Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 100 02 de abril de 2011 Boa noite a todos! Sejam bem-vindos. Queria lembrar a vocês que esta é a centésima aula do Curso Online de Filosofia e também que hoje é o aniversário de meu filho Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, o Gugu, ao qual todos nós aqui enviamos os nossos mais efusivos parabéns. Aqui tem uma carta de uma aluna, com uma pergunta que deve ser respondida antes de qualquer coisa. Aluna: Entrei em contato com uma livraria, como o senhor pode ver abaixo, e o livro Apologia de Sócrates, tradução de Carlos Alberto Nunes, está esgotado e temos apenas um mês para ambas as leituras. Gostaria de saber se podemos começar pela leitura do Fédon? Seria interessante que alguém digitalizasse a Apologia de Sócrates em formato PDF e a disponibilizasse no site do Seminário. Olavo: Não sei se isso é possível por haver aí problemas de direitos autorais. A não ser que exista alguma tradução mais antiga na qual não haja direitos autorais. Mas, em todo o caso, eu verifiquei na página www.estantevirtual.com.br e existem ali algumas centena de cópias da Apologia de Sócrates, muitas delas com a tradução de Carlos Alberto Nunes, não editada pela Universidade do Pará, mas numa edição muito anterior da Ediouro. É um livrinho de bolso cuja tradução era a mesma de Carlos Alberto Nunes, que depois foi editada pela Universidade do Pará. Se vocês procurarem edições da Ediouro datadas de 1960 até 1970, eu tenho a impressão que ainda é a tradução de Carlos Alberto Nunes. Existe uma outra tradução de um tal de André Malta que eu não sei se é boa, mas em último caso, se não houver outra alternativa, vocês podem ler esta mesma. Então a solução é esta: www.estantevirtual.com.br. Quanto à possibilidade de digitalizar, fica aí a pergunta para o Sílvio Grimaldo: é possível fazer isso? Eu não gostaria de, antecipadamente, interferir na sua leitura dos textos. Eu prefiro que vocês leiam os textos inteiramente por sua conta; depois nós vamos ler juntos, não digo o texto inteiro, mas vou destacar alguns pedaços que me pareçam mais importantes e fazer algumas observações gerais, de modo a otimizar os resultados da sua leitura. Note bem que, em nenhum momento, nós vamos adotar o famoso método de fichamento de texto usado na USP há 70 anos, que nunca deu resultado algum. No último programa True Outspeak eu comentei que o homem mais culto que já existiu no Brasil foi Otto Maria Carpeaux, e que lhe perguntaram se ele fichava livros. Ele olhou para o repórter com uma cara de desprezo e disse: “você não sabe o que é educação europeia, sabe? Eu nunca fichei um livro.” Outro homem cultíssimo que conheci foi Ignácio da Silva Telles. Uma vez ele me disse “fichar para quê? Eu já tenho os livros”; quer dizer, você faz as anotações nos próprios livros e quando precisa você os consulta. Eu também sempre adotei esse método. Na USP eles tinham um sistema de ir decompondo o texto em pedacinhos, isto é, transformar um texto em uma espécie de estrutura numérica, com itens, subitens etc. — por exemplo: 1, 1.1, 1.1.1, e assim por diante —, de modo que você, segundo eles, possa identificar a partir daí as estruturas maiores do livro e as subestruturas dentro. Mas quem disse que numerar os pedaços indica que você captou a estrutura? Você pode fazer a numeração e ela não corresponder de forma alguma à estrutura do livro; isso aí são “penas de amor perdidas”, você só vai gastar um tempo enorme escrevendo coisas que já estão escritas no livro. O método funciona assim: você põe lá o número e as palavras do começo e do fim do trecho para identificar onde ele começa e onde termina; e aí subdividia aquilo. Sinceramente, eu não sei aonde isso pode levar. Isso talvez possa ajudar no caso de certos textos, mas como regra geral não funciona de maneira alguma. Eu vou dizer o que é importante quando você lê o texto: guardá-lo na memória o máximo possível. Eu não me lembro, na minha vida inteira, de ter lido uma única linha que eu não pretendesse guardar na memória; a não ser notícias de jornal e essas coisas que você guarda somente a informação e depois nem lembra mais de onde a tirou. Mas quando se trata de um livro clássico, para que você vai ler se não pretende guardá-lo na memória, mas esquecê-lo na semana seguinte? Eu me lembro que, quando jovem, eu dividia um apartamento com um sujeito chamado Macedo que lia o dia inteiro — um livro atrás do outro. Um dia ele interrompeu a leitura, olhou para mim e disse “diga uma coisa: você entende o que lê?” Isto para mim foi uma experiência traumática. Eu jamais li tantos livros quanto o meu amigo, mas só li com a firme disposição de entender tudo e de guardar na memória pelo menos aquilo que fosse importante para outras leituras e para outros estudos que eu fizesse depois. O estudo tem um sentido construtivo e acumulativo, no qual você tem de ser capaz de relacionar coisas que você está lendo agora com coisas que leu há 30 anos atrás, de maneira que você crie uma biblioteca interior. Se você for fazer aquele tipo de fichamento com cada livro, nunca vai terminar. Você vai ter de dedicar tanto tempo a cada livro que, no fim de sua vida, quando você estiver chegando no centésimo livro, está na hora de morrer. Essa decomposição do livro nas suas partes não corresponde, necessariamente, à estrutura do pensamento que está ali exposto, principalmente num caso como os diálogos de Platão em que tudo é alusivo, simbólico, analógico, e no qual raríssimas coisas estão ditas em sentido direto. Isto é muito importante: os diálogos de Platão são peças de teatro. Elas podem ser representadas no palco; você pode colocar lá um sujeito que representa Sócrates, outro Alcebíades, outro Protágoras e assim por diante. A força literária do texto não permite jamais que você a interprete somente em sentido literal raso; sempre há uma segunda intenção, uma ironia. Por exemplo, A República inteira é uma ironia. Quando nós lermos A República mais tarde vocês vão reparar que nada ali está dito de modo sério: “Nós temos de fazer um regime assim e assim...”. Ao longo dos tempos quantas pessoas não leram aquele livro como se fosse uma proposta política? Como se fosse um projeto de um regime utópico? O Sir Karl Popper leu exatamente assim. É um sujeito que não tem senso de humor, que leva as coisas demasiadamente a sério e se leva demasiado a sério, enquando o próprio Platão não estava se levando a sério. Quando um sujeito passa páginas e páginas construindo um regime lindíssimo, em que tudo funciona maravilhosamente bem, para no fim dizer que isso não vai durar, que na primeira esquina vai bagunçar tudo, então é claro que ele não está levando aquilo a sério e é claro que ele não pretende fazer aquilo. E se aquilo não é um projeto de regime utópico, o que é? É uma especulação em torno dos critérios de julgamento da sociedade humana. Ou seja, ele está tentando criar um padrão de perfeição hipotética contra o qual as sociedades pudessem ser examinadas, como se fosse uma substância para fazer contraste. E esse padrão de perfeição é propositadamente inalcançável. Partindo dessa idéia de perfeição inalcançável [00:10] — sem interferir na leitura que vocês farão da Apologia de Sócrates e do Fédon — nós podemos, a título preparatório ou profilático, lembrar um outro tema que já foi tocado aqui de raspão, mas nunca aprofundado: a perfeição extra-humana, tal como concebida por filósofos e elaborada ao longo do tempo. A origem remota disso é a escola pitagórica, onde Pitágoras disse que tudo é feito de números. É fácil perceber que os números não existem na natureza, nem na experiência sensível. E também não se pode dizer que eles existem só na nossa mente, porque quando você faz uma conta de 2+2=4 na sua cabeça, a mesma conta reproduzida com objetos materiais dará o mesmo resultado. Existe algo nos números que, por assim dizer, transcende a distinção entre sujeito e objeto. Os números funcionam da mesma maneira no sujeito e no objeto e eles conectam um com o outro de uma maneira um tanto mágica. Às vezes é até surpreendente ver como certos cálculos feitos puramente na sua cabeça se verificam no mundo exterior de uma maneira exata, igual. Os números sempre fascinaram o ser humano, também por aquele motivo que eu já mencionei e que é apontado por Wilhelm Worringer no seu livro sobre o estilo gótico. Ele lembra que as sociedades mais primitivas, mais indefesas da natureza, sempre criavam uma arte de estilo abstrato e geométrico, como se estivessem buscando refúgio num mundo abstrato contra os perigos e o caos do mundo físico circundante; e que é nas civilizações mais avançadas, com mais tecnologia, nas quais as pessoas se sentem mais defendidas e distantes da natureza, que começa a arte naturalística, onde a natureza não aparece como um perigo a ser evitado, mas como uma fonte de beleza a ser imitada. A beleza no início é concebida somente como beleza abstrata e ideal, não como beleza natural. Quem quer que tenha se aventurado no meio do mato alguma vez — e eu fiquei perdido no meio do mato durante quatro dias — não vai achar nada daquilo bonito. Durante aqueles quatro dias, eu olhava para o mato e só via miséria e perigo, e pensava como eu sairia dali. Muito mais tarde, quando conheci Orlando Villas Boas, ele me contou: “você acha que índio gosta de mato? Você está louco! Só quem nunca viu um índio é que pensa isso. O índio odeia aquilo! Ele limpa o terreno na taba, a deixa toda organizadinha, faz aquele círculo bonitinho que não se parece com nada na natureza — uma forma geométrica — e não sai dali. Só quem sai são os profissionais, gente treinada: índios com 30 anos de experiência, os guerreiros responsáveis pela tribo; aos outros não é permitda a saída de jeito nenhum. O sujeito não é louco. Ele não vai se oferecer para uma onça, para um jacaré...” Além disso, eu digo por experiência própria, no mato você não consegue lembrar o caminho que percorreu. Você anda cem metros e está perdido e, tentando sair dali, você é capaz de parar muito mais longe de onde estava. É uma coisa absolutamente desesperadora. Nós começamos a gostar de mato, de natureza, depois que inventaram a bússola, os mapas e os helicópteros que vão buscá-lo quando você se perde; daí fica tudo gostoso. Mas para uma sociedade pequena e antiga, aquilo é o inferno do qual ela tem de fugir. Essa tendência muito antiga do ser humano — refugiar-se no abstrato — aparece ou ecoa na filosofia pitagórico-platônica. Pitágoras diz que tudo é feito de números. Os números são inteligíveis, você os domina intelectualmente. Se tudo é feito de números, então o mundo é menos complexo e ameaçador do que parece, porque nós, mediante cálculos, podemos manejar o conjunto. É claro que isto é uma ilusão, mas nessa ilusão aparece o terror-pânico da natureza sensível, do Cosmos e, ao mesmo tempo, uma ambição de poder. Você tem tanto medo da coisa que sonha em poder dominá-la completamente, e se refugia nesse sonho justamente para se defender, para não ser invadido pela sensação de terror cósmico. Poucos confessam esta sensação de total desamparo perante a imensidão do mundo físico e a expectativa de outros mundos invisíveis por trás do mundo físico. Poucos dizem como Pascal: “a solidão desses espaços infinitos me apavora”. Esta meditação do infinito é justamente o que essas pessoas costumam evitar, mas o infinito é a própria condição na qual nós vivemos. Desde muito cedo vemos que existe no ser humano essa dupla tendência: por um lado, abrir-se para o infinito e reconhecer o seu desamparo, saber que ele está ali sob a proteção de uma força que o transcende, que ele não pode compreender e que é tão incompreensível quanto o próprio terror que ele sente; e, por outro lado, a tendência de refugiar-se na abstração e criar uma ilusão de domínio. As duas tendências são inteiramente legítimas; humanas por assim dizer. Mas a tendência de buscar refúgio no abstrato aparece com clareza máxima em Pitágoras, em primeiro lugar. Talvez tenha aparecido em algum outro, mas acho que não com essa clareza. Se tudo é feito de números, então o mundo que nos rodeia é apenas um tecido de ilusões e por trás existe uma realidade matemática que nós podemos conhecer, compreender e controlar. Portanto, não fiquem com medo, no fundo, está tudo sob controle nosso, desde que tenhamos os segredos dos números. O segredo dos números foi cultuado a tal ponto que, conta-se — eu não sei se é verdade, mas é uma história antiga — que o sujeito que descobriu os números irracionais foi executado pela escola pitagórica por bagunçar a ordem tão maravilhosa que eles acreditavam ter encontrado. Se existem números irracionais, então o mistério e terror do infinito do qual você estava tentando escapar através dos números acaba se reproduzindo no próprio universo dos números; eles tornam-se uma zona tão indefinida, tão incontrolável, quanto o próprio universo físico. Isso deve ter sido considerado, de fato, uma grossa sacanagem. De certo modo, ele era um traidor, um agente do caos externo dentro do mundo maravilhoso da ordem numérica. Desde o início, de milênios atrás, quando se descobre essa perspectiva de dominar a realidade externa através dos segredos dos números, este segredo se torna matriz de símbolos e rituais iniciáticos. Não existe uma só escola iniciática no mundo na qual não haja um simbolismo numérico; isso existe no Sufismo, na Maçonaria, em tudo quanto é lugar. Quando você participa desses ritos, você está recebendo o impacto daquele simbolismo. Mas o simbolismo, como sempre, vem de maneira compactada; ele é uma linguagem simbólica, e o símbolo necessariamente tem múltiplos significados. Desses significados, alguns podem ser verdadeiros, outros falsos, mas você nunca sabe de antemão. Um único símbolo tem várias camadas de significado espremidas dentro dele [00:20], ou seja, longe de lhe elucidar alguma coisa, o simbolismo coloca-o numa espécie de movimento ou de ânsia para elucidar o significado. Possuir um conhecimento simbólico não é propriamente possuir um conhecimento, é possuir um problema. Aqueles que têm acesso a esses ritos podem ter a impressão de que eles adquiriram um conhecimento superior, mas esse conhecimento veio tão compactado e tão mesclado quanto a própria experiência sensível. A experiência sensível, a experiência real do universo onde nós estamos não vem toda arrumadinha com seus significados e intenções explícitas, mas vem numa imensa confusão compacta, tão densa que pode ser representada inclusive como trevas, estas consideradas não como ausência, mas como excesso, como multiplicidade compactada. Por outro lado, como dizia Susanne K. Langer, “o símbolo é uma matriz de intelecções”; dado o símbolo, você pode tirar milhares de intelecções dali. É uma espécie de hormônio intelectual que, como qualquer hormônio, não lhe dá satisfação, mas apenas o desejo, o impulso, e não os meios de realizar esse impulso. Isto quer dizer que desde que essa coisa dos números, do simbolismo numérico começou há milênios atrás, o impulso, o desejo de alcançar através desse simbolismo o conhecimento mágico — que daria teoricamente o domínio da realidade exterior — tem sido uma das constantes do espírito humano. Como o símbolo não vem com a sua devida explicação, as sucessivas interpretações que se vão fazendo têm uma margem de erro absolutamente formidável. Façam a experiência: vocês devem conhecer alguém que seja maçom; pelo menos um maçom vocês conhecem. O sujeito passou por todas essas iniciações e está cheio desse simbolismo numérico na cabeça. Peça para ele explicá-lo, ele não sabe. Eu me lembro que no tempo em que apareceu o filme de Ingmar Bergman sobre a Flauta Mágica eu fiz uma série de conferências sobre o simbolismo maçônico nele; havia um monte de maçoms na platéia e eles caíram de costas, não tinham a menor idéia de que aquilo existia. Muita gente está passando por essas iniciações, por esses rituais há milênios. Já havia algumas formações mais ou menos claras no século XVI e XVII, mas a Maçonaria tal qual nós a conhecemos aparece, mais ou menos, entre os séculos XVI e XVIII; a famosa Constituição maçônica é do século XVIII. Mas existem outras organizações anteriores que repassavam esses simbolismos através de rituais, e todas as pessoas que passavam por isso ficavam com a cabeça cheia desses símbolos, nos quais eles enxergam algum conhecimento a mais; quer dizer, quem tem acesso ao símbolo tem acesso a um algo mais que o profano não tem. Porém, esse recurso a mais que eles obtiveram também não resolve nada, porque ele é tão confuso, tão incompreensível quanto o próprio mundo da experiência. Nada mais natural de que o fato desse conhecimento a mais gerar interpretações erradas e fantasiosas ao longo de milênios. Isso quer dizer que todas as filosofias e teorias científicas, absolutamente todas, que surgiram com o impulso de encontrar uma fórmula matemática da realidade ou do universo são inspiradas nesse ideal pitagórico. E todas elas têm uma origem ou na Maçonaria ou em socidades similares. Arturo Reghini, que foi o maior historiador maçônico italiano, diz taxativamente: “a ordem maçônica é a ordem pitagórica e não outra coisa. O simbolismo maçônico é o simbolismo pitagórico, e não outra coisa.” E assim como o simbolismo maçônico, há outros símbolos que você pode encontrar no Sufismo, no Esoterismo iraniano — que não é bem Sufi, é outra coisa —, enfim, por toda a parte. Isso quer dizer que, além do esforço monstruoso que o ser humano faz para interpretar e compreender o universo exterior e sua própria condição de vida, ainda tem esse esforço paralelo para interpretar o mundo dos números. Ou seja, você pergunta: “o que é o universo? De onde viemos? Para onde vamos? Qual é o segredo dessa coisa toda?” e alguém lhe responde com um monte de fórmulas numéricas. Muito bem, antes você tinha um problema e agora você tem dois. As fórmulas numéricas podem lhe dar uma pista, mas elas não estão explicando nada. É como você consultar um oráculo e ele lhe responder com uma fórmula esotérica. Você sai de lá pensando: “Eu vim aqui pedir a explicação para um problema e saí com dois.” Isto tem sido uma constante da história humana: entender o universo exterior, entender a realidade da experiência e entender o universo dos números que supostamente está por trás disso e que conteria em si, compactamente, a explicação de tudo. Por volta dos séculos XVI e XVII há todo esse florescimento da ciência moderna, que é baseado sobretudo na aplicação de princípios matemáticos. Note que aí começa uma tendência característica de toda a civilização moderna, que é a de confiar antes nos números do que nos fatos. Veja que Galileu Galilei escreve com orgulho que muitas vezes a ciência de orientação matemática faz violência contra os sentidos: aquilo que você está vendo é uma coisa, mas aquilo que o cálculo lhe impõe é outra completamente diferente. Você está vendo uma coisa, mas a realidade supostamente é outra. Giancarlo Infanti, que é um escritor católico italiano muito interessante, lembra o seguinte: Galileu diz que vai apresentar suas teorias mediante “demonstrações certas e experiências sensatas”. Giancarlo pergunta: “mas não tinha que ser o contrário?” O que tem de ser probante e exato são os fatos, já as demonstrações podem ser apenas sensatas, afinal de contas são uma tradução apenas de sua cabeça e os fatos é que estão do lado de fora. Galileu, de certo modo, se trai duplamente: primeiro, ao dizer com orgulho que suas teorias fazem violências contra os sentidos; e, em segundo lugar, ao inverter a hierarquia dos motivos de credibilidade dizendo que as demonstrações serão probantes e as experiências serão sensatas. Uma experiência que é apenas sensata ou razoável é, evidentemente, apenas um indício e não uma prova. E uma demonstração se for certíssima, prova apenas a si mesma e não a sua coincidência com a realidade externa. O cálculo mais exato do mundo prova apenas sua própria exatidão, não prova que ele coincide com um fato do mundo exterior. Só o que pode dar esta conexão é a experiência, mas daí a experiência tem de ser perfeitamente exata e tem que coincidir em gênero, número e grau com a hipótese que foi levantada de início. Nessa época surgem as grandes teorias como a teoria heliocêntrica, da gravitação universal, que inauguram a ciência moderna. Nessas teorias, uma multidão de fatos do mundo exterior é reduzida a uma fórmula que teoricamente as explicam, mas a conexão da fórmula com o mundo real, que é dada pela experiência, [00:30] é sempre um pouco frouxa. Por exemplo, a lei da gravitação universal demorou um tempo para se revelar inexata, mas acabou se revelando que não era um princípio universal, mas uma constante limitada que se aplicava a certos domínios da realidade, mas que não valia para outros. Como é que se descobriu isso? Por meio experimental, ou seja, os cálculos não estavam errados, o que estava errado era a conexão do cálculo com a realidade. Do mesmo modo a teoria heliocêntrica de Galileu. Ele oferece uma série de argumentos em favor da teoria, todos supostamente baseados na experiência, mas todas as esperiências são imaginárias, ele jamais as fez, apenas pensou. Por um lado ele diz que não finge hipóteses, mas por outro usa a expressão “eu concebo na minha mente”, mente concipio. Quer dizer, eu invento uma coisa na minha mente e começo a raciocinar a partir dela, mas por mais exatamente que eu raciocine, as minhas conclusões só serão coerentes com a premissa que eu mesmo coloquei e não com os fatos do mundo externo. Praticamente todas as provas que Galileu oferece do heliocentrismo são falsas, são todas erradas, há erros de cálculo monstruosos e hoje isto já está provado, não se discute mais; as provas de Galileu são inválidas. Se continuaram acreditando no heliocentrismo foi por outros motivos e não pelos alegados por Galileu. Quando a teoria de Galileu é examinada pelo inquisidor São Roberto Belarmino, a sua crítica fundamental é justamente esta: não bate com a experiência. Do mesmo modo é a teoria de Newton. Ela é toda baseada em premissas gerais que o próprio Newton coloca, por exemplo, o tempo absoluto, o espaço absoluto e assim por diante. Mais tarde, com Einstein, veremos exatamente a mesma coisa. A física que Einstein fez não é experimental, é teórica. Os instrumentos experimentais dele eram exatamente lápis e papel; só! E esse é um dos grandes orgulhos dele. Ele achava que a física teórica era infinitamente superior à física experimental. Dizem que um dia ele, por meio de cálculos, achou que deveria existir uma estrela em determinado lugar. As pessoas não conheciam essa estrela e mais tarde a descobriram e ele disse: “está vendo? O método puramente racional é superior ao seu método experimental”. Então temos aí três grandes teorias construídas com o predomínio da matemática sobre a experiência; da matemática sobre a física, por assim dizer. Isso aí não é propriamente uma física, é uma matematização da física. E o que predomina aí é a dedução puramente abstrata, é a matemática e não a física. A física que daí nasce é considerada superior justamente por estar matematizada. No século XX aparece então a crítica feita por Edmund Husserl no livro A crise das ciências européias, em que ele diz que a matematização da natureza sobrepôs à natureza um outro ente que nós não sabemos o que é. Mais tarde ainda, o professor Wolfgang Smith — nesse livro que nós lançamos recentemente — dirá que todos os cálculos, pelo menos os da física quântica, referem-se não ao mundo da natureza, mas ao mundo da matéria secunda, uma espécie de matéria virtual. Pode ser, pode não ser, mas o fato é que não se refere ao mundo físico, refere-se a uma outra coisa. Essa outra coisa seria o mundo das relações matemáticas que supostamente transcende, abrange, domina e explica o mundo físico. Então novamente estamos aí remontando a Pitágoras: o mundo aparentemente é feito de coisas, mas na “realidade” é feito de números, e neles está a razão de ser e a explicação das coisas. Ora, se essa tradição pitagórica é tão constante e tão importante no desenvolvimento da história ocidental e se, sobretudo, ela está na raiz de toda a ciência moderna, então chegar a uma compreensão efetiva desse simbolismo dos números é algo de uma urgência absolutamente formidável. Só que, quando nós estamos conscientes de que os números são uma linguagem simbólica, nós compreendemos que todas essas construções matemáticas maravilhosas criadas por Galileu, Einstein, Newton etc. estão tomando os números num sentido grosseiramente literalístico e puramente quantitativo. Ou seja, por cima do mundo da natureza — que é um mundo mais ou menos informe e caótico — se constrói outro criado por medições. Ora, medição é a comparação de uma coisa com outra; você mede uma coisa pela outra, a outra pela uma, e assim por diante. Podemos dizer que essa medição é sempre externa à natureza dos entes — tão externa que a noção da substância, ou da forma substancial, é colocada de lado. A partir de Galileu e Newton a forma substancial não interessa mais, interessam somente as medições, ou seja, não interessa o que os objetos são, interessam somente as relações matemáticas entre eles. Francis Bacon chega a dizer que a noção de forma substancial é uma fantasmagoria do intelecto: “temos de esquecer essa coisa de forma substancial e nos ater aos fatos”. Fatos que, para ele, são constituídos de medições. Mas, por natureza, uma medição não pode ser um fato. Fato é aquilo que chega a nós através dos sentidos, as medições são comparações matemáticas que você está fazendo, que você está impondo ao mundo. Agora pergunto eu: um único objeto pode ser medido em quantos sentidos e em quantas direções? Infinitos! Isto quer dizer que qualquer sistema de medições é arbitrário em relação ao fato que você está medindo. Kant, que era um grande admirador da física newtoniana, chegará a dizer que o cientista não se coloca perante a natureza como um observador, mas como um policial que força a natureza a responder as perguntas que ele quer. E quem escolheu as perguntas? Quem disse que essas perguntas são aquelas que o próprio fato está sugerindo? Kant estava consciente desse problema — eu não estou dizendo nenhuma novidade —, mas ele saía dessa dizendo que o interesse, o desejo humano de responder a esta ou àquela pergunta predomina sobre a estrutura do fato. As formas a priori do nosso entendimento têm validade porque são idênticas em todos os homens, então pouco importa o que a natureza quer nos dizer, importa apenas o que nós a obrigamos a dizer de acordo com a nossa ordem de interesse. Se essa ordem de interesse coincide ou não com a estrutura externa da realidade pouco importa, porque ela terá validade universal. Mas, notem bem, validade universal não significa realidade. Fazer um raciocínio logicamente perfeito, um cálculo matematicamente perfeito, não quer dizer de maneira alguma que esse raciocínio ou esse cálculo expresse algo da realidade. A frase “um dragão verde que tenha quarenta e cinco bolinhas cor-de-rosa tem mais bolinhas que outro dragão verde que tenha quarenta e quatro bolinhas” é logicamente perfeita, matematicamente irrefutável, mas não se aplica à realidade alguma pelo simples fato de que não existem dragões verdes com bolinhas cor-de-rosa. Mesmo que existam dragões verdes com bolinhas cor-de-rosa, nenhum foi constatado até agora... Isso significa que, a partir de Kant, a coincidência com a realidade exterior já não importa, importam apenas a exatidão e a formalidade, não só dos cálculos matemáticos, mas de todas [00:40] as formas criadas pela cultura. Isto quer dizer que nós podemos conceber a cultura humana como um conjunto de criações humanas e entendê-la em si mesma sem colocar o problema de se isso corresponde à realidade exterior ou não. Esta idéia influenciou não só as ciências físicas, mas também as ciências humanas, a antropologia, a sociologia etc. Existe toda uma escola culturalista para a qual o objeto de estudo é a cultura, e a adequação maior ou menor dessa cultura ao mundo exterior é uma coisa que não interessa absolutamente. Por exemplo, se uma dada cultura acha que as chuvas são produzidas pelas discussões entre sapos e isto funciona dentro daquela cultura, tem uma funcionalidade dentro sua estrutura geral, então isso é válido. Se nós acharmos, como os astecas, que é preciso arrancar diariamente o coração de uma pessoa para que o sol continue saindo e essa crença tem uma função e consegue ordenar aquela cultura, então está bem, não há nenhum problema. Então a noção de veracidade como coincidência com o fato desaparece por completo e só sobram as noções da estrutura, da ordem interna, da funcionalidade etc. As conseqüências disso vão chegar a um ponto no qual, quando vem o estruturalismo e o descontrucionismo, as próprias formas culturais, como os textos, as obras de arte etc., já são consideradas entidades em si mesmas sem referência a nada fora delas. Por exemplo, o universo inteiro, tudo o que o ser humano disse e escreveu desde o começo dos tempos, só se refere ao mundo interno dos textos e discursos. Um texto se refere a outro texto, que se refere a outro texto, que se refere a outro texto e assim por diante... E não há referência ao mundo exterior. Os indivíduos esquecem o seguinte: quando um texto se refere a outro texto, esse outro texto é um elemento tão externo a ele quanto o mundo exterior. Por exemplo, em uma comparação entre Dom Quixote e O processo de Kafka, O Processo é tão estranho ao Dom Quixote quanto qualquer fato da natureza exterior. Ademais, os textos só chegam ao conhecimento dos distintos autores através de um objeto físico no qual eles estão impressos, que é o papel. Portanto, se não pode haver referência de um texto ao mundo exterior, também não pode haver a referência de um texto a outro texto porque esse outro texto supõe a mediação de um objeto físico. Se o texto não pode ter nada a ver com um objeto físico, então só pode haver um texto no mundo. Por exemplo, se Kant faz uma citação de Newton, como ele ficou sabendo da idéia de Newton? É porque ele pegou o livro de Newton na mão e o leu. Então, evidentemente, qualquer referência de um texto a outro texto supõe a referência ao mundo exterior. Essa tese desconstrucionista como recurso eurístico é interessante porque propõe tentar conceber o mundo dos textos como se ele fosse um mundo fechado. Este mundo da inter-referência de texto a texto vai revelar muita coisa, sem dúvida, mas você está fazendo abstração da ligação com o mundo exterior, você não o está abolindo realmente, é apenas uma hipótese de trabalho que você fez. É como você decidir fazer um desenho em branco e preto: você só leva em conta as formas, as posições, os contrastes de luz e sombra, e não leva em conta as cores. Mas foi você quem decidiu fazer isto, o que não significa que as cores não existam. Qualquer pessoa que tenha alguma experiência em desenho sabe que a primeira providência do desenhista é fazer uma abstração. Ele tem de decidir entre o que está vendo e o que quer desenhar. Por quê? Porque é impossível desenhar tudo! Então todo desenho implica uma seleção preliminar. Se desde o início ele não sabe, não tem clareza dessa seleção, então não consegue desenhar. Isto não quer dizer que o desenho seja independente do mundo exterior considerado como totalidade plena. Se ele não estivesse consciente da continuidade plena daquilo que está desenhando, como poderia fazer uma seleção dentro dela? Como eu posso separar, por exemplo, as linhas das cores, se não estou consciente de que existem cores? Outra coisa, qualquer objeto físico tem um peso que eu não posso desenhar, então eu tenho de fazer abstração dele ou encontrar um meio pictórico de insinuá-lo de tal modo que a pessoa que veja o desenho se lembre do peso. Eu desenho, por exemplo, um sujeito muito gordo, enfatizo a gordura dele, e a pessoa que olhar para aquilo vai saber que estou me referindo ao peso sem poder representá-lo diretamente. Os critérios que orientam essas seleções são, em si mesmos, muito interessantes, e você pode comparar vários quadros sob este aspecto: o que o desenhista ou o pintor escolheu para desenhar e o que ele deixou de fora? No entanto, o simples fato de deixar algo de fora significa que esse algo existe e que estava presente ao desenhista no momento em que ele planejou a sua obra. Então, nós podemos considerar os produtos culturais como formas que se relacionam umas com as outras. Quando fazemos isto também estamos fazendo uma seleção: estamos deixando de fora o mundo físico, real no qual os autores das obra estavam. Ao comparar a técnica de Giotto com a técnica de Velázquez, eu supus que os dois existiram no mesmo mundo onde eu estou. Essas técnicas de análise puramente formal são muito interessantes, desde que você se lembre de que todas seleções foram operadas a partir de um material natural que não foi inventado nem por um pintor, nem pelo outro; nem por um arquiteto, nem pelo outro; nem por um cientista, nem pelo outro... O desconstrucionismo é a última etapa, até o momento pelo menos, de um desenvolvimento que remonta a Pitágoras e que atravessa uma intensificação no começo da idade moderna com a idéia de encontrar a estrutura matemática inerente à totalidade do universo. Essa estrutura matemática poderia ser expressa mediante teses e fórmulas, e teriam uma expressão científico-doutrinal sob a forma de leis, enunciados. Acontece que esse salto do mero simbolismo matemático para o enunciado das leis que supostamente governam a totalidade do real foi operado com um entendimento muito precário e grosseiro dos símbolos matemáticos. No momento em que você toma os números apenas como unidade de medição e apaga as formas substanciais, você está na verdade criando um abismo entre o mundo das relações matemáticas e o mundo dos entes reais. Foi só no século XX que alguns autores começaram a explicitar o elemento simbólico dos números que são transmitidos nesses rituais iniciáticos e a obter — talvez não obter, mas publicar — explicações mais satisfatórias. Nós temos de lembrar do famoso Matila Ghyka com a tese sobre o número de [00:50] ouro etc., do René Guenon com o livro sobre o cálculo infinitesimal e as inúmeras explicações magistrais que ele dá sobre o simbolismo numérico em várias partes, mas acima de tudo, e superior a todos eles, do nosso Mário Ferreira dos Santos. O Mário é o primeiro autor na história que consegue dar ao simbolismo pitagórico dos números um sentido que é coerente com a experiência do mundo exterior. E ele dirá o seguinte: os números usados na medição são apenas os números externos, por assim dizer, são os números puramente quantitativos, números no sentido exotérico da coisa. Esotericamente os números não são apenas unidades de medição, os números são formas e essas fórmulas expressam, cada uma delas, o número 1, o número 2, o número 3 etc. E supõe relações que podem ser observadas tanto externamente entre os entes, quanto internamente na própria constituição deles, na própria forma substancial deles. Isto quer dizer que uma única forma substancial de um único ente — por exemplo, uma minhoca ou uma tartaruga— tem internamente um conjunto de formas que não só pode ser expresso numericamente, mas que na verdade são também relações internas que têm, elas mesmas, uma estrutura numérica. Por exemplo, ele diz: “Todo ente que existe tem de possuir uma unidade”. A unidade e o ser se convertem um no outro, já dizia Duns Scot. Então um ente qualquer pode ser expresso na sua unidade; se ele não tiver unidade nenhuma quer dizer que ele não existe, que ele é parte de outra coisa. Porém, ele não pode ser uma unidade simples pelo simples fato de que ele é uma unidade entre outras. Isto quer dizer que ele não pode conter em si todos os atributos da unidade, embora não possa lhe faltar unidade: ela é uma unidade problemática, por assim dizer. Se ela fosse uma unidade absoluta seria eterna, indestrutível, indecomponível. Mas tudo que existe é decomponível, mesmo a expectativa — também pitagórica — de se aprofundar na estrutura da matéria até achar os pretensos átomos. O que é “átomo”? A-tomo é aquilo que não pode ser subdividido. Demócrito achava que tudo se compõe de unidades mínimas indecomponíveis e, finalmente, quando descobriram os átomos também descobriam que o átomo tem estrutura, que ele é composto de uma série de coisas, não é a-tomo, é separável, decomponível. “Então nós vamos aprofundar um pouco mais e encontrar as partes mínimas, indecomponíveis...” E vão decompondo, decompondo, e sempre encontram mais e mais partes, até que chega uma hora em que não sabem mais se a parte mínima que encontraram existe, sabem apenas que ela é uma quantidade, um quantum. Mas um quantum é decomponível por natureza. Tudo aquilo que tem quantidade é por natureza decomponível. Então essa esperança de encontrar no mundo físico as partes mínimas já foi para o brejo há muito tempo; já acabou, todo mundo sabe que isto não existe, que você nunca encontrará essas partes mínimas. Todo ente que existe tem alguma unidade, mas ele não é “a unidade” no sentido pleno da coisa. Senão ele seria, em primeiro lugar, a única coisa que existe; em segundo lugar, não sendo indecomponível, ele seria eterno e indestrutível, e nós até hoje procuramos, procuramos, e não encontramos nada indestrutível no mundo natural. Cada unidade é uma unidade problemática, uma unidade conflitiva, o que significa que ela tem dentro de si uma contradição. Assim, esse objeto, esse ente, tem algo do número 1, mas também tem algo do número 2, que é a divisão, a contradição. Mas esses dois elementos antagônicos dos quais o ente se compõe têm de estar numa relação, e relação não se resume nem a um nem a outro. Então você tem de ter uma estrutura ternária. Essa estrutura ternária necessariamente contém dentro de si um algo mais, que é a relação de proporcionalidade entre os elementos. Se você tem dois elementos e uma relação entre eles, eles têm de estar unidos por alguma proporcionalidade tipo “a/b=x/y”. Isto quer dizer que os elementos antagônicos que estão de um lado e de outro também têm uma subdivisão interna entre os quais existe uma proporção, “a/b=x/y”. Portanto nós temos o quaternário. Esse quaternário, por sua vez, expressa, por assim dizer, a totalidade dos elementos antagônicos que estão dentro daquele ser, e essa totalidade é novamente uma unidade. Desse modo, a unidade que nos parecia unidade simples no começo se mostra agora como unidade complexa de um quaternário, mas a unidade do quaternário é algo mais além do próprio quaternário, então já não são 4, são 5. E assim por diante. O que fez o Mário Ferreira? Ele mostrou que a simples seqüência dos números já contém compactamente não só as categorias inteiras sobre as quais um objeto pode ser examinado, mas estas têm de estar nele para que ele possa existir. Então os números aí não aparecem como unidade de medição — não são uma coisa que você está de fora projetando sobre ele, com uma régua para observar relações entre ele e outros elementos —, mas passam a ser uma linguagem na qual se expressa a própria forma substancial. Então ao chegar no número 5, ele dirá que o número 5 é a lei de proporcionalidade intrínseca daquele objeto em particular, o conjunto das proporções que o define e que fazem com que ele seja exatamente o que é. Essa contagem pode prosseguir indefinidamente, e você descobrirá novas categorias das quais o objeto participa necessariamente. Isto quer dizer que idealmente cada ente tem um número. O que é um número? É a fórmula da sua lei de proporcionalidade intrínseca e a lei constitutiva de todas as relações que ele pode ter com todos os demais objetos, não sob o ponto de vista da medição externa que você faz, mas do ponto de vista das possibilidades reais de relação entre aquela substância e outras substâncias. Isto quer dizer que, sob este aspecto, Pitágoras tinha realmente razão: os entes são números. Contudo, podemos chegar a conhecer o número de um só ente, de uma minhoca, de um mosquito? Nunca! Nós podemos nos aproximar desse número como numa assíntota. Nós vamos descobrindo mais coisas e recompondo a unidade dele em níveis de abrangência cada vez maiores; mas nunca terminamos, porque o número de um único ente teria dentro de si todas as possibilidades de relações que ele pode de ter com todos os outros entes existentes ou por existir. Então, o conhecimento de um único ente seria ao mesmo tempo finito [1:00], porque é um número, mas seria indefinido ou inalcançável. Conclusão provisória: o mundo de fato pode ser visto como composto de números, porém o conhecimento dos números não é uma simples questão de medição que você possa fazer e depois conferir por experiência, mas é a penetração na estrutura numérica de cada substância, de cada forma substancial, e isso nós só podemos conhecer analogicamente ou simbolicamente. Ou seja, se o próprio ente é um símbolo, o número dele é outro símbolo que nos remete a algo que nós entrevemos mas não vemos. Comparado com isto, o tipo de matematização que foi feita na natureza na Renascença nos parece de uma grosseria e de um primarismo atroz. Então nós podemos dizer que, na época, os fundadores da ciência moderna fizeram uma interpretação exotérica dos números, sem poder compreender o seu sentido esotérico mais profundo. Eu acho que Matila Ghyka e René Guénon fizeram muito nesse sentido, mas comparado com o Mário eles não fizeram nada, apenas disseram que aquilo existe, mas não disseram o que é, enquanto que o Mário expôs a coisa. Só no livro A Sabedoria das Leis Eternas ele vai mostrando todas as categorias, de um até mil e duzentos, expondo cada número como uma lei constitutiva dos objetos. Ao mesmo tempo ele demonstra que através dos números nós temos esta abertura para a apreensão da essência dos entes, mas que é uma apreensão que jamais se completará, permanecerá sempre analógica, simbólica. Depois que o Mário fez isso nós podemos rever a história inteira das ciências e da filosofia e reparar como essa história — inspirada por um sonho pitagórico — é realizada da maneira mais grosseira e estúpida possível, compreendendo os números apenas como relações externas, e não como expressões da estrutura interna da verdadeira constituição e da forma substancial dos entes. Então se tudo é um número, se tudo tem uma lei de proporcionalidade intrínseca, podemos conhecer esta lei de proporcionalidade intrínseca? De certa maneira sim, porque se nós somos capazes de distinguir um objeto de outro é porque nós pegamos não somente a sua forma substancial mas também as condições da sua existência individual presente — as quais também idealmente poderiam ter uma expressão numérica —, e nos referimos à esta unidade através de um símbolo numérico que nós não sabemos. Ou seja, se eu olho uma minhoca ou uma pessoa, eu sei que ela tem uma forma e que essa forma idealmente pode ser expressa com um número. Mas eu não conheço esse número. Tudo que eu posso fazer é, por um lado, tomar o número como símbolo sem saber qual é o número em cada caso — que é exatamente o que estou fazendo aqui —, ou fazer medições externas, como faziam o Newton e Galileu. Isso quer dizer que o simbolismo dos números torna muito mais clara para nós a existência da forma substancial e o entendimento do que Pitágoras pode ter querido dizer com a fórmula: “tudo são números”. O Mário Ferreira deixa claro que ele não sabe se esta interpretação que ele está dando dos números pitagóricos é aquela que historicamente Pitágoras deu. Ou seja, nós não sabemos se Pitágoras entendeu perfeitamente a sua própria fórmula, ou se apenas a lançou no ar como um símbolo. Eu acho que esta última hipótese é mais viável, porque se Pitágoras entendesse perfeitamente o que ele estava dizendo, ele teria explicado e não simplesmente lançado uma fórmula no ar. Então, esta fórmula tem valor poético, simbólico, mas não doutrinal. Ao dizer que tudo são números Pitágoras também está dizendo: “não são números”. Podem, idealmente, ser expressos como números; todas as coisas podem ser idealmente expressas como número, mas nós não conhecemos esses números. Só que, além de números, elas têm de ser algo mais, elas têm de ter existência. A lei de proporcionalidade intrínseca de um objeto não existente se expressa com números tanto quanto a de um objeto existente. E como vamos expressar numericamente a passagem do nada ao ser? Depois de entendermos o sentido do simbolismo dos números, entendermos que ele está expressando as leis de proporcionalidade intrínseca dos objetos e o esquema de todas as suas relações possíveis, nós entendemos que o mundo desses números é tão vasto e inabarcável quanto o próprio mundo físico. Isto quer dizer que o mundo dos números é um simbolismo sem fim que expressa outra realidade sem fim. Então ele só tem valor analógico, poético. Segundo o Mário isso é a culminação do saber humano; não dá para passar além disso. Mas é uma culminação que por sua vez também não tem fim. Quer dizer, é um fim sem fim. Depois que nós entendemos isso, podemos perguntar: então serão esses números a linguagem de Deus? A resposta é definitivamente não. Não, porque se Deus falasse em números haveria apenas números, mas além de números existem coisas. E as coisas têm algo que transcende infinitamente o mundo dos números, que se chama existência, o ser. Isto quer dizer que para Deus a linguagem dos números não tem prioridade em relação a qualquer outra linguagem. Por exemplo, existe a linguagem da presença dos seres, existe a linguagem da cor deles, a linguagem da expressividade deles e, sobretudo, a linguagem das palavras. Então por que Deus haveria de escolher uma dessas linguagens ou outra, quando justamente a coexistência todas elas é condição do que é chamado de existência? Isso quer dizer que mesmo que compreendessemos toda a linguagem dos números e tivessemos na cabeça a totalidade das leis numéricas universais, nós não conheceríamos a totalidade da realidade e não teríamos a explicação de tudo. Note bem o Mário enumerou essas leis até mil e duzentos, mas ele sabe que aquilo prossegue indefinidamente, que ele não abarcou o mundo inteiro das leis, que apenas o sugeriu e que jamais poderia ir além disso. Deus não fala em uma linguagem de números, ele fala com uma multiplicidade ilimitada de linguagens, das quais os números são somente as mais fáceis para nós. Eles simplificam, criam uma barreira defensiva entre nós e a complexidade do mundo real. Mas isto não quer dizer que nos refugiando no mundo dos números nós tenhamos alcançado a realidade última. Veja que nem o Mário Ferreira dos Santos, com toda esta majestosa explicação do mundo dos números — que é a meu ver a mais alta realização intelectual que um ser humano já fez no planeta —, pretendia ter conhecido a explicação última, mas Newton pretendia. Newton com aquela sua matematicazinha grosseira e puramente quantitativa pretendia ter alcançado a explicação última. E muita gente acreditou que ele a tivesse encontrado. Quer dizer, Newton foi transformado quase num deus. Hoje nós podemos ter uma perspectiva da história intelectual [1:10] que nos mostra que as presunções da cultura moderna foram de um ridículo quase inexpressável. Foram erros, visões limitadíssimas, que pretendiam estar decifrando a própria linguagem de Deus. Vocês devem se lembrar da última aula quando eu disse para vocês que a explicação última, a resposta às nossas indagações, não pode jamais tomar uma forma doutrinal. Porque toda e qualquer doutrina, toda e qualquer teoria, é apenas uma construção da mente humana que se refere à realidade de uma maneira analógica e necessariamente incompleta. Somente aquilo a que a religião chama de “a visão de Deus” tem a resposta final. Não há nenhum místico, santo ou profeta com alguma experiência no assunto que nos diga que a visão de Deus toma a forma de uma apreensão teórica doutrinal da realidade, mas toma forma do conhecimento de uma pessoa. A explicação final toma a forma da compreensão de uma intencionalidade divina, que se apresenta a você da mesma forma como uma intencionalidade humana, com a diferença de que ela é infinita e inabarcável. Mas isto não quer dizer que ela seja inapreensível. As pessoas dizem que não há experiência do infinito, mas se não existe a experiência do infinito não existe experiência de nada. A diferença entre a experiência do infinito e a experiência do finito é que, na experiência do finito eu capto a explicação do finito; e na experiência do infinito é o infinito que me explica a mim mesmo. Portanto esta experiência do infinito me alarga, me amplia. Quanto? Indefinidamente. Ela toma a forma de uma expansão ilimitada da consciência humana. Ilimitada mas não infinita, porque isso também vai por partes e por etapas. Hoje nós podemos entender que toda e qualquer tentativa de explicação doutrinal da realidade é como a construção de um poema, ou de uma obra de arte. Por que nós podemos compreender o poema e a obra de arte? Porque sabemos que ele não contém a totalidade da realidade. Nós sabemos que ele aponta para uma realidade infinita que nós antevemos, mas não vemos. E sabemos que é nessa totalidade infinita que está realmente a explicação. Então a função de toda a cultura humana, de todo esforço intelectual e criativo humano desde que o mundo é mundo é apenas criar símbolos que nos abram para a perspectiva do saber infinito, que é o saber divino que se apresenta a nós, não como fórmula doutrinal, mas como intencionalidade de uma pessoa. Intencionalidade que se manifesta no quê? No amor divino. Esta intenção divina é o amor divino. A experiência do amor divino é a única explicação final. Ela contém toda as outras, e comparadas com ela todas as explicações doutrinais que inventamos são apenas símbolos remotíssimos. Eles são como uma carta de amor que você recebeu da sua namorada distante. Agora que você já tem a carta você não precisa mais da namorada? A distância de uma coisa a outra é como a distância entre uma carta e um ser humano real; na verdade a distância é maior do que isso. E o objetivo dos nossos esforços é simplesmente nos abrirmos para esse amor divino, que nos dá quantas explicações quisermos, que contém a sabedoria infinita e que a prodigaliza a nós em quantidades ilimitadas, com a condição de que nós sabemos que depois tem mais; que você não se feche na graça recebida achando que ela é Deus. É claro que a percepção de Newton da lei da gravitação foi uma graça que ele recebeu. Só que em seguida ele cria uma idolatria, pensa que aquilo é a linguagem divina, enquanto aquilo é apenas um sinal pequeniníssimo. Mas note que a presunção de Newton era a de inaugurar uma nova religião. Newton queria demonstrar a sua teoria da unidade do absoluto. Ou seja, abolir a trindade e criar uma outra religião, mas uma religião de tipo islâmica. Ele se considerava realmente um profeta, e era apenas um louco. Se estudarem a biografia de Newton, vocês verão que os sinais de psicose ali são tão grandes que não é possível negar que o homem era realmente louco. Sujeito louco, agressivo, sempre nervoso, sempre odiento sem motivo, com umas condutas esquisitíssimas e com presunções absolutamente estratosféricas. Eu pergunto: por que admiramos tanto essas pessoas, cuja pequenez se mostra na suas mesma presunção de haver captado leis divinas universais? Eu não acredito que o próprio Pitágoras tivesse isso. Eu não acredito que ele levasse sua própria fórmula tão a sério ao ponto de dizer que aquilo era a explicação final. Dizer “tudo são números” é exatamente a mesma que dizer: “tudo são palavras. Cada ente é uma palavra que Deus lhe disse”. Trabalhe nessa linha, investigue esta noção, que seria então do simbolismo natural, e você descobrirá tantas coisas quanto você descobrirá pela linha de investigação do Mário Ferreira dos Santos. Considerar tudo que existe como uma linguagem, como um discurso divino é tão fértil quanto investigar tudo como números. Você não pode também investigar tudo como se fosse uma escultura divina? Uma forma que Deus criou no espaço? Também! Ou seja, tudo pode ser número, palavra, forma espacial, nota musical e assim por diante. Você não pode investigar tudo como se fosse um sentimento divino? Algo que Deus está mostrando para você sentir? Também pode! Ou seja, não há uma linguagem divina privilegiada. O cosmos inteiro é linguagem divina, meu Deus do céu! E isto não se resume nem a números, nem a leis gramaticais, nem à estrutura do discurso e nem à coisa nenhuma. Isto se resume em algo que se chama realidade, que é a criação divina, sendo que toda a realidade universal acessível para nós não é o mundo divino inteiro. Nós podemos comparar o universo inteiro como se fosse um átomo do mundo divino. Quando se diz, por exemplo, que Jesus ascendeu aos céus. O que isto significa? Que ele foi subindo? O céu estava em cima numa relação vertical em face daquelas pessoas que estavam ali de pé olhando-O subir? É claro que não! Subir aos céus quer dizer também ampliar. Jesus não subiu em linha reta, subiu para todos os lados ao mesmo tempo. O mundo celeste é aquilo que abarca infinitamente o mundo terrestre. O mundo espiritual é aquilo que abarca e transcende o mundo material, e é para lá que Jesus foi. Nós podemos entender isso analogicamente, como numa assíntota, também. Quando se diz, por exemplo, que Nossa Senhora apareceu em tal lugar; eu pergunto: e se Nossa Senhora quisesse aparecer para todos os seres humanos em todos os lugares do planeta ao mesmo tempo, não seria possível? Claro que seria! Na verdade isto acontece. Ah! Por que apareceu Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, [1:20] Nossa Senhora Aparecida etc.? Mas meu Deus, ela está aparecendo em todo lugar! Não podemos ser ingênuos de compreender o céu como uma coisa que está apenas acima de um determinado plano onde nós estamos. Não, o céu rodeia e envolve a terra. Isto significa que o mundo divino é infinitamente maior do que o universo, ele o abarca e o transcende. O simples fato de você escapar do mundo das medidas quantitativas para ir a um outro onde essas medidas já não vigoram mais e já não o prendem mais, mostra que o supra quantitativo transcende e abrange o quantitativo. Então a explicação, a resposta que nós devemos buscar é o confronto com o amor divino, que tem todas as explicações e não uma fórmula doutrinal que teoricamente nos desse a explicação e domínio do universo. Cada vez que se dá um passo acreditando que se avançou na direção desta compreensão doutrinal, desta fórmula doutrinal explicativa, não se obtém fórmula doutrinal explicativa nenhuma, mas se adquire um instrumento de domínio sobre os outros seres humanos. Veja, por exemplo, toda a tecnologia que se desenvolve a partir de Newton e que, como toda tecnologia, aumenta o poder de um sobre outros. Nada disto foi, de fato, uma busca do conhecimento, uma busca da resposta, mas no fundo, sabendo ou não, foi uma busca do poder. Também é claro que esse poder é bastante relativo, porque obter o domínio sobre inúmeros seres humanos não significa que o sujeito aumentou o domínio sobre si mesmo — ele vai conduzir um processo, só que não sabe para onde conduzi-lo. Então ele está tão perdido quanto antes. Quando a Bíblia fala da loucura da sabedoria humana, ela está falando que a sabedoria humana inteira é loucura em face da sabedoria de Deus: não há medida comum. E tudo o quanto é da sabedoria humana só vale na medida em que reflita a verdadeira proporção das coisas segundo a escala do amor divino, senão está fora da realidade. Outra coisa, quando Jesus disse que o demônio é mentiroso e pai da mentira, a que mentira Ele está se referindo? Será que são as pequenas mentiras que nós dizemos uns aos outros? O sujeito saiu com a mulher do vizinho e diz para a mulher dele que estava na igreja, por exemplo. Será que é a isto que Jesus se refere? Você acha que Jesus tem tempo para perder com essas bobagens? Não! Ele está falando de uma mentira de escala cósmica, a falsificação do mundo inteiro. E note bem, até um tempo atrás nenhum ser humano tinha condições de ser um agente do demônio e falsificar o mundo inteiro. Foi só com os instrumentos da ciência e da tecnologia modernas que isto se tornou possível: enganar a todos, criar um mundo fictício no qual todo mundo entra. Por exemplo, o mundo newtoniano-galilaico. Quanto tempo as pessoas não acreditaram viver dentro disso? Desde que saiu a teoria de Newton até que veio a física mais recente, todo mundo vivia dentro do mundo newtoniano. Só que o mundo newtoniano não existia. Kant, Hume, John Locke estavam todos dentro do mundo newtoniano; os filósofos todos do século XIX estavam crentes que viviam no mundo newtoniano, só que não estavam. É isto que Jesus quer dizer com pai da mentira. É uma mentira tão enorme, tão abarcante que encobre o mundo inteiro. E por isto mesmo também se chama o demônio de príncipe deste mundo. Quer dizer, ele tem o poder de encobrir a realidade inteira e substituir a realidade efetiva, que é a realidade do amor divino, por um conjunto de fórmulas doutrinais mediante a qual meia dúzia de idiotas acreditam que alcançaram o segredo último da realidade e que tem o poder sobre todas as outras coisas. Ou seja, a cultura moderna é uma alucinação. E nós estamos saindo dela, finalmente. Só que precisamos tomar muito cuidado para não cairmos numa mentira maior ainda. Muita gente vai cair. Mas agora, depois desse ciclo moderno de três séculos, pode vir uma mentira tão gigantesca e tão maravilhosa que vai enganar todo mundo; dessa vez será todo mundo mesmo. Porque a mentira newtoniana só enganou aqueles que fizeram o ginásio. As pessoas que foram privadas — ou protegidas — dessa experiência traumática estão mais próximas da realidade originária do que aqueles que tiveram acesso, como se diz, aos benefícios da cultura moderna. Mas se a nova mentira vier sob a forma de uma religião ela pode pegar todo mundo, porque não requer estudos especiais, apenas a participação em certos ritos. E o risco de isto acontecer é muito grande. Eu não sei se vai acontecer, mas sei que existem pelo menos dois projetos que vão nessa direção. Um é o projeto da religião unificada, que está em estudos há quase cem anos, financiado por Rockefellers, Rothschilds e outros através da ONU. Isto está relatado no livro do Lee Penn, False Dawn (Falsa Aurora), que vocês não podem deixar de ler. A “falsa aurora” é o que vai se substituir à cultura científico tecnológica moderna através, inclusive, de muitos dos agentes dessa mesma cultura que estão cansados desse mundo científico-tecnológico: “Ah, agora eu tenho uma abertura mística. Então agora eu vou investigar as civilizações primitivas, os simbolismos etc.” E caem neste engodo. Eles estão querendo trocar uma fórmula doutrinal por outra fórmula doutrinal mais abrangente; e mais enganosa, evidentemente. A segunda, vocês sabem, é a fórmula do professor Dugin. É a nova religião eurasiana que vai substituir o chamado o materialismo-individualista ocidental por uma noção holística. Mas a fórmula da religião da ONU também não é holística? Então os dois lados que parecem estar brigando na verdade estão querendo criar um holismo universal. Isto não é maravilhoso!? O holismo, o nome já diz, é a totalidade: “Nós temos aqui a fórmula da totalidade”. Então o que nós temos de responder? Meu filho, a totalidade não interessa, o que interessa é a infinitude; porque essa sua totalidade é apenas um átomo do infinito. Muito bem, vamos fazer uma pausa; daqui há pouco voltamos. Intervalo Vamos recomeçar. Já que nós falamos do Mário Ferreira dos Santos, eu queria lembrar uma coisa a vocês. Absolutamente tudo o que está publicado como obra do Mário Ferreira dos Santos são apenas aulas gravadas e transcritas — transcrição bruta de aula, sem o menor trabalho de edição. Tudo isso foi feito com muita devoção pela esposa do Mário, a Dona Iolanda, que estava longe de poder compreender o que o marido dela estava fazendo. Essa transcrição foi feita de uma maneira mecânica e com erros tão brutais que o texto que está pronto é absolutamente inaceitável. Uma transcrição de aula não é um livro de maneira alguma. Aulas atrás eu dei para vocês o exemplo [1:30] do livro do Bernard Lonergan, Tópicos em Educação, que foi reconstruído a partir de aulas gravadas e transcritas por alunos, e que levou cinco anos de trabalho, com muita gente envolvida — ou seja, uma reconstituição científica do texto. Também não se trata de uma revisão dos textos do Mário Ferreira dos Santos. Quem quer que lhe diga isto não sabe o que está dizendo. Edição é uma coisa; revisão é outra completamente diferente. Você precisa da revisão quando há várias edições escritas do mesmo livro e você quer corrigir erros de impressão e de tipografia. No caso do Mário, o que é necessário é uma edição: você tem de construir o texto a partir dos materiais originários, através da comparação dos vários materiais e, sobretudo, daquilo que se chama em filologia de a "reconstituição conjectural". O que é a reconstituição conjectural? Quando você vê que uma frase está construída de uma maneira absurda, você supõe o que o autor quis dizer. Por exemplo, um erro manifesto está no comentário das Categorias de Aristóteles, no qual o Mário troca os nomes compostos pelos nomes simples, dando uma definição absolutamente trocada. Você tem de supor que não foi isto que ele quis dizer. O trabalho de edição é um trabalho para o qual existem técnicas. A filologia é uma ciência altamente desenvolvida e existem técnicas para isso. O trabalho que tem de ser feito na obra do Mário é um trabalho de ordem científica, muitíssimo sério. O simples fato de uma pessoa dizer que este trabalho precisa de uma revisão já mostra que ela não sabe o que está querendo dizer. Revisão se faz de um texto que existe, mas no caso do Mário o texto não existe, o que existe é apenas uma transcrição bruta, sem nenhuma correção. O próprio Mário Ferreira estava consciente disto e disse que depois da sua morte viria alguém que faria o necessário trabalho textual. Quando a É Realizações anunciou a intenção de publicar tudo mais ou menos do jeito que está, ou fazer uma revisãozinha, eu anunciei que se fizer isso — espero que não o façam — eu boicotaria a edição e pediria ajuda a todos os meus alunos e ao meu público para que a boicotassem, para que ninguém compre um único exemplar. Eu farei isto sem dó nem piedade, porque não posso ter dó de um comerciante quando ele não tem dó dos textos do maior filósofo brasileiro e um dos maiores do mundo, que produziu uma obra que é, sob certos aspectos, até salvadora. Esta obra nos dá, como nós vimos na primeira aula, muitos elementos para exorcizar essa fantasmagoria pitagórica que tomou posse da mente ocidental nos últimos quatro séculos; e fazê-lo de tal maneira que isso já nos prepara para a defesa da próxima onda da mentira universal. Uma obra destas é preciso tratar com imenso carinho e respeito, como os alunos do Lonergan fizeram. Dêem uma olhada no livro Topics in Education, que é uma maravilha e que parece um texto escrito pelo próprio Bernard Lonergan. No entanto, os materiais que eles lidaram eram exatamente como esse. Eu também observei todo o trabalho que o pessoal da Eugen Rosenstock Foundation fazia com os trabalhos do Rosenstock. O trabalho passava por muitas etapas, desde a transcrição bruta, depois uma transcrição trabalhada, uma reconstituição conjectural, uma pré-edição e, por fim, uma edição. Também observei o que estavam fazendo com as conferências legadas por Viktor Frankl. Há quatro anos a Isabela e eu participamos de um congresso do Viktor Frankl no qual havia a pré-edição delas. Eu vi a pré-edição da tradução americana das peças do Friedrich Durrenmatt; o texto já estava quase pronto. Eu tenho experiência de como se faz isso e eu não creio que no Brasil exista um profissional qualificado para isso. De jeito nenhum! Este pessoal que está fazendo estas edições do Mário não tem qualificação para isso; nunca fizeram uma edição de nada, de um único texto, ao passo que eu, no mínimo, já fiz de dois: do próprio Mário Ferreira dos Santos (A Sabedoria Das Leis Eternas) e dos ensaios do Otto Maria Caperaux. Então, alguma experiência editorial eu tenho — não editorial no sentido puramente profissional e comercial, mas no sentido acadêmico, filológico. É preciso um trabalho científico, não uma revisão. O que eu estou dizendo para vocês é algo de uma seriedade mortal. Eu creio que as obras do Mário, se forem editadas como devem e em seguida traduzidas, podem exercer uma influência benéfica e quase salvadora sobre o mundo inteiro. A coisa é de uma responsabilidade muito grande. Pessoas que entram na jogada movidas apenas com o instinto de comércio ou auto-promoção deveriam ser simplesmente expulsas do terreno: “Sai daqui que isto não é coisa para você, não é coisa para criança; o Mário não fez tudo isso para por dinheiro no seu bolso”. Embora seja justo que aqueles que trabalham sejam recompensados. Mas aqueles que pretendem fazer dinheiro fácil com isso não merecem complacência, não merecem compaixão. E pouco me interessa se eu trouxer dano comercial a quem cometeu esse crime; estarei agindo de acordo com a minha consciência. Isto não se pode fazer. Eu espero, e estou novamente advertindo, que a É Realizações não faça isso. Espero que se arrependa da sua leviandade, volte atrás e diga: nós vamos trabalhar de acordo com as instruções do Olavo, que é a única pessoa que, não só conhece a obra, mas conhece a técnica necessária para reconstituir estes textos e tem uma equipe para trabalhar. Porque isto aí é trabalho para vinte ou trinta pessoas durante muito tempo. Se os alunos deste curso não estão habilitados para trabalhar nisso comigo, então ninguém mais no Brasil está. Nós temos o direito e o dever de intervir neste caso. Aluno: Boa noite, professor, suas aulas são fantásticas. Gostaria de saber a sua opinião sobre a leitura dos textos recomendados em The Great Books of the Western World. Olavo: Eu comecei a minha educação seguindo o plano do Mortimer Adler e lendo estes livros de acordo com a indicação dele. E depois, muitos anos mais tarde, quando saiu uma reedição brasileira dos livros do Mortimer Adler, How To Read A Book, eu publiquei um artigo com o título “Uma Obra de Salvação Cultural”. Esse livro, ou essa série de livros, é a única esperança de se voltar a ter uma cultura superior no Brasil. Tudo o que eu fiz na minha vida foi partindo de um raciocínio a que fui levado pela leitura desses livros. Hoje evidentemente eu não seguiria nem a técnica do Adler literalmente, nem essa sequência de livros; eu modificaria. Mas reconheço que é uma dívida. Por exemplo, no Paraná nós fizemos uma breve experiência no curso que nós chamamos de Educação Liberal, na qual líamos os livros em voz alta e a produtividade era muito maior do que simplesmente se as pessoas lessem em casa. Por quê? Porque a língua portuguesa falada no Brasil perdeu força. Quer dizer, a compreensão é superficial. As pessoas lêem como se estivessem adormecidas. E quando você tem a voz humana a coisa funciona de modo diferente. Eu já me reportei àquela pesquisa do antropólogo Luiz Marine em que ele comprovou isso: numa firma, se você passa um aviso por escrito, o aviso não funciona, não pega, não tem penetração. Já a voz humana ainda tem penetração, motivo pelo qual eu comecei a privilegiar a expressão oral em relação à expressão escrita, levando com isso uma desvantagem sob outros aspectos. É evidente que, se tudo que eu expliquei nestas aulas estivesse publicado em livro, o efeito seria muito maior; não no Brasil, mas no exterior. No exterior é ao contrário, a gravação não adianta, mesmo que eu faça gravações em inglês ou em francês, não terão a mesma penetração que um livro. Mas [1:40] em função da situação brasileira, eu optei por privilegiar a expressão oral, dando aula atrás de aula, evidentemente retardando em décadas a produção dos livros correspondentes. De qualquer modo, todo este esforço surge a partir do Mortimer Adler, do qual tenho uma dívida impagável. Mas hoje eu faria uma seleção diferente dos livros. Colocaria uns, tiraria outros e também mudaria a técnica de leitura. Se fosse para seguir a técnica dele, eu seguiria a que está na primeira edição do livro, que depois ele complicou. O negócio estava bom, mas quando você quer melhorar às vezes estraga. Diz-se que o ótimo é inimigo do bom. Nesse caso, é verdade. Eu já vi muitos casos deste tipo. O Raimundo Faurel, que publicou o livro Os Donos Do Poder, fez uma primeira versão que é uma obra prima da língua portuguesa, mas a segunda é um calhamaço meio informe — o sujeito tentou melhorar e estragou. O Mortimer Adler também estragou algo no livro dele. As técnicas iniciais, que são mais simples, são melhores. Se puderem encontrar a primeira edição publicada com o título A Arte de Ler, publicada pela Editora Globo, então comprem. É muito melhor que a segunda edição. Aluno: Gostaria de perguntar se existiria alguma comparação entre a formação do império eurasiano e a formação dos Impérios Romanos Cristãos. Como entra o pedido de consagração da Rússia à Nossa Senhora de Fátima nessa situação toda? Olavo: Houve uma outra pessoa que fez uma pergunta mais ou menos do mesmo teor. Aluno: Com referência a profecia de Fátima, a Irmã Lúcia disse que Nossa Senhora pedia especificamente a consagração da Rússia. A antiga União Soviética sofre graves problemas dentre os quais o acidente de Chernobyl ainda é lembrado e as experiências nucleares com bombas de 100 mega tons na atmosfera esquecidas. O que se sabe é que os campos pecuários russos estão vazios. A Rússia está com um grande projeto para repovoação dos campos de pecuária com gados Hereford, ou gados gaúchos ou canadenses. Isto implica a falência da Rússia na produção de carne Vacum durante o período de vinte anos. O projeto do império eurasiano não seria um projeto russo para enfrentar as consequências destes e outros de problemas que não são colocados claramente? A consagração da Rússia poderia ter a ver com a graça de a Rússia poder ser auxiliada para enfrentar uma crise alimentar sem precedentes e com a questão da radiação que atingiu a antiga União Soviética? E a Igreja Católica poderia consagrar uma nação ortodoxa sem criar uma crise religiosa e política complicadíssima? Olavo: Em primeiro lugar, a idéia do império cristão foi um arranjo a posteriori, foi uma situação imposta, porque quando o Império Romano se desmembrou não havia administração publica. O desmembramento do Império Romano tomou a forma de uma retirada dos políticos, da classe politica, da classe dominante, da capital para o interior; cada um fugiu para sua terra. Na época, não havia fortuna industrial, a fortuna era agrícola, agropecuária; cada senador, político, general, tinha uma fazenda. Então eles se retiram para suas fazendas, perdem o contato uns com os outros e criam um esquema de sobrevivência num nível de comunidade menor, resistindo às invasões barbaras por iniciativa pessoal e localizada. A esta altura não havia mais administração pública: não havia orçamento, registro civil, cartório — o negócio virou um caos — e a Igreja assumiu estas funções porque só os padres sabiam ler e escrever. Na verdade, a própria noção de clero mudou muito. Na época, qualquer sujeito que soubesse ler e escrever já era considerado automaticamente parte do clero, mesmo não podendo rezar missa. Depois de alguns séculos disso, a instauração do Império Cristão com Carlos Magno foi uma solução de emergência. Ao contrário do império eurasiano, lá não havia um projeto imperial, havia uma situação já pronta que precisava apenas oficializar. O imperador se tornaria automaticamente o chefe de todo aquele aparato burocrático administrativo que a Igreja tinha sido obrigada a criar a contragosto. Vocês acham que os padres, que têm uma vocação religiosa e estão loucos para ficar rezando missa, absolvendo os pecados, querem montar um cartório e ficar lá o dia inteiro? Eles fizeram isso por necessidade e por uma obra de caridade. Construindo o Império, eles poderiam descarregar a Igreja progressivamente destas funções. A Igreja não criou um império por um desejo de se expandir na ponta da lança de um projeto imperial. Mas, ao contrário, simplesmente para ela transferir uma parte das suas atribuições a uma burocracia constituída pelo imperador. Tanto que a partir daí uma parte do ensino — ensino que anteriormente visava apenas a constituir membro dos cleros — passa a ser consagrado à formação de funcionários do Império, que não eram padres. Já no caso do projeto eurasiano, ele é realmente um projeto; uma coisa que não existe e que deve passar a existir. Eu acabei de redigir, em português, a nova comunicação do debate com o Prof. Dugin — que ficou uma coisa enorme, e agora terá de ser passada para o inglês. Mas, entre outras explicações que eu dei ali, uma é sobre a teoria do sujeito da história, que acho que já expliquei aqui. Eu disse que só certas entidades são sujeitos agentes da ação histórica. Agente é aquele que planeja uma coisa e a faz de acordo com aquilo que ele pensou e que ou tem sucesso ou tem fracasso. E aquele conjunto de ações impremeditadas que produzem um resultado identificável sobre a forma de um estado ou de império não é ação aparentemente dito; é o que Aristóteles chamaria de paixão. Ninguém fez, mas a coisa ficou assim. Cada um tinha suas intenções pessoais. Elas se misturaram, se embolaram todas e produziram um resultado. E este resultado pode tomar a forma de uma unidade geopolítica. A partir desse raciocínio, eu mostro quem é o verdadeiro sujeito por trás do projeto eurasiano. O império russo não pode ser, porque você não vai dizer que a entidade futura é o sujeito da ação que a está produzindo. Não é possível. Isso seria o Exterminador do Futuro. E a Rússia, por sua vez, passou por diversas formações estatais: houve o Império de Kiev; o Império de Moscou e a sua a derrubada; houve o regime social-democrata, que depois caiu; veio o regime comunista, que também caiu; houve um regime liberal; e agora há a ditadura do Putin. Por baixo dessas formações politicas e geopolíticas diversas — houve uma mudança geopolítica evidentemente, já que o território da Rússia não coincide com os dos impérios anteriores e também não coincide com o Império Soviético —, por trás de todas estas formações, qual é o elemento que permaneceu constante? A Igreja Ortodoxa. Ela deu a sua forma cultural ao Império de Kiev, depois ao Império de Moscou. Ela resistiu bem aos 60 anos de opressão comunista, tão bem que ela está viva e atuante ao ponto de poder inspirar um projeto imperial ao Prof. Alexandre Dugin. Então pergunto: como o projeto eurasiano se origina de dentro da Igreja Ortodoxa? A resposta não é muito difícil. Numa entrevista que ele deu a uma revista polonesa em 1998, o Prof. Dugin diz que a [1:50] separação de Império e Igreja que se realizou no ocidente é uma heresia, que na verdade só pode haver uma Igreja e essa se unifica na pessoa do imperador, do czar, como a Igreja Anglicana na qual o chefe é o rei. Acontece que uma igreja imperial não passa de uma igreja nacional ampliada. Os limites da expansão da religião imperial são as fronteiras do império. Aquilo que está para lá das fronteiras do império a religião não pode penetrar, porque seria uma intervenção política. Ao passo que na Igreja ocidental os pregadores católicos puderam expandir o cristianismo por tudo quanto é lado sem precisar levar o império nas costas. Tanto que teve expansão do catolicismo da China até ao Paraguai, sem que estas regiões tivessem de estar sob o domínio do imperador. Isto quer dizer que a expansão da religião é enormemente maior do que a expansão de qualquer império possível. Porém, se o chefe da religião é o imperador, é o czar, então a expansão da religião e a expansão do império são a mesma coisa. Das duas, uma: ou a Igreja Ortodoxa fica limitada no território governado pelo czar; ou então, para ela se expandir, tem de expandir o império também. Então a expansão religiosa e a expansão política são a mesma coisa. Ou seja, a religião ortodoxa só pode se expandir pelo mundo mediante a conquista de território. Essa é uma contradição estrutural da própria Igreja Ortodoxa, e é a ela que o Alexandre Dugin está respondendo. Ele acha que a Igreja Católica e a Igreja Protestante são heréticas, que é preciso substituir tudo pela religião ortodoxa. Como fazer isso? Somente ampliando o Império Russo. E onde entram os elementos eurasianos, os chineses, os muçulmanos etc.? Eles entram como a camisinha entra numa relação sexual: ele quer se utilizar das forças chinesas, islâmicas etc. para uma expansão que vai ser, em última análise, a do Império Russo. Que isso se realize através de uma colaboração islâmica não é impossível, porque o Império Russo sempre soube se virar com as populações islâmicas internas. Ele administrou isso muito bem. Ao longo da história russa, houve populações islâmicas que sempre foram obedientes ao Czar, embora estando fora da religião. Ou seja, houve um acordo, uma diplomacia ali; os russos têm uma certa experiência nisto. A expansão não é propriamente eurasiana, a expansão é russa. É a expansão do império russo, com o auxílio de forças aliadas, aos quais naturalmente eles oferecerão algumas vantagens, mas não o controle total; eles não terão a hegemonia do processo, a hegemonia é de quem inventou o plano. Quem inventou o plano? Dugin e Putin. A idéia de que todas estas formações nacionais e étnicas diversas possam participar do poder em condições democráticas é incompatível com a própria declaração do professor Dugin de que o regime a ser adotado terá que ser ditatorial. Quanto à formação da índole econômica do regime, ele diz claramente que é um socialismo, porque o Estado controla a economia e tem uma pequena margem de liberdade para a pequena e média indústria. Qual é esta margem da pequena e média empresa? Esta margem é definida pela própria pequenez dela. Não há diferença substantiva entre o projeto econômico eurasiano e o socialismo, do mesmo modo que o regime propugnado pela elite globalista ocidental é um socialismo, enquanto o projeto islâmico não é propriamente socialista, mas não é livre economia de mercado como no ocidente — a economia islâmica tem suas características peculiares que não interessa discutir agora. Porém surge um problema: o próprio Dugin disse que não há um império sem um Czar. E quem será o Czar? Vladimir Putin, o primeiro? Não é impossível, porque quem nomeou o primeiro Czar foi ele mesmo. Não é impossível que nós vejamos uma reconstituição do Czarismo nas próximas décadas; isso faz parte intrínseca do projeto eurasiano. Mas, em última análise, só quem precisa do projeto eurasiano é a própria Igreja Ortodoxa. Isto significa que a Igreja Ortodoxa está encarando a possibilidade da sua extinção e está fugindo dessa extinção. Extinção por quê? Em primeiro lugar, houve uma ocupação maciça da Igreja Ortodoxa pela KGB. O sujeito que foi patriarca durante décadas era um agente da KGB. Aquilo lá esta repleto de agentes da KGB e a promiscuidade entre Igreja e Estado já é profunda; sempre foi, na verdade. Mesmo na época do comunismo, um regime nominalmente materialista e anti-cristão, havia essa mesma promiscuidade e agora há mais ainda. O projeto eurasiano surge de uma dificuldade interna da Igreja Ortodoxa. Talvez nem o próprio Dugin tenha se dado conta disso. Ele está inventando uma maneira da Igreja Ortodoxa poder se expandir e só tem uma, que é a expansão do império. Tem de subjugar a Europa inteira a um Czar e implantar a religião ortodoxa, exceto nas áreas islâmicas, onde terá de ser feito um outro acordo. Entre a formação do império cristão e a formação hipotética do império eurasiano não há nada em comum. Note bem que o império cristão não se notabilizou pelas conquistas imperiais, conquistas territoriais. As conquistas territoriais começaram na renascença, depois das grandes navegações, mas então já não era o império, eram impérios nacionais que tinham a pretensão de se substituir ao império cristão geral. Havia um império francês, um britânico, um espanhol, um português, que eram impérios nacionais em concorrência que faziam expansões territoriais. Não se pode dizer que era um império cristão que estava se expandindo, eram outros impérios. Impérios que não dependiam em nada da autoridade da Igreja, mas que, ao contrário — como no caso do império galicano ou império britânico, que são igrejas nacionais cismáticas — não tinham nada a ver com ela. Aluno: A respeito do mal poderia dizer-se que ele existe enquanto qualidade e não enquanto essência. Ou seja, não ontologicamente. Se o mal existe ontologicamente enquanto ser, então não seria totalmente mal porque teria uma qualidade boa, a de existir. Logo, o mal absoluto não pode existir. O mal seria uma desordem introduzida na estrutura da realidade. O senhor considera esta explicação razoável? Olavo: Não só razoável como esta é, mais ou menos esquematicamente, a explicação que dá Santo Tomás de Aquino. Se você chegou a esta explicação por si mesmo, parabéns. Aluno: Na tentativa de manter sempre presente as principais precauções para analisar esquematicamente qualquer questão, tenho tentado esquematizar suas lições sobre o método filosófico. É claro que o método sem profunda vivência interior e consciência da responsabilidade envolvida e de suas limitações nada vale. Porém, não me parece problema algum em fazer uma cola destes conhecimentos até que consiga me impregnar deles de uma forma que eu passe a sê-los (...) Olavo: Muito bem, o caminho é extamente esse. Aluno: (...) Então o método filosófico conteria: 1) confissão perante o observador omnisciente, sinceridade máxima; 2) contemplação amorosa da realidade; 3) revisão interior das opiniões e a distinção dos seus níveis de credibilidade; 4) depuração dialética das figuras de linguagem em circulação na cultura em geral inclusa na terminologia científica e em conceitos filosóficos; 5) busca na realidade dos referentes dos discursos; 6) compreensão dos textos pela reconstrução imaginativa da experiência cognitiva concreta do autor. (...) Olavo: Bravo! É isso mesmo. E a sequência é mais ou menos essa. Aluno: (...) Quanto à omissão da consciência da imortalidade, creio que, como o senhor mesmo denominou, se trata da premissa do método e não é propriamente dele integrante. Ou seja, a consciência da imortalidade tem de pervadir todas estas etapas. [2:00] Olavo: E você tem de lembrar quem é o sujeito do processo, quem é o indivíduo que está praticando isso tudo. É a sua alma imortal, e não somente você enquanto portador de uma existência terrestre. Ou seja, ainda nesta vida você já é capaz de pensar as coisas na escala de imortalidade, que é justamente aquilo que escapa, por exemplo, ao mundo newtoniano, ou a tantas destas doutrinas que até se dizem cristãs. Se você tem uma consciência de imortalidade, então você sabe que a estrutura do universo não é grande coisa comparada com a dimensão de uma única alma universal, de uma única alma imortal. E isto tem de modular o conhecimento que você tem da própria realidade. Se você tem consciência de alma imortal, então tem de saber que não vai obter a explicação final mediante o estudo da estrutura do cosmos, ou estudo das matemáticas etc., mas somente pela contemplação do amor divino. Se você sabe isso, então tudo o que você estuda sobre a estrutura do cosmos, sobre a história etc., tem de estar modulado por uma consciência de simbolismo e de analogia. Você tem de saber que tudo que você está dizendo é somente analógico, são somente sugestões cuja única validade é despertar outras almas para a consciência do amor divino. E pretender fazer outra coisa para além disso é fazer buraco n’água. Isto quer dizer que a declaração de um autor como cristão, como Newton se declarava, ou como o Prof. Dugin se declara, não quer dizer absolutamente nada se na prática ele não analisa as coisas à luz da consciência de imortalidade. Por isso que eu disse que a consciência de imortalidade é a premissa do método filosófico. Se você não tem consciência de imortalidade, você não sabe quem está falando, não sabe quem é o sujeito do processo cognitivo — que é você mesmo. Muito bem. O seu resumo está perfeito. Talvez não necessariamente nesta mesma ordem, mas é isso aí. Aluno: O senhor disse na aula 96 que a obra de arte exprime sobretudo as percepções pessoais e os estados interiores do autor, não podendo ser avaliada como se fosse uma tese filosófica ou teológica. Disto se concluiría que a atividade artística é essencialmente amoral? Caso seja verdade, como querem alguns, que os critérios morais não são alheios à arte, de que modo eles se aplicariam a algo que não prescreve condutas e que se torna tão mais inautêntico quanto mais se aproxima da homilia? Olavo: Muito bem. As percepções pessoais, os estado interiores, percebem o quê? Que aspecto da realidade você está percebendo? Por exemplo, esta semana estava lendo um artigo do Edmund Wilson sobre o livro do Sartre, Os Caminhos da Liberdade, sobre o qual ele diz que todos os episódios ali são sobre coisas abjetas, mas que se você não ligar para isso, é divertido. Aquela percepção que ele teve é de um mundo abjeto e você não vai entender aquilo se não souber o que é abjeto. Se você tem uma perspectiva totalmente amoral, a própria significação dos episódios lhe escapa. Sartre tinha consciência de estar lidando com material abjeto. Se ele pretende fazer com que este abjeto apareça para você como se fosse a própria realidade, até como uma coisa normativa, então ele está se enganando a si próprio. Mas se este engano moral se transmitisse à própria narrativa, então aqueles episódios abjetos apareceriam como edificantes ou neutros; e não é assim que aparece. Sartre tinha perfeita consciência moral de que ele está de sacanagem, assim como o Marquês de Sade. Então, o elemento moral faz parte da estrutura da realidade, ele não pode ser abstraído. Fazer abstração da moralidade é uma atitude moral que se justifica em certos casos. Mas não esqueça daquilo que eu disse sobre o desenho: você tem de começar fazendo a seleção do que vai entrar e do que vai ficar de fora dele, e essa seleção tem de ter alguma razão de ser. Porém, o leitor ou o observador do desenho tem de completar a seleção com os elementos de realidade faltantes, se não ele não entenderá o desenho. Quer dizer, aquilo que o desenhista deixa de fora está insinuado no próprio desenho e se você apagar completamente, então não há mais referência a um objeto e o desenho fica apenas uma forma incompreensível. Eu não conheço nenhuma escultura que não tenha alguma arte de desenho, mas talvez algumas não tenham desenho figurativo. Se você mostra a figura de uma vaca, talvez os indivíduos levem algum tempo para perceber que é uma vaca, mas enquanto não perceberem eles não estão entendendo o desenho, evidentemente. Então a reintrodução do elemento moral é quase automática, mesmo numa representação amoral. E se o artista que fez aquela representação amoral não sabe disto, então, evidentemente, ele vai tomar a sua seleção como se fosse a totalidade da realidade. E ele está muito enganado e a sua obra de arte vai sair mutilada por causa disso. Você não verá nenhuma grande obra de arte na qual o elemento moral está ausente. Em Shakespeare é sempre um problema moral que está em jogo. Também sempre vemos no teatro grego o elemento moral. Nós não podemos esquecer que Frank Leavis, quando escreveu o livro The Great Tradition, escolheu como representantes máximos da literatura de língua inglesa justamente aqueles nos quais a tensão moral era mais elevada; ou seja, as pessoas estavam levando muito a sério os episódios que narravam como episódios significativos de dilemas morais sérios. Então, a seriedade moral é absolutamente indispensável ao artista em todos os domínios. Senão ele cai na futilidade. E aquilo que é fútil não tem interesse; e para que vamos nos interessar por futilidades? Por outro lado, é certo que falar em seriedade moral não quer dizer que é para julgar as coisas do ponto de vista de um código moral pronto; religioso ou não. Porque se fosse possível um código moral, tudo que eu disse nesta aula estaria anulado porque não haveria drama moral, você já teria as soluções prontas no código. Mas, como dizia Santo Tomás de Aquino, o código não é a solução dos problemas morais, ele é o começo, porque o código só contém generalidades e todas as situações morais humanas são particulares, concretas e nunca se encaixam bem no código. Então mesmo que você siga a religião Católica, todos os mandamentos, as normas da Igreja etc., isso não resolverá os problemas; isso será o começo do problema. Por exemplo, o simples fato de decidir julgar tudo por um código implica que você não se interessa pelos indivíduos humanos concretos, você os trata apenas como exemplos de generalidades que estão contidos no código e isso viola o amor ao próximo. Se você não sabe que cada ser humano é um mistério quase infinito, que os dramas morais interiores são sérios, que eles implicam muito sofrimento, e se você pega a pessoa apenas como exemplo — “Aqui está o código, a regra geral é essa e você está enquadrado no artigo tal” —, você está violando o segundo mandamento, porque está considerando o outro como exemplo de uma alínea do código; mas você não faz o mesmo consigo próprio. Eu considero que o amor ao próximo significa não vê-lo pelas lentes de um código, nem mesmo o código moral da Igreja. O código moral da Igreja é para lhe dar uma referência para você saber o que fazer. Quando você não sabe, o código lhe dá uma ajuda, mas ele não resolve o problema. Então compreender a realidade da situação concreta do ser humano é o requisito número um do amor ao próximo. Eu vejo muitas pessoas que são religiosas, vão à missa, confessam, [2:10] comungam etc., mas não são capazes de entender um único drama humano quando ele se apresenta. Por exemplo, ao ver um indivíduo imerso no pecado eu tenho de ter uma visão de qual é a possibilidade concreta que ele tem de se auto reformar, de se refazer, de se abrir ao amor divino etc., e os obstáculos. O poder do demônio é uma coisa verdadeira, não é uma hipótese: “Ah, se você não quiser, o demônio não manda mais em você!” Mentira! Simplesmente não é assim, você não tem esse poder, a coisa é muito difícil. E rezar o dia inteiro às vezes também não adianta, não é disso que se trata; você não sabe do que se trata. Cada drama humano é um e você tem de olhar o próximo com verdadeiro amor. O que significa que você carregará a cruz dele, você assumirá o problema para você. A coisa mais bonita que o Dr. Müller — um grande amigo meu, gênio da psicologia — me disse foi quando eu lhe perguntei qual era o seu método e ele disse: “Eu compro a doença do sujeito, curo em mim mesmo e daí ele sai curado.” E eu via que Dr. Müller fazia realmente isto. Ele sofria com os problemas do paciente e era o gesto de amor dele que curava. Ele era um verdadeiro pai para as pessoas, quer dizer, ele arcava com os problemas. Por isso que ele dizia que não podia haver terapia não diretiva, terapia que não se intromete: “Isto é impossível, se eu não intrometer, como é que eu vou curar o paciente?” Então existe uma tensão benéfica entre seguir os códigos e o amor ao próximo: a coisa nunca é perfeitamente a outra, nem perfeitamente a uma. Deus sabe o que faz. Se Ele nos deu o código, a lei, e ao mesmo tempo deu a lei do amor, Ele está sabendo que existe uma tensão. Note bem, expor essa tensão é o de que se trata em cada linha do evangelho. Você pode dizer que agora passou para a escala do amor e que está livre do código, mas isso quer dizer que você pode desobedecê-lo? Também não. E se obedecer o código? Isso não vai resolver, porque você terá de praticar a lei do amor. É disso que se trata evangelho inteiro. Então a possibilidade da arte amoral não existe, este é um pseudo problema, nunca existiu arte amoral. E decidir que você vai representar as coisas independentemente do julgamento feito segundo um determinado código não quer dizer que você fez abstração da moralidade. Se fez abstração da moralidade, não há conflito, e se não há conflito, não tem obra de arte. Um aluno me manda o seu necrológio, que não vou poder lê-lo aqui mas que está muito interessante, está muito bom. Aluno: O pessoal do chat pediu para você não se esquecer de comentar uma das primeiras perguntas, que foi sobre o papel da consagração da Rússia. Olavo: Ah sim. Nossa Senhora disse o seguinte: convoquem todos os bispos, façam o ritual de consagração e a Rússia irá se converter. O elo entre uma coisa e outra é ela própria. Quer dizer, é uma promessa que ela fez. Como é que ela vai realizar isto? E eu sei? Sou eu que vou descobrir o segredo de Nossa Senhora? Não sei como ela vai fazer isso. Agora, ou você crê e aceita, ou você fica fora. Aluno: (...) E a Igreja Católica poderia consagrar uma nação ortodoxa sem criar uma crise religiosa e política complicadíssima? Olavo: Claro que não. Mas é dessa crise religiosa e política complicadíssima que Nossa Senhora diz que nascerá a conversão da Rússia. E a conversão da Rússia mudaria completamente o panorama mundial. Desde logo se houvesse a conversão da Rússia, não existiria império eurasiano, não existiria esse projeto maldito. A existência disto já é uma conseqüência da omissão dos papas. Eu sinceramente acredito em cada linha, cada palavra da profecia de Fátima. Por que é que eu acredito? Porque eu sou crente, sou santo, sou muito bonzinho? Não, eu sou o pior sujeito que tem na Igreja Católica. Só que é o seguinte: Nossa Senhora não somente disse, ela também provou. Quando vemos nos acontecimentos de Fátima a conexão entre o conteúdo da mensagem, o modo como ela foi apresentada e as circunstâncias miraculosas que se deu, não há como negar o fato. Eu tenho um amigo protestante que diz que tudo isso foi coisa do diabo. Se o diabo pode fazer tudo aquilo, eu sou adepto dele agora. Que eu saiba o diabo nunca fez uma coisa tão incrível. Por exemplo, fazer aquele fenômeno astronômico fantástico acontecer. Bom, qualquer fenômeno astronômico pode acontecer, mas com hora marcada por três crianças? E ainda se aproveitar disso para fazer o anúncio de acontecimentos que depois se verificaram milimetricamente? O milagre de Fátima foi tudo isso junto. Foi a união de todos esses aspectos. Então eu não hesito em dizer que foi o maior acontecimento da história humana. Quem quer que não veja isso é um imbecil completo, é cego, não interessa se é católico, muçulmano, budista; estude o que aconteceu. Mas estude o caso como aconteceu concretamente, não seccionando em aspectos abstratos, examinando cada um por si sem conseguir fazer as conexões depois — que é um negócio que o Mário Ferreira dos Santos fazia... A bête noire do Mário Ferreira dos Santos era o abstracionismo, quer dizer, separar as coisas mentalmente e depois se esquecer de juntar de novo. Isto é mesma coisa que tirar o coração do sujeito para você operá-lo e depois esquecer o coração fora, na máquina, e ir para casa. É claro que nós podemos considerar o milagre abstrativamente, por exemplo o fenômeno da dança do sol, as profecias históricas sobre a guerra, sobre os erros da Rússia. Porém eles aconteceram conexionados. Nossa Senhora fez uma coisa em função de fazer as pessoas ouvirem a outra e a conexão histórica que ela dá é perfeita. Quando fala de erros da Rússia, Nossa Senhora não usa a palavra comunismo — naquela época já existia Lênin, já existia Trotsky, a revolução russa já estava em andamento —, ela não fala a palavra marxismo, mas fala em “erros da Rússia”. Esses “erros” incluem a revolução social democrática que tirou o Czar, a revolução comunista que o matou e implantou a ditadura, as reformas liberais do Yeltsin, o regime Putin e o projeto eurasiano. Tudo isso são “os erros da Rússia” e nós temos de ficar atentos porque vem mais. Em matéria de “erros da Rússia”, o projeto eurasiano comparado com o comunismo é tão complexo e tão abrangente que o comunismo se torna uma brincadeira de criança. As pessoas para serem enganadas pelo comunismo precisam ser idiotas como eu. Eu fui enganado pelo comunismo durante muitos anos. O Eric Voeglin, que era mais esperto, disse que foi marxista durante três meses: ele leu o livro nas férias e ficou marxista até chegar o curso de economia política no semestre seguinte, nas primeiras aulas viu que tudo aquilo era uma besteira e os esqueceu. Mas as pessoas que estão se deixando iludir pelo projeto eurasiano são de muito mais alto gabarito. Note que o marxismo não se tornou respeitável no mundo acadêmico exceto no século XX. Os filósofos acadêmicos até 1910, 1920 riam do marxismo. Depois vieram sujeitos de nível pouco mais baixo que começaram a levar aquilo muito a sério, começaram a criar uma mitologia fantasmagoria, uma coisa hipnótica, de uma doutrina que muda de conteúdo do dia para a noite, na qual se inventa uma outra teoria para se poder acreditar na anterior. [2:20] A teoria começa dizendo que o fator econômico é o decisivo em tudo e se transforma em outra que diz que a cultura é decisiva. É como a teoria da evolução, nada evolui mais rapidamente que ela: hoje diz uma coisa, amanhã diz outra, então você acredita na anterior por causa da segunda que a desmente. Mas é claro que isto é coisa de gente de baixo nível, o que não quer dizer que não sejam pessoas inteligentíssimas: é baixo nível existencial, não intelectual, são pessoas que mentem para si mesmo com facilidade, que não confessam a realidade do que sabem. São como, por exemplo, o Sartre. Ninguém vai dizer que o Sartre era burro; ele não era burro, ele era moralmente, existencialmente burro e conseguia mentir para si próprio de uma maneira assombrosa. A Igreja Católica não tem porquê se preocupar com essa crise religiosa. Veja que na seção onde João XXIII pula fora de divulgar a terceira profecia de Fátima, quando ele desobedece as instruções de Nossa Senhora claramente, o que o impeliu não foi a fé, foi o medo. Mas o medo é o contrário da fé. Porque se Deus diz para você ir e enfrentar o gigante, que você não morrerá mas vencerá, você tem de acreditar Nele. Mesmo que o que Ele está dizendo pareça um absurdo, Ele não vai colocá-lo numa luta sem que Ele esteja pela suas costas, ou então você não tem fé alguma. Então, se o Papa teve medo é porque ele não teve fé. Você pode dizer que a profecia de Fátima não faz parte do dogma, então ele não acreditar na profecia não quer dizer que ele não tenha fé no dogma. Mas a fé no dogma não basta! Eu acho que a presença de Nossa Senhora é uma coisa que tem de ser mais forte para você do que todos os elementos doutrinais que você absorveu durante toda a sua vida. Você não pode trocar a pessoa de Jesus Cristo — e Nossa Senhora fala em nome dele, ela vem em nome dele — por uma doutrina, mesmo que seja doutrina dele mesmo: “Ah, eu não vou seguir você porque vou seguir o que você disse a semana passada.” Eu acho que já são 11 horas da noite, tem outras perguntas aqui muito boas, mas algumas são muito compridas. Pelo amor de Deus, não me mandem perguntas compridas, eu fico morrendo de dó porque às vezes são perguntas boas. Aluno: Olavo, surgiu uma pergunta pelo chat aqui. Olavo: Diga. Aluno: Ele diz que é muito difícil para o evangélico reconhecer uma consagração dedicada a uma outra pessoa que não seja o próprio Deus, Jesus ou Espirito Santo. Ele pergunta: ‘A consagração não deveria ser de Jesus, que é efetivamente o salvador, ao invés de ser um ser humano?’ Olavo: Essa é uma pergunta que é fundada em premissas teológicas, porém eu não acho que seja certo raciocinar teologicamente para impugnar um fato. O milagre de Fátima foi um fato, ele aconteceu. Qual é a diferença desse fato miraculoso para os outros fatos? O fato miraculoso é um fato translúcido. Ele vem junto com a exposição total do seu próprio significado, em nenhum outro fato isso acontece. O milagre de Fátima é auto-explicativo. Porém, se nós já temos uma doutrina pronta e nos recusamos a ver o fato como aconteceu, então criamos um problema insolúvel. Só que para a Igreja Católica, o que é exatamente a Santíssima Virgem Maria? Ela é a mãe de Deus e é a representante por excelência da humanidade. Jesus Cristo não, ele tem duas naturezas, uma divina e uma humana, e Maria só tem uma. E ela foi escolhida como o ser humano mais perfeito. Então de que adiantaria toda a vinda de Jesus Cristo se não houvesse nenhum ser humano que fosse elevado a essa estatura? Se a distância entre Deus e o homem permanecesse a mesma de antes, de que serviria o advento do Nosso Senhor Jesus Cristo? A grandeza da Virgem Maria é a grandeza da obediência total e da total anuência ao mandamento divino, a mais perfeita que já se viu. Se depois disso ela não tem o direito de falar em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo e de interceder junto a Ele, então quem tem? Você não é evangélico? Você não pede para o pastor rezar para você? Você acha que o prestígio do pastor junto a Deus é maior que o prestígio da Virgem Maria? Então, esse é o absurdo total da recusa a Virgem Maria. Você não pede a intercessão de pastores, não pede para os outros rezarem por você? Ela se ofereceu para fazer isso, ela que é a intercessora por natureza, que é algo que Jesus Cristo não pode fazer. Jesus Cristo vai julgar os vivos e os mortos. Você pede para Ele não ser o seu juiz, mas para ser o seu salvador; mas se ele quiser ser juiz, ele pode. A Virgem Maria não pode, ela só pode defender você. Jesus tem duas funções: Ele pode julgá-lo ou salvá-lo. Ele pode se recusar a julgá-lo, então Ele justifica-o, mas Ele não pode abdicar da função de juiz, Ele continua sendo juiz ainda quando não exerce. A Virgem Maria não é juíza de ninguém, Ela é somente intercessora, somente advogada. Se não houvesse nenhum ser humano que o próprio Jesus incumbiu de fazer isso, então estaríamos na seguinte situação: seu único advogado será o seu próprio juiz. Eu não acho que isto seja razoável. Então tem de haver a intercessora por natureza e esta é a função da Virgem Maria. Ela é como sua mãe, ela é a mãe da espécie humana. Ela não é deusa, porque tem muito camarada evangélico que diz: “Ah deusa romana”. Deusa romana é sua mãe, vê lá como fala! Ela não é deusa, é apenas intercessora por excelência, o melhor dos intercessores. Então, não há erro nenhum em que a Rússia seja consagrada a ela, porque assim ela assumirá a defesa da Rússia. Então, esse papel de intercessora será exercido para uma nação inteira. Foi isto que Nossa Senhora prometeu. Eu não vejo incoerência nenhuma, absurdo nenhum, porque aquilo que você pode pedir a um pastor, porque não pode pedir à mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo? As igrejas evangélicas estão cheias de intercessores, tem gente que pede coisa até para o bispo Macedo — “Bispo Macedo, reze por mim porque estou com hemorróidas.” Cada um tem o advogado que escolheu e a função da Virgem Maria é esta, eminentemente advogada, defensora. Ela não pode julgá-lo, não pode condená-lo — ela não tem autoridade nenhuma para isso. Ela está, por assim dizer, presa a esta missão que lhe foi dada de advogada da espécie humana; função que não é de Nosso Senhor Jesus Cristo. O que é que está escrito no Credo? “Jesus virá para julgar os vivos e os mortos”. Se ele vem para julgar, ele não pode estar ali para defender, ele pode absolver, como um juiz absolve. Nós tivemos aqui um problema de transmissão e vamos tentar corrigir. [2:30] Então, sinceramente, vamos deixar de lado este negócio de ser evangélico ou ser católico. As definições doutrinárias aqui não nos interessam absolutamente e eu não estou qualificado para julgar, não estou qualificado para arbitrar os problemas entre a Igreja Católica e a Igreja Protestante, ou a Igreja Ortodoxa. Não tenho nenhuma qualificação para isto e, vamos dizer, não faz parte do meu método. Eu me atenho aos fatos e estes do milagre de Fátima são fatos translúcidos — o único fato translúcido do século XX e da história inteira desde o advento do Jesus Cristo. O advento de Jesus Cristo e o milagre de Fátima são auto explicativos, o resto não é. O resto vem com aquela mistura de luzes e sombras. Então recusar este fato é não querer ver nada. Você não precisa modificar a doutrina da sua igreja. Aliás, na religião protestante você não tem a livre interpretação? Ou a sua igreja proibiu a livre interpretação? Então você, como protestante, pode perfeitamente aceitar a mensagem de Fátima, não há problema algum: esta é a minha interpretação que em sã consciência estou fazendo; não estou fazendo uma definição doutrinal, estou me posicionando perante um fato. Para que meter um negócio doutrinal na cabeça, se discussão doutrinal só levam as pessoas para o inferno? Ou você tem o direito à livre interpretação ou você não é protestante coisíssima nenhuma. Você é uma espécie de católico do B. Você criou outra igreja católica, com outro papa, que diz outra coisa e que o proíbe de interpretar as coisas da sua maneira. Se vocês com a reforma protestante obtiveram direito à livre interpretação, usem-o e faça predominar os fatos sobre as interpretações doutrinais. É muito simples, nada impede que um protestante aceite essas coisas. Aluno: O que o senhor pensa da leitura dos diálogos de Platão ser acompanhada de textos acessórios como os comentários de Eric Voeglin Order and History vol. II e III, Paul Friedlander e Werner Yaeger? Olavo: Ainda não. Porque para você absorver os comentários é preciso ter absorvido os textos. E quando for para ler comentários, também há algumas técnicas que você tem de levar em conta. Então, em primeiro lugar, eu não creio que valha muito a pena ler os comentários se você não tiver em conta o chamado status quaestionis, quer dizer, a história dos comentários. No livro Aristóteles em Nova Perspectiva eu fiz uma breve história dos estudos aristotélicos: cada comentário foi colocado na sua devida perspectiva. O comentário é intervenção que um sujeito faz num debate que vem de antes e vai prosseguir depois, ao passo que o texto filosófico originário não é necessariamente assim. Embora a filosofia também exista antes e vá prosseguir depois, o texto filosófico clássico é uma referência em si mesma e inaugura uma linhagem de comentários. Então eu sugiro isto: não leia os comentários agora. Depois de ver o texto, você vai fazer uma pesquisa bibliográfica e você vai, antes de ler um só dos comentários, fazer história deles, colocá-los em linha. E mediante uma leitura que o Mortimer Adler chama de leitura inspecional, que é apenas uma primeira lambida no texto, você vai verificar ali quem se reporta a quem, quem está respondendo a quem. Por exemplo, no caso do Aristóteles, o Jean Paul Dumont está respondendo a Werner Yaeger e este está respondendo a outro. Então, quem está falando com quem? Na hora em que você tiver esta sequência do diálogo montada é que valerá a pena ler cada um dos comentários. Senão é como ter um monte de pessoas conversando; gravar o que uma delas disse e prestar atenção só naquilo que ela disse sem saber o que as outras disseram não adianta nada, você não sabe com quem ela está falando. Então, por enquanto, não é necessário isso e nem conveniente. Repito: antes de ler qualquer comentário faça a história dos comentários, através de lista bibliográfica, de enciclopédias e da leitura inspecional de alguns desses comentários. Tem algum aviso? Não. Fica aí de novo os nossos cumprimentos ao Gugu e parabéns a vocês todos por terem aguentado este curso até a centésima aula, espero que agüentem até o fim. Transcrição: Paulo Camargo, Jeferson Leandro Milani, Djane Bouças de Carvalho Britto, Naaliel Mendes, Rimi Harada de Oliveira. Revisão: Julio Monti Belmonte, Mariana Belmonte