Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 39 02 de janeiro de 2010 Boa tarde a todos, sejam bem vindos. Alguém me pergunta se eu poderia fornecer o programa do curso para o próximo ano e demais. O programa é impossível, o que há na verdade é um temário e dentro deste leque de temas nó temos que nos mover de uma forma mais ou menos livre conforme o aprendizado, conforme a resposta, conforme vamos sentindo o feedback dos alunos, mas em princípio, a partir de março, quando começa o segundo ano do curso, eu desejaria conceder um longo tempo à questão de teoria do conhecimento baseando sobretudo no livro do Joseph Marechal1, Le Point de Départ de la Métaphysique (O ponto de partida da Metafísica), que eu estou traduzindo e será fornecido para vocês, como apostila, à medida que vão prosseguindo as leituras. Quer dizer, a leitura de cada capítulo, deve anteceder a aula. O capítulo será lido durante a semana e na aula nós faremos um comentário para complementar alguma coisa. É um livro bastante didático, bastante ordenado e extraordinariamente bem escrito. A tradução implica certos problemas porque, ele faz todas as citações gregas somente em grego, então nós temos que providenciar a tradução de cada trechinho, mas, alguns capítulos já estão prontos e até março nós teremos mais, de modo que a tradução estará cerca de três a quatro meses adiantada em relação ao material que nós estaremos fornecendo para vocês. Este é um livro quase impossível de localizar. Eu mesmo tive que comprar os vários volumes separadamente de fontes distintas, e isto é uma grande pena, porque é um dos livros mais didáticos e ordenados que eu conheço para filosofia. Provavelmente nós devemos ficar um ano girando em torno desta questão da teoria do conhecimento, partindo do Joseph Marechal e com outras fontes que serão citadas no decurso das aulas. Da Teoria do Conhecimento, nós partiremos em seguida para a Filosofia das Ciências, que é algo que deve abrir para a compreensão de todo o panorama cultural atual e das questões fundamentais que estão em disputa no momento, isto seria o segundo ano. Quanto aos dois últimos anos do curso, o plano está totalmente em aberto, mas o plano para estes dois próximos anos é este. Uma coisa que nós não podemos esquecer aqui é que nem todas as pessoas que fazem este curso estão interessadas em uma atividade de estudo filosófico assim ex professor. Há muitos escritores, artistas, gente das ciências naturais, é uma gama variada de interesses. Nosso objetivo não é formar filósofos no sentido acadêmico da coisa, mas formar, se possível, uma nova elite intelectual, abrangendo, portanto, as várias áreas da vida intelectual possível. Então, a todo o momento, nós teremos que abandonar a linha coerente de exposição doutrinal-filosófica para voltar a certos assuntos que são de interesse cultural mais geral. E nós faremos isto à medida do necessário. E este necessário é avaliado justamente pelas perguntas que me chegam. As perguntas são muito importantes para eu ter um feedback. Ademais, há outro aspecto fundamental que eu coloco entre os objetivos prioritários deste curso. Se nós queremos realmente criar uma elite intelectual capaz de sanear o ambiente intelectual brasileiro, a coisa mais obvia é que nós temos que começar pela restauração da linguagem. O estado da língua no Brasil é tão lamentável que ela não funciona efetivamente como instrumento de comunicação para além de certo nível muito básico e elementar de informação. Por exemplo, eu noto que é cada vez menor o número de pessoas capazes de captar uma ironia, uma nuance, quanto mais de explicar as suas percepções dos lances mais sutis da psique humana. Estes dias eu estava lendo novamente um livro que acho maravilhoso, A terceira existência de Joseph Kerkhovens2, de Jakob Wassermann, e certamente as descrições ali contidas de estados interiores e de sutilezas na comunicação humana, hoje, no ambiente brasileiro, creio que sejam quase incompreensíveis. As pessoas não pegam estas sutilezas, de modo que, não só a comunicação, mas o próprio tecido da vida humana no Brasil se rebaixou muito. Hoje em dia a língua portuguesa no Brasil serve apenas para exprimir certas emoções e certos impulsos imediatos, de natureza puramente animal, como por exemplo: o medo, a dor, o ciúme, o desejo sexual e etc. Tudo muito elementar, muito corriqueiro. Boboca no fim das contas. E pior, à medida que a língua — portanto o nível de consciência — decresce, a capacidade que as pessoas têm de observação crítica dessa mesma situação também decresce. Outro dia eu li uma matéria escrita pelo Lucas Mendes — o sujeito lá do Manhattan Connection ­—, que é normalmente um sujeito inteligente, mas ao escrever sobre um compositor brasileiro, residente nos Estados Unidos, que havia composto uma Ópera e não estava conseguindo encená-la, nem gravá-la de maneira alguma, passava a idéia de que o tal compositor era um gênio incompreendido. E disse que o indivíduo também compunha algumas músicas mais populares, em um estilo que ele dizia ser o do velho Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Ele dava lá a letra de uma das músicas. Quando eu li a letra da música, fiquei absolutamente passado, de tão idiota que era a coisa. A música se chamava Cheiro de Xereca. Eu imagino que o próprio Luiz Gonzaga poderia fazer alguma coisa do tipo Cheiro de Xereca, mas ele faria alguma coisa engraçada e que teria algum sentido. O sentido total da letra é o seguinte: “Quando eu sinto cheiro de xereca eu fico excitado”. Mas ó o raios, quem é que não sabe! Eu acho que o meu cachorro, o BigMac, tem exatamente esta mesma emoção, e eu não vejo nenhuma dificuldade em compreender uma coisa desta. Não vejo sequer como que uma letra de uma música popular deva ser composta para dizer uma coisa tão simplória, tão material, tão imediata. Coisas que não é preciso dizer. Isto é o mesmo que dizer que o olho enxerga, que o ouvido ouve, a língua sente gosto e cheiro de xereca provoca uma ereção, e pronto. Precisa dizer isto? Não precisa porque todo o mundo sabe. É baixado o nível para o da [0:10] redundância mais chata, mais rasteira, e isto assinala uma situação grave. Não acho tão grave o sujeito compor esta porcaria quanto o crítico ler e achar que aquilo é uma coisa notável. É evidente que isto assinala uma baixa de consciência. Normalmente, a linguagem, sobretudo a linguagem das artes, é usada para transmitir coisas que você não perceberia. Já dizia o velho Hippolyte Taine, salvo engano, que “a literatura serve para dizer aquilo que os simples fatos não dizem3”. Quando um romancista descreve uma situação, um diálogo, é preciso que nas entrelinhas esteja dito muito mais do que as próprias palavras do diálogo dizem, e, justamente, articular estas palavras de modo a revelar o que está por detrás delas, esta é toda a arte! Agora, o que há por detrás de uma emoção, tão primária, tão literal e direta quanto essa que a musiquinha celebrada pelo Lucas Mendes veiculava? Então nós estamos descendo — quando você vê esta coisa toda de Rap, Música Popular, como é hoje em dia, ela é toda uma expressão de obviedades físicas imediatas, que normalmente nem para uma criança precisaria dizer, pois uma criança sabe daquilo. Se o sujeito dissesse que, quando ele sente cheiro de xereca ele tem fome. Bom! Aí seria uma coisa extraordinária, uma informação extraordinária, mas dizer que ele tem excitação sexual!? Ora, o cheiro existe para isto mesmo. Entre os animais, quando a cachorrinha entra no cio os outros cães ficam avisados, ficam excitados, aí… É a coisa mais antiga e mais óbvia do mundo. Não há mais um segundo plano por detrás da linguagem. Principalmente na literatura, há vários planos, quando se lê uma página de Goethe, Marcel Proust ou Dostoievski, há camadas e camadas de sentidos que se sobrepõem até ao infinito. Quando se lê, por exemplo, a primeira linha do primeiro terceto da Divina Comédia4 de Dante, escreveu-se volumes, volumes e volumes de livros para se explicar o que ele queria dizer com “o meio do caminho, a selva obscura, o estado perdido” e etc. Os versos de Camões5 “Transforma-se o amador na cousa amada”, isto ai dá muito pano pra manga. Agora, com a letra do sujeito, como é que nós vamos fazer uma hermenêutica deste treco aqui? Não há hermenêutica, esta frase quer dizer esta frase e não há mais nada que acrescentar. E esta frase diz realmente muito pouco, como se dissessem: Olha, os fósforos ascendem — e assim por diante —, carro não anda sem gasolina — informações desta ordem —, isto é tudo o que se consegue dizer em português. A primeira função de uma elite intelectual é restaurar a língua portuguesa. Esta restauração não acontecerá se nós não começarmos pelo essencial, que é a restauração do sistema de verbos. A língua portuguesa no Brasil é a única que na história do Ocidente perdeu duas pessoas verbais. Perdeu a segunda pessoa do singular e a segunda pessoa do plural, obrigando-nos a rodeios para distinguir se estamos falando da própria pessoa que está em nossa frente ou de um terceiro. Por que se não temos o “tu” e o “vós” acabou a possibilidade de comunicação, então se começa a apelar para uma expressão indireta, o próprio “você”. ­­“Vosmecê”6 já é um expressão indireta, como se fosse “Vossa excelência”, quer dizer, não se está dirigindo à pessoa, mas à excelência que se supõe residir nela, que é um terceiro personagem. Se chamo o Lula de Vossa excelência, não estou me referindo à pessoa dele, mas ao cargo que ele ocupa que é um terceiro elemento na comunicação. Estes rodeios vão se tornando cada vez mais complicados e tornando a comunicação cada vez mais difícil, tanto que, viajando pelo mundo, se observa que em nenhum país a distância entre a linguagem formal, de um discurso, de um livro, de um tratado científico, é tão distante da língua corrente como no Brasil. São praticamente duas línguas. Se escrever na língua que o povão fala, ninguém entende, e, mais ainda, é uma língua de curta duração, porque há os elementos de gíria, as construções improvisadas, que dentro de dois anos as pessoas não conhecem mais. Por exemplo, experimentem ler um exemplar do Pasquim, que nos anos setenta era a “língua” da juventude carioca, hoje ele se tornou incompreensível. É mais fácil ler Camilo Castelo Branco do que o Pasquim, por que aquela língua toda se perdeu. A língua popular se transforma muito rapidamente e não há tempo de estabilizá-la na literatura. Como resultado, a linguagem formal e a linguagem informal vão se distanciando, ao ponto que a possibilidade de educar pessoas, partindo da linguagem informal delas e trazendo-as para a língua formal, é quase impossível. Não há mais o que fazer. Outro dia um sujeito me escreveu uma carta, onde disse: “Gosto muito dos seus artigos, mas, de fato, para a juventude, eles se tornaram incompreensíveis, porque você usa palavras como ‘silogismo’, ‘verossímil’, e eles não sabem o que são essas coisas”. Mas como é que pessoas de 20 anos, universitários, não sabem o que quer dizer a palavra verossímil? De fato, eles não sabem. Então, se não restaurarmos esta linguagem formal, como língua de cultura, como instrumento de comunicação, acabou, não vai haver cultura superior no Brasil jamais. Observa-se, na língua popular — não digo na língua de certos grupos fechados — que, por exemplo, um grupo de jovens de determinado bairro tem lá a sua comunicação, mas eles sabem que se forem para outro bairro não poderão falar do mesmo jeito, pois não serão compreendidos. Porém, no Brasil, as pessoas não têm esta noção. Cada um acha que a língua do seu local é a língua universal. Cai exatamente na definição do provinciano de Ortega y Gasset, que dizia ser o provinciano um sujeito que acha que o mundo é igual a sua província. Este não sabe que no mundo existem outras províncias. E, no Brasil, todo o mundo é assim. O sujeito usa ingenuamente aquela linguagem do seu grupo de referência e acredita que o universo tem a obrigação de compreendê-lo. Não sendo possível uma língua formal que seja compreendida mais ou menos por todos, a comunicação de realidades mais sutis, de estados de alma, se torna absolutamente incompreensível. Isto assinala, no fim das contas, uma crise de dimensões quase antropológicas: a perda de certas capacidades humanas, que já estão consolidadas por milênios de civilização. Creio ter comentado aqui o artigo do Humberto Eco, onde ele diz que as pessoas que não receberam uma educação religiosa não podem entender certas obras de arte. Não é que elas não podem entender certas obras de arte, elas, praticamente, não podem é entender nada da cultura dos séculos anteriores. Há é um processo de esquecimento geral, e, portanto, de baixa formidável da consciência histórica e da consciência em geral. No Brasil, isto aconteceu com muito mais profundidade e com enorme rapidez. Lendo escritos dos anos quarenta, eles já soam muito estranhos hoje, e não se pode dizer que a mesma coisa aconteça nos Estados Unidos. Claro, que se um sujeito vai ler um livro de Dickens ou Henry Fielding7, sentirá a diferença de tempo, mas ele sabe mais ou menos localizar, sabe distinguir a linguagem do século XIX, do século XVIII ou do século XVI. E no Brasil ninguém tem mais isto. Um senso da história da língua, ninguém tem mais. Quando eu digo ninguém, eu digo o pessoal universitário, inclusive pessoas que se dedicam ao estudo profissional de Letras. É claro que se a restauração da língua é tão importante, então, isto não é um problema específico do ensino de filosofia, mas do treinamento intelectual geral, e nós teremos de [0:20] voltar a isso de tempos em tempos. Não posso, nas dimensões deste curso, eu mesmo, promover ou dar a vocês os instrumentos desta restauração, mas posso lhes indicar outras fontes, sugerir certos exercícios, sugerir certas leituras que lhes dêem isto. Voltando ao que é o nosso tema específico deste ano, este primeiro ano foi dedicado a duas coisas: primeiro, a lhes passar certas técnicas da vida intelectual em geral — não técnicas do estudo da filosofia, mas de melhoramento da sua inteligência, e de integração da sua consciência —; em segundo lugar, fazer uma série de considerações sobre o aspecto existencial da vida intelectual — o que é o exercício da vida intelectual nas condições da sociedade brasileira e mundial hoje em dia —, e, neste sentido, tenho observado, e vou reiterar aqui novamente, que o principal obstáculo, não só ao aprendizado da filosofia, mas a todo o progresso intelectual pessoal, não é obstáculo de ordem intelectual, mas de ordem psicológica e moral. Se a pessoa não tem a estrutura de caráter necessária para esta atividade, por mais que ela estude não lhe vai adiantar. O primeiro motivo pelo qual eu digo isto é o seguinte: estudar e descobrir coisas, avançar no mundo do conhecimento, é saber coisas que outras pessoas não sabem. Isto é por definição. O que quer que você tenha estudado, as pessoas irão estudar aquilo e elas não sabem. Não só neste curso, mas em qualquer curso de filosofia ou qualquer curso de ciência em alto nível, você irá adquirir conhecimentos que para a totalidade das pessoas do meio que você freqüenta são absolutamente inacessíveis. Saber o que os outros não sabem modifica completamente o teor das suas relações com eles. Sempre lembrar o que falava William Hazlitt8, as desvantagens da superioridade intelectual. A primeira desvantagem é que as pessoas não te compreendem como compreenderiam alguém do nível delas. Muitas vezes reparo que alguns alunos sofrem com isso porque, simplesmente, não estavam avisados de que saber é saber o que os outros não sabem. Esperavam que seus amigos, desprovidos de qualquer interesse intelectual superior, continuassem a compreendê-los e a amá-los, como faziam antes. Isto é absolutamente impossível. Isto não existe. Num primeiro momento, sentindo-se então rejeitados pelo seu meio, as pessoas, ou carregam uma solidão terrível, sentem-se angustiadas, ou buscam outro grupo de referência. Deixe-me falar, primeiramente, como é que a aquisição de conhecimento, como que, a elevação do seu nível intelectual modifica as suas relações com outras pessoas. Goethe dizia que o talento se aprimora na solidão, mas o caráter se aprimora na agitação do mundo. Há sempre de se levar em conta estes dois pontos; e, pela minha observação, o desenvolvimento do caráter é o mais importante. Por que sem ele você não tem a resistência para o aprendizado. Quando você começa a aprender coisas, a ler coisas, que a sua própria personalidade não está suficientemente sólida para agüentar, você vira uma espécie de monstro de duas cabeças. Você vê uma pessoa com “desenvolvimento intelectual” relativamente grande colocado em uma alma de criança, em uma alma pueril. É claro que a alma pueril não entende as implicações do que ela mesma está sabendo. É ridículo você ver um indivíduo saber discutir Kant ou Hegel, mas que, ao mesmo tempo, não é capaz de administrar a sua vida, não é capaz de se relacionar com as pessoas de uma maneira adulta. Tudo isso é muito feio. Isto tudo cria personalidades disformes, verdadeiramente caricaturais. E, infelizmente no Brasil, como, a atividade intelectual é precária, é incipiente, a maior parte das pessoas que se dedica a ela é exatamente assim. São, personalidades disformes. São pessoas que tem certo conteúdo de leitura, certa capacidade de raciocínio verbal, mas que não tem estofo suficiente para arcar com a responsabilidade daquele conhecimento, então, evidentemente viram caricaturas. Como esta caricatura é o que predomina em certos meios, sobretudo no universitário, ela dará a projeção social da idéia de intelectual no Brasil. É evidente que nós não podemos nos deixar guiar por esta caricatura, não é isso que nós queremos ser quando crescermos! Um ponto fundamental para este aprendizado, é que você aprenda a se relacionar com as mesmas pessoas com quem você se relacionava antes, com os mesmos meios sociais, só que de outra maneira. Antes você era igual, as pessoas gostavam de você por que sentiam que você tinha os mesmos objetivos, os mesmos valores, a mesma linguagem, as mesmas preocupações, as mesmas emoções etc. e tal. Há aí aquela identificação fácil de um primeiro momento. Mas, a partir do momento em que você começa a ter outros conteúdos e outras preocupações que eles não compreendem, você está no meio destas pessoas como alguém que está investido de uma responsabilidade para com elas. Regra número um: estas pessoas não tem nenhuma obrigação de compreender você, é você quem tem a obrigação de compreendê-las. Isto é absolutamente Fun-Da-Men-Tal! Não espere compreensão. Dê compreensão! Compreensão significa paciência com a burrice alheia e, ao mesmo tempo, nenhuma cumplicidade com a burrice alheia. Se as pessoas não o compreendem, você as compreende. Você está colocado como um pai perante seus filhos, ou como se fosse um psiquiatra diante dos seus louquinhos, ou como um professor diante dos seus alunos do primeiro ano primário. As pessoas estão se tornando crianças em relação a você. Se você não assume esta diferença em relação ao nível de consciência você não amadurece. Uma das características do homem maduro é precisar de pouca afeição e de pouca compreensão, e ser capaz de dar muita. Ao contrário, quando criancinha ou adolescente você oferece pouca compreensão, mas precisa de muita. Você precisa de muita afeição, precisa sentir-se aceito. Por quê? Porque você ainda não tem solidez! Você está como uma massa amorfa, incerta, feita de geléia, que precisa a todo o momento ser solidificada por algum fator externo. Alquimicamente é o mercúrio e o enxofre. O mercúrio é a substância móvel, incerta e instável, que precisa que venha o enxofre e o solidifique. Em Alquimia é o mercúrio, o enxofre e o sal. O sal vai ser o cristal, a forma final. É esta força solidificante que lhe dá, ao mesmo tempo, uma forma reconhecível e lhe dá o senso de segurança. Uma criança ou adolescente, ela busca isto sempre fora dela. Por exemplo, a autoridade dos pais, confirma a criança no que ela está fazendo. Eu reparei, quando os meus filhos eram pequenos, que freqüentemente me pediam autorização para fazer coisas que eles estavam carecas de saber que já estavam autorizados. Por exemplo: posso pegar um doce na geladeira? — mil vezes eles me perguntavam, mil vezes eu lhes falava que pode —; ­posso ir ao banheiro? — mas é claro que pode! —; posso brincar disso? Posso brincar daquilo? Por que eles faziam esta pergunta? Porque ao fazerem aquilo com a autorização do pai, dava-lhes certo sentido de importância, ao passo que simplesmente fazer era uma coisa meramente empírica sem nenhum significado maior. Então de certa forma o pai o investia de um mandato, que o autorizava a ir ao banheiro, então ir ao banheiro tornava-se uma coisa importante e até meritória. Quando a gente é pequenininho precisa destas confirmações. Por quê? Porque não temos uma personalidade estruturada. Nós somos realmente uma massa amorfa que qualquer vento modifica. Nós somos como a geléia que está sempre tremendo, e precisa de alguém nos apertar para adquirir uma forma, só que nas condições da sociedade atual, especialmente no Brasil, as pessoas permanecem neste estado por muito tempo, é o que se chama adolescência prolongada. Um fenômeno estudado por aquele “sociólogo sueco” Erik Homburger Erikson9. Adolescência prolongada pode ir até os cinqüenta anos. Agravado, ao mesmo tempo, por uma [0:30] prosperidade maior da classe média e alta e uma restrição do mercado de trabalho. Há menos empregos, e ao mesmo tempo as famílias têm mais recursos. O pai tá ganhando mais dinheiro, então ele pode sustentar você, mas você não encontra um emprego para você. Ou não encontra emprego porque o mercado de trabalho se restringiu, ou porque o mercado de trabalho está exigindo mais qualificações do que as que você tem. Na minha geração, a dos sessenta anos, o normal era aos dezesseis, dezessete anos você já estar fora de casa trabalhando. Hoje não, Garotos de quarenta anos, ainda dependendo do pai e da mãe, ou, até o contrário, pessoas que até têm uma vida econômica relativamente independente, mas que psicologicamente são muito dependentes de uma autoridade externa, de uma confirmação externa. Esta confirmação pode vir por duas formas, primeiro, pode vir por uma comunidade. Comunidade é o bando dos iguais, é a patota de juventude. São os seus companheiros de geração, por assim dizer. Você sentir-se integrado nessa sociedade, sentir-se um igual é um reconforto porque você sente que você é uma pessoa normal. O seu padrão de normalidade é dado pela sua semelhança, pelo reconhecimento que você tem de que as suas emoções, suas aspirações, seus valores, seus sonhos são iguais aos de seus companheiros. E a segunda forma da confirmação é dada pela autoridade; alguém que você não considera igual a você, mas que considera um superior. Esse superior por sua vez terá de representar alguma entidade que transcende a sua relação pessoal com ele. Por exemplo, ele representa uma igreja, ele representa um partido, ele representa uma tradição, ele representa o governo, ele representa alguma coisa que lhe parece transcendente. A necessidade deste tipo de apoio cresceu por causa do fenômeno da adolescência prolongada, mas, ao mesmo tempo, acontece que todas as instituições estão em crise há mais de cem anos. A busca da autoridade, a busca da confirmação pela autoridade se torna tanto mais intensa quanto menos há autoridades dignas de confiança. Por exemplo, se você observar o que se passa nas religiões hoje em dia — e eu tenho estudado isso há bastante tempo —, veja o que se passa com o Judaísmo. Você lê no livro do Rabino Marvin Antelman, To Eliminate the Opiate, a demonstração de que uma crise interna no Judaísmo remonta ao começo do século XIX. Justamente no instante em que os Judeus começaram a ser mais aceitos na sociedade européia, eles começaram a ter representação no Parlamento, começaram a ter acesso aos cargos universitários etc. Porém, antes viviam separados dentro do Gueto, onde imperava a autoridade do Rabino. Havia uma justiça dos leigos em volta e havia uma justiça interna, uma autoridade interna dentro do Gueto, e a autoridade do Rabino era incontestável, dentro dos limites do Gueto. A partir do momento que abriram as portas do Gueto e começaram a participar da sociedade maior, a autoridade do Rabino caiu. Você tem aqui o Rabino que diz uma coisa, mas o Juiz leigo diz outra coisa; por uma mera questão de subsistência, sobrevivência, o sujeito vai aceitar a sentença do Juiz, Na medida em que cai a autoridade do Rabino, se dissolve a identidade do grupo Judaico. É como dizer que cada judeu individualmente tem mais margem de ação na sociedade, mas que a comunidade como um todo perdeu força. Perde força porque perde identidade. Hoje em dia, para o judeu médio, o rabino da comunidade dele é um sujeito que não tem mais autoridade do que o Padre da esquina, do que o Pastor protestante ou do que o Guru hinduísta ou o homem da Seicho-No-Iê. Vocês vejam, por exemplo, os filmes do Woody Allen, que é um judeu de origem. Não tem um filme dele que tem um personagem que experimenta todas as religiões? Ele está procurando uma religião que sirva para ele. Então, é claro que ele foi desprovido da proteção espiritual e psicológica da comunidade judaica. Ele está solto no mundo agora. Aí há um paradoxo: quanto mais a comunidade judaica é aceita em uma sociedade maior, mais ela fica desprotegida. Mesmo com a formação do Estado de Israel, isso não fornece a eles a proteção devida porque o Estado de Israel está cheio de cidadãos não judaicos que estão lá dentro com representação no Parlamento pedindo a extinção do próprio Estado de Israel. Isto começou há uns duzentos anos atrás. Ao mesmo tempo, havia a infiltração no meio judaico por sociedades secretas e entidades interessadas em dissolver tudo aquilo, criando versões de judaísmo liberal que amoldavam o judaísmo ao gosto da sociedade entorno e que dissolviam ainda mais a identidade judaica. Tudo isso que aconteceu dentro do judaísmo no começo do século XIX, aconteceu dentro do catolicismo a partir dos anos trinta, quarenta e, principalmente, a partir do Concílio Vaticano II. Seja judeu, seja católico, o sujeito está solto dentro de uma sociedade de massas sem a devida proteção espiritual, psicológica da sua comunidade religiosa. Aquela proteção simplesmente não funciona mais. Parece que quem tem um pouco desta proteção são os mussulmanos. Eles têm uma comunidade integrada em nível mundial. A identidade mussulmana, de todas as identidades religiosas, é a única que tem uma figura identificável, clara, que contribui de certo modo para que o indivíduo saiba quem ele é. Se ele disser que é mussulmano, em qualquer lugar do mundo em que for, será recebido na mesquita. Eles têm uma comunidade de valores, de símbolos, de objetivos… Mas acontece que o Islam que existe hoje no mundo não é Islam, é uma Teologia da Libertação Islâmica. O pessoal da chamada Fraternidade Mussulmana inventou uma versão da teologia da libertação, muito antes que os católicos inventassem uma teologia da libertação. Se você ler as obras de Sayyid Qutb10, que é o grande fundador da Fraternidade Mussulmana — um sujeito que foi enforcado pelo governo Egípcio por subversão na década de trinta e depois virou post mortem o grande Guru do Islamismo Mundial —, verá que quilo lá é pura Teologia da Libertação. Ele tem um livro que se chama À Sombra do Alcorão, veja o sujeito se traiu no título do livro, porque ele o chama de À Sombra do Alcorão, e não À Luz do Alcorão. De certo modo ele se traiu, pois pegou todo um edifício de ensinamentos espirituais e transformou tudo aquilo em ativismo político, dando uma interpretação obviamente politizada de tudo aquilo e transformando o Islã inteiro em uma Máquina de Guerra. O próprio texto do Corão dá margem para as duas coisas. Há partes do Alcorão em que se diz que você tem de matar a todos os infiéis, e outras que mediatizam o conceito de infiéis excluindo deles os Judeus e os Cristãos e etc. Mas se você quiser considerar o Cristão como um infiel, você também pode fazê-lo. Se você quer considerar o Cristão, um companheiro seu, porque é um membro do ahl al kitâb11, quer dizer O Povo do Livro, você também o pode. Conforme as várias escolas teológicas, você ou vai fazer uma coisa ou vai fazer outra. E o fato é que a escola dominante hoje é a da teologia da libertação. É curiosíssimo — e acho que é um dos sinais da burrice contemporânea — o fato de que simplesmente o conceito de teologia da libertação jamais seja usado como ferramenta descritiva para dizer o que está acontecendo no Islã hoje. E o que está acontecendo no Islã hoje [0:40] é isto: a teologia da libertação tomou conta de tudo. Por não existir no Islã, uma autoridade central como o Papado, então ninguém pode dizer qual é a interpretação ortodoxa do Corão. A corrente que se tornar majoritária, ela ganhou! E quem ganhou a concorrência? Foi a Teologia da Libertação. No Ocidente, no mundo católico, existe a teologia da libertação que dominou a América Latina inteira, a Ordem Jesuíta etc., mas tem o papado e o papado pode dizer que “não, isso aí está errado”. Não que ele vá expulsar todo mundo, mas, pelo menos doutrinariamente ele informa que está errado. Mas no Islam não tem quem possa fazer isso. Se uma corrente ganhou, ou seja, conquistou um número suficiente de pessoas, ela é que passa a ser a ortodoxia. Então, hoje no Islam não há outra ortodoxia senão a da Fraternidade Mussulmana e, portanto, a teologia da libertação islâmica. Embora se diga que o Islam esteja crescendo etc., ele está em uma crise interior tão ruim quanto a Igreja Católica ou o judaísmo, e outros. Há quem se tenha apegado ao Budismo, mas esta é uma religião que vive no exílio e cujo chefe, o Dalai Lama, está tão atrapalhado da cabeça que, mesmo tendo sido expulso do Tibete pelos comunistas, os lisonjeia. Ele tenta ganhar a simpatia de seus carrascos — o que deve deixar milhões de Budistas totalmente desorientados, porque no Tibete os comunistas estão empreendendo a destruição sistemática da Tradição Budista — mas no exterior às vezes se queixa disto e em outras diz que o Marxismo é baseado em um idealismo… Isso é uma interpretação pueril do Marxismo, é uma coisa indigna de atenção. Outras pessoas apelam para o Cristianismo Ortodoxo, mas nele também há uma quantidade de patriarcas e bispos biônicos criados pelo regime comunista, uma coisa que não acaba mais. Não dá para saber quem é quem!… Então, se vocês se apegam às religiões estão lascados. Não existe mais confiabilidade nas autoridades de nenhuma religião. Este é o estado real no qual nós estamos. E, eu acredito que, de certo modo, é uma situação providencial. Quando a Bíblia fala que as estrelas vão cair, vocês sabem quem são essas estrelas: essas estrelas são as autoridades religiosas. A profecia apocalíptica diz que a estrelas vão cair. Já caíram todas. Realmente, não há em quem confiar. Na medida em que as religiões perdem o seu gás, a sua força espiritual, elas começam a tentar apelar para instrumentos de manipulação que foram criados por seus próprios inimigos: apelar para programação neurolingüística, apelar para lavagem cerebral, apelar para modalidades de arregimentação e de propaganda que foram usadas pelo Partido Comunista, e assim por diante. Todas estão fazendo isso, todas, não tem uma que não esteja. E, nesta altura, então você imagina: o adolescente real ou o adolescente prolongado, que se sente isolado ou até perdeu a cumplicidade dos seus amigos e se sente incompreendido por todo mundo. Diz assim: “ah, depois que eu comecei a estudar, a minha namoradinha não gosta mais de mim” ou “mamãe fica rindo da minha cara”. O sujeito pega uma comunidade religiosa, um movimento religioso e ele se apega àquilo como se fosse uma tábua de salvação, como se ele estivesse se afogando no mar e apareceu um tronco. Ele se apega mesmo àquilo e, pessoas que não têm discernimento espiritual nenhum estão guiando outras que têm discernimento espiritual menos ainda do que elas. E são, na verdade, pessoas inermes. Daí se explica o surgimento desses movimentos de massa, cristãos, protestantes ou católicos, que estão arregimentando milhões de pessoas na base da manipulação emocional mais besta que há. Falando da decadência das religiões, as pessoas pensam que as igrejas protestantes estão livres disso. Outro dia me mandaram um debate de dois pastores importantíssimos no Brasil (eu não vou dar o nome), dois dos maiores, os dois, cada um xingando ao outro em público, dizendo: “você é um adúltero, você é um ladrão, você é isso, você é aquilo”. E o pior é que os dois têm razão. Tudo o que eles estão falando um do outro é verdade. Como é que você vai se entregar ao guiamento dessas pessoas? Não existe mais. A única coisa que existe é a possibilidade de, através do seu próprio desenvolvimento intelectual e da sua própria formação de caráter, compreender certas coisas e conseguir, mais ou menos, guiar-se a si próprio, dentro dessa barafunda. Isso é possível. Por quê? Porque a estrutura humana não foi revogada. As capacidades humanas continuam aí. Basta você exercê-las, pois os meios de adestrar e de fortalecer essas capacidades ainda são os mesmos e ainda funcionam. Outro dia um aluno ou ex-aluno meu me escreveu dizendo que ele foi a um encontro de uma comunidade religiosa, um encontro em que tinha milhares de pessoas e que apareceu lá — ele diz — um padre. Ele diz: só pela presença nós sabíamos que era um santo. Respondo, olha, pense bem essa frase: identificar um santo pela presença é um dom angélico. Ninguém tem esse dom. Ninguém pode conhecer um santo pela simples presença. Ninguém. E, se você estudar as vidas dos santos e a vida do próprio Jesus Cristo, verá que a presença de nenhum deles era muito impressionante. A própria Bíblia diz que Jesus Cristo não tinha encantos. E, se a presença dele, se a simples presença mostrasse santidade, todo mundo teria se convertido e não somente aqueles poucos. Então, se o próprio Jesus não tinha isso, se sabia e se confirmava a missão de Jesus pelos seus milagres e ele fazia os milagres exatamente por causa disso. Ele diria: “Olhando para mim, vocês não vão acreditar no que eu estou fazendo, mas veja o que eu estou fazendo.” Naquele trecho de Mateus, eu acho que é 6:1112, quando perguntam: “Quem é você? Você é o Messias que estamos esperando ou devemos esperar outro?” Ele diz — é o João Batista que está perguntando isso — digam a João o que vocês viram e ouviram. Vocês viram o paralítico andar, viram o cego enxergar. Em suma, pelos seus frutos os conhecereis. Daí, o rapaz dizia: “Não, pela pregação, todo mundo chorou.” Se você quer saber o que é uma pregação de um santo, eu lhe digo o que é uma pregação de um santo. São Vicente Ferrer fez uma pregação em Paris durante sessenta dias e sessenta noites sem parar para comer, dormir ou ir ao banheiro. Isto é um santo. Agora, porque o sujeito falou bonito e fez você chorar, é um santo? Então, o mundo hoje está cheio dessas organizações que preparam encenações coletivas para emocionar as pessoas, para fazer o homem de classe média chorar, e as pessoas ficam arrebatadas por isso. E elas não percebem que isso é uma caricatura grotesca, monstruosa da religião. O Pe. Pio jamais impressionou ninguém pela sua presença. Você olha o retrato do Pe. Pio e diz: “não me impressionei nada, ele parece o homem da padaria”. O fato é que se você chegar para confessar com ele, não precisa confessar, ele dirá que os seus pecados são este, este e este. Isso não para uma pessoa, mas para milhares, inclusive o próprio pai dele. Queria eu ter um confessor desses, porque às vezes eu fico tentando lembrar os meus pecados para confessar e não lembro. Mas o Pe. Pio lembra. E a seqüência de curas miraculosas, uma atrás da outra? Bom, aí você sabe que está na presença de um santo, porque você tem os frutos, não a impressão. Como é que pessoas, que são alunas minhas, que estudaram comigo têm essa falta de discernimento? “Ah, pela presença a gente sabe que é um santo”. É claro que isso é uma palhaçada. Mas, uma vez que o sujeito se envolve nessa palhaçada, ele tem vergonha de confessar que foi enganado. E a vergonha compromete o sujeito mais ainda com esse tipo de líderes. Não interessa de que religião o sujeito vem, se veio da Índia, se veio do protestantismo, se veio da Igreja Católica. Se vier da Igreja Católica é pior ainda, muito pior. Por que é pior? Porque se o sujeito é um padre e ele foi ordenado padre, a ordenação dele vale. Isso significa que a missa que ele reza vale, a confissão que ele recebeu vale, e a comunhão que ele deu vale, independentemente do que ele seja. Isso quer dizer que, junto com toda uma atividade manipuladora e até criminosa — e no caso, essa organização acobertava até um monte de [0:50] crimes —, existe uma atividade que é legítima. O padre que está rezando pode ser até um criminoso, pode ser um pedófilo, pode ser um assassino; a missa continua valendo. No caso desses fundadores dos tais legionários de Cristo, o tal do Marcial Maciel. Ele fundou a organização nos anos 40 e se prevalecia disso para seduzir os jovens — muitas vezes menores de idade — e tinha relações sexuais com os seminaristas. E ele fez isso não durante uma semana, não durante um ano. Ele fez isso durante mais de meio século. Mais de meio século! A coisa só apareceu... O sujeito só foi punido em 2002! Ao mesmo tempo, a organização dele, os outros assessores dele, quando começaram a surgir denúncias, eles fizeram o diabo para destruir aquelas pessoas, ex-membros fugidos, foragidos da organização porque estavam denunciando aquilo. Essas pessoas foram perseguidas, denunciadas em público, atacadas, processadas, o diabo! Tudo para proteger o Maciel. Agora, é possível que essas pessoas convivessem com esse Maciel durante quase sessenta anos e não soubessem nada do que ele estava fazendo? Isso é absolutamente impossível. Então, isso significa que aquelas pessoas acobertaram os crimes do Maciel. E elas hoje dirigem a organização. Isso está sendo investigado pelo Vaticano e em março nós vamos ter a conclusão final. Mas, mesmo supondo-se que o Vaticano não venha a castigar ninguém, que resolva transformar isto numa pizza, não é a punição que prova o crime. É o contrário: é a prova do crime que deve produzir a punição. Se não produzir é porque houve alguma coisa de errado aí. E ainda há pessoas que se impressionam com a presença desses criminosos e dizem: “ah, ela irradia santidade”. Santidade não se irradia. Santidade se vê pelos frutos e não pela impressão, não pela aparência. Como é que alunos meus desconhecem isso? Desconhecem porque o ônus da responsabilidade intelectual é pesado demais para eles. Este aprendizado, a primeira coisa que ele deve mostrar para vocês é que as fontes da autoridade, da segurança, da veracidade, da verdadeira orientação na vida não são fontes visíveis, não estão presentes na sociedade humana; são fontes puramente espirituais. Só pela conquista de um senso de evidência longamente treinado é que você vai ter alguma segurança. A segurança é a da percepção da verdade em condições de perfeita evidência e sem a possibilidade do temor de erro. As coisas das quais nós podemos ter evidência nesse sentido são poucas. Na maior parte dos assuntos humanos, nós não temos essa evidência. Nós temos uma mistura — como dizia o filósofo Abü Nasr Al-Fãrãbi — nós temos uma mistura de certeza intelectual e mera persuasão. Na maior parte dos assuntos é assim. Mas em alguns nós temos a certeza. São essas que nós temos que buscar. Essas poucas certezas de altíssimo nível, essas certezas que são da esfera da ontologia, da metafísica e até, em parte, da ética. Essas são as que nós temos que procurar e elas serão a nossa única certeza. Se você não tem essa certeza na esfera intelectual, a sua suposta fé religiosa será deficiente. Porque a Igreja Católica sempre ensinou que o conhecimento e a certeza da existência de Deus não é matéria de fé, é matéria de razão e conhecimento. Se você não tem isso, que fé você pode ter? Se a existência de Deus para você se torna matéria de fé, você está lascado. Isso não pode ser matéria de fé, jamais. Você tem que ter a plena evidência. Se você não tem, então está colocado numa situação de imaturidade intelectual e espiritual. Você depende de uma autoridade externa que legitime aquilo. É claro que, para a maioria dos seres humanos, não existe a possibilidade do desenvolvimento intelectual como vocês estão tendo. Então, eles sempre dependerão de uma autoridade externa e é para isso mesmo que existe o sacerdócio. O indivíduo fiel, semi-analfabeto, que está indo na igreja não tem condição de obter a certeza intelectual de certos pontos. Então quer dizer que a própria existência de Deus, para ele, se torna matéria de fé, sustentada na autoridade do sacerdote. Esta é uma certeza de segundo grau. Mas, o sacerdote, por sua vez, tem que ter a evidência intelectual. Ele não pode ter só a fé. Porque a fé se refere, por exemplo, à pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que Jesus Cristo nasceu da Virgem Maria, que Ele é o Logos Divino e que ele é o caminho da salvação, isto é matéria de fé. Mas, a existência de Deus, a bondade de Deus, a infinitude de Deus e modus operandi de Deus, nada disso é matéria de fé. A Igreja sempre ensinou isso. E as pessoas ainda não querem aprender, porque preferem que isso seja matéria de fé. Porque isso permite que elas se agarrem à autoridade de uma instituição. Precisa ser uma instituição bem grande, bem rica, cheia de prédios, cheia de templos, cheia de bibliotecas, de museus, para inspirar uma respeitabilidade. O que você está chamando de fé, ao transformar o que deveria ser matéria de conhecimento em matéria de fé, degrada a própria noção da fé, porque a fé que você tem é, de fato, na instituição tal como materialmente ela se apresenta. Eu contei para vocês a história do papa (não sei se contei aqui ou contei no programa). Um dos papas dos primeiros séculos tinha um inimigo. Esse papa achava que as pessoas que saíssem da Igreja e depois voltassem arrependidas deveriam ser aceitas. E ele tinha um inimigo, que era um sujeito mais caxias, mais rigoroso, que achava que não: se o sujeito abandonou, está fora. E, por causa disso, esse camarada combatia muito o papa. E, chegou a ser nomeado anti-papa. Ele foi nomeado papa também pelos seus cupinchas. Claro que o mandato dele não era legítimo, mas ele não era uma pessoa má, ele não era um homem de má intenção, ele estava com intenção certa, mas estava com a doutrina errada. Esse anti-papa foi preso pelos romanos e mandado para trabalhos forçados numa mina de prata, onde as pessoas duravam três meses, porque, quando chegavam lá, a primeira coisa que faziam era castrar o sujeito. Depois, recebiam sessenta chicotadas de uma vez. Isso no primeiro dia. Não, o contrário, primeiro as chicotadas, depois capavam. Eles não eram tão maus assim. Os romanos não eram tão maus assim. E, aconteceu que esse anti-papa foi mandado para as minas de prata e, logo depois, alguns meses depois, o papa foi preso também e mandado para as mesmas minas de prata. Então, os inimigos se encontraram ali. E ali o anti-papa reconheceu o seu erro, pediu perdão ao papa, pediu absolvição e foi absolvido e logo depois os dois morreram. Qual a autoridade que esse papa representava para o seu inimigo? Os dois dentro da prisão, os dois castrados, os dois reduzidos à escravidão, os dois submetidos a um regime de privações que prometia matá-los em pouco tempo. Certamente não era uma instituição com templos bonitos, com muito dinheiro. Não era isso. Era outra coisa. Se você não está pronto a obedecer à autoridade desse papa na mina de prata, é melhor você nem ligar muito para o outro papa que está aí, porque o que você está pensando como papa não é o papa. Você está pensando no cargo dentro de uma instituição enorme, poderosa e milenar. Isso não é o papa, isso é vestimenta do papa. Se o papa não tivesse... Você tem aí na sua frente um papa semi-pelado, sangrando, capado, pronto para morrer. É esse que você tem que obedecer. [1:00] É claro que nós somos poupados desse destino. Nós todos, eu e você, somos muito felizes. Nós não fomos submetidos a esse tipo de desafio. Nosso desafio é bem mais simples e, mesmo assim, muita gente fica com medo dele e corre. Nós não estamos enfrentando o perigo dessa devastação física a que esses mártires foram submetidos. Não, nós só temos uma situação psicologicamente intimidatória, que é a situação de você sentir-se isolado e incompreendido pelo seu meio. Agora você quer que eu chore e diga: “Coitadinho, ele está tão isolado, a namoradinha não gosta mais, papai e mamãe não levam ele a sério, riem da cara dele... Coitado, ele não agüenta isso!”. Você quer que eu tenha dó de homens de quarenta, cinqüenta anos, que ficam buscando uma comunidade religiosa para se refugiar disso? Como posso ter dó? Eu vivi nesse isolamento trinta ou quarenta anos e garanto que ele não mata. Já me aconteceu de todas as pessoas que eu conhecia, todas, todas, com exceção da minha atual esposa Roxane, me virarem a cara e ninguém querer nem falar comigo porque eu estava dizendo uma verdade que eles não queriam engolir. E isso durou anos. E eu perdi assim todos os meus alunos, todos os meus amigos, todo apoio, tudo, tudo, tudo. Fiquei absolutamente sozinho. Morri? Não morri. Fortaleci-me muito com isso. O dia em que você entender que está dizendo que dois mais dois e quatro, e todo mundo está dizendo que é cinco, fique tranqüilo, você vai ganhar. Pode demorar. Pode até acontecer de, se você for muito azarado, ter uma vitória post mortem, mas eles vão perder. Você tem de buscar a segurança no conhecimento da verdade, não no apoio da comunidade ou da autoridade. A única autoridade é o próprio Senhor Jesus Cristo, que é o Logos Divino, que você poderá conhecer por duas maneiras. A primeira é por evidência intelectual, quando você começar a entender como a razão divina governa o mundo, como é a estrutura da realidade. Você não vai entender no conjunto, mas alguma coisa você vai entender. A segunda maneira é pela intervenção pessoal d’Ele na sua vida concreta, o que você obterá através da prece, e não de espetáculos que fazem as pessoas chorarem. É claro que, se vê um milagre, você chora. Eu, muitas vezes, lendo sobre os milagres do Padre Pio, chorava. Quando ele faz uma menina que não tem pupilas enxergar — o que é uma coisa fisicamente impossível — é de nos fazer chorar. Mas não é pela “impressão” que o Padre Pio causou. O Padre Pio não causa nenhuma impressão! Se você vê o filme que fizeram sobre ele, um filme italiano, o ator que faz o Padre Pio tem uma presença física muito mais impressionante do que o próprio Padre Pio. Agora, se as pessoas se deixam levar por esse tipo de coisa, depois de ter estudado anos a fio comigo, eu digo, que coisa! Quanta covardia existencial! Que medo da solidão! Que necessidade de sentir que você está falando com Jesus, quando você está falando apenas com um vigarista! Isso já aconteceu várias vezes para vários alunos meus e, graças a Deus, acontece cada vez menos. O número de pessoas que caem nisso é pequeno, vai diminuindo, também em parte porque as minhas capacidades pedagógicas vão melhorando com o tempo e eu consigo me explicar melhor para as pessoas. Há também outra coisa: muitas dessas organizações criam em você o sentimento de pertencer a uma elite. Preste atenção: você não pertence a elite nenhuma. Vocês vão compor uma elite pelas suas obras. Daqui a dez, vinte ou trinta anos, quando tiverem feito obras de inteligência que justifiquem uma autoridade sua, aí sim, começarão a compor uma elite. Agora, não! Você não pode pertencer a uma elite por impregnação, só porque você freqüenta o lugar. Também, se o senso de pertencer a uma elite lhe infunde alguma segurança, algum reconforto, é porque isso não é uma elite, é falso. A elite é baseada no velho adágio noblesse oblige, a nobreza traz obrigações. A aristocracia medieval era aristocracia por quê? Porque o dever número um dela era morrer na guerra. Durante o resto do tempo eles se divertiam um bocado, mas, se houvesse uma ameaça de guerra, só quem tinha obrigação de ir lá eram eles. O povo, os comerciantes, os camponeses não tinham obrigação nenhuma de fazer isso, e muito menos as mulheres e crianças. Se você está à altura de cumprir essa obrigação, você faz parte da elite automaticamente. Agora, só porque você está participando de não sei o quê? Eu conheço várias organizações protestantes, judaicas, islâmicas, católicas, que criam esse sentimento, e tudo isso é exatamente o contrário do que Jesus Cristo ensina. Se você pertence à Igreja Católica, você não precisa de uma segunda organização. A organização à qual você pertence é a Igreja Católica. Em que consiste pertencer a ela? Consiste no seguinte: você confessa seus pecados e participa da comunhão, e no mais você tenta se aperfeiçoar, na linha indicada por N. S. Jesus Cristo. É só isto. Você não participa de reuniões, não vai cantar com todo mundo, não vai ao Pacaembu para ter emoção coletiva, não vai ficar extasiado diante de um pateta criminoso que está lá fazendo uma pregação bonita. Participar da Igreja é isto. Por isso eu recomendo, para as pessoas que estão tentando realmente adquirir as condições de um trabalho intelectual – este sim, de elite –, é imperdoável pertencer a qualquer dessas coisas e é imperdoável não suportar o isolamento social, que não é um isolamento, na verdade, porque você vai continuar vivendo no meio das mesmas pessoas. Pelo contrário, são esses movimentos que gostam de isolar as pessoas do mundo, fazê-las perder o contato com família etc., e ainda comprometê-las com o chefe, por um juramento de segredo. Dois mil anos de doutrina de Igreja condenam qualquer segredo. O único segredo que a Igreja aceita é o da confissão. Se alguém lhe fez um juramento secreto, é contra a Igreja, evidentemente. Agora, se o padre fez isso com você, mas ao mesmo tempo ele reza a missa, é o seguinte: o juramento de segredo não vale nada e é criminoso, mas a missa continua valendo. Essas organizações católicas são as piores de todas porque elas usam dos meios criminosos junto com instrumentos legítimos e válidos, e justamente nessa ambigüidade é que elas ganham credibilidade. Quando digo pra fugir dessas coisas, de qualquer organização que seja, eu estou dizendo o seguinte: cada um de vocês, que é um estudante e está se preparando, tem de arcar com a responsabilidade do seu conhecimento, e tem de ajudar as pessoas em torno e ser paciente com elas, não exigir que o compreendam. Ao contrário: como eu posso esperar que a minha mãezinha, que está com noventa anos, coitada, e só teve o estudo primário, me compreenda? Eu é que tenho de compreendê-la, ter paciência com ela. E os seus amiguinhos de juventude, fique sabendo que você já disse adeus como membro da patota deles, você não é mais um igual. Você agora, de certo modo, é responsável por eles. Não que você vá curar todos, ensinar a todos, mas você terá de ter uma paciência extra com eles. E digo, com toda a sinceridade, você ser amado por todas as pessoas do seu grupo não vale nada perto desta capacidade que você pode ter de compreendê-los e amá-los mesmo quando eles não te compreendem, mesmo quando eles não gostam de você. Isto é o sentimento paternal por excelência. Eu tenho oito filhos e um monte de alunos, e eu sempre penso assim: se não gostarem de mim, problema deles, porque eu os amo da mesma maneira. Eu não estou pedindo recompensa porque eles não têm nada para me dar, eu é que tenho para dar a eles, e esta é a minha obrigação. Se eles não gostarem de mim, não importa. Eu não estou precisando desse reconforto. [01:10] Essa atitude minha não fui eu que inventei. Isto é tradicional, tanto no ensino religioso quanto na tradição filosófica. O número de filósofos que foram incompreendidos, maltratados, perseguidos, assassinados, é muito grande. O número dos que foram humilhados! Por exemplo, na Idade Média havia as grandes universidades que possibilitavam a reunião dos maiores intelectuais. Eles mais ou menos conviviam com seus pares e eram relativamente compreendidos ali. Numa fase posterior, a unidade da universidade medieval se dissolve e começam a surgir novos grupos de intelectuais extra-universitários sob a proteção dos reis e dos nobres. Esse novo tipo de intelectual que surge — nessa classe se incluem Descartes, Leibniz, Bacon —, todos eles tinham uma posição subalterna em relação aos seus protetores que, freqüentemente, por estarem subsidiando a vida deles, se julgavam superiores a eles. Entre os séculos XVI e XVIII praticamente não se publica um livro de filosofia ou ciência que não tenha uma enorme dedicatória a algum nobre imbecil. Já é uma situação extremamente constrangedora. Como é que esses intelectuais então mantinham a sua dignidade neste meio? Alguns não mantinham de maneira alguma: se o príncipe mandava escrever outra coisa, eles obedeciam. Mas alguns aceitavam às vezes uma posição realmente subalterna. Leibniz, por exemplo, foi bibliotecário de um nobre. David Hume foi bibliotecário de outro nobre. Então as relações deles com seus patrocinadores eram mais formais e não implicavam outras obrigações além daquelas da profissão. É uma maneira que eles encontraram de manter a sua dignidade. Muitas vezes, no exercício de certas funções intelectuais, você precisará da ajuda de outras pessoas. Se você tem um projeto de pesquisa que não pode realizar sozinho porque custa dinheiro e terá de empregar outras pessoas etc., vai precisar de um patrocinador. No Brasil, em 100% dos casos, o patrocinador achará, mais dia, menos dia, que sabe mais do que você. Então você terá de ter paciência com o sujeito e gradativamente mostrar que quem sabe é você. Você não pode abdicar da sua autoridade em função da autoridade do mero dinheiro, desde que tenha conhecimento da coisa. Além do mais, entre as pessoas de certa fortuna no Brasil, todas elas são mal formadas e inseguras, e às vezes se apegam a você como esses jovens que eu mencionei se apegam a uma autoridade religiosa, entendendo-o de uma maneira completamente errada. Estão buscando em você aquilo que certas organizações de massa lhes ofereceriam, e, pior ainda, se sentem membros de uma elite porque, em vez de procurarem uma organização de massa, vieram buscar um sujeito mais qualificado, como eu. Aí você tem tentações e mais tentações, motivos e mais motivos de corrupção. Tudo isso vai acontecer pra vocês, mas isso faz parte da natureza deste trabalho. Entenda que as fontes da autoridade são duas: há a autoridade da evidência, que é justamente o que nós vamos buscar aqui, e que depende de muito treinamento até você começar a ter uma certeza pessoal dessas coisas, e existe a autoridade de Deus, que se transmite através da tradição religiosa, quando ela não foi rompida. No caso da Igreja Católica, ela não foi rompida totalmente e nunca será. Enquanto houver um sujeito rezando missa, aquilo está funcionando. Mas toda a encarnação social da autoridade já caiu. Essas organizações grandes, cheias de gente, com uns prédios bonitos, ali mesmo é que não tem autoridade nenhuma. É de uma vacuidade assombrosa. Nós estamos, espiritualmente falando, na fase mais perigosa da História humana. Já houve, fisicamente, outras fases mais perigosas, como a 2ª Guerra Mundial, quando morreram quarenta milhões de pessoas. Hoje nós somos poupados daqueles perigos, mas, em termos de espiritualidade e corrupção intelectual, nós estamos no momento mais perigoso da História humana, um momento no qual a capacidade de discernimento e de certeza intelectual vai se restringindo e não tem mais encarnação externa. Vejam essas pessoas que deixam de confiar na Igreja porque “agora nós confiamos na razão, na ciência, na academia...” Isso foi uma ilusão que durou duzentos anos, foi uma religião que surgiu no século XIX. Os intelectuais começam a pensar nisso no século XVIII, mas isso se encarna publicamente na França, no século XIX. O sistema educacional francês foi todo montado em cima do culto da ciência. Então se tinha a impressão de que agora nós temos outro clero, que não é religioso, mas é dedicado ao conhecimento, à razão etc., e que ele se distingue do outro clero porque ele está sempre em discussão consigo mesmo, ele se corrige etc. Essa ilusão idealizada da ciência não durou cem anos! Em menos de um século, a comunidade científica começou a mostrar a sua corrupção, que é maior do que a dos políticos. Vejam essa coisa toda que aconteceu em torno do aquecimento global. Como comunidade, os cientistas não têm autoridade nenhuma. O número de vigaristas é enorme e o número de bobos é maior ainda. Então, já não se pode confiar nem na ciência como instituição? Não, não se pode. Não dá pra confiar. Você vai ter de confiar na busca dos meios de evidência pessoal, e você será sempre falível, vai errar em 80% dos casos, mas a sua capacidade de discernimento nunca vai acabar, nunca será destruída. Se você materialmente não tem a evidência, a certeza, nem por isso você perde a capacidade de obtê-la. E, na medida em que você obtém alguma, aí você descobre o que é o sentido de uma tradição intelectual, uma tradição espiritual na qual uma fileira de pessoas em épocas diferentes percebeu exatamente a mesma coisa. Então aí você pode dialogar com Al-Farabi, com Platão, com Al-Kindi, com Muhyiddin ibn’Arabi, com Aristóteles. Aí você participa de uma espécie de comunidade atemporal, onde as pessoas não estão ali para te garantir, para te dar segurança psicológica, apenas são pessoas com as quais você pode dialogar de maneira a adestrar e aperfeiçoar a sua própria inteligência, de modo que você compreenda pelo menos o que elas compreenderam, e saiba complementá-las, corrigi-las onde for necessário. O ser humano, para viver com bastante segurança e firmeza, não precisa ter certeza quanto a muita coisa. Dois ou três pontos são mais que suficientes. E, nos demais pontos, a certeza intelectual jamais poderá por si mesma orientar toda a sua conduta, porque a certeza intelectual é de ordem abstrata e universal. Para a sua conduta, você precisará de outro complemento, vai precisar da fé. E o que é a fé? A fé não é você buscar reconforto numa instituição rica e multitudinária, onde todos pensam igual, choram igual, se dão as mãozinhas... Não é isso. A fé é a confiança numa pessoa que fez uma promessa, e esta pessoa não está visível no momento. Ela age, eu garanto para vocês que ela age. Nós vemos a ação, [1:20] depois de algum tempo. Porém, não age sempre, age condicionalmente. Como as pessoas não sabem qual é a possibilidade de resposta, elas ficam numa incerteza e, às vezes, quando pedem alguma coisa, dizem “Jesus Cristo, me dê tal coisa se você achar que é conveniente.” Mas espere aí. Jesus Cristo disse que, se você pedir a Deus-Pai em nome d’Ele, Jesus Cristo, Deus-Pai atenderá. Então, se é uma coisa que você não pode legitimamente levar lá e pedir em nome de Jesus Cristo com a autoridade de Jesus Cristo, não adianta você pedir. Se pedir coisas muito vagas e incertas, é porque você não sabe o que está querendo. E como é que você vai levar a assinatura de Jesus Cristo num requerimento cujo objeto é mais ou menos indefinido? Então é isso: você não pode pedir uma coisa e dizer “Ah, me dê isso se você quiser.” Entenda que tudo aquilo que é bom, Deus quer dar para você, tudo, tudo, Ele disse isso, Ele prometeu, e, se você não confia nisso, você não tem fé. As coisas que tem de pedir são coisas objetivas, reais e que você tem certeza que Jesus Cristo quer dar a você. Se não tem certeza, não peça. Não se trata de uma seleção moralística; é muito mais simples do que parece. Claro, a seleção moralística existe também. Você não pode pedir a Jesus Cristo que lhe dê uma chance de comer a mulher do vizinho. Mas isso é elementar e bobo demais, acho que nenhum de vocês teria essa idéia. (Pode ter a idéia de comer a mulher do vizinho, mas não de achar que Deus quer que você faça isso.) Então, peça coisas de que realmente precisa e que são boas para você. Peça-as da maneira mais explícita possível, em nome de Jesus Cristo. O que significa pedir em nome de Jesus Cristo? Significa chegar junto ao trono de Deus-Pai e dizer: “Olha aqui, Teu filho me garantiu.” Às vezes, só para saber o que você quer, leva um tempo. Se você não tem a prática da meditação, da confissão interior, do exame de consciência, muito menos você vai saber o que quer. É por isso que eu faço dois pedidos por ano, se tanto, porque é só pra eu esclarecer. Eu tenho que chegar lá com firmeza e clareza perante Deus, “Olha, estou pedindo isso em nome do Teu filho, porque Ele me prometeu.” Mas se eu estou em dúvida, bom... Se você não sabe se quer ou não quer, por que vai pedir? Por que jogar o problema de volta para Deus? Que estupidez! Isso é o não pedir. Ou você quer, ou você não quer. Sim, sim, não, não. E a coisa pode vir pelos meios mais inesperados e improváveis. Por exemplo, eu pedi que Jesus Cristo me tirasse do Brasil. Eu disse a Ele: “Se eu ficar aqui mais duas semanas serei internado no hospício, não agüento mais esse negócio. Não tenho a menor dúvida quanto a isso, e eu sei isto aqui, meu Deus: Seu filho me prometeu que Ele vai me dar, estou pedindo em nome d’Ele, com autoridade d'Ele.” E veio, rapidinho veio. Essas coisas acontecem. Essa experiência você vai ter mais tarde na sua vida, se não está tendo agora. Este é o conhecimento baseado na fé. A fé é a posta que você faz numa pessoa em quem você confia. Você sabe que ela o ama e você a ama, e que não há problema entre você e ela, não tem frescura. Não há frescura entre você e Jesus Cristo. É a técnica do Irmão Lawrence, que escreveu no século XVIII: a técnica dele era conversar com Deus o tempo todo. É a técnica de Santo Agostinho também. Só que, para nós, essa técnica tem outra relevância além daquela que tem para os fiéis comuns. É a relação que a gente tem de ter entre a sinceridade e a busca da verdade objetiva. Normalmente as pessoas acreditam que verdade é aquilo que foi verificado com medidas exatas e confirmado por um monte de gente que se chama “comunidade científica”. Somente verdades irrelevantes podem ser confirmadas assim. Todas as verdades da ciência, nesse sentido, são irrelevantes, porque elas se referem apenas a aspectos abstrativos da realidade, e aspectos que podem ser facilmente manipulados do ponto de vista tecnológico. Você não pode orientar sua vida com base nisso. A ciência inteira não pode orientar sua vida. Por quê? Já expliquei mil vezes: não existe ciência do fato concreto, e a nossa vida se dá na concretude. Fato concreto é o fato considerado na multidão ilimitada dos acidentes que o compõem. Não existe ciência dos acidentes. Então, a par da razão científica, você tem de desenvolver outra razão, que é a razão concreta, que se baseia na presença da sua consciência plena diante de uma realidade concreta plena, ou seja, estar acordado e saber exatamente o que está acontecendo. Isso é uma técnica em que se misturam elementos de disciplina intelectual e até de disciplina religiosa, se quiserem. É só isto que funciona. O resto é tudo enganação. Nós estamos agora, realmente, no império da mentira anunciada pelo Apocalipse. Não significa que estejamos às portas do fim do mundo. As pessoas especulam quanto ao fim do mundo, mas você sabe o que é o fim do mundo? Não. Se você não sabe o que é, como poderá saber quando será? Além disso, o fim do mundo aconteceu para todo mundo que já morreu. O mundo para eles já acabou. Se morrer um monte de gente ao mesmo tempo, que diferença faz isso do ponto de vista divino? Todo mundo morre. Especulações quanto ao fim do mundo são uma coisa ridícula, mas você vê sinais de uma situação anunciada profeticamente. O reino universal da mentira nunca foi historicamente possível a não ser a partir do momento em que passam a existir os meios de propagar a mentira instantaneamente para todo mundo. Isso é uma situação que só se realizou nos últimos cinqüenta anos, com a globalização das comunicações. Sem isso, o reino universal da mentira é impossível. Hoje há um meio de realizar isso. Outra coisa que iludiu muitas pessoas foi o filme Matrix. Muita gente ficou impressionada. Eu considero isso um sinal de miolo mole, porque no filme Matrix o mundo da falsidade é tão perfeito que o sujeito traz um negócio que tem aparência de banana, tem casca de banana, tem gosto de banana, tem as propriedades nutritivas da banana, nasceu de uma bananeira... e é falso. Não existe falsidade tão perfeita assim. O que o filme faz é a apologia da falsidade demoníaca. Santo Agostinho dizia que nada agrada mais aos demônios do que hipertrofiar o poder deles. O demônio não fabricará bananas tão perfeitas assim. Ele não refará o universo físico; ele só vai refazer o mundo imaginário das pessoas. Fora do mundo imaginário, o demônio não tem poder algum, por definição. Ele não pode mudar a estrutura do universo objetivo, porque isso [1:30] seria atribuir a ele poderes criativos, da criação ex nihilo. O filme Matrix parece estar denunciando a mentira universal, mas não está denunciando; ele é a própria mentira universal. A coisa mais incrível do reino da mentira universal é que ele deixa a realidade intacta. Ele não modifica nada objetivamente, só modifica a cabeça das pessoas, de maneira que a realidade continua aí na sua frente, e você a perceberá sempre que quiser. Você só não vai aderir à realidade se tiver medo. Quando você percebe a realidade, há ali três elementos: você, a realidade que você está percebendo e o Espírito Santo, que está conectando os dois. Só tem esses três elementos, não tem ninguém mais. Ninguém está vendo aquilo. Quando você tenta explicar aquela realidade para outras pessoas, elas às vezes não compreendem, e às vezes até o matam porque você disse a realidade. Viver na realidade é viver nessa conexão onde só há três elementos. Se você quiser mais alguém, já complicou o negócio. Mas você pode e deve tentar ensinar essas pessoas, porque não há a menor possibilidade de que as suas partes falsas, constituídas de meras ilusões da cabeça, sobrevivam após a morte. A sua fantasia, a sua mentira, vai acabar. Só pode se conservar aquilo que é real mesmo. As provas de vida após a morte são tão imensas e esmagadoras que não dá nem para discutir. Vocês leiam o livro do Dinesh D’Souza, “Life after Death”. Não é uma coisa que dê para discutir mais. Aulas atrás expliquei para vocês uma coisa que eu considero fundamental, mas temos de voltar a elas sempre, sempre, sempre. Tudo o que você conhece pelos simples sentidos é fragmentário. E a matéria da qual se construiu este mundo físico quando observado para além dos sentidos estudados em nível quântico também é fragmentário. Matéria não tem continuidade, é só uma coleção de impressões. E, no entanto, nós sabemos que vivemos em uma realidade que é unitária e permanente, mas quando você busca sinal disso na aula de física só encontra fragmentos. Então é absolutamente necessário que, para além do mundo das estimulações físicas, fragmentárias exista um fundamento contínuo. Tem de viver com olhos neste fundamento contínuo, o qual é invisível, inodoro, insensível e onipresente. Você tem acesso a isso de duas maneiras: através da evidência intelectual e através da fé. Só há esses dois. Mas, se não tiver o primeiro, a sua fé vai ser muito deficiente, porque coisas que você poderia conhecer por si mesmas, você está confiando nelas apenas por fé. Como elas em si mesmas não são matéria de fé, a transposição delas para a escala da fé implica a confiança em uma autoridade externa que a garante. Onde está essa autoridade hoje? Você pode dizer: “Ah, o papa”, e eu lhe digo: “Você tem idéia da situação do papa?”. O papa no Vaticano está perdido, está cercado de traidores por tudo quanto é lado. O que ele pode fazer é mínimo, mínimo, mínimo, mínimo e o que ele pode falar é menos ainda. Você não tem de se agarrar ao papa não, tem é de rezar por ele. Porque vejo que esse papa – e eu não era fã do Cardeal Ratzinger antigamente –, vejo que depois de papa, ele está tentando fazer muita coisa certa, e ele está lutando contra inimigos que você não tem nem idéia do tamanho. Veja que a infiltração da igreja católica começa na década de 30 e foram milhares de pessoas que hoje são bispos, cardeais etc., sem contar outras organizações que por outros motivos como, por exemplo, pessoal infiltrado pelo movimento gay na religião para fomentar a pedofilia etc., e sem contar tudo o que foi destruído no Conselho Vaticano II. Ou seja, nossa Igreja está passando por uma catástrofe e eu não falo só para quem é católico, não pense que os protestantes estão livres disso, não, porque o que acontece à Igreja católica repercute neles. Por mais que eles tenham raiva da Igreja católica em algum ponto, ela é o ponto de referência, sempre foi. Se ela afunda, eles afundam junto. Então, o que você tem de fazer é o seguinte: não é no papa que tem de buscar sua segurança. Ao contrário, você tem de ajudar o papa a ter segurança, tem de rezar por ele para que ele acerte, para que não se dobre, não se intimide, para que ele faça o que tem de fazer. Por exemplo, todo o mundo sabe que em maio ele vai para Fátima. E sabe que Nossa Senhora ordenou que fizesse um juízo de consagração da Rússia a ela e isso não foi feito até hoje... Enrolação, enrolação, enrolação. E há uma possibilidade de que ele o faça. Você tem de rezar para que ele o faça, para que ele cumpra o seu dever. E daí você diz: “Ah, mas o papa é infalível”. O papa é infalível em matéria de doutrina e moral, quer dizer, ele não vai modificar a doutrina católica no sentido errado, mas é perfeitamente possível que um papa perfeitamente legítimo erre em todas as suas decisões desde que elas não modifiquem a doutrina. Qual foi a última modificação doutrinal, a última novidade doutrinal? Foi a ascensão de Nossa Senhora, que foi proclamada no século 19. Depois disso não houve mudança doutrinal nenhuma. Os papas não erraram, simplesmente porque eles não acrescentaram nada, aliás, o papa não está lá para alterar as doutrinas, ele está para mantê-la e quando acrescentar alguma coisa tem de ser uma coisa coerente com o resto. É infalível só nesse sentido, porém todas as decisões políticas, pastorais, educacionais, podem estar todas erradas, podem ser um desastre. Então, nós temos de dar o nosso apoio espiritual a ele e não ficar pendurado na autoridade do papa. O papa não garante ninguém. Você tem de aprender a solidão em companhia, a solidão da responsabilidade intelectual, a solidão de quem sabe mais e de quem arca com uma responsabilidade maior do que os outros e nunca fugir da companhia humana. Mas também nunca esperar que as pessoas de mais baixo nível de consciência o compreendam. É você quem deve compreendê-las, ajudá-las, corrigi-las e assim por diante, ou seja, você não é mais irmãozinho de seus amigos, agora você é o pai deles. Você está em um upgrade. Essa posição é muito honrosa. Certo, só que isto também corresponde a um grau de solidão pelo qual indiretamente você participa dos padecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque nunca houve um sujeito que estivesse mais sozinho no mundo do que Jesus Cristo na cruz, que estava sabendo de tudo e ninguém estava entendendo de nada, e até os próprios discípulos saíram todos correndo, deram o maior vexame. A cruz é o começo da nossa civilização e é a imagem em que todos nós nos inspiramos, independentemente da nossa religião pessoal. Porque se você está dentro desta civilização historicamente judaico-cristã, este é seu ponto de referência e todo seu imaginário está condicionado aí. Por exemplo, eu leio muito Jakob Wassermann, dos escritores do século XX é o meu preferido de longe. O Jakob Wassermann era um judeu. Ele não era um judeu ortodoxo de ir à sinagoga toda hora e tal. Eu vejo que todo o universo imaginário dele é o universo cristão. Não quer dizer que ele seja cristão pessoalmente. Isto vale para quem é católico e para quem não é. De certo modo, o destino das pessoas que buscam o conhecimento é o próprio Cristo na cruz, é a solidão, só que ele viveu isto de uma maneira muito pior do que nós, ele não está nos jogando todo aquele peso nas costas, está? É só um pedacinho e notem que o pedacinho que nós carregamos é muito menor do que carregou um Richard Wurmbrand, do que carregaram tantos mártires. O que está sendo pedido a vocês é pouco, não afrouxem, não se acovardem, não fiquem com choradeira! É uma grande honra poder fazer esse trabalho aqui. Agradeçam a [1:40] Deus. Por que logo eu fui escolhido para me dedicar a estes estudos, para elevar a minha consciência, para ensinar? Não tem nada de choradeira. Ademais, este seminário tem mais de mil membros, quer dizer, você pode fazer um monte de amigos que têm as suas mesmas preocupações. Não quer dizer que você diga: “Ah, agora só vou falar com as pessoas do seminário e com mais ninguém”. Se você fizer isso, está lascado. Daí você transformou isso aqui numa espécie de legionários de Cristo e fecha todo o mundo lá dentro, e diz: “Agora nós não falamos mais com os profanos, vivemos aqui todos protegidinhos... e transando lá com o superior”. Mas o que é isto, minha gente! Tudo isto, a dose, o mico que a humanidade está pagando nestas últimas décadas é o mico universal, então nós estamos sendo poupados de pagar esse mico, não queremos fazer com que a nossa vida seja uma palhaçada. E o único segredo disso é a sinceridade interior que deve permanecer viva não somente nas horas das grandes decisões morais, mas na própria busca do conhecimento. Você tem de confessar para si mesmo se o que você está estudando, se o que você está lendo realmente corresponde com o que você sabe, com o que você viu, mas não somente com uma parte do que você sabe. A sinceridade é o método de buscar a verdade. Quer saber, a essência do que eu estou ensinando é isso. Sinceridade e conhecimento são a mesma coisa, não existem dois universos: aqui é o universo da ciência que é objetivo, impessoal etc., e ali é o mundo das emoções pessoais, dos valores pessoais... Isso é uma invenção da sociedade burguesa que já está caindo! Não existe verdade sem responsabilidade moral. Você vai dizer: “A verdade é inteiramente objetiva”. Se a verdade for inteiramente objetiva será uma verdade que ninguém conhece. Se alguém conheceu, então você já tem o comprometimento da subjetividade humana naquilo. Não pode ser isto o que nós estamos procurando. Não é isso que você está procurando. Senão nós vamos cair no mesmo dualismo, naquela mesma divisão que determina, por exemplo, toda a filosofia de David Hume, uma espécie de esquizofrenia organizada, em que de um lado existe um mundo físico absolutamente incognoscível, e do outro lado existe uma série de emoções e sentimentos tradicionais aos que você se apega por simples medo. Se fosse isso, seria uma palhaçada. E não é essa palhaçada que nós estamos querendo buscar. Bom, vou fazer um intervalinho e responder às perguntas em seguida. Vamos recomeçar. Aqui havia uma pergunta. Como é que é? Formula a pergunta de novo. Aluno: Caso uma pessoa que está vivendo desde criança em um meio contaminado pelo crime, por exemplo, e ela cresce acreditando que aquilo é uma verdade, ela gostaria de ser um líder, por exemplo, do tráfico de drogas dentro de uma favela e ela pede aquilo com pureza no coração, ela acredita que aquilo é uma coisa boa para ela, não foi dito que é errada, ela vai conseguir isso? Olavo: Já entendi a pergunta. A pergunta é a seguinte: se você perde uma coisa que é objetivamente má embora você esteja subjetivamente persuadido de que é bom, como é que se coloca isso? O que você está colocando é o problema da sinceridade. O que vai decidir isso é a sinceridade. Agora, na linguagem corrente, as pessoas usam a palavra sinceridade para apenas designar o que você faz quando você diz o que pensa, exatamente como o pensa, mas a sinceridade não se compõe só disso, sinceridade não é só você dizer o que pensa, é pensar as coisas como elas efetivamente se apresentaram, não é isto? É você aceitar o que a presença delas está dizendo por si mesma. Quer dizer, a sinceridade não está só na emissão do que você diz, mas está também na percepção. Não há sinceridade na emissão se não há sinceridade na percepção. Quer dizer, consciência falsa não tem sinceridade alguma, apenas auto-engano. Infelizmente na linguagem corrente as pessoas restringem o sentido da sinceridade apenas à emissão, de modo que diz que ele tem de ser sincero só quando fala, mas tem de ser sincero quando percebe também. Sincero ao receber, quer dizer, aceitar o que a realidade está lhe dizendo. Está compreendendo? É impossível que o sujeito que está, por exemplo, no narcotráfico, não perceba o dano e o sofrimento que ele está espalhando para milhões de pessoas. Se ele não quer perceber isto, se ele não quer perceber a realidade, ele está vivendo dentro de uma redoma de ilusões que ele mesmo criou para seu próprio reconforto, então não há sinceridade aí. Mesmo que ele diga exatamente o que ele pensa — digamos que o que ele pensa não reflete o que ele percebe — há, mesmo assim, esses três elementos: dizer o que pensa, pensar como percebe e perceber as coisas como elas são, ou seja, como elas realmente se apresentaram. Sem isso não há sinceridade. Saiba que a sinceridade se compõe inseparavelmente desses três elementos: O primeiro desses elementos é apenas uma capacidade de expressão verbal: “Eu sou capaz de dizer o que penso”. Agora, pensar de acordo com aquilo que você percebe já é outra coisa. Você está criando um nexo que não existe espontaneamente nem naturalmente entre a atividade de pensar e a de perceber. Se você pensar assim: quais são as forças que presidem, causam e determinam o que eu penso? Bom, existem inúmeras forças. Existem influências de outras pessoas, existe a linguagem estereotipada da mídia, existe a pressão dos colegas, existem as exigências da família, existe um monte de coisa que determina o seu pensamento. Em geral, nós repassamos isso adiante com certo automatismo sem permitir que as coisas mesmas nos digam o que elas são. Está compreendendo? Então, em muitos casos nós estamos vendo apenas o que nós queremos ver. Não temos amor à realidade. Agora, o pessoal fala: “Amor à verdade”. Bom, antes de você ter amor à verdade, você precisa ter amor à realidade. A realidade é o que acontece, e a verdade, por assim dizer, é a expressão em pensamento daquilo que acontece. Se não tem amor à própria realidade tal como ela se apresenta, você não tem isso que eu chamei antigamente de contemplação amorosa, quer dizer, deixar que a realidade seja o que ela é. Porque a pessoa realmente pensa que só tem duas alternativas, ou projetar na realidade seus desejos, suas imaginações ou então assumir uma atitude de indiferença e de distância científica. Ora, essas duas coisas são uma palhaçada, porque a indiferença e a distância científica farão com que o objeto se afaste e que ele seja visto só na sua versão redutiva e objetiva. Você não está querendo a realidade, está querendo aquela parte que pode ser tratada cientificamente. Isto não é amor à realidade, é amor à ciência e é amor, sobretudo, à segurança intelectual que a ciência lhe dá. Então a sinceridade na percepção só se realizará se você tiver um amor à realidade, se gostar que as coisas sejam o que elas são. Se você está querendo compreender uma pessoa, tem de gostar que ela seja do jeito que ela é para poder conhecê-la, mesmo que ela seja errada, seja uma pessoa feia, não interessa isso. Querer conhecer a pessoa como ela é, é deixar que o modo de ser dela lhe fale alguma coisa. [1:50] Tudo em volta de nós fala. Até os acontecimentos da natureza física, até uma pedra fala. Ela está mostrando que a sua presença, a sua consistência, o seu tecido interno, o seu peso, a sua enorme complexidade, os fragmentos atômicos que a compõem, tudo isso ela está mostrando para você. Se você juntar todos os livros de mineralogia que tem no mundo, juntar tudo numa biblioteca, isso tem um monte de conhecimento mineralógico, porém nos minerais tem muito mais”. Tudo isso que está nos livros de mineralogia foi visto e, portanto, foi dito pelos minerais àqueles que os observaram. E o comportamento de um animal? Quantas vezes eu fico olhando um cachorro e tentando entender o que ele quer nos termos dele? Ele diz coisas para você, o cachorro se comunica com você, não é isto? Agora, você pode projetivamente vesti-lo com uma estrutura que ele não tem. Pode ser outra coisa, por exemplo, pessoas que estudam cientificamente a conduta animal, quantas vezes fazem isso? Reduzem o animal a uma categoria que permita uma comparação com outro animal e olham sob aquele ângulo, não é isto? Por exemplo, lendo o livro do César Millán sobre cachorros, ele diz que o tal do Dog Whisperer, o maior domador de cachorros que há nos Estados Unidos, insiste muito no aspecto de que “Ah, os cachorros precisam mais de disciplina do que de carinho”. Mas ele perguntou isso para o cachorro? Não. Quem precisa de mais disciplina do que carinho somos nós. Se você ficar afagando o cachorro o tempo todo, mas deixá-lo mijar na sua cama, vai ser um problema. Será um amor infeliz, por assim dizer. Não é que o cachorro por si mesmo esteja requerendo mais disciplina. Na verdade ele quer mais o carinho do que a disciplina. É conveniência nossa. O que ele está dizendo está certo, mas não está dito do ponto de vista da objetividade do cachorro. Na verdade, quanto de carinho o cachorro precisa? Isso varia de cachorro para cachorro. Tem cachorro que pede ansiosamente por aquilo. Eu tinha uma cachorrinha que ela precisava tanto de carinho e quando você fazia, ela gania de fazer xixi de tão comovente que ela ficava. Ela está pedindo aquilo para você e se você não percebe, você é burro. E se eu dissesse: “Não, eu não vou fazer carinho, eu vou discipliná-la”. É a conveniência sua e não a realidade do cachorro, então, como a conveniência sua também é uma realidade, você tem de ver toda a ambigüidade da situação. Observar a ambigüidade, as diferentes linhas de significados da situação, permitir que tudo isso se apresente a você com toda a sua complexidade, sem você ter nenhuma ansiedade de fechar a coisa num ambiente intelectualmente estável. Você esperar que as coisas acabem de dizer é como ouvir uma pessoa. Às vezes a pessoa vem contar uma coisa dela e está se explicando mal, aí você já pula para a conclusão. É uma conveniência sua, quer dizer, você quer poupar o seu tempo e não ouvir a pessoa, então não diga que está querendo ouvir a pessoa. Acho perfeitamente legítimo você querer poupar o seu tempo, mas não venha me dizer que isso é numa maneira objetiva de conhecer a pessoa. Aceitar o modo como as coisas se apresentam - isto é muito importante, é uma coisa que tirei da fenomenologia de Edmund Husserl. Cada coisa tem um modo de se apresentar a você, um modo de ela chegar até você. Esse modo às vezes é acidental, esse modo às vezes não traduz o que a coisa é em si mesma. Mas, através daquele modo, daquele caminho, do percurso que ela usou para chegar até você, pode descobrir mais coisas e mais coisas e mais coisas. Há a famosa cena de Hegel observando a montanha, olhando a montanha, olhando, olhando, terminou e concluiu: “É, é assim mesmo”. Quer dizer, o que ele estava fazendo? Apesar de toda a sua vigarice, Hegel era um filósofo de verdade. Ele estava aceitando a objetividade da montanha, a existência da montanha em si mesma, tal como ela era e não como ele a tinha pensado. Você pode, por um ato reflexivo da sua mente, refletindo sobre o seu pensamento, colocar em dúvida a existência objetiva da montanha, mas isso é uma operação que você está fazendo com você mesmo. Percebi anos atrás que colocar em dúvida meu conhecimento do mundo exterior não afeta em nada os objetos do mundo exterior, só afeta o que eu penso deles. Portanto é uma coisa errada e não é um bom caminho. Vou ler um pedaço de Memórias de Max Planck, o grande físico. Trouxe isso porque eu estava pensando em falar exatamente disso. Ele diz: “Minha decisão inicial de me consagrar à ciência foi o resultado direto da descoberta que não cessou de me encher de entusiasmo desde a minha primeira juventude. A compreensão do fato, que está longe de ser evidente, de que as leis da razão humana coincidem com as leis que governam a seqüência de impressões que recebemos do mundo exterior e que, por isso mesmo, o raciocínio puro torna o homem capaz de atingir um conhecimento íntimo do mecanismo deste mundo. Deste ponto de vista, é de uma soberana importância que o mundo exterior seja de algum modo uma coisa independente do homem.” Cada vez que eu percebo que a existência das coisas não depende de mim, que elas são algo em si mesmas, que elas têm uma existência, que não são a projeção da minha mente, eu não sei como fico entusiasmado, porque penso que se tudo isso dependesse da minha mente o mundo estaria mal parado. Eu na posição de administrador do cosmos seria um fracasso total, não consigo administrar bem nem meus assuntos. Agora, se vou raciocinar assim, kantianamente que tudo depende, tudo é projeção do meu modo de conhecer, meu Deus, está tudo acabado. Se as coisas fossem projeção do meu modo de conhecer, elas seriam alteradas quando eu mudasse de idéia a respeito delas. Por exemplo, quantas vezes contei para vocês que quando eu era pequeno às vezes tinha febre e durante tanto tempo eu ficava deitado. E quando eu tentava andar não sabia mais como andava, e daí eu tive de me reorientar no espaço porque eu tinha ficado todo o tempo na horizontal. E na vertical mudou todo o quadro e daí eu vi que esse sistema das direções do espaço não estava na minha mente, ele estava fora, e eu tinha de me encaixar novamente nisto. É uma experiência como essas do Planck. O mundo existe, não fui eu que fiz. É isso aí que coloca você na pista, digamos, do realismo filosófico, não apenas como uma posição, uma tese filosófica, mas como uma experiência vivida que se impregnou em você profundamente. Ao longo do tempo fui percebendo o quanto da minha mente, o quanto dos meus pensamentos dependiam do mundo exterior. Por exemplo, as direções do espaço estruturam não só a nossa posição física no mundo, mas uma coleção enorme de figuras de linguagem com a qual nós estruturamos as nossas idéias. Quando você diz, por exemplo: “Ah, uma coisa vem na frente da outra”; ou, como se diz, “as primeiras coisas, primeiro, first is first”, você está colocando em uma seqüência ordinal, coisa que na realidade não tem relação ordinal nenhuma. Como você está fazendo isso? Está usando a estrutura do espaço e a estrutura da série dos números, que não foi você quem inventou, como meio de ordenar as suas idéias. Daí eu vi a profunda verdade do que dizia Auguste Comte — um filósofo que eu não aprecio muito, mas que está certo nesse ponto — ao afirmar que você tem de regrar o interior pelo exterior. Modelar o interior pelo mundo exterior, isso é uma coisa absolutamente certa. Os nossos pensamentos fomos nós que fizemos, mas o mundo exterior foi Deus quem fez. E Deus nos fala através da revelação, da mensagem dos profetas e fala através do mundo que Ele criou. Então, se você não presta atenção no mundo, está tapando a boca de Deus. Ele está dizendo para você diariamente que você está dentro do espaço, que é só mais um corpo no espaço, e que essas estruturas de direções do espaço determinam a sua mente. Estrutura a sua mente por dentro, o que está fora estrutura você por dentro e aí você começa a ter uma idéia do que é a onipotência, o conjunto da razão divina que determina toda a estrutura do que você está pensando, e você percebe o quanto você é pequenininho. Isto é o anti-Kant. Nada [2:00] depende da estrutura da minha razão, a estrutura da minha razão é que depende de tudo. Por exemplo, a passagem do tempo. Veja que coisa a noção do irreversível. Se você não tem isso, não consegue pensar em nada, nada, nada. A nossa mente é capaz de inverter a seqüência do tempo. Imagine que uma coisa que aconteceu não aconteceu ou, de fato, desaconteceu. Se a sua mente estivesse livre, você não teria noção do irreversível. E, portanto, você não teria a noção de história. Quer dizer, a sanidade do nosso pensamento depende da nossa humildade diante da criação dentro do mundo exterior. Você veja que São Boaventura dizia que você conhece Deus, primeiro, pelo mundo exterior. Olha que coisa certa. Ali está a estrutura da razão divina. Está na sua frente, em volta de você, aquilo cerca-o por todos os lados. Agora se você não quer ver, se quer imaginar que é a sua cabeça que está moldando tudo, bom, o que nós podemos fazer? Podemos pagar a sua internação no hospital, é o máximo que podemos fazer. Minha adesão ao realismo filosófico remonta à minha infância, porque eu tive experiências ali que me mostraram, sem a menor sombra de dúvida, que o meu pensamento é estruturado, regrado pela ordem do mundo físico, e que não fui eu que criei essa ordem do mundo físico. Atualmente, porém, é grande o número de escolas filosóficas praticamente dominantes, que dizem o contrário. Elas podem dizer o contrário, mas o mundo continuará funcionando do mesmo jeito. Por exemplo, tem uma pergunta aqui: Aluno: Gostaria que o senhor comentasse a afirmativa dos defensores do pensamento politicamente correto, no sentido de que as categorias gramaticais da linguagem moderna modelam as idéias do falante e conseqüentemente as suas ações. Olavo: Ah é Zé Mané?! E de onde saíram as categorias gramaticais? Elas apareceram por si? Ou elas, de certo modo, lhe são impostas pela estrutura do mundo exterior? Por exemplo, a noção de tempos verbais: você sabe que entre línguas diferentes há diferentes sistemas de tempos verbais. Em inglês não temos o imperfeito, por exemplo: eu fazia tal coisa; só tem: eu faço ou eu fiz, então quer dizer que para eles pensarem nisso eles têm que usar outro giro de linguagem. Mas se isto não está no sistema verbal deles, como é que eles conseguem fazer este arranjo para montar as palavras de outro jeito para dizer uma coisa que não está na língua deles? Eles não têm o imperfeito na linguagem, mas eles têm a noção do tempo imperfeito. Se, por exemplo, em árabe você tem só três tempos: o presente, o imperativo (que ao mesmo tempo é futuro) e um terceiro tempo que é a ação ainda não terminada; e, no entanto, o sujeito que fala árabe consegue entender, fazer uma narração com outros tempos, compondo palavras. Onde no português ou no francês usarmos uma palavra, o árabe vai usar três ou quatro, mas vai dizer a mesma coisa. Isso já é a prova viva de que não são as categorias gramaticais que determinam o pensamento. Segundo: as categorias gramaticais foram inventadas pelos gramáticos gregos cem anos depois de Aristóteles, e foram inventadas baseadas nas categorias deste. De onde Aristóteles tirou as categorias? Ele tirou da observação dos seres da natureza física. Ele era eminentemente um biólogo, um médico. Vendo, por exemplo, a semelhança entre vários organismos (entre várias árvores, plantas, lugares), daí ele foi discernindo o sistema das categorias. Esse sistema pode não ser perfeito, pode ser aumentado depois, mas e daí? Ele simplesmente disse o que estava vendo. Teve gente que disse que foi Aristóteles que se inspirou nas categorias gramaticais, mas não existiam categorias gramaticais! O primeiro a falar sobre categorias foi ele e falou primeiro num sentido ontológico, e, depois, lógico. Quer dizer que ele está dizendo que estas categorias são modalidades de ser, modalidades pelas quais o ser se apresenta a você. Por exemplo, algumas coisas se apresentam, por assim dizer, em si mesmas, e outras só se apresentam em outra coisa. O elefante, por exemplo, quando aparece para você ele não vem inserido num outro objeto, ele é um elefante; já a cor dele só vem quando se vê o elefante. Pode-se mentalmente abstrair a cor dos objetos, mas nunca se viu uma cor andando por aí sozinha. Isto é um dado da natureza objetiva, não é a categoria da gramática. Aluno: Agradeço sempre estar no curso de filosofia. Falo com Deus: obrigada por ter me acolhido. Antes do curso intuitivamente eu perguntava nas minhas conversas com Deus: Senhor para que estou aqui? Nesta aula de hoje, professor, o senhor me deu a certeza plena de que Jesus fala, posso escutá-lo... Olavo: Mas que Jesus fala é a coisa mais óbvia do mundo! Isso é um dado experimental! Se você não experimenta não se tem a resposta. Experimento científico você faz de qualquer maneira; o experimento de conversar com Jesus Cristo é um experimento tão complicado quanto qualquer experimento científico. Há regras que tem de ser seguidas e só vai funcionar se for dessa maneira, agora se você fizer assim não falha, nunca falhou. É isso mesmo, agora, temos razão de estarmos felizes. Não sei se fomos escolhidos ou se nós nos oferecemos; acho que nós nos oferecemos, porque esse negócio de dizer que foi Deus que nos escolheu, não sei se é bem assim, não. Jesus Cristo não seria tonto de escolher um sujeito como eu para fazer o que estou fazendo aqui. Ele escolheria alguém muito melhor, mas como não tinha mais ninguém então eu fui lá, me ofereci, e Ele aceitou. E vocês também. Nós aqui somos todos um bando de fracotes, fracassados, vigaristas, entendem? E nós queremos fazer uma coisa melhor! Nós oferecemos e Jesus Cristo nos aceita, ou seja, vira um verdadeiro exército Brancaleone. Mas é uma honra para nós! Aluno: Antes de começar esta aula estava pensando que a juventude não tem idéia do feito extraordinário que é a possibilidade de assistir à sua aula em tempo real, sendo dada dos Estados Unidos a uma centena de alunos espalhados pelo mundo. Mas, ao mesmo tempo, o senhor, durante a aula, mostrou que esta mesma facilidade está sendo usada para a manipulação negativa de forças que não são exatamente positivas, como as igrejas e os partidos de massa, o que está levando os homens a perder sua humanidade transformando-os em cães tais quais o experimento Pavlov. Olavo: Mas é isto mesmo! Você estupidificar o ser humano é uma coisa tão fácil. Eu vi uma vez um sujeito fazendo a seguinte coisa: Estava lá dentro de uma seita e o sujeito conduzindo uma reunião e o pessoal na seita fazendo um barulho desgraçado, ou seja, as práticas espirituais deles eram que nem cachorro latindo. Isto era meia noite. Daí chegou um policial, chamado [2:10] pela vizinhança, e ele foi lá reclamar. O sujeito chegou lá e falou duas ou três coisinhas e fez dois ou três gestos e o policial esqueceu o que ele tinha ido fazer ali! Programação neurolingüística. Isso existe, mas claro que o policial vai acordar no dia seguinte e perguntar-se: mas que diabos eu fiz, porra?! Que nem o negócio do zip (?) , na Itália, quando o sujeito chegava no caixa de banco, falava duas ou três coisas meio sem sentido, e o caixa do banco começava a dar dinheiro para ele que pegava e enfiava no bolso. Dez minutos depois o caixa acordava e pensava, “que coisa eu fui fazer?!”. O efeito passa, mas na hora dura, e se você for submetido a isto uma vez, duas, três fica fácil viciar, e não se consegue sair mais. Já vi pessoas submetidas a isso e a primeira coisa notável é como o nível de consciência baixa, e como a visão que as pessoas têm das coisas se torna mais material, mais simplória, não pega mais certas sutilezas, como se baixasse na escala animal. Leva tempo para a pessoa sair disso e sobre tudo uma coisa que mantém as pessoas escravizadas a isso é o medo de confessar que foram feitas de trouxa. O segredo de sair disso é como acordar de um pesadelo e dizer, “eu estava dormindo e me fizeram de idiota!”. Qual o problema de ser feito de idiota? Vão rir de você, mas não riram do Jesus Cristo? Eu já fui vítima disto, foi um sujeito que entrou nos meus cursos, pegou todos os meus alunos e ele ficava me convidando para ir lá à seita tal, daí um dia, de tanto encher meu saco, eu fui e cheguei lá estavam todos os meus alunos, e falei “e agora? No que eu fui me meter?”. Eu fiquei aterrorizado com a coisa, eu não sei o que é isso, nem como eles fizeram isso. Daí eu pensei “vou ficar bem quietinho aqui e observar”. E se eu tivesse ficado com medo de confessar que fui feito de trouxa, eu estaria lá até hoje! No fim fui lá e estudei o que era e daí botei a boca no mundo, mas não antes de saber do que se tratava; fiquei quietinho um tempo. Mas o capítulo um da minha história é que os sujeitos vieram e me fizeram de trouxa legal! Eu não sou tão inteligente como vocês estão pensando! Eu sou inteligente numas coisas, mas não inteligente em tudo o tempo todo. Então se alguém quiser lhe fazer de trouxa, vai fazê-lo de trouxa, vai escravizá-lo, tomar todo dinheiro que você tem (fazer contribuições milionárias). Agora se eu cobro $30.00 as pessoas já dizem que eu estou tomando dinheiro! Vá ver quanto essas pessoas tomam, pô! Deixam você de tanga, tiram tudo o que você tem, destroem sua vida. Nunca vi ninguém começar a fazer este curso meu e começar a deteriorar. As pessoas melhoram, entram nos eixos, melhora vida familiar, melhora tudo! Porque você está usando a inteligência que é a única arma que você tem. Agora se você vai nessas impressões de santidade, daí já começou a ficar idiota. É claro que sua vida vai pro buraco, mas você vai arrumar várias explicações, tudo para não dar o braço a torcer de que você foi feito de trouxa. Aluno: Tendo a religião no antigo Egito, após várias transformações decorridas por séculos, desenvolvido o conceito de um deus único, identificável com a justiça verdade e misericórdia, o conceito da salvação pessoal pelo arrependimento dos pecados e declaram que o deus do Egito não era um deus nacional, mas de toda a humanidade, até que ponto pode ser que eles não chegaram à abertura do real definida por Eric Voegelin. Olavo: Claro que chegaram, mas no momento em que eles chegaram nisso eles estavam entendendo a estrutura do real. Enquanto estavam presos dentro de uma mitologia local, como dentro de um útero materno, um universo mitológico mais ou menos fechado, estavam então vivendo num mundo de sonhos. Mesmo assim este sonho era tão bem organizado que lhes permitia uma adaptação razoável ao mundo físico. No instante que fizeram esta descoberta, romperam com esse sonho e agora vivem numa espécie de universo em aberto. É claro que isto aconteceu, só que, aí é que está o negócio, uma coisa é o conceito de um deus pessoal etc., e outra coisa é o próprio Deus. O fato de se ter chegado a este conceito é um acontecimento meramente humano, ainda não é a ação de Deus. E esta é uma diferença, a gente vê que Eric Voegelin a vida inteira lutou com esse problema, ou seja, ele não tinha conceitos para falar disso, então do ponto de vista dele não poderia ter muita diferença entre a descoberta dos profetas hebraicos e esta descoberta egípcia, porque aquilo escapa do prisma da história das idéias que é o que ele está fazendo em última análise. Embora ele diga que a história da idéias é uma disciplina deficiente, era com os instrumentos da história das idéias que ele estava lidando. Bom, deus enquanto idéia é uma coisa, mas Deus enquanto realidade é outra completamente diferente. Uma coisa é eu ter de descobrir que Deus não é essas figuras que povoam a minha imaginação, mas que é o fundamento da existência, o fundamento transcendente, invisível e eterno da existência. Oras, agora estou mais na realidade que antes, sem dúvida! Mas este deus que você descobriu, ele é uma personagem, é uma forca agente ou você o concebe apenas como uma força impessoal, como uma causa no sentido aristotélico da coisa? É claro que o conceito de Deus como mera causa está muito imperfeito, está muito incipiente ainda. O deus de Aristóteles é um deus incipiente, que é esse deus que os egípcios descobriram: o primeiro motor-imóvel. Já é alguma coisa saber que Deus é o primeiro motor-imóvel, mas você precisa continuar pensando no assunto e ver se o primeiro motor-imóvel que tenha em si a raiz, o fundamento de todas as coisas criadas, visíveis e invisíveis, não tem a capacidade de agir e falar então ninguém pode ter esta capacidade. Se eu falo é porque Deus fala, ele começou a falar antes de mim, eu sou só o trilionésimo, quaquilonésimo que entra na história. Então esta noção da presença e da ação de Deus, os egípcios não tinham. Isso só aparece realmente, por exemplo, com esses profetas hebraicos já se vê isso, mas são somente os profetas que vêem isso. Deus fala com eles e dá umas ordens e eles vêem que essas ordens fazem sentido e que se eles obedecerem aquilo vai dar certo. É o conhecimento experimental e eles têm esse conhecimento. Eles não vêem Deus, nem o próprio Moisés no Monte Sinai não viu nada, mas eles captam o que Deus está dizendo, Ele manda fazer certas coisas e aquilo que manda fazer dá certo, por mais improváveis e malucas que pareçam. Esta experiência se repete entre os profetas judeus século após século, e isso cria uma tradição que é o próprio judaísmo. Até então eram só os profetas que ouviam, de repente acontece que Deus está fisicamente presente, e Ele não está falando somente com os profetas, mas com todo o mundo, e cura as pessoas na rua. Êpa! Aí é outra coisa não é?! Então se Deus não tivesse essa capacidade, Ele não seria Deus de maneira alguma. Se Deus não pode ser uma pessoa, então ninguém pode ser uma pessoa, porque nada está no real que não esteja antes na onipotência, ou na possibilidade universal a qual é o próprio Deus. O conceito da onipotência, as pessoas não têm, eles pensam nela como uma espécie de força muito grande, eu digo que não, onipotência não é isso, mas sim uma possibilidade universal. Deus pode tudo aquilo que é possível, há coisas que são impossíveis para o próprio Deus. Por exemplo, Ele não pode criar outro Deus igual a Ele. Daí teria que ter dois infinitos e é nesse sentido que São Tomás de Aquino fazia uma brincadeira, um exagero (uma hipérbole) ao dizer que Deus não pode revogar a lógica de Aristóteles. Ele não pode revogar a diferença entre a substância e o acidente, porque sem isso seria desmantelar toda a criação. Deus é a possibilidade universal e a possibilidade universal é aquilo que não contém contradição intrínseca. Quer dizer: é um sistema, um sistema de tudo o que é possível, excluindo o impossível; a impossibilidade também é um sistema que está embutido dentro do sistema da possibilidade negativamente. Isso quer dizer que tudo o que é possível para nós é possível para [2:20] Deus. Tem que ser assim. Mais ainda: é esta mesma noção de Deus transcendente, Deus como ordem da possibilidade universal que fundamentou o surgimento de todas as ciências possíveis, sem isto não teria ciência. Quando você suprime isso a ciência se torna mero convencionalismo, ela nem mesmo pretende ter algum conhecimento da realidade, apenas uma série de convenções que nós criamos para nossa própria conveniência. Eu digo: muito bem, mas você conhece essa conveniência objetivamente ou ela também é projeção? Você tem a projeção, a projeção da projeção, e assim por diante, indefinidamente. . . Com isso a ciência não quer dizer nada. Aluno: O senhor havia dito que não devemos estudar a filosofia por autores, mas por problemas, escolher aqueles que verdadeiramente nos interessam. O assunto que me desperta interesse com urgência é a atenção. Estou tentando traçar o status quaestionis buscando os textos clássicos de autores que trataram do assunto, e pelo pouco que vislumbrei a atenção parece que sempre esteve presente na história da filosofia como um tema de destaque. De qualquer forma está tudo muito vago na minha cabeça. O senhor poderia me dar algum tipo de orientação nessa pesquisa que iniciei sobre a atenção? Olavo: Os autores franceses, desde Maine de Biran a Maurice Pradines, escreveram coisas imortais sobre a atenção. A bibliografia francesa talvez seja a mais rica sobre este assunto. E eu estou deslumbrado que você tenha escolhido isto, pois é fundamental. O tema da sinceridade, por exemplo, como instrumento do conhecimento, a base disto, é um negócio que se chama atenção, saber o que está acontecendo é a atenção, consciência da realidade é atenção. Um tema extremamente oportuno e verei para você mais bibliografia, mas por enquanto eu lhe recomendo os livros de Maine de Biran, e de Maurice Pradines, especialmente o “Tratado de Psicologia Geral” deste. Mas estes são apenas o começo, tem muito mais coisas sobre isso. Eu mesmo pretendo tratar deste assunto numa aula, mas aqui nós temos um problema grave que é o seguinte: eu anda não consegui operacionalizar como vai ser esta orientação pessoal que cada aluno precisará na sua área de estudos escolhida. Eu estou empurrando este problema com a barriga, porque sei que à medida que o tempo passa isso vai se tronando cada vez mais necessário e ainda não sei como organizar isso materialmente. Poderia ser através de sessões do tipo Yahoo Messenger ou MSN, qualquer coisa desse tipo. Outra coisa seria uma linha telefônica — aqui tem umas linhas telefônicas especiais em que vocês pagariam o preço de ligação local —, ou poderia ser de outra maneira. Eu não sei ainda como fazer e também preciso distribuir meu tempo, porque, nada, nada temos quase mil alunos nesse negócio. Se houver necessidade de muitas consultas dessas, então eu vou ficar praticamente o dia todo fazendo isso e o próprio curso acaba. Então nós vamos moderar por enquanto isto, mas eu prometo que estou pensando no assunto e que vamos achar uma solução. Para aqueles que já delimitaram temas que são do seu interesse e que decidiram dedicar-se a eles nos próximos anos, fazem muito bem, mas neste começo de curso eu não vou poder dar a atenção pessoal diferenciada que eu desejaria, mas eu vou fazer isso. Agüenta a mão aí que nós vamos achar uma solução para isso. Aluno: Sobre o Curso da Filosofia da Ciência, seria possível disponibilizar no site do Seminário? Pergunto isso porque tenho muito interesse no assunto e seria ótimo fazer o curso, mas não posso. Olavo: Eu não sei o que vou fazer ainda. Gostaria de fazer exatamente isso: disponibilizar no site do Seminário. Se isto for impossível, eu darei aulas similares aqui mais tarde. Aluno: Estou lendo alguns livros sobre a Idade Média, Jacques Le Goff. O que o senhor acha deste autor? Olavo: Maravilhoso! Esse sujeito diz muita coisa. Outro historiador da Idade Média que eu recomendo é Régine Pernoud e Gustave Cohen. Aluno: Considerando que cheiro de xereca é referencia a algo tão instintivo e desnecessário, por que no caso de um Rubem Fonseca, de um Dom Gregório de Matos, de um Bocage, de um Álvaro de campos, o sexo e a indignação verdadeira andam lado a lado? Olavo: Evidentemente nenhum poeta ou escritor verdadeiro se referirá a um dado do mundo fisiológico apenas para dizer um dado do mundo fisiológico. Ele vai querer dizer alguma coisa além disso. Por exemplo, as letras do grupo Mamonas Assassinas são tão imorais quanto isso, mas elas dizem alguma coisa. Elas provocam uma comicidade que vai muito além dos fatos de ordem fisiológicos que estão sendo citados. Ninguém vai dizer que Mamonas Assassinas é grande literatura, mas comparada com esse sujeito que está sendo celebrado pelo Lucas Mendes, eles estão como Luiz de Camões está para Gilberto Gil, mas a diferença é esta: Mamonas Assassinas eram criativos e sabiam lidar com a linguagem. Há um dos versos deles em que o sujeito abandonado pela mulher na praia, e ela vai atrás do alemão que tinha um carro bonito e ele diz: “fiquei na merda, nas areias do destino”. Isto é poesia! Porque o sujeito está realmente na areia da praia e de repente as areias se transformam numa imagem do imenso deserto em que o sujeito foi jogado, isso é uma figura de linguagem que eles souberam fazer. Agora este idiota que fala cheiro de xereca para querer dizer exatamente cheiro de xereca, não tem a menor idéia do que é literatura ou do que poesia nem nada. É uma coisa rasteira. Você não encontrará este tipo de redundância primária em nenhum autor de grande nome, nem em Rubem Fonseca, nem num Dom Gregório de Matos, nem em Bocage. Bocage era um dos grandes poetas da língua portuguesa! A resposta é essa, ou seja, se não diz algo mais além do que está dito na referência física então não disse absolutamente nada. Aquele cheiro de xereca é como estaria numa receita de remédio, numa bula de remédio. Aluno: Uma vez ao final de um curso o senhor disse que seria melhor se nos mudássemos do Brasil, porque aqui a nossa inteligência seria prejudicada. Tenho considerado essa possibilidade, pensando não só na minha inteligência, mas na integridade da minha família e educação da minha filha etc. Hoje recebemos as recomendações sobre o modo de sobreviver nesse ambiente e as possíveis vantagens de viver aqui. Gostaria que articulasse uma coisa com a outra. Olavo: Você viu a frase de Goethe que eu citei: “Uma coisa é o aprimoramento da inteligência e outra coisa do caráter”. Então tudo depende de você tirar o melhor proveito possível da situação. Se você está no Brasil, não está na melhor situação para o ponto de vista educacional, mas você está numa situação muito boa para aprender a sobreviver numa sociedade desértica. Num deserto de idéias e valores. Esta é uma experiência que pode te fortalecer muito; seu caráter é claro, mas o aprimoramento da sua educação teria que ficar para um pouco depois. [2:30] Viver nos Estados Unidos, por exemplo, todo livro que eu procuro, encontro e a preços acessíveis. Ontem mesmo comprei as obras completas de Luigi Pirandello por $60.00! Se eu fosse comprar no Brasil seriam $2,000.00! Então nos Estados Unidos se tem acesso material a essas coisas, não digo que o ambiente universitário seja bom em toda parte lá, não é! Mas os meios materiais estão lá. Lembro-me da última vez que fui à França e saí procurando as obras do Louis Lavelle e não encontrava nas livrarias o sujeito que soubesse quem era Louis Lavelle, que é o maior filósofo francês do século. Essas obras estão lá, mas o sujeito da loja não sabe e deveria saber, ou seja, o francês que está lá não está tirando proveito daquilo que materialmente está ao alcance dele. Se ele não quer, eu quero! Nos Estados Unidos é a mesma coisa: tem muita gente que não quer os tesouros que tem porque eles nem sabem que existem, mas os tesouros estão lá e se pega mais facilmente, muito mais que no Brasil. E é claro que a discussão intelectual ali também é muito mais elevada que no Brasil, embora também não atenda ao que eu acho que deveria ser, mas está muito melhor. Agora, o fato é que vejo que aqui nos Estados Unidos muita gente se corrompe pela facilidade, tem um sujeito que uma vez fugiu do Brasil para os Estados Unidos há trinta anos, e fez carreira aqui e ele diz “puxa, nos Estados Unidos todas as portas se abriram, as pessoas me ajudaram”, e daí ele disse uma frase que na hora eu gelei, ele disse “os Estados Unidos foram para mim a mãe gentil que o Brasil nunca foi”. Gente, no Brasil as pessoas que tem talento, que tem inteligência para fazer uma coisa séria, são destruídas! Estude a biografia do Lima Barreto que você vê o que o Brasil faz com um homem de talento que nasce no meio pobre. Quanta gente não quis se autodestruir — eu não vou dar nomes porque alguns estão vivos —, como o nosso amigo Bruno Tolentino que se autodestruiu depois que chegou no Brasil. Se você tem qualidades intelectuais, é destruído, a não ser que desenvolva paralelamente a outra coisa, que é uma capacidade de resistência e de luta fora do comum. Eu quero que vocês desenvolvam isso, porque eu quero que todo mundo vá bem – aqueles que saem do Brasil para estudar, e aqueles que ficam aí para lutar. Se decidir ficar, bem, você vai ter um destino muito singular, como eu mesmo tive. Você vai criar hostilidades absurdas, desconfianças loucas (as pessoas de repente têm uma paranóia, começam a desconfiar de você – claro que depois tudo passa, é tudo impressão de momento), mas isso pesa, isso atrapalha a sua vida. E no começo, quando você é jovem, fica muito entristecido, porque vai sofrer tanta injustiça, mas tanta, tanta, tanta — tudo por causo de frescura, de impressão de momento —, e que depois passa! Passam dez anos, a pessoa vem pedir desculpa. Só que aí o prejuízo já foi. Não é? Isso vai acontecer com você, mas isso vai fortalecê-lo. Se tiver o caráter forte, o caráter segura a inteligência. A inteligência humana também tem uma coisa: quando a condição é hostil e está tudo difícil ela, às vezes, consegue abreviar, dar saltos. Adquire uma capacidade de aprendizado que não é normal e que normalmente você não teria. Então tudo tem vantagem. Por exemplo, uma situação favorável, onde a sociedade o acolhe, ajuda-o, paternaliza, pode ser boa para certas pessoas e pode estragar outras. E a sociedade que é hostil, que não lhe dá nada e ainda toma alguma coisa, pisa em você, despreza-o, também pode ser boa. Só que uma situação é boa pra uma coisa e outra é boa pra outra coisa. Eu vejo que o pessoal americano, quando falha, é por caráter: a inteligência cresceu, mas o caráter ficou mole. As pessoas aqui se chocam com pouca coisa. Por exemplo, chega lá no meio, você está falando a coisa mais sábia do mundo, daí você puxa um cigarro pra fumar, pronto! as pessoas estão decepcionadas com você. Elas já não acreditam em mais nada do que você falou. Se você falou que dois mais dois são quatro, elas não acreditam porque você fumou. Ou se você diz um palavrão – no Brasil a nossa linguagem é muito mais livre, nós podemos dizer palavrão; nós latinos dizemos muito mais, mas aqui nos EUA, ah, meu filho, um palavrão que você falou, acabou com a sua carreira. Portanto há evidentemente uma fragilidade da audiência. Uma fraqueza – a necessidade da polidez, a necessidade de parecer normal – só uma pessoa anormal e doente tem necessidade de parecer normal, o homem que é normal está pouco ligando para parecer ou não! Às vezes a gente tem de se esforçar para parecer normal porque a pessoa que está conversando com a gente é uma pessoa frágil, então você não pode escandalizá-la. Mas quando tem de ficar parecendo normal pra homens de sessenta anos ou para acadêmicos... Quê é que é? Isso aqui é um hospício? Eu não posso chocar o sujeito senão ele tem crise existencial? Então a fragilidade de personalidade dos sujeitos aqui é muito grande, mais até do que no Brasil. Aluno: Já que o senhor falou de saúde psíquica, eu lhe perguntaria: se a ciência médica e mídia, especializada ou não, costumam denominar depressão como sendo a doença do século, que teria ela de espiritual? E, se muito, não estaria de certo modo indiferente à ciência médica em tratar da depressão? Olavo: Bem, eu acho que a depressão não é uma doença, ela é um sintoma que pode ser de muitas coisas diferentes. E a coisa vai se traduzir num comportamento depressivo, que é uma espécie de recusa de fazer para si mesmo os benefícios mais óbvios que você precisa. Porque o sujeito depressivo não quer viver. Uma vez eu conheci um sujeito que era um homem muito elegante, muito educado, muito culto, uma das pessoas mais encantadoras que eu conheci na minha vida. Conversava bem, a gente jogava xadrez e, às vezes, terminava a partida de xadrez, ele se trancava no banheiro e tentava se matar. Fazia isso duas ou três vezes por semana. Tinha de viver fiscalizado. Eu nunca entendi o porquê disto. Então, para sondar as causas disso, naquela biografia em particular, você precisa dedicar talvez anos a fio – a não ser que você fosse um gênio da psicologia como o Dr. Müller, mas ele nunca foi cliente do Dr. Müller. Quando eu conheci o Dr. Müller já era tarde, esse sujeito já estava em outra. Também conheci casos de um camarada que se deitava na cama e se deixava morrer, ficava lá seis meses, não levantava nem pra tomar banho, nem coisa nenhuma. Se não o tratassem, o sujeito iria pro brejo. Eu vejo que um fundo de depressão existe também em muitas dessas condutas de covardia, assinaladas aqui. O sujeito que busca muito a proteção quando não precisa, comporta-se como um adolescente quando já é um homem adulto. Está negando a si mesmo certos direitos que tem! Eu vejo, por exemplo, como as pessoas falam hoje: todas falam com uma vozinha muito fraquinha, às vezes meio afeminada – e não é veadagem não, o sujeito não é veado, mas a voz dele sai fraquinha. Por quê? Se já é um homem adulto, tem direito a uma voz de homem adulto, então use a voz! Quando ficar velho vai perder mesmo, no fim da vida estará falando feito uma velhinha. Mas enquanto pode desfrute! Tudo isso aí é depressão, mas eu não consigo achar uma causa pra depressão porque a depressão é um sintoma que aparece pelas causas mais extravagantes. Eu acredito que toda doença psiquiátrica tem uma causa neurobiológica, alguma coisa está falhando. Mas acontece que se algumas situações existenciais deprimentes duram muito tempo, criam uma alteração neurobiológica no sujeito. Aí você tem a causa e tem a causa da causa. Que há um elemento espiritual, há, mas não que possa ser resolvido em cada caso, porque esse elemento espiritual está disseminado na nossa sociedade. Nós estamos na sociedade da negação do espírito, da destruição do espírito, da total separação entre o homem e suas possibilidades espirituais e até intelectuais superiores! Então todo mundo está sendo tratado como se fosse um ratinho de Pavlov. E está sendo tratado como tal inclusive por aquelas pessoas que teriam a obrigação de fazer o contrário. Quando você observa, por exemplo, a fraude científica que agora se tornou rotineira – meu Deus, mas não é a classe dos cientistas que assumiu a obrigação de agora educar a [2:40] humanidade, não são o novo clero? Como é que podem vender isso por alguns tostões, ou por um emprego, por uma coisa assim? E não é um nem dois – fraude científica sempre existiu, mas uma coisa assim em escala mundial organizada nunca houve! Então a causa espiritual está disseminada e todos nós estamos convidados a uma depressão. Só que se você está num ambiente um pouco mais deprimente que o dos outros, como acontece no Brasil, é aí, meu filho, que você tem de levantar e dizer: “Não! Eu não vou ficar deprimido não! Não vou ser infeliz não! Porque a minha felicidade está colocada num outro plano que essa influência não atinge...”. E veja bem: tem uma música aqui, uma música irlandesa que se chama Count Your Blessings – Conte as suas bênçãos, conte o que você recebeu – uma canção muito bonita: você fazendo a conta do que você já tem e do que você já recebeu, já tem um capital mais do que suficiente para ser feliz. Veja o número de pessoas que simplesmente gostam de você. Em geral todo mundo está recebendo mais afeição do que precisa. Eu sempre disse que eu não quero que ninguém goste de mim. Eu não faço questão que ninguém goste de mim, porque a minha mulher gosta de mim, os meus filhos gostam de mim, aqui a Isabela e o Alessandro gostam de mim, a Priscila gosta de mim, meus cachorros gostam de mim, minha mãe gosta de mim. Já é mais do que eu mereço! Que mérito tenho para que todas essas pessoas gostem de mim? Eu não tenho mérito nenhum! Então, se vocês estão gostando, estou levando vantagem! Você tem um cachorro? A afetividade de um cachorro é uma coisa que preenche dez almas humanas! Quando você chega a casa e vê a alegria extraordinária com que aquele bicho te recebe eu digo: “Meu Deus do Céu, eu largo esse coitado aí, às vezes até esqueço-me de dar-lhe comida e ele me ama desse jeito!”. Acho que, em geral, os seres humanos recebem mais amor do que precisam! Mas como eles julgam a situação de acordo com uma demanda afetiva anterior, do tempo de infância, eles ficam achando que precisam de mais e não precisa! Está mais do que suficiente! Agora, se você não reconhece – porque tem gente que tem isso, tem pessoas que não são capazes de amar outra pessoa, que não são capazes de serem amadas! Por mais que você ame o desgraçado ou a desgraçada, eles não sentem! Daí sabe o que você tem de fazer? Tem de bater na pessoa! “Você acha que eu estou com raiva de você, agora vou te mostrar o que é a raiva!” Aluno: Depressão não pode ser traduzida como ingratidão, especialmente ingratidão a Deus?(...) Olavo: Certamente tem este componente! Mas você não pode ser grato a uma coisa que você não sabe que você recebeu! Daí o negócio do Count Your Blessings – conte o que você já tem. Conte o que você já recebeu. Por exemplo, uma vez, veio uma pessoa pra mim e falou: “meu pai não fez nada por mim, ele me abandonou logo quando eu era criança”. Bem, mas ele gerou você, não gerou? Você poderia fazer isso por você mesmo? Então no mínimo, o pior dos pais fez isso por você – que é infinitamente mais do que você poderia fazer. Então esta gratidão você tem de ter. Quem disse que, naquele dia, precisamente, Seu Fulaninho tinha que ir para a cama com a Dona Fulaninha e criar justamente EU? E por que tinha que ser eu no meio de tantos milhões de espermatozóides que estavam lá no depósito? A consciência que você tem de ter de a sua existência não ser necessária e que você poderia não existir — isso aí você nunca pode tirar da cabeça — , isso é uma realidade. Você existe por um ato arbitrário do amor divino. Só de você lembrar-se disto: “Pô, eu existo! Caramba! Eu poderia fazer isso por mim mesmo? Não posso!”. Isso aí deve ser um elemento de meditação constante, porque isso o encaixa dentro da estrutura da realidade das coisas, onde você vê que há coisas que acontecem necessariamente; dadas certas causas, outras se seguem necessariamente. Porém, o nascimento de um ser humano é geneticamente inexplicável! Porque na hora que estão lá os dois transando, sai um montão de espermatozóides! Que podia ser o seu vizinho, podia ser outra pessoa! Por que fui eu? A genética não vai explicar isso jamais! Não há lei que determine isto! Aluno: (…) Eu pergunto isso porque o maior número de casos de depressão pública e de suicídios se dá nos países em que a população tem mais benefícios (...) Olavo: Sim! Aluno: (…) Então, por que os mais beneficiados são os mais depressivos? Não é ingratidão? Olavo: Entra este elemento de ingratidão, mas entra outro. Eu até já escrevi um artigo a respeito disso: os benefícios que as pessoas de classe média, e até baixa, desfrutam hoje, são os benefícios que a aristocracia tinha em outras épocas. Só que esta aristocracia pagava esses benefícios com o serviço prestado. Então o sujeito tinha lá um belo castelo, as pessoas pagavam imposto pra ele, ele tinha quarenta amantes etc., mas na hora que estourava a guerra, era ele que ia pra lá! Então ele dava, oferecia a sua vida e, portanto, o que ele recebia de benefícios — que pra nós parece até um absurdo de tanta coisa —, aos olhos dele não o diminuía! Ele tinha um mérito! Agora, se as pessoas recebem um monte de benefício e não precisam fazer nada para pagar o benefício, ela vai se sentir insatisfeita e ainda vai querer mais! E quanto mais der, mais está se criando um desequilíbrio de direitos e deveres! Então se não lhe deram obrigações, deveres morais a cumprir, você busque algum! Outro dia mesmo eu estava lendo uma obra do Jacob Wassermann onde há uma senhora, que é uma mulher muito inteligente, notável, uma bela personalidade, e tem um chato de galocha que se apaixona por ela. Ele fica lá e não larga, e não larga, e não larga, e a mulher desesperada: “como é que vou fazer pra me livrar desse sujeito?”. Até que um dia ele chega, invade o apartamento dela, põe um revólver na cabeça e diz que vai se matar se ela não der pra ele! Daí ela diz: “Quer saber? Você se mate, não vale nada mesmo!”. E aí o sujeito se toca! E ela fala: “Vai cuidar da sua vida! Sabe o que você tem de fazer? Você tem de se impor alguma obrigação para você valer alguma coisa!”. E o sujeito sai agradecendo à mulher dizendo: “Muito obrigado, você salvou a minha vida! Pode deixar que eu não vou mais amolar a senhora, vou fazer a minha vida agora”. Estava faltando pra ele esse sentimento da obrigação auto-imposta que faz você respeitar um pouquinho a si mesmo. Sem isso você entra na depressão! E é isso o que está faltando para as pessoas! Você enche os sujeitos de benefício e nada é exigido. Ou, às vezes, são exigidas certas obrigações absurdas, que são de natureza puramente egoísta. Também exigem que se treine para ter um bom emprego ou exigem que a pessoa suba na sociedade! Fazem o sujeito se envergonhar quando ele está sem dinheiro. Mas isso é corromper mais o sujeito! Ele tem de exigir de si mesmo alguma coisa que justifique minimamente os benefícios recebidos, não da vida, não de Deus, mas da própria sociedade humana. Se não se impõe as suas obrigações você entra na depressão sim! Porque está vivendo na injustiça e daí entra naquele discurso interno de acusação e defesa em que ora você se sente totalmente injustiçado, ora se condena por todos os pecados do mundo. Tem um monte de pergunta aqui... Aluno: O senhor dizia na última aula que, sobre os interesses de um filósofo nas obras de outros filósofos, destacou a importância do discipular na atividade filosófica e o longo aprendizado dos alunos com seu mestre. Ressaltou a possibilidade de esses aprendizes se tornarem continuadores de seus professores e, quem sabe, tocar a filosofia para frente. Tudo isso ficou claro. Entretanto, não consigo distinguir os propósitos de um aluno que não será filósofo, mas um artista em textos filosóficos e não um professor filosófico. Olavo: Mas este interesse é absolutamente fundamental! Leia os grandes romancistas, os grandes poetas e verá que a substância filosófica que tem ali dentro é uma coisa imensa! Agora mesmo eu estava falando no Jacob Wassermann, não é? Jacob Wassermann leu tudo o que tinha para ler de filosofia. Só que pelo seu talento pessoal ele não se dedicava à investigação da verdade no sentido mais abstrato, mas no sentido existencial e simbólico. Tratava de conceber situações humanas concretas narráveis nas quais se condensassem o que ele sabia a respeito da humanidade. Ou Dostoiévski — você não consegue conceber Dostoiévski sem um aporte filosófico enorme. Uma coisa que falta na literatura brasileira é isto: as pessoas não têm [2:50] cultura filosófica, simplesmente. Qual é a cultura filosófica de nossos melhores escritores? Bem, alguns leram lá Jacques Maritain, outros leram Karl Marx... Ou então pior, como João Guimarães Rosa que ficava lendo Madame Blavatski. No fundo é uma coisa pseudoprofunda, boboca na verdade. E falta isso. Falta... Quer dizer, os problemas discutidos, os problemas que existem na sociedade humana, que você observa nela, mas que não têm grande significação universal. Então se você quer ser um poeta ou artista, olha, você vai ter de estudar muito. Além disso, eu mesmo já expliquei que este curso não se destina a criar filósofos no sentido acadêmico — embora possa criar alguns também—, mas a criar uma elite intelectual que se componha de todas as atividades juntas. Se você pegar esses grandes círculos de intelectuais que se reuniram e se formaram em épocas de grande florescimento filosófico, como teve na Áustria no começo do século, você vê que ali está tudo misturado: tem poeta, tem filósofo, tem músico... E as discussões filosóficas, por exemplo, em torno da música de Gustav Mahler, não acabam mais! Então é preciso que essas pessoas, cujas modalidades de expressão pessoal são diferentes, estejam juntas, e que elas troquem idéias. Isso aí é fundamental, porque sobreviver na absoluta solidão intelectual é muito difícil. Para isso, é preciso um talento específico – eu tenho esse talento! Eu tenho e isso é raro! E estas pessoas só aparecem quando acabou tudo! Quando me deram o nome de Olavo, que quer dizer “o sobrevivente” — foi a minha santa avó —, foi um negócio profético: “vai morrer todo mundo e vai sobrar esse sujeito aqui!”. Eu vejo, por exemplo, que toda a riqueza que tinha na cultura brasileira nos anos 60, só sobreviveu nesta minha cabeça. Ninguém mais sabe nada. Eu guardei aquilo. Eu guardei e estou repassando para vocês. A Universidade, que deveria fazer isso, não faz. Por exemplo, para a Universidade descobrir um sujeito chamado José Geraldo Vieira — outro dia até fizeram uma sessão em homenagem a José Geraldo Vieira —, um grande escritor brasileiro, todo mundo tinha esquecido! Bem, eu leio José Geraldo Vieira uma vez por ano! Vou lá e leio alguma coisinha porque é sempre bom. E não vai dar pra eu responder a todas as perguntas, mas... Já são onze horas no Brasil, muito tarde, hein? Só vou responder mais uma. Aluno: Na última aula, o senhor disse que a onipotência só (abarca?) o mundo concreto, que Deus pensa a realidade, ou a possibilidade infinita. O pensamento de Deus é então o que o Louis Lavelle chama de presença total? Olavo: Não, a presença total é o que está diante de nós. Nós é que estamos diante da presença total. Ela é a totalidade do mundo concreto. É claro que isso tem origem na onipotência divina, mas isso não é a onipotência divina. Esta implica a totalidade da possibilidade, do que não está presente. Porque todos os universos possíveis... Mas é através da presença total e, vamos dizer, repetindo e treinando essa aceitação da presença total, é que você vai perceber o que pode estar no fundo dela. A presença total é, de fato, o reconhecimento da presença total, a mesma emoção do Hegel ao dizer: “É, é assim, as coisas estão aí, estão acontecendo. Eu estou aqui dentro, está tudo aí em volta” – a experiência que eu sugeri pra vocês, de pensar a terra embaixo dos seus pés, toda a densidade, a forma e peso de tudo. De você estar continuamente com os olhos abertos e vendo a imensidão da presença. Isso aí é a disciplina fundamental para o conhecimento da realidade. Não é se fechar dentro da sua cabeça e pensar. De pensar morreu um burro, não é? Todos os erros humanos vêm do pensamento! Porque as pessoas estão querendo mais pensar do que perceber a realidade. O pensamento, de fato, deve ser reduzido ao mínimo! Agora o curioso: pensar dá trabalho, perceber não dá trabalho nenhum, é só deixar acontecer. E isso é a base da disciplina. Agora, a presença total também implica o seguinte: não fugir da realidade, não fugir da sociedade onde você está. Entender... “A sociedade está horrível” – sim, mas esta é a minha vida. Deus me pôs no meio desta miséria, esta miséria é a minha vida! Então daqui eu vou tirar os elementos com que vou criar uma coisa melhor. Levar pedrada e devolver afagos. Levar cocô e responder com flores ou diamantes. É isso o que há a fazer. Fazer cada vez o melhor com o material ruim que tem em torno. Não busquem refúgio psicológico. Acreditem, eu juro, vocês não precisam disso! O ser humano é imensamente forte na sua independência interior quando ele está ligado na realidade das coisas. Ninguém precisa de tanta afeição, de tanta proteção quanto as pessoas imaginam. É o diabo que espalha essas idéias: você é um coitadinho, você precisa de apoio, nós trouxemos aqui a solução dos seus problemas, Jesus Cristo o chamou – ou Alá o chamou, ou Buda o chamou... Palhaçada gente! Então até a semana que vem. Muito obrigado. Transcrição realizada por: Klauss P. Tofanetto, Ana Angélica de Godoy Valente, Antonia Javiera Cabrera Muñoz, Marcela Andrade, Adriano Dal Bosco, Carlos Felice. Revisão realizada por: Victor Madera