Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 081 30 de outubro de 2010 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Boa noite a todos, sejam bem-vindos. Eu sou obrigado a começar esta aula com duas más notícias que nós vamos tentar desenvolvê-las como forma de aprendizagem. A primeira é a seguinte: Edson de Oliveira, da É Realizações, havia se comprometido comigo a publicar os livros do Mário Ferreira dos Santos cujo texto nós o aprontaríamos em tempo. Ele me disse que tinha urgência com os livros porque, tendo investido um belo dinheiro na compra dos direitos autorais de cinquenta e tantos títulos do Mário, precisariapublicar pelo menos um livro a cada três meses.Eu garanti a ele que antes de decorrer três meses nós entregaríamos o primeiro título. Acontece que, nesse ínterim, houve uma breve, muito polida, aliás, muito educada discussão entre ele e Roxane por e-mail a respeito da minha função na É Realizações. O que a Roxane disse a ele é bastante óbvio: em primeiro lugar, eu estava informalmente exercendo as funções de diretor editorial da É Realizações, haja vista que 90% dos títulos publicados por esta casa editorial foram escolhidos por mim. Ou seja, não apenas indiquei os títulos, mas li tudo isso. A função de ler livros e selecionar para publicar são atribuições do que se chama diretor editorial. Há anos exerci esta função para a É Realizações, não só indicando livros como também apresentando autores, conseguindocontatos etc. Nunca recebi um tostão por causa disso e nem reclamei, pois estava fazendo o trabalho simplesmente para ajudar o projeto cultural a ir para frente. Roxane mencionou este fato, assim como o fato de que o público que frequentava a É Realizações durante anos foi praticamente constituído de alunos meus e similares.Acontece que o homem ficou bravo e mandou uma carta dizendo: “Olha, depois desta troca de e-mails com Roxane, eu decidi que não faremos mais projetos com você”. Isso aí é uma coisa de uma leviandade, coisa de capricho, coisa de uma volubilidade absolutamente intolerável, de modo que todos nós perdemos dois meses de trabalho. É muito deprimente que isso aconteça.Aliás,só no Brasil tal fato poderia acontecer. Em qualquer outro lugar eu não creio que um editor de respeito agiria assim jamais, porque o compromisso de publicação é um contrato informal de trabalho e eu não vejo o que eu possa fazer para enfrentar esta situação. Aqueles que participaram do grupo do Mário Ferreira, que se sintam prejudicados por isso e que queiram processar a É Realizações, considerem-se livres para fazê-lo. Para mim, fazer a mesma coisa daqui é meio difícil. Se estivesse no Brasil faria, evidentemente, porque envolveu algumas dezenas de pessoas e muito trabalho no meio disso. Quer dizer, o sujeito está agindo como criança, como moleque. Evidentemente eu ainda tenho um contrato com ele com relação aos outros livros já publicados e não houve ruptura de contrato no que diz respeito a isso, mas com relação ao Mário houve realmente esta cachorrada. Eu peço desculpas a vocês por terem confiado nesse moleque e lamento tê-los envolvido nisso, porque eu não tive culpa. Ele havia assumido francamente um compromisso de publicar o Mário e, se ele cumprir sua ameaça de publicar os textos do Mário no estado em que estão,isso será tão criminoso contra a cultura brasileira que eu serei obrigado a denunciá-lo e a combatê-lo.Isso realmente não se faz. No mundo editorial profissional tal fato é inconcebível, pois você tomar um texto que está muito mal preparado, que não está editado e simplesmente reproduzi-lo e publicá-lo,denota o predomínio absoluto do interesse comercial grosseiro sobre os deveres que um editor tem. Espero que ele não faça isso. Eu não estou brigando com ele, não estou fazendo coisa nenhuma, mas se ele fizer isso com a obra do Mário, não vou tolerá-lo de maneira alguma. A segunda má notícia é a seguinte:entre os alunos do Rio de Janeiro houve um que esteve aqui me visitando, muito simpático, muito amável, contando as coisas que estavam fazendo no Rio.Acontece que esse cidadão esteve aí no Instituto Olavo de Carvalho em Curitiba e, tomando um pouco a função de fiscal da ortodoxia católica do que ali se ensinava, diz que tomava as listas de livros, as levava a Dom Lourenço —que é da Sociedade de São Pio X, um grupo tradicionalista do Rio—, para saber se haveria ali alguma coisa de herético.É evidente que a resposta é sempre sim, poisnós não temos nenhum compromisso de ler somente autores católicos, muito menos autores católicos aprovados pela Sociedade de São Pio X. Nunca assumimos este compromisso e jamais, nunca na vida assumiremos algo assim. Por isso eu queria avisar o seguinte: quem quer que, assistindo às minhas aulas, tome a transcrição, o texto, o resumo delas, e leve para quem quer que seja para fiscalizar a sua ortodoxia, será expulso imediatamente, pois não é nem para se pensar nisso. Dom Lourenço Fleischmann é uma pessoa que eu admiro muito, acho-o de um valor excepcional, mas não me coloco sob o guiamento dele em hipótese alguma.Fui, sobretudo, amigo do pai dele, Dr. Júlio Fleischmann, que era um homem de um valor excepcional, de modo que respeito muito todo o trabalho que eles estão fazendo.Se souber que o grupo sofreu alguma perseguição ou dificuldade, serei o primeiro a defendê-lo, mas de fato não posso me colocar sob seu guiamento.Não porque tenha alguma divergência doutrinal, em absoluto, apenas acho que não são pessoas qualificadas para julgar uma investigação filosófica. Se houvesse alguém capacitado a julgar o meu trabalho sob este ponto de vista, eu serei o primeiro a submetê-lo. Mas veja, o meu confessor pessoal, que é o Padre Paulo Ricardo de Azevedo, ele mesmo frequentemente se considera desqualificado para julgar o trabalho filosófico que nós estamos fazendo. Ele tem essa humildade, então nunca tivemos problema algum. Eu não vejo como seria possível a qualquer investigação filosófica comprometer-se de antemão a seguir a ortodoxia católica. Isso é materialmente impossível. Só quem não sabe o que é uma investigação filosófica promete... Na verdade, todos aqueles que prometem edizem assim: “Olha, todo o nosso trabalho aqui seguirá estritamente a doutrina da Igreja”, em geral são hipócritas, como Jacques Maritain, que é um sujeito cujo malefício que fez à Igreja é imenso, e que durante décadas foi tido como o representante mais ortodoxo da doutrina católica.Ontem mesmo eu estava lendo na revista Renaissanceum autor chamado Lorenzo Valla, que ficou famoso. É um sujeito que fez tudo o que podia [0:10]contra a Igreja, mas sempre começava os livros dele dizendo: “Olha, aqui nós só diremos o que está de acordo com a doutrina católica”. Eu não assumo este compromisso. Por quê? Porque a doutrina católica se constitui de dogmas. Dogmas são conclusões, quer dizer, são sentenças que formalmente interpretam o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo e por isso fecham a sua interpretação sobre determinados pontos. O dogma nunca está completo, ele está sempre em constante acréscimo e evolução. Isso quer dizer que nem mesmo a Igreja Católica no seu todo pretende ter uma doutrina final e completa, sempre pode ter algo a mais e de fato tem.Qualquer um pode ler, por exemplo, o livro do Cardeal Newmann sobre a história da evolução do dogma católico para entender do que eu estou falando. O dogma católico não veio pronto, não está pronto, e provavelmente não ficará pronto nunca, poiso dogma constitui-se de conclusões que, após muitas discussões, a Igreja chegou a respeito da interpretação de alguns pontos do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo. A própria palavra quer dizer isso, que é uma afirmação final sobre a qual não há mais discussão. Eu não creio que nenhum filósofo possa jamais emitir uma sentença com estas pretensões. Na filosofia tudo é investigação, dialética, confronto de hipóteses,tudo é, por assim dizer, experimental ou, como se diz em inglês, tentativo. Essa palavra não existe em português, mas há pessoas que inclusive a usam. Não há como você confrontar uma coisa com a outra, porque estão colocadas em níveis semânticos diferentes. Para saber se uma afirmação filosófica é herética ou não, há quese convertê-la, primeiro, no formato do dogma.Por exemplo, quando se leem as concepções antropológicas de Platão, ele diz nelas que antes do seu nascimento terrestre você já preexistia no mundo divinoeque tem conhecimentos guardados desse mundoque podem ser desenterrados da sua alma mediante uma interrogação dialética bem feita, como ele demonstra no diálogo Mênon. Isso é herético ou não é? É impossível de se saber.Em primeiro lugar porque nós não sabemos que nível de certeza Platão atribuía ao que ele estava dizendo. Na maior parte dos casos ele o expõe numa linguagem poética, logo,trata-se de uma figura de linguagem. Ora, como é que você pode comparar uma figura de linguagem com uma afirmação literal, taxativa, que se presume ser uma declaração final sobre alguma coisa? Isso é impossível. Não é impossível, no entanto, tentar extrair de dentro da figura de linguagem qual é a afirmação formal, a sentença formal que está ali contida. Acontece que, sendo uma figura de linguagem, você vai ter de tirar dela três ou quatro afirmações formais, e,sendo simbólicas, teráde interpretá-las.Quer dizer que de uma mesma sentença de Platão você poderia ter três ou quatro interpretações diferentes, algumas das quais seriam heréticas e outras não. Então qualquer pessoa que saiba ler, que esteja qualificada para ler não como mero aluno de ginásio alfabetizado, mas como erudito, como estudioso, entende isso imediatamente.Não é nem preciso explicar isso, pois qualquer estudioso, qualquer scholar tem a obrigação de sabê-lo. A pressa mesma com que certos católicos ditos tradicionalistas têm de declarar que certas coisas são heréticas já prova que não sabem ler como eruditos, como estudiosos, e, portanto, não estão qualificados para opinar sobre isso. Com relação a Platão, por exemplo, os autores católicos e cristãos de modo geral divergem tanto ao ponto de considerar Platão uma das máximas expressões da gnose, portanto um precursor de uma corrente herética.Ele não podia ser herético no seu tempo porque não existia Igreja Católica.Outros o consideram precursor do cristianismo, até uma anima naturaliterchristiana, dizia Santo Agostinho.Santo Agostinho é o maior platônico da Igreja. Para ele, Platão já era quase cristão, enquanto para outros era quase um gnóstico, portanto, um inimigo da Igreja. Isto está em discussão há dois mil anos, e ninguém conseguiu chegar a uma conclusão ainda. Eu digo: “Meu filho, se não sabem nem se Platão é gnóstico ou não, como é que vão saber se sou herético ou não?”De Platão existe pelo menos um corpusde seus escritos. E do Olavo? Você não tem corpus nenhum. Você tem um monte de gravações, artigos de jornal, apostilas, tudo em constante reelaboração, de maneira que eu não posso dizer que tenho um corpusolavianum do qual você possa tirar uma doutrina final e dizer: “Olha, aqui está o pensamento final de Olavo de Carvalho a respeito disso ou daquilo”. Se nem eu tenho isso, como eles vão ter? E se não têm, como é possível o julgamento de heresia? Logo, a preocupação desse rapaz é só sinal de uma ignorância profunda e de uma incapacidade visceral para o estudo da filosofia. Porque qualquer principiante, se ele não tiveruma noção clara dessas diferenças semânticas que eu estou dizendo, tem de ter ao menos uma intuição, um pressentimento disso. O pressentimento de que nem tudo aquilo que é dito, é dito no mesmo nível de predicação e com o mesmo valor semântico. Aquele que for capaz de extrair dos meus escritos um único dogma, que, por favor, me apresente, porque eu não consegui tirar nenhum ainda. Tudo o que eu tenho são certas impressões às quais eu fui levado mediante muito trabalho investigativo, muitas dúvidas, e que, mais ou menos, me parecem indicar o caminho certo de novas investigações, de novas descobertas.Isso é tudo o que eu tenho. Simplesmente não é possível discutir este ensinamento no nível da ortodoxia católica ou não.Isto é um problema que existe em relação a todos os livros filosóficos. E não se trata nem de livros, se trata de exposições em aula. Você veja que até mesmo para a justiça comum, não o Tribunal Eclesiástico, mas qualquer tribunal que tem aí na esquina, material de aula não serve como prova num processo,porque em aula é tudo experimental, nada é definitivo e formal, sobretudo quando não se tem uma formulação escrita que tenha sido revista e aprovada pelo autor. Quer dizer, nós não temos sequer um texto final em cima do qual discutir. Certa intuição ou pressentimento a respeito disso é uma condição prévia para o indivíduo estudar filosofia e, aliás, é uma condição prévia para qualquer ingresso no estudo superior. Se o sujeito não sabe nem disso, então nós estamos lidando com pessoas de cultura ginasiana. Eu não sei qual é a posição que Dom Lourenço tomou em relação a isso, mas realmente não acredito que o próprio Dom Lourenço tivesse mandado alguém espionar o meu curso para fiscalizar sua ortodoxia, porque ele não é nenhum Orlando Fedeli. Orlando Fedeli fazia isso, quer dizer, mandava aluninho dele para espionar e ir lá levar para ele. Embora eu considere Fedeli um sujeito cristão sincero, não era um camarada mau, mas neste ponto agiu com uma covardia extraordinária, porque, se eu quero saber, formar uma opinião a respeito de um sujeito, eu tenho de ir até ele pessoalmente e conversar com o camarada, mesmo porque nos bons velhos tempos da inquisição, quando havia uma suspeita de heresia, a primeira coisa que se fazia era enviar o inquisidor. E o que quer dizer inquisidor? É o sujeito que faz perguntas, o sujeito que inquire. O inquisidor lia os escritos [0:20]do suspeito e depois se dirigia pessoalmente a ele para saber qual é o sentido formal final que tinham aquelas sentenças. Somente com base nisso se começava um processo de heresia. Durante o processo o sujeito tinha de esclarecer “timtim por timtim” o que ele teria querido dizer. É evidente que a acusação de heresia só poderia ser validada no caso de haver uma presunção dogmática. Se o indivíduo levantou alguma coisa apenas no curso de uma discussão, então não há como saber se aquilo é herético ou não. Mas se ele formula afirmações com a presunção de verdade final e as apresenta como doutrina católica, aí sim ele pode ser sujeito de heresia caso o conteúdo dessas afirmações não coincida com o da doutrina católica.Você veja que um processo de heresia podia levar vários anos e que era conduzido pela Santa Inquisição, que vocês sabem que não era propriamente um coração materno. Mas hoje em dia pessoas como o Senhor Orlando Fedeli e outros captam o conteúdo herético na primeira sem sequer ter lido os escritos completos do suspeito e sem sequer ter conversado com ele. É claro que isso aí é um exercício de difamação, e em qualquer tribunal que eu levasse um sujeito desses, ele seria condenado.Porque se eu não tenho nenhuma presunção de ser um expositor das doutrinas da Igreja, e não tenho mesmo, apenas tenho a expectativa de que, em última instância, quer dizer, nas suas conclusões finais, tudo aquilo que estou ensinando seja harmônico com a doutrina da Igreja.Mas em muitos casos eu não sei julgar se é ou não é, e também há o fato de que, como sou um filósofo e não um teólogo, eu nunca raciocino a partir das Sagradas Escrituras ou da doutrina da Igreja. Nunca. Eu estou raciocinando a partir dos fatos da experiência. Os fatos da experiência podem ser explorados em mil e uma direções diferentes, e nem tudo o que se diga deles tem como ser conferido com a doutrina católica. Por quê? Porque não tem conteúdo dogmático suficiente para isto. Aprender a ler as coisas nesse sentido e aprender a distinguir um texto que tenha um alcance dogmático, embora não seja formalmente dogmático, às vezes pode ter um alcance dogmático, no sentido em que leva a certas conclusões sobre o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo e sobre a doutrina da Igreja. Portanto, aprender a distinguir estas coisas é absolutamente fundamental para qualquer estudante que chega aqui. Quer dizer, ele já tem de ter o pressentimento de que existem gêneros literários, os níveis de predicação, os quatro discursos, e de que aprender a ler e distinguir estes vários níveis é a primeira condição para o estudo desse material que nós estamos passando para vocês. E se depois de um ano de aula o estudante não percebeu isso ainda, então é evidente que não tem qualificação para isto.Eu não vou tomar nenhuma providência ainda, mas o primeiro que eu souber que foi conferir, falar com o bispo ou com o padre: “Olha, padre, o homem disse tal coisa, vê se é herético”, o primeiro que fizer isso será expulso do Curso Online de Filosofia. Por enquanto eu não estou expulsando ninguém, não estou dando sequer o nome do cidadão que fez isso, mas eu não terei a menor dúvida de expulsá-lo deste curso, e fazer a expulsão em público. “Seu fulano de tal, rua tal, CPF, RG, telefone, foi expulso do meu curso por total incapacidade para os estudos filosóficos”.Ou você confia na idoneidade do que eu estou lhe ensinando, ou, se você precisa de um fiscal superior a mim, que vá estudar com ele. Eu não conheço na Igreja Católica do Brasil nenhuma pessoa qualificada para julgar o que estou falando. Nenhum. Se houver é um milagre, me informe onde está. E eu sei que as pessoas mais qualificadas que conheço reconhecem que não há nenhum problema naquilo que estou ensinando, embora possa haver em alguns escritos meus, de vinte ou trinta anos atrás, problemas que eu mesmo identifico e trato de corrigir, ou que a questão é prematura, porque as ideias, os conceitos não estão suficientemente elaborados, portanto não têm uma forma final.Quer dizer, eles mesmos não estão qualificados para julgar o assunto. É evidente que essas coisas acontecem também porque o brasileiro de hoje é um povo muito nervoso e muito inseguro, e todo mundo está procurando uma autoridade à qual se apegar. E a primeira condição para você ir adiante nesse estudo é saber que não vai encontrar essa autoridade.Por exemplo, se você está muito confiante e diz: “Não, eu vou por aqui, pode haver quantas discussões haja, tudo pode se discutir, mas em última instância prevalece o ensinamento da Igreja”. Eu digo:“Muito bem, então quem representa a Igreja?” Se você perceber as discussões entre o pessoal tradicionalista e o pessoal pós-conciliar, vai ver que é quase impossível saber com certeza quem tem a palavra autorizada da Igreja, pois nem mesmo o Papa a tem. Porque se você tomar essas conferências do Ir. Michael Daimond, que tem um monastério aqui em Nova Iorque, ele faz acusações de heresias tão fulminantes contra o Papa, umas duas mil acusações das quais muitas eu acho furadas, mas outras às quais eu não saberia como responder. E dessas acusações ele conclui que o mandato do Papa não é válido. Você sabe como resolver essa questão? Não. Eu também não.Então, qual é a minha orientação? Eu continuo seguindo a orientação do Papa até prova em contrário, mas eu não tenho certeza absoluta de que o mandato dele é válido ou não é. Quando você está numa dúvida, e honestamente não sabe como resolver a dúvida, tem de adotar uma posição provisória, experimental. HátrechosdeJoseph AloisRatzingerelaborados há trinta, quarenta anos atrás sobre a divinização do homem um pouco na perspectiva do Teilhard de Chardin que parecem realmente heréticos, mas ele não os escreveu como Papa. Então não sabemos se ele conserva essas ideias ou se ele as mudou. Não se pode acusar o Papa de herético, embora se possa dizer: “Ah, o Cardeal Ratzinger foi herético”. É possível. Depois do mandato dele ele não fez nada de errado, que eu saiba. Não há um pronunciamento que me pareça sequer ambíguo. Tudo está muito claro ali. Eu não tenho a menor capacidade para opinar sobre isso, então o que nós temos de fazer é tentar ser o mais honesto possível perante o próprio Deus e esperar que venha do Céu um esclarecimento definitivo dessas questões. Não cabe acusar ninguém, sobretudo com a veemência com que o pessoal da Sociedade de São Pio X acusa, assim como não cabe também acusar a Sociedade de São Pio X, porque são todos cristãos, católicos, pessoas que merecem o maior respeito. Monsenhor Lefebvre, se não é santo, passou muito perto, o que não quer dizer que ele esteja certo em tudo. A história da Igreja está cheia de casos de santos que erraram monstruosamente no julgamento de outros. Nós estamos numa época de enorme confusão, como foi uma época de confusão o tempo de René Descartes. Na verdade a confusão começa no século XV e chega, em alguns casos, como no caso de Maquiavel, que eu já mencionei para vocês, a ser uma confusão demoníaca, onde ninguém é capaz de se orientar.Nós, como filósofos, estudantes de filosofia, —na verdade são todos filósofos os que estão buscando isso —,devemos exatamente ir em busca desse esforço, da confiança em que [0:30]a sabedoria existe, e de que de algum modo ela pode chegar até nós.Nós, enquanto filósofos, tudo o que temos a fazer é continuar buscando com sinceridade. Dizer como Pascal: “Eu não respeito nem aqueles que negam, nem aqueles que afirmam, eu só respeito aqueles que buscam entre gemidos – cequichercheengémissant”. Só esses merecem respeito.Mesmo quando você tem uma verdade final, um dogma da Igreja, essa verdade final nunca se refere a tudo o que existe, se refere a algum ponto da doutrina. Por exemplo, o nascimento virginal de Cristo, a assunção da Santíssima Virgem Maria e assim por diante. Quanto a estes pontos não há discussão, mas, como daí nós vamos deduzir desses poucos pontos de doutrina católica assentada pelo dogma, como é que vamos deduzir daí conclusões para todas as questões filosóficas que podemos levantar? Isso é tão absurdo. Se quiserem conhecer a doutrina católica tomem o livro do Denziger, o Enchiridionsymbolorum, onde ele coloca todos os dogmas. É um livro muito menor do que a Bíblia,mas é grande. Como eu poderia deduzir daqueles dogmas conclusões para todos os domínios da realidade e responder a todas as questões de ciência e filosofia que existem? Isso é absolutamente impossível. Impossível. Por isso mesmo não é possível fazer comparação entre a doutrina católica e investigações filosóficas. O que você pode fazer é o seguinte: se o sujeito criar uma corrente teológica nova, afirmando formalmente dogmas que são contrários aos da Igreja, e apresentando isso em nome da Igreja, então você está num caso de heresia. Se o sujeito apresentar outro corpo de dogmas, mas disser que não é católico, não há como acusá-lo de heresia. Ele é um ateu, é outra coisa, mas herético ele não é. Heresia consiste em assumir indevidamente a voz da Igreja, falar como porta-voz da Igreja sem sê-lo.Por exemplo, a teologia da libertação faz isso, ela está vendendo para as pessoas uma doutrina anti-católica que não é apenas não católica, é anti-católica como se fosse católica. Então o fiel vai lá, acredita que ele está indo na Igreja Católica, obedece a esses desgraçados. No caso, nós temos uma doutrina teológica, não são livros de filosofia. Eles estão proclamando dogmas, e os dogmas que eles proclamam são contrários aos da Igreja, então aí é claramente um caso de heresia. Eu não me lembro jamais de ter dado sequer uma orientação prática quanto à vida religiosa de cada um. Nunca fiz isso, não me considero qualificado para isto. Aliás, alguém me manda aqui: Aluno: O que o senhor acha do atual catecismo da Igreja e também do atual Código de Direito Canônico? Olavo: Eu não tenho nenhuma qualificação para opinar sobre isso, nenhuma. A isso eu precisaria ter dedicado ao estudo da doutrina da Igreja o mesmo tempo que eu dediquei ao estudo da filosofia. Mesmo assim, eu teria de opinar com muito cuidado, com todo respeito, para não ferir injustamente ninguém e não infringir a doutrina da Igreja em ponto nenhum. Isso é muito difícil. Quando eu proponho a vocês o voto de pobreza em matéria de opiniões, é porque eu mesmo o pratiquei e o pratico ainda. Eu procuro ter opiniões apenas sobre aqueles pontos aos quais dediquei algum tempo. Veja, a sua opinião vale o quanto de tempo você dedicou a ela. Quanto tempo você levou para criar esta opinião? Dois minutos? Então divida-a por cem.O tempo de audição que uma opinião merece é um centésimo do tempo que você levou para produzi-la. Vocês imaginam, por exemplo, uma teoria qualquer sobre qualquer coisa, a teoria da relatividade. Quanto tempo Albert Einstein levou para elaborá-la? Trinta anos, mais ou menos. Desde as primeiras intuições que ele teve até que ele chegou a tal teoria geral da relatividade, são trinta anos. Bom, você não vai estudar por trinta anos a teoria de Einstein. Você conhece algum físico que na universidade teve algum curso de trinta anos sobre a teoria da relatividade? Nenhum teve. No máximo teve um curso de dois anos.Então, qual o nível de atenção que as suas opiniões merecem? Merecem mais ou menos um pouco da atenção que você prestou a ela. Agora, se a opinião saiu assim, de repente, levou dois segundos para ser criada, porque nós temos de ouvi-la? O direito a ter uma opinião é correspondente ao direito de não ouvi-la, de não prestar atenção. Porque, se todas as opiniões tivessem direito à atenção alheia, façam as contas, veja que isso seria absolutamente impossível. Você está com trinta pessoas numa sala e imagina que cada uma tivesse direito à atenção completa das outras para as suas opiniões. O caso não terminaria tão cedo. Isto quer dizer que nem todas as opiniões merecem atenção pública. Algumas são simplesmente de coisas que você pensa: lá sentado no banheiro lhe ocorre uma ideia e você prestou atenção periférica à sua ideia durante dois segundos. Isso não quer dizer que nós tenhamos de sentar para ouvi-la.Se eu digo essas coisas é porque eu acredito que o ser humano tem a capacidade de chegar a ter opiniões razoáveis sobre as coisas, sobre muitas coisas. Qual é a condição da opinião razoável? Nós aproveitamos esses acontecimentos da semana e os transformamos em problemas filosóficos, e aproveitamos para continuar ensinando a partir do que eles nos sugerem. Qual é a condição para você ter uma opinião razoável? A primeira coisa é que essa opinião seja verdadeiramente sua, que você acredite nela. Isso não quer dizer que tenha de acreditar cem por cento nela, mas, quando eu digo acreditar nela, quero dizer que você tem de saber o quanto acredita nela. E evidentemente vamos daí paraa questão dos quatro discursos.Você acredita que essa sua opinião reflete uma coisa que é possível, verossímil, que parece verdade, uma coisa razoável, absolutamente certa? É claro que se você não é capaz de perceber qual é o nível de credibilidade da sua opinião, não sabe nada a respeito dela. Então, primeiro examine a sua opinião e veja em qual destes níveis você acredita nela. Eu nunca vou me cansar de repetir isso, porque isso é a base de tudo o que eu estou ensinando, isso é o preliminar.Isto é, quanto vale a sua opinião para você mesmo e quais são as razões que tem para acreditar nela? Segundo, você tem de saber de onde saiu esta opinião. Se ela veio do meio social, se foi alguma coisa que você leu, ouviu, se a sua mãe lhe disse, alguma coisa que surgiu por geração espontânea. Você tem de saber qual é a origem, porque da origem vem a carga semântica da opinião.Muitas vezes nós chegamos a conclusões mediante um percurso cerebral que é de uma complexidade enorme, e é muito difícil você saber a origem daquilo. Mas tão logo consegue uma expressão mais ou menos acabada, sobretudo quando consegue montar uma frase ou montar um esquema, você tem a impressão de que aquela opinião adquiriu certa autonomia em relação à sua própria origem e que pode discuti-la a partir desta forma mais ou menos final que lhe deu, mas isto está completamente errado porque qualquer que seja a forma final, a opinião continua carregando a mesma carga semântica que é da sua origem histórica, [0:40]ou seja, quando você a emite, está intimamente associando esta opinião a imagens, experiências, sentimentos que teve no percurso da formação daquilo. A terceira condição é que você tenha consciência do problema ao qual está respondendo. Quer dizer, a sua opinião é uma resposta a quê? Qual é o problema da qual a sua opinião é a solução? Qual é a pergunta da qual a sua opinião é uma resposta? Se você, uma vez que tenha a opinião, não é capaz sequer de formular a pergunta da qual ela é uma resposta, então eu diria que você não entende a sua própria opinião, porque não sabe a respeito do que ela é uma opinião.É evidente que toda afirmação filosófica é resposta a uma pergunta, a uma dúvida, é reação a um problema. Identificar os problemas é, evidentemente, a primeira condição da investigação filosófica. A opinião filosófica ou política, moral, sociológica, amputada da pergunta à qual ela responde, não significa nada, porque você não pode saber qual é o nível de predicação e qual é o nível de credibilidade na qual está afirmando aquilo. Isto eu tenho tentado desenvolver com vocês desde o início. Mostrar quais são os problemas, as dificuldades e como nós podemos encaminhar uma investigação séria a respeito. A quarta condição é que o problema seja realmente um problema, ou seja, nem toda pergunta, dúvida, toda inquietação que você tem corresponde a um problema filosófico substantivo. Muitas vezes se trata apenas de uma dificuldade lógica ou às vezes trata-se apenas de um problema pessoal seu que você estrapola e ao qual dá uma dimensão universal indevida.O problema tem de ser testado antes de qualquer tentativa de solução. É preciso ter certeza de que o problema emana da realidade da experiência, de que ele tem uma substantividade factual e não somente uma formulação lógica bonita. Por exemplo, as pessoas vêm sempre com aquela maldita questão:“Por que coisas ruins acontecem às pessoas boas? Como é que Deus permite isto?” Quem não formulou esta questão alguma vez? Esta questão é uma das maiores idiotices de todos os tempos, porque ela parte da premissa de que não deveria ser assim. E me prove que não deveria ser assim. Esta pergunta de que como é que Deus permite o mal, ou de porque coisas más acontecem a pessoas boas,há até um livro famoso de um rabino que se chama assim:Porque coisas más acontecem a pessoas boas, e o rabino então faz das tripas coração para explicar esta questão. Ora, a questão pressupõe que se coisas más acontecem a pessoas boas ou se existe o mal de modo geral, não deveria ser assim. Qual é a prova que você tem de que não deveria ser assim? Porque o simples fato de acontecerem coisas más escandaliza a sua razão, o seu pensamento? E, ademais, o fato de você se escandalizar com alguma coisa não transforma esta coisa em um problema filosófico legítimo automaticamente.A mim, ao contrário, me parece óbvio que se Deus é amor infinito e é o bem infinito, não existe nenhuma maneira de esse bem infinito se manifestar no nosso campo finito, portanto a existência do mal — quando eu era jovem eu percebi isto —jamais escandalizou a minha mente, ainda que desagrade ao meu estômago.É claro que o mal me incomoda. Se uma pessoa me der uma martelada na cabeça, eu não considero aquilo tão bom quanto se me desse um afago.Eu também tive muitos problemas na vida, talvez mais do que a maioria das pessoas que eu conheço, então o mal não me agrada de maneira alguma, sobretudo quando ele acontece à minha pessoa. Mas nem por isso ele se torna um problema filosófico legítimo. A total falta de legitimidade desta questão já me apareceu no começo dos meus estudos filosóficos, quando eu vi que não tinha prova nenhuma de que não deveria ser assim, porque o que estava em questão não é a bondade de Deus, mas a manifestação da bondade de Deus no mundo.Então, eu pensei assim: se Deus é amor infinito, como é que ele poderia infundir ou me dar esse amor infinito? Ele não pode, não por causa de uma limitação dele, mas por causa da minha limitação. Por exemplo, ele poderia me dar ao mesmo tempo toda a sabedoria, a riqueza, a beleza, a felicidade? Ele não pode porque não cabe em mim. Nós vivemos dentro de um campo finito que é definido pelas suas limitações. Vocês podem fazer uma imagem: imaginem o nosso mundo como se fosse uma bolinha que está flutuando ou está submergida em um oceano. O oceano é a infinitude divina, portanto a infinitude do amor divino, a infinitude do bem divino etc. Como é que você vai fazer para o bem divino entrar ali? Isso quer dizer que muita coisa que na escala divina é o bem na sua expressão máxima e infinita, às vezes, só pode aparecer na nossa pequena escala sob a forma invertida. Porque na passagem do infinito para o finito, você tem como se fosse um aparato deformante. Desde que existe o cristianismo, os santos e os místicos dizem que nós devemos agradecer a Deus pelo bem que nos sucede e também pelo mal. Por que eles dizem isto? Porque muitos dos males que nos acontecem são apenas a inversão do bem ao transpor-se para a nossa escala finita. Se você levar em conta o que eu disse nas aulas sobre a alma imortal, percebe que encarando estas coisas desde a perspectiva da alma imortal, elas mudam de significado instantaneamente. Em primeiro lugar, pela desproporção que existe entre qualquer mal deste mundo e uma vida imortal. Se você está destinado a durar para sempre, e isto hoje em dia já me parece suficientemente óbvio, qual é a posição, qual é o lugar que ocupa dentro [0:50]desta vida sem limites, o mal que você sofreu aqui?Veja que qualquer quantidade de dor que você sofra, ela tem um limite temporal definido. Ninguém pode suportar uma dor ilimitada ilimitadamente. Toda dor, todo sofrimento é limitado por definição, e a sua vida é ilimitada por definição. Esta é a sua verdadeira modalidade de existência, a escala da imortalidade. Como aparece na escala da mortalidade o mal que você sofreu temporariamente? Ele não se desfaz, o enfoque que eu estou fazendo não é quantitativo — não, você vai durar para sempre e os seus sofrimentos durarão só um pouquinho —, não é quantitativamente que eu estou abordando isso, é qualitativamente. A que realidade corresponde, na escala da vida imortal, o mal temporário que você sofreu aqui? Ele é evidentemente um elemento do próprio processo de significação do bem ilimitado que corresponde à sua alma imortal. Não é apenas que todo mal medido na escala da imortalidade será apenas temporário, não é disso que eu estou falando. Na passagem para a escala imortal o mal muda de significado. Estão entendendo isso?Se na escala da alma imortal o bem ao qual você tem acesso é ilimitado e, se ao mesmo tempo conserva a recordação da sua vida terrestre, cada mal que sofreu aqui é um elemento formador do bem que está recebendo, e é o elemento de contraste sem o qual a consciência humana não poderia sequer apreender o bem que ela está recebendo. Basta isso para você perceber que o problema do mal só existe se partir da premissa de que tudo deveria ser o bem. Mas como seria possível tudo ser o bem na escala da finitude? Não é possível.Em escala finita os bens são finitos.São, portanto, limitados e na fronteira aparece o mal, necessariamente. Em segundo lugar, se você considerar que o universo todo é criação de Deus e que Deus não pode fazer outro Deus igual a ele, então na própria passagem do criador ao mundo criado se introduz um elemento de limitação, e esta limitação significa que no universo há um determinado coeficiente de mal e de absurdidade que é inerente à própria limitação do mundo criado. Não poderia ser de outra maneira. É evidente que a presença do mal incomoda a minha pessoa, incomoda o meu coração, incomoda o meu estômago, incomoda o meu bolso, mas não incomoda a minha razão.A existência do mal não é irracional, porque irracional quer dizer desproporcional. Mas a existência do mal reflete a proporcionalidade entre o finito e o infinito. Não há nada de errado aí. No entanto, quantos neurônios não se gastaram para tratar desta questão e arrumar explicações! Por que tem de ter uma explicação se não poderia não ser assim, se isto está na própria natureza das coisas? E daí nós temos a quinta condição da investigação filosófica que é a plena aceitação da natureza das coisas. É você entender que não é a sua inteligência que vai determinar a medida do certo e do errado, a medida do verdadeiro e do falso, mas que essa medida existe em si mesmo. Existia muito antes de você ter nascido, de você ter aparecido até como projeto humano, e que nós temos tudo a aprender no universo onde estamos e nada a ditar, nada a decretar. Acho que quem não entende isso não é um filósofo, porque a própria definição da filosofia como amor à sabedoria pressupõe que a sabedoria existe e que você não nasceu com ela, que ela é algo a ser alcançado.Pressupõe também que você nunca vai alcançá-la integralmente ou perfeitamente. Portanto, esta vida exige uma abertura como se fosse uma dissolução permanente da forma que a nossa mente adquiriu, para que ela possa absorver novas formas superiores, cada vez mais vastas, mais integradas até o último dia da sua existência. E mesmo que viva cento e quarenta anos ou quatrocentos anos, ela não vai absorver a sabedoria como um todo, isto é impossível. A sabedoria divina, o logos divino sabe tudo, logo é um conhecimento infinito. Como é que você pode colocar um conhecimento infinito dentro de uma mente finita? Não pode.Isso quer dizer que, como alma imortal, você nunca chegará ao conhecimento perfeito de Deus. Deus vai te dar é o amor divino dentro daquilo que seja permitido pela forma da sua alma pessoal, até o extremo limite do que ela possa. Quer dizer, Deus também te amplia, te abre e te infunde novos conteúdos vivificantes, mas isso não vai terminar, você não vai virar Deus. Isso é muito importante.Por isso que a Igreja ensina que o estado celeste é o estado de contemplação de Deus, e não o estado de transformação em Deus. Pode-se usar às vezes a expressão “divinização”, mas é uma figura de linguagem, não é exata. Nós podemos até, como figura de linguagem, raciocinar platonicamente, e dizer que se Deus nos conhecia antes de nos ter criado materialmente, a forma da nossa alma implicava naturalmente algum potencial para algum conhecimento, mas isso não quer dizer que materialmente tivéssemos conhecimento antes de nascer.Se você só existe como possibilidade, então o conhecimento que tem é possibilidade de conhecimento e não a posse efetiva de um conhecimento. Quando, no processo da anamnese platônica a alma se “recorda” de conhecimentos, o que ela está fazendo? Ela está efetivando possibilidades de conhecimento que estavam nela. Ela não está pegando em um depósito material de conhecimento alguma coisa que já estava lá e puxando para fora. Platão pode descrever assim, mas ele em nenhum momento coloca isso como se fosse uma tese dogmática sobre a constituição da realidade.Em todos os diálogos platônicos você observa que este processo anamnético, vamos dizer, é um processo pedagógico, e não a afirmação de verdades definitivas sobre a constituição da realidade. Se você as lê como afirmações [1:00]nesse sentido, afirmações finais sobre a constituição da realidade, vai chegar à mesma conclusão a que chegou EttieneCouvert no livroda [01:00:02]— aliás, um livro que eu aprecio muito, mas que está cheio de erros de interpretação filosófica.Ele vai dizer: “Ah, isso aí é herético”. Evidentemente, mas o que nós podemos dizer é o seguinte: seria herético se fosse transformado em afirmação definitiva sobre a constituição da realidade. Mas você vê que em todas as questões decisivas que Platão trata, ele vai elevando o indivíduo através do processo dialético até o ponto em que a realidade se torna indizível e tem de ser sugerida através de um mito.Como que nós vamos transformar um mito numa afirmação dogmática? Você pode até fazer isso, mas certamente do mesmo mito sairão muitas interpretações dogmáticas diferentes, das quais umas serão verdadeiras, outras, falsas. Acontece exatamente a mesma coisa com o evangelho. O evangelho também tem coisas que vêm em linguagem mito-poética. Como é que vamos transformar isso em dogma? Precisamos interpretar, extrair o conteúdo tético, o conteúdo afirmativo que tem ali, e de um mesmo símbolo tiraremos vários, dos quais alguns serão verdadeiros, outros serão falsos, e é exatamente isto que a Igreja faz para chegar ao dogma,toma as várias interpretações possíveis, toma esta aqui que confere, esta outra aqui que não confere. Mas um salto direto da linguagem mito-poética para a linguagem dogmática é absolutamente impossível. O salto é sempre mediado pelas interpretações, e estas é que serão ortodoxas ou heréticas. Existe ainda uma sexta condição da investigação filosófica, que é a de que as questões tenham não apenas importância objetiva e validade objetiva, quer dizer, que os problemas tenham sido testados e tenha sido provada a sua verdadeira problematicidade, provado que são problemas e não apenas impressões de problemas, mas é preciso que eles sejam problema para você, ou seja, que você está buscando aquilo porque foi efetivamente chamado a enfrentar aquele problema, e não porque o problema lhe foi sugerido apenas num programa universitário, porque é obrigado a escrever uma tese sobre aquilo ou porque o seu professor lhe pediu.A conversão da filosofia em profissão universitária criou esta dualidade, quer dizer, por um lado, a filosofia é um corpo de problemas e conhecimentos, métodos etc., por outro, ela tem uma estrutura funcional. Tem regulamento, tem a hierarquia administrativa da universidade etc., e existe o elemento “carreira”. Essas três coisas não coincidem nas suas finalidades e nem no seu funcionamento, e nem poderiam coincidir, pois é impossível que coincidam.Podemos formular a questão da seguinte maneira: se a filosofia é uma atividade cognitiva humana, voltada à aquisição da sabedoria na medida máxima admitida ao ser humano, e se nós temos já todo um patrimônio de experiências vividas pelos filósofos anteriores etc., em que medida seria possível você criar uma organização funcional humana que servisse a esta atividade cognitiva perfeitamente? Entenderam a pergunta? Aqui você tem um corpo de problemas e de investigações e ali tem uma estrutura organizativa. Por exemplo, o liceu aristotélico. Nós podemos dizer que o liceu aristotélico foi tão maravilhosamente organizado que ele serviu às finalidades da filosofia aristotélica perfeitamente? Não, ele serviu enquanto Aristóteles estava vivo. No dia seguinte, baixou o nível formidavelmente. O liceu continuou existindo, mas os seus chefes, líderes e administradores não eram necessariamente as pessoas que melhor entendiam os propósitos da atividade aristotélica e da filosofia aristotélica. Nem mesmo o liceu aristotélico, que foi no seu tempo uma verdadeira maravilha, era por si mesmo uma universidade inteira, pois abrangia quarenta, cinquenta disciplinas. Ainda havia um substrato material constituído de biblioteca, museu, zoológico, aliás, foi Aristóteles quem inventou o jardim zoológico. Havia tudo isto e, no entanto, não funcionou.Ah, mas e as universidades medievais? Meu filho, o que chega a você das universidades medievais foi a fina flor do que sobrou. Sobraramas obras de Santo Tomás de Aquino, sobrou Duns Escoto, São Boaventura, uma série de joias. Agora você imagina contra quanta besteira estas joias tiveram de se afirmar? Vocês são capazes de imaginar quantas intrigas administrativas e políticas apareceram? Vocês têm ideia, por exemplo, das dificuldades que Santo Alberto Magno e seu discípulo Santo Tomás tiveram de enfrentar no começo contra reitores, administradores etc., que inclusive os chamavam de heréticos? A universidade medieval, quando você lê, só o que sobrou de mais elevado que ela produziu é uma maravilha, mas quantos professores tinham? Quantos alunos? Eram todos tão sábios quanto Santo Tomás ou Santo Alberto?Não, naturalmente havia um monte de gente medíocre que subia na carreira e se aproveitava da sua posição na hierarquia para atrapalhar quem estava querendo fazer o serviço direito. A perfeita coincidência entre os fins da filosofia e a organização funcional da sua atividade é impossível, como isto é impossível a qualquer outra atividade humana. Se você perguntar se é possível montar uma fábrica de automóveis que sirva perfeitamente às finalidades do automóvel,qual é o ideal do automóvel? É você produzir o máximo de movimento com o mínimo de gasto. Não é isso? Este é o objetivo. Existe alguma fábrica no mundo que faça isto? Existe alguma empresa de automóvel que faça isto? Não. Porque uma empresa de automóveis não visa só a produzir automóveis, ela tem de dar emprego para certas pessoas, ela tem outras funções sociais a cumprir e estas funções entram em choque.Por exemplo, quando você vê... Agora mesmo eu estava conversando com o André França sobre o computador Macintosh, que foi inventado por outra empresa que não quis depois produzi-lo.O sujeito que seria o fundador da Macintosh foi lá, comprou aquilo e começou a fabricá-lo. Por que não quiseram produzi-lo se a ideia era boa, se o computador era monstruosamente eficiente? Veja, a atividade de fabricar computadores é uma coisa e a atividade de uma empresa que fabrica computadores só parcialmente se identifica com aquilo. Isso quer dizer que a própria hierarquia administrativa, ela, além de dever servir à finalidade material de produzir e vender isso ou aquilo, ela tem de servir a outras finalidades que são internas, ela tem de se manter de algum modo e não é possível você criar uma hierarquia administrativa sem que as pessoas ocupem postos.Em princípio, como regra número um, cada pessoa acha que deve estar no posto mais elevado e as outras pessoas no posto mais baixo.Isso não acontece por maldade, por egoísmo, isso é simplesmente a natureza das coisas. Não há nenhuma pessoa que voluntariamente escolha ter um salário menor do que o outro que está fazendo o mesmo serviço. Se ele aceitar um salário menor — “Ah, eu sou um sujeito humilde, [1:10]nós dois aqui somos varredores, ele ganha dez vezes mais do que eu, mas eu acho justo porque ele é um sujeito melhor, mais bonito etc.” —,se ele fizer isso, achando que está fazendo por bondade, estará prejudicando outras pessoas, que também vão ter os seus salários rebaixados, assim ele é obrigado a lutar por uma certa posição.O que isto tem a ver com as finalidades materiais da empresa? Nada, porque este problema é o mesmo em toda organização hierárquica, seja em uma igreja,em uma fábrica de automóveis ou em uma faculdade de filosofia. Isso quer dizer que o perfeito ajuste entre a atividade filosófica e a sua encarnação universitária é materialmente impossível, e é por isso que você verá que ao longo dos tempos a atividade filosófica às vezes se encarnou numa manifestação universitária e às vezes numa manifestação extra-universitária. Por exemplo, no Brasil, é impossível fazer filosofia séria dentro da universidade. Impossível. Então aparece algo como este curso. Numa outra época, talvez o conflito não fosse tão grave e fosse possível produzir filosofia boa dentro de uma universidade. No Brasil isto jamais aconteceu, mas em outros lugares aconteceu.Se você procurar ao longo da história as várias encarnações sociais e administrativas da filosofia, vai ver que elas foram infinitamente variadas. Se você observar o liceu aristotélico, as universidades medievais, a universidade alemã, a universidade francesa no século XIX, depois os institutos de filosofia dos países socialistas da União Soviética, vai ver que é uma variedade de organizações diferentes teoricamente feitas para servir a mesma coisa, mas nenhuma dessas formas organizativas é perfeita.Isso quer dizer que quando você está exercendo a filosofia “profissionalmente”, como filósofo universitário, existe ali um forte motivo para você se afastar do seu verdadeiro centro de interesse pessoal, vivo e assimilar interesses externos que simplesmente convêm à organização. A própria escolha de temas, da bibliografia pode refletir interesses que não têm absolutamente nada a ver com o conteúdo que você está estudando. A mesma coisa se aplica a qualquer organização eclesiástica. A Igrejaexiste para transmitir não somente o ensinamento, mas a própria bênção do Cristo ao mundo. Quer dizer, a Igreja existe para levar as pessoas para o céu, só. Mas ela pode fazer somente isso? Não, não é possível, porque ela tem de ter uma existência material, administrativa que não pode funcionar de acordo com esta finalidade. Ela tem de subsistir no mundo, então, evidentemente, isso vai criar um choque e você vai ter uma boa parcela do clero que está dedicada à subsistência da Igreja no mundo enquanto organismo administrativo e até como organismo financeiro, econômico e que pouco estão fazendo pela salvação das almas, embora estejam provendo as condições materiais para que outros a possam fazer. Em terceiro lugar, é uma organização hierárquica e natural que por mais que as pessoas tentem ser humildes, elas concorrem por postos, às vezes porque acreditam que, se tivessem mais poder, poderiam fazer um bem maior. Hoje em dia, praticamente todo mundo acredita que o mundo seria melhor se ele tivesse o poder total sobre o mundo. Qualquer militante petista acredita piamente nisto. O mundo só está ruim porque não sou eu que estou mandando. Eu estou convencido precisamente do contrário. Graças a Deus não sou eu que mando no mundo, senão estaria muito pior. Disso eu tenho certeza. Porque eu teria de tomar decisões sobre uma pá de coisas que eu ignoro completamente. Eu já aprendi que ter opiniões e ter confiança nas suas opiniões é a melhor maneira de fazer o mal. Aí eu tenho de concordar com o Emil Cioran.Ele diz que o cético, os camaradas que não acreditam em nada fazem muito menos mal do que aqueles que acreditam. Eu digo: “Ah, é verdade, se o sujeito não acredita em nada, ele não manda nada, então ele não dá ordens para ninguém”. Isso se ele for coerente, porque eu também conheço céticos que só são céticos intelectualmente, mas na prática eles vivem dando ordens. O mundo está cheio de pessoas que pregam a dúvida, mas que ao mesmo tempo lhe impõem as suas certezas com o dogmatismo de um crente. Experimente discutir com qualquer ateu militante. Ele diz que não acredita, mas ele quer lhe impor a sua falta de crença como se fosse uma crença, porque ele acha que ela é um valor. Quer dizer, você não crer em Deus, para ele, é um grande mérito. Então, tem para ele um valor moral e, portanto, ele acha que pode impor aquilo a todo mundo.Na verdade, mais pessoas foram sacrificadas à descrença do que a qualquer crença, porque a descrença adquire, na prática, o valor de uma crença ativa. Quando eu falo da autenticidade do problema, existe autenticidade objetiva, quer dizer, aquele problema é realmente um problema e não apenas uma dificuldade lógica ou uma dificuldade pessoal, mas, por outro lado, você tem de ter a certeza de que considera aquele problema tão importante que dará o melhor de si para resolvê-lo. De certo modo,tem de ser um problema pessoal também, mas um problema pessoal de segundo grau. Não é quando você está sofrendo materialmente com o problema que é o melhor momento para você fazer uma investigação filosófica a respeito, pois precisa haver certa distância. Então, o processo filosófico se resolve exatamente como Coleridge dizia que se faz poesia — emotionrecollected in tranquility —, quer dizer, a emoção recordada na tranquilidade.É preciso que o problema seja genuíno, que você tenha um interesse moral profundo nele, mas que ao mesmo tempo já não o esteja sofrendo com a intensidade que aquele problema teria se estivesse presente na sua vida prática. Estão compreendendo isso? Essas são as seis condições. Sem elas não há estudo filosófico algum. Agora, se o indivíduo acredita piamente que a doutrina da Igreja tem respostas para todas as questões, ele não vai estudar nada disso. Outro dia, por exemplo, estava um amigo meu aqui, ao qual lhe aconteceram uma série de coisas ruins, e ele estava buscando uma explicação bíblica para o que lhe aconteceu. Ora, esta aí uma coisa que eu nunca fiz. “Ah, eu estou sem dinheiro, vou buscar uma explicação bíblica de porque estou sem dinheiro”. Eu acho isso uma blasfêmia enorme. Deus não escreveu a Bíblia para pôr dinheiro no meu bolso. Então por que a Bíblia deve responder a este problema? As pessoas que imergem numa atmosfera religiosa muitas vezes têm esta expectativa. Deus sabe tudo, a Bíblia é o livro de Deus, então a resposta deve estar lá. O mundo está cheio de padres, pastores e crentes que fazem isto. Não há resposta nenhuma, e frequentemente os nossos problemas não têm solução alguma, nem sequer explicação. [1:20]O que aconteceu no grupo do Rio de Janeiro reflete uma inadequação pessoal ao estudo da filosofia, porque reflete um desejo de certeza exagerado e, como dizia Talleyrand, ministro de Napoleão, “o exagero é a marca do insignificante”, quer dizer, o sujeito está com um problema que não significa absolutamente nada, que não tem importância nenhuma e exagera a importância daquele problema,assim aquilo passa a ter um impacto emocional enorme para ele. Por isso precisamos urgentemente saber se o ensinamento do Olavo é ortodoxo ou herético. Eu digo: “Mas o Olavo também não sabe isso! O Olavo convive com esta dúvida há quarenta anos e está passando perfeitamente bem. Por que você precisa de uma resposta tão imediata?”.Decerto eu gostaria que todo meu trabalho filosófico estivesse já escrito numa forma definitiva, mas eu não consigo. Eu acho que as minhas investigações vão muito mais rápido do que a minha capacidade de escrever. Você vê que um escritor profissional bom, habituado a produzir livros regularmente, escreve três a quatro páginas por dia, não mais do que isso, porque se ele escrever mais de três ou quatro, ele já não escreverá com os cuidados de estilo, de clareza, de ordem e, sobretudo, de criatividade que ele precisaria para produzir uma coisa boa. Se você escrevesse três páginas por dia, no fim do ano você teria escrito mil páginas. É uma produção imensa. Agora,somente as transcrições das minhas aulas dão muito mais de mil páginas por ano. Eu não tenho condição de escrever tudo isso. Isso quer dizer que mesmo depois de eu morrer, — e eu não tenho nenhuma intenção de morrer nos próximos cinco minutos —, mesmo depois desse acontecimento maravilhoso que será o meu falecimento, a totalidade do que eu ensinei ainda vai estar sem forma, e sobrará para a geração seguinte um problema tão cabeludo quanto o das obras do Mário Ferreira. Eu esperava que isso não acontecesse comigo, mas infelizmente não deu. Anos atrás eu fiz um voto: “Não, eu vou escrever tudo direitinho, não vou deixar a coisa assim”. Mas acabou sendo impossível, porque chegou um momento em que eu tive de escolher entre uma carreira de escritor e uma de filósofo. E as exigências da investigação filosófica eram mais urgentes do que a minha necessidade de expressão escrita. Isso pode acontecer a qualquer um e aconteceu de fato à maioria dos filósofos. Quase todos eles deixaram coisas sem terminar que foram os alunos que deram forma. Se você tomar o grande livro do Schelling, Filosofia da mitologia, filosofia da revelação,os inúmeros livros de Hegel, Estudos sobre a história da filosofia universal, do Edmund Husserl, acho que noventa e cinco por cento das coisas que eles deixaram foi terminado pelos alunos. Isso pode acontecer a qualquer um. Se não temos sequer o corpus dos escritos é claro que é cedo para chegar às conclusões.Eu não estou de maneira alguma apresentando aqui uma filosofia pronta para ser julgada, eu estou elaborando uma filosofia. Porém, qual é a vantagem disso? A vantagem é que só existe ensino da filosofia onde haja uma filosofia em elaboração naquele momento. Se não há, o que você está tendo é um ensino sobre filosofia, está aumentando sua cultura filosófica, não a sua capacidade de praticar a filosofia. Praticar, você só consegue aprender se ver alguém praticando. Às vezes esse contato pode ser breve, mas em algum momento você vai ter de ver isso, vai ter de ver um filósofo de verdade lutando com os problemas, dificuldades e encontrando a duras penas o seu caminho num mar de perplexidades.Você vai vendo como o sujeito se vira no meio daquilo e vai aprendendo a fazer a mesma coisa. E é isto que eu faço questão de fazer aqui. Eu nunca trago, vamos dizer, para vocês, algo pronto. Vocês estão vendo meu esforço. É este o meu objetivo aqui, não passar uma doutrina pronta. Bom, eu espero que todos tenham entendido isto. Vamos fazer um intervalo e daqui a pouco respondemos às perguntas. Vamos retomar. Eu queria ler, em primeiro lugar, algo que não é uma pergunta, é uma sugestão do Alexander Müller Ribeiro: Aluno: Eu faço ou fazia parte do grupo de revisão da obra do Mário Ferreira dos Santos. Depois da cachorrada, da qual o senhor nos acabou de dar notícia, quero propor o seguinte: continuemos o trabalho de revisão da obra inteira e a convertamos em PDF para uso nosso. Nada nos impede ainda de disponibilizá-la a quem quer que na obra tenha interesse, mesmo que não seja aluno do curso. Olavo:Eu acho a sugestão absolutamente perfeita. Exatamente isto que temos de fazer. Se a É Realizações vier reclamar de direitos autorais, a nossa resposta é muito simples: nós estamos fazendo uma obra de preservar aquilo que você está destruindo. Aluno: Quais as obras dentro da literatura de ficção que o senhor recomendaria para ajudar a entender melhor a questão da alma imortal? Olavo: Eu acho que, sobretudo, os romances do Georges Bernanos, porque sempre ali a história se passa em dois planos, você tem uma história terrestre e uma celeste se passando ao mesmo tempo. Claro que esta última não é narrada, assim, no todo, mas ela transparece. Cada acontecimento aqui é como se fosse realmente transparente, indicando outro plano de realidade. Aluno: Nas transcrições do curso de astrocaracteriologia eu li que o senhor, a quem cito de memória, define caráter como essência da individualidade e, por consequência, como algo que transcende a existência corporal. Por outro lado, o senhor deixa claro que ele é menos que a personalidade. Olavo: O conceito do caráter ali é um conceito de ciência experimental, não tem correspondência exata com nada de teológico. Eu defini o caráter mais ou menos como a forma constante da personalidade. Se você tomar todos aqueles elementos que não mudam, que estudando a vida do sujeito vê que são dados permanentes, evidentemente eles consistem apenas numa parte da personalidade. A personalidade está o tempo todo mudando, crescendo, mas há alguns elementos que nós podemos identificar como constantes e esses elementos é o que eu chamo de caráter. Filosoficamente isso teria algo a ver com aquilo que Duns Escoto chamava de a “esseidade”, que seria a forma da individualidade, mas não é a mesma coisa. Ele evoca a esseidade e podemos até estudar um pouco aesseidade, — os interessados podem estudar um pouco o conceito da esseidade, porque ilumina aquilo que nós estamos falando do caráter —, porém as duas coisas não estão colocadas no mesmo plano e não se equivalem. Portanto, a questão da relação entre o caráter e a alma imortal não é possível de ser resolvida nos termos da astrocaracteriologia, que é, eminentemente, senão um estudo experimental, a preparação de um esquema de conceitos para permitir o estudo experimental e a solução do problema astrológico. A astrologia é uma ciência ou uma pseudociência? Não é uma coisa nem outra, é um problema científico não resolvido. E eu considero uma indecência que este problema nunca tenha sido tratado [1:30]seriamente. E não é tratado seriamente por quê? Porque as pessoas querem saber se “a astrologia funciona ou não funciona” antes de haver feito uma investigação do fenômeno astrológico, isto é, da relação entre acontecimentos celestes e terrestres por meio não astrológico. Se você não tem outro processo para estudar o fenômeno, então não há como saber se o que outro disse sobre o mesmo fenômeno funciona ou não. Você não tem meios de aferição. O que eu tentei fazer com a astrocaracteriologia é justamente produzir uma investigação não astrológica do fenômeno astrológico. Quer dizer, uma investigação que não seguisse os preceitos interpretativos clássicos e modernos da astrologia, mas que fosse uma coisa totalmente independente criado por outros critérios, daí você pode cruzar uma coisa com a outra e resolver o problema. Aluno: Existem outras ciências que podem servir como aferição da... Olavo: Aqui está vindo uma perguntasobre se eu poderia dar outros exemplos de outras questões, outras disciplinas onde houve um cruzamento desse tipo que resolveu o problema. O próprio surgimento da ciência moderna, em que se introduz o método matemático na física, — veja, a física de Aristóteles não era matemática, ele fazia física como se faz biologia, quer dizer, a partir da simples observação, coleta e generalização, pois não acreditava na fecundidade do método matemático, o que foi um erro —, os cientistas apelaram à outra ciência, a matemática, para ela resolver as questões da física. E foi assim que chegaram a uma série de conclusões. Essas conclusões, no entanto, são limitadas à esfera do que é matematizável. Eu acredito que há no mundo físico elementos não matematizáveis, elementos que podem ser expressos em linguagem matemática, mas que não correspondem à expectativa de exatidão que se tinha com as matemáticas. Por exemplo, o que se fala hoje de teoria do caos e até da própria física quântica. Ela é uma maneira matemática de demonstrar que os elementos não são perfeitamente matematizáveis, mas quer dizer que a aplicação da matemática na física rendeu até isto, ela pode inclusive expressar a sua própria limitação. É claro que foi uma coisa genialpor mais que a gente fale mal de Galileu, Descartes, Newton etc.O próprio Newton, a ideia dele de usar a matemática foi fantástica. Agora, esse é um ponto que eu desejaria inclusive desenvolver mais passando para outra pergunta que tem algo a ver com isto. Aluno: Na aula 14, cujo tema foi o da existência ou não da verdade objetiva, o senhor desenvolveu todo um argumento para mostrar que se trata de uma grande perda de tempo raciocinar de tal maneira, e que ao invés devemos verificar como determinado conhecimento nos apareceu pela primeira vez. O livro do Alan Sokal, Imposturas intelectuais, busca mostrar que a ciência é capaz de fornecer uma resposta satisfatória para a questão, colocando a natureza como árbitro, coisa que, segundo ele, os pós-modernistas não fazem. Assim, tenho algumas questões. Quando Sokal critica que há alguns “cientistas sociais” como Lyotard, Derrida, Deleuze e outros que utilizam conceitos matemáticos que eles não dominam senão muito pobremente, o seu argumento não seria o equivalente ao que o senhor utiliza? Olavo: Não, não é. Porque eu não acredito que o conhecimento científico da natureza possa ser árbitro em questões que dizem respeito à própria objetividade do conhecimento,seja à eficácia,seja à realidade do conhecimento. Não há nenhuma ciência que possa enfocar isto. Em primeiro lugar, você veja que a correspondência exata entre o objeto de qualquer ciência e a realidade, ela é em si mesma um problema, porque a realidade chega para nós sob a forma da presença concreta de um mundo que é inabarcável, e a ciência nunca trata disto, da nossa presença no mundo. Ela, ao contrário, recorta certos aspectos, de preferência os aspectos que são matematizáveis e constitui, por assim dizer, o seu objeto. Eles se tornam objetivos mediante um processo de objetivação e não que sejam objetivos por si mesmos. Os objetos da ciência são criados mediante objetivação matemática. A relação deles com a realidade é em si mesmo um problema. Se você perguntar, por exemplo, qual é o coeficiente de realidade das partículas subatômicas. Não há um físico quântico que seja capaz de dar uma resposta. Ele diz: “Olha, nós observamos certos fenômenos e sabemos que estatisticamente eles se correspondem assim ou assado”. Agora, em que medida esses objetos existem em si mesmos e em que medida eles são um reflexo da nossa mente, da nossa modalidade de conhecer, das nossas formas a priori, como dizia Kant? Sobre isso a física quântica não tem a menor condição de responder. Quer dizer, então, que para todas as questões filosóficas decisivas o método experimental das ciências não só não dá respostas como ele cria mais problemas. Porém, a grande vantagem da ciência moderna é que ela faz aparecerem certos aspectos da realidade que antes a gente não enxergava. Cada um desses aspectos nos apresenta um novo problema filosófico. Você pode dizer que a grande contribuição da ciência moderna para a filosofia foi criar novos problemas, problemas que são em si mesmos interessantíssimos e maravilhosos de algum modo, masela não consiste em resolvê-los de maneira alguma. Sokalacredita que a natureza estudada pelas ciências tem uma realidade em si mesma. É fácil demonstrar que isso não é assim, porque não há um conceito científico de realidade. Realidade não é um conceito científico. Realidade é um conceito da realidade pré-científica que pode ser elaborado filosoficamente, mas é um conceito que é pressuposto por todas as ciências e não que é elaborado por elas. Existe alguma ciência que trata da realidade? Existe e chama-se metafísica. Este é um conceito metafísico e não há nenhuma maneira de você tratar disso nem pelos métodos da física, nem da biologia, nem de coisa nenhuma, porque todos eles pressupõem a presença de um mundo e a presença de uma realidade. OSokal tem toda a razão de dizer que Lyotard e Derrida utilizam o conceito matemático. Eles usam o conceito matemático como analogias, figuras de linguagem para parecer bonito e para dar uma impressão de seriedade, mas é um fetichismo matemático.Na verdade, e ele tem toda a razão de criticá-los por isso,porém a crença dele no poder da ciência de resolver estas questões metafísicas é ingenuidade e falta de cultura também. Eu não considero Sokal nenhum gênio, pois o sujeito simplesmente fez um truque para demonstrar a vigarice intelectual de toda uma corporação de cientistas sociais e a demonstrou maravilhosamente, uma vez que mostrou que o comitê editorial de uma das mais prestigiosas revistas de ciências sociais dos Estados Unidos era incapaz de distinguir entre uma teoria científica e a sua paródia. Não foi uma pessoa que fez o erro, foi uma corporação. O problema é que este conjunto de preconceitos que moldava a mente daquelas pessoas não caracterizava somente um grupo, mas praticamente toda a comunidade intelectual esquerdista do mundo. Do desconstrucionismo você não pode dizer que é uma moda dentro da intelectualidade da esquerda, mas ela é — e eu posso demonstrar isso por “a mais b” —, o padrão formativo de toda a estratégia esquerdista mundial hoje em dia. E o Sokal, depois de fazer esse truque, de encontrar o camarada literalmente com a calça na mão, imediatamente tentou esclarecer dizendo: “Não, mas eu não estou fazendo isto para esculhambarcom a esquerda, [1:40]ao contrário, isto é para purificá-la”. Digo, bom, isso pode ser a sua intenção, mas é impossível purificar a esquerda por estes meios. Por quê? Porque ela já está de tal modo contaminada por esta mentalidade desconstrucionista que ela não vai voltar mais atrás. E a prova disso é exatamente o que eu mencionei umas aulas atrás, o livro do Ernesto Laclau, que virou praticamente o manual de estratégia mundial da esquerda com o tema da democracia como significante vazio etc. Tudo isso é puro desconstrucionismo. A estratégia inteira da esquerda na América Latina é desconstrucionista. O Sokal talvez não saiba disso, quer dizer, ele não sabe do impacto profundo dessas teorias na esquerda mundial. Ele pensou que fosse apenas um grupinho e que fosse possível reconduzir a esquerda a uma noção de conhecimento objetivo. Agora não dá mais. Sokal tem pouquíssimo conhecimento da história do movimento comunista. Ele pensou apenas no meio universitário, acadêmico do seu lugar, provinciano, o meio americano que ele conhecia. Na época houve um sujeito, um idiota perfeito, chamado Jairo José da Silva, de quem me mandaram um parágrafo que ele escreveu, porque eu a respeito escrevi um artigo chamado “Sokal, parodista de si mesmo”. Quando ele fez a paródia, desmoralizou a intelectualidade esquerdista mundial e depois tentou livrar a própria barra dizendo que aquilo era só uma parte da esquerda e que não comprometia a esquerda inteira etc. Ele disse isso por ignorância, não sabia da dimensão estratégica que o desconstrucionismo já estava adquirindo em toda a militância esquerdista mundial. Daí apareceu esse sujeito chamado Jairo José da Silva dizendo: “Não, mas isso aí é muito injusto, porque se você pode extrapolar esses erros para toda a esquerda, os erros do Olavo de Carvalho deveriam ser extrapolados para toda a direita”. Quer dizer, é uma pura analogia mecânica, tipo de criança. Eu não conheço nenhuma teoria absurda como essa desconstrucionista que tenha se impregnado em toda a direita mundial. Aliás, não existe uma direita mundial, não há uniformidade ideológica, nem muito menos uniformidade estratégica. Evidente que nenhum erro de nenhum direitista do mundo pode ser extrapolado para toda a direita. Para a esquerda pode, porquê? Porque o desconstrucionismo foi usado como padrão estratégico que se mundializou. Mas como é que eu vou esperar que um sujeito como o Jairo José da Silva saiba disto? O sujeito não sabe nada, é um ignorante completo, então o ignorante raciocina a partir de palavras, do significado das palavras e, sobretudo, dessas analogias automáticas e associações de ideias automáticas. “Ah, se você diz isso para a esquerda, isso tem de valer para a direita também”. É um modo mecânico de raciocinar, um modo infantil, pueril você raciocinar a partir de palavras. Como aquele argumento de moleque de doze anos para o pai: “Ah, se você fuma cigarro, porque é que eu não posso fumar maconha?” Coisa desse tipo. Evidentemente que o Jairo José da Silva está fora da discussão, quer dizer, espero que a discussão não deva se alastrar até a casinha do cachorro, ela não deve chegar nem na cozinha, quanto mais na casinha do cachorro. O próprio Sokal demonstrou desconhecimento do próprio movimento esquerdista. Você veja, o livro do Laclau é de 1985 e esta polêmica surgiu depois disto. A polêmica, quando ele mandou a paródia de trabalho científico para a revista Social Text, eu não lembro exatamente em que ano foi, mas foi em 1993 que apareceu... 92, 93, então aí a adoção da estratégia desconstrucionista pela esquerda mundial já tinha sete anos de idade. O livro do Laclau foi, assim, de impacto imediato. Todo mundo leu e falou: “É isto”. E começaram a trabalhar nesta base. Os efeitos intelectuais que isso teve sobre a própria esquerda são devastadores, porque é claro que baixou o nível intelectual dos camaradas, ao ponto de promover tipos caricatos como Lula, Hugo Chávez ou Evo Morales, coisa que trinta anos antes a esquerda teria vergonha de fazer. Se você comparar, por exemplo, um Stálin ou um Mao-Tsé-Tung com esses camaradas, é comparar um disco voador com um mosquito. Porém, esta baixa intelectual de certo modo favoreceu a esquerda, porque lhe deu uma capacidade de impacto populista que ela não tinha antes. Em parte alguma no mundo a esquerda revolucionária tinha conseguido grandes resultados eleitorais. Não se esqueçam de que o primeiro comunista eleito do mundo foi Salvador Allende. Nunca antes eles tinham chegado ao poder por via eleitoral. Essa degradação intelectual lhes deu uma certa penetração populista. Dando penetração populista, também significa o seguinte: que eles perdem o controle do conjunto da transformação. Eles conseguem envolver a sociedade inteira em grandes processos de mudança, mas sem saber onde isso vai terminar. Se você comparar o controle que o governo soviético tinha da sociedade soviética, e o controle que a esquerda tem sobre as sociedades que elas dominam hoje, é como você comparar uma conta de dois mais dois com um jogo de loteria. Quando o Lula diz “Nós não sabemos o tipo de socialismo que queremos”, eu digo, “Bom, vocês não sabem o tipo de socialismo que vocês querem e muito menos o que vão ter”. O que está valendo, portanto, é só o processo, a finalidade, não. Aliás, certos processos sobre modernização progressista ou esquerdista às vezes são o contrário, incentiva o capitalismo a despeito do que eles estão fazendo,o que cria outra ambiguidade também, de modo que a parte contrária, os conservadores, às vezes não identifica se o sujeito é comunista mesmo, porque os efeitos das ações dele acidentalmente beneficiam o capitalismo. O que, aliás, aconteceu com o próprio Lênin. Lênin fomentou o capitalismo, só que Lênin tinha o controle de até onde levaria a modernização capitalista e de quando a converteria em comunismo como depois fez Stálin. E o pessoal de hoje não sabe mais como fazer isso. Isso aí é um aglomerado de confusões que só para tratar disso precisaria de um curso inteiro. Em princípio, o que aconteceu com Sokalé que ele ainda tinha ideia de que poderia recuperar na esquerda o sentido iluminista de uma ciência objetiva, conhecimento objetivo da históriaque se demonstrou efetivamente inviável. As primeiras formulações da estratégia comunista tinham a presunção de ser uma descrição objetiva da realidade, apta a fazer previsões empiricamente confirmáveis. Só que todas as previsões deram errado. E foi justamente isso o trauma que levou este pessoal esquerdista a produzir coisas como o desconstrucionismo. Eles começam a negar a objetividade do real e a acreditar que tudo é função do jeito de falar, a linguagem cria as aparências de realidade. E começaram a criar aparências de realidade.Fazem isso até hoje. A perspectiva iluminista já tinha sido abandonada. Agora, lendo o resto da pergunta: “Como o senhor analisa o argumento do Sokal de que a natureza pode arbitrar a disputa? Como entra aqui a sua crítica do que se convencionou chamar de ciência exposta, por exemplo, no seu vídeo Ciência e versão revolucionária?”, acontece que o desconstrucionismo é uma resposta ao fracasso da perspectiva iluminista. A perspectiva iluminista é o seguinte: nós temos uma elite iluminada que é capaz de conhecer objetivamente a realidade, fazer previsões e administrar o mundo. E isso evidentemente fracassou, de modo que esta polêmica entre Sokal e o pessoal daSocial Text é a polêmica entre um iluminista, um saudosista do iluminismo e o pessoal desconstrucionista. É a briga em família e os dois lados estão absolutamente loucos. Nem a ciência tem esse poder que Sokal imagina e nem os desconstrucionistas têm razão em dizer que não existe ciência nenhuma, que tudo é livre criatividade linguística. Eu não posso aceitar nem uma coisa nem outra evidentemente. Agora, dentro do ambiente esquerdista só existem estas duas possibilidades. O mundo para eles começa no iluminismo. Para muitos liberais modernos também começa no iluminismo. Então, eles, os liberais, são iluministas que acreditam na ciência econômica objetiva, para fazer previsões etc. Às vezes até conseguem fazer algumas previsões acertadas no campo econômico, mas também erram com uma frequência absolutamente escandalosa e nem por isso perdem a fé na sua ciência objetiva. [1:50]Eu acredito que é possível um conhecimento objetivo, desde que ele seja muito mais modesto do que a presunção iluminista. O iluminismo e toda a modernidade, o começo da modernidade com Descartes, Spinoza, Leibniz foi aépoca da criação dos grandes sistemas filosóficos que pretendiam explicar tudo, a explicação total do universo. Se você estudartodos os filósofos de antes, nem Platão nem Aristóteles nem os escolásticos jamais pretenderam explicar tudo. Eles pretendiam apenas criar a possibilidade de uma colocação racional do homem em face do universo existente e do mistério divino. O fato de você dizer que é um mistério significa que não vai ser abarcável tão fácilmente, mas a admissão da existência do mistério é uma exigência da própria razão. E, quando começa a modernidade, o primeiro passo é criar os sistemas universalmente explicativos, que vão de Descartes a Hegel. Comte ainda tem um pouco essa presunção, mas já um pouco atenuada. Marx também tem. Vamos dizer de Descartes a Marx. Acho que depois de Karl Marx todo mundo entendeu: “Olha, não dá para fazer um sistema que explique tudo”,mas um escolástico diria: “Mas precisava avisar, nós já sabíamos disso dez séculos atrás”. A minha perspectiva pessoal está muito mais próxima da escolástica ou de Platão e de Aristóteles do que do Iluminismo. A questão de que se existe uma ciência universalmente explicativa ou se tudo é arbitrário e depende da criatividade linguística, esse é um problema desse grupo de malucos. Eu não tenho nada a ver com isto, então para mim os camaradas daSocial Text são umas bestas quadradas e o Sokal é outra besta quadrada, que inadvertidamente demonstrou a vacuidade intelectual de toda essa esquerda sem perceber, pensando que estava atingindo apenas um grupinho acadêmico. Por quê? Porque ele não sabia que a mentalidade desse grupinho acadêmico já não era só daquele grupinho acadêmico, era, sim, a proposta estratégica universal da esquerda. Hoje na esquerda você já não encontra um único marxista ortodoxo que acredite na objetividade da ciência marxista e na possibilidade de previsões históricas objetivas a partir do marxismo. Não há mais nenhum. Quando eles viram que as previsões deles não coincidiam com a realidade, o que eles fizeram? Desistiram das previsões? Não, desistiram da realidade, o que já é a prova da mentalidade profundamente desonesta, psicoticamente desonesta desse pessoal. Quer dizer, aquela famosa frase do Hegel, “Se os fatos não concordam com a minha teoria, pior para os fatos”, — que eu não sei se algum dia Hegel realmente disse isso, mas se coloca na boca dele —, acabou virando realidade. Quer dizer, quando os fatos, a realidade não acompanharam as previsões marxistas, os camaradas simplesmente desistiram da realidade, mas não do marxismo. O marxismo amputado do seu conteúdo presumidamente científico de conhecimento da realidade é o quê? É o desconstrucionismo, é Derrida, é Lyotard, é essa gente toda. E a tentativa de reintroduzir uma realidade ali são penas de amor perdidas. Isso simplesmente não vai acontecer. Desde logo, a experiência humana da presença no mundo já vemcom um conteúdo de mistério desde o início. O mundo não chega para nós como um tecido de evidências, mas como um tecido de mistérios. Quando você avança um pouquinho no conhecimento de alguns fatos que estão ao seu alcance e diz: “Ah, a fronteira do mistério recuou”, eu lhe pergunto: Como recuou? Se você tomar qualquer ciência—um livro de ciência ou de química—, como começa um livro de química? Começa com os princípios da ciência química, e os princípios são postulados, axiomas que não podem ser provados de maneira alguma. Logo na abertura, nas primeiras vinte páginas você já encontra uma multidão de enigmas e mistérios, enigmas e mistérios estes que o químico afasta e diz: “Isto vai ficar de fora da minha investigação”. Eu digo: “Bom, mas você voltaras costas ao mistério não faz que o mistério desapareça, a não ser que quando o avestruz enfia a cabeça no buraco o mundo efetivamente desaparece. Quer dizer, a existência do mistério faz parte da experiência humana mais direta e inegável. Quando você decide colocar entre parênteses todos os aspectos misteriosos, já fugiu da realidade e está criando um mundo de objetividades provavelmente fictícias, mas que coincidirão com a realidade da experiência em determinados pontos, e daí vai dizer: “Só estes pontos interessam”. Isto não é conhecimento da realidade, mas conhecimento de alguns pontos que são controláveis pelas suas ações técnicas, apenas. Isso quer dizer que a finalidade da ciência moderna não foi realmente explicar o mundo, mas dar meios de atuação técnica sobre certos aspectos da realidade. Acontece que a ação técnica, por sua vez, modifica o cenário de tal modo que encobre aquilo que eles chamaram inicialmente de natureza, encobrem-na com uma série de equipamentos técnicos que constituem hoje parte da nossa experiência imediata da realidade. Hoje você nasce entre aviões, computadores, cápsulas espaciais etc. o tempo todo. Isso para você faz parte da sua experiência da realidade, mas não pode se esquecer de que tudo isso é criação humana. Porque você acha que justamente nesse meio técnico universitário aparece essa nostalgia ecológica da natureza? Porque os camaradas não aguentam o ambiente técnico que eles mesmos criaram, eles querem alguma outra coisa que seja real por si mesma, para além da ação deles. Então, embaixo do que a ciência chama de natureza, eles criam outra natureza e começam a achar que podem conhecer algo desta outra natureza estudando ritos indígenas, macumba etc., ou criando uma nova forma gnóstica, como este pessoal de Princeton. Quer dizer, nós estamos aí diante de uma imensa caricatura de vida intelectual, mas é uma caricatura muito bem elaborada, sofisticada, de certa maneira, no entanto uma estupidez sofisticada não se torna inteligente por causa disso. A natureza, tal como a ciência a conhece, não é a natureza real na qual nós vivemos. É uma natureza recortada segundo as finalidades da ação técnica, a qual vai esbarrar, em última análise, no caráter escorregadio, evanescente da própria matéria, como acontece na física quântica. Aluno: Tenho até um pouco de vergonha de lhe fazer esta pergunta. Não sei como estudar.Eu leio o texto e tomo nota de quê? Tenho sempre de tomar nota? Num nível bem prático, como é que se estuda? Olavo: Mas é coisa da mais simples, Marcos Vinícius. Você tem de ver o que é que está querendo saber. Às vezes você lê um livro inteiro... Às vezes isso acontece para mim, ler o livro inteiro para aproveitar um parágrafo, que é o ponto em que eu tinha realmente interesse. E o resto? O resto eu esqueço. É o seu interesse que determina o recorte. Agora, tomar nota. Quando comecei a estudar eu tomava nota de muita coisa, sublinhava os livros e depois fichava tudo. Uma hora eu vi... Mas, espere aí... Aliás, não fui eu que descobri isso, foi o falecido Inácio da Silva Teles, professor da faculdade de Direito, que era um homem inteligentíssimo; um dia fui visitá-lo e vi que os livros da biblioteca — ele tinha uma biblioteca enorme —, os livros dele estavam todos cheios de papeizinhos. Daí eu falei: “O que são esses papeizinhos?”, e elerespondeu: “É o meu arquivo. Para que eu vou copiar tudo em ficha se já está tudo no livro? Eu simplesmente ponho o papelzinho lá com o título”. É mesmo! Para que fazer ficha se você já tem os livros? O único problema é que, por exemplo, quando eu estou escrevendo algumacoisa e preciso fazer uma série de citações, não vou manipular um pouquinho de fichas, mas vou ter de trazer um monte de livros para a mesa. Esse é um problema na hora de escrever, mas não é um problema tão sério assim. Eu nunca tomo nota de nada, eu simplesmente sublinho no livro e não sublinho tudo, não, eu só sublinho o que realmente me interessa. Às vezes você está com um livro de quinhentas páginas, eu sublinhei cinco páginas no meio, porque eu cheguei ali e falei: “É isso aqui o que eu estava procurando”. Às vezes, [2:00]infelizmente, acontece de que para você achar uma resposta a um probleminha tem de ler um livro inteiro e depois descobre que não precisava ler o livro inteiro; se você lesse só aquele pedaço resolvia, mas infelizmente o livro não vem... por melhor... Às vezes o índice temático, por mais bem feito que seja, não responde à sua pergunta.Daí tem de ler a porcaria inteira para descobrir um pedacinho lá no meio. Então, é o seu interesse que vai definir o que se lê. Não existe técnica de estudo, isto não existe mesmo. Você tem de criar uma técnica de estudo sua, e, mesmo que o que faz está lhe parecendo absurdo, se funciona para você está bem. Você tem de achar uma técnica sua. Eu tenho a minha. A minha é a seguinte: o meu interesse, a minha pergunta é o que vai selecionar as leituras, porque a gente não pode ler tudo, e vai selecionando o que eu vou aproveitar de cada livro. Agora, às vezes chegam às suas mãos livros tão interessantes que você vai ler a coisa inteira e sublinhar muitos pedaços. Para fazer o quê? Fazer um resumo do livro. Aí existe uma técnica, você vai sublinhar as coisas de modo a que uma coisa emende na outra e que as partes sublinhadas formem um texto por si. Então, de um livro de quinhentas páginas o reduz para trinta. Daí memoriza o conteúdo mais facilmente. Mas quantos livros merecem ser memorizados desta maneira? Uns poucos. Do resto você vai ler só o que lhe interessa. Por exemplo, é bom ter um faro para descobrir num livro qual é a parte que lhe interessa. Depois de alguns anos de prática, você dá uma folheada e acha o que queria. O resto do livro pode conter coisas muito interessantes, mas não interessante para você naquele momento. Então, não há essa técnica pronta, embora existam muitas técnicas.Por exemplo, o professor Emilio Mira y López, que é um psicólogo espanhol que morou no Brasil.Ele escreveu um livro sobre a arte de estudar. Há nele muitas dicas interessantes, mas você não vai seguir a técnica dele, vai aproveitar uma dica ou outra aqui ou acolá. O livro do Jean Guitton, Conseilssurlavieintellectuelle(Conselhos sobre a vida intelectual), o próprio livro do Pe. AntoninSertillanges que é uma maravilha, mas este livro não te dá uma técnica, ele vai te dar uma inspiração. Eu acho esse livro uma verdadeira maravilha. Se você não tem ainda o amor pelos estudos, leia o livro do Pe. Sertillangesque vai ficar apaixonado. Isso aconteceu comigo. Aluno: Numa aula anterior o senhor disse que a leitura do livro Os anos de aprendizagem, de Johann Meister, forneceria material imaginativo para a compreensão do sucesso de Paulo Coelho. Pois bem, acabei de ler o livro do Goethe e ainda não descobri o motivo do sucesso do escritor brasileiro. Olavo: Você vai ter de procurar na ideia dos superiores desconhecidos. Quer dizer, são forças benéficas. Goethe alude na narrativa que há forças benéficas que invisivelmente conduzem o indivíduo a um sucesso, ao bem estar, à felicidade etc. Ele não declara isso no livro, mas Goethe era um grão mestre maçom, e ele mesmo era uma dessas forças benéficas que orientava as pessoas para o sucesso aqui e acolá. Dá a impressão de que essas forças são coisas misteriosas, mas é a ação de pessoas humanas importantes na sociedade, que favorecem ou desfavorecem, às vezes invisivelmente, a carreira de certas pessoas. Vocês não podem se esquecer de que sociedades secretas existem, elas agem e elas são secretas justamente para que as suas ações apareçam como se fossem sem sujeitos, como se fossem ações espontâneas, benéficas ou maléficas.Eu não estou querendo julgar essas sociedades agora, mas no livro de Goethe há a mera sugestão de forças benéficas invisíveis que conduzem a carreira do cidadão. E no caso do Paulo Coelho, até sabemos quais foram essas forças, mas eu não quero falar disso agora, porque eu teria de dar nome aos bois, e, embora eu tenha a compreensão inteira da coisa, não tenho a prova documental na minha mão, mas um dia eu vou conseguir. Ou seja, como é que se fabrica um sucesso como esse, para exercer certa função na sociedade, particularmente...?Aliás, não é só o Paulo Coelho. Eu usei o Paulo Coelho a título de metonímia, eu estou designando o todo pela parte, mas se você analisar o sucesso todo do Harry Potter e outras coisas desse tipo, tudo isso é ação de sociedades secretas que usam da sua influência no meio editorial para favorecer o florescimento de certas imagens ou ilusões, porque isto interessa para os seus objetivos. Um dos objetivos fundamentais hoje, por exemplo, do projeto globalista, é a criação de uma macro-religião mundial construída com elementos de várias religiões. Até a capela na ONU, que eles chamam de ecumênica, onde se mistura tudo, cristianismo, judaísmo, budismo, hinduísmo, religiões indígenas etc. Leiam o livro do Lee Penn,False Dawn, e vocês verão que isto não é uma interpretação que nós estamos fazendo, é um projeto que os camaradas escreveram e está lá documentado. “Nós vamos fazer isto, mais isto, mais isto”. Não é totalmente secreto, é apenas discreto, mas quantas pessoas ficarão sabendo disso? Um número mínimo. E o que nós podemos fazer contra isso? Bom, depende. Depende de nós conseguirmos alcançar um público e contar para ele o que está acontecendo. Mas em última análise é o público mesmo que vai decidir. Nós não temos capacidade decisória sobre isso. Esta ideia, por exemplo, de que as chamadas religiões orientais, indígenas contenham coeficientes de sabedoria misteriosa, que é inalcançável pelo mundo cristão, é claro que é uma balela, uma mentira grossa. Mas,veja, quantos filmes você não vê em que todos os brancos ocidentais são uns idiotas e tem um índio lá atrás que sabe tudo? É como oDon Juan deCarlos Castañeda, ele tem a posse do mistério. Quando você vai ver... “Ah, mas se os índios eram tão sábios assim, quando foi que eles perderam a briga, se eles estavam até em vantagem no começo?”. Você não pode se esquecer: quais foram os primeiros escravos na América? Foram os brancos escravizados pelos índios na comunidade de James Town. Os brancos chegaram e vieram com uma ideia socialista: “Nós vamos administrar a terra coletivamente, ninguém tem propriedade”. Aí, evidentemente, foi para o brejo. Na hora que foi para o brejo, começaram a morrer de fome, daí vinham os índios e os capturavam, e alguns até se ofereciam para serem escravos dos índios para não morrerem de fome. Eles foram os primeiros escravos que houve na América. Os índios estavam inicialmente numa posição muito vantajosa, eles tinham o domínio do território, conheciam o território, mas não tinham uma série de coisas que o recém-chegado conhecia. Com relação, vamos dizer, à famosa metafísica oriental do René Guénon, se vocês lerem os últimos livros do Jean Borella — que começou como um guénoniano de estrita observância —,são terrivelmente anti-guénonianos, embora ele tenha toda aquela afetação de respeito etc., mas ele está destruindo tudo o que fez no começo. Aí, Dom Lourenço, o senhor não sabe destas coisas. Provavelmente se alguém chegar lá com um livro do Jean Borella: “Não, o Jean Borella é herético”. [2:10]É herético, mas acontece que ele está fazendo um malefício à heresia como nenhum católico jamais conseguiu fazer. Ele está desmontado a coisa desde dentro. Como é que eu não vou ler isto? Eu aprendi muita coisa com o René Guénon, e estou aprendendo a me livrar do René Guénon através do Jean Borella. Eu realmente acho que a obra do René Guénon coloca para todo o mundo cristão o maior desafio intelectual que ele enfrentou em vinte séculos. Você simplesmente dizer: “Ah, é herético” e fugir da coisa, e não deixar ninguém ler, isso não vai resolver absolutamente nada. Isso, ao contrário, piora. Você veja quantos livros foram postos no Index e acabaram fazendo um sucesso desgraçado exatamente por causa disso. E o pessoal da Igreja que enfrentou os modernistas, iluministas durante o século XVIII foram todos um bando de covardes e incompetentes. Elesse defendiam atrás do Index LibrorumProhibitorum e não eram capazes de ter uma polêmica decente com eles. Deu no que deu. O que eles tinham de fazer? Tinham de se impregnar deste material, fazer como Saint Lorrainefazia, ele ingeria o veneno para depois poder expelir. É o único jeito. Agora, se nós vamos nos tratar como se fôssemos alminhas santas e puras, virgens, intelectuais que não podem ser desvirginados, aí estaremos lascados. Foi isto que fizeram no século XVIII e se deram mal,porque é a espiral do silêncio. “Ah, não leio...”.Se você não os lê, eles continuam falando de você lá fora, e não tem como se defender. Agora, se você vai esperar que o Papa se pronuncie... Imagine que tem um livro, você desconfia de que o livro é herético, mas nós vamos ficar quietinhos. Daí você vai esperar que o livro passe por todos os escalões hierárquicos da Igreja até chegar ao Papa e o Papa decretar se aquilo é herético ou não e porque é herético. Quantos anos passam para que isso aconteça? Enquanto isso, o livro já foi lido por todo mundo menos por você. Isto é a espiral do silêncio. E vocês, idiotas, padres idiotas, burros, vocês caíram nisto. Então, é o seguinte:eu não vou me defender, nem vou defender meus aluninhos contra leituras prejudiciais que possam corromper as suas almas. Não é assim que se faz. Quem está na chuva é para se molhar. Não há mais uma entidade, criada pela Igreja, que possa ler esses livros, examiná-los e pronunciar se são heréticos ou não. Não há mais isto. A não ser que Dom Lourenço sozinho seja capaz de fazer tudo. Será que ele acha que é mais capaz de controlar isso do que o Santo Ofício? É claro que não. Então, o que vocês estão fazendo é acreditar que estão protegendo as almas, mas estão entrando é na espiral do silêncio. Vocês evitam o contato, não falam nada, e o outro fica falando de você. Agora, isto é falta de confiança na inteligência humana e falta de confiança na providência divina, porque a nossa inteligência é sustentada pela providência divina. E você tem de rezar dia e noite para que Jesus Cristo e o Divino Espírito Santo te preservem do erro. Mas não sabe exatamente qual é o erro,eles é que sabem, e você tem de fazer um esforço sincero, tem de aderir de coração à Revelação Divina, que é algo que nós não poderíamos nos dar e que não é propriamente o conhecimento. A Revelação Divina faz parte da estrutura da realidade e não do nosso conhecimento. Isso é importante entender. A Revelação Divina não é uma doutrina, é um elemento estruturante do próprio universo. Daí você adere a isso e diz: “Olha...”,é como o filósofo romeno Petri Tutea que foi um mártir, quase um santo, e dizia: “A única coisa fixa é o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, o resto é tudo uma confusão”. Mas o fato é que nós estamos no meio dessa confusão e o Evangelho não vai me dar resposta para tudo. O Evangelho está ali para ele me dar forças, para inspirar minha inteligência de modo a... Quando São Paulo Apóstolo diz: “Não vos preocupeis com o que ides dizer na frente do juiz, porque o Espírito Santo vos inspirará”, eu digo: “A mesma coisa acontece quando você lê René Guénon”. Você está diante de um juiz herético enormemente inculto e mal intencionado. Porque você vai ter medo do René Guénon? Se não é para eu ter medo do juiz, e se não é para eu ter de levar um discurso preparado de antemão perante o juiz que pode me pôr na cadeia, porque eu devo fazer a mesma coisa perante o René Guénon, que só pode colocar um pouco de minhoca na minha cabeça? Quer dizer, se eu posso arriscar a minha vida confiante que o Espírito Santo me inspirará, porque eu não devo confiar que ele vai me inspirar e por mais trabalho que isto dê, você vai entrar dentro daquela armadilha guénoniana e dizer: “Um dia eu vou sair daqui, o Espírito Santo vai me levar. Se houver mentira aqui, ele vai me mostrar”. Porque não ter essa confiança? Porque a gente deve apostar no temor se o temor nos induz a ficar quieto ou a tomar perante estas coisas uma atitude de mero protesto impotente para derrubá-las intelectualmente? Olha, de tudo o que os católicos escreveram contra as doutrinas do Guénon desde o início, nada se compara ao que o Borella está fazendo agora. Porque ele analisa todo seu material oriental e maçônico, as partes positivas, criativas e benéficas deste ensino do Guénon, e diz: “Olha, sabe de onde ele tirou tudo isto aí? Tirou da Igreja Católica e diz que é do outro lado”. Aí, sim, você derruba o camarada, pois, como dizia Nietzsche, “Não se derruba senão com aquilo que se substitui”. O Borella pode ter feito muito erro no começo da sua vida, mas o que ele está fazendo agora é digno do maior agradecimento. Ele nos explica coisas que nenhum católico tinha entendido antes dele. Por isso, não tenham medo de ler nenhum livro neste curso. Agora, eu também não fico recomendando um monte de leituras para vocês,fico? Aliás, eu nunca disse para ninguém ler o Borella. No contexto deste curso ele não é uma leitura obrigatória. Quem quiser ler agora, leia, quem quiser ler depois, leia. Todo mundo sabe que eu não estou ensinando na base dos textos, mas na base dos problemas filosóficos. São os problemas que nós temose tentamos trata-los da melhor maneira, exemplificando como se faz, e quais são os resultados a que eu cheguei até o momento. Isso é tudo o que nós estamos fazendo. Aluno: Nesta semana fiquei sabendo que um importante aluno (ele dá o nome, mas pede para não repetir) não suportou a máquina roedora do establishment acadêmico e acabou perdendo a sua bolsa de estudo. Eu estava me debatendo sobre esta questão, de quão importante alguns alunos são para este projeto e de quanto eles empenham o seu tempo e recursos, quando tive uma ideia. O senhor consideraria uma boa ideia criar um thrustfun for scholarship em que os doadores pudessem ter algum abatimento no imposto de renda, tanto aqui no Brasil quanto nos Estados Unidos, para prover os principais alunos e colaboradores com bolsas de estudo? Olavo: Pode-se pensar nisso, mas eu não tenho a menor ideia de por onde começar. Essa é uma sugestão prática enormemente difícil de implementar. Eu já recebi algumas sugestões desse tipo da parte de pessoas que inclusive podem contribuir com algum dinheiro para isso, mas por enquanto está na base da sugestão, nós não temos um plano elaborado. Quando tiver um,eu digo para vocês. Aluno: Tenho a sugestão de um tema de gravação mensal: “A filosofia da história de Santo Agostinho e a influência dela em Eric Voegelin e Christopher Dawson”. Olavo: Esse tema é maravilhoso. Eu vou fazer essa gravação. Vou fazer. Não digo que vou fazer agora, mas em qualquer hora eu vou fazer isso. Muito importante esse tema e boa sugestão. Aluno: [2:20]Primeiramente quero lhe agradecer pela oportunidade que o senhor proporciona a todos de participar de momentos tão profundos da existência, revolvida em todos seus valores que assolam a nossa cultura.(...) Olavo:Obrigado. Aluno:(...) A pergunta é a seguinte: Por que é tão comum nas universidades ouvirmos os professores dizerem que Descartes é um continuador de Platão? Olavo: Porque isto é um bando de besta quadrada, meu Deus do céu! Esses professores de filosofia no Brasil, todos deveriam ser tirados dali... Se eu fosse Ministro da Educação, a primeira coisa que eu faria seria perguntar: “Você é professor de filosofia? Muito bem, então agora você vai ser frentista de posto de gasolina” Emir Sader, Quartim de Moraes... A Marilena Chauí, não,eu daria um emprego de telefonista para ela. Quando eu falo de incompetência, ela é muito maior do que a que vocês estão imaginando, gente. A superficialidade, a vacuidade, a leviandade desses camaradas é uma coisa de que você não imagina, porque no meio universitário só se fala de duas coisas: de militância petista e de interesse em subir na carreira, de subsídios. É só disso que se fala. À minha filha que estudou história na USP, minha filha Inês, eu disse para ela: “Se você quiser fazer algum curso na área de humanas na USP, faça o curso de história, que pelo menos ainda produz de vez em quando alguma coisa que preste”. Há dois ou três professores que de fato fizeram alguma coisa de importante. Na área de filosofia não há nada. Mas ela fez o curso de história e me disse: “Olha, pai, eu fiquei cinco anos e nunca vi atividade intelectual lá dentro”. Não há interesse, é só rotina. Em história ainda dá para sobreviver num ambiente de rotina, mas como é que você vai fazer do ensino da filosofia uma rotina,quando ela é eminentemente uma participação profunda e de coração em problemas dificílimos e importantes? Se o sujeito não está interessado nos problemas filosóficos, então o que ele está fazendo na faculdade de filosofia? Aluno: Assistindo às aulas passadas, fiquei pensando numa conferência do Papa em que ele fala da opção da Igreja pelo “Deus dos filósofos” e da convergência deste Deus com o Deus cristão. Daí que o Deus cristão é o Deus verdadeiro. Olavo: “Deus dos filósofos” é um conceito de Deus, a não ser que o filósofo em questão esteja realmente interessado em Deus como realidade, o que não é o caso, na maior parte dos casos. Eu não acredito jamais que Espinoza tenha gastado um minuto sequer para pensar em Deus como realidade presente, atuante. O simples fato de que Espinoza só acredite em conhecimento dedutivo, quer dizer, imaginemos que você coloca princípios universais, deduz o resto daí e não acredita no conhecimento por experiência, então, isso significa que...Se acontecesse um milagre a Espinoza.Vamos supor que Espinoza caiu do quadragésimo andar de um prédio, está todo estuporado e Deus o refaz. Isso seria uma experiência e Espinoza nada aprenderia com ela. Logo, ele não quer ter nada a ver com o Deus de verdade. Ele quer um Deus mental, um conceito de Deus. Isso acontece com muitos filósofos. O Deus de Descartes é inteiramente um conceito de Deus. Já que estamos falando nisso, Descartes prova Deus a partir da nossa ideia de perfeição. Nós temos a ideia da perfeição e, como nada do que conhecemos é perfeito e não somos capazes de criar a perfeição, logoa ideia de perfeição deve ter entrado na nossa mente a partir de uma fonte que é a própria perfeição. Está provado Deus. Quer dizer, você precisa de uma ideia humana para daí provar Deus. Escuta, como é que uma ideia humana pode mandar o paralítico andar, sair andando? O desprezo de toda essa gente pelos milagres é o desprezo pela presença de Deus no mundo. Entre o século XVI e o século XVIII você tem uma fileira de filósofos que se dedicaram a provar a impossibilidade teórica do milagre em vez de estudar um único milagre que fosse. Por exemplo, a famosa menina que enxerga sem pupilas, curada pela intercessão do Padre Pio. É fácil você demonstrar a impossibilidade teórica disso, mas o milagre acontece justamente quando algo que teoricamente é impossível vem a suceder diante dos seus olhos. Isto é para mostrar que o Deus que nos interessa, o Deus de que nós falamos não é um conceito de Deus, não é uma teoria filosófica, não é uma doutrina. É uma pessoa: ele age, fala, pensa, interfere nas coisas. É desse que nós estamos falando. Se o filósofo parte da existência desse Deus e usa os fatos da vida divina manifestos no mundo como elemento da sua inspiração, formador das suas ideias, daí ele está falando do Deus dos cristãos. Agora, se ele está falando de um Deus que tem de ser arrancado de dentro da cabeça dele mesmo como Descartes, então esse não é certamente o nosso Deus, esse é apenas o Deus dos filósofos. Eu acho que hoje já deu... Hámais uma pergunta,só mais uma. Aluno: Professor, por que na sua época a virilidade e a força pessoal eram aquilo que os jovens buscavam, como aquele rapaz que o senhor mencionou, de treze anos, que sustentava a família, e hoje as pessoas estão preocupadas com a estabilidade havendo quem se acovardou ao ponto de aos quarenta anos ainda viverem com os pais à custa dos mesmos? (...) Olavo: A única pista de resposta que eu encontrei para isso está no livro do David Riesman, A multidão solitária, em que ele compara as várias estruturas de personalidade de que são necessárias para você sobreviver em diferentes etapas da vida social, conforme as transformações econômicas. Ou seja, a situação econômica, social, ela não produz as personalidades, mas a personalidade se desenvolve por milhões de fatores diferentes como familiares, cósmicos, históricos etc. Não há como você associar diretamente uma coisa a outra, mas a sociedade seleciona as pessoas que ela favorece. E o fato é que o tipo de organização econômica altamente burocratizada que se desenvolveu no mundo inteiro nos últimos quarenta ou cinquenta anos favorece o tipo de pessoa submissa, sem iniciativa pessoal e, sobretudo, volúvel, que se adapta rapidamente à moda. Você lança uma moda hoje, no dia seguinte todo mundo tem de aderir àquilo como se fosse de coração. O sujeito mudou de ideia ontem, mas ele se impregnou daquilo de tal maneira, que na semana que vem ele se impregna de outra moda. Então, são pessoas volúveis, sem substância própria. Esse é o tipo que hoje é favorecido. Porque a própria rapidez da evolução da economia produz do dia para a noite mudanças de critérios, de valores etc., e precisa de que as pessoas se adaptem rapidamente a isto. Mais ainda, a administração globalizada precisa disso mais do que a indústria. Aí é questão de sobrevivência dos mais aptos, quer dizer, qual é o mais apto a sobreviver neste meio? É justamente o mais inapto, quer dizer, é o sujeito mais plástico, mais amoldável, mais vazio, mais oco. Ele é o favorecido. E só quem conserva, vamos dizer,a força pessoal, o poder de mando são os chefes do processo. São eles os únicos que têm o direito à virilidade;dos outros, tudo tem de ser capado. Aluno: (...) Isso não tem algo a ver com comida? Olavo: Deve ter porque dizem que a taxa de testosterona hoje é cinquenta por cento do que era trinta anos atrás. Tem a ver com comida, medicamentos, as aplicações de flúor nos dentinhos das crianças e assim por diante. E tudo isto é o quê? São decisões que alguém tomou e que são aplicadas. Por exemplo, agora não existe o Index Alimentarius? Quer dizer, um órgão da ONU querendo selecionar e decidir tudo o que a humanidade inteira vai comer? Só pode comer assim e assim. É CodexAlimentarius, não Index. Então, procurem informação sobre o CodexAlimentarius e vocês vão ter ideia de até que ponto a engenharia social cria essas situações. Ela não pode infundir nas pessoas uma personalidade, mas ela pode selecionar tudo de tal modo que aqueles que não se enquadram acabam sendo deixados pelo caminho porque ficam muito solitários. Só sobrevive aquele que, quando for deixado solitário, diz: “Oba, graças a Deus agora não tem mais ninguém para me encher o saco”. Mas a maioria se quebra. Os mais fortes são quebrados ao meio, e os mais fracos já estão quebrados. Então, o que você tem de fazer? Você tem de ser mil vezes mais forte do que era [2:30]para ser antes, aí você sobrevive numa boa. O ser humano naturalmente quer afeição e não a recebe suficientemente em casa. Não é isso? Há alguém que chega para você e diz: “Olha, minha mãe foi a melhor mãe do mundo, me carregava no colo, fazia tudo o que eu queria, dizia o dia inteiro: ‘Meu filho, eu te amo’”. Quantas pessoas são assim? Eu digo: “Minha mãe foi assim”. Deu-me muito mais do que eu merecia, e o homem que acabou me criando, cuidando da minha educação, que foi o meu padrinho de batismo, o Senhor Marques Torres, era o homem mais gentil do universo. Não havia nada que eu pedisse para ele que ele não saísse correndo para fazer. E ao mesmo tempo eu o respeitava, assim, como se fosse o Papa. Eu fui afortunado e não tenho nada a reclamar da minha família. Mas a maior parte das pessoas tem, porque quer afeição e não a recebe em casa. Onde você vai procurar? Você vai procurar na rua, então você quer que todos os seus colegas te amem, que o público te ame, que o seu patrão te ame, e eles também não vão te amar. Daí você vai virar um carente afetivo. E o que você vai ter de fazer? Você terde procurar uma pessoa que goste de você e você devolver a ela o amor desta pessoa. Uma ou duas, três, quatro, pouquinhas edizer: “Eu amo essas pessoas e todo o amor que eu vou receber na vida virá delas. Ninguém mais vai gostar de mim e está bom assim”. Eu já fiz essa decisão há mais de quarenta anos atrás dizendo: “Olha, minha mulher gosta de mim, meus filhos gostam de mim, meu cachorro gosta de mim, meus amigos gostam de mim, acabou, não precisa mais ninguém gostar de mim. É mais do que eu mereço”. É só você entender isso. Por que haveriam de gostar de você? Contente-se com o que aquelas poucas pessoas lhe dão e não busque amor de mais ninguém. Essa é uma boa solução para você ficar mais fortinho. Por hoje é só, até a semana que vem. Sílvio Grimaldo: Olha que o Olavo tem alunos frentistas. Eles não servem para ser alunos aqui. Os professores, não os frentistas. Olavo: A gente tem alunos frentistas que deveriam ser professores. E as Universidades estão cheias de professores que deveriam ser frentistas. O mundo é injusto, realmente. Tá bom. Até semana que vem. Muito obrigado. Revisão: AntoniaJaviera Cabrera Muñoz, 13/02/2011[professoraantonia@gmail.com]