Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 96 05 de março de 2011 Boa noite a todos, sejam bem vindos! Eu gostaria de tomar a aula de hoje para atualizar um pouco as perguntas. Há várias perguntas atrasadas aqui. Não prometo que vou responder todas, mas farei o possível. E vou aproveitar a resposta de algumas para esclarecer alguns pontos que foram dados nas aulas anteriores, porque várias delas dão espaço para que possamos retomar certos assuntos que foram tratados, mas não suficientemente esclarecidos. Vamos começar aqui com a seguinte pergunta: Aluno: Já ouvi mais de uma vez, na faculdade de letras, que a obra “Anunciação e Encontro de Mira Celi”, de Jorge de Lima, é uma espécie de heresia poética. Pelo que entendi chamá-la de heresia é uma bobagem, porque a última coisa que ela pretende é afirmar alguma coisa sobre teologia. Eu posso, no entanto, com o mesmo raciocínio, dizer que poemas um tanto materialistas e desanimadores com relação à vida, como “Se te queres matar” de Álvaro de Campos e “Momento em um café” de Manuel Bandeira apenas pretendem simbolizar um estado de espírito sem, com isso, fazer uma visão perigosa e enganadora em relação à realidade como faz a filosofia de [Emil] Cioran. Olavo: Aí há evidentemente uma confusão, porque a própria natureza da poesia lírica é expressar e fixar um determinado momento. E nós evidentemente não escolhemos os momentos que a nossa psique vivencia, de modo que nenhuma impressão de momento pode legitimamente ser transformada numa opinião filosófica ou teológica definitiva. O que importa ali é justamente fixar o estado de espírito daquele momento – é uma coisa sempre passageira – e fazer isso da maneira mais fiel e expressiva possível. Se vocês procurarem no meu site vão encontrar três sonetos que eu escrevi faz tempo, e o estado de espírito que eles transmitem é horrível. Eles não expressam de maneira alguma opiniões que eu possa ter, mas coisas que em um determinado momento eu estava percebendo, ou que estava sentindo, vivenciando de algum modo. A obrigação do poeta é simplesmente expressar essas coisas, de uma maneira que torne possível ao leitor identificar vivências semelhantes que ele teve. Mas aquilo que num indivíduo é uma experiência de um momento, em outro pode se transformar em uma convicção permanente e até num dado importante da sua personalidade. Mas a natureza da poesia lírica por si é fixar momentos. Evidentemente as pessoas que tiram conclusões teológicas ou filosóficas a partir da poesia lírica simplesmente não sabem do que se trata. Por exemplo, eu me lembro de ter escrito um soneto em que eu protestava contra o mandamento bíblico de que “se teu olho direito te escandaliza, arranque-o”. E eu dizia ali (vocês podem procurar na minha página): “eu já arranquei mil vezes, e não adianta nada. As coisas no mundo que me escandalizam e me chocam, ou que em mim mesmo me chocam, eu arranco hoje, faço de conta que não vejo, esqueço, mas a coisa continua lá do mesmo modo”. Quer dizer que, naquele momento, a figura de linguagem, usada por Jesus Cristo, mostrou a sua insuficiência. Quando Ele diz: “arranque o seu olho direito”, Ele está querendo dizer uma coisa muitíssimo complicada. Você se imunizar contra a percepção do mal que você vê não é uma coisa tão fácil assim. Não é uma questão de dizer “arranque o teu olho direito”. Até parece que os caolhos não vêm mal nenhum... O olho direito tradicionalmente simboliza a inteligência, a consciência refletida, e também o pensamento lógico. É evidente que o pensamento lógico muitas vezes nos leva a conclusões chocantes, ou escandalosas - escandalosas no sentido bíblico da palavra-, mas, se você se privar desse pensamento, se você o reprimir, ou excluir, isso não vai realmente resolver o problema. O mal vai continuar vindo e entrando. Se não entra pelo olho direito entra pelo esquerdo, ou entra pelos ouvidos... Então, naquele momento, eu expressava o meu desespero quanto à minha impotência de me vacinar contra o mal que eu percebia no mundo e em mim mesmo. Isso, evidentemente, é uma experiência que todo mundo já teve. O sujeito mais cristão do mundo já teve. O próprio Cristo, no alto da Cruz, diz: “Pai, por que Tu me abandonaste?”. Então, naquele momento Ele se sentia abandonado, o que não quer dizer que objetivamente Ele estivesse dizendo que O foi realmente. Essa frase de Cristo tem que ser interpretada também como poesia lírica. Ele disse o que Ele estava sentindo, o que Ele estava vivenciando, naquele momento. Ele não estava pronunciando uma sentença teológica. A própria Bíblia tem vários elementos puramente líricos, que expressam o que o indivíduo está sentindo no momento. O famoso discurso de Jó, por exemplo. Quando Jó protesta diante de Deus, dizendo: “Eu sempre te servi, eu sempre fui fiel, e olha o que você está fazendo comigo”... Isso era verdade evidentemente. E o discurso que Deus dá em resposta não nega o que Jó está dizendo, só insere aquilo dentro dum quadro maior que Jó não estava percebendo, mas não impede que os sofrimentos fossem reais e que Jó aos expressá-los estivesse descrevendo a situação exatamente como a de Jesus Cristo no alto da Cruz, que se sentia abandonado. Então, tudo isso é uma questão de você saber ler e, sobretudo, nunca ler como espírito de querer julgar teologicamente, ou moralisticamente, ou até filosoficamente o que você está lendo. Toda a literatura é uma expressão da experiência humana e ela não pode ir além disso. No momento em que ela tenta dar um passo além disso, ela passa do discurso literário para o discurso filosófico e daí é outro problema. Mas essa transição, se você quiser fazê-la com a obra de um poeta, você vai ter de tomar muito cuidado. Você vai ter de confrontar as várias experiências contraditórias que estão ali, e ver que a filosofia dele abrange todas essas contradições, e não apenas os vários momentos tomados isoladamente. Você não pode pegar o momento isolado e transformar numa regra geral. Se você ler o meu texto Poesia e Filosofia vai ver exatamente isso. A poesia se esgota na produção da obra escrita. E essa produção da obra escrita visa a fixar uma experiência enquanto tal. Se você decidir depois meditar sobre essa experiência e julgá-la dentro de um esquema interpretativo geral, dentro de uma concepção geral do cosmos, então aí você está filosofando. E quando você começa a filosofar o fato é o seguinte: você não vai parar de filosofar, não vai terminar. A obra poética termina no instante em que o poeta coloca o ponto final. Aquela forma verbal está encerrada. Porém, a meditação e a compreensão filosófica disso é um processo que vai levar a vida inteira e que não vai terminar nem quando você morrer. A Literatura tem essa característica de ser formada por obras que estão acabadas, completas, e que não podem mais ser mudadas; ao passo que a natureza da filosofia é a de estar continuamente sendo mudada. Você vai retornar frequentemente ao mesmo assunto, à mesma pergunta, desde vários pontos de vista e desde diversos níveis de maturidade pessoal e intelectual que você vai alcançando, e você nunca vai terminar. É por isso que eu não acredito na expressão escrita perfeita de filosofia nenhuma. O fato de que Sócrates não escrevesse nenhum livro e de que Platão reservasse a parte mais importante do seu ensinamento para o convívio e a exposição oral diante dos seu alunos já mostra isso. A natureza da Filosofia é uma contínua reflexão, uma contínua meditação que nunca termina e cujos documentos escritos só atestam parcialmente as etapas percorridas. Às vezes parcialmente e de maneira muito deficiente. [10:00] Todos os filósofos são orais. Grande parte das obras filosóficas publicadas são transcrições de aulas. Com as obras de Hegel acontece isso, com as de Edmund Husserl e muitos outros. No caso de Edmund Husserl, a quase totalidade do que se publica com o nome dele são transcrições de aulas. Os três volumes do famoso curso de Hegel sobre a história da filosofia também são transcrições de aulas. Isso já ilustra o que eu estou dizendo. Vocês imaginem quanto tempo Hegel levaria para escrever o seu livro Lições sobre a história da filosofia universal... São três volumes de quinhentas páginas cada um. Levaria pelo menos, na mais generosa das hipóteses, um ano; ao passo que ele pode ter dado aquele curso em um mês, e poderia continuar falando sobre o assunto indefinidamente. Agora, nós não podemos admitir a hipótese de um poeta que começou um poema e depois foi complementando oralmente com várias versões diferentes e nunca terminou. Isso seria a obra que não foi escrita. Nós podemos até admitir a hipótese dum poeta oral desde que os seus poemas tenham uma forma verbal acabada e isso tenha sido fixado de algum modo. No entanto, um poema que está sendo continuamente reescrito e que nunca termina não existe. Por outro lado, a obra filosófica é sempre assim. Toda a obra filosófica está sendo continuamente reescrita. O sujeito acabou de publicar um negócio, no dia seguinte ele está acrescentando ou retirando alguma coisa. Todos são assim! O único caso na história em que o sujeito disse que o que ele tinha a declarar filosoficamente estava nas suas obras e que ele não tinha mais nada a dizer foi Henri Bergson. Mas, nós sabemos que a filosofia de Henri Bergson abrange um número limitado de temas e problemas. E mesmo assim nós não sabemos se essa declaração dele corresponde inteiramente à verdade, porque aquela obra tal como está deixa tantos problemas no ar que é impossível você dizer que Henri Bergson não tinha mais nada a pensar sobre aquilo, que ele não podia descobrir mais nada no dia seguinte. Ele quis dizer que naquele momento ele não tinha mais nada a acrescentar. Mas, será que no dia seguinte ele continuava não tendo? Será que na hora da morte ele não tinha? È impossível! Então, isto tem de ser afirmado e reafirmado: a finalidade da Filosofia não é produzir obras, quem produz obras é a Literatura. A Filosofia tem um aspecto literário, é claro, mas é um aspecto menor e secundário. Produzir textos é uma ocupação à qual nós nos dedicamos apenas para facilitar o serviço para os nossos ouvintes. Mas, ainda no século XX, nós tivemos este fenômeno do filósofo romeno Petre Tutea, que era um gênio fantástico e que praticamente tudo que ele ensinou foi oral. É verdade que ele deixou também muita coisa escrita, mas o principal que nós sabemos sobre o pensamento dele vem do depoimento de terceiros. A exigência da obra escrita decorre mais da profissão filosófica, tal como concebida universitariamente, em que você é obrigado a publicar “x” trabalhos por ano senão você se desmoraliza. Contudo, essa é a sua função enquanto professor universitário e não enquanto filósofo. Tanto que essa obrigação é compartilhada não apenas com os professores de filosofia, mas com os professores de todos os departamentos: departamento de física, de biologia, de matemática... Todos têm que publicar alguma coisa. Então isso não é característico, não é definitório, da Filosofia. Creio que isso responde à pergunta e esclarece alguma coisa sobre o que já foi dito antes... Eu inúmeras vezes já me defrontei com este problema: a absoluta impossibilidade de registrar por escrito tudo o que eu estava ensinando nas aulas. Vocês imaginem, vocês têm feito transcrições das minhas aulas... Então, cada aula dá trinta, quarenta, às vezes cinqüenta páginas. E eu conseguiria escrever cinqüenta páginas em uma semana? Bom, talvez uma semana ou outra eu conseguisse. Mas se você pegar a obra inteira dum escritor, por exemplo, Shakespeare, quanto tempo você levaria para ler em voz alta todas as obras dele? Uma semana! Não mais de uma semana. E imaginem o tempo que Shakespeare levou para escrever tudo aquilo. Então, é da natureza da Filosofia ser uma obra que está continuamente sendo refeita. O que nós estamos procurando na Filosofia é uma apreensão da verdade, e não a produção duma obra escrita. Se der tempo de fixar numa obra escrita, sorte dos outros, sorte de quem vier depois. Mas não é uma coisa necessária, não é exigível. Então, outra pergunta: Aluno: Um pensamento me ocorreu durante a sua exposição (da aula passada): se o edifício cosmológico dominante, construído sobre os falsos pilares da autoridade científica, começa a ruir, seria correto imaginar que o vácuo criado pelo seu desaparecimento possa ser preenchido justamente pela operação do erro, como afirma o Livro do Apocalipse, formando então o cenário propício ao estabelecimento do sistema religioso do anti-Cristo. Sei que pode não ser prudente tirar certas conclusões, mas não posso ignorar essa percepção. Olavo: Bom, aí você tocou no problema central do nosso tempo. Esse período da ideologia moderna, fundado, sobretudo, na autoridade da ciência materialista, está caindo. É um edifício que está ruindo por todas as paredes. A epidemia de fraudes científicas que houve nos cinqüenta últimos anos já é o suficiente para que você perca totalmente a confiança na idoneidade da classe científica. Isso aí não se agüenta por mais muito tempo, então, a pergunta é exatamente esta: o que é que vem depois? Com isso, a gente toca num outro problema que eu já havia pensado em tomar como tema desta aula. Embora eu não vá explorá-lo completamente aqui hoje, eu não tenho como deixar de abordá-lo em função justamente dessa pergunta, que é o problema das relações entre linguagem e realidade. Toda a modernidade e a pós-modernidade se destaca, entre outros traços, por uma consciência muito aguda do abismo entre a linguagem e a realidade, ou entre pensamento e realidade, a partir do momento em que Kant isola todos os produtos do nosso pensamento, do nosso conhecimento, e os explica como criações do nosso próprio aparato cognitivo. Quer dizer, nós temos um aparato cognitivo assim e assado, e tudo o que nós pensamos provém das exigências internas, das estruturas internas desse aparato cognitivo, e nós não podemos jamais ter a certeza de que isso corresponde a algo no mundo exterior. No mundo exterior nós só temos, segundo Kant, as experiências sensíveis, as quais vêm, de acordo com ele, sem forma nenhuma, são caóticas, e é a nossa mente, a nossa inteligência, o nosso cérebro que monta tudo aquilo. Então, nós não podemos saber jamais se a nossa montagem, a montagem que nós fizemos, corresponde a algo no mundo exterior. Essa linha de pensamento evidentemente ecoa o negócio da dúvida sistemática do René Descartes. No momento em que o homem duvida de tudo o que ele sabe, então ele está criando, ou percebendo, um hiato, um abismo, entre pensamento e realidade. Quer dizer, eu não sei se tudo o que eu penso é imaginação ou fantasia; ou se corresponde a algo no mundo exterior. De Descartes a Kant, a consciência desse hiato vai se tornando cada vez mais aguda. Entre os dois aparece David Hume, o qual diz que nós não podemos ter a certeza sequer de que por trás dos nossos vários estados mentais, dos nossos pensamentos, existe um “eu pensante”. Ele diz: “Olha, eu vejo pensamentos, mas eu não vejo eu nenhum pensando”. Quer dizer, ele nega até o cogito ergo sum. Ele diz: “Cogito ergo cogito, não sei se eu também sum”. O fato de que eu estou pensando, não significa realmente que eu exista como substância. Eu posso existir apenas como estados momentâneos. [20:00] Então, eu tenho este pensamento, depois outro pensamento, este estado, depois aquele estado... Mas não significa que exista um “eu substancial” por trás de tudo isso. Então, isso quer dizer que o hiato não é só entre o pensamento e a realidade exterior, mas entre o homem enquanto sujeito pensante e o homem enquanto sujeito existente. Quer dizer, eu não sei se o que eu penso a respeito de mim mesmo corresponde àquilo que eu sou. Eu posso estar pensando um monte de coisas, mas por baixo disso eu permaneço um total desconhecido. Quando aparece depois a psicanálise, com a noção do inconsciente, a psicanálise te convence de que por baixo do que você sabe ao seu respeito existe um outro indivíduo, obscuro e desconhecido, e que essa é a sua verdadeira substância, o tal do “id”. Existe um psicanalista francês, Gérard Mendel, que diz que longos anos de prática de psicanálise o induzem a pensar que o tal do id existe mesmo, como pessoa, quer dizer, é um outro sujeito desconhecido que está por trás da pessoa que está se apresentando diante dele. Depois, com os estudos lingüísticos, o que acontece? As línguas vão se tornando objetos de estudo, que têm a sua forma, a sua estrutura, as suas regras, a sua substância e que não têm absolutamente nada a ver com a estrutura da realidade. A própria linguagem se torna objeto de estudo e chega um ponto em que parece que todos os nossos pensamentos sobre o mundo exterior não são senão convenções lingüísticas projetadas quase que abusivamente sobre o mundo exterior. Nessa área de estudos sobre línguas, literatura etc, não há praticamente ninguém que não esteja convencido de que as convenções da gramática ou da lógica predominam amplamente sobre a percepção da realidade. Essa é a tendência geral dos últimos três ou quatro séculos. Começa com a dúvida cartesiana e termina com o chamado desconstrucionismo onde praticamente tudo o que nós imaginamos saber são apenas combinações de palavras que nós montamos na nossa cabeça e tudo o que nós sabemos é de fato um dicionário. Um dicionário e um livro de gramática, e o resto é tudo imaginário ou suposição. Quer dizer, o mundo da nossa realidade, de nosso pensamento, está totalmente, eternamente, separado de qualquer coisa que nós possamos chamar de realidade. Toda essa linha de desenvolvimento histórico me parece completamente louca, porque, com tanto mais certeza e com tanto mais força probante, eles mostram aquilo que eles estão dizendo, tanto mais na vida real eles se desmentem a si mesmos. Eu sempre me perguntei, por exemplo, se Kant acredita que nós só temos conhecimentos dos fenômenos e não da coisa em si, ao escrever um livro ele espera que eu conheça apenas o aspecto fenomênico da filosofia dele ou a filosofia dele? O fato de ele escrever um livro desmente tudo o que ele diz no livro, ainda que tudo que ele diz no livro esteja perfeitamente correto e demonstrado etc. É como o indivíduo que viesse da casa dele até a sua casa para te demonstrar a inexistência do movimento. Eu digo: “mas por que você se moveu para mostrar que não existe o movimento?”. Então, evidentemente há algo de errado em toda essa coisa. Por exemplo, quando nós falamos, nós sempre utilizamos nas línguas ocidentais, na maior parte das línguas que conhecemos, a estrutura de sujeito, verbo e objeto. Para toda essa tendência, essa tradição moderna, essa é apenas uma estrutura da própria linguagem que não tem nada a ver com o mundo exterior. No entanto, se você observa qualquer fato, por mais mínimo que seja, que esteja acontecendo, você vê que ele tem em si mesmo a estrutura de sujeito, verbo e objeto. Ou seja, o sujeito, a ação e objeto sobre o qual incide a ação não se confundem, mesmo quando é uma ação reflexiva, a ação que incide sobre o próprio sujeito, esse sujeito, enquanto objeto, é distinto do sujeito enquanto agente da ação. Por exemplo, agora eu estava vindo para cá, de novo, eu observei a mesma coisa pela milionésima vez. Eu vi um carro percorrendo a rodovia 95... O carro poderia estar parado. Se ele não tivesse a menor possibilidade de estar parado, ele estaria se movendo eternamente. E se ele estivesse se movendo eternamente o seu movimento seria absolutamente imperceptível. Nós só percebemos o movimento porque ele pode parar. Então, o que quer que fosse um movimento eterno nos pareceria como se fosse um ente estável e absolutamente imutável. Então isso quer dizer que eu só sei que o carro está se movendo porque eu sei que ele pode parar. Eu também sei que o lugar onde ele está se movendo não é ele, porque se ele está se movendo num determinado pedacinho da Rodovia 95, é porque no instante seguinte ele está em outro pedacinho e não no mesmo. Se ele se movesse permanentemente no mesmo lugar, sei lá, na milha 42, 3, e ficasse ali, eu diria que ele não está se movendo, diria que ele está parado. Portanto a diferença entre o carro e o lugar onde ele está se movendo é óbvia. E também o próprio movimento é distinto de uma coisa e da outra. Então, você vê nitidamente a estrutura de sujeito, verbo e objeto. Como é que eu posso conceber que foi a minha cabeça, o meu cérebro, que após ter criado a gramática projeta indevidamente a estrutura da gramática sobre esse acontecimento e o modela de acordo com as suas próprias regras, passando por cima da estrutura do próprio fato exterior? Simplesmente não haveria fato exterior sem isso. Do mesmo modo que nós não podemos conceber nenhuma percepção de fato, considerando-a totalmente separada das regras da linguagem, eu também não posso conceber as regras da linguagem separadas dos fatos. Veja, se eu olhando um carro que se move na estrada não consigo distinguir o carro da estrada, o carro do movimento, o movimento da estrada etc. Se eu confundo tudo isso, ainda que esteja vendo essa distinção fisicamente, como é que eu conseguiria distinguir a percepção entre sujeito e objeto na pura gramática que é um negócio muito mais abstrato. Seria impossível! Isso quer dizer que a estrutura da frase na gramática e a estrutura do acontecimento real têm uma ligação muito próxima, embora permaneçam distintas. Se eu não fosse capaz de perceber a diferença entre o fato e a frase com que eu o expresso, eu não poderia perceber o próprio fato. Ou seja, quando eu vejo um carro se movendo na Rodovia 95 e digo: “olha, eu vi um carro andando na Rodovia 95”, eu tenho que saber que o carro andar na Rodovia 95 é uma coisa e eu dizer isso é outra. A estrutura do fato se expressa duma maneira translúcida, transparente, na estrutura da linguagem, embora essa estrutura da linguagem também possa ser concebida separadamente, porque se não pudesse eu não conseguiria distinguir entre linguagem e fato. Eu não poderia distinguir, portanto, entre eu ver um carro andando na Rodovia 95, eu pensar num carro andando na Rodovia 95 ou dizer algo a respeito. Portanto, essa autonomia da linguagem enquanto objeto, que é o grande cavalo de batalha de todo o circulo moderno, simplesmente não existe. A língua só se torna um objeto por um esforço de abstração [30:00], não naturalmente. Quer dizer, não existe isso de aqui está a estrutura da língua e lá está a realidade. As duas coisas sempre estiveram juntas. Eu perceber algo na realidade já é perceber com uma estrutura gramatical e lógica implícita nele. Depois refletindo sobre o que eu fiz, ou o que mentalmente produzi, posso tomar em consideração somente os meus atos mentais, somente a construção que fiz, separando o fato, mas essa separação não existe em si mesma. É uma reflexão posterior que faz isso. É o mesmo caso do David Hume, que fala das bolas de bilhar: “eu vi uma bola andando, depois vi outra se movendo, mas eu não vi causa.” Você não viu nada disso. O que você viu foi um fato único. Você não é capaz de dizer onde terminou o movimento da primeira bola e onde começa o movimento da bola onde ela bateu. Um processo único, que depois você seccionou abstrativamente em vários pedaços; a continuidade desse processo é o que se chama causa. O fato de que o movimento de um objeto se prolongue no movimento de outro objeto, sem que se possa cortar uma coisa da outra: é essa continuidade que nós chamamos de causa. Como um único movimento é transferido de um agente para outro; portanto você viu a causa – depois você seccionou em vários pedaços, e agora diz que não está vendo nada. Ele está contando a história inversa. Esse pessoal, que examina a estrutura da linguagem e pretende separá-la da estrutura da realidade, está fazendo a mesma coisa. Contam uma história invertida e depois tomam essa história como se fosse um objeto e começa a seccioná-lo em pedaços, e depois não conseguem juntar os pedaços novamente. Tudo isso é a expressão de uma espécie de psicastenia, de fraqueza mental sistematizada e tornada ciência. Como dizia Rui Barbosa: “a estupidez também é uma ciência.” Prova é que o Dr. Emir Sader foi eleito presidente da Casa Rui Barbosa. Tudo isto nos mostra que a estrutura da linguagem é a própria estrutura da realidade, tomada, por assim dizer, em miniatura. Não há nenhuma inadequação profunda entre linguagem e realidade. A única inadequação que existe é a seguinte: nenhum de nós pode pensar tudo, nenhum de nós pode saber tudo, então o que quer que nós digamos é sempre incompleto. Existe um coeficiente de erro possível graças a essa incompletude, e apenas graças a ela e mais nada. Não há esse abismo entre linguagem e realidade, mas existe a incompletude que não é da linguagem, mas nossa, porque nós somos mortais. Nós só vivemos um tempo, só temos determinadas experiências e não outras, e só podemos falar daquilo que sabemos, e não daquilo que outro sabe ou de que Deus sabe. Observe que tudo, absolutamente tudo, o que lhes chegou da realidade, desde sempre, chegou sobre a forma de fatos que se desenrolam no tempo, não houve nada de permanente e imutável. As coisas que nos parecem permanentes são apenas mais duráveis que outras. Se você vê uma montanha e depois um bode subindo a montanha: você está vendo o movimento do bode, mas a montanha está parada no lugar, isso quer dizer apenas que a vida da montanha é mais durável que a vida do bode, mas ela também se formou um dia, se desfará noutro dia embora isso possa levar milhões de anos, ao passo que o bode vai viver cinco ou seis anos, e olhe lá. Não sei quanto dura um bode... Tudo o que lhes chegou o fez sob a forma que chamamos acontecimentos. A estrutura da realidade é a estrutura de uma história. Nesta história você distingue entre as ações e os agentes, supondo que os agentes duram mais que as ações, porque senão eles poderiam cometer somente uma ação. Uma pessoa que vai durar de uns 60 a 80 anos, vai praticar muitas ações que vão durar menos que a idade dela, e ela vai continuar mais ou menos estável durante esse período. Ou seja, não só tudo o que acontece tem uma estrutura temporal-narrativa, mas a distinção entre o sujeito e ação é uma condição sine qua non para você perceber a ação. Assim como, a distinção entre o sujeito, a ação e o objeto da ação, ainda que o objeto seja o próprio sujeito, também é necessário. Você diz: “fulaninho se matou” – ele não matou outra pessoa, ele matou a ele próprio. Em que sentido o objeto da ação é diferente do seu sujeito? A ação se consuma no instante que o sujeito morre, se ele não morresse, dir-se-ia que ele tentou se matar e seria uma ação completamente diferente. Você só diz que ele se matou porque ele está morto. Mas não foi enquanto morto que ele cometeu a ação, ele não pode se suicidar depois de morto, portanto há uma diferença brutal de estado entre ele enquanto sujeito da ação, e ele enquanto objeto da ação. Qualquer ação [reflexiva], por mais simples que seja, é assim. Você pode distinguir entre dois estados do mesmo sujeito, e a coexistência desses dois estados seria incompatível com a ação. Por exemplo, o indivíduo penteia o cabelo, portanto você supõe que o cabelo dele ficou penteado, coisa que não estava antes, se já estivesse penteado e o sujeito continua penteando, você não diz que ele estava penteando, diz que estava fazendo outra coisa. Mesmo uma ação simples como essa supõe uma diferença de estado e bloqueia a possibilidade de co-existência dos dois estados. Portanto, quem comete a ação reflexiva é um indivíduo tomado num determinado estado que se transporta para outro estado completamente diferente. Mesmo aí a estrutura da ação continua sendo de sujeito-verbo-objeto e não poderia ser de outra forma. Quando, baseado nessa mesma observação, o físico David Bohm, no livro Totalidade e ordem implícita, tira a conclusão de que todos os nossos substantivos são falsos, porque tudo o que nós vemos são processos, então o único tempo verbal admissível seria o gerúndio, ele diz uma grande besteira. Porque se fosse o gerúndio não haveria ações terminadas. Todas as ações seriam permanentes. O sujeito começa a se pentear e continua se penteando pelo século dos séculos. Não pára para dormir, nem para comer, nem troca de roupa, nem toma banho. Se a estrutura de tudo o que nós conhecemos é uma estrutura temporal, essa mesma estrutura temporal exige a distinção entre substância e ação; o agente é uma substância, ele não é uma ação, ele permanece o mesmo durante a ação. Para que o indivíduo possa se modificar durante a ação é absolutamente necessário que algo nele continue como está. Você não pode dizer nem que o sujeito se matou, porque, se ele mudou completamente durante a ação, ele se mata e quem aparece morto é outro. Se você diz que “ele se matou” é porque ele continua o mesmo depois de estar no estado de morto; antes ele estava vivo, mas é ainda a mesma pessoa. A necessidade que nós temos de distinguir entre sujeito e ação é inerente a própria estrutura da realidade, porque nenhuma ação é concebível se o sujeito não continua o mesmo durante o percurso da ação, se ele se modifica totalmente, ao ponto de passar a ser outro então você não pode dizer que ele fez isso ou aquilo. As estruturas fundamentais da gramática e as categorias da lógica estão imbricadas na própria estrutura da realidade. O fato de nós conseguirmos distinguir entre o fato e o pensamento, não significa que sejam realmente duas coisas separadas, muito menos que haja um abismo diante delas. [0:40] O pensar, o perceber e o narrar são inerentes à estrutura da própria ação. Se tiver um carro percorrendo a Rodovia 95, alguém vai perceber isso, pelo menos o próprio motorista. Não é o motorista que está se deslocando, ele está deslocando o veículo através de um motor e uma série complexa de ações que resulta no movimento da roda, então não é propriamente ele que está se movendo, ele está pondo em ação um movimento que o move também; ao por o carro em movimento este o leva. No mínimo ele tem de ser testemunha do que está acontecendo, e perceber que o carro estar andando não é a mesma coisa que fazer o carro andar; mas como ele poderia fazer o carro andar se ele nem pudesse perceber isso? A percepção do fato, ou pelo menos a possibilidade teórica da sua percepção, é inerente à própria estrutura do fato, mais ainda, toda e qualquer ação afeta um objeto e nesse sentido introduz uma nova informação no objeto; se ação não transmitisse nenhuma informação a ninguém, ela simplesmente não teria acontecido, no mínimo transmite uma informação para o próprio agente, se é uma ação reflexiva. Por isso eu digo que a percepção – a recepção de uma informação –, é inerente a própria estrutura da ação, e nada é concebível fora disso. Toda a afirmação descritiva que nós fazemos sobre a estrutura da realidade, que pretendem expressar dados constantes e permanentes da realidade, é puramente analógica. Como já dizia o velho Heráclito: “tudo está mudando o tempo todo.” Todas as afirmações, que não são narrativas, são puramente analógicas – só as informações narrativas que podem ser literais –, mas analógicas até que ponto? Se Fulano foi tomar banho, estou supondo que ele conserve sua identidade pelo menos durante a duração do banho – vai que ele entra no banheiro e sai outro cara de lá? Se acontecer isso é porque algo deu errado. Bom, tem certas pessoas que, quando tomam banho, se transformam tanto que ficam irreconhecíveis, mas não é o caso da maioria da humanidade. Essa permanência do sujeito durante o curso da ação é condição não só para que você perceba a ação, mas para que ela possa ocorrer. Se eu estou tomando banho, estou me lavando a mim mesmo, e espero ficar mais limpo. Se eu tomo banho, e quem aparece mais limpo é o vizinho, e eu continuo sujo do mesmo jeito, então não fui eu que tomei banho. Porém, essa continuidade é relativa, eu tomo o sujeito da frase como se fosse um ente permanente. Mas ele é permanente? Não, ele está continuamente se transformando, ele surgiu um dia, vai desaparecer em outro – a não ser que ele sobreviva, tenha uma vida após a morte e continue vivendo eternamente. Isso quer dizer que toda a afirmação descritiva que toma o seu sujeito como um elemento estável está se referindo a ele sobre a categoria da eternidade. Então temos essas duas maneiras de descrever o mundo: temos uma maneira narrativa, que imita a estrutura temporal da ação; temos uma maneira descritiva, que pega todo esse movimento, todo esse transcurso temporal e o coloca dentro de uma moldura eterna. Essa moldura eterna é invenção nossa também? Fomos nós que inventamos a eternidade? É fácil você ver, não precisamos demonstrar agora, que se não existe eternidade também não existe o tempo e isso não depende de nós, absolutamente. Portanto, tudo o que nós temos experiência se dá na clave narrativa, mas só podemos ter a clave narrativa, só podemos contar o que aconteceu porque existe uma eternidade, e os entes que estão dentro do tempo, que estão se transformando, têm também uma identidade eterna, que está para cima da esfera temporal-narrativa, e que garante a possibilidade desta esfera. Então podemos ver as coisas sob dois aspectos: no tempo e na eternidade; e só podemos ver no tempo porque vemos na eternidade. As nossas narrativas são todas necessariamente incompletas, só podemos contar um pedacinho que vimos, imaginamos ou que alguém nos contou. Todas essas histórias – pouco importa se você conta um pequeno fato: “eu vi um carro se movendo na Rodovia 95”, ou que você escreva a história universal, ou a história do cosmos – serão igualmente incompletas. É a visão da escala eterna que garante algum encaixe entre essas narrativas e a realidade. É porque existe a eternidade que as nossas narrativas não precisam ser completas, todo mundo tem acesso a mesma noção ou expectativa de eternidade, e pode então corrigir a relatividade das várias narrativas confrontando-as com a escala da eternidade e com outras narrativas. Se eu disse que tudo o que acontece, acontece no tempo, e transcorre no tempo, então a totalidade do universo sem nenhuma exceção está transcorrendo. A totalidade universal também é uma narrativa. Quem conhece essa narrativa? Só Deus. Existe uma narrativa integralmente real, que é a narrativa daquilo que efetivamente aconteceu a todos os entes e criaturas em qualquer época, sob qualquer aspecto que seja. Isto abrange, por exemplo, um acontecimento fugaz, como uma pedrinha que rolou na montanha, assim como um acontecimento de maior duração, como a formação e o desaparecimento da montanha, e o próprio desaparecimento dos planetas e das galáxias no fim dos tempos. Isto é a narrativa divina. São Tomás de Aquino dizia: “nós falamos com palavras, e Deus fala com palavras e coisas.” A totalidade do acontecer é a narrativa divina, só Deus conhece. Todas as nossas narrativas são incompletas e na medida em que são incompletas elas só são parcialmente verdadeiras; só são verdadeiras analogicamente. Sempre que você conta uma história você precisa omitir milhões e milhões de detalhes e de acidentes, sem os quais aqueles acontecimentos não poderiam acontecer; lembre-se da aula sobre fato concreto. Quando você diz que algo aconteceu, e percebe concretamente que aquilo aconteceu, é porque você está aberto a infinitude de acidentes sem os quais aquilo não poderia acontecer. Você não conseguiria enumerar esses acidentes todos, mas está aberto para a multiplicidade deles. Se você fechar, então estará confundindo o acontecimento com a narrativa verbal deles. É um erro monstruoso porque a narrativa verbal, embora imite a estrutura do acontecer, ela resume [0:50] essa estrutura e a fecha numa totalidade verbalmente expressável, deixando de fora tudo aquilo que você acha que não é necessário para compreensão do essencial, ou seja, você narra só o essencial e tira o acidental, mas sem o acidental a coisa não poderia acontecer, seria apenas uma narrativa pensada, não uma narrativa acontecida. O que garante a realidade das nossas narrativas? É porque elas também estão acontecendo dentro da narrativa divina. Qualquer história que eu conte, está sendo contada, naquele mesmo momento, na escala da realidade total, que o próprio Deus está contando ou escrevendo. É essa conexão entre a nossa narrativa e a narrativa divina que nos garante a realidade do que está acontecendo, portanto as nossas narrativas só são verdadeiras quando elas estão abertas para que a narrativa divina as complete. Quando você conta certos fatos, tira algumas conclusões sobre a continuidade deles, e elas depois se revelam verdadeiras, significa que sua narrativa estava bem encaixada dentro da narrativa divina. Algumas semanas atrás, quando deu a revolução no Egito, eu disse: “não espere que essa revolução crie uma democracia, ela vai criar uma tirania muito pior do que a anterior e vai começar a matança.” Três dias depois começou a matança. Significa que a minha narrativa e a conclusão que eu tirei dela estavam harmônicas com a narrativa divina. O que eu estava contando iria realmente acontecer. A possibilidade que nós temos de prever, significa apena isso: a nossa história, tal como nós a narramos, está aberta para uma continuação que está de acordo com a narrativa divina, ou totalidade do acontecer. Acontece que Deus além de estar escrevendo a narrativa total, também produz uma versão verbal dela, que é a revelação. Deus escreve com palavras e coisas, mas ele também às vezes escreve com palavras. Jesus Cristo diz a seguinte coisa: “os céus e terras passarão, mas as minhas palavras não passarão.” Que ele quer dizer com isso? Quer dizer que essa narrativa menor, que ele está fazendo em palavras, faz parte da narrativa divina enquanto tal, e a verdade delas não dependem sequer da continuidade da existência dos entes a respeito dos quais ela está falando. Quando o planeta Terra não existir mais, aquilo que Jesus Cristo disse sobre a Terra continuará vigorando, aquilo dura mais do que a Terra. Nós temos, portanto, um guiamento fundamental para a compreensão da realidade, que é a versão divina abreviada da narrativa divina: o texto da revelação. Como distinguir qual texto da revelação é o verdadeiro? Como vocês sabem existem várias religiões, todas as sociedades têm sistemas de crenças, ritos, símbolos, etc. Se a narrativa revelada é um elemento da própria narrativa divina – uma versão abreviada, que por sua vez faz parte da narrativa divina –, então naturalmente aquilo que está contado ali será continuado em ações subseqüentes que terão uma coerência interna com o texto da revelação, ou seja, o texto da revelação não acaba; ele se prolonga em acontecimentos que não estão no texto, mas estão na narrativa divina, que mostram que aquele pedacinho que foi resumido na revelação está perfeitamente encaixado dentro da narrativa maior, ou narrativa divina. Só podemos aceitar como verdadeiras as revelações que se prolongam em acontecimentos posteriores, atestando a veracidade do que foi dito ali. O teste da revelação, não é, portanto, o que as pessoas dizem, ou o que os teólogos dizem, ou o que os vários sistemas de crenças desenvolveram, mas a possibilidade de você observar a ação divina no mundo, que prolonga o texto da revelação e o confirma infinitas vezes. Somente uma seqüência de milagres, inteiramente coerentes com o texto da revelação, nos mais mínimos detalhes, pode atestar que uma revelação veio de Deus, ou se é algo que os homens simplesmente intuíram, por mais elevado e espiritual que seja. Neste sentido só há um texto revelado, que é exatamente o da Bíblia, especialmente o Novo Testamento, cuja continuidade é a atestada ao longo do tempo por uma sucessão imensa de milagres, sem nenhum paralelo em nenhum outro sistema de crenças. Isso não quer dizer que acontecimentos extraordinários não sucedam em outros campos religiosos; sucedem, porém, nunca houve em parte alguma um processo de verificação como existe dentro da Igreja Católica. Nenhuma outra religião jamais se atreveu a testar por meios crítico-analíticos os seus supostos milagres. Os milagres alegados aqui ou ali, acontecimentos miraculosos, etc., podem ser aceitos como tal, ou negados como tal, porque eles também são matérias de fé. Ao passo que, os milagres do Padre Pio não são matérias de fé. Você não precisa ter fé alguma para saber que aquilo aconteceu. Tudo o que estou dizendo pressupõe que vocês tenham assistido a minha aula O que é um milagre? Aula que tem um resumo publicado no site The Voegelin View (http://www.voegelinview.com/what-is-a-miracle.html). A aula por extenso está disponível no site do Inter-American Institute (http://www.philosophyseminar.com/multimedia/video/167-what-is-a-miracle.html). Isto significa que não podemos definir milagre como a ruptura de leis naturais, ou como acontecimentos extraordinários. O milagre tem que ter uma coerência total com o texto da revelação, em todos os seus aspectos, e tem que ser considerado na sua totalidade. Você não pode isolar nele os aspectos correspondentes às várias ciências, ou às várias disciplinas, e estudá-las isoladamente porque o caráter miraculoso do fato se revela justamente na conjunção inseparável desses vários aspectos. Suponhamos que no milagre de Fátima você conseguisse arrumar uma explicação astronômica para a chamada Dança do Céu. Muito bem, além disso, você teria que explicar por que este fato astronômico aconteceu com data marcada por três crianças. Porque há esta conexão: as crianças disseram que ia acontecer tal hora, e aconteceu naquela hora. [1:00] Então, não é o fenômeno astronômico em si que constitui o milagre, mas ele e mais o seu anúncio. Mais ainda teria que explicar por que aconteceu justamente no instante em que as crianças convocaram estas pessoas, e estas pessoas foram. Elas poderiam não ter ido. Mais ainda, teria que explicar como isto se conecta com as profecias que foram feitas na ocasião e que se cumpriram historicamente. Então é esta conexão inseparável desses vários elementos que constitui o milagre. Qualquer desses elementos tomados separadamente será apenas uma esquisitice. Ora, seria possível você reduzir ou negar o caráter miraculoso dessas coisas? Eu digo: Bom, só se você inventasse uma ciência capaz de conectar o comportamento infantil com fenômenos astronômicos. Existe essa ciência? Não existe! Então, ainda que você arrumasse uma explicação científica para cada um dos eventos em particular, você perderia a conexão. E é justamente essa conexão que dá o caráter miraculoso da coisa. Por exemplo, o fato daquela menina que não tinha pupilas. O Pe. Pio orou por ela, e ela passou a enxergar sem pupilas. Enxergar sem pupilas já é um absurdo. Não há nenhuma explicação oftamológica para isso, mas mesmo que houvesse, vocês teriam que explicar porque isso só aconteceu quando o Pe. Pio rezou. E mais, vocês teriam ainda que explicar por que a menina foi procurar logo o Pe. Pio, e não, veio, por exemplo, falar comigo, ou com qualquer um de vocês. O senso do fato concreto é absolutamente necessário para que você possa compreender o que é um milagre. O milagre é uma conjunção de fatores essenciais e acidentais absolutamente inseparáveis, e é assim que ele tem que ser julgado. Somente a sucessão de milagres que continua a narrativa evangélica é que atesta a ação divina no mundo. Metade do tempo que Cristo passa no Evangelho está fazendo milagres, curas miraculosas; a outra metade Ele passa dando explicações que, se você somar, não dá vinte páginas. Há algumas edições que trazem as explicações de Cristo em vermelho. Se você juntar todo aquele pedaço vermelho, vai ver que não chega a vinte páginas. Então, Cristo falou muito pouco, mas a Bíblia diz que Ele fez muitas outras coisas além das que estão contadas ali. A sucessão dos milagres evangélicos continua ao longo do tempo, atestando a ação divina no mundo e não um sistema de crenças. Não algo que os homens conceberam. Então é ali que nós temos a verdadeira conexão entre a narrativa revelada e a narrativa divina, e a nossa própria narrativa. E aí tudo se encaixa como se fosse várias camadas de uma cebola. E isto nos dá o senso da realidade. Você vê que a concepção moderna do cosmos é também uma narrativa. Ela nos dá uma imagem de como teria sido a origem do cosmos, o seu desenvolvimento e alguns fatores mais ou menos permanentes. Aquela história de Isaac Newton de que ele tinha descoberto as leis eternas, isso já foi para o brejo há muito tempo. Não há leis eternas na natureza, não há nenhuma lei eterna na natureza. Tudo quanto é eterno, tudo o quanto nós podemos conceber como eterno e imutável se refere não ao cosmos, mas a dimensão da eternidade. Por exemplo, nós dizemos: 2 + 2 é 4, e continuará sendo eternamente. Então, 2 + 2 é 4, é um elemento da eternidade e não do acontecer, não do cosmos. Se não existisse cosmos algum, 2 + 2 continuariam sendo 4. Quando nós falamos da identidade, que uma coisa é ela mesma, ela só é isso na escala da eternidade. Porque na escala temporal as mudanças de estado são tantas que você vê que só pode conceber uma substância como idêntica a si mesma, se você conceber a durabilidade relativa dela transposta no plano da eternidade. No sentido que eu vejo, por exemplo, uma tartaruga dura o que? Noventa anos? Cem anos? Duzentos anos? Bom, ela dura um bocado, mas ela começou e ela vai terminar. Mas como ela foi uma tartaruga durante este período, ela não pode se transformar em outra coisa depois de morta, e nem pode ter sido outra coisa antes dela nascer. O quer que tenha acontecido entrou na esfera do ser. Saiu do nada e entrou no ser, então não pode voltar para o nada. Nada pode voltar para o nada. Ou a eternidade abrange tudo, ou ela não é eterna de maneira alguma. E se ela abrange tudo, então tudo que está no acontecer temporal também está na eternidade. Durante quanto tempo está na eternidade? Eternamente. Isto quer dizer que esse abismo entre tempo e eternidade só existe do ponto de vista do tempo. A modernidade substituiu a narrativa tradicional cristã por outra narrativa. É uma narrativa na qual os fatos de ordem material acontecem por si sem nenhuma causa transcendente e cria um mundo material à nossa volta que não tem absolutamente nada a ver com o que nós pensamos dele. Ou seja, nós vivemos dentro deste mundo material, nós mesmos constituídos de matéria, mas nós temos uma coisa chamada pensamento que é um produto do nosso cérebro. E o cérebro então cria mitos, lendas, culturas, etc., sem que isso tenha nada a ver com a estrutura do mundo exterior. O mundo exterior nessa concepção é totalmente estranho a nós, não há a menor intimidade entre uma coisa e outra. Ou seja, tudo que se passa dentro da minha mente reflete apenas o meu processo interior, e não a estrutura do mundo externo. O primeiro que conseguiu dizer alguma coisa sobre o mundo externo foi Newton. Antes estavam todos vivendo no mundo da Lua, e Newton foi o primeiro que disse uma coisa certa a respeito do mundo exterior. Vocês acham que isso é possível? Não! Isto é uma estupidez monumental. Esse abismo entre o eu pensante e eu externo constituído de matéria é uma narrativa, e é uma narrativa evidentemente falsa, porque se o mundo do pensamento humano não tivesse nenhuma conexão com a natureza e se a natureza não nos dissesse nada, então nós teríamos estado vivendo num mundo absolutamente estranho e hostil durante milênios e teríamos conseguido sobreviver neste meio, embora sem Newton. Como é que teríamos conseguido sobreviver até Newton? Estávamos todos errados e Newton foi o primeiro que acertou? A estrutura do nosso pensamento e da nossa linguagem tem uma intimidade profunda com o acontecer externo. Não existe um mundo totalmente externo, nada é totalmente externo e nada é totalmente interno. Interno e externo são uma relação, não são formas diferentes da substância como pensava Descartes. Existe uma substância pensante, uma substância extensa, essa não é uma diferença de substância, essa é uma diferença relacional apenas. [1:10]. Tudo aquilo que eu vejo como externo se torna interno, tão logo eu presto alguma atenção naquilo e aquilo adquire um significado para mim. Você veja que perceber significados no mundo exterior é a atividade mais constante do ser humano desde que ele apareceu sobre a Terra. Ler intenções, ler significados, ler mensagens e ler até sentimentos no acontecimento do mundo exterior é o que constitui a totalidade dos sistemas mitológicos que apareceram nas várias culturas. E eles não podem estar totalmente errados, mesmo porque o que nós entendemos como concepção científica na natureza não é senão parte de outro sistema mitológico, de uma nova narrativa mitológica, na qual o homem emerge das sombras de processos físico-químicos que não compreende e, aos poucos, depois de Newton, vai tomando consciência das estruturas do mundo externo, até que consegue apreender tudo e dominar tudo. Isto é uma narrativa. É uma narrativa totalmente mitológica como qualquer outra. A diferença é que, para adquirir uma credibilidade, ela tem que esconder suas próprias origens e tem que mentir. Essa é uma diferença que a separa de todos os sistemas mitológicos do mundo. Isso quer dizer que os autores do sistemas mitológicos antigos acreditavam neles, e Newton, Galileu e Descartes não acreditam na sua própria história. São todos mentirosos nesse sentido: estão varrendo para debaixo do tapete as origens para fingir que são outra coisa que não são. Os sistemas mitológicos todos, ainda que não sejam de origem revelada, expressam algo da relação profunda entre a alma humana e o mundo exterior, e nesse sentido são verdadeiros. A única diferença entre os sistemas mitológicos e a revelação cristã é que esta não põe um ponto final na hora que terminou o Evangelho, mas continua. O texto do Evangelho é enormemente fragmentado, nós sabemos disso. O próprio Evangelho declara que Jesus Cristo fez muitas outras coisas que os Apóstolos não lembraram ou não conseguiram documentar. Ele não pretende ser senão uma breve amostra. Só que esta narrativa evangélica prossegue, e as outras não, porque elas estão condicionadas a determinados contextos culturais e não são transportáveis para fora deles. Por que a revelação cristã “é”? Porque ela não é uma criação cultural, mas um relato de fatos que aconteceram e continuam acontecendo. Porém, a estrutura é tão mitológica quanto as das outras. É uma narrativa mítica, que tem muitos significados, mas que se engancha na realidade através de certos conteúdos factuais que são reconhecíveis e que continuam sucedendo. Essa ponderação que o aluno faz – de que no instante em que acaba a narrativa moderna pode entrar uma coisa, e essa outra coisa pode ser a operação do erro, que é mais um sistema mitológico, porém desta vez inventado de propósito para substituir a narrativa cristã – é perfeitamente possível, e mais, já está acontecendo. Então a resposta para a sua pergunta é exatamente o que você diz aqui: é correto imaginar que o vácuo criado pelo desaparecimento da narrativa moderna pode ser preenchido justamente pela operação do erro, como afirma o livro do Apocalipse, formando então um cenário propício para o estabelecimento do sistema religioso anti-Cristo. Sim, isto já está acontecendo. [Intervalo: 1h14:46] Vamos recomeçar, nós hoje temos que encerrar às 8h exatamente porque agora temos um bebê aqui, e vamos terminar antes que ele comece a dar palpites na nossa aula. Há um aviso importante. Gustavo Caldas pede para avisar que há um grupo de alunos que se reúne para assistir às aulas em São Paulo. O grupo tem cerca de dez pessoas e atualmente se reúne em uma sala da paróquia Nossa Senhora do Brasil, no Jardim Europa (SP). Quem quiser mais informações pode mandar um e-mail para gustavojc@gmail.com. Seria bom que esse grupo de São Paulo também tivesse uma transmissão por Skype, para que nós pudéssemos pegá-la aqui. O Rerison Cavalcanti, diz que está aqui perto fazendo um intercâmbio na Universidade de Maryland, e gostaria de saber se eu tenho algum evento ou curso programado para os próximos meses aqui nos Estados Unidos. Ele está próximo da Virgínia e gostaria de vir até aqui. Você pode vir na hora que quiser. Você pode assistir a esta aula aqui mesmo. Passe o fim de semana conosco e assista à aula no sábado. Escreva para roxane.andrade@gmail.com e combine. Aluno: O senhor já nos forneceu exemplos abundantes de erros e farsas do campo filosófico-científico. Você acha possível que haja um fenômeno semelhante no campo artístico, literário, plástico, teatral, etc? A paralaxe cognitiva pode ter afetado na mesma proporção o campo simbólico da modernidade? Caso isso tenha acontecido as conseqüências são diferentes no caso das artes, artistas? Pois como exemplo do estado de farsa a que chegamos, numa teoria da recepção, como o senhor citou, pareceu bem claro que há uma confusão provavelmente propositada entre o estatuto ontológico da obra de arte e de uma obra teórico científica. Olavo: Bom, isso pode acontecer e de fato aconteceu, mas os campos das artes foram muito menos afetados, até por uma impossibilidade intrínseca. Como em qualquer arte a ocupação principal, como dizia Benedito Groce, é “expressar impressões”, você tem que ter as impressões, lembrar delas e conseguir traduzi-las de uma maneira ou de outra. Aí nós nos lembramos da famosa distinção do Saul Bellow entre os intelectuais e os escritores. Os primeiros tentam criar idéias e ideologias, e os segundos tentam transmitir as impressões autênticas. Então, muito dessa expressão autêntica continua vigente. Aliás, nós encontramos mais objetividade, mais fidelidade à experiência autêntica no campo da literatura de ficção do que no campo filosófico. Há muito menos falsificação ali. Embora também haja esses negócios de estética da recepção, desconstrucionismo, etc, os quais visam desorientar esses artistas para que eles percam essa capacidade. Por exemplo, se o sujeito está persuadido de que tudo que ele tem que fazer é criar estruturas lingüísticas que não significam outra coisa senão outras estruturas lingüísticas, aí está tudo acabado. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o nosso Concretismo, no Brasil. Se você pegar todas as obras concretistas, o que resta ali? Nada! O Ronald Robson mandou aqui uma pergunta enorme que eu não vou responder, porque não dá tempo, mas eu vou ler o máximo que eu puder da pergunta para ficar para uma próxima aula, para vocês também puderem pensar. Aluno: Tenho estudado algo de epistemologia cientifica a partir de suas aulas sobre Ciência Moderna. Percebe-se com facilidade haver uma continuidade tácita entre a experiência de impotência cognitiva que funda a ontologia de Kant e as cosmologias das filosofias neopositivistas ainda ligadas à física newtoniana, do que a obra de Bertrand Russell seria exemplo. Trata-se de um suspicácia metódica que a pretexto de retirar todas as imprecisões do conhecimento, acabará por depurá-lo de forma idealística, a considerar apenas a causa eficiente das coisas e abandonar sua causa final. Abandono esse em fim da busca de um fundamento em troca da busca de um mundo como instrumento. No entanto, o kantismo parece ter encontrado dois desdobramentos opostos do estudo da ciência. [1:20] Um deles está didaticamente imposto e exposto no ensaio de Bertrand Russell intitulado “Relação entre os dados sensoriais e a Física”, do livro Misticismo e Lógica. Nele Russell está preocupado em responder uma pergunta chave para os cientistas modernos: Que relação há entre aquilo que conhecemos diretamente – os dados sensoriais – e aquilo que conhecemos através da ciência, os sensibilia, ou os objetos físicos, sendo físico aquele que é objeto de conhecimento da física? Há continuidade afinal entre aquilo que efetivamente conhecemos e aquilo que a física nos auxilia a conhecer? A sutileza aqui é que enquanto com Kant ainda estávamos a nos preocupar em conhecer o ser, do qual o fenômeno seria uma a máscara espaço-temporal; com Russel e seus pares já não estamos muito certos nem de se nos é possível alcançamos um objeto tão só material de que emanam as sensações que nos chegam. Entretanto, depois de uma argumentação pueril e aborrecida, Russel dirá que os dados sensoriais são físicos, que podemos conhecê-los desde que os vejamos após garantida a construção teórica de um espaço único, um tempo único e uma matéria permanente. Essa seria uma das apresentações da corrente realística da filosofia da ciência, os que ainda acreditam haver objetividade no mundo material e que através de métodos adequados podemos descrevê-lo. Há de outra parte, a correspondente anti-realista ou instrumentalista, que talvez seja um segundo desdobramento do kantismo. Ela parece um misto de intuições verdadeiras minadas por uma ontologia falsa, que de grosso modo defende serem indiferentes às teorias cientificas que falam de realidades inobserváveis, os “quarts”, por exemplo. Se tais realidades existirem, a teoria estará correta; se não, incorreta; em ambos os casos ela será válida. É que segundo os anti-realistas, a ciência apenas cria ficções úteis que a despeito de qualquer potencial iluminador que tenham sobre a realidade, só valem enquanto ajudam a prever o comportamento das coisas observáveis. Assim, não cabe à ciência estar certa ou errada, mas somente ajudar a manipular num certo sentido uma gama muito pequena de aspectos do mundo. Aliás, é evidente que não se sustenta a idéia de que pertence a campos ontológicos diversos o fisicamente observável e o fisicamente inobservável, mas tais expressões podem ser tomadas como analogias. Exemplo de anti-realista contemporâneo Bas Van Fraassen. Um professor da Universidade de Bristol, Samir Okasha, exemplifica a contenda de realistas e anti realistas: “Para os anti-realistas, a que se referem os físicos quando falam de entidades inobserváveis? Normalmente eles afirmam que essas entidades são meramente ficções úteis introduzidas pelos físicos a fim de ajudá-los a prever fenômenos observáveis. Para ilustrar considere a teoria cinética dos gases, que diz que em qualquer volume de um gás contém uma grande quantidade de entidades muito pequenas em movimento. Essas entidades, as moléculas, são inobserváveis. Podemos deduzir da teoria cinética várias conseqüências sobre o comportamento observável dos gases. Por exemplo, o aquecimento de uma amostra de gás causará a sua expansão se a pressão permanecer constante, o que pode ser verificado experimentalmente. De acordo com os anti realistas, o único propósito de se postular entidades inobserváveis na teoria cinética é deduzir conseqüências desse tipo. Se realmente os gases contém ou não moléculas em movimento não importa, o objetivo da teoria cinética não é descrever verdadeiramente os fatos ocultos, mas apenas fornecer um modo útil de se prever observações. Podemos ver porque ao anti realismo se chama instrumentalismo. Este considera as teorias cientificas como instrumentos para nós observarmos, prevermos fenômenos observacionais, ao invés de tentar descrever a dúvida subjacente da realidade.” Minha dúvida é esta. Há continuidade da experiência da filosofia de Kant e a dos chamados anti realistas? Ou seria o caso de falar em outro tipo de experiência fundante dessa filosofia? Olavo: Bom, as duas correntes vêm diretamente de Kant. A partir do hiato criado pelo kantismo você só tem duas alternativas: ou você afirma dogmaticamente a correspondência entre conhecimento e a realidade, sem você poder provar, quer dizer, faz um ato de fé; ou você nega que o conhecimento científico tenha a obrigação de corresponder à realidade, e afirma que a única coisa que se espera dele é que ele permita prever corretamente certos acontecimentos. Mas o que significa prever corretamente senão uma correspondência entre a previsão e a realidade. Nos dois casos você cai no mecanismo circular, num raciocínio de tipo circular, numa petição de princípio. Isso aqui mostra a absoluta impotência da filosofia científica moderna de resolver o problema que ela mesma criou. Isto nós podemos tomar como objeto para as próximas aulas, ao invés de tentar esclarecer tudo agora porque realmente não dá tempo. Mas achei que era útil ler a carta para vocês porque é um assunto para pensar. Aluna: Qual é a importância da narrativa de Maomé? Verdadeira ou mentirosa? Para que serviu? Olavo: Bom, em todas as religiões e sistemas mitológicos você tem elementos verdadeiros, elementos que podem ser considerados até certo ponto revelados, algo que veio de Deus e se impregnou ali. Mas o nosso problema é que existe uma grande diferença entre a narrativa mitológica e a ação divina no mundo. Eu digo que nós só podemos aceitar a narrativa mitológica como inteiramente revelada, inteiramente divina, quando a ação de Deus se prolonga em linhas coerentes com ela. É como se dissesse: A narrativa do Evangelho não terminou, ela continua na esfera dos fatos, ela reconhece a sua incompletude. Você veja que no começo havia inúmeros evangelhos circulando, e a Igreja examinou vários e no fim fechou em quatro textos. Isso não quer dizer que nos outros não haja nada de verdadeiro. Então, nós não temos um texto revelado final, que já veio pronto. O texto do Evangelho nunca estará pronto. A ação divina se prolonga no mundo, Deus está acrescentando novos capítulos àquela revelação, e é justamente por isso que ele nos interessa. Não é no sentido de que nós temos aqui um texto revelado, uma verdade final. Justamente esta pretensão já mostra a própria falsidade do texto. Se o texto é verdadeiro ele não pode estar acabado, não pode ter uma forma final. Ele tem que prosseguir, quer dizer, a ação divina no mundo tem que acrescentar novos capítulos o tempo todo. Senão seria como se Deus tivesse dito o que tinha a dizer, ido embora e deixado o resto todo por nossa conta. É uma coisa absurda. Aluno: Gostaria de saber se é correto afirmar que se Deus é o autor da narrativa da totalidade do universo, nós somos também co-autores da narrativa da vida? Olavo: É claro que somos! Nós não somos puros objetos da criação. Se nós não pudéssemos tomar decisão nenhuma, interferir em nada na coisa, Deus teria nos criado exatamente como criou uma tartaruga. E isso aí depreciaria tremendamente a criação. Se Deus não nos fizesse participar de algum modo da própria história divina não haveria mais razão suficiente para a existência da espécie humana do que existe razão suficiente para a existência das formigas, e a nossa diferença específica teria ido embora. Deus saber o que nós vamos fazer não significa que ele está nos obrigando a fazer. Não é a mesma coisa. Esse problema de determinismo e livre arbítrio é absolutamente falso porque o conhecimento total e a total liberdade são exatamente o que coincide em Deus. Então essas categorias não se aplicam a Deus de maneira alguma. Aluno: O que exatamente Maomé acrescenta? Olavo: O Islã não é uma religião no sentido de que o Cristianismo é uma religião. A palavra que geralmente é traduzida como religião é a palavra din. Mas din não quer dizer religião, quer dizer uma legislação total, uma ordem total. O Islã é antes de tudo uma ordem estatal. Então ele nos dá idéia do que seria uma sociedade teocrática, que é uma coisa que no contexto cristão é impossível [1h:30]. O Cristianismo é compatível com vários tipos de sociedade, vários tipos de organização estatal, coisa que o Islã não é. O Islã é essencialmente uma organização estatal. Aluno: Na linha de indicação para estudarmos as línguas antigas principalmente o grego e o latim, eu gostaria de indicar um livro de introdução ao grego antigo que é Introdução ao Grego Antigo de Jacyntho Lins Brandão, Maria Olívia de Quadros Saraiva e Celina Figueiredo Lage; editora UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Não sei se o livro tem os mesmos méritos de Napoleão Mendes de Almeida (Gramática Latina), porém recentemente iniciei o programa proposto e me parece um método acessível e progressivo. Olavo: Vamos tentá-lo. Está aí Introdução ao Grego Antigo de Jacyntho Lins Brandão. Acho que não dá mais tempo para mais nenhuma pergunta, vamos encerrar por aqui. Então até a semana que vem e muito obrigado. Transcrição: Jeferson Leandro Milani, 22/03/2011 [jefermilani@yahoo.com.br] , Rafael Augusto Salvi, 24/03/2011 [rafael.asalvi@gmail.com] , Djane Bouças de Carvalho Britto, 26/03/2011 [djanedj@hotmail.com ; bcbdjane@gmail; djaneboucas@yahoo.com.br] Revisão: Tiago Araújo Silva Venson, 2.4.2011 [Tiago.venson@gmail.com].