhecimento teórico e a ação política, é uma articulação dessas duas coisas. Sendo assim, é claro que é altamente duvidoso o estatuto científico da geopolítica, mesmo porque a utilização de informações falsas de ordem geográfica era um dos elementos fundamentais da operação que ele viu se desempenhar no Japão, e foi justamente isso que o impressionou. O governo japonês, usando de informações falsas, criava um estado de medo com relação a dois problemas que não existiam; a pretexto de resolvê-los, lançava-se numa operação imperialista muito bem sucedida. Haushofer achou que era justamente isso que tinha faltado na Alemanha durante a I Guerra: “Nós atacamos para todos os lados ao mesmo, sem nenhum plano geopolítico”. Então ele começou a formar políticos e militantes, adestrando-os nessa técnica geopolítica. Uma vez que o preceito fundamental da geopolítica é o solo, que é o elemento principal do poder (é ali que estão as riquezas, as possibilidades econômicas etc.), pode-se também definir [00:30] a geopolítica como “a arte de conquistar território, utilizando os recursos da maneira mais econômica e prática possível” – quer dizer, há uma planejamento racional da ação. Mas não se pode dizer que isso tem uma estrutura totalmente científica. Por quê? Porque as decisões de Estado são atos de vontade – um Estado não é obrigado a ter uma política de expansão imperialista, ele terá se quiser, alguém precisa tomar a decisão. É curioso que ao mesmo tempo estava se desenvolvendo, com Karl Schmitt, uma nova teoria da constituição. Não só com Karl Schmitt, mas Hans Kelsen. Hans Kelsen tinha descrito uma constituição como um sistema de lógica normativa: você tem uma norma fundamental e, da norma fundamental, têm de decorrer as normas secundárias, menores, até as últimas leis, decretos municipais etc. Em princípio tudo tem de estar coerente com a constituição, e a constituição inteira com a norma fundamental que determina o conjunto. Mas aí surge a discussão: de onde nós tiramos a norma fundamental? Então entra um segundo teórico, Karl Schmitt, que diz: “A norma fundamental é determinada pela vontade do Estado”. A isso chamou-se então decisionismo: a norma fundamental não precisa se justificar, é o famoso “fi-lo porque qui-lo”. O governante determina que tem de ser assim e está acabado – como o governo japonês, que decidiu que tinha de aumentar o seu território, ainda que não precisasse de mais território. Então a norma fundamental não pode ser discutida. É claro que mais tarde os nazistas se prevaleceram das duas teorias, tanto da teoria jurídica do Karl Schmitt quanto da geopolítica do Haushofer. Porém, ao passo em que Karl Schmitt permaneceu mais ou menos alheio, inocente nessa história (ele simplesmente tentou explicar o que as coisas são na realidade), Haushofer fez um esforço pessoal muito grande para penetrar no meio nazista, porque ele viu que era o único partido que estava crescendo e que tinha possibilidade de alcançar o poder. Então, sem acreditar muito no nazismo, ele se infiltrou no meio daqueles oficiais para fazer deles agentes do seu próprio plano geopolítico. Os nazistas achavam que estavam usando Haushofer, mas ele é que estava usando os nazistas. Entre os alunos dele estava Rudolf Hess, que depois veio a se tornar um dos principais assessores do Hitler. Quando houve aquela tentativa fracassada de golpe de Estado na Alemanha, em 1927, quando Hitler e Rudolf Hess foram parar na cadeia, Haushofer fazia constantes visitas ao Rudolf Hess, que tinha sido seu aluno, e ensinava algumas coisas ao Hitler e ao Rudolf Hess. Quando se lê o Mein Kampf, percebe-se que a influência das teorias geopolíticas do Haushofer está bastante nítida ali, mas não se sabe se foi só isso que ele passou aos dois. Ao mesmo tempo Haushofer tinha um outro campo de atividades que é bastante ligado com esse, mas não tão visível. Consta que ele tinha sido discípulo do George Gurdjieff durante algum tempo e que, um pouco antes da ascensão dos nazistas ao poder, ele fundou uma sociedade secreta chamada Vril. O nome Vril foi inspirado num romance do escritor inglês Edward Bulwer-Lytton chamado The Coming Race (A Raça Vindoura), que falava de uma raça de homens subterrâneos dotados de capacidades extraordinárias. Eles eram dotados dessas capacidades porque dominavam uma força chamada vril — o vril é um análogo do Chi chinês ou do Hara japonês, uma força que poderia ser acumulada no ser humano mediante exercícios ascéticos. Essa sociedade vril acreditava que era possível, através de exercícios ascéticos, melhorar a raça alemã, de modo que ela se tornasse tão poderosa quanto os tais homens subterrâneos. Então não sabe se nesses contatos entre Haushofer, Rudolf Hess e Hitler na cadeia ele passou para os dois somente as suas doutrinas geopolíticas ou se os cooptou para tal da Vril. Mas parece razoável que ele o tivesse feito. Quem colocou em circulação no Ocidente a notícia sobre a Vril não foi nenhum teórico da conspiração, nenhum maluco, mas um dos físicos mais eminentes que fugiram da Alemanha nazista para os EUA: Willy Ley. Willy Ley, vocês podem procurar em qualquer enciclopédia, é um físico de alto gabarito. Foi ele que chegou aqui contando que existia essa sociedade secreta fundada por Haushofer. Notem que aí a teoria do Mackinder já começa a sofrer algumas alterações. Haushofer, ao ler a conferência do Mackinder, ficou absolutamente fascinado, mas ele leu aquilo sob a ótica japonesa. Onde o Mackinder anunciava a possibilidade, o perigo de um império mundial a ser formado a partir do que ele chamava a área pivotal — mais tarde ele chamaria heart land (a terra central) —, foi justamente aí que o Haushofer achou que era uma boa idéia: vamos fazer o tal do império mundial. Também, enquanto Mackinder tentava preparar aquela elite intelectual e política britânicas para uma política de contenção, uma política de equilíbrio de poderes, Haushofer pensou exatamente ao contrário: criar o total desequilíbrio e implantar o império mundial. Para o império mundial então seria necessário uma aliança entre vários poderes que tomassem posse daquela área central e fizessem ali exatamente o que o Mackinder temia: explorar tão bem as potencialidades econômicas daquela área, que fosse possível transformar a potência meramente terrestre também numa potência marítima, e então juntar os dois tipos de poder e dominar o mundo. É claro que a teoria do Mackinder, já um pouco na sua “versão Haushofer”, atraiu a atenção de patriotas nacionalistas russos, a começar pelo eminente lingüista Nikolay Trubetzkoy. (Quem quer que estude lingüística verá o nome de Trubestzkoy em tudo quanto é enciclopédia lingüística.) Mas Ele não foi somente um lingüista, mas um militante patriota que aderiu à teoria da “guerra dos continentes”, evidentemente com o sinal trocado: ele estava do outro lado. As visões que os dois lados tinham da mesma teoria não eram simétricas, porque a coisa mais evidente na conferência do Mackinder é que ali não há nenhum plano de expansão imperialista. A Inglaterra já tinha se expandido bastante e tudo o que ela queria era travar as saídas; não queria destruir o poder terrestre da Rússia, mas apenas impedir que ele se transformasse também num poder marítimo. Mackinder via a estrutura do mundo da seguinte maneira: havia a área pivotal, o heart land, que era justamente a Ásia Central; em volta dela, um primeiro cinturão dos países mais próximos, e depois um segundo cinturão periférico que abrangia as potências marítimas: Inglaterra, EUA, passando pela Austrália etc. Então havia o centro e dois círculos. Evidentemente, para impedir que a potência central se transformasse num poder mundial era necessário exercer uma influência dominante sobre o primeiro círculo, cercando de certo modo a “potência terrestre” e impedindo que ela se transformasse também em “potência marítima” [00:40] e, portanto, mantendo o equilíbrio entre o poder marítimo e poder terrestre de uma maneira razoável. Isso era o máximo que Mackinder pretendia. Quando isso chega aos ouvidos dos alemães e dos russos, eles ouvem a coisa da maneira exatamente inversa: ao invés de manter o poder terrestre russo e germânico nos seus limites, tentar expandi-lo e torná-lo potência mundial. A coisa estava mais ou menos assim quando, décadas mais tarde, entra em ação o prof. Duguin. A primeira coisa que ele faz é ampliar formidavelmente o significado da teoria Mackinder-Haushofer, buscando dar a ela uma amplitude metafísica e usando como fonte quatro esoteristas famosos. Primeiro, o Papus (Dr. Gérard Eucausse), que, na segunda metade do século XIX, era um famoso ocultista, um mago francês, que esteve por muito tempo na corte russa como convidado do czar e muitas vezes enfatizou para ele as possibilidades da Ásia Central – mais ou menos no sentido que o Mackinder viria a fazer depois. A mesma idéia aparecia também nas obras de Helena Petrovna Blavatsky – Madame Blavatsky –, famosa ocultista russa que os ingleses acusavam de ser espiã russa, e os russos acusavam de ser espiã inglesa, e que era, sob todos os aspectos, uma criatura bem pouco recomendável — ela era batedora de carteira no sentido literal, estrito: você ia lá fazer uma consulta e, quando saía, percebia que sua carteira tinha ficado lá (era exatamente assim). Ela esteve envolvida em vários episódios criminais, inclusive com o contrabando de garotos da Índia para pedófilos na Inglaterra. Ao mesmo tempo, era uma mulher que tinha informações absolutamente prodigiosas sobre a história do ocultismo, misturando a verdade com a falsidade. Ao publicar o livro A Doutrina Secreta, ela referiu como sua fonte primordial um livro chamado Estâncias de Dzyan, que dizia ter encontrado num monastério secreto do Tibete, impresso em folhas de palmeira. Mais tarde, René Guénon, no livro Le Théosophisme, a história de um pseudo-religião, conta que havia uma tradução alemã desse livro já no tempo da Madame Blavatsky, e que ela tinha essa tradução na sua biblioteca. Quer dizer, é toda uma história rocambolesca (parece um pouco com o “mensalão”, a certidão de nascimento do Obama, uma história toda embrulhada). Mas Madame Blavatsky fazia a “guerra dos continentes” remontar a uma época mítica. A humanidade teria se originado no Pólo Norte, numa região chamada Hiperbória. Quando os hiperbórios desceram para o sul, eles se bipartiram em duas grandes civilizações diferentes: uma chamada Shambhala, a oriente, era a sede dos santos, dos místicos etc.; a outra, chamada Atlântida, era povoada de magos negros e pessoas malditas de toda sorte. Quer dizer, houve uma separação geográfica do bem e do mal. Essa noção de Shambhala e Atlântida é literalmente, inteiramente absorvida na geopolítica do prof. Duguin. Ele vê a história inteira como um confronto entre potências terrestres e potências marítimas, sendo que as potências terrestres são as herdeiras de Shambhala, que trazem a verdadeira doutrina divina para o mundo, e as potências marítimas são a encarnação do mal, da feitiçaria etc. Ele afirma isso literalmente. Continuarei a ler. Este trecho aqui é um pedaço oral com que eu tampei um capítulo faltante aqui deste estudo: “Duguin dá a Mackinder o crédito nada desprezível de haver ‘compreendido as leis objetivas precisas da história política, geográfica e econômica da humanidade’ (...)” Notem bem: isso vai muito além das pretensões do Mackinder. Ele apenas quis reparar certas constantes que haviam desde o tempo das invasões bárbaras até à época em que ele estava. Não há um princípio de interpretação geral, uma teoria geral da História. “(...) uma honra que antes dele fora atribuída a Montesquieu, a Hegel, a Giambattista Vico, a August Comte, a Herbert Spencer (em parceria com Charles Darwin) e a Karl Marx, embora as ‘leis objetivas’ de cada um fossem bem diferente das dos outros. A teoria Mackinder-Duguin tem, decerto, o mérito da simplicidade: tudo na História reduz-se a uma disputa de poder entre as potências que dominam o mar e as que reinam sobre grandes extensões de terra. Daí nascem as culturas, leis, instituições, costumes, valores, símbolos e até religião. So simple as that. É mesmo o caso de perguntar: Por que não me avisaram antes? Não posso jurar que Mackinder, um geógrafo e estrategista sem grandes ambições filosóficas, aprovaria a transfiguração da ‘guerra dos continentes’ no duelo metafísico de titãs descrito por Aleksandr Duguin. Esclarecer isso exigiria algum tempo que não posso conceder ao assunto agora. Por via das dúvidas, uso a expressão ‘teoria Mackinder-Duguin’ para distingui-la da teoria Mackinder originária. Para Duguin, o conflito não se resume a uma luta entre Estados, mas assume as proporções de uma guerra entre duas cosmovisões, dois sistemas de valores opostos e inconciliáveis que conservam suas identidades respectivas ao longo das eras e vão como que se reencarnando, desde os tempos mais remotos, em sucessivos agentes históricos — Estados e nações —, os quais nem sempre têm a consciência de ser movidos, como sombras chinesas na parede, por esses super-agentes invisíveis e onipotentes: o ‘atlantismo’ e o ‘eurasismo’.” Quer dizer: toda a história humana é um confronto entre “atlantismo” e “eurasismo”, e todos os agentes históricos, mesmo sem ter consciência disso, estão trabalhando para um lado ou para o outro. Na leitura que nós fizemos da resposta na semana passada, nós chegamos àquela parte em que eu falo na influência do kantismo? (Deixe-me ver aqui... eu vou falando de Jung, Freud etc., lembram disso?) Lembrem-se da aula passada: notem que a teoria Mackinder-Duguin insere-se na lista da série de “descobertas de condicionantes apriorísticos”, ou seja, de forças que agem pelas nossas costas e que atuam através de nós, mesmo que não tenhamos consciência disso. Desde que Kant inventou as “formas a priori”, todo mundo está tentando buscar qual é a “forma a priori” que está nos usando como fantoches, de tal modo que, quando acreditamos estar conhecendo a realidade, há apenas uma estrutura secreta que nos move, que nos faz ver as coisas de determinada maneira e agir em conseqüência disso. Se dr. Freud dizia que nós não sabemos e nem enxergamos nada, tudo é uma questão da briga entre o id e o superego, e se Karl Marx dizia que quando você pensa que está lutando por ideais religiosos ou éticos, você está apenas exercendo a luta de classes, está lutando por um interesse de classes, então agora chega aqui o Duguin e diz que não é nada disso, que você está é lutando a favor dos eurasistas ou dos atlantistas, mesmo que você não saiba disso. [00:50] Citação do Duguin, tirada do livro La Grande Guerre des Continents, publicada em 2006, na França: “Na História antiga, as potências ‘marítimas’ que se transformaram nos símbolos históricos da ‘civilização marítima’ em seu conjunto foram a Fenícia e Cartago. O Império terrestre que se opunha a Cartago era Roma. As guerras púnicas formam a imagem mais pura da oposição entre a ‘civilização marítima’ e a ‘civilização terrestre’. Na época moderna e na História recente, o pólo ‘insular’ e ‘marítimo’ tornou-se a Inglaterra, ‘senhora dos mares’, e, mais tarde, a ilha-continente gigante, a América. A Inglaterra, exatamente como a antiga Fenícia, utilizou em primeiro lugar como instrumento de dominação o comércio marítimo e a colonização das regiões costeiras. O tipo geopolítico fenício–anglo-saxão [veja, ele pula da Fenícia para a Inglaterra] engendrou um modelo particular de civilização de ‘mercado capitalista-mercantil, fundada sobretudo nos princípios do liberalismo econômico [vocês vejam, os fenícios já praticavam o liberalismo naquele tempo]. Em conseqüência, e a despeito de todas as variações históricas possíveis, o tipo geral da civilização ‘marítima’ está sempre ligado ao ‘primado do econômico sobre o político’. “Assim como, face ao modelo fenício, Roma representava um exemplo de estrutura autoritária-guerreira fundada sobre uma dominação administrativa e sobre uma religião civil, sobre o ‘primado do político sobre o econômico’, Roma é exemplo de um tipo de colonização puramente continental não-marítima, mas terrestre, com uma penetração profunda no continente e assimilação dos povos subjugados, invariavelmente ‘romanizados’ após as conquistas. Na História moderna, as encarnações da potência ‘terrestre’ foi o Império Russo, como também os impérios da Áustria–Hungria e da Alemanha da Europa Central. A ‘Rússia/Alemanha/Áustria–Hungria’ é o símbolo essencial da ‘terra geopolítica’ na História moderna.” Notem, em primeiro lugar, que ele utiliza a teoria do Mackinder, mas a inverte. Mackinder enfatiza justamente o aspecto marítimo da civilização romana: ele diz que, não só os romanos tinham uma marinha formidável, capaz de se opor a inimigos possantes como Cartago, mas que mais tarde foi a herança romana que despertou nos europeus a vocação marítima, enquanto os gregos iam cristianizar a Rússia e desenvolver lá uma civilização terrestre. Então, onde Mackinder vê uma oposição — romanos navegadores e gregos terrestres —, o Duguin inverte o negócio e fala de uma Fenícia marítima e de uma Roma terrestre. Isso não faz o menor sentido historicamente. Continuando: “Duguin insiste na unidade e continuidade essenciais e milenares tanto do conflito quanto dos dois adversários considerados separadamente: ‘Generalizando as idéias de Mackinder, pode-se dizer que existe uma ‘conspiração dos atlantistas’, que é histórica, e persegue através dos séculos objetivos geopolíticos orientados aos interesses de uma ‘civilização marítima’ de tipo neofenício’.” Ou seja, ao longo da história, existe um atlantismo contínuo, deliberado, que visa a criar uma civilização de tipo marítimo baseada no liberalismo econômico. “A teoria insere-se, claramente, na tradição kantiana dos condicionantes apriorísticos, que por cima das consciências individuas demarcam o quadro das percepções e ações humanas, dirigindo ocultamente o curso dos acontecimentos: ‘Estamos lidando, portanto, com uma ‘conspiração oculta’ da mais antigas (está remontando, portanto, até Shambhala e Atlântida), cuja significação e cuja causa metafísica intrínseca permanecem, com freqüência, completamente obscuras para os seus participantes de base e mesmo para as suas figuras principais’.” Vejam que descobrir a “regra do jogo oculta”, que todos nós estamos jogando sem saber, tornou-se, desde o tempo do Kant, uma verdadeira obsessão para muitos filósofos “As idéias de Mackinder, limitadas à perspectiva britânica, não poderiam alcançar esse nível de generalidade antes de ser complementadas pela sua versão oposta, ‘oriental’ e ‘terrestre’. Duguin informa-nos que essa fusão aconteceu ‘nos freqüentes encontros dos eurasistas russos com Karl Haushofer em Praga’, e que por volta de 1920 estava pronta a estratégia eurasista geral que enfatiza a necessidade da aliança geopolítica entre a Rússia, Alemanha e Japão — aliança que, justamente, a astúcia da política britânica vinha conseguindo frustrar desde meados do século anterior. Mediante a formulação da nova estratégia, prossegue Duguin, os eurasistas e Haushofer ‘pela primeira vez, exprimiram aquilo que se encontrava por trás de toda a história política do último milênio, tendo remontado aos rastros da ‘idéia imperial romana’ [eu não sei por que ele fala em último milênio, se remonta à era imperial romana; então teria de ser dois milênios] que, desde a antiga Roma, através de Bizâncio, se havia transmitido à Rússia, e, através do Sacro Império Romano-Germânico medieval, à Áustria–Hungria e à Alemanha. A oposição milenar entre os dois blocos não era somente política, mas ideológica e cultural: ‘Face ao atlantismo, que personifica o primado do individualismo, do ‘liberalismo econômico’ e da ‘democracia de tipo protestante’, ergue-se o ‘eurasismo’, que pressupõe necessariamente o autoritarismo, a hierarquia e o estabelecimento de princípios nacional-etáticos ‘comunitários’, acima das preocupações simplesmente humanas, individualistas e econômicas.’ A luta dos dois blocos atravessa os milênios por meio de duas redes de agentes misteriosos que dirigem invisivelmente o curso dos acontecimentos. Pelo lado atlantismo, ‘podemos definir como ‘ideologia atlantista’ a ideologia da ‘Nova Cartago’ — aquela que é comum a todos os ‘agentes de influência’, a todas as organizações secretas e ocultas, a todas as lojas e clubes semifechados que se serviam e servem à idéia anglo-saxônica no século XX e penetram a rede de todas as potências ‘eurasianas’ continentais. Naturalmente, isso concerne em primeiro lugar aos serviços de informação ingleses e americanos (em particular a CIA), que são não somente ‘sentinelas do capitalismo, mas também sentinelas do ‘atlantismo’... [ou seja, a CIA inteira trabalha para o atlantismo mesmo quando não sabe]; que trabalham não somente pelos interesses de cada país separado, mas também por uma doutrina geopolítica particular, metafísica no fim das contas, que veicula uma visão do mundo extremamente densa, diversificada e extensa e, não obstante, essencialmente uniforme.’ Pelo lado eurasiano, ‘todos os que trabalharam incansavelmente pela união eurasiana, aqueles que durante os séculos se opuseram à propagação, no continente, das idéias individualistas, igualitárias e democrático-liberais, aqueles que aspiraram a unir os grandes povos eurasianos na atmosfera do Oriente, em vez de fazê-lo na do Ocidente — seja o Oriente de Gengis Khan, o Oriente da Rússia, o Oriente da Alemanha —, foram todos ‘agentes eurasianos’, ou ‘soldados do continente’, ou ‘soldados da terra’. A sociedade secreta eurasiana, a Ordem dos eurasianos, não começa de maneira alguma com os autores do manifesto Voltando-nos para o Oriente [que é de 1921, salvo engano], nem com a Revista de Geopolítica de Haushofer. Isso foi, para dizê-los em breves palavras, apenas a revelação, o resultado de um conhecimento determinado que existia desde o começo dos tempos, ao mesmo tempo que as suas sociedades secretas e redes associadas de ‘agentes de influência’. Que todas (ou praticamente todas) as guerras da História não passam de capítulos da guerra única e interminável entre atlantistas e eurasianos; que esta é portanto a explicação última de todas as glórias e padecimentos humanos, é algo sobre o qual Duguin não deixa o menor sinal de dúvida: ‘A ordem da Eurásia contra a ordem do Atlântico (a Atlântida); a Roma eterna contra a eterna Cartago. A guerra púnica oculta prosseguia ao longo dos milênios. A conspiração planetária da Terra contra o Mar, da Terra contra a Água, do Autoritarismo e da Idéia contra a Democracia e a Matéria. Os paradoxos, as contradições, as omissões e as fantasias sem fim da nossa História não se tornam mais claros, mais lógicos e mais razoáveis, se os encararmos desde a perspectiva de um dualismo geopolítico oculto?’ Mais ainda: o dualismo político, segundo ele, não traz apenas a explicação causal de tantos males e sofrimentos, mas a sua definitiva justificação moral: ‘As inumeráveis vítimas, pelas quais a Humanidade paga, [01:00] em nosso século, o preço de projetos políticos mal definidos, não recebem nesse caso uma profunda justificação metafísica?’ Estão acompanhando isso? Estão vendo a monstruosidade com que nós estamos lidando? “Os trechos citados até agora bastam para pôr à mostra um traço eminente do estilo do prof. Duguin, que, por ser puramente gráfico, a tradução não encobre: é uso alternado de certas expressões entre aspas atenuantes e sem elas, denotando o livre trânsito, ou melhor, a confusão entre sentido figurado e literal. Assim, por exemplo, a Ordem Eurasiana ora aparece como uma figura de linguagem destinada a agrupar numa unidade hipotética ‘todos que trabalharam incansavelmente pela união eurasiana’, ainda que sem ter a menor idéia de que serviam a uma organização secreta, ora designa a organização mesma, como entidade histórica concreta, com uma data de fundação, hierarquias, regras, juramentos, ritos iniciáticos etc. Isso introduz na mente do leitor uma dupla confusão. De um lado, mistura numa pasta indistinta a pesquisa histórica e a ‘teoria da conspiração’. De outro, viola a advertência clássica de Georg Jellinek, já citada na minha segunda mensagem, de que os processos históricos não podem ser explicados segundo os mesmos critérios quando nascem de uma ação planejada e controlada, e quando resultam de uma pura convergência acidental das ações de vários agentes separados e inconexos. No primeiro caso, o nexo racional antecede a ação; no segundo é projetado sobre ela, ex post facto, pela imaginação do historiador. O grau de certeza nos dois casos é muito diferente.” Uma coisa é quando você sabe que existe um plano, cuja consecução você pode acompanhar nas suas várias etapas; então você sabe que houve um esquema racional anterior à ação e explica o curso tomado por ela durante a sua realização. Mas quando não há um plano, você vê simplesmente ações acontecendo aqui, ali, ali e ali, sem fontes conexas, sem fontes únicas, e você busca encontrar uma unidade por trás disso. Neste caso, é o historiador que está construindo a unidade depois dos acontecimentos e, evidentemente, o grau de certeza é muito menor. Essa reconstituição é sempre conjectural. Mais conjectural ainda no caso de uma teoria que busca por trás de toda a história humana a racionalidade de um princípio único, que é a guerra dos continentes. “A dupla confusão permite ao prof. Duguin montar concepções pseudo-históricas infectadas até à medula pelos três traços típicos da mentalidade revolucionária — a inversão do tempo, a inversão de sujeito e objeto e a inversão da responsabilidade moral — reduzindo o valor científico das suas especulações, rigorosamente, a nada, ao mesmo tempo que robustece a sua força de apelo à imaginação da massa militante, sobre a qual a confusão mesma exerce o fascínio de um mito soreliano.” Segundo Georges Sorel, o mito político é uma espécie de profecia auto-realizável: é uma coisa que não é verdadeira, mas que, na medida em que as pessoas vão aderindo àquilo, vai se tornando verdadeiro. “Para enxergar isso com clareza máxima, deve-se partir da constatação histórica de que uma ‘grande guerra dos continentes’ jamais aconteceu.” Nunca houve uma única guerra em que todo um lado estivesse no poder terrestre e todo o outro lado no poder marítimo. Isso nunca aconteceu. Em todas as guerras houve uma mistura. “Se houve algumas guerras de potências ‘marítimas’ contra potências ‘terrestres’, houve outras tantas das marítimas entre si e das terrestres umas com as outras — e precisamente essas duas últimas estiveram entre as mais notáveis e devastadoras de todos os tempos. As guerras napoleônicas e a invasão da Rússia por Adolf Hitler são exemplos que falam por si.” Nesses casos eram duas potências terrestres: a França e a Rússia, ambas potências terrestres, guerrearam uma com a outra. A Alemanha e a Rússia, também potências terrestres, guerrearam entre si, e a guerra entre elas foi a coisa mais devastadora da história humana. “Jamais, em ponto algum da História, encontramos uma aliança geral dos ‘eurasianos’ contra a confederação dos ‘atlantistas’. No máximo, conflitos locais entre os dois blocos, entremeados de conflitos altamente significativos dentro de cada bloco (supondo-se, ad argumentandum, que sejam blocos). A ‘grande guerra dos continentes’ não é um capítulo da História: é um objetivo futuro, um plano concebido pelo prof. Duguin e os seus antecessores para ser realizado nas próximas décadas, opondo, de um lado, a Rússia, a China e os países islâmicos [e seus eventuais aliados europeus] e, de outro lado, os EUA e os seus aliados.” Quer dizer, ele está projetando uma “grande guerra dos continentes” para o futuro e, baseado nessa hipótese futura, ele reconstrói, reinterpreta todo o passado, como se essa grande guerra, que ele está preparando, já estivesse se travando desde o começo dos tempos e fosse a explicação última de tudo. “É tomando esse ideal futuro como premissa para a interpretação do passado que o prof. Duguin realiza a mágica de fazer passar uma típica e demencial ‘teoria da conspiração’ como hipótese histórica respeitável. Para esse fim, ele tem de diluir todas as fronteiras entre grupos ideológicos bem caracterizados — nazistas e comunistas, por exemplo — e remanejar os seus membros um a um, alistando-as à força nas tropas secretas do ‘atlantismo’ ou do ‘eurasismo’ e atribuindo-lhes, não raro, intenções inconscientes que não condizem em nada com os seus propósitos declarados e com o curso visível das suas ações. Exemplo. Como a Alemanha e a Rússia estão definidas de antemão como ‘potências terrestres’, portanto, aliadas naturais contra o ‘atlantismo’, a luta mortal entre as duas no curso da II Guerra Mundial tem de ser atribuída à ação de ‘agentes britânicos infiltrados’ (...)” Sim, porque, se existe uma luta natural — atlantistas de um lado e terrestres do outro —, como foi possível que a guerra mais violenta se travasse entre duas potências terrestres, a Alemanha e a Rússia – cuja união, cuja aliança era, ao contrário, a condição fundamental para o lançamento do império mundial, tal como tinha visto Mackinder? “(...) ‘agentes britânicos infiltrados’ que fizeram a cabeça de Hitler e Stálin, tão ingênuos, coitados, e os induziram ao conflito fratricida em vez de irmaná-los na luta contra o inimigo comum. O que aconteceu na primeira metade do século XX é assim explicado em função daquilo que o prof. Duguin acha que teria sido melhor para a consecução dos seus planos para o século XXI.” Os planos dele para o século XXI são a chave explicativa para o que aconteceu na primeira metade do século XX. Essa é a característica inversão do tempo. “Ele destaca, entre os agentes britânicos no Alto Comando alemão, o almirante Canaris, ‘traidor do Reich’, como um dos responsáveis maiores por voltar a Alemanha contra a Rússia, em vez de uni-las contra a Inglaterra. Do mesmo modo, na I Guerra Mundial, quando a Rússia se aliou as ‘potências atlantistas’ contra as suas ‘aliadas naturais’, Alemanha e Áustria-Hungria...” Vejam que por duas vezes as alianças naturais falharam e formou-se uma aliança artificial por força da ação de agentes britânicos infiltrados! Na I Guerra, a Rússia se aliou à França e à Inglaterra contra a Alemanha e a Áustria-Hungria e, na II Guerra, aliou-se com a França, a Inglaterra e os EUA contra a Alemanha. Do ponto de vista do Duguin, isso é evidentemente lamentável, mas não podemos negar que aconteceu. Essas alianças e conflitos parecem tão anti-naturais, do ponto de vista da teoria eurasiana, que têm de ser explicados pela intervenção de uma conspiração atlantista. As palavras “conspiração” e “ordem eurasiana” aparecem às vezes entre aspas, às vezes sem aspas, de modo que você nunca sabe se ele está se referindo à mera analogia entre ações inconexas às quais ele está dando uma interpretação comum, ou se se trata efetivamente da ação de uma sociedade secreta. Então ele fica jogando lama na água o tempo todo. Procurando, cavando, buscando qual é o princípio de unidade por baixo de todo esse pensamento do Duguin (ainda que eu não conheça todas as suas obras, pois não leio russo e assim não tenho acesso ao que não está publicado em inglês ou em francês), nós vemos o seguinte: ele usa tudo, tudo, tudo o que pode contra os EUA: ele usa o marxismo, as doutrinas tradicionais, Madame Blavatsky, Alice Bailey, Papus, Mackinder, Haushofer, ele usa até o desconstrucionismo e o kantismo, de modo que, ao mesmo tempo, ele se funda na autoridade daqueles mesmos que diz estar combatendo. Ou seja, o reino da incoerência é total, total, e ele não está nem ligando para isso. [01:10] É claro que nisso tudo não há unidade nenhuma do ponto de vista intelectual, mas há uma unidade estratégica. Se nós procurarmos uma unidade, uma coerência por trás da doutrina do império japonês no começo do século, nós também não encontraremos, porque se tratava apenas de um sistema de pretextos para justificar publicitariamente uma determinada ação – ação que por sua vez tinha de permanecer secreta, não podia se apresentar como tal, tinha de se apresentar sempre com outro nome. É exatamente isso que nós vemos aqui: um conjunto monumental de pretexto propositadamente incoerentes. Diz o Duguin: o eurasismo é “ferozmente aberto”, ele não se fecha num esquema doutrinal. Ferozmente aberto, de modo que possa absorver elementos de todas as proveniências conforme bem entenda, sendo que o único ponto de travamento é o quê? É a pregação da guerra contra os EUA. O fatos de os pretextos serem incoerentes favorece isso, porque favorece a adesão de pessoas das mais diferentes correntes ideológicas e também coloca o adversário na difícil posição de ter de se defender de acusações multilaterais e incoerentes. Quer dizer, qualquer argumento que você lance para se defender de uma das acusações parece que fortalece a outra e coloca o sujeito numa posição extremamente desconfortável. No curso de Teoria Política, anos atrás, eu estabeleci uma distinção: em todo discurso ideológico, você tem de distinguir o que é a camada pretextual e o que é o sub-discurso estratégico efetivo. A camada pretextual são os valores aos quais você apela para justificar a sua ação, a qual, ao mesmo tempo, você está encobrindo sob outro nome. O discurso estratégico efetivo é o que o sujeito está planejando fazer realmente. Em algum momento ele vai ter de dizer o que quer fazer, mas, quando isso acontece, o discurso já está tão encoberto com pretextos incoerentes que a coisa se torna quase invisível, a não ser para quem esteja por dentro do plano e participando da sua elaboração. Podemos usar esse critério aqui para o prof. Duguin. Por um lado, analisamos o discurso pretextual, mostrando que ele é premeditadamente incoerente e confuso, a fim de jogar lama na água e poder atrair todas as correntes: nazistas, fascistas, comunistas, anarquistas, tradicionalistas, o diabo. Como ele mesmo diz: é “ferozmente aberto”. E, por outro lado, coloca o adversário na posição de não entender o que está acontecendo. Por exemplo, esse estudo da dona Marlène Laruelle enfoca o Duguin como sendo o mentor de uma política de direita clássica, e ela mesma acaba dizendo que o Duguin servia de consultor do partido comunista, era o mentor do líder do partido comunista etc. Então é claro que, tentando se defender de uma ameaça que vem à direita, você abre o flanco esquerdo. É exatamente para isso que a coisa foi calculada. O Duguin de fato não é nem de esquerda nem de direita; ele é um russo e o negócio dele é a glória da mãe Rússia. Para vocês terem idéia de até que ponto isso já avançou, eu vou ler para vocês trechos de um artigo publicado em 2004, por um escritor romeno, Jean Parvulesco, que é amigo e colaborador do Duguin e do Putin há muitos anos. Ih, eu não o imprimi, vou ter de tirar do outro computador. Vamos fazer uma pausa. Vocês têm aí dez minutos de descanso. Estão conseguindo acompanhar essa coisa? Estou conseguindo deixar vocês suficientemente assustados com o negócio, com o tamanho do abacaxi? Olha, eu gastei uns mil e quinhentos dólares em livros só por causa do prof. Duguin. Às vezes porque tem uma frase no livro que eu preciso, eu estou indo atrás. E ainda falta muito. Quer dizer, a bibliografia é imensa. Eu ajuntei umas quinhentas páginas de documentos através da internet, inclusive a conferência original do Mackinder. Tudo isso foi feito nas últimas semanas. É um trabalho que normalmente o sujeito precisaria de uma bolsa de estudos por dois anos, livre de qualquer outra ocupação, até de dar aula, para pesquisar isso. Mas, nas condições que tenho, vai ter de ser feito assim mesmo. Como dizia o Jerônimo Moscado, “vai ter de ser rápido e mal-feito”. Mas está sendo feito. [intervalo] Para vocês terem uma idéia do estágio de realização em que está essa coisa, eu vou ler para vocês alguns trechos do prefácio do Jean Parvulesco ao seu livro Vladimir Putin e a Eurásia, publicado em 2004. “O verdadeiro centro de gravidade da atual política planetária no seu conjunto se encontra de fato na Europa e concerne aos atuais esforços de integração imperial européia em torno do pólo carolíngio (franco–alemão) e das relações ulteriores que este pretende estabelecer com a nova Rússia de Vladimir Putin. É o projeto ainda relativamente confidencial, em curso de realização, do eixo transcontinental Paris–Berlim–Moscou. A atual grande política européia é uma política fundamentalmente conspirativa porque todo o conjunto de suas opções operativas maiores se passa numa sombra protegida pelos dispositivos especiais de diversionismo estratégico e desinformação, visando não tanto desviar a atenção dos EUA, mas a mostrar a marcha das coisas de uma maneira desubstancializada, transportada para longe de sua verdadeira realidade do alcance decisivo do processo de integração imperial européia em curso. De maneira que a realidade revolucionária imperial européia não se arrisque a passar por uma provocação abrupta em face (...) (...) Da afirmação revolucionária do grande império eurasiático do fim [ele dá ao império euro-asiático um alcance apocalíptico, é o império do fim. Daqui a pouco veremos a importância disso], processos de integração política subterrânea da França e da Alemanha, chega-se àquilo que Alexandre Duguin chamava “o império franco-alemão”, que deve constituir o pólo historicamente fundamental do imperium ultimum grão-continental euro-asiático, o seu pólo ocidental. O outro pólo, o pólo leste, devendo ser constituído pela Rússia e, por trás da Rússia, pela Índia e pelo Japão. Quando a grande Europa Continental Euro-Asiática estiver pronta, os EUA se encontrarão relegados, por isso mesmo, à situação de uma potência de segunda, talvez mesmo de terceira classe. Aparece, portanto, como inteiramente evidente que o objetivo político-estratégico planetário supremo dos EUA não poderia ser senão o de opor-se por todos os meios ao advento de um império europeu, e realmente por todos meios, incluídos aqueles de uma guerra preventiva, de uma guerra nuclear.” Ou seja, [01:20] já está acusando os EUA antecipadamente de fazer uma guerra nuclear contra toda a Europa e a Ásia para impedir a formação do bloco eurasiano, quando na verdade os EUA estão ajudando pra caramba a formação disso mesmo. “O eixo Paris–Berlim–Moscou representa a nossa batalha decisiva. Por um tempo ainda, a grande política européia continental deverá portanto ser conduzida como uma política de duas identidades: uma falsa política visível e uma realidade revolucionária em ação invisível.” Parece que uma das principais ocupações do governo americano é realmente não enxergar esse processo. Nessa mesma semana havia um virtual candidato a sucessor do Putin, pela oposição, que estava crescendo muito nas preferências do eleitorado. O Putin mandou simplesmente prender o sujeito, fechar o blog dele, acabar com a vida do cara. Nenhum protesto apareceu pelo lado americano. Quer dizer, quanto mais o Vladimir Putin consolida o seu poder por meios totalitários, mais os EUA afagam a cabeça dele; quanto mais a Rússia colabora com o movimento terrorista em toda parte, mais o governo americano trata a Rússia como sendo uma aliada confiável. A mesma coisa com relação ao Paquistão. O governo americano reconheceu que o Paquistão sabia tudo a respeito da localização do Bin Laden, mas na mesma semana se recusou a fazer qualquer pronunciamento contra o governo do Paquistão. “Esse conceito agente de um novo grande destino imperial europeu respondia, ele mesmo, à emergência prevista de uma nova Rússia, considerada, portanto, como o agente revolucionário predestinado das mudanças de ordem abissal que deveriam se produzir [a Rússia é o comandante do processo]. E a nova Rússia, ela mesma, surge através do advento providencial do homem predestinado, do conceito absoluto Vladimir Putin.” Há um outro trecho em que ele diz que o Vladimir Putin é como a encarnação do Cristo Pantocrator (Pantocrator é o governante de todas as coisas). Eu previ que o Vladimir Putin se auto-nomearia czar, mas ele não precisa mais, já virou Deus. “Para além dos caminhos da evolução íntima de uma certa consciência geopolítica final, poderá se encontrar o segredo agente, o segredo vivente da experiência espiritual de ponta, que é a experiência da iluminação dialética que se liga à aparição dessa consciência mesma, experiência espiritual de ponta que se pode ter como a liberação por uma assunção de poder secreto. A grande geopolítica, a geopolítica transcendental é com efeito uma mística revolucionária em ação, que deve desembocar no poder absoluto da consciência sobre a política e, para além da política, sobre a grande História ela mesma.” Ou seja, é uma ascensão do poder gnóstico, que deve se tornar consciente de todo o movimento histórico e ser capaz de controlá-lo na sua totalidade. A história passa a ser um produto do grupo gnóstico. “Se, em última análise, a geopolítica é uma gnose, o que importaria então seria poder revelar também o processo mesmo do nascimento gnóstico, do advento da consciência geopolítica final.” Consciência geopolítica final é aquela então que abarca o espaço planetário inteiro e, portanto, é capaz de controlá-lo. É curioso que, embora a inspiração gnóstica de tudo isso seja aberta, eles estão apresentando aí o novo Império Russo como sendo o agente Deus. “É precisamente aquilo que se chamava o desígnio secreto do imperador, não do imperador de Viena, mas o Imperador dos Céus. O Imperador dos Céus, agindo através de Putin, criará então a fortaleza grão-européia cujo centro de gravidade contra-estratégico se encontra subterraneamente mobilizado pela nova Rússia de Vladimir Putin, cuja predestinação imperial e escatológica final mudará logo a face do mundo e da história.” Isso foi em 2004. Isso quer dizer que aquilo que Mackinder temia, no começo do século, já está realizado: não só um eixo Alemanha-Rússia, mas França-Alemanha-Rússia-China e países islâmicos. Então é isso. Ainda tem muito o que dizer sobre isso, eu posso continuar lendo e comentando o debate, se houver interesse. No § 38, ele havia me acusado de teoria da conspiração. Não precisa responder, porque, ainda que eu invente uma teoria da conspiração, não conseguiria inventar uma tão boa quanto essa. Daí diz ele da elite geopolítico-ocidental: “‘As raízes dessa elite remontam à modernidade européia, ao Iluminismo e à ascensão da burguesia. A ideologia dessa elite é baseada no individualismo e hiper-individualismo. A base econômica dessa elite é o capitalismo e liberalismo, o ethos da elite é a livre competição.’ Em que mundo está o prof. Duguin para afirmar que o ethos da elite globalista, do Consórcio, é a livre competição? Será que ele ignora mesmo tudo a respeito da história dessa entidade? Não sabe que a atividade mais constante dessa elite nos EUA, há pelo menos cinqüenta anos, tem consistido em tentar impor não só à atividade econômica, mas a todos os campos da existência humana, toda sorte de restrições e controles estatais? Não sabe que o conflito básico da política americana é a luta entre as políticas estatizantes impostas pelo establishment e a boa e velha liberdade de mercado tão cara aos americanos tradicionais? Que acompanhe então os artigos de Thomas Sowell, Rush Limbaugh, Michael Savage, Phyllis Schlafly, Star Parker, Neil Cavuto, Larry Elder, Ann Coulter, Cal Thomas, Walter Williams e centenas, milhares de comentaristas conservadores que há décadas não fazem outra coisa senão espernear contra o monopolismo e o estatismo obsediante da elite. Uma coisa é julgar por impressões estereotipadas, outra é acompanhar a luta política no terreno dos fatos. A história do confronto entre conservadorismo e estatismo já foi tantas vezes contada que posso me limitar a recomendar ao prof. Duguin a leitura de alguns livros, bem conhecidos do público americano.” E daí eu dou aqui uma lista de livros: George Nash, The Conservative Intellectual Movement, The Conservative Revolution, de Lee Edwards, etc. Está aqui na nota, vai ser publicado depois. Isto aqui é um ponto importantíssimo: “É verdade que, no plano internacional, a elite defende a liberdade de mercado entre as nações, mas por que justamente desejaria impor no exterior o contrário do que faz em casa? Já no século XIX, um dos mais ardentes defensores da abertura do mercado ao comércio internacional foi Karl Marx, por saber que as fronteiras nacionais eram um obstáculo considerável à expansão do movimento revolucionário. Note bem que a mesma contradição aparente se manifesta na conduta da elite em todos os países: controles estatais draconianos para dentro, liberdade de mercado para fora.” O Brasil é um exemplo característico disso. No Brasil, isso resulta até num paradoxo ainda maior, porque o que ele mais exporta são produtos agrícolas. A exportação agrícola, fomentada justamente pelo agronegócio, é o que está sustentado o Brasil. Ao mesmo tempo, internamente, o agronegócio é tido como o grande inimigo do povo, o grande criminoso que tem de ser extinto de qualquer maneira. Então é uma conversa para fora: vamos exportar os produtos brasileiros, vamos ganhar dinheiro. Para dentro, vamos estrangular quem está produzindo. “Liberdade que, não por coincidência, se restringe ao campo econômico, pois, no mesmo plano internacional, a elite que a propugna vai tratando de estabelecer, através de órgãos como a ONU, OMS, OIT etc., [01:30] toda a sorte de controles estatais globais que abrangem a alimentação, a saúde, a educação, a segurança e, enfim, todas as dimensões da vida humana. Com toda evidência, a liberdade de comércio internacional é apenas um momento dialético do processo de instauração do controle estatal mundial.” Daí prossegue o Duguin: “‘O suporte militar e estratégico dessa elite é, desde o primeiro quarto do século XX, os EUA, e, após o fim II Guerra Mundial, a Aliança Norte Atlântica. Portanto, a elite global, ainda que seja chamada de ‘Consórcio’, é Ocidental e concretamente norte-americana.’ Usar uma nação como suporte estratégico e militar é uma coisa; defender os seus interesses é outra completamente diferente. Conforme já expliquei, o Consórcio incrusta-se no governo de várias nações ocidentais, para poder usar os seus recursos estratégicos e o seu poderio militar para os seus próprios fins, que são geralmente opostos aos mais óbvios interesses nacionais desses países. Que ‘interesse nacional americano’ defendia o Consórcio quando ajudava a URSS — mesmo depois da II Guerra — a transformar-se numa potência industrial militar pronta a ameaçar a segurança americana? Que ‘interesse nacional americano’ defendia quando fez o mesmo com a China? Que ‘interesse nacional americano’ defendem os Soros e Rockefellers quando subsidiam, por toda parte, especialmente na América Latina, os movimentos esquerdistas mais acintosamente antiamericanos? Que ‘interesse nacional americano’ defende o Consórcio, hoje, ao ajudar a Fraternidade Islâmica, a central do antiamericanismo islâmico, a tomar o poder em nações que antes eram aliadas e inofensivas aos EUA?” Deixarei o resto para vocês lerem quando for publicado. É isso aí. Vamos tentar responder algumas perguntas, porque já está tarde. Aqui o prof. Hélio Angotti Neto me envia um projeto de um trabalho para o final do nosso curso. Eu não vou poder ler esse projeto agora, mas certamente é uma coisa interessante. Chama-se “Pensamentos e Conflitos: o debate e as formas de discurso como meio de acesso à vida intelectual”. Eu vou ler e, na semana que vem, nós comentamos. Aluno: Eu e outro dez colegas do Curso Online de Filosofia, aqui em Brasília, formamos um grupo de estudos de História e Literatura, seguindo a orientação do Instituto Olavo de Carvalho–Curitiba, quanto aos métodos e à bibliografia. Gostaria de pedir-lhe para informar durante a aula, se possível, caso haja outros alunos em Brasília que queiram informações a respeito ou tenham interesse em participar, que podem entrar em contato com Carlos Rabello [pelo] e-mail carlitos_rabello@yahoo.com.br ou comigo [pelo e-mail] jussabreu@hotmail.com. Temos nos reunido às quartas-feiras, às 20:30h. Na próxima semana ocorrerá a nossa quinta reunião. Estamos atualmente estudando a Poética de Aristóteles (...) Olavo: O estudo de literatura tem de começar pela Poética de Aristóteles. Aluno: (...) conforme as suas orientações de leitura lenta, para que, com base nos princípios por ele apontados, alcancemos maior inteligibilidade na leitura das obras literárias. Quanto aos estudos históricos, fiquei incumbida de apresentar a História da Rússia. Todavia, estamos sem referência bibliográfica confiável sobre o assunto. Por isso gostaria de saber que obras o senhor recomenda. Olavo: Existem várias. Existe a famosa clássica História da Rússia do Vernadsky — existe uma tradução inglesa — e existe uma História do Império Russo, por Hélène Carrère d'Encausse. Eu não sei se isso tem tradução inglesa, mas o original é francês. Pode-se começar por aí, depois podemos indicar outros livros. Tem muitos aqui pedindo indicação de livros. Aluno: Estou lendo Charles Sanders Peirce. Como o senhor classificaria o pensamento dele na História da filosofia? Olavo: Eu escrevi um artigo sobre o Charles Sanders Peirce. Eu fiz uma aposta com um sujeito que eu resolveria o problema da filosofia do Charles Sanders Peirce em vinte linhas. Resolvi em um pouco mais. Está no livro O Imbecil Coletivo. Eu acho que a proposta pragmatista de suprimir a idéia de uma representação e tratar os conceitos como se fossem apenas projetos de ação, ela é inviável já suas próprias bases. Quer dizer, já na sua própria autodefinição, ela tem de recorrer à representação objetiva de alguma maneira. Porque senão nós já começamos com a pergunta: Um momento, o pragmatismo é realmente isso ou isso é apenas um projeto de ação? Quando você diz que não existe representação objetiva, que existem apenas planos de ação, isto que você está dizendo é também uma representação objetiva ou um plano de ação? Ou seja, não há representações objetivas ou você pretende fazer com que elas cessem de existir? E assim por diante. Quer dizer, é uma cobra que se morde pelo próprio rabo. Então isso aí só pode gerar confusão. Aluno: Você poderia recomendar alguns bons livros sobre a História da I Guerra Mundial? (...) Olavo: Eu acabei de ler um livro excelente que é o do Patrick Buchanan, que chama Uma Guerra Desnecessária (Unnecessary War). Não deixe de ler este livro, é muito importante. Ele trata na verdade da Segunda Guerra, mas todo o começo é sobre a Primeira, começando ali com a discussão justamente disso que nós estávamos falando sobre o “Grande Jogo”. Os livros sobre o Grande Jogo são muito importantes para entender a Primeira Guerra Mundial, um dos quais vou recomendar para você agora já. Está aqui: Tournament of Shadows: The Great Game and the Race for Empire in Central Asia. O autor é Karl E. Meyer. Aluno: (…) [01:38:22] Como estou há algum tempo lendo Shakespeare, e Lings e Yeats afirmam o conhecimento deles do ocultismo, o senhor acha que poderia ser útil a leitura das obras desses ocultistas? Olavo: Talvez não imediatamente. A melhor coisa para entrar nessa área é estudar bastante o René Guénon, porque a revisão crítica que ele faz desse ocultismo é muito boa, embora ele tenha algumas agendas secretas que comprometem o conjunto. Aluno: Hoje o José Castello comenta, no Caderno Verso & Prosa, sobre Avicena, o Livro da Alma. Ele diz que Avicena entrou para a história como quem tentou, no século X, reconciliar as duas grandes correntes de filosofia, Platão e Aristóteles (...) Olavo: Isto não é muito exato porque, antes dele, isso já tinha sido feito por Al-Kindi. Quer dizer, a grande conciliação Platão-Aristóteles é uma obra de Al-Kindi. Avicena não tinha muito o que fazer, não. Aluno: O livro do Patrick Buchanan saiu em português (...) Olavo: Saiu em português? Com que título? Aluno: (...) Churchill e Hitler, a Guerra Desnecessária. Olavo: O livro é muito bom, sobretudo a parte referente à Primeira Guerra Mundial. O começo do livro é espetacular. [01:40] Vamos ver o que mais nós temos aqui. Tem umas perguntas da semana passada. Aluno: Os comentários da resposta ao prof. Duguin, colocados no contexto de que como funcionam as ferramentas filosóficas na prática, valem um livro. Não seria interessante de fato fazer tal obra? O livro, incluindo o debate na íntegra, os comentários feitos aqui no Curso e uma análise sobre ferramentas filosóficas, retóricas e erísticas usadas, além de notas bibliográficas e referências.(...) Olavo: De fato eu estou fazendo isto. Não necessariamente com o propósito de fazer um livro, mas pelo menos de tampar os vários aspectos. Por exemplo, esse trabalho sobre o Alexandre Duguin e a Guerra dos Continentes, eu achei que era retaguarda sem a qual o debate ficaria meio no ar. Como, nas respostas que ele dá, ele não está expondo os seus planos, a sua doutrina como um conjunto, ele está apenas falando de certos pontos separados, eu vi que se nós não dermos uma exposição da doutrina Duguin e das suas origens e propósitos, muita gente não vai entender o debate. Então eu comecei a escrever essa coisa, que já está com mais de vinte páginas, e provavelmente vão outras mais vinte. Quer dizer, se somar isso com o debate, vai para umas duzentas páginas. Então já é um livro de alguma maneira. Certamente vamos fazer isso. Aluno: (...) No conjunto consigo visualizar uma obra certamente volumosa, de valor didático extremamente prático e mantendo a ironia fina dos saudosos imbecis coletivos. Pensei até em utilizar tal idéia como algo para o fim do Curso. Olavo: Se é que eu entendo, você faria uma espécie de edição crítica do debate e desses materiais, juntando tudo pela ordem, e comentando, e colocando algumas notas, e expondo as ferramentas filosóficas, retóricas e erísticas utilizadas. Eu acho que se você fizer isso, você será um benemérito, mas dará um trabalho miserável. O próprio texto do debate e mais esse estudo sobre a guerra dos continentes já é uma monstruosidade. Eu acho que se você quiser fazer uma espécie de comentário metodológico à coisa, eu acho de um valor didático enorme. Aluno: Qual é o interesse da Corporação na III Guerra Mundial objetivada por Duguin? Pergunto isto porque o senhor disse anteriormente que a turma do Rockefeller não deve dormir direito, pensando em como equacionar a demolição da soberania americana com a manutenção da única base de poder militar que esta mesma turma possui, ou seja, as Forças Armadas americanas. Acrescento a isso o fato de que Obama — fato denunciado por Jeffrey Nyquist — vem desmantelando o sistema de mísseis nucleares americanos. O senhor não acha que, no fim das contas, o pessoal da Corporação está buscando a morte? Olavo: A mim, às vezes, parece-me que sim. Isso é uma espécie de conspiração de autoliquidação. A proposta deles de criar um governo mundial através de truques administrativos, comparada com o projeto do Duguin, é como você estar tentando lutar com cuspe e outro vem com um tanque de guerra. O projeto euro-asiático é imensamente mais abrangente e mais perigoso. Não me parece que o pessoal da Corporação esteja entendendo o que o Duguin está fazendo. Tanto que, buscando aí o único sinal de uma abordagem mais séria do Duguin, foi esse trabalho dessa dona Marlene Laruèlle, apresentado no Woodrow Wilson Center, que é um órgão do Consórcio aqui, e não me parece que ela esteja entendendo a coisa toda, porque, ao definir o duguinismo como um movimento de direita, ela desfigura tudo. O Nyquist chamou o duguinismo de bolchevismo de direita. Também se poderia chamar de tradicionalismo de esquerda, porque ele é exatamente o cruzamento dessas duas coisas em torno de um conceito que é o poder do Império Russo. Quando ele fala “Império Eurasiano”, ora, é uma maneira de dizer. Na verdade é o Império Russo. Veja: se você descreve a luta mundial como um conflito de potências “terrestres” contra potências “marítimas”, o que aconteceria se as potências terrestres vencessem? Elas automaticamente se tornariam potências marítimas. E se existe uma ligação intrínseca entre atlantismo (poder marítimo) e livre comércio, liberalismo etc., como é que o império terrestre ia fazer depois? Quer dizer que, se de fato existe a distinção entre impérios terrestres e impérios marítimos – e ela existe –, então a existência dos dois, ora em antagonismo, ora em colaboração, é uma condição absolutamente necessária para subsistência da espécie humana. Agora, se um mesmo império se torna terrestre e marítimo ao mesmo tempo, como ele vai se organizar economicamente? Ele vai ser uma estrutura guerreira aristocrática, centralizada e hierárquica? Ou vai ser um liberalismo? Ou vai misturar as duas coisas como na China? Então me parece que a tendência natural seria isto: você teria um capitalismo embaixo e um socialismo em cima. As idéias do Duguin com relação à organização do mundo, após a vitória eventual do império terrestre, às vezes me parece de uma comicidade extrema. Por exemplo, como é que você vai fazer com as várias identidades étnicas? Ele diz: “Nós vamos resolver da seguinte maneira: a representação parlamentar não será por região nem por número de pessoas, será representação étnica”. Então quais etnias serão reconhecidas como existentes e quais apenas como partes ou expressões de outras etnias? A confusão já começa aí. Como será a proporcionalidade na representação étnica? Aparece, por exemplo, a tribo Nambiquara e diz: “Eu quero ter uma representação étnica aí”. Quantos deputados tem a tribo Nambiquara? Quer dizer, é uma coisa absolutamente louca. É o mesmo multiculturalismo que já existe aqui praticado no Ocidente transformado numa fórmula legal e na estrutura do parlamento. No aspecto econômico, como vai ser a organização econômica? Daí ele diz o seguinte: “Nós teremos o monopólio estatal nos setores estratégicos e ampla liberdade para pequeno e médio comércio”. Ele não fala nem pequeno, médio e tudo, “pequeno e médio comércio”. Mas isto aí é exatamente o que existe em Cuba. O governo domina tudo e tem o pequeno e médio comércio que pode funcionar. Economicamente, isso é evidentemente um socialismo, e se parece muito com o regime chinês. Parece muito, também, com o que está sendo implantado na Europa, e até nos EUA. O avanço do monopólio estatal aqui é um negócio fantástico. Veja, por exemplo, que até a solução de problemas estratégicos básicos dos EUA está sendo travada pelo monopolismo estatal. Por exemplo, os EUA têm mais reservas de petróleo que o Oriente Médio inteiro junto e talvez mais que a Rússia, mas não se pode perfurar para tirar uma gota de petróleo. Isso aí permite que os países islâmicos e a Rússia sejam os grandes fornecedores de combustível para a Europa, de tal modo que, se o Putin fechar o gasoduto, a Europa acaba. Ele tem praticamente o monopólio do fornecimento de gás para a Europa. Quer dizer, tudo o que o Consórcio está fazendo fortalece esse grupo Eurasiano. Eu ainda não sei e não tenho condição de averiguar se é burrice ou se é uma aliança secreta. Não dá para saber. Essas coisas nós descobrimos vinte anos depois. Veja, eu também não tenho nenhuma pretensão de dar uma explicação global da coisa, eu simplesmente vou pesquisando até onde é possível. E note bem: isto não é trabalho para um só. Aliás, sobretudo nessa fase, eu estou trabalhando aqui num regime inumano: ao mesmo tempo eu tenho de tocar esse negócio do debate com o Duguin, dar as explicações sobre a doutrina do Duguin, escrever dois artigos por semana, dar um curso de metafísica no fim do mês, fazer duas viagens (uma para a Colômbia e outra para a Romênia, para fazer conferência), ir para a Flórida fazer uma outra conferência. Quer dizer, é uma coisa de louco. E ainda com o programa semanal. E as pessoas ainda reclamam quando falha em alguma coisa. E tudo isso tendo aqui uma assessoria muito limitada. Aqui temos o Alessandro e a Isabela, mas a Isabela está aí cuidando do Jimmy. Eu não posso botar o Jimmy para trabalhar. E isso é tudo o que nós temos aqui. E ainda tem o Moreno aí também que está ajudando com a parte de computação. Mas para isso precisava ter uma equipe organizada. Então a coisa já transcendeu a minha capacidade. Mas nós estamos fazendo o que pode. Então, gente, por hoje é só. Até semana que vem. Muito obrigado. Transcrição: Jussara Reis Revisão: Marcela Andrade