Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 102 16 de abril de 2011 Nós temos aqui algumas perguntas do Alessandro: Aluno: A pergunta começa com uma lembrança que tenho de uma explicação da situação da universidade medieval e da escolástica: o que garantia uma honestidade e moralidade entre os filósofos medievais era o fato de que eles tinham a prática religiosa da confissão. Agora há pouco você estava comentando a respeito da comunidade científica moderna como sendo basicamente constituída de pessoas que cometem fraudes. A minha pergunta é se não foi justamente quando a comunidade científica e filosófica, a comunidade intelectual, se desligou da Igreja ou perdeu a prática da confissão e, portanto, não tinha mais como ter esse contato consigo mesmo honestamente, isso não está na raiz de toda essa falsidade da ciência moderna e da filosofia moderna? Olavo: O Robert Sungenis cita uma pesquisa de que entre os cientistas, de modo geral, existem quarenta por cento de pessoas crentes (católicos, protestantes, judeus...), mas que entre os cientistas formadores de opinião — que estão na mídia e que aparecem na televisão —, o índice baixa para dez por cento. Isto quer dizer que a classe científica tem essas duas características fundamentais: (a) nos seus representantes mais notórios ela é ateística, militante, e (b) ela está infestada de vigaristas, trapaceiros etc., num nível que a população em geral desconhece. No próprio livro do Sungenis existem centenas de depoimentos de cientistas que observaram isso e ficaram chocados; e outros depoimentos de fulanos que confessam as suas próprias fraudes com um cinismo absolutamente estarrecedor. O problema da fraude científica, que até uns vinte anos atrás era coisa mais sabida no âmbito dos próprios profissionais e não muito visível para o povo, começou a se tornar visível. Isto porque as fraudes se multiplicaram, e quando se chega ao ponto de a revista Lanced (revista médica mais respeitada do mundo) começar a aceitar dinheiro para publicar esse ou aquele trabalho, então está tudo perdido. A pergunta é se a própria disseminação do ateísmo dentro da classe científica não produziu isso. A pergunta pode ser transformada em outra formula: da onde vem o padrão de moralidade que forma a mentalidade dessas pessoas? Ao quê elas são fiéis? Qual é a autoridade que existe acima delas; autoridade à qual elas prestam obediência? Algumas aulas atrás, no Seminário de Filosofia, eu expliquei como a profissionalização da atividade filosófica contribuiu muito para a sua decadência, porque na medida em que o filósofo deixa de ser um indivíduo que fala em seu próprio nome e passa a ser um profissional, ou seja, um papel social que fala para outros papeis sociais, o nível de comprometimento do sujeito com o que ele está dizendo baixa. Se ele pode dizer coisas nas quais só acredita profissionalmente, mas que pessoalmente ele não acredita, é claro que o nível de responsabilidade vai baixando, e o próprio senso de integridade da consciência vai sendo diluído. Quer dizer, o cara se acostuma com a língua dupla ou tripla ou quádrupla. Isso de fato aconteceu já na formação da Universidade medieval, porém não chegou a ter conseqüências desastrosas. Por quê? Porque eram todos católicos praticantes, e estavam acostumados com a confissão e, portanto, com o exame de consciência. Claro, a prática do exame de consciência depois se perdeu completamente. Hoje em dia confissão é praticamente um formalismo. Não implica um exercício de autoconhecimento. Eu ainda me lembro no livro do Adolph Tanquerey, sobre teologia ascética: ele apresenta a fórmula do exame de consciência; fórmula composta por cem perguntas para o indivíduo fazer para ele mesmo (será que eu fiz isso? Será que eu pensei aquilo? Será que minha intenção foi aquela?). Isto é, buscar um autoconhecimento objetivo, uma rememoração correta das coisas, você era obrigado a saber quem ela é. À medida que esta prática foi se perdendo começou a auto-indulgência; o indivíduo se permite fazer certas coisas porque ele não tem que prestar satisfação nem perante sua própria consciência, quanto mais perante Deus. Não era tanto o sacramento da confissão, mas a prática do exame de consciência. Na medida em que isso vai desaparecendo, então começa a surgir outro tipo de intelectual que, se não tem de prestar satisfações perante o tribunal da sua própria consciência, pode trapacear consigo mesmo; e se pode trapacear consigo mesmo, muito mais o fará com os outros. Começa então toda uma política de fingimento. Ao mesmo tempo, na entrada da modernidade, vemos um florescimento da arte do teatro. Existiu também o surgimento dos intelectuais palacianos, que já não eram uma classe profissional, mas era uma classe de protegidos, uma classe de mignos, como se diz nos EUA, os queridinhos dos ricos. Então surge também toda aquela série de regras de conduta que se destinam a fazer o cortesão perfeito, e tudo isso é baseado na aparência e não na realidade; então se cria uma atmosfera de uma falsidade, uma hipocrisia que Thomas More, por exemplo, se queixa de que não aguenta mais. Ele era um cortesão, um homem da nobreza, mas ao mesmo tempo era um santo da Igreja. Então ele tinha de frequentar esse meios da alta politica, e ele vomitava diante da tamanha falsidade deles. Quanto mais mentiroso fosse o sujeito, mais vai seria acreditado. As pessoas acreditam não apesar de ser mentira; acreditam por que é mentira. Então é claro que a degradação moral da classe intelectual se reflete também na prática da trapaça dentro das suas próprias obras. Mais ainda: como na nova classe de intelectuais muitos indivíduos pertencem às sociedades secretas, eles são obrigados a praticar a língua dupla. Quer dizer,cria-se uma espécie de ascetismo do mal: se antes eles tinham obrigações perante Deus, tinham de se autoconhecer, tinham de praticar aquele tipo de humildade que é simples conhecimento da realidade, admissão da realidade, agora a obrigação se inverte: têm a obrigação de mentir,de fingir, de ter uma conversa para fora e outra conversa para dentro. E isto já está na própria constituição da nova classe intelectual, e, portanto, já está na constituição das ciências. Isso se manifesta no seguinte fato: todas as novas teorias e investigações que começam a florescer então têm inspiração esotérica (especialmente platônico-pitagórica) ao mesmo tempo em que aparecem em público como se fossem investigações puramente científico-materialistas experimentais. [00:10] Cria-se ao mesmo tempo um florescimento esotérico e a proibição do esoterismo em público. A concepção mesma da ciência moderna como sendo baseado na articulação entre razão e experiência já é falsa na base. Não houve nenhuma intenção de fazer isso. Ao contrário: houve uma intenção de inocular nas altas esferas intelectuais uma herança esotérica que estava abafada por causa da Igreja; e inoculá-la de maneira tão camuflada que parecesse exatamente o contrário. Isso em Galileu e Newton é notabilíssimo. Não é somente o fato de que esses indivíduos fossem — como se pode imaginar erroneamente hoje — cientistas no sentido moderno da coisa, ou seja, inteiramente materialistas, experimentalistas, racionalistas, e que nas horas vagas se ocupavam de alquimia, bruxaria... Não: uma coisa está profundamente articulada à outra. Tratava-se de dar uma visão do mundo que fosse, na sua essência, pitagórica, isto é, modelada sobre a ideia de que os números e as propriedades matemáticas são a essência da realidade, concepção que permite as maiores extravagâncias. Concebe-se o mundo mediante um modelo matemático, e depois se faz um arranjo para mostrar, de forma aparente, que as coisas se dão assim na realidade. Este é o caso especificamente de Galileu. Para dizer a verdade, ele jamais realizou um único experimento. E quando realizou estava errado. Os experimentos dele eram todos imaginários, concebidos de acordo com um modelo matemático prévio. Newton fazia a mesma coisa. Então há uma espécie de invasão do esoterismo. E quanto mais esotérico, isto é, quanto mais isso está associado a crenças e práticas ocultistas (às vezes de grande antiguidade) mais camuflado aparece, e mais rigidamente se impõe o modelo (ou travesti) com a camuflagem da ciência como uma atividade puramente composta de racionalidade e empirismo. Isto quer dizer que a fraude estava na base d atividade científica, ela não é uma distorção dessa atividade. A própria atividade científica é concebida como fraude desde a sua origem. Por exemplo: a Royal Society, que era uma sociedade internamente esotérica, externamente era puramente racionalista e científica. A idéia da ciência puramente racional e baseada em fatos foi uma camuflagem desde o início. Sem isso não teria sido possível esta epidemia de fraudes. Se houvesse alguma intenção sincera de montar a ciência nessa base, então eles teriam que, de cara, abdicar das suas crenças esotéricas, primeiro, e não somente abdicar da teologia, do dogma cristão etc.; dogma que no mínimo tem uma estrutura muito mais racional do que as sociedades esotéricas. Mais ainda: uma coisa que só vai se tornar clara no século XX, com o nosso Mário Ferreira dos Santos, é que toda a herança pitagórica que esses camaradas pretendiam impor como fonte de uma nova civilização (todos eles tinham essa ideia muito clara: criar uma nova sociedade, uma nova civilização, em bases totalmente diferentes da sociedade cristã), todos eles se baseavam numa interpretação infantil do pitagorismo, compreendendo os números somente no seu sentido quantitativo, e não os números como formas lógicas. Isto praticamente nenhum entendeu. Eles entendiam os números, sobretudo, como expressão da medição. O que é o sistema de Newton? É um sistema de medições que mostra o Universo como uma máquina, um sistema mecânico, cujo funcionamento é explicado inteiramente pelas suas medidas e proporções internas. Mas acontece que medida é comparação de uma coisa com outra; e quando Pitágoras falava que os números são o segredo da verdade, ele se referia, sobretudo, ao número como expressão da forma interna dos objetos, ou da sua forma substancial; quer dizer, o numero é um símbolo condensador de uma forma substancial. Neste sentido, se cada ente tem uma forma substancial interna, esse ente é constituído de uma série de tensões internas que, idealmente, podem se expressar numa fórmula matemática. Mas se a idéia da forma interna é esquecida e, ao contrário, as formas substanciais são substituídas por medições externas (nessa época houve a eliminação da ideia de forma substancial), então o que sobra é um mundo irreal, um mundo de puros modelos matemáticos que se sobrepõem ao mundo da experiência real e o sufoca. Então, é claro que tudo isso foi fraude desde o início. Não há nem meia justificativa racional para fazer tudo isso. É realmente o interesse de sociedades esotéricas e secretas que queriam criar uma nova casta sacerdotal, constituída deles mesmos, e impor as suas crenças ao mundo. Com o tempo esse elemento de desonestidade, que é inerente à ciência moderna, vai crescendo até o ponto em que não sobra mais nada. O simulacro de racionalidade se tornou mais ou menos com o antigo culto romano: os sacerdotes romanos, quando faziam os ritos, olhavam um para o outro e piscavam, o que queria dizer “Estamos enganando os trouxas”. Eles não acreditavam numa palavra do que estavam falando, e hoje em dia quando vemos esse imenso sistema de interesse políticos, econômicos, sociais que determina o rumo das ciências, percebemos que a ideia da ciência como compreensão racional de fatos objetivos é somente uma camuflagem. E hoje em dia essa camuflagem já não funciona mais. Ela funcionou durante muito tempo. Kant, no século XVIII, ainda acreditava que o universo newtoniano era a pura realidade. O parâmetro de realidade para ele era o mundo de Newton. Mas hoje em dia Newton já foi para o brejo, Einstein já foi para o brejo, e a Mecânica Quântica é um mar de irracionalidade, em que os cientistas observam alguns fatos e notam que eles são repetíveis; observam, mas não têm a menor ideia do que está acontecendo. Então, a ideia de uma explicação racional da realidade se substituiu à criação de modelos arbitrários. A técnica do Galileu de inventar um mundo, bom... Agora eles têm milhões de mundos, milhões de modelos do Universo concebidos conforme a cabeça deste ou daquele cientista. Cada um dos modelos só se sustenta na base de excluir os fatos que o contradizem, e cada grupinho se apega à sua concepção até o momento em que o volume de fatos antagônicos se torna grande demais, o que exige um novo paradigma. Thomas Kuhn, na Estrutura das Revoluções Científicas, mostra que é exatamente assim que funciona. E as pessoas já aceitaram isto. Por exemplo: o que é a obra do Karl Popper? É uma sistematização disto que eu estou falando: os nossos paradigmas são arbitrários, nenhum pode dizer que é verdadeiro, e nós só mudamos de ideia quando o número de fatos antagônicos se torna vistoso demais, ou seja, quando o vexame começa a aparecer demais, aí consentimos em mudar um pouquinho. Mas em geral só muda quando morre o defensor da teoria anterior. Max Planck já dizia que a ciência avança de funeral em funeral: morreram os defensores da teoria antiga, então se pode fazer uma teoria nova. [00:20] Mas hoje em dia já tem a defesa contra o funeral, quer dizer, o sistema da profissão científica já se garante contra a possibilidade do antagonismo: há um sistema de pressões, de intimidações, de boicotes, de demissões etc, e para o indivíduo subir na carreira (ou pelo menos permanecer na carreira) ele vai ter de aceitar muitas mentiras convencionais e dizer que aquilo é pura ciência. Isso é geral hoje em dia. E um dos motivos pelos quais isso acontece é a própria fraude originária das ciências. Outro motivo é o da pergunta inicial da aula de hoje: qual é o padrão de moralidade, portanto qual é o padrão de integridade intelectual que existe? Dizer que a ciência é fiel à razão e aos fatos é uma explicação circular, porque ela se auto-define como investigação racional dos fatos. E qual é o padrão de honestidade e integridade ao qual a ciência tem de prestar obediência? A própria investigação racional dos fatos é o padrão. Então é como se disséssemos: a ciência, qualquer que seja o conteúdo dela, é a única fiscal de si própria; não existe nada acima dela. Ora, o que é investigação racional dos fatos? É uma capacidade que qualquer ser humano tem. Nasce com essa capacidade. É só treinarmos um pouquinho para a desempenharmos. Então, o indivíduo que está nominalmente praticando a investigação racional dos fatos e que está adotando como padrão da sua integridade intelectual a própria investigação racional dos fatos, está tomando como padrão supremo de integridade uma destas duas coisas: ou ele próprio, ou a comunidade científica em geral, ou seja, a opinião da maioria, a pressão da maioria. Ora, é claro que isso é muito baixo como padrão de moralidade, porque, por um lado o critério é “o rei sou eu, o que eu inventar tem de valer”; e por outro lado existe a pressão dos colegas, o puxa-saquismo e, em suma, o Imbecil Coletivo (definido como várias pessoas de inteligência normal que se reúnem com o propósito de se imbecilizar umas às outras, mediante intimidação, pressão, chantagem, dinheiro etc.). É por isso que existe o seguinte fenômeno descrito por um astrônomo francês cujo nome esqueci: existem dois tipos de cientista: aquele que inventa um mundo inteiro, faze os cálculos e baixa o mundo, isto é, o sujeito ousado cuja imaginação não tem limites; ele concebe um modelo do universo e quer impor aquilo. E existe outro tipo que é assim: se a casa está pegando fogo, ele se recusa a sair dali porque não há provas suficientes de que a casa está pegando fogo. O primeiro reflete a tradição racionalista: a pura razão, independentemente da experiência, manda; uma espécie de Spinoza hiperbólico. O segundo reflete a tradição experimentalista ou empirista,. Quer dizer, ou o cientista tem uma certeza psicótica, ou é uma incerteza igualmente psicótica; ou as ideias mais arrojadas e estúpidas são proclamadas como verdades definitivas, ou os fatos mais óbvios são negados, seja por que eles não são em número suficiente, seja por que a mente do cientista é vacilante demais para aceitá-los. Por exemplo: esse negócio do Big Bang: nós vamos inventar um mundo que apareceu sem Deus. Então ele apareceu do Nada, por sua própria força. Então o mundo criado pelo Big Bang é a autoridade suprema. Agora, como apareceu o Big Bang? Apareceu por causa das leis da física. Mas então as leis da física antecediam o Big Bang. E mais ainda: é possível as leis da Física sem as leis da aritmética elementar? Não. É possível as leis da aritmética elementar sem as leis da lógica? Não. É possível as leis da lógica sem as leis da ontologia? Não. Então na hora que o sujeito diz que o mundo se fez a si próprio tomando como base as leis da física, ele está dizendo que o mundo se fez a si próprio baseado numa coisa que o antecedia, e que não era ele próprio, e que é no fim das contas a totalidade da razão, ou seja, a Razão Divina. Não tem escapatória. Agora, sobre a idéia de uma coisa que se gerou a si mesmo a partir do nada... Os caras propõem isso, e em seguida eles confessam: “Bom, foi a partir do Nada fisicamente falando, mas tinha as leis da física antes”. Então ou o que essa pessoa está propondo é uma estupidez, ou está confessando que o que propõe se baseia numa outra coisa que é ela mesma está negando. Quando chega a esse ponto não tem mais controle nenhum, não há controle racional possível de uma coisa dessas. Como a mentalidade científica é tida como um verdadeiro sacerdócio, a classe científica é tida como o juiz último da realidade ou falsidade das coisas, e não há autoridade superior a da ciência - mas por outro lado a ciência está completamente perdida dentro dela mesma –; e como ela se impõe, ou na base de criar modelos absurdos, ou de negar fatos óbvios, então é claro que isso tudo se transpõe também para a sociedade em geral. As pessoas são educadas para serem assim. A facilidade que as pessoas têm de crer em certas coisas simplesmente por que foram afirmadas pela mídia em geral, e ao mesmo tempo a capacidade de negar qualquer fato óbvio, provado, por que não está na mídia, essa situação foi criado pela ciência. Um modelo científico impõe às pessoas aquele duplo modelo, o do racionalista hiperbólico que inventa o mundo da sua própria cabeça e o do empirista vacilante que não é capaz de reconhecer que as galinhas botam ovos, e que as vacas dão leite porque não há provas suficientes. O duplo mecanismo de afirmar falsidades arrojadas e negar fatos óbvios na base da hesitação e do simulacro de prudência científica tornou-se o mecanismo usual de pensamento para a maior parte das pessoas (ao menos para aquelas que receberam este malefício imensurável chamado educação). As pessoas que não têm educação continuam raciocinando como a humanidade sempre raciocinou, porque para elas não existem nem o instrumento de negar fatos e nem o instrumento de afirmar teorias sem base. Agora, no caso da intelectualidade medieval, na medida em que era aceito a existência de uma inteligência transcendente que sabe toda a verdade (verdade que jamais será conhecida e à qual é preciso prestar satisfação) então a ideia mesma de transcendência, pelo simples fato de ser acreditada, faz com que a alma do indivíduo esteja permanentemente aberta para um conhecimento superior que pode vir a qualquer momento. Nesse caso não tem como fechar-se num esquema definitivo. O simples fato de o sujeito reconhecer que Deus sabe mais o coloca numa posição de extrema modéstia. Perceba: nenhum filosofo medieval e nenhum filósofo de verdade jamais tentou criar um modelo completo do Universo. Eles colocam certos pontos de referência que são somente para a sua orientação imediata. E com relação à totalidade o que é que eles fazem? Eles se referem à ela de forma simbólica (que é o máximo que nós podemos fazer). Nós não podemos criar um modelo literal do universo, mas nós podemos criar imagens poéticas que permitam que nós nos orientemos na experiência real sem nos perdermos muito; imagens que ao mesmo tempo, por serem simbólicas, preservam a abertura da nossa alma, porque Deus sabe mais e a qualquer momento Ele pode, através do Espirito Santo, revelar mais alguma coisinha para você. Essa perspectiva foi completamente perdida na modernidade. [00:30] Então como se preparar para uma atividade científica quando é esse tipo de abertura que se tem para a transcendência? Prepara-se sabendo que só vai se descobrir um pouquinho, e que esse pouquinho pode dali cinco minutos se revelar como um fragmento apenas, sem maior importância além daquela para quem o descobriu, mas que no conjunto é quase nada. Por outro lado, tem-se a confiança no conhecimento, porque existe também a confia na inspiração do Espirito Santo. O Espirito Santo não nos engana, mas Ele jamais prometeu nos ensinar tudo. Nessas circunstâncias o domínio que se tem da verdade é ocorre dentro das limitações do que é natural para um ser humano, e em volta da verdade dominada intelectualmente percebe-se a verdade que está insinuada nos símbolos, nos ritos, nas preces etc.; verdade que é, por assim dizer, uma aura infinita e ilimitada. Essa perspectiva foi completamente perdida pelos cientistas, já a partir de Newton. Este oferece um modelo definitivo das coisas. Veja: a presunção de Newton era fundar uma nova religião; era isto que ele queria - que tivesse o culto da unidade absoluta e eliminada a Santíssima Trindade. Então ele se considerava um profeta. O fato de não ter conseguido fundar religião nenhuma já mostra que tudo que ele fez é uma palhaçada. E chega a ser cômico que as pessoas queiram justificar toda essa trapaça alegando: “Ah, hoje nós temos Aspirina, nós temos antibióticos, nós temos computadores, nós temos aviões etc”. Isto quer dizer o seguinte: essas pessoas se contentam com brinquedinhos. Qualquer um que diga isso mostra que não tem nível intelectual para discutir o assunto. Eu estou procurando a verdade e ela me vem com brinquedinhos e quer que eu me contente com isso? Quer dizer: não estamos entendendo nada da constituição do universo, mas para compensar podemos tomar um avião e ir para o Japão, ir à China, ir a Zâmbia... E podemos curar nossas dores de cabeça. Bem, foram criadas uma série de confortos físicos, sem sombra de dúvida. Mas o conforto físico pode ser um grande consolo para o burguês que quer somente isto. Mas para o homem que está em busca da verdade isso é até um insulto. É como se dissessem: “O que você está querendo (a verdade) você não vai obter, mas toma lá uma Aspirina, toma lá um antibiótico, toma lá uma camisinha Johnson & Johnson”. Quando as pessoas alegam as conquistas tecnológicas, elas não percebem a baixeza do que estão fazendo e não percebem a prova da sua total inépcia para uma discussão científica. Daí o sujeito diz: “Ah, você está falando isso, mas na hora que você precisa você corre para a tecnologia moderna”. E ele eu responderia: em primeiro lugar, o que tem uma coisa a ver com a outra? E em segundo lugar, a confiabilidade dessa tecnologia, em muitos casos, é também ela duvidosa. Por exemplo: as pessoas dizem que o cigarro mata quatrocentas mil pessoas por ano nos Estados Unidos, o que é absolutamente falso. Mas é certo que a medicina mata um milhão. Quero dizer: a minha confiabilidade na tecnologia moderna também não é grande coisa. Não nego a utilidade de todos esses avanços, mas não há um só deles que não traga efeitos colaterais; e efeitos às vezes mais desastrosos do que os males que o avanço em questão visava combater. Por exemplo: quem quer que tenha comprado um computador achando que iria facilitar as suas tarefas não tinha ideia de que um computador iria lhe impor uma série de tarefas que comeriam o seu tempo, muito mais do que os meios técnicos que ele usava antigamente. Antes de existir e-mail as pessoas eram protegidas de certas mensagens; ninguém recebia quatrocentas cartas por dia. E se recebesse sabiam que não tinham a obrigação de lê-las. Mas hoje qualquer pessoa pode ser bombardeada por e-mails até o ponto de, se ela for ler tudo, ficar paralisada só fazendo isso o dia inteiro. Eu, por exemplo, recebo quatrocentos e-mails por dia. Não é que eu não possa ler quatrocentos e-mails por dia: eu não posso ler uma lista de quatrocentos títulos de e-mails por dia. Então o que eu faço? Eu leio e respondo arbitrariamente. E pergunto: não era esse instrumento que iria me dar mais controle da minha situação? Não, não era. Agora está totalmente descontrolado. O sujeito pode me mandar a mensagem mais importante do mundo (por exemplo: ganhei na loteria dois bilhões de dólares) e eu me esqueço de ler a porcaria do e-mail. E o outro vem apenas com uma encheção de saco e eu leio o e-mail. Ninguém tem controle sobre isso. É por isso que o avanço tecnológico está muito ligado ao aumento da angústia, à debilitação da personalidade humana, e à criação de gerações e gerações de pessoas cada vez mais incapacitadas. Isso é uma experiência que eu tive na minha própria profissão, o jornalismo. Não só no jornalismo, mas na indústria gráfica também. Eu trabalhava nas duas. Quando se tem uma técnica anterior, existem profissionais que têm ampla experiência dela. Por exemplo, no tempo em que se fazia jornal com linotipo, com chumbo, os gráficos eram pessoas altissimamente qualificadas. O jornalista que desenhava, que planejava o jornal era freqüentemente humilhado pelos gráficos. O jornal era planejado, mandado para gráfica, e o gráfico dizia ao jornalista: “Você não entende nada! Não é assim que se faz!”. E a gente tinha de engolir aquilo. Nós que éramos o senhor doutor jornalista, pessoas letradas, chegávamos lá no “proleta” e ele nos humilhava porque ele tinha o domínio técnico da coisa. Quando veio o avanço tecnológico, o que acontecia?Quando começaram a fazer o jornal em offset (que hoje é uma técnica superada) instantaneamente veio uma horda de incapazes, e o número de erros no jornal se multiplicou formidavelmente. Levou vinte anos para qualificar uma nova geração de trabalhadores para essa nova técnica, mas quando eles se qualificaram surgiu outra técnica, e junto outra horda de incapazes. Se analisarmos os erros de revisão que saem em jornal hoje, eles são muito maiores se comparados com os anteriores. Então, a técnica melhorou, mas os técnicos se tornaram piores. Então é necessária outra técnica para compensar a deficiência do profissional, e assim por diante. Somente pessoas de mentalidade simplória que imaginam que esses avanços tecnológicos funcionam linearmente. Por exemplo, a idéia de que a medicina aumentou a longevidade... Existe um livro do Ivan Ilitch (que era um ídolo das esquerdas nos anos 1960, mas depois quando virou a situação e a esquerda começou a dominar o mundo ele se tornou inconveniente, e todo mundo o varreu para baixo do tapete) em que este autor investigou as estatísticas de crescimento populacional e concluiu: a população está crescendo nos lugares onde não tem medicina avançada. Então não é a medicina que está garantindo a sobrevivência de mais pessoas. Hoje vemos que nos países avançados, por exemplo, as pessoas não têm filhos e a população está diminuindo na Alemanha, na França, na Inglaterra. Estes países estão definhando e evidentemente a tecnologia tem uma responsabilidade direta nisso. O papel da expectativa que o sujeito tem de que a tecnologia vai garantir a sua vida sexual até os noventa e sete anos permite que ele pense: “Mas então pra que eu vou ter filhos e netos? Eles só vão me atrapalhar”. Então o cara começa a viver para si mesmo e cria-se uma espécie de individualismo egoísta auto-defensivo em que a pessoa se defende de tudo: não pode pegar um resfriado, não pode expor-se a risco nenhum, se fumam perto dela já fica aterrorizado, se toma um ventinho na rua já acha que vai ficar tuberculoso. A pessoa está se defendendo o tempo todo. Então é criada uma geração de pessoas acovardadas, tímidas. Incapazes, no fim das contas. E naturalmente os povos que não têm essas vantagens tecnológicas têm a vantagem do arrojo e da ousadia, [00:40] como esses mulçumanos (turcos, egípcios, líbios) que emigram para a Europa e chegam lá falando grosso porque eles sabem que os europeus estão todos acovardados, não são de nada. Neste caso, aqueles que têm menos tecnologia levam uma vantagem estratégica e geopolítica formidável. Portanto as conseqüências da tecnologia não se dá linearmente. Não medimos o progresso do poder da nação pelo seu avanço tecnológico. Fazer isso é uma mentalidade ingênua, um positivismo cretino. Pensar: “Ah, nós somos melhores, somos mais poderosos que você porque nós temos mais tecnologia”. Mas quem disse que é a tecnologia que vai resolver a parada? Os mulçumanos estão se expandindo no mundo e não é por meio da tecnologia. Estão dando um baile nas nações que têm tecnologia mil vezes superior. Todo o benefício da tecnologia é necessariamente ambíguo, e isto é assim, não por algum defeito da tecnologia, mas é inerente à estrutura da ação humana: tudo o que fazemos tem conseqüências e não existe ação cujas consequências totais estejam sobre nosso controle. Mais ainda: o avanço da tecnologia, criando meios de informação cada vez mais poderosos, difunde o quê? O conhecimento? Não, difunde aquilo que no livro Snapping: America's Epidemic of Sudden Personality Change, Flo Conway e Jim Siegelman chamam de psicose informática. Gera a psicose informática: o bombardeio de informações que recebemos deprime o cérebro e o torna cada vez menos capaz de tomar decisões, de investigar a verdade etc, e nos induz a obediência passiva. Quando começou o iluminismo, o lema do kantismo era audes sapere, ou seja, ouse saber. Acharam que a humanidade iria se emancipar das autoridades porque cada um iria exercer a sua racionalidade e não precisaria mais da fé, nem de autoridade, nem de coisa nenhuma. O que aconteceu foi exatamente o contrário: Você ao longo de toda a história humana não veremos episódios de submissão passiva e abjeta como vimos no comunismo e no nazismo. Quando nos perguntamos: “Por que é que aquelas pessoas obedeceram ao Hitler?”. Ora, porque já estavam experimentando o nível de bombardeio informático que já era, naquela época, superior à capacidade de absorção que eles tinham. Num jogo de xadrez, por exemplo, a cada momento existem quatro ou cinco mil possibilidades de jogo e de combinações diferentes. O que distingue um jogador ruim (como eu) de um jogador bom, de um mestre? O mestre sabe automaticamente afastar quatro mil e novecentas possibilidades e examinar apenas cinco. Como ele faz isso? Ninguém sabe. Não é pela absorção de informações; é por uma espécie de guiamento instintivo pelo qual ele rejeita informação. Rejeitar informação é um dos mecanismos fundamentais da mente humana. Eu descobri isto muito cedo. Eu descobri que coisas que eu não compreendia, eu não queria aprender; que aprender só na base do adestramento mecânico como se eu fosse um macaco de circo... Eu pensava: “Não quero isso, porque me faz mal”. Graças a isto eu repeti o terceiro ano de ginásio, em geometria. Quando veio aquele negócio de que o ponto não mede nada e somando vários pontos obtemos uma reta, eu falei: “Pode parar. Parou aqui mesmo. Eu não quero aprender isso”, e replicaram: “Ah, mas você não vai passar de ano”, e eu disse: “Não tem importância. Eu não vou passar de ano, mas você não vai meter essa confusão na minha cabeça”. Enquanto estava estudando álgebra, eu entendia tudo, estava tudo certo, eu tirava notas boas. Quando começou geometria eu comecei a tirar zero. Entrava o professor e eu saía. E hoje eu vejo que fiz muito bem. Eu protegi meu cérebro. Muito mais tarde, lendo o Sherlock Holmes do Conan Doyle, este afirma que o detetive fazia a mesma coisa: ele rejeitava informação. “Tal coisa eu não quero saber, vai atrapalhar a minha cabeça; eu vou me ater somente ao que interessa”. Só que esta é uma rejeição racional, premeditada e científica. Agora se o indivíduo é infectado de psicose informática, ele começa a rejeitar coisas das quais ele tem medo e que contrariam as crenças do seu grupo, e assim por diante. Quer dizer que aquilo começou como uma presunção de libertar a inteligência humana de todas as autoridades se transformou num sistema de sujeição completa, de escravização da mente. Por exemplo: veja a dificuldade que as pessoas têm hoje de entender que um documento de fonte primária é mais confiável do que interpretação que dele deu o “seu fulano” ou o “seu sicrano”; as pessoas não entendem isto. No caso do Foro de São Paulo, por exemplo, eu divulgava os documentos: “Olhem, estão aqui as Atas do negócio, o que os caras mesmos planejaram e disseram que vão fazer”. As pessoas diziam: “Precisa ver o que o fulano diz disso”. O Kenneth Maxwell disse: “Ah, eu conversei com os meus colegas, e eles dizem que isto não existe”. Mas o que é que apitam os seus colegas em face de um documento de fonte primária? Não apitam nada! Então o critério científico se inverteu: um documento, um fato, não significa mais nada. E a elaboração de teorias conspiratórias para se defender contra coisas que eles mesmos rotulam como teorias conspiratórias é um negócio incrível. Por exemplo, você mostra o documento e dizem: “Mas o documento pode ter sido forjado”. É claro que pode. Mas forjado por quem? Quem foi que falsificou cinco mil páginas de Atas do Foro de São Paulo? Tem de ter um agente que tenha feito isso, meu Deus do céu. Então me diga quem e por que fez isso. Vamos supor que houvesse um movimento direitista, reacionário, altissimamente organizado, com milhões de técnicos trabalhando para eles. Bom, aí seria possível a falsificação. Mas não há. Se não há o agente não pode haver a ação e, portanto, o objeto da ação também não existe. É difícil mostrar isto para as pessoas hoje em dia. Analisem a turma que acredita no Obama. Bom, é um sintoma da deformidade que é a educação “científica” criou na mente das pessoas. Se elas crêem que o sujeito nasceu no Havaí, é um direito que elas têm de crer na palavra do indivíduo. Mas crer ao ponto de dispensá-lo de mostrar a prova que todos os outros candidatos sempre mostraram, aí já é crença idolátrica. Mas, no entanto, essa crença idolátrica parece mais racional às pessoas. Por quê? Porque é compartilhada por muita gente e pela mídia. Então o argumento de autoridade virou o único argumento existente. Por exemplo, se um sujeito cita uma fonte primária que é desconhecida da multidão, as pessoas a rejeitam. Mas daí vem outro e cita a opinião do seu fulano, que é tido como autoridade, então ponto, acabou. A opinião vale um milhão de vezes mais do que o documento. A falsidade é não só aceita, como é considerada superior à verdade. Isto aí quem foi quem criou? Foi a tal da ciência. Ou seja, nós temos de distinguir entre o que é o ideal da ciência, que é uma coisa que existe desde o tempo de Platão e Aristóteles, e o que é a ciência como realidade histórica. As pessoas que seguem o ideal da ciência são em número mínimo, e a comunidade científica, quanto mais vasta e poderosa, menos compromissada com o ideal de ciência. Então foi assim que a coisa se corrompeu. Temos uma segunda pergunta: Aluno: A pergunta me parece que é em relação ao assunto da condição existencial [00:50] para ser um cientista ou um filósofo, baseado no fato de que, por exemplo, quando nas Confissões Santo Agostinho não só confessa os pecados, mas faz investigações filosóficas, e tudo aquilo me parece que está relacionado com a preocupado com a salvação da alma, ele está com o coração na mão. Isso é muito diferente de um cientista que vai para uma universidade aprender uma série de teorias e se apresenta para a comunidade científica e recebe sua a aprovação. Então minha pergunta fica sendo: é possível fazer ciência sem estar com o coração na mão, procurando a verdade porque sabe que ela depende disso, bem como o conhecimento da realidade, o conhecimento de si mesmo, e a salvação da sua alma no fim das contas? É possível ciência fora dessa direção existencial? E se não é possível, o que seria necessário para voltar a essa posição existencial? Olavo: Ciência no sentido convencional, atual, é claro que é possível. Mas ela é apenas o exercício de um papel social que não compromete o cientista profundamente. O simples fato de não comprometer já o coloca numa posição altamente tentadora, pois ele é praticamente convidado a dizer em público coisas nas quais não precisa acreditar pessoalmente. Então o critério de seriedade da atividade científica deixa de ser uma seriedade existencial e pessoal; seriedade que o compromete, mas passa a ser apenas o exercício de um papel. É um teatro: o cientista tem de dar certa impressão às pessoas; assim, o centro julgador da consciência dele foi evidentemente transferido para fora; para uma comunidade na qual também ele intimamente não acredita muito. Então ele está como um vendedor que deseja vender um produto no não acredita, quer fazer o comprador acreditar numa coisa que ele mesmo não acredita. É uma situação de uma ambiguidade e em que a pessoa é puxada em direções contrárias ao mesmo tempo. Isto já divide a alma, o torna muito mais fraco, muito mais dependente; e quanto mais fraco, mais dependente da comunidade se torna. Se ele não tem a certeza pessoal, então ele cede. É o negócio do Groucho Marx: “Você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos”. Se acreditar nos próprios olhos, pode ser rejeitado pela comunidade que dirá: “Nós não vamos mais gostar de você, nós não vamos te dar a verba de pesquisa que você precisa, talvez até nós tiremos o seu emprego”. Entre os métodos de exclusão das pessoas que vêem com os seus próprios olhos existe o boicote, a intriga, a fofoca, rumores... Todos os processos mais degradantes e abjetos da política estão em ação dentro da comunidade científica e fazem parte do seu modo normal de funcionamento. Portanto já é uma comunidade corrupta na base. De fato é curioso que na concepção moderna a ciência apareça com o compromisso de libertar o indivíduo da pressão da sociedade, e acaba por submetê-lo muito mais do que qualquer teólogo medieval jamais o fez. Perceba a liberdade com que se discutiam os temas mais cabeludos nos Concílios e responda: onde controvérsias daquele tipo são aceitas hoje numa universidade? Praticamente todos os dogmas que a Igreja promulgou foram resultados de longas discussões, nas quais as hipóteses mais extravagantes e mais extremas (no sentido de opostas) foram discutidas. Se não fossem discutidas, para que promulgar um dogma? O papa promulga um dogma quando a discussão vem se arrastando há bastante tempo sem uma conclusão. Então ele entra como árbitro final. É exatamente o contrário do que as pessoas imaginam. Elas imaginam que a discussão é proibida porque alguém promulgou um dogma. Só um ignorante fala uma coisa dessas; alguém que não sabe o que é um dogma. Um dogma é uma conclusão. Só existem dogmas onde há uma razão para promulgá-los, e esta razão é dada justamente pela discussão anterior. Se a coisa não é controversa, então não tem por que apelar ao Papa. Mais ainda: a estrutura do discurso científico. A primeira ciência que conseguiu se estruturar com uma exposição lógica com todos os seus passos suficientemente demonstrados foi a teologia. A criação das Sumas medievais é a condição sem a qual não poderia haver ciência. E até hoje não há uma única ciência cujo discurso esteja articulado logicamente como está o da teologia. Então a teologia cria o padrão de racionalidade em nome do qual, mais tarde, os indivíduos vão se rebelar contra a teologia sem ser capazes de substituí-la por um discurso mais racional. O número de pressupostos não provados que a teologia exige que o fiel aceite é muito menor do que o número de pressupostos de qualquer teoria científica moderna. É que em geral as pessoas não sabem disso, porque existe a imagem convencional das ciências que é passada pelos livros didáticos, por programas de televisão, filmes etc., e ela encobre a realidade da prática científica. Mas quem esteve dentro dessa prática e conhece a história conta coisas completamente diferentes. A dificuldade aí é justamente aquela que nós mencionamos na primeira parte: deve existir uma autoridade, uma instância superior, à qual o indivíduo submete o seu julgamento. Para simular uma independência em relação à autoridade, os cientistas disseram que adotaram como instância suprema a razão e a experiência. Mas como eu disse, esse é um raciocínio circular. Não é possível que pela razão e pela experiência sejam descobertos os fundamentos da própria razão e da própria experiência; isto de fato não é possível. Esses fundamentos têm de ser dados desde o começo, senão não é possível o primeiro passo da razão. E no instante em que se elimina toda a referência à transcendência significa que só são aceitos os fatos que estão ao alcance. Ou seja, a necessidade de fechar a visão do mundo num esquema teórico (que daí por diante vai ser dogmático e indestrutível) está dada desde o inicio. Pegue a teologia católica. Ela se baseia num certo número de dogmas, mas a interpretação destes dogmas está em aberto. Pegue o credo católico: Creio em Deus Pai, Todo Poderoso, criador do Céu e da Terra. Cada uma dessas palavras tem uma ressonância simbólica enorme. São partes de um discurso poético que abre para milhões de interpretações possíveis; interpretações as quais decerto umas serão verdadeiras e outras serão falsas. Mas para destrinchar tudo isso pode levar milênios. O dogma, portanto, não nos compromete de maneira alguma com uma visão fechada do Cosmos. Agora, se você diz: “Está aqui um discurso científico, matemático, eternamente comprovado”, então aí fechou a discussão. Quando as pessoas dizem que o dogma religioso fecha a discussão e a ciência abre, estão enganadas: é exatamente o contrário. O que o dogma impõe é o amor a certos símbolos por trás dos quais vislumbramos uma realidade transcendente; realidade que cria então uma fidelidade pessoal às ideais que entrevemos como filigrana por trás dos símbolos, por assim dizer, e não como uma coisa que está perfeitamente definida. A obediência do fiel [01:00] aos dogmas da Igreja é um ato de amor e não um ato de sacrifício da inteligência. Não há sacrifício algum. Ao contrário: é justamente esse ato de amor que permite que a inteligência floresça. Por quê? Porque ela está aberta à transcendência e, portanto, à inspiração. Mais ainda: quando dizem que a ciência moderna liberta o indivíduo da autoridade, eu digo: o que você entende por indivíduo? É um homem sozinho? Mas o individualismo não é um termo auto explicável. Hegel já ensinava que todo conceito abstrato só adquire alguma realidade quando você quebra a casaca dele e vê as contradições internas. Quer dizer, o individualismo não é uma atitude abstrata em si, mas ele se define contra alguma coisa. Vamos supor, por exemplo, que estejamos numa sociedade religiosa, autoritária, dogmática, enfim, uma sociedade de acordo com a imagem estereotipada. Então o individualismo consiste em você pensar à margem ou contra o dogma e, portanto, seria um individualismo eminentemente anti-religioso. Mas e se estivermos numa sociedade onde a doutrina oficial é científica, como o nazismo ou o comunismo, ou como a própria sociedade ocidental moderna? Então no que consiste o individualismo? Pode consistir, por exemplo, no apego à fidelidade a Deus, contra o discurso coletivo que o renega. Portanto identificar individualismo com materialismo cientificista é completamente errado, porque individualismo não é uma noção substantiva, é uma noção relativa, como a noção de liberdade, que depende: é liberdade do quê? Eu posso estar livre de uma determinada autoridade externa mas, na medida em que estou livre de qualquer autoridade externa, posso também querer que a minha liberdade cresça e cresça até que eu me torne a única autoridade. Então a palavra liberdade contém essa contradição interna, e compreender o conceito é compreender essa contradição, e não imaginar que aquilo é um valor unívoco. Ontem eu estava lendo uma citação do Robert Reich (que foi Secretário do Trabalho do Clinton) e ele dizia que o grande conflito da modernidade não é o terrorismo, e sim a luta entre o individualismo que prega liberdades individuais (baseadas na ciência e na razão) e a crença numa autoridade superior baseada no dogma, na fé etc. Ou seja, ele descreve o conflito no mundo exatamente como o Duguin, só que Reich aceita um lado e o Duguin o outro. Mas a descrição, o jogo que eles estão jogando, é o mesmo, e eles aceitam as regras. Nós vemos um primeiro exemplo de contradição interna no individualismo. Quer dizer, o individualismo pode significar duas coisas exatamente opostas, e as lutas, os conflitos históricos não se dão entre ideias abstratas, mas se dão entre pessoas e grupos concretos que carregam em si estas contradições. Não é assim: individualismo contra coletivismo ou holismo, isso não existe. O que existe são pessoas e grupos concretos que vivenciam certos aspectos daquele conceito, e eles o aceitam e dão aquele nome genérico a uma coisa específica. Existe, por exemplo, o individualismo no sentido de egoísmo, de você recusar colaborar para o bem comum: “Cuido só de mim, só tenho meus interesses etc.” Mas tem também o individualismo que consiste em defender a liberdade de consciência dos outros contra uma autoridade tirânica. Então o primeiro individualismo se volta contra o bem comum, e o segundo a favor do bem comum. Mas tem um terceiro: pode ser que o sujeito seja como Bernard de Mandeville, que acreditava que o bem comum se obtém deixando cada indivíduo cuidar dos seus interesses. A idéia dele era que se cada um luta pelos seus próprios interesses, no conjunto todos ganham. Então é um coletivismo a ser realizado por meio do individualismo. Já Trotsky propunha o contrário: através do controle estatal dos meios de produção se criaria uma economia tão perfeita que ali os indivíduos poderiam florescer, e cada varredor de rua seria um Leonardo da Vinci. Então é um individualismo a ser obtido através do coletivismo. Tudo isto está dentro do conceito de individualismo. É um bolo de contradições e, na prática, as pessoas vivenciam estas contradições, e não a defesa de um treco abstrato chamado individualismo. Do mesmo modo podemos perguntar: o que é um coletivismo? Uma resposta pode ser: “Nós vamos ver aqui o interesse de todos para que todos tenham um padrão de vida x etc.” Mas por que eles querem um padrão de vida x? Porque eles invejam o padrão de vida que outros têm. E se todos fossem pobres, não existira rico nenhum, e não existiriam pessoas querendo riqueza. Ou então num contexto religioso em que muitas pessoas podem abdicar de lutar pelas riquezas porque elas estão concentradas na salvação da própria alma, então elas deixam as riquezas pra lá. Então neste caso, para que haja uma política coletivista, é necessário que exista antes um individualismo no sentido de “cada um quer o seu interesse”; se o indivíduo não abdica da sua fé, do sacrifício religioso, do “eu aceito a pobreza em função das virtudes”, ou qualquer outra coisa; se esse altruísmo não é abolido; se esse coletivismo religioso que se sacrifica pelo bem comum (porque é o amor ao próximo, o amor aos outros que vai salvá-lo), se ele não é eliminado e não se institui um individualismo onde cada um quer o melhor para si, não é possível uma politica coletivista. Nesse caso, portanto, individualismo não é o contrario de coletivismo, mas é a condição necessária do coletivismo. Agora, quando se conversa com idiotas como Robert Reich ou Duguin, pessoas sem treino filosófico, sem habilidade filosófica, sem capacidade filosófica, eles se apegam a estas coisas: “Tem aqui o individualismo, o controlismo, o individualismo contra coletivismo”, ou então se tem “o relativismo contra absolutismo”. Se pegarmos a crença no absoluto, como os caras falam... O Duguin estabelece a seguinte oposição: “Existem as sociedades que são relativistas e nós, que acreditamos no absoluto”. Eu pergunto: qual absoluto? Em qual deles você acredita? É o absoluto da História, do Karl Marx? É o absoluto da raça, do Nazismo? É o absoluto do Deus cristão, ou o absoluto do Deus islâmico? O que ele fez? Ele juntou vários absolutos totalmente incompatíveis entre si e deu o nome de Absoluto. E como é que esses vários absolutos vão conviver entre si? Vão conviver na base do relativismo: “Ah, cada um tem a sua parte de verdade e todos nós aqui nos unimos, e existe lá uma unidade transcendente, de ordem metafísica, para qual todos estamos nos encaminhado por meio de caminhos diferentes”. Ou seja, chegamos ao multiculturalismo e, portanto, ao relativismo. Então é claro que o coletivismo (ou holismo), como o seu próprio nome indica, é uma fusão de vários absolutos diferentes numa relatividade geral. Como pessoas que ousam discutir esse assunto não têm a técnica filosófica necessária nem para isto, nem para quebrar um conceito? Será que nunca leram uma linha de Hegel? Hegel, sob certos aspectos é um charlatão, um canalha, mas era um gênio filosófico, e ele dominava o assunto do ponto de vista técnico; ele e Aristóteles são ainda os grandes mestres da arte dialética. Se o sujeito não é capaz nem sequer de um pensamento dialético capaz de analisar, de quebrar os conceitos para ver a tensão que existe entre a definição nominal e os objetos reais que ele idealmente traduz, então não é capaz de pensar a realidade, e só pensa palavras. Agora, se só pensa palavras, então a história da qual ele fala é uma história de papel; não é uma história de seres humanos reais em luta, carregando dentro de si as suas contradições; é um mundo de fantoches, onde cada um leva um rótulo na cabeça e representa, personifica aquele tipo ideal supostamente independente das contradições externas e internas. O que é uma coisa absolutamente impossível. Eu acho que somente [01:10] a abertura da alma à autoridade transcendente — que se impõe a nós não com leis matemáticas, mas com símbolos para serem amados —, não é possível nenhuma objetividade, nenhuma seriedade nas ciências. Agora, o que acontece se tentarmos pegar esses símbolos e darmos a eles uma expressão doutrinal tão perfeita,? Os símbolos perdem aquele poder inspirador e se tornam então camisa de força. Mas para que você vai fazer isso? E digo mais: quem tentou fazer isso? Acho que ninguém. Nenhum teólogo cristão é idiota o suficiente para fazer uma coisa dessas: “Eu vou pegar aqui os Dez Mandamentos e transformar num negócio tão matemático que todo mundo seja obrigado a cumprir assim”. Qualquer teólogo, se for um teólogo de fato, tem de saber da ambiguidade das situações humanas, da ambiguidade da linguagem humana, da tensão eterna entre linguagem humana e linguagem divina; ele tem de saber do simbolismo e tem de entender que o próprio Deus joga com a linguagem das contradições para fazer com que apreendamos os aspectos contraditórios da realidade, e para que saibamos nos orientar no meio deles. Por que o mesmo Deus que determina olho por olho, dente por dente, determina que tenhamos de amar nossos inimigos? Porque, na verdade, nós vivemos nesta tensão. Ninguém é tão rigoroso e implacável que calcule o número de olhos que tomou dos inimigos. Ninguém consegue fazer isso. E também ninguém é tão amoroso que consiga dissolver completamente os seus próprios interesses vitais no amor ao próximo. Nem Cristo fez isso. Você não pode esquecer que Cristo, pela sua missão, recebeu o maior dos prêmios, e Ele sabia que ia receber. E ele confiava em Deus Pai. Ele disse: “Você vai reinar sobre o universo”. Será que ele não sabia disso? Claro, no momento da agonia ele pode até ter esquecido por um minuto, e perguntado “Pai, por que me abandonaste?”, mas a promessa estava lá, e Deus Pai cumpriu a promessa. Então é aquele problema do altruísmo e do egoísmo, que são dois termos intrinsecamente relativos: não existe um ato perfeitamente egoísta e não existe um ato perfeitamente altruísta. Isso é impossível. Herbert Spencer já falava, com muita habilidade, dos atos ego-altruístas, onde eu faço o bem a mim mesmo fazendo o bem ao próximo, e faço o bem ao próximo fazendo o bem a mim mesmo. Vamos supor: o homem que se alimenta bem, cuida da sua saúde para ele poder trabalhar e produzir mais e prover melhor a sua família. Então, ele deixa de comer, pensando: “Ah vou deixar toda a comida para os meus filhos”. Bom, então só os filhos comem, mas no dia seguinte você não trabalha. É nesta tensão que nós vivemos. O próprio Jesus Cristo não escapou desta tensão. “Filosofias” como de Ayn Rand que pregam o egoísmo... Pregar o egoísmo é como você pregar que as pessoas andem só com o pé direito ou só com o pé esquerdo. Isto é uma coisa impossível. Ninguém pode ser totalmente egoísta, nem totalmente altruísta. Todos nós somos uma mistura das duas coisas. E é nesta tensão que se revela o milagre do amor ao próximo. O amor ao próximo fortalece o próximo e nos fortalece ao mesmo tempo. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de experiência moral sabe disto: quanto mais você ama a sua namorada ou a sua mulher, mais forte você fica. Você não consegue se privar deste benefício. Ou é o contrário? Quanto mais eu amo a desgraçada, mais eu padeço, mais me ferro, fico doente, perco tudo o que eu tenho... Você vai chamar isto de amor? Continuasse assim, logo a pessoa estaria odiando a desgraçada. Eu acho que pessoas incapazes de perceber estas tensões são desqualificadas intelectualmente. Não importa quanto leram, não importa quantos diplomas tenham. São desqualificadas para qualquer discussão filosófica elementar. Aluno: Como essas pessoas se desqualificam? Quais são as causas e fatores que fazem as pessoas...por exemplo, essa explicação que você deu do egoísmo e do altruísmo: às vezes, com uma simples meditação,com um simples exame das tuas próprias ações você consegue perceber essa tensão; não dá para ser totalmente egoísta nem totalmente altruísta, mesmo nas coisas simples do dia-a-dia você percebe isso. Mas tem certas pessoas que não conseguem perceber essas tensões. Qual é o (...) Olavo: Qual é o fator que leva as pessoas a se apegarem a essas coisas e enrijecerem a sua inteligência ao ponto de perder a flexibilidade necessária para tratar das mais elementares questões filosóficas? Aluno: (... ) exato. Olavo: Quem entendia disso era Josef Stálin. Ele era um grande psicólogo, e quando perguntaram para ele o que move as pessoas, ele respondeu: o medo. Eu acho que só existem duas alternativas para o ser humano: ou ele se abre para Deus e se entrega nas mãos de Deus com a confiança do bebê que se entrega, que deita no colo da sua mãe, sabendo que ela não vai jogá-lo no chão, nem jogá-lo pela janela; ou então o indivíduo fica com medo, e na hora que temos medo, temos que criar mecanismos de controle para nos defender. Só têm essas duas alternativas: o caminho do amor e o caminho do medo. E o caminho do medo é o caminho do controle, que é utópico, inexistente, falso, onde aquela parafernália intelectual é criada e, às vezes, parafernália social, política etc., para controlar as coisas; e quanto mais há controla, mais dá tudo errado. Quer coisa mais controlada do que a economia estatal soviética? A busca do controle total provocou o caos total, onde era tudo descontrolado, até mesmo as estatísticas. Pessoas que estudaram isso (as estatísticas soviéticas) dizem: “As estatísticas soviéticas são todas falsas, são totalmente inventadas, ninguém sabia de porra nenhuma do que se passava ali”. É uma das leis de Murphy: quanto mais controle preciso etc., mais tudo vai virar bagunça. O poder do homem sobre a realidade é um poder delegado por Deus: não é que mandamos nas coisas diretamente. Não! Deus está mandando através de nós. Não é pelo domínio deliberado, planejado, que temos sobre as coisas que exercemos o poder; é por uma espécie de mágica, onde Deus te investe do poder, e Deus te investe do poder na medida em que você se abre a Ele e tem amor e confiança n’Ele. As pessoas não entendem a expressão “temor de Deus”. O temor de Deus não é como o temor que temos da polícia, ou o temor que temos de perder o emprego. Não é isto. Porque se fosse assim estaríamos temendo uma coisa imprevisível, incontrolável e hostil. Mas Deus não nos pode ser hostil porque foi Ele quem nos constituiu; Ele nos criou e está nos mantendo na existência. Então Ele não nos pode ser hostil desde fora... E nem desde dentro, na verdade. Ele não pode ser hostil de maneira alguma. Nós podemos ser hostis a Ele, mas Ele não. Então o temor a Deus é como o temor que temos de sacanear uma pessoa amada e nos tornarmos indignos do amor dela, mesmo que ela continue te amando. Este que é o temor a Deus: “Eu não posso trair Aquele que me amou a tal ponto de me constituir, me tirar do Nada e me dar uma existência eterna. Eu não posso fazer isso”. E, no entanto, mesmo os melhores dentre nós fazemos isso. Por que nós fazemos? Por um motivo muito simples: quando oramos, falamos com Deus, por um lado sabemos que [01:20] Deus ouve; mas não temos, frequentemente, nenhum sinal visível disso. Então estamos vivendo em dois planos: num plano superior, que é o plano da fé espiritual, confiamos que Deus está ouvindo. Mas num outro plano nos perguntamos: será que eu não estou falando só comigo mesmo? E se eu estou falando só comigo mesmo, então eu sou ator perante Deus, eu estou fingindo uma coisa perante Deus, e eu, na minha própria oração, estou ofendendo a Deus. Eu acho que toda pessoa que ora tem esse problema. Eu pelo menos tenho, sempre tenho. “Eu estou falando com Deus ou comigo mesmo? Ou com uma platéia imaginária?” E frequentemente eu sinto que eu sou um ator, eu não consigo ser totalmente sincero perante Deus. E isto faz parte do pecado original. É uma deficiência que nós teremos sempre. Nós teremos de confiar que Deus nos ouve e aceita a nossa prece, mesmo quando nós estamos mentindo para Ele, porque no fim todas as nossas preces serão mentiras, digamos o que dissermos... A não ser que Deus se manifeste na nossa frente fisicamente. Neste caso teremos a crença física na audição: “Agora eu acredito que você está me ouvindo, porque eu estou vendo você, vejo a sua reação”. Não é a mesma coisa as pessoas que estavam presentes diante de Jesus Cristo e que viam as expressões, os gestos d’Ele, e nós que oramos através de símbolos, e chegamos a Deus muito indiretamente. O próprio problema do teatro — para mim, pelo menos —, tem servido para eu me convencer cada vez mais da minha absoluta inconsistência, e através da percepção desta inconsistência é que eu restauro a minha consciência de que Deus está ali. Porque eu estou falando para mim mesmo, mas seu eu sou apenas um ator, se eu sou um fingimento, então eu nem existo; e, no entanto, eu continuo existindo, eu tenho a promessa da vida eterna e eu sei que ela se realiza. Então, este que está falando para Deus pode ser um ator, mas por trás do ator existe uma alma de verdade, criada por Deus e que Ele vai manter na vida eterna. Tem toda uma dialética do fingimento e da realidade aí. É uma tensão, e esta tensão somos nós mesmos. Nenhum ser humano pode ser cem por cento autêntico e genuíno! Não pode ser. Ele só é genuíno nos momento em que Deus dá essa força a ele. Mas até no momento da prece, às vezes, a coisa é falha. Este nível de compreensão de si mesmo, que transcende de certo modo a tua própria psicologia, não é mais um conhecimento psicológico, é um conhecimento ontológico; quer dizer que percebemos a nossa verdadeira natureza e, portanto, também o elemento de fingimento e de fraude que são inerentes à condição humana; percebemos que não podemos escapar dela, mas que ao mesmo tempo tem outro fator que vem e nos confere uma realidade para além do seu fingimento, uma realidade que nós mesmos não alcançamos. Esse pessoal materialista não pode chegar a isso jamais, então eles não podem ter um senso de responsabilidade moral, nem sequer perante si mesmos. São pessoas necessariamente divididas... Divididos somos todos nós, mas você vivenciar a sua divisão, a sua contradição, conscientemente, é você crescer e é você se aprofundar no conhecimento de si, no domínio que você tem dos fatores da sua vida, e é você se tornar responsável perante Deus e perante você mesmo. E outro tipo de divisão é quando você varre uma parte para baixo do tapete e finge que esta parte não existe, mas também isso é utópico: você sabe que está mentido, mas você finge que está dizendo a verdade. Então você tem de parecer mais verdadeiro no instante em que você está fingindo mais: está aqui a comunidade científica, tenho de ir lá, fingir que acredito piamente numa coisa quer eu acabei de inventar, na qual eu não tenho fundamento nenhum para acreditar. Então invento argumentos, invento razões para tornar aquilo persuasivo para os outros, quando eu mesmo sei que eu não posso acreditar naquilo. Isto aí é uma coisa terrível. Assim como mentir para si própria e de se dividir, é uma tendência natural da alma humana a tendência de se reunificar para não ficar completamente perdida. Esse “reunificar” consiste em assumirmos que uma coisa que nos pareceu verdade num certo plano, num certo aspecto, não seja esquecida nos outros aspectos da vida. Isso é que é viver segundo aquilo que você crê. Não é uma coisa de aplicar na vida. Não é uma coisa nem de ser fiel. Não é isto. Isto supõe uma divisão mecânica entre duas coisas, quando na verdade existe uma tensão viva e dialética. Essa reunificação é também um impulso profundo no ser humano: “Não quero me separar totalmente de mim mesmo, porque se eu me separar, aí eu esqueço completamente quem eu sou, perco o domínio sobre a minha vida, e aí estou num mato sem cachorro mesmo”. Se por um lado não existe o controle completo da situação, é necessário o mínimo de controle interior, onde a palavra “eu” adquira algum sentido para nós. Para mim esta é uma prática já antiga: nós pensamos com palavras, às vezes pensamos com sinais, e quando penso em palavras, às vezes eu reconheço a minha própria voz, e às vezes não. Quando eu não reconheço, eu sei que é algum automatismo, algum pedaço morto meu que está falando, e é isso que a Bíblia chama as vozes do discurso da carne e do sangue, que é a pior coisa que tem no mundo. Se você deixa a carne e o sangue falarem ao invés de você falar, então a parte morta comeu a parte viva. Tem pessoas que já não tem mais essa parte viva. A característica de um iniciado satânico é ele ter perdido isso completamente, de onde vem a sua total frieza, que expressa o quê? O terror absoluto. Eles vivem no terror. Eles não têm o temor a Deus, têm o terror. Terror de um não sei o quê que é, de certo modo, a imagem invertida de Deus, que só vai persegui-los e condená-los a sofrimentos sem fim. De fato, eu não acredito que sem a abertura ao transcendente seja possível qualquer honestidade. Tem uma coisa que eu escrevi quase trinta anos atrás, que é a tal da moralidade sem Deus. Não existe moralidade sem Deus. A moralidade sem Deus é uma mera convenção. E essa convenção se baseia numa arbitrariedade que em si mesma já é imoral. Quem tem a razão é Dostoievski: se Deus não existe, tudo é permitido. As pessoas que concebem Deus como uma autoridade externa que vai punir e castigar realmente não entenderam nada. Pois que raio de deus é esse que não tem a capacidade constituir você por dentro? Um deus que tem de te perseguir de fora, como a polícia, não é deus de maneira alguma. Um deus que está distante de você, fora, não é deus de maneira alguma. É que as pessoas não têm capacidade de conceber a simples ideia de Deus como o constituinte interno de tudo o que existe, mas eles sentem Deus como uma coisa externa. Mas se você pensou como uma coisa externa, você já saiu do assunto. Aluno: O Christopher Hitchens às vezes quer enfatizar a ideia de um deus externo... ele usa a expressão “Deus como a Coréia do Norte Celeste”, que é justamente esse agente externo. Olavo: Então, assim como na descrição da Criação, Ele também é um Deus que é externo e permanece externo. Deus não é externo, é transcendente. Aquilo que transcende, por definição, contém e abrange. Portanto, Deus não está fora; [01:30] nós estamos dentro, mas nós não somos Ele. Ele nos fez aonde? Dentro dele. E isso não é panteísmo. Panteísmo diz que Deus é o universo. Não, Deus transcende infinitamente o universo e, por isso está dentro dele. Se não estivesse dentro d’Ele, Ele teria de criar uma coisa totalmente independente na qual ele não estivesse. O que é absolutamente impossível, porque se ele não está lá, como é que vai manter a coisa funcionando? É por isso que Santo Agostinho diz que é no interior do homem que existe a verdade. Ele não está falando isso no sentido psicológico, mas no sentido ontológico, quer dizer, sabemos alguma coisa sobre Deus, na hora o entendemos como aquilo que nos constitui e faz de nós o somos. Aí entendemos o fundamento ontológico, e aí também se entende o que em nós há de indestrutível, o que há de destrutível, revogável, e o que há de irrevogável. A nossa existência como tal é irrevogável: não temos como escapar dela. Eu acho que sem essa capacidade de assumir a realidade da nossa existência, não tem moralidade, não tem parâmetro nenhum. A moralidade não é essa coisa externa de “Ah, aqui tem uma regra que a Igreja ensinou”. Não é isto! Não é isto de maneira nenhuma, porque todas as regras da Igreja têm a força simbólica. Nenhuma delas é uma equação matemática. Nenhuma delas é a obrigatoriedade de todo mundo calçar sapato 41. Não é isto. Perdida a força simbólica, então não é mais religião; é uma casca externa de religião, o que sobrou quando não existe mais a fé. O que é a fé? É confiança. O que é confiança? É nos depositarmos nas mãos de Deus como um bebê se deposita no colo da mãe, ou seja, com total confiança. Não vamos perder totalmente o temor respeitoso. Por quê? Veja: uma criança tem instintivamente o temor da mãe e do pai. Mas não é um temor persecutório. É, sobretudo, um temor de perder a mãe. Então nas relações entre as crianças e os pais nós vemos isso. Uma criança que antevê, por exemplo, a morte do pai ou da mãe, ela fica aterrorizada. Ou se a mãe a abandona... É a coisa mais horrível que existe. Então é o temor de ficar sem aquilo, não é o temor daquilo. Essa criança não pensa: “Ah, minha mãe vai me bater, meu pai vai me jogar pela janela, vai me eletrocutar”. Não é isso. Isso é o demônio. E Hichtens é evidentemente um homem obsidiado pelo demônio. Ele tem terror pânico do demônio; e por ter terror pânico, ele tem de negar que exista. Mas isso não alivia o temor. Ele continua com essas imagens terroríficas na cabeça e imagina que são os outros que têm a coisa terrorífica. Se alguém cultua a Deus segundo essa pauta terrorífica, evidentemente é um cultor do demônio. Se pensa: “Ah, eu vou cultuá-lo por que pode me matar, ou ele pode me deixar sem dinheiro”... Se é isso que impele a pessoa a cultuar Deus, então pode ter certeza que ela está chamando de Deus aquilo que nós, cristãos, chamamos de diabo. E quanto a este diabo persecutório... É evidente que ele não tem o poder real sobre nós. Por quê? Por que ele não nos constitui, ou seja, justamente porque ele é uma força externa. O demônio pode penetrar dentro de nós, pode nos inspirar pensamentos, mas ele não nos pode constituir, nos criar. Então a força dele, mesmo quando se utiliza da nossa mente, continua externa. A força de Deus, não. Eu estou falando de um conhecimento mínimo de Deus e não de uma revelação, de uma inspiração; estou falando de uma simples meditação que toda pessoa pode fazer. Também é lógico que num processo de extrema degradação da fé religiosa, a religião possa parecer a certas pessoas, crentes ou não crentes, como uma autoridade reguladora, apenas, que vai proibir certas coisas. E mais ainda: a pessoa pode estar tão degradada que nem vai privilegiar a esfera sexual. Quer dizer, a religião é repressão sexual. E quando chegou nisso, está tudo perdido. O sexo é uma força tremenda dentro de nós. É algo, em certas circunstancias, até irresistível. Então, o que quer que atemorize e imponha limites desde fora à sua expressão sexual é uma coisa aterrorizante. Horrível, na verdade; muito desconfortável. Só que ao fazer isto o indivíduo já inverteu completamente o sentido dos Dez Mandamentos.Veja: no mesmo momento em que nós estamos conversando aqui, existem pessoas que estão fazendo ritos satânicos, sacrificando crianças, sacrificando inocentes para ofender o Espirito Santo. E a pessoa que se mete nisso sabe que está condenada, sabe que está degradada, então ela vai querer atrair mais gente e mais gente para aquilo. Tem pessoas dedicadas a isto. Por outro lado, também neste momento, tem um menino que se trancou no banheiro para tocar uma punheta lendo Playboy. Se começamos a nivelar essas duas coisas, meus filhos, nos voltamos contra o primeiro mandamento, porque as pessoas que fazem ritos satânicos não são materialistas, não são atéias, elas crêem em Deus, e elas O odeiam. E não podendo liquidar Deus, elas tentam liquidar a imagem de Deus dentro das outras pessoas. E vamos comparar quem se dedica a isso com o sujeito que cometeu um pecado sexual? Vamos supor que alguém cometa um adultério, o sujeito saí e come a mulher do outro. Bom, a idéia dele não era propriamente prejudicar o outro, e sim obter um prazer para si e para aquela senhora, não é isto? Por acidente o marido é prejudicado. Mas se o sujeito tiver um prazer especial em saber que está humilhando o cara, então ele saiu do pecado sexual e entrou num rito satânico. Não vamos querer nivelar as duas coisas. Agora, eu sempre pergunto: quantos padres e pastores você ouviu falar contra essas entidades que praticam ritos satânicos e que governam vários países do mundo? Eles nunca falam disso. Mas falam dos pecados sexuais. Falar contra os pecados sexuais atemoriza os pecadores. E como eles ficam atemorizados, eles ficam com medo de quê? Do julgamento Divino? Não. Do julgamento do padre, do julgamento da comunidade, do julgamento do pastor e com medo de serem acusados em público de fazerem aquilo. Então se tornam pessoas vulneráveis à opinião do rebanho. E como tais, pessoas facilmente manipuláveis pelas entidades satânicas. Então esses moralistas sexuais todos estão trabalhando para entidades satânicas. Foi isso que Deus nos ensinou? Não. Deus nos ensinou o seguinte: tem uma hierarquia dos mandamentos, ou seja, as primeiras coisas primeiro. Precisamos ter um senso da gravidade das coisas. O satanista tem de ser denunciado, perseguido vinte e quatro horas por dia. E a pessoa que comete pequenos pecados (roubou um cacho de banana, tocou uma punheta, foi na casa de massagem, deu para o outro, praticou o homossexualismo) temos de tratá-las com toda a doçura do mundo, e ter paciência com elas, e nunca magoá-los. Não quer dizer que temos de concordar com o que elas estão fazendo, mas nunca podemos magoar uma pessoa por causa de um pecado sexual que ela cometeu. Nunca na nossa vida! Temos de ir com doçura, com calma, com paciência, como faríamos com um filho e, sobretudo, sabermos o seguinte: que ele não vai sair do pecado de repente, que isto é uma vida, meu filho. Para superarmos qualquer defeito, qualquer vício, às vezes levamos uma vida, levamos muito tempo.[01:40] Então nenhuma comunidade religiosa tem o direito de agir como se fosse uma assembléia de santos que está lá julgando o pecador. Não! Somos todos pecadores, e todos nós temos de ajudar uns aos outros a carregarmos a nossas cruzes. Então, quando o pessoal esquece disso, é muito fácil inverterem todo o discurso religioso e fazer ou como o Luiz Mott, ou como essa gente que diz que Jesus Cristo tinha um caso homossexual com João Batista. E daí inverte tudo. Mas esse moralismo materializado é um convite à inversão, porque ele já é o caminho da inversão: é a perda total do senso das proporções. Se você perguntar para mim: “Como você fiscaliza a conduta sexual dos seus filhos?”. Eu não fiscalizo absolutamente. De jeito nenhum. Eu oro por eles, e se eles cometerem algum erro, a gente com toda paciência vai tentar ajudar o cara a se livrar disso. Não se trata de julgá-lo moralmente, de combater, de maneira alguma. Agora, vejam que o moralismo sufocante convida a uma inversão; vejam que hoje, no Brasil, é proibido tentar ajudar um homossexual a largar o homossexualismo, mesmo que ele esteja desesperado para largar aquilo. Não teve a mulher que perdeu o registro do Conselho Regional de Psicologia por causa disso? O sujeito pedia: “Olha, eu não aguento mais esse negócio de homossexualismo, eu quero me livrar disso”, e ela está lá ajudando o cara e pronto, perde o registro. Então quer dizer que aí se criou a moral invertida mesmo. O cara chega para mim e fala: “Ah, eu tenho esse problema, eu fui homossexual, eu sou drogado, não sei o que...”. Eu digo: tenha paciência, não pense muito nisso, vai orando, vai orando que Deus vai te ajudar. Não adiante você ficar lutando contra a carne e o sangue: tem de lutar contra os principados e as potestades. O que são os principados e as potestades? Deus age no mundo só por vias espirituais? Não. Ele não tem uma Igreja? Não tem bispos, padres, pastores etc? Tem tudo isso. Agora, você acha que o demônio é mais poderoso que Deus, e só age invisivelmente, sem intermediários humanos? Impossível! Ao contrario: o diabo precisa muito mais de uma organização e de militantes do que Deus. Deus, se quiser, produz santos do nada. O demônio, não, ele precisa ter agentes humanos, precisa da disciplina, precisa das iniciações, precisa disso e daquilo. Portanto, as organizações satânicas são tão grandes quanto a Igreja, e estão agindo aí no mundo. Então são estas que nós temos de combater, e não o menino que está tocando punheta no banheiro. Isto para mim parece o óbvio dos óbvios. O moralismo materializado que perde o sentido espiritual das coisas já é o efeito da degradação moderna, e é um efeito da própria mentalidade científica, para a qual o sentido simbólico e inspirador dos mandamentos divinos foi perdido, sobrando apenas a equação. Mais ainda, e pior dos piores: muitos desses mandamentos divinos materializados se incorporaram na lei civil. Então eles se tornam uma pressão da sociedade, e, de certo modo e até certo ponto, isso é inevitável. Mas na própria separação que existe entre Igreja e Estado (que é uma coisa legítima: a própria Igreja se separou do império faz muito tempo; não na ortodoxia russa, lá é tudo a mesma coisa), a Igreja é o fator atenuante do peso da autoridade civil: onde o indivíduo comete um erro e é punido pela autoridade civil, a Igreja tem de ir lá e lhe dar conforto, socorro e ajuda. O sujeito já está ferrado, está na cadeia e a Igreja ainda vai lá cuspir na cara dele? A função da Igreja e da autoridade civil é completamente diferente. A autoridade civil não faz justiça, ela apenas preserva a ordem; e a Igreja também não faz justiça, ela chama as pessoas para que amem a justiça, o que é completamente diferente. Transcrição: Fernando Chemello Opis – Instituto Olavo de Carvalho Revisão: Luiz Felipe Adurens Cordeiro (lfadurens@gmail.com)