Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 55 24 de abril de 2010 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Boa tarde a todos, sejam bem-vindos. Hoje temos um grupo piloto no Rio de Janeiro que vai acompanhar a aula. Acho que vocês estão os vendo neste quadrinho na parte esquerda, em cima da tela: estão ali alguns alunos do Rio de Janeiro. Gostaríamos de repetir a experiência, cada semana um grupo e cidade diferentes. O grupo então fica como piloto e na medida em que converso com eles e respondo-lhes as perguntas, estarei indiretamente respondendo a todos os outros. Claro, continua vigorando as perguntas por escrito, mas talvez tenhamos algumas ao vivo. Nesta aula quero tratar de questões importantes para a compreensão de qualquer tópico de filosofia antiga e medieval que possamos nos deparar. Por outro lado, a aula de hoje pode não apenas ser muito importante para a orientação geral dos estudos como também pode ser fundamental para a conduta moral e espiritual de suas próprias vidas. O problema é que em algum ponto da história houve uma mudança tão profunda e radical no enfoque do universo e da cultura em geral cuja conseqüência foi a mudança de todo o quadro de referência, e hoje em dia é praticamente impossível ter acesso a qualquer elemento da cultura medieval e antiga sem que ele apareça filtrado pela leitura moderna, de modo que freqüentemente há um deslocamento entre o texto que se está lendo e a maneira de entendê-lo. Isso acontece com todos. A mudança foi tão drástica, profunda e avassaladora que podemos dizer que ocorreu uma espécie de esquecimento geral do quadro de referência antiga. Quando se lê esses textos atribuindo-lhes a cada palavra o significado que elas têm hoje se vai parar longe do significado originário, tão longe que quanto mais eu investigo isso, mais fico aterrorizado. Lembro-me sempre de Jean Fourastié, que dizia existir o progresso da inteligência e o progresso da ignorância: sobretudo há o fenômeno do esquecimento. Quando se perde a capacidade de visualizar ou imaginar as coisas tal qual se fazia numa outra época, o leitor está sobrepondo-lhe um significado que elas não têm. Isso pode chegar ao ponto de uma incompreensão total e, portanto, a ponto de consolidarem-se como crença coletiva da classe letrada erros de interpretação muito graves. Tais crenças estão às vezes tão arraigadas que o simples fato de colocá-las em questão far-lhe-á parecer esquisito. Podem fazê-lo sentir-se até marginalizado por isso. Por exemplo, eu noto que as pessoas que hoje se dizem católicas – sobretudo no Brasil –, que acreditam realmente ser católicas e estão profundamente imbuídas disso, pegam horror à alquimia e à astrologia, julgando-as pecado e que elas foram condenadas pela Igreja. Ocorre que todos os filósofos escolásticos, sem exceção, tomavam como ponto de partida o fato de que os astros exercem alguma influência sobre o ser humano. Não há escolástico que o negue. Para eles era algo tão óbvio quanto dois mais dois é quatro – simplesmente não se discutia. O que se podia discutir eram as práticas astrológicas então vigentes, das quais algumas tinham sentido ocultista e advinhatório e, evidentemente, foram condenadas pela Igreja. Condenava-se também quando era tomado o rumo do culto dos astros. Mas era de tal maneira presente a idéia de que a posição dos astros influenciava de algum modo o ser humano que, mesmo os autores que mais enfaticamente condenavam a astrologia, condenavam-na desde o ponto de vista da existência do fato. Um coisa é a existência do fato, o que eu chamo de “fato astrológico”, outra coisa são as teorias astrológicas e outra coisa ainda são as práticas astrológicas. Podiam condenar certas teorias e certas práticas, mas jamais contestaram o fato. Ao contrário, afirmam-no taxativamente. O mais radical inimigo da astrologia, Santo Agostinho (isto é, numa fase pré-escolástica), afirma categoricamente que os astros podem determinar a forma do corpo do indivíduo e, através disso, determinar-lhe grande parte da conduta. Lembro-me de quando eu estava num debate com Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, astrônomo do observatório do Valongo, e ele disse que todos os filósofos escolásticos condenavam a astrologia, negando-lhe a influência sobre o ser humano. Pedi a ele para citar algum, mas ele não conseguiu. Disse então que iria citar alguns que afirmavam a existência do fenômeno e mencionei catorze autores, na maioria deles com o respectivo livro (embora não pudesse precisar a página). Hoje eu não saberia citá-los – já se passaram vinte anos e não me lembro mais quem são, mas posso facilmente consultar no meu arquivo. Esse é um exemplo de como as pessoas estão vivendo em mundos diferentes. Enquanto em um dos mundos as pessoas acreditam que a conduta humana é determinada por fatores cósmicos além do alcance de suas ações, no outro mundo elas descreem nisso. Ora, são mundos diversos esses. O homem medieval, quando via uma pessoa agindo dessa ou daquela maneira, não julgava apenas estar vendo o efeito de um condicionamento biológico, genético ou mesmo de uma escolha pessoal, mas considerava a tradução terrestre de fatores cósmicos nessas ações. Era usual reconhecer as pessoas por seus tipos astrológicos. Por exemplo, alguém irascível era associado ao planeta Marte (tipo marciano); o homem gordo e bonachão, muito seguro de si, logo era associado a Júpiter; quem fosse magro, melancólico e taciturno era associado com Saturno. Isso é óbvio e fazia parte da percepção normal das coisas. Hoje eu vejo que se não recompor de algum modo este quadro imaginativo simbólico no qual todas as pessoas viviam na época, inclusive os filósofos, simplesmente não se poderá entendê-los. Acabamos sempre por atribuir a eles um sentido modernizado. Somente o quadro imaginativo não basta. As próprias palavras tem um sentido hoje diverso daquele de antigamente. Tomemos como exemplo a palavra imaginativo. No advento da Reforma Protestante, um dos expedientes básicos do debate entre protestantes e católicos era a demonstração recíproca de que a religião do outro não passava de produto da imaginação humana. Ou seja, diziam que tudo aquilo no qual se acreditava fora inventado. Acontece, porém, que esse debate já se travava em um ambiente que não era o da cristandade medieval, pois o argumento de que algo era imaginário não funcionaria na Idade Média. Julgar o imaginário um simples produto mental humano só foi possível a partir do surgimento da cosmovisão moderna galilaica, segundo a qual o imaginário era resultado da cultura. Nessa cosmovisão havia apenas duas realidade: o mundo físico constituído de certas propriedades matemáticas, e a mente que as descobre [00:10] – o restante considerava-se irrealidade. Assim, se algo é explicado como imaginário, estava fora do âmbito da realidade, ao passo que para toda a cultura anterior o imaginário era um modo de apreensão da realidade. Na verdade, ainda é – embora não seja reconhecido culturalmente (ou melhor, não é reconhecido em certos meios culturais, enquanto é em outros). Então, dizer que alguma coisa é imaginária é expressar o seu modo de conhecimento, e não sua inexistência, muito menos que exista apenas na imaginação. Por exemplo, todos assistiram o documentário sobre os atentados de 11 de setembro? Vem um avião daqui, outro dali, e todo o prédio vai abaixo. O sofrimento humano, os gritos, os braços e pernas dilaceando-se: ninguém viu isso, que só nos é possível conhecer por imaginação. Retire do quadro todos esses elementos percebidos por imaginação e o evento torna-se totalmente irreal. Portanto, a substância humana efetiva e o que representou para as pessoas envolvidas só é acessível por imaginação. Ausentes os elementos imaginários, resta-nos apenas ver um aviãozinho chocando-se em um edificio de papelão. Outro exemplo, suprima completamente os elementos imaginários envolvidos na conversa com uma pessoa que lhe diz algo de muito importante – que lhe ama, lhe odeia ou que há algum problema com ela –, de modo que você não seja capaz de imaginar a reação dela; o que resta é percebê-la do ponto de vista visual, cujo resultado é a perda total e imediata do sentido. Isto é o que restou: figuras mexendo-se no espaço sem nada mais poder conceber delas. Portanto, a nossa própria experiência revela que o imaginário é componente essencial do conhecimento da realidade – amputada dos elementos só acessíveis pela imaginação, a perda completa do sentido da experiência humana se segue implacavelmente. Por que associar o imaginário com o irreal? O hábito tornou-se um automatismo de tão arraigado que está em nossa conduta e educação. Já no debate entre protestantes e católicos na época da Reforma isso já estava no ar, por assim dizer. O mundo imaginário do cristianismo havia desparecido para todos os envolvidos no drama, sem exceção, o que equivale dizer que, de ambos os lados, pessoas discutiam em favor e contra algo que eles não compreendiam mais – o próprio surgimento do debate revelava o enfraquecimento do imaginário cristão. Para complicar ainda mais as coisas, na época havia surgido uma nova intelectualidade desligada das universidades medievais – tratamos disso numa aula anterior. Por assim dizer, eram intelectuais que, digamos assim, não faziam parte da intelectualidade oficial. Podemos chamá-los de intelectuais palacianos, porquanto a convivência diária não era entres seus pares, e sim viviam em meio aos nobres – quer sob a proteção deles, quer a serviço como funcionários do palácio. Devido o meio social ser a aristocracia e não a intelectualidade, tiveram de escrever nas línguas nacionais pela única razão de que os aristocratas não sabiam latim (precisavam atender a seus novos patrões). Quando, porém, o debate era interno na intelectualidade, saber latim era condição prévia para o ingresso nela. Saber latim era ter acesso a uma língua internacional somente com a qual era possível a comunicação na universidade medieval, cujos membros eram de dezenas de nacionalidades diferentes – seria semelhante a estudar no MIT e não saber inglês. Quando se forma a nova classe intelectual, composta de pessoas alheias do clero e da convicência diária com seus pares, tem início a ambigüidade de serem ao mesmo tempo mestres e empregados dos aristocratas juntos aos quais conviviam. A ambiguidade é extrema porque, já dizia São Tomás de Aquino, é próprio do sábio ordenar. Se a um só tempo o sábio é empregado do idiota, sob certo aspecto aquele manda neste porque sabe mais; contudo, também o idiota manda no sábio, uma vez que paga-o, pode demiti-lo, prendê-lo ou cortar-lhe a cabeça. É muito interessante estudar a vida de alguns dos intelectuais palacianos. Thomas More foi um deles. Ele foi decapitado pelo rei, e veio a tornar-se santo da Igreja. Embora casado e com filhos e dispondo de alguma riqueza obtida a serviço do rei, Thomas Mora preferia viver na austeridade. Vocês não são capazes de imaginar a exuberância e o luxo da corte de Henrique VIII, a tal ponto que os dedos do rei mal podiam mover-se devido a quantidade de anéis (cinco ou mais em cada dedo); todos se vestiam de peles de animais caríssimas, ostentavam jóias etc. – algo que consideraríamos de mal gosto, kitsch, visto que hoje a elegância está associada a uma certa simplicidade – mas na época a moda era a abundância escandalosa. Imaginem um homem profudamente cristão vivendo entre rezas e penitências e tendo de conviver com essas pessoas, esse era Thomas More, o qual tinha a função ambígua de ser tanto conselheiro e professor do rei como também empregado dele. Nenhum intelectual na Idade Média passou por semelhante ambiguidade, nem São Tomás de Aquino, nem Duns Scot, nem Pedro Abelardo. As universidades medievais eram mantidas pela sociedade em geral, mas permaneciam totalmente independentes dela. Considerava-se mérito da sociedade contribuir para a manutenção das universidades e até mesmo de estudantes estrangeiros que, assim que chegavam, visitavam algumas pessoas e pediam colaboração a elas. Contudo, ninguém tinha qualquer autoridade sobre o estudante, salvo a universidade. Assim a universidade transformou-se em um poder autônomo, idéia que hoje ainda persiste embora seja, é claro, um simulacro. Aliás, a palavra universitas significa universitas literarum et scientiarum (universo das letras e ciências); porém universitas era usada mais para designar o conjunto de professores e alunos – o seu universo. Essas pessoas tornaram-se um poder independente da Igreja e dos governos locais, chegando a atemorizam a ambos. [00:20] Havia certas revoltas universitárias em que o corpo universitário inteiro levantava-se contra uma coisa ou outra – destruiam a cidade! Na época os intelectuais não tinha satisfação a prestar a ninguém, nem mesmo a Igreja enquanto instituição, apenas prestavam satisfação à doutrina cristã porque eram todos cristãos e o cristianismo era a crença dominante. Porém, instituicionalmente ninguém tinha poder sobre a universidade. Muitos mais tarde, a disputa iniciada por volta de 1500 sobre o mando na universidade termina um século depois com a vitória provisória da Igreja sobre os reis. Quer dizer que a Igreja começa a dominar por volta de 1600. Mas ao longo da disputa já foi se formando paralelamente outra intelectualidade, atraída pelos nobres e pessoas abastadas, portanto alheios ao círculo de convivência intelectual universitário, como que em concorrência. Isso basta para explicar muitas das transformações ocorridas então. Não é necessário dizer que esses intelectuais possuiam alguma formação universitária adquirida na juventude. Mas uma coisa é passar quatro ou cinco anos em uma universidade e outra coisa muito diferente é fazer uma carreira, chegando aos pontos mais elevados. Descartes, por exemplo, teve algum estudo escolástico durante certo tempo, mas não se pode dizer que tenha absorvido a cultura escolástica como um Duns Scot ou um São Tomás de Aquino. Embora de proveniência universitária, os novos intelectuais já não pertenciam ao meio universitário e nem tinha a cultura escolástica extensiva de outrora. Manipulando certas questões próprias da filosofia escolástica, nota-se que são amadores e não sabem colocá-las. O próprio Thomas More serve-nos de exemplo. Numa discussão, o interlocutor de Thomas More afirma tanto a impossibilidade de provar que se está acordado como também a impossibilidade da prova de que não se está sonhando que alguém pedia-lhe para provar que está acordado. Thomas More em seu livro prossegue na análise da distinção entre sonho e vigília por várias páginas, e conclui que tão somente a fé garante-nos o senso da realidade – a fé entendida não como crença subjetiva, e sim como participação no corpo da Igreja. Quer dizer, como um membro do corpo dos fiéis, somente a confiança que se tem na crença coletiva deste corpo garante a realidade. Trata-se de uma solução paralela e similar que dará Descartes ao problema do gênio mal. Diante da questão de se todo o universo não é um sonho infundido pelo gênio mal, Descartes não encontra saída senão a de que Deus é bom e não lhe faria tal sacanagem. Essa é uma experiência que tanto Descartes quanto Thomas More tiveram. Porém, qualquer escolástico principiante responderia imediatamente ao interlocutor de Thomas More que ele supõe que sonho e vigília são estados ontológico e não estados do nosso conhecimento. Portanto, é evidente que todo o enigma era uma trapaça. Somente se pode ter a experiência do sonho em um universo real. Mais ainda, para supor que o sonho é um estado ontológico tem de fazê-lo em um universo real, e assim não resta enigma algum senão uma questão artificial e artificiosa, antes um desafio erístico que uma questão lógico séria. Mas Thomas More leva a questão a sério e sofre por causa do problema, e ele nega totalmente a ortodoxia cristã no instante do seu apego a solução chamada fé, mesmo achando que está de acordo com ela. Quando ele diz que a única base do conhecimento é a fé, ele negou toda a doutrina cristã, pois a existência do mundo real cognoscível pelo ser humano é um dos tópicos fundamentais da Igreja. Thomas More, por ser católico, deveria ser o defensor do conhecimento objetivo, enquanto seu interlocutor, protestante, seria partidário do subjetivismo e da pura crença, mas aqui a situação se inverte. No instante que Thomas More mais está se apegando a Igreja como instituição e corpo de fiéis, aí é que ele a nega doutrinalmente. Claro, não com intenção – é o que se chama heresia material, e não heresia formal. No entanto, Thomas More é um santo da Igreja (canonizado por Pio XII). Aliás, a Igreja está cheia de santos que, ao longo da vida, proclamaram crenças heréticas, os quais ou corrigiram-nas ou foram consideradas heresias materiais – não foram condenados porque não houve o intuito herético característico da heresia formal. Basta isso para vocês notarem quanto os católicos brasileiros são mais exigentes que a Igreja, pois eles imaginam que existe a pureza doutrinal total; a própria Igreja jamais a conseguiu, mas, sabem como é, os brasileiros, esse povo nascido com a ciência infusa, conseguem tudo, e nem mesmo precisam conhecer a doutrina para opinar sobre o assunto. Esse foi um exemplo de como um santo da Igreja defendeu seriamente uma doutrina obviamente herética. Quando Thomas More se vale da fé como única garantia da existência de um mundo objetivo, é como que Kant com três séculos de antecedência: nada podemos conhecer da coisa em si, apenas seus fenômenos, mas temos de acreditar na existência do mundo porque é o imperativo categórico. Dito de outro modo, temos de acreditar nele senão tudo viraria uma bagunça. Tais exemplos foi para dar mostra da inabilidade dos novos filósofos, embora eles ainda tivessem algum resíduo de formação escolástica. Eu imagino a mesma discussão no meio escolástico um ou dois séculos antes... as pessoas ririam deste problema. Atribuir algo da ordem do conhecer à ordem ser é uma confusão banal que qualquer primeiranista de filosofia escolástica não poderia cometer. Mas vejam vocês a situação fantástica que se vivia na época de Thomas More! Ele, grande intelectual, chanceler e professor do rei, podia cometer isso, e em nome da Igreja Católica e como seu defensor. Ocorria na época uma espécie de alucinação coletiva na qual começa a aparecer a leitura completamente errada das obras antigas – leitura que vai diminuindo. Quanto Descartes conhecia da filosofia escolástica? Alguma coisa, até bastante se comparado a seus contemporâneos. E Kant, séculos depois? Nada, ignorava totalmente. E hoje ninguém sabe nada. Claro, no século XX houve com a chamada neo-escolástica o resgate de alguma compreensão com a tentativa explicá-la, mas também ela vem contaminada pelo espírito moderno. [00:30] O mais famoso neo-escolástico, Jacques Maritain, é um dos grandes responsáveis pela confusão doutrinal e teológica que se espalhou na Igreja. O problema de compreensão da filosofia escolástica, ou mesmo da filosofia grega antiga, estende-se até hoje. Para vocês verem até que ponto se aprofundou nessa incompreensão, tenho comigo o livro “The end of physics: the myth of a unified theory” [O fim da física - O mito da teoria unificada] – livro excelente, aliás; estou lendo-o. No livro é dito que a esperança de criar uma teoria unificada da física, de modo a servir de base para todas as ciências, já foi abandonada. Os físicos não acreditam mais nela. Se ainda a mencionam, é apenas da boca para fora. O livro tem muitas observações pertinentes, mas quando entra na parte histórica o autor comete erros que são... eu sei que são erros, e quando os leio sei que estou diante de um amador que nada sabe do que diz. Mas tais idéias são compartilhadas por toda a intelectualidade contemporânea, exceto por aqueles que dedicaram algum tempo ao estudo específico. Vou dar-lhes um exemplo: “Durante muitos séculos foi central a crença de que o mundo todo, em última análise, do movimento dos corpos que caem até a existência de Deus, podia ser em última análise compreendido pelo puro pensamento, agindo sozinho. Assim, filósofos e teólogos trabalharam poderosamente para construir provas da existência de Deus. Pensadores como Aristóteles e Platão afirmavam que a natureza trabalhava de acordo com certos princípios, dos quais tentavam deduzir os fenômenos do mundo natural, relegando a um distante segundo lugar os testes empíricos acerca do funcionamento real do mundo e da validade de suas teorias. A idéia revolucionária por traz da ciência moderna, a ciência de Copérnico, de Kepler, de Galileu e de Newton foi a nova importância conferida aos fatos. A crença fundamental de que as teorias deveriam ser simples e harmoniosas foi mantida, mas foi abandonada a noção de que elas podiam ser desenvolvidas apenas mediante a cogitação.” Ora, o autor diz que toda a ciência antiga e medieval foi construída pelo uso da simples razão, sem consideração dos fatos e, de repente, a filosofia moderna com o empirismo descobriu a importância deles. Sustenta também que não basta belas teorias construídas pelo puro exercício da capacidade dedutiva, mas é necessário apelar aos fatos. A primeira vez que voltei a minha atenção para a absurdidade desse lugar-comum foi no momento em que comecei a ler os livros de ciência de Aristóteles, lidos apenas por especialistas. Geralmente, são lidos a lógica, a metafísica, a política e a ética, ao passo que são desprezados a geração dos animais, dos meteoros etc. Dos livros de Aristóteles, o percentual daqueles dedicados à ciência natural é de 70%. Se era mesmo para ignorar os fatos, qual a razão de investigar tantos fatos? Aristóteles descreveu a anatomia e a fisiologia de centenas de espécies animais – mais ainda, até a embriologia ele descreve. Ora essa! Se bastava construir somente pela simples razão pura, por que tantas observações? A tese com isso parece estar contraditada. É suficiente ver como realmente as coisas se passaram: a idéia de construir o conhecimento através da razão pura não veio à mente de ninguém antes do ano de 1600. A idéia de que a experiência não traz conhecimento, e somente importa considerar a razão pura, é de Spinoza, o qual negava taxativamente que da experiência fosse possível obter qualquer conhecimento. Para Spinoza, tínhamos de proceder como os gêometras, ou seja, criar os conceitos e a própria construções deles é a fonte de verdade. Isso é o que caracteriza o racionalismo clássico, idéia peculiar da modernidade. Portanto, a história descrita por David Lindley, autor do livro, é completamente invertida porquanto atribui à Idade Média e à Antiguidade uma idéia típica da modernidade. Contra este racionalismo da modernidade levantam-se os empiristas modernos, como Locke e outros; ou, dito de outro modo, o confronto entre racionalismo e empirismo é um dado da ciência e da filosofia na modernidade, nada tendo a ver com a época anterior. Vejam vocês até que ponto a imagem que se tem desses períodos é falsificada. Mas a falsificação não se limita a um e outro autor que escreve semelhante bobagem ou ao fato de ela ser repetida ou não. A falsificação entrou na interpretação que fazemos dos textos, e quando os lemos, inclusive resumos ou mesmo menções, fazemos dentro desse espírito. Baixou-se uma como espécie de cortina de fumaça entre a modernidade e os períodos anteriores. Esta cortina de fumaça está não somente nas universidades ou nos livros, está na nossa mente. Todos nós somos educados no panorama moderno e a nossa visão da história e mais ainda da estrutura da realidade mesma está profundamente afetada. Dificilmente se encontra alguém que não acredite haver no mundo apenas estas duas coisas: o real e o imaginário. O real é aquilo que acontece na ordem física, ao passo que o imaginário é aquilo que se pensa, e tudo que diz respeito à religião as pessoas encaixam na esfera dos milagre e da fé. Todos embarcam nisso sem perceber que estão sendo produndamente modernos e anti-cristãos, contrariando a cosmovisão cristã e hipertrofiando o elemento fé, que é também invenção de Kant. Aí reside a razão de, quando entramos nos estudos de lógica, corrermos o sério risco de entender tudo formalmente correto mas deslocado do quadro de referência real. Vou dar-lhes um exemplo de como isso começou a acontecer, e também de como todos os elementos que compõe a cosmovisão cristã foram-se apagando do imaginário a tal ponto de tornarem-se pura matéria de fé, [00:40] quando eles não eram. Ou eram matéria de conhecimento, que se podia chegar por meios racionais; ou eram pelo menos dados de experiências que se podia obter através do uso correto da imaginação. Por exemplo, a imagem de Deus, o que se entende Dele. Hoje entende-se que existe um mundo físico, tal como descrito pela ciência moderna, criado por um ser separado dele, um ser chamado Deus – há muitas pessoas que acreditam nisso e julgam cristão. Ou seja, tomou-se o mundo físico como realidade básica e independente, com sua própria constituição, contudo mesmo assim ele foi criado por Deus – essa crença surgiu na Renascença, antes ninguém entendia assim. Antes, quando se referia a Deus, concebia-se algo muito diferente. A diferença não está no conceito de Deus, mas na imagem Dele. À medida que essa imagem se ia dissolvendo, e as pessoas já não conseguiam entender o que a Igreja dizia ser Deus, surgem vários remédios de emergência. Um deles remédios é sugerido por Nicolau de Cusa (Nicolau Krebs, cardeal da cidade de Cusa), um dos grandes pensadores do período. Ele sugere que uma das maneiras de começar a conceber Deus com uma imagem mais próxima da realidade efetiva Dele é com aqueles quadros em que o retrato de Jesus Cristo parece nos olhar não importando a direção desde a qual o vemos. Quer estejamos à esquerda, quer à direita, Cristo está nos olhando. Porém, isso contraria a propriedade fundamental do olhar humano, a sua direcionabilidade. Hoje sabemos que focamos um único ponto, o qual é o centro articulador de tudo, e ao redor dele tudo está mais ou menos desfocado – a visão humana não apenas é direicional, é eminentimente direcional. Quando, porém, olha-se um quadro desse desde duas direções diferentes, com uma pessoa num canto e outra noutro canto, e ambas estão sendo olhadas por Cristo a um só tempo, aí se começa a conceber o que é Deus. Agora imagine não apenas duas pessoas, mas todos os objetos da sala, todos eles estão sendo olhados simultaneamente. Ou seja, tem-se assim uma visão pervasiva, para todas as direções e ao mesmo tempo, não só qui, mas também em toda parte. Com isso é possível entender que a nossa visão é apenas uma linha direcional em meio a um infinito de direções possíveis do olhar e todas essas direções estão presentes simultaneamente em Deus. Este exercício permite formar uma consciência mais concreta do que é a onisciência de Deus. Semelhantes a esse exercício, existem muitos outros. Outro exercício é o necrológio, e eu lhes passei logo no início deste Curso. Que é o necrológico? É olhar a própria vida sob a categoria da mortalidade e projetar no futuro certas virtudes que deseja encarnar que, embora não as tendo, são as que deseja para si no momento. Com ele você descobre um padrão pelo qual se pode julgar seus próprios atos, antes não o tinha – antes apenas se tinha a opinião alheia. Ora, se não há um padrão do que se quer ser, é impossível saber se errou, se se afastou ou aproximou daquilo que você acha que deveria fazer. E isso equivale a dizer que você não tem consciência moral alguma, tão-só a opinião alheia ou a listinha de pecados que o padre lhe deu. Se acaso for ao confessionário apontando os pecados dessa sua listinha, isso nada significa, absolutamente nada, porque não é uma verdadeira confissão pessoal, mas o simples preenchimento de um formulário administrativo. É apenas no instante em que você vê a sua vida sob a categoria da mortalidade, quando então ela é vista como uma curva inteira dirigida até certo ponto cuja escolha foi orientada pelo amor a algumas virtudes e qualidades. Só aí que se sabe onde falhou; ninguém vai acusar-lhe disso, pois ninguém percebeu e esse é um segredo só seu. É exatamente ali que Deus está olhando. Não há qualquer formulário ou ética externa que possa substituir essa consciência. Todas as ordens externas, todas as leis exteriores, valem para a ordem social apenas, e não para a sua confissão. Se você não é nem mesmo capaz de saber onde traiu a si mesmo, como vai saber se traiu a Deus? E você não sabe nem mesmo o que você espera de si mesmo como você vai saber o que Deus quer de você? Através deste exercício de se ver a própria vida à luz de uma virtude acessível, você começa a compreender os pecados e saber onde traiu a si mesmo, a seu próprio coração e, portanto, a Deus. Essa imagem conseguida com o necrológio não é o que Deus quer de você, é o que você quer de si; mas através dela é que se pode compreender algo do que Deus quer, porque você terá de corrigir não só a sua conduta à luz da imagem, mas a imagem mesma, muitas e muitas vezes, em razão de perceber o que há de falso e deficiente nela à medida que tenta realizá-la. No início vai querer realizar um ideal seu, e acabará por entender que isso não é o que Deus espera de você, que isso é apenas uma imagem que terá de ser corrigida à luz da realidade. Se as pessoas não fazem nem isso, com qual cara-de-pau elas vão confessar seus pecados? Acaso elas sabem o que foi ou não pecado? Claro, materialmente se sabe, mas os pecados assim confessados não têm forma, hierarquia e tamanho. Se você não é capaz de apurar a gravidade relativa dos próprios pecados, que raio de exame de consciência é esse? Na época de Nicolau de Cusa, todo o imaginário antigo, [00:50] que facilmente situava as pessoas diante de Deus, já tinha desaparecido. Isso acarretou o desenvolvimento de diferentes concepções de Deus e da fé, chegando, como Thomas More, a inverter completamente a ordem dos fatores – a fé como fundamento do conhecimento do mundo objetivo, quando é o contrário! Se não se acredita no mundo objetivo é impossível ter fé. Isso que eu descrevi foi um dos muitos efeitos do surgimento da nova classe de intelectuais, a qual formou a imagem do mundo que nós temos hoje. Pouco importando a pretensa fé da pessoa, a visão dominante que se tem do período antigo é toda constituída de fantasias, sem correspondência alguma com a realidade. Foi muito recentemente, acho que apenas a partir do século XX, que teve início a escavação da cosmovisão antiga e medieval, e notou-se que o homem dessa época não via as coisas como nós. Não é uma diferença doutrinal apenas, de modo que eles diziam isso e nós dizemos aquilo – não! Eles queriam dizer outra coisa. Vejam vocês como se pode parar longe da realidade, mas muito longe! Contam-se milhares de livros, mesmo os de boa qualidade, nos quais se pode observar a seguinte assertiva: o heliocentrismo foi rejeitado quando surgiu porque, tirando a Terra do centro da realidade, o homem era rebaixado. Como a Terra era o centro da história religiosa e cósmica, onde se deu a Criação e a Queda, era um lugar muito importante, central mesmo no cosmos, e, de repente, na imagem copernicana ela era rebaixada a um planetinha periférico e insignificante. São milhares de livros onde isso aparece. Quando se propõe investigar profundamente o assunto, e quem se deu ao trabalho foi Jean Borella, esse grande filósofo, descobre-se que não foi nada disso. Borella primeiramente quis saber se o sistema ptolomaico, localizando a Terra no centro do universo, tinha essa ênfase de colocá-la aí para exaltá-la como lugar muito importante. Ele descobre que não, pois o centro axiológico ou valorativo nunca foi a Terra, e sim o Sol. Até porque no fim das contas é o Sol que representa Jesus Cristo, e não a Terra, a qual simboliza uma região mais baixa, inferior. Quando se localizava a Terra no centro, não significava o lugar mais elevado ou importante, pelo contrário, significava o embaixo, e quanto mais afastado desse centro tanto mais perto de Deus. Em segundo lugar, Borella também descobre que a concepção estritamente heliocêntrica não teve muitos defensores quer na Antiguidade quer na Idade Média – Aristóteles foi um dos poucos a insistir nela. Ao contrário, geralmente se imaginava a Terra como que solta no espaço e em permanente estado de queda. É por isso que em tantas imagens na Antiguidade aparece algo sustentando a Terra, seja o gigante Atlas, seja as águas primordiais, seja qualquer outra coisa. Com o advento do sistema heliocêntrico de Copérnico, muita gente da Igreja entende que agora é o que está certo; porquanto se é o Sol que simboliza Jesus Cristo, devia mesmo estar no centro. Ora, então por que a Igreja rejeitou o sistema heliocêntrico? Simples, é porque, tal como proposto por Galileu e Copérnico, estava errado. Rejeitou por razões unicamente científicas. Isso não quer dizer que o sistema heliocêntrico tal como proposto por Galileu e Copérnico, com a devida correção, não são seja verdadeiro. Era inaceitável sobretudo tal como foi apresentado por Galileu, para quem o Sol não era só o centro do sistema solar, mas do universo. Se rejeitaram por razões científicas, não é possível que desprezassem as observações e acreditassem no conhecimento pela razão pura; o sistema de Copérnico, sim, foi construído deduzido da razão pura, pois não havia condições de fazer as observações necessárias – quem criou um pouco de condições de observação foi Galileu, e não Copérnico, que tudo deduziu matematicamente. A história da ciência que se consagrou é exatamente o inverso da realidade. Isso é muito grave, porque a imagem que se tem da estrutura do cosmos determina toda a orientação que a cultura tem da realidade das coisas. A própria distinção básica entre o real e o irreal é determinada por ela. Ora, a maneira de o católico medieval entender o milagre era completamente diferente da que entende o católico de hoje. Por mais católico que seja, o católico de hoje foi educado dentro dos padrões da ciência galilaica e acredita nela – se acaso estudou mais ciência e chegou até a teoria quântica, ele notará que Galileu estava errado e, de fato, o mundo da física quântica se parece mais com o medieval do que aquilo que se tem oficialmente como realidade. Por exemplo, o fato de que, a um tempo, uma partícula possa estar em dois lugares e, ainda, que isso só aconteça quando tal partícula é medida – o que mostra haver ali uma interferência do aparato de medição na própria conduta da partícula. Ou seja, quer isso dizer que o fato puramente mental da medição tem algo a ver com a estrutura da realidade. Para a mente medieval não seria um grande espanto, mas é um quase absurdo para a mente formada no mundo galilaico-newtoniano. Portanto, o próprio estado de desenvolvimento da ciência física destrói a cosmovisão galilaica ou cartesiana dos dois mundos, um mundo dos hard facts e outro do imaginário. Mesmo porque o mundo dos hard facts não é assim constituído de maneira alguma, mas apenas de uma seleção matemática. E então se aplica a famosa pergunta de Einstein: como é possível que a conduta de partículas sub-atômicas confira com os cálculos matemáticos que obtivemos por razão pura? Como é possível o poder de preensão das matemáticas sobre esta faixa da realidade estudada pela física? David Lindley, em The end of physics, diz algo que eu mesmo afirmo muitas vezes e é interessante vê-lo declarado por alguém do meio científico: “Há uma explicação tentadoramente simples para o fato de que a ciência seja matemática por natureza. É porque nós damos o nome de ciência àquelas áreas de investigação intelectual [01:00] que cedem à investigação matemática.” Ou seja, a ciência é organizada matematicamente porque ela seleciona apenas os aspectos matematizáveis da realidade, os quais não coincidem com o mundo físico tal como nós o conhecemos e sim constituem uma seleção do mundo físico feita em função do próprio critério matemático. Dito de outro modo: se de todos os objetos conhecidos isolar-se o que não corresponde às suas propriedades matemáticas, o restante estará conforme as propriedades matemáticas. Isto é uma imensa tautologia! Pois só nos resta saber quais são as propriedades matemáticas, o que a ciência física faz há três ou quatro séculos. Qual a relação entre o mundo tal como estudado pela ciência física e os objetos da nossa percepção real? Esta relação é tremendamente complexa e notamos que se torna ainda mais complexa em razão da interferência da medição na própria conduta das partículas. Ora, o instrumento de medição não se constitui apenas de suas propriedades matemáticas, mas é real e existe fisicamente – podemos manejá-lo com as mãos. Se fosse impossível manejá-lo fisicamente e manualmente, se ele não tivesse as famosas propriedades secundárias que assinalam sua presença corporal real perante o físico, a experiência mesma não seria realizável. Se em vez do instrumento de mediação tivessemos somente a fórmula matemática do instrumento, o cientista nenhuma medição poderia fazer. Se há interferência física nas propriedades matemáticas pelo corpo físico do aparato de medição, aí reside a maior prova de que o mundo físico assim estudado não coincide com o mundo real. Na época da formação das ciências modernas, entre outros fenômenos, surge o da consciência muito aguda da falsidade das aparências tal como vivenciada na sociedade humana. Alguns de vocês devem ter lido o meu trabalho sobre Maquiavel, que tem consciência de estar o tempo todo mentindo, representando um papel e até trocando de papéis ao sabor as circunstâncias. O mesmo ocorre a Thomas More – não daquela forma cínica, mas como um drama humano real –, para quem a inegável e sincera fé cristã coexistia com o apelo de uma vocação política também muito verdadeira. Ele acreditava dever servir à nação através do exercício do serviço público, tendo ele próprio ascendido de pé-rapado a chanceler do rei, ocasião em que surge um conflito de obrigações. Thomas More nota que o mundo da corte constitui-se de fingimento, tanto mais eficaz quanto mais cínico. Se maior a mentira, mais pessoas fingem crer nela. Embora todos saibam que mentem, eles ficariam muito revoltados se tudo fosse desmentido ou desmascarado. Nessa época, quando tudo se revestiu de teatralidade, o teatro surge como a grande imagem do mundo. Na aula passada eu mencionei isso, mas não me reportei a um aspecto importante que foi uma das suas origens fundamentais disso tudo. Existe um famoso livro cujo autor chama-se Fox sobre os mártires protestantes torturados e mortos pela Inquisição. Ao longo dessas narrativas observa-se algo deveras terrível! O processo inquisitorial começa como um debate acadêmico – refiro-me especificamente ao processo por heresia, por bruxaria não sei dizer. O inquisidor vai até o suspeito e, educado e simpático, tem com ele um longo debate acadêmico, procurando convencê-lo do erro das suas doutrinas. O suspeito submete-se ao debate consciente de que o espectro do castigo está o tempo todo presente por trás da polidez e idoneidade acadêmica. Ocorreu um caso extremo vivenciado num tempo posterior pelo próprio Thomas More, que ficou a cargo de interrogar Benham, um herético. O debate acadêmico foi feito na própria casa de Thomas More, onde Benham hospedou-se a convite. O debate entre eles prossegue, mas Thomas More não consegue convencê-lo de seus argumentos fortíssimos. Quando intelectualmente a questão não teve solução, o então hóspede torna-se repentinamente prisioneiro da casa de Thomas More, e o debate já segue em outras condições. Após a isso, Benham é removido à prisão, torturado e morto. Ora, como desde o início o suspeito sabia do risco que corria, todo o debate inicial assume o ar teatral de uma farsa medonha e monstruosa. Imaginem vocês o horror da Igreja Católica tomado pelos primeiros protestantes quando foram submetidos a esse teatro que teve início cerca de 1200. Fox em seu livro diz que nós estamos muito longe do tempo de Santo Agostinho ou de São Jerônimo, que conseguiam persuadir as pessoas só pela força da sua inteligência; diz que se pode ter um imbecil como inquisidor e até vencê-lo no debate pelos argumentos, mas aí mesmo que se está perdido. Portanto, vocês vejam que o apelo aos meios repressivos já assinalava a perda da hegemonia intelectual da Igreja Católica, que só recorria a eles por não convencer os hereges. Não é possível que todos passassem por isso e se deixassem matar só por má vontade ou fingimento. Quem quer que se deixa levar à tortura ou à fogueira [01:10] é porque realmente está convencido. Chegou-se a uma espécie de impossibilidade intelectual, a qual leva Thomas More a descrer da prova objetiva de qualquer coisa e a confiar somente na aposta da fé, não apenas como certeza íntima, e sim como a participação no corpo dos crentes. Temos aí inaugurado todo o irracionalismo moderno, não só dos protestantes como também dos católicos. A decomposição do mundo imaginário medieval começa a colocar certas dificuldades intelectuais que as pessoas não podem vencer e reside aí uma das origens do Tribunal da Inquisição que instaura o teatro dos teatros. Antes de surgir no meio palaciano, a teatralização da vida existia na Inquisição. Depois, é claro, os protestantes farão o mesmo. Todos sabem que Calvino institui na Suíça um reinado do terror muito pior do que a Inquisição, uma vez que não se limitou a fiscalizar as doutrinas heréticas, mas estendendo-se até a conduta pessoal de todos – inclusive dentro de suas casas. Calvino inventa o Estado totalitário. No Estado totalitário já não existe a mais mínima possibilidade da sinceridade porque todos estão sendo vigiados e tem de fingir sempre. E se não se está fingindo, como os outros saberão da sinceridade? Então tem de enfatizar a mostra de sinceridade, tem de teatralizá-la, e assim ela deixa de ser sinceridade. Temos assim o fenômeno da Inquisição, da formação da nova intelectualidade palaciana – constituída de mestres-empregados e às vezes até mestres-escravos – e o advento do totalitarismo. Intelectualidade que bem se pode dizer escrava, pois como empregados, os mestres podiam ser mortos a mando dos seus patrões. Tudo isso num período de duzentos anos e em praticamente todos os países da Europa. É curioso que os intelectuais palacianos assumem a identidade de que estão libertando o ser humano das peias da autoridade, embora estejam sob uma autoridade muito mais exigente e perigosa que a da Igreja, que apenas reprimi-los-ia em caso de heresia, enquanto o servo palaciano podia ser reprimido por qualquer coisa. Eu digo que também isso é fingimento. Eu acho que podemos ver todo o período como de loucura. O que eu escrevi de Maquiavel no meu estudo publicado na Revista Leonardo aplica-se praticamente a todos os intelectuais do período, a Descartes, a Bacon, a Thomas More, a Galileu, a Newton, a todos eles. Portanto, o mundo moderno inaugura-se como uma fantasia teatral macabra, não apenas na base da pura teoria, mas com o poder político a impondo. Mas perto do que veio depois, o sistema repressivo da Inquisição é coisa pouca. A sinceridade das pessoas será a mesma do protestante interrogado pelo inquisidor católico, que se for sincero morrerá. Vejamos o que sucedeu no interrogatório de Thomas More. Benham, quando é mandado à prisão, arrepende-se após a tortura e, confessando seus erros, reintegra-se na Igreja Católica. Está então perdoado. Passados alguns meses, porém, ele arrepende-se do arrependimento e, em lágrimas, vai à igreja protestante dizendo “eu trai a Jesus Cristo”. Contudo, ele não se contenta em confessar na igreja protestante e sente que tem de fazê-lo em público, uma vez que a abjuração foi assim. Entendeu que confessar em segredo seria uma deslealdade a Jesus Cristo. Ele se confessa diante dos católicos, é preso novamente, torturado e morto. Vemos então que o inquisidor não quer a simples abjuração, mas a abjuração sincera. As provas de sinceridade são uma série de atos físicos externos que teoricamente demonstrariam a sinceridade interior, tal como abjurar em público para passar vergonha, beijar o crucifixo etc. Ora, qual é a possibilidade de declarar sinceramente algo que do contrário lhe trará a morte? A possibilidade mesma de sinceridade acabou nesse momento. Mais absurda ainda é a expectativa ilusória do inquisidor de obter do herege a abjuração sincera. Em que medida esses inquisidores acreditavam realmente no que faziam? Tentavam acreditar, sim, como os protestantes também tentavam. Contudo, que significa a essa altura acreditar? A coexistência da pressão exterior letal com a sinceridade do coração é quase impossível – não duvido que uma ou outra vez tenha ocorrido. E num processo como o de Joana d’Aarc, o que acontece? Lendo aquilo, nota-se que todos os inquisidores estão sendo honestos, mas o que pedem a ela é uma impossibilidade. Ela se submete a todo aquele teatro, cuja culminação é evidentemente a sua morte. Ela não abjurou. Mas suponham vocês que ela tivesse um momento de fraqueza e abjurasse, mentindo contra si mesma. Ela seria absolvida dos pecados, em seguida se arrependeria do arrependimento e seria condenada, exatamente como Benham. Isso quer dizer que a autonomia cada vez maior do poder político-policial do Estado vai criando situações humanamente impossíveis, forjando a atmosfera de teatralidade observada entre os séculos XV e XVIII – e nós ainda estamos dentro dessa atmosfera. Quando hoje observamos as últimas conseqüências disso, como a de um sistema de mídia mundial mentindo descaradamente em coisas que todos sabem ser mentira... Ora, o mundo tornou-se a corte de Henrique VIII onde a mentira é tanto mais acreditada quanto mais todos sabem que é mentira. [01:20] Qual a possibilidade de nos livrar dessa coisa sem enterrarmos toda a cultura criada nesses quatro ou cinco séculos? Eu acho que é nenhum. Quem a inventou não foram os Rochefeller, a CNN, o The New York Times... não! A invenção data de muito antigamente e, pior, não foi inventada por políticos, mas por inquisidores e, depois, por intelectuais. Não deixa de ser significativo que Thomas More no seu principal livro, Utopia, vendo a maldade, a falsidade e o ambiente de artificialismo sufocante e repressivo, apele à idéia da revolução socialista. Ele é um dos primeiros doutrinários explícitos da revolução socialista. Claro, pode-se dizer que não é propriamente ele, mas um dos personagens que advoga isso e um outro personagem, justamente chamado More, apresenta objeções – mas as objeções são fracas. O personagem que advoga a revolução socialista alega que toda a falsidade do mundo existe em razão da cobiça de riquezas e que as pessoas seriam boas e sinceras se criássemos uma sociedade onde essa cobiça fosse impossível. O personagem inventa uma sociedade onde todos se vestem iguais; onde as casas são absolutamente iguais e não se permite morar nelas por mais de três anos; onde as famílias são mudadas de suas casas para não se apegarem a elas etc. O personagem segue em sua descrição, mas há um ponto não mencionado, qual seja, o de que para manter a sociedade igualitária seria preciso um governo central de poder imensamente maior do que o de Henrique VIII. Ora! Thomas More seria burro para não perceber isso? Não, ele não é burro. Ele não está seguro do que está fazendo. Qual era o problema de Thomas More? Ele era um intelectual palaciano, cristão mas desvinculado funcionalmente da Igreja. Vivia na corte, fora portanto da Igreja. Às vezes, ele dizia que, se não tivesse mulher e filhos, iria viver numa cela de monge. Thomas More não concebia o retorno àquela situação intermediária criada pela Igreja com a constituição das universidades, isto é, a de uma intelectualidade independente. Não havendo outra solução, resta-lhe apenas apelar a uma imaginação hiperbólica e conceber a sociedade igualitária onde as motivações básicas do ser humano tenham mudado completamente. Notem bem, tal como a República de Platão, a Utopia não é uma proposta política e sim uma investigação hipotética. Como seria a sociedade assim constituída? Thomas More evidentemente se esquiva do problema de qual o governo necessário para criar e manter tal sociedade, porque se ele entrar nele terá novamente todas as dificuldades que existiam antes. O governo que determina completamente a vida de todos teria de exercer um poder tão grande quanto o de Henrique VIII sobre a pessoa de Thomas More; poder esse muito mais amplo e disseminado do que o mero controle exercido pelo rei sobre os membros da corte. Portanto, na busca da solução desesperada para o seu problema, o intelectual moderno que come à mesa com os poderosos só tem em mente a revolução futura que crie o mundo igualitário. Thomas More foi martirizado e morreu como santo. Mas não podemos deixar de observar a ambigüidade de toda a vida dele – ele mesmo dizia que, se não tivesse mulher e filhos, viveria como monge. Ora, há apenas duas hipóteses? Ou chanceler do rei, ou monge? Não há nada no meio? Ele não poderia fugir com a família para outro país e, com parte do seu dinheiro, viver com eles mais modestamente? Pode. Mas não ocorria isso a Thomas More, pois sua vocação política era muito forte. Ele gostava da vida da corte, não podia passar sem ela; ao mesmo tempo odiava e amava a vida da corte. O número daqueles que vivem situação semelhante é enorme; são pessoas viciadas em um tipo de convivência que odeiam e, não podem mudar a si mesmas, querem transformar o mundo. A transformação do mundo, claro, é vivida por Thomas More apenas em sonhos, mas a sua motivação não difere da de qualquer comunista. Nós observamos quando a pessoa, cansada da hipocrisia e falsidade capitalista, aposta em algo imensamente mais falso, radicalizando o mal até as últimas conseqüências. Vocês podem ver que o processo de deslocamento entre a consciência do indivíduo e o que ele pode declarar em público vai transformar-se na paralaxe cognitiva, que é a estrutura básica da ciência e da cultura superior há dois ou três séculos. Óbvio, a paralaxe não resolve, até agrava. O problema é assim internalizado ainda mais e, digamos assim, enobrece a falsidade da vida dessas pessoas para se radicalizar até tornar-se mentalidade revolucionária. Quer isso dizer que já estava dado o curso das coisas por vir quando o primeiro inquisidor disse ao primeiro herege “arrependa-se sinceramente”. Ou seja, a institucionalização da hipocrisia obrigatória, e assim da criação de um esquema de vida absolutamente angustiante e insuportável, faz com que não se veja saída pessoal dele e também o resgate da cultura anterior não se conceba. Sem saída, o indivíduo aposta na revolução futura. Notem bem, nós todos fomos educados assim. Para nós, o mundo da cristandade medieval é imaginário, no sentido diminutivo do termo. Então, é evidente, resta-nos apenas uma saída real: ou nós conseguimos resgatar o sentido da estrutura simbólica da própria realidade e entendemos de uma vez por todas que não existem “dois mundo” (res extensa e res cogita), mas existe uma sucessão de plano de realidade, todos simbolicamente articulados; ou teremos de viver essa coisa até as suas últimas consequências. [01:30] Acompanharam até aqui? Eu vou parar um pouco e depois responder as perguntas. Aqui eu recebi uma pergunta extensa do Ronald Robson e não conseguirei lê-la inteira, mas eu vou dar aqui algumas explicações, que espero respondam pelo menos parcialmente à pergunta. Depois colocamos essa pergunta por extenso no chat, pois é muito interessante. Creio que tudo isso pode ser resolvido pela seguinte maneira. A filosofia moderna estabeleceu uma distinção muito drástica entre intuição e razão. Quer dizer, o conhecimento intuitivo é aquele que se apreende imediatamente, da própria presença do objeto, e o racional é aquele que se constrói quando raciocina, segundo os princípios da lógica: princípio da identidade, princípio da não-contradição e princípio do terceiro excluído. Ou seja, quando você segue o esquema da silogística de Aristóteles, que é um esquema que nós vamos estudar ainda nas próximas aulas, então você está praticando o conhecimento racional (Eu gostaria que vocês entendessem tudo isso que eu disse nessa aula como uma introdução ao estudo do que se chama raciocínio – silogismo e raciocínio lógico. Daqui a pouco vocês vão ver por que). A distinção entre conhecimento intuitivo e racional é justamente o que vai provocar a grande divisão entre racionalistas e empiristas no começo da Idade Moderna, estando de um lado, classicamente, Descartes e Spinoza e parcialmente Leibniz, e de outro lado, John Locke e Bacon. Mas, quando se tem a simples apreensão, o que se está captando é a unidade substancial de um objeto; é por isso que você pode responder interiormente a pergunta Quid? (O quê?). Quando você sabe do que você está falando, do que você está pensando, é porque você tem um objeto presente de algum modo; e quando você o capta, você não o faz por aspectos separados, mas sim como forma integral que o permite que seja uma coisa. Se você captasse somente a cor, ou somente a forma externa, a figura, ou somente o peso, você não teria o objeto; você teria apenas abstrações. Mas quando você diz: isto é um gato, ou isto é uma abóbora, é porque você captou um quid. Ora, qual a diferença entre isso e o que nós chamamos “raciocínio”? Aparentemente, é uma coisa completamente diferente, porque num caso você está apreendendo uma forma presente, quer ela esteja presente fisicamente ou em imaginação; e no outro caso você está construindo um objeto mental. Mas, quando você faz um silogismo do tipo: “Todo homem é mortal; Sócrates é homem; Portanto, Sócrates é mortal”, como você capta a unidade entre as duas premissas e a sua conclusão? Você a capta exatamente da mesma maneira que capta a unidade de qualquer coisa. Quer dizer, se você não tem a intuição da forma do raciocínio, não existe raciocínio. No momento em que eu descobri isto, eu descobri algo que para mim tornou-se definitivo: não existe conhecimento racional; só existe conhecimento intuitivo; porque a própria forma do raciocínio tem de ser objeto de apreensão intuitiva, senão você não capta nada. No instante em que você está entendendo um silogismo, você está apreendendo intuitivamente a unidade de uma forma lógica, que expressa para você uma estrutura de possibilidade. Ou seja, a estrutura da possibilidade também é apreendida intuitivamente; não há outra maneira de apreendê-la. Se você não tivesse a apreensão imediata da unidade do silogismo, você simplesmente não o entenderia. Você não entenderia a conexão entre uma frase e outras, elas apareceriam como frases isoladas. Mais ainda: não apareceriam só as frases isoladas; até os termos apareceriam isolados. Nós conseguimos falar e raciocinar porque nós temos a intuição da unidade da forma do raciocínio. Você se recorda do que raciocinou, e já não compreende aquelas frases apenas como uma sequência, mas como um nexo interno. Então é evidentemente totalmente desnecessário falar num conhecimento racional; este não é senão uma forma específica do conhecimento intuitivo. Mesmo quando você faz um raciocínio totalmente hipotético, que não se refere a nada na realidade, o que você está captando? A unidade interna de um esquema de possibilidades. E você o está captando racionalmente? Não é possível, porque para captar racionalmente seria preciso que você fizesse o silogismo e um segundo raciocínio em cima dele, e um terceiro e um quarto, e não terminaria nunca. [Portanto] você capta a unidade de um raciocínio do mesmo modo que você capta a unidade de um quadro que você está vendo. Há uma unidade de uma história que te contam. Quer dizer, você assiste um filme, e conserva na memória as cenas anteriores, e você percebe o nexo causal entre os vários episódios da história. Senão, [por exemplo], aparece o sujeito na janela caindo do 15º andar, e [depois] aparece embaixo o sujeito morto e você não conectaria uma coisa com a outra. É claro que o material deste ato intuitivo está na sua própria imaginação. Então, quando você olha para as imagens que estão na sua mente e você capta a sua unidade, você está fazendo o mesmo que quando você capta a unidade entre uma premissa e uma conclusão. Portanto, a distinção entre conhecimento racional e intuitivo é apenas material, referindo-se apenas à diferente matéria do conhecimento intuitivo, e não a uma forma diferente de apreender. A razão não é uma forma cognitiva diferente da intuição; apenas ela tem uma matéria diferente. Essa matéria é dada pela imaginação, a qual esquematiza possibilidades, de modo que você perceba a coerência interna dessas possibilidades. Mais ainda: é isto que permite que quando você tem, como diz o Ronald Robson, uma apreensão incompleta ou demasiado genérica de um objeto – por exemplo, você vê uma lagarta, e depois vê um elefante, e diz que os dois são animais -, qual é o objeto material do que você está apreendendo? É somente o gênero a que pertencem. Ora, como você percebe a relação entre gênero e espécie? Da mesma maneira que você percebe a lagarta e o elefante. Agora, você pode articular uma percepção com a outra: por exemplo, aqui tem esta aparência que eu chamo de lagarta; ali, tem aquela aparência que eu chamo de elefante: se eu estou apreendendo as duas juntas no mesmo plano, eu só [as] capto como gênero, evidentemente. Mas eu posso encaixar isso dentro de uma estrutura da possibilidade, e [dizer]: são animais diferentes, pertencem a espécies diferentes. Isso não quer dizer que a razão corrigiu a intuição; [na verdade] são duas intuições diferentes, uma completando a outra. Assim como quando você vê um animal de um lado, você pode tentar observá-lo por outro lado também. Se você observou um animal parado, você pode tentar observá-lo em movimento, e você vai completando a intuição. Só que nem todos os dados da intuição aparecem no mundo dos sentidos físicos; muito é dado pela memória e pela imaginação. Então, é sempre um conhecimento intuitivo que está funcionando. E o que é a Lógica? É a ordem do pensamento? De maneira alguma: a Lógica é a ordem da possibilidade. Quando se diz que a Lógica é a ordem do pensamento [1:40:00], isto é uma figura de linguagem. A Lógica não se refere em primeiro lugar ao pensamento, mas sim à estrutura interna da própria possibilidade. Como nós captamos esta estrutura da possibilidade através de um trabalho mental, nós dizemos que estamos estudando o pensamento; mas não é o pensamento que a Lógica estuda; [aliás] ela jamais o fez. Mais ainda: esta estrutura que se chama Silogística possui três elementos: i) a premissa maior, ii) a premissa menor e iii) a conclusão, que conecta as duas. Isto quer dizer que você pode representar um silogismo com um triângulo. [Desenhando um triângulo]. Você tem uma premissa, outra premissa e uma conclusão. Porém, qualquer dessas três afirmativas pode servir de premissa para um segundo raciocínio; e acontecerá então isto aqui: [desenhando]. Por exemplo: Todo homem é mortal; Sócrates é homem; [ou] Todo homem tem duas pernas; Portanto, Sócrates tem duas pernas – a não ser em caso de privação. Isso não tem nada a ver com o raciocíncio aqui, mas você simplesmente tomou uma das premissas e desenvolveu lateralmente. Você pode continuar isto indefinidamente. Isso quer dizer que um sistema dedutivo, que esteja todo formado por silogismos absolutamente perfeitos e probantes, se fechar, de modo que a última conclusão confirme a primeira premissa, ele terá tomado a forma de uma geodésica. E nós sabemos que a geodésica é, no espaço físico, a estrutura mais resistente que existe, do mesmo que um sistema silogístico perfeito é a demonstração mais perfeita que existe. Ora, isto que eu estou fazendo não é somente uma imagem. Um sistema silogístico é de fato uma triangularização da experiência: ele é composto de uma série de percepções da integridade de formas lógicas conectadas, que se apóiam umas nas outras, e que se sustentam. Este é o ideal; só que nunca alguém fez um sistema silogístico tão perfeito assim. Nós sabemos que idealmente o conjunto da possibilidade forma de fato esta geodésica; [porém] só Deus a conhece. A coerência total de tudo quanto existe poderia idealmente ser transposta num sistema silogístico universal. Acontece que não existe só essa relação silogística. Existe, por exemplo, uma relação quaternária; uma relação de proporcionalidade, do tipo a/b=x/y, que pode, é claro, também ser demonstrada silogisticamente. Mas, isso quer dizer que se você percebeu a coisa sob a forma duma proporcionalidade, você não está na falsidade; é apenas um modo não-silogístico de você apreender formas lógicas. Cada uma dessas formas se condensa numa certa figura geométrica, ou, se a figura geométrica não for representável ou desenhável, se condensa num número. Os números são estruturas de formas lógicas. Ora, é nesse ponto que entra o Mário Ferreira dos Santos. Ele descobriu a diferença monstruosa que existe entre a matematização tal como a compreendiam Pitágoras e Platão, e a matematização tal como foi feita por seus remotos discípulos na Renascença. Pitágoras e Platão sabiam perfeitamente que a matematização perfeita do conhecimento era impossível, e entendiam que a forma completa de um ser existente, substancial, real, equivalia ao esquema de possibilidade que o tornara possível, o qual, por sua vez, era uma fórmula matemática, inalcançável pela inteligência humana, mas concebível como absolutamente necessária. [Isto é] se este ente existe, é porque ele é possível; se ele é possível, ele corresponde a uma figura específica da possibilidade universal que o possibilitou; e esta figura específica da possibilidade universal é um conjunto de relações lógicas que, idealmente, poderia se expressar matematicamente na mente de Deus, e que nós só podemos imitar de longe. [Isso] porque nós não vivemos no mundo da possibilidade universal, mas sim num mundo que se recorta dentro da possibilidade universal, e que tem muito mais determinações do que ela: todas as determinações da acidentalidade. A acidentalidade também, tomada no seu conjunto, ou tomada especificamente neste ou naquele caso, corresponde a algo dentro da possibilidade universal, e este algo também é um esquema lógico. A partir da Renascença, o que eles querem é pegar essas fórmulas fundamentais do cosmos e dominá-las. Como isso não é possível, o que eles fazem? Um outro tipo de matematização, que em vez de tomar os entes substanciais como totalidades efetivamente existentes, separa deles os caracteres não-imediatamente ou não-obviamente matematizáveis, e só lida com isto; e acha que com isso está apreendendo o segredo do cosmos, quando não está apreendendo nada. Não é de estranhar que todos aqueles cálculos perfeitíssimos feitos por um Newton, alguns séculos depois tenham se revelado não como o Universo, [mas sim] como um aspecto pequenino [deste]. E, também não é de se espantar que, passadas mais algumas décadas, eles chegassem à conclusão de que de fato não é possível partir deste setor do conhecimento que nós separamos pela matematização, e vir a obter uma fórmula total do Universo, na espécie de uma teoria unificada. Então, como você vai obter uma teoria unificada da totalidade da existência se você já começou por separar dela os elementos que não lhe pareceram matematizáveis na hora? Na verdade tudo é matematizável; porém, só idealmente. Por que, por exemplo, os chamados caracteres secundários, digamos o gosto de um alimento, não seria matematizável? É claro que é. Mediante observações e medições mais apuradas você pode reduzi-lo a uma fórmula matemática. Tudo pode ser matematizado, em princípio. O que você não vai conseguir fazer é articular o conjunto. Isto Pitágoras e Platão já sabiam. [queda da transmissão] [1:50] Não resta a menor dúvida de que a ênfase da ciência renascentista na Matemática foi de inspiração pitagórico-platônica, mas vinda através de um viés ocultista, esotérico, e realizada de uma maneira um pouco drástica. Quer dizer, tudo aquilo que não cabe na sua matematização joga-se fora. [Portanto] não se está realmente estudando o mundo real, [mas sim] somente aquilo que de imediato foi acessível aos meios de matematização que se tinha. Sem contar que a Matemática evoluiu monstruosamente nesses quatro séculos, criando condições de se descrever matematicamente fatos de uma complexidade tal que o próprio Newton morreria de medo. Quando se vê a Topologia, por exemplo, ou a Teoria das Crises, percebe-se que é uma matemática que nem Newton poderia conceber. Idealmente, tudo poderia ser descrito matematicamente, porque a Matemática é a própria Lógica. Não há diferença entre a Aritmética Elementar e a Lógica. Idealmente, é possível fazer essa triangularização; mas só idealmente. materialmente seria impossível porque seria o infinito quantitativo em ato. Isto significaria criar um outro universo. Isso quer dizer que a perfeição ideal do sistema dedutivo é apenas um ideal; é uma meta teleológica na qual a Ciência se orienta, vai em sua direção e se deixa guiar por ela, mas sem poder realizá-la efetivamente. Não pode realizá-la e não precisa realizá-la, porque não é só a Ciência que nos fornece conhecimentos: o real, o efetivo também nos fornece conhecimentos. E a Ciência não passa de uma coisa que nós fazemos dentro do mundo da experiência real. A finalidade da Ciência não é abranger a totalidade da realidade numa malha de conceitos que tudo explique. Não; a finalidade da Ciência é simplesmente nos adequar melhor a um mundo que é em si mesmo eminentemente inteligível. A inteligibilidade faz parte da estrutura do real. E a Ciência somente aprimora determinados pontos que foram [postos como] objeto de dúvida por este ou aquele grupo social, por esta ou aquela pessoa, em um determinado momento. Do mesmo modo, no exemplo dado pelo Ronald Robson – a sua simples apreensão foi demasiado genérica, não se conseguindo pois atingir a essência daquele objeto; daí concebeu-se um esquema de possibilidade e encaixou-se uma coisa na outra, fazendo as devidas distinções. Repito: não é que a razão esteja corrigindo a intuição. São duas intuições que se complementam. Normalmente, não é necessário fazer isto. Não se apela ao esquema de possibilidades diante de um objeto que está presente e que lhe é perfeitamente inteligível. Caso contrário, a inteligência vai paralisar imediatamente. A possibilidade que nós temos de apelar a essas construções lógicas, para complementar os dados da intuição, é mínima. Na quase totalidade das nossas atividades, nós nos orientamos pela intuição pura e simples, [isto é], a intuição de objetos sensíveis. E só apelamos ao esquema de possibilidades se há uma dúvida, ou surge uma questão que só pode ser decidida por um objeto que não está presente na sua intuição. Suponha que você esteja dirigindo um automóvel, e de repente ele começa a falhar. E você percebe pelo indicador que está faltando óleo, por exemplo. Você não está vendo o motor, não está vendo a falta de óleo; você não tem a intuição disto. Você só possui a intuição de um índice externo que o ponteiro indicando aquilo. Este ponteiro sugere uma relação lógica entre o que está aparecendo no próprio ponteirinho e o que está acontecendo no motor: esta relação você constrói mentalmente. Mas, esta contrução também tem de ser percebida intuitivamente, e o nexo dela com os dados intuitivos sensíveis também tem de ser percebido intuitivamente, senão você teria de fazer vários raciocínios em sequência. Existe uma apostila minha, que creio estar no meu site, e que fala das condições básicas do conhecimento científico. 1) A primeira é a existência de evidência, e evidência é um conhecimento que é auto-probante, não precisa ser provado. Se não existe nenhuma coisa evidente, não existe prova. 2) A segunda condição da Ciência é a possibilidade da prova. Quer dizer, você vai partir de algo que está evidente para outra que não estava evidente no primeiro momento, mas que se tornará evidente por meio da prova. O que é esta prova? É a construção de um esquema de possibilidade, e este também tem de ser percebido intuitivamente, o nexo entre ela – a prova – e o dado evidente também tem de ser percebido – isto também por intuição. 3) Terceira condição: o nexo entre a prova e a evidência. E, 4) quarta condição: a evidência do nexo, pois se o nexo não for evidente, [seria neessário] vários outros nexos racionais, indefinidamente. Estas são as quatro condições fundamentais de qualquer conhecimento seguro. Se existissem efetivamente dois tipos de conhecimento separados, intuição e razão, nenhum conhecimento seria possível. Ou seja, ou todo conhecimento é intuitivo, ou não há conhecimento algum. Isto é o que eu chamo intuicionismo radical. Claro que existe a evidência direta, pela presença do objeto, e existe a evidência indireta, pela percepção do esquema de possibilidade no qual ele se encaixa. Mas esta percepção, por sua vez, tem de ser intuitiva. A única diferença é entre diferentes objetos de conhecimento intuitivo: alguns objetos que nos são dados pelos sentidos, outros que vêm da nossa memória e da nossa imaginação, e outros que podem até ser construídos por meios puramente lógicos, mas cuja integridade, cuja forma, também terá de ser percebida intuitivamente. Nas próximas aulas, eu vou dar a lista dos modelos de silogismo que Aristóteles admitia. [Em] cada um deles, vocês terão de perceber o nexo intuitivo. Eu acho que é menos importante se adestrar no pensamento lógico, que é próprio do ser humano e que todos o tem, do que se desenvolver a consciência de que todo esse processo é inteiramente intuitivo; isto é, ver o que você mesmo imagina, e perceber aquilo como formas integrais. E, por sua vez, [tomar a consciência de que] o nexo que se percebe entre o silogismo e o dado da experiência, é também percebido intuitivamente. Há uma pergunta aqui: Aluno: Dado que todo conhecimento é intuitivo, inclusive o da possibilidade universal, que faz a razão? Olavo: A razão é exatamente a apreensão dessas formas da possibilidade universal; ela é o senso da possibilidade universal. Aluno: Esse senso não é adquirido pela intuição? Olavo: Esse senso é uma forma de intuição também. Vamos dizer assim: a razão é a intuição da possibilidade universal; porque se isso não fosse percebido intuitivamente, não seria percebido nunca. Como você sabe que a conclusão do silogismo se refere à mesma coisa que a primeira premissa se referia? Você tem de fazer uma quarta proposição, além das três? Então: Todo homem é mortal; Sócrates é homem; Logo, Sócrates é mortal. Quarta proposição: esta última proposição se refere ao objeto da primeira. E daí você tem de provar isso também. [2:00] Tem-se então a evidência e a prova, o nexo entre elas, e a evidência do nexo, sem os quais não é possível pensar. Se o nexo for de ordem puramente racional e não intuitiva, não há como se chegar a uma conclusão. Aristóteles diz que a percepção dos primeiros princípios da lógica é intuitiva e imediata. Toda lógica depende disso. Partindo do primeiro princípio — o princípio da identidade — e criando uma montanha de raciocínios em cima deste, como poder-se-á perceber a unidade desses raciocínios e de que todos estes raciocícios fundamentam-se no primeiro princípio? Não é por uma percepção intuitiva do conjunto? É esta a distinção fundamental do Hugo de São Victor: pensar, meditar e contemplar. Pensar é transitar de uma idéia a outra; meditar é sondar o fundamento do pensamento na coisa mesma; e contemplar é observar tudo isso em conjunto. Note bem que o mero pensar por si mesmo não é intuitivo. Mas o pensamento sem intuição é um pensamento que não se entende, não é conhecimento. Pensar é simplesmente inventar formas possíveis; mas como é que se vai inventá-las se não as percebe, se não se percebe a unidade destas formas e a unidade delas com a experiência? Assim não se conhece nada, está-se inventando uma história da carochinha. Pensar é realmente transitar de uma ideia à outra; mas pode ser de uma ideia idiota a uma outra mais idiota ainda. Então aí ainda não há conhecimento, mas em geral existe conhecimento no pensamento; nós não passamos o dia inteiro pensando ideias idiotas; se fosse assim erraríamos em tudo. Ao sentar-se em uma cadeira você supõe que ela não cairá; e você se senta e ela não cai mesmo, você permanece sentado. Nós nos orientamos com esse tipo de nexo o tempo todo. Quer dizer, a maior parte das coisas que pensamos não são idiotices; idiotice requer algum conhecimento especializado, requer um certo adestramento. Aluno: você falava algumas aulas atrás que o conhecimento por presença é prévio e ainda mais básico que a própria intuição... Olavo: Sim. Por baixo do conhecimento intuitivo eu afirmo que existe conhecimento por presença. A intuição é a atualização dessa presença. Agora, a presença da realidade, a presença do universo, a presença do cosmos é condição para o conhecimento e ela já trás conhecimento em si, ela é portadora de conhecimento — no mesmo sentido que eu digo que há mais geologia nas pedras do que em todos os tratados de geologia. São depósitos de conhecimento: o objeto tem a sua constituição, tem a sua lógica interna; a lógica não foi algo que se impôs sobre o objeto. Observando por exemplo a anatomia de um animal concluir-se-á dela algo sobre a fisiologia. Claro que se pode concluir errado, mas em geral não é assim. Quer dizer que se um animal tem uma anatomia própria para botar ovos, então muito provavelmente ele bota ovos — da anatomia se conclui a fisiologia. O que se está captando? Está-se captando a lógica interna do funcionamento daquele animal; essa lógica está nele e não no observador, não é o observador que está impondo uma lógica em cima dele. “Ah, eu coletei aqui um monte de dados aleatórios, sem sentido nenhum, e criei mentalmente a estrutura de um animal e impus em cima dele” — não! E se não existisse essa lógica, esta estrutura interna de possibilidades que está presente nos próprios seres que nos rodeiam e em nós mesmos, na nossa própria constituição espiritual e física, não haveria conhecimento algum. E a intuição funcionaria no vácuo. Então eu proponho não só o intuicionismo radical, mas também o conhecimento por presença, sem o qual não poderia haver intuição de nada. O conhecimento por presença é a condição sem a qual não pode haver intuição, porque a intuição apenas atualiza a presença — a presença de um ente no espaço, de um pensamento na sua mente, de um estado psicológico qualquer; tudo isso são presenças. Agora, essas presenças podem ser captadas de maneira mais ou menos direta ou indireta: pode-se captá-la no próprio objeto que se está observando (lembrem-se do exemplo das duas pilhas de cartas) ou pode-se apreendê-la indiretamente através de uma outra imagem que se concebe e cuja analogia com o primeiro também se percebe intuitivamente. Logo, é intuitivo de qualquer maneira. Existem intuições mais simples e intuições mais complexas. Se você considerar um sistema silogístico inteiro, a filosofia de Espinosa inteira, por exemplo, o que me permite falar “filosofia de Espinosa”? É porque você leu os livros de Espinosa, viu toda a construção e captou aquilo como uma unidade. Se você só entendesse cada frase separada não haveria filosofia de Espinosa, haveria milhões delas. Esta unidade do raciocínio dele — que pode até estar errada — você a capta como unidade. E como se capta isso? Intuitivamente, na sua memória. Você a transforma em uma imagem na memória e essa imagem é captada intuitivamente. A diferença entre racional e intuitivo é apenas a diferença de objeto: ou você está captando um ente que está presente, ou está captando uma estrutura de possibilidades que também está presente na sua imaginação. E eu tenho impressão de que isso pode ajudar o aluno a resolver o problema que ele está colocando aqui. Aluno: É possível dizer que a diferença entre todas as faculdade cognitivas é uma diferença de objeto ou isso não se aplica em todos os casos? Olavo: Eu não sei resolver esse problema ainda porque eu não o examinei, mas eu creio que sim. Com a diferença de que nem todas as chamadas faculdades cognitivas são igualmente cognitivas. Em algumas delas há uma zona perigosa de intersecção entre o que é conhecimento e o que é ação, e seria preciso examinar cada caso particular, mas eu nem me coloquei esse problema ainda — talvez não me coloque nunca, não sei. Então a diferença entre esses dois tipos de matematização nos revela que os antigos tinham a perfeita consciência do caráter utópico da ciência matemática perfeita. E nós hoje precisamos do teorema de Gödel para nos provar o mesmo; até uma coisa tão óbvia precisa ser provada matematicamente. Pode-se conhecer uma coisa por intuição direta e esse conhecimento direto pode lhe dar uma certeza absoluta, mas ele não é transmissível; então busca-se uma prova. Na prova, cria-se uma série de esquemas e percebe-se a unidade deles (pelo menos a analogia deles) com o objeto do qual se estava falando em primeiro lugar — mas isso é bem mais complicado. E além da prova pode também haver as objeções, que são em número indefinido. Então, obter o conhecimento por intuição é imediato, por prova requer um pouco mais de tempo. Para resolver todas objeções requer-se ainda mais tempo. Nós podemos complicar isso aqui o quanto quisermos, mas para responder a todas objeções é necessário perceber intuitivamente e ver se cada resposta oferecida se harmoniza com a prova que foi dada e com o objeto intuitivo originário. Então o que se fez? Tinha-se a intuição do objeto, agora tem-se a intuição de um imenso sistema de relações possíveis. [2:10] Trocou-se de objeto apenas. Aqui tem uma pergunta que parece não ter relação com este assunto, mas tem. Aluno: conheço visualmente muito da pintura e escultura moderna e contemporânea, porém meu entendimento é bastante modesto. Como esse tipo de arte chegou a esta situação? O que essa pintura está realmente dizendo? Como, em particular, a pintura chegou ao ponto de aparentemente arruinar o objeto pintado? Veja por exemplo Matisse, parece tudo mal acabado. Outra encrenca é o Duchamp, um urinol com uma roda é arte? O que é, afinal de contas, arte para esses artistas? Leio artigos sobre pintura e escultura moderna, contemporânea e conceitual e essas duas últimas são ainda piores para entender, mas nada me esclarece... Olavo: Mas é muito simples saber por que isso aconteceu: eles tentaram representar o mundo não como aparece na experiência, mas como aparece nas ciências. Acontece que o mundo das ciências não é o mundo real. Wolfgang Smith diz que o mundo que a ciência física estuda é o mundo que São Tomás de Aquino chamava de materia secunda: não é a matéria prima (a matéria prima é um nada), mas um nada quantificável, materia signata quantitate (a matéria assinalada pela quantidade), o quantificável. O quantificável não é a matéria prima e também não é o objeto real, é um intermediário. E tudo que a ciência moderna diz é sobre esse mundo. Não todas as ciências, evidentemente; isso não se aplica, por exemplo, à fisiologia ou à zoologia. Mas acontece que essas duas tem de ser complementadas com um bocado de imaginação e estão sempre sujeitas a serem discutidas, e nelas se vê a inviabilidade da perfeição matemática. A perfeição matemática só pode existir naqueles objetos que são eminentemente matematizáveis. Porém, acontece que esses objetos que são eminentemente matematizáveis não são os objetos dos sentido. Então eles não chegam a compôr nenhum objeto material. Pode-se dizer que os objetos da física são compostos de partículas subatômicas; mas os objetos no mundo real são compostos de partículas subatômicas e mais uma série de determinações que não são acessíveis à física. Essas determinações são matematizáveis? Em princípio sim, todas elas. A cor, por exemplo. Não é idealmente possível fazer uma gradação matemática de todas as percepções de cor que o olho humano tem e de todas as variações de cor nos próprios objetos. Seria a escala cromática universal: a cor de tudo comparada e equiparada às distintas reações do olho humano. Não sendo capaz de fazer isso, o que é que a ciência renascentista faz? Diz que toda a percepção de cor está apenas no olho, e não nos objetos, pois apenas nestes está o matematizável. Ora, o matematizável dos renascentistas limita-se àquilo que eles foram capazes de matematizar naquele momento. Se nós pudéssemos, idealmente, comparar todas as reações cromáticas do olho humano aos seus equivalentes nos objetos estimulantes, nós veríamos que o olhar é uma percepção rigorosamente objetiva. Nós não estamos projetando cores, pois os objetos têm cores objetivamente. Mas não sendo acessíveis à ciência renascentista, os renascentistas isolaram-nas e disseram que cor não existia senão subjetivamente. Ora, se essas propriedades secundárias não são acessíveis à observação matematizável, então significa que essa observação matematizável é muito deficiente, e não que a cor não exista e que seja subjetiva. O que os renascentistas fizeram foi nos impôr como regra e como lei uma ciência deficiente, que estava apenas engatinhando, mas do qual eles tiraram conclusões universais e nos impuseram. Passando quatro séculos todo aquele castelo de cartas cai, e começa-se a perceber que o mundo estudado pela ciência física não é propriamente o mundo dos objetos reais da experiência, mas uma outra faixa, que é reduzida às suas qualidades matematizáveis. E as outras qualidades? Também são idealmente matematizáveis, mas não na prática. Então, voltamos ao velho pitagorismo: tudo se compõe de números, mas só Deus sabe a equação. Quer dizer, a estrutura da possibilidade universal é evidentemente uma estrutura matemática, mas nós só podemos concebê-la como uma assíntota, da qual nós nos aproximamos mas que nunca vamos chegar. E não chegar lá faz parte da condição humana, porque seria o conhecimento infinito. Porém, o que adianta o conhecimento infinito para um ser finito? Portanto a idéia fundamental da chamada arte moderna foi representar o mundo tal como ele aparece nas ciências. Por exemplo, os impressionistas: “Nós queremos aqui pintar não a aparência, mas a visão, como funciona a visão”. Foi isso que eles fizeram. Os quadros impressionistas são um tratado de óptica tal como a ciência óptica tinha se desenvolvido até aquele momento. O mesmo fenomeno acorre na arte do romance, quando os personagens começam a se decompôr nos seus estados psicológicos descritos pela psicologia da época. Então os personagens já não se parecem mais com pessoas, evidentemente. Tudo isso é uma influência corruptora de uma ideologia científica. Se esses artistas fossem capazes de articular esses dados científicos com a experiência real, o resultado seria diverso, evidentemente. Mas o que estes artistas fizeram? Jogaram fora a experiência real e começaram a trabalhar com formas que lhes pareciam representar conhecimentos científicos muito profundos — como por exemplo, o objeto decomposto nas suas várias perspectivas possíveis. O que era uma palhaçada, evidentemente. Esta arte cubista: há aqui uma tartaruga e ela aparece de vários lados. Mas a tartaruga tem um número limitado de lados e pinta-se alguns deles, escolhidos arbitrariamente, e diz-se que isso é muito científico. Dizem que este é o mundo real e não o que se está vendo; mundo real é o que aparece no quadro do Picasso, só ele sabe como é a realidade. E essa é a grande pretensão de todos estes artistas: como a ciência descobriu todo o segredo da realidade, então tudo o que se vê é falso. É que disse o Arthur Eddington: “vocês pensam que isto é uma mesa, mas isto é um aglomerado de átomos e partículas”. Você pensa que é um aglomerado de átomos e partículas, mas na realidade é uma mesa; você está apenas trocando a escala. E não se pode dizer que uma escala é mais verdadeira do que a outra, mas apenas que ela é menor. Isto assemelha-se à discussão do heliocentrismo e do geocentrismo: estes também são aparências do mundo físico vistas com uma certa escala e desde um certo lugar. Se você observar os movimentos desde a estrela Vega, levando em conta todos os movimentos de conjunto do Sistema Solar, aí o que era uma elipse torna-se uma espiral ou uma outra coisa qualquer. Aluno: Sou seminarista na Diocese de Sobral no Ceará e estudo filosofia. Recentemente li em um livro de um comentador brasileiro que a fundação Rockfeller financiou pesquisas realizadas por Theodor Adorno. Por que essa fundação financiava pesquisas dos expoentes da escola de Frankfurt, formada por socialistas? Você não acha que boa parte das táticas [2:20] utilizadas pela esquerda aqui no Brasil, além de serem inspiradas nas idéias de Gramsci, também são inspiradas nas ideias de Franz Neumann? Para Neumann não havia necessidade da revolução do proletário, pois dentro das instituições, sobretudo pela via do direito, também era possivel realizar o socialismo. A resposta foi dada por David Rockfeller no seu livro de memórias, ele diz assim: “Nós, da nossa família, somos frequentemente acusados de nos voltar contra os mais altos interesses da nação americana e tentar implantar uma nova ordem global. Se é esta a acusação, então eu me declaro culpado e estou muito orgulhoso disso.” Olavo: Eis é a resposta. É para isso que financiam Adorno, etc. Eu já disse um milhão de vezes e vou repetir: para entender qualquer coisa do processo histórico atual que nós estamos vivendo, é preciso levar em conta que existe não um projeto globalista, mas pelo menos três. São eles: (1) o projeto dos Rockfellers, Bilderbergs, etc.; (2) o velho projeto comunista; e (3) o projeto islâmico. Esses três não são o mesmo, e as relações entre eles são ambíguas e enormemente complicadas. Como todo mundo que quer falar em Nova Ordem Global só olha os Bilderbergs — e só fazem isso porque a maior parte das pessoas que estudam isso estão aqui nos EUA, e olham os EUA como se fossem o centro do processo, fazendo de conta que os outros não existem — então se cria uma imagem deformada. O sujeito é obrigado até a concluir que o 11 de setembro foi planejado pelo governo Bush, porque se não há outros agentes, e os únicos agentes são os Bilderbergs e o CFR, tudo tem de partir deles. E então, quem foi que jogou os aviões lá? Só pode ter sido o CFR. O sujeito começa com a boa intenção de descrever, analisar e compreender o processo histórico atual, e se termina numa enfatização hiperbólica de um dos processos como se os outros não existissem. Eu estava lendo outro dia o livro do James J. Crook e ele está tentando demonstrar uma tese do qual eu concordo inteiramente, de que o sistema atual é uma economia fascista. Eu escrevi um artigo paro Jornal da Tarde dizendo o seguinte: eles criaram uma situação na qual a única solução que eles vão encontrar é a economia fascista; não se pode socializar todos os meios de produção porque criar-se-á uma inviabilidade econômica como demonstrou o von Mises. Também não se pode apoiar o capitalismo liberal porque senão o seu poder diluir-se-á na concorrência. Querer conservar uma parte do livre mecado, ao mesmo tempo em que se controla o todo: eis é a forma da economia fascista, aprendida com o Benito Mussolini. E este é o único sistema econômico que existe no mundo, com a diferença de que o Mussolini fazia isso na escala italiana e para fins nacionalistas; essas pessoas estão fazendo na escala global, com interesses globalistas — mas que é de fato uma economia fascista. A tese do livro é essa, mas como ele ignora alguns pontos — se você procurar no índice analítico do livro sobre a KGB, fraternidades muçulmanas, tarica, sufismo não há nada a respeito — então, o resultado é que ele tem de dizer que foi o Rockfeller que fez tudo. Desses projetos citados, o mais antigo é o islâmico. O islã pensa em governo global há 14 séculos, tem uma longa experiência disso, sabe como fazer e está dando um baile nos outros. Tanto que a turma dos Bilderbergs tem de negociar com eles e arrumar um acordo. Não está aí o príncipe Charles, que ao mesmo tempo é dos Bilderbergs e está alisando a cabeça dos muçulmanos o tempo todo? Então nós vemos que existe uma concorrência. E o plano comunista? Desde que o partido Comunista existe ele é em si um projeto de governo global. Aliás, antes dele existir, a utopia comunista sempre foi global. E, mais ainda, os recursos que eles conseguiram juntar para implantar o seu globalismo são tão grandes quanto os dos Rockfeller. Eu tenho informações boas de que os Rockfellers já estiveram perto da falência, o poder econômico deles diminuiu muito. A família não é mais aquilo que era em outras épocas. Se compararmos a fortuna do Rockfeller com a KGB, aquele é um mendigo perto deste. E nós sabemos que isso que chamamos de “máfia russa” são tentáculos da KGB, é a própria KGB; não existe ex-KGB. Um ex-KGB está morto, ou fugiu para os EUA e vive aqui sob a proteção do governo americano, que está louco para entregá-lo de volta. Você pensa em máfia russa e pensa em narcotráfico, mas um terço do dinheiro da bolsa de Nova Iorque é dinheiro de narcotráfico. Você pode dizer que um terço do dinheiro da bolsa de Nova Iorque é do Rockfeller? Claro que não. Narcotráfico, falando em banditismo, é o banditismo mundial unificado. Leiam o livro da Claire Sterling, Thieves’ World. O livro é de 1993 e mostra que já então a máfia russa havia conseguido unificar todas as grandes organizações criminosas do mundo. Tanto que antigamente se falava de guerra de máfia; mas por que isso acabou? Não se vê mais as máfias se matando umas as outras. Eles criaram um negócio que é como a KAOS do agente 86: a organização mundial do crime. Isso existe hoje e é um projeto globalista, que é filhote do projeto comunista. O curioso é que as pessoas que falam em governo secreto sempre o atribuem a entidades públicas — é o CFR, é o Bilderberg etc. Mas nada disso é realmente secreto; não há uma coisa por baixo, que é na realidade é anônima? Tem de ter. Podemos até chamá-la de máfia russa, mas é impróprio o nome. O nome Bilderberg corresponde a um grupo de pessoas, que estão em tal lugar e discutem assim e assim; mas e “máfia russa”? Não é máfia e não é russa! É a KGB planetária. Quais são as relações entre esse esquema e o chinês? Não sei, mas estou louco para saber. E o pessoal islâmico? A ramificação dessas taricas no ocidente é alucinante, eles estão em toda parte. E há tarica que só tem milionários. Vocês acham que eles obedecem o quê? O grupo Bilderberg ou o seu xeique? Eu sei o que é uma relação de um discípulo com um xeique. Eles comparam: você está na mão do xeique como o cadáver na mão do lavador de cadáveres (no Islã, quando o sujeito morre tem-se que lavar o cadáver). O sujeito está ali na mão do xeique como se ele fosse o sujeito que está lavando o seu cadáver; ele não dá um piu, é uma relação de autoridade total e absoluta e controle total da vida do discípulo. E, pior, carregado ainda do valor religioso atribuído à coisa. Então, se o sujeito está numa tarica e é mesmo do Bilderberg, pode ter certeza que ele é um agente do xeique infiltrado no Bilderberg. É mais secreto do que os Bilderbergs. Se você não levar em conta a existência desses três esquemas, nunca vai entender. E, no caso aqui, há uma zona de inteseção entre a turma do Rockfeller e uma ala meio dissidente do comunismo internacional. Durante um tempo pareceu que eles podiam apoiar essas pessoas, sendo adotado nos EUA como regra oficial: “nós vamos apoiar a esquerda moderada, a esquerda iluminada contra o sistema stalinista etc.” Só para, no fim, descobrir que isso é tão stalinista quanto e, aliás, os próprios Rockfellers são stalinistas também. O sujeito apoia essa ala da esquerda e isso dá a ele uma condição de [2:30] negociação com o esquema comunista. Acho que nenhum desses três esquemas espera poder destruir os outros; é da natureza deles, pois o seu crescimento é amebiano: eles não destroem, eles engolem. Existe um quarto projeto globalista que se chama projeto cristão, projeto da Igreja, que é ensinar o evangelho para todo mundo. Este não é um projeto de governo e no entanto ele concorre com os outros e freqüentemente ganha. No próprio mundo islâmico aparecem conversões; na China, [como mostra o] livro “ Jesus in Beijing”, de autoria de David Aikman, dentro do alto escalão do partido comunista há pessoas se convertendo ao cristianismo. Isso não é de hoje e é algo difícil de controlar. Um amigo meu que trabalhou na embaixada em Moscou no tempo do regime soviético dizia que na embaixada, como em toda embaixada, tinha um funcionário da KGB, que ia lá todo o dia, marcava o ponto, e todo mundo sabia que ele era da KGB. Quando ele saía dali, terminado o expediente, ia para a Igreja rezar na Igreja de São Sérgio porque ele era devoto de São Sérgio. Este mesmo amigo meu me contou que convidaram-no para ver uma cerimônia de ordenação de novos sacerdotes da Igreja Ortodoxa. Ele chegou lá e o seminário estava ordenando dois mil padres em um dia, isso no tempo do comunismo. Ele disse: onde é que tem isso no Ocidente? O comunismo com toda a sua repressão conseguiu menos contra o cristianismo do que o regime sutilmente corruptor dos Bildebergs, Theodoro Adorno, etc. Estas são as complexidades da situação, este é um ramo de estudo maravilhoso, mas que tem de ser feito com muita paciência. O desejo de obter respostas é uma coisa inteiramente legítima desde que você entenda que a história não existe para satisfazer as suas necessidades intelectuais; você pode querer saber alguma coisa, mas o mundo não quer que você saiba e você vai enfrentar dificuldades por toda parte. Pior ainda, você pode ter certeza que 99% das pessoas que estão escrevendo sobre este assunto são pessoas dedicadas e sérias, mas que frequentemente não tem uma retaguarda filosófica e metodológica para estudá-lo: são jornalistas, são palpiteiros, são pessoas impressionistas. “ Ah, mas eles estiveram lá, são testemunhas”. Então você tem de usar o testemunho deles, mas usá-los separando-os criteriosamente. Cada livro que eu leio sobre o assunto só me dá dor de cabeça, porque às vezes contem 80% de informação séria e 20% de besteira, que está mesclada a ponto de dificultar a separação. Além disso tenho as minhas besteiras pessoais, tenho os meus erros pessoais que as vezes só complicam o processo. Há certos pontos nos quais estamos firmes e a coexistência destes três esquemas globalistas é para mim um dado elementar. Uma pessoa que fala sobre o governo secreto como se fosse uma coisa está por fora, está imaginando que é a ação uniforme, unilinear de um único grupo. É o negócio do Armindo Abreu, “ O poder secreto!”. Não existe poder secreto: existem poderes secretos e nenhum deles é totalmente secreto. O mais correto seria dizer “o poder confuso”, que não é nem tão poderoso quanto se imagina porque os seus planos deram errado tantas vezes! Aluno : Você falou na aula 54 sobre a criação do mundo por Deus e me ocorreu a famosa polêmica idéia de Leibniz sobre a criação ser o melhor dos mundos possíveis. O que ele quis dizer? Olavo: Olha, um momento! Leibniz não se referiu a este mundo da nossa experiência mas ao universo em sua totalidade, incluindo inferno, paraíso e tudo o mais. Foi neste sentido que ele se referiu. Hoje nós falamos de universo mas lembre-se do que eu mencionei no começo desta aula: nós ouvimos cada palavra de acordo com a clave da ciência acadêmica moderna e lemos este autor – que não é medieval mas do século XVIII – já embocando um significado moderno. A ideia de Leibniz fica parecendo muito esquisito e polêmico, mas não há nada de polêmico. Considere o universo em sua totalidade, com as várias hierarquias angélicas, com Céu, etc. Deus fez e viu que era bom! Nossa própria ideia do melhor é um elemento de dentro deste universo não é de fora. Você é capaz de olhar o universo como totalidade e julgá-lo de fora? Você não pode, então a sua idéia do melhor é também um elemento do meio do universo. Esta é uma coisa bastante simples depois de explicada. Não tem como você se colocar fora e acima do universo e depois julgá-lo, o seu julgamento faz parte do universo. Hoje quando nós falamos de universo queremos dizer uma coisa que a ciência descreve e aparentemente observa de fora, mas que de fato não está. É uma noção coisificada de universo, o sujeito coisificou até o universo. Note bem, quando você percebe isso e diz, como Richard Dakwins: Ah, como é que Deus faz para ler o pensamento de todo o mundo? Então ele imagina que existem seres que estão pensando, que eles existem autonomamente e que vem um deus de fora e fica ouvindo na porta o que eles estão falando. A pergunta é o contrário: como poderia este indivíduo ter um pensamento se não existisse pensamento no universo? Aí você entende que se Deus não conhecesse o pensamento de todo mundo não haveria o pensamento de todo mundo. Deus fez o universo de Si mesmo, Ele insuflou o seu ser, não é uma coisa que Ele fez de fora; nós estamos n’Ele, e Ele não precisa ouvir meus pensamentos Ele já os pensou antes. Então a pergunta do Dawkins é evidentemente idiota, criada de uma coisificação do universo que é evidentemente infantil. Aluno: Alguns dias atrás criei um tópico no Fórum intitulado “Leitura lenta em conjunto” com a finalidade de fazer uma leitura lenta em conjunto do livro de Louis Lavelle, “ A Presença Total”, juntando no referido tópico vários testemunhos, analogias, experiências, confissões, etc. Olavo: Muito bom, mas só se as pessoas forem capazes de expressar a sua reação efetiva à leitura daquilo e não especulações em torno; se virar um debate perde-se tudo. Você precisa dizer o que realmente a experiência lhe evocou. Isso é difícil porque quando você pergunta para uma pessoa: ‘o que você sente a respeito de tal coisa?”, em vez de a pessoa descrever o que ela está sentindo ela dá uma opinião à respeito, ela elabora em cima, ficando assim sem o testemunho do fato, e apenas com as conseqüências intelectuais secundárias. Então esta leitura lenta é boa se você conseguir expressar suas evocações, o que a coisa evocou para você, sem você querer provar nada. Provar é ocupação de vagabundo [2:40]. Nós queremos o conhecimento, a prova não! Não precisa provar nada. Nós aqui queremos perceber. Se você perceber as coisas e se tornar um sábio, você continua não podendo provar nada porque para provar você vai ter que provar para os idiotas, de acordo com os critérios de entendimento deles, e você pode passar o resto da vida tentando demonstrar alguma coisa e você não vai conseguir. A idolatria da prova que existe hoje é uma coisa que só serve para paralisar as mentes. Todo mundo fica com a mania de provar tudo o que está dizendo quando na verdade o que você pode provar é uma coisa ínfima e se deve reservar a prova para os momentos em que isso é absolutamente necessário, ou seja, em que não é possível apreender a coisa só pela intuição do próprio objeto e é necessário fazer uma série de construções em cima. Isso é raro! Na verdade quando você cria um meio mais ou menos homogêneo de pessoas que estão orientadas para os mesmos ideais, que sentem as mesmas coisas, que querem as mesmas coisas, a comunicação é muito eficiente, aí você não precisa provar quase nada porque as pessoas entendem imediatamente, elas captam intuitivamente. A existência de um círculo de pessoas desta natureza é a condição sine qua non para existir alta cultura e é este meio que nós estamos tentando formar aqui: pessoas que se entendam umas às outras. Se nós nos entendermos uns aos outros, se nós conseguirmos comunicar a nossa experiência, nós vamos criar em torno de nós círculo de compreensão cada vez mais amplos, mesmo que você não faça nada. É a ação da presença: a existência de um círculo de pessoas altamente qualificadas cria uma transparência, uma comunicabilidade no meio social em torno, pelo simples fato delas estarem ali. Então, eu acho muito boa esta experiência, porém eu faço dois reparos. Primeiro: o livro “A Presença Total” é um resumo da grande obra do Lavelle que é “A Dialética do Eterno Presente”, em quatro volumes, só que “ A Presença Total” é muito mais difícil que o livro inteiro. É normal que seja assim: Horácio já dizia que a brevidade se opõe à clareza. Compactar algo escrito resulta em algo ainda mais difícil de entender. Se fosse possível fazer este exercício com a obra grande, “A Dialética do Eterno Presente”, seria mais fácil. “A Presença Total” vai levantar mil questões. Por outro lado ficar com dúvidas ao ler a “Presença Total” é bom porque com a leitura da obra inteira tudo vai se iluminar. Este livro, “A Dialética do Eterno Presente” é indescritível! Ortega Y Gasset dizia que Max Scheller vivia bêbado de evidências, mas eu acho que isso se aplica ainda mais ao Louis Lavelle. Ele é quem deixa o leitor bêbado de evidências porque cada linha é auto evidente. Note bem, ele não está tentando provar nada, aquilo não tem a estrutura de uma demonstração, mas de uma meditação. As grandes obras filosóficas não provam nada. Pode-se até tentar provar o que eles estão dizendo, mas elas são sobretudo uma meditação no sentido do Hugo de São Vitor, quer dizer, está-se rastreando as raízes de um pensamento, as raízes na realidade mais profunda. E claro que não é possível de se fazer isso, que é um processo de interiorização, e ao mesmo tempo tentar provar as coisas, que é uma exteriorização realizada às vezes para o benefício de um observador inepto e totalmente incapaz de compreender. Por isso eu digo, evitem a discussão porque na discussão você entra no negócio da prova e a prova só complica a guerra. Técnicas de prova estão para a comunicação de pessoas que estão entendendo mal e isto é um curso de retórica, que não é o curso que eu estou dando aqui. Aluno (continuação da pergunta): Será que se pode ter algum proveito para o exercício que o senhor propôs na aula 10? Pensei que se justamente juntássemos vários depoimentos, várias experiências, ficaria mais fácil a compreensão deste livro maravilhoso do Louis Lavelle. Olavo: Claro que sim, desde que cada um faça a sua leitura e depois coloque lá as suas evocações. Isso pode enriquecer muito os outros e ajudar os alunos a perceber coisas que eles não tinham percebidos imediatamente. Então, é uma grande idéia, vai em frente, isso é muito bom! Eu só teria escolhido um outro livro, mas talvez não seja mal ter escolhido esse, porque este livro tem uma certa obscuridade que não é frequente no livro de Louis Lavelle. Aluno: Caso o senhor ache válido gostaria de saber se teria como o senhor comentar um trecho ou um parágrafo em cada aula para comparar com as nossas experiências ali postadas anteriormente; que o senhor aponte entre o juízo do Lavelle e as nossas proposições. Olavo: É um caso para pensar. Você está me convidando a reler este livro, que eu li muitos anos atrás, e colocar lá as minhas considerações. Pode ser, mas acontece o seguinte, cada vez que eu leio o Louis Lavelle aparece tanta coisa, tanta coisa, que eu mesmo não sei se sou capaz de expressar isso aí. Olha eu digo que ler Louis Lavelle é felicidade em estado puro! É uma coisa tão luminosa, tão certa, tão verdadeira, claro que às vezes falha, mas a gente não pode exigir que o sujeito acerte em tudo. Aluno: Caso o senhor queira comentar estes são os quatro trechos postados no fórum. Olavo: Não, eu comentaria linha por linha, não por trechos, e fazer um comentário linear. Talvez possamos fazer isso, não agora, mas eu vou pensar no caso. Aluna: Caro professor, não sei se é oportuno aqui, mas gostaria de saber por que é pecado o homossexualismo? Olavo: Não tenho a menor idéia. Antes de pensar se é pecado eu penso assim: o que é, quid est? Eu não tenho resposta para o quid est porque com o nome homossexualismo se juntam tantas condutas tão imensamente diferentes e que implicam da parte da alma individual imaginações tão diferentes entre si que eu sinceramente não sei o que é o tal do homossexualismo. Investiguei um pouco, pensei, perguntei, li, conversei com outra pessoa, e só vejo confusão neste negócio. Ninguém vai me dizer que aquele sujeito que está ali, que está fazendo operação para mudança de sexo, botando dois peitões e saindo de biquíni está fazendo a mesma coisa que um machão peludo que vai numa sauna encontrar outro machão peludo, ninguém vai me dizer que isso é a mesma coisa. Então eu digo que não tenho sequer a unidade do fenômeno, como é que vou saber, se eu não sei o que ele é, como é que eu vou saber porque que é pecado? Nós acreditamos que é porque a Igreja diz que é, mas eu não tenho a menor idéia do que isso quer dizer. Então, minha filha, estou pior do que você, que nem cego em tiroteio. As pessoas tem de aprender que às vezes é necessário suportar a dúvida por anos a fio, com paciência, com doçura, com tolerância, sem exigir uma resposta imediata. Muitas vezes as pessoas se apegam a uma religião para não ter de fazer isso. Assim você passa a interpretar as coisas da sua maneira e montado na fé, torna-se um inquisidor. Eu não recomendo que ninguém faça isso. Certeza é um objetivo altamente desejável, ela é desejável e é possível mas não há certeza sobre tudo. Por exemplo, um exame racional e sério desta questão levaria vinte anos e eu não tenho condições de fazer. Eu fiz uma observação aqui outra lá, coisa solta. Então precisaríamos e ter a teoria completa do homossexualismo e não vai ser possível, nesta vida não vai dar, desculpe, eu tenho outras urgências. Está aí uma coisa que vocês podem investigar e os outros podem investigar também, mas façam com paciência e com doçura sem o desejo de encontrar a resposta rápida e sobretudo sem o desejo de impor a sua resposta aos outros. Tem coisa que nós impomos sim, por exemplo 2+2=4, mas tem outras no debate contemporâneo que vemos que é tão besta e ofensiva que se tem de impor algo. Outro dia me contaram que fizeram um debate sobre pedofilia, homossexualismo, na televisão e chamaram o Reinaldo Azevedo, um padre e uma garota de programa [2:50] e estavam lá discutindo celibato clerical e a moça, do alto de sua autoridade acadêmica, proclamou que o celibato clerical foi uma coisa inventada para proteger as propriedades da Igreja. Eu se estivesse lá diria o seguinte: quer dizer que todos estes mártires, que se deixaram martirizar, crucificar, levar uma vida de renúncia e sofrimento puramente por interesse financeiro, ao passo que a senhora dá para todo mundo por puro amor ao próximo, é isso que a senhora quer dizer? Aí neste caso ela está tão fora da realidade que há de se dizer uma coisa chocante para acordar a desgraçada. A pessoa do fundo da sua miséria permite julgar coisas que estão infinitamente além da sua imaginação. Aí eu não estão afirmando nada, só estou fazendo um juízo negativo, contestando um outro que ela fez. Se nós quisermos descobrir a verdade positiva sobre isso, aí levaria mais tempo. Se me perguntarem: mas porque implantaram o celibato clerical? Sabe qual seria minha resposta? Não sei, eu já vi tanta discussão e a resposta é que eu não sei. Por que precisamos de uma resposta para tudo? Note bem, a certeza negativa, a impugnação de uma estupidez você pode ter, mesmo que você não tenha uma resposta positiva. É o mesmo que dizer: eu não sei o que é, mas isso que você diz não pode ser de maneira alguma. Aluno: Estava assistindo um debate no Youtube entre ateus e teístas e os teístas estavam tentando usar o argumento aristotélico de que cada coisa criada tem um criador e se o mundo existe deve ter um criador, Deus. Ora, cada ateu respondeu que isso não significa nada porque então existiria o Deus do Deus, criador de Deus, e assim sucessivamente em uma cadeia sem fim. Olavo: Curioso, porque o raciocínio aristotélico foi feito justamente para impugnar esta idéia. O que ele está dizendo é que se existe uma coisa criada ela tem de se apoiar no incriado. Esta é a definição da coisa. Agora se você só é capaz de conceber seres onde um cria o outro, então você entrou realmente no trenzinho; deus criou, que criou outro deus, que criou outros deus e não termina. Ou seja, você está projetando a causalidade natural no plano sobrenatural, você é incapaz de entender o que é infinito e absoluto. Você está projetando a sua própria incapacidade sobre a questão. É a mesma coisa da discussão com o Thomas More: prove que você não está sonhando. Eu não tenho que provar nada, você é que tem de provar que o sonho é um estado ontológico. Acho que por hoje já deu. Até semana que vem, muito obrigado! Transcrição realizada por: Lucas Lacerda, Mariana Ramos Leandro, Bruno Menezes Fernandes Caires Castagin, Mariana Belmonte. Revisão realizada por: Cristina Saori Asazu