Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula Nº 70 14 de agosto de 2010 Hoje continuaremos com a leitura e comentário do texto de Dardo Scavino, que nos oferece algumas vantagens. A primeira é a simples atualização, com valor informativo: o conteúdo do texto oferece todo um panorama bastante claro e ao mesmo tempo sucinto de que temática está em discussão nas faculdades de filosofia hoje, principalmente nas da América Latina e do Brasil, como que resumindo todo o programa estudado nessas faculdades. A segunda vantagem é que ele utiliza o método de apresentar as filosofias em sucessão, como se fossem o desenrolar de um raciocínio único, de modo que onde um filósofo pára, o seguinte começa como que continuando ou tirando conclusões, ainda que estas possam ser antagônicas. Tem-se um processo dialético único, como se uma única pessoa estivesse pensando e atravessando várias etapas de sua evolução conforme vai descobrindo certos aspectos ou revelando aspectos antagônicos. Depois de estudarmos este texto, passaremos a outro que foi construído exatamente assim: o texto do filósofo Vladmir Soloviev1 que se chama A Crise da Filosofia Ocidental. Enquanto eu estudava com o Pe. Ladusãns, comecei a elaborar uma leitura analítica desse texto de Soloviev que, embora tenha ficado quase pronta, nunca cheguei a apresentar. Para essa leitura analítica, tomei uma série de notas que jamais usei para coisa alguma e que, pela primeira vez, usarei neste seminário. Como o Conjunto de Pesquisas Filosóficas da PUC do Rio de Janeiro — escola dirigida pelo Pe. Ladusãns — foi fechado e, em vinte e quatro horas, transformou-se em um centro da Teologia da Libertação, evidentemente perdi todo o interesse em prosseguir os trabalhos que havia começado lá. Outro trabalho foi o estudo sobre a estrutura da Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Mário Ferreira dos Santos, que ainda aproveitei em uma versão resumida como introdução ao livro A Sabedoria das Leis Eternas. Mas o trabalho sobre Soloviev ficou guardado na gaveta até hoje, de forma que posso aproveitar algumas notas que tomei naquela época, acrescentadas de outras considerações que foram surgindo nos anos posteriores. A vantagem de conectar o texto de Dardo Scavino com o de Soloviev é porque este utiliza o mesmo método, apenas aplicado a outra época da filosofia: a Modernidade. Ele parte de Descartes e chega até à época em que ele mesmo estava, isto é, o fim do século XIX e começo do XX, procedendo como se os filósofos, a partir de Descartes, tivessem raciocinado em linha. Primeiro veio Descartes, depois Spinoza, Leibniz e os demais, até aparecer o próprio Soloviev. Se acompanharmos a utilização desse método — originalmente desenvolvido por Hegel — em duas escalas menores: a da Filosofia Atual, tal como abordada por Scavino, e a da Filosofia Moderna, tal como abordada por Soloviev, isso nos servirá de excelente introdução ao método do próprio Hegel, que tem a desvantagem de estar escrito de maneira clara apenas no original em alemão. Leio pessimamente alemão, mas percebo que nesta língua Hegel não é tão obscuro quanto fica nas traduções, já que escreve em frases curtas. Se compararmos com Schelling, que escreve aqueles períodos de quarenta e três linhas sem um miserável ponto-e-vírgula no meio, Hegel fica até relativamente simples de ler, bastando ter um bom dicionário de alemão ao lado. Mas nas traduções o negócio fica realmente desesperador. Por isso Hegel é um autor que é tanto mais influente quanto menos lido. É influente justamente por ser lido apenas por uma elite que propaga as ideias dele e, por isso, tais ideias vêm com uma autoridade avassaladora, pois ninguém pode ir até à fonte para discuti-las. É como se víssemos tudo através de uma cortina de fumaça. Está claro que nem o livro de Soloviev nem o de Scavino teriam sido possíveis sem que alguém tivesse concebido esse método. A diferença é que Hegel o aplica a todo o desenvolvimento e história do pensamento humano, dando aparência de unidade e continuidade à essa história e identificando-a com a história em sentido mais geral. A história das ideias seria uma espécie de condensação do conjunto das possibilidades humanas tal como foram se realizando no tempo. E como essa história é a única que existe — não há duas —, acaba não havendo diferença entre o desenrolar da história do pensamento e a obra do próprio Espírito Divino em ação no planeta Terra. A sequência dos filósofos aparece como uma série dialética que se desenrola na mente do próprio Deus, dando uma impressão de unidade e globalidade que é realmente algo majestoso. Devo acrescentar de minha parte que considero esse método inadequado e até falso, o que não quer dizer que, com as devidas precauções, não possa ser usado. Se sabemos que a sequência apresentada abrange somente algumas e não todas as possibilidades do espírito humano, e que simultaneamente à linha que se está desenvolvendo pode ter havido outras completamente antagônicas ou irredutíveis àquela — às vezes tão heterogêneas que não conseguimos fazer nem mesmo um confronto —, podemos usar esse método. Por exemplo, quando estudamos a filosofia do século XVIII, encontramos um sujeito chamado Giambattista Vico, que não temos como encaixar naquele século, tão dissonante ele é. Na utilização desse método devemos evitar a ilusão de que a sequência que estamos apresentando: (a) seja a história da filosofia, pois se trata apenas da história de algumas filosofias; (b) seja a história do desenvolvimento do espírito objetivo manifestado na história humana, pois se não chega a ser sequer a história da filosofia, muito menos pode ser isso. Como esse modus pensandi, que de algum modo identifica a evolução do pensamento com a própria história — isso quando não resume uma na outra —, tornou-se muito característico da modernidade, e mesmo aqueles que o contestam são de algum modo devedores dele, podemos dizer que aquele que não chegou a dominar esse método não vai compreender jamais o pensamento da modernidade, ou seja, tal pensamento se apresentará opaco. E quando digo “dominar o método”, refiro-me a compreender suas bases, saber exercê-lo e superá-lo, isto é, saber quais são seus pontos fracos e como esses podem ser complementados. Com esse método encontramos a mesma dificuldade que Eric Voegelin encontrou no estudo da História das Ideias, quando chega à conclusão que não existe história das ideias, mas ideias que aparecem aqui e ali, e que não são geradas umas de dentro das outras, mas cada uma dentro de uma situação histórica específica que inspira aos indivíduos e filósofos alguma resposta que nem sempre vêm como resposta a uma filosofia anterior, mas às vezes a uma situação concreta e determinada. Assim, só sob determinados aspectos limitados poderíamos falar de uma evolução do pensamento, isto é, de uma continuidade de uma doutrina para outra. Uma parte da doutrina subsequente pode ser resposta à doutrina anterior, mas outras partes, às vezes muito mais significativas, são respostas a experiências reais que pareceram ao filósofo, no instante em que as viveu, opacas e necessitadas de uma elucidação. Particularmente para aqueles de nós que vivemos parte de nossas vidas no século XX — século tão cheio de desafios, acontecimentos chocantes, escandalosos e enigmáticos —, a filosofia transformar-se-ia em uma futilidade se fosse apenas uma resposta a ela mesma. Se as filosofias saíssem umas de dentro das outras, como as diversas gerações saem cada uma de dentro da barriga de suas mães, elas seriam totalmente irrelevantes. Em parte elas tendem a ser isso, o que observamos especialmente no caso destes filósofos aqui. Quando pegamos toda a linha de desenvolvimento que veio de Saussure, Wittgenstein, Heidegger, Derrida, Foucault, Alain Badiou etc, temos a impressão de que são pessoas que se trancaram dentro de uma sala e estão conversando umas com as outras somente e que não têm absolutamente nada a dizer sobre o que está acontecendo em volta. Trata-se da famosa situação de Franz Rosenzweig no front de batalha da Primeira Guerra Mundial, levando tiro de tudo quanto é lado e perguntando: “agora, neste momento, o que a filosofia tem para me dizer? Nada!” — referindo-se naturalmente à filosofia acadêmica de seu tempo. Ainda poderíamos perguntar o que todos esses filósofos teriam a dizer a um sujeito que estivesse em Auschwitz ou no Gulag? Que resposta teriam a dar? Nenhuma! Imagino um sujeito no Gulag ou em Auschwitz, reduzido ao peso de [00:10] 32 quilos, e pensando: “ah! o discurso nada tem a ver com a realidade; não posso sequer explicar para as pessoas o que estou passando aqui”. O discurso dele teria de sair de dentro de outro discurso, que por sua vez saiu de dentro de outro discurso, que saiu de dentro de outro discurso, de forma que a situação real que ele estava vivendo jamais poderia entrar no discurso. Basta esse motivo para entendermos que em todo esse desenvolvimento filosófico que estamos expondo, a partir do resumo brilhante feito pelo professor da Universidade de Bordeaux, Dardo Scavino, há um elemento de cinismo ou frivolidade absolutamente psicopática, já que todas essas pessoas assistiram aos acontecimentos catastróficos do século XX, e alguns até tiveram alguma participação profunda neles. Todo mundo sabe, por exemplo, que Martin Heidegger, como reitor de uma universidade importante, deu seu apoio ao regime nazista. Também sabemos que Wittgenstein trabalhou para a espionagem soviética, ou seja, achou que a melhor maneira de combater o nazismo era fomentar o comunismo. Doutrinariamente ele não era um comunista, mas um admirador de Stalin, e seu sonho era tornar-se professor da Universidade de Lênin em Moscou. Talvez por isso, para agradar os comunistas, ele fez um trabalho de decifração dos códigos navais alemães. Só que em vez de entregar a decifração para o governo britânico, que o havia recebido, protegido, paparicado e dado tudo de bom e de melhor, ele passou a informação para os russos. Trata-se nitidamente de um traidor, de um espião. Vemos que tanto Wittgenstein quanto Heidegger tiveram uma participação direta na produção de acontecimentos absolutamente catastróficos do século XX. Este favorecendo a emergência do nazismo e aquele fazendo com que a derrota do nazismo, em vez de ser uma libertação, entregasse metade da Europa nas mãos de Stalin, cujos feitos macabros são mais vastos até que os do nazismo. Essas pessoas não podem dizer que ignoravam a situação, que eram apenas acadêmicos que estavam ali fechados inocentemente em seu mundo de puras ideias. Ninguém pode dizer isso. Outros filósofos como Habermas e essa turma da Escola de Frankfurt também tiveram uma participação política intensa. Hoje em dia, por exemplo, Richard Rorty é tremendamente influente na esquerda americana. Nenhum desses tem as mãos limpas. Talvez Ferdinand de Saussure tivesse as mãos limpas, mas o que pensava ou deixava de pensar jamais saberemos, porque seu livro, afinal de contas, sobre o curso de linguística geral, nem mesmo existe. O livro é resultado da fusão de várias notas tomadas por alunos, algumas delas bastante incoerentes. No final, fechou-se um acordo em relação ao texto do livro. É interessante notar que Malcolm Bradbury, no livro Mensonge, diz que Henri Mensonge, um filósofo imaginário criado por ele, seria o representante por excelência do desconstrucionismo, pois teria sido o único autor que levou até às últimas consequências a teoria da inexistência do sujeito, inexistindo ele próprio. Todavia, de algum modo essa situação já tinha sido antecipada por Saussure, porque seu livro também contém um texto que ninguém escreveu, de forma que a inexistência do sujeito é atestada pela inexistência do autor. Por isso, talvez o único inocente nessa história seja Saussure. Sem dúvida, todas essas filosofias deixam-nos em uma situação de impotência total para descrever o que se passou no século XX. Embora não possa provar, gostaria de sondar, como um dos últimos capítulos de meu estudo sobre o movimento revolucionário, a hipótese de que as pessoas envolvidas nos movimentos revolucionários sujaram-se tanto com a mentira que só uma coisa restou para lhes restaurar a honra: dizer que não existe verdade alguma, isto é, jogar mais lama na água. Acho que, no fundo, essa é a inspiração de muitos desses filósofos. E é esse estudo que me leva cada vez mais a desprezar esse método de evolução do pensamento, tal como Scavino o está descrevendo aqui. Isso sem menosprezar esse autor, que apresenta a coisa com uma clareza e exatidão admiráveis. Prossigamos com a leitura do texto de Dardo Scavino. Na página 67 ele comenta a convicção de Wittgenstein a respeito da autonomia entre os vários jogos de linguagem, a qual me parece absolutamente insustentável. Se os vários jogos de linguagem são autônomos entre si e se aquele “jogo” específico, que pretende descrever a realidade dos fatos, não tem prioridade em relação aos outros, então como podemos saber se uma descrição dos jogos de linguagem atualmente existentes é real ou não. Se eu nada posso dizer de objetivo sobre o estado de coisas, ou antes, se a minha pretensão de descrever objetivamente um estado de coisas é somente mais um jogo de linguagem sem nenhuma prioridade em relação aos outros, então o mesmíssimo preceito se aplica à descrição que eu venha a fazer dos jogos de linguagem presentemente existentes. Digamos que há dezoito jogos de linguagem — na verdade há mais —. Se eu descrevo cada um e digo que todos se equivalem, trata-se de um juízo de realidade que estou fazendo sobre os jogos de linguagem. Se esse juízo de realidade, por sua vez, não vale mais do que nenhum daqueles jogos de linguagem em particular, se ele também é apenas mais um jogo de linguagem, então simplesmente não posso saber se existem jogos de linguagem. Qualquer afirmativa que eu faça sobre os jogos de linguagem não é um jogo de linguagem, é um juízo de realidade que pretende abranger na sua objetividade o conjunto dos jogos de linguagem existentes ou pelo menos um grupo deles. Então é claro que a afirmativa sobre a autonomia dos jogos de linguagem é totalmente inconsequente. Partindo do pressuposto da autonomia dos jogos de linguagem chegamos a algumas conclusões, entre elas a seguinte: “É sobre este principio da autonomia dos diversos jogos de linguagem que François Lyotard elabora o seu conceito da pós-modernidade. Tal como o haviam demonstrado Marx Horkheimer e Theodor Adorno na sua Dialética do Iluminismo, a modernidade havia valorizado o saber denotativo, científico, racional, excluindo os saberes míticos ou narrativos em torno dos quais se organizavam as culturas tradicionais. No entanto, acrescenta Lyotard, para legitimar essa estratégia, a própria modernidade inventou esses relatos míticos que são as filosofias da história.” Ora, as filosofias da história são justamente a base do método — concebido primeiramente por Hegel — que Scavino usa neste livro e que Soloviev usa no livro A Crise da Filosofia Ocidental. Diz Lyotard que esses relatos são míticos e ele de fato tem razão, porque não há nenhuma prova de que tais relatos do desenvolvimento filosófico resumam efetivamente a história da humanidade ou mesmo a própria história da filosofia. Se em vez de se apegar a uma determinada visão da história da filosofia, você se abrir para consultar os textos das mais diversas proveniências, verá que é simplesmente impossível captar qualquer unidade no desenvolvimento filosófico. José Ferrater Mora, um grandíssimo erudito da filosofia, que deve ter lido quase tudo que se publicou no século XX, tem um livrinho que se chama A Filosofia Atual — exatamente o mesmo título do livro que estamos lendo — em que ele observa que existem três blocos filosóficos incomunicáveis: o bloco anglo-saxônico, o continental — existencialistas, Heidegger etc. — e o comunista-marxista. Podemos ter o maior desprezo pela filosofia que se chamou marxismo-leninismo, mas não podemos desprezá-la do ponto de vista quantitativo. Essa porcaria foi praticada na União Soviética durante sessenta anos e a bibliografia que produziu é imensa. Eu mesmo, na juventude, tive a felicidade ou infelicidade de ler várias obras do marxismo-leninismo, inclusive o famoso Manual de Marxismo-Leninismo de Otto Kuusinen, um tratado de mil e quinhentas páginas que era o livro oficial da Academia de Ciências da União Soviética. [00:20] Sinceramente não vejo como encaixar aquilo dentro desse desenvolvimento filosófico que o Scavino está descrevendo aqui. Mais ainda: existem outros desenvolvimentos possíveis dentro do próprio “bloco europeu” que também não se enquadram aqui. Eu não saberia como encaixar, por exemplo, Eugen Rosenstock ou Xavier Zubiri. O que nós vemos é um pluralismo filosófico irredutível. A ideia de uma linha de desenvolvimento, sobretudo quando se entende que esta linha é a realização modelar ou paradigmática das possibilidades humanas, é de fato um mito; Lyotard tem toda a razão. Mas aqui ficamos entre duas alternativas: ou temos uma concepção do conhecimento objetivo moldada na ideia da ciência iluminista, ou temos a proclamação de uma pluralidade de narrativas dentre as quais nenhuma vale mais que a outra. Em outras palavras, ou temos a modernidade ou temos a pós-modernidade. Lyotard nem mesmo percebe que o próprio diagnóstico que está fazendo também se baseia numa dessas mitologias. É a mitologia de que tudo aquilo que vem depois absorve ou invalida o que veio antes. Ou seja, é a ilusão de que toda filosofia anterior não deixou possibilidades que não se realizassem na seguinte, não deixou sementes que não germinaram e que ainda podem germinar. Não deixou embutido nada daquilo que Nietzsche chamaria de “as auroras que ainda não se levantaram”. Ora, para desfazer essa ilusão basta que se examine um pouco a filosofia escolástica, por exemplo Duns Scott. Se há uma filosofia que deixou milhares de sementes que ainda não germinaram e milhares de auroras que ainda não se levantaram é a de Duns Scott. Eu sei que Duns Scott é um autor dos mais difíceis de se ler e que não foi à toa que recebeu o nome de Doutor Sutil, já que é de uma sutileza tal que frequentemente escapa-nos o que ele está querendo dizer e temos de voltar lá umas dez vezes. Isso indica que as fases subsequentes da filosofia nunca respondem satisfatoriamente às anteriores. Não podemos partir da premissa ingênua de que cada filósofo leu todos os seus antecessores. Geralmente ele leu seus precursores: as pessoas que estavam dizendo aquilo mesmo que ele queria ouvir. Os outros em geral ele desprezou ou não deu atenção. Se nos abrirmos um pouco para ler as filosofias que nos parecem não apenas antagônicas mas estranhas e incompreensíveis, veremos simplesmente que não existe essa evolução e que, portanto, a pós-modernidade não responde à modernidade, e esta, por sua vez, também não responde às filosofias anteriores. Essa ideia de que se demolirmos, como Lyotard e outros, o conceito de conhecimento objetivo da modernidade iluminista, estaremos demolindo junto toda e qualquer possibilidade de conhecimento objetivo, baseia-se nessa mitologia da história. Ao pensar como Lyotard você toma a filosofia do Iluminismo como expressão máxima, modelar e paradigmática do conhecimento objetivo e, portanto, se consegue demolir esssa modalidade de conhecimento objetivo, pensa que derrubou todas as outras. Mas o que dizer daquelas que foram ficando pelo caminho antes do Iluminismo e às quais o Iluminismo não respondeu pois nem sequer as conhecia? Essa narrativa histórica, que apresenta a filosofia medieval, depois a renascentista, o Iluminismo, o cientificismo e por fim a pós-modernidade, também é mítica. Isso não quer dizer que toda e qualquer narrativa histórica seja mítica. Existe narrativa histórica objetiva, mas com uma diferença: ela não é redutível jamais à uma única linha evolutiva. Nem mesmo na cronologia ela é regular. Se acompanharmos, por exemplo, o desenvolvimento da filosofia na Idade Média, na Renascença etc. e depois olharmos a filosofia islâmica, veremos que a cronologia não confere, isto é, eles não estavam discutindo as mesmas coisas, ao mesmo tempo e em todos os lugares. A filosofia islâmica tem temas absolutamente estranhos ao desenvolvimento da filosofia ocidental. Por exemplo, não podemos esquecer que a filosofia islâmica é muito próxima, por um lado, da teologia mussulmana e, por outro, da mística ou esoterismo islâmico. Vemos que a atenção que os filósofos islâmicos deram a temas que são próprios da teologia e da mística é muito maior do que aquela dada pelos filósofos do ocidente. Entre os escolásticos encontramos mais autonomia filosófica do que entre os islâmicos, por exemplo, no caso da filosofia da Palavra divina, do Logos, do Verbo. Acho que isso ocupa metade da filosofia islâmica pelo menos, não só naquela época como nas épocas subsequentes também. Certos temas que a partir da modernidade desaparecem do cenário ocidental continuam presentes na filosofia islâmica, de modo que podemos dizer que um filósofo islâmico do século XX se parece mais com um filósofo islâmico do século XI do que com um filósofo ocidental moderno ou pós-moderno. Considerando tudo isso, onde está a cronologia? Sobretudo depois da penetração islâmica avassaladora no ocidente, onde vemos o interesse pela filosofia islâmica se desenvolver de tal modo que muitos clássicos esquecidos da filosofia iraniana foram publicados em letra de forma pela primeira vez na França e só depois no Irã, falar de Idade Média, Renascença, Modernidade e Pós-modernidade já perdeu completamente o sentido. A crítica pós-moderna à filosofia moderna, ao Iluminismo, se baseia no mesmo mito historiogenético — isso era o que Voegelin chamava de historiogênese —. A historiogênese é um mito segundo o qual todo o pensamento anterior culmina na sua pessoa, no seu tempo. A ideia da pós-modernidade também se assenta no mito historiogenético. Essa observação de Scavino não é muito profunda e não estou descobrindo nada de excepcional nela. Isso é uma coisa óbvia. Basta você ter lido alguma coisa fora desse tipo de repertório estudado por Scavino e já percebe isso na primeira. O conceito de pós-modernidade como uma etapa de pensamento que se segue ao Iluminismo e responde a ele demolindo as suas bases e restaurando o valor de inúmeras outras narrativas ou jogos de linguagem baseia-se inteiramente no mito historiogenético do próprio Iluminismo. Como é que o sujeito não percebe isso? Como você pode falar de uma pós-modernidade senão como etapa que responde a uma anterior ou, mais do que isso, a uma parte do pensamento anterior? Claro que se você seleciona os filósofos que se encaixam na visão da história que você já tem, obtém aí uma linha evolutiva muito clara. E é evidente que se você é o sujeito que está narrando essa evolução, pelo simples fato de sê-lo, você é o ponto culminante da narrativa. Toda essa crítica pós-moderna à modernidade repete o mito historiogenético da modernidade e prende-nos dentro de uma falsa alternativa: ou temos a ciência objetiva do Iluminismo, ou temos a pluralidade dos jogos de linguagem, o desconstrucionismo e tudo mais. Mas quem disse que as alternativas a escolher são essas? Quem disse que não há outras saídas? Só porque isso é o programa de algumas faculdades de hoje? E das piores dentre elas? Notem que no Brasil, em praticamente todas as faculdades de filosofia, ser aceito como um filósofo, como um bacharel em filosofia ou como um doutor em filosofia, consiste precisamente em absorver essa atmosfera de discurso e de debate descrita aqui em Dardo Scavino. Ser um filósofo é ser um sujeito que sabe discutir modernidade, pós-modernidade, Lyotard, Derrida, Wittgenstein etc. Se você aprende a falar como eles, é aceito como um sujeito qualificado para a filosofia, embora essa concepção da filosofia seja uma coisa terrivelmente provinciana. “(...) para legitimar essa estratégia, a própria modernidade inventou esses relatos míticos que são as filosofias da história. (....) O que se transmite com estes relatos é um grupo de regras pragmáticas que constituem o laço social, a boa maneira de comportar-se socialmente (...)” Pois é exatamente isso que estou dizendo. Mas acontece que com a pós-modernidade acontece a mesma coisa. Para ser aceito como um filósofo na USP, você tem de aprender as regras de bom comportamento da pós-modernidade! Então continuamos dentro da mesma regra. Existia um jogo de linguagem da modernidade que foi trocado por outro jogo de linguagem que é o da pós-modernidade, e embora digamos que todos os jogos de linguagem se equivalem, temos uma presunção implícita de que o nosso jogo de linguagem é superior ao anterior e até o demoliu. Mas se todos os jogos de linguagem se equivalem, como é possível alegar que os jogos de linguagem da pós-modernidade demoliram o conceito de conhecimento objetivo do Iluminismo ou qualquer outro? Trata-se de uma presunção absolutamente [00:30] contraditória. Qualquer visão da história do pensamento ou da história da humanidade que se baseie nesta coisa dos jogos de linguagem vai terminar precisamente nisso. É claro que algumas abordagens são apenas jogos de linguagem, mas nenhuma delas pode ser isso completamente. Alguma referência ao mundo exterior sempre tem de haver. Alguma presunção de conhecimento objetivo está sempre embutida até no conhecimento mais mítico e imaginário que você possa conceber. Não vejo por que aceitar essa autonomia dos jogos de linguagem quando o simples fato de haver uma teoria sobre os jogos de linguagem já prova que eles não podem se equivaler. Ou essa teoria é apenas mais um jogo de linguagem, o que significa que os jogos de linguagem que ela descrevem não são absolutamente do modo como ela os descreve, ou então essa teoria tem alguma validade historiográfica presumidamente absoluta. Como eu posso descrever um jogo de linguagem sem que haja nisso a presunção de que a minha descrição o descreva efetivamente e de que ela não seja portanto só mais um jogo de linguagem? Se fosse assim, qualquer descrição de um jogo de linguagem seria arbitrária e não teria nada a ver com o referido jogo de linguagem. Aqui não estamos nem mais no mundo da paralaxe cognitiva, estamos no mundo da psicopatologia mesmo! Estamos num mundo onde o sujeito não percebe que o fato de ele estar dizendo algo já prova que o que ele diz é falso. No começo do processo da paralaxe cognitiva, que remonta aos séculos XVI e XVII e que já se via claramente em Maquiavel, havia um deslocamento entre o eixo da construção teórica e o eixo existencial completo do indivíduo, mas não havia esse deslocamento imediato que nos coloca frontalmente face ao paradoxo do mentiroso — quando o sujeito está dizendo que é um mentiroso você precisa ver se ele mentiu em tudo mais ou se está mentindo agora, porque as duas coisas não são possíveis —. Esse deslocamento material imediato não enxergamos nem mesmo em Maquiavel, pois este às vezes sabe que está mentindo. Mas quando esses camaradas dizem, por exemplo, que todos os jogos de linguagem se equivalem, nossa pergunta deve ser: eles se equivalem efetivamente ou esta equivalência é só mais um jogo de linguagem, podendo haver também uma não equivalência e uma escala de valores absoluta? Vemos que não há resposta para essa pergunta. “Pois bem, o paradoxo é que o feliz herói desses mitos (...)” Ele está se referindo aos mitos da modernidade, em que se acredita possuir o conhecimento objetivo, científico, racional etc. “(...) o paradoxo é que o feliz herói desses mitos é o homem novo, racional, livre de prejuízos, o homem eficiente, enfim, o homem moderno. (...) Como conclui Vincet Descombes em seu comentário de A Condição Pós-moderna de François Lyotard ‘o homem moderno acreditava profundamente em um sentido da história: podia assim tomar partido, defender causas, comprometer-se em uma organização política’. O homem pós-moderno, em contrapartida, ‘é o mesmo homem moderno no qual o espírito critico superou os últimos restos de credulidade, ele já não crê nos grandes relatos do liberalismo e do marxismo’. (...)” Os “grandes relatos” de que ele fala são essas grandes filosofias da história. Por exemplo, o liberalismo que acredita no progresso da humanidade, a famosa história como “história da liberdade” de Benedetto Crocce, o marxismo que acredita que há uma sucessão histórica racionalmente compreensível que desembocará na sociedade sem classes etc. Quer dizer que o homem moderno acreditava no conhecimento objetivo, mas ele ainda tinha um resto de ilusão de que podia conhecer os grandes relatos, isto é, a filosofia da história, o desenrolar da história. Já o homem pós-moderno é ainda mais racional, mais objetivo e mais implacável, e já não crê nem nisso. Todavia, apesar de não crer nisso, ele crê que superou a filosofia anterior. Dessa forma ele acredita que há um desenvolvimento histórico. E também acredita que pelo fato de ter derrubado os grandes mitos do Iluminismo, que seriam o liberalismo e o marxismo, derrubou tudo, todas as possibilidades de conhecimento objetivo, e só ficou com o discurso e os jogos de linguagem. Mas isso também é uma credulidade, por se tratar de algo que você não pode provar de maneira alguma. “(...) Segunda consequência da pragmática wittgensteiniana: o sujeito já não tem identidade anterior ao papel que protagoniza em um determinado jogo de linguagem. (...)” Isso é fisicamente impossível! Você não pode aprender um único jogo de linguagem, não pode dizer nem “gu gu dá dá”, sem ter alguma identidade como sujeito. Seu eu digo “gu gu dá dá”, estou supondo que o sujeito que falou a primeira sílaba “gu” e a última sílaba “dá” é o mesmo. A continuidade temporal do sujeito é a condição sine qua non para o aprendizado de qualquer linguagem, mesmo a mais simples. Para o sujeito dizer “mamãe”, precisa continuar o mesmo enquanto ele diz a primeira silaba “mã” e a segunda “mãe”. Se ele não tem este senso da continuidade do “eu”, não pode aprender linguagem nenhuma. Uma das maiores dificuldades no aprendizado é justamente a retenção. Se não existe retenção não há aprendizado. Como pode haver retenção se ela não se sustenta na própria identidade do sujeito? Se eu perco a minha própria identidade entre uma palavra e outra, ou entre uma sílaba e outra, não vou aprender nada! Essa é uma observação tão simples! Agora entendo por que baseado nessas coisas Jean Piaget desenvolveu o tal do sócio-construtivismo que é hoje a maior causa de analfabetismo no mundo. Se você parte da ideia de que todo conhecimento é construído, de que a própria identidade do sujeito é construída, você não consegue nem ensiná-lo a ler. Essa é a coisa mais óbvia do mundo! O coitado não pode sequer ter uma identidade? O professor e a escola é que vão vestir uma identidade nele ou ele vai construir a sua própria identidade? Como é que eu posso construir minha identidade se eu não tenho uma? Eu posso ampliar a minha identidade, posso aprofundá-la e inclusive perdê-la — a esquizofrenia é isso —, mas se eu não tenho nenhuma, não posso construir outra. A identidade do sujeito, sua continuidade temporal é a condição de qualquer aprendizado. Sabemos que essa continuidade não é perfeita. Ela é imperfeita porque dentro de você não existe só o sujeito, mas um monte de funções e componentes que não são você, a começar pelo seu próprio cérebro. Se vimos há aulas atrás que a consciência sobrevive à cessação das atividade do cérebro, é porque a continuidade do sujeito não tem nada a ver com o cérebro. No cérebro nada é contínuo: todos os pensamentos, estímulos e conexões neuronais são descontínuos. Uma simples ideia que você pensa é constituída de uma cadeia de sinapses e pode haver milhões de sinapses para se poder dizer “gu gu dá dá”. Para aprender uma conta de dois mais dois, eu nem sei quantas sinapses são necessárias. Isso significa que se a nossa consciência dependesse do cérebro, jamais chegaríamos a ter uma. Existe um outro fator de continuidade ontológica absoluta por trás da atividade cerebral cognitiva, sem a qual nenhuma atividade cerebral seria possível. Mas acontece que o pessoal iluminista não aceitava isso de jeito nenhum. David Hume acreditava que nós só temos estados mentais, mas que não há nenhum sujeito ou “eu” por trás. Ele não chegava a afirmar que não havia nenhum “eu”, mas dizia que não via nenhum “eu”. Seria muito estranho se visse, porque o “eu” não está aí para ser visto, mas para que ele mesmo veja. Ele é que tem de saber e não ser sabido. Ou seja, o “eu”, como diria mais tarde Ortega y Gasset , é algo eminentemente executivo. Ele não é uma coisa. O pessoal do Iluminismo acreditava que toda a atividade consciente deveria ser reduzida a atividades fisiológicas. Nenhuma dessas atividades fisiológicas, naturalmente, tem continuidade. Não há um único processo fisiológico contínuo que se possa observar, todos são absolutamente intermitentes — no mínimo sofrem variações de ritmo —, e as atividades cognitivas são mais fragmentárias ainda. Se não existe, por trás de todas essas atividades, um “eu” substantivo ontológico que não se identifica com as funções corporais, então o conhecimento é absolutamente impossível. No entanto, os iluministas acreditavam que existisse conhecimento objetivo, racional, científico etc., mas não que houvesse um sujeito por trás. É claro que isso tinha de dar problema mais cedo ou mais tarde. Como já tinha profetizado Giordano Bruno: “se vocês continuarem com esse negócio de materialismo, vão acabar não acreditando que vocês mesmos existem”. Essa é a profecia mais certa que alguém já fez sobre o desenvolvimento da história filosofia, com dois séculos de antecedência. Giordano Bruno não era nada burro. Agora, dois séculos depois de David Hume, chegamos a esta segunda consequência da pragmática wittgensteiniana: o sujeito já não tem uma identidade anterior ao papel que protagoniza em um determinado jogo de linguagem. É claro que isso é impossível. Aquilo que não existe não pode protagonizar papel algum. [00:40] A não ser que você tenha um teatro, onde os papéis se protagonizam a si mesmos, não precisando de atores e nem mesmo de um desenho animado. Veja que o referente, o objeto ao qual a linguagem se referia, já desapareceu faz tempo, e que agora desaparece também o sujeito. Isso também quer dizer que o referente não pode servir de prova para se dirimir uma dúvida entre dois juízos contraditórios. Não há uma coisa à qual possamos nos referir, pois para isso é necessário supor que o referente tem uma existência empírica e que permanece idêntico a si mesmo. São duas condições sem as quais – como dizia Frege – não é possível provar nada e nem ter conhecimento científico algum. “(...) Porém note-se que agora estas condições já não são ‘metafísicas’, segundo a terminologia de Habermas, mas são ‘comunicativas’ ou ‘lúdicas’: regras às quais responde este ‘jogo de linguagem’ chamado ‘ciência’. (...)” Ou seja, este jogo de linguagem chamado ciência fixa determinados significados e estes é que passam a julgar e dirimir as diferenças entre juízos contraditórios. O que permite que se arbitre entre juízos contraditórios não é a observação de um objeto, de uma substância que existe, mas apenas a fidelidade maior ou menor desse juízo a uma regra de um determinado jogo de linguagem que se chama ciência. “(...) Daí que esses filósofos já não falem de ‘condições de verdade’ (...)” Frege falava que um juízo é verdadeiro quando atende às condições da sua veracidade. “(...) Então não se fala mais de condições de verdade, mas de ‘condições de aceitabilidade’: um enunciado não é científico porque diz algo verdadeiro a respeito de um estado de coisas; ele o é porque respeita certas regras de jogo, entre as quais se encontra, é claro, o fato de pretender dizer algo de verdadeiro a respeito deste estado de coisas. (...)” Mas pergunto: o que estes filósofos dizem aqui é por sua vez somente um jogo de linguagem ou a descrição de um estado de coisas? Se é apenas um jogo de linguagem, podemos dizer que a coisa é assim sob certos aspectos, mas pode não ser sob outros. Porém, se a descrição corresponde a um estado de coisas que acontecem num reino chamado ciência, então ela não é somente um jogo de linguagem, mas uma descrição objetiva do estado de coisas. Como é que um filósofo pode chegar a este nível de irresponsabilidade? Estava lendo ontem Kart Claus, um crítico da psicanálise, que dizia que “a psicanálise ampliou as fronteiras da irresponsabilidade”. Acho que isso se aplica inteiramente a este pensamento, tanto moderno, quanto pós-moderno: qualquer sujeito pode dizer qualquer coisa. Claro que entre as condições da regra do jogo está a pretensão de que a afirmação científica diz algo de verdadeiro sobre este estado de coisas. Porém sabendo que não há descrição objetiva deste estado de coisas, há somente uma obediência maior ou menor à regra de jogo chamada ciência. “(...) Porém, sua ‘verdade’ só será aceita como válida até que alguém possa refutá-la. Justamente, uma das regras do jogo científico é que as provas trazidas devem ser passíveis de refutação (...).” Ora, aí há uma confusão lógica elementar entre a forma lógica do raciocínio e o seu conteúdo de veracidade. É claro que para ser científica qualquer afirmação tem de ser expressa de tal modo que haja uma refutação lógica possível, mas não quer dizer que essa refutação seja válida. Por exemplo, se eu digo que todos os “x” são “y”, mas não sei o que é “x” nem “y”, então evidentemente isso não é uma afirmação científica válida, pois não posso nem prová-la e nem refutá-la. Nesse sentido, para que uma afirmação seja aceita como científica, ela obviamente tem de poder ser refutada ou provada. Ora, se não há condições de prová-la, como pode haver condições de refutá-la? Claro que você pode fazer isso mediante um artifício lógico, mas a refutação já não significa nada, porque esta por sua vez também tem de se expressar numa forma lógica que admita a sua própria refutação e assim por diante. O curioso é que isso evidentemente reduz a ciência a um jogo. Porém ao mesmo tempo nunca houve, nem no tempo do Iluminismo, tanta presunção de autoridade social por parte da ciência quanto hoje. Qualquer afirmativa que seja aceita pelo consenso científico imediatamente é absorvida pelo Estado e transforma-se em obrigação legal. Por exemplo, porque a ciência diz que as comidas gordurosas fazem mal para as crianças, vários países já estão estabelecendo controles draconianos sobre as comidas gordurosas, para não falar do fumo e outras coisas. Claro que aí também há uma seletividade que depende do gosto do freguês, da corrente política e do grupo de pressão que esteja por trás disso. Ninguém jamais me provará que fumar é mais perigoso do que praticar sexo anal, por exemplo. Estou fumando há quarenta e cinco anos, dois ou três maços por dia. Imagine se eu tivesse praticado sexo anal com essa frequência. Eu não poderia estar sentado aqui dando esta aula já há muitos anos. Mas o sexo anal é um valor consagrado para determinados grupos de pressão, então não pode ser tocado. Ao mesmo tempo existe a presunção de que essas proibições estatais são fundadas na ciência. Ora, essa é uma ideia que não tinha ocorrido sequer aos iluministas. No tempo do Iluminismo não havia nenhum cientista que achava que a sua descoberta tinha de ser imposta para todo mundo pelo Estado. Dois séculos depois, quando a presunção de objetividade do conhecimento iluminista já foi “derrubada” pela crítica pós-moderna, justamente aí a ciência se investe de uma autoridade que não tinha nem no tempo do Iluminismo. É claro que tudo isso é loucura. Estamos vendo a evolução de um processo altamente psicótico que consagra uma irresponsabilidade em um nível realmente inimaginável. “(...) Uma vez mais o principio lógico é substituído por um principio retórico: trata-se de convencer os destinatários da validade de um enunciado, e para que estes o aceitem, o destinador deve respeitar certas regras de jogo (...).” É aquele negócio do Richard Rorty: “não podemos provar nada, mas podemos induzir as pessoas a pensarem como nós”. E ele jamais se faz a pergunta: mas elas vão pensar realmente como nós? Você quer apenas que elas aceitem momentaneamente certo jogo de linguagem ou quer que elas aceitem essa regra de jogo a ponto de conduzir o resto de suas vidas segundo a mesma? São duas coisas completamente diferentes! Você não pode dizer que isso seja apenas uma regra de jogo tão válida como qualquer outra e pretender que o sujeito lhe obedeça pelo resto da vida dele. Mais ainda, você tem de ter um critério para saber se o sujeito está obedecendo ou não. Mas se esse critério, por sua vez, for apenas uma regra de jogo, pode ser que você fique naquela situação em que esteve o presidente Sarney, odiado pelo país inteiro e se achando o presidente mais popular desde Getúlio Vargas. Ele não fazia questão de ser obedecido realmente, só de mentirinha. A persuasão de que fala Richard Rorty, esta imposição de estilos de linguagem, é para valer ou é só de mentirinha? “(...) Assim interpretam alguns filósofos o chamado ‘princípio de razão suficiente’ de Leibniz , que pode enunciar-se assim: ‘Nada ocorre sem razão’. Pois bem, já o próprio Leibniz dava outra versão deste princípio: ‘podemos dar razão de toda a verdade’. E por isso a chamava também principium renddendæ rationis, o ‘princípio de dar razão’, como traduz Heidegger aquela frase. A diferença é sutil mas fundamental: em um caso Leibniz quereria dizer que desde um perspectiva científica todas as coisas tem uma razão de ser. No segundo caso quer dizer que a ciência é aquele discurso baseado no seguinte princípio ou obrigação: prover sempre as razões acerca das coisas que se afirmam.” Leibniz dizia duas coisas: primeiro, que todas as coisas tem razão de ser e, segundo, que se queremos fazer um discurso científico, temos de dar razão daquilo que dizemos. Mas para Leibniz este segundo sentido derivava do primeiro. Por que temos de dar razão? Porque as coisa têm razão de ser, e se não damos a razão suficiente de que elas sejam de um jeito ou de outro, então não provamos absolutamente nada a respeito delas. Mas os filósofos modernos separam essas duas acepções do princípio de razão suficiente e adotam somente a segunda: as coisas não tem nenhuma razão de ser, nós é que temos de dar alguma razão. Ou seja, temos de justificar retoricamente aquilo que dizemos, temos de falar persuasivamente. “No segundo caso, já não se privilegia a relação do pensador com o fato preexistente mas com um interlocutor ao qual é preciso dar razões aceitáveis para convencê-lo (...)” [00:50] Então de fato houve uma passagem da prova científico-lógica para a prova retórica. Então todas as provas científicas passam a ser retóricas, exceto esta mesma, evidentemente. Mas por que esta mesma não é apenas retórica? Com base em quê? Se todas as provas são retóricas por que esta não é? Quando você diz que as coisas são assim, quer dizer que são assim de fato ou apenas quer que sejam assim? Mesmo se você disser que apenas quer que elas sejam assim, como posso saber se você realmente quer que as coisas sejam assim ou se está apenas propondo mais um jogo de linguagem? E assim por diante, infinitamente. Nessa perspectiva, uma descoberta científica passa a ser uma jogada não prevista nas regras do jogo anterior, mas que também não é proibida pelas mesmas regras. Você inventa uma nova jogada, prova que ela está de acordo com as regras do jogo anteriormente jogado e fica tudo certinho. Prossegue Scavino: “Uma vez mais coloca-se aqui o problema da verdade. Recordemos o que diziam os hermeneutas: a verdade é possível graças à abertura originária ao ‘mundo da vida’, mundo que Habermas concebe como aquele ‘entendimento pré-estabelecido numa camada profunda de evidências, de certezas, de realidades que jamais são questionadas...’” (...) Notem bem, o Lebenswelt, o mundo da vida tal como Husserl o concebia, era o mundo no qual nós vivemos. Ele não distinguia nesse sentido entre mundo natural, social etc., porque essas distinções são posteriores. Nós estamos abertos à realidade tal como ela se apresenta em sua totalidade e dentro dela estabelecemos distinções. A partir de Heidegger começa-se a entender a expressão Lebenswelt como o mundo cultural: um mundo de referências e significações, constituído de linguagem, e linguagem aprendida. Novamente pergunto como poderíamos aprender essas linguagens se não tivéssemos uma existência substantiva anterior. Dito de outro modo, se o sujeito não existe, como pode aprender alguma coisa? É claro que entramos aqui em um círculo vicioso. Mas esse é um ponto do qual toda essa corrente de filósofos jamais desiste. Não existe experiência originária. A experiência originária é a imersão num mundo cultural. Esse mundo cultural consiste de significações acumuladas, certezas, sentimentos etc. Mas quanto tempo levei para aprender alguma dessas evidências acumuladas? Eu só posso aprendê-las evidentemente através da linguagem. Por exemplo, quando um menino toma o brinquedo do outro as pessoas dizem que aquilo é feio e que não se faz. Porém, o ato de tomar o brinquedinho do outro não foi aprendido. É necessário cometer alguma transgressão para que alguém o corrija. Mesmo assim leva um tempo para você aprender. Lembro-me, por exemplo, que levei algum tempo para aprender a controlar minha inventividade quando era criança. Eu inventava as histórias mais mirabolantes, contava para as pessoas, elas acreditavam e eu saía rindo. Depois de algum tempo percebi que isso era inconveniente, que podia criar um problema para mim, mas não aprendi isso imediatamente. Existe o valor da confiabilidade, da honestidade, da sinceridade, e levou algum tempo para eu meter isso na minha cabeça. Se eu não tivesse nenhuma existência substantiva ao longo de todo esse aprendizado, como é que eu poderia ter adquirido esse mesmo aprendizado? Veja como pode ser complexo o aprendizado das mais simples regras morais, por exemplo, não mentir ou não bater em seu irmãozinho menor ou maior — meu irmão era maior e mais forte do que eu, então eu achava que era uma coisa inteiramente normal, caso ele me desse um soco, que eu respondesse com uma bengalada em sua cabeça, até que me avisaram que aquilo podia ser perigoso —. Essas coisas você tem de aprender. Se você não tem nenhuma existência substantiva ao longo de todo o processo de aprendizado, e se ela não se mantém, como é possível o aprendizado? Você esqueceria tudo imediatamente. Digamos que eu aprendi um papel social. Mas terá sido outro papel social que aprendeu este papel social? Debaixo de todos os papéis sociais não tinha um ator no começo? Essa é uma coisa tão tola, tão boba, que o simples fato de o sujeito dizer uma coisa dessas já deveria ser o suficiente para mandá-lo para casa. Trata-se evidentemente de frivolidade. Husserl falava que havia uma abertura originária ao Lebenswelt, o mundo da vida. Nós estamos num mundo e abertos à realidade de um modo geral. As distinções e estruturações que vêm depois são processos longuíssimos de aprendizado, mas se não houvesse este Lebenswelt originário nada poderíamos aprender, estaríamos no vazio. Mas esses camaradas dizem que o Lebenswelt já é constituído de uma série de construções sociais. Por exemplo, reporto-me a uma experiência originária que descrevi em um artigo chamado Filósofo Mirim, onde recordo que, como eu ficava deitado por muito tempo por estar doente, o problema das direções do espaço e da diferença entre a perspectiva horizontal e vertical me preocupou longamente. Estando deitado por muito tempo, quando eu levantava, ficava tonto e não conseguia ficar de pé. Como é que eu ia me acostumar com a vertical? E isso sem saber sequer esses nomes! Por acaso essa experiência foi uma herança cultural? As noções das direções do espaço, sem as quais não podemos entender absolutamente nada, fazem parte da estrutura básica da percepção. De onde eu aprendi isso? Foi de uma experiência cultural? Não, foi de uma experiência direta da abertura real ao mundo da vida. Eu não vejo quem pudesse ter me ensinado as direções do espaço, e no entanto é lógico que eu não nasci sabendo as direções do espaço; eu tive de tomar consciência delas. Muitas pessoas tomam consciência disso de maneira mais ou menos automática quando vão aprendendo a caminhar e a ficar de pé e depois esquecem que aprenderam. Mas qualquer bebê que está tentando aprender a andar tem de captar a distinção entre vertical e horizontal, e para frente e para trás. Ele aprende, mas por se tratar de um aprendizado mudo, logo esquece. Entretanto, para mim esse aprendizado levou um pouco mais de tempo. Uma criança aprende a andar com cerca de um ano, mas eu tive de reaprender a andar muitas vezes. Então é por isso que fiquei retardado em relação aos outros meninos. É por isso que me lembro de como aprendi, enquanto os outros não se lembram. Eles passaram por esse aprendizado e foram em frente. Isso para eles não foi um problema, mas para mim foi. Há varias outras coisas de aprendizado do mundo físico que para mim foram problemáticas e por isso mesmo eu as gravei na memória, mas a maior parte das pessoas as esqueceu. Por exemplo, lembro-me de ficar deitado por tanto tempo que trocava de roupa na cama sem me levantar. Como é que você vai fazer para não meter as duas pernas no mesmo cano da calça de pijama? Também é um problema de direções do espaço, mas eu inúmeras vezes me via, sem perceber, imobilizado. Daí tinha de começar tudo de novo. Em todas essas relações com o mundo físico imediato, você tem uma imensidão de aprendizado onde não há elemento cultural algum! É uma consciência colocada perante às determinações brutais do mundo físico. Como você pode dizer que esta abertura originária é simplesmente um conjunto de crenças que jamais foram questionadas? Do que o sujeito está falando? Ele nunca aprendeu a andar? Por exemplo, como é que você faz quando sai da mamadeira para a comida sólida? Como é que você faz para não engasgar e para a comida não parar em seu canal nasal? Todo mundo aprendeu isso, mas quando era muito pequeno. Mas eu, como tive de aprender e reaprender várias vezes, percebi que isso era um problema. Ora, qual era o elemento cultural que havia ali? Eu não tinha sequer a capacidade de expressar qual era o problema que estava tendo. Eu não podia explicar isso para ninguém, mas vivenciava o problema fisicamente. Outro exemplo é a sensação de peso do seu corpo. Para você andar, se mexer etc. precisa ter um controle do peso. Precisa saber onde está o centro de gravidade, como se equilibrar etc. Todo mundo também aprendeu isso com um ou dois anos, mas eu continuei aprendendo até cinco ou seis. Lembro-me que tudo isso foi um problema. Mesmo aqueles que não se lembram podem fazer um esforço de memória e evocar essas situações para conferir . Você teve experiências de aprendizado da estrutura do mundo, da estrutura espaço-temporal do mundo, nas quais o aporte cultural foi zero. Sem esse aprendizado básico, você não aprenderia nada mais. Você não aprenderia nem a linguagem. Se você não tem as direções do espaço, você não tem nada. “Com esta teoria orientada antes por uma psicologia da comunicação, Paul Waltzlawick, um dos teóricos da escola de Palo Alto (na Califórnia), se propõe a demonstrar que nossa imagem da realidade depende em boa medida da confirmação ou não confirmação que traz [1:00] à nossa percepção o testemunho do outro, sobretudo se trata-se de uma pessoa que goza de certa autoridade.” Aí sim, é claro. A autoridade e a confiabilidade são elementos básicos em nosso aprendizado. Porém, este aprendizado da confiança e da autoridade é um elemento cultural ou existe algo de físico nele, sem o qual o elemento cultural não poderia jamais chegar até a sua consciência? Por exemplo, considere o conforto físico que o bebê sente no colo de sua mãe, aquele sentimento de segurança — em primeiro lugar de segurança física — quando ele sabe que não vai cair. Sem isso não poderia haver nenhum aprendizado posterior sobre a confiança e a autoridade. Esse sentimento de confiança do bebê protegido por sua mãe é algo que compartilhamos com os animais. Um cachorrinho tem isso. Como você vai dizer que isso é cultural? Esses são exemplos de experiências diretas, não mediadas culturalmente, que constituem a base sobre a qual a cultura pode operar. O testemunho, a autoridade e a confiabilidade exercem, é claro, um papel importante em nossa visão do mundo, mas se assentam em uma coisa que não deriva da cultura, mas de uma experiência que tivemos que vem exatamente da nossa presença direta em um universo físico. Essas experiências ficarão para sempre conosco como modelo do conhecimento objetivo, e não a aquisição posterior de crenças culturalmente validadas. A autoridade ou a confiabilidade podem falhar, mas como é que você vai saber se falharam se não sabe o que é direção do espaço, peso e movimento? Sem isso você não pode saber nada mais. Por isso acho uma coisa fabulosa essa experiência direta do mundo físico, essa absorção das suas estruturas. Logo no começo deste curso lembro-me que dei alguns exercícios para vocês absorverem essas experiências ou recordarem-se delas. Quando dizemos que uma autoridade é confiável, qual é o sentido da confiabilidade? Reportamo-nos à experiência física da imobilidade do chão. Ou não? Ou seja, estamos assentados em um chão que não se move, porque se ele começar a se mover você estará em uma situação terrível. Por que falamos de firmeza? Por dizemos que temos firme confiança em alguma coisa. Como é que uma confiança pode ser firme? Firmeza é um atributo das coisas físicas. Você está usando uma figura de linguagem que atribui a uma pessoa, ou à palavra que ela lhe deu, a mesma firmeza que você sentia quando, desde pequeno, assentava-se no chão e sabia que enquanto você se movia o chão permanecia no mesmo lugar. Essas experiências da estrutura do mundo físico são básicas para que no resto de sua vida você consiga distinguir entre o que é herança cultural e o que é a presença objetiva do mundo físico. Dizer que você só absorve o mundo físico através da cultura é dizer que você não tem capacidade de se mover, de digerir ou de respirar. É a cultura que lhe permite tudo isso? Como é que você vai respirar culturalmente? Em que mundo vivem essas pessoas? Isto aqui pressupõe um estado de alienação em relação ao seu mundo físico que é realmente psicótico. Por que prestamos atenção nessas pessoas? “De modo que a realidade, conclui Waltzlawick, depende em grande medida do consenso.” Sim, em grande medida. Porém esse consenso seria impossível se não houvesse dois fundamentos anteriores: a unidade substancial do “eu” com sua continuidade no tempo e a estrutura do mundo físico. A estrutura compreendida não nos termos em que a ciência, iluminista ou não, a compreende, mas no sentido que ela tem para o bebê que aprende a andar, respira, come, dorme etc. Como dizia Husserl, essa é a abertura originária ao mundo da vida. “As verdades se confundiriam então com uma espécie de conformidade com os ‘sentimentos estabelecidos’?” Quem é que não sabe distinguir entre verdade e sentimentos estabelecidos? Todo mundo sabe! Somente um imbecil completo não sabe distinguir entre a confiabilidade de uma pessoa e a firmeza do chão onde ele anda. Por mais confiáveis que sejam o seu pai, a sua mãe, a sua avó, a sua tia, as autoridades etc., ninguém espera deles essa firmeza absoluta. Se fosse assim toda autoridade teria um poder avassalador sobre nós. Mesmo a obediência extrema pressupõe a capacidade de fazer esta distinção, pois você sabe que a firmeza e a confiabilidade de uma pessoa ou de uma instituição só tem alguma validade na medida em que imita a firmeza do chão onde você se assenta. O que este livro está dizendo é que os sentidos metafóricos da firmeza, da continuidade, da substancialidade, predominam sobre os sentidos originários adquiridos da primeira abertura do indivíduo para o mundo da vida. Parece que estes camaradas nunca foram crianças ou não se lembram de suas experiências infantis. Eric Voegelin, em seu livro Anamnesis, dá especial importância a essas experiências infantis porque elas criam a estrutura sobre a qual você pode absorver o legado da cultura. Como é possível que a abertura originária ao mundo da vida se constitua apenas da absorção de crenças, hábitos etc. ou aprendizado da linguagem? Aluno: Por que os teóricos pós-modernos negam a existência da verdade, mas nenhum tem a coragem de dizer que a mentira não existe? Por que ninguém duvida da existência da mentira? Olavo: A verdade se opõe a três coisas: (a) ao erro, que seria uma descrição inapropriada dos fatos; (b) à mentira, isto é, ao engano proposital; (c) e à falsa promessa, que não é uma mentira na hora em que é formulada, mas uma mentira futura, por assim dizer. Tenho a impressão de que a partir dos pressupostos deles não tem como estudar isso. Seria definir a mentira apenas como a falha dentro de um determinado jogo de linguagem: você começou usando um determinado jogo de linguagem e depois passou para outro; começou usando uma regra e depois passou para outra inadvertidamente ou propositadamente. Mas minha pergunta continua: como posso distinguir entre um jogo de linguagem e outro jogo de linguagem se a distinção entre eles é somente mais um jogo de linguagem? Eles não podem fazer um estudo sobre a mentira porque estão baseados nela. Isso tudo é mentira. É uma falsificação monstruosa baseada na convicção absolutamente despropositada de que o mundo do diálogo filosófico acadêmico é o mundo real. Eles vêem apenas o que uns deles dizem para os outros e analisam tudo baseados nisso. Não há uma única referência à experiência real, sobretudo a essas experiências de base de que falei, que podem ser esquecidas ou banalizadas em uma etapa posterior, mas que no momento em que você as viveu eram de uma importância extraordinária. São nessas horas que você tem de lembrar do conselho evangélico “se não vos tornardes como os pequeninos, não entrareis no Reino dos Céus”, ou seja, se você não é capaz de recuperar as experiências fundamentais que embasaram a sua imagem do mundo quando você era criança, nunca vai entender coisa alguma. Essa é uma aplicação muito prática e, por assim dizer, pedagógica de um conselho evangélico. É claro que não será válido se você apenas recordar essas experiências para fins de estudo filosófico e não absorver a tremenda seriedade delas na vida real. Georges Bernanos, que era um grande escritor, quando perguntado para quem escrevia, respondeu que escrevia para o menino que tinha sido. Ou seja, este é o meu juiz; se eu traí-lo, tudo que escrevi não vale nada. Porque é justamente a criança que tem essas experiências fundamentais. Mas se você esqueceu tudo, então tudo que está construindo é na base do esquecimento e da ignorância. O esquecimento é ignorância. Aluno: Qual a relação para esta abertura inicial para a vida, o conhecimento por presença e o elemento tácito a que se refere Michael Polanyi? Olavo: Acho que a única diferença que há em relação ao elemento tácito de Michael Polanyi, é que este elemento de que estou falando não é tácito de maneira alguma. Ele não precisa ser tácito. Tácito é aquilo que é calado, que não é falado, que não entra no discurso. Mas ele está entrando no discurso agora mesmo. Eu estou falando dele e, na medida em que falo, vocês podem recuperar essas experiências. Elas não têm [1:10] de ser tácitas, elas não são indizíveis. Elas podem permanecer tácitas dentro de um diálogo científico filosófico, desde que esse discurso admita a presença delas. Mas em relação ao conhecimento por presença, ele está ainda mais abaixo disso. Essas experiências iniciais são uma maneira de você entender que existe o conhecimento por presença, mas elas ainda não são o conhecimento por presença. Ao contrário, se estou falando que são experiências, são coisas que se desenrolam no tempo e que subentendem uma presença. Elas podem lhe recordar a presença. Mas o conhecimento por presença pode ser restaurado quantas vezes você quiser: é só você lembrar de tudo aquilo que tem de saber o tempo todo para que, neste momento em particular, você saiba alguma coisa. Note bem, em qualquer debate científico ou filosófico da vida diária, estamos falando de algumas coisas em particular, mas para que possamos falar dessas coisas em particular, precisamos saber de inumeráveis outras. Quando você puxa de dentro de si esse conhecimento que sempre teve, você passa por uma camada, claro, de elementos que foram adquiridos culturalmente, mas chega uma hora em que você percebe que tem algo mais que a cultura não abrange e que não está, por assim dizer, dentro do mundo no sentido bíblico. Quando se fala dos três inimigos da alma — o mundo, o diabo e a carne —, o mundo seria justamente o falatório, o elemento cultural, mas por baixo dele tem algo que o fundamenta e que o torna possível, e que contém muito mais coisas do que você pôde aprender até nas suas experiências primeiras infantis. No entanto, mesmo essas experiências pressupunham já uma espécie de sentimento do maravilhoso, do imenso, que não é uma coisa inventada por você, mas é efetivamente uma percepção. Por exemplo, quando você percebe a simples imensidão de alguma coisa. Você pode estar colocado diante de montanhas majestosas, diante do oceano, e não perceber nada. Mas na hora em que você percebe, você pode dizer que aquele é um sentimento que está apenas dentro de você? Ou ao contrário, você se abriu para alguma coisa que está lá e que não foi você que pôs? Aluno: Todos estes numerosos exemplos que o senhor dá de experiências diretas do mundo físico, essa estrutura do mundo físico, não são possibilitadas por aquela esquecidíssima faculdade aristotélico-tomista da cogitativa, que é o intermediário entre os sentidos e o intelecto? Olavo: Sim, provavelmente sim, mas não estou aqui enfatizando a faculdade cognitiva que capta estes objetos, mas as presenças dos próprios objetos. Não adiantaria você ter toda a cogitativa do mundo se o objeto está ausente. Aluno: O senhor mencionou Ibn Khaldun na última aula. Estou em contato com a câmara Brasil-Árabe, o embaixador da Tunísia no Brasil e a Bibliaspa, Biblioteca da América do Sul e Países Árabes. Trata-se de um centro de estudos que foi montado com o intuito de ativar o intercâmbio cultural entre o Brasil e os países árabes. Estamos tentando montar um Instituto Ibn Khaldun. A iniciativa ainda está no berço, mas existe o ânimo de unir esforços para inserir Ibn Khaldun no Brasil. (...) Olavo: Ibn Khaldun já foi introduzido por meu falecido professor de língua árabe, José Curi, que fez uma tradução absolutamente majestosa da introdução do livro de Ibn Khaldun. A introdução tem três volumes de 700 páginas, e José Curi, que era um erudito fabuloso, traduziu tudo aquilo e foi publicado, se não me engano, pelo Instituto Brasileiro de Filosofia. Ainda tenho esses três exemplares aqui. Foi justamente através do livro de Ibn Khaldun, que eu achei por um acaso em um sebo, que vim depois a contactar o José Curi. O que me impressionou sobretudo no Ibn Khaldun é que ele foi o único historiador, acho que até hoje, que conseguiu abranger em um só olhar todos os fatores: econômicos, políticos, religiosos, espirituais, mágicos etc. Foi esse sobretudo o exemplo que ele me deu. Note bem, dele eu só li essa introdução; não li a sua obra histórica. Eu o conheço mais como sociólogo da história do que como historiador, mas só como sociólogo da história ele já mostra que é possível conectar todos esses fatores. Por exemplo, foi lendo Ibn Khaldun que eu entendi que a forma de poder mais efetiva que existe no mundo é o poder profético. A palavra Profeta vem do verbo grego profero que quer dizer “fazer acontecer”, isto é, mandar. Claro que há alguns profetas que apenas vaticinam, anunciam, mas outros são instrumentos da ação divina, como Moisés, por exemplo, que está exercendo uma autoridade. Aquilo que ele diz vai acontecer, não simplesmente porque ele viu um desenrolar possível, mas porque ele é um elo fundamental da cadeia. Deus mandou dar aquela ordem, ele deu e aquilo vai acontecer daquele jeito mesmo. Sem a noção do poder profético, não entendemos nenhum outro poder, pois qualquer fenômeno que você esteja estudando, tem de ser estudado sobretudo nas suas manifestações mais plenas e eminentes, para depois se fazer as gradações para aquilo que são as manifestações inferiores. Mas quando falamos de poder no mundo dos nossos sociólogos, cientistas políticos etc., eles acham, por exemplo, que Hitler teve muito poder. Sim, um poder que durou doze anos e depois absolutamente tudo que o sujeito fez foi anulado. Esse não é o verdadeiro poder. Moisés deu certas ordens há milênios atrás e elas continuam sendo obedecidas. Esse é o verdadeiro poder. Claro que um político meramente pragmático não chega a compreender uma coisa dessas. A partir da noção do poder profético você pode compreender outras manifestações mais limitadas do poder e perceber a coisa que eu acho mais importante: a escala de poder entre os seres humanos. Lendo isso eu percebi, por exemplo, um elemento que é faltante em praticamente toda a ciência política ocidental: a diferença de poder é a característica mais proeminente do ser humano historicamente considerado. Não há nenhuma outra espécie animal na qual você possa ver tamanha diferença de poder entre dois membros da mesma espécie como a que existe, por exemplo, entre Moises e, milênios depois, o menininho judeu que está obedecendo às ordens de Moisés. Você não pode conceber um tigre dando ordens e outros continuando a obedecer-lhe por milênios. Isso não existe. Essa diferença não aparece só na autoridade profética que se prolonga por milênios, mas também, num corte instantâneo, no número de pessoas que estão submetidas a uma autoridade humana. Aqui temos um sujeito que, assinando um decreto, pode mandar milhões para um campo de concentração, para a câmara de gás, para o raio que o parta. Existe algum tigre ou algum jumento que possa matar milhões dessa forma, numa penada? Isso é inconcebível. A coisa mais incrível é que os teóricos da democracia falam de igualdade, de democracia, de socialismo, sem perceber que a diferença de poder é um elemento constitutivo da espécie humana e que qualquer tentativa de neutralizá-la só a aumenta. Por exemplo, qualquer governante de um país democrático tem mais poder sobre os cidadãos do que qualquer tirano da antiguidade poderia ter. Hoje em dia um governante tem meios de espionar o que você está conversando em sua casa, sem que você saiba. Ele instala um microfone direcional a quinhentos metros de distância e ouve a sua conversa. Júlio Cesar jamais sonhou com uma coisa dessas. Gengis Khan ou Átila o Huno nunca pensaram em uma coisa dessas. É inevitável que cada mutação democratizante da sociedade aumente, e não diminua, a distância entre governantes e governados. Luiz XVI não tinha sobre seus súditos o poder que o governo revolucionário adquiriu em seguida e que Napoleão veio adquirir mais tarde. Por sua vez, Napoleão não tinha o poder que Hitler e Stálin tiveram, e estes não tiveram o poder que hoje um governante de uma nação democrática tem. Vemos aqui aquele fato que Bertrand du Jouvenel constata de maneira meramente empírica no livro Du Pouvoir — a história natural do crescimento do poder —: o poder sempre aumenta. Mas por que acontece isso? Eu comecei a relacionar o que eu tinha lido em Jouvenel com o que eu tinha lido em Ibn Khaldun sobre o poder e a autoridade profética. Então veio o estalo: a diferença imensurável de poder é um elemento constitutivo da espécie humana. Por exemplo, você não vai encontrar uma única sociedade na qual não haja uma autoridade que tenha o poder e a autorização para matar os outros, mesmo quando não há pena de morte. Então fui procurar saber se existe isso em espécies animais. Descobri que os zoólogos só conhecem mil e duzentas espécies animais, entre milhões que existem, nas quais um membro da espécie mata outro da mesma espécie. Mesmo assim, a matança de um membro de uma espécie por outro da mesma espécie é uma coisa raríssima no mundo animal. Nenhum lobo jamais matou tantos lobos, nenhum leão matou tantos leões, quanto um ser humano pode matar seres humanos. Se você selecionar as espécies mais competitivas e hostis no mundo animal, verá que a hostilidade entre os animais é em geral canalizada por via simbólica sem nenhuma consequência letal. Por exemplo, quando dois gorilas lutam, raríssimamente a luta termina em morte ou nunca. [1:20] É apenas uma demonstração de autoridade. O gorila maior vai mostrar para o menor que quem manda ali é ele e pronto, o outro aceita. Às vezes a demonstração de força é tão simbólica que simplesmente nada acontece. Por exemplo, entre os lobos você distingue a hierarquia pela posição do rabo. O lobo mais forte, o que manda, que tem autoridade, anda com o rabo empinado. O lobo submisso anda com o rabo baixo. Existe ainda um terceiro que coloca o rabo entre as pernas, significando que ele só obedece o chefe por medo, mas não respeita nem aceita o chefe. Veja a sutileza que o lobo tem. A disputa de poder entre os lobos geralmente se resolve somente assim. Um lobo só chega a matar outro em última instância. Então como é que inventaram aquele negócio de homo homini lupus — o homem é o lobo do homem? O lobo geralmente se comporta muito melhor com outros lobos do que o ser humano com outros seres humanos. Mas há aí uma grande diferença: o máximo de violência de um ser humano para com outro ser humano é sempre estatal, é sempre do governo. Não há criminoso, não há gangue, não há assassino nem estuprador que seja capaz de matar tanta gente quanto um governo mata. Isso quer dizer que o processo de ordenação jurídica da sociedade acompanha o aumento do morticínio e da violência, inclusive nas democracias modernas. A diferença entre democracia e ditadura nesses casos se torna muito relativa. Há uma diferença quantitativa, mas não chega a ser tão profunda a ponto de assinalar uma diferença de essência. Há apenas uma diferença de quantidade. Eu fui posto nessa linha de investigações por Ibn Khaldun e por aquilo que ele diz sobre a autoridade profética. Aluno: (...) O senhor montou um centro de estudo Ibn Khaldun para estudar o movimento revolucionário. Os estudos sobre o próprio Ibn Khaldun não estavam incluídos na pauta? Olavo: Não. O conteúdo das ideias desse autor não estava incluído, mas apenas o seu modelo de historiografia, que é o único que merece o nome de holístico porque de fato abrange todos os aspectos da sociedade, sem deixar nada escapar. Só veremos um estudo tão abrangente muito mais tarde em nosso Gilberto Freyre. Mesmo assim, Gilberto Freyre aplica aquilo em uma escala muito mais local. Aluno: Estou lendo o livro Desenhando com o Lado Direito do Cérebro, de Betty Edwards. O objetivo do livro é através do desenho “liberar o potencial criativo, desenvolvendo a percepção intuitiva”. Até aí tudo bem, o problema chega na parte teórica: depois de expor resumidamente uma série de pesquisas realizadas por Roger Sperry na década de 60 com pacientes de comissurotomia, cérebro bipartido, a autora conclui: “em decorrência dessas extraordinárias descobertas realizadas nos últimos quinze anos, sabemos hoje que a despeito da nossa sensação normal de sermos uma única pessoa, um ser único, nosso cérebro é duplo, tendo cada metade sua própria maneira de assimilar conhecimentos, sua própria maneira de perceber a realidade externa. Poder-se-ia dizer que cada um de nós possui duas mentes, duas consciências; mediadas e integradas pelo feixe de fibras nervosas conectoras situadas entre os dois hemisférios”. Não me parece que por existir duas funções receptivas separadas no cérebro pode-se concluir que tenhamos duas consciências. Olavo: Isso aqui é um dos problemas centrais da tal da ciência cognitiva. De fato, os dois hemisférios do cérebro funcionam de maneiras diferentes e eles só são conectados por um certo feixezinho de músculos. Mas nós sabemos que a pessoa fisicamente tem uma unidade substantiva, e que se ela perder o senso da sua continuidade pessoal no tempo, não será capaz de uma ação eficiente sobre o mundo exterior e muito menos sobre ela mesma. Isso quer dizer que é normal vermo-nos como uma única pessoa, ainda que o nosso cérebro, por si mesmo, e sobretudo sob certas condições, não seja capaz de apreender esta unidade. Isso é mais uma prova de que a consciência de substancialidade do “eu” não tem nada a ver com o cérebro. O cérebro é apenas um adaptador da consciência substancial do “eu” às condições espaço-temporais da condição terrestre na qual nós estamos. Ele não é a sede da consciência. Aliás, isso é a coisa mais característica de todos esses estudos: jamais foi possível assinalar uma sede cerebral da consciência. Mesmo porque esta questão dos dois hemisférios também é relativa. Se um hemisfério é totalmente danificado, imediatamente o outro começa a adquirir suas funções. É a mesma coisa que dizer que o cérebro normalmente funciona assim, mas em condições excepcionais ele pode funcionar de outra maneira também. Isso não seria possível se a própria estrutura do cérebro determinasse a consciência que temos de nós mesmos. O que a fisiologia cerebral revela é que ela tem pouco ou nada a dizer sobre o fenômeno da consciência, embora possa dizer sobre a percepção, a memória e várias outras funções. Estou dizendo justamente que a consciência do “eu” é algo que está mais fundo do que todas essas funções. Esse é apenas o mundo do pensamento. O mundo da unidade profunda é alcançado justamente pela cessação das atividades cerebrais. Cessação que não tem de acontecer somente em estados de morte cerebral ou de morte clínica, mas que pode ser desenvolvido no ser humano mediante exercício. Muitas práticas de meditação visam exatamente isso. Há uma cessação, ou pelo menos diminuição extraordinária, da atividade cerebral e, ao mesmo tempo, uma intensificação da consciência profunda do “eu”. O que esse pessoal faz é concluir que como temos duas metades de cérebro que funcionam de maneira diferente, a nossa consciência de “eu” é uma ilusão, ou seja, tudo aquilo que não está em seu cérebro você não pode saber. Mas por que, se existem até pessoas que funcionam extremamente bem com seus cérebros em estado líquido? — isso já está mais do que comprovado; há vários casos desse tipo. Há pessoas que têm consciência normal praticamente sem cérebro. Outros têm percepções e memórias até mais agudas num instante em que seu cérebro não registra atividade alguma. Então de onde temos de deduzir do cérebro as funções conscientes se já está provado que uma coisa não depende da outra? É claro que temos dois níveis de consciência diferentes: um cerebral, outro transcerebral. O dogma de que a consciência está no cérebro, que é uma coisa que jamais foi e nem pode ser provada, é uma hipótese tão absurda quanto dizer que a consciência está no pé ou na orelha. O que as experiências demonstram é exatamente o contrário do que essa mulher está dizendo. Olavo: A questão da imortalidade da alma nos trás de fato uma sensação de júbilo e regozijo nunca antes vivenciado, pelo menos por mim. Porém esta sensação dura um tempo e logo em seguida várias dúvidas surgem. (...) Olavo: Isso é inevitável. Se estou dizendo que existem dois níveis de consciência e que um deles é especialmente adaptado às condições de vida terrestre, então é claro que você não pode permanecer em um nível mais profundo o tempo todo. Isso é impossível, pois você volta a pensar, a recordar, a ter sensações etc. Se você está em um ambiente onde tem muito ruído e está tentando prestar atenção em uma música, por exemplo, em certo momentos consegue sintonizar com a música, mas no instante seguinte você perde. É exatamente a mesma coisa. Quando estou falando da consciência profunda, estou falando como se fosse uma melodia interior: é constante mas é continuamente abafada pelos ruídos externos e internos. Logo, não há nada de estranho em você não conseguir perseverar nesse estado, embora em certos casos algumas pessoas conseguissem permanecer por várias horas. Duas horas por dia já seria muita coisa, não é? Aluno: (...) se a nossa consciência permanece após a morte é lógico imaginar que podemos continuar em um processo de aprendizado ao entrar na eternidade, como São Tomás de Aquino deu a entender em suas últimas palavras? Olavo: É claro que sim. Você não vai ficar sabendo tudo. Você não se torna onisciente. É por isso que é absurdo imaginar que o ser humano se integra em Deus e passa a ser Deus. Ele não passa a ser Deus. Você conserva a sua individualidade para sempre. Quando Cristo disse “vós sois deuses” colocou essa sentença no plural. Aliás, há uma outra pergunta sobre o sentido dessa passagem bíblica. Aluno: Não consegui compreender o entendimento que o senhor dá a essa frase. Como tenho pouco conhecimento da doutrina da Igreja Católica, gostaria de saber onde aparece essa frase.(...) Olavo: Ela aparece no Evangelho segundo São João 10,34. Em geral os comentadores remetem-se a uma citação do Salmo 81,6. Perguntaram para Jesus Cristo: [1:30] “não é por causa de alguma boa obra que queremos te apedrejar, mas por uma blasfêmia. Porque sendo homem, te fazes Deus. Respondeu-lhes Jesus: não está escrito na vossa lei ‘eu disse vós sois deuses’?2 Se a lei chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, como acusar de blasfêmia a quem o Pai santificou e enviou ao mundo porque eu disse: Eu sou o filho de Deus?” No Salmo está dito assim: “sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo”. Isto faz parte da doutrina católica: todos nós somos filhos, porém não diretamente, mas por adoção a partir do primogênito, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Com a condição de imortalidade, nós adquirimos evidentemente um estatuto de deuses, porque, como lhes lembrei na última aula, e acho que já lembrei várias vezes, uma única alma imortal dura mais do que toda a duração da história humana e pode encarar toda a história humana como se fosse um momento da sua própria vida. O sonho hegeliano de unificar a história pode ser realizado, mas apenas enquanto alma imortal e não agora. Isso não quer dizer que você vai se transformar em Deus, porque Deus não conhece só a história humana, mas conhece tudo instantaneamente e desde sempre. Isso você não vai poder fazer. Então existe uma diferença quantitativa de nível de conhecimento entre o que é acessível durante esta vida e o que é acessível após a “morte”. Assim, a simples condição de imortalidade justifica a frase “vós sois deuses”, que é dita duas vezes, uma no Antigo Testamento, no Salmo, e outra de novo no Evangelho segundo São João. Nossa condição de deuses deriva desta adoção, que não é em si condicional mas que pode ser perdida. O salmo prossegue: “sois todos filhos do Altíssimo. Porém morrereis como simples homens e como qualquer príncipe caireis”. Isso quer dizer que esta condição de deus é inerente à imortalidade, mas tem algo mais do que a imortalidade. Imortal você é de qualquer maneira, mesmo que você vá para o inferno. Não pode haver penas no inferno se os condenados cessam de existir. Eles não cessam de existir. Lembro-me do Pe. Miguel Pedroso dizendo: “Não se iludam que a condenação ao inferno seja uma extinção. Os condenados ao inferno rogarão pela extinção, e não a obterão”. Você continua na eternidade, ou seja, a simples imortalidade ainda não é a mesma coisa que a condição de deus. Para isso é preciso que a imortalidade seja completada por algo que é a ressurreição da carne. Aí sim, você realmente é um deus. Porém, potencialmente todos são: a promessa foi feita para todos, mas alguns cairão. Então é evidente que não somos deuses por essência, pois se o fôssemos o teríamos sido desde toda a eternidade, existindo desde sempre. É uma forma especial, por isso ele não diz “vós sois Deus”, mas “vós sois deuses”. Há uma diferença entre Deus e os deuses. Deus é eterno, os deuses são apenas imortais. Aluno: (...) É normal que após a tomada de consciência da imortalidade surja em seguida um diabinho que tenta nos convencer que estamos um passo à frente do resto da humanidade tomada pela doença do materialismo? (...) Olavo: Diabinho não, esse é o próprio diabo. Outra coisa que temos de botar na cabeça é que se o diabo aparecer na nossa frente como anjo de luz, ele não vai nos enganar tanto quanto se aparecer com a nossa própria cara. O diabo se disfarça em nós mesmos. Ele coloca ideias na nossa cabeça e achamos que o pensamento é nosso. Saber de onde vem nossas ideias é a ciência que se chama discernimento dos espíritos. Uma ideia que estou pensando, um sentimento que tenho, veio de mim mesmo, da minha própria natureza, da influência do meio social, de uma substância que ingeri, de um anjo, de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo ou do diabo? Para isso é necessário muita prática. Aluno: (...) nas primeiras aulas do curso, o senhor nos dizia para evitar a impressão de que estamos em uma torre de marfim vendo os problemas da humanidade de um camarote. Foi batata! Venho me esforçando para não assumir uma postura de tédio e alienação frente a problemas que, diante da certeza da imortalidade, se tornam pequenos, como o movimento revolucionário, os terríveis planos do globalismo, a provável vitória de Dilma Roussef nas próximas eleições para presidente. Isso é normal? Olavo: Sim, nós estamos vivendo permanentemente em dois planos e esse é exatamente o nosso problema. “Vós sois deuses”, mas você pode cair como qualquer príncipe. É por isso que as suas atitudes neste mundo são importantes para o seu destino pós-morte. A condição de imortalidade você já tem, mas que imortalidade vai ser essa e que tipo de deus vai ser você? Esse é que é o problema. Por isso que não dá para aceitar, do meu ponto de vista, o dogma protestante da salvação apenas pela fé. É preciso fazer algo, porque se existem pecados é porque existem ações boas. Se não existem ações boas, nada seria pecado: eu dou uma martelada na cabeça do vizinho, esmago a cabeça dele e tanto faz. Mas existem ações boas também. Embora eu ache também que a consciência moral hoje em dia está muito confusa, porque já perdeu o senso das proporções. Vejo isso sobretudo quando converso com meus amigo protestantes. Eles têm uma angústia terrível em relação aos chamados pecados da carne. Então eu lembro que quando escreveram o Evangelho eles estavam no meio do Império Romano. No Império Romano as pessoas comiam menininhos e era considerado um coisa normal. Um proprietário transar com todas as suas escravas e mais os escravos, ou seja, o sujeito ser um verdadeiro Mao Tse-Tung que comia tudo que via pela frente, era a regra estabelecida. Passados dois mil anos de educação cristã, já não somos mais assim. Então não vá dizer que o pecado da carne, a que estamos sujeitos hoje, é o mesmo daquela época, pois as coisas se amaciaram muito. Muitas vezes você está criando uma obsessão que só o vai atormentar. Ontem eu estava lendo algo sobre o Pe. Pio onde ele diz: “após confessar os seus pecados, esqueça-os, apague-os”. Você não tem o direito de ficar carregando a carga do pecado depois que já confessou. Mas esse pessoal não tem a confissão, não tem a comunhão, então como é que vão se livrar disso? Eles não vão se livrar nunca. O sujeito vai ficar eternamente batendo no peito. Não, meu filho, os pecados já foram resgatados pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, não pelo nosso sangue. Você não precisa se matar de novo. O tormento moral vem do diabo. Estamos na era em que apareceram pecados que eram inimagináveis antigamente, e não são pecados da carne. Em matéria de pecado da carne não houve inovação, mas inventaram o genocídio, que virou uma prática normal. Inventaram sociedades inteiras baseadas na mentira. Como é que você pode ficar preocupado com um pecadinho da carne, com um garoto que se trancou em um banheiro para se masturbar? Ele vai para o inferno junto com Joseph Stálin? Não é possível, meu filho! Vocês perdem tanto tempo com isso que às vezes acabam se tornando cúmplices da maldade que está estabelecida. Se os seus pecados da carne fossem expostos em público você teria vergonha deles, mas o genocídio é exposto em público e ninguém fica com vergonha. Veja se algum comunista está com vergonha de terem matado cem milhões de pessoas. Eles não têm vergonha nenhuma. Agora se o sujeito transou com a mulher do outro ou se pratica o homossexualismo é imperdoável! Então está havendo uma distorção monstruosa da consciência moral por causa disso. A certeza da imortalidade não torna pequeno nenhum problema humano. É claro que não existe medida comum entre a imortalidade e a mortalidade, mas entre os vários problemas humanos existe uma hierarquia e essa é a diferença. Para a percepção dessa hierarquia, precisamos de várias funções cerebrais que falham, e tenho certeza de que o lugar preferencial da ação do demônio é o cérebro, e não a consciência propriamente dita. É através dos vários sinais linguísticos que o cérebro nos manipula e nos engana. Se nos deixamos arrastar pela nossa mecânica cerebral, entramos em um conseqüencialismo abstrato, como Wittgenstein e outros, terminando em um negócio monstruoso. Há momentos em que todo o nosso cérebro está mobilizado para nos convencer de que somos apenas um bichinho que não tem sequer uma substância ou alma, nem consciência nem nada. Em outros momentos, o cérebro coloca esse bichinho no topo da evolução humana e quer que olhemos toda a história anterior como sendo apenas um cortejo de cretinice e barbáries, sendo que a única pessoa civilizada somos nós. Claro que tratam-se de funções cerebrais, e é por isso mesmo que temos de recuar dessas funções cerebrais, dessa agitação cerebral, para a consciência profunda e reconhecermos que estamos enganados, que estamos dando importância ao que não tem. Nossa conduta neste mundo é importante para que não nos convertamos [1:40] em escravos de nosso cérebro, do pensamento, da memória, dos sentimentos etc. Temos de lembrar a realidade fundamental de quem realmente somos: almas imortais, filhos de Deus. Somos deuses. Então não nos deixemos arrastar tão facilmente. Não cedamos tão facilmente às tentações do nosso cérebro. Acho que hoje as tentações de natureza puramente cognitiva que nos fazem acreditar na mentira estabelecida, no reino da mentira ou, por exemplo, nos fazem acreditar na indestrutibilidade de certos poderes terrestres, os quais desaparecerão num relance, são mais perigosas do que as tentações da carne. Não estamos mais no mundo romano. Muita coisa mudou e, de geração para geração, muitos valores que foram trazidos pelo cristianismo já foram absorvidos. Depois que eu li a história dos Doze Césares, de Suetônio, cheguei à conclusão que do ponto de vista erótico, Adolf Hitler era um cara muito mais comportado, muito mais normal, do que qualquer dos Césares. Para compensar, os Césares não inventaram os campos de concentração. Então alguma coisa mudou. Portanto, a nossa escala de julgamento dos atos humanos tem de se adaptar à situação real. Temos de entender qual é a situação real. Por exemplo, você acredita que os desejos sexuais provocam guerras? Foram os desejos sexuais que colocaram seis milhões de judeus nos campos de concentração? Foram os desejos sexuais que mataram setenta milhões na China? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas vejo mais gente preocupada com pecados sexuais do que com essas coisas. Então há algo de errado. Se você cometeu um pecado sexual, transou com a mulher do vizinho, deu para alguém etc., vai lá, confessa e pára com isso! Isso não merece toda essa atenção que você está dando. A própria vergonha causada pelos seus pecados sexuais é um instrumento de escravidão. Quando você confessa um pecado perante Deus, não deve ter vergonha nenhuma. Não existe vergonha perante Deus, porque vergonha é o desejo de se esconder. Se você está sentindo vergonha é porque você não abriu os pecados para Deus. O arrependimento perante Deus é um arrependimento jubiloso, onde você vai na certeza do perdão, pois se você confessou e comungou, acabou! Então por que ter vergonha? Vergonha se tem perante a sociedade humana, perante o mundo. Logo, você está colocando o mundo, no sentido bíblico, como autoridade e portanto se tornando alvo de chantagem. A chantagem é um instrumento do demônio para manter as pessoas de cabeça baixa. Nunca baixe a cabeça perante seres humano. Aluno: Por alguns minutos tive aquela experiência descrita por Lavelle quando diz: na vida há momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela a sua significação. Foi isso que aconteceu com certeza. Eu sei que o senhor pediu para não entrarmos em discussão com ninguém, e devo dizer que levo isso a sério. Porém, pela terceira vez neste ano surgiu uma circunstância na qual não discutir seria a opção mais covarde. Na primeira vez foi uma discussão com meus amigos no pôquer, na segunda em uma troca de ideias com um ateu graduado em filosofia, e a terceira hoje, em uma pequena objeção que levantei contra a visão marxista da sociedade exposta por um jovem psicólogo em um encontro de um grupo de igreja. De cada um desses debates eu saí feliz e triste, se assim pode-se resumir o que senti. Feliz, não porque tinha vencido as discussões, mas porque percebi que queria saber a verdade. Triste porque percebi que era o único que queria saber a verdade, por ver em minha frente uma amostra da miséria intelectual que o senhor sempre nos relata. Mas mesmo nestas tristezas havia uma revelação que me deixava feliz, motivado, pois eu verdadeiramente senti o desejo de ajudar aquelas pessoas a colocar os seus discursos no mesmo eixo da experiência real como o senhor fala. É claro que eu não consigo fazer isso, mas eu quero, eu quero do fundo do meu coração estar na verdade e combater a falsidade. Há tempos peço a Deus que me mostre o sentido de minha vida, e hoje agora há pouco a ficha caiu. Chorei feito criança quando, não sei dizer de outro modo, senti em meu coração que eu amo a Verdade.(...) Olavo: Mas é claro! A Verdade é o próprio Deus! E a verdade é o seguinte: eu tenho certeza de que os dez mandamentos não são coisas que você deve fazer, são coisas que você já está fazendo, sabendo ou não. É apenas questão, de como diz você, cair a ficha. Então, amar a Deus é natural no ser humano. Como alma imortal que foi feita do nada, é impossível que o ser humano não sinta gratidão tão longo perceba uma coisa dessas. O amor a Deus nos preenche e Ele, na verdade, é a única coisa que amamos. Todos os outros amores que temos são expressões parciais. Você ama outras pessoas por causa do amor a Deus. Você ama em Deus! Onde mais você vai amar? No inferno? No seu cérebro? Não é possível. Aluno: (...) Ora, quem vai confessar que não a ama. Mas não é como se me perguntassem: “ei, você ama a verdade?”, e eu respondesse levianamente com aquela cara desinteressada: “claro que sim, seu idiota!” É como ter a experiência por um instante de onde fica o fundo do seu coração, e desde lá saber que se você não amasse a verdade, você não seria você. Olavo: Bravo! É isso mesmo! Muito bem! E todos que não perceberam isso vão perceber, mais dia menos dia. Também não precisa ter pressa. Esse curso ainda vai durar três anos. Ainda temos muito trabalho pela frente. Então é isto: o que é filosofia? É a busca pela sabedoria, é amor à sabedoria. Ela é isso e sempre foi. Isso quer dizer que ela é uma atividade que envolve nossa responsabilidade total. E por isso mesmo, reduzir a filosofia a um debate de ideias é uma coisa de uma impotência e de uma miséria que não merece nem atenção. Mas a filosofia que esses camaradas aqui do Dardo Scavino praticam é isto: apenas um debate de ideias. Ela não os envolve pessoalmente. Eles não têm de acreditar no que estão dizendo. Eles não têm de viver o que estão dizendo. Não há sabedoria nenhuma nisso, mas apenas uma espécie de febre cerebral: o cérebro que não pára de dizer besteiras. O negócio é justamente baixar a bola, voltar à realidade na qual você estava nos primeiros anos de sua existência, quando você estava aberto para o mundo físico e depois para o mundo humano. Primeiro para o mundo físico, senão não seria possível entrar no mundo humano, o mundo da cultura. Transcrição: João Paulo Borgonhoni – Instituto Olavo de Carvalho-Curitiba Revisão: Fabiano Rollim