Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 52 03 de abril de 2010 Boa tarde a todos, sejam bem-vindos. De volta à questão da simples apreensão, tema da aula passada, quanto mais se examina a coisa, menos simples ela se parece. Na verdade, ela leva esse nome em Lógica não porque o fenômeno em si seja simples, mas porque a Lógica só o enfoca sob seus aspectos mais simples e esquemáticos. Porém, qualquer ato de conhecimento, como o ato de olhar uma coisa, reconhecer e dar-lhe um nome, por exemplo, pode ser estudado sob muitos aspectos. Uma maneira muito simples e prática de se perceber de forma articulada todos os aspectos que compõem um fenômeno é simplesmente avaliar o número de ciências presentemente existentes que o estudam e verificar por onde elas o estudam. Evidentemente, se os estudiosos conseguiram discernir todos esses ângulos, é porque esses pertencem ao fenômeno de algum modo, estão relacionados a ele, não são aspectos externos nem arbitrários, e pode-se supor que outros ângulos, ainda não percebidos ou ainda não organizados cientificamente, possam ser descobertos, criando outras tantas ciências. Voltando ao ato da simples apreensão - olhar um objeto e dizer o que é - o primeiro ângulo pelo qual se pode ser estudá-lo é o da própria lógica. Aristóteles já havia distinguido três ângulos sob os quais este ato pode ser estudado: (a) o da simples lógica formal; uma vez obtido esse conceito, ele se articula com outros para se produzir os juízos e a partir destes chegar ao raciocínio; (b) é o que Aristóteles chamava de lógica material, que hoje se conhece como Teoria do Conhecimento, ou seja, a relação entre este processo do pensamento e a realidade à que ele se refere; (c) o ponto de vista da Psicologia, o processo real que se dá na mente humana durante o ato do conhecimento. Ao longo do tempo, outras perspectivas foram acrescentadas. De início, a própria Teoria do Conhecimento ou Gnosiologia subdividiu-se num estudo do conhecimento geral e do conhecimento científico em particular, levando este o nome de Epistemologia. Nos Estados Unidos se usa o nome Epistemologia nos dois sentidos: Teoria do Conhecimento Geral e Teoria do Conhecimento Científico. Quase não se usa o termo “Gnosiologia” e quando se menciona, não sabem do que se trata. Em seguida, desde dentro da Teoria do Conhecimento, se desdobraram mais dois aspectos: a Metodologia, que é o estudo do método científico e dos vários métodos científicos, um para cada área que se pretenda estudar, e outro, a Criteriologia, o estudo do acerto maior ou menor, ou do grau de realidade obtido pelos vários conhecimentos. Na modernidade, se desenvolve a Sociologia do Conhecimento: em que medida os hábitos sociais consolidados, as instituições, as regras sociais etc, delimitam as possibilidades do conhecimento ou até as determinam antecipadamente. Esse ramo do conhecimento foi inventado por Max Scheler e Max Weber e depois altamente desenvolvido por Karl Manheim. Evidentemente, na medida em que é possível uma Sociologia do Conhecimento, é também viável uma História do Conhecimento, não só do conhecimento científico, mas a História do conhecimento de modo geral, ou seja, a história das várias formulações sociais e dos tipos de conhecimento que são possíveis ali. Também foi aberto naquela época um ramo especial dedicado ao aspecto lingüístico do conhecimento, vez que tão logo se tenha a simples apreensão, o ato seguinte é o de um nome à coisa. O componente lingüístico é absolutamente inseparável do ato de conhecimento. Teve início então todo o ramo da lingüística, semântica etc. Finalmente, na contemporaneidade, se inaugura a psicopatologia do conhecimento, na medida em que se percebe que o ato cognitivo não é a mesma coisa quando desempenhado em condições normais e em condições patológicas. Curiosamente, o estudo da psicopatologia do conhecimento tem revelado, talvez, mais coisas sobre a natureza do conhecimento do que todos os estudos feitos anteriormente. Um dos traços que mais claramente diferenciam a consciência mórbida da consciência normal é a diferença da simples apreensão: o sujeito que está louco simplesmente não vê a mesma coisa que nós estamos vendo. Se você vê uma tartaruga e dá o nome de tartaruga, ele vê o mesmo animal e dá o nome de gato. Não é apenas um erro semântico, ele realmente acredita estar vendo um gato. Mesmo no que se refere às suas recordações pessoais, ele tem recordações de coisas que não aconteceram e, às vezes, não tem das que aconteceram. Mesmo num simples ato de reconhecer entes individuais, como ele próprio e outro, o sujeito se engana, imaginando que ele é você e vice-versa. Basta este exemplo para se ver que a simples apreensão não é tão simples assim. Só é simples do ponto de vista da Lógica, porque a lógica formal só se interessa pelas relações entre conceitos e não propriamente pelo processo de formação dos conceitos. A Psicopatologia nos revela, porém, que, de todas as funções cognitivas, aquela que menos é alterada nos estados mórbidos é justamente a capacidade de raciocínio lógico. Em estados de delírio patológico, o sujeito pode produzir representações inteiramente falsas da realidade, mas estruturalmente a coisa permanece lógica internamente. O mesmo ocorre com a capacidade para a aritmética elementar ou até para setores mais altos da arte matemática. Como exemplo, temos os calculadores prodígios, cidadãos retardados mentais incapazes de desempenhar qualquer tarefa socialmente relevante, mas que têm uma capacidade aritmética, algébrica e geométrica altissimamente desenvolvida, além da capacidade musical, que também está associada à Matemática. Esta parte da Lógica conhecida como Silogística - a estrutura do raciocínio - permanece mais ou menos intacta mesmo nos estados patológicos mais extremos ou estados que não são de psicopatologia, mas, simplesmente, de retardamento mental, onde não há uma deformidade da representação do mundo, mas uma incapacidade de aprendizado de certas funções importantes na sociedade humana. As capacidades de ordem lógica e matemática permanecem intactas porque são as mais mecânicas. Podem ser imitadas facilmente por uma máquina, e, de fato, o são. Se essas capacidades estão colocadas em um nível elementar, seria o caso de se perguntar por que o mundo moderno tem confiado tanto nelas para investigar justamente os problemas mais altos e complexos do conhecimento. De onde veio a relevância que a capacidade matemática obteve precisamente para os estudos mais elevados e complexos, quando essas capacidades estão entre as mais elementares e maquinais do ser humano? Essa relevância vem justamente deste mesmo fator: aquilo que é elementar e maquinal pode ser repetido indefinidamente e é muito fácil de ser copiado por todas as pessoas. A partir do momento em que se deseja um tipo de conhecimento que seja verificável por qualquer pessoa, a qualquer momento, fica claro que existe uma tendência a reduzir o conhecimento aos seus elementos mais maquinais, infinitamente reprodutíveis. O que se pode e o que se deve questionar é a real utilidade deste método para as questões decisivas ou se ele serve só para determinadas questões muito elementares. Na aula anterior nós abordamos este problema. René Descartes fez a divisão da substância entre dois tipos: uma que ele chama “coisa pensante", a res cogitans, a nossa mente, e a outra que é a res extensa, a coisa extensa, a coisa que tem a propriedade de poder ser medida de algum modo. Aparentemente isso coincide simplesmente com a divisão de mente e corpo. Ele está se referindo à nossa mente, enquanto coisa pensante, e aos corpos como coisas extensas. Porém, tanto ele, quanto Bacon e os demais teóricos da Ciência nessa época, isolaram dessas coisas extensas todos os elementos que são propriamente sensíveis, como cor, gosto, som etc. Sobraram somente as propriedades extensas. Se as propriedades extensas dependem de uma medição, quem as mede? É a mente humana. As coisas não vêm com uma medida. O que é medir uma coisa? É comparar certa quantidade com outra quantidade. Se não há uma quantidade mensurante, também não há quantidade mensurada. Nós sabemos que uma coisa pode medir dois centímetros, ou três, ou dez quilômetros, porque temos escalas e as concebemos a partir da medida de alguma coisa. Por exemplo, as medidas inglesas antigas foram tiradas das dimensões gigantescas de um rei: o pé dele era um pé, a jarda era um braço, a polegada era a largura do dedo do sujeito. Eles também subdividiram o que acreditavam ser o diâmetro da Terra e criaram um molde em platina, que foi colocado em um museu na França e está lá até hoje e que se sabe hoje que foi medido errado. Porém, errado ou certo, você tem de ter uma medida, uma unidade mensurante para poder medir alguma coisa. É evidente que a medida não é uma propriedade dos próprios objetos. A medida é uma relação entre um objeto e outro e, especialmente, esse objeto mental que se chama “a medida”. O que foi feito da tal res extensa, o que foi feito das coisas extensas? Elas simplesmente desapareceram. Na verdade, só existe a tal da res cogitans. Só existe a mente humana que mede as coisas, as transforma em fórmulas matemáticas e em seguida as compara com outras formas matemáticas. Se existe uma coisa que não pode acontecer de maneira alguma, que não pode ser produzida, é a medida total de um ente qualquer. Se você pegar uma laranja e começar a medi-la, mede-se o diâmetro, a espessura, o peso etc, mas sempre vai faltar alguma coisa, mesmo porque depois de se medi-la microscopicamente, existem os elementos microscópicos até que se alcance as partículas subatômicas. Não existe nenhuma descrição completa de uma laranja sobre este aspecto, nem de um paralelepípedo, muito menos de um gato, de um elefante, ou de uma sociedade humana. A medida total é impossível, só se podem perceber aspectos e estes se relacionam, então, com um fenômeno, uma aparência com outra aparência. Só que estas, por sua vez, não têm a aparência física, elas consistem apenas de aspecto mensuráveis da respectiva aparência que não aparece. Se você somar todas essas medidas não obterá jamais um objeto inteiro. Agora, o que acontece na percepção? Nela você percebe somente partes? Por exemplo, quando se percebe um gato, percebe-se um aspecto, um fenômeno do gato apenas, ou percebe-se “o gato”? Isso eu já expliquei em outra aula: se você só percebe o gato por um lado de cada vez, é porque ele, como corpo material estendido no espaço, só tem a capacidade de estar de um lado de cada vez. O gato não pode mostrar os dois lados ao mesmo tempo. Não há uma limitação da percepção, mas uma espécie de co-proporcionalidade entre o ato da percepção e a estrutura própria do objeto percebido. É possível testar isso facilmente, ao se olhar a própria imagem no espelho. Se você está a cinqüenta centímetros do espelho, se verá com um determinado tamanho, mas ao se afastar se verá com outro tamanho. Você não tem a capacidade de se ver do mesmo tamanho conforme se afasta ou se aproxima do espelho. A própria percepção que se tem do corpo é co-proporcional à capacidade limitada que o corpo tem de se mostrar de uma ou de outra maneira conforme o lado ou a distância etc. Quando se percebe algo, não se percebe um aspecto só. Ao olhar para uma laranja, uma coisa bastante simples, se percebe a forma, a cor, a iluminação, a sombra, o lugar onde ela está, as várias características da casca, tudo ao mesmo tempo, ou seja, se percebe um objeto real, o que justamente se chamaria uma “essência”, um algo, um quid ao qual se pode dar um nome. É assim que se percebe. Ora, se forem somadas todas as ciências existentes e todas as medições que elas puderam fazer sobre uma laranja, não se obterá jamais uma laranja inteira. Entre o mundo tal como estudado pela Ciência e o mundo da percepção existe uma distância enorme, um abismo, e cada uma tem uma vantagem para um lado. As observações científicas têm a vantagem da exatidão e da comunidade: aquelas medições podem ser feitas várias vezes e vão ter os mesmos resultados; podem ser feitas por várias pessoas e em vários momentos e vão ter os mesmos resultados. Existe o consenso da medição. E a percepção concreta, por sua vez, tem a vantagem de dar objetos inteiros, acompanhados de uma série de circunstâncias acidentais sem as quais esses objetos não poderiam existir. Ninguém jamais percebeu uma laranja no vácuo. A laranja sempre está em algum lugar do espaço e está posicionada sobre um objeto, a não ser que ela tenha sido atirada. Durante o trajeto, ela estará no ar, mas esta situação não equivale a estar no vácuo, o ar é alguma coisa. A percepção concreta mostra entes reais colocados dentro de uma circunstância real, cercada de um conjunto ilimitado de acidentes sem os quais ela não poderia existir. Embora este conjunto seja ilimitado, é exatamente o que se percebe! Você não é capaz de nomear, de descrever todos os componentes acidentais que se percebe, mas se não os percebesse estaria faltando alguma coisa na laranja. Há uma diferença entre a maneira de perceber e a maneira de conceber. Na hora em que se concebe o objeto, ele é pensado separadamente de todos estes elementos acidentais, mas se sabe que essa separação é puramente mental. Então, a laranja, tal como aparece no conceito de laranja, não precisa estar em lugar nenhum, porque o fato de que ela é um corpo num espaço está subentendido na sua definição, não precisa ser expresso nesta. Do contrário, para definir qualquer coisa, seria preciso percorrer tudo aquilo que se chama "árvore de Porfírio" – Porfírio foi um comentador de Aristóteles – enumerando os conceitos da seguinte forma: (a) é um ser; (b) é um ser espaço-temporal; (c) é um ser vivo; (d) é um ser animal, e assim por diante, baixando do mais geral para o mais particular. É desnecessário, de fato, fazer isso para a definição de todos os seres, porque os caracteres gerais do ser estão já subentendidos no conceito daquele ser individual. Se você diz, por exemplo, que uma laranja é um ser assim e assado, automaticamente o cidadão para o qual você está falando sabe que a laranja estava em algum lugar, que ela ocupa algum lugar no espaço, que ela nasceu de uma laranjeira e não de uma bananeira e assim por diante. No entanto, a percepção de um ente qualquer é suficientemente completa, mas não cem por cento completa. Isso equivaleria a se perceber toda a articulação de relações atuais e possíveis entre aquele objeto e todos os outros. Geralmente, não se consegue fazer isso, mas você pode ter representação suficiente da coisa considerada na sua individualidade, na sua espécie e segundo as demais categorias: lugar, tempo, ação, paixão etc. Vendo uma laranja, você sabe que ela pode ser comida, e vendo uma pedra, você sabe que ela não pode ser comida. Não é necessário dizê-lo, isso não consta da definição, mas você sabe disso. No ato de perceber um só objeto, nós sabemos uma infinidade de coisas a respeito dele e, se faltassem algumas dessas, não seria uma representação completa. Eu dei o exemplo do cachorro: se você não antecipa que o cachorro pode latir ou não latir, correr ou não correr, atacar ou não atacar, ficar deitado ou não, então você não sabe que é um cachorro. Se você não é capaz de distinguir entre um cachorro e uma estátua de cachorro, do mesmo modo não será capaz de distinguir uma laranja em si nem esta de uma pedra. Esta completude da percepção não pode ser imitada por nenhuma ciência em particular e nem pela somatória de todas elas. Em suma, nenhuma ciência estuda nenhum objeto real tal como aparece à percepção. Percebe-se que os livros de divulgação científica geralmente se referem ao conhecimento perceptivo normal com um ar de superioridade: esse conhecimento vulgar, senso comum etc, subentendendo que o conhecimento científico é mais perfeito. Porém, todas as perfeições do conhecimento científico não bastam para compor um único objeto real. O conhecimento científico só funciona quando é um auxiliar da percepção efetiva. Ele pode corrigir ou complementar a percepção efetiva sob determinados aspectos, mas jamais pode substituí-la. A percepção efetiva pode, no entanto, substituir o conhecimento científico? Não só pode, como efetivamente o faz, porque existem níveis diferentes de percepção: duas pessoas olhando a mesma coisa podem vê-la com maior ou menor precisão, detalhamento etc. Mais ainda: em um sujeito que pratica uma determinada ciência habitualmente, tudo o que ela lhe ensina sobre aquele objeto se incorpora na percepção dele. Ele não vê separadamente: “aqui está um gato e ali está tudo o que a biologia, a zoologia me ensinaram sobre o gato”. Não, ao contrário, aqueles conhecimentos que ele adquiriu na prática daquela ciência se incorporam à sua percepção e ele percebe imediatamente. Eu tinha um amigo que era entomologista e uma vez ele fez uma experiência comigo. Estávamos andando num parque qualquer, e ele disse: “olha, eu vou mostrar para você uma coisa fantástica. Eu vou demarcar um território de quarenta centímetros por quarenta centímetros e vou lhe mostrar a superpopulação desse lugar”. E começou a catar tudo quanto é inseto que aparecia e encheu meio vidro. Eu jamais teria percebido aquilo. Ele, no entanto, olhava aquele pedaçinho de terra e já sabia tudo o que estava ali, porque tinha a prática de observar o mato. Não se pode dizer que ele e eu víamos a mesma coisa, pois ele tinha alguns conhecimentos a mais que derivaram do estudo da zoologia, mais especificamente da entomologia. Aquela ciência havia se incorporado à percepção dele, ele percebia imediatamente coisas que uma pessoa de outro ramo não perceberia. No entanto, tudo o que ele havia estudado em entomologia jamais poderia substituir a percepção direta, mesmo porque ela é o material de base do qual se parte para construir o conhecimento científico. Todo o estudo de entomologia do mundo não diria a esse cidadão qual seria a função daqueles insetos no ambiente considerado em escala maior, digamos, ecologicamente, porque se trata de outra série de estudos. O estudo de todos esses insetos também não revelaria para ele o efeito que eventuais mordidas desses insetos poderiam desencadear no corpo humano, porque ele não poderia chegar a esta conclusão só estudando insetos. Seria preciso estudar também o corpo humano, a origem remota desses insetos, de onde eles apareceram etc. Sabemos que as baratas observadas hoje são exatamente iguais às baratas pré-históricas, elas não evoluíram. Há quem acredite que as baratas deveriam evoluir no sentido da sua extinção, o que não fizeram. Na percepção comum, temos uma idéia de tudo isto. A origem de um ente está antecipada de algum modo na própria percepção, você sabe que as coisas não apareceram subitamente e do nada. A idéia de uma história está subentendida, por assim dizer, tensionalmente na percepção do ente. Além da unidade do ente percebido, a percepção nos dá o encaixe dela no conjunto da realidade. Um conjunto praticamente ilimitado, para o qual estamos abertos vinte e quatro horas por dia, às vezes de forma inconsciente, mas abertos de algum modo. A somatória dos vários conhecimentos científicos, por sua vez, não compõe um único objeto real. Muito tempo atrás, esse setor do conhecimento que veio a se chamar, quase que de forma usurpatória, de “Ciência” – com a negação do mesmo título a tudo mais - decidiu que a única maneira legítima de estudar o universo seria por meio da análise de fenômenos isolados, não das coisas; tão somente das aparências isoladas despidas de suas características sensoriais, reduzidas aos seus elementos matematizáveis. São somente aspectos, de aspectos, de aspectos. A “Ciência” decidiu ainda que, com base nisso, seria possível compor uma concepção geral do Universo. Mas como se pode fazer uma concepção geral do Universo, se você retirou de dentro dele todos os entes, sobrando apenas comparações entre aspectos matematizáveis de fenômenos parciais? Quando esse processo começou, era claro que dia menos dia esse tipo de conhecimento teria que entrar numa crise miserável, que foi exatamente o que aconteceu com o surgimento da mecânica quântica, que leva esta modalidade de conhecimento às últimas conseqüências. O físico quântico já não tem mais a menor idéia do que é o objeto que está estudando. Ele tem a idéia de certos comportamentos hipotéticos discerníveis em certas entidades cuja natureza ele desconhece, mas das quais ele tem uma medição exata. É duvidoso que o mundo da Física Quântica seja o mundo real no qual vivemos. Ele tem algo a ver com esse mundo real, certamente, mesmo porque alguns fenômenos do mundo real podem ser explicados por ele. Na verdade, entretanto não são. Quando eu digo “fenômenos do mundo real” isso deve ser tomado de maneira restritiva: “alguns aspectos de fenômenos do mundo real”. O fenômeno da chamada foto-radiação, por exemplo: você emite uma luz aqui, a luz bate numa superfície e sai então uns elétrons daquela superfície. É um fenômeno bastante observado, mas isto é o quê? Trata-se de uma propriedade da luz considerada isoladamente de todas as outras. Fenômenos desse tipo podem ser explicados perfeitamente. Como articular esse conhecimento científico com o mundo da percepção real? Este é o grande problema e, na Física Quântica, eles já chegaram à conclusão de que isso não tem solução. Por um lado, os fenômenos observados na Física Quântica são perfeitamente reais a seu modo. Por outro, continuam sendo fenômenos desconhecidos e incompreensíveis, porque você não sabe do quê está falando. Em terceiro lugar, é claro que não se tem a menor idéia do encaixe desses fenômenos dentro da realidade total. É um conhecimento que não tem dimensão ontológica. O que é dimensão ontológica? Ontologia é a concepção geral do ser que você tem. Se todo ser humano não tivesse alguma ontologia na cabeça não entenderia absolutamente nada. Exemplo: o ser humano sabe que quando leva uma picada de mosquito, não se trata de uma ofensa pessoal que o mosquito lhe fez. Ninguém vai pensar em processar o mosquito. Qualquer pessoa, por mais burra que seja, sabe a dimensão entre essas duas esferas de realidade, o comportamento natural do mosquito e as condutas humanas que estão supostamente submetidas ao livre arbítrio e tem uma significação moral, jurídica etc. Qualquer pessoa é capaz de fazer esta distinção. Na hora em que a faz, digamos, entre mundo natural e mundo humano, o sujeito está fazendo exatamente uma teoria ontológica. Está dividindo o ser, a existência, em camadas diferentes que têm certas diferenças e certas relações entre si. Em toda mente humana existe uma espécie de ontologia natural e sem ela nós não poderíamos aprender absolutamente nada, pois confundiríamos todos os planos de realidade. Quando você tem um conhecimento científico, mas não sabe em que plano de realidade ele está, em que medida pode chamá-lo efetivamente de “conhecimento”? Claro que se trata de conhecimento, mas não sabemos sequer de que tipo. Do mesmo modo que não sabemos qual é o lugar ontológico desses fenômenos dentro do conjunto da realidade, não conseguimos qualificar esse tipo de conhecimento dentro da hierarquia total dos tipos de conhecimentos que temos. O que se tem, então, é um bloco de conhecimento que paira isolado no ar, sem conexões ontológicas e em última instância sem inteligibilidade, somente a inteligibilidade instrumental. É possível fazer aqueles cálculos, repeti-los e obter o mesmo resultado que o vizinho e isso é tudo. E tudo isto foi obtido mediante o uso justamente daquelas faculdades cognitivas que são as mais elementares e mecanizáveis e, por isto mesmo, as mais facilmente reproduzíveis. Este é o tipo de conhecimento que hoje tem o máximo de autoridade social. O conhecimento reduzido aos seus elementos mais mecanizáveis e que pode ser comprovado por toda uma comunidade que detém, então, a autoridade de discernir o verdadeiro do falso. Só que esta comunidade, em primeiro lugar, não é sequer capaz de definir o que é ciência. Se observarmos o uso da palavra “ciência” no dia a dia, nos debates públicos e até nos debates mais sofisticados, veremos que esta é uma palavra que contém um complexo de significações que são associadas ou dissociadas conforme as conveniências do momento. Existe, de um lado, o ideal geral de ciência que seria o do conhecimento demonstrativo ou apodíctico, aquele que é sólido, bem provado, fundado em evidências, ideal. Existe, em segundo lugar, uma série de discussões quanto ao método pelo qual obter o conhecimento assim definido e um desses métodos em particular acabou se consolidando como o método preferencial da comunidade científica por volta do século XVI e XVII e continua sendo aplicado até hoje. Em terceiro, você tem a palavra “ciência” como designação do conjunto de atividades socialmente reconhecidas como tais, implicando, uma existência, uma incorporação institucional com regulamentos, verbas, a comunidade científica considerada como coleção de pessoas. Em quarto lugar existe a própria ciência como fenômeno social investido de autoridade. Tudo isto é chamado de “Ciência”. Quando o cientista afirma “a Ciência diz tal coisa”, a qual desses níveis ele está se referindo? Nos debates sobre o evolucionismo, por exemplo, o sujeito chega e diz: “a Evolução é um fato científico comprovado”. Mas há outro cientista que diz que não é. Então evidentemente não estamos no reino do conhecimento apodíctico, e sim no da autoridade socialmente admitida. E a Ciência como autoridade socialmente admitida está sendo vendida para você como se fosse conhecimento apodíctico. Qual é a confiabilidade total de um debate fundado nessas bases? Zero! O fenômeno mais recente de fraude científica generalizada aparece, por exemplo, no caso da própria discussão sobre a Evolução, ou no caso do aquecimento global, ou ainda no dessas vacinas que são vendidas como absolutamente urgentes para debelar epidemias mundiais que não existem, mas que trazem o risco de contaminar pessoas com alguma epidemia que realmente vai existir. Esse fenômeno - que tem tanto chocado a população - já está dado como potencialidade na própria definição inicial de ciência a partir da Renascença. O chamado critério da erificabilidade, por exemplo. A verificabilidade não passa da possibilidade de que várias pessoas observando as mesmas coisas, nas mesmas condições, cheguem mais ou menos às mesmas conclusões. A Ciência nesse caso, passa a ser o conhecimento eminentemente compartilhável de pessoas que confirmam o resultado. Quanto maior o número, maior a autoridade. O elemento quantitativo, por assim dizer, da votação se torna importante. Entretanto, quem disse que os conhecimentos mais verdadeiros, mais profundos e mais sérios são uniformemente compartilháveis? Quem disse que a possibilidade de ser compartilhado é uma característica inerente e um princípio de valor do conhecimento? Por que nós valorizamos um sujeito que acreditamos ser sábio? É porque ele sabe coisas que os outros não sabem. Max Planck, por exemplo, é conhecido por certas descobertas científicas e por certas observações. Sujeito muito discreto, não vivia dando palpites sobre tudo, devido a certas observações que fez num livro intitulado Autobiografia Científica. Será que era só isso que ele sabia? E será que, baseado somente nisso, ele teria feito essas descobertas? É claro que não. Sempre haverá para nós o mistério da consciência de Max Planck. Ele fez a sua grande descoberta, a dos quantuns, aos 84 anos. Imaginem como funciona a cabeça de um sujeito que, nessa idade, percebe de repente: “eu fiz uma descoberta tão importante quanto a de Newton”. Por que foi ele que fez e não outro sujeito? Evidentemente, sua alma e sua consciência tinham uma constelação de elementos irreproduzíveis para outro ser humano. Depois que ele fez sua descoberta e a reduziu a uma fórmula matemática compartilhável ficou fácil! Porém, esta fórmula matemática na qual o cientista expressou a sua descoberta contém apenas um esquema desta descoberta, não constitui propriamente o conhecimento que Max Planck tinha daqueles fenômenos, mas somente a sua fórmula seca final. Quem disse que os conhecimentos mais importantes têm que ser compartilháveis? Pensemos no momento das decisões mais dramáticas da História, uma guerra, por exemplo. Por que uma nação entrou em conflito com outra? Pode haver motivos que ninguém jamais saberá, ou que somente uma ou duas pessoas saberão e não contarão para ninguém. Os historiadores racharão a cabeça para ver se entendem o fato com mais ou menos sucesso. Mais ainda: os casos de certas intuições que determinadas pessoas tiveram em dados momentos e que foram registradas de maneira precária, por exemplo, em alguma obra literária. Sabemos que, para entendermos uma peça, um poema de Shakespeare, precisamos de certo modo ampliar nossa alma até que ela possa conceber imaginativamente algo daquilo que foi percebido pelo autor e essa condição, na maior parte dos casos, não se cumpre. Esse conhecimento não é totalmente subjetivo, é compartilhável, mas essa característica é problemática. Todo o campo das relações humanas depende de certas percepções instantâneas que não são comunicáveis de maneira alguma, como as reações que nós temos àquilo que as pessoas nos fazem ou nos dizem. Se perguntarmos: “por que você fez isto ou aquilo?” Você pode se ofender com alguma coisa que os outros não perceberam que era ofensivo, mas que você, que conhece o personagem envolvido há muito tempo, percebeu. Você jamais vai poder provar isso para ninguém e, às vezes, nem transmitir, nem explicar. Existe uma multidão de conhecimentos humanos absolutamente essenciais, alguns bastante elevados e importantes, que não são comunicáveis de maneira alguma. E todos os conhecimentos comunicáveis se baseiam nestes. Como é que sabemos fazer uma determinada demonstração matemática? Eu faço uma demonstração matemática bonitinha e sei que, se você fizer a mesma, chegará a idêntico resultado. Como é que eu sei isto? A Matemática não pode dar essa certeza. Ela nada informa sobre a consciência alheia e, no entanto, todas as demonstrações matemáticas do mundo se baseiam nessa expectativa que a Matemática não fundamente de maneira alguma. No começo da Modernidade - quando se delimitou o território das ciências a estes aspectos matematizáveis, comunicáveis e verificáveis da realidade – deixou-se uma lesão monstruosa no universo do conhecimento. Qual é a diferença entre este tipo de “Ciência” e o que se entendia por ciência até então? A diferença fundamental é aquela que foi assinalada por Wolfgang Smith no livro The Wisdom of Ancient Cosmology, no qual ele afirma que, até então, o que se buscava no conhecimento do mundo fenomênico era saber quais eram os princípios universais que estavam subentendidos naquilo. Como as partes manifestavam a seu modo a unidade do todo. O universo era visto como um vasto tapete de símbolos que, de algum modo, tinham que ser decifrados para que se pudesse chegar à compreensão de níveis mais elevados da realidade. A noção de níveis é uma coisa fácil de você perceber quando se nota que qualquer objeto, por mais simples que seja, é constituído de uma série de círculos de realidade que estão encaixados uns nos outros, mas cuja percepção depende da atenção. Quando você conhece uma pessoa, vê apenas a aparência física dela, não apenas como uma figura estática, mas sim como uma forma no sentido aristotélico. Você sabe que esta forma externa manifesta um conjunto de tensões e intenções internas. Hoje em dia, a capacidade de leitura dessas intenções está muito evoluída devido à programação neurolingüística (PNL), pela qual, de acordo com o modo de o sujeito sentar, de olhar, pelos gestos etc, é possível adivinhar estruturas inteiras de sua percepção. Esta capacidade, que hoje pode ser adestrada mais facilmente por meio da PNL, sempre esteve presente em muitas pessoas, de maneira extremamente desenvolvida. Meu falecido amigo, Juan Alfredo César Müller, por exemplo, concedeu uma entrevista a uma amiga minha, que trabalhava na Folha de São Paulo. Eu articulei o encontro entre os dois e fui acompanhar a entrevista. Na hora em que a moça entrou na sala, ele a olhou e perguntou: “Por que você vive caindo?” Ela arregalou os olhos e respondeu: “Como é que você sabe? Eu acabei de cair da escada. Eu caio todo dia de alguma coisa.” Ele não sabia explicar como, mas simplesmente viu isso na moça. Não se trata de adivinhação, mas apenas uma percepção extremamente aguçada, pelo fato de que aquele homem permanecia quatorze horas por dia sentado num consultório, olhando pessoas e tentando entendê-las de algum modo. Façam isso durante anos e vocês acabarão percebendo muita coisa à primeira vista que, para um terceiro como eu, seriam completamente enigmáticas. Em primeiro lugar, existe a aparência física, que já apresenta dois andares, a figura e a forma. A figura seria apenas o recorte exterior que poderia, por exemplo, ser colocado numa fotografia. Mas por baixo da figura existe a forma, que é um conjunto de tensões não propriamente visíveis, porém sensíveis. Você percebe a força física maior ou menor da pessoa não necessariamente pelo tamanho dos músculos, mas às vezes pela maneira ou pela postura como ela pega uma coisa, e algumas vezes você se engana. Temos aqui, por exemplo, a minha filha Leila que ganha no braço de ferro de seu irmão Pedro. Quem vai adivinhar uma coisa dessas? É absurdo, mas acontece. Neste caso, nos enganamos. Por baixo disso existe uma série de tensões perceptivas. É possível saber mais ou menos o que a pessoa está percebendo. Eu olho e vejo um cidadão e sei que ele também está me vendo, porém, de certa maneira, que não é necessariamente a mesma pela qual eu o vejo. Nunca reparo, por exemplo, como as pessoas estão vestidas. Se entrar uma mulher pelada no meu escritório sou capaz de não perceber. Se ela estiver muito elegante, direi: “Não sei”. Certas coisas, porém, percebo necessariamente: a expressão dos olhos, em primeiro lugar. Também tenho, o hábito de comparar olho e boca, para ver se estão expressando a mesma coisa ou não. Existem pessoas que não reparam nisso, olham muito a vestimenta e por meio dela obtêm índices sociológicos que me escapam. Tudo isto está na forma da pessoa. Sob esta forma existe o mundo das intenções que a pessoa tem, e que pode se tornar mais ou menos visível conforme a capacidade de percepção do sujeito e a atenção e direção que se concede. Por baixo disto, há uma história - ela veio de algum lugar, fez alguma coisa, não saiu do nada - e algo desse enredo pode se transmitir na sua presença atual e assim por diante. O padre Pio de Pietrelcina dizia o seguinte quando as pessoas se confessavam: “não precisa se confessar, eu já sei. Você fez isso mais aquilo e está perdoado, em nome do Pai do Filho e do Espírito do Santo”. Ele percebia melhor do que o próprio confidente perceberia de memória. Ele fez a última confissão do próprio pai e sabia coisas desconhecidas pela mãe. Pode-se questionar se não era Deus que soprava para ele. A isso chamam percepção in divinis - perceber por meio de Deus. Se o Padre Pio tinha esta possibilidade, todos os seres humanos, em princípio, têm. E a percepção in divinis nada acrescenta à pessoa que está presente, apenas amplia a quantidade de informações, a integração e a ordem das coisas. Tudo isso está na pessoa à sua frente, se trata evidentemente de uma percepção de um objeto real. Como todos os seres são compostos desse sistema de círculos, a nossa capacidade de percepção está limitada a um, dois, três, quatro, vários círculos. Em princípio, cada ser está de algum modo posicionado dentro da ordem inteira do ser? Só Deus sabe a posição completa de um ser humano dentro da ordem completa. Temos, porém, uma antecipação dessa leitura e a isso eu chamo de círculo de latência. Nenhuma percepção reduz o objeto apenas a seus aspectos manifestados no momento. Nós sabemos que a latência que está nele é parte inerente dele e, se a suprimíssemos, veríamos o objeto como quem vê um quadro parado na tela. Nada saberíamos sobre o mundo exterior, nem sequer saberíamos o que é exterior. A percepção concreta é a percepção dos vários círculos de latência. A palavra “latência” se opõe à idéia de “patência”, que é aquilo que está óbvio, manifestado. A latência é a raiz da palavra latejar. Sabemos que a latência não é simplesmente algo que está sempre escondido. É algo que está, digamos, latejando. É uma energia, uma força que está presente. São as possibilidades de ação e paixão daquele objeto. Tudo que se entendia como Ciência até o advento de Bacon era o aprimoramento do indivíduo humano, do estudante, na percepção desse círculo de latência até os graus mais elevados, mais universais e abrangentes. Por exemplo, a percepção do indivíduo não somente, na curva inteira de sua existência, mas no significado eterno que isto pudesse ter. Desde o tempo de Platão até o advento de Bacon, toda a atividade de conhecimento visava a aprimorar nos indivíduos esta percepção - fazê-los sábios - por isso mesmo se chamava Filosofia, o amor à Sabedoria. A partir de Bacon, a idéia muda completamente. Ele se desinteressa totalmente por esses círculos de realidade e de latência e só se interessa pela comparação entre fenômenos, vistos sob o ângulo da matematização. Por isso ele dizia que a Física é a única ciência, não havia nada além dela. As idéias de dimensão, elevação e profundidade desaparecem completamente e sobra somente o universo horizontal daquilo que está imediatamente presente. E o conhecimento passou a ser a comparação entre uma aparência e outra, de modo a medi-las para se obter o que? O controle de processos causais, de modo que se pudessem produzir os mesmos efeitos. A partir daí o conhecimento se tornou uma maneira de se adquirir a capacidade de manejar a realidade. Por isso mesmo Bacon dizia: “conhecimento é poder”. Ele só é celebrado até hoje como um dos grandes formuladores do método científico atual porque as pessoas não o lêem. Quando o fizerem, terão uma decepção terrível. Bacon despreza todos os conceitos da filosofia antiga, como o das formas substanciais, e diz: “não, só o que interessa é a observação pelos sentidos”. Porém, ele jamais fez uma observação pelos sentidos. Seus livros estão repletos de exemplos de falsa observação, talvez seja a mais notável coleção de idiotices que alguém já escreveu sobre a natureza humana e sobre a Natureza em geral. Ele afirma que se você picotar um mosquito em vários pedaços, nascem vários mosquitos. De onde é que ele tirou isso? Qual é a observação? Se você procurar na obra inteira de Bacon não há uma única observação. Bacon é um caso de paralaxe cognitiva levado ao extremo da psicose, porque ele formula o método da observação, diz que só isso fornece conhecimento e jamais o pratica. O método dele é o da credulidade! Ele ouve dizer umas coisas e as copia. Pode-se dizer que Bacon é um charlatão, evidentemente. E o que se fez historicamente? Recortou-se da obra de Bacon aquilo que veio a coincidir com o que posteriormente se chamou método científico e se diz que Bacon o inventou. É absolutamente falso. Do mesmo modo, quando Galileu, considerado outro formulador do método científico, afirma não criar hipóteses e que extrai tudo da observação, inventa em seguida um plano inclinado sem atrito, uma coisa que jamais pode ser observada porque não existe; inventa o movimento retilíneo uniforme que também não pode ser observado. Eu pergunto: “como?” Uma coisa é observar a realidade e tirar deduções dela, outra é conceber certas hipóteses por meio de uma ampliação imaginativa formidável e criar um mundo de conexões lógicas entre hipóteses. São dois métodos completamente diferentes. No entanto, se você ler os livros de história está escrito que Bacon e Galileu nos ensinaram observar a Natureza. O mesmo ocorre quando Isaac Newton concebe a idéia do tempo absoluto. O que é o tempo absoluto? Um tempo independente de tudo o que acontece. Ora, se nada acontecesse não haveria transcurso de tempo, o tempo é a ordem do suceder. Um tempo absoluto é absolutamente um nada, mas Newton precisava dele como unidade de medição, então o inventou. Hoje sabemos que toda a história de Newton foi falsificada. O propósito geral, a idéia geral de Newton era conceber uma nova teologia de tipo arianista, uma teologia na qual não haveria mais a Trindade e sim uma unidade absoluta mais ou menos no sentido islâmico e Jesus Cristo seria um profeta. Com base nisso, ele acreditava que podia reinterpretar toda a Bíblia e até obter a data precisa do fim do mundo. Tudo o que ele fez com a gravitação universal foi conceber um instrumento matemático do qual precisava para chegar a essas conclusões. E o que seus sucessores fizeram? Sumiram com a teoria geral de Newton e sobrou só a gravitação, porque ela combinava com o que mais tarde se chamou de método científico. A origem das ciências modernas é toda feita de empulhação, é vigarice e impostura para tudo quanto é lado. No entanto, quando se usa a palavra “Ciência” se entende ao mesmo tempo essa história real que originou as ciências modernas e o ideal da ciência apodíctica, da ciência por inteiro e não só demonstrativa, mas inteiramente honesta, isenta, etc. Mistura-se uma coisa com a outra e se forma um complexo no qual as empulhações historicamente consagradas nos são vendidas como se tivessem o valor e a autoridade da ciência apodíctica. E quem vai poder separar uma coisa de outra? “Aqui está a pura ciência e aqui está o elemento de empulhação”. Eu digo que é impossível separá-los, porque os fatos são tantos e tantos que não dá para destacar uma coisa da outra. O ato do conhecimento pode ser observado e estudado sob vários ângulos. O lógico me parece exatamente o ângulo mais problemático de todos porque em lógica tão logo você obteve a noção dessa simples apreensão, é preciso manejá-la de modo a encaixar esses conceitos individuais em raciocínios e tão logo você os encaixa eles mudam de natureza imediatamente. O mesmo conceito, digamos, de homem, se colocado dentro de um juízo pode ser (a) um conceito singular, quer dizer, se refere a um homem particular; (b) pode ser um conceito coletivo, se refere ao coletivo dos homens existentes, ou (c) pode se referir à natureza humana. O conceito isolado significa todas essas coisas e nenhuma delas. Os conceitos que, obtidos pela simples apreensão, não são classificáveis tornam-se se classificáveis tão logo inseridos dentro de juízos. Porém existe algum caso onde alguém fez uma simples apreensão sem subentender algum juízo a respeito? Parece que não. No mínimo, a simples apreensão subentende um juízo de existência. Você está dizendo que o objeto do qual está falando, - o ente que se manifesta com um determinado termo que você está usando - existe de algum modo. Não se sabe qual é o grau, o plano de realidade dele, mas pelo menos este juízo de existência está subentendido. Na medida em que a lógica faz abstração disto - salientando que a lógica moderna faz mais ainda, pois está lidando apenas com raciocínios hipotéticos que nunca ninguém fez e nunca ninguém faria – ela está lidando apenas com estruturas de juízos possíveis, que podem ser reduzidas a um sistema, mecânico e que pode ser repetido indefinidamente. Isto é tudo o que a lógica faz. É claro que isso não vai dar, de maneira alguma, o menor conhecimento sobre o que é o ato da percepção. Entram em cena agora as outras ciências. Porém, se você começou a estudar esse ato sob a perspectiva de uma ciência em particular, já está estudando uma irrealidade. Por que? Porque as ciências têm um objeto “material”, depois o objeto “formal”, que é o quê elas investigam daquele objeto material. E existe o que os escolásticos chamavam de “objeto formal terminativo”, que é a pergunta última a qual a ciência pretende responder a respeito daquele objeto. É claro que o “objeto formal” e o “objeto formal terminativo” são apenas pontos de vista, não são objetos propriamente ditos. Se eu começo a estudar essas coisas sob o ângulo da sociologia do conhecimento, da psicologia ou da epistemologia etc., já estou estudando não coisas, mas tão somente pontos de vista. O fato é que todos nós, tanto o chamado homem comum quanto o cientista e o filósofo, todos têm alguma percepção. E atos de percepção acontecem efetivamente tanto na vida corrente quanto no exercício de qualquer ciência, então esse fenômeno “percepção” existe. E me parece que o melhor modo de estudá-lo seria ir do geral para o particular. Você capta primeiro as características gerais do ato de percepção que estão presentes sempre em todo e qualquer ato de percepção e só depois o estuda sob o ponto de vista de uma ciência em particular. Isto é teoricamente a função da teoria do conhecimento ou gnosiologia, mas esta já se subdividiu em tantas ciências que não há mais o ponto de vista geral, só o ponto de vista específico. A chamada ciência cognitiva estuda o ato de percepção, mas somente na medida em que ele possa ser reduzido a certos modelos matemáticos, sobretudo, informáticos. Então já não é o ato de percepção em si, e sim a sua possibilidade de comparação com isto ou aquilo. Porém, se não temos o objeto primário como teríamos a sua comparação? Muito do que hoje nós chamamos de ciência é o estudo de coisas que não existem, e se esse estudo faz sentido é porque o cientista, enquanto homem real, tem uma idéia do objeto e, na hora em que faz seu raciocínio científico, está levando em conta aquele objeto real, mas tal como o conhece de maneira não crítica e não analisada. É uma mistura de percepção vulgar com elaborações lógico matemáticas extremamente sofisticadas. É por isso que insisto desde o início na realidade concreta do ato de percepção. Ele nos dá muito mais informações do que poderíamos supor ao ler um livro de lógica, para o qual a simples apreensão diz apenas o que é um objeto sem nada afirmar ou negar sobre ele. Isto literalmente não existe, só serve para fins de estudo da lógica, nenhum ato de percepção é assim. Imaginem o que acontece com a cabeça do sujeito cuja primeira coisa que ele estude na vida seja lógica. Ele talvez perca de uma vez para sempre a noção do ato de percepção concreta, porque pode pensar: “isso é apenas percepção vulgar”. Mas, é a percepção vulgar que nos dá o mundo real no qual nós vivemos! Se você somar todos os conhecimentos científicos existentes sobre aquele objeto, ele não vai aparecer. A idéia de que o mundo se compõe de coisas efetivamente existentes, que aparecem num universo efetivamente existente, para sujeitos efetivamente existentes está subentendida em toda a ciência universal. O problema é que o encaixe do conhecimento científico com esta ontologia de base raramente ou nunca é feito. E será ele que vai validar todo o resto. O aprofundamento da ontologia natural é absolutamente necessário, foi dele que partiu Aristóteles. Isto não quer dizer que ele tenha feito todo o trabalho. Hoje vemos que, embora na época fosse muita coisa, Aristóteles não fez quase nada. Toda a dimensão da psicopatologia, por exemplo, foi totalmente ignorada por ele. Sabemos hoje que o universo psicopatológico não é totalmente estranho à mente normal E até certo ponto podemos penetrar nele. Do contrário, seria impossível haver compreensão científica do fenômeno. Toda patologia introduz no elemento em questão aquilo que Aristóteles chamaria privação. O que é privação? É a falta de alguma potencialidade que normalmente aquele ente deveria ter. Um gato que seja incapaz de pular, por exemplo. Algo está faltando para ele. Quais são os elementos cuja falta mais nos chama a atenção nos estados psicopatológicos e que precisamente nos permite classificá-los como psicopatológicos? Quais são as capacidades humanas que faltam no indivíduo psicologicamente doente? A primeira é a falta de percepção da forma substancial, ele confunde formas percebidas com outras atribuídas. Por isso que dá a uma coisa o nome de outra. Até a si mesmo ele tem dificuldade de identificar e de se diferenciar de outro, quando ele atribui suas ações a outro ou quando confunde a sua identidade com a de outra pessoa. O que está faltando nele não é capacidade lógica, nem lógico matemática, nem as mais altas capacidades lógico- matemáticas; é a falta daquilo que os primeiros formuladores da ciência moderna desprezaram completamente que são as formas substanciais. Por que a falta da forma substancial nos parece patológica quando acontece no indivíduo e não quando se dá em todo o domínio das ciências? É o que acontece quando uma ciência em particular, aprofundando o estudo do seu objeto, acaba colocando em questionamento todas as demais. Estudado sob o ângulo da psicopatologia, praticamente todo o conhecimento científico atualmente existente é psicopatológico, porque só conhece aspectos de fenômenos, mas não um único ente, uma única forma substancial. Como é que esta modalidade de conhecimento, que é estruturalmente idêntica à da percepção psicopatológica, pode se impor a nós como sendo a única autorizada a nos dizer o que é o mundo na realidade? Esta questão, que hoje começa a aparecer de uma maneira tão evidente, já estava anunciada desde a fundação da ciência moderna, que tem uma tara genética, de origem, que é o esquecimento das formas substanciais. O primeiro que as desprezou foi Bacon, que sabemos ser um charlatão, mas que no qual continuamos acreditando até hoje. Nada se compara ao orgulho psicopatológico com que o praticante de qualquer ciência despreza o exame filosófico daquilo que está fazendo. Claro, porque se ele for exposto a esse exame durante cinco minutos, vamos lhe colocar perguntas que ele não pode responder de maneira alguma. No mesmo livro, Wolfgang Smith lembra uma passagem de Arthur Whitehead, um grande filósofo americano, na qual ele diz que o ato do conhecimento não pode ser explicado por nada fora dele mesmo. Ou seja, se você tentar explicar, por exemplo, o conhecimento através da fisiologia cerebral estará eliminando a distinção entre o “conhecer” e o “ser”. Você reduzirá o conhecer a uma forma do ser. Se você conhece tudo sobre a fisiologia cerebral, isso ainda não pode explicar o mais mínimo ato de conhecimento, porque nesse caso não haveria diferença entre conhecer e não conhecer. No ato em que você conhece alguma coisa, nada foi alterado nem no objeto, nem no seu cérebro. Houve somente uma mudança de estado da sua consciência. Ainda que ela possa ter concomitantes neurofisiológicos, ela não se reduz a estes porque todos eles podem acontecer sem que ela se manifeste. O conhecimento é uma dimensão que está colocada, por assim dizer, acima do universo físico, é distinta dele. Se existe alguma instância em que o ser e o conhecer coincidem perfeitamente, é somente em Deus, no sentido Aristotélico. A divindade, segundo Aristóteles, é noesis noesios, o conhecimento do conhecimento. Esta coincidência é Deus. Em nós, entretanto, sempre existe certo hiato entre o ser e o conhecer. Nesse sentido, nós podemos dizer que toda a ciência que se praticou até o advento da ciência moderna visava a intensificar a consciência que nós temos do ato de conhecimento e a obter dele o máximo possível. Para o ser humano, a percepção desses vários círculos de realidade que compõe cada ente deveria se enriquecer até o ponto de, idealmente, compreender de maneira instantânea o encaixe deste elemento no universo inteiro. Muitas vezes percepções desse tipo são documentadas, por exemplo, na poesia. No livro O Jardim das Aflições, eu coloquei como epígrafe um poema inteiro de Antônio Machado, no qual ele celebra um olmo – árvore que em português chama-se álamo. Ele vê o tronco do olmo caído e nele percebe toda a história do olmo - enquanto ele estava de pé, enquanto estava vivo e o que pode suceder depois: ser cortado em pedaços e se tornar lenha de fogueira ou ser usado para construir uma carreta. Tudo isso está dado naquela presença, no entanto, você pode também olhar uma árvore caída e não ver absolutamente nada. Não podemos dizer que o passado e futuro da árvore caída foram pensadas por Antônio Machado. O que ele nos transmite é a percepção instantânea de tudo isto. Quando você vê uma pessoa conhecida, a presença do passado dela é instantânea, você conta com isto, senão seria impossível reconhecer uma única pessoa. Quando você chega em casa, encontra sua mulher e seus filhos e sabe quem são. Por causa de um passado que está lá. Não se tratam de juízos que você acrescenta à percepção, eles estão dados já na percepção. Do contrário, teriam que ser um conteúdo verbal que você precisaria recriar a todo momento, o que é impossível. Uma percepção enriquecida do universo é, de fato, todo o objetivo da Filosofia, o treino de pessoas para esta percepção. Parte desta pode ser comunicada a outro indivíduo capaz de tê-la. Porém, parcelas inteiras, continentes inteiros desse mundo perceptivo vão permanecer fechados dentro do indivíduo e constituir a riqueza interna dele de forma incomunicável. Esta riqueza é o que ele estará se referindo quando disser a palavra “eu”. O que sou “eu”? Eu sou minha presença física aqui, sou mais tudo o que fiz, tudo o que sei e tudo que eu me lembro, e toda a intensidade presente dessa constelação inteira de possibilidades perceptivas que tenho. E quando eu olho uma pessoa eu sei que ela também é isto. Vocês acham que todos percebem isso instantaneamente? Percebem subconscientemente. Se não houvesse todos esses mecanismos no subconsciente, sequer poderíamos nos reconhecer uns aos outros. Todos os objetos que nos cercam teriam de vir com os seus respectivos manuais de instruções a cada momento. Este aprimoramento da percepção imediata, intuitiva, é o grande objetivo da Filosofia. O objetivo da Filosofia é constituir filósofos e não produzir um determinado tipo de ciência registrado no papel. Aquilo que está registrado do que os filósofos fizeram é apenas um resíduo. Existem duas maneiras de ler os textos de um Plantão ou de um Leibniz. Uma delas é observar somente a coerência interna do texto e tratá-lo como tal. A outra é você considerá-lo o registro de experiências cognitivas efetivas que, por sua vez, supõe outras experiências do mesmo tipo. E, à medida que você absorve aquilo, de certo modo está absorvendo a forma da mente daquele indivíduo, desenvolvendo possibilidades que ele concretizou. É um processo auto-educativo enormemente complexo e enriquecedor. Há uma espécie de tradição consagrada no ensino da Filosofia: quando há um filósofo vivo que está praticando a técnica. É preciso vê-lo praticando, porque se for só pelo registro no papel é difícil. Reviver as experiências cognitivas só pelos registros exige uma espécie de um talento específico que não corresponde ao talento filosófico propriamente dito. Quando se estuda a história de um Giambattista Vico, observa-se que ele teve esta capacidade porque, num meio filosoficamente pobre, foi capaz de restaurar tudo isso nele, sem a presença de um mestre vivente que o ensinasse. O próprio Aristóteles não tinha. Sócrates teve, mas Platão não. Foi Sócrates que despertou a consciência de Platão e foi Platão que despertou a de Aristóteles. Não se sabe, porém, quem despertou a consciência de Giambattista Vico, é um mistério. O fenômeno acontece, mas não é exigível no ensino da Filosofia. Em geral, é necessária uma presença viva que extraia isto de dentro dos estudantes. Neste sentido, digamos, o ensino da Filosofia adquire certa dimensão iniciática, com toda a carga maligna desta palavra. O que se fez no início da Modernidade foi justamente fechar esta possibilidade e reduzir o conhecimento a uma pequena faixa consensual de comparações entre fenômenos. Para obter o quê? O controle sobre os processos naturais. Porém, acontece uma terceira coisa: as pessoas podem achar uma maravilha o fato de que, se o homem aumenta o controle sobre os processos naturais, torna-se mais livre deles. Aquilo do qual ele era uma vítima inerme passa agora a ser um processo sobre o qual ele tem controle. Mas aí vem a pergunta: “ele quem, cara pálida?” Todos os homens têm? Não, somente aqueles que tiveram treinamento técnico para isso e aqueles que pagam por esse trabalho. O crescimento deste tipo de controle sobre processos parcelares, fenomênicos, traz necessariamente o aumento ilimitado do poder de uns homens sobre outros e, no momento em que se escolheu o caminho baconiano como único acesso às ciências, optou-se decisivamente pelo controle tecnológico da sociedade, cujo impacto hoje sofremos em toda a sua extensão, a ponto de que pessoas “iluminadas” - como Francis Bacon - querem controlar até o que nós podemos comer. Este processo era inerente ao projeto científico da modernidade, não aconteceu por uma distorção que pudesse ser explicada assim: “nós fizemos a Ciência com o propósito de espalhar os benefícios dela para todo mundo e depois vieram uns camaradas malvados e se apropriaram daquilo e a usaram como instrumento de controle social etc”. Não! Isto é inerente à própria definição. Se este é o tipo de ciência que se quer, então certamente nós queremos que algumas pessoas controlem a nossa vida. Quem são elas? As pessoas que têm autorização técnica e os meios para fazê-lo, que não só os intelectuais, mas também os físicos, que são caríssimos. A transformação do conhecimento em uma tecnologia de domínio de propriedade de um pequeno grupo está inerente no conceito de ciência tal como criado por Bacon. Por isto mesmo ele, que não era nada tonto, disse que “conhecimento é poder”. Este tipo de conhecimento é poder sim, menos sobre a natureza do que sobre outros seres humanos. Se você observar a história inteira de ramos completos do conhecimento e da tecnologia, verá que as grandes descobertas foram relativamente poucas. Porém, compare o crescimento do poder da ciência moderna. No livro do Richard Gordon, “A Assustadora História da Medicina”, ele mostra que na história dessa ciência só houve doze descobertas, o resto é tudo variação em cima do tema. Compare o crescimento disso com o crescimento da classe médica e das prerrogativas da classe médica sobre a sociedade. Não é proporcional, absolutamente. Sem dúvida, há um aumento do conhecimento, porém, o aumento do poder conferido por meio dele é muito maior, e este já estava dado na própria definição, no próprio projeto científico originário. Ninguém pode negar que, dentro dos limites propostos por Bacon, a Ciência faz alguma coisa útil, mas muitas vezes essa utilidade não é igual para todos. A partir do momento em que a prática desse tipo de ciência é separada da Filosofia no antigo sentido, ela se torna uma coisa extremamente perigosa, porque não se pode ter certeza de que esses indivíduos, que adquiriram o controle tecnológico deste ou daquele processo, tenham um desenvolvimento sapiencial correspondente ao poder adquirido. Eles podem ser totalmente irresponsáveis do ponto de vista cognitivo, ou seja, não têm a menor satisfação a dar à constituição objetiva dos fenômenos e nem mesmo à sua própria posição no universo, porque para eles isso não interessa, não faz parte da profissão. Eles podem ter sempre apenas uma atitude pragmática de adquirir e usar os instrumentos tecnológicos de que a ciência os dotou e o resto é constituído, para eles, de problemas morais ou culturais. Imaginem o que vem a ser a sociedade na qual aquilo que se admite saber de cada ente é somente aquilo que a ciência, neste sentido, pode descobrir sobre ele, e onde ele não tem mais nenhuma forma substancial. Do ponto de vista do establishment acadêmico, não temos nenhuma forma substancial, não somos nada, apenas um conjunto de relações observáveis e mensuráveis entre fenômenos que se passam na nossa distinta pessoa. Até a noção de pessoa não faz o menor sentido. As pessoas investidas deste tipo de conhecimento já têm muito mais autoridade do que merecem e muito mais do que seria conveniente dar a elas. E pouco adiantam, neste sentido, as tentativas de enfeitar este universo de conhecimento com algumas preocupações de ordem moral, ética etc, porque são apenas enfeites culturais. Whitehead chamava de bifurcação a idéia inicial de René Descartes – a res extensa e a res cogitas. Descartes bifurcou o mundo em dois elementos, um dos quais só existe mentalmente, que é o pensamento; e outro, que só existe sob a forma de determinadas propriedades matemáticas. O que Whitehead não chegou a perceber e o próprio Wolfgang Smith, que o comenta, também não, é que, na realidade, não há duas substâncias, mas apenas uma, porque as mensurações são obras da res cogitas, da coisa pensante. Tudo se resume ao pensamento matemático humano. Não há mais nenhuma realidade. Se os objetos estudados na ciência, especialmente na ciência física, têm algo a ver com os objetos corporais que nós conhecemos, nós sabemos que nem um único objeto corporal poderia vir a existir somente por efeito das leis físicas conhecidas. O próprio Max Planck dizia que, afinal de contas, para podermos estudar o universo ele tem de se compor de coisas. Se nós dissermos que as coisas se compõem de átomos e os átomos se compõem de partículas subatômicas, estas se compõem de que? De quanta, ou quantidades de energia. Energia é algo que pode fazer alguma coisa. Não há, porém, nenhum ente real que você possa compor com isto. Os objetos podem se constituir materialmente destas partículas, mas eles têm de ter uma forma externa, e as partículas não podem explicar sua forma externa de maneira alguma porque elas são as mesmas em toda parte. Então, o que está faltando? Exatamente a reintrodução das formas substanciais, que são aquilo que você percebe no ato da simples apreensão. Esses vários aspectos do ato de conhecimento, que são estudados pelas várias ciências – psicologia, sociologia do conhecimento etc – estão todos condensados na presença material do objeto efetivo, e, para o mais burro cidadão comum, percebê-los articuladamente, de modo a compor um ente real com todo o seu círculo de latência, não é uma coisa nada difícil. Por exemplo, você chega ao supermercado e pergunta: “quanto custa esta laranja?” Veja tudo que está embutido neste simples ato: (a)você está percebendo a laranja e sabe que ela está presente no espaço; (b) você sabe que ela tem certas propriedades nutritivas que não saíram dela, que ela teve de ser plantada e de se alimentar do sol etc, até gerar aquela fruta; (c) você sabe que aquele elemento está à venda no mercado porque alguém plantou, colheu, o colocou ali e que aquilo é reconhecido na sua sociedade como um produto de algum valor nutritivo pelo qual você tem de pagar alguma coisa. Sob quantos aspectos você viu simultaneamente esta laranja? Praticamente todas as ciências que tratam do ente laranja estão aí subentendidas, todas elas e mais algumas. Você pode achar que uma laranja está mais bonita que a outra, e, aliás, você acha isso necessariamente porque, se há duas laranjas, uma bonita e uma mais feia, você escolherá a mais bonita. Essa “beleza” da laranja também está nela. Sabemos que alguma relação existe entre a beleza da laranja e as propriedades nutritivas dela, relação que às vezes pode ser enganosa. Por exemplo, o sujeito fez a laranja crescer mais usando meios artificiais, mas ela perdeu o gosto. Esta tensão toda está presente simultaneamente no ato de você perguntar qual é o preço da laranja. Existe alguma ciência capaz de fazer isso? Some todas e elas não o farão. Vejam até que ponto o universo da Ciência se assenta nessa ontologia natural do homem comum, e como o aprofundamento crítico desta ontologia natural é a necessidade mais urgente que nós temos. Esta é a ciência superior que determina e articula todas as outras e fora da qual as outras não fazem o menor sentido. [Intervalo] Aluno: Os historiadores dizem que, quando os espanhóis chegaram ao México, os astecas viram os espanhóis montados em cavalos e pensaram que fosse um só ser – um centauro, portanto. Como ficaria a simples apreensão neste caso? Os astecas apreenderam as essências de dois seres? Olavo: Esta pergunta já está respondida na própria lógica clássica, que distingue os termos – termo é aquilo no qual se condensa um conceito que, por sua vez, condensa uma simples apreensão –, conforme a sua extensão e a sua compreensão. Extensão é o universo de seres ao qual se aplica um determinado termo. Às vezes, a mesma palavra é usada para significar coisas diferentes. A primeira classificação quanto à extensão é, evidentemente, em termos singulares que se aplicam a um ser só ou comuns que se aplicam a vários. Os comuns, por sua vez, se dividem em termos coletivos, que abrangem uma determinada comunidade, que não precisa ser numericamente quantificada, e que abrange os seus indivíduos somente na medida em que pertencer àquela comunidade como, por exemplo, os doze apóstolos – somente aqueles doze fazem parte daquela comunidade –, ou os brasileiros. Em segundo, o termo universal, onde você está designando aquilo que é comum a toda uma classe de seres, individualmente. Eles não estão designados coletivamente, mas de modo genérico. Por exemplo, se você usa “os homens”, você pode estar querendo dizer “a humanidade” quantitativamente considerada, mas você pode estar querendo dizer a essência homem, tal como se aplica individualmente a cada um deles. Então, no primeiro caso, é um termo coletivo e, no segundo, é um termo universal. Anotem em um papel para vocês não esquecerem. Então, termo singular ou comum; e o comum, por sua vez, se distingue entre coletivo e universal. Quanto à sua compreensão, isto é, quanto ao conjunto de termos, o conjunto de notas que aparece no termo, ele pode ser, em primeiro lugar, claro ou obscuro. Ele é claro quando distingue um ser dos outros seres. E, além disso, ele pode ser distinto ou confuso. O claro se opõe ao obscuro e o nítido se opõe ao confuso. O termo é claro ou obscuro conforme ele individualize o ente ou não, conforme ele distinga o ente ou não. Ele é distinto ou confuso conforme ele perceba claramente e ponha em evidência os traços constitutivos daquele ente ou esses traços apareçam misturados. É evidente que, no caso do centauro, onde você dá um mesmo termo para designar dois entes, é uma percepção confusa. Para todos os efeitos lógicos, você pode usar um termo confuso e fazer uma série de raciocínios que podem ser formalmente perfeitos. Porém, ainda há outra divisão, que é a divisão do conceito abrangente ou não abrangente, ou compreensivo e não compreensivo. O conceito abrangente é aquele que abrange todos os caracteres daquele ente particular, incluindo todas as suas relações possíveis com todos os demais entes, então é claro que só Deus tem o conceito abrangente. O nosso é uma abrangência incompleta, que tem de ser assim, porém de forma suficiente, ou seja, tem de abranger todos os caracteres daquele ente que sejam necessários para os fins do raciocínio que você está fazendo, o que, evidentemente, em muitos casos não acontece, você deixa escapar coisas que são importantes ou, como no caso do centauro, você mistura coisas que não são pertinentes. Aluno: Quando Aristóteles diz que uma criança começa chamando todos os homens de pai e todas as mulheres de mãe, ele está dizendo que as nossas percepções começam confusas ou é algo posterior, que começa confuso e vai se afinando ao longo do tempo? Olavo: Eu, sinceramente, não sei. Isto não é propriamente verdade, mas pode acontecer em algum caso. Aristóteles é muito bom quando faz observações científicas sistemáticas, mas essas que ele faz de coisas cotidianas são meio falhas, como quando ele diz que as mulheres têm mais dentes que os homens. Provavelmente ele contou os dentes de uma mulher só e agiu como um verdadeiro Bacon. Em Aristóteles isso é a exceção, e em Bacon, a regra. Aristóteles, que é um sujeito que Bacon estava contestando, era um grande observador sistemático, absolutamente fantástico! Ele fez descrições precisas de centenas de espécies animais, de embriologia, de ecologia, um negócio incrível. E Bacon, que era o homem da observação, nunca observou nada. Digamos que o exemplo fosse verdadeiro. No caso, você tem uma apreensão confusa porque está designando o sujeito somente pelo seu gênero. Quando você entra em uma fábrica que tem vários equipamentos, os operários sabem o nome de cada equipamento e para que servem. Porém, para você são máquinas, então você tem uma apreensão confusa porque não está individualizando corretamente. Mas o confuso não é errado. Você entra no zoológico e tem um monte de bichos, mas é evidente que não são só bichos, são espécies determinadas de animais. Aqui se trata somente de uma coisa assim. Por outro lado, muitas vezes, a apreensão confusa pode ser simbolicamente válida, porque você está misturando elementos que coexistem naquele ente, mas não de maneira chapada. Se você vê um homem a cavalo e o chama de centauro, muito bem, o homem a cavalo tem as propriedades do centauro. No confronto com o homem a pé ele leva a vantagem que o centauro levaria no confronto com o homem, só que ele só faz isso enquanto está montado. Ele pode ser desmontado, ao passo que o centauro não pode ser separado em dois pedaços. Então, não está totalmente errado chamá-los de centauros. É uma apreensão confusa mas que sinteticamente considerada, diz o que você está vendo. Não é o mesmo caso de quando você chama todas as máquinas de máquinas ou todos os bichos de bichos, onde você está designando somente pelo gênero. Aí você tem uma percepção que falha pela sua abrangência. Vou relacionar essa pergunta com uma do aluno Bernardo Camargo, que fez uma tradução das confissões de Al-Ghazali, o teólogo muçulmano. A tradução está ótima e acho que se você divulgá-la fará um grande bem para muita gente. Mas eu considero o Al-Ghazali um autor extremamente perigoso, é um dos pensadores que eu mais detesto no mundo. Você não pode esquecer que ele estava dentro de um meio social específico e usa as palavras nas acepções que valem para aquele meio. Por exemplo, ele diz que há vários tipos de buscadores de conhecimento: (a) os filósofos que seguiam pela lógica formal; (b) os teólogos dogmáticos que seguiam pelas escrituras; (c) os sufi ou sábios, entre os quais ele mesmo modestamente se incluía, que sabiam as coisas por inspiração divina direta. Em primeiro lugar, a afeição dos filósofos pela lógica formal é uma coisa daquele momento. Aristóteles foi muito claro ao dizer que a lógica formal não confere nenhum conhecimento, ela apenas permite que você corrija seus raciocínios, mas nada acrescenta. O verdadeiro problema do conhecimento não era o raciocínio, mas a aquisição das premissas. Para você montar os raciocínios precisa das premissas, mas de onde você as tira? Só tem dois jeitos: ou você vai obter princípios universais que são sempre válidos, ou você vai precisar de premissas particulares com relação a uma determinada classe de objetos. Quais são as premissas adequadas a essa classe de objetos? A simples observação não basta, você vai precisar ir para o confronto de hipóteses, que é o método científico como foi formulado depois. O verdadeiro método que Aristóteles segue é a dialética, a confrontação de hipóteses até que, da confrontação das várias proposições sobre o mesmo objeto, ela faça surgir diante dos seus olhos a diferença específica daquele objeto, e aí você tem um conceito cientificamente válido e um grupo de premissas que pode seguir no estudo daquele objeto. Nada disso tem a ver com lógica formal. A afeição dos filósofos árabes e islâmicos daquele momento por lógica formal também não é uma regra geral, eles estavam se referindo especificamente ao grupo averroísta, em que, de fato, há uma confiança excessiva na lógica formal, mas ali dentro do meio islâmico você encontra pessoas que seguiam por métodos completamente diferentes e que, aliás, eram justamente a maioria. Al-Ghazali foi uma espécie de inquisidor: ele queria pegar todos esses camaradas e tomar como heréticos, mas na verdade estava muito interessado em lisonjear os teólogos dogmáticos e mostrar a eles a legitimidade das práticas sufi. Às vezes, os sufi eram mal vistos pelos teólogos dogmáticos, que estavam no poder, e Al-Ghazali era um destes. Os teólogos dogmáticos viam com desconfiança os filósofos e os sufi e o que Al-Ghazali estava tentando fazer é se limpar dos filósofos. Eu acho isso muito feio, então Al-Ghazali não está entre as minhas grandes admirações, embora esse livro seja de uma utilidade extraordinária. Aluno: Eu gostaria que o senhor comentasse a conclusão a que chegou o teólogo do Islã sobre a melhor forma de se chegar à verdade. Não seria, de certa forma, a mesma conclusão a que chegou São Tomás de ser palha tudo o que havia escrito quando comparado ao arrebatamento místico ao qual havia sido sujeito? Não seria a Filosofia, por esta ótica, um tênue arremedo da verdade alcançada por meio da graça? Por outro lado, teriam Al-Ghazali e São Tomás chegado a essas conclusões sem antes terem esgotado os esforços corrigidos pelos homens na busca pela verdade pelos meios racionais? Em outras palavras, a sabedoria filosófica seria um pré-requisito para chegar a esse entendimento sobre o transcendente de uma forma plena e proporcional às possibilidades humanas? Olavo: Em primeiro lugar, São Tomás de Aquino não está se referindo necessariamente a um arrebatamento místico. Deus confere conhecimentos a você por milhões de meios, dos quais o arrebatamento místico é só um. Deus pode fazer você ficar sabendo alguma coisa sem que você saiba por onde aquilo entrou. Você não pode esquecer que a ação do Espírito Santo é dupla: a geral e a especial. A geral sustenta a nossa inteligência o tempo todo e a especial confere certas aberturas maiores em certos momentos. Isso não precisa tomar a forma de uma experiência mística. Se Deus quer fazer alguma coisa, ele pode fazer durante o sono – o estado de sono profundo é o estado no qual a sua alma está inteiramente aberta a Deus e Ele pode falar o que quiser, você dorme sem saber e acorda sabendo. Isso já me aconteceu, eu sou testemunha disso! Durmo com a pergunta e acordo com a resposta. Fui eu que fiz? Não. Tive algum arrebatamento místico? Nenhum! Se isso acontece até com um idiota como eu, por que não vai acontecer com pessoas melhores? Em segundo lugar, eu não aceito de maneira alguma a idéia de que exista uma forma de conhecimento humano e uma forma de conhecimento divino que é infundido em você. Não é isto. O que há é que você passa da esfera do conhecimento humano para a esfera da própria realidade. O conhecimento humano é todo feito por meio de representações, o que se pega da percepção é mínimo, e você elabora aquilo, em seguida, através do pensamento. Este trabalho do pensamento pode, nos seus graus superiores, ser reduzido a um quase nada, na medida em que o seu intelecto se tornou dócil à realidade. Quando chega à docilidade total já não se trata mais de conhecimento, é a própria realidade falando. Eu acabei de ler as memórias do Max Planck, onde ele diz o seguinte: existe um mundo objetivo, e o nosso esforço é para captar os elementos caóticos desse mundo e coordená-los e colocá-los numa ordem – isto é o conhecimento científico. Em um primeiro momento parece que as coisas são assim, a experiência é caótica e você as ordena, porém, qual é a possibilidade de você ordenar o seu próprio material que está sendo ordenado? Existe a ordem da própria realidade e esta é a ordem divina do mundo. Então, longe de ser você quem está ordenando, num primeiro momento, lhe parece que o seu cérebro, a sua inteligência é o elemento ordenador, num outro momento você percebe que o seu intelecto, por mais organizado que esteja, é completamente caótico e ele nada poderia se não houvesse uma ordem externa universal que se impregna nele e o ordena, e é nesse momento que a coisa se torna indizível, evidentemente. Não tem como nem porque ser dita, pois é ela que está dita na ordem na criação, é o discurso divino. Não tem mais sentido chamar isso de “conhecimento”. O conhecimento é um negócio subjetivo, mas neste caso não está mais, é você inteiro – corpo e mente – que se integrou numa outra coisa e, como diz São Paulo Apóstolo: “Não sou mais eu que está aqui, é Jesus Cristo que está falando através de mim.” Jesus Cristo é um elemento da Doutrina, é algo que você conhece? Não, é uma pessoa que é a verdadeira natureza humana, que é a própria estrutura do cosmos e é a expressão direta da lei divina. Já não se trata de adquirir um conhecimento, mas da sua pessoa chegar a sua culminação e se transformar em outra coisa. Portanto, é absolutamente ridículo dizer que existem duas maneiras de você chegar lá, é absolutamente necessário insistir que nessa segunda experiência você não chega, ninguém chega! Deus pega você e faz isso – se Ele quiser. Não tem método nem técnica, eu acho tudo isso uma empulhação. São perigosíssimos, sobretudo, esses métodos sufi. Não leva a coisa nenhuma, você pode ficar recitando 24 horas por dia que não vai acontecer nada, porque isto é só o Espírito Santo que lhe dá e ninguém tem contrato de exclusividade com ele. Eu acho que a melhor “técnica” para isso é você querer. E o que é querer? Será que é dizer “eu quero o conhecimento supremo e universal”? Será que este é um bom ponto de partida? Eu acho que não. Eu acho que isso é vaidade. O que Deus tem de ensinar a você? Aquilo que Ele acha que você deve saber, e só. A coisa decisiva, aí, é a relação de docilidade que você tem de ter com o Espírito Santo, eu acho que é somente isto. Mas dizer que isto é um método e que por outro lado existe o método filosófico – do que ele está falando? Al Ghazali usa todos os procedimentos dialéticos de demonstração que aprendeu com a Filosofia para dizer que ela é pura lógica formal e que ele, pelos métodos sufi alcançou não sei o quê. Esta oposição existe especificamente no mundo islâmico e eu acho que de maneira alguma se aplica ao caso ocidental. Aluno: Teria Santo Tomás chegado a essa conclusão sem antes ter esgotado todos os esforços coligidos pelos homens na busca da verdade pelos meios racionais? Olavo: Em primeiro lugar, quem disse que esses meios são racionais? Existe um meio racional de perceber uma laranja? Não, só se pode falar de racional e irracional no plano do pensamento lógico – o pensamento lógico pode ser racional ou irracional -, mas a apreensão intuitiva não pode ser nem uma coisa e nem a outra, ela não se enquadra nesses meios. Então, como podemos dizer que a Filosofia é a busca do conhecimento pelos meios racionais? A diferença só existe tecnicamente, do modo de argumentação. São Tomás, por exemplo, na Suma Teológica, argumenta com base nas Escrituras, ou seja, ele está raciocinando teologicamente; na Suma contra os gentios ele argumenta tão somente com base na experiência comum e nas deduções lógicas, portanto, é uma argumentação filosófica. Onde termina uma coisa e onde começa a outra? Se nós não estamos falando de argumentação, mas de aquisição do conhecimento, aí eu não sei qual é a diferença. Se, por exemplo, nós lêssemos as Escrituras, como faríamos? De um lado você tem de saber que o que está dito nelas, é um pequeno indício através do qual Deus pode filtrar muitas coisas. Ele pode fazer a sua compreensão da escritura ir muito além do que está na letra – e Ele mesmo diz que vai fazer isso -, e se você ficar só na letra vai dizer um monte de besteiras. Então, ler as Escrituras é orar. E orar o que é? É adquirir conhecimento? Não, orar é abrir-se a uma pessoa divina. Posso estar muito enganado, mas acho que isso tem dado algum resultado. Então, não é a mesma coisa você ler as Escrituras e ler outro livro. Se, por exemplo, você ler um livro do Max Planck, o máximo que você vai ficar sabendo é o que Max Planck sabia – se chegar a tanto -, e, se ler as Escrituras, vai ficar sabendo o que Deus sabia. Em que medida? Na medida em que você agüentar. Isso é o que Ele está filtrando em cada linha das Escrituras, cada linha ali tem um significado infinito, o qual não é uma série de teses, mas é a própria estrutura da realidade que vai aparecendo. Eu não posso provar isso aqui, mas espero que a própria experiência prove a vocês no decorrer deste curso. Portanto, eu acho que essas distinções que faz Al Ghazalli são muito artificiais. Elas valem, em parte, para um contexto social específico, mas o fato é que os argumentos de Al Ghazalli foram usados muitas vezes como argumentos para reprimir a investigação filosófica. Nós não podemos saber com certeza se essas percepções finais que teve São Tomás de Aquino podem ser chamadas de arrebatamento místico porque isso, no fim das contas, é uma experiência que foi vivida durante um tempo, e não é disso que ele falou. Houve uma abertura permanente a certa dimensão do conhecimento da qual ele não podia dizer mais. Quando eu comecei a aula eu mencionei que, em Deus, não há diferença entre o ser e o conhecer, e que o ser humano pode participar disso muito parcialmente. Porém, eu não acredito que esse conhecimento seja dizível ou transmissível. Ele é simplesmente uma abertura à realidade em toda a sua dimensão vertical, sem a abertura horizontal quantitativa e concomitante – essa só Deus tem. Deus não é objeto do conhecimento, Ele é o sujeito por excelência. Aluno: Estamos vivendo dentro de um eixo cultural em que o centro é uma pessoa (Jesus), então podemos dizer que o cristianismo e Jesus são o centro da nossa cultura ocidental cristã? Olavo: É claro que sim! Eu também acredito que Jesus Cristo é o centro de construção do universo inteiro, inclusive das outras religiões, se não você não vai entendê-las. Eu acho que, na medida em que há alguma verdade nelas, essa verdade é por participação no Logos. O próprio Islã deixa isso aberto no sentido em que ele diz que Jesus Cristo é, por um lado, apenas um profeta de uma linhagem de profetas e, por outro, que Ele é o verbo de Deus, existe uma espécie de tensão no meio islâmico. Se há uma verdade ali, ela veio através do Logos Divino e do mesmo modo nas outras religiões. Eu acho que, quando Cristo diz “eu tenho outras ovelhas que não são deste rebanho”, isso quer dizer que Ele ainda não pegou todas as ovelhas, mas elas são Dele. Aluno: Os ensinamentos filosóficos que o senhor está nos passando como professor são a mesma coisa: continuidade do conhecimento filosófico, abrindo a possibilidade, o círculo de latência que somos nós, seus alunos, a novos questionamentos que poderão adicionar novos conhecimentos à Filosofia. Olavo: Eu espero que isto aconteça, porque não são somente os objetos que têm círculos de latência, nós também temos. Aqui há outra pergunta sobre círculo de latência que pode nos ajudar: Aluno: Á certa altura da aula 47 o senhor diz que, ao vermos um único gato, somos capazes de antecipar todas as cores possíveis da espécie por algo como um senso estético, de modo que esperamos que um gato seja branco, preto ou amarelo mas não azul com bolinhas. Minha reação imediata foi tentar imaginar se, de fato, seria capaz de prever isso a partir do primeiro gato que visse, e ainda não sei ao certo. Não é incomum vermos em documentários televisivos variações que não esperávamos em certos animais. Tive ainda outra dúvida: os gatos machos podem ter no máximo duas cores, e as fêmeas três - trata-se de uma necessidade inscrita na forma inteligível do gato? . Olavo: Este é o problema do termo abrangente ou não abrangente. O círculo de latência está em aberto e ele só é ilimitado em potência e não em ato, pois se não seria como perceber todas as potencialidades daquele animal ou daquele ente imediatamente e instantaneamente, o que lhe transformaria em Deus. Aquilo que, em Deus, é percepção imediata do conjunto organizado das possibilidades transforma-se, em nós, numa abertura tensional para uma série de possibilidades que estão latentes, mas que você não conhece quantitativamente. De fato, seria impossível perceber todas as possibilidades, mas você sabe que existem algumas e que elas são coerentes com aquela forma. Portanto, você sabe que aquele não é o único gato possível. Isto fica ainda mais claro quando você percebe um ente dentro de uma coleção de entes da mesma espécie. Por exemplo, quando você percebe árvores. Você entra numa floresta e vê várias árvores. Percebe a diferença individual e a pertinência à espécie ao mesmo tempo, inseparavelmente. Você percebe que esta árvore é ela mesma e da mesma espécie da outra. Elas têm a mesma forma, não há como separar uma coisa da outra. Aluno: É algo que só podemos saber por indução, jamais por antecipação? Olavo: Se você não fosse capaz de fazer a antecipação, não seria capaz de fazer a indução. Isto é um dado importantíssimo porque a indução é a comparação entre formas. Quando você vê o primeiro gato e depois o segundo, o que compara entre eles? Qual é a seleção de detalhes, de traços, de notas que você compara? Se a seleção fosse arbitrária, você jamais seria capaz de completar a comparação porque compararia a cor do primeiro gato com a posição do segundo, ou a ação do primeiro com o tamanho do segundo. Não é isso que fazemos. Nós apreendemos as formas substanciais do primeiro e do segundo gato e comparamos as respectivas propriedades e acidentes. Se não apreendêssemos as formas substanciais como círculo de latência, não poderíamos jamais fazer a comparação. Este é o ponto central da minha explicação. Quais propriedades e acidentes se realizam efetivamente? Só se sabe isso por indução, mas esse raciocínio só é possível se você tiver, primeiro, a apreensão da forma substancial e se esta não for apreendida como um todo fechado, mas sim como um círculo de latência. Do contrário, você não admitiria variações. Na verdade, a percepção humana do gato não é a mesma que a percepção divina. Só Deus pode saber todas as variações possíveis. Se você pegasse somente a figura daquele gato singular, você não o apreenderia nem como forma substancial. Aluno: Por fim, desde o início da sua exposição, me veio à cabeça um capítulo de Ortodoxia, de Chesterton, chamado A “Ética do País das Fadas”. Nele, o autor disse que os contos de fadas são fantasias perfeitamente sensatas, na medida em que os fatos que narra são possibilidades mentais, e afirma que não podemos imaginar que dois mais dois não sejam quatro, mas podemos imaginar árvores que, em vez de frutos, dêem castiçais ou tigres pendurados pelo rabo. Ou seja, além das possibilidades contidas numa forma inteligível de uma coisa, podemos visualizar uma série de possibilidades que não se verificam no mundo real. Mas, mesmo entre estas, umas nos parecem mais verossímeis que outras. Olavo: Você só imagina essas coisas porque quer. Você as está criando, não percebendo. Mesmo quando você sonha, quem foi que sonhou? Você! Trata-se somente de uma combinação de termos. Se você pudesse produzir somente seres reais, não teria sequer a noção de realidade. O que se está combinando são possibilidades, e essas se escalonam em diferentes graus de probabilidade. A imaginação não é uma coisa caótica, você tem controle do seu processo imaginário e, mais ainda, quando imagina essas figuras, pode imaginá-las não somente como figuras soltas no espaço, mas como símbolos de propriedades que estão naquele ente, mas que não se manifestam fisicamente. É o caso, por exemplo, da imagem do centauro. Aluno: Como estabelecer uma distinção nítida entre esses tipos de possibilidades? A apreensão da forma inteligível, independente de qualquer processo indutivo, é suficiente? Olavo: Não, ela jamais é suficiente, porque se não nós conseguiríamos resolver tudo só com a simples apreensão. Mas, isso só seria possível para Deus. A apreensão da forma inteligível é a coisa decisiva para o ser humano, porque, sem ela, não dá para fazer o resto. Até a indução se torna absolutamente impossível. A indução, tal como a pregava Bacon, é tudo, mas ao mesmo tempo ele disse que não existem formas substanciais. Como pode haver indução? Eu vou comparar o que com o que? Até para comparar meras aparências, meros aspectos fenomênicos separados é preciso que estes também tenham uma forma em si. A cor do gato tem uma forma inteligível enquanto cor, ou eu não a perceberia. Mesmo se você seccionar os objetos, eliminar a sua forma substancial integral e considerar apenas os aspectos fenomênicos, isso também será impossível, porque as formas separadas também têm as suas formas inteligíveis. Do contrário, elas não são nada. Pode-se afirmar que Bacon não sabia o que era uma indução, ele jamais soube, jamais compreendeu o que estava fazendo. Filosoficamente era um amador em toda a extensão do termo. Foi o primeiro de uma série de amadores, de pessoas que não tinham consciência filosófica do que estavam dizendo, não eram capazes de examinar a problemática daquilo que falavam. Proclamavam regras por mera questão de gosto – eles queriam que fosse daquela forma! Muitas vezes, estamos revoltados com alguma coisa, então aderimos à coisa contrária e proclamamos aquilo como se fosse uma verdade universal. Pode-se explicar o fenômeno como um arroubo emocional do momento, mas não como uma proposta científica. Eu mesmo, às vezes, faço certos exageros retóricos, mas sei que é disso que se trata. E quando não sei, posso até enganar a mim mesmo, acreditando que disse algo muito científico, quando é apenas um exagero retórico. Mas, tão logo alguém me chame atenção, eu reconheço o erro. O homem que afirme a não existência das formas substancias e que tudo o que interessa é a indução não sabe o que está dizendo. Até idéias abstratas têm de ter uma forma substancial. Se não tiverem, como compará-las umas com as outras? Aluno: Uma dúvida surgiu quando o senhor afirmou que há verdades inexpressas, captadas ao nível da mera percepção, sem proposição ou juízo. Olavo: Um exemplo são essas que São Tomás de Aquino percebeu no final da vida. Foram proposições ou juízos? Apenas percepções impossíveis de transformar em proposição ou juízo – se ele pudesse transformá-las, você acha que ele nos recusaria esses conhecimentos? Suponha que uma pessoa que você ame muito. Depois de ficar separado algum tempo, você revê essa pessoa. Já notou quanta coisa você percebe nela ao mesmo tempo? Isto é traduzível em proposição ou juízo? Teoricamente, Deus conseguiria, mas nós não conseguimos. A existência de verdades inexpressas é uma condição para que haja verdades expressas, caso contrário seria preciso dizer tudo cada vez que nós disséssemos alguma coisa. Veja a quantidade de coisas que eu não estou dizendo e que vocês estão entendendo junto com o que eu estou dizendo. Se não houvesse essas verdades inexpressas dentro de vocês, vocês não entenderiam uma palavra do que eu estou dizendo. Esta é a grande contribuição da programação neurolingüística ao conhecimento humano: todo aquele conhecimento e aquela comunicação inexpressa que existe e na qual a nossa comunicação verbal se baseia. Por exemplo, agora eu estou falando com pessoas reais: vocês têm uma consciência, estão alertas, acordados, têm sensibilidade, imaginação, memória, tudo; e, ao falar, eu estou supondo tudo isso. Se eu imaginar que estou aqui falando sozinho para as paredes, o meu discurso se esvai, some. Eu não poderia colocar as ênfases os valores se não estivesse supondo tudo isso sobre vocês, e tudo isso é inexpresso. Mesmo que eu tivesse visto cada um de vocês pessoalmente, eu seria capaz de dizer tudo isso? É claro que não. O inexpresso é a base do expresso. O discurso humano não visa a descrever a realidade humana como um conjunto, não há necessidade de descrevê-la, ela tem a sua própria ordem e lógica, ela é a suprema ordem. Nós só completamos um pedacinho aqui e outro ali para o nosso próprio uso, porque às vezes há aspectos da realidade que não podem nos chegar intuitivamente – nós não temos a intuição direta daquilo, então nós colamos um pedaço ou outro através de um discurso lógico. Isso é tudo que nós fazemos. O objetivo do estudo filosófico – ou das práticas místicas que vocês queiram – não é chegar a produzir em você um conteúdo verbal que você possa transpor de uma enciclopédia, mas sim abrir a vocês a realidade que existe e, diante dela, vocês ficarão mudos. Nós não vamos precisar dizer nada, pois a realidade que vocês estarão vendo é a mesma que eu estou vendo e simplesmente não haverá o que dizer, porque as coisas se tornam nítidas por si mesmas. Este é o objetivo. É um estado contemplativo? É. Mas não é arrebatamento místico. Esse estado contemplativo na verdade é a condição do que nós estamos fazendo, só que nós temos esse estado contemplativo em potência. À medida que vamos avançando no estudo, percebemos cada vez mais coisas e tudo vai se tornando cada vez mais indizível, e desse indizível você separa um pedacinho. Por quê? É aquele pedaço que o outro não sabe. Mas cada um de vocês é uma alma completa, cada um de vocês tem a dimensão luminosa e divina inteira, eu não vou acrescentar nada. Eu só estou ajudando – espero estar ajudando – cada um a tomar posse disso aí. Aluno: Sou aluno há um mês e, revendo as aulas, ainda estou na décima. Portanto, minha dúvida tem um pouco a ver com o necrológio e ainda com a formação da personalidade filosófica propriamente dita. No começo do Curso On-line de Filosofia, foi ressaltado que é grande a diferença entre querer formar uma auto-imagem – que vai contra a proposta colocada – e o efetivo conhecimento de si mesmo. Olavo: O conhecimento de si mesmo não tem auto-imagem porque ele não acaba mais. Você é um centro percipiente e agente, por assim dizer, um interlocutor de Deus e está aberto para uma dimensão infinita; você não tem mais figura. Aluno: Assim é dito que, antes de analisar-se a si mesmo com minúcia psicoterapêutica, por assim dizer, é mais importante a confissão propriamente dita, a pergunta sincera de si para si, na base do “você conta um pedacinho e o observador onisciente descortina o resto”. Pois bem, qual a diferença prática entre a confissão e a real análise, isto é, a auto-análise psicoterapêutica? Olavo: A auto-análise psicoterapêutica pode ser um elemento prévio da verdadeira confissão. A verdadeira confissão pressupõe o ouvinte onisciente e, portanto, você sabe que o que está dizendo é fragmento. É ele que vai completar a sua imagem, porque você só tem unidade diante de Deus. As unidades que nós vamos tendo durante a nossa vida são fragmentos. Aliás, tudo o que nós conhecemos nesse mundo são fragmentos e, no entanto, temos o senso da unidade do real e o senso da nossa própria unidade. Se você somar tudo o que você conhece a respeito de si mesmo não comporá uma unidade nem uma forma substancial. Esta forma não é um elemento do conhecimento, é um elemento da realidade, e você apreende a forma substancial só como círculo de latência, não como forma substancial inteira. Estar aberto para a apreensão dessas formas substanciais é a mesma coisa que estar se abrindo para a sua própria forma substancial, que só Deus conhece, e que você vai conhecendo à medida que esse confronto com o observador onisciente abra a sua alma. Tudo o que você puder aprender em Psicologia pode ser útil para isso. Nada é perdido, não despreze nenhum tipo de conhecimento, nunca! Mesmo tudo o que comentei aqui sobre a Ciência, eu não desprezo nada, acho isso tudo de certa maneira maravilhoso. Por mais burro que seja, eu não me recuso a obter esses conhecimentos, ao contrário, eu os busco. Hugo de São Vítor diz que, quando era moleque, tinha a mania de anotar tudo o que diziam para ele e tudo o que ele via – milhões de coisas e de detalhes insignificantes. Ele mesmo estranhava tanta coisa, mas descobriu mais tarde que tudo era útil. Quaisquer conhecimentos obtidos ao longo do caminho podem ajudar. Não desprezem nada, sobretudo não façam como Al Ghazali, que diferencia certas formas inferiores ou superiores de conhecimento. Quem é superior ou inferior é você e o que você faz com esses conhecimentos. Quando nós falamos, por exemplo, da modalidade de conhecimento científico proposta por Bacon, ela só é inferior se comparada com outra que a abrange e que não a desmente, senão não seria inferior. O que é superior, por definição, contém e abrange. Não estou contrastando dois modos, eu só estou colocando um dentro do outro. Estou dizendo que todo o conhecimento dito científico só adquire sentido se colocado dentro da Ontologia Geral. Não estou dizendo: “em vez de fazer ciência temos de fazer ontologia geral. Aqui existe um modo que é A ontologia geral e ali existe outro, que é Ciência”. Não! É tudo a mesma coisa. Agora, se você tentar seguir o tal do conhecimento científico isoladamente e proclamar que ele, por si mesmo, é o articulador do conjunto, você está muito doido. Aluno: Acredito que antes de buscarmos qualquer conhecimento devemos nos perguntar se ele é necessário para a nossa ascese espiritual ou apenas responde ao apelo da nossa vaidade pessoal. (...) Olavo: Sem sombra de dúvida! Embora a curiosidade humana seja um elemento natural colocado em nós pelo próprio Deus e não deve ser desprezada. O problema de todas essas disciplinas espirituais e morais é que elas, às vezes, desenvolvem em nós um senso de superioridade absolutamente injustificado. Existe muito do conhecimento que é apenas vaidade. Uma vez li que C. S. Lewis estava se sentindo muito culpado porque estudava literatura. “Mas onde já se viu perder tempo com isso?” questionava-se. Trata-se, no entanto, de uma questão de ponto de vista. O problema não é o que se estuda, mas o que se faz com aquilo. Eu mencionei outro dia que Santo Hilário de Poitiers considerava o mau estilo um pecado. É necessário ter o respeito pela Linguagem, pois ela é o mais alto atributo que Deus nos deu. Como é que eu não vou então cultivar a Literatura, como é que eu não vou aprender com os poetas? Isso faz parte do amor a Deus. Por que é que eu vou desprezar esse conhecimento? Nesse sentido, não há conhecimentos superiores ou inferiores. A diferença não está no objeto material do estudo, mas sim no objeto formal e, sobretudo, no objeto formal terminativo: para que eu estou estudando isto e onde é que eu quero chegar com isto? Existe um famoso livrinho de Irmão Lourenço (também conhecido como Brother Laurence, cujo nome verdadeiro é Nicolas Herman), no qual ele disse que estava aberto para Deus o dia inteiro. Ele pegava justamente as tarefas mais modestas que tinha no mosteiro: descascar batatas, limpar privada etc. Tudo isso era importante, fazia parte do culto a Deus. Se limpar privada pode fazer parte do culto a Ele, por que o estudo da poesia não pode? Não vão pela letra, vão pelo espírito. Aluno: (...) À luz das reflexões que venho fazendo estou cada vez mais convencido de que grande parte da sabedoria que buscamos nada é mais que a lenha a alimentar a fornalha da nossa vaidade pessoal. (...) Olavo: é claro que é. O segredo é você não fazer por esses motivos. Quer se livrar disso de uma vez para sempre? Faça um voto que eu mesmo fiz: “quero saber essas coisas mesmo que nunca consiga contá-las para ninguém, mesmo que ninguém fique sabendo o que estou sabendo”. Fiz esse voto há mais de quarenta anos, numa época em que tudo na minha vida tinha dado errado — a começar pela vida mesmo, pois a primeira coisa que eu fiz ao nascer foi ficar semimorto. Não tem jeito pior de começar do que esse. Em seguida, quando comecei a me mover, começou a dar tudo errado. Quando cheguei por volta dos vinte e poucos anos, desisti. Percebi que não daria para fazer nada, que estava ferrado pra sempre. Independentemente disso, decidi que queria entender essas coisas. Então, aos poucos, fui percebendo que, se seguisse por esse caminho, estava, de algum modo, naquilo que você chamaria de ascese espiritual — eu não gosto deste termo porque ele já foi usado de maneira muito imprópria. Há mais vaidade neste meio do que na pratica da ciência moderna. Os ascetas, místicos e exotéricos que conheci chegavam no supra sumo da vaidade. O Emir Sader era menos vaidoso do que eles. Você tem vaidade enquanto considera que pode obter alguma coisa desta vida. Quando você já se considerou morto, daqui por diante o que vier é lucro. Então, primeiro, você está contente; você não está querendo nada. Você quer um só um pouquinho, mas se não vier também está bom. Eu acho que essa espécie de contentamento interior é a condição certa para a chamada busca do conhecimento. Quer dizer, vou buscar conhecimento sim, mas quanto de conhecimento eu vou ter? O que Deus achar que eu devo ter. O negócio é deixar que Deus o guie. Eu já dei para vocês o exemplo do meu amigo que nadava em Ubatuba e se deixava jogar pelas ondas de trinta metros, daqui pra lá, e ele estava perfeitamente tranqüilo. É mais ou menos assim que a gente tem de ficar. Então esta abertura, esta conformidade com a ordem real é uma ascese de algum modo. Aluno: (...) Há alguns anos eu senti uma compulsão por debater os grandes temas da filosofia, da religião e da metafísica com quem quer que fosse e me sentia realizado se ganhasse uma discussão. Mas com o passar do tempo olho para trás e me vejo como uma criança naqueles dias. Olavo: Sem sombra de dúvida! Você só tem de entrar em uma discussão se estiver perfeitamente seguro de que aquilo obedece a uma finalidade moralmente importante. Eu fujo de discussões no círculo pessoal. Eu tenho um amigo que vive me perguntando o que eu acho de determinados assuntos. Eu não acho nada, só “acho” as coisas profissionalmente. Só tenho opinião sobre alguma coisa em caso de obrigação moral ou profissional de me posicionar sobre aquilo, para o bem ou dos outros ou de mim mesmo. Fora disso, por que é que eu terei opinião? Este voto de pobreza em matéria de opinião que eu pedi para vocês e que eu espero que façam é para isso. O que não quer dizer que, se for preciso opinar em uma coisa publicamente relevante para aliviar o sofrimento humano, ou para esclarecer idiotas, você deva se furtar a isso. Você deve fazê-lo assim, pois será melhor do que quando você debatia apenas para ganhar a discussão. Você vai debater com o espírito do profissional: “estou fazendo por uma obrigação e não porque é importante para a minha auto-imagem”. Não é preciso se preocupar com a auto-imagem. Deus o ama, a opinião dos outros não interessa mesmo. Então, perante Ele, seu problema já está resolvido. A opinião dos outros que se dane. A opinião Dele certamente não é baseada nas nossas virtudes, porque se tivermos alguma, é ele que vai infundi-la. Não queira parecer bonitinho perante Deus. Eu já tentei e cada vez que tentava, chegava mais sujo. Aluno: (...) O que mudou daquela época para hoje não é o que eu sei, mas o que eu sei que não sei. Compreendi a máxima socrática em toda a sua extensão e ela sobreveio como um soco na boca do estômago e encontro-me até hoje silenciado pelo golpe. Olavo: O silêncio é uma boa opção. Aluno: (...) Tenho uma mistura de pena e compaixão crescente por aqueles que são ávidos de emitir uma opinião e ganhar o debate (...) Olavo: É isso mesmo. O que não quer dizer que esta ânsia de ganhar o debate seja ilegítima em si. É legítima porque, na adolescência, é quando nós conquistamos os meios de expressão que nos tornam socialmente capazes e, nessa época, discutir e ganhar uma discussão é importante porque é um meio de ação social que será necessário e que você tem de aprender. Nos Estados Unidos, todas as escolas ensinam as crianças a falar em público, fazer um discurso, participar de um debate — isto é importantíssimo. Na adolescência, você perde a insegurança depois que já provou que é o gostosão. Muita coisa nós fazemos somente para conquistar segurança e é inteiramente lícito que você a busque. Para que se faz ginástica? Para tornar o corpo mais capaz de fazer certos gestos que naturalmente ele não seria capaz. Acumular capacidade não é pecado. Elas terão de testadas. E como é que se faz isso? Competindo com os outros! E isso é muito importante na adolescência. Infelizmente a maior parte das pessoas não tem a chance de fazê-lo. Elas acabam se sentindo derrotadas, humilhadas, com raiva de todo mundo. Se você não fez isso na adolescência, faça agora. Vá lá e ganhe a discussão ou então entre em uma briga e encha o sujeito de porrada. Faça qualquer coisa para eliminar esse complexo de inferioridade. A melhor maneira de eliminá-lo é deixando de ser inferior. Em geral, as pessoas têm esses complexos porque são inferiores. Então se tornem superiores em alguma coisa, não em tudo, isso não é possível. Eu lembro que no colégio havia várias pessoas que eu admirava e queria imitar. Um era o sujeito gostosão, que conquistava todas as garotas; outro que era o fortão e batia em todo mundo; outro, o primeiro da classe; outro que era o mais popular etc. Eu pensava em adquirir um pouco de cada uma dessas coisas, na medida da minha possibilidade. Adquiri-las todas ao mesmo tempo não era possível. Não é pecado se adestrar nas coisas que são mais importantes para você. Só que existe uma idade limite. Se você chegou aos cinqüenta anos, está com complexo de inferioridade e acha que não sabe nada, então faça o seguinte: perdoe o Universo, assuma que é inferior mesmo, que fez o possível e que daqui para diante você será outra coisa. Os problemas se resolvem. Você vence as inferioridades adquirindo a superioridade ou esquecendo da competição e passando para outro departamento. Aluno (...) Clamo a Deus por um arrebatamento místico que me mostrasse a Verdade, indizível e incomunicável, que acalmaria a minha alma e preencheria o vazio que foi criado pela constatação dos seus limites. (...) Olavo: Não faça isso. Não queira arrebatamento místico. Queira obedecer a Deus, fazer o que Ele quer que você faça. Deixe que Ele o guie. O arrebatamento místico, se tiver algum à disposição, o Senhor me dá. Se não tiver, deixe para depois. O que interessa não é a experiência mística. É o Conhecimento, a busca por ele. Existe uma coisa que é superior ao Conhecimento: o amor a Deus e a obediência a Ele. Seja o agente Dele, deixe-O agir através de você, mesmo que nem perceba o que Ele está fazendo. Procure o livro do Frei Lourenço (Brother Laurence). Revisão: Fernando José da Silva, 27/08/2011 [fjose109@terra.com.br) ABAIXO, OS CRÉDITOS DAS TRANSCRIÇÕES.. Transcrição: Djane Bouças de Carvalho Britto, 21/10/2010 [djanedj@hotmail.com ; bcbdjane@gmail.com] Transcrição feita por: Mariana Belmonte (mhiaya@gmail.com) Transcriçao feita em: 12 de dezembro de 2010 Transcrição: Djane Bouças de Carvalho Britto, 18/02/2011 [djanedj@hotmail.com, bcbdjane@gmail.com]