Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 42 23 de janeiro de 2010 Boa tarde a todos, sejam bem-vindos. Gostaria de começar agradecendo ao Bernardo Camargo pela remessa do livro escrito por sua mãe, Vanda Maria Alckmin: As Sete Alegrias de Nossa Senhora. Ele mandou também uma garrafa de água benta, da Turquia, da Casa de Nossa Senhora (em Éfeso). Agradeço de todo o coração. Eu queria aproveitar a aula de hoje para complementar uma série de pontos que foram abordados em outras aulas. Vou começar por fazer umas observações sobre a obra do Mário Ferreira. Veja-se que as duas criações principais do espírito humano no Brasil do séc. XX foram totalmente marginalizadas e esquecidas. Claro que isso pode acontecer com qualquer autor, em qualquer época. Mas quando se trata, realmente, do centro, do topo da coisa, então há algo de anormal. E é justamente dentro dessa anormalidade que vocês estão vivendo. Eu nunca vou cessar de enfatizar este senso de anormalidade da situação brasileira, porque qualquer pessoa que tenha nascido dentro dela toma esta situação, precisamente, como normativa; porque não conhece outra, não tem outra “régua”. Só se pode adquirir outra régua na medida em que se supere esse quadro brasileiro, adquira outras informações e passe por um processo que a gente poderia chamar de “desaculturação”. Quer dizer, você se integra em outras unidades culturais que transcendem infinitamente o Brasil e você começa a ver as coisas mais ou menos com o tamanho que têm. Mas, para a maioria das pessoas, sobretudo para a maioria dos estudantes, o meio brasileiro de hoje e o seu tipo de diálogo são a medida de todas as coisas; eles não conhecem outras e não são capazes de concebê-las. Imagine-se o impacto que tem, para um jovem de família relativamente inculta e pobre, um ambiente universitário no qual ele entra. Para ele, aquilo é a conquista da “iluminação”; sente estar saindo das trevas para a luz, do “submundo” para o “grande mundo”. Pelo menos estruturalmente é esta a função que a universidade tem. Eu não digo que ela não tenha esta função, mas é um problema de proporção. O indivíduo que saiu da cidade de província para ir à capital pensa que chegou a Atenas, a Paris ou alguma coisa assim. Está em Nova York... Então, os centros culturais verdadeiramente importantes estão para o mundo como a capital da província está para as outras cidades da província, assim como as cidades da província estão para os vilarejos da província. Isso cria uma ilusão de ótica que pode durar pela vida inteira. E, evidentemente, todo e qualquer julgamento que você faça, baseado nessa referência cultural, vai estar sempre errado e deslocado em relação à realidade. É justamente isso que a gente observa em praticamente todas as discussões que circulam pela internet. A internet é um recurso formidável para se transcender as limitações que estão sendo impostas pela grande mídia à opinião pública mundial, na medida em que os órgãos principais de mídia foram todos comprados por cinco ou seis famílias, cinco ou seis grupos econômicos. O noticiário praticamente se uniformizou. Hoje, mesmo aqui nos Estados Unidos, é difícil distinguir, por exemplo, o New York Times do Washington Post, e estes do Los Angeles Times, pois todos eles dizem a mesma coisa. Até os critérios para o julgamento de coisas da vida cotidiana, não só da vida política, são os mesmos. Por exemplo, eu fiz aqui uma observação sobre os critérios de polidez americanos; sobre a preocupação que eles têm de não cruzar a linha, não ir adiante da linha, não sair da linha. Vê-se que as coisas que incomodam o comentarista de um jornal – uma palavra imprópria dita por um sujeito na televisão – incomoda a todos os outros ao mesmo tempo. Eles reagem em bloco, a classe jornalística inteira reprova aquilo que foi dito. Um dia, na televisão, na cerimônia do Oscar, houve um beijo lésbico, que foi demasiado apaixonado. Então surge um debate nacional: “as fulaninhas cruzaram a linha?” A mesma pergunta aparecia na CNN, no USA Today, no New York Times – tudo igual. É como se eles todos fossem uma grande família, onde vigoram os mesmos princípios de educação e a crença nas mesmas idéias. Isso, realmente, não era assim. Em 1986, quando eu estive aqui pela primeira vez, não era assim. Vê-se que os jornais eram muito diferentes, que havia, realmente, um sentido de concorrência. Agora, falar em concorrência jornalística não faz sentido nenhum. Concorrer por audiência também não faz mais sentido. Há uma estabilização das audiências, e justamente a internet é o que fura esse bloqueio e dá a oportunidade de se descobrir outras possibilidades. Naturalmente, a reação da grande mídia é desprezar a internet. Tome-se o caso de um site da internet que tenha dez vezes mais leitores que o New York Times: este vai se sentir mais importante pela sua antiguidade... e certamente não vai ceder a sua autoridade de uma maneira tão fácil. Mas acontece que no Brasil está sendo perdida a oportunidade de se livrar dessa camisa de força da mídia justamente por falta de referencias. As referencias que aparecem na internet são exatamente as que aparecem na mídia. As pessoas julgam as coisas com a mesma cabeça com que julgariam os leitores d`O Globo, os expectadores da tevê Globo, os leitores da Folha [de são Paulo] etc etc. Sobretudo, as referencias intelectuais são exatamente as mesmas que aparecem na mídia. Isso é fantástico. Como não se tem publicações culturais, literárias, científicas e filosóficas em número suficiente para constituir um debate intelectual no sentido próprio do termo, o que sobra de debate intelectual público ocorre através da grande mídia. Aqui [nos Estados Unidos] não é assim: cada grupo de intelectuais tem a sua revista, o seu journal, que entre os americanos corresponderia aproximadamente à nossa revista acadêmica. Aqui há milhares e milhares dessas revistas, cada uma expressando a visão de mundo mais ou menos “inorganizada” de determinados grupos. Então [aqui nos Estados Unidos] se pode falar de um debate intelectual e de um debate midiático. No Brasil não existe isso. O Brasil só possui o debate midiático. Portanto, o que pode haver de debate cultural aparece também na mídia. As referencias, então, que possuem os jovens [brasileiros] hoje são duas: seus professores universitários e os colunistas de mídia, sendo que a cabeça dos primeiros “é feita” pelos segundos. No conjunto, a coisa é de uma pobreza que, aqui, eu tenho dificuldade de descrever a um americano. Se eu disser para um americano: “Não há nenhuma revista cultural de grande projeção no Brasil, que exerça uma influência pública”, ele irá achar que eu estou exagerando, que isso não é possível. O fenômeno das revistas culturais de curta duração perpassa toda a história brasileira. Criam-se centenas de revistas culturais que não sobrevivem e logo acabam. Vamos partir do seguinte princípio: não existe debate cultural no Brasil. Não existe alta-cultura. Basta fazer uma conta. Se você notar a cultura dos anos 50 e 60, verá que nessa época havia vivos, [0:10] atuando ao mesmo tempo, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos, Marques Rebêlo, Herberto Sales, José Geraldo Vieira. Era uma infinidade de bons escritores. A literatura brasileira podia concorrer com qualquer do mundo em qualidade. Sob certos aspectos, há obras nacionais que eu acho que transcendem qualquer coisa publicada naquele período. Por exemplo, o Mário Ferreira, que estava vivo nessa época. Só na filosofia havia o Mário Ferreira, o Vicente Ferreira da Silva, o Villém Flusser, o Miguel Reale, além de um círculo enorme de gente discutindo as suas obras. Hoje não há realmente mais nada. Nada, nada. Hoje, quando tenho a oportunidade – como eu tive esta semana – de discutir com o Oliveiros da Silva Ferreira, dá até um “orgasmo”, porque normalmente eu tenho que discutir é o com o Luis Fernando Veríssimo, o Emir Sader. É um pessoal que dá até dó. Note: não é assim porque eu seja um sujeito superior... Eu, nos Estados Unidos, sou um intelectual de um certo nível. Mas aqui há um monte de pessoas parecidas comigo, que me entendem, com as quais dá para dialogar. Há um monte de pares. No Brasil não há pares. No Brasil eu sou um sujeito ímpar. Entre eu e o segundo mais inteligente há uma distância abismal. Quer dizer, eu não tenho com quem discutir no Brasil. Este é o problema, não há nada para discutir. Você mostrar que um sujeito é analfabeto, ignorante, que ele não entende nada ou está gagá não é discutir. Discutir pressupõe que eu tenha uma idéia e um sujeito tenha outra idéia. Quanto a essa imensa parte dos meus escritos que dizem ser de polêmica: o caso não é propriamente esse. Polêmica é sempre uma luta de idéias. Mas eu nunca tive ocasião de refutar uma única idéia no Brasil. Nunca aconteceu isso. Que idéia esses “camaradas” têm? Não têm idéia nenhuma. Uma coisa é você ter uma idéia, uma concepção da realidade, a qual pode ser mais próxima ou menos à de outro, mais parecida ou menos com a dos demais. Outra coisa – esta, completamente diferente – é você estar apenas expressando em palavras o seu próprio estado de alienação, de miséria intelectual, de terror-pânico, de suspeitas malignas; a sua doença, enfim; a sua neurose. Neste caso, não há o que discutir; há apenas o que descrever e, ás vezes, o que denunciar, porque é este um estado de coisas que raia o criminoso. Ninguém venha me dizer que o livro O Imbecil Coletivo é de polêmica. Quem diz isso são os personagens do livro, porque gostariam que fosse este de polêmica. Isso os honraria. Eles estão fingindo uma polêmica para fingir que houve uma discussão de idéias. Jamais houve uma discussão de idéias. Infelizmente. Eu tenho um amigo aqui, o John Raskins, com quem travo diariamente uma discussão de idéias com por telefone. Diariamente. Aparecem mais idéias em uma conversa com ele do que eu encontrei no Brasil durante todo o período da minha atividade jornalística aí. O John Haskins é um cara próximo do grupo do Alan Keyes, o qual, infelizmente, é uma pessoa muito ocupada; não dá para a gente conversar toda hora, como gostaríamos. Então, eu tenho minhas idéias, o John tem as dele e dá para a gente, como se diz, “trocar umas idéias”. Dá até para fazer uma polêmica. Mas isso, no Brasil, não é possível. Gente, eu nunca vou deixar de enfatizar isto: vocês têm que entender que estão em um lugar anormal, que isso aí não é um país, que isso aí é um hospício. É um negócio que está fora da realidade intelectual do mundo. É um fenômeno de doença, de baixeza, de estupidez consagrada como nunca se viu na história humana. Um país desse tamanho, com tanta incapacidade intelectual consagrada, não existe. Por isso a única solução para aqueles que querem levar uma vida de estudos é conquistar outra referência cultural completa. É como se a sua situação fosse a de um índio que tivesse nascido dentro de uma tribo e tivesse que adquirir a cultura de uma civilização imensamente maior, milenar, sem sair da sua tribo. Quer dizer, o índio precisaria ter internet, naturalmente. Se não fosse esta última vocês estariam perdidos. Não haveria saída. É claro que eu não entrei em cena num período tão pobre, tão seco, tão estéril quanto esse em que vocês estão entrando. Eu abri a minha cabeça para o mundo nos anos 50 e 60, quando havia um restinho [de produção intelectual]. Aliás, restinho não: ainda havia bastante coisa em circulação. Eu acabei de dar os nomes dos escritores que estavam [atuando]. Eu vejo que os debates de crítica literária que havia naquele tempo eram uma coisa majestosa. Havia o Sérgio Milieu, o Otto Maria Carpeaux, o Augusto Meyer, o Lívio Xavier, sem contar os portugueses que tinham vindo para o Brasil fugidos do regime do Salazar, como Fidelino Figueiredo, Adolfo Casais de Monteiro... um monte de gente. Havia uma riqueza no debate literário que vocês não conseguem imaginar. Tudo isso está absolutamente desaparecido. Quando eu falo de decadência, de dabacle da língua portuguesa, eu não estou me referindo a erros de gramática. Não é disto que eu estou falando. Às vezes uma língua poderosa é compatível com erros de gramática. Eu estou, falando, primeiro, da falta de sensibilidade para com o sentido das palavras, as diferenças de sentido, as diferenças de nuanças. As pessoas dificilmente “pegam” isso hoje. Em segundo lugar, a falta de senso da musicalidade verbal. Nem mesmo as pessoas que estão escrevendo poesia têm isso. O Bruno Tolentino se queixava muito disso. Ele tinha razão. Ele dizia: “essas pessoas não têm ouvido”. Quer dizer, elas não sabem como a coisa soa, não sabem criar uma impressão no leitor ou no ouvinte através do som. Elas estão querendo dizer uma coisa, mas a impressão que causam é outra. Não sabem graduar os famosos três estilos de que falava a retórica antiga, em que se tem um estilo simples, um estilo formal e um estilo solene. Hoje em dia as pessoas não sabem produzir esses efeitos. Às vezes, quando tentam o estilo solene fica ridículo; quando tentam o estilo simples já partem para o grotesco, pois confundem o simples com o grotesco. Isso é um desastre no manejo da língua como eu nunca vi acontecer em lugar nenhum, e olha que eu já estudei a história cultural de muitos países, muitas épocas diferentes, e não sei de nada parecido; não conheço um fenômeno paralelo. É evidente, então, que eu estou fazendo este curso à distância como um sujeito que está jogando um anzol bem no fundo da água para ver se pega uns peixinhos lá do fundo e traz aqui para a superfície. Isto só seria possível fazer por internet. Porque a internet implica, naturalmente, a seleção de pessoas que estão verdadeiramente interessadas. Quando você está dando um curso presencial, cinqüenta por cento dos “neguinhos” que aparecem estão lá apenas para atrapalhar. Eles têm apenas curiosidades momentâneas, enquanto um sujeito foi porque o amigo foi... Em um curso presencial, até que se estabilize uma turma interessada, leva um ano, ao passo que aqui não, pois podemos já afixar um interesse claro desde o começo. Eu estou tendo a grata sensação de ver, pelas perguntas que chegam, que o nível de interesse destes alunos é [0:20] muito sério a a capacidade que demonstram é muito grande. Nós não conseguiríamos reunir essas centenas de pessoas que temos aqui numa cidade brasileira. Nós temos isso aqui por quê? Porque vocês estão espalhados no país inteiro. Eu durante muito temo senti esse problema no Brasil. Eu dizia: “As melhores pessoas, os talentos, as inteligências estão sendo esmagados pela distância.” Se você não tem contatos, se vive num lugar onde só se fala besteira, coisa prosaica, vulgar, estúpida, você pode até continuar estudando. Se for um sujeito de uma força de vontade extraordinária e capaz de manter o seu equilíbrio mental na mais extrema solidão, é possível que você sobreviva, como eu mesmo sobrevivi, se bem que eu estou dizendo que não entrei neste negócio em uma época tão ruim quanto a de vocês. Mas, na falta de contatos, o que acontece? Aparecem os falsos contatos, os contatos inadequados com pessoas que não pertencem à sua tribo, por assim dizer, que não têm os mesmos objetivos que você e que, no entanto, têm alguma simpatia por você. Essa é a pior companhia que pode existir. A pessoa não quer o que você quer, não está indo para onde você está indo, mas ela – ah!.. – gosta de você... O que ela vai fazer? Irá te tirar do caminho. Não é você que vai tirá-la do caminho que ela seguia. Você é que irá sempre para baixo. Não se consegue, por outro meio, formar um círculo de estudantes que criem uma massa crítica, um diálogo comum, uma troca, um intercâmbio. Não é possível fazer isso. Só se consegue através da internet. Nesse sentido, a distância em que estou colocado aqui facilitou as coisas. Nós estamos criando um ambiente intelectual virtual. Eu espero que este ambiente intelectual virtual se torne, com o tempo, um ambiente intelectual real, presencial, isto é, espero que as pessoas se conheçam, contatem umas às outras, criem meios de intercâmbio e, mais tarde, meios de ação cultural sobre o restante da sociedade. Por esses dias um sujeito que passou aqui pelo Seminário me mandou duas mensagens furiosíssimas. Eu só li a primeira (a segunda eu não agüentei ler). Era uma pessoa que não escrevia tão mal; não havia em suas mensagens erros de gramática evidentes. O indivíduo, obviamente, não discutia uma única idéia minha, mas discutia, por exemplo, julgamentos que eu fazia a respeito de pessoas. Num ponto qualquer ele dizia que eu declarei gostar muito dos artigos de polêmica do Nelson Rodrigues e que, num outro artigo que escrevi dez anos antes ou dez anos depois, declarei que o teatro do Nelson Rodrigues havia contribuído para a corrupção geral pelo seu apego às paixões mais baixas, à conduta criminosa etc. Isso entre outras coisas. O sujeito dizia: “Está vendo? Contradição! Contradição!” Ora, é assim que uma criança “pega” contradições. É o menino que diz para o pai: “Se você pode fumar cigarro, por que eu não posso fumar maconha? É uma contradição!” Esse tipo de raciocínio pueril, baseado no simples significado dicionarizado das palavras, é um modo constante de pensar do universitário brasileiro hoje. É um exercício do discernimento crítico no nível mais raso que se pode ter. O sujeito fazia ali tantas confusões que, para desfazer aquilo, levaria tantos anos que eu teria que dá um curso para isso, com pelo menos uma aula sobre cada erro para explicar porque ele estava confundindo diferentes níveis de predicação. Os famosos predicáveis... Você está predicando uma coisa como definição, propriedade, gênero ou acidente? Isso deveria ser uma percepção instintiva que, depois, se transforma num conhecimento refletido quando você estuda Aristóteles e aprende o nome técnico da coisa. Mas, instintivamente o ser humano deveria ser capaz de distinguir entre o que é definir uma coisa e apenas dizer a que gênero de coisa ela pertence. Você predicar uma propriedade dela, um acidente... Por exemplo, um vaso de flores pode conter várias flores: uma rosa, um gerânio ou qualquer outra, o que não vai fazer diferença. Se é um vaso de flor, qualquer flor serve para defini-la enquanto tal. Então comportar qualquer flor é uma propriedade de um vaso de flor, mas, se o vaso cair, isto já será um acidente. Não faz parte da função ou natureza do vaso cair. É justamente o contrário: na hora em que se quebra ele deixa de ser um vaso. Isso é uma coisa que qualquer pessoa deveria perceber à primeira vista. Quando não percebe, mas tem ao mesmo tempo na cabeça a idéia da contradição lógica, a confusão que pode fazer é infinita. Um exemplo: eu acompanho há muito tempo as discussões do Orkut (dou uma lida só de vez em quando; não se pode ler muito essas coisas para não fazer mal à cabeça). Dando uma olhada, eu vejo que oitenta por cento das discussões são coisas desse tipo. Em uma discussão que li recentemente, vi que, por um lado, estavam envolvidas pessoas que até tinham lido bastantes livros e tinham bastantes informações, sobretudo de coisas mais recentes. Através da mídia, o cara lia um noticiário científico, muito Wikipédia na parte científica e estava relativamente informado sobre certas coisas. Mas, ao mesmo tempo, não era capaz de fazer essas distinções elementares de níveis de predicação. Mais adiante, esse sujeito toma um trecho em que digo que na retórica esquerdista há uma série de cacoetes de linguagem que se repetem indefinidamente. Aí ele diz: “Você faz a mesma coisa. Olha aqui como você repete as coisas...” Então ele toma certos termos técnicos que eu uso, como “delírio de onipotência”, que ele não sabe que é um termo técnico. Ele acha que é uma figura de linguagem que eu inventei. “Ah! aquilo aparece quarenta vezes!”, diz ele. Ora, eu estive quarenta vezes falando do mesmo fenômeno psiquiátrico chamado “delírio de onipotência”. Como é que eu devo chamá-lo? Só posso chamá-lo de “delírio de onipotência”. Para ele, aquilo era um cacoete de linguagem. Ele dizia que através do estudo dos cacoetes de linguagem conseguiria discernir as profundidades do meu subconsciente e captar quão maligno e perverso eu sou. Estou dizendo isso por ser significativo. O debate de idéias no Brasil hoje é assim. Depois ele mandou mais uma série. Ele tinha a preocupação de pegar expressões latinas. “Olha aqui um cacoete de linguagem que reflete a sua ideologia. Você usou não sei quantas vezes a expressão tertium non datur”. Esta é uma expressão de lógica. É como o C.Q.D ou Q.E.D (em geometria, o quod erat demonstrandu, “o que queriamos demonstrar”). É uma expressão técnica. O indivíduo não sabia a que estava me referindo quando eu falava de “cacoetes de linguagem indefinidamente repetidos”. Inclusive, para os cacoetes de linguagem funcionarem, é preciso que não fossem cacoetes de “um” autor, mas estivessem disseminados. Quer dizer, eu estou falando de cacoetes que se repetem entre três mil, quatro mil pessoas, e não expressões que um autor em particular volta a usar muitas vezes. Não é possível que ele esteja confundindo as duas coisas, que são fenômenos tão diferentes! Bom... mas vocês pensam que este é o primeiro sujeito que disse essas coisas? Não! Eu já recebi um monte de mensagens desse tipo, que refletem um nível de compreensão médio que é o do estudante brasileiro de hoje. Numa outra mensagem dessa discussão no Orkut, um sujeito fazia uma observação que achei muito interessante. Ele dizia: “Você sempre acha que seus adversários são todos loucos, burros, imbecis etc.” Ora, faça a hipótese de que eles o sejam realmente... Será tão inconcebível? Ou será que eu deveria me considerar um igual ao doutor Emir Sader ao Luís Fernando Veríssimo? [00: 30] Por mais modesto que eu seja, eu não poderia fazer isso. Eu sei o que é um debate intelectual, e sei que essas pessoas estão infinitamente abaixo da possibilidade de participar disso. Então, quando estou debatendo com o John Haskins, eu não sou tão superior à ele. Por mais presunçoso que eu seja, eu não posso ser tão superior a ele, não há essa superioridade. Porém, debatendo com Luís Fernando Veríssimo, a minha superioridade em relação à ele é imensurável, porque estudei algo sobre o que estou falando e ele não estudou nada. Vou discutir com o Arnaldo Jabor? Não é possível mesmo com pessoas de melhor calibre, como o Oliveira da Silva Ferreira, com quem discuti esta semana, o que deverá sair no Diário do Comércio... Ele mostrou um tal desconhecimento do assunto que não dá para se formar uma discussão. Uma discussão pressupõe a posse comum dos dados pelas duas partes. Você tem o mesmo conjunto de dados e está interpretando de maneira diferente e tirando conclusões diferentes. Se há um universo de dados faltantes, não haverá uma discussão de ideias; será um preliminar da discussão de ideias. “Vamos corrigir aqui um universo de dados que você tem e no qual está faltando muita coisa”. Portanto, na minha atuação pública no Brasil, a minha única função é puxar a orelha desses caras e mandá-los estudar. Não vejo que outra coisa fazer. Isso se deve não ao fato de que eu seja um cara muito superior a eles, mas de que eles estejam abaixo daquilo que pretendem ser. Eles estão muito abaixo da ambição que se assinalaram. E, por ora, esse tipo de palpiteiro sonso, metido, arrogante, virou a norma no Brasil. Hoje, isso é a norma culta. A maior parte das pessoas se orienta por essa norma por não ter acesso suficiente a línguas estrangeiras e a material estrangeiro. E, quanto têm, o acesso lhes foi franqueado pela mesma mídia nacional: por exemplo, os comentaristas do NY Times traduzidos pela folha de São Paulo. Então você tem uma situação garantida onde ninguém pode entender nada. Naturalmente, a simples pretensão de conhecer alguma coisa já soa, nesse ambiente, como ofensiva, como se o indivíduo estivesse se transformando num Deus onipotente que julga as pessoas. Admito que neste meio eu possa causar essa impressão. Mas qual é o problema? Isso só vai fazer você se sentir mal, ficar com uma raiva imensa de mim. Que mal você vai poder me fazer? Mandar-me uma carta de 20 laudas, da qual lerei as três primeiras e depois jogarei fora. Mesmo que você publicasse isso em algum jornal, só ia ficar pior pra você. Como já expliquei em outras aulas, vocês têm que considerar esse senso da miséria intelectual brasileira não só no meio externo, mas no meio interno também. Por exemplo, conheço uma coleção de jovens poetas brasileiros, que acho pessoas de muito talento, pois conseguem fazer figuras de linguagem de uma grande força. Porém nenhum tem o senso da musicalidade e nenhum domina a técnica poética. Às vezes, o sujeito não sabe contar as sílabas poéticas nos dedos de uma mão, para ver se o verso está certo. Mesmo se você usa os versos brancos... eles não são tão brancos assim. Se você ler T.S. Elliot, verá que ele faz verso branco em inglês usando disfarçadamente a métrica francesa. O leitor anglo-americano não percebe isso, mas a versificação está lá. Quando conto isso para os americanos, eles quase caem de costas. Eu tive a preocupação de contar as sílabas do Eliot, e, depois de contadas, percebi que ele escreveu em versos brancos e ingleses com versos de dez ou doze sílabas poéticas francesas. Pois, na língua inglesa, conta-se somente as sílabas tônicas (então você tem versos de 3, 4 e 5 sílabas...), ao passo que nas línguas latinas contam-se todas as sílabas. E, se você contar todas as sílabas do Eliot, perceberá que está metrificada. Então tenham cuidado com o verso branco, ele é meio cinzento. Vejo que esse senso de musicalidade falta absolutamente às pessoas. Mas falta o quê? Falta um longo convívio com os grandes poetas. O Bruno Tolentino era um grande poeta porque sabia toda a poesia ocidental de cor. Tempos atrás, eu recomendava às pessoas que ouvissem determinadas músicas tantas vezes até decorá-las. Isso cria uma estrutura na sua memória que depois lhe ajuda quando você reconhece situações que têm algo daquele mesmo sentido melódico e rítmico. Você associa, imediatamente, uma coisa com a outra. Você deve ter na cabeça uma coleção dessas melodias e harmonias para perceber qual é o sentido musical do que está acontecendo. Do mesmo modo, você precisa ver um monte de quadros, estátuas e edifícios para ter as analogias espaciais apropriadas. Sem isso, apenas o talento não é suficiente, sobretudo àqueles que se dedicam à poesia e a literatura. Tudo o que as pessoas estão escrevendo no Brasil hoje é extremamente desagradável e de mal gosto, inclusive a produção dos melhores. As pessoas que ainda têm algo do traquejo de língua utilizam a linguagem jornalística, que é uma linguagem de um só plano de significação e que reflete, não uma tradição literária, mas uma técnica profissional que se aprende dentro da redação ou dentro das escolas jornalísticas. Desse modo, o Diogo Mainardi e o Reinaldo de Azevedo dominam isso. Mas é jornalismo, não é literatura, filosofia. São escritos que, eliminado o contexto imediato que os gerou, não terão mais importância alguma. Continuarão arquivados como documentos históricos para quem quiser conhecer o período, mas, fora isso, são coisas que não dizem nada para quem não está naquela situação. São expressões imediatas de uma situação que se narra e se expõe a si mesma. Nesse sentido, são coisas bem escritas. Isso, hoje, no Brasil, é o máximo que se têm. Literariamente, conheço várias pessoas de talento no Brasil: Yuri Vieira, o poeta Silvério Duque. Mas esse pessoal ainda precisa treinar muito para poder competir com o primeiro livro de poesia do Bruno Tolentino, que o escreveu com dezoito anos de idade, ou com os primeiros versos do Manuel Bandeira. Ou seja, com o que estão fazendo, eles não tem um lugar na história literária. O lugar na história literária é assinalado pela posse e domínio da tradição e dos meios expressivos que ela criou. Essa conquista dos meios expressivos pode dar um trabalho miserável. Há um grande escritor brasileiro chamado Marques Rebelo, cujo sonho era absorver a linguagem cotidiana do carioca – da pessoa comum, dos que se encontravam no cotidiano da rua, inclusive o malandro, o inculto etc. – em formas gramaticais perfeitas. Marques Rebelo não cometia um erro de gramática nem quando falava. Ele colocava todos os pronomes e conjugava todos os verbos corretamente. Quando você lê os livros dele, como Marafra [00:40], A Estrela Sobe e os três volumes da série O espelho partido (que ele tinha programado para ser sete, mas morreu antes de concluí-los, sem que os três volumes publicados deixem de ser uma obra-prima), fica impressionado com a naturalidade da fala dos personagens. Só depois é que você vai perceber que aquilo é a Gramática Portuguesa mais pura e castiça que se pode ter. Imagina quanto tempo o cara se exercitou para fazer isto. Outro caso é o do nosso amigo Heberto Sales, que a cada livro que escrevia impunha-se um novo desafio lingüístico. Então escrevia, por exemplo, Cascalho, que é um livro escrito por inteiro na língua local dos mineradores de uma região do Estado da Bahia. Ele foi lá ouvi-los, fez um glossário, copiou todas as palavras locais que havia (o glossário é do tamanho do livro). Depois ele decidiu escrever um livro no estilo do século XVIII, que é Os Pareceres do Tempo. Depois, um livro em “burocratês”, tomando a linguagem dos burocratas de Brasília, onde ficou anos copiando expressões, palavras etc. Escreveu ainda Einstein, o minigênio com a linguagem dos Burocratas, sobretudo dos burocratas da parte de educação e assistência social. É assim que se faz um escritor. Vocês viram os exercícios de estilo que fazia o Graciliano Ramos, que tinha a forma estilística mais simples do mundo, cujo propósito, não sendo tão desafiador como os desses dois escritores, era simplesmente dizer as coisas da maneira mais clara, com o mínimo de palavras e com as sentenças mais curtas possíveis. Na primeira edição do livro Memórias do Cárcere, publicaram fac-similes dos manuscritos de algumas páginas. Primeiro do manuscrito, depois do manuscrito datilografado, ambos com as correções que ele fazia. Ele tentava cinco palavras para cada palavra que escrevia. Escrevia a primeira, riscava, escrevia a segunda, riscava, escrevia a terceira, riscava, e na quinta ele acertava. Depois de ter feito isso no seu próprio manuscrito, mandava datilografar. Datilografado aquilo, ele fazia tudo de novo, e é por isso que dava certo. Quem faz isso hoje em dia? É claro que em artigos de jornal você não vai fazer isso, chegar a esse nível de cuidado. Porém, no livro O Jardim das Aflições, eu fiz a mesma coisa. O livro está bem caprichado, bem arrumado até onde me era possível, pois com meus parcos recursos nem de longe me considero um escritor à altura desses que citei. Eu sou um escritor técnico de Filosofia. Acho que, tecnicamente, sou um expositor filosófico até melhor que o Mário; domino a técnica expositiva melhor que ele. Mas, na verdade, não o sei, porque tudo que o Mário fez foram gravações tornadas quatro ou cinco livros por ano. Nós nunca vamos saber o que seria um livro escrito pelo Mário Ferreira. Esses cuidados – essa coisa obsessiva com a forma, de desenvolver o ouvido, comparar o que você escreve com o que Fernando Pessoa, Antero de Quental, Camões, Manuel Bandeira escreveram –, essa preocupação eu não vejo mais hoje, e, sem isso, evidentemente não há literatura. É porque tem esses cuidados que a obra literária ultrapassa o interesse imediato do seu período histórico. Porque, como dizia o grande crítico polonês Roman Ingarden, uma obra de arte é como uma cebola, que se compõe de várias camadas. Em primeiro lugar, há uma camada sonora. Em cima dessa, tem-se uma camada de coisas a que esses sons se referem e que são imaginadas como se fossem um segundo andar, em cima da camada sonora. Depois, tem-se um terceiro extrato, que são os enredos, os dramas que estão sendo narrados, e assim por diante. Na primeira vez em que lê, você passa por cima da camada sonora e vai direto ao mundo do enredo, das coisas referidas etc. Mas quando mais tarde você lê com atenção, começa a ver a relação entre uma coisa e outra. Verá como aquele mundo de imagens e idéias só se pôde construir graças à coerência da camada sonora que estava embaixo. Se você contasse as mesmas coisas com outros sons não funcionaria, e este é um dos grandes problemas da tradução, porque a ordem das referências continuará a mesma, mas os sons não serão os mesmos. Então, será preciso criar equivalentes, e isso é um problema terrível. Esse nível de sensibilidade para a linguagem ninguém mais tem no Brasil, e só quem poderá preservar isso são vocês. Isso não vai ser ensinado em nenhuma faculdade de Letras, não será discutido em nenhuma revista cultural, mesmo porque as pessoas que escrevem em revista cultural, em geral, escrevem mal. No Jornalismo brasileiro, eu só vejo um camarada cujo escrita chega a ter um valor literário (alguma coisa que valerá a pena ler quando a situação tiver passado), que é o João Pereira Coutinho, um português. Fora isso, não sobra nada. Agora, quando se pega um jornal dos anos 50 e 60, vê-se a diferença. Não se pode esquecer que tudo o que coletei do Otto Maria Carpeux, Os Ensaios Reunidos, eram artigos de jornal. Ele não os publicou em revistas acadêmicas, mas em artigos de jornal. Agora imagine um artigo do Otto Maria Carpeux na Folha de São Paulo de hoje em dia. Nem o tamanho é admitido. Os jornais foram encurtando seus textos, partindo do princípio de que se está imprimindo algo para gente que não quer ler. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ O senso da miséria do meio ambiente tem que ser permanente em você; deve-se lembrar disso 24 horas por dia. É melhor ficar no vazio, sem referência durante um tempo e sentir-se completamente perdido do que se agarrar a essa referência local apenas para ter segurança ou para se sentir igual a todo mundo ou para sentir-se dotado de comunicabilidade. Na verdade, o nível de comunicabilidade desses textos hoje publicados é mínimo, porque eles também não se entendem uns aos outros – não há como entender. Quando não se entendem umas às outras, o que as pessoas fazem? Elas se inventam. Se você não entendeu o que o sujeito disse, você o inventa e discute com o que inventou. Isso é fenômeno geral na mídia e debate "cultural" brasileiros hoje em dia. Você não responde ao que outro sujeito disse; responde ao que gostaria que ele tivesse dito, para que assim lhe seja mais fácil responder. Em suma, isso tudo é uma conversa de criança. Também é absolutamente necessário que vocês entendam que o papel que lhes está reservado na cultura brasileira não é, de maneira alguma, o de participar de conversa ao nível do que se faz hoje. Vocês não vão disputar os lugares dessas pessoas, vocês irão criar outras funções. Ortega Y Gasset dizia o seguinte: "Gênio é aquele sujeito que inventa sua própria profissão". Nesse sentido, vocês terão que ser gênios, ou seja, terão que inventar meios de atuação que sejam completamente diferentes dos hoje correntes. Você não tem que se amoldar a absolutamente nada do presente estado de coisas. [00:50:03] Eu tenho um amigo, o Antônio Donato, que ficou anos estudando filosofia escolástica e traduziu os Comentários de Santo Tomás de Aquino a Aristóteles. Quando estava na Faculdade de Educação, ele decidiu fazer uma tese de mestrado chamada A Educação segundo a Filosofia Perene, isto é, segundo a escolástica, especialmente Santo Tomás de Aquino. Ele fez uma tese de mil páginas com uma bibliografia de trezentas, quando uma tese de mestrado possui em média 80 ou 90 páginas, não passando de 150. Ele colocou aquele tijolo na frente dos professores, que ficaram aterrorizados e o aprovaram sem ler o trabalho. Eles não tinham condição de julgar aquilo; precisariam de uma vida inteira de estudos para fazê-lo. Assim, por via das dúvidas, aprovaram sentindo-se esmagados. É isso que vocês devem fazer. Não devem fazer alguma coisa que seja compreendida dentro desse meio. Na verdade, terá que ser compreendida por outras pessoas como vocês que existirão no futuro. Nós temos que criar nosso próprio diálogo, um que vá parar infinitamente acima das cabeças dessas pessoas. Não se deve entrar em campo para discutir com elas. Claro: você pode denunciá-las de vez em quando, mas isso não deve ser a sua principal preocupação. Tem-se é que criar um outro debate intelectual em cima desse, de modo que pelo simples peso do que você está falando o de baixo acabe cedendo. Se qualquer um de vocês se colocar em julgamento pelos critérios presentes do estabilishment cultural, estará lascado. Você tentará se adequar a eles, fazendo mais ou menos o que estão fazendo, só que um pouco melhorado. Mas é o seguinte: para que uma coisa seja melhorada é preciso que a raiz do que é bom esteja nela. Essa condição hoje não se cumpre absolutamente. Não há nada a ser melhorado no presente debate cultural brasileiro. Você tem que fazer outra coisa, completamente diferente. Inclusive, as relações entre esse debate cultural e a política têm que ser muitos diferentes do que são hoje. Hoje em dia, qualquer sujeito que abra a boca na mídia brasileira já representa determinado grupo político, se identifica com aquilo. Esses grupos são bastantes afins, são muitos parecidos uns com os outros, não têm grandes diferenças. Já nós não temos que representar grupo político nenhum. Ao contrário: para tudo que fizermos poderão aparecer grupos políticos mais tarde. Inspirar uma classe política futura é uma de suas funções (inspirá-la, não representá-la). O sujeito que representa e fala em nome de um grupo político, expõe e defende mais bravamente ou menos bravamente as opiniões daquele grupo político, não está desempenhando uma função intelectual; está, sim, desempenhando uma função publicitária. Isso, no Brasil de hoje, infelizmente se confunde com atividade intelectual. Nesse sentido, todos os defensores de idéias petistas ou de idéias liberais são apenas publicitárias com contribuições intelectuais nulas. O que estão fazendo é a arte de argumentar, a arte de tentar persuadir. Não nego que isso tenha sua importância, que deva haver pessoas que façam isso. Mas isso, definitivamente, não é a nossa função aqui. Veja que, historicamente, mesmo dentro da esquerda, os grandes intelectuais jamais fizeram isso. Você não vai ver o Georg Lukács ou o pessoal da Escola de Frankfurt defendendo idéias comunistas. Para isso há jornalistas, polemistas, um monte de gente capaz de baixar o nível dessas discussões até o de um público semi-letrado. Georg Lukács, por exemplo, é dificílimo de ler; numa discussão em jornal não convenceria ninguém. Mas ele está desempenhando a função verdadeiramente intelectual; entre outras coisas, ele gera a possibilidade de uma política. Essa é uma das funções que devemos de ter. Se, por urgência ou por compromissos profissionais assumidos – como é o meu próprio caso, porque, afinal de contas, fui jornalista por profissão por muito tempo –, você é obrigado a tomar partido de uma determinada questão pública, você imediatamente será lido como representante de uma facção ou grupo. Naturalmente, atribuirão a você todas aquelas idéias que, inimigos, imaginam que aquele grupo tem e responderão nesse nível. Isso aí se torna o que um amigo meu chama de "diálogo de abismos". Ninguém entende absolutamente nada. Depois, quando, eventualmente, você escreve algo que difere das idéias correntes daquele grupo que as pessoas imaginavam que você representava, os membros do grupo ficam escandalizados com você. Aí se mostra o total despreparo nacional para o que se chamaria de debate de idéias mesmo em nível puramente jornalístico. Também não pensem que adquirindo uma referência estrangeira vocês poderão se curar disso. Por exemplo, vejo pessoas que vão estudar nos Estados Unidos. O sujeito, então, entra numa universidade, no Heritage Foudation, no Cato Institute; absorve todos aqueles cacoetes mentais de um grupo americano (grupo o qual está discutindo dentro de um contexto americano) e volta para o Brasil fazendo uma versão nacional daquilo: Rodrigo Constantino e a maioria do pessoal do Ordem Livre estão fazendo isso. De modo que uma coisa pode ser politicamente útil, mas não tem nada ver com o que nós estamos querendo fazer aqui. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ Pelo nível das perguntas que me chegam, vejo que vocês estão infinitamente acima disso. Talvez não tenham ainda a expressividade verbal formalizada e dominada para poder participar de um debate público, mas intelectualmente já estão bastante acima disso. Isso é uma primeira observação, complementando uma série de outras que já fiz. Agora passo a uma segunda observação. Andei falando algumas coisas sobre ciência e desejaria complementar também. Esta semana, comprei uma série de conferências da empresa Great Courses; são aulas muito bem dadas, para as quais chamam os melhores professores que há na área. Estava assistindo a uma conferência de um cidadão chamada Schumacher (não é o piloto de automóveis, é um físico) sobre mecânica quântica. Ora, mecânica quântica é uma das conquistas mais respeitáveis do mundo científico, porque dificilmente houve uma teoria que fosse tão abundantemente confirmada experimentalmente quanto a mecânica quântica. Por exemplo, aqui se tem uma partícula. Com acerto estatístico de 78%, 80 % ou 90%, os caras dizem que a partícula irá se mover – e ela o fará. Você poderá observar aquilo milhares de vezes e verá que a constância estatística existe mesmo. [01:00] Mas, depois de explicar aquelas coisas todas, o Professor Schumacher diz: "Olha, nós só temos uma dúvida, ainda não foi resolvida, quanto ao significado disto". Existem três hipóteses. A primeira é que a teoria quântica só pode averiguar possibilidades ou probabilidades. Nós podemos medir todas as probabilidades, mas não podemos saber nada mais além disto. Segunda hipótese: por trás de toda esta rede de probabilidades, que a gente mede e descreve tão bem, existe uma regularidade ou lei totalmente desconhecida. Terceira hipótese: a possibilidade de que existam mundos paralelos, ou seja, de que as partículas e os quanta de energia se comportem assim ou assado porque existem diferentes blocos de leis heterogêneas e incompatíveis que estão funcionando ao mesmo tempo. Se você tem essas três possibilidades, você não sabe absolutamente nada. Tomando o conjunto da mecânica quântica, podemos dizer que tudo isso funciona, mas não sabemos o que é isso. A mecânica quântica tem 100 anos de idade... Em que sentido você pode chamar de conhecimento a medição e descrição perfeita de um fenômeno que você não sabe o que é, não sabe o que significa e não sabe no que se fundamenta, e se você está tão em dúvida quanto a isso que admite a hipótese de (a) jamais saber, (b) de haver uma coerência por baixo daquilo ou (c) de haver uma total incoerência? Da coerência à total incoerência, você percorreu toda gama de possibilidades que existem. Ou seja: pode ser qualquer coisa, e, para além, quaisquer coisas. Isto é o que chamo de problema cognitivo, não de conhecimento. Nesse sentido, primeiro é preciso entender que a mecânica quântica é a coisa mais perfeita que se fez em ciência. Não tem nada que se pareça com isto. Dificilmente um grupo de cientistas conseguiu acertar tanto e tão comprovadamente. Não foi apenas uma pessoa; muita gente trabalhou nisto. Segundo, que, além de ter feito estas descrições, eles conseguem extrapolar estas medições para outros campos do conhecimento mediante analogia. Por exemplo, existe uma mecânica quântica da informação, que permite prever a circulação da informação desta ou daquela maneira. Mas se você perguntar: por que pode? Qual é o fundamento? O que significa? “Ah, isso aí não sabemos mais...” Se chamarmos de conhecimento uma forma de saber que se dirige no sentido de uma descrição cada vez mais exata de processos que ela não compreende, estaremos admitindo que só podemos conhecer o que nós não compreendemos ou que só há conhecimento quando não se compreende. Se você adotar isto como a modalidade de conhecimento normativa mais perfeita que deve servir de modelo para as outras, então a incompreensão, a falta de significado, passa a ser o parâmetro supremo do conhecimento. Ora, mas esta falta de significado e de compreensão não impede a aplicabilidade disso em uma infinidade de ramos e, portanto, a geração de fatos histórico-sociais que serão ainda menos compreensíveis do que a teoria incompreensível no qual foram baseados. Aluno: Como você pode ter conhecimento de algo que você não conhece? Olavo: Não, você pode ter de algo que você não compreende. O conhecimento de aquilo que você não compreende é aquilo que chamamos de problema. Não é que a mecânica quântica não conheça: ela conhece, mas não compreende o que tem debaixo disto. Não compreende o sentido, o alcance, o significado e a razão. Não há razão para as coisas serem assim. Qual a razão disto? Há três razões possíveis: (a) existe uma razão que não podemos conhecer; (b) existe uma razão que nós teoricamente poderíamos conhecer e que explicaria tudo ao mesmo tempo, mas que nós não possuímos ainda – uma lei geral por baixo de uma infinidade de fenômenos, mas que ainda não existe, é uma suposição; e (c) existe uma coleção de leis gerais incompatíveis e heterogêneas. Se podemos ter desde uma lei geral que explica tudo até uma multidão de leis cuja coexistência seria ainda mais incompreensível do que o próprio fenômeno, então não sabemos nada. Sabemos apenas manejar aquilo, como um macaco que você ensinou a dirigir um automóvel. Ele pode aprender a dirigir, mas não pode saber o que é um automóvel. Se colocarmos isto como o supra-sumo da ciência, como o topo do conhecimento humano, então significa que não entender nada é o grande ideal. Se isto se passa com a mecânica quântica, imagine o quanto se passa com a climatologia ou com a biologia evolucionária, e assim por diante. Isto quer dizer que o conjunto de procedimentos que nós hoje denominamos de ciência não pode ter esse nome de jeito nenhum. Isto é a preliminar da ciência, é uma possibilidade de ciência, não é uma ciência realizada. A não ser que nós adotemos o próprio nome conhecimento no sentido da incompreensão. Quando eu digo que a conclusão destas investigações quânticas é a formulação de um problema, notem que na mecânica quântica ainda temos a vantagem de que este problema está formulado em três alternativas, embora cada uma destas não seja clara em si mesma de maneira alguma. Se você disser que não podemos encontrar uma explicação, que temos que nos contentar com as medições de probabilidades – se você perguntar: por que que não podemos encontrar explicação? Qual é a impossibilidade? E qual é o fundamento desta impossibilidade? Esta impossibilidade repousa na própria natureza do fenômeno, que é aleatório e incompreensível em si mesmo, que é mensurável, mas não compreensível, ou repousa em uma incapacidade nossa, permanente, ou numa incapacidade inerente ao próprio método científico? Então vemos que a primeira hipótese se desdobrou já em três. A mesma coisa acontece com as outras duas. Cada uma destas três hipóteses levantadas para explicar os fenômenos quânticos por sua vez se desdobra em outras quantas. Eu pus três por caridade, mas eu poderia subdividir e isto não acabava mais. Depois de 100 anos de mecânica quântica o que temos é uma técnica de mensuração e descrição que não permite sequer formular claramente o problema que ela enuncia, porque o máximo que você consegue é chegar a estas três hipóteses. A divisão em três está clara, mas cada uma das hipóteses não esta clara de maneira alguma. Sendo assim, fica claro que a confiança que a sociedade atual tem em algo que ela chama de “ciência” é mais um fetiche que outra coisa, porque você não encontra nesta ciência, em nenhuma parte, aquele conforto intelectual que você obtém quando você entendeu alguma coisa. [1:10] Por outro lado, você falar em “limites do conhecimento cientifico” é uma expressão que não significa grande coisa, porque o conhecimento cientifico tal como formulado na Idade Moderna é uma limitação do conhecimento. Dizer que uma limitação tem limite é não dizer nada. “Aqui temos os limites do conhecimento cientifico, para lá temos que ter outro negócio...” Isso não diz nada. Muitas vezes, o pessoal que quer argumentar em favor da religião usa a noção dos limites do conhecimento cientifico. O conhecimento cientifico no sentido moderno do termo começa quando você limita (a) os fenômenos a serem estudados, (b) o campo de manifestação no qual eles serão estudados, (c) as perguntas que você pode fazer, (d) os métodos que você vai usar e, por fim, (e) as conclusões que você pode tirar. É a limitação progressiva de tudo isto que constitui uma ciência. No começo imagina-se que a delimitação do campo das ciências corresponda a divisões objetivas na estrutura da realidade. Por exemplo, no século 19, quando Willhelm Dilthey, Windelband, Rickert e outros definiram as ciências humanas, eles acreditavam que existe uma divisão objetiva entre um campo chamado natureza física e um campo chamado história humana. Nós não sabemos se existe esta divisão, mas eles partiram do principio de que existia. Eles acreditaram que havia uma divisão objetiva, que a divisão das disciplinas em ciências naturais e ciências humanas (ou “ciências do espírito”, como preferiam chamar) correspondia a uma divisão objetiva dentro da própria estrutura da realidade. Nós até hoje não sabemos se é assim, porque não há nenhuma ciência que estude as divisões da estrutura objetiva da realidade. Esta ciência seria a ontologia ou teoria geral do ser. Como a ontologia não pode ser praticada pelos próprios métodos da ciência que estão pressupondo uma ontologia prévia, ela fica retirada do mundo da ciência e se torna um treco chamado filosofia, que é praticado em outra faculdade. Mas, ao mesmo tempo, como a ciência, pela exatidão dos seus resultados e pela aplicabilidade técnica, é colocada como o supra-sumo do conhecimento, este é baseado em pressupostos extraídos de uma ciência inferior, que seria a ontologia. Quer dizer, o próprio fundamento daquilo que você esta fazendo é desprezado pela própria atividade que ele fundamenta. Isto é uma situação altamente vexaminosa. É uma confissão de irracionalidade completa. Edmund Husserl fez um esforço monstruoso para que a divisão dos sistemas das ciências correspondesse às divisões internas do ser, que ele chamava de ontologias regionais. Se é possível existir uma coisa como, por exemplo, a zoologia ou a geologia, é porque existe dentro da totalidade do ser uma categoria específica de objetos que tem unidade e tem referência a princípios comuns suficientes para que você a possa estudar separadamente de outros entes que constituem o domínio de uma outra ciência. Porém, essa mesma divisão não é cientifica no sentido das ciências experimentais. Então o fundamento das nossas certezas são as ciências experimentais, mas ao mesmo tempo estas, para fazerem algum sentido, se assentam num fundamento que não podem comprovar e que não aceitam como cientifico. Seria então um fundamento de crença, de fé, de arbitrariedade, de criação ou de especulação cultural. Assim, ficamos sempre na situação do Max Weber, que dizia que a ciência se torna racional a partir de uma decisão inicial irracional. Por exemplo, a escolha do tema que você vai estudar. Você não pode justificar objetivamente este tema, pois ele só passa a existir como tal a partir do momento em que você o escolheu. Então, daí em diante, o estudo segue os tramites racionais da ciência. Mas a decisão inicial é baseada em valores, e estes valores são pessoais. Claro que isso é um círculo vicioso de alguma maneira, pois o que lhe garante que a irracionalidade da escolha inicial não se transmite às últimas conclusões que você vai tirar? Se eu decidir estudar as semelhanças entre a minha vida e a vida de Alexandre, o Grande, eu certamente irei encontrá-las. Mas por que escolhi isto? Porque eu gostaria de ser Alexandre, o Grande. Então eu olho só as semelhanças. No fim irei chegar a alguma coisa totalmente delirante. Eu não tenho a menor dúvida de que muitos estudos científicos hoje de fato são assim. Não vejo nenhuma possibilidade de remediar o estado de coisas senão tendo uma ontologia decente. O que é uma ontologia? É o estudo da estrutura da realidade. E aqui partimos para o terceiro complemento que eu queria fazer. Por mais que a busca do conhecimento seja uma atividade coletiva, que implica várias pessoas, intercâmbio etc., o detentor do conhecimento é sempre o indivíduo humano concreto. Na educação se comprova isto. Quando você dá uma aula, você pode dizer que a classe aprendeu algo, sem que nenhum dos indivíduos que a componha aprendeu o que quer que seja? Não, mas é possível que você dê uma aula para uma classe inteira e apenas um indivíduo entenda e os outros não entendam nada. Isto mostra que em última análise o portador do conhecimento tem que ser um sujeito individual e concreto: “aquele fulano sabe tal e qual coisa”. Se o conhecimento estiver apenas disseminado em um grupo de tal maneira que ninguém o possua, então não é um conhecimento, é uma ignorância disseminada. O sujeito ativo do conhecimento continua sendo o indivíduo que conhece. Todas as descobertas científicas ou filosóficas, ou criações artísticas, são feitas sempre por um sujeito, e só depois os outros tomam conhecimento disso. Eu acho muito engraçado estes camaradas que dizem que as criações artísticas, as obras de gênio, surgem do fundo comum da sociedade humana etc. Nunca vi a sociedade fazer nenhuma descoberta cientifica. A Alemanha inteira descobriu a teoria da relatividade e foi lá contar para Einstein – e ele foi o último a saber... Isso nunca aconteceu: quando ele estava pensando aquele negócio, ninguém mais sabia daquilo; depois, quando chegou a algumas conclusões expressáveis, ele contou para os outros, e alguns disseram que sim, outros que não. O fato é que aquilo apareceu primeiro para uma consciência individual e depois para os outros. Por mais que o problema estivesse latente no meio cultural, quem teve que elaborar primeiro foi o indivíduo. [1:20] Do mesmo modo, se você vai fazer um edifício, deve haver uma pessoa que tenha a idéia da estrutura geral e a desenhe e planeje de alguma maneira. Depois os outros irão juntando materiais naquela ordem. Ou você acha que é ao contrario: as pessoas vão juntando pedras a esmo e, daqui a pouco, dizem: “Olha, saiu aqui a catedral de Notre Dame. Vamos informar o arquiteto”. Isto nunca aconteceu. O centro do problema do conhecimento é a consciência individual que busca o conhecimento. E, se é assim, nós entendemos que o conhecimento que se constitui de medições verificáveis por toda uma comunidade, e que é baseado numa limitação inicial do campo que é aceita convencionalmente por toda esta coletividade, jamais poderá ser modelo de conhecimento – em hipótese alguma. Os campos que são estudados pelas várias ciênciast são todos obtidos através de recortes, que no início a própria ciência não pode verificar e que, a rigor, jamais poderão ser verificados de maneira alguma, pois tudo que a ciência faz já está baseado nestes recortes e não pode sair fora deles. A partir do momento em que você delimitou o campo de uma ciência e assentou um conjunto de métodos que são aceitáveis, respeitáveis e consensuais para o estudo daquela coisa, você jamais pode retroagir sobre os fundamentos desta ciência e colocá-los em discussão pelos mesmos métodos desta ciência. Você teria que sair do campo dela e ficar em aberto. Quando uma ciência entra em crise, é exatamente isto que acontece. Os seus fundamentos foram postos à prova de tal modo que ela mesma não pode reconstruir estes fundamentos. Então você vai ter que buscar apoio na consciência humana geral. Aí voltam a surgir os famosos problemas filosóficos. É por isso mesmo que anos atrás defini ciência como a estabilização provisória de certos problemas filosóficos que, para fins práticos, podem continuar, durante algum tempo, sendo estudados por métodos fixos e consensuais até que isso cause uma crise e a ciência seja obrigada a rever os seus próprios fundamentos. Isto quer dizer que toda a idéia que fundamenta a história da ciência moderna – a de que a ciências se tornaram independente da filosofia – é uma farsa. Aluno: Não tem ciência sem filosofia? Olavo: Isso nunca aconteceu. Simplesmente não aconteceu. A ciência é apenas uma estabilização provisória. A idéia de uma ciência que jamais entrasse em crise dependeria de que aquele recorte inicial fosse absolutamente certo e que jamais chegasse a contradições. Mas é impossível porque este recorte não é baseado na estrutura objetiva da realidade, não é baseado nas ontologias regionais, como dizia Husserl, mas é baseado no conhecimento que se tem disso dentro de certa comunidade em certa época. É um fator coletivo, porém subjetivo, que determina este recorte. A hipótese de uma ciência que prossiga indefinidamente as suas investigações sempre coerentes pelos mesmos métodos, chegando a resultados que podem ser harmonicamente acumulados e articulados uns aos outros formando uma teoria geral – isto é utópico, nunca aconteceu e nunca vai acontecer. Seria como ganhar na loteria: não é todo dia que acontece. Poderia até acontecer, mas nunca aconteceu. Tanto que a ciência mais perfeita, que é a física, tomada na sua manifestação mais alta e mais perfeita que é a mecânica quântica, vive hoje em permanente crise de fundamentos, pois ela sabe que ela não tem fundamento nenhum. Se a ciência está sem fundamento, voltam os problemas filosóficos. A filosofia não é nada mais do que uma reflexão racional sobre o conjunto da experiência acessível, no qual se inclui evidentemente aquelas experiências recortadas pelos cientistas e que compõe as matérias respectivas das varias ciências. Mas inclui muito mais do que isso, inclusive abrange também o conjunto total de dentro do qual aquele campo especifico foi recortado. E inclui os motivos culturais, psicológicos, arbitrários, valorativos etc. que determinaram essa escolha inicial. Se você determinar que a experimentação cientifica é o único critério definitivamente válido para qualquer ciência, então você exclui a possibilidade de que qualquer ciência cuja estrutura e cujo objetivo não seja estudar regularidades repetíveis venha algum dia a ter validade cientifica. Isso inclui todas as ciências que são de ordem histórica, como, por exemplo, a famosa historia natural, a história do cosmos. Nós não podemos submeter a história do cosmos a teste. Ou – outro exemplo – a biologia evolutiva. Nós não podemos submeter a evolução a testes. Então você vai ter que se basear em dados que não são obtidos por experiências cientificas, mas dados que simplesmente foram tirados do contexto da factualidade observada. Acontece que a factualidade observada é por definição em quantidade inabarcável. Isso quer dizer que qualquer massa de fatos que você colha para comprovar uma teoria não pode ser submetida a testes reversos. E, não podendo, jamais vai provar nada. Por quê? Vamos supor que você coletou três bilhões de fatos que comprovam uma teoria geral que você inventou. Eu digo: “Você coletou também três bilhões de fatos contrários?” “Ah não, não deu tempo”. Nunca vai dar tempo. É por isso que coisas como teoria da evolução ou design inteligente jamais serão provadas nem impugnadas por estes métodos. Podem ser provadas ou impugnadas por outros métodos, mas supondo uma ontologia. É por isto que o debate de teoria da evolução e design inteligente é inteiramente absurdo. Em primeiro lugar, você teoria que provar que as duas hipóteses se excluem mutuamente. É possível isso? Se você prova que por trás de tudo que existe no mundo físico há uma coerência, um plano inicial, uma intencionalidade, você pode provar que isso exclui a hipótese de que dentro desse plano aconteça a evolução animal? Não. E se você provou a evolução animal, somou tudo, você pode provar que ela é absolutamente aleatória e irracional? Pode a ciência provar a irracionalidade da sua própria teoria? A arbitrariedade da sua própria teoria? Não tem jeito de fazer isto. [1:30] E se você provasse que foi tudo arbitrário? Você provou. Mas você pode provar que esse “arbitrário” não foi intencional? Planejado é uma coisa, intencional é outra. “Deus planejou fazer tudo caoticamente” – não pode ser essa hipótese. Então não sei o que as pessoas estão discutindo, simplesmente não entendo. Sei que, quando li A Origem das Espécies pela primeira vez, percebi que ao final Charles Darwin formulava a teoria do design inteligente para explicar tudo aquilo. Hoje em dia, os que se dizem discípulos de Darwin são os que mais combatem o design inteligente e não dizem sequer que estão tomando partido de uma parte da teoria de Darwin contra outra parte da mesma. Isso aqui é o debate que se dá nas mais altas esferas no Brasil; claro que é de baixo nível, que é conversa de louco! Não que não tenha a sua importância cultural pelo menos como sintoma da época em que nós estamos. Eu, quando confesso e examino esse problema de todos os lados, não vejo nem como equacioná-lo nem como formulá-lo; de todas as maneiras que tento, vejo alguma contradição lá dentro (não no sentido em que aquele idiota disse, mas como contradição efetiva, objetiva, real). Talvez o burro seja eu, talvez seja eu que não consiga acompanhá-lo; talvez haja uma limitação do meu cérebro e no debate esteja tudo claro, tudo certo e eu é que não estou entendendo nada. Mas, até o momento, sou obrigado a dizer que não estou entendendo do que eles estão falando e acho que não estão falando de nada. Para provar que a teoria da evolução não aconteceu, não adianta apelar para o design inteligente; você tem que mostrar que as espécies animais são fixas. É possível provar isso? Claro que não, assim como você não pode provar que elas evoluíram. Pode-se apenas acumular indícios em favor de uma coisa, como você encontrará indícios em favor da outra! Por exemplo, todos os animais evoluíram, menos a barata. As baratas encontradas nos extratos geológicos mais profundos são iguais às baratas de hoje. Mas, se existe um princípio geral que é o próprio fundamento dos seres vivos (a evolução), por que raios especificamente este ser desprezível permaneceu indiferente a isso? Eu não vejo nenhuma possibilidade de provar a teoria da evolução sem se explicar por que às vezes ela não aconteceu. Mas, se ela é um princípio geral, tem que ter acontecido. Então não está havendo uma diferenciação clara entre o que é um princípio geral e o que é um mero acúmulo estatístico de fatores. Acúmulo estatístico, por mais que você some, nunca vai dar um princípio geral. Outra coisa que eu nunca entendi é a afirmação – como feita por Richard Dawkins – de que existem mudanças aleatórias que acontecem simplesmente porque sim, em cima delas operando a seleção natural. Ou seja, houve vinte mudanças e uma deu certo, ou vinte mil e uma deu certo. Mas o que quer dizer “dar certo”? Por exemplo, como pode ser tido como um sucesso um órgão em formação que já não serve para suas funções antigas e ainda não serve para suas funções futuras? Para ser um sucesso, é necessário que este semi-órgão desempenhasse imediatamente alguma função útil, independentemente das suas transformações subseqüentes. Então teria sido necessário que se acumulassem mudanças aleatórias num número infinito seguidas da formação de um órgão que, já não servindo para suas funções anteriores e nem para as futuras, desempenhasse uma terceira função num ambiente imediato. Só que depois haveriam mutações em série. Imagine quantas mudanças do ambiente seriam necessárias para que todos estes semi-órgãos, no decurso da sua formação, encontrassem a cada vez uma nova utilidade que os tornassem um sucesso. Por exemplo, há aqui um bicho que tinha nadadeiras, as quais começam a encolher para virar patas. Já não é uma nadadeira e ainda não é uma pata. É uma nada-pata. O bicho fica lá agitando suas nada-patas e aquilo é de uma utilidade tão extraordinária que você diz: “Essa espécie animal é um sucesso!” Quer dizer, a noção da seleção do mais apto, a noção do sucesso, para mim virou apenas um flatus vocis, não quer dizer nada. Está aí um problema que eu gostaria que os biólogos-evolucionistas esclarecessem: como órgãos em formação podem ser um sucesso? A mim me parece o contrário: representariam uma grave inadaptação de um bicho que não consegue desempenhar nem suas funções anteriores e nem as subseqüentes. E isso, muito provavelmente, o condenaria à extinção. A hipótese de que todas essas mutações que resultaram “na formação” de uma espécie X fossem sucessos é o que chamo de uma história de sucesso! Porque qualquer mudança que o bicho sofre sempre serve para alguma coisa. Mas, se toda mudança serve para alguma coisa, então qual a diferença entre as mudanças bem sucedidas e as mal sucedidas? O quadro intelectual dessa coisa toda é uma mixórdia. Eu entendo pouco de biologia evolutiva, mas alguma coisa de lógica eu entendo. E sei que uma teoria, para merecer ser discutida, ela pelo menos tem que ter uma estrutura lógica internamente coerente. Não vejo que essa condição se cumpra nem sei como se pode opor a isto a teoria do design inteligente. Este teria sido tão inteligente que tudo já estava resolvido desde o começo e todas as espécies já vieram prontinhas e certas, o que não é possível, porque houve espécies extintas. É o mesmo que dizer que o design inteligente não foi tão inteligente assim ou foi inteligente na sua estrutura geral, mas destinado a realizar-se através de uma série inumerável de fracassos. Se houve essa série inumerável de fracassos, a tradução material da inteligência divina não poderia ser tão perfeita quanto a inteligência divina em si mesma. Na verdade seria até metafisicamente impossível, porque se está falando de um mundo material e finito, que pelo simples fatos de ser finito já tem uma limitação que o torna inferior à inteligência infinita que o criou. Isso quer dizer que você jamais poderá provar que o design foi totalmente inteligente, porque elementos de ininteligência e de absurdidade têm de estar presentes na estrutura do cosmos, se não ele seria tão perfeito quanto à inteligência divina mesma. Aí você teria um deus material, como o de Teilhard de Chardin. As duas teorias chegam à absurdidade. [1:40] Eu estaria disposto a ceder e dizer que aconteceu um pouquinho de uma e um pouquinho da outra, mas como princípio geral nenhuma explica nada. Isto é para lhes dar idéia do estado de crise em que está a alta inteligência contemporânea da humanidade toda. Aluno: Da humanidade toda? Olado: Da humanidade toda. Aluno: Então não é só o Brasil que está ruim? Olavo: O problema do Brasil é outro. Uma coisa é falar em crise da ciência. Outra é falar de ignorância total e inépcia total. De certo modo o Brasil é preservado desse debate, porque isso tudo só aparece lá através de pessoas como Hélio Schwartsman, Frei Betto, Leonardo Boff etc. Você não vai fazer disso aí o grande debate científico contemporâneo... Aluno: O fato de simplesmente deixar o Brasil não significa que você vai conseguir compreender melhor a estrutura da realidade? Olavo: É claro que não. Você pode estudar em Oxford. Quanto idiota já não voltou com diploma de Oxford para o Brasil? Aliás, acho que os piores voltaram com diploma de Oxford, de Cambridge, do MIT, excetuando-se aqueles que estudaram uma área muito específica, entre os quais se encontram sempre algumas capacidades brilhantes. Outro dia mesmo ouvi uma entrevista de um climatologista falando sobre aquecimento global. Fiquei impressionado com o conhecimento do cara! Clareza, solidez, seriedade: tem esses tipos no Brasil, claro. Essas vocações científicas têm essa peculiaridade: o sujeito é fanático por aquilo. Mesmo que ele esteja no pior ambiente intelectual do mundo, ele não abandona aquilo nunca; assim, algo ele acaba sabendo. Você também não pode esquecer que o camarada da área de ciências exatas ou naturais tem certo orgulho profissional, que é ditado, no fundo, pela confiança que ele tem no ideal de ciência, que sempre existe, ainda que não se realize. É esse ideal que norteia todos seus esforços. Um pouco disso sempre se conserva vivo na alma humana do praticante de ciência, mesmo nas piores condições intelectuais possíveis. Quando eu falo da passagem do estudante da miséria brasileira para o topo da discussão intelectual, ele precisa ver que, hoje, em algumas áreas dessa discussão ele só vai encontrar confusão. Ele não vai encontrar resposta. Ao contrário, ele tem que estar preparado para a possibilidade de ele botar um pouco de ordem na discussão. Vocês têm que se preparar para fazerem contribuições ao conhecimento em escala que tenha valor universal, porque só se colocando aí vocês poderão exercer depois a influência benéfica sobre o Brasil. Vocês precisam se tornar algo mais forte e mais estável que o Brasil para poder influenciá-lo beneficamente. Aristóteles já dizia que, numa luta, há um sujeito que cai e outro que fica como está. Quem ganhou? O que ficou como estava. A vitória na luta é a capacidade de mover sem ser movido, de transformar sem ser transformado. Há um sujeito que saiu inteiro ou mais ou menos inteiro, tal como entrou na luta, e o outro que saiu todo quebrado. Quem mudou mais? Essa observação é fundamental. A estabilidade – a permanência – é condição sine qua non ao poder de exercer uma influência. Lao Tsé dizia que o melhor dos governos é aquele que não faz nada. É aquele que simplesmente está lá. Porque, se o governo começa a mexer muito, ele mesmo chega ao caos social, se dissolve e cai. Na vida intelectual também se dá a mesma coisa. Você tem que ter uma estabilidade, uma permanência, uma firmeza que lhe permita exercer influência benéfica. Se você mesmo entra no redemoinho, não vai influenciar nada; você vai é levar porrada de tudo quanto é lado. Isso quer dizer que as suas contribuições têm que ter uma solidez permanente. Se você não é capaz de fazer, por exemplo, descobertas na ciência ou criações na arte que tenham um valor permanente que se prolongue para muito além do seu tempo, você não vai fazer nada pelo Brasil. Nós estamos aqui tentando formar grandes pensadores, grandes escritores, grandes homens de ciência. Pelas perguntas que me chegam, eu sei que vocês têm capacidade para isso. Eu sempre soube que o Brasil tinha essas pessoas e que o único problema era como jogar uma rede suficientemente ampla para pegá-las, porque era um escondido no Amazonas, outro em São Tomé das Letras e outro lá em Pedro Juan Caballero... Essas pessoas não têm contato nenhum entre si! Estão completamente soltas. O simples fato de juntá-las, de fazê-las ouvir um discurso comum, já dá uma força monumental para eles. Esta é a primeira vez que se reúne no Brasil – primeira vez na história brasileira! – uma massa de talento nacional capacitada; nunca se fez isso. Pois juntar as pessoas geograficamente é quase utópico. Por isso não tenho a menor dúvida de que, em matéria de educação, só este experimento tem algum futuro e o resto não tem. O que quer que se esteja fazendo pela educação no Brasil é perda de tempo total. Digo isso para vocês entenderem a responsabilidade que está em suas mãos. Agora, não fiquem assustados com a responsabilidade, porque foi ela que vocês vieram buscar. Notem bem: vocês também não podem encarar esta responsabilidade intelectual com os olhos do ambiente sub-medíocre no qual vocês estão, pois, do ponto de vista deste ambiente, a pessoa capacitada para este tipo de trabalho que estou mencionando ou é um deus ou é um monstro de presunção. Nós não somos nem coisa nem outra; somos apenas profissionais sérios da área da inteligência como sempre existiu e sempre existirá. É que o profissional sério dos estudos é um tipo desconhecido no Brasil; ele não faz parte da galeria de personagens que entra no debate cultural e político brasileiro. Para vocês verem a que ponto chegamos... Eu comecei a ficar assustado com isso quando vi que justamente tudo que era enormemente bom, anormalmente bom no Brasil, era esquecido. Na melhor das hipóteses, dava-se importância ao que era medianamente bom ou mediocremente bom, quando não àquilo que absolutamente não valia nada. Outro dia estava conversando com um amigo e lhe recomendei que lesse os romances do José Geraldo Vieira. O Zé Geraldo Vieria era um escritor melhor que Machado de Assis! [1:50] É o mais importante escritor brasileiro do século XX; não há nada que se compare – nada! Graciliano Ramos comparado com ele é apenas um amador e, no entanto, se você procura um livro dele, nas livrarias não tem edição. E pior: enquanto ele viveu todo mundo sabia disso, porque havia um ambiente de escritores e de bons leitores até os anos 50 e 60 capazes de absorver um Zé Geraldo Vieira; capazes de absorvê-lo, processá-lo e compreendê-lo até certo ponto. Eu sou capaz de datar o ponto em que a obra dele se tornou incompreensível para o público. Esse ponto foi um ensaio do Antônio Cândido em que, reconhecendo os méritos do escritor etc, ele tentava fazer uma análise marxista e situar os personagens sociologicamente em termos de classe social. A partir daí, quem quer que tenha lido as obras de José Geraldo Vieira, se assimilou aquela análise, nunca mais irá entendê-la, porque é o mesmo que tentar entender Dostoievski com base no esquema das classes sociais. Então temos aí mais uma contribuição do Antônio Cândido, que foi quem escreveu o pior ensaio interpretativo sobre Graciliano Ramos, em que ele obviamente confunde o autor com o personagem; ele não sabe distinguir o autor do personagem, que é o erro mais primário que um crítico pode cometer. No entanto, no Brasil ele é tido quase como um papa. Antônio Cândido é o pior crítico brasileiro que eu li. José Geraldo Vieira escrevia críticas de pinturas; aliás, era um péssimo crítico de pinturas. Os artigos que ele escrevia na Folha eram absolutamente incompreensíveis. Mas não estou falando dele como crítico de pinturas e sim como romancista. Não que os artigos fossem mal escritos: eram maravilhosamente escritos; só não se sabia do que ele estava falando... o coitado do pintor criticado, quando lia, dizia: “Poxa, nunca havia percebido isso!” Inclusive eu não creio que os artigos de crítica de arte dele tenham sido jamais publicados em livro; acho que ninguém se preocupou com isso; é um aspecto muito menor da obra dele. O que ele era mesmo era a encarnação de um romancista, ou seja, um homem que conta uma história lidando com temas que são, sobretudo, a responsabilidade moral, o perdão, o sentido último da vida etc. Temas que transcendem infinitamente esta pataquada antropológica brasileira. Ao mesmo tempo, os personagens do José Geraldo são geralmente pessoas de muita cultura (pessoas, afinal, do ambiente em que ele vivia): escritores, artistas, diplomatas, chefes de governo, potentados da indústria, do comércio, das artes etc. Evidentemente o mundo de idéias no qual estes personagens vivem está muito acima da preocupação dos “Zé-manés”. Não é o tipo de leitura na qual você vá encontrar, por exemplo, o cotidiano da vida brasileira... que também está lá, mas onde ele mexe com isso é também absolutamente genial: está sendo colocado dentro de um quadro que vai infinitamente além. O José Geraldo também se caracteriza por usar uma técnica poética. Seus personagens começam a falar de um negócio, se entusiasmam e criam poemas em prosa duma beleza alucinante; coisas de fazer você “pirar” a cabeça. Mas você pensa: “Bom, mas não há personagens que falam assim”. Como não? Eu conheci um personagem que falava assim: o Bruno Tolentino. Ele compunha obras literárias na conversação; era uma coisa ou de uma beleza ou dum humorismo ou de uma profundidade extraordinários. Não reflete, evidentemente, a sociedade brasileira, mas reflete o estado do mundo e é disso que o José Geraldo está falando. Como concepção do mundo, como riqueza de perspectivas, como compreensão dos problemas mais profundos da alma humana, nada há na literatura brasileira que se compare com José Geraldo, nada! Se você tomar o mundo de Graciliano Ramos: é pequenino se comparado com o dele; são dois ou três símbolos e acabou. Não que não seja um grande escritor; é um grande escritor dentro das suas limitações. Aluno: E o Machado? Olavo: Acho que o único sujeito que está à altura de José Geraldo Vieira é Machado de Assis, mas a “coisa” do Machado é muito outra. Ele sempre lidou com um meio social limitado e deprimente; seu universo é constituído de personagens sem nenhuma grandeza, mesquinhos, mentirosos, farsantes; a maior galeria de mentirosos que há na literatura universal é a obra do Machado. Muitos deles semi-loucos que circulam na sociedade sem que ninguém perceba que são loucos, mas são completamente loucos. Ou seja, um louco no meio de loucos que não percebem que ele é louco. O tema do José Geraldo Vieira é a história do mundo. Os personagens dele assistem à Guerra de 1914, ao Tratado de Versalhes, à Aparição de Fátima, à Revolução Russa, à Revolução Chinesa à Segunda Guerra. Eles assistem a tudo isso, eles estão lá no meio. É um campo de referência enormemente maior que o do Machado de Assis. Dentre esses personagens, muitos tem uma grandeza, seja uma grandeza trágica ou até uma grandeza moral, ou uma grandeza intelectual, que estão fora do universo do Machado. É mais fácil fazer literatura com personagens medíocres e ruins. Mas quando você considera um personagem que tenha grandeza... Por exemplo, O idiota, de Dostoiévski. Ele ironicamente donomina idiota o príncipe Míchkin, que não é idiota de maneira alguma; é um santo. Para dar um sinal dessa santidade, dessa capacidade profética, Dostoiévski teve de usar um procedimento irônico. O Georges Bernanos escreveu o Diário de um Pároco da Aldeia, que retrata a vida de um santo. Ele teve que retratar a vida do santo através dos olhos ingênuos do próprio santo que não tem a menor idéia do que ele é. São coisas difíceis! Retratar grandes virtudes humanas – por exemplo, a generosidade, a coragem – é muito difícil em literatura. É mais fácil retratar um bandido, um cara perverso. O José Geraldo não tem medo disso, ele mete as caras. [2:00] Eu até entendo que o mundo dele seja um mundo de belezas e virtudes que são desconhecidas à sociedade brasileira em geral. Para o padrão de verossimilhança aceito nesta sociedade, aquilo é inverossímil. Foi a mesma impressão que eu tive quando li a primeira vez. Os personagens me pareciam exagerados, como os personagens do Romantismo. Eu tive que viver uma vida inteira para conseguir olhar essas coisas um pouco mais de cima, e ver que essas coisas existem. Porque o que é ruim, o que é estúpido, o que é medíocre ou deprimente você vê na vida de todos os dias, em qualquer ambiente que você esteja. Agora, quando você descobre uma genialidade verdadeira... Eu conheci alguns gênios, pessoalmente ou não, como, por exemplo, o Mário Ferreira. Como seria imaginar o Mário Ferreira como um personagem de ficção, personagem de um romance? Seria extremamente difícil, muito mais difícil do que você retratar um idiota – um idiota genuíno, não um idiota como o príncipe Míchkin. Entre os personagens de Dostoiévski você encontra de vez em quando gênios. Encontra gênios, encontra santos e encontra também gênios do mal. Na literatura brasileira não tem nenhum gênio do mal. A maldade dos personagens do Machado de Assis é aquela maldadezinha pequena, miúda, mesquinha, que vemos na vida de todos os dias. Na escala do Aristóteles e Frye, feita conforme a grandeza dos personagens, a literatura brasileira só tem personagens dos dois últimos níveis. O personagem do incapaz, do sujeito que é vítima das circunstâncias; e o personagem da pessoa comum. Não passa disso. Mostrar um ato de coragem na literatura brasileira é tão difícil. Quando se consegue, como na novela A hora e vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa, em que o protagonista é um herói que morre para defender uma comunidade de religiosos que está sendo atacada pelos mesmos bandidos que o haviam atacado. Em vez da sua vingança, como ele queria no começo, a vingança se transformou em um ato de autodoação, de auto-sacrifício. Para fazer isso, o João Guimarães Rosa teve de usar toda aquela linguagem complicada dele, tirando portanto o realismo – aquilo não é uma narrativa realista, é uma narrativa poética. Mais ainda, quando isso foi transposto para o cinema por Roberto Santos, que era um cineasta meio marxista, teve que rebaixar o nível moral do personagem e mostrar o ato de heroísmo do Augusto Matraga como uma estupidez, uma gratuidade, uma bobagem. Veja até que ponto a nossa literatura tem dificuldade de se elevar acima de um certo nível de preocupações. O único sujeito que nos deu personagens de grandeza real foi o José Geraldo. Isso quer dizer que a imaginação dele entra em certos domínios que não fazem parte do que nós usualmente chamamos cultura brasileira. Ora, o José Geraldo Vieira foi jogado no lixo, o Otto Maria Carpeaux foi jogado no lixo, o Mário Ferreira foi jogado no lixo. O Gilberto Freyre nunca foi jogado no lixo porque era um homem rico, poderoso, e porque teve a esperteza de fazer fama no campo internacional primeiro. Depois que o mundo inteiro falou bem dele, no Brasil os caras ficam inibidos. Mas, mesmo assim, você vê que todos no Brasil ficaram mordidos por causa da fama do Gilberto Freyre. A “Sessão de Homenagem”, entre aspas, ao Gilberto Freyre, na USP, a que eu tive o desprazer de assistir, foi um festival de dor-de-cotovelo. Todos estavam mordidos pelo fato de a obra do Gilberto Freyre ter tantas qualidades; eles não aceitavam isso. Isso quer dizer que, mesmo nos melhores tempos da cultura brasileira, os que eram melhores já ficavam num segundo plano. Havia um “ambiente iluminado” – vamos dizer assim –, que todo mundo conhecia, e ali ficavam os escritores que eram bons, mas não tão bons assim. Os verdadeiramente grandes nunca foram assimilados, e são desses, tal como eu disse no livro O futuro do pensamento brasileiro, que nós devemos partir para criar uma nova cultura brasileira. Nós temos que ignorar o resto. Tudo o que foi feito até hoje tem um valor meramente documental; são quase documentos de uma patologia, de uma cultura que se deprime a si mesma, que tem uma visão deprimente e amesquinhante da espécie humana, e que, em geral, não chega a tocar no problema do sentido da vida, porque o sentido da vida está para além do horizonte de consciência dos seus personagens e, portanto, também dos seus autores. Tem uma rara exceção, de vez em quando brilha uma luzinha aqui ou ali, mas onde se vê uma coisa de efetiva grandeza é naquilo que ficou considerado marginal. Ora, em todas as literaturas existem autores marginais, às vezes porque eram autores muito diferentes, muito esquisitos, como, na França, Léon Bloy. Ele falava mal de todo mundo, e com tal rancor que ninguém queria ler aquele negócio. Porém, era um escritor de enorme valor; pode ficar esquecido um tempo, marginalizado um tempo, mas depois recupera o reconhecimento. Agora, os principais pensadores, principais escritores serem jogados fora também é outro fenômeno inédito na história do Brasil. Quer dizer, aqueles que deveriam constituir as colunas mestras da civilização e da alta cultura são jogados no lixo. Então fica aí, entre outras coisas, a recomendação: José Geraldo Vieira é um autor essencial para a cultura brasileira; na literatura brasileira não tem coisa melhor do que isso. Não tem e não terá tão cedo. Vamos fazer uma pausazinha e depois responder umas perguntas. [pausa na transmissão] Então, eu tinha um terceiro ponto, que queria complementar, que é a questão do método confessional, mas eu acho que talvez alguma pergunta me dê a chance de entrar nesse assunto; vamos ver. Primeiro, vamos pegar as perguntas mais fáceis. Aluno: Na aula passada você disse que a anti-psiquiatria foi criada por dois agentes da KGB. Você citou o Ronald Laing; o outro deve ser o David Cooper. A minha pergunta é: onde posso encotrar a fonte dessa informação? Olavo: Bom, houve um equívoco ali; o sujeito que era mesmo da KGB era o David Cooper, e isso foi contado pelo Ronald Laing. O outro sujeito que era um agente, não da KGB, mas do Partido Comunista Italiano era o Franco Basaglia. Eu estou escrevendo um artigo a esse respeito, e logo vou dar ali todas as fontes. Eu não me lembro aqui o nome dos trabalhos; não eram livros, eram trabalhos publicados em revistas acadêmicas, e eu não tenho aqui a citação de cor. Mas logo fornecerei isso para você. Aqui tem também uma sugestão: Aluno: Uma das coisas de que sempre gostei no seu programa de rádio é a invocação inicial pela interseção da Santíssima Virgem e a São Pio de Petrelcina. Gostaria de propor uma sugestão, que espero não seja um abuso: que tal dedicar este curso à Santíssima Virgem, pedindo seu auxílio para que dê os frutos que esperamos dele, e especialmente para que contribua para o saneamento espiritual e intelectual do Brasil. Olavo: É uma grande sugestão, e está aceita. Este curso, se ainda não foi dedicado nominalmente à Santíssima Virgem, é claro que é dedicado a ela desde o início. Eu acho que é da interseção dela que depende o curso da história do mundo nos próximos anos, e ela mesma disse isso. Eu ainda acho que o milagre de Fátima é o acontecimento central da história do século XX. Acho que não tem como não perceber isso, tão logo você [2:10] simplesmente estude um pouco do que aconteceu ali. Nós podemos dedicar o curso não somente à Virgem Maria, mas dedidar no intuito de que o nosso esforço seja aceito como prece para que o Santo Padre consagre a Rússia ao Sagrado Coração de Maria, como ela pediu que fosse feito. Enquato isso não for feito, a Igreja não vai parar de cair. Então, está feito. Aluno: Gostaria de saber que importância o senhor dá a Eça de Queiroz como romancista. Olavo: Como romancista eu não dou tanto valor, mas ele é um grande artista da língua portuguesa em tudo o que escreve. O Eça de Queiroz tem essa característica de ser igualmente perfeito estilisticamente tanto nos romances quanto em artigos de jornal, em crônicas e até na tradução que ele faz do As minas do Rei Salomão. Então, eu acho que ler muito Eça de Queiroz é indispensável para aprender a escrever. Como romancista eu acho que ele só acertou mesmo a mão em Os Maias. Porque, como ele tinha aderido aos princípios da escola chamada naturalista – onde tudo era explicado pelas leis da fisiologia, ou algo assim–, os personagens dos primeiros romaces dele são muito rasos, não têm profundidade moral, são verdadeiros idiotas movidos pelos seus instintos. É a expressão de uma situação social extremamente pobre e deprimente. Mas, quando chega já em A Ilustre casa de Ramires, ele consegue fazer do seu personagem um símbolo de Portugal, com todas aquelas hesitações, aqueles vais-e-vens, aqueles extremos de covardia e coragem, de inteligência e burrice que tem o Gonçalo Mendes Ramires, que é explícitamente oferecido como símbolo de Portugal. Então, já tem uma dimensão simbólica a mais. Em Os Maias, a coisa já assume uma dimensão trágica. Ele provou que podia ser um grande romancista n’Os Maias. Pena ele não ter descoberto isso desde o início. Ele foi, vamos dizer, uma vítima de modas intelectuais limitantes. Mas ele mesmo não era um camarada limitado. Você vai ver que nem mesmo o chefe da escola naturalista, Émile Zola, nunca escreveu um livro tão bom quanto Os Maias. Então, você veja, é um escritor de maior talento que, de um certo modo, se prejudica por seguir um outro escritor não do mesmo gabarito, mas que está na moda. Aluno: Interessei-me bastante pela restauração da língua portuguesa, que o senhor comentou na aula 39, do dia 2 de janeiro, não só pela sua importância, mas também pelo impacto que a degradação da língua teve em minha vida em particular. Tão logo terminei esta detestável perda de tempo que é o Ensino Médio, resolvi escrever um livro. Então me deparei com um fato curioso: tanto a língua que eu falava em casa quanto a língua formal soavam um tanto falsas, e não expressavam com exatidão nem o que eu pensava, nem o que eu via na realidade. A convivência com meus coetâneos e a excessiva leitura de livros traduzidos haviam me ensinado um português aleijado, débil, sem caráter, que não servia para muita coisa. Sem contar as minhas deficiências pessoais e, é claro, com a falta de sinceridade etc. Venho trabalhando nisso até hoje, mas só agora percebi com clareza, após ouvir as suas explicações. (...) Olavo: Bom, isso é um problema que está no fundo da alma de todo mundo no Brasil. Quando eu digo que a língua foi estragada, isso quer dizer que ela não dá conta da experiência real humana. Em parte, nós já tínhamos essa limitação antes, porque a noção de experiência real humana que a literatura brasileira veiculava era de uma experiência empobrecida, que sempre ia pra baixo, e que só lidava com os dois primeiros andares da escala de Aristóteles e Frey. Portanto, reflete uma percepção amesquinhante. Nos raros momentos em que tentava sair disso, tentava às vezes impor uma concepção de mais altas qualidades em lugares que você não as poderia encontrar em maneira alguma. Por exemplo, o herói do romance Quarup, do Antônio Callado, que é um padreco da teologia da libertação que entra para a guerrilha. Ele toma uma decisão, a de entrar para a guerrilha, e é como se aquele personagem tivesse crescido formidavelmente. Quer dizer, parte da identificação da guerrilha brasileira como o momento mais heróico da nossa história. Eu sinceramente não vejo nada de heróico em você deixar uma bomba no aeroporto pra matar um monte de gente que não tem nada a ver com a história; em você deixar um caminhão cheio de bomba pra matar um guardinha na porta do quartel; ou em enconstar a metralhadora na cabeça de caixas de banco, coitadinhas – a mulher tremendo... Não vejo nada de heróico em nada disso. Fica uma coisa totalmente falsa, e no fundo levado por um desejo de propaganda política injustificado. A introdução do elemento “heroísmo” é uma coisa que funciona ali no Augusto Matraga por causa da sua falta de pretensões. O Augusto Matraga é um sujeito que foi assaltado por um monte de bandidos, surrado, e que é recolhido por um padre, que cuida dele, e ele fica o tempo todo pensando na vingança. No último momento, aquela vingança se transforma, por força das circunstâncias, num ato de auto-sacrifício, de doação. Então não é bem o heroísmo: é quase o martírio aceito como o destino dele, a salvação do personagem. Por causa deste fundo religioso, a coisa adquire uma profundidade que a história parecia não ter até aquele momento. Mas a presunção do padreco da teologia da libertação no Quarup é realmente uma coisa indigesta, apesar do livro ter passagens muito boas; existem coisas memoráveis ali. O aluno prossegue: Aluno: (...) Existe algum estudo sobre a degradação da linguagem?(...) Olavo: Não, no Brasil eu não conheço nenhum estudo, isso se precisa fazer urgentemente. Eu acho que alguns de vocês podem e devem se preparar para isso, aqueles que tiverem essa vocação. Nós vamos ter que documentar isso aí. Quando chegar a época de fazer isso, eu tenho várias sugestões pra dar. Sugestões, aliás, que eu já fui soltando um pouco em outros cursos. E daí o aluno prossegue: Aluno: (...) Quanto à restauração da segunda pessoa do singular e do plural, a idéia me entusiasma, mas como isso poderia ser feito na prática? Olavo: É simples: nós temos que começar a escrever assim. Nós temos que começar a usar a primeira e a segunda pessoas, do singular e do plural, nos nossos escritos, a partir de um certo momento. E eu acho que nós podemos combinar isso entre nós. Quando chegar a hora de publicar, todo mundo usar isso ao mesmo tempo e não aceitar reclamação. Depois de começar a escrever assim, bom, aí vamos introduzir isso na própria fala, na expressão oral. Nós podemos criar uma nova moda literária com isto, que logo se impregna e se espalha por toda a população, sem grande dificuldade. O que nós faremos com isso é salvar a comunicabilidade no Brasil. Não está ainda na hora da gente fazer isso porque, por enquanto, a nossa atividade ainda é interna, [2:20] é uma preparação. Quando chegar a hora de fazer, darei dicas. Fazer sozinho não adianta; tem que ser mesmo uma geração de escritores que começam a fazer isso. Aluno: Segundo o raciocínio da aula anterior, sobre os tipos de intuição na interpretação e a questão do contra-ponto no exemplo da catedral e dos textos escolásticos, que levam à interpretação do real significado do texto em si, e do que está nas entrelinhas, que diz mais que o texto em si, exercitei esse ensinamento na leitura de um livro polêmico, que eu não entendia muito: Os Protocolos dos Sábios de Sião, e fiquei assustado, uma vez que, segundo concluí, principalmente nas entrelinhas, muito do dito sobre a tomada de poder e a forma para se tomar o poder está sendo utilizado pelos comunistas, (...) Olavo: Já faço uma observação quanto a isso. Aluno: (...) o que parece se complementar com os ensinamentos de Maquiavel. Fiquei pasmo com a questão da infiltração em todas as esferas do poder e do prestígio, que caminham lado a lado com o poder, e a questão do uso da mídia escrita, televisiva etc. para subjugar os desavisados, e o utilizar os seus propósitos para a tomada do poder. Isso antes para mim não estava claro. Assim, pergunto: o senhor conhece esse livro? Estou certo em minhas conclusõess? Ele está sendo utilizado pelo movimento revolucionário? Segundo: existe uma polêmica sobre a autenticidade desses escritos. O professor pode dizer alguma coisa a respeito? Olavo: Muito bem. Parece que a fonte dos Protocolos do Sábio de Sião é um romance, uma obra de ficção, escrita por um sujeito chamado Maurice Joly sob o título de Diálogos com o Diabo, onde o Diabo dá todas essas sugestões. Então parece que este documento foi forjado em cima disso. A questão da autenticidade autoral é uma coisa. Agora, a questão do acerto do diagnóstico é outra completamente diferente. Eu acho que daquilo que está planejado no livro tanta coisa já se realizou diante dos nossos olhos que nós não podemos negar que o sujeito que escreveu aquilo teve alguma intuição do que ia acontecer. Então, em primeiro lugar há o problema da autoria do livro; em segundo, o do acerto do diagnóstico, e em terceiro a realidade do personagem, que diz que aquilo é uma assembléia de rabinos judeus, que estão afim de tomar o poder. Eu acho que a atribuição daquilo a judeus não faz o menor sentido, porque ao longo da história do séc. XX os judeus às vezes até se saíram bem, mas em geral eles se deram muito mal. Se fossem autores do plano, eles fizeram o plano contra eles mesmo. A não ser que, considerando a hipótese, você imaginasse uma elite judaica, tentando traçar os destinos da história do mundo, e que decide então oferecer como vítima do plano a sua própria comunidade. Seria uma coisa de uma monstruosidade fora do comum. Se nós perguntarmos, hoje em dia, quem está fazendo, quem está conduzindo este processo, você vê que não tem nenhuma possibilidade de identificar isso uma comunidade nacional ou racial em particular. Se você pegar os líderes, as forças ativas da implantação de uma nova civilização mundial, de um novo governo mundial, não há nenhuma definição nacional ou racial identificável. Ao contrário, é uma coisa multinacional pela sua própria natureza. Que o autor desse texto de algo ficou sabendo, ou que ele anteviu algo de maneira muito clara, isso não é possível negar. Muitos daqueles processos estão realmente acontecendo. Talvez não com aquela materialidade – quase simploriedade – que são expostos ali, mas você não pode negar alguma realidade naquilo. Eu sugiro, por via das dúvidas, que você quando leia o livro de modo que, onde estiver escrita a palavra “judeu”, você a substitua por um “X” ou por um ponto de interrogação. Ou seja, “alguém” está fazendo aquilo. Este alguém não se define nem racialmente nem nacionalmente, e é evidentemente um pool de várias entidades, organizações e famílias, incluindo algumas organizações secretas, iniciáticas etc. Em suma, há um sujeito coletivo, muito bem organizado, que está empreendendo essas modificações. Mas, primeiro: não podemos acreditar na expressão, muito usada neste contexto, “poder secreto”; você precisa ver que esse poder é muito relativo. Por exemplo, um objetivo permanente desse pessoal, dessa cúpula globalista, foi a fusão entre União Soviética e Estados Unidos. Isso foi declarado várias vezes por representantes da elite globalista, inclusive pelos Rockfellers. E você vê que a queda da União Soviética não estava nos planos deles. Isso foi inventado por um outro esquema globalista, que era o esquema dos próprios comunistas, porque eles também têm outro. Eu acredito que existem três planos de civilização global simultâneos. Um, que eu chamaria ocidental, está ligado ao pessoal do grupo Bilderberg, à Organização Trilateral, ao CFR etc. Outro, que vem do movimento comunista e da KGB; e um terceiro que é o plano islâmico. Esses três estão obviamente em ação. Às vezes colaboram, às vezes se boicotam um ao outro, mas nenhum dos três tem o controle total do processo. Ninguém tem o controle total do processo. Na expressão “poder secreto” há dois problemas: primeiro, que não constitui um poder, são vários poderes; segundo, que não é secreto absolutamente, tudo isso está altamente documentado. No tempo em que o sujeito que escreveu Os protocolos do sábio de Sião tudo podia estar muito secreto e soar tão escandaloso. Mas hoje a documentação que tem é tão imensa que até a tentativa de mostrar como autor do processo como uma entidade chamada “os judeus” é tão ridícula quanto você dizer que é “a Maçonaria”, ou que é “a Igreja Católica”, ou que são “os Jesuítas”, ou que é “a família Rockfeller”. Não há como atribuir a autoria deste processo a entidades cuja constituição em si mesma não dependem do mesmo processo. Você não pode pegar uma entidade pública, existente, e dizer que ela está fazendo uma conspiração no mundo inteiro; isso não é possível. “Os conspiradores”, quer dizer, os membros dessa atividade, eles se definem como tais no curso da própria atividade. Na medida em que participam disso, eles se tornam conspiradores ou atores desse processo. A identidade que eles têm nessa função não é a mesma que têm enquanto membros de tal ou qual organização não secreta. Isso quer dizer que nenhuma entidade existente e reconhecível, enquanto tal, pode ser autora deste processo, nem mesmo o CFR. É necessário que em cada uma dessas entidades participantes haja um grupo seleto que, utilizando-se da estrutura daquela organização, mas colaborando com outros grupos seletos tirados de dentro de outras organizações, componha aí o comando do processo. Então ali você vai encontrar cardeais da Igreja Católica, grandes banqueiros, dignitários maçons, atuando ali não enquanto representantes destas entidades, mas em um outro nível, em um outro campo de atividades, que estas entidades não abrangem. Não sei se está ficando claro o que eu estou falando. Eu só estou querendo dizer o seguinte: as entidades secretas são realmente secretas, não correspondem a nenhuma entidade. Por exemplo, você falar “o Império Britânico”. Como o Império Britânico poderia fazer uma conspiração em nível mundial? O Império não conspira, meu filho. Agora, podem ter duas ou três pessoas, em posições importantes, que, associadas a outras pessoas em posições importantes, [2:30] dentro ou da Igreja Católica ou da comunidade judaica ou da maçonaria, se reúnem e vão tocando esse processo, se tiverem dinheiro pra isso. Eu escrevi um artigo sobre isso outro dia: não faz sentido atribuir grande empreendimentos secretos a entidades públicas; isso é um contra-senso. Há um monte de livros que dizem: “Quem está fazendo isso são os judeus”. Porém, os judeus estão visíveis, você os vê em toda parte; você vê a comunidade judaica, o movimento sionista. Não é possível que tudo isso esteja ativamente metido em um empreendimento secreto. A coisa não pode ser secreta e pública ao mesmo tempo. Têm livros que atribuem tudo à ordem jesuíta ou à Igreja Católica ou à Maçonaria — isso realmente não é possível. Não se pode conduzir um processo desse se se tiver de discuti-lo com todas essas entidades; não é materialmente possível. O que é necessário é um grupo seleto de pessoas muito qualificadas, muito poderosas, com muito dinheiro e em número suficientemente pequeno para poder se reunir e discutir. Claro que, se tomada a rede inteira de serviços que eles mobilizam para seu fim, aí a coisa é imensa. Mas as pessoas que participam desse serviço não precisam saber quais são os objetivos de longo prazo. O psicólogo Kurt Lewin criou uma série de técnicas que hoje são abundantemente usadas pela ONU para fins de controle social. Kurt Lewin tinha clara consciência de que aquelas coisas que ele estava criando iam servir para essa ou aquela finalidade? Não dá tempo do sujeito dedicar a sua vida à psicologia experimental e ainda ser o macro-planejador de mudanças civilizacionais de grande escala. Portanto, os indivíduos que paricipam, que estão a serviço dessa elite, não precisam ter clara consciência do que estão fazendo — mas alguém tem de ter. Há aquele livro do Lee Penn, um dos livros mais importantes a respeito, chamado False Dawn (“Falsa Aurora”), que é sobre a criação da religião mundial unificada, uma farsa em toda linha. O número imenso de pessoas que participam desse movimento, que é central na Nova Ordem Mundial, é muito grande. Quantos desses você pode dizer que são autores do projeto? Por exemplo, o presidente Bush participou disso. O Obama também participa. Clinton também participa. E eu acho que eles não dedicaram três minutos da vida deles a pensar nisso. Mas alguém concebeu o projeto. E alguém que concebeu era alguém que tinha não só cabeça para fazer isso, mas tinha os meios de colocar aquilo em movimento. Eu acho que a coisa mais certa é você pensar em uma elite que não tem nome, que não se parece com uma organização, mas que tem intenso contato pessoal há muitos anos. Alguém me pergunta aqui se são os Bilderbergs. Eu não posso nem dizer que são eles, porque as reuniões dos Bilderbergs são de algum modo acompanhadas por estudiosos externos que não participam daquilo, não gostam daquilo e não aprovam. Há o livro do Daniel Estulin; ele sabe tudo sobre os Bilderbergs. Isso é uma estrutura criada durante algum tempo, como Comissão Trilateral. A unidade mesmo desse processo não tem figura organizacional, não tem nome — isso é importantíssimo. Nós podemos chamá-la de “a elite condutora do processo”, mas isso não quer dizer que ela tenha poder sobre o processo total, que tenha uma capacidade de planejamento divino. Muitos estudiosos desta coisa atribuem a esse pessoal poderes que eles não têm. O número imenso de besteiras que eles fizeram, de erros que eles fizeram, é enorme. Vamos dizer que, por volta de 1950, todos os próceres do globalismo acreditavam que no ano 2000 o governo mundial já estaria instalando e funcionando a pleno vapor. Mas ele não está ainda; não está ainda e já está em crise. Veja a crise que se deu na conferência de Copenhagen. Estava tudo certinho, gastaram um dinheiro medonho para impor aquelas coisas do aquecimento global, e quando chegou a hora alguém deu para trás. Alguém fez as contas e, em vez de colaborar com o projeto globalista, decidiu levar em conta uma coisa chamada interesse nacional. Os árabes sauditas também deram para trás. Então é claro que tem uma elite que está forçando para que essas coisas aconteçam, para que se instale um governo mundial, acabem-se as soberanias, as religiões, e se crie uma religião mundial biônica etc. Vão inaugurar toda uma outra civilização onde praticamente todo o quadro da percepção humana será destruído e substituído por bobagens que eles mesmo inventaram. Como exemplo, aqui, na Califórnia, o Schwarzenegger assinou uma lei que proíbe usar a palavra “pai” e “mãe” nas escolas porque isso é uma coisa que pode soar ofensiva, e eles querem criar outro tipo de relação familiar que eles mesmos não sabem o que é, e que nenhum jamais tentaria na sua própria família porque não é idiota para isso. Será que na família Rockefeller ninguém chama o pai de pai e a mãe de mãe? Chama de Seu Fulano, dona Fulana? É claro que não! Isso aí é feito para as massas, para estupidificar as massas. Eu acho muito difícil encontrar alguma organização identificável. É claro que no fim das contas tudo isso é uma ideologia satanista, evidentemente; mas quem disse que a ideologia satanista precisa estar personificada numa organização publicamente reconhecida? Não faz sentido isso. É um grupo de pessoas reais que têm evidentemente um suporte organizacional por trás de si, têm dinheiro, e que têm determinadas convicções sobre a sua capacidade divina de remoldar o mundo. Essas pessoas se associam e forçam que aquelas coisas aconteçam. Agora, se ali você encontra um judeu, você diz que são os judeus; se encontra um cardeal da Igreja Católica, você diz que são os católicos. Toda hora eu recebo panfletos de caras protestantes dizendo que a conspiração vem de Roma. Também têm os caras que dizem que vem dos judeus, que vem da maçonaria etc. Não! Vem de pessoas que estão colocadas nessas várias organizações, que têm algum poder lá dentro, mas que não se identificam com a sua totalidade. Muito menos isso corresponde ao estado americano — a estupidez maior que pode ter é dizer que o globalismo é um truque americano, que é o imperialismo americano e tal. A esquerda brasileira inteirinha pensa isso; estão agora interpretando o Obama como um imperialista americano, ele que é um sujeito cuja a carreira foi toda paga com dinheiro da Arábia Saudita para ferrar com o país dele. Mas no Brasil a esquerda brasileira acha que o Obama é um imperialista americano que está afim de tomar o Haiti. É claro que aí não dá para discutir, é besteira demais, estão jogando com [2:40] estereótipos e eles mesmos ficam hipnotizados com os estereótipos. Que existe o movimento para a instalação do governo global e a criação de uma nova civilização que vai romper com praticamente todo o quadro perceptível humano e impor um novo – é claro que existe, a gente vê isso em toda parte! Mas quando você se pergunta quem está empurrando isso ou aquilo, percebe que não é nenhuma dessas organizações em particular. Não são os judeus, não é a Igreja Católica, não é a maçonaria. São pessoas que estão lá dentro e que têm entre si um outro tipo de liame, outro tipo de ligação mais profundo que o dessas organizações. E eu não tenho dúvida de que o principal elemento disso é alguma fé de tipo satanista — mas que não vai corresponder a um tal órgão chamado igreja satanista e fundado por um maluco que provavelmente é um João ninguém, um pé rapado, que não tem nada a ver com isso. Não é o Satanás de comédia; é um satanismo efetivo, muito mais sutil, muito mais elegante e mais mortífero, é claro. Um exemplo são as grandes desgraças provocadas na primeira metade do século XX. Nós sabemos, que não existiria a União Soviética sem a ajuda americana; que não existiria o nazismo sem a ajuda soviética, e assim por diante. Quer dizer, por baixo das divisões de forças aparentes existem certos laços de unidade muito discretos, de pessoas que tinham a ganhar com toda essa desgraça — a ganhar não necessariamente dinheiro. Milionário não se preocupa em ganhar mais dinheiro, não precisa disso; precisa de poder. E poder, sobretudo, é poder de matar. Então, se você quer saber quem são as verdadeiras forças agentes pode ter certeza de que elas não se identificam com nenhuma instituição pública conhecida. Mas existem relações pessoais, e essas relações pessoais, freqüentemente discretas, se sobrepõe aos interesses nominais dessas instituições representadas por essas pessoas. O sujeito que está de fora, porém, vê um potentado agindo em nome da Igreja Católica ou da Maçonaria e identifica aquilo como interesse desta ou daquela organização. Se isso fosse interesse da organização, todos os membros dessa organização saberiam, todos estaram lutando por aquilo — o que é impossível. Esse assunto é muitíssimo sério, deve ser lidado com cautela. Não é tipo de estudo que eu recomendo agora, porque a referência histórica que você precisa para poder escavar utilmente esse assunto é muito grande. Eu dedico uma parte do meu tempo só para coletar documentos, formar a bibliografia realmente importante que permita compreender o avanço da mentalidade revolucionária no mundo. E é claro que o que se refere ao globalismo faz parte também. Muitos desses documentos são coisas publicadas em 1809, 1810, e dificílimos de alcançar. Eu não tenho nem a documentação que eu preciso ainda. Portanto a opinião que eu estou dando é meramente experimental, são hipóteses; eu espero obter mais clareza sobre isso. Aqueles que se interessarem por esse assunto podem no futuro até me ajudar nisso aí, pesquisando. Às vezes eu mesmo vejo que, para explicar uma coisa que quero saber, precisaria saber mais isso, mais aquilo, mais aquilo outro. Daí eu faço a lista e vejo que para conseguir tais informações é necessário uma pessoa que dedique um ano da vida dela só para rastrear esse negócio. Tenho bastante bibliografia, bastante documento. Às vezes são artigos de jornal, são panfletos, são filmes. Eu até comprei filmes de 16mm — nem tenho a máquina ainda para passar o filme, mas ele está aqui. É material em arquivos de computador, é uma multidão de coisa. Eu espero chegar a uma clareza maior quanto a isso e responder a famosa pergunta do Ortega y Gasset: quem manda no mundo? Bem, de certo modo a Bíblia já respondeu: é o Satanás, disso já sabemos. Mas qual é o modus operandi? Qual é a estrutura da ação? Porque, afinal de contas, se até Deus age através de uma igreja, de sacerdotes etc., tem de haver as estruturas correspondentes do outro lado. Então, eu não tenho nenhuma pressa de resolver isso nem de ter uma opinião, nem de chegar a um diagnóstico final. Eu vou soltando as conclusões parciais que me parecem sólidas, mas às vezes as conclusões parciais criam mais problema do que resolvem. Aluno: Minha dúvida é quanto àquele movimento de PHN (Por hoje não pecarei), da Canção Nova. Professor, sempre via a minha família falando em quanto era maravilhosa a experiência de não pecar por um dia. Passavam a idéia de que aquilo fosse coisa de gente de uma outra classe. Escutei até relatos de que havia pessoas que resolviam aderir ao movimento permanentemente e ficaram longos períodos sem pecar. Tive até vontade de não pecar por um dia também, mas minha promessa não durava os primeiros trinta minutos. Então minha pergunta é: com tudo aquilo que o senhor disse semana passada e com o que foi dito desde o começo do curso, tal movimento não seria estupidez do povo, no que se refere a não podermos nos privar do mal totalmente? Olavo: Santo Agostinho dizia que as virtudes são feitas da mesma matéria dos vícios. Existem vícios que você não pode transmutar, que você tem de cortar totalmente. Há outros em que você tem de buscar sua raiz boa e não permitir que essa raiz seja aproveitada para finalidades más. E isso é um trabalho de alquimia interior, é muito difícil de fazer. Sobretudo, você não poderá fazer isso com um pecado em particular; não é um raciocínio mecânico como o de dizer: “ah, estou aqui vicado em tocar punheta; vamos ver qual é a raiz positiva da punheta e alquimizá-la.” Não é assim, meu filho! Não é um negócio material assim. Essas transformações, tal como as da alquimia, se dão em algum lugar; esse lugar é a sua alma, a sua pessoa tomada como totalidade. Aí é que seria o forno alquímico, o atanor onde se dão essas transformações. Eu estou falando só pela minha experiência pessoal, não sou nenhum especialista na conversão de pessoas e na fabricação de santos. Por enquanto eu estou tentando formar intelectuais, não santos. Mas um pouquinho de santidade também não vai fazer mal a ninguém. Os vários elementos que compõem a sua personalidade, as forças que se agitam na sua alma, só podem ser manipuladas desde o conjunto. E o conjunto, por sua vez, tem de ser dirigido desde uma finalidade que o transcende e desde o qual ele se abra à ação de Deus nele, porque quem vai mudar você não é você. Não é dizer: “Agora eu não vou mais pecar”. Faz-me rir! Você está presumindo a sua força; o diabo é muito mais inteligente que você e ele vai fazer você pecar nos primeiros 5 minutos. E você é um cara tão burro que nem vai perceber que está pecando. Não se trata de abster-se disto ou daquilo. Essa concepção foi inventada pelo Benjamin Franklin, que era um sujeito satanista: “Hoje eu não vou fazer tal malefício, [2:50] eu vou fazer tal benefício”. Ele fazia a listinha dos seus defeitos e virtudes todo dia etc. É uma coisa absolutamente quantitativa e material. O negocio é você começar pelo primeiro mandamento: “Ter amor a Deus”. O que é o amor a Deus? Você não sabe exatamente o que é o amor a Deus. Mas tem uma coisa que você sabe: “Deus é melhor do que você pensa”. Isso faz parte da definição de Deus: “Deus é bondade infinita, é amor infinito, é perdão infinito, é criatividade infinita, é poder infinito” etc. Isso significa que, o que quer que você tenha pensado dele, tem mais para cima. Esse mais para cima não é pensável. A sua cabeça não chega lá. Mas, se você pensou bem o suficiente, o que Deus faz? Ele abre a sua cabeça um pouco mais e faz você perceber algo que você, por suas forças, não perceberia! É disso aí que se trata. Você tem que elevar seus pensamentos a Deus e colocar toda a sua vida a serviço do melhor, do supremo bem de que falava Platão. Essa é a primeira pista para Deus: “Deus é o supremo bem”. O que você imaginar de bom, tem outro melhor, melhor e melhor. Se você se coloca nessa linha, automaticamente muitas forças que estão se agitando em você no momento, e que o estão levando a fazer coisas ruins, transmutam-se por si, sem que você perceba. Não é você que está fazendo isto. Você simplesmente se abriu para um amor ao bem infinito e esse bem infinito, que é muito maior que você, começa a pensar no seu lugar e começa a agir em você. Eu acho que o negócio é esse, em vez de ficar dizendo: “Ah, eu não vou mais fazer tal pecado”. Se você segue por esse negócio contábil, termina louco. E você vai terminar ou na presunção, no orgulho demoníaco, ou então no desespero. Ou você vai achar que não está pecando ou só vai ver pecado dentro de você. Eu não creio que pensar no pecado vá fazer algum bem para você. O que vai fazer bem é você pensar em Deus. Você vai fazer um exercício de contemplação do pecado? O fato é que, quando você tenta elevar seu pensamento a Deus, você cai. Você não consegue ficar lá, você cai. Aí há uma dialética. Há um movimento ascensional, no qual você se abre para Deus, e tem o movimento contrário, que é o da extrema humildade, extrema impotência, no qual você não pode fazer nada e pede que Deus faça. Os dois momentos são igualmente importantes. Você tem um momento de exaltação – uma espécie de contemplação, um momento de entusiasmo divino, onde a beleza, a bondade de Deus parece estar iluminando você – e tem outra hora em que você está no fundo do poço, não está enxergando nada, só vê tudo ruim em volta, e ali você está vendo o outro aspecto da bondade de Deus. Porque é ali mesmo que ela vai te pegar, ali mesmo que ela vai te buscar. A sua miséria e a grandeza de Deus são dois aspectos da própria grandeza de Deus. É Deus tal como ele se apresenta. Mas para quem Deus está falando? Para este ente miserável, perdido e absolutamente incapaz e absolutamente impotente que sou eu. O momento da escuridão, do desespero, é igualmente importante. Daí você passa a gostar dos dois, porque são igualmente importantes. A hora em que você tem aquelas intuições, em que você sente que o Divino Espírito Santo está iluminando a sua mente, é maravilhoso. Mas na hora em que você também não está entendendo nada, em que você está no fundo do poço, você sabe: “Dentro daquela escuridão, Deus está em algum lugar que eu não estou vendo. É ele que vai me tirar daqui. Não sou eu”. Ora, se você não fosse tão miserável, tão impotente, tão incapaz, por que você precisaria da ajuda de Deus? Não precisaria. O próprio Deus às vezes lhe mostra a bondade dele, o amor dele. E às vezes ele mostra o quê? Você para você mesmo. Uma hora eu estou vendo Deus e outra hora eu estou vendo eu mesmo. Quando estou vendo Deus: “Ah! Estou vendo tudo, estou entendendo tudo”. Quando estou vendo eu mesmo: “Não estou entendendo mais nada. Voltei a ser o idiota que eu era antes!” E aí você tem a medida certa da realidade, porque tudo isso é a amplitude da sua alma. Como está na Bíblia: “Vereis o céu aberto e os anjos subindo e descendo”. Esse que é o truque. Agora eu vou ficar sem pecar? Ora, eu não sei se eu estou pecando, meu Deus do céu! Eu sinceramente nunca penso em pecado. Eu penso na miséria, porque o pecado é o fruto da sua miséria. Você é ruim. A Bíblia já ensinou que você é ruim, é o pecado original. Você não presta. Por que eu preciso detalhar todos meus pecados, se eu sei que estou só fazendo merda mesmo? Quando você peca, deve olhar para Deus e dizer: “Eu por mim mesmo eu só consigo fazer isso. Se tu me deixares sozinho eu vou fazer de novo, e de novo e de novo... Então me tira daqui”. O centro da preocupação, da meditação nunca é o pecado. Muito menos a listinha de pecados. Essa técnica dos caras é muito primitiva, meu Deus do céu! Eles estão querendo fazer que nem o português que queria matar todas as baratas jogando uma bolinha de naftalina em cada uma. Não é assim. Você põe naftalina que solta um cheiro e tem um efeito geral. Não é uma por uma. Com todo respeito, o pessoal da Canção Nova deve ser muito bem intencionado, mas eu acho que tem um meio melhor. Em vez de você ficar sem pecar, você ora a Deus, pensa nele e não se preocupa com mais nada. É a fórmula do Padre Pio: “Reze e não se preocupe”. Eu vou me preocupar com os meus pecados? Uma bela porcaria são os meus pecados! É só o que eu faço mesmo. É só o que eu sei fazer. Por minha própria natureza, é só o que eu sei fazer. Na medida em que você vai reconhecendo a sua condição de pessoa obscura, miserável, impotente, burra, má, você deixa que Deus lhe transforme em outra coisa. É ele que vai fazer, não é você. O nosso único esforço é pedir. Existem duas ordens de provas de Deus. Uma ordem é de provas teóricas, filosóficas, teológicas etc. A outra é a da prova experimental. As primeiras só provam a possibilidade de Deus enquanto possibilidade abstrata. As segundas mostram a ação de Deus. Garanto que o Deus que salva você não é o Deus abstrato do conceito, é o Deus que age. Claro que aquelas primeiras provas são importantes para botar nossa cabeça em ordem; só para isto. Mas o que funciona é você ver Deus agindo. Claro que aí ele de si só mostra um pedacinho. Mas o pedacinho dele é co-proporcional àquilo que você pode saber dele naquele momento. E garanto para você que Ele age [3:00]. Quando Ele some e parece que não está agindo, então não é Deus, sou eu. Voltei para o meu universo de cegueira, no qual eu nasci e no qual todos nós nascemos. E não se preocupe muito com a cegueira, porque ela é só sua. Deus não pode estar ausente. O que lhe parece ser a ausência de Deus é apenas a sua presença. Se eu for ficar pensando nos meus pecados, só pensarei em mim mesmo. Eu acho os meus pecados tão desinteressantes, tão idiotas, tão vulgares, tão estúpidos quanto os de todo mundo... Às vezes é a única coisa que nós temos para mostrar para Deus: “O que eu sei fazer é isso aqui”. Leiam um livro que se chama A técnica da presença de Deus. O autor chama-se Frei Lourenço, Brother Laurence – depois eu dou a indicação para vocês. Era um homem que conversava com Deus vinte e quatro horas por dia, com a maior simplicidade. Quando fazia um pecado, ele dizia exatamente isso: “Ó Deus, olha o que eu estou fazendo aqui, de novo”. O arrependimento nunca pode ser uma coisa que te entristeça mesmo. Você fica triste, porque falhou de novo, mas não é muita tristeza. Não pode ser muita tristeza. É só um pouquinho. Porque o que importa não é o seu pecado. O que importa é o perdão de Deus. O perdão de Deus é a estrutura do universo, meu Deus do céu! E os seus pecados são só uma coisa que está na sua cabeça. Eu acho que por aí você consegue muito mais do que – “Não vou pecar hoje...” Quando você confessa, diz: “Pequei por atos e pensamentos, palavras e omissões”; e têm os pecados sabidos e os não sabidos. Se há os pecados não sabidos, como é que você pode dizer que não pecou? Você olha pra Deus e fala: “Eu fiz isso e tem mais umas coisas de que eu não me lembro. Então me perdoa desses também, porque, se for depender de mim, nem isso eu sou capaz de fazer”. Nós não somos nem capazes de confessar nossos pecados direitinho. O que nós temos que confessar para Deus não são nossos pecados, mas a nossa realidade. Você tem que se colocar inteiro diante de Deus. Você não é constituído só de pecados. Se você está colocando só os pecados, está tentando controlar o processo. Você tem que deixar Deus controlar o processo e lembrar o seguinte: onde você existe? Você existe dentro de Deus. Tudo o que existe está dentro de Deus. “Nele vivemos, nos movemos e somos”. O que você pensa de você demarca a distância que a sua consciência tem de Deus. Quando você se aproxima dele, ele abre e ilumina sua consciência de tal modo que você se esquece de si e não se preocupa mais com isso. Eu prefiro a técnica do Padre Pio: “Reze e não se preocupe”. Agora isso aqui é só preocupação, só dor de cabeça. Quantas horas de aula foram? Já são dez horas. Então, por hoje, vamos parar por aqui. Eu ia entrar no negócio do método confessional, mas acho que não vai dar tempo. Bom, eu posso dar um resuminho. Tudo aquilo que nós pensamos, tudo que se passa na nossa mente, no nosso conhecimento, ou é percepção sensível, interna ou externa, ou é imaginação – imagens ou esquemas conceptuais que você baseia nessas imagens. Tudo o que nós dizemos são essas duas últimas coisas. Nós só dizemos aquilo que nós mesmos pensamos. Nós não dizemos realidades. O nosso pensamento não tem a capacidade de dizer realidades. Nós só dizemos o que nós pensamos das realidades. Qual é a garantia que você tem da conexão do seu pensamento com a realidade? Existem dois critérios. O primeiro critério é o critério objetivo, tal como se usa mais ou menos em ciência experimental. É a coincidência do que você está falando e o que os outros podem observar. Porém, se tudo o que você pode exprimir por palavras são os seus pensamentos, você não é um pensamento seu. Você existe como realidade também. O que você está pensando faz parte da sua realidade. O primeiro método de conectar pensamento com realidade passa por uma série de convenções e abrange uma parte mínima da realidade, que é aquela que pode ser submetida a um controle coletivo, como nas ciências acontece. Isso não é realidade. São pedaços selecionados. Mas acontece que você próprio é uma conexão entre o seu pensamento e a realidade. Por quê? Porque você não é um pensamento. Você é uma realidade. O momento em que você se oferece como prova do que você está dizendo – oferece a si mesmo e aos outros como prova do que você está dizendo – é o que eu chamo o método confessional. Onde o que você está falando, embora seja apenas pensamento seu, está sendo assumido como seu pensamento efetivo, naquele mesmo momento, como parte não só do seu pensamento, mas da sua realidade. Ou seja, eu sou realmente o sujeito que está dizendo isto. Eu sei exatamente qual é o lugar que isto ocupa dentro do conjunto dos meus pensamentos, e eu sei o quanto eu sei disso e o quanto eu ignoro disto. É assumir a responsabilidade presencial do que você está dizendo. Você pode também apelar ao testemunho dos outros, mas só o testemunho do indivíduo que esteja também inteiramente presente, inteiramente aberto ao que você está dizendo. Mas o testemunho do outro de fato não interessa. O que interessa é o seu testemunho. Um outro pode atestar que ele viveu coisa semelhante, mas não é isso que vai comprovar a veracidade do que você está falando. Você está comprovando a realidade, porque você está falando de você mesmo. Mais ainda, no momento em que você está falando, está falando também como um membro da espécie humana. Você sabe, da sua experiência, o que depende exclusivamente da sua individualidade, o que aconteceu a você por condições individuais ou familiares etc., e o que representa uma estrutura humana geral dentro de você. Você pode fazer essa distinção e, portanto, você pode falar, com sinceridade, distinguindo o que é puramente individual no seu discurso e o que é universal [3:10], na medida em que você possa expressar a universalidade da sua condição humana, tal como você a vivencia. Eu acho que esse é o único método que assegura a verdade mesmo, embora ele dificilmente possa ser submetido a uma prova coletiva. Mas, afinal de contas, se algum dia você tiver que decidir se quer a verdade ou se quer uma prova que você possa impor aos outros; se você tiver que decidir: “Bom! Eu vou conhecer a verdade, mas eu não vou poder explicá-la para ninguém. Se eu explicar ninguém vai entender ou não vai aceitar”. Você ainda assim a quer? Essa escolha um dia você vai ter que fazer. O seu conhecimento da verdade não lhe dará autoridade sobre os outros. Talvez dará mérito para ter autoridade, mas não trará autoridade, necessariamente. No entanto, do ponto de vista do conteúdo, do significado do que você está falando, você está falando com autoridade divina, porque aí você vê a coincidência entre o ser, o conhecer e o dizer. Você está dentro do âmbito da verdade. Você está sendo aquilo que você está dizendo. O dizer não é só mais comunicação humana. É prova de uma ação presencial, real, que você está praticando, naquele momento, sobre você mesmo e sobre os outros. É nessa hora você irá dizer: “Eu sei o que eu estou dizendo.” Todas as dúvidas, todas as perguntas e todas as discussões do mundo não podem abalar a minha certeza porque só eu sei disso que estou falando. Ninguém pode impugnar a minha visão das coisas, porque é a visão na qual coincide o meu conhecimento e a minha presença de mim mesmo. Então é isso que eu chamo de o método confessional. Eu acho, cá entre nós, que é assim que você fala com Deus. Se você vai levar em conta só os seus pecados e disser: “Aqui está você com sua bela consciência cristã, limpinha, e lá estão os malditos pecados”... Não está tudo misturado, como realmente é. Eu acho que é a sua verdadeira alma que você deve mostrar pra Deus. Assim como é a sua verdadeira alma que você deve mostrar para as pessoas. Eu acho que isso funciona; eu tenho testado isso e tem funcionado para mim. Não fui eu que inventei. Santo Agostinho praticou isso. Pascal praticou isso. George Bernanos praticou isso. Isso funciona. Você é a garantia das suas palavras, ainda que ninguém as entenda. Eu queria desenvolver esse tema mais, mas hoje não dá. Até a semana que vem. Muito obrigado. [3:13] Transcrição realizada por: Jayme Dutra do Carmo Neto, Hugo Schmitt, Ana Angélica de Godoy Valente, Vladmir Scarpa, Pedro de Lima, Mariana Belmonte, Élcia Maria da Silva. Revisão realizada por: Ronald Robson