Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 37 19 de dezembro de 2009 Boa tarde. Sejam bem-vindos. Hoje nós temos uns três ou quatro assuntos: um é a continuação natural da aula sobre o negócio das categorias, e os outros são várias observações a respeito de algumas discussões na internet que são bem propícias a ilustrar não só o estado atual da dita alta cultura no Brasil, mas certos vícios de pensamento que são comuns a praticamente toda a nossa classe universitária, e que são justamente aquilo que nós desejaríamos evitar na formação de vocês. Como introdução ao primeiro assunto, eu vou ler alguns trechos do livro A Filosofia da Iluminação, do filósofo persa Shihab al-Din Suhrawardi, que eu tranquilamente colocaria na lista, que está na internet, dos meus gurus (eu não sei porque na época não coloquei, mas deveria ter colocado, sem dúvida). Shihab al-Din Suhrawardi viveu no século XII, na Pérsia, e é um dos pensadores espirituais mais destacados do mundo islâmico, embora não pertencesse à linhagem central do esoterismo islâmico, que é o chamado sufismo. Ele não pertencia a nenhuma tariqa, era um pensador independente, e no entanto é uma das figuras mais altas do pensamento islâmico. O pessoal que é ligado ao esoterismo islâmico oficial – chamado tasawwuf, ou sufismo – classifica esse tipo de pensador como afrad, que quer dizer isolado; é um sujeito que, sem estar ligado a uma tradição, recebeu alguma influência divina por conta própria. No entender dos praticantes do sufismo, o afrad é um sujeito que pode escrever e transmitir seus conhecimentos, mas não pode criar discípulos, não pode criar uma escola, não dá iniciações etc. Para mim, tudo isso não faz a mais mínima diferença. É evidente que só a riqueza da filosofia persa já é uma coisa de ficar besta. Eu acho que a Pérsia sozinha tem mais e melhores filósofos do que a Europa inteira, e embora eu não conheça tudo, de tudo o que eu conheço nada há que se compare ao Suhrawardi, e especialmente a este livro A Filosofia da Iluminação. É um livro de não mais de cem páginas onde ele sintetiza muito bem as duas principais correntes que influenciaram o pensamento islâmico na época – o sufismo e a filosofia peripatética (eles chamam sempre de peripatético a linhagem aristotélica) – , e ele personifica a unidade dessas duas correntes melhor do que qualquer outro pensador islâmico. A irritação de Al-Ghazali, por exemplo, que é um teólogo, contra os filósofos peripatéticos, é uma coisa realmente patética. O peripatético e o patético. É aquele teólogo, aquele crente, bem quadradinho, para quem todos aqueles que não estão de acordo com a sua aparência de ortodoxia já estão condenados, vão todos para o inferno etc. Eu vou ler um pedaço que é uma coisa altamente inspiradora. De de cara vocês verão que a primeira frase é algo que devem sempre levar em conta no modo de entender a aula anterior sobre as categorias e de entender tudo o mais que eu disser sobre Platão e Aristóteles daqui para diante. Eu tomo esse critério do Suhrawardi como sendo uma linha mestra, uma orientação que eu tenho seguido há anos e que tem dado os melhores frutos. A melhor maneira de entender os filósofos antigos é da maneira que Suhrawardi está indicando aqui. Ele diz: “As palavras dos antigos (...) E com antigos ele está se referindo especificamente a Platão e Aristóteles. (...) são simbólicas e não abertas a refutação. As críticas feitas ao sentido literal das suas palavras falham em apreender as suas reais intenções, pois um símbolo não pode ser refutado. Isso é também a base da doutrina oriental da luz.(...) Oriental é a própria filosofia dele. Ela a chama de oriental por estar ligada muito à idéia da luz, e o Oriente é de onde vem o sol, então eles chamam um filósofo oriental. Nem tanto no sentido geográfico, porque ele está exatamente no chamado Oriente Médio, que não é tão Oriente assim, mas a idéia dele é baseada no famoso ex oriente lux, a luz vem do oriente. (...) Isso é também a base da filosofia oriental da luz e das trevas, que foi o ensinamento dos filósofos persas como Jamasp, Frashostar, Bozorgmehr e outros antes deles.(...) Ele está mencionando alguns de seus antecessores, mas na verdade não existe outra expressão tão plena dessa filosofia quanto a obra do próprio Suhrawardi, e especificamente este livro A Filosofia da Iluminação. Se fosse possível publicar isso em português seria uma maravilha, mas não creio que valha fazer uma tradução da tradução inglesa; teríamos de encontrar alguém que lesse língua persa, e isso vai ser meio difícil. Isso aqui não é nem árabe, é persa; a língua persa usa o mesmo alfabeto árabe, mas soa diferente e as palavras têm sentidos diferentes. (...) Não é a doutrina dos magos infiéis nem a heresia de Mani, (...) De onde vem maniqueísmo. (...) nem aquela que leva a associar outros com Deus, O qual seja sempre exaltado acima de todo antropomorfismo. Não imaginem que a filosofia existiu só nestes tempos mais recentes. O mundo jamais esteve privado de filosofia, ou sem uma pessoa que possuísse as provas e evidências claras em defesa dela. Essa pessoa é o vice-regente de Deus na Terra. Assim será enquanto durarem os céus e a terra. Os filósofos antigos e modernos diferem apenas no seu uso da linguagem e nos seus diferentes hábitos de abertura e...(...) Ele está falando de um estilo aberto e de um estilo alusivo, ou seja, um estilo direto e um estilo alusivo. (...) todos falam dos três mundos, (...) Eu me referi a isso no escrito sobre os gêneros literários: há o mundo da temporalidade, o mundo da eviternidade ou perenidade, e o mundo da eternidade. (...) concordando quanto à unidade de Deus. Não há disputa entre eles nas questões fundamentais. Embora o primeiro professor, Aristóteles, fosse muito grande, profundo [0:10] , e cheio de intuições valiosas, não se deve exagerar o seu valor ao ponto de desprezar o seu mestre, Platão. Entre eles estão os mensageiros e legisladores como Hermes, Asclépios e outros. As fileiras dos filósofos são muitas, e eles podem ser divididos nas seguintes classes: (...) Eu vou enumerar, para que não [se] perca. (...) 1º. Um filósofo divino proficiente na filosofia intuitiva, mas ao qual falta a filosofia discursiva; 2º. Um filósofo ao qual falta a filosofia intuitiva; 3º. Um filósofo divino proficiente tanto na filosofia intuitiva quanto na discursiva; 4º. Um filósofo divino proficiente na filosofia discursiva, mas de habilidade média ou fraca na filosofia intuitiva; 5º. Um filósofo proficiente na filosofia discursiva, mas de habilidade média ou fraca na filosofia intuitiva; 6º. Um estudante só da filosofia intuitiva; e 7º. Um estudante só da filosofia discursiva. Se acontecer que em algum período houve um filósofo proficiente tanto na filosofia intuitiva quanto na discursiva, ele será o regente por direito e o vice-regente de Deus na Terra. Se acontece que não é esse o caso, (...) Quer dizer, se não existir essa pessoa proficiente nas duas filosofias. (...) então a regência pertencerá ao filósofo que seja proficiente na filosofia intuitiva, mas de habilidade média na filosofia discursiva. (...) Daqui a pouco eu vou reler e detalhar tudo isso. (...) Se essas qualidades não coincidirem, a regência pertencerá ao filósofo que é proficiente na filosofia intuitiva, mas ao qual falta a filosofia discursiva. O mundo jamais estará privado de um filósofo proficiente na filosofia intuitiva. A autoridade de Deus na Terra jamais pertencerá a um filósofo proficiente na filosofia discursiva que não se tenha tornado proficiente na filosofia intuitiva, pois a vice-regência requer o conhecimento direto. Por essa autoridade eu não quero dizer poder político. O líder dotado de filosofia intuitiva pode de fato reger abertamente ou pode estar oculto na multidão, e ele é chamado o Pólo (al-Qutb). Ele terá autoridade mesmo se viver na mais profunda obscuridade. Quando o governo está nas suas mãos, a Era é iluminada; mas quando a era é sem regência divina, as trevas serão triunfantes. O melhor estudante é o que estuda tanto a filosofia intuitiva quanto a filosofia discursiva; em seguida o estudante de filosofia intuitiva; e em terceiro o estudante de filosofia discursiva.” O que ele quer dizer com filosofia intuitiva? É aquela que apreende a natureza simbólica dos escritos que foram legados pelos filósofos de antigamente. Notem bem que ele inclui entre os filósofos os profetas, e especialmente os profetas legisladores como Moisés. Vejam que na Bíblia, quando Deus dá a missão a Moisés, este se queixa de que não é capaz de se explicar claramente às pessoas, ou seja, Moisés tem o conhecimento intuitivo mas não tem o domínio da filosofia discursiva, e reconhece isso. Então Deus elege o irmão de Moisés, Aarão, para que este faça as explicações. Mas notem bem: Aarão não tem o conhecimento direto de Deus, ele não subiu ao Sinai; ele só conhece a coisa ou pelo que seu irmão explicou, ou por estudo próprio. E Aarão é justamente o sujeito que faz a burrada, é ele que institui o culto do bezerro de ouro. Enquanto Moisés sobe ao Sinai e começa a demorar muito, o pessoal embaixo pede uma orientação a Aarão, “o que nós fazemos?”, e então ele sugere o culto do bezerro de ouro. Isso aí é um símbolo eloqüente precisamente daquilo que Suhrawardi está dizendo. Se não há o conhecimento intuitivo, o conhecimento do sentido profundo e inesgotável dos símbolos, o mero pensamento discursivo não vai resolver o problema, resolve só até certo ponto. Esta noção do pólo é extremamente importante. O pólo é o vice-regente de Deus na Terra, isto é, as coisas acontecem do jeito que o pólo disse. Não importa que ele tenha ou não autoridade exterior. Se não tiver, fica até mais significativo, porque tudo se passará exatamente como ele disse, ainda que ninguém reconheça, e ainda que todos digam o contrário. Não há a menor dúvida de que Platão foi um desses pólos. A influência de Platão foi tão profunda que tudo o que Platão disse a respeito dos reis-filósofos, de como deveria ser a sua formação, dos critérios mesmos da escola platônica, foi aplicado na formação do clero católico a partir do século I. Quando o historiador da filosofia Arthur Lovejoy diz que toda a história da filosofia não passa de uma coleção de notas de rodapé a Platão e Aristóteles, ele está dizendo precisamente isso, ou seja, que tudo girou em torno desses dois filósofos, mesmo entre aqueles que não os reconheciam como seus mestres. Isto é, quando o sujeito está brigando com Platão ou Aristóteles, no fim acaba dando razão a eles. Diretamente, porque ele entende que no que eles disseram estava a verdade daquele assunto, ou indiretamente porque a falsidade do que disse acaba demonstrada e dando razão a eles, queira o sujeito ou não. Isso é um exemplo do que é o pólo. Moisés foi um pólo. Não se esqueçam que os judeus estão obedecendo a Moisés há vários milênios. No meu estudo sobre as formas do poder, eu disse que o poder profético é o mais alto que existe, porque ele dura ao longo dos tempos; ele não passa. Agora imaginem os decretos dos reis, dos presidentes, ministros, quanto tempo eles duram. Dois anos, três anos, às vezes nem isso. Às vezes o sujeito emitiu a lei, e no dia seguinte ela já não funciona mais. No caso brasileiro nós temos até o episódio famoso do Getúlio Vargas, que chamou o seu ministro da Justiça, o Francis Campos, entregou-lhe um papelzinho e falou: “Publique e faça entrar em vigor esta lei.” O ministro leu e falou: “Mas, Presidente, já existe outra lei sobre esta matéria.” Daí o Getúlio disse: “É, mas a outra lei não pegou.” Vejam aí a impotência do governante terrestre, que pretende se impor a todo mundo. Se você quiser medir essa impotência, veja o caso de Adolf Hitler. Todos dizem que foi um dos homens mais poderosos; mas poderoso durante quanto tempo? Ele disse que criaria um império, um reich, de mil anos. Durou doze e acabou na destruição total, total. Ele mesmo, nos instantes finais, disse que o povo alemão não soube merecê-lo, então o povo mereceria a derrota, ser totalmente destruído. E de fato foi. Agora comparem isso com a autoridade de Moisés. É claro que nem todos os judeus seguem aquilo. Uns [0:20] seguem mais, outros menos. Mas isso faz parte da natureza do judaísmo. O judaísmo tem tantos mandamentos que não dá para todo mundo cumprir tudo. Então é uma espécie de divisão de trabalho, tipo: “eu não como carne de porco, você não come camarão; depois a gente troca.” Isto funciona, o judaísmo funciona. A lei foi dada não individualmente, [mas] para a comunidade, que arca com aquela responsabilidade. No conjunto, na média, você pode dizer que os judeus continuam obedecendo a Moisés, mesmo os que não são totalmente crentes. Vejam que mesmo no caso do judeu ateu, as referências de temporalidade que ele tem são o calendário judaico, as festividades judaicas e os símbolos judaicos. Mesmo ateu, ele não sai disso. No meu livro O Jardim das Aflições eu até propus um estudo (que jamais foi feito, e que eu também não vou fazer porque não tenho tempo) dizendo que assim como existe uma ciência da religião comparada, tem de existir uma ciência do ateísmo comparado, porque as várias modalidades de ateísmo são diferentes conforme a religião da qual se origina o ateu, ou seja, aquilo a que o ateu se opõe não é a mesma coisa [para todos os ateus]. Se ele é de origem católica, ou ortodoxa, ou protestante, ou judaica, ou hinduísta, o ateísmo dele vai ser diferente, e esse é um elemento que cria enormes confusões no mundo contemporâneo. Vejam, por exemplo, uma coisa característica: o ateísmo de origem protestante é eminentemente evolucionista e naturalista; mas o ateísmo de origem judaica não liga tanto para isso, é um ateísmo revolucionário, é o ateísmo de Karl Marx, de Trotski e outros. Isto quer dizer que o ateu de origem protestante está se opondo eminentemente a certa versão da estrutura do cosmos físico, ao passo que o ateu de origem judaica está reclamando precisamente contra a vontade divina: Deus tem um plano e ele tem outro. Ou seja, a maneira de as pessoas se oporem a Deus é completamente diferente. Eu insisto que esse estudo do “ateísmo comparado” é extremamente importante, e que requer, evidentemente, uma pessoa preparada no campo da religião comparada (o que já é um tremendo abacaxi) e ao mesmo tempo preparada na história dos movimentos revolucionários ateísticos. Se algum de vocês tiver o interesse em fazer esse estudo em longo prazo (vai levar uns 10 anos), é a sugestão de um tema absolutamente maravilhoso. Isso dará a vocês uma idéia do que é o poder profético. O poder profético é aquele que dura enormemente para além do prazo de vida do próprio portador dessa autoridade. Moisés está morto há quanto tempo? E os caras continuam obedecendo. Isto também é da natureza do poder profético, do poder espiritual, do poder intelectual: ele raramente é um poder exercido pessoal e diretamente pelo seu portador. É um poder que se propaga e perdura na história, independentemente da presença ou não do seu porta-voz. Essas breves noções são suficientes para se ter idéia do que Suhrawardi quer dizer com o Pólo. O Pólo é aquele indivíduo cujas palavras abrangem o horizonte inteiro das possibilidades de uma época ou de várias épocas para adiante, sem que nada de substantivo aconteça a não ser o que está demarcado ali. Isto quer dizer que a autoridade do Pólo consiste em eminentemente dizer uma verdade da qual os outros não podem escapar, por mais que queiram. Claro que nós não devemos absolutizar essa noção do Pólo como ele diz, porque a própria noção também é simbólica. Se ele está dizendo que os escritos dos antigos são de natureza simbólica, essa própria noção do Pólo é simbólica. Isto quer dizer que pode haver vários pólos ao mesmo tempo; pode haver vários pólos cuja autoridade seja limitada geograficamente; pode haver vários pólos cuja autoridade perdure por um, dois, três ou quatro séculos, e outros cuja autoridade perdure por cinco mil anos. Se vocês estudarem a obra do Mário Ferreira dos Santos, por exemplo, verão que todas as possibilidades mais altas e mais baixas da civilização no Brasil já estão demarcadas ali. Ninguém conhece o Mário Ferreira, ninguém sequer o entende, mas à medida que você o entende, também entende o seguinte: aquele sujeito era a única chance que havia para surgir uma civilização decente no Brasil. Na medida em que se afastam dele, ou em que o ignoram, vão para baixo, necessariamente. Ao ponto de que, passados apenas 30 anos de sua morte (o Mário morreu em 68, e nessa época o Brasil ainda tinha alta cultura), virando as costas ao Mário, em três gerações a alta cultura acabou. O que é isto? É a autoridade do Pólo. Ou você segue aquele sujeito, ou você vai para o buraco. Não tem outra. Quando ele [Suhrawardi] diz que os escritos dos antigos são simbólicos e, portanto, não são sujeitos a refutação, isso não quer dizer que esses escritos não tenham um aspecto discursivo também, o qual é sujeito à discussão e refutação. Porém, é sujeito à discussão e refutação só depois de você apreender o sentido simbólico. Uma vez, por exemplo, eu estava conversando com o meu amigo Antônio Donato e ele disse o seguinte: “olha, ninguém entende Santo Tomás de Aquino”, porque as pessoas só vêem teses individuais e discutem aquelas teses. Mas se você ler e reler o pensamento de Santo Tomás de Aquino, ler a Suma Teológica, a Suma Contra os Gentios etc., acaba percebendo que aquilo tem uma estrutura igual a de uma catedral, e que, portanto, é uma obra de arte, um objeto de contemplação. Não foi escrito só para você concordar ou discordar com esta ou aquela tese, mas para você, olhando a estrutura do conjunto, ter a abertura para o mundo divino que aquela estrutura simboliza, exatamente como uma catedral. E vejam que a minha formação é completamente diferente da do Antônio Donato, as nossas vidas e vocações são completamente diferentes, mas naquele momento nós concordamos, falamos “é esse mesmo o problema”. Ninguém entende [Santo Tomás de Aquino] porque quer ter um entendimento discursivo direto, o que não é possível se não se captar a forma do conjunto e a sua força simbólica. No caso das obras de Platão, o acesso a este sentido simbólico é um pouco mais fácil, porque ele, nos instantes finais dos seus diálogos, sempre os encaminha da seguinte maneira: coloca um problema, discute, Sócrates coloca em discussão as idéias correntes, destrói várias dessas idéias, e quando as pessoas perguntam para ele “mas se não é do jeito que nós estamos dizendo, como é então?”, Sócrates responde contando um mito, ou seja, ele está dizendo que grande parte da atividade filosófica dele é uma atividade discursiva feita não para expor a verdade, mas para refutar o erro, e que a expressão direta da verdade é uma coisa eminentemente problemática. Logo, é mais fácil aludir à verdade sob forma simbólica do que declará-la com todas as letras. Dito de outro modo, ele está afirmando que só uma linguagem divina pode expressar a verdade; a linguagem humana pode apenas aludir a essa verdade, de tal [0:30] modo que as pessoas, através desse símbolo, apreendam a verdade, verdade que elas próprias, em seguida, não vão também poder expressar completamente. Ele não está se referindo a um fracasso total da linguagem humana. Não, a linguagem humana é suficiente para fazer isso, e isso já é muito. E ele também está advertindo que só existe discussão filosófica válida de dois gêneros: primeiro, a que é feita para refutar erros discursivos no próprio plano discursivo, dando por pressuposto que essas idéias que foram expostas discursivamente não têm uma profundidade simbólica a ser desencavada. E a segunda modalidade de pensamento filosófico legítimo é aquela que ou se expõe de forma simbólica, ou se expõe em forma discursiva, porém, tendo em vista uma experiência já vivida do sentido simbólico. Por exemplo, se você quiser discutir Santo Tomás de Aquino, é o seguinte: você vai ler essa coisa uma vez, duas, três, dez vezes, até pegar a forma do conjunto e conseguir contemplá-la como obra de arte sacra. Aí você entende o que Santo Tomás de Aquino está querendo dizer. A partir daí, você pode fazer a conversão do símbolo em outras tantas teses discursivas. Discursivo quer dizer aquilo que está exposto em sentido literal, em uma linguagem literal sujeita, portanto, à análise crítica. O símbolo em si mesmo não é criticável e não é refutável. Por quê? Já dizia a grande filósofa americana – a maior pensadora americana de todos os tempos – Susanne K. Langer, que o símbolo é uma matriz de intelecções. As intelecções, por sua vez, podem ser expressas em linguagem discursiva, mas o símbolo não. E mais ainda: ela diz intelecções, no plural. Isto quer dizer que de um mesmo símbolo você extrai muitos conteúdos discursivos diferentes, que são válidos em diferentes níveis, e em diferentes intensidades, por assim dizer. Assim, você primeiro tem de ter o impacto da experiência simbólica, tirar dali uma multidão de conclusões que expressam uma parte do potencial hormonal daquele símbolo (o símbolo é o hormônio da inteligência) e desta força, desta energia que o símbolo lhe deu, você vai tirar várias conclusões discursivas que podem ser criticadas e analisadas no próprio nível discursivo. Isso é uma precaução elementar que a maior parte dos estudiosos não toma, ou seja, eles geralmente não entendem a filosofia dos antigos. Eles lêem Aristóteles como se este estivesse fazendo uma tese de mestrado hoje, que será examinada pelo peer review. Quer dizer, outras pessoas de Q.I. 12, igual ao do autor, examinarão o que ele disse, discutirão aquilo e chegarão a um consenso. Lendo Platão ou Aristóteles assim você pode chegar a conclusões terrivelmente desastrosas, mesmo que você seja um grande filósofo. Isto quer dizer que grandes filósofos podem cometer esse erro. Vou ilustrar com uma carta que recebi de um sujeito que a mandou esperando que eu respondesse no True Outspeak, o que é absolutamente impossível. Eu disse para ele “eu responderei em aula, e se você não é aluno do Seminário, pior para você, porque a pergunta é muito interessante e você não vai obter a resposta, mas os alunos vão. Se quiser a resposta, pague os 30 dólares; não vai chorar por causa de 30 dólares, não é? Se o seu interesse pela questão não é nem suficiente para pagar esse valor, então é apenas uma futilidade.” Mas, de qualquer modo a pergunta é muito interessante, e exemplifica com o caso de um filósofo competentíssimo do século XX, que é o Xavier Zubiri, em que ele faz uma interpretação de Aristóteles que é um negócio absolutamente desastroso porque está discutindo uma tese de Aristóteles antes de tê-la captado no nível simbólico, ou seja, ele a pega no nível discursivo somente e daí começa a discuti-la. Quando você faz isso, pode ter certeza de que não está discutindo o que Aristóteles disse, mas apenas o que você entendeu daquilo, o que é sempre menos do que ele quis dizer. Como é que eu puxei de dentro de Aristóteles a Teoria dos Quatro Discursos? Eu acho que essa interpretação que fiz de Aristóteles é absolutamente irrefutável, porque eu disse que se Aristóteles escreveu um livro sobre a poética, outro sobre a retórica, outro sobre a dialética e alguns vários sobre o que ele chama de analítica (que hoje chamamos de lógica), e se nós encontramos nesses quatro tipos de livros certos princípios comuns, então é porque implicitamente Aristóteles tinha uma teoria geral do discurso, mesmo que ele não a tenha expressado. Isso me parece supremamente óbvio. O sujeito não pode escrever quatro tipos de livros sobre assuntos que têm uma correlação entre si, usando princípios mais ou menos comuns, sem que tenha meditado sobre o conjunto do que está dizendo. Então Aristóteles não tem só uma teoria da poética, uma teoria da retórica, uma da dialética e uma da lógica, mas tem uma teoria geral do discurso. E, analisando as premissas que ele utiliza para falar dessas várias modalidades de discurso, nós desencavamos a teoria geral do discurso que estava na cabeça de Aristóteles. Isso é uma coisa tão óbvia que eu fico espantado que ninguém ao longo do tempo tenha percebido. Agora, dois perceberam: Santo Tomás de Aquino e Avicena, mas ninguém ligou. Notem que essa teoria geral do discurso está subentendida não só no conteúdo lógico do que Aristóteles diz sobre os vários gêneros de discurso, mas na forma integral que está por trás dessas teorias, assim como a forma de uma catedral está subentendida no edifício inteiro da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino. Isto quer dizer que a teoria geral do discurso em Aristóteles é um símbolo, e como tal pode ser condensada em inumeráveis símbolos análogos. Até essa parte eu lecionei, embora não tenha publicado no livro, mas tem apostilas sobre isso. Havia, por exemplo, uma analogia óbvia entre os quatro discursos e os quatro elementos da física antiga. Isso era tão perfeito que todo símbolo, toda analogia, pode ser feita em sentido direto e em sentido inverso, dando significados diferentes; se não tem este teste do direto e inverso, então o símbolo está falhado, mal feito, ou alguma coisa assim. Aliás, mais tarde eu vou publicar a apostila que fiz sobre isso e vocês verão que os quatro discursos revelam uma analogia muito clara com os quatro elementos – fogo, terra, ar e água – tomados em sentido direto ou em sentido inverso, ou seja, as correspondências entre os quatro discursos e os quatro elementos não são unívocas; elas vão e vêm, conforme o ângulo por onde você olha. Se, por exemplo, você olha o discurso do ponto de vista da sua unidade e coerência discursiva, então evidentemente você terá uma correspondência que vai do mais denso para o mais fluido. Se, ao contrário, você enfoca esses discursos pelo tipo de ação que eles desencadeiam na mente do ouvinte, [0:40] ou seja, pelo seu poder de persuasão, poder de credibilidade, então a correspondência inverte. Foi porque peguei essas analogias que pude captar a unidade da teoria geral do discurso em Aristóteles, a qual ficou enterrada por 2.400 anos. Vejam que Chaim Perelman, que foi o grande estudioso da retórica no século XX, só pega a existência de três tipos de discurso em Aristóteles. Ele mistura retórica e dialética. Ele pega o poético, isola-o (pois não é o que lhe interessa), e em seguida opõe duas modalidades de persuasão, que são a persuasão lógico-científica e a persuasão retórica, na qual ele inclui a dialética. Vejam até que ponto esta teoria geral do discurso de Aristóteles ficou escondida. Tão escondida que o maior estudioso da retórica não percebeu. Enrico Berti, que é um dos grandes estudiosos de Aristóteles, também se mela no negócio da retórica e dialética na medida em que tenta contestar que o objetivo da retórica seja a verossimilhança. Não poderei explicar isso com detalhes agora, mas um dia voltaremos a esse assunto, e vocês verão como é interessante. Quando grandes eruditos como Perelman ou Berti pagam um mico desse tamanho, não é culpa deles, evidentemente. É porque eles estão trabalhando em cima de uma tradição, e a tradição inteira não percebeu aquilo. Eu estou usando este exemplo da minha teoria do discurso. Que não é minha! Eu não fiz nada mais do que dizer que Aristóteles tinha uma teoria que ele não expôs, e daí eu expus com as minhas pobres palavras. Aristóteles naturalmente teria exposto isso muito melhor se tivesse tido tempo, mas acontece que Aristóteles morreu e nada mais disse, e nem lhe foi perguntado. Então nós temos que trabalhar em cima do que ele deixou. Bom, eu usei esse exemplo para ilustrar a força que a leitura simbólica infunde na sua compreensão dos filósofos antigos. Na hora em que você conseguiu o conjunto daquilo como uma grande obra de arte, ou seja, você não está ligando para o conteúdo literal das afirmações, você está vendo a forma do conjunto e o que ela diz. Claro que a mensagem, o significado da forma do conjunto, não pode ser expresso discursivamente, porque você precisaria fazer uma obra dez vezes maior do que a obra de Aristóteles para explicitar o sentido discursivo. Visto dessa maneira, a obra filosófica tem o mesmo tipo de impacto que o próprio Aristóteles atribuía aos ritos de mistérios quando ele diz que estes nada afirmam, mas deixam uma profunda impressão. Esta profunda impressão é o que a Susanne Langer mais tarde dirá que é uma matriz de intelecções. Quando se lê a filosofia antiga desse jeito, você deixa que ela inspire intuições que você vai ter, e que podem ir muito além do que o próprio filósofo tinha percebido em um primeiro momento. Claro que tudo aquilo está implícito. Não quer dizer que ele não percebeu – percebeu mas não deu tempo de falar. Isso transcende a velocidade da fala humana. Se não há esse tipo de leitura da obra, você não entendeu o que o fulano está fazendo. Você entendeu apenas a parte discursiva mais óbvia e exterior. Mais ou menos eu tinha captado isso antes de ler o Suhrawardi. Na verdade, nem li o Suhrawardi; a única coisa que eu li durante muitos anos, a única coisa que eu soube do Suhrawardi foram aqueles capítulos magistrais em que Henry Corbin, no livro En Islam Iranian, “no Islã iraniano”, expõe a filosofia de Suhrawardi. Quando li aquilo fiquei maravilhado. Toda a filosofia persa é muito rica (tem muita coisa ali que eu acho perda de tempo) , mas quando eu cheguei no Suhrawardi, vi que aquele sujeito é uma preciosidade para nós agora, o que ele está falando não interessa só em um contexto islâmico do século XI ou XII, mas interessa para todo mundo hoje. Não por coincidência, ele não era um camarada da linha esotérica ortodoxa dominante. Sem chegar a ser um herético em termos islâmicos, ele era um afrad, um isolado, um cara diferente. Então, muito antes de ter lido Suhrawardi eu já tinha percebido essa coisa do símbolo pelo fato de ter entrado na filosofia pela via dos estudos literários. Durante muitos anos o que me interessava era a literatura. Foram as primeiras coisas que eu comecei a ler, com 15 ou 16 anos de idade, visando procurar um instrumento que me ajudasse a entender em profundidade os grandes poetas (não só poetas, mas obras de arte de outros gêneros – pintura, música etc.). Como eu entrei por esse lado, eu naturalmente lia as coisas assim. Quando mais tarde fui estudar Aristóteles, eu entendi que tinha de começar assim e era exatamente isso que Aristóteles dizia. Quando ele diz que todo conhecimento começa pelos sentidos, mas que a inteligência humana não pode atuar diretamente sobre o material dos sentidos, e sim só sobre a matéria acumulada na memória e imaginação (e notem que ele diz que memória e imaginação são a mesma faculdade), então está aí: se você não tem o símbolo, você não vai entender nada. Passados 2.400 anos, veio a Susanne Langer, nesta série de livros absolutamente maravilhosos – A Filosofia em Nova Chave, Sentimento e Forma e Mente: um estudo sobre o sentimento humano. É uma sucessão de obras-primas extraordinárias – , e confirma isso com dados provenientes das mais diferentes ciências. Eu disse “bom, então não tem escapatória”: o ensino começa com as letras. Se o sujeito não tiver uma sensibilidade literária ultra-desenvolvida, ele nunca vai entender a filosofia, porque vai ficar só no nível discursivo, sem perceber o fundo simbólico da coisa. Então para mim foi uma sorte ter começado pelos estudos literários. Também é preciso considerar o seguinte: Aristóteles foi o primeiro crítico literário e o primeiro teórico da literatura na obra A Poética, que é uma coisinha de cinqüenta páginas. Passados 2.400 anos, o maior crítico literário do século XX, para o meu gosto, que foi Northrop Frye, um filósofo, teólogo e crítico literário canadense, faz o quê? Pega várias chaves classificatórias diferentes e estrutura o mundo inteiro da literatura que ele conhece (ele não leu tudo, mas leu cem vezes mais literatura do que o mais culto dentre nós, do que todos nós juntos) e descobre que essas estruturas estão presentes em toda literatura, e todas essas chaves, essas estruturas, ele tirou de Aristóteles. Quando você pega o seu livro A Anatomia da Crítica – que é o livro central da sua obra – tudo aquilo não é nada mais que uma aplicação da teoria daqueles cinco níveis da narrativa que eu falei para vocês na aula passada que mede as narrativas conforma o poder dos personagens: conforme o personagem seja Deus; seja um herói divino, [0:50] profeta, ou coisa assim; seja um nobre ou uma pessoa notável um gênio ou um guerreiro; seja uma pessoa comum; ou seja um idiota indefeso. (Sendo que frequentemente um mesmo personagem pode ser tudo isso ao mesmo tempo, de um ponto de vista sob vários aspectos). Quando falha esta leitura simbólica, mesmo a pessoa altamente competente cai em erros absolutamente desastrosos. O rapaz que me enviou a pergunta se chama Marco Antônio, e espero que ele ouça esta aula. Se ele quiser mesmo, basta pagar 30 dólares. Vocês sabem quanto a gente paga aqui nos EUA por uma faculdade? 1.000, 2.000, 3.000 dólares por mês, para receber um ensino que não dá para lamber os sapatos do que vocês estão recebendo aqui. Então não creio que eu esteja explorando o sujeito ao cobrar os 30 dólares. Se ele não tiver o dinheiro, que me escreva e peça, confesse que é um duro, e eu o deixo assistir pelo menos esta aula de graça. Eu vou ler aqui o negócio, porque é muito interessante. Notem que isto não é uma resposta à pergunta; a resposta é uma segunda etapa. Isto aqui faz parte do tema central da aula propriamente dita. “Você diz que a alma – seguindo Aristóteles – é a forma do corpo. Em Aristóteles essa afirmação significava que a alma é um princípio que determina todo o nosso ser, ou, numa forma atenuada, pelo menos determina a vida, enquanto o corpo permanece totalmente passivo em relação a esse princípio. O que conhecemos da vida hoje não nos permite manter esse conceito. A vida é causada por uma interação complexa de forças físico-químicas. Xavier Zubiri também criticou o conceito aristotélico de alma dizendo: (...) E ele transcreve um trecho do Zubiri em espanhol, que eu vou traduzir. É um texto um pouco longo, mas que vale a pena. “Aristóteles pensou que se trata de uma unidade substancial. A alma, a psique, é o ato substancial de uma matéria-prima indeterminada, de modo que todas as propriedades que o homem possui – e não só as superiores, porém até as mais elementares, como o peso, as propriedades químicas etc. – se deveriam à alma. Seria ela que anima o corpo, ou melhor, o que faz da matéria-prima um corpo animado. É verdade que há passagens em que Aristóteles parece atenuar essa afirmação. A alma não seria a fonte de todas as propriedades – diríamos hoje as propriedades físico-químicas do corpo –, mas seria o que determinaria na matéria as suas funções propriamente vitais. Mas a matéria organizada seria sempre pura potencialidade; só a alma como ato dessa potência determinaria a vitalidade, a sensibilidade e as funções superiores. Pois bem, essa concepção me parece dificilmente sustentável. Como nos convenceríamos de que a glicose do meu organismo deve as suas propriedades químicas ao ato substancial da psique? Mas nem ainda em sua forma atenuada me parece sustentável a idéia aristotélica. O que se entende, com efeito, por animação? Se se entende que as funções biológicas são possuídas pelo organismo porque lhe são conferidas pela psique, isso parece não concordar com os fatos. O plasma germinal é um sistema molecular; sua vida consiste tão-somente na estrutura unitária que traz aparelhada consigo isto que chamamos combinação funcional. A alma não organiza o plasma germinal. A verdade parece antes o contrário: é o plasma germinal que modula os estados e tendências mais profundas e elementares da psique. A vida vegetativa não consiste nas funções vegetativas que a alma confere à matéria, mas nos caracteres psíquicos elementais, puramente vitais, digamos assim, que o plasma determina na psique. Mais ainda: o mesmo acontece com as funções sensitivas. É uma diferenciação biológica a que diferencialmente produz a função do sentir, e essa diferenciação é a que determina na psique um psiquismo sensitivo. As chamadas potências sensitivas não são mais que esse tipo de determinações psíquicas devidas a meras diferenciações biológicas. Desde o primeiro momento de sua concepção, o plasma germinal leva em si a alma inteira, e em sua primeira fase genética é o plasma que determina a psique. Somente em fases muito posteriores é o psiquismo superior que pode determinar o organismo. A função de formalização intervém nesse momento, só nesse momento.” Daí pergunta o Marco Antônio: “Diante disso, como manter um conceito de alma que não caia em um dualismo cartesiano nem use conceitos ultrapassados? Pergunto isso por ser uma das grandes questões da filosofia.” Muito bem. Então, é o seguinte: no mínimo, Xavier Zubiri leu Aristóteles totalmente errado, cem por cento errado, porque o que Aristóteles entende como forma é o conjunto inteiro das estruturas que compõem um ser tomado na totalidade da sua existência, desde a sua origem até o fim. Mais ainda: a forma tem a ver com a causa final, a forma explicada em função de causa final, e não das causas eficientes que vão determinando as várias modificações do ente ou do organismo em cada etapa. Quando Zubiri diz que só em uma fase bem avançada do desenvolvimento do ser humano a alma, ou pensamento, determina a ação do corpo, mas não antes disso; quando ele diz que existem duas fases, uma na qual tudo é determinado por fatores físico-químicos e que somente depois as funções superiores – inteligência, vontade etc. – retroagem sobre esse composto físico-químico e passam a orientá-lo, ele está dividindo o ser humano em dois. É ele que está entrando com o dualismo cartesiano aqui. Ele está diferenciando o processo de causa eficiente de ordem físico-química, que vai formando o corpo humano, de uma etapa posterior onde a alma como causa final determina a conduta do corpo – por exemplo, você quer ir até a casa da sua namorada, então você move o seu corpo até lá. Essa divisão não existe em Aristóteles. Quando ele fala da alma como forma do corpo, ele está falando da forma integral, na qual as etapas anteriores só podem ser explicadas em função do resultado último que elas vão produzir. O ser humano tem propriedades cognitivas superiores, que são a causa final ao qual tudo o que aconteceu antes tende. Aristóteles diz claramente que a finalidade da existência do ser humano é a conquista das faculdades superiores. A vida contemplativa, a vida do espírito, é para ele a finalidade da existência do ser humano. E, ora, toda a formação [1:00] físico-química do corpo humano tem de ser compatível com isso, porque se fosse forma de uma minhoca, de um porco-espinho, de um rinoceronte, não poderia chegar a isso. Quer dizer, de acordo com Aristóteles não há esse dualismo de, por um lado, ter a formação do corpo, e depois mais tarde intervém as atividades da alma, não se sabe de onde saíram. Zubiri diz que as primeiras funções sensitivas, de movimento etc., são inteiramente determinadas pelo plasma germinal, mas que depois aparece um outro fenômeno que é a conduta consciente, deliberada, movida por uma causa final. Então daí nós temos um mistério. Se tudo o que aconteceu no começo foi devido ao plasma germinal, e depois vem um outro fator de ordem espiritual ou intelectual que começa a mover o corpo em outras direções, então nós temos um dualismo, e a origem do segundo [fator] é um total mistério. Nós não conseguimos de maneira alguma explicar as atividades superiores do espírito pela formação físico-química. Até hoje, por exemplo, com tudo o que nós sabemos de fisiologia cerebral, não existe o menos sinal de você conseguir estabelecer uma relação entre os fenômenos de ordem neuronal e o conteúdo do pensamento. Não tem nada que indique como conseguir estabelecer essa relação e não vai ter jamais, porque seria tão absurdo tentar descobrir isso através da fisiologia cerebral quanto tentar descobrir o conteúdo de uma peça de Shakespeare examinando a estrutura e o programa de computador no qual esse texto está reproduzido. Pois o conhecimento e as atividades superiores do espírito não se dão no cérebro, mas na relação entre a atividade cerebral e uma outra coisa que não é cérebro. Se eu digo, por exemplo, que um gato tem quatro patas (coisa bastante simples), isso está acontecendo no meu cérebro? O meu cérebro pode botar quatro patas em um gato? Não. Então o conteúdo e a veracidade desse pensamento estão na relação que se estabelece entre ele e uma outra coisa que não é pensamento, que é um gato. Do fato de que um gato exista não se pode deduzir que alguém saiba alguma coisa a respeito do gato. Você pode examinar a fisiologia, a anatomia do gato o quanto queira; você vai descobrir algo a respeito de gato. Mas isso não vai lhe informar se antes de você alguém soube algo sobre o gato. Do mesmo modo, se você examinar o cérebro de quem conhece o gato, você nunca vai saber se é verdade que o gato tem quatro patas ou não. Isso quer dizer que as atividades cognitivas e volitivas superiores não têm como ser explicadas pela formação físico-química do corpo, e se não há como ser explicadas, só temos duas hipóteses: ou nós entramos em um dualismo, ou seja, as atividades superiores tiveram uma outra origem desconhecida, ou, ao contrário, elas são as formas finais as quais toda a formação físico-química tendia. Então a formação físico-química é a formação de uma estrutura vivente capaz das atividades superiores; não que isso vá determinar as atividades superiores, mas essa forma físico-química tem de ser harmônica com essas formas. Do mesmo modo que, por exemplo, você constrói um violino. Você pode examiná-lo o quanto queira mas não vai obter dele uma única composição musical. Você examina e fala “aqui tem madeira, tem cola, pele de carneiro, ou um negócio de nylon, tem isto, mais aquilo, mas aqui não tem música nenhuma”. Daí você diz “ah, então as melodias de violino vieram de uma origem completamente diferente, independente da existência do violino”. Claro que não. O violino foi construído não para produzir música, mas para ser capaz de tocar aquela música. A forma dele tem de ser compatível com o som que o compositor deseja produzir. Se ele tivesse feito um outro instrumento completamente diferente – digamos, uma tuba – ele não conseguiria tirar de lá o som de violino. Mas nem o violino e nem a tuba vão tocar sozinhos. Então quer dizer que a finalidade com que se construiu o violino está presente no violino desde o início, embora ele não a produza, e embora ela também por si não a produza, porque precisa uma série de causas eficientes – ou seja, saber qual é o som que deseja extrair do violino basta para você construí-lo? Não, precisa de madeira, pele de carneiro, cola etc. Precisa das matérias, e estas têm de ter uma estrutura compatível com o produto que se quer fazer, de tal modo que esse produto, por sua vez seja compatível com a finalidade para a qual ele foi feito. Quando Aristóteles diz que é a alma que move o corpo, é isso que ele está querendo dizer, e não que a alma, por si, produziu todas as transformações físico-químicas necessárias para formar aquilo. Você acha que Aristóteles é idiota? Zubiri acha. Então eu digo que nesse momento Zubiri pagou mico. Ele simplesmente não entendeu, porque não conseguiu apreender a teoria de Aristóteles primeiro no seu sentido simbólico, para depois extrair dela o sentido discursivo possível. Ele pegou aquela teoria como um literalismo grosseiro e a opôs às coisas de físico-química que ele estudou na universidade (o Zubiri estudou biologia também). É assim que não se lê um filósofo de antigamente. Agora, todo mundo, mesmo um homem bom e honesto como o Zubiri, tem um tentação, “ah, eu vou pegar Platão e Aristóteles e derrubá-los, porque daí eu vou ser o gostosão”. Eu nunca vi um sujeito fazer isso sem pagar um mico federal. Platão e Aristóteles não são acadêmicos modernos, fazendo uma tesezinha em linguagem discursiva para ser discutida pelos pares. Eles estão abrindo um mundo de conhecimento simbólico que vai determinar as possibilidades cognitivas da espécie humana por muitos e muitos séculos. E você tem de entendê-los nesse nível, senão não entenderá jamais. Se Aristóteles lesse o que Xavier Zubiri está dizendo perguntaria “meu filho, você não aprendeu o que é causa final, causa formal e causa eficiente?” Porque Zubiri está tomando uma coisa que Aristóteles disse como causa formal e causa final como se fosse causa eficiente. Notem bem: no universo de Aristóteles tudo é determinado pela causa final, e ele diz que Deus rege o mundo por atração. Deus não é um motor que fica lá empurrando. Quando ele usa a expressão “primeiro motor imóvel”, quer dizer que, se esse motor é imóvel, significa que ele não fica empurrando o mundo. No parágrafo em que Aristóteles define Deus como a inteligência da inteligência, noesis noeseos, ou conhecimento do conhecimento, ou consciência da consciência, como queiram, fica claro isto: como é que esse ser, que é de natureza puramente espiritual, e cuja natureza consiste em conhecer-se a si mesmo, pode mover [1:10] os processos físico-químicos? Será que Ele tem de ficar empurrando cada átomo? Não, Ele rege o mundo por atração. Atração da forma final à qual tudo aquilo tende. É a atração da beleza divina; a forma da beleza divina atrai a matéria. Houve um momento em que Deus teve de criar a matéria, claro. Porém, a partir daí Ele não tem de ficar fazendo as coisas acontecerem. As coisas só existem em função da forma total do Logos divino, que atrai tudo aquilo. Você diz, por exemplo, [que] houve um dia um big-bang. Por que houve o big-bang? Certas forças físico-químicas se combinaram e produziram tudo o existe. Para que isso acontecesse foi preciso que essas forças agissem umas sobre as outras, de acordo com uma proporção matemática determinada, senão não aconteceria nada. Quer dizer que se aquele acontecimento não tem uma forma matemática identificável, nada aconteceu. E, no entanto, foi esta fórmula matemática em si que fez aquilo acontecer? Não, porque para que aquele acontecimento pudesse suceder em certo momento, é necessário que a sua fórmula já fosse válida muito antes que ele acontecesse. Aliás, isso sucede em qualquer combinação química que você faça. Você pega uma substância cuja fórmula é X, aqui tem uma outra substância de fórmula Y, e se você misturar as duas, você sabe que vai dar uma terceira fórmula, a qual já é válida muito antes que você faça a mistura. Isto quer dizer que a totalidade do que existe e do que sucede já estava dada nas fórmulas matemáticas eternas que regem o mundo inteiro da possibilidade, e isso é a mente divina, o Logos divino. Se o sujeito quiser uma prova da existência de Deus, está aí. O Logos divino pré-existe a tudo o que acontece. O que é o Logos divino? É a totalidade das fórmulas matemáticas de tudo o que pode acontecer. Desde quando existe isso? Desde sempre. Para que acontecesse em certo momento com uma certa fórmula, é necessário que essa fórmula fosse válida antes. Quer dizer, se dadas tais substâncias, ou tais forças, e se elas se encontrarem em um determinado lugar, vai acontecer isso, x ou y. Então a pré-existência eterna do Logos divino não é só a coisa mais óbvia, como também a base de todo e qualquer conhecimento possível. Sem isso não poderia existir ciência. O sujeito pode alegar que essa fórmula é apenas um conteúdo pensado, e isso não quer dizer que exista alguém pensando isso. Ah, é? E a existência de inteligência e consciência? Também não está abrangida nessas fórmulas? Se não estivesse, não existiria consciência nenhuma. Se a possibilidade matemática da existência de um ente biologicamente constituído, dotado de inteligência e consciência, não estivesse dada na fórmula inicial, esse bicho jamais poderia existir. A existência de consciência e inteligência já estava dada na fórmula inicial. Então, o que é a inteligência divina? É a possibilidade da nossa inteligência. É claro, a nossa inteligência é derivada, ela tem uma fonte eterna que a tornou possível, e que continua tornando possível até agora. Isto tudo não é matéria de fé, isto é evidência das evidências, é a base de toda ciência. Agora, se o sujeito acredita na existência de certas leis da natureza que podem ser expressas em fórmulas matemáticas, mas acredita que as fórmulas matemáticas foram inventadas por ele, então o que ele está querendo dizer é que essa combinação não tem efetivamente essa fórmula, foi ele seu inventor e projetista. Então a sua ciência é falsa, evidentemente. Ou a fórmula do acontecido está no próprio acontecido, ou das duas uma: ou não aconteceu, ou aconteceu outra coisa que você não sabe. Mas se você consegue expressar matematicamente a fórmula de algo que aconteceu, é porque essa fórmula foi válida eternamente, muito antes de acontecer. Isso é o que nós chamamos “o mundo dos princípios”, e o conhecimento e entendimento do mundo dos princípios, um vislumbre do mundo dos princípios, é o topo da filosofia de Platão e Aristóteles. Aqui você vê que é possível um filósofo tarimbado que de repente confunde causa final com causa eficiente e causa formal, fazer o samba do biólogo doido. Então, é claro, a alma é forma do corpo sim. Não há outra possibilidade. Agora, se você entende que para ser forma do corpo ela tem de ficar empurrando o corpo toda hora, em vez de apenas ser a fórmula final a que a formação desse corpo tende, então você não entendeu nada de Aristóteles, nenhuma linha. Isso pode acontecer a qualquer um. Eu tenho o maior respeito pelo Xavier Zubiri, o considero um dos meus gurus, mas ninguém é infalível. Você se torna falível principalmente quando quer bater em um sujeito muito maior do que você. Zubiri é grande, mas Aristóteles é Aristóteles. Veja, quando você lê livros de história da ciência o pessoal diz que o sistema copernicano e a descoberta de Kepler invalidaram a física de Aristóteles. Você lê isso em toda parte. Mas o que eles invalidaram da física de Aristóteles? Uma linha, que é onde Aristóteles diz que as órbitas planetárias são circulares, porque o círculo é a forma mais perfeita que existe. O que você percebe ter sido um lapso do próprio Aristóteles (pois quem disse a ele que os planetas têm de ser a forma mais elevada que existe e que, portanto, têm de ter uma forma perfeita?) Isso foi uma rateada de Aristóteles, evidentemente. Está vendo? O próprio Aristóteles comete erros. Ele não disse que as mulheres têm mais dentes do que os homens? Disse. O maior dos filósofos também dorme, também come, tem indigestão e dor de corno. Então, em algum momento, o sujeito vai fazer uma burrada. Mostrei uma do Zubiri, estou mostrando outra do próprio Aristóteles. Isso invalida a física aristotélica? Não, porque a física de Aristóteles não é uma física, é uma metodologia geral das ciências, a qual jamais foi refutada. Quando dizem que o supra-sumo de metodologia da ciência hoje em dia é o método do Popper, ora, esse método é três linhas da dialética de Aristóteles. Tudo o que o Popper escreveu é três linhas da dialética de Aristóteles. Aquele método da refutabilidade, ou falseabilidade,é pura dialética de Aristóteles. O que o Popper inventou? Nada. Ele pegou um pedacinho de Aristóteles e fez daquilo um cavalo de batalha. E os outros, quando pegam um pedacinho errado de Aristóteles, acham que o derrubaram. Mas quem eles pensam que são? Ninguém vai derrubar jamais Platão e Aristóteles. Isso é impossível, porque eles delimitaram o horizonte de pensamento filosófico possível; nós nos movemos dentro da esfera deles. Faça o que fizer, você é ou um platônico, ou um aristotélico, ou as duas coisas; não há mais nada. O Lovejoy tinha razão, eles, Platão e Aristóteles, escreveram aquilo e os caras ficaram botando um monte de nota de rodapé. Nas notas de rodapé é possível corrigir alguma coisa, mas dizer que com uma nota de rodapé você vai invalidar a obra inteira é tão ridículo que não merece ser levado em conta. Mas a história – sobretudo a história da ciência, da cultura [1:20] – está tão cheia de falsidade, de burrada, que eu acho que vai ser preciso fazer tudo de novo. Porque quando você pega as melhores obras há certos erros tão gritantes que modificam o conjunto da interpretação que o sujeito está criando. Eu dou um exemplo: está aqui um autor pelo qual tenho uma apreciação enorme, Georges Gusdorf, filósofo francês. Sua obra magna se chama As Ciências Humanas e o Pensamento Ocidental, que é uma obra em treze volumes onde ele escreve toda a história das ciências humanas. Quando chega ao volume 3, parte 1 (são 13 volumes, mas alguns são subdivididos em mais volumes – é uma coisa monstruosa), ele diz: “A revolução copernicana, tal como a realizou Galileu, consagra a derrota dos fazedores de horóscopos.” Espera aí! Os horóscopos entraram na moda depois disto, e adquiriram uma autoridade formidável, desde a Renascença até o século XVIII, quando começou a acabar essa autoridade. Eu digo “como é? Você está deslocando Galileu para o século XVIII ?”. Aqui tem um erro de dois séculos. Um erro assim é como o samba do crioulo doido. É dizer, por exemplo, que o rei Luiz XIV proclamou a República no Brasil. Eu conheço, estudei a história da astrologia. Há uma obra muito boa do Nicholas Campion, História da Astrologia, onde se vê que a moda da astrologia veio junto com a modernidade, e não antes. Curioso é que, na mesma linha, Gusdorf diz: “A revolução copernicana, tal como a realizou Galileu, consagra a derrota dos fazedores de horóscopos. Ela arranca do domínio dos doutrinários o domínio experimental do saber positivo.” Então quer dizer que caiu tudo junto: a astrologia e a autoridade dos escolásticos. Eu digo “ah, não sabia que os escolásticos eram astrólogos”. Ao contrário: conforme eu expliquei na aula passada, durante o período de predomínio escolástico havia uma espécie de consenso entre os grandes escolásticos a respeito do negócio da astrologia. Por um lado, eles acreditavam que existia uma influência planetária, que havia algum fenômeno a ser estudado, coisa na qual Copérnico, Galileu, Newton, Bacon, e todos os demais, acreditavam igualmente. Por outro lado, eles condenavam abertamente a horoscopia, ou seja, a leitura de horóscopo, por ser baseada em uma técnica inexistente. Quer dizer, do fato de você desconfiar que exista uma relação entre os fenômenos planetários e os terrestres não se deduz que você conheça tudo a respeito e tenha uma técnica suficiente para aplicar em cada caso individual e fazer a leitura de horóscopo por horas. Bom, nós sabemos que existe alguma relação entre uma coisa e outra, mas não sabemos qual seja. Podemos ter uma dica ou outra como, por exemplo, nos foi dada por essa pesquisa Gauquelin. Nós sabemos que é possível identificar certos grupos profissionais conforme o seu horóscopo de nascimento. Eu acho que até o momento, isso é tudo o que se sabe em astrologia; a única coisa que foi mesmo testada é isso. Você pega o horóscopo de um sujeito que tem o horóscopo de médico, e você verá que muito provavelmente ele é médico. Pronto, acabou a sessão astrológica. Quem vai pagar por isso? O sujeito fala “não, eu vou casar, vou comer a fulaninha, vou ficar rico” e o astrólogo vai dizendo “blá-blá-blá, blá-blá-blá”. Isso é encheção de lingüiça. Os escolásticos tinham a posição equilibrada, científica e certa a respeito: o fenômeno existe ou parece que existe, mas não temos uma técnica suficiente para dizer tudo isso que os astrólogos estão dizendo com base nesse pretenso conhecimento. Ora, o que acontece na modernidade? Primeiro (eu expliquei na aula passada), com a Reforma protestante, surgiu a ambição de criar novas interpretações bíblicas, independente do que os escolásticos tinham desenvolvido. E uma das primeiras linhas de interpretação foi comparar a cronologia profética com a cronologia astrológica. Segundo fenômeno: aconteceu com a formação dos Estados nacionais. A cultura européia, que tinha certa unidade determinada pela unidade lingüística e pela unidade das universidades – vejam que na Idade Média, por exemplo, no mesmo lugar lecionavam pessoas das mais diferentes origens, como Santo Alberto Magno, que era francês; Santo Tomás de Aquino, que era italiano; e Duns Scot, que era escocês. Todos eles falando latim. O corpo docente de uma universidade medieval era formado por gente de tudo quanto era lugar, e a idéia de nacionalidade simplesmente não existia. Quando se formam os Estados nacionais, aqueles governos, interessados em se sobrepor de um lado à Igreja , e de outro lado ao Império, se auto-constituem como imperadores, por assim dizes, e como fundadores de novas religiões. E criam as culturas nacionais, em línguas nacionais, e automaticamente a formação dessa nova classe de pessoas importantes alimenta a indústria dos horóscopos porque reis, nobres, todo mundo, queria ter o seu horóscopo. Agora, imagine Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, saindo do mosteiro, da universidade, para consultar um astrólogo. Impossível! A ascensão de um novo tipo social, de um novo tipo de autoridade, de prestígio, gera uma nova forma de lisonjear esse prestígio, que é lendo o horóscopo dos fulanos, e isso acontece justamente a partir dessa época. Ou seja, o momento que Georges Gusdorf assinala como o fim do prestígio dos horóscopos é justamente o momento em que está nascendo esse prestígio. Olhem que erro monstruoso e imperdoável. Não é nem um mico, é um orangotango, um King Kong da história da cultura. E, no entanto, esse erro está disseminado por toda parte, porque esses camaradas fazem história pela coerência dos estereótipos, baseados, sobretudo, em uma visão depreciativa. O Gusdorf nem sempre faz isso, é claro; ele tenta ser compreensivo e honesto. Mas ele é um sujeito de origem protestante, e evidentemente a Igreja medieval é para ele tudo um bando de ignorantes. Ele acredita nessa história de que a autoridade eclesiástica sufocou o desenvolvimento das ciências. Eu já falei para vocês na semana passada do livro do Mordechai Feingold, que mostra que as descobertas científicas dos jesuítas somadas são em número igual ou maior que as dos seus opositores. Mas que estranha maneira de sufocar a ciência é essa, que é praticando e fazendo descoberta científica atrás de descoberta científica. Mais ainda: tem gente que é ingênua ao ponto de acreditar que a autoridade eclesiástica medieval proibia os livros de ciência e colocava-os no Index Librorum Prohibitorum. Em primeiro lugar, o Index Librorum Prohibitorum surgiu em 1.500 e poucos; é da Modernidade, e não da Idade Média. Segundo: alguém já leu o Index para ver quais livros estão lá? Tem algum livro de Newton, de Descartes, de Copérnico? [1:30] Não, não tem livro de ciência lá. Tem, por exemplo, livro do Giordano Bruno, porque ele começa a tirar conseqüências teológicas de Copérnico que o próprio Copérnico não aceitaria, e daí entra no campo da teologia. Ou seja, se o sujeito está fazendo teologia católica, ele tem de seguir os cânones da Igreja Católica. E se, com o nome de teologia católica, ele faz uma teologia diferente, então ele entrou no campo da heresia. Agora, uma teoria astronômica, em si mesma, não pode ser nem herética e nem não-herética; não tem como. Então livros de ciência não eram sequer examinados; só eram examinados aqueles que tinham conteúdo teológico. Eu acho que a criação do Index foi uma burrada, porque eu já assinalei que nessa época a Igreja perde a hegemonia intelectual na Europa, mas não pelos motivos assinalados por esses historiadores. Ela não perde a hegemonia porque a ciência superou a teologia católica, ou o pensamento escolástico; isso é uma estupidez. Se pegarmos no campo lógico, os escolásticos estão infinitamente além de tudo o que se descobriu em lógica até hoje. Agora os caras não lêem, e o que eles não leram para eles não existe, e fazem a história baseados no argumentum ad ignorantia, “aquilo que eu não sei não existe”. A Igreja perde a hegemonia porque ela não sabe como enfrentar esses novos filósofos no campo da polêmica. Eu falei disso há algumas aulas: a polêmica católica dirigida contra esses camaradas estava completamente deslocada da realidade. O pessoal da Igreja não entendeu exatamente o que estava acontecendo; não percebeu a gravidade do que estava acontecendo em um primeiro momento. Quando percebeu a gravidade, ficou escandalizado e começou a acusá-los de ateístas. Mas para os acusados isso não fedia nem cheirava. Ao contrário: ajudava-os a afirmar a sua autoridade em um campo que era independente do dogma religioso, a ajudou a criar a identidade deles como porta-vozes da razão em lugar da fé, o que é uma falsidade, evidentemente. Mas a polêmica católica os ajudou a criar essa identidade, que é falsa. Examinando isso retroativamente, eu vejo que a coisa mais fácil seria impugnar a autoridade desses camaradas como filósofos, por falta do domínio da técnica filosófica. Nenhum deles a possui: Newton, Descartes, Francis Bacon ou John Locke. Em termos de técnica filosófica eram absolutamente primários. Mas se você os aceitou como filósofos, daí para diante só resta discutir as teses deles ou acusá-los de ateísmo ou coisa assim. Se você discute as teses individuais deles, o que você está fazendo? Está discutindo em um campo que é independente dos pressupostos teológicos e está dando autoridade a eles nesse campo. Se você os acusa de ateístas, você os está expulsando para desse campo e criando um campo de conhecimento independente dos pressupostos teológicos. Foi aí que a Igreja perdeu a hegemonia, por não compreender o processo histórico, por interpretá-lo de maneira totalmente errada, o que acontece ainda hoje. Quando eu digo que a Igreja perdeu, não quer dizer que ela perdeu só naquela época. Ela perdeu naquela época e não recuperou até hoje, está perdendo cada vez mais. Era uma inabilidade dos intelectuais católicos. E notem bem: àquela altura só existiam grandes intelectuais escolásticos na Espanha e em Portugal; na França, na Inglaterra e na Alemanha não tinha mais ninguém, tinha virado uma mediocridade geral. Os grandes, como Francisco Suárez, estavam na Espanha. Ora, havia um interesse geral em isolar a Espanha da Europa, porque a Espanha era, por excelência, a representante da autoridade eclesiástica depois da Reforma. Também, quando se promove a Contra-reforma e se cria a Companhia de Jesus, aparece a idéia de se criar uma sociedade melhor mediante a concentração do poder: essa é a idéia revolucionária. Ou seja, a Contra-reforma estava infectada de mentalidade revolucionária; deixou-se infectar. Quando você combate um inimigo sem entender exatamente o que ele está fazendo, você muitas vezes se torna parecido com ele. Assim, enquanto Lutero e Calvino estavam criando uma nova ordem estatal na Alemanha e na Suíça, baseada na concentração do poder, o que fez a Contra-reforma? Criou um mundo católico baseado na concentração do poder. E esse é um erro que se estendeu muito ao longo dos tempos, ao ponto de que os pensadores políticos católicos – digamos entre o século XIX até o fim da primeira metade do século XX – buscaram algum tipo de concentração do poder para criar uma sociedade cristã. E estão todos monstruosamente errados. Eu vou comentar uma outra mensagem que foi posta não no nosso fórum e nem no programa True Outspeak, mas na página do Bruno Garschagen, como comentário à entrevista que eu dei a ele sobre a mente revolucionária (http://www.olavodecarvalho.org/textos/0801entrevista.html). Eu não conheço o remetente da mensagem, mas é evidentemente um professor universitário brasileiro ou um intelectual típico da universidade brasileira. E vou mostrar a vocês até que ponto estes erros acumulados no combate católico à revolução criaram uma séria de estereótipos que travam muito da discussão política contemporânea, e provocam também erros gigantescos. O indivíduo se chama Paulo Araújo, e mandou a mensagem em outubro de 2008. Eu só li agora. Bom, eu li um pouco antes, mas depois ele fez outros complementos, e só agora prestei atenção na coisa. Diz ele: “Li a entrevista. Não é bom que o Olavo de Carvalho não explicite as fontes do conservadorismo que advoga. No caso, ele deveria citar Novalis, De Maistre, De Bonald, Danoso (sic) Cortés, isto é, explicitar que a sua fonte para a crítica das Luzes é o romantismo conservador do século XIX, sobretudo o ultramontano.” Uai, de onde esse sujeito tirou isso? Primeiro: esses pensadores que ele cita são de 12º time. Ele acha que eu ligo para esses caras? Donoso Cortez, por exemplo, é um escritor magnífico, Joseph De Maistre é um escritor maravilhoso, mas o modo como eles analisam as coisas é primário. E, segundo, todos eles estão propondo uma sociedade cristã a ser construída mediante a concentração do poder, ou seja, eles se enquadram literalmente no meu conceito da mentalidade revolucionária. Então como é que a minha doutrina da mentalidade revolucionária pode ser baseada neles, se eles são exemplos da mentalidade revolucionária? Como é que o indivíduo [1:40] chegou a essa conclusão? Ele chegou pelo método brasileiro de não prestar atenção no que o sujeito está dizendo, mas de, de cara, descobrir vagas semelhanças com outros autores e, daí, criticando esses autores, acreditar que contestou o primeiro. No entanto, eu não posso dizer que esse Paulo Araújo está operando inteiramente em cima do nada, porque há uma tradição de pensamento conservador católico que é exatamente o que nós vamos chamar de pensamento contra-revolucionário, que quer fazer uma revolução com signo contrário. Isso existe, a criação dessa escola foi um erro monstruoso, que tem origem na Contra-reforma. Isso só poderia prejudicar a Igreja a longo prazo, como prejudicou. E veja que todos esses pensadores conservadores católicos, mesmo quando acertam – e, sobretudo, acertam na análise do inimigo. Quando eles dizem, dói porque é verdadeiro - não vêem que eles mesmos estão enquadrados no exemplo. É o roto falando do rasgado. É sempre assim. E eu sempre procurando encontrar um pensador católico que entendeu a coisa direitinho. Não encontro um. Citam René de la Tour Du Pin, que o pessoal da direita francesa diz que criou as armas por excelência para o combate contra os revolucionários e etc. Quando eu vou ler, o que é a arma? É o projeto de uma sociedade cristã a ser construída mediante a concentração do poder. Isso é combater a gripe suína comendo carne de porco, combater a vaca louca comendo uns bifões desse tamanho. Isso tudo começou na polêmica errada, movida pelos apologistas da escolástica contra os novos filósofos como Bacon, Descartes, Newton etc. Mas a filosofia de Descartes e bacon é para rir, é boboca, infantil. Você não pode aceitar esses caras como filósofos. Agora, o fato de o sujeito ter descoberto alguma coisa... Por exemplo, Descartes descobriu a geometria analítica, Newton descobriu a lei da gravitação universal. Bom, os sujeitos fizeram certas descobertas científicas específicas, e elas são boas em si, mas o arcabouço filosófico e intelectual no qual eles põem isso é ridículo. Eu já expliquei, por exemplo, que toda a filosofia de Descartes é uma confusão entre ficção e filosofia. Ele transita entre a ficção e a realidade sem perceber. É uma coisa primária. Mas ele não sabe o que está fazendo? Eles têm uma falha de autoconsciência, que eu denominei paralaxe cognitiva. O sujeito olha um objeto e o descreve. Só que ele não sabe exatamente qual é a posição dele em relação a esse objeto. É uma perspectiva errada. Quando um desenhista vai desenhar, medir o objeto, a primeira coisa que ele tem de saber é a distância entre ele e o objeto. Pois se imaginar o objeto solto no espaço, chegará no cubismo, porque solto no espaço o objeto não tem perspectiva, ou tem todas as perspectivas misturadas e chapadas, uma em cima da outra. Daí ele (o autor do comentário) fala de novo do negócio do conservadorismo católico tentando “(...) proibir o pensamento autônomo e denunciar a ‘liberdade de perdição’. Contra tais pecados” a Igreja propõe – diz ele – “o sacrifício do intelecto”. Isso é absolutamente falso. “(...) Eis as bases para os pontificados de Bento XVI e de João Paulo II. Olavo de Carvalho saúda o advento desses pontificados com entusiasmo e esperança.” Eu? Hã? De onde ele tirou isso? Eu acho que os últimos pontificados foram todos absolutamente desastrosos, inclusive o de João Paulo II – sem prejuízo das enormes qualidades que esse homem tinha e das coisas boas que ele também fez. Ele foi bom, sobretudo para a Polônia, que é a terra dele. Mas depois, quando ele vai a Cuba e passa a mão na cabeça do Fidel Castro, eu vou achar isso bom? Quando o Papa participa de sessões de macumba e acha lindo, vou achar isso bom? Isso é uma humilhação terrível para a Igreja. O João Paulo II sentado e um monte de mulheres peladas balançando os peitos e fazendo um ritual afro, e ele tendo de achar aquilo bonito. Como o Papa se sujeita a uma coisa dessas? Eu vou achar isso bonito? Quanto ao Bento XVI, tem algumas coisas que ele está fazendo que a gente vê que são boas. Por exemplo, readmitir aqueles camaradas da Sociedade de São Pio X que nunca fizeram mal a ninguém, e o único pecado deles foi rezar, confessar, comungar e seguir a doutrina de 2.000 anos. Os caras vão ser punidos por causa disso? Eu acho que está certo ele fazer os camaradas voltarem, mas quando ele soltou esta última encíclica (Caritas in Veritate) , vocês viram o que eu escrevi a respeito (artigo “Um globalismo cristianizado?”). Eu acho aquilo um documento perigoso, que vem com aquela ambigüidade típica do Paulo VI – que era um sujeito que falava “sim, porém não”; era especialista nisso. Chegou aqui nesta encíclica o “sim, porém não” de novo. Então como é que eu estou saudando esses pontificados? Não estou saudando pontificado nenhum. Assim, do fato de eu ser contra o movimento revolucionário, o sujeito supõe que eu sou a favor do movimento contra-revolucionário. Daí ele fala mal do movimento contra-revolucionário e acha que refutou a mim. Ele não entendeu uma linha do que eu estou falando, e nem quer entender, porque quer transferir a coisa logo para o plano do “a favor ou contra”. Mas antes de ser a favor ou contra qualquer coisa, você tem de saber do quê você está falando. Se eu quiser refutar uma teoria, eu tenho de pelo menos entendê-la. O Bruno responde a ele de uma maneira até elegante, mas daí ele insiste: “O problema que eu vejo nesta formulação do Olavo de Carvalho sobre ‘mentalidade revolucionária’ é a recusa dogmática do legado das revoluções inglesa, americana e francesa.” Bom, vamos deixar a francesa de lada. “Há um insolúvel problema de ordem lógica nesta formulação da ‘mentalidade revolucionária’. Se tal ‘mentalidade’ apenas engendra o mal, como foi possível que dos seus resultados históricos pudesse emergir o bom conservadorismo anglo-saxão?” Por que eu devo ter paciência com um sujeito que começa a criticar o negócio e nem leu ou escutou por cinco minutos? Desde o início eu estou dizendo que o conceito de revolução não se aplica às revoluções inglesa e americana. Quanto à Revolução Francesa, qual o seu legado? A total destruição da França. A França do Antigo Regime era a nação mais poderosa e rica da Europa, e a que mais estava crescendo. Depois da Revolução, foi caindo, caindo, até virar office-boy do Saddam Hussein. Qual é o legado? A Revolução Francesa não deixou legado nenhum; zero. Só um legado de malefício e destruição. Agora, as revoluções inglesa e americana deram certo, é claro. Você olha e vê que deu certo. As sociedades que eles criaram de fato são um prodígio. São as sociedades que melhor [1:50] articularam até hoje o “lei e ordem” com a liberdade individual. Não é perfeito, mas é o que tem de melhor no mundo. E eu disse claramente que elas não se enquadram no conceito de revolução, porque a definição de revolução é a proposta de um futuro melhor a ser realizado mediante a concentração do poder. O que as revoluções inglesa e americana visaram e fizeram? A divisão do poder. Criar todas as garantias para que o poder não se concentre. Claro que depois vieram os engraçadinhos, passados 150 anos, e começam a inventar um pretexto, e outro, e outro, para ir aumentando o poder, como estão fazendo até hoje. Mas mesmo assim, ainda não conseguiram apagar os resultados. As revoluções inglesa e americana são chamadas de revolução apenas por um efeito retórico, mas elas cientificamente não têm como se enquadrar no conceito de revolução. Mas é assim que se discutem as coisas no Brasil. Não é sério. Mas também não posso dizer que esse pessoal não tem um enorme material histórico do qual eles podem se servir para confundir a si próprios. E esse material histórico, esse tecido de equívocos, surgiu exatamente da polêmica entre os católicos conservadores e o movimento revolucionário. Por exemplo, do fato de que de um ponto de vista ortodoxamente católico você não possa admitir outras religiões como reveladas, não se segue que a Igreja deva dominar o Estado e proibir todas as outras religiões. É o ideal que muitos pensadores conservadores tiveram e que jamais se realizou, e que esteve mais na boca de pensadores católicos leigos do que na da Igreja. A Igreja, como tal, jamais procurou uma coisa dessas. Durante certo período, no confronto com o protestantismo, ela fez isso sim; mas como norma, como orientação geral, ela sabe que não dá para fazer isso, e que não é para fazer. Como poderia a Igreja, por exemplo, proibir a prática do judaísmo se a profecia cristã assinala a conversão de todos os judeus no fim dos tempos e o investimento dos judeus em uma missão profética especial? Se proibir o judaísmo, acaba o judaísmo, e daí não se cumpre a profecia. Como a Igreja pode fazer um treco desses? Não pode. Daí o fato de que a política da Igreja para com os judeus sempre foi ambígua. Não gosto da polêmica judaica entre cristãos, mas por outro lado tem a bula do Papa Bonifácio VIII ordenando aos clérigos que deixem os judeus viverem livremente de acordo com as suas tradições. Por isso mesmo, Roma virou o grande abrigo dos judeus, porque sempre haverá católicos inflamados que querem botar todos na cadeia, acusá-los de coisas que não fizeram; isso sempre houve na Igreja. Mas você não pode responsabilizar a própria Igreja por tudo o que todos os católicos fazem. E o Papa, ao contrário, sempre foi o protetor dos judeus, Roma foi o grande abrigo dos judeus. O cara era perseguido no resto da Europa, para onde ele ia? Para Roma. Esta idéia de uma sociedade uniformemente católica, com um governante católico que impõe as leis católicas, é uma concepção revolucionária. E por ser uma concepção revolucionária, também vai ter efeitos destrutivos. No século XX surgiram até movimentos contra-revolucionários inspirados na idéia, por exemplo, de sociedade corporativa etc. Como o fascismo italiano. Na hora em que isso aconteceu, o que a Igreja fez? Ficou como barata tonta; não sabia o que fazer com esses regimes. Por um lado eles estavam usando uma retórica católica, e por outro eles colocavam o governo infinitamente acima da Igreja, e a submetiam à autoridade do governo, de tal modo que a Igreja não podia aceitar. Além do que, estavam cometendo violência, atentados aos direitos humanos etc., e a Igreja viu que apoiá-los era pagar mico, mas não podia ficar totalmente contra porque em parte eles se baseavam em idéias católicas. Então fica essa coisa de não saber o que fazer. É errado dizer, por exemplo, que o Papa apoiou o nazismo. Não. O único sujeito que combateu a ascensão do nazismo na Europa durante a década de 30 foi o Papa. Os outros todos ficaram quietinhos e o Papa Pio XII diariamente no rádio falando mal daquilo. Mas não se pode negar que, dentro da Alemanha, bispos e cardeais apoiaram aquilo. Porque esta idéia de que o Papa tem controle total sobre a Igreja é a idéia mais estúpida que alguém pode pensar. “Ah, mas tem a infalibilidade papal”. A infalibilidade papal foi instituída em 1870, e só é válida para o campo doutrinal. Se o Papa determina certa política, ninguém na Igreja é obrigado a seguir. E não seguem mesmo. Então, o Papa está falando mal do Hitler, mas o cardeal de Berlim ou de Colônia pode gostar do Hitler e apoiar. O que o Papa vai fazer contra? Nada. Como não fez nada quando a ordem jesuíta inteira virou comunista. Tentou fazer alguma coisa, mas pouco. Foi João Paulo II. O que ele fez contra a ordem jesuíta, contra a Teologia da Libertação? Nada. Porque não tem como fazer, não tem os instrumentos administrativos para fazer. As tentativas de intervenção do João Paulo II na ordem jesuíta fracassaram redondamente porque eram iniciativas fracas. Está aí mais um motivo: como é que eu vou celebrar o pontificado de João Paulo II depois de ver que fez uma coisa dessas? Muito bem, ficam aí essas recomendações quanto à leitura dos filósofos antigos, e, com o tempo, nós vamos aprofundar isso na prática, vamos dar alguns exemplos de como se lê esses filósofos antigos. Lembrando sempre que uma leitura científica tem de surgir de uma leitura literária primeiro. Se não tem a leitura literária, você não vai entender nada. Isso vale para todos os filósofos dignos desse nome. Agora, se você toma sempre as doutrinas apenas no seu sentido discursivo literal, bom, fica fácil impugná-las. Mas na verdade você não as impugnou, você impugnou apenas aquilo que entendeu delas, o que em geral está muito abaixo do que aquilo que foi proposto. Você terá um entendimento pueril, limitado, e vai discutir consigo mesmo, achando que está discutindo com Aristóteles ou Leibniz. Vamos fazer a pausa e em seguida responder as perguntas. [intervalo] Muito bem, vamos continuar. Nós temos aqui uma multidão de perguntas; vou tentar responder o máximo que puder, porque eu sei que é uma coisa frustrante ter o trabalho de redigir a coisa e depois não respondê-la. Espero que todos tenham paciência e interesse pelas perguntas dos outros. Aluno: Ao ouvir a 34ª aula fiquei infeliz em conhecer mais a respeito do status de filósofo, principalmente quando o senhor mencionou a responsabilidade daqueles que estão fazendo o seu curso. Confesso que muitas vezes chego a temer tamanha responsabilidade, mas a assumo como missão. [2:00] Lembro que o senhor falou sobre a autoridade, e fiquei pensando sobre esse tema quando me vi na seguinte situação: sou professora concursada de sociologia no estado do Rio de Janeiro, e leciono sociologia e filosofia no ensino médio para jovens e adultos. É um curso muito rápido em que os três anos são feitos em apenas um ano e meio. Venho a mais de um ano dando aula dessas duas disciplinas, porém agora não poderei mais dar aula de filosofia. Meus documentos foram apresentados ao fiscal da Educação e este disse que não posso mais dar essas aulas, mas não me apresentaram nenhuma justificativa formal. É importante lembrar que estou dentro de um aparelho de Estado e que no ano que vem teremos eleições. Posso considerar um exemplo claro de autoridade, posso considerar que filosofia e sociologia são disciplinas ainda consideradas perigosas? Em sala de aula tento evitar qualquer tipo de doutrinação, procuro orientar-me de acordo com os valores morais e princípios éticos da profissão.(...) Olavo: Djane, provavelmente descobriram que você faz isso, e isso é proibido. Aluno: (...) Observação: posso qualificar essa atitude como um assédio moral?(...) Olavo: Pode. Aluno: (...) Quem é esse fiscal para dizer se eu posso ou não dar aula de filosofia?(...) Olavo: É um zé-ninguém metido. Estude a coisa do ponto de vista jurídico e reaja. Aluno: (...) Será que esse fiscal é formado em filosofia? Que critérios usou para me interditar? (...) Olavo: Provavelmente este: ele pegou algo do conteúdo ideológico do que você passa, não gostou e proibiu. Aluno: (...) Minha intuição diz que eles fazem sutis jogos psicológicos para testar os professores, e que caso eu diga a todos que essa atitude significa assédio moral, vão me chamar de louca, afinal não estão fazendo nada, enquanto na verdade minha intuição diz que de fato estão perseguindo certos professores que não concordam com a política do governo atual. Olavo: Mas é claro que estão. Quando surgiu a disciplina de filosofia no 2º. grau, eu disse que ela seria apenas um instrumento de propaganda e doutrinação, e nada mais. E não há nenhuma outra justificativa – eu acho que para preencher as vagas disso aí precisariam de quarenta, cinqüenta mil filósofos. Você acha que o Brasil tem tantos filósofos assim? Não tem. Eu acho que a sua intuição está certa, a sua desconfiança é perfeitamente verdadeira e você deve estudar a coisa com muito cuidado do ponto de vista jurídico e reagir, e acho que se reagir você ganha. Aluno: De antemão lhe peço desculpa por algum erro gramatical que eu possa cometer neste e-mail. (...) Olavo: Desta vez passa. Da próxima, você será executado. Aluno: (...) Escrevo este e-mail com o intuito de sugerir ao senhor a idéia de um curso introdutório à teologia. (...) Olavo: Bom, eu não vou fazer isso. Primeiro, eu sou de uma burrice teológica exemplar. Quando eu leio as Sagradas Escrituras, leio muito devagarzinho, e às vezes uma única frase me faz parar por meses ou anos, até eu entender aquele negócio. De vez em quando eu produzo algum comentariozinho – eu uso isso especialmente nas mensagens de Natal – mas isso é tudo o que eu posso dizer. A teologia requer uma espécie de inteligência específica, que não é realmente a minha área. E, depois, as controvérsias teológicas são um problema. Eu acho muito difícil extrair das Escrituras, e até da tradição, uma doutrina perfeitamente coerente em todos os seus aspectos. Você pode às vezes extrair várias doutrinas, aquilo pode ter vários significados em planos diferentes; isso é um trabalho sem fim. Tem uns caras abnegados que dedicam a vida a isso; eu acho bom que eles existam, mas eu não sou um deles. Eu simplesmente não consigo raciocinar a partir de Escrituras reveladas. Eu raciocino a partir da experiência que eu tenho e da história, e uso a Escritura não como objeto de análise, mas como uma espécie de inspiração. É como se fosse um hormônio do pensamento, pois a riqueza simbólica das Escrituras é infinita. Às vezes, uma frase lhe ilumina para entender tanta coisa, que é melhor interpretar outras coisas à luz das Escrituras do que interpretar as próprias Escrituras. Aliás, eu acho que o método mais correto é esse, porque o sentido das Escrituras não tem fim. Agora, quando os camaradas acreditam que eles sabem o que a Escritura está dizendo, e que os outros não sabem, só dá bode. Sinceramente eu não sei se deus mandou os profetas escreverem tudo aquilo para a gente ficar interpretando. Eu não acho que a Escritura seja um objeto. Quando se diz “Palavra de Deus”, isso não é um objeto idêntico a outros textos, ela tem certas propriedades que os outros não têm. Tem frases ali, por exemplo, que são usadas como orações ou invocações, e funcionam. Não tem nenhum texto humano que possa fazer isso. De onde a gente tirou as palavras do Pai-Nosso? Da Escritura. Você não reza o Pai-Nosso e não funciona? Funciona. Como é que eu posso analisar um texto desses? Não tenho capacidade para isso. Pode ser que haja pessoas que Deus inspirou para isso. Mas quando você vê que o próprio Santo Tomás de Aquino, em seus dias finais, disse que tudo o que ele escreveu de teologia não era nada perto daquilo que Deus tinha acabado de mostrar para ele, então são penas de amor perdidas. As Escrituras são feitas para nos alimentar; não é leitura, é comida. E aconselho: leia pouco, e deixe aquilo funcionar dentro de você. Tudo o que eu disse sobre se impregnar do sentido é para ser feito com qualquer leitura, mas, sobretudo, a das Escrituras. Deixe que aquilo aja sobre você; talvez você não entenda o texto das Escrituras, mas vai entender muita coisa a partir dele. Sinceramente eu não acho que as Escrituras possam ser compreendidas. Elas nos compreendem, nos abrangem e nos ensinam sobre todas as coisas. Se você ler aquilo quase com a ingenuidade de uma criança que está aceitando, lembrando que é Jesus Cristo que está falando isso para você, então perceberá que Ele não falou isso para você ficar interpretando, fazendo análise estrutural. Isso é sangue, é vida, é outra coisa. Aluno: (...) A formação escolar da minha geração – tenho 33 anos – foi totalmente corrompida por professores de história e geografia de esquerda, imbuídos de fraude total ideológica e muito preconceito religioso. Fui um produto desse meio, e somente após ler seus textos percebi quão grave delito estava cometendo. Pedi a Deus que me mostrasse o caminho e agradeci por tê-lo colocado em minha vida. Porém, mesmo lendo e estudando no pouco tempo que tenho, hoje possuo mais dúvidas do que esclarecimentos a respeito da Bíblia.(...) Olavo: Ótimo. Eu já falei: a Bíblia não é para ser entendida, não é para ser compreendida, é para ela ajudar você a compreender o resto. É só isso. Deus nunca vai ser compreendido, a palavra de Deus também não. Aquilo não é um objeto da sua inteligência, é a origem da sua inteligência. É a ação do Espírito Santo ali. É por isso que muitas vezes eu acho que teologia dá bode. Quando surge, por exemplo, uma monstruosidade como a Teologia da Libertação. Ou quando surgem todas aquelas discussões sem fim a partir da Reforma: o sujeito inventou uma teologia diferente, daí veio outro que inventou outra, e outra, e outra; e isso não acaba mais. Tudo isso eu acho um perda de tempo e uma blasfêmia. Por que não admitir “Deus, nós não entendemos as Tuas palavras, então que elas nos ajudem a entender o resto.”? Isso elas fazem. Pegue o livro do Northrop Frye que se chama The Great Code, O Grande Código, onde ele mostra que toda a literatura ocidental nasce da Bíblia. Veja quantas narrativas saíram de símbolos bíblicos. Às vezes o sujeito – um escritor, um ficcionista – lia duas linhas, e daquilo apareciam mil histórias. O que Thomas Mann fez com a história de José? A história de José na Bíblia tem 10 páginas. E aquilo inspirou para Thomas Mann quatro livros de 500 páginas cada um. É o certo: ele deixou que a Bíblia agisse na sua imaginação. O produto pode ser melhor ou pior. Veja o que o René Girard leu sobre o bode expiatório na Bíblia. Será que ele entendeu aquele pedaço? Eu não sei, mas com base naquilo ele entendeu um bocado de coisa. Vou lhe dar este conselho: nunca pegue a palavra de Deus como objeto. Nunca tente examiná-la. Não, não. Não [2:10] precisa entender. Leia aquilo e guarde. Você verá que aos poucos irão surgindo – sem você forçar, sem perguntar nem nada – as analogias, espontaneamente. Quando a Susanne Langer diz – e esta frase me marcou para o resto da vida; eu li o A Filosofia em Nova Chave vai fazer quase 40 anos – que o símbolo é uma matriz de intelecções, então ele não é para ser entendido em si mesmo, é para fazer você entender outras coisas. E na bíblia tudo é símbolo, cada palavra. Quando Jesus diz que você não pode tirar um iota, um til, do texto, eu acho que isso se aplica também a muitas análises que fazem. Você está cortando aquilo em pedaços. Quando começaram as análises estruturais, filológicas, de textos bíblicos, aí que começou a bagunça. Aluno: (...) Por exemplo, tenho dúvidas a respeito dos judeus e outros povos não-cristãos. No final eles também serão considerados filhos de Deus? (...) Olavo: A Bíblia já respondeu. O Evangelho já respondeu. No final dos tempos os judeus todos se converterão e terão uma missão especial na Salvação da espécie humana. Mas isso quer dizer o seguinte: não é para ficar espremendo o judeu para ele se converter, porque ele só vai se converter no fim dos tempos. Na véspera de acabar eles vão entender as coisas de um outro jeito. Tem um humorista, o Burt Prelutsky, que disse: “mas essa questão nossa com os cristãos é muito fácil de resolver: a gente espera o Messias chegar e pergunta se Ele é o mesmo que já veio ou se é outro.” É a coisa mais simples. E vai ser com essa pergunta que eles vão ter a resposta. Então por que se preocupar com eles? Foi o Papa Bonifácio VIII que disse para deixar o judeu no seu canto, fazendo o que quiser, do jeito que quiser. Tratar bem, proteger e, evidentemente, se ele falar contra o cristianismo, não aceitar. Ponto. É só isso. Aluno: (...) São inúmeras questões, até questões infantis como a que coloquei acima, e tenho certeza que muitos alunos do curso gostariam de uma formação nessa área. Poderia ser um curso paralelo a este, porém pago. Sei que o seu tempo é raro, e o senhor tem muitas obrigações. Não penso em um curso longo, mas apenas uma introdução, uma explanação do que o senhor aprendeu e viu ao estudar as religiões. Olavo: Bom, eu posso fazer um curso de filosofia da religião; é uma coisa diferente. Eu posso filosofar não a partir dos textos (não sou besta, pois daí estaria fazendo teologia), mas a respeito da história, da cultura religiosa, e posso filosofar a partir da minha própria experiência, que é o que eu sei. Isso não tem valor canônico, doutrinal, não é doutrina da Igreja, são apenas idéias do Olavo de Carvalho. Mas pode ser útil. Isso eu posso fazer. Agora, quando entra nesse negócio de religião, prestem atenção: cuidado. Muito cuidado. Hoje em dia isso é campo minado, e não me refiro somente a esse pessoal de esquerda etc. Não; está tudo minado, há muito tempo. Esse é o mundo da confusão. Eu acho que o que interessa da religião são aqueles ritos instituídos pelo próprio Deus e que continuam válidos eternamente. O batismo, confissão, comunhão; isso aí sim. E eu já expliquei para vocês: fujam de padre. Padre é como mecânico de automóvel – você vai ao mecânico para ele consertar seu automóvel; depois que ele consertou, você pega e vai embora. Não precisa ficar visitando o sujeito em casa, nada disso. O padre também só está aqui para fazer o batismo, a confissão, a comunhão e acabou. Fez isso, tchau. Porque todos esses movimentos católicos que surgem, muitas vezes esse pessoal tem um espírito partidário de arrebanhar gente e, portanto, concentrar poder. Isso só cria problema. A minha experiência nessa área é uma coisa terrificante. Mas, como tudo o que eu digo de algum modo leva as pessoas para a Igreja, elas pensam que o meu objetivo é esse. Não, meu objetivo não é esse. Estar na Igreja é obrigação de todo mundo. Começa por aí. O que eu estou fazendo é uma outra coisa que vai além disso. Se o sujeito achou que todo o meu esforço foi para convertê-lo ao catolicismo e pensa que agora que encontrou a religião encontrou Deus, acha que não precisa mais do Olavo de Carvalho. Muitos idiotas pensam isso. Não, eu não fiz tudo isso para levá-lo para a Igreja, ele deveria estar lá há muito tempo, e daí nós conversaríamos sobre essas coisas aqui. Eu estarei lhe ensinando algo mais. Daí o sujeito diz “mas você acha que o seu ensino está acima da religião?”. Acima da sua religião está. Mais ainda: nós sabemos que o ciúme intelectual que essas pessoas que lideram movimentos têm é uma coisa mortal. Os caras ficam roendo o pé da mesa. Se você entra em qualquer dessas coisas, você começa a decair intelectualmente, a ter uma espécie de hiper-sensibilidade que fará você ficar mortalmente ofendido com qualquer coisa que eu fale, e assim por diante. Você fica um idiota. Então é o que eu digo: você vai à Igreja, é batizado? Ótimo. Se não batizou, vai lá e batiza. Confesse e comungue, uma ver por ano. Não confesse e comungue muito, pois se você vai toda hora à igreja, o padre vai ver que você está indo lá, e já vai dizer “meu filho, você não quer entrar para a Congregação Mariana, para a Comunhão e Libertação, Para os Legionários de Cristo, para a TFP?”. Vai começar com essa coisa. Não tenho nada contra esses movimentos (a aula foi dada anteriormente ao escândalo dos Legionários de Cristo, que foi comentado pelo professor Olavo de Carvalho posteriormente), espero que progridam; porém não com gente do estatuto intelectual que eu pretendo transmitir a vocês. Eles querem massa. Agora, é incrível que, no Brasil, pessoas de formação universitária, que exercem profissão universitária, chegam e dizem que não querem ser intelectuais. Ah, não querem? Então por que não foram fazer uma profissão braçal? O que acham que é estudo universitário? Qualquer pessoa que tenha o estudo universitário já está atuando na esfera intelectual, queira ou não. O sujeito tem o diploma de física, mas diz que não quer ser um intelectual. Mas do que ele está falando? A profissão intelectual é aquilo que na Idade Média se chamava o clérigo. Todo mundo que sabe ler e escrever já está no clero. Não precisa ser ordenado padre para isso. O meu amigo Antônio Donato, por exemplo, que é o melhor instrutor religioso que eu já vi na minha vida, um santo homem. O Donato é santo mesmo, não tenho a menor dúvida. Mas o Donato não é ordenado padre. Ele é o melhor padre que tem no Brasil, e diz que não está preparado para ser ordenado padre. Quer dizer que Deus no céu já o ordenou mil vezes; dá ordenação sacerdotal para ele todo dia. Porém, o Donato não lidera um movimento, ele não é um chefe de seita. Ele é um professor de religião, e o melhor que eu já vi. Então, quer estudar? Estude com o Donato. Mas vai dar um trabalho desgraçado. E olha que eu sou amigo do Donato faz 30 anos, e entre nós nunca houve a mais mínima divergência sobre nada. Eu estou fazendo aqui o meu serviço, ele fazendo o dele lá, e nós estamos indo para o mesmo lugar. Agora, se você entrar em qualquer movimento, você vai criar problema. Se você quiser mesmo [2:20] o negócio da teologia, procure Antônio Donato Paulo Rosa. É o melhor do Brasil, se não o melhor do mundo. É o mais honesto, o mais bondoso, mas ele é durão, vai lhe dar muito trabalho para fazer. Aqui tem um sujeito que não é aluno do curso, e mandou uma mensagem para o Seminário, o que me fez tomar a decisão de tornar o acesso ao fórum restrito aos alunos, porque eu não estou a fim de perder tempo. E o sujeito manda uma pergunta que é o típico blefe provocador. Pergunta: Ouvi tua entrevista, quando tu falavas sobre religião, ecumenismo e revelação, e cheguei à seguinte conclusão: é por isso que a filosofia da religião é aceita com reservas no espectro das ciências da religião. Por favor, professor, és um formador de opinião? Então quando falares sobre religião, leia alguns cientistas da religião sérios para utilizares de algum conceito que eles utilizam. Olavo: Primeiro: que entrevista? Segundo: que cientistas? Do que você está falando? Isso é o típico brasileiro. Essa coisa genérica, não dá nome de nada, não diz o que está falando, e quer dar uma impressão: “ o Olavo não entende de religião”. É? Quem entende é você, zé-mané? De quem você está falando? Cite um cientista da religião. Se espremer, esse cara não conhece um. Isso é porcaria, é para esquecer. Outra coisa: os alunos bons começam pedindo desculpa por eventuais erros de gramática; eles têm consciência gramatical. Eu já disse mil vezes: o sujeito que não é capaz de dominar a gramática da sua língua nunca vai ter ordem nenhuma em seus pensamentos, vai ser sempre um primário. Ninguém é obrigado a chegar ao estado de perfeição, mas eu vejo que a qualidade das cartas que chegam está melhorando dia-a-dia. Todo mundo está fazendo um esforço maravilhoso. O número de erros de português diminui a olhos vistos. Mas esse sujeito já vem e comete todos de uma vez. Olhem: “da mesma forma que se irritas.” Tu se irritas? Ora, isso é como a filha da minha amiga Henriette, que uma vez chegou e disse “mãe, você precisa ver as coisas que aconteceu.” Daí a mãe falou: “as coisas que aconteceu?”. Então ela pensou e falou: “não, as coisas que aconteceus.” É a gramática do rapaz. Só que a garota tinha 5 anos de idade. Aluno: Antes de tudo desejo um feliz Natal a você e sua família. (...) Olavo: Deus abençoe. A todos vocês, feliz Natal, próspero Ano-Novo, que Deus abençoe a todos sempre. Aluno: (...) Apreciei a sua indicação para o aprimoramento da língua inglesa. Gostaria de aproveitar e pedir que o senhor indicasse uma boa gramática para o aprendizado da língua espanhola e bons livros em espanhol para uma melhor compreensão dessa língua. Olavo: Bom, aí complica pelo seguinte: eu jamais li uma gramática espanhola. Nunca, eu nunca vi uma gramática espanhola, nem de longe, nem a capa. Eu simplesmente comecei a ler autores espanhóis, me apaixonei por aquilo, li tudo o que tinha para ler de literatura espanhola: Pío Baroja, Pérez de Ayala, Ortega y Gassett, Miguel de Unamuno, Antonio Machado, Garcia-Lorca. Li tudo, tudo. Daí chegou um dia em que tive de fazer uma conferência espanhola, e descobri que eu sabia falar espanhol. Falei, todo mundo disse que estava perfeito, e perguntaram “onde você aprendeu?”. Eu disse que jamais aprendi. Foi por impregnação. A gramática do espanhol é quase igual a da língua portuguesa; as diferenças são pouquíssimas. Essas poucas diferenças você pega sozinho. Então você pode entrar direto na leitura, e você vai se impregnar daquela língua sem precisar estudar a gramática. Olhe que coisa maravilhosa. Se todas as línguas fossem assim. Agora, quero ver aprender o alemão assim. Você tem de ser gramático para ler alemão. Posso indicar bons livros em espanhol. Leia toda a obra de Pío Baroja, tudo o que ele escreveu. É um escritor maravilhoso, e escreve em um espanhol tão simples que parece que nem é literário – é o truque dele. E, depois, leia as poesias do Antonio Machado, [cujo] espanhol também é muito simples, não tem grandes dificuldades. E sobretudo leia o Ortega y Gassett, que é o maior prosador da língua espanhola. É uma coisa que você começa a ler e não consegue parar. Benito Pérez Galdós também. Esses são os autores que eu mais gosto, dos quais li muita coisa, quando era mais jovem, que nunca apagou. Aluno: Trabalho na área jurídica e leio os seus textos já há alguns anos. Essa leitura causou uma saudável desconfiança de tudo o que se escreve sobre direito no Brasil. Um dos bons hábitos que adquiri foi pesquisar fontes estrangeiras. Hoje, porém, sinto falta de critérios de confiabilidade, quer dizer, como saber que um autor sem referências anteriores é idôneo, exato, de boa-fé? Olavo: Bom, a primeira coisa é o seguinte: não confie em ninguém com menos de 40 anos, porque este campo do direito, de uns tempos para cá, foi absolutamente infectado. Se você quer uma boa indicação bibliográfica sobre tudo o que veio antes, pegue a Filosofia do Direito , do Giorgio Del Vecchio, cuja parte final é de ordem histórica; ele dá todas as indicações de maneira a acompanhar o desenvolvimento histórico da disciplina, e através da filosofia do direito você chega na ciência do direito. Se quiser uma introdução à filosofia do direito, leia Luis Legaz y Lacambra. É o mais perfeito que já vi. Aliás, está em espanhol; não é assim tão difícil de ler. Nos índices, procure por Legaz, porque no espanhol o sobrenome que interessa é o primeiro, e não o final. Quando um sujeito, falando do Ortega y Gassett, diz “ah, porque o Gassett diz isto assim, assim”, você sabe que ele é analfabeto em espanhol. Jamais se chama o Ortega y Gassett de Gassett; é Ortega. Isso é pior do que xingar a mãe. Eu me lembro do Rodrigo Constantino discutindo. Ele descobriu Ortega y Gassett lendo as minhas coisas, e ele falava: “ah, porque Gassett diz isso, diz aquilo.” Só falta pensar que são duas pessoas, “isso é dito não somente por Ortega, mas também por Gassett.” Aluno: Nos últimos dias venho notando minhas atitudes a fim de compará-las com as do verdadeiro filósofo, uma vez que o senhor já nos chamou assim. Entre outras coisas, percebi uma grave falha: a forma como eu me expresso. (...) Olavo: Ah, mas é assim que o sujeito vira um escritor: percebendo que ele fala tudo errado. Aluno: (...) Penso que, ao passo que evoluo com o curso, devo também procurar meios de evoluir na forma de me comunicar.(...) Olavo: Sim. Eu recomendo muito a leitura, por exemplo, do Herberto Sales. Quando eu o conheci, eu tinha marcado uma entrevista com ele no saguão do Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Chego lá procurando (nunca o tinha visto), e tinha um velhinho sentado em um canto com um caderninho. Daí eu cheguei e perguntei: “o senhor é o Herberto Sales?” “Sou.” “O que o senhor está fazendo aí?” E ele disse: “eu estou estudando.” “Estudando o quê?” Ele estava com um livro do Marcel Proust, e cada vez que o Proust dizia uma coisa de um jeito engenhoso ele copiava aquilo no português para achar um equivalente. O homem estava treinando até os 80 anos de idade. E o objetivo dele era chegar a dizer as coisas com a mais extrema simplicidade que pudesse. Eu lembro o tempo que ele perdeu (perdeu não; na verdade ganhou) tentando suprimir o maior número de vírgulas que pudesse. “Esse pessoal bota muita vírgula, e daí a gente engasga. Então vamos ver onde dá para tirar a vírgula sem criar confusão.” E ele ficava cortando vírgula. Outro exercício que ele fez: “deixa eu ver quantas vezes a repetição de uma palavra dá um efeito bom, ou quantas vezes fica ruim.” Geralmente se ensina a não repetir palavras na redação. Pois ele queria ver onde a repetição dava certo e onde não dava. E ficava treinando essas coisas, até os 80 anos, até morrer. E quando eu li o seu diário – que ele chamava de Subsidiário – eu não queria que o livro acabasse. Ele não estava falando de coisas importantes, mas tudo era dito com tamanha precisão, tamanha limpidez, que eu queria que o livro tivesse 20.000 páginas, que nunca acabasse a coisa. Infelizmente acabou. Então [2:30] o Herberto Sales é um professor de idioma: ele começou em seu primeiro romance – Cascalho. (Acho que já mencionei isso). Esse livro se passa em uma região da Bahia onde havia mineração, diamante. Ele morava lá, e começou a anotar o vocabulário das pessoas, e fez todo o livro na língua daquela região, ou seja, incorporou uma série de palavras na língua portuguesa. Daí mandou para o Aurélio Buarque de Hollanda, que botou tudo em seu dicionário. Depois ele fez um outro romance e resolveu mudar tudo. “Agora vou fazer um negócio que só usa palavras portuguesas consagradas.” E fez os Dados Biográficos do Finado Marcelino, que é uma obra-prima, só com palavras já consagradas. Depois, fez um outro livro que se chama Os Pareceres do Tempo, em que ele pegou toda a linguagem do século XVIII, as construções e termos. O Otto Maria Carpeaux disse que, dos escritores brasileiros, o Herberto Sales era o que tinha mais consciência literária, consciência de artista. E acho que o Carpeaux tinha inteira razão. Então é sempre bom ler o Herberto. Aluno: (...) Sei que o senhor nos exigiu um voto de silêncio no que diz respeito a opinar publicamente (...) Olavo: Não, não é um voto de silêncio. É um voto de abstinência em matéria de opiniões. Não é emitir somente: não tenha opiniões, sobre nada. Às vezes pode até participar de uma discussão, ou qualquer coisa, moderadamente, com muito cuidado. Porque a gente quando é jovem diz muita besteira. Quando eu leio as coisas que escrevi aos 20 anos fico horrorizado. Graças a Deus eu tive a prudência de não publicar nenhum livro antes dos 48 anos. Eu poupei a humanidade dos meus escritos de juventude. Olhem que sujeito benemérito. Só por isso eu merecia um prêmio. “Você não publicou nenhum livro? Maravilha.” Eu merecia uma bolsa do Estado por não ter publicado nada. Aluno: (...) Não é nesse aspecto que pretendo evoluir, mas sim no que diz respeito a saber como expor as idéias de forma clara e organizada em pública, em reuniões, para a família etc. (...) Olavo: Muito bem. No Brasil nós temos certa precariedade da bibliografia nesse gênero expositivo. Na área da narrativa, da poética, nós temos coisas fabulosas. Mas, por exemplo, nosso maior filósofo (Mário Ferreira dos Santos) era péssimo de exposição, não porque ele não soubesse escrever, mas porque tudo o que ele fez foi em um prazo comprimido de 16 anos, e ele gravou tudo. A cada três meses saía um livro novo, e aquilo era transcrito com erros. E foi publicado assim mesmo. Literariamente aquilo é um desastre como nunca houve. Você vai ter de pegar muita coisa em língua estrangeira. Eu sugiro a leitura desses grandes ensaístas e debatedores de idéias, que não chegam a ser filósofos. Simplesmente são polemistas, como o Léon Bloy, o William Heslet, o Nathan Arnold. Na França tem um monte desses escritores; aliás, esse é o gênero literário francês por excelência, ou seja, o jornalismo de idéias. Não chega a ser um debate em nível filosoficamente exigente, mas que é de alto nível cultural. São pessoas que estão apenas dando a sua opinião e argumentando, por assim dizer, retoricamente, mas todos fazem isso muito bem. Por exemplo, eu sempre tinha ouvido falar de um livro, Défense de l’Occident, do Henri Massis – mas é um livro do qual todo mundo fala mal, e fala mal porque ele é um conservador, só por isso. Quanto li, vi que era uma coisa bem-feita, clara. O próprio Charles Maurras, que escreveu L’Avenir de l’intelligence – que é um livro com o qual não concordo - escreveu bem escrito, com nobreza. Na Inglaterra, nos EUA, tem um monte desses autores. Aliás, aqui nos EUA, a leitura desses comentaristas de mídia é uma coisa de fazer a gente querer enfiar a cabeça na privada e puxar a descarga (isso se não for rejeitado pelos próprios cocôs), porque é de tão alto nível, tão bem escrito... Por exemplo, eu leio sempre os artigos de uma senhora chamada Mona Charen ; cada um é um primor. Esse pessoal estudou a língua inglesa profundamente, eles amam a língua inglesa. E é isso que falta no Brasil; as pessoas não têm amor pela língua, acham que a língua é uma coisa para fazer o que quiserem – saia como sair. Não se pode fazer isso. Se nós, que estamos neste curso, restaurarmos o senso da forma da língua portuguesa – vamos supor que daqui 10 ou 20 anos todos os alunos escrevam, publiquem livros, escrevam em jornal, em revistas de cultura etc. – só de a gente restaurar o senso da forma da língua portuguesa já teremos feito uma obra salvadora, porque onde não existe a linguagem formal, não tem debate de idéias; não tem nem idéias, mas só impressões corporais. São urros, gemidos, gritos, ai-me-dói, seu-filho-disso; é só isso que sai. Não é como meus palavrões, que são feitos para enunciar uma conclusão já provada. Quando eu chamo o cara de filho-disso, digo “olha aqui a foto da sua mãe no bordel”, está provado, portanto; isso é outra coisa. O palavrão nunca é substitutivo do argumento; ele é um reforço retórico merecido. E, aliás, o pessoal esquece o seguinte: eu comecei a xingar as pessoas em 2007. Antes disso, eu fui o brasileiro mais caluniado, difamado e xingado de todos os tempos. Fui xingado de tudo quanto é nome por milhares de pessoas. E depois eu falo um palavrão e todo mundo “oooh!”. E o pior é que eu já vi muita gente questionar: “ah, mas você liga para isso?”, quando eu contava: “olha o que os caras escreveram a meu respeito e tal, falam da minha mãe, da minha mulher, da minha filha, dizem que eu sou contrabandista, veado, traficante, xingam de tudo”. Quando eu digo um palavrão o mesmo sujeito diz “ah, estou chocado! Como você diz uma coisa dessas?”. Olha, eu dou graças a Deus de estar longe do Brasil, pois isso é mesmo um hospício. Aluno: Professor, posso fazer um parênteses a respeito da língua portuguesa? Olavo: Pode. Tem uma observação aqui. Aluno: A língua portuguesa de Portugal... Olavo: Acontece que em Portugal eles conservam o senso da língua. Os portugueses escrevem um bilhão de vezes melhor do que no Brasil. Quem é o melhor articulista do Brasil? João Pereira Coutinho, porque é português. Ele escreve em um português maravilhoso. Os outros não; mesmo os melhores não chegam a ter aquela força de expressividade dele, porque ele tem o treino disso. Os portugueses honram a camiseta, eles adoram sua língua. Brasileiro não. Brasileiro quer falar língua de bebê de colo. Vamos lá. Daí ele continua: Aluno: (...) Tenho grande dificuldade de falar em público. Sabendo disso, me forcei a apresentar artigos em diversos seminários relacionados à minha profissão a fim de vencer essa dificuldade. Porém, sei que pouco avancei (...) Olavo: Não, você está indo muito bem. Você escreve muito bem, está tudo muito claro. Quanto a falar em público existe um livro do Mortimer Adler – que agora esqueci o título. É exatamente sobre isso, como conversar, como ouvir e responder. Não lembro o título; vou ver e depois lhe indico. Aluno: Olavo, poderia me indicar um livro que explique o que é a África atualmente? No centro das discussões sobre câmbio climático e financiamento a nações pobres, sempre está a África. Mas o que realmente é a cultura política e a evolução histórica desse continente? Olavo: Eu tenho dois autores para indicar, que são os melhores. O primeiro chama-se Bernard Lugan, que escreveu um monte de livros de história da África do qual eu não tenho o principal – que é justamente A História da África, um volume de 1.500 páginas –, mas tenho vários outros, e a gente já vê a força do sujeito. Eu acho que é quem mais entende de África. E o segundo é um livro sobre um assunto específico, que é um livro sobre a escravidão na África, sobretudo escravidão muçulmana. O autor [2:40] se chama Tdiane N’diaye. O livro chama-se Le Génocide Voilé, O Genocídio Velado. Também existe no Brasil uma grande obra, que é do Alberto da Costa e Silva, sobre a história da escravidão. O 1º. volume chama-se A Enxada e a Lança – acho que já está no 3º. volume. Isto é uma obra-prima de história, e obra-prima de língua portuguesa. É desses livros que dá gosto. Um dos poucos livros que dá gosto de nascer no Brasil é esse. O livro do Adler chama-se How to Speak, How to Listen. Não percam isso. Tudo o que o Adler fez é sempre interessante, sempre útil, mas neste caso específico eu recomento muito. Aluno: Professor, várias vezes o senhor citou a frase do José Gianotti, segundo o qual a filosofia é o estudo de textos. Lembro, contudo, que no 1º. O Imbecil Coletivo o senhor disse que, apesar dos pesares, o professor Gianotti é filósofo. Como pode isso? Mudou o senhor a sua opinião sobre o professor Gianotti, mudou o seu conceito de filósofo desde aquele artigo, ou fui eu que perdi essa parte do filme? Olavo: Bom, não é nada disso. Acontece apenas que o uso da mesma palavra em contextos diferentes implica pesos diferentes. Eu considerei o Gianotti um filósofo no sentido de que ele é um sujeito que realmente procura filosofar, e procura filosofar não sempre desde textos, mas desde a realidade. Ele faz o possível. Quando ele diz que é um filósofo municipal, está exagerando: ele é no máximo um filósofo distrital. Mas ele está tentando fazer filosofia; a gente não pode negar isso. Ele não atende aos requisitos porque não tem cabeça para isso, mas que ele está tentando , está. E às vezes mostra realmente uma grande honestidade nesse esforço (dentro do que é possível de honestidade na USP). Aluno: As aulas estão ainda melhores. Tenho um pedido a fazer: sempre que o senhor destaca as qualidades das grandes obras literárias da humanidade, dos grandes escritores, fornece preciosas ferramentas para a compreensão das leituras que tenho feito. Noto pelo Seminário que vários alunos têm interesse em compreender e produzir literatura. O senhor poderia abordar em aula a questão do ofício de escrever relevantes obras de ficção? Olavo: Bom, este assunto é realmente importante, e eu pretendo consagrar algumas aulas a isso, antes do término dessa primeira rodada. Se entre os nossos alunos têm várias vocações literárias, eu farei qualquer coisa para que progridam nesse negócio, porque isso é muito importante. Veja: a vida brasileira dos últimos 50 anos não tem documentação literária, não tem nada. Se você pegar, digamos, as transformações pelas quais a sociedade brasileira passou, ninguém documentou. O que o pessoal documentou foi o seguinte: a experiência de um grupinho pequenininho, que é o grupinho dos esquerdistas, terroristas, e eles não param de escrever sobre isso. É tudo de péssima qualidade, e é só choradeira deles. Isso é para obter indenização. Então você só conhece a história por esse lado, e é a história da experiência daquele grupo; o restante do país é como se não existisse. Eu estava comentando que nos EUA você tem, por exemplo, a cada bairro uma bibliografia imensa sobre a história do bairro; está tudo documentado. É a memória popular que está ali. No Brasil tudo apaga, e o pessoal não sabe. Por exemplo, você conhece alguma obra que tenha documentado a mudança do cenário físico da cidade de São Paulo? Façam a seguinte experiência: peguem fotos de São Paulo nos anos 40 e 50 e vejam como eram os edifícios, o formato das ruas, como as pessoas andavam vestidas; e depois vejam hoje. Isso não aconteceu do dia para a noite, ou seja, houve uma lenta deterioração e perda da forma do espaço físico. Porque antes você vivia em uma cidade, e de repente você vive em um caos estético medonho, um pesadelo, ao mesmo tempo em que aumentava a riqueza da cidade. Outro dia alguém me mandou uma série de slides sobre São Paulo, mostrando que São Paulo é a cidade que tem mais carros importados da marca tal, a que tem mais restaurantes não sei do quê, “nós estamos ganhando um monte de dinheiro, estamos felizes pra caramba.” Quando vamos ver, tudo isso está escondido em certos lugares, e com aquela coisa da burguesia brasileira, que sempre foge. A cidade deteriora e ela, em vez de lutar para conservar sua cidade, foge e deixa estragar o que ela mesma construiu. É evidente que é uma classe absolutamente imediatista, dinheirista, que não tem o menos amor pelo espaço onde vive, pela cidade. Eu me lembro de uma vez ter lido um coisa sobre o Benedetto Croce, onde dizia que ele conhecia cada pedra das ruas de Nápoles. Ele amava a cidade, sabia tudo da cidade. No Brasil você não encontra uma pessoa que tenha esse amor, e se tiver será um amor triste, pois ela var ver o objeto do seu amor morrendo todo dia, como eu vi. Eu adorava a cidade de São Paulo, achava bonito aquilo, o centro da cidade, a praça da Sé era um primor de arquitetura, de estilo francês e tal, e os caras destruíram tudo. Nada disso foi documentado. A própria destruição da cultura superior não foi documentada. Quem vai contar essas histórias? Você precisa primeiro contar a história em ficção, para que isso oriente os historiadores. O romancista sempre chega antes dos historiadores. Por exemplo, para surgir uma história do movimento revolucionário russo, só surgiu no século XX, mas antes disso já tinha o Dostoievski, que sintetizou certos símbolos que fecundam a cabeça dos historiadores, e lhes sugere até assuntos e meios de investigação. Lembrem-se da frase do Hugo von Hofmannsthal, “nada está na política de um país que primeiro não esteja na sua literatura.” Sem dúvida darei mais dicas sobre isso, e farei o que for preciso para que vocês avancem nesse negócio. Aluno: 1 – Gostaria apenas de uma dica do senhor sobre duas leituras: a leitura e a compreensão do livro Elencos Sofísticos , de Aristóteles, ajuda a compreender a leitura do Trivium? (...) Olavo: Sim, porém Elencos Sofísticos é um dos últimos livros a ser lido, porque é um complemento do Organon. O que você tem de fazer é o seguinte: tem de ler primeiro a Poética, depois a Retórica, depois os Tópicos, que é o livro da Dialética; daí você tem de parar. Antes de passar para os Analíticos, que são os livros da Lógica, você tem de ler o livro Das Categorias e da Interpretação, e daí entrar nos Analíticas e depois os Elencos Sofísticos. Existe uma tradução portuguesa muito boa disso, feita pelo Jesué Pinharanda Gomes, que é um grande erudito aristotélico português. Eu acho que é por aí. Elencos Sofísticos direto vai dar muito sofrimento e talvez renda pouco. Se você ler isso pela ordem, subindo... eu até comparei a teoria do discurso a uma árvore. Aristóteles diz que a poesia atua fisicamente em você. Então, a Poética forma a raiz, a Retórica forma o tronco, a Dialética os ramos, e a Lógica as conclusões finais, as folhas e frutos. Aluno: (...) 2 – Gostaria de saber se aquele pequeno livro do Jacques Maritain, Significado do Ateísmo Contemporâneo, acrescenta alguma informação relevante sobre o que o senhor falou sobre o ateísmo. Olavo: Eu não li esse livro. Eu li bastante coisa do Jacques Maritain, e não acho [2:50] que seja um grande filósofo, sobretudo dentro da escolástica. Dizem que é o grande filósofo escolástico, mas isso é uma injustiça brutal com outros. No meio escolástico teve uma figura chamada André Marc, que escreveu só obra-prima, a começar por Psicologia Reflexiva. São livros dificílimos de ler, mas é um homem muito sério. Tem o padre Sertillanges, que, além disso, é um escritor maravilhoso. Tem o Joseph Marechal, cujo livro O Ponto de Partida da Metafísica nós vamos usar; eu estou traduzindo-o para que a gente use aqui. Já usamos um pedaço, e vamos usar mais. E tem uma série de gênios. Agora, o Maritain fez besteira na vida, meu Deus do céu. Ele era um líder de um movimento, e pegou uma popularidade, fazia discípulos por toda parte etc. Sempre muito bem escorado na mídia, adquiriu uma fama desproporcional com a sua verdadeira força. Quando se vê depois a responsabilidade que ele teve em todo esse desvio da Igreja para a esquerda... Bem, pelos frutos os conhecereis. Então, eu não li esse livro, mas em geral eu não presto mais a mais mínima atenção na obra do Maritain. Quando eu leio, lembro sempre aquilo que o Ananda Coomaraswamy dizia – ele disse duas palavras sobre o Maritain: ridiculous Maritain. Ponto. Acho que ele tinha toda razão. Aluno: 1 – Essa oposição interpretativa dos símbolos que você mencionou no início da aula tem a ver com a tensão inerente a eles? Eles só podem ser entendidos dialeticamente? (...) Olavo: Batata. Sim, sim. Porque o símbolo é uma analogia; uma analogia é uma mistura de semelhanças e diferenças. Por isso esses símbolos exprimem ou uma primeira impressão de algo que você não entendeu ainda, ou exprimem em um grau mais alto de exatidão possível algo que não pode ser dito literalmente por ser elevado ou complexo. O símbolo sempre tem essa dualidade de semelhança e diferença, e entre semelhança e diferença tem uma série de gradações. Também por esse aspecto opositivo de semelhança e diferença é que o símbolo sempre tem de ser interpretado nos sentidos direto ou inverso. Por exemplo, se você quiser uma boa coisa para o estudo dos símbolos, pegue o livro do Louis Charbonneau-Lassay , Le Bestiaire du Christ (que já mencionei aqui), em que ele desenhou os vários animais que nas igrejas da Idade Média, na França, representavam o Cristo. E ele mostra que, frequentemente, um mesmo animal pode representar o Cristo ou pode representar o demônio, conforme visto por um lado e conforme visto por outro. O leão, por exemplo, às vezes representa o Cristo e às vezes a Bíblia o menciona como o inimigo, que vai lá comer seus filhinhos, essa coisa toda. Aluno: (...) 2 – Será que o Zubiri não estava tentando uma abordagem similar a do Boutreaux, dizendo que em certos níveis do ser as interferências contingenciais são mais presentes do que em níveis mais excelsos no ser humano? Olavo: Bom, é possível que ele faça isso, mas, como diria Groucho Marx, isso não melhora em nada sua situação. Groucho é gerente do hotel, e de repente irrompe no quarto do hotel, e está lá o sujeito com a mulher, e ele “pô, você aí com essa mulher, acha que isso aqui é casa da mãe Joana?”. E o cara fala “mas essa é minha mulher.” Daí ele diz: “mas isso não melhora em nada a sua situação.” Aqui também: isso não melhora em nada a situação do Zubiri, porque os fatores contingenciais – ainda que eles pudessem ser os mais atuantes nos níveis mais baixos da realidade – têm de se juntar de uma maneira que seja harmônica com a forma final a ser atingida, porque senão não vai funcionar. É à forma final que Aristóteles se refere como forma do corpo. Forma não quer dizer forma externa, e sim fórmula; é a fórmula do ser humano inteiro. É por isso que existe alguma relação entre forma (não no sentido aristotélico, mas plástico, visual) e caráter. Se for possível deduzir algo da personalidade da pessoa a partir de seus traços fisionômicos – e sem dúvida é (não com precisão absoluta, mas é possível) – é porque existe alguma relação entre esta formação a partir do plasma germinal e o que o sujeito vai ser quando crescer. É uma relação misteriosa, mas se nós admitimos que a individualidade tem uma forma real, então essa forma abrange todos os capítulos da sua existência e todas as etapas da sua formação. Não sabemos qual é a articulação entre essa forma integral da pessoa e a sua formação embrionária. Sabemos que é uma relação tensional, não é uma coisa puramente lógica, porque na sua formação embrionária, na sua geração, já interferem inúmeros elementos hereditários, que se integrarão na sua personalidade de maneiras diversas. Mais ainda: cuja integração na sua personalidade pode variar conforma a época da sua existência. É o negócio do Szondi, de pegar os vários impulsos herdados como sendo um palco giratório. Durante certa época um determinado impulso está na frente; depois ele é superado por um outro, e por outro, e outro. Sem contar o fato de que a própria educação, como dizia o Szondi, socializa os instintos e depois os humaniza, ou seja, certos instintos que estão em estado bruto podem ser integrados em conjuntos maiores, mas para isso eles têm de ser harmônicos com esses conjuntos maiores. Ou como quando Santo Agostinho dizia que as virtudes são feitas da mesma matéria dos vícios. Se essa matéria não fosse compatível com a forma de vício e a de virtude, ela não poderia ser nem uma coisa nem outra. Então, quando se fala “a alma”, é a forma final integral, abrangendo tudo o que veio desde o início. E a relação entre uma coisa e outra, entre a forma final e as causas eficientes, é uma coisa enormemente complicada. Não se pode dizer como o Zubiri: que a alma inteira está dada no plasma germinal. Isso é a frase mais absurda que já vi na minha vida, porque é a mesma coisa que dizer que tudo, absolutamente tudo o que você faz é genético. Esse trecho do Zubiri é realmente de a gente puxar-lhe a orelha e dizer: “ó, isso não se fala, ô doutor. Que mancada, hein? Estou eu aqui dizendo que o senhor é um grande filósofo, e o senhor vem com um negócio desses, para me fazer pagar mico.” Essa frase do Zubiri é absurda em si, independentemente do resto do raciocínio dele. Não pode estar dada toda a alma no plasma germinal, mas o que está dado ali tem de ser compatível com a forma final da alma. Assim, mesmo com o benefício da dúvida, Zubiri errou. Mico é mico mesmo, não tem jeito. Aluno anônimo Olavo: Eu tenho aluno anônimo? Quem é você? Aluno: Como tenho de fazer e proceder para conseguir fazer uma interpretação simbólica de um texto filosófico para, como o senhor disse, só depois fazer a interpretação literal? Olavo: Bom, eu não disse interpretação simbólica, mas entendimento simbólico, e já expliquei como se faz isso. É você se deixar impressionar no nível da imaginação, e deixar sua imaginação trabalhar em cima. É só isso. Não é interpretação simbólica. Símbolos não se interpretam; você deixa que os símbolos falem, e sabendo que aquilo que eles lhe disseram não é todo o sentido que está lá. É só o que eles falaram para você. Para um outro ele pode falar outra coisa, e outra, e outra. Todas essas coisas que eles falarem para todas as pessoas em princípio são harmônicas, a não ser que haja um viés subjetivo e individual que torça aquilo. Mas uma interpretação pressuporia um só nível e uma só direção de interpretação. Veja que até a interpretação simples de obras de arte nunca termina. Elas têm dimensões e dimensões. Agora imagine, por exemplo, na Bíblia. Então essa multiplicidade de interpretações mostra a verdadeira natureza dos símbolos como matrizes de intelecções possíveis. Por isso, eles não podem ser interpretados em si mesmos. Qualquer [3:00] interpretação que você tire deles é apenas mais uma interpretação. Todas as interpretações que forem dadas, se forem bem feitas, são articuláveis entre si, como vários níveis do plano de interpretação. Mas isso mostra, ao mesmo tempo, que interpretá-los não é a coisa mais certa. Você tem de deixar que eles se impregnem em você, como diz Aristóteles dos ritos de mistérios: eles nada ensinam, nada dizem, mas deixam em você uma profunda impressão. Essa impressão vai depois proliferar em intuições ou intelecções. Pela primeira vez estou conseguindo responder a todas as perguntas. Aluno: Tenho uma dúvida que sempre volta nos meus estudos: eu estudei bem o seu texto “O que é a psique?”, e percebo que o senhor buscou um conceito de psique que não passou necessariamente pelo conceito de alma. Mas sempre vejo muitas pessoas tomando psique como sinônimo de alma, e percebo que elas estão aprisionadas em uma redoma de ambigüidade filosófica. Minha pergunta é: psique e alma são a mesma coisa? Olavo: Muito bem. Nesta apostila em particular, “O que é a psique”, eu estava tentando estudar a psique como objeto de uma ciência existente, a psicologia. Eu estou falando da psique dos psicólogos, a psique tal como eles a entendem. Se essa ciência chamada psicologia tem um objeto por trás da imensa variedade do que os vários psicólogos dizem a respeito, indo desde Jung – que diz: “tudo é psique”– até o Skinner – que diz: “não existe psique”–, qual é esse objeto? Note bem: a psique definida como objeto da psicologia é uma coisa. Agora, o que é a psique em si mesma, e se ela é a mesma coisa que alma... Esse é outro problema que eu não poderia jamais resolver pelo método que adotei ali, que é o método fenomenológico de buscar qual é a essência subentendida por trás dessas coisas tão desencontradas que essas pessoas estão dizendo. Daí, primeira coisa: todos aceitam que um treco chamado psique é causa de alguma coisa. Quando o sujeito diz que não existe psique, como o Skinner, ele está falando de uma outra coisa, que são reflexos condicionados, que são causa de alguma coisa. Então, mesmo não existindo em si, a psique é estudada em psicologia como causa de atos humanos. É muito simples isso. Então, de cara, todos admitem que esse fator X, que eles chamam psique, é causa de alguma coisa. Será a psique constituída de tudo que existe – como diz Jung – ou será apenas um nome que se deu aos reflexos condicionados – como pretende o Skinner? Dito isso, segunda etapa: no que essa causa se diferencia de outras causas possíveis. Foi só isso que eu fiz nesse estudo. Com isso eu não respondi o que é a psique em si mesma, mas apenas o que é a psique tal como a psicologia a estuda. Claro que há outras dimensões da psique que a psicologia não estuda; as dimensões propriamente espirituais ou religiosas, por exemplo, escapam da psicologia. Eu não tive a pretensão de estudar a psique em si, e dizer se ela é a alma ou não. Nem podemos fazer isso, porque aí nós dependemos do uso que os vários autores fazem dos dois termos, e esses são infinitamente variados. Para responder essa pergunta eu precisaria ter a minha própria teoria da alma, e eu não tenho nenhuma. A pergunta é interessantíssima, mas ficará sem resposta, exceto se por resposta você aceitar esta: a psique, no sentido em que eu estudei nessa apostila, não é a psique em si, e, portanto, não é a alma – é apenas a psique tal como os psicólogos entendem. Aluno: Antes de mais nada, feliz Natal e próspero Ano-Novo.(...) Olavo: Para você também; para todos vocês. Aluno: (...) Aproveitando o espírito de caridade que é comum nessas épocas, quero fazer-lhe um humilde pedido (se bem que não tão humilde assim), e tenho boas razões para crer que também é de interesse de todos: não sendo demasiado incômodo, seria possível o senhor ministrar uma aula para o curso ou para o Seminário a respeito da noção de símbolo?(...) Olavo: Eu vou fazer isso. Isso já está no programa. Teoria da alma eu não tenho; teoria dos símbolos eu tenho. Eu só estou aguardando o momento certo. Aluno: (...) O assunto me parece complexíssimo, e alguma informação sobre ele facilitaria o acesso à literatura de ficção, sobretudo do gênero épico. Olavo: Não tenha a menor dúvida que isso está no programa. Inclusive já foi dado em cursos anteriores no Rio de Janeiro, bem antigos, e para isso eu tenho alguma coisa. Eu parto dos estudos sobre simbolismo já existentes, aproveito o que eles têm – as várias abordagens possíveis do problema do símbolo, como a do Ernst Cassirer, do Gastón Bachelard, de todo esse pessoal da escola tradicionalista: René Guénon, Schuon etc. –, tudo isso e digo “bom, vamos ver o que podemos fazer com isso e se podemos articular isso e obter algo a mais.” Quando você junta, você vê que todos esses também têm algo em comum, que é sempre tentar reduzir o símbolo a alguma outra coisa. Todos fazem isso. E eu vi que isso não bastava e que precisava fazer um algo mais, e este algo mais foi a teoria que eu chamei do círculo de latência. Não vai dar para explicar o círculo de latência agora, mas prometo que um dia explico, e acho que isso vai botar ordem nessa questão do símbolo. Este curso também é a oportunidade de eu explicar melhor as coisas que antes eu expliquei muito mal, ou que expliquei não tão bem quanto o desejaria. Nós vamos fazer isso. Então, Clóvis, fique tranqüilo que logo virá isso aí. Não tem mais perguntas? Então é isso. Olha, neste fim de ano o nosso curso prosseguirá imperturbavelmente, pois a próxima aula é dia 26. E dia 26 não é Natal; na venham me enganar com isso. Natal se celebra na véspera, dia 24, e no dia, que é 25. No dia 26 espero que a sua ressaca já tenha passado. Nós vamos estudar direitinho no dia 26. E, depois, no dia 2. Que eu saiba, o Ano-Novo se festeja na passagem do ano, meia-noite do dia 31 para o 1º. Não é isso? Estou enganado? Então, no dia 2 você já está recuperado de toda a orgia, pois isso é uma festa mundana. No Natal o pessoal já bebe pra caramba; agora, no Ano-Novo é beber e outras coisas. Você vai emergir das suas mundanidades, caindo pelas tabelas, mas no dia 2 espero que você já esteja recuperado. Eu sou absolutamente indiferente a esses requisitos mundanos, “ah, mas eu tenho que passar com a minha família etc.” Por que tem? Se você quiser, mande a família ficar quieta. Quando meus filhos reclamam, eu falo “você é responsável pelo pai que tem; o único que tem é este, então trate de se conformar com isto. Ame-o ou deixe-o.” Eles sempre escolheram amar, jamais me deixar. Vocês também: parem de lisonjear a família, de tentar seduzi-la com benefícios, agradinhos etc. Seja sempre bom, justo e generoso com a sua família; não tente conquistar o amor dela. Esse amor é obrigação que ela tem. Parta do princípio de que eles te amam, e haja como se eles te amassem. Aí eles vão te amar. Agora, se você tentar seduzir, você se põe em uma situação inferior. Quer dizer que para eles amarem, você precisa dar tantos passeios, tantos brinquedos, levar os caras para a Disneylândia? Isso custa muito dinheiro, pô! Amor filial a troco de tudo isso eu não quero. Isso é o contrário do amor filial. Não dê muita moleza. Houve alguns apelos – poucos – para que a gente parasse tudo. Não serão atendidos. Aqui nós somos maus e implacáveis. As aulas continuam normalmente. Então, bom Natal para todos vocês, que Deus os abençoe [3:10] , esteja sempre ao seu lado. Boa passagem de ano eu digo depois. Por hoje é só. Transcrição: Rodrigo Fernandez Peret Diniz. Revisão: Hélio Angotti Neto.