Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 68 31 de julho de 2010 Boa noite a todos. Sejam bem-vindos. Está sendo posto na página um conjunto de mais um trecho do livro do Dardo Scavino que nós vamos usar daqui a pouco. Antes, eu desejaria começar esta aula esclarecendo alguns pontos que foram suscitados por uma mensagem colocada no fórum pelo Luis Alberto Pereira. É também uma chance de reexplicarmos os objetivos e estratégias deste curso e de toda a atividade do Seminário, para que não haja mais confusões a respeito. Diz aqui o Luis Alberto Pereira: “Vou lançar aqui uma idéia. Talvez muitos me achem maluco, mas mesmo assim o farei. Somos algo em torno de dois mil alunos, portanto uma instituição democraticamente legítima para nos posicionarmos politicamente e mostrar nossas idéias e valores que nos guiam. Quero propor inicialmente a questão para debatermos e analisarmos a viabilidade (...) lançarmos a campanha nacional ‘Quero ser processado pelo PT’, redigimos um manifesto e pedimos ajuda para protocolar no Congresso Nacional, convocando a imprensa de todo o Brasil. Figuras como o deputado Jair Bolsonaro, por exemplo, nos abririam as portas para isso, acredito. No manifesto afirmamos que queremos mostrar provas de que o PT tem ligação com as FARC e justificamos que o movimento surgiu como constamos a necessidade de assumirmos a responsabilidade de exercer um papel que seria da imprensa, que se mostra totalmente acovardada e vassala.” Bom, a idéia em si é muito boa. Aliás, eu estou pedindo para se processado pelo PT faz muitos anos, e eles não me atendem. Todo mundo tem o direito de ser processado, por que eu não? Por que tenho que ser discriminado? Por que só o Índio da Costa? Este é um odioso privilégio, mas acontece que o Seminário, de fato, não é o lugar apropriado para isso. Nós podemos comparar a militância política e o trabalho de formação cultural a duas das funções mais tradicionais da espécie humana: o piloto e o navegador de um barco. O piloto está enfrentando as ondas que se apresentam imediatamente e o navegador está lá no fundo, desenhando os mapas e vendo o trajeto de longo curso. Se, por acaso, o navegador abandona as suas funções para ajudar o piloto, eles vão enfrentar as próximas ondas, mas certamente vão perder o rumo. Então, simplesmente vão manter o barco à tona, mas vão parar não se sabe onde. Estas duas funções jamais se confundem. É absolutamente impossível pilotar o barco e ser o navegador ao mesmo tempo. Nossa função no Seminário não é de piloto, mas de navegador. É claro que a resposta às situações políticas imediatas é uma necessidade – e alguém deve se incumbir dela –, mas certamente esta não pode ser a nossa tarefa, e se nós nos desviarmos um milímetro daquilo que estamos pretendendo fazer, vamos perder o rumo completamente. Nosso projeto é de longo prazo, e sendo de longo prazo, se desviarmos um grau aqui no comecinho, lá para diante o desvio vai se tornar uma coisa enorme, de muitos quilômetros. Então, o perigo de erro aumenta na medida da duração do projeto. A simples execução da primeira fase deste projeto levam cinco anos – é o prazo que eu determinei para aquela formação mínima que eu achei que deveria transmitir a vocês. Mas é depois dos cinco anos que começa o verdadeiro trabalho. Eu calculo algo entre dez e quinze anos para a entrada em cena de meus alunos como personagens ativos na vida intelectual brasileira. Por isso mesmo, eu pedi que no começo fizessem o voto de abstinência em matéria de opiniões porque nós teremos tempo para formar opiniões bem fundamentadas, e quando vocês entrarem em cena na vida intelectual, vocês irão com muita segurança. O problema das opiniões prematuras é que elas criam um compromisso, elas lhe amarram: você fala duas ou três besteiras no começo da vida e depois é obrigado a passar o resto da sua existência justificando aquela porcaria. Se não fosse isso, não haveria mais um único comunista no mundo. Os que foram comunistas com 17 anos, quando vêem o desastre que provocaram, têm que arrumar alguma justificativa, tem que tentar se inocentar. Para certas pessoas que entraram na vida com aquele sentimento de certeza de que tinham no bolso do colete a solução para todos os problemas da humanidade, reconhecer que não apenas não resolveram os problemas, mas criaram problemas cem vezes maiores e criaram sofrimento e terror para milhões de pessoas, é uma culpa superior a capacidade que eles têm de arcar com responsabilidades. Eles têm terror de culpa. Eu me lembro perfeitamente quando a Dona Marilena Chauí, expressando uma opinião que não era dela, mas que era de praticamente todo o corpo docente da USP, dizia: “Nós apreciamos muito as religiões afro-brasileiras, porque elas nos permitem ter uma vivência religiosa sem culpa. Nós queremos viver sem culpas.” Ora, dizer que você quer viver sem culpas é o mesmo que dizer que você gostaria de ser um cachorro, um tatu-bola, uma minhoca. A culpa é inerente à condição humana. O fato de que você é autor de seus atos, que esses atos têm conseqüências e que, querendo ou não querendo, pode ser o portador de sofrimento e de dor para outras pessoas, é uma coisa básica na existência humana. O sujeito que quer se livrar disso quer viver como um bebê no colo da sua mãe. A declaração dela foi feita no contexto de uma reportagem que saiu na revista Veja, mostrando que praticamente todos os professores de filosofia da USP estavam freqüentando terreiros de macumba, e aquilo era a mais alta expressão religiosa que eles tinham alcançado. Então este desejo de viver sem culpas mostra claramente que existe uma consciência de culpa, só que é uma consciência sufocada, tal como aquele problema do Igor Caruso: a repressão da consciência moral. A consciência moral começa a doer e você a estrangula. Na hora em que você acha uma “religião” que lhe permite viver sem culpa, você arranja um pretexto mais ou menos elegante, um subterfúgio, para poder destruir sua consciência moral e ainda achar que está fazendo um grande negócio. As pessoas persistem nestas coisas ao longo da vida, justamente porque não têm a capacidade de agüentar as suas próprias culpas. Então, é claro que se forma um quadro neurótico, muito bem descrito por Igor Caruso como uma neurose que se forma, não a partir da repressão dos desejos – pois a repressão dos desejos é um processo normal da vida humana, como reconhecia, aliás, o próprio Freud –, mas a partir da repressão do apelo à consciência moral. Justamente é este o perigo de você entrar na vida intelectual prematuramente, dando palpites, trazendo soluções para humanidade, etc., etc., sem ter uma firmeza suficiente do que está falando. É o perigo de você se corromper pelo resto de sua vida e virar um palhaço como José Arthur Giannotti, Marilena Chauí, cuja obra de vida inteira não significa nada para absolutamente ninguém. Tudo que eles escreveram são livros que podem ser usados durante algum tempo para fins de ensino nas próprias escolas onde lecionam, mas que jamais terão um peso existencial para qualquer leitor. Se nós quisermos fazer da nossa vida uma máquina de produzir bolhas de sabão, que tão logo saem da máquina já são estouradas, então temos de seguir este caminho. Contudo, se nós quisermos ter uma atuação firme, deixar uma marca que fique na História e que seja útil para as pessoas, então nós temos que esticar bem o estilingue para a pedra ir parar mais longe. Se você não a estica o suficiente, ela cai um metro, dois metros adiante. Então, este recuo é absolutamente fundamental para nós e é um processo que podemos comparar a uma espécie de gestação. Vocês estão perfeitamente conscientes de todas as transformações, às vezes profundas, que estão sofrendo no decorrer dessas aulas; estão descobrindo coisas, possibilidades que não sabiam que tinham, tomando posse de poderes intelectuais e até poderes decisórios que também não sabiam que tinham. Tudo isto ainda tem que se consolidar. Então, podemos comparar isto a uma gestação. Ora, durante a gestação, você não vai ficar abrindo a toda hora a barriga da mãe e pedir ao bebê que tome providências quanto a isto aqui ou aquilo, mandando o bebê trabalhar. Você não vai fazer isso. Temos que esperar o tempo necessário para que aquele corpo em formação se consolide e esteja em condição [00:10] de levar uma vida independente do organismo da mãe. É exatamente o que nós estamos fazendo aqui. A idéia mesmo de um movimento coletivo que envolva alguns milhares de pessoas colocando claramente perante a população: “Nós temos a prova da relação FARC-PT e já que estão processando um candidato, deverão nos processar para nos dar a oportunidade de provar o que estamos dizendo”. A idéia em si não é má, só que o Seminário de Filosofia não pode entrar nisso. O Seminário de Filosofia não é o piloto do barco, nós somos apenas os navegadores e estamos tentando traçar um trajeto de longo curso. Responder aos desafios políticos imediatos não pode ser feito no contexto desse trabalho – pode ser feito até pelas mesmas pessoas, mas será necessário criar um instrumento para isso. Nesta mesma semana eu estou colocando em circulação – através do Mídia Sem Máscara, do meu próprio site e de quem mais queira reproduzi-lo – uma gravação onde volto a colocar em ordem todas as provas da relação FARC-PT já apresentadas, além de mais algumas. Deste modo, a crença de que o PT não tem nada a ver com as FARC se mostra não apenas falsa, mas materialmente impossível, levando a coisa a um ponto tal onde não pode mais haver discussão. Não é possível discutir uma coisa dessas, não é possível colocar em dúvida. Já estou fazendo isso através do Mídia Sem Máscara. Aqueles que quiserem, com base nesta gravação, lançar uma campanha deste teor, tem todas as condições para isto. Porém, a campanha deveria ser lançada através do Mídia Sem Máscara ou em site similar, ou até montar outro site especificamente para isto, com a petição para quem quiser assinar. Só que para a petição ter alguma validade, ela deve ser assinada com nome e documento, não é só assinatura anônima, conseqüentemente, todos vão se expor. Se quiserem fazer isso, terão todo meu apoio, mas não aqui no Seminário, e, sobretudo, o Seminário como tal não pode tomar uma atitude política pública, isso não faz o menor sentido. Tudo que estamos desenvolvendo aqui visa a um efeito de longo prazo. Porém, tudo que se concebe para um longo prazo tem que levar em conta a possibilidade de que a curto prazo as coisas tenham vários desenvolvimentos diferentes, de tal modo que o plano de longo prazo não seja alterado pelas circunstâncias. Por exemplo, para o trabalho que estamos desenvolvendo no Seminário tanto faz se eleito o José Serra ou a Dilma Rousseff, ou qualquer outro; tanto faz o Brasil ter um progresso econômico ou se desgraçar completamente. Nós temos que estar preparado para todas as possibilidades, e justamente por isso é que é um plano de longo prazo, porque se ele for alterado pelo que acontece no curto prazo, ele deixa de ser o que é. O que estamos fazendo aqui vale independentemente das contingências da atualidade brasileira. Esta é exatamente a idéia: vamos ter que atravessar este mar de confusões e de imprevistos sem que isso altere em nada o nosso trabalho. O que estamos tentando é fazer com que todo um legado da alta-cultura, que no presente momento já desapareceu da vida pública, seja conservado e possa voltar a florescer numa outra época. Este é exatamente o nosso objetivo. É claro, apoio a idéia do Luís Alberto, não aqui, mas em outro lugar. Façam no Mídia Sem Máscara, façam noutro site, façam de qualquer outra maneira. Eu sugiro que vocês esperem o aparecimento dessa gravação que vou colocar no ar, creio que em três ou quatro dias, que vai lhes dar todos os subsídios para isso ordenadamente, a um ponto, como disse, onde não há mais possibilidade de discussão, onde a simples presunção de alegar ausência de relações já se auto-desmoraliza, automaticamente. Agora, notem bem: não deixa de ser uma coisa incrível que com todos os trabalhos que eu estou realizando no campo da filosofia, da educação, há décadas, eu acabe me tornando conhecido como o sujeito que denunciou o Foro de São Paulo. Isto é um absurdo, inclusive, insultuoso. Porque isto para mim é um trabalho lateral, que fiz apenas por um dever de cidadão e que não está necessariamente ligado ao conjunto da minha atividade como filósofo, como professor. Eu fiz aquilo porque todo cidadão que tem a posse destes fatos tem a obrigação de divulgá-los, mas para mim é apenas um desvio temporário das minhas funções essenciais. Todas as minhas tarefas são de longo prazo. Por que o sujeito publica um livro como Aristóteles em nova Perspectiva? Certamente não é para mudar a situação política no dia seguinte, não é para eleger um vereador. Então, o que pretendo é lançar as bases de uma nova cultura brasileira que recupere o antigo legado e volte a ter as possibilidades que havia há duas ou três décadas atrás. Quer dizer: é uma questão de emendar duas épocas históricas cujo contato a situação presente cortou. Tudo isso é de longuíssimo prazo e esse é o meu mundo, essa é que é a minha esfera de preocupações. Se não estivéssemos numa situação tão anormal, tão ofensiva, eu jamais me meteria na política contemporânea. Se estivéssemos numa democracia funcionando normalmente, por que eu vou me meter nisso? Não tenho nada a ver com isso. Quando a coisa chega a ponto de calamidade, até o mais apolítico e indiferente dos cidadãos tem a obrigação de fazer alguma coisa, pelo menos tem a obrigação de avisar aos outros o que está acontecendo. Muitas vezes sem a ilusão de poder mudar o curso dos acontecimentos, mas apenas para cumprir uma obrigação. Bom, vamos retomar a leitura e o estudo do texto do Dardo Scavino. Como eu disse, ele descreve pela ordem – uma ordem cronológica – e de uma maneira muito eficiente, um certo desenvolvimento do pensamento filosófico no século XX, que é aquele que se tornou predominante na maior parte das instituições universitárias da Europa, dos EUA e, principalmente, do Brasil. Na Europa e nos EUA ainda se observa a permanência de algumas outras linhas de desenvolvimento possível, mas no Brasil elas simplesmente desapareceram. Aqui nos EUA uma boa parte destas outras linhas de desenvolvimento apareceram e progrediram. Foi aqui que Eric Voegelin desenvolveu a maior parte de sua atividade, foi aqui que Eugen Rosenstock desenvolveu a maior parte de sua atividade, e Bernard Lonergan, embora fosse canadense, foi aqui o país em que ele obteve mais repercussão. Quanto ao Xavier Zubiri, nem mesmo na Espanha você vê tanta gente interessada nele como nos EUA. Então estas outras linhas de desenvolvimento, cuja ausência aparece nos establishment universitário, estão muito mais ausentes no Brasil do que em outros lugares. Aqui eles não estão ausentes do establishment universitário, estão ausentes da mídia cultural, este é o ponto. Veja, por exemplo, aqui na contracapa de um A antologia de Ludwig Wittgenstein, tem um anúncio: “Filósofo de elevadíssima importância. Revisa Time”. Quem diz se um filósofo é importante ou não são os outros filósofos, de preferência maiores do que ele, e não um repórter da revista Time. Mas acontece que este fenômeno da mídia cultural fez com que a topografia da alta cultura passasse a ser delineada por pessoas que estão abaixo dela, por pessoas que não são produtoras, não são criadores, são observadores muito marginais e muito remotos da situação, freqüentemente bastante despreparados. A classe dos jornalistas culturais virou a peste da humanidade, porque o jornalista cultural é um ser híbrido: por um lado, alguma coisa de filosofia, de alta cultura ele assimilou; por outro lado, ele tem aquela preocupação jornalística da atualidade, da repercussão [00:20] imediata e do prestígio e da fama mais ou menos associada ao mundo show business. Quando ele vai escrever algo, ele tem que achar em cada um destes assuntos um ponto de intercessão entre o que seria a importância intrínseca, cultural ou filosófica de uma obra, e o que seria sua importância extrínseca, vamos dizer, o seu encaixe dentro da esfera de interesses da mídia, do show business. Então ele tem que achar um filósofo que seja atraente do ponto de vista jornalístico. Ora, quando você pega uma obra do Wittgenstein, é muito fácil torná-la atraente do ponto de vista jornalístico porque é uma obra muito pequena: as teses do Wittgenstein são duas ou três, e você pode resumir aquilo facilmente. Por outro lado, se você pega a obra de Xavier Zebre e entrega aquilo a um jornalista, e ele vai levar 50 anos para assimilar, simplesmente não vai conseguir, acho que não consegue nem ler. Eu conheço muitos professores de filosofia que não estão habilitados a ler o Xavier Zubiri, como não estão habilitados a ler o nosso Mario Ferreira dos Santos. Mas se você estudou um pouquinho de matemática no ginásio, você é capaz de entender o que Wittgenstein está dizendo, e entender o sentido superficial da coisa. Agora, perceber as implicações últimas, eu acho que a quase totalidade dos discípulos de Wittgenstein não percebe. Mais a frente veremos algo a este respeito a partir do Dardo Scavino e a partir de um texto do próprio Wittgenstein. Figuras como o Sartre, o Wittgenstein, às vezes até o próprio Heidegger, – não por ser fácil de ler, mas, justamente, por sua total obscuridade, que permite criar em torno dele uma aura mística, tornada ainda mais interessante por sua participação no nazismo – são fáceis de torná-las parte do imaginário popular contemporâneo, e é isso que o “jornalista” cultural está procurando. Por outro lado, a tendência de todas as instituições de alta cultural, de uns 30 ou 40 anos pra cá, é se deixarem se conduzir pela mídia. Por quê? Porque houve uma expansão brutal dos órgãos de mídia que a expansão do ensino não acompanhou. A mídia tende a desempenhar um papel cada vez mais decisivo na condução dos negócios públicos e na formação da mentalidade popular, e outras entidades, outros fatores, vão sendo passados pra trás. Então, de certo modo, a alta cultura deixa de desempenhar o papel de liderança e passa a acompanhar a mídia, ela vai a reboque da mídia. Claro que isso produz um desastre formidável. Eu não conheço país onde a palavra da mídia tenha uma força tão decisiva quanto no Brasil. Não porque esta mídia, principalmente a mídia escrita, seja de amplo alcance. Não é. O jornal que mais vende no Brasil vende 300.000 exemplares, que nos EUA é coisa de jornal de interior. Mas afinal de contas você tem a televisão para sustentar os jornais e tem, sobretudo no Brasil, um fator que é característico e exclusivo do Brasil, que é o fenômeno chamado Rede Globo, que domina 70 % da audiência. Não há fenômeno similar em parte alguma do mundo. É um canal privado que tem 70 a 80% da audiência. Isto quer dizer que os cânones e os critérios de valor impostos pela Rede Globo acabam se espalhando por toda sociedade e moldando inclusive as instituições da alta cultura. Então, isto significa que acabou a alta cultura, porque a topografia dos prestígios e a medida de importância das coisas passam a ser determinada por aqueles redatores da Rede Globo, que não entendem absolutamente nada do negócio, mas que tem os meios de se fazer ouvir. Se a instituição universitária e os intelectuais de primeiro plano já não têm força suficiente, não têm o valor, não têm a ousadia de continuar afirmando valores fora disso, eles acabam virando servidores dos órgãos de mídia. Eu me lembro que nos anos 70 eu escrevi um ensaio chamado “Imprensa e Cultura”, mostrando que isso aconteceria fatalmente. Naquela época este processo não estava completo no Brasil, havia a vida cultural, mais ou menos independente, a mídia refletia, noticiava o que acontecia, mas naquele momento já estava começando a inverter a situação. A mídia se adiantava aos produtores e criadores de alta cultura e determinava os padrões do que eles deviam produzir e se não produzisse dentro dos padrões, simplesmente a mídia não prestava atenção e eles seriam considerados irrelevantes. Este fenômeno no Brasil está consumado há tempos, e a mesma coisa está acontecendo aqui, está acontecendo em toda parte, se bem que não com a mesma amplitude quase monopolística. Assinalei este fenômeno na abertura do site The Inter-American Institute, ao dizer que na segunda metade do século XX, os maiores filósofos acabaram sendo ignorados pela mídia. Mas eles não foram ignorados pelo establishment universitário dos EUA – foram ignorados no Brasil. Então, não entram na atmosfera geral da alta cultura e, de repente, aparece um sujeito como Wittgenstein e ocupa um espaço monstruoso. Eu acho que presença de Wittgenstein na filosofia do século XX é um dos sintomas mais salientes de uma crise geral do intelecto, porque que é uma das filosofias mais inconsistentes, mais bobas que alguém já produziu e, de fato, não mereceria nem um centésimo da importância que se lhe dá. Podemos dizer que os textos do Wittgenstein, todos eles, compõe-se de duas partes: uma parte, são afirmações óbvias que qualquer pessoa percebe imediatamente; e outra parte, são afirmações que não querem dizer absolutamente nada, quer dizer, entra no próprio critério dele. Ele diz: “só há três tipos de afirmativas: juízos de fato, juízos tautológicos, e juízos que não significam nada”. Em Wittgenstein nunca encontrei um juízo de fato, então sobram as duas outras coisas, sobram às tautologias, e sobram as coisas absolutamente sem sentido. Eu vou dar uma demonstração para vocês antes mesmo de voltar ao Dardo Scavino. Se você tomar o Tractatus Logico-Philosophicus, – que reflete uma orientação que Wittgenstein adotou no começo de sua vida e depois acabou mudando um pouco, mas que de algum modo o resto continua se baseando naquilo parcialmente – você vai ver logo nas primeiras páginas que ele organiza o livro como se fosse uma cadeia dedutiva, coloca uma serie de axiomas e depois começa a deduzir a partir daquilo. Você logo vê nos princípios fundamentais que há tanta confusão, tanta contradição, que fica difícil entender como é que um sujeito que não fosse esquizofrênico conseguiria seguir o raciocínio. Mas, de fato, Wittgenstein não era muito bom da cabeça. Ele diz, muito acertadamente, que esse livro só será apreciado por pessoas que tiveram os mesmos pensamentos antes dele e que gostaram destes pensamentos. Então, quando você vai ver, são pensamentos que jamais poderiam ter ocorrido com pessoas mais ou menos sãs. E o incrível é que este livro atrai a atenção, sobretudo, de estudiosos de lógica. Fico pensando como é possível que a pessoa que tenha um treino lógico não perceba contradições tão grosseiras, como tem logo no começo. E pior: são aquelas contradições que se você não percebe – elas estão de certo modo embutidas na própria cadeia dedutiva que ele está desenvolvendo –, elas continuam produzindo conseqüências, de maneira mais ou menos inconsciente, e você começa a ler a coisa em dois níveis. Num nível, você está acompanhando o raciocínio do Wittgenstein, no outro nível, consciente ou semi-consciente, estão se acumulando contradições e confusões e confusões e confusões, que chega a um ponto que você entra numa espécie de paralisia mental e só lhe resta aceitar automaticamente o restante que do que Wittgenstein está dizendo. Em um dos seus livros posteriores, que ele chama de O Livro Marrom, ele menciona o que Santo Agostino disse: “eu aprendi a falar [00:30] aprendendo os nomes das coisas”. Então Wittgenstein observa que certamente as palavras que Agostinho aprendeu no começo da vida, eram palavras como ‘cachorro’, ‘casa’, ‘água’, etc., não palavras como ‘mas’, ‘porque’, ‘no entanto’, etc., etc., e que, portanto, a linguagem tal como Agostinho a concebia – para Wittgenstein era um tipo de linguagem, mas apenas um tipo, e havia outros – era limitada. Lendo isso, imediatamente, mas imediatamente, me ocorreu a pergunta: seria possível aprender a linguagem suprimindo os nomes de coisas e aprendendo somente as palavras que expressam relações entre palavras? Você não ensina criança a falar “cachorro”, a falar “mamãe”, a falar “mamadeira”, a falar “bola”; e a ensina falar “mas”, “que”, “porque”, “entretanto”, “conquanto”? É claro que não. Agora pergunto eu: é possível ensinar a uma criança somente os nomes de coisas sem ensinar as palavras que refletem as relações entre palavras? A resposta é sim, porque as relações entre palavras aparecem sozinhas nas relações entre coisas. Se você sabe o que é “mesa” e sabe o que é “copo”, você percebe que o copo está em cima da mesa sem precisar ter a palavra que expressa isso, porque isso reflete uma posição no espaço, do mesmo modo que uma relação seqüencial: o bebê caiu, e daí ele sentiu dor. Ele não sentiu dor antes de cair, primeiro ele caiu e depois sentiu dor. Esta relação seqüencial está dada no próprio estado de coisas, ainda que você não tenha a palavra para expressar isto. Então, é possível aprender a linguagem só pelo método mencionado por Santo Agostinho, mas não é possível saltar o método de Santo Agostinho e ensinar somente as outras palavras. Daí eu me pergunto: como é possível um filósofo acreditar que existem duas maneiras de se aprender a linguagem e não perceber que esta segunda maneira está embutida na primeira e se desenvolve a partir dela naturalmente, de modo que se a criança não tiver as palavras para expressar relações, ela vai continuar percebendo as relações, e poderá até inventar uma palavra para designar àquela relação? Eu me lembro, por exemplo, que quando eu e meu irmão éramos pequenos, e nós víamos bananas grudadas dentro de uma mesma casca, – não sei de onde tiramos isso - nós a chamávamos de bananas “inqüens”. Quer dizer, é uma relação espacial entre duas bananas que, não tendo palavras para expressar aquilo, nós inventamos. O fato de que as bananas estavam grudadas umas nas outras era visível aos olhos da cara, e mostrava que entre as duas bananas havia uma relação diferente da que havia nas outras bananas. As outras bananas iam cada uma numa casca, mas estas vinham juntas numa só: então há uma relação espacial diferente. Não tendo a palavra para designar, nós inventamos esta palavra ou alguém nos falou aquilo, não sei de onde tiramos aquela porcaria. Então, eram bananas "inqüens". Nós achávamos aquilo engraçadíssimo. A gente ficava muito interessado. Sempre procurando bananas "inqüens", porque era uma raridade. É claro que muitas das observações do Wittgenstein não são verdadeiramente observações, são expressões da falta de observação. Inclusive falta de observação da própria linguagem que ele está usando. Vou dar alguns exemplos para vocês (são exemplos do que não se deve fazer). Quando você avança na leitura do Tractatus Logico-Philosophicus, a coisa vai ficando mais difícil e requer, às vezes, um conhecimento de matemática e física – se você não os tem, você tem que pedir para uma pessoa te ajudar –, mas todo o desenvolvimento posterior é baseado nas premissas que ele coloca logo no começo. O princípio número um é assim: "O mundo é tudo aquilo que é o caso". Quer dizer, tal coisa é o caso, tal outra não é o caso. Daí, ele tira uma sub-premissa: "O mundo é a totalidade dos fatos, e não das coisas". Depois ele coloca uma sub-conseqüência: "Qualquer coisa pode ser o caso ou não ser o caso, de modo que tudo mais continue igual". Quer dizer, ele está afirmando como um de seus princípios que qualquer coisa que aconteça pode não acontecer, pode deixar de acontecer, sem que isto não afete no mais mínimo que seja o resto. Uai! Eu sei que algumas coisas podem acontecer sem afetar o resto, dentro de certos limites, mas que todas e quaisquer coisas possam ser ou não ser, de modo que nada mais seja afetado?! Esta é uma das coisas mais arbitrárias que alguém já pensou na vida! Quando li isto a primeira vez, perguntei: por que tenho que aceitar esta premissa? Depois vou ter que aceitar todas as conseqüências, e quando eu chegar na página 80, terei percebido que entrei num labirinto de cretinices. Só que daí não vou querer reconhecer que perdi meu precioso tempo e vou ter que dizer: "Não, eu estudei Wittgenstein. Eu conheço esta porcaria." Eu tive esta mesma experiência com muitos filósofos. Um deles foi Kant. Você tem um trabalho miserável para entender o que o sujeito está falando e quando chega ao fim, você vê que ele não disse nada ou, pelo menos, nada que prestasse. Wittgenstein é exatamente a mesma coisa. Vejam isso: "Se eu conheço um objeto, então eu conheço todas as possibilidades da sua ocorrência em fatos atômicos" (fatos atômicos são os fatos considerados isoladamente). Isto é a mesma coisa que dizer que eu não conheço objeto nenhum! Porque quem pode dizer que conhece todas as possibilidades de ocorrência de um determinado objeto e todos os fatos possíveis e imagináveis? Isto é absolutamente inaceitável! Ele diz que este livro só será apreciado por quem teve os mesmos pensamentos dele. Eu nunca tive um pensamento desses porque eu não sou idiota suficiente para pensar uma coisa dessas! Ao contrário, eu sei que nós nunca conhecemos um objeto ao ponto de poder conceber antecipadamente todas as suas possibilidades de ocorrência em todos e quaisquer fatos isolados. Isto é impossível! Isto é o que Aristóteles chamaria o “infinito quantitativo em ato”. Imaginem, por exemplo, a palavra ‘gato’ – acredito que você conhece um gato. Você sabe todas as possibilidades de uso da palavra ‘gato’ em todas e quaisquer circunstâncias? Jamais! Mais ainda: "O mundo divide-se em fatos", diz ele. Se o mundo divide-se em fatos, então estes fatos são componentes do mundo. Mas em que sentido eles são componentes do mundo, se eles são totalmente independentes entre si? Se existem fatos atômicos (fato atômico é um fato considerado apenas em si mesmo, sem qualquer ligação com os outros), como é que eles podem compor o mundo? Eles podem compor uma coleção, mas não o mundo! Não há articulação entre todos os fatos. Ou seja, para você poder continuar lendo o livro [00:40], ele exige que você aceite um monte de premissas, que na hora não te parecem tão perigosas assim, e vai acumulando conseqüência, acumulando conseqüência, acumulando conseqüência, e quando você chegar lá para dentro, não dá para voltar mais atrás. "O mundo é determinado pelos fatos e pelo fato de que estes são todos os fatos". Prestem bem atenção: o quer dizer as palavras “todos os fatos”? O que quer dizer a expressão: “todos os fatos”? Se o mundo se compõe de todos os fatos, então não pode acontecer mais nenhum fato. Se você define o mundo como o conjunto dos fatos, só pode ser considerado "fato" aquilo que já aconteceu, evidentemente. Mesmo porque ele diz o seguinte (e esta talvez seja a coisa mais terrível que tem neste livro): "Uma entidade lógica não pode ser meramente possível, a Lógica trata de todas as possibilidades, e todas as possibilidades são os seus fatos". Ou seja, aqui fica eliminada a diferença entre um fato meramente possível e um fato real. Se uma coisa não é concebível como mera possibilidade (veja: "o mundo é o conjunto dos fatos") eu pergunto: fatos já ocorridos, ou meras possibilidades de fatos? Nós sabemos que muitas situações contêm possibilidades contraditórias: pode ir para cá ou pode ir para lá. Qual das duas que faz parte do mundo? O meramente possível não pode ser, porque em Lógica, diz ele, não existe o meramente possível, só existem os fatos, então isto é mesma coisa que dizer que nada mais pode acontecer. Um mundo é um todo fechado, constituído de todos os fatos, e não há nada que seja mera possibilidade. Então é claro, isto aqui já tornou impossível a continuação do raciocínio! Se você continuar a ler isto, sem questionar estas coisas, aceitando isto aqui, apenas para se ver no que vai dar, você entrou num labirinto do qual não poderá sair. Como chamar isto de Filosofia? Isto não é Filosofia em hipótese alguma! Isto aqui é um jogo absolutamente insensato, pelo qual o individuo pretende impor a forma de sua mente a quem seja idiota o suficiente para entrar neste labirinto. Isto aqui é o que realmente o Voegelin chamaria de "operação de magia". O indivíduo está prendendo você dentro de um certo circuito de pensamentos que não tem mais a mínima razão de ser, mas que uma vez aceito provisoriamente, a título de jogo, torna-se difícil voltar atrás. Por quê? Porque a coisa vai se complicando de tal modo, e vai lhe dar tanto trabalho para chegar até o fim, que aquilo vai se tornar uma estrutura permanente dos seus pensamentos. Então isto aqui é mera hipnose. Isto não é Filosofia de maneira alguma. Vamos continuar: "Em Lógica, nada é acidental. Se uma coisa pode ocorrer num fato atômico, a possibilidade daquele fato atômico tem de poder ser pré-julgada na coisa". Isto é a negação da acidentalidade. Isto quer dizer: dado um fato, deve ser possível deduzir todos os acidentes que podem ocorrer a este fato. Isto é uma impossibilidade manifesta! Aí não há mais a diferença entre propriedade e acidente. Por que raciocinar assim? Dê-me um motivo para raciocinar assim. Só porque você quer? A resposta é sim, só porque eu quero que você pense assim, para ser igual a mim, ou seja, tão louco quanto eu. Mais adiante, em seus trabalhos subseqüentes, quando Wittgenstein coloca a idéia dos jogos de linguagem – ou seja, existem inúmeros jogos de linguagem, independentes entre si, e não há um jogo de linguagem que possa abranger a todos eles –, ele confunde as possibilidades da linguagem humana com a possibilidade do conhecimento humano! Se tudo que o ser humano conhece fosse inteiramente expressável em palavras, talvez isto acontecesse! Porém, não há nem meio motivo para supor que o universo das linguagens conhecidas abranja o mundo todo tal qual nós o conhecemos. Mesmo porque, para você aprender qualquer linguagem você já tem que estar no mundo, e você entra no mundo sem saber falar. Se não existisse este fenômeno chamado "existência", não existiria linguagem. Então é fácil você perceber que a linguagem é um aspecto da existência, e sendo um aspecto da existência, ela somente um aspecto do conhecimento. A simples existência da programação neurolingüística acaba com a obra inteira do Wittgenstein. A programação neurolingüística é um fato constatado. Quando você percebe que toda e qualquer comunicação verbal se apóia numa rede de sinais não-verbais quase ilimitada, então se percebe que dentro do contexto de qualquer conversação, de quaisquer contatos entre dois seres humanos, há um universo inteiro de pressupostos não-verbais e dentro disso a linguagem chama a atenção para um pedacinho ou outro pedacinho, mas se você retirar o resto, a linguagem não quer dizer mais nada. A confusão entre linguagem e mundo que esse pessoal criou, é claro que é psicótica! O indivíduo cria aquela estrutura verbal para a partir daí só acreditar naquilo. Eu coloquei isto num artigo que deve ser publicado durante a semana pelo Diário do Comércio, se é que já não foi, que se chama: “A prole jurídica de Wittgenstein”. Ali, dentro das dimensões do artigo do jornal, a gente pode explicar as coisas muito precariamente. Mas eu digo o seguinte: a idéia dos jogos de linguagem estava de alguma maneira na teoria da linguagem do Karl Bühler. Ele distinguia três funções: função denominativa, que é dar um nome às coisas, como Santo Agostinho dizia; a função expressiva, que é manifestar os nossos estados interiores; e a função apelativa, que é agir sobre o interlocutor. Porém, Karl Bühler reconhecia claramente que estas duas funções dependiam da primeira. Se as coisas não têm nomes, como é que você vai expressar os seus estados? Se você não sabe dizer "elefante", como é que você vai expressar o que você sente diante de um elefante? Se não tem meios de dizer "elefante", também não tem jeito de dizer que você está com medo dele, ou eu adoro elefante, ou coisa assim. Do mesmo modo, a função apelativa, a ação que você exerce sobre outra pessoa, sobre o seu interlocutor, também depende da referência determinada pelos objetos, pois se seu interlocutor não sabe do quê você está falando, como é que ele vai ser sensível a sua influência? A idéia dos jogos de linguagem de Wittgenstein não é muito diferente da idéia das funções da linguagem de Karl Bühler, ele admite três funções e outras como variantes destas três; Wittgenstein admite uma série infinita de jogos de linguagem e abole o predomínio da função denominativa – ele diz que a função denominativa é apenas uma função entre outras. Para mostrar que ele está errado, basta voltar ao que foi dito antes: você pode aprender uma língua apenas aprendendo os nomes de coisas, mas você não pode aprender uma língua aprendendo só as conjunções e preposições. [00:50] É evidente. As conjunções e preposições só adquirem algum sentido em função de relações possíveis entre objetos ou entre pessoas, e se não há objetos, evidentemente estas relações desaparecem. No momento em que os jogos de linguagem são considerados autônomos e todos igualmente válidos, isto tem várias conseqüências, e o Dardo Scavino, nesta exposição, percebe algumas conseqüências e só não fica horrorizado com isto porque ele também está um pouco anestesiado. Mas, quando você percebe as conseqüências a que isto leva, você começa a se perguntar qual é diferença entre o que é Filosofia e o que é um mero conseqüencialismo lógico. Porque toda esta linha de desenvolvimento filosófico que Dardo Scavino está descrevendo, desde Ferdinand de Saussure até hoje, não passa de um conseqüencialismo lógico. Se você admitiu a afirmação anterior, você terá que admitir a seguinte! Então vamos voltar à leitura do Dardo Scavino. Como sempre eu vou ler somente as páginas que eu marquei. Na última aula fomos até a página 44. Vamos ver: "A hermenêutica, sobre este aspecto, é uma filosofia da finitude humana. O ser humano não pode substrair-se a sua cultura, a seu mundo histórico. O sujeito não é portador do a priori kantiano - continua Gianni Vattimo - mas, sim, o herdeiro de uma linguagem histórica e finita que condiciona seu acesso a si mesmo e ao mundo." Pare um minuto para raciocinar se isto é possível. O indivíduo está dizendo que você vive dentro duma cultura, dentro de um certo horizonte histórico, e que você não tem acesso ao mundo, mas você tem acesso a esta cultura. Mas como você poderia ter acesso à cultura se não estivesse fisicamente presente no mundo? Isto quer dizer que os sinais físicos que eu recebo do mundo não significam nada?! É tudo filtrado pela cultura? Por exemplo: o bebê cai do colo de sua mãe. Em quê a dor que ele sente depende de uma interpretação cultural? Absolutamente. Se, por acaso, o bebê é privado de comida, os efeitos que isto vai ter nele dependem de uma interpretação cultural? É claro que não! Então é evidente que aparecemos dentro de um mundo que tem uma presença física e nós estamos imediatamente neste mundo dos sinais físicos, e somente pouco a pouco o aporte cultural pode chegar até nós como um mediador, mas um mediador tardio. Mais ainda: um mediador que pode modular algumas de nossas respostas ao mundo físico, mas não todas. Por exemplo, a reação à dor é diferente em várias culturas. Se você perguntar a um dentista, que tem uma clientela internacional, ele vai dizer que se chegar um russo, ele começará a chorar quando sentar na cadeira. Por outro lado, o japonês começa a reclamar um pouquinho depois de ele ter arrancado o décimo quinto dente. Mas isto não quer dizer que eles não sintam exatamente a mesma coisa. Se você medir as reações fisiológicas deles verá que são as mesmas, apenas a reação verbal e social é diferente, mas as duas partem de uma base física que não depende absolutamente em nada de seu aporte cultural. Este é o primeiro ponto. Segundo: este horizonte temporal da sua cultura é um horizonte de quanto tempo? Quer dizer, você está limitado à cultura do seu tempo, e quanto tempo dura a cultura do meu tempo? É fácil perceber que dentro da mesma cultura, o horizonte histórico, o horizonte temporal, para distintas pessoas, é completamente diferente! Por exemplo: se o indivíduo tem acesso a dados de outras culturas, às vezes de outras épocas muito remotas – o sujeito vê as pirâmides do Egito, viaja ao Tibete ou algo assim – é claro que o horizonte temporal do sujeito esticou formidavelmente. Ou você vai dizer que o indivíduo ao Tibete, mas ele só vê o Tibete através da cultura originária dele? Como? Você vai ver aqueles templos do Tibete e eles não têm nenhuma presença física? Quer dizer, o sujeito não vê os templos do Tibete, mas só o que a cultura originária dele – alemã ou britânica – lhe ensinou? Isto é uma impossibilidade pura e simples! A cultura da qual você proveio pode lhe dar elementos de acentuação diferentes dos materiais observados na cultura que você está visitando, mas estes têm que ter uma presença física e têm que ter um impacto por si mesmo. Eu me lembro que quando fui à Romênia, visitei o Palácio Brancovan. O palácio foi construído por um príncipe chamado Brancovan, três séculos atrás e tem a beleza característica daquele período histórico, daquela cultura (a arquitetura romena é, sob certos aspectos, bastante original, você vê alguns sinais e adornos que só existem na Romênia. Por exemplo, na cultura romena as cobras eram consideradas guardiãs do terreno, então, freqüentemente você vê adornos de cobras entorno e no alto das paredes). Depois me informaram que durante o regime do Ceausescu o palácio era usado para abrigar os escritores que eram puxa-sacos do regime! Eles eram convidados a viver no palácio, tinham altos salários, e vivam ali à tripa-forra, enquanto os escritores que eram desagradáveis ao regime, eram fuzilados ou jogados nas prisões. Estas duas informações, a informação visual que eu recebi do próprio edifício e a informação de seu uso histórico, chegaram para mim totalmente de fora! Uma chega pela sua mera presença visual, e a outra chega através de uma recordação histórica que não é minha, mas das pessoas que estavam ali presentes, dos romenos. Como isto poderia refletir a minha cultura originária? São dados totalmente heterogêneos, vieram de fora. Então, como posso dizer que isto reflete a minha cultura originária e que só chego a compreender aquilo através da minha cultura originária? Não. Na minha cultura originária não tem nada parecido com aquilo. Ao contrário, eu vou ter que adaptar as minhas formas e compreensão àquele fato que me é completamente heterogêneo. Mais ainda: se você estudar as obras de São Tomás de Aquino e ver a cultura e a sociedade contemporânea dele, você poderá medir qual é o peso que esta cultura teve na formação da mentalidade dele, e qual é o peso que Aristóteles teve na sua formação, e então verá que, no mínimo, no mínimo, dá [01:00] empate. E Aristóteles não fazia parte daquela cultura! Ao contrário, era ele que estava ajudando a introduzir Aristóteles ali. Ele buscou aquilo numa outra cultura, aliás, indiretamente, através de duas mutações: uma, a passagem de Aristóteles para os textos árabes, e dos textos árabes para o latim! E aquilo era uma coisa tão estranha naquele meio que imediatamente vinte e oito teses de Aristóteles foram impugnadas por um Concílio. Então, como posso dizer que a mentalidade de São Tomás de Aquino refletia a “cultura do seu tempo”? Esta é uma expressão que absolutamente não quer dizer nada, pois o tempo é uma duração e então, pergunta-se, quanto tempo? Uma semana? Quer dizer, a minha mentalidade reflete os acontecimentos da última semana? Ou os dados culturais recebidos desde que eu nasci? A partir do momento em que eu nasci eu só recebi dados de acontecimentos posteriores ao meu nascimento? Ou já recebi coisas que vieram antes? E dessas coisas que vieram de antes, quantas são autóctones daquela cultura e quantas vieram de outras? A expressão: "sua cultura", ou "o horizonte temporal da sua cultura", não querem dizer nada, são flatus vocis. Você não reflete a cultura do seu tempo, você reflete toda e qualquer informação que você tenha recebido provenha ela de que cultura seja! E provenha ela de que época seja! Mais ainda: é fácil você perceber que entre diferentes pessoas, às vezes, há uma diferente vivência de tempo. Você encontra pessoas que não são capazes de prever o que vai acontecer daqui a dez minutos, e há pessoas que estão planejando a vida por vinte ou trinta anos pela frente. Do mesmo modo, você pode ter um recuo maior ou menor. Isto depende inteiramente de você e não da sua cultura! Wittgenstein suprime a presença do mundo e a troca pela linguagem. Ele diz: "os limites do mundo são os limites da linguagem", o que é uma impossibilidade flagrante, porque você já está no mundo antes de aprender a falar! Seria muito engraçado primeiro você aprender a falar e depois nascer. Então, no aprendizado da linguagem, você fez o primeiro ano primário, o segundo ano primário, e daí começa a sua gestação e você nasce. É isto que está pressupondo. Do mesmo modo que Wittgenstein substitui a linguagem ao mundo, este pessoal da hermenêutica substitui a cultura ao mundo. Isto é uma falta de atenção à presença física do mundo a sua volta! Se você prestar atenção dois minutos, você verá a infinidade de informações que você recebe do mundo físico que não tem equivalente na sua cultura, os quais você não tem nome e que são inexpressáveis. Eu me lembro que uma vez, quando eu morava em Ubatuba, eu estava caminhado no meio do mato, durante a noite, e não via nada, estava tudo escuro, e eu ouvia o ruído do mar e de um ou outro bichinho na floresta e, de repente, eu percebi que eu estava recebendo uma multidão de informações em torno que não tinham nada a ver com aquilo que eu estava pensando. "O que eu estou fazendo aqui, falando sozinho, no meio de grilos, árvores, bananeiras?”, e percebi que era totalmente heterogêneo o mundo daquele meu linguajar, totalmente separado do mundo físico que me rodeava. Esta impressão de presença do mundo físico, eu acho que é uma coisa básica. Mas, se você vive sempre dentro do meio universitário, onde as pessoas estão falando o tempo todo e nunca acontece nenhuma novidade de ordem física, então você tem que esperar que caia uma bomba para você perceber que o mundo físico existe para além das suas cogitações. Há também outra experiência muito simples: o seu próprio corpo sente durante o dia milhões de impressões que você jamais conseguirá expressar ou descrever. Você descreve em termos genéricos, mas me mostre um escritor que tenha conseguido descrever uma dor de barriga com todos os seus detalhes. Não consegue! Toda e qualquer descrição, toda e qualquer referência verbal, se baseia na comunidade do mundo físico onde nós estamos! E não o contrário. Do mesmo modo, no conjunto da cultura, se você pegar tudo que os gregos escreveram, aquilo tudo só foi possível porque eles estavam no mesmo lugar geográfico. Senão não poderiam ter-se visto uns aos outros! Estar no mesmo lugar que uma outra pessoa é uma relação lingüística? É claro que não, é uma relação espacial. Então temos relações espaço-temporais e temos a presença do mundo físico, e a unidade deste mundo físico é que nos permite criar em cima dela a unidade da nossa comunicação ou da nossa cultura. Por que eu tenho que dizer isso a um filósofo? Como o sujeito não sabe isto? Não sabe por que entrou num processo de auto-hipnose, onde ele só acredita que exista aquilo que ele está pensando. Diz aqui o Derrida: "A língua (...) por um lado, nos fornece um sistema de significantes a partir do qual compreendemos o mundo; por outro lado, nos propõe confiar nele já que, de todos os modos, não podemos chegar de modo direto a uma realidade pré-lingüística." Como?! Se não pudéssemos chegar de modo direto a uma realidade pré-lingüística, não poderíamos ouvir as pessoas falando! A audição não é linguagem, é uma pré-condição da linguagem. Se você não ouve som nenhum, você também não ouve palavras! Como eu não tenho acesso a uma realidade pré-lingüística? Que absurdo é este?! Como é que pode o sujeito se chamar filósofo e dizer uma estupidez deste tamanho? É porque se não existe a realidade pré-lingüística, se tudo está no mundo lingüístico, então você vai ter que seguir o que o Derrida está falando, e você vai ter que pensar como ele. É sempre aquele negócio do Richard Rorty, "nós não podemos convencer ninguém de nada, mas podemos induzir as pessoas a falarem como nós". Então se trata de uma relação de poder que se estabelece entre Jacques Derrida e você! Esta relação de poder só se estabelece se você aceitar. Se você disser: antes de aceitar a sua sentença nº 2, eu tenho que aceitar a nº 1, e como você não disse nada antes da nº 1, eu vou ter que ouvir a nº 1 dentro do contexto físico, histórico e cultural que já tenho. Dentro do meu contexto físico, por exemplo, eu sei que se eu não ouvir o que você esta dizendo eu muito menos posso entender, e eu sei que ouvir não é um dado cultural. Ouvir é uma reação física que eu tenho – há uma certa vibração que vem pelo ar e chega ao meu ouvido! Mesmo que eu não entendesse uma palavra do que você está dizendo, eu poderia ouvi-la, e o que você está me dizendo é que a compreensão da linguagem antecede a sua audição. Vocês estão percebendo a catástrofe que houve na filosofia do século XX? A catástrofe só não é completa, porque não existe somente esta linha de desenvolvimento, existem muitas outras. As outras todas podem ter seus erros específicos, etc., etc., mas poucas levaram tão longe o empenho de estupidificar o ser humano e torná-lo insensível às realidades mais óbvias. Evidentemente, se você acompanhou Jacques Derrida, Gianni Vattimo, etc., até este ponto, quando você aceita uma destas proposições, elas naturalmente colocam alguns problemas, mas são problemas que não existem naturalmente, e que não existiriam se essas pessoas não tivessem dito estas coisas, mas que para você agora passam a ser a sua problemática filosófica. Então [01:10] surge o problema levantado pelo Dardo Scavino: "Mas essa linguagem não passa a ocupar o lugar de Deus ou do Homem?" Isto é um problema para ele. Para mim, que sei que linguagem é uma coisa a qual eu só tenho acesso através dos meus sentidos e que os sentidos não me foram dados nem pela língua portuguesa, nem língua latina, nem pela língua grega, nem pela língua do Derrida, isto não é problema de maneira alguma. Porque para que a minha linguagem tomasse o lugar de Deus, seria preciso que ela tivesse criado o mundo. Eu sei que com todas as palavras que eu falo, eu não posso criar nada. Não posso criar um sapo com a minha linguagem! Este é um problema artificial que só existe dentro do contexto de determinada escola de pensamento. Desde o começo desta linha de desenvolvimento você vê que ela coloca certas descobertas entre aspas. Destas descobertas surgem perguntas, problemas e dificuldades, e das tentativas de resolvê-los dentro da mesma linha de desenvolvimento surgem novos problemas e dificuldades, mantendo você ocupado a vida inteira fazendo você acreditar que é um filósofo, porque ficou pensando estas bobagens. Quando você consegue criar uma combinação de proposições, que te deixa num beco sem saída, mais ou menos como faz o Wittgenstein, então vem a revista TIME e diz que você é um grande pensador. Diz ele: "(...) teríamos que perguntar-nos até que ponto um falante de uma língua ou um membro de uma cultura podem chegar a compreender, sem traspassar os preconceitos de seu tempo, a maneira que outra cultura ou outra época interpretavam estas coisas." Se não estivéssemos dentro de um mesmo universo físico que nos possibilita estar nos mesmos lugares que outras pessoas, no mesmo momento em que elas estão, claro, não seria possível compreender nenhum elemento de outra cultura. Aliás, você nem teria acesso a outra cultura. Mas como felizmente todos os contatos que nós temos com outras culturas se dão no mesmo espaço no qual nos vivemos, então há um elo comum entre outra cultura e eu. Qual é o elo? O planeta Terra. Se não estivéssemos no planeta Terra, se não fosse o mesmo planeta, jamais nos encontraríamos. Eu poderia ir até o Tibete, mas o Tibete não está no planeta Terra, aliás, eu também não, então como é que vamos nos encontrar? A unidade do universo físico onde nos encontramos é a base de compreensão não só entre as culturas, mas também entre as pessoas. Agora estou falando para vocês, mas se de algum modo as minhas ondas sonoras não chegarem até vocês, vocês não vão ouvir nada e não vão perceber nada e não vão ter a menor dificuldade de compreender e nem de não compreender o que eu estou falando, simplesmente porque, como diria Wittgenstein, "não é o caso". O texto diz: “As discussões são copiosas a este respeito, sobretudo a propósito da interpretação dos textos antigos.” Se eu não posso compreender os textos antigos, como eu posso discutir a interpretação dos textos dos antigos? A discussão da interpretação já é um exame de segundo grau, que pressupõe uma compreensão inicial! O que eu posso discutir não é a compreensão dos textos antigos, o que eu posso discutir é a diferente adequação de diferentes compreensões, mas eu tenho que tê-las de algum modo. Agora, se eu não posso compreender de maneira alguma os textos antigos, então muito menos eu posso compreender a compreensão que eu tenho deles! E muito menos posso julgá-la! Podem surgir muitas discussões a respeito da interpretação de um texto. Por exemplo, você lê – sem recuar muito antigamente – uma peça de Shakespeare e divergir muito das interpretações. Se você assiste à peça, poderá ter muitas divergências de interpretação, mas tem alguns pontos que você não pode duvidar. Por exemplo: fizeram uma intriga para Otelo e ele então matou a mulher. Você não pode inverter esta seqüência: primeiro ele teve ciúme e depois matou a mulher. Todo mundo, mas absolutamente todo mundo, que leu a peça entendeu que aconteceu uma coisa primeiro e outra depois. Também todo mundo entendeu que a desconfiança e os ciúmes não vieram naturalmente à cabeça de Otelo, mas que foi um terceiro sujeito chamado Iago que chegou lá e pss, pss, pss. Ninguém, ninguém, ninguém jamais suspeitou que Otelo tivesse a crise de ciúme por si mesmo. Então, há uma série de elementos – por assim dizer – materiais da peça sobre as quais não há dúvida nenhuma. Ora, o que peça mostra? Ela mostra a sua interpretação profunda? Não, ela mostra só os acontecimentos. Notem bem: quando você diverge quanto à interpretação de Otelo, você está divergindo quanto a alguma coisa que materialmente não está lá. Todos os elementos materiais que compõe a peça são o ponto de encontro, o ponto de convergência entre todos os espectadores e leitores. Todos eles viram os mesmos fatos se desenrolarem na mesma seqüência e com o mesmo conjunto de relações. Então, quanto a isso, não há divergência alguma. Agora, quero saber qual o sentido metafísico da peça? Escuta, mas Shakespeare não pôs lá sentido metafísico algum, ele pôs somente os acontecimentos! Isto quer dizer que a compreensão da peça é imediata. Mas a compreensão de suas implicações, de implicações que vão para muito além da peça, essas sim, são material de divergência, porque não estão na peça! Você não está tendo dificuldade de entender o que Shakespeare disse. Você está tendo dificuldade de entender o que você acha que Shakespeare pensou! Quanto ao que ele disse, está tudo claríssimo lá. Mesmo que você nada entendesse da peça, mesmo que fosse uma estória absolutamente confusa, eu digo: você não entendeu as palavras? Se você não entendesse as palavras você não poderia dizer que não entendeu a peça! Você sabe que não entendeu a história porque você entendeu as palavras e a ordem das palavras. Agora, se cada vez que você pegar o livro a ordem das palavras aparecesse diferente, aí você não entenderia sequer uma frase, mas ainda assim você entenderia as palavras! E, no mínimo, entendeu as letras! Se você pegar uma lista telefônica e embaralhar todas as letras, cada vez que você abrir a lista telefônica, as letras estarão em ordem distinta e ainda assim você terá que entender as letras, senão como você saberia que elas estão em desordem? Então, sempre existe este substrato material da experiência, em relação ao qual não há dúvida alguma e as dúvidas surgem, não com relação àquilo que está patente, que foi objeto da experiência comum, mas quanto àquilo que está latente e é hipotético! Por exemplo, surgem muitas discussões aqui nos EUA se Shakespeare era católico ou protestante. Até o momento, a tese católica está ganhando. Têm mais elementos ali que sugere que ele aceitava os dogmas Igreja tal como a Igreja os vêm ensinando. Mas não dá para provar isto completamente. Por quê? Porque Shakespeare nunca escreveu tratados de teologia, mas peças de teatro. Da peça de teatro você pode deduzir coisas, mas nunca terá certeza absoluta. O mesmo acontece com qualquer elemento arquitetônico ou pictórico que você absorveu de outra cultura. Por exemplo, você vai à Grécia e vê um monte de estátuas de gente pelada. Você pode interpretar de milhões de maneiras, mas você não pode negar que eles estão pelados! Você pode se perguntar: por que eles fizeram assim? Por que não vestiam essas pessoas? Por que fazer esta exibição de nudez pública? Bom, estas perguntas podem surgir, mas os motivos que eles tinham para montar as estátuas desta maneira, não estão nas estátuas. O que é motivo de dúvida, [01:20] de diferentes interpretações não é o que está materialmente colocado nas obras, é o que não está! E qual é o problema de você dizer que não entendeu uma coisa que o sujeito não disse? Quer dizer, eu não estou enxergando o que está ausente. Todas as nossas dúvidas surgem em função de um núcleo de estímulos materiais que estão presentes. Você pede a vinte pintores para eles pintarem a mesma paisagem, ou uma mesma figura qualquer, um leão, por exemplo, você vai obter vinte leões diferentes. Mas você não vai obter nenhuma girafa! Ora, o sujeito só pode desenhar de acordo com a técnica que ele tem e de acordo com a maneira a concebeu, não a figura que ele está vendo, mas o desenho que ele vai fazer! Se você está vendo um leão, o desenho não sai automaticamente, você tem que conceber, pensar, "aqui tem um leão, aqui vai ter outro leão de papel". O primeiro leão me foi dado, o segundo eu tenho que fazer. Eu só posso fazer conforme eu sei fazer. Então você tem várias traduções. Primeiro: você não pode empilhar os vinte pintores no mesmo lugar do espaço. Eles têm que estar cada um num lugar. Então, nenhum deles viu o leão desde o mesmo ângulo. Mas se você pegar os vários ângulos, eles vão convergir exatamente no mesmo leão! Segundo: cada um teve que conceber o seu leão, portanto, teve que interpretá-lo. Não é possível fazer um desenho, sem você interpretar aquilo. Só quem nunca desenhou nada é que não entende uma coisa dessas. A pluralidade de desenhos que você vai obter, não prova de maneira alguma o predomínio do subjetivo sobre o objetivo, mas exatamente ao contrário! Porque o que eu apresentei a eles, foi um leão. Eu não apresentei os desenhos para eles. Eu apresentei o mesmo objeto, para que em cima deste objeto cada um produzisse um outro leão diferente. Se você pegar vinte máquinas fotográficas, nenhuma delas vai fotografar o leão exatamente na mesma direção. A não ser que as máquinas realizem o prodígio de ocupar o mesmo lugar no espaço. Mas, daí não serão várias máquinas, serão uma só. Então, este jogo da relação entre o objeto, a perspectiva e a sua representação pictórica é usado para fazer uma confusão, de modo a dizer que só existem as interpretações. Ora, se só existe as interpretações, seriam interpretações do quê? Se não há um objeto em comum para divergirem a respeito, como elas vão divergir? Por exemplo, eu leio a peça Hamlet e você lê a peça Otelo, e daí nos dizemos que nós estamos divergindo na interpretação. Nós não estamos divergindo na interpretação! Nós lemos dois objetos diferentes! Então, são coisas, distinções elementares, que o fato de o sujeito ser filósofo não o dispensa de aceitar estas realidades elementares que são a própria pré-condição dele colocar em discussão os pontos que ele está discutindo! Notem bem, não é obrigação do filósofo raciocinar a partir do que outras pessoas disseram, tomando aquilo como se fosse o nec plus ultra, como se fosse a última palavra. Você pode levar em conta o que o último da fila falou, mas você também tem a sua experiência da realidade, e você tem todo o direito, e até a obrigação, de confrontar uma coisa com a outra! Continuando: “Mas com conceito de finitude, a hermenêutica transtorna profundamente um aspecto que parecia essencial na tradição filosófica, que vinha desde Platão e Descartes, até o próprio Frege: a diferença entre doxa e episteme.” Ou seja, entre o que é opinião e o que é conhecimento, o que é ciência. “Os enunciados verdadeiros sobre as coisas implicavam vê-las ou pensá-las como são e não como cremos ou imaginamos que são, de acordo com os falatórios de uma época ou comunidade. Mas isto (esta crença de que você poderia ver as coisas como são e não como as pintava o falatório da comunidade) implicava substrair-se às interpretações culturais ou históricas e observar as coisas com um olhar atemporal e infinito.” Mas de maneira alguma! De maneira alguma! Veja que tudo é montado, dentro desta tradição da hermenêutica, de tal maneira que você só tem duas possibilidades: ou você encara tudo pelo viés da sua cultura, portanto tudo é subjetivo, e tudo é interpretação; ou então você encara com um olhar de Deus, que vê as coisas exatamente como elas são eternamente. Mas como? O que é isto? Não tem um terceiro ponto? Por que você não vê as coisas tal como elas se apresentam fisicamente para você? Isto aí não é interpretação cultural alguma! Por exemplo: a experiência que você tem do peso do seu corpo, a experiência que você tem de andar, de caminhar sobre uma superfície, nada disso depende de determinações culturais e ao mesmo tempo não é um olhar divino que vê tudo sub specie aeternitatis. É o olhar da experiência humana dentro de um ambiente físico no qual você está existindo! E é desta experiência, deste tipo de experiência física imediata que não depende de predeterminação cultural alguma, que você pode, através de sucessivos exames, chegar a supor alguma coisa sobre o que seria o conhecimento destes mesmos objetos sub specie aeternitatis. Mas isto já uma especulação filosófica que você está fazendo. Uma vez colocadas as coisas assim: ou tudo que você vê é subjetivo porque reflete a sua cultura, ou então você é Deus que vê as coisas dentro da categoria da eternidade, claro que isto é um jogo de cartas marcadas! Quer dizer: está colocando você dentro de uma alternativa que de fato não expressa as duas únicas possibilidades, existem outras possibilidades! Então diz ele: “A razão iluminista (quer dizer: a razão que pretendia encarar o objeto sub specie aeternitatis e enunciar leis gerais e eternamente válidas sobre elas) resultava incompatível com a finitude histórica dos seres humanos e por isto estes podiam chegar a ocupar o lugar de Deus. De um tempo a esta parte, no entanto, uma série de filósofos consideram que esta foi a principal ilusão da filosofia e ilusão que muitos deles chamam de ilusão metafísica.” Quer dizer: a ilusão de poder conhecer as coisas na escala da eternidade. Notem bem: eu disse que tudo isto que nós estamos falando, reflete uma linha de desenvolvimento que começa com Ferdinand de Saussure, passa pelo Heidegger, por Wittgenstein, etc., e chega até o estado atual do ensino universitário. Mas esta linha de desenvolvimento, por sua vez, se coloca dentro de uma outra mais ampla que começa no Iluminismo, e que só encara toda a filosofia anterior com os olhos do Iluminismo. Então isto aqui é uma discussão interna entre iluministas e herdeiros do Iluminismo. Alguns herdeiros são herdeiros ingratos, que se voltam contra o Iluminismo evidentemente. Porém, pergunto eu: quem lhe disse que do Iluminismo para frente nós só podemos encarar as coisas como os iluministas encararam e temos que, ou aceitar o que eles estão dizendo, ou negar tudo e nos tornar filósofos pós-modernos? Não há outras possibilidades? Há inúmeras possibilidades anteriores e concomitantes a estas, e algumas dessas possibilidades existem ainda hoje. Então, todo este modo de ensinar filosofia situa você dentro de um certo desenvolvimento histórico da filosofia, como se fosse não apenas o único existente, mas o único possível! Quer dizer, você pega acontecimentos históricos e os transforma em modelos de todo o pensamento universal possível! Ao mesmo tempo, você proclama que está ensinando as pessoas a raciocinar dento de uma relatividade histórica, quando está fazendo exatamente ao contrário! Você está encarando relatividade histórica dentro do conteúdo do que você está falando [01:30], mas a forma mentis que você está aplicando aos seus estudantes os está impedindo de ver a historicidade deste mesmo processo! Eu não vejo outra maneira de qualificar isto senão como empulhação! Porque este mínimo de consciência do que eu estou fazendo e de quais são os pressupostos do que eu estou fazendo, isto não apenas é obrigatório, mas isto é a própria Filosofia! Não há filosofia fora disso! Se o meu horizonte está limitado pela duração de um certo desenvolvimento linear da filosofia – eu não admito nada para fora daquilo – eu não tenho mais o direito de falar de relatividade histórica porque absolutizei este desenvolvimento. Ora, basta você olhar um pouquinho para o lado e você verá outros desenvolvimentos. Se não existirem dentro de sua cultura, existirão em outras culturas. Por que você vai falar de relatividade cultural, que cada pessoa está presa dentro do horizonte de sua cultura, se você nem mesmo olha para outras culturas, se você toma a sua como se fosse a única possível? Tudo isto é totalmente contraditório! Totalmente estúpido! Sinceramente, não mereceria a atenção se isto não fosse um fenômeno cultural disseminado, se não houvesse tantas pessoas envolvidas nesta bobagem, não se deveria prestar atenção nisto um único minuto, porque isto não é filosofia. Isto aqui é realmente uma masturbação mental perigosa, porque é contagiosa. Quer dizer, você criou um certo modelo de masturbação mental e ensina os outros, como no filme do Woody Allen, Zelig, onde ele saia do hospício para dar sua aula de masturbação na universidade. Os caras estão fazendo exatamente a mesma coisa. Notem bem: quando eu me refiro a eles dessa maneira, as pessoas ficam chocadas e dizem que: “Ah, você está sendo muito mal-educado, onde já se viu? Isto viola as normas de polidez que devem prevalecer no debate intelectual”. As normas de polidez são ótimas, são instrumentos absolutamente necessários ao convívio social, só que elas se baseiam em outras coisas mais fundamentais. Se a norma de polidez passa a valer por si mesma, independentemente das normas morais e intelectuais que as geraram, então elas se transformaram num fetiche. Por exemplo: se é mais importante você ser polido do que buscar o bem e a verdade, então a polidez se transformou numa camisa-de-força que o impede de conhecer o bem e a verdade. Então vira um fetiche, evidentemente. Um fetiche e um instrumento de controle social, um instrumento de chantagem! Então nesta hora o que você tem que fazer? Tem que romper a norma de polidez. Neste momento você é obrigado. É claro que é uma situação histórica específica, muito particular, que exige uma reação à altura. Esses filósofos todos estão tentando destruir o que eles chamam de ilusão lógico-positivista, a qual, por sua vez, deriva da filosofia iluminista na sua tentativa de conhecer e chegar às leis universais. Como eles remetem tudo ao elemento cultural e histórico, só sobra um tipo de conhecimento, que é o conhecimento histórico – coisas que você veio pensando ao longo do tempo –, quer dizer: o conjunto dos pressupostos culturais que foram adotados em tal época, tal época, etc. Daí, diz ele: “Isto explica também porque a filosofia tende a converter-se em história da filosofia.” Exatamente o que acontece dentro desta linha. Notem bem: a filosofia já não tem mais objetos. Tudo que você tem a fazer é seguir um certo desenvolvimento histórico e pensar de acordo com ele, como se não houvesse experiência cognitiva fora desta linha e como se a história da filosofia fosse um processo unívoco, quando há muitos desenvolvimentos históricos completamente separados. Por exemplo, como você encaixaria, dentro desta linha de desenvolvimento, a obra do Louis Lavelle? Ou as obras dos filósofos neo-escolásticos, principalmente o maior deles, que no meu entender é o André Marc (homônimo de um aluno nosso)? Não há como fazer. Como você vai encaixar o Eric Voegelin ou Xavier Zubiri dentro desse desenvolvimento? Não é possível! O resultado é que você reduziu a filosofia à história da filosofia e não somente à história da filosofia, mas a uma história de uma linha de desenvolvimento filosófico. Então isso aí não é filosofia, isso aí é uma camisa-de-força, evidentemente. Continuando: “Dificilmente se encontra um texto em que um contemporâneo propõe um sistema filosófico próprio e quando se propõe pensar um problema quase sempre recorrem à interpretação de algum ancestral.” Ou seja, ele diz que os filósofos contemporâneos não atacam nenhum problema filosófico diretamente, eles só procuram se colocar em face do desenvolvimento histórico anterior, e quando interpretam algum problema não interpretam desde a sua experiência própria, mas através dos olhos de um ancestral. Isto de fato se aplica a todos eles, mas eu não vejo como aplicar isto aqui ao próprio Eric Voegelin, por exemplo. O Rosenstock-Huessy coloca problemas que nenhum filósofo antes dele tinha pensado. Como ele vai fazer isto olhando com os olhos do anterior? Rosestock é um sujeito tão inclassificável, que os caras não sabiam nem em que faculdade deveriam colocá-lo, não sabiam em que disciplina ele estava lecionando. Então, ele próprio desenvolve um universo temático completamente diferente e o trata por métodos que ninguém conhecia antes. Como que vou encaixá-lo dentro disso aqui? O que acontece dentro dessa linha é tomado como se fosse um paradigma universal. Mas que coisa! Não é você mesmo que está dizendo que não existem paradigmas universais? Então porque que este desenvolvimento linear tem que ser o único possível? É só porque você quer. “A desconstrução derridiana, a genealogia foucaltiana e a hermenêutica heideggeriana impuseram, de diferentes maneiras, este novo procedimento: pensar num conceito significa remontar até o momento em que foi criado ou inventado.” Você está apenas rastreando a origem histórica dos conceitos, porém, se você não tem nenhuma experiência do objeto daquele conceito, como você poder entender os conceitos desenvolvidos antes? Eles são apenas estruturas verbais que, não se reportando a nada do mundo real, não tem como ser testadas, e não tem sequer como ter uma história, porque daí você está supondo que os conceitos foram saindo uns de dentro dos outros, sem que não houvesse nenhuma experiência nova das realidades respectivas! É este o problema que o Eric Voegelin enfrentou com o negócio das histórias das idéias políticas. Ele percebeu que ele estava estudando as histórias das idéias políticas exatamente assim, como se as idéias fossem parindo umas às outras, como se não houvesse acontecimentos políticos que os filósofos estavam tentando interpretar. Então, ele falou: "Eu não posso escrever a história da idéias políticas, se não escrever a história das experiências políticas", isto é, a história daquilo que aconteceu. Sobretudo porque em filosofia política você está lidando com um objeto que não foi criado pelos filósofos, que é criado pela existência do Estado, das guerras, das disputas de poder, etc., etc., que não é propriamente o campo preferencial de atuação dos filósofos [01:40]. Então você está raciocinando a partir de pessoas que são diferentes de você. Por exemplo, Hegel tirou uma série de conclusões do fenômeno napoleônico, mas ele não seria capaz de fazer o que Napoleão fez. Ele toma Napoleão, não como um conceito filosófico, mas como um fato. Este fato cria certos problemas. Então, se não existisse Napoleão, como Hegel poderia raciocinar a respeito de Napoleão? Você só pode remontar até o momento em que o conceito foi criado através dos acontecimentos e dos fatos e das coisas que sugeriram este conceito. Se você não tem nenhuma experiência própria dessas coisas, acontecimentos, etc., você não vai entender o conceito. A simples proposta de rastrear um conceito já prova que rastrear a origem do conceito não pode ser a única maneira de filosofar. Porque se fosse, não seria possível rastrear o conceito. Então, isto é caso de paralaxe cognitiva elevado ao extremo. O fato de que você está fazendo uma determinada coisa, está praticando a filosofia de uma certa maneira, já prova que esta não pode ser a única maneira de filosofar, porque senão você não teria sobre o que filosofar. A prática dos indivíduos, o simples fato deles produzirem estas filosofias, já mostra que elas estão erradas de algum modo, ou pelo menos, estão incompletas. Se você pensar bem, este livro do Dardo Scavino é uma história dos exemplos negativos, do mau exemplo. Nós temos uma amiga que diz: eu não sou inútil, ao menos sirvo de mau exemplo. Eu acho que é isto aqui: estes camaradas todos, eles não são inúteis, eles servem de maus exemplos. O mau exemplo em filosofia tem uma função notória: a filosofia de Platão não existiria se não existissem antes os sofistas que, se durante cinco ou seis séculos não tivessem ensinado besteira, não haveria nenhum motivo para Platão dizer que aquilo era besteira. Da reação a esses maus exemplos, surgem grandes filosofias. Esta é a função do exemplo negativo e por isso mesmo que eu estou dizendo a vocês: embora nós tenhamos intuição da realidade, intuição às vezes de verdades fundamentais, uma coisa é você intuir, outra coisa é você poder pensar aquilo. Aquilo que você percebe num relance, pode desaparecer no instante seguinte se não existe um meio de fixar e repetir aquilo. O desenhista, por exemplo, ele vê o leão, mas não é aquele leão que ele vai desenhar. Não é possível desenhar um leão físico. Primeiro ele tem que de converter o leão numa imagem que ele possa repetir, mesmo porque, quando ele começou a desenhar o leão, o leão estava acordado, quando ele olha de novo, a porcaria do leão está dormindo. O leão que ele concebeu para desenhar permanece acordado, não dorme nunca, e se ele estava dormindo, não acorda nunca, senão não seria possível desenhar. Você começa a desenhar o leão acordado, daí ele dormiu, você apaga e começa a desenhar ele dormindo, daí ele acorda, você tem que apagar de novo. Isto não terminaria nunca! Você não desenha o objeto da realidade, você desenha a impressão que aquele objeto deixou na sua memória e que você tem que poder fixar. Praticamente todos os nossos problemas surgem disso: como prender a realidade não é tão difícil, o difícil é reter a compreensão. Aliás, dias atrás, eu disse para vocês que muitas pessoas fazem uma oposição entre a fé e o conhecimento: se você sabe uma coisa, não precisa ter fé, então só pode ter fé no que você não sabe. Mas isto é uma impossibilidade pura e simples: se não sei nada a respeito, como terei fé? Muitas vezes você precisa ter fé naquilo que você sabe, porque você sabe, você percebeu, mas algo na sua mente faz você esquecer ou você modificar. Não precisa nem ser fé religiosa. Se você foi à casa da sua namorada e ela falou: “Eu te amo”, bom, na hora você acreditou, mas saindo dali você começa a pensar: “É, falou que me ama, mas está lá com fulaninho agora, né?”. Então é matéria de fé, você sabe que ela te ama, mas existe a desconfiança e você tem que dizer: “Não, eu estou inventado coisas, ela é boa menina, não faria isto comigo”. Toda hora nós temos que restaurar nossa fé em coisas que nós sabemos. A relação entre o saber e a fé é uma relação dialética, não são espécies diferentes. É incrível que no mesmo instante em que se diz que “pensar um conceito significa remontar até o momento em que ele foi criado ou inventado” – tomando como norma geral –, muitas vezes, Nietzsche ou Heidegger rastreiam ou querem explicar o conceito até a origem remotíssima, às vezes, em alguma metáfora ou figura de linguagem de muito antigamente. Bom, você ter descoberto a origem do conceito é uma coisa e você saber algo sobre o objeto conceituado é outra completamente diferente, porque a história do conceito pode ser, na verdade, uma sucessão de erros, ou de ilusões! No entanto, no momento mesmo em que dizem que compreender um conceito é rastreá-lo até sua origem, ele vê que este pensamento contemporâneo chegou à conclusão que: “(...) o pensamento medieval raramente se perguntou a respeito de como podíamos saber verdadeiramente algo sobre as coisas deste mundo, tal como o fará mais tarde a cultura Iluminista” Eu digo: O quê?! Hã? “O saber medieval apontava antes a correta interpretação dos textos que supostamente nos diziam a verdade sobre as coisas divinas e humanas.” E de onde eles tiraram estes textos?! Eu tenho a impressão assim, que a universidade medieval está cheia de textos, pilhas e pilhas e pilhas, e as pessoas não tinham mais nada o que fazer senão interpretar aqueles textos. Agora, você quer dizer que aqueles camaradas passavam o dia rezando e não tinham nenhuma experiência religiosa própria? Por exemplo: a experiência de viver segundo os mandamentos de Cristo. O primeiro mandamento que você tenta cumprir, você já encontra dificuldades tremendas, você vê que sua alma se rebela contra aquilo, que tem antagonismos interiores, tudo isto aí não está no texto! E é disso que eles estão falando praticamente o tempo todo. Se você disser que praticamente toda a filosofia medieval é uma reflexão sobre a experiência espiritual que hoje os filósofos não têm mais, aí sim! Como eles não têm a experiência, eles acham que os camaradas estão falando somente do texto. Porque é só o quê eles vêem ali. Em segundo lugar, durante todo o período medieval o assunto sobre o qual mais se escrevia era a alquimia, que não é uma meditação sobre texto, é uma meditação sobre terra, minério, planeta, etc., etc. Como é possível isto aí? Historicamente falando, esta idolatria dos textos, este amor pelos textos, aparece justamente na Renascença, com os humanistas. Não antes! Como você vai rastrear a história de um conceito, se você já começa por inverter a história? Mais ainda, é arqui-evidente que dentro do contexto medieval se dava mais importância à tradição transmitida oralmente de geração em geração – a tradição acumulada pela Igreja, às vezes registrada, às vezes não –, do que aos textos! Quando é que se começa a dar uma importância obsessiva ao texto sagrado? Só depois da reforma protestante! Antes da Idade Média, nos primeiros séculos da Igreja, como você podia se dedicar exclusivamente à interpretação dos textos, se você não tinha os textos? Pululavam ali centenas de supostos evangelhos e você tinha que examinar um por um, para ver se combinavam ou não. Qual é [01:50] o critério? Você não vai julgar um texto a luz de outro texto. Você depende da tradição e da experiência religiosa acumulada. Por exemplo, a experiência da confissão. Aqueles camaradas confessavam e comungavam todo dia! Eles iam confessar o que eles leram no texto? Não é possível! Você tem que examinar o que você fez, o que você sentiu, o que você pensou, você tem que discernir a sua intenção, fazer o chamado discernimento dos espíritos, tudo isto é experiência! E a totalidade da filosofia medieval, você não entende “a” sem se reportar a esta experiência. Como eles não são capazes de ter a experiência – este pessoal todo, a turma que quer viver sem culpas, que nunca imagina o que está fazendo –, como não têm o objeto material presente, eles só percebem que um texto está falando de outro texto. É claro que esta é uma deformação historiográfica monstruosa e, na mesma hora em que eles estão se gabando de que eles estão rastreando a origem dos conceitos, eles não estão rastreando coisíssima nenhuma! Eles estão inventando! Eu repito para vocês: a filosofia moderna e pós-moderna é uma catástrofe intelectual fora do comum, e o nível das filosofias produzidas vai caindo, caindo, caindo, caindo a um ponto em que a coisa toda se torna uma paródia. A etapa seguinte é: “(...) se o fato textual não existe fora da interpretação, então a leitura cria o texto. Este paradoxo será formulado por um crítico literário Stanley Fish: já não há obras, senão leituras” Como é possível isto? A minha leitura é outro texto que eu estou construindo mentalmente a partir daquele texto, mas acontece que este meu texto mental também pode ser interpretado de muitas maneiras, até por mim mesmo! Esta coisa evidentemente dissolve o próprio ato da leitura. Se não há o texto, há somente a leitura, então também não há leitura, porque a leitura será um novo texto, e assim por diante. É claro que isto não é filosofia, isto é uma pegadinha, e esta pegadinha surge daquela confusão inicial entre linguagem e mundo. Se o indivíduo não entende que para ele poder ter uma linguagem ele tem que estar no mundo fisicamente existente antes dele aprender a falar ou ler, se ele não entende isto, então ele não entende nada! Absolutamente nada. Vamos um pouco mais a diante. Por esta mesma linha de desenvolvimento, chegamos até ao Richard Rorty: “A verdade se faz e não se descobre, A verdade é algo que se constrói ao invés de que se acha.” Muito bem, eu estudei desenho e sou perfeitamente capaz de distinguir entre a presença da modelo que esta sentada em cima da mesa e uma modelo que eu estou construindo mentalmente. Eu sei que tenho que construir uma mentalmente para poder desenhar, e vou desenhar aquela que construí, evidentemente. Porém não posso dizer que construí a modelo, eu construí algo a partir daquilo, e sei distinguir entre as duas coisas. Se eu não soubesse distinguir, eu também não poderia desenhar a modelo que eu mesmo concebi, porque uma vez concebido, ele se torna a modelo. Mas eu não posso olhá-la, eu tenho que criar outro em cima e outro, e outro, e outro e nunca iria terminar este desenho. Se eu sou capaz de fixar uma figura na minha mente, ela se torna para mim um objeto, e cada vez que eu a repenso, eu tenho que repensá-la igualzinho a outra e tenho que observá-la e medi-la etc., para poder desenhar. Mas acontece que, se não é possível olhar a modelo que está sentado ali na minha frente, muito menos é possível olhar a modelo mental que eu mesmo concebi, e assim por diante. Isto aqui é uma coisa que se auto-contradiz na mesma base! Quer dizer, isto é apenas uma figura de linguagem, não é uma tese filosófica. Então: “Para Rorty, (...) a verdade é algo que se inventa. (...) De alguma maneira, já era isto que dizia Wittgenstein: A filosofia deveria ser escrita como uma composição poética.” Muito bem, mas como eu, que vou ler esta composição poética, vou saber que é uma composição poética? Se eu não posso percebê-la, eu tenho que inventar outra. É claro que isso é uma tese que se come pelo próprio rabo, é que nem amarrar a salsicha no rabo do cachorro! “Por isto as revoluções científicas seriam ‘redescrições metafóricas’ da natureza ‘antes que intelecções da natureza intrínseca da natureza’” Muito bem. É claro que existe este aspecto de redescrições metafóricas, pois muitas teorias científicas são de fato apenas descrições metafóricas, não são um translado direto de algo que foi percebido na própria natureza. Porém, para que elas possam ser isto, é necessário algo da natureza tenha sido percebido. Se não, você não tem o que elaborar em cima. Mesmo quando o sujeito faz uma teoria que é totalmente inventada, ele tem que partir de uma base factual que encontrou. Você pode dizer que a Teoria da Evolução de Charles Darwin é apenas uma metáfora. Pode até ser isto – e eu até acho que é –, só que ele não inventou esta metáfora inteira, ele inventou só algumas relações entre fatos que ele descobriu. Ele passou anos coletando fatos, e estes fatos ele não os inventou. Ele pode articular uma relação entre eles e conceber algo. De fato ele fez isso. Porém, nenhuma teoria pode ser totalmente inventada. Nem mesmo esta! Por quê? Porque ao inventar estas coisas, o que o Rorty está fazendo? Ele está criando tudo? Não, ele leu um montão de livros, e estes livros são os materiais que ele usou para fazer a sua construção em cima. Então, ele não criou isto inteiramente. Ele encontrou 99% e inventou 1%. “Nem sequer poderia falar-se de um progresso científico tido como uma aproximação gradual a um conhecimento completo e racional da natureza, tal como havia proposto Laplace.” Eu digo: de novo? Estamos aqui entre as alternativas: ou você tem o ideal iluminista da ciência perfeita que descobre a realidade como ela realmente é, e a expressa em leis universais obrigatórias; ou então você tem a total invenção. Tudo é invenção, tudo é arbitrariedade, tudo é criação de metáforas poéticas. As duas coisas são absolutamente impossíveis. O que existe é uma tensão permanente entre esses dois elementos. Isto é a realidade das coisas. Não é possível captar a totalidade da realidade tal como ela é em si mesma, e nem inventar tudo. As duas coisas são absolutamente utópicas. Na verdade, você vive entre estes dois extremos: tende numa direção e tende na outra. Isto é uma coisa que os filósofos escolásticos já sabiam perfeitamente. Agora, a conclusão do Rorty: “(...) falar de uma ‘verdade objetiva’ entre a qual as outras ficariam anuladas, só seria possível numa sociedade autoritária.” Mostre-me uma única sociedade autoritária que tenha sido montada com base no conhecimento objetivo da natureza. O conhecimento objetivo da natureza das coisas simplesmente não existe. Você tem sociedades totalitárias baseadas em ideologias. O que é uma ideologia? É uma mistura de conhecimento, crença e atos de vontade. É uma mistura indiscernível. O fato de que algumas dessas ideologias se afirmem [02:00] científicas e verdadeiras não quer dizer nada, pois isto é apenas auto-propaganda. No livro As origens intelectuais do leninismo, Alain Besançon mostra – de uma maneira brilhante – esta mesma tensão, porque Lênin uma hora afirma que aquilo tudo é conhecimento científico e, na linha seguinte, está afirmando que aquilo tem que ser acreditado e imposto. Então você tem a tensão. Se a coisa é uma verdade científica, totalmente demonstrável, então não tem porque impô-la. Basta demonstrá-la. Se é preciso impor, é porque não está tão científico assim. Mas esta mistura, esta hesitação entre o que é crença e o que é conhecimento, isto é característico do mundo da ideologia. “A verdade tem a vocação de universalidade, e Rorty sabe disso. Para ele, no entanto, isto não pode significar que a verdade seja válida para qualquer indivíduo para além da cultura a que ele pertença.” Se existe um regime autoritário, ele é a expressão de uma determinada cultura, e não só ele é uma expressão de determinada cultura, como é o fator que faz com esta cultura continue existindo e se perpetue. Então por que este regime autoritário precisaria de verdades que transcendessem a cultura na qual ele se impõe e que o constitui? Eu não vejo porque. A pretensão de universalidade é justamente poder alcançar realidades que transcendem a sua cultura. Se transcendem a sua cultura, muito mais transcendem o âmbito de autoridade do regime que presentemente domina esta cultura! A exigência de universalidade e o exercício da autoridade por um determinado regime dentro de uma cultura, vão em sentidos exatamente opostos, e não no mesmo sentido. Isto é uma observação histórica milhões de vezes repetidas. Onde você vê que justamente ao contrário, freqüentemente a proclamação ou descoberta efetiva, ou pelo menos imaginada, de verdades universais é usada como argumento contra o regime e não a favor dele. Porque o regime, para se impor, tem que se identificar com a própria cultura. Então se forma uma espécie de bloco onde o poder político e a cultura se identificam de tal maneira que não quer deixar ninguém sair do âmbito daquela cultura, porque se você sair, você já vai ver as coisas de uma maneira diferente e não aceitará mais o regime! Por que os regimes autoritários no século XX, todos eles, tendiam a proibir o cidadão de viajar para o exterior? Para ele não ver coisas diferentes e não voltar com idéias esquisitas! Se você sai do âmbito dominado por aquele regime, o que ele proclama como verdade universal lhe aparece agora apenas como uma verdade local, limitada. Ora uma verdade só pode aparecer limitada em comparação com outra verdade que é mais geral, que tem alcance mais universal. A presunção de alcançar uma verdade universal, longe de consolidar um regime, tende a corroê-lo, porque todo e qualquer regime é um produto histórico que dura um certo tempo, ele não é eterno. Mas pelo simples fato de você saber que existem verdades que antecedem esse regime, e que continuarão a existir depois dele, ele já está automaticamente relativizado. Como é que você vai dizer que o conhecimento universalmente válido só seria possível dentro de um regime autoritário, quando as duas coisas estão em perpétuo conflito? É claro que Rorty não tem a menor idéia do que seja um regime autoritário, pois sempre viveu dentro da democracia americana, carregado de direitos. Ele é um menino mimado, e o que ele imagina sobre regimes autoritários não tem nada a ver com os regimes autoritários são verdadeiramente. Vamos retomar com algumas perguntas. Houve no fórum um aluno que reclamou muito do que eu disse sobre o Wittgenstein, mas ainda estou esperando que ele me envie uma pergunta ou objeção. Evidentemente, eu sei a importância que tem esses ídolos filosóficos para a formação da cabeça das pessoas, e eu sei que certas admirações nascidas no começo da juventude são muito difíceis de erradicar. Por mais que o exame dos textos nos evidencie que nós estamos diante de absurdos primários, é de fato muito difícil você pegar uma pessoa como Wittgenstein, que a revista TIME, o New York Times, e que todo mundo coloca nas alturas, e dizer que isto não faz o menor sentido. Eu sei que é realmente difícil, sobretudo por causa da elegância de certas demonstrações que ele coloca mais adiante. Eu sei pessoas de mentalidade matemática ficam absolutamente extasiadas com estas coisas e, às vezes, há uma espécie de hipnose da estrutura formal que acaba desativando a capacidade de conferir o que está lendo com a sua própria experiência. O fato é que as premissas que são colocadas no Tractatus Logico-Philosophicus são absolutamente incoerentes, não é possível construir nada com base nelas. O resultado é que se você passa por cima das premissas, e vai acompanhando a construção em cima, a contradição que está lá no fundo, fica germinando dentro de você, e tem exatamente a estrutura de uma neurose. Quer dizer, um conjunto de pensamentos mais ou menos inconscientes que fica atravancando tudo. Quando Ludwig Wittgenstein, no começo do Tractatus, afirma: “Se esta obra tem valor, ela consiste em duas coisas: primeiro, nos pensamentos que estão expressos; e este valor será maior, quanto melhor os pensamentos forem expressados, quanto mais o prego tenha sido fincado dentro da cabeça.” Ele quer fincar um prego na sua cabeça, quer dizer, quer impor algo que você não vai conseguir pensar de outra maneira depois. “Por outro lado, a veracidade dos pensamentos aqui comunicados me parece inatacável e definitiva”. Se ele diz isto, então é necessário que você confira a veracidade deste pensamento a cada linha, e não que você simplesmente vá acompanhando uma demonstração após ter engolido algumas premissas. O problema inteiro do Tractatus está precisamente nas premissas. Dizer que ele não pode ser lido como um tratado lógico, quer dizer que o tratado lógico filosófico não deve ser lido como um tratado lógico filosófico? Que outra maneira você tem de ler? Essas premissas são: primeiro, muitas delas são totalmente arbitrárias, não tem nem meio motivo para você aceitá-las, a não ser que você as aceite como premissas de um jogo. Quando o jogo prossegue, você vai entrando dentro dele e ele mesmo se torna o seu mundo, a sua referência, e daí você não tem mais como sair disso. É claro que isto é exatamente como a construção de Hegel na Fenomenologia do Espírito, é uma obra de magia. É uma coisa feita para transportar você para um outro mundo no qual você não consegue sair mais. Leia o ensaio de Eric Voegelin sobre Hegel, On Hegel: A Study on Sorcery, e você vai ver que o procedimento adotado por Wittgenstein é exatamente o mesmo. Não tem satisfações a prestar à própria experiência dele, ele não poderia viver com base nestes pressupostos por um minuto, sem entrar em contradições existenciais profundas que, aliás, ele as tinha. A história do Wittgenstein é uma das coisas mais curiosas do mundo, porque ele era um alemão que vivia exilado na Inglaterra, onde teve a melhor recepção do mundo, deram-lhe o melhor emprego universitário, encheram-lhe de recompensas e paparicações, etc., etc., e [02:10] lá pelas tantas descobriu uns códigos navais alemães, consegue decifrá-los, e entrega a decifração ao governo soviético, não para o governo do país que o havia recebido. Ele tinha uma idealização da União Soviética sem ter sido jamais comunista. Bom, é claro que este indivíduo não sabe o que está fazendo, claro que ele está totalmente desorientado. Se você estudar a história dele, vai ver que era evidentemente dono de uma neurose do tamanho de um bonde. Como não ter neurose raciocinando desta maneira? A impossibilidade de conferir o que ele está dizendo com a experiência real é constante em Wittgenstein e tudo, tudo, tudo que ele está tentando demonstrar ele sempre inventa exemplos hipotéticos: “Imaginemos que... imaginemos que...”. Isto é o tempo todo. Então ele está sempre raciocinando por uma hipótese em cima de outra hipótese. Mas onde ele pretende chegar com isto? Ele vai chegar é exatamente nos jogos de linguagem, que são totalmente independentes entre si, nenhum tem validade e nós não temos nenhum critério de veracidade. Bom, nós quem cara-pálida? Você não tem. Inclusive, o Wittgenstein era um dos homens mais presunçosos do círculo da intelectualidade britânica. Em seu único encontro com Wittgenstein, F. R. Leaves o viu humilhar publicamente um rapaz que havia dito qualquer coisa, e reclamou daquilo. Então Wittgenstein chegou a ele e disse: “Ah, temos que nos conhecer”, – e como acontece quando você bate em todo o sujeito presunçoso, ele abaixou a cabeça – e Leaves respondeu: “Não vejo a menor necessidade disso”. Leaves era uma espécie de anti-Wittgenstein, exatamente o contrário dele. Outra coisa, eu acabo de pedir um voto de pobreza em matéria de opinião. Vou proibir as expressões ‘concordo’ ou ‘discordo’. Concordar ou discordar significa apenas que você gosta de uma coisa ou não gosta, que aquilo lhe agradou ou não. Con-cordia, os dois corações estão batendo juntos; Des-cordia, não estão batendo juntos. Para que serve isso? Ou o que eu disse do Wittgenstein está manifestamente errado – por favor, demonstre –, ou então não tenha opinião nenhuma, conserve isto como uma dúvida, pois é melhor ficar com a dúvida pelo resto da vida, do que você simplesmente expressar uma concordância ou discordância. Um aluno pergunta: Aluno: Sou aluno do Curso On-line de Filosofia e tenho pensado insistentemente sobre minha vocação e sobre o que gostaria realmente saber... Gostaria, sobretudo, de uma bibliografia que me orientasse e ajudasse a responder algumas perguntas. É possível conseguir um estado adequado de autoconhecimento? Olavo: A resposta é sim. Aluno: Como conseguir manter uma estabilidade espiritual e psíquica? Como controlar os desejos e bem guiar a vontade? Olavo: Quem disse que é preciso controlar o que quer que seja? Veja, se você aprender uma série de coisas ou na filosofia, ou na religião, e deseja aplicá-las na sua vida, você já está tomando esses elementos como se fossem coisas, como se fossem ferramentas que você pode aplicar aqui e ali. Nós não estamos falando de ferramentas, nós não estamos falando de uma ação prática que vai incidir sobre um objeto através de um instrumento. Não. Estamos falando de algo que você é. Nós estamos falando da sua própria consistência. Quando, aulas atrás, eu lhes dei aquele exercício da tomada de consciência do eu permanente, eu disse: tão logo você consiga tomar consciência disso, no mesmo ato você percebe a independência entre o seu eu, o centro de sua consciência, e todos os elementos que provêm do ambiente físico entorno. Quer dizer, você percebe que existe em você algo mais além daquilo que você recebe desta base física. Este momento é a tomada de consciência de imortalidade, ou seja, a consciência, a alma humana é essencialmente imortal. Tão logo você aceita isso, é impossível que no passo seguinte não perceba que este ser imortal que você é não tem fundamento, porque você não é capaz de gerar-se a si mesmo. Você é uma espécie de mistério vivo. É impossível que neste momento você não tenha uma única reação que é uma reação de gratidão quase extática, de gratidão quase infinita. E isto aí é tudo. Isto vai fazer com que você perca a ilusão de dirigir a sua conduta de acordo com código moral, ou não sei o quê, e a partir daí você vai deixar que o próprio Deus te conduza. Você vai pedir tudo para Ele, porque Ele é a sua consistência, você não em outra consistência além daquela que Ele próprio colocou lá. Não há nada mais em você. O que existe envolta é somente ilusão, é somente o nada. Desde que você teve acesso a alguma experiência que é realmente substancial, realmente definitiva, você não tem mais que olhar mais para nenhum outra direção para fazer perguntas. É ali mesmo que estão as respostas, e se as respostas não vêm na hora, é porque Deus não está querendo agir em você através de um processo que você conheça, mas é um processo que só Ele conhece. Na verdade, todo o conhecimento que você tem, o autoconhecimento que você tem, vem do próprio Deus. Não é você quem tem autoconhecimento. Quando Deus diz na Bíblia: “Eu te conheci muito antes de você existir”, significa o seguinte: Ele sabe tudo a seu respeito, e é a Ele que você tem que perguntar. Você não tem que buscar o autoconhecimento para você conhecer a Deus, não é bem assim. Na verdade, é o contrário: é Deus que te infunde o autoconhecimento desde dentro, desde sua própria substância. Deus é o fundamento da sua existência e da sua substância, não há outra coisa. Então para que você vai perder o seu tempo querendo aplicar regras morais, etc. etc. Tudo isto é perda de tempo. Só uma coisa é necessária. Só isto é necessário. O resto não é necessário, o resto vai como veio. Por exemplo, “eu fiz tal e quais pecados”, você vai meditar sobre seus pecados, muito bem. Quando você se arrepende dos seus pecados, a primeira coisa que você sente é vergonha. Se você sentiu vergonha, pode ter certeza que não se arrependeu perante Deus, porque a vergonha é um desejo de esconder, é um desejo de sumir, para que ninguém veja o quê você fez. Perante Deus este sentimento é impossível, porque Deus é translucidez total. Ele sabe tudo sobre você, Ele sabe mais do que você e Ele transfere a você o pouco de autoconhecimento que você tem. Você só pode se autoconhecer através do que Ele abre para você. Se você está tentando se esconder de Deus, então isto não é um arrependimento, você está tentando é enfiar a cabeça no chão como um avestruz e não ver nada! Isto significa que o verdadeiro arrependimento dos pecados não vem acompanhado de vergonha. Vergonha é uma emoção humana que os seres humanos têm uns perante os outros. Você tem vergonha perante sua mãe, sua avó, sua tia, sua mulher, a sociedade humana, uma instituição qualquer. Aluno: Como devo compreender e lidar com as forças invisíveis e que interferem em minha individualidade? Quais os métodos de meditação e auto-análise que existem e quais foram consagrados por a sua eficácia? Olavo: Muito bem. Não vamos aqui falar propriamente de método, nem de técnica. Eu sugeriria apenas um exercício que parece já ter em si já a resposta de tudo isto. O exercício é simplesmente lembrar-se de que você é o mesmo, que tem a mesma identidade desde que nasceu até agora; lembrar-se do sentimento, da experiência que você tem ao dizer a palavra eu como sujeito de suas ações, sujeito de seus pensamentos, etc., etc.. Embora todas as células do seu corpo tenham mudado, embora todo o seu repertório de sentimentos e pensamentos tenha mudado mil e uma vezes, existe este núcleo constante. [02:20] É absolutamente impossível a idéia de que este núcleo de consciência nos tenha sido impingidos desde fora. Se fosse impingido desde fora, ele iria embora, ele seria inconstante como o tudo mais. E, no entanto, toda vez que você retorna, você tem essa mesma consciência de eu, você percebe que existe em você, no centro da sua pessoa, um núcleo no qual você se reconhece e diz: eu. É este eu que se dirige a Deus. Não é outro. Este eu, na medida em que ele é independente dos seus estados corporais, você percebe que ele pertence a uma outra faixa de realidade que abrange e transcende todo o fluxo de seus estados corporais e psíquicos. Esta é a escala na qual você começa a ter idéia de imortalidade, a ter idéia de uma individualidade, uma identidade pessoal que transcende a sua existência corporal e terrestre. Para você orar eficientemente, para confessar os seus pecados eficientemente, você precisa se colocar nesta faixa de sintonia porque se, por exemplo, no arrependimento dos seus pecados, se você o vivência somente como a alma mortal terrestre, então você não está se arrependendo diante de Deus, mas de algum outro elemento mortal terrestre. Você está se arrependendo perante a comunidade, perante as pessoas que você conhece, etc. etc., e este arrependimento é acompanhado por vergonha. Ora, se você sente vergonha, então você não está confessando seus pecados diante de Deus, porque a vergonha é uma emoção que consiste basicamente em você se esconder do olhar alheio. Se você está se escondendo de Deus, então você não está falando com ele. Esconder-se de Deus é impossível. Por quê? Porque Ele sabe tudo a seu respeito, Ele sabe a seu respeito mais do que você sabe, Ele te conhecia antes de você nascer, e Ele é o fundamento de sua existência como individualidade consciente. Então, abrir-se diante de Deus é eliminar imediatamente a emoção de vergonha. O que você pode ter é um certo tipo de tristeza, no máximo. E qual é a tristeza? A tristeza é de você ter esquecido por alguns momentos a sua verdadeira condição de alma imortal que o próprio Deus lhe deu. A experiência, este acesso à alma imortal, ainda que seja uma coisa breve, como eu disse, você percebe naquele mesmo instante a sua absoluta falta de fundamento, você percebe que é um ato gratuito de Deus. Você é a própria Graça manifestada. Você não tem outra substancia além disso. Isto é o que realmente você é. Não há mais nada em você além disso, a não ser elementos periféricos que não são propriamente você, que simplesmente se incorporaram a você em função da sua modalidade de existência terrestre. Como a comida que você come: uma parte é eliminada, outra parte integra o seu corpo, mas esta parte que integra também vai passar. Tudo isso são elementos que estão em você mas não são você. Aquilo que você realmente é é a manifestação da Graça Divina e você não é mais nada. A hora em que você percebe isto é impossível ter esta experiência sem um sentimento de gratidão avassaladora e quase extática. Isto é o objetivo da nossa vida. Não há outro, não há outra coisa para fazer. Então, qual é o nosso objetivo? É voltar, quantas vezes você puder, a este mesmo estado de gratidão total, no qual a própria consciência que você tem dos seus pecados aumenta, de certo modo, o próprio sentimento de gratidão. Como ali existe a presença de Deus, você já tem a Graça jorrando sobre você naquele mesmo momento, então não dá para você insistir em falar muito dos seus pecados, não tem pecado mais ali, acabou. Você entrou ali na Presença, Ele já te perdoou automaticamente. A Graça continua fluindo sobre você. Como você tem consciência dos seus pecados, das suas limitações, dos seus erros, etc. etc., mas tudo isto é totalmente desproporcional ao que você está recebendo, só tem uma pergunta a fazer: Deus, por que Você está me dando tudo isto? Depois dos pecados que eu fiz, eu não compreendo a Graça, ela é incompreensível, ela transcende tudo o que eu possa pensar! Então é este o negócio: amar a Deus sobre todas as coisas. É isto que significa amar a Deus sobre todas as coisas! E Jesus Cristo disse: que aquilo que você pedir neste momento será atendido. Mas é difícil você se lembrar que precisa de alguma coisa ou que quer alguma coisa neste momento, porque de fato você não quer mais nada. Mas você pode pedir alguma coisa para outra pessoa que talvez precise. Por exemplo: pedir que ela tenha acesso a esta mesmo sentimento, a esta mesma experiência. Se você ficar muito preocupado com “como eu vou controlar meus desejos, como eu vou guiar minhas vontades”, tudo isto complica. É para ter um só desejo. É este desejo. Não existe outro. O resto é realmente tudo perda de tempo. Os pecados são uma perda de tempo e pensar neles também é uma perda de tempo. A vergonha também é uma perda de tempo, porque só uma coisa interessa: a gratidão infinita perante um bem infinito. É só isso. Pense nisso e você vai ver como tudo vai dar certinho. Lembre sempre disso. Por isso o padre Pio dizia: "reze e não se preocupe". Como vivemos numa sociedade humana, como há uma série de exigências, a gente sempre pode confundir os dois planos, que dizer, um é o trajeto que você está percorrendo em direção a Deus, que é o próprio Deus que está te chamando, e outro é o trajeto de sua vida terrestre onde você pretende fazer isto ou aquilo. Estes dois trajetos são completamente diferentes. Quando perguntaram a Jesus Cristo, “qual é o mínimo que preciso fazer?”, Ele disse: amar a Deus sobre todas as coisas e amar aos outros como a si mesmo. E isto é tudo. Tem gente que vive lendo a Bíblia, sabe trechos inteiros dela de cor. Eu sinceramente não consigo ler muito a Bíblia, porque entendo que a palavra de Deus é a própria realidade, não um conselho que Ele está lhe dando. Não. Aquilo são palavras eternas, aquilo é a própria estrutura da realidade. Eu agüento muito pouco, porque cada frase tem um significado infinito, e eu fico curtindo aquele negócio, toda hora me lembro daquela frase e aquilo cada vez diz mais coisas e mais coisas. Tudo que estou falando vem do trecho da bíblia onde Jesus Cristo disse que só tem isto aqui, isto aqui é toda a lei e os profetas. Muito bem, eu não consigo ler a Bíblia inteira, então qual é o mínimo que tenho que fazer? É a mesma pergunta que eu faço, e acho que todos nós devemos ir por este mínimo. Muitas perguntas e dúvidas morais surgem por quê? Porque nos esquecemos desse negócio: amar a Deus sobre todas as coisas. Não é você que está amando Deus, mas Deus que está amando você! Isto é difícil de entender. Eu não consigo amar a Deus tanto quanto Deus ama a mim, Ele me preenche com seu amor. É este que é o negócio. Se colocamos tudo isto no plano de existência da alma mortal, nós criamos uma confusão dos demônios. O que eu estou sugerindo é simplificar. Não precisa mais método, não precisa de mais nada disso, é só você orar, se apresentar a Deus na condição que você realmente tem, quer dizer, você é uma alma imortal que Deus criou de uma vez para sempre, Ele não vai te apagar, não vai te revogar, e você não entende porque Ele fez isto. O principal, Deus já lhe deu: a existência de uma alma imortal. O que mais você quer? Então tanto faz. Ontem eu estava conversando com o meu filho Pedro e ele disse: “Não, eu sou um sujeito sortudo, tudo para mim dá certo, eu tenho o que eu quero, etc., etc.”. Eu digo: “Meu filho, para mim foi exatamente o contrário: eu nasci e durante a maior parte da existência tudo dava errado, não conseguia nada do que queria, fazia vinte vezes mais força que os outros. Mas na hora que você tem esta experiência da alma imortal, tudo se equaliza, o sortudo e o azarado entram na mesma faixa, porque tudo isto é um nada perto dessa infusão de ser que Deus fez em você. E fez de uma vez para sempre. Muito bem. Eu acho que hoje nós estamos muito atrasados, houve um atraso no começo, então não vou responder mais perguntas hoje. Mas aviso vocês: eu fiz uma gravação sobre o Foro de São Paulo, e não deu muito certo. [02:30] Eu vou refazer e vou colocar em circulação durante esta semana. Então, eu peço, sobretudo o Luis Alberto Pereira, que esperem um pouco, esperem a versão final porque ali tem um pacote de informações que encerra o problema. Eu não vou colocar isto no Seminário, vou colocar no Mídia Sem Máscara e no meu próprio site. Então, acho que por enquanto é só. Até semana que vem. Muito obrigado. Transcrição: Kênio Barros de Ávila Nascimento Revisão: Fabrício de Souza Henriques, 4/11/2011 [fabrício.henriq@hotmail.com]