Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 32 14 de novembro de 2009 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Boa tarde a todos, sejam bem vindos. Eu queria começar esta aula ensinando para vocês um método de relaxamento que eu mesmo inventei, há muitos anos, e que tem dado os melhores resultados possíveis. Ele foi concebido, precisamente, na intenção de que ao obter um relaxamento mais profundo, o indivíduo permanecesse inteiramente consciente e atento. Quer dizer, um relaxamento que, embora possa ser usado para dormir também, não foi feito para isso. A idéia é manter a atenção ativa enquanto você se desliga de toda a agitação corporal e obtém um estado muito propício pra penetrar em camadas mais profundas, mais permanentes, mais duradoras da consciência. O método é o seguinte: evidentemente você tem de ficar em um quarto escuro – não pode ter luz, não pode ter nada – seguro de que não será interrompido. Qualquer interrupção pode ser, realmente, muito má, muito prejudicial. Se houver alguém na casa peça, por favor, para que não o interrompa por um tempo X. E a pré-condição para o método é você precisa conhecer um pouco a anatomia do esqueleto humano. Você tem de olhar para vários mapas do esqueleto, e embora não precise conhecer os nomes dos ossos, você precisa saber visualizar o esqueleto humano. Você fecha os olhos e tenta imaginar o seguinte: em cada junção e articulação de ossos, uma por uma, a começar pelo topo da cabeça, e depois descendo, imagine que elas se separam um pouquinho, se afastam um pouquinho. Como neste desenho – não sei se está claro? – no primeiro seria a articulação normal, e no segundo, a articulação afastada. Você fará isso junção por junção, articulação por articulação. Partindo do topo da cabeça, há uma divisão bem no meio, você imagina que ela se separa um pouquinho. Na fronte, a se separa também, depois na lateral da cabeça. Passa-se para as vértebras, uma por uma, se afastando. Como se o seu corpo estivesse crescendo, esticando um pouco. Você vai fazendo isso, com muita atenção, até chegar aos ossos dos dedos dos pés. Você não conseguirá fazer isto se não estiver atento, mas você estará atento exclusivamente a isto. Quando você terminar, quando chegar aos dedos dos pés, a sua atividade consciente estará totalmente separada de qualquer estimulação sensível, e ao mesmo tempo estará muito consciente da presença do corpo humano. Ao mesmo tempo em que você vai fazendo isto, automaticamente, você vai perceber sua sensação de peso aumentar muito. Como se o seu corpo, na medida mesma do relaxamento, fosse se apoiando no chão, ou na cama, com mais densidade. Esse exercício tem um efeito tremendo. Quando inventei esse exercício – fazem mais de vinte anos que comecei a trabalhar esta idéia –, justamente, para poder alcançar aquele nível de consciência relaxada, em que você vive uma espécie de devaneio. O objetivo é alcançar um estado que se aproxima de um estado de sonho, mas no qual você está perfeitamente acordado. É justamente neste estado que você terá as melhores idéias da sua vida. Verá as coisas com muita clareza neste ponto. Apenas eu recomendo que não force nada, deixe as idéias aparecerem sozinhas e simplesmente as anote, ou guarde na memória, para depois você trabalhar aquilo. Também sugiro que você, depois disto, se permita dormir. Você vai afundando no sono aos pouquinhos, mas entre o termino do exercício e a entrada no sono, você terá um período de devaneio lúcido. Aluno – Olavo, o Silvio está pedindo para você repetir a explicação do exercício porque deu uma travada bem na hora que você estava falando. Pois muito bem! Houve um problema técnico na transmissão e me pediram para explicar novamente o exercício. É o seguinte: você vai deitar em um quarto escuro, em um lugar confortável e avisar as pessoas da casa para que não batam na porta, não o interrompam, desliguem o telefone. Você tem de estar totalmente separado do universo exterior. E antes de fazer pela primeira vez o exercício, pegue um livro de anatomia e observe bem a estrutura do esqueleto humano, de modo que você possa visualizá-lo com perfeição e saiba quantos ossos tem e onde eles estão. Você não precisa saber o nome dos ossos, isto é perda de tempo. Mas você precisa saber visualizar e, sobretudo, você precisa visualizar em você mesmo. Você vai visualizar cada articulação e junção de ossos, a começar pelo topo da cabeça, e vai, uma por uma, imaginar que os ossos se afastam um pouquinho, uma coisinha de nada. Aqui é a articulação normal, e aqui é a articulação separada (conforme desenho). O osso se afastou um pouquinho, mas é só um tiquinho, este tiquinho é mais que suficiente. E você vai descendo, vai pegando articulação por articulação. Junção por junção, de cada osso, e então as separa. Depois você vai pegando vértebra por vértebra, e assim por diante. Os braços, cada articulação, os dedos também. Você vai da cabeça, pescoço, ombros, omoplata, os braços até a ponta dos dedos, depois você volta, pega todas as vértebras uma por uma e vai descendo. Depois a bacia e assim por diante até chegar aos dedos dos pés. Isto vai lhe dar um estado de relaxamento muito, muito profundo, mas, ao mesmo tempo, você estará totalmente atento, totalmente consciente. Se não estiver consciente, você não conseguirá fazer o exercício. É muito importante que a estrutura do esqueleto não seja visualizada como no papel, você tem que ver a estrutura do seu próprio esqueleto. Claro que se você não tiver visto no papel você não vai conseguir fazer. Mas na hora, esqueça o papel. Você vai olhar os ossos como estão em você mesmo. Essa separação estará acontecendo no seu esqueleto real. Quando você terminar, chegar às últimas articulações dos dedos dos pés, você estará em um estado de relaxamento muito profundo e, ao mesmo tempo, estará totalmente atento. Claro que cinco minutos depois você vai adormecer – não tenha a menor dúvida, isto é quase irresistível –, mas entre o término do exercício e a entrada no sono você vai ter um certo momento de devaneio consciente, de devaneio lúcido, e ali podem aparecer idéias muito boas. Mesmo que apareçam só simbolicamente, anote e mais tarde você vai trabalhar aquilo. Este é o momento de você ter grandes idéias. A coisa que mais impede a concentração e o ingresso em uma faixa de percepção mais profunda é exatamente a agitação corporal. É a coisa mais óbvia, e é disto que você tem que se livrar. Mas, em geral, quando as pessoas se livram da agitação corporal elas dormem. Então você tem que achar um intermediário, onde você esteja relaxado como no sono, mas perfeitamente acordado. Mesmo que você só consiga permanecer acordado apenas por cinco, seis minutos, isso é mais que o suficiente. E você notará que, quando acordar, você vai passar novamente por este estado de devaneio lúcido. Você terá a recordação do seu sonho, acompanhada da [00:10] compreensão do sentido deste sonho. Porque, veja bem, não existe isto de interpretação de sonho. O sonho é, por si mesmo, uma interpretação da realidade. O sonho é como uma obra de arte que você inventou, ali no improviso. Você inventou uma narrativa, um ritmo, uma melodia dos acontecimentos, você criou uma seqüência melódica de imagens, por assim dizer. Foi você que inventou tudo isso, tudo isso saiu de você. Claro que pode ter uma inspiração exterior, mais tarde nós veremos isto – inspiração exterior que eu chamo de discernimento dos espíritos, de onde estão vindo os seus pensamentos, a qual é a fonte última dos seus pensamentos. Eles vêm do seu próprio corpo, eles vêm das suas percepções, vem dos ambientes externos, vem de uma influência recebida, vem de uma influência angélica ou demoníaca, etc. Isso tudo mais tarde nós vamos estudar, e sobre isso a Igreja Católica tem uma imensa tradição de estudos, um verdadeiro tesouro. Nesta saída, o sonho, na hora em que você o está sonhando, é perfeitamente inteligível. O fato de você conseguir condensar certas experiências, sensações e memórias em imagens, significa que você já as está compreendendo de alguma maneira. De certo modo, não faz nenhum sentido se interpretar o sonho porque ele já é uma interpretação, uma condensação simbólica da experiência e evidentemente o sonho diz alguma coisa. Se você tentar interpretá-lo, tentar espremê-lo, o que vai acontecer é que ele vai embora. Mas se você conservar aquelas imagens, elas vão formar o seu vocabulário interno, por assim dizer, a sua mitologia pessoal. O que importa não é você compreender; analisar o sonho, pois para analisar, você irá transpor aquela linguagem para uma outra linguagem, que é a da teoria interpretativa usada. Evidente que cada teoria interpretativa extrai algo do sonho, mas extrai aquilo que interessa a ela. Por exemplo, se estiver procurando, freudianamente, o jogo de impulsos entre o ID e o Superego, é isso o que você irá encontrar. Se estiver procurando Arquétipos do Inconsciente Coletivo, como Jung, você também irá encontrar. Se estiver procurando a luta entre a Vontade de Poder com a sensação de impotência, que é o caso do Adler, você também irá encontrar. E acontece o seguinte: e tudo isso está lá! – então, de certo modo, a linguagem dos sonhos é infinitamente superior às suas várias interpretações possíveis. O sonho não é pra ser interpretado. O sonho, como toda imagem, como todo símbolo é, como dizia Susanne Langer, uma matriz de intelecções. Na medida em que você vai conservando esta simbólica pessoal, ela vai lhe sugerir novas, e novas, e novas intuições. Agora se você toma este material dos sonhos como objeto para interpretá-lo, você acabou de matar a virtualidade inspiradora que aquilo poderia ter. É apenas para colecionar estas imagens, e com o tempo você verá que elas irão lhe inspirar muitas idéias. Do mesmo modo, este mesmo processo é o que eu uso, por exemplo, quando leio literatura de ficção. Porque, se você começa a interpretar a obra em um determinado sentido, verá que qualquer obra de arte tem muitos ângulos diferentes de visão pelos quais se pode a encarar. Cada um desses ângulos é legítimo em si mesmo, e você vai obter uma interpretação que é coerente com o ângulo adotado. No entanto se você fizer exatamente o procedimento oposto, você não irá interpretá-la, mas usar a obra de arte como um aglomerado de símbolos – um aglomerado orgânico de símbolos – com os quais você pode interpretar os acontecimentos subseqüentes. Quer dizer, a obra de arte se torna uma ferramenta interpretativa, ao invés de o objeto da interpretação. Se você faz do sonho ou da obra de arte o objeto de estudo – se você o objetiva – então evidentemente ele não terá mais a mesma potência de uma força interior que irá lhe dar novas inspirações. O certo não é propriamente interpretar a obra de arte, mas usá-la como instrumento interpretativo da realidade, e, sobretudo, como instrumento de condensação simbólica de outras percepções for tendo ao longo do tempo. E com o sonho é para fazer a mesma coisa. Muito bem! Feito isso, o nosso segundo assunto aqui, é o seguinte: É evidente que na medida em que vocês vão assistindo as aulas deste curso, vocês vão lendo também as transcrições e outros materiais escritos por mim, disponíveis no site do seminário ou na própria página ou, ainda, em livros etc. É claro, se não houvessem lido estas coisas não teriam o interesse de assistir a este curso. Portanto, eu achei que deveria dar alguma orientação aos alunos sobre o que é o conjunto destes escritos e documentos que eu fui colocando em circulação já há quase vinte anos, porque vocês vão ver que editorialmente falando a coisa não tem organização nenhuma. São uma série de notas aqui, notas esparsas, transcrições, artigos de jornal, etc. E no fim das contas, isto tudo vira um caos. E, dentro deste caos, há vários momentos que lhe dão intuições, que o esclarecem alguma coisa, mas você não consegue pegar a forma do conjunto – talvez até consiga, talvez até entreveja mais ou menos –, mas, eu achei que devia contar a vocês, mais ou menos, o que eu estou tentando fazer com todas estas coisas. Este curso, no fim das contas, é uma espécie de condensação de um trabalho desenvolvido desde há muito tempo. Estou tentando compactar tudo e dar a esse conjunto uma forma e uma função pedagogicamente útil. Esta é a idéia. Estou, de certo modo, devendo alguma explicação sobre os escritos anteriores, sobre as apostilas anteriores, para que vocês saibam como usar este material dentro do contexto deste curso. Naturalmente, só há duas maneiras possíveis de dar um senso de unidade a esta coisa: ou eu devo fazer uma exposição sistemática – encaixar estes vários pontos, estes vários escritos, vários fragmentos dentro de uma exposição sistemática, o que no momento é impossível, eu só pretendo fazer isto daqui a uns dez anos, se for o caso – ou , então, dar uma certa perspectiva histórica. É quase autobiográfico: mas o que eu fui tentando fazer? O que eu estava procurando? O que eu estava perguntando e quais foram as vias de respostas que eu fui estabelecendo? Mas, antes mesmo de fazer isto, é necessário advertir a vocês que, até hoje, nada do que eu publiquei, nenhuma destas minhas investigações filosóficas, foi examinada seriamente. Por nenhum intelectual brasileiro. Jamais, jamais. Nada, nada, nada. Quanto mais o conjunto. Se você fizer apenas uma lista temática, dos assuntos que eu fui abordando, você verá que o conjunto deste meu trabalho, só tematicamente, transcende o conjunto da cultura brasileira no momento. Vai muito além, muito além. Então, é claro que não há na intelectualidade brasileira pessoas qualificadas para examinar pelo menos um desses assuntos. [00:20] Por exemplo: a Teoria dos Quatro Discursos. Quando a publiquei, faziam quinze anos que eu a tinha descoberto e já estava lecionando aquilo fazia muito tempo. Eu simplesmente peguei as apostilas que sobraram… Na medida em que você expõem a coisa uma vez, duas vezes, três vezes, aquilo vai se condensando em uma forma escrita mais unificada. Eu publiquei a teoria, primeiro, com o título de Uma filosofia Aristotélica da Cultura, que era uma versão pequenininha, de cinqüenta páginas, e depois em um livro, Aristóteles em Nova Perspectiva, que era um pouco mais ampliado. Quando eu publiquei aquilo, faziam trinta anos, prestem atenção, trinta anos que não saia no Brasil nenhum livro sobre Aristóteles. Nada, nada, nada. A última coisa que havia sido escrita no Brasil era uma tese de um professor da USP, cujo nome agora me escapa, que era um negócio de trinta anos antes e que curiosamente, tão logo eu publiquei a minha teoria dos quatro discursos, alguém tirou aquilo da gaveta e disse “nós temos que publicar também, nós não podemos deixar o assunto Aristóteles ser monopolizado por este sujeito, porque nós temos que mostrar que entendemos alguma coisa”. Tiraram isto de um arquivo de trinta anos e publicaram. Era uma tese que até que não estava má. Mas é muito importante vocês entenderem a diferença do que é um trabalho acadêmico de filosofia, um mero trabalho de conclusão de curso de mestrado, e o que é uma investigação original. Ser capaz de pegar um autor filosófico e fazer uma boa interpretação, uma boa exposição dele, é uma coisa. Trabalhar elementos da filosofia dele dentro do quadro da sua própria investigação filosófica pessoal é outra coisa completamente diferente. Por exemplo, você pode encontrar vários escritos acadêmicos muito bons, exposições acadêmicas muito boas, investigações até originais feitas por pessoas que não tem nenhuma potência filosófica própria. Zero, zero, zero, zero. Quer dizer são apenas investigadores… Ah! Agora lembrei o nome do sujeito! É Oswaldo Porchat Pereira. Pegaram-lhe a tese e logo soltaram. Agora, o simples fato de se passarem trinta anos sem sair um livro sobre Aristóteles em um país é uma coisa das mais graves, porque se você querem saber, o autor mais estudado no século XX foi Aristóteles. E coisas novas sobre Aristóteles vêm sendo descobertas, dia após dia. Houve até um congresso na UNESCO, que depois saiu em mil páginas, em um livro chamado Penser avec Aristote – Pensar Aristóteles – que consistia em perspectivas aristotélicas vindo das ciências mais diversas, lingüística, biologia, física, etc. E o que mais saltavam aos olhos ali era o fato de que estavam descobrindo, finalmente, que a física de Aristóteles não era uma física, mas uma metodologia geral das ciências, que lida desse modo parecia uma coisa completamente diferente. É claro! Finalmente descobriram que dois mais dois dá quatro. Que a roda é redonda, e assim por diante. Para o pessoal que tinha uma certa prática de Aristóteles, isto ai era a coisa mais óbvia do mundo, mas quando os biólogos começam a descobrir isto, os físicos começam a descobrir isto, eu digo: Poxa! Estão finalmente civilizando as Universidades. Finalmente hein?! Uma coisa que eu também sempre disse, acabou ali se tornando claro para todos aqueles membros daquele congresso. Só existe um único método científico e este método científico é a dialética de Aristóteles. Qualquer “avanço” na metodologia já estava embutido na física e na dialética de Aristóteles, só que as pessoas não percebiam. Elas achavam que estavam inventando uma coisa completamente nova. Quando começam a usar o método matemático a partir de Galileu, eles acharam que haviam transcendido Aristóteles, porque Aristóteles dizia que o método matemático não é bom para as ciências físicas. Por quê? Por causa da falta de exatidão nos fenômenos da natureza. Quando Galileu acreditou “que Deus escreve o Livro da natureza em caracteres matemáticos”, ele e Newton estavam absolutamente entusiasmados com a idéia da medida exata. Porém a festa durou muito pouco tempo, pois logo em seguida se descobre a Relatividade, a Mecânica Quântica, até terminar em um negócio que é a Teoria do Caos. Hoje, as pessoas entendem o que Aristóteles queria dizer com a inexatidão. A Diferença que há, realmente, entre nós e Aristóteles, é que hoje nós temos instrumentos matemáticos suficientes para expressar esta inexatidão. Para expressar matematicamente esta inexatidão e suas variáveis. Como a famosa Teoria das Catástrofes, a Topologia. Nós temos esta matemática hoje. Hoje, vale a pena pensar matematicamente sobre a natureza. Por quê? Porque a matemática já tem a flexibilidade suficiente para poder lidar com as coisas mais inexatas e caóticas do mundo. No tempo de Aristóteles não havia isso. Mas o fato de se precisar uma matemática do caos para lidar com a natureza prova que a teoria de Aristóteles estava certa. O método matemático do qual se dispunha na época, e do qual inclusive Galileu e Newton dispunham, não eram suficientes para lidar com o aspecto caótico e quase indescritível da natureza. Mas se você desenvolve instrumentos matemáticos para isso, bom, então a utilização dos instrumentos matemáticos torna novamente viável dentro de uma perspectiva aristotélica. Só por estas coisas que estou dizendo, você vê a importância enorme que Aristóteles tem para os debates não só filosóficos como científicos do nosso tempo. Por assim dizer, Aristóteles é o autor que mais deu contribuições para isso. Um país que fica trinta anos sem ler Aristóteles, ele está por fora de tudo isto. A visão que se tem de Aristóteles [nessa situação] é a visão que se tinha na Renascença, onde se criticava Aristóteles porque ele disse que as órbitas dos planetas eram circulares e que depois Kepler provou que eram elípticas. Ah! Então a física de Aristóteles caiu. Ah, meu filho! Por um detalhe? Mas o assunto da física de Aristóteles não são as órbitas planetárias, é o método da ciência. Mesmo que ele errasse nisto e em uma infinidade de pontos, o método continuaria de pé. E é disto que nós temos que discutir, e a virtualidade da força deste método vem se revelando cada vez mais. Então a indiferença de um país por Aristóteles significa simplesmente sua indiferença total pelos debates científicos mais fecundos do tempo. Então há um alienamento total da intelectualidade brasileira em relação ao que se passa em um debate científico no mundo. Quando eu entro com a Teoria dos Quatro Discursos que é, evidentemente, o elemento colante que faltava para o pessoal poder entender a unidade da filosofia de Aristóteles e poder sair daquela ilusão criada por Werner Jaeger – Werner Jaeger escreveu um livro “Aristóteles, base para o estudo da sua evolução intelectual –. Nessa obra ele via uma espécie de ruptura entre o Aristóteles do começo e o Aristóteles do fim, o que é uma coisa absolutamente impossível. Se há uma coisa inviável é fazer o que o Werner Jaeger tentou fazer. A idéia dele é que Aristóteles começa como um puro platônico e termina como uma espécie de cientista experimental moderno. Isto é inteiramente absurdo, a tese não faz o sentido nenhum! Mas a introdução deste método genético pelo Jaeger, a tentativa de rastrear uma biografia intelectual de Aristóteles, só acaba demonstrando aquilo que um outro grande estudioso de Aristóteles, que foi Jean-Paul Dumont, acabou dizendo: Aristóteles é um filósofo, e sendo um filósofo você tem de buscar unidade no que ele está dizendo. Os saltos biográficos, eles mesmos, não fazem sentido exceto dentro de uma unidade de intenção profunda que está ali. Mesmo que tenha havido esta mudança, esta mudança reflete algo dentro do conjunto, e você tem de tentar captar a coerência interna dessa filosofia e não simplesmente dissolve-la em capítulos de uma biografia. O que me pareceu é que só seria possível captar a unidade da ciência Aristotélica se você captasse primeiro a unidade do método que ele estava usando. Mas exatamente essa unidade do método e que ele não tinha [00:30] exposto em parte alguma. Porém, ele tinha exposto algumas conseqüências deste método. Então, o método que eu por minha vez usei para a leitura de Aristóteles foi perguntar o seguinte: Há certas coisas que o sujeito não pode saber se ele não souber uma outra coisa antes. Por exemplo, o sujeito não pode aprender a andar de bicicleta se antes ele não sabe andar. Então mesmo que você jamais o tenha visto a não ser andando de bicicleta, você pode razoavelmente supor que ele sabe andar. Então com Aristóteles é a mesma coisa. Se ele consegue fazer certas coisas é porque ele tem a condição metodológica de fazer aquilo. Então, qual é esta condição? Vamos tentar extrair de dentro do que Aristóteles está fazendo os preceitos metodológicos embutidos que ele mesmo jamais explicitou, mas que claramente estão ali. E, ao fazer isso, se notava que havia sempre em Aristóteles a idéia de uma transição entre vários níveis de entendimento dos mesmos fenômenos. Quando Aristóteles descreve o processo da abstração, ele diz que primeiro temos os dados dos sentidos, que se condensam na memória através de formas que condensam, simbolicamente, a unidade de uma espécie na forma de um indivíduo. Quando você vê uma vaca, você está vendo uma vaca. Agora, na sua memória a imagem de vaca não significa necessariamente aquela vaca, mas qualquer vaca. Na memória e na imaginação se opera essa transição maravilhosa do particular para o universal, conservando a figura da forma individual. Ou seja, você é capaz de visualizar a imagem de uma vaca pensando nela o conceito da espécie vaca. O que você está fazendo? A forma inteligível do indivíduo que lhe permite captar nele a espécie a que ele pertence não pode aparecer sozinha, ela só pode aparecer no próprio indivíduo concreto. Mas você não poder ver a forma inteligível; você a abstrai da forma concreta do indivíduo singular. Porém na imaginação você pode fazer um tipo de mediação entre as duas coisas: você visualiza o indivíduo, mas pensando espécie. Esse é um paradoxo que só pode acontecer na imaginação, evidentemente. É deste paradoxo que nascia, segundo Aristóteles, toda a possibilidade do conhecimento científico e da subida até os conceitos universais. Olhem que coisa esplêndida. Então [eu percebi que] todo o segredo do aristotelismo é esse salto que se dá na imaginação. É a imaginação que possibilita o conhecimento científico. Ele diz que a inteligência humana, abstrata, não pode atuar diretamente sobre os dados dos sentidos; ela só pode atuar sobre as imagens da memória, de onde extraímos o conceito universal. Ou seja: você expressa em palavras o conteúdo constante e igual entre várias imagens do mesmo tipo. Então significa o seguinte: Aristóteles tinha uma idéia da continuidade entre a percepção do indivíduo singular e a compreensão do seu conceito universal. Ele reclamava muito que Platão concedia uma existência autônoma às idéias universais, ao passo que ele entendia que essa idéia universal só existe no indivíduo singular, mas ela está lá, de modo que a individualidade e a universalidade são absolutamente inseparáveis. Uma só existe na outra, e a outra só existe na uma. Você não pode enxergar a idéia da espécie, você só pode enxergar uma vaca, outra vaca, um coelho, outro coelho, e assim por diante. Mas ao mesmo tempo você compreende que a forma de cada uma dessas vacas, a forma de cada um desses coelhos, reflete a espécie a que ele pertence. Então a espécie é o universal ao qual aquele indivíduo singular corresponde, e se a espécie não existisse, o indivíduo também não poderia existir. Nós não podemos conhecer o universal a não ser através do singular, mas o singular não pode existir senão através do universal, e ao mesmo tempo, o universal não pode se manifestar para nós senão através do singular. Olhem que coisa incrível quando Aristóteles diz: a ordem do ser é o inverso da ordem do conhecer. Olha que coisa incrível! O singular é condição para a manifestação cognoscível do universal; mas o universal é condição para a existência do indivíduo singular, porque nada pode existir exceto como membro de uma espécie. A singularidade absoluta é absolutamente impensável para nós. Ao notar isso em Aristóteles, vi que estava nele a solução de um dos grandes problemas que os filósofos posteriores vieram a criar. A esta altura convém expor a coisa através de um paralelo com as obras do Bruno Tolentino. Em 2003, surgiu uma discussão na internet a respeito de se o Bruno Tolentino tinha uma filosofia própria, e se eu havia influenciado o Bruno, ou o Bruno havia influenciado a mim. De cara é preciso dizer o seguinte: eu sou um filósofo, estou investigando todas essas questões por minha própria conta, coisa que o Bruno jamais fez. Toda a perspectiva filosófica do Bruno, todinha ela, é um traslado do protesto de Soren Kierkgaard contra Hegel. É aquele negócio do mundo como idéia, ou seja, se você opõe ao mundo como idéia o que o Bruno chamava o mundo como rapto, quer dizer, como arrebatamento, você está atuando inteiramente dentro da perspectiva do Kierkgaard. Você não acrescentou nada, nada. Quer dizer, o Bruno não tem filosofia nenhuma; a filosofia do Bruno é uma expressão poética de certa experiência intelectual que foi idêntica a do Kierkgaard, e pronto, aí acabou. Quando o Bruno opõe a idéia ao arrebatamento, ele está dizendo: a idéia é totalmente abstrata, e o que é real é o arrebatamento, ou seja, estar dentro da experiência da vida, ele está rigidamente dentro da perspectiva existencialista do Kierkgaard. Acontece que esta perspectiva, longe de ser uma solução, para mim era precisamente o problema, porque se existe uma oposição insanável entre a idéia abstrata e a experiência concreta, o conhecimento é impossível. Digamos então que toda a “filosofia” do Bruno era uma expressão dessa experiência kierkgaardiana do abismo entre a idéia e a vida, por assim dizer, na qual o Kierkgaard, como o próprio Bruno, tomava o partido da vida e protestava contra a idéia. Eu acho que raros autores conseguiram expressar a riqueza, a profundidade e a tragédia dessa experiência como o Bruno. Porém, isso significa que o sujeito tinha uma filosofia? Eu respondo não. A filosofia não consiste de um único problema filosófico expresso existencialmente de mil maneiras. É claro que não é assim. O Bruno não tinha filosofia nenhuma; ele tinha uma cosmovisão. Quando surgiu essa discussão, entre um menino chamado André Oliveira e o Martim Vasquez – que é um rapaz de muito talento, mas ele fala muito mais do que sabe: lhe falta experiência da vida, mas se mete a palpitar sobre o que não sabe. Então quando ele diz que o Bruno tem uma filosofia, eu digo que ele está confundindo filosofia com cosmovisão. Uma cosmovisão inteira pode partir de uma única experiência impactante que determina toda a forma das suas vivências para o resto da sua vida [00:40]. Principalmente quando você recebeu esse impacto não somente através da sua vida pessoal, da sua experiência, mas também de uma influência tão poderosa quanto a de Soren Kierkgaard. Eu vou ler um pedacinho do Cornélio Fabro – um grande filósofo italiano, de uma competência extraordinária – a respeito do existencialismo, e qual é a natureza profunda desse negócio, e vocês verão que toda a “filosofia” (na verdade, toda a cosmovisão) do Bruno não passa daquilo. Diz o Cornélio Fabro: A filosofia da existência pode-se dizer a última forma do pensamento ocidental. Última naquele tempo, ou seja, a última no tempo, historicamente. E é forma, isto é, método e fisionomia, ou movimento de pensamento, e não propriamente sistema, por duas razões, sobretudo: porque os existencialistas contemporâneos chegaram à nova filosofia por vias diversas e também contrastantes, e porque o existencialismo nasceu em oposição aberta ao sistema, nasceu em cima da proclamada ruína do sistema. O sistema é construção orgânica, é harmonia, quer explicar tudo e não conhece resíduos; assimila, esquematiza as coisas mais disparatadas, subordina o real ao ideal, a vida à contemplação. Otimismo grandioso, tanto mais carregado de promessas quanto mais se vê incapaz de cumpri-las. Basta um olhar à realidade da vida autêntica para perceber a vaidade da ilusão especulativa. A realidade que se revela na vida não é harmonia, mas ruptura, caos; não obedece ao sistema, mas é anormalidade, exceção; não corre contínua entre as plácidas margens dos próprios desejos, mas irrompe aos pedaços e abre caminho por choque e oposições. Todavia, como precisou Karl Jaspers, o existencialismo não é irracionalismo; ele de fato conserva a razão e também a considera indispensável. Somente não a tem como onipotente nos resultados, não a torna o árbitro absoluto do real. Junto ao racional, existe o irracional que é como o seu fundo [Olavo: prestem bem atenção]; eles se movem juntos entrelaçando-se, sem jamais coincidir ou jamais adequar-se. É o alógico racional. O erro capital da filosofia moderna [Olavo: ele está expondo não uma idéia dele, mas a idéia dos existencialistas] foi propriamente a afirmação de uma prioridade do ideal sobre o real, como quando Descartes pretendeu partir do pensamento para conquistar o ser e “demonstrar” a existência do mundo, passando através da ponte da idéia. E assim por diante. Então, bom, é aí que nós vemos o seguinte: o conjunto da filosofia do Bruno é a experiência existencialista transposta poeticamente e nada mais. Isto foi o ponto de chegado do Bruno, a mensagem final dele é essa contraposição entre idéia e vida; isto para mim foi o ponto de partida, porque o que para ele foi a solução, para mim foi o problema, pois eu via que essa perspectiva existencialista acabava, em última análise, afirmando o caráter puramente subjetivo do conhecimento, e subordinando o mundo objetivo à subjetividade do indivíduo. Isso não tinha resolvido nada, isso fingia resolver um problema e criava outro mil vezes maior. Olhando a coisa do ponto de vista de Aristóteles, nós vemos que estas duas pontas do processo – vida e idéia – não estão em oposição, não se colocam como coisas antagônicas. Para Aristóteles há é um círculo, ou seja, a experiência real, concreta, viva, é transmutada pela imaginação em formas, e essas formas por sua vez não são produtos simplesmente subjetivos, mas são expressão real das formas inteligíveis que estão nos seres reais. Estas formas inteligíveis, por sua vez, se erguem até os conceitos universais, que por sua vez retroagem sobre a vida, porque a partir das conclusões filosóficas que você obteve, você age e cria novas situações. Aí fecha o círculo. Então podemos comparar a ascensão do conhecimento desde o concreto até o abstrato, desde o particular até o universal, em primeiro lugar com uma árvore – essa imagem eu uso claramente no livro Teoria dos Quatro Discursos – onde há uma raiz que se arraiga na própria realidade, no próprio tecido da vida corporal e sensível, e se ergue através da imaginação até o plano dos conceitos gerais, os quais por sua vez entram em um conflito dialético, que pode ser resolvido em termos lógicos, e as conclusões últimas são os frutos da árvore, cujas sementes por sua vez caem de novo no solo, e encontram de novo a sua função dentro da existência real. Por outro lado, havia uma coisa muito mais interessante que ia um pouco além de Aristóteles. Vejam: o conhecimento que nós temos do mundo sensível é um conhecimento de fato, e o fato por si não explica nada. Você não pode dizer que ele seja um conhecimento. É na busca de compreender os fatos que você extrai a forma inteligível e continua o processo inteiro. Então, fato não é explicação, e explicação não é fato. Entre os dois, o existencialista escolhe o fato, mesmo que não o entenda. Ele prefere a “vida”, mesmo que ela seja ininteligível; é uma aceitação racional da ilogicidade da experiência. Como eu disse, o fato não é explicação e a explicação não é fato. Mas acontece que houve, dois mil e nove anos atrás, o fenômeno da Encarnação, encarnação do Logos. O que é o Logos? É a razão divina. É o conjunto da inteligência do conhecimento de Deus. E isto, por sua vez, chega a nós não como uma teoria, não como uma explicação, mas como um fato. Então quer dizer que quando você chega ao último grau da explicação, da abstração e da universalidade, você está tocando algo do Logos, ao mesmo tempo em que esse Logos se apresenta a você não como uma teoria que você pensou, mas como um fato. Então você entende que toda a sua razão, toda a sua capacidade especulativa, etc., não são senão uma expressão local e individualizada desse mesmo Logos. Ou seja, quem está lhe inspirando é o Espírito Santo, que leva para o Logos. Isto quer dizer que Aristóteles, sem ter sabido nada de encarnação, já havia entendido esse caráter circular das relações entre vida e razão, entre individualidade concreta e universalidade abstrata. E esse caráter circular se manifesta claramente na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bom, era isto que eu estava procurando. Quer dizer que aquilo que para o nosso amigo Bruno, como para Soren Kierkgaard, era a conclusão final, no seguinte sentido: existe o mundo como idéia e existe o mundo como rapto, e eles optam por este último, [00:50] porque a idéia só cria coisas malvadas, ideologias, etc.. Mas isto não é uma solução, é um problema, porque se é assim, então nós estamos condenados a viver em uma oposição perpétua entre vida e idéia, e se é assim, em última análise todo o nosso conhecimento não vale nada. Ainda que você possa racionalizar a ilogicidade do conjunto, você não vai passar de um irracionalista no fim das contas. Prestem atenção: do conjunto da minha perspectiva filosófica o Bruno estava pensando um pedacinho assim, que era para mim um dos pontos de partida, uma das perguntas iniciais, e que para ele foi o horizonte maior da sua compreensão do mundo, da sua cosmovisão. E o objetivo dele não era compreender isto aí, era simplesmente expor em palavras a sua experiência. O que é a função da obra de arte literária, do poeta? Há o meu escrito Poesia e Filosofia [Poesia e filosofia, disponível em: [http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/poefilo.htm], que está no meu site, onde eu parto da definição do Croce: acho que ele não estava errado quando diz que a poesia é uma expressão de impressões. As pessoas não entendem o Croce, pois pensam que ele está falando apenas de impressões sensíveis, banais, etc.. Não é isto. Você tem uma experiência direta e pessoal da realidade, e ela não é acessível a outras pessoas a não ser que você a verbalize. E não é acessível nem mesmo a você, quer dizer, se você não a verbaliza, você está preso dentro da sua cosmovisão como o peixe está preso dentro d’água. No momento em que você a verbaliza, aí ela pode ser pensada. Daí é possível você comparar a sua cosmovisão com outras. Acontece que todo o trabalho do poeta é simplesmente expressar essa cosmovisão em palavras para torná-la pensável. E nisso aí vai a vida inteira dele; não dá tempo para dizer mais nada. Você vai ver que o único poeta-filósofo que existiu na humanidade foi Platão. Ele fazia o serviço inteiro, ele partia de uma coisa, de uma expressão poética da realidade, a examinava, subia até o nível da universalidade, na suprema universalidade ele encontrava um outro nível de realidade, o qual já não podia ser expresso doutrinariamente, e que ele voltava a expressar poeticamente, fechando portanto o círculo. Só Platão fez isto, ninguém mais conseguiu fazer, jamais. [Interrupção na transmissão] Eu estava dizendo que de fato Platão foi o único poeta-filósofo que jamais existiu, porque ele era plenamente as duas coisas, ou seja, ele tinha a expressão poética, narrativa, da experiência real e a análise no nível da universalidade Há vários começos dos diálogos de Platão que são verdadeiras maravilhas de narração, como por exemplo, no começo d’A República, quando Sócrates encontra os amigos e conta que foi ver o festival em tal lugar, e ali está condensado simbolicamente tudo o que ele vai dizer depois. É um grande poeta, mas veja que ele não se limita a condensar simbolicamente. Ele condensa simbolicamente o que ele vai dizer depois, e depois ele diz aquilo analiticamente. Só que através da análise dialética ele vai subindo até um nível de universalidade, e quando chega na suprema universalidade ele encontra um outro plano de realidade que já não consegue expressar doutrinalmente, e ele volta a usar a linguagem poética através do mito. Então ele fecha o círculo inteiro. É o único sujeito que conseguiu fazer isso na humanidade; ninguém mais fez. Essa coisa que o Bruno expôs como experiência interior – expôs tão maravilhosamente e tão ricamente como eu não conheço outro – esse abismo entre realidade viva e idéia, é uma experiência que existe, e que todos nós temos de passar, pois ela faz parte da nossa civilização. Eu não conheço em todo mundo quem tenha expressado isso melhor que o Bruno. Só que isso é uma experiência, que gera uma cosmovisão, um certo sentimento do mundo. Esse sentimento do mundo, eu já o tinha como problema antes de conhecer o Bruno. Era um problema, e como visão filosófica era absolutamente inaceitável, cem por cento inaceitável. Isso filosoficamente é um erro. De onde veio o fato de que eu corrigi filosoficamente muitos poemas do Bruno. Dizia a ele que o que ele estava fazendo ali era errado, como por exemplo, o famoso poema O Espectro – que é a resposta à Máquina do Mundo, do Carlos Drummond de Andrade. Esse poema foi alterado muitas vezes, e alterado por mim, que dizia que aquilo não poderia ser assim. Por exemplo, eu dizia [ao Bruno] “o personagem que você colocou não corresponde ao que você está dizendo”, e assim por diante. Eu também achei que ele tinha exagerado no negócio da oposição entre vida e idéia. Ele tinha criado uma coisa totalmente trágica, e eu dizia “Bruno, você tem essa visão trágica, mas você é um cristão, e isto quer dizer que no plano da fé você está recuperando a unidade que você está dizendo que não existe”. Mas a vida do Bruno era um permanente... era como esticar um elástico até o ponto da ruptura; chegava quase à ruptura, mas não rompia, porque quando chegava na hora H, ele vivendo essa cosmovisão trágica até o último momento, não agüentava e começava a rezar. E daí, de certo modo, Deus restaurava o senso da unidade, mas não em um nível intelectualmente consciente. Restaurava existencialmente. Por outro lado, qual a influência do Bruno Tolentino sobre o Olavo de Carvalho? O Bruno foi um fornecedor de material, de documento. Essa oposição kierkgaardiana entre a vida e a abstração, eu encontrei muito bem documentada nas obras do Bruno, e na sua própria vida, e meditei sobre isso. Bom, isso não é uma influência. A influência é quando vem uma forma que se sobrepõe à sua matéria, e então você enquadra a sua experiência dentro de uma forma que outro lhe deu, como por exemplo, Aristóteles, [que] forneceu inumeráveis formas as quais eu colocava minha experiência e a achava perfeitamente compreensiva à luz do que ele estava dizendo. O Bruno foi exatamente o contrário, ele foi um fornecedor de material ao qual eu dava forma. Então, filosoficamente a influência do Bruno sobre mim é zero. Agora, a minha influência sobre ele existia, eu tentei corrigir essa tragicidade da sua cosmovisão, tragicidade que era incompatível com o fato de ele ser cristão, e ele conseguia manter aquilo literariamente, sobretudo porque existencialmente ele tinha para onde [1:00] correr. Na hora H ele fazia como Descartes: “a coisa engrossou, então agora eu apelo para Deus. Eu não sei a solução disso, mas Deus vai me tirar dessa encrenca”. Ora, não apenas Deus vai tirá-lo dessa encrenca, como ele já tirou há muito tempo. Essa ruptura total na qual você está vivendo não existe, ela é uma ilusão. A verdadeira realidade é a encarnação do Logos. Aquilo que é o supremamente abstrato e universal se manifestou na carne e habitou entre nós. É como aquele verso antigo: “Ubi est mors victoria tua?”. “Onde está, ó morte, a tua vitória?”. O dualismo é evidentemente a morte, a separação. Essa separação não existe. Ela existe como experiência temporária humana, pela qual todos nós temos que passar. Mas a unidade pode ser recuperada — seja no nível existencial religioso, seja no nível intelectivo —, desde que você se atenha à grande tradição da filosofia. Mas, se as suas influências predominantes são de filósofos secundários como o caso de Soren Kierkgaard, você não vai transcender isso. A solução disso só quem sabe são os verdadeiramente grandes: Platão, Aristóteles, Leibniz, São Tomaz de Aquino, um cara desse porte. Soren Kierkgaard era um sujeito que estava transformando a sua tragédia pessoal em filosofia. Enquanto você está fazendo isso, você está no mundo da divisão. Ainda que você possa, na hora H, correr para a Igreja e encontrar um alívio ali. Eu digo: “Um sujeito que é cristão pode ter uma filosofia trágica, mas se é trágica não é cristã”. O grande poema da cristandade chama-se “A divina comédia” e não “A divina tragédia”. E comédia quer dizer aquilo no qual a unidade é restaurada no fim. Se terminar com a ruptura total é tragédia e tragédia quer dizer o canto do bode. O bode, que é o capeta, está celebrando a ruptura total e definitiva. A separação entre o homem e a verdade. A separação entre o homem e o sentido da vida. O sujeito como cristão pode ter uma filosofia trágica, mas ele não pode acreditar nela totalmente. É exatamente o caso do Bruno. O Bruno vivia entre a sua cosmovisão trágica e a sua fé católica. Se ele perdesse a fé católica, iria direto para o hospício. A cosmovisão dele não tinha como integrar o elemento católico. A cosmovisão era trágica. Vocês vêem no livro “A imitação do amanhecer”. Aquilo é uma tragédia sem mais tamanho. Ali é o mundo do artifício total — o sujeito que cultua a múmia do seu antigo amante. É a coisa mais fragmentada possível. Mas isso é a experiência trágica que o Bruno vivia e era a verdadeira cosmovisão dele. Eu nunca aceitei essa cosmovisão, nem por um minuto, porque ela tinha chegado a mim muito antes de eu conhecer o Bruno e eu já percebia que aquilo, como se diz, “não dá camisa a ninguém”. E eu dizia: ele não pode se contentar com isso! E fazer como existencialistas, o ilogismo racional, também não é uma solução. Evidentemente, Cornélio Fabro não é um existencialista. Cornélio Fabro é um tomista. Ele pega toda essa experiência existencialista e reintegra dentro de outro edifício, que transcende isso infinitamente. Mas este para mim era o grande problema desde o início. Quando eu ainda estava com uns vinte anos, eu já tinha percebido que isso era uma coisa perigosíssima e que pode esterilizar completamente a experiência humana e fazê-la até se comprazer na tragédia da sua impotência cognitiva. Uma coisa que me chamou muita atenção na juventude foi o livro do Jean Piaget intitulado “A sabedoria e ilusões da filosofia”. Quando li aquele livro, eu soube imediatamente que estava errado. Eu falei: Bom! Está aí um bom serviço para eu fazer. Eu tenho que descobrir onde este treco está errado. O Jean Piaget só admitia como conhecimento aquilo que fosse obtido pelas ciências experimentais. E ele dizia: “Conhecimento é a ciência. E o que é a filosofia? Não conhecimento de maneira alguma. É uma orientação no mundo dos valores, incluindo os valores cognitivos”. E eu imediatamente pensei o seguinte: “Se você tem um conhecimento, sabe de uma determinada coisa, mas você não sabe onde essa coisa se coloca dentro da orientação geral, da hierarquia dos valores cognitivos, então você não sabe realmente aquela coisa. Ele não é um conhecimento, ainda. Se você não sabe o significado de uma informação, você não entendeu a informação. Perguntava eu: “Em que sentido, o chamado conhecimento cientifico é conhecimento?” Eu invertia o negócio do Piaget. O que é verdadeiramente conhecimento? É a orientação geral dentro da hierarquia dos valores cognitivos. Se eu não sei quanto vale um conhecimento, onde ele está e o que ele significa, ele não é um conhecimento. Ele é apenas um assunto, um tema e um tema pode ser um problema. O certo é cem por cento inverso do que o Piaget esta dizendo. Só existe conhecimento onde existe a integração da informação dentro de uma hierarquia geral que lhe permite, como diria o Ortega y Gasset: “Saber a que se ater”. Ou seja, você sabe a relação correta na qual você está, diante desse conhecimento em particular, dentro de um esquema geral do mundo. Um esquema geral da realidade. Aí me surgiu outro problema. O pessoal fala muito que existe um progresso do conhecimento, porque existe um monte de universidades, está sendo produzindo um monte de trabalho cientifico etc. Mas aí temos dois problemas. Primeiro: cada um desses conhecimentos isolado dentro do senso de orientação geral não é um conhecimento de maneira alguma. É apenas um assunto. Por exemplo, digamos que você tenha visto um determinado bicho. Você viu um ornitorrinco. E você se pergunta: “O que é isso? É um pato? É um porco espinho? É um lagarto? O que é?” Então, você ter visto um ornitorrinco não é, de maneira alguma, um conhecimento. Só se transformará em um conhecimento quando você souber onde está ornitorrinco dentro da ordem geral. Portanto, quando você tiver, em relação a ele, o senso correto e adequado de orientação. Curiosamente, o Jean Piaget invertia e dizia que esse senso de orientação não é um conhecimento e que só o fato isolado –confirmado pela ciência – é conhecimento. Mas isso é completamente louco! Depois, mais tarde, eu descobri tanta besteira do Jean Piaget, que dava vontade de bater no sujeito. Vontade de bater porque o Jean Piaget não era só um autor. Ele era uma influência predominante na educação brasileira e um dos grandes responsáveis pela estupidificação dos nossos meninos. Ao mesmo tempo, por exemplo, Ortega y Gasset dizia que Jean Piaget era o maior psicólogo de crianças que jamais existiu. Mas eu não entregaria o meu cachorro para o Jean Piaget educar, quanto mais meus filhos! Porque uma das especialidades do Jean Piaget era realmente não entender nada. Não entender os termos do problema e falar sempre com aquela arrogância: “Não! Eu represento aqui a ciência e, portanto, o conhecimento. Eu estou no reino na objetividade, você esta no reino da orientação subjetiva”. Uma coisa de uma empáfia perfeitamente idiota. Outra coisa que eu também encontrava, por exemplo, Brunschwig tinha o mesmo, o mesmíssimo defeito. Ele era, claro, um grande matemático, um grande lógico, mas tinha também essa mesma bobagem. A mesma ruptura trágica aparecia, de certo modo, nessa perspectiva do Jean Piaget, mas como uma espécie de valor invertido. A filosofia, para ele, era a idéia e o conhecimento científico era o fato concreto. Mas aí o deslocamento entre a colocação e problema real já se tornou extremo. Já é um erro radical. Eu disse para mim mesmo: É este o problema que eu tenho que resolver. Não que eu tenha que encontrar [1:10] os princípios para a solução dele, porque eu sabia que os princípios. Aristóteles já os tinha dado de algum modo. Eu sabia que estavam lá, porque no mundo de Aristóteles não há esses saltos, não tem essa ruptura — como também não há em Platão. Você tem a subida e a descida. Forma o círculo. Para resolver esse problema, eu precisava, em primeiro lugar, adquirir uma visão mais clara do que seria o discurso poético simbólico. Pois esse era o primeiro nível, o primeiro grau de elaboração e sem o qual não era possível nenhum dos outros. Não há ciência, não há conhecimento, não há filosofia, não há nada, se não tiver o mito e a figura da poesia em primeiro lugar. Por quê? Porque não tem o material para você lidar. É claro que, de um condensado mito-poético, você não obtém uma filosofia. Você obtém mil filosofias — algumas certas, outras erradas. O mito é a condensação da verdade e do erro, porque ele é a expressão mais direta possível da experiência tal como se conserva na memória. Mas se você não tem o condensado mito-poético, você terá que lidar direto com o material dos sentidos e ai não dá. Você só pode trabalhar a partir desse segundo grau que é o condensado simbólico. Assim, urge compreender o que é o discurso poético e o que ele realmente faz, para daí saber como podemos continuar o serviço. Para isso eu tive que elaborar a teoria dos gêneros literários. Foi uma das primeiras coisas em que eu trabalhei a fundo, e creio que encontrei a solução. Porque se você está falando de um tratado filosófico, de um ensaio filosófico, ou está falando de um poema, em todos os casos você está falando de diferentes gêneros de discurso. É preciso entender exatamente como é a relação entre eles e como é a passagem de um ao outro. Por exemplo, partindo de uma experiência condensada num poema, como eu posso elaborar intelectualmente aquilo e separar, das inumeráveis sugestões filosóficas contidas nele, as que são válidas e as que são meramente ilusórias. Por exemplo, você lendo um poeta ou lendo um romance, ele lhe dá um impacto. Você pode tirar muitas conclusões, mas essas conclusões não são todas igualmente válidas. A elaboração intelectual das conclusões geradas pela inspiração poética é exatamente o trabalho da filosofia. Onde entra aí a “ciência”? A ciência é um mero fornecedor de material. Nenhuma ciência tem em si o padrão da sua própria inteligibilidade. Isso é a mesma coisa que dizer: “Não é possível explicar geograficamente os conceitos da ciência geográfica”. Os conceitos geográficos, por exemplo, se baseiam numa noção de espaço. Pergunte a um geógrafo: O que é espaço? Ele, como geógrafo, não pode responder isso, porque a geografia pressupõe a noção de espaço, ela não a cria e não a elabora. Do mesmo modo, o conceito de matéria, conceito de tempo, conceito de causa, conceito de seqüência, conceito de soma e todos os conceitos usados em todas as ciências. Nenhuma ciência pode criar aquilo. Somente o exame filosófico pode dar sentido a essas coisas. O conhecimento científico só se torna conhecimento quando analisado filosoficamente, senão ele não é conhecimento. Ele é um material bruto, assim como a poesia é um material bruto. Na verdade, a função do conhecimento cientifico é a função poética. Ele vai fornecer direções da experiência e nada mais do que isso. No intuito de esclarecer a linguagem poética, eu diria: A linguagem poética não é senão uma variante específica da linguagem simbólica de um modo geral. Então precisamos cavar esse negócio da linguagem simbólica e ver como funciona isso. Daí os trabalhos que eu fiz sobre a alquimia e astrologia. O curso inteiro que se chamou “O conceito da alquimia” e que foi transcrito depois — até bem transcrito pelo Fernando Manso, se eu me lembro, mas que não está no site. É uma apostila bem longa. [É] um curso que eu dei no Rio de Janeiro, “O conceito da alquimia”, que é uma coisa bastante importante para entender essa investigação. Mas como eu precisava acrescentar muita ali, não botei em circulação até hoje, mas qualquer hora vai aparecer. E também a questão do simbolismo astrológico. No meio da investigação sobre o símbolo, eu vi que havia ali uma confusão terrível entre dois problemas especificamente diferentes. Um era a astrologia considerada como linguagem. Se considerada como linguagem a astrologia está onipresente no universo. Onde quer que você olhe, há resíduos da linguagem astrológica, nas artes plásticas, na música, na literatura. Por exemplo, se você não conhece simbolismo astrológico, você não entende a estrutura de uma catedral medieval. É absolutamente impossível. Por um lado, há essa astrologia é considerada como linguagem. Essa linguagem por sua vez expressa uma cosmovisão e essa cosmovisão nasce de uma certa experiência “primitiva” do cosmos considerado como uma unidade confusa. É exatamente aquilo que o Voegelin chamava de civilizações cosmológicas. Aquela cujo senso de ordem é ditado pelo impacto de uma impressão direta da unidade do cosmos, onde, evidentemente, tudo aparece ligado a tudo por elos de simpatia, analogia, paralelismo, etc. Mas essa impressão é apenas uma impressão. Como ela impacta de uma impressão momentânea e confusa, o que ali se entende como ordem é na verdade um caos. Apenas é um caos unificado. Dentro desse caos, acontecia um segundo caos, que era a confusão entre essa linguagem astrológica — usada como instrumento poético de expressão da impressão de unidade do cosmo — e o fenômeno propriamente dito das tais influências astrais. Ora, se essas influências astrais existem, elas existem como um fato e não como uma linguagem. Então nós temos que ver e examinar essa maçaroca de linguagem astrológica usada ao longo dos tempos e que aparece tanto nos livros de astrologia como aparece na poesia. Aparece em Dante. Aparece em Shakespeare. Aparece em Goethe. Aparece em tudo quanto é lugar. Aparece na pintura medieval e renascentista. Isto está por toda parte. Essa cosmovisão das antigas civilizações cosmológicas continua presente dentro de civilizações já diferenciadas, por exemplo, civilização cristã ou civilização islâmica. Ela ainda está presente. Ela ainda é o instrumento básico de linguagem que as pessoas usam. No entanto, dentro de uma dessas civilizações, que é a civilização do ocidente, surge essa possibilidade que é a ciência física, que permite isolar determinados fatos e separar, no reino dos fatos, os que acontecem dos que não acontecem. A ciência serve para isso. Esses fatos isolados não significam nada e não são conhecimentos, mas são elementos de um conhecimento possível. Essa é a função da ciência: fornecer esses elementos. Daí surge todo o negócio da astrocaracterologia. Para separar uma coisa da outra é um “bicho de sete cabeças”. É um trabalho para muitos anos. Mas tem que fazer, porque a confusão entre a linguagem astrológica alquímica e os possíveis fenômenos astrológicos alquímicos está na base de uma série de confusões que apareceram dentro das discussões filosóficas e científicas. Se você não cavar isso a fundo, você não vai entender, por exemplo, por que Newton precisou criar uma hipótese absurda chamada tempo absoluto e movimento absoluto, expressões até contraditórias, para fundamentar uma cosmovisão de tipo monoteísta [1:20], na qual se dissolvia a Santíssima Trindade e sobrava o monoteísmo absoluto de tipo islâmico. Se você não meditar profundamente sobre essa superposição de linguagem com o fato, tal como aconteceu na alquimia, você não vai entender o problema com Newton. Esse é só um dos inumeráveis problemas que eu estou dizendo. Você também não vai entender porque Kant escreveu o livro Sonhos de um Visionário contra o Emanuel Swedenborg e dois anos depois, sem o citar, repetiu muitas doutrinas do Swedenborg aprovando-as, o que já é uma vigarice, evidentemente. Mas você entende porque Kant ao mesmo tempo poderia dizer o seguinte: “nós nada sabemos sobre os mundos espirituais, podemos apenas conjecturar”, mas ao mesmo tempo assegurava que existia vida nos planetas Júpiter, Marte e descrevia os seus habitantes. Como foi possível esta mistura total de supostos cepticismo, criticismo cientifico, com esta mitologia? Claro que este é um fato teratológico da história do pensamento. Ninguém sabe que Kant acreditava em E.T.s, pois o livro dele contra o Swedenborg ninguém lê. E eu acho que este é o livro central da sua obra, está tudo explicado ali. Quem não entender isto não vai entender Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão Prática nem nada, principalmente porque Kant é especialista em fazer o seguinte: ele enuncia uma regra geral e depois coloca tantas atenuações e tantas exceções que você pode dizer que Kant disse A ou não-A. É por isso que admiradores de Kant sempre encontram alguma coisa para salvar em sua obra. “Ele disse tal coisa”, “Ah! Mas ele disse outra...”. Isso para mim é uma enrolação. Ou é ou não é. Você tem de saber qual é a estrutura geral da filosofia do sujeito e quais são as exceções parciais que ele colocou. Mas se o número de exceções parciais pesa tanto quanto a regra geral, então não tem como saber qual é a regra geral. Tanto se pode dizer que Kant disse uma coisa como que disse a outra. Isto também acontece no Karl Marx, no Dr. Freud e numa infinidade de autores modernos. Eles partem de coisas absurdas e depois têm de ficar criando um monte de gambiarra, colando um band-aid aqui, um durex acolá, cola de bastão e assim por diante. Todo este negócio da alquimia e astrocaracterologia foi feito com o objetivo de esclarecer certos pontos de detalhe que eu precisava para chegar na solução dos grandes problemas que eu queria resolver. E o grande problema era exatamente este que o Bruno coloca como “o mundo como idéia e o mundo como rapto”. Eu digo: perai, o mundo não pode se compor, por um lado, de uma idéia e, por outro lado, de um furacão ― Isto não é possível. Tem de ser uma outra coisa, algo tão dividido assim não poderia existir. Você pode ter a experiência dessa divisão porque nasce da nossa ignorância, da nossa inexperiência. É como um garoto cujos pais brigaram e a partir daí ele só vê separação, tragédia, hostilidade, etc. Tudo isto existe, mas isto não é tudo. Se desde o começo do mundo todas as famílias tivessem se dividido, simplesmente não existiria mais família no mundo. As coisas, de vez em quando, podem aparecer sob este aspecto, mas é um azar, uma tragédia. Tragédia não pode ser a estrutura geral do mundo porque senão não seria tragédia. Nós nem mesmo perceberíamos que há algo errado nela. A estrutura do mundo, como Dante viu muito bem, só pode ser uma comédia na qual a ordem acaba se restaurando de alguma maneira. Senão não poderia continuar existindo. Ainda que toda a sua vida transcorra dentro da tragédia, é só uma coincidência, você é somente um. Por exemplo, eu tenho um amigo, o George Legmann, que nasceu no campo de concentração de Auschwitz! Isto é lugar para ele nascer? No entanto quando você o vê, ele é um sujeito alegre, feliz... Então ele tem aquele pedaço da sua vida, mas aquilo não é tudo. Agora se o sujeito nasceu, cresceu, viveu e morreu no campo de concentração e nunca mais viu nada, aí vai ser difícil você explicar isso para ele. Ainda que a nossa vida seja muitas vezes trágica, não podemos extrapolar totalmente da sua vida para a estrutura geral do cosmos. Achar o caminho que vai da experiência do dualismo irrecorrível até um senso de reintegração dentro da ordem divina foi o serviço da minha vida. Eu vi que não podia atacar esse problema sistemicamente, como faria um filósofo do século XVIII. “Vamos criar aqui um sistema de filosofia que reintegre tudo”. Não dá para fazer isto. Não dá porque a discussão complicou muito e porque de fato ― e ai Kierkegaard tinha razão ― os sistemas de filosofia que foram criados desde a renascença até o século XIX realmente caiam no abstratismo da idéia. Fechavam-se na idéia e negavam a realidade, por exemplo, quando o Hegel diz: “se os fatos contrariam a minha teoria, pior para os fatos”. Por esse caminho não dá. Então o que devemos fazer? Nós temos de pegar os problemas, as dificuldades que foram aparecendo, uma por uma, e tentar ir resolvendo e ver se das soluções de cada dificuldade parcial acaba surgindo uma sugestão do, como se diz, caminho para Deus. Caminho para Deus que eu queria encontrar não nos termos da fé religiosa. Porque se eu fizesse isso eu estaria como Bruno, vivendo dentro da divisão, aceitando-a como fato último, mas depois, ao não agüentar a minha própria cosmovisão, correndo para a Igreja para pedir socorro. Eu acho isto no fundo uma bela sacanagem. Não se trata disso. Não adianta você ter a fé religiosa, você precisa permitir que ela inspire a sua filosofia, não que ela dite os termos da sua filosofia. Jamais! Isto qualquer Orlando Fedeli pode fazer. O sujeito tem a fé. Ah, a fé já resolveu todos os problemas, então é só você deduzir. Você pega os artigos de fé, coloca-os no computador, ele tira as conseqüências e você acha que aquilo é uma filosofia. Não é assim. Isso é apenas uma teologia de botequim. Não chega nem a ser uma teologia, porque uma das grandes ocupações da teologia é buscar os problemas e as contradições e as dificuldades imensas que existem na revelação. Aquilo não é uma coisa totalmente lógica na qual você põe os princípios no computador e ele vai lhe dando as conseqüências até a última. Não, isto é um negócio altamente complicado que evolui numa confrontação dialética de séculos. As discussões teológicas deram morte, minha gente! O negócio era muito grave. Se você chegasse a uma conclusão então você entendia a religião inteira de um jeito. Se você chegasse a outra conclusão, entenderia a religião inteirinha de outra maneira. Então diante dessa incompatibilidade, “vamos partir para o pau”, como partiram no cisma do oriente, como partiram na reforma, etc. Então, se você pensar que a fé vai resolver todos os problemas, faz me rir! Você não sabe o que é isto! A fé não é fé em uma doutrina, é a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. É fé em uma pessoa real e em um fato. E em uma promessa real que é fato, o qual deve se cumprir no plano dos fatos e não no plano das teorias. Então a fé pode inspirar a sua filosofia, mas não pode ditar os termos dela. Isto é impossível. É ruim. E não só é ruim, mas inviável A fé tem de ser um elemento, por assim dizer, quase que hormonal na sua filosofia. Ela lhe dá a força para você buscar a solução dos problemas, mesmo quando você não enxerga esta solução. Eu não sei, mas Deus sabe. E se eu amolar Ele bastante, Ele vai ensinar para mim. [1:30] Esses vários problemas não foram surgindo pela ordem, mas pelas circunstâncias biográficas. Acontecia que dia tal eu topava com esse problema e dizia: “bom, eu tenho que resolver isso aqui para poder saber como é que eu chego lá”. Vou listar18 problemas com os quais fui lidando ao longo da minha vida. E creio que resolvi cada um deles satisfatoriamente: (a) Problema da relação entre ciência e filosofia. Outro dia alguém, foi o Eduardo, sugeriu que eu juntasse todos os meus escritos sobre ciência, que deveria dar para fazer um livro. Então você tem uma filosofia da ciência que está ali embutida. (b) Problema da relação entre poesia e filosofia. Entre a linguagem literária e a linguagem filosófica. (c) A teoria dos quatro discursos ― que absorve a anterior e a coloca em uma ordem. (d) A teoria dos gêneros literários. (e) Todo o trabalho da astrocaracterologia, sem o qual não dá para entender o que eu estou fazendo aqui. A astrocaracterologia é um problema específico ao qual eu me dediquei alguns anos. Do ponto de vista dos astrólogos, da prática astrológica, eu não resolvi nada: não criei nenhuma técnica que eles possam comprar e sair aplicando por aí. Mas se eu não resolvi o problema deles, eu resolvi o meu. Eu soube exatamente como articular, diferenciar na mente os dois problemas: o problema do suposto fato astrológico e o problema da linguagem astrológica, portanto, alquímica também.   (f) A teoria da verdade como domínio. Um domínio no qual você sempre está, no qual você existe, mas do qual subjetivamente você pode sair. Você não sai do domínio da verdade necessariamente para o domínio da idéia, como pensava o Bruno. Você pode sair de lá para o domínio da experiência subjetiva do arrebatamento, do rapto, que é tão subjetiva quanto a idéia. Esta teoria está em parte explicada na apostila “O problema da verdade e a verdade do problema” [disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/problema_verdade.html], mas está apenas enunciada. Mas há outros escritos, como por exemplo, “Kant e o problema da objetualidade” [A metafísica e os fundamentos da objetualidade, disponível em: http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/kant3.htm], e vários outros escritos no qual esta coisa está desenvolvida. [(g) Teoria do sujeito da história] E depois, em um domínio completamente diferente, onde eu tinha de me explicar a possibilidade histórica desses acontecimentos e desses dramas... [93:02] Nós vemos que muitos filósofos colocavam a história como sendo o domínio máximo, a moldura máxima, da existência humana e de todos os conhecimentos. Mas isso aí é uma falsa solução, porque a história é a história de quem? Muitas vezes você via que quando decidiam contar a história de alguma coisa eles estavam contando a história de uma abstração. Se você disser, por exemplo, “história do Brasil”, você está supondo uma unidade jurídico-territorial chamada Brasil. Ela tem uma história? Não, ela não tem nenhuma história, ela é apenas o cenário onde acontece uma história. O Brasil é um personagem da história? Não, o Brasil como entidade jurídica nunca fez nada. Mas fizeram dentro do Brasil, fizeram fora do Brasil, fizeram contra o Brasil, fizeram a favor do Brasil... A história é a história de quem? É claro que eu precisava resolver isso para saber em que medida o conhecimento da história poderia explicar esse fenômeno da divisão que eu estava tentando abordar. E eu cheguei à seguinte conclusão: a história só pode ser a história de personagens reais, de personagens que agem. Se não existe ação nada acontece e não tem história. A ação nem sempre necessariamente é a ação de um indivíduo, existem vários indivíduos que agem de maneira articulada e que prolongam determinadas linhas de ação ao longo de muitos anos, décadas e séculos. Por exemplo: a história da catequização dos povos indígenas pela Igreja foi um esforço que prosseguiu durante séculos. Entrava ano, saía ano, entrava século, saía século e eles estavam lá tentando fazer a mesma coisa. O Partido Comunista: há quanto tempo o Partido Comunista está tentando implantar o comunismo no mundo? Desde pelo menos 1848. Claro que já existia antes, mas vamos considerar a fundação oficial. Todos os primeiros comunistas já morreram e a coisa continua. Então existem certas ações que são contínuas e que transcendem a duração da vida humana. Mas é claro que só pode haver história daquilo que transcende a duração de uma geração. Se acontecer e na geração seguinte está apagada, então não deixou rastro histórico. Então aquilo não é propriamente uma ação histórica, é uma dimensão de tempo sub-histórica. Então quem são os verdadeiros personagens da história? São essas entidades cuja ação permanece no tempo. É a ação delas que dá a forma geral da história. Essas são as personagens. Nesse sentido eu posso dizer que um estado é um personagem da história? Jamais. Nenhum estado tem a ação contínua ao longo no tempo. Quem tem ação contínua são os grupos que dominam o estado cuja ação, às vezes, antecede a formação do estado e se prolonga após a extinção dele. Por exemplo, o Partido Comunista. Nesse instante que eu disse isso, eu pensei: espere aí, durante décadas houve aqui nos Estados Unidos uma corrente de estudiosos do comunismo que viam o comunismo apenas como um instrumento do estado soviético. Mas isto é uma inversão total. O movimento comunista existia antes de aparecer a União Soviética e continuará existindo quando acabar a União Soviética. Isto eu sabia anos antes de acabar a União Soviética. Mas é a coisa óbvia. Eles estão confundindo o sujeito da história com o cenário da história. A União Soviética é um lugar onde acontece a história, ela não é um agente histórico. Nem mesmo um governo é um agente histórico. Nenhum governo age por si. É preciso que um grupo político domine o governo e tome as decisões. O governo, por assim dizer, é uma entidade vazia que é ocupada pelos grupos que têm o poder político de ocupá-la. Então são estes os sujeitos da história. Isto quer dizer que toda a história nacional é sempre uma falsificação, é a história apenas do que aconteceu em um lugar. Nenhuma história nacional pode ter unidade, porque dentro de uma mesma nação estão em ação forças, algumas das quais são autárquicas, e outras que vieram de fora e sem as quais as primeiras não podem ser explicadas. Alguns sujeitos da história são: a Igreja Católica; a maçonaria; o partido comunista; as famílias dinásticas que se prolongam e treinam as novas gerações para uma ação coerente etc. Essa é toda uma visão nova, uma nova teoria da história, e creio ser certa e irrefutável. Um problema com essa teoria é que eu jamais consegui aplicá-la em um livro que fosse cem por cento sobre história. Eu gostaria de ter contado a história de alguma coisa. Para não dizer que eu nunca fiz nada nesse sentido eu fiz a história dos esforços no ocidente para restaurar o império romano, e isto é o Jardim das Aflições. Mas não posso dizer que seja um livro de história. Não é uma história narrativa, é um ensaio histórico. Mas eu gostaria de ter escrito um livro de história narrativa. Infelizmente nunca pude, não deu tempo. Eu gostaria de escrever um livro para ilustrar como é isso: a história de um sujeito que tem história.   (h) Na mesma medida surgiu a teoria do império. O império é o conceito fundamental da história do ocidente. [1:40] Idéia que logo depois o italiano Antonio Negri ― 5 anos depois ― publicou. Não que ele me copiasse, ele jamais soube da minha existência, provavelmente não lê português. Mas ele teve a mesma idéia com 5 anos de atraso e ele tem o direito de pensar que a idéia é dele. Ele não sabe que existiu um outro antes. (i) Automaticamente, junto com a teoria [dos sujeitos] da história, veio a teoria do poder, porque o poder é o instrumento fundamental pelo qual se faz história. O que é o poder? O poder significa a capacidade que certas pessoas ou grupos têm de determinar a ação dos outros. O poder é fazer alguém fazer alguma coisa. Note que muitas vezes você não tem poder suficiente nem sobre você mesmo. Por exemplo, esses dias que eu peguei a tal da gripe... Gente, eu queria levantar da cama, mas não conseguia. Eu estava pesando duas toneladas. “Aqui estou no supra-sumo da impotência, não mando nem em mim mesmo!” Não adiantava eu mandar o corpo levantar que ele não levantava. E as vezes você tem a capacidade de determinar em um relance a ação de milhões de pessoas. Você imagine, por exemplo, Stálin determinando que o exército ocupasse uma província e matasse não sei quantas pessoas. Quanto tempo levava para ele dar esta ordem? Um minuto! Ele falava o negócio, assinava, e pronto. Daí me apareceu uma outra idéia: que dentro dessa teoria do poder é uma coisa absolutamente imoral que todos os estudiosos de história e ciência política jamais tenham entendido que a diferença de poder entre os seres humanos não tem paralelo no mundo animal e que ela é o fato diferencial do ser humano. Dentro desta escala você tem a diferença que vai desde a quase onipotência até a total impotência. Você imagina um sujeito que esteja preso em um campo de concentração sem comida: ele não pode nada, mas o sujeito que colocou ele lá pode quase tudo. A diferença de poder, às vezes, entre o cidadão comum e o governante é quase de um mortal para um deus. Não há fenômeno similar no mundo natural. Mas como é que ninguém percebeu isso? E todo mundo estranha a diferença de poder como se ela fosse uma anormalidade. Mas ela não pode ser uma anormalidade pois ela é a base da história humana. Não existe ação histórica sem uma diferença imensa de poder. Se todos tivessem o mesmo poder não haveria história. História é a organização do poder e o exercício do poder. E os caras parecem que nunca pensaram nisso. É um absurdo! E o desconhecimento deste fato tem consequências na ordem política que são uma coisa terrível. Por exemplo, se nós não sabemos que a desigualdade de poder é inerente à constituição da sociedade humana, nós também não sabemos que quanto mais se aperfeiçoar esta “sociedade”, isto é, quanto mais se “racionalizar”, no sentido de Max Weber, maior será a diferença de poder. Maior e não menor. Pensem em um homem de Neanderthal, um chefe de tribo. Quanto poder ele tinha? A diferença entre ele e os seus comandados era muito pequena porque o número dos seus comandados é pequeno e os meios de ação que ele tem sobre eles... bom, em última análise ele vai ter que ir lá e matá-los pessoalmente. Agora, veja os meios de ação a disposição de qualquer governante moderno ― e eu não estou falando de ditadores, estou falando de qualquer governante, mesmo de países “democráticos” ―, a diferença é imensurável. Hoje, por exemplo, o governante pode saber tudo a seu respeito: ele sabe a sua vida econômica, a sua vida social, profissional, o seu imposto de renda, a sua vida sexual, as amizades que você tem, tudo. Agora se você tentar investigar algo lá dentro, há um bloqueio. Então a diferença de poder também é a diferença de informação. Não que a diferença de informação em si gere poder. Não, isto é bobagem. Há algumas pessoas que dizem para você: a base do poder hoje é a informação. Você está louco? Eu tenho informação que não acaba mais e não mando em nada. Compare eu e o Barack Obama. Eu sei mil vezes mais que o Barack Obama e no entanto ele manda milhões de vezes mais do que eu. Então não é informação em si, é informação articulada a um negócio que se chama meios de ação. E se você não tem meios de ação você não age, então você não faz nada. Por exemplo, se você quiser saber o que um determinado político ou governante vai fazer em uma certa época, a primeira coisa que você tem de investigar é quais são os meios de ação dele. Ou seja, o que ele pode fazer. Porque o que ele não pode fazer, ele não fará. Isto é muito simples. Está aí uma coisa que praticamente todos os analistas políticos do mundo ignoram: eles não sabem o que são meios de ação. Por exemplo, [eles pensam que] por um sujeito estar no governo ele tem o governo como meio de ação. Não, antes dele usar o governo como meio de ação ele precisa ter meios de ação para ele mexer no governo. Ele precisa ter fora do governo uma outra estrutura de poder mediante a qual ele aciona o governo. Portanto governos e estados nunca são os personagens principais [da história], eles são uma espécie de cortina de fumaça por trás da qual existem os verdadeiros esquemas de poder. Por exemplo, o CFR (Council on Foreign Relations) é um esquema de poder. O CFR pode mais que o governo americano porque é ele que move o governo americano. O que ele não quiser o governo americano não vai fazer. Agora, ele vai fazer o que o governo americano quiser? Não. Então, Aristóteles já dizia que em uma luta há o sujeito que move e outro que é movido. Aquele que move o outro, não é movido por ele e foi esse quem ganhou a briga. Se você dá uma porrada no sujeito, quem cai é ele, você fica onde está. Então você alterou a situação dele, ele não alterou a sua. Ou você alterou a dele mais do que ele alterou a sua. Isso é uma coisa óbvia e na política é exatamente a mesma coisa: tem aquele que move e aquele que é movido, e o que move não é movido por sua vez. Então aí temos todo um critério de uma ciência política totalmente nova baseada na teoria do poder, na teoria da desigualdade do poder, etc. Tudo isso foi desenvolvido e apresentado no curso de ciência política no Paraná. (j) Junto com isso sai a teoria do direito. O direito como um dos elementos fundamentais do poder. Depois o Luís Virgilho da Rosa expôs mais extensivamente na tese dele “O Direito como Garantia” que é apenas a exposição da minha tese e não outra coisa. (k) Junto com isto veio a teoria da origem da autoridade que eu também expliquei no Paraná. (l) Ligado a isso veio também a teoria da moral baseada no princípio de autoria. [Para o entendimento da moral], a noção de autoria é fundamental. Se as ações não têm sujeito, não há julgamento moral possível. Houve toda uma tradição de antropólogos aqui nos EUA que criaram o relativismo, comparando sistemas morais em várias coletividades e notando que “o que numa é obrigatório em outra é proibido...” e realçando de tal modo a variedade dos sistemas morais que a única conclusão é o relativismo. Tudo isto aí está cem por cento errado porque toda a variedade só pode se estabelecer com base em uma unidade de princípios. De um mesmo princípio moral universal você pode tirar várias regras diferentes. Por exemplo, não existiu nenhuma sociedade humana, nenhuma, onde a formação da família fosse proibida. Existiu uma seita, os cátaros [1:50], que a proibia para seus membros. Mas para que eles pudessem fazer a seita era preciso que eles pertencessem a alguma família. Então o mundo dos cátaros não é uma sociedade e jamais poderia ser uma sociedade. Pode ser uma seita dentro de uma sociedade pré-existente. A existência da família é um dado absolutamente universal. Agora qual é a estrutura dessa família? Aí há milhões de modos de se montar uma família. Por exemplo, os nossos senhores de terra. Eles tinham uma mulher com que eles tinham casado na Igreja e tinham alguns filhos com ela, mas também tinham um monte de escravas e transavam com elas. Se fosse aqui nos EUA o sujeito simplesmente escondia isso. No Brasil o negócio era mais liberal. E o que ele fazia? Ele integrava os filhos da escrava na família e mandava estudar na Europa. Aí se criou toda uma elite mulata brasileira. Isto aí nasceu disso. Isto é uma estrutura de família. Em outro lugar você tem uma estrutura poligâmica. E o sujeito falar de poligamia também não quer dizer nada pois existem milhões de modalidades diferentes de poligamia. Bom, a família tem de existir, mas como você faz a família? Se existem meios de ação para montar a família de maneiras diferentes, certamente surgirão maneiras diferentes. Então esta variedade não desmente o princípio fundamental. Ao contrário, ela o reafirma.   Outro princípio moral universal: Não existe nenhuma sociedade humana onde o responsável pela ação seja um outro senão o seu autor. Só existe responsabilidade moral associada ao autor. Não existe nenhuma lei que diga que sempre que você fizer alguma coisa errada a culpa é do outro. Não existe isso. Notem bem, reconhecer autoria é reconhecer a condição do ser humana como causa de acontecimentos. Isto significa que a sua ação não pode jamais ser explicada por nenhuma corrente de causas anterior. Se o sujeito fez alguma coisa porque foi obrigado por uma causa exterior ele não é o autor da ação, ele é um elo de uma cadeia causal. Então a ação não é dele. Por exemplo, uma vez eu estava caminhando em São Paulo e veio um trombadão tentar roubar o meu celular, mas a bolsa do meu celular era tão ruim que eu nunca conseguia tirar o celular da bolsa, e ele também, evidentemente, não conseguiu. Então o celular ficou lá travado e nessa coisa ele me empurrou e eu caí em cima do japonês. E o japonês olhou para mim achando que o trombadão era eu e que era eu estava querendo roubar o celular dele. Então, eu não fui o autor dessa ação, eu fui um elo de uma cadeia causal. Até eu explicar para o japonês... Um me deu um empurrão, o outro queria me dar uma porrada, o dia está ruim e, como se diz, eu não quero saber o que vem em seguida! Felizmente eu consegui parar o japonês antes dele fazer alguma desgraça. Mas é muito diferente isso aí de o sujeito vir roubar o celular. Isto é uma ação. Para você poder dizer que o sujeito fez alguma coisa é necessário que a totalidade das causas anteriores a ele não determinem esta ação. Então, o ser humano é causa. E evidentemente toda a questão da culpa e da inocência universalmente está associada a esta capacidade que ele tem de ser causa. Se não tivesse poder de ser causa não existiria culpa em parte alguma, nem responsabilidade nem coisa nenhuma. E a universalidade da existência disso prova o seguinte: a humanidade sabe que ela se compõe de entes que são capazes de ser causa e são origem de algo. Origem no sentido absoluto. Ou seja, se tomarmos todas as causas anteriores que os pressionaram ou induziram, suas ações não se explicam. Existe um ponto chave onde o indivíduo acionou a máquina do destino: ele acionou. [(m) Conceito da psique.] Na hora em que eu pensei isto eu falei: “Epa, temos um outro problema que precisa ser esclarecido”. Porque, quando dizemos que um indivíduo agiu de determinada maneira, nós dizemos que essa ação teve uma causa que chamamos de psíquica. Quer dizer, é uma ação que não veio do corpo e não veio das condições externas, é algo que se passou “dentro dele”, na psique ou alma, etc. Então o que é a psique? Então daí tiramos o conceito de psique, que está exposto em uma apostila que existe, mas não está no site. Todo esse material será depositado no seminário aos poucos. No curso da investigação sobre a natureza da psique eu acabei voltando à doutrina medieval das chamadas faculdades da psique, faculdades da alma. O que são faculdades? São capacidades que a alma tem uma certa facilidade ― faculdade não quer dizer nada mais que facilidade ― de exercer. Quer dizer, ela exerce aquilo, por assim dizer, naturalmente. Então ela tem essas capacidades a partir do momento em que nasce, como a razão, a vontade, a imaginação, etc. Todo mundo tem e de uma maneira ou de outra todo mundo está exercendo aquilo. Então não é particularmente difícil. E daí eu notei que uma das faculdades, que é justamente aquela que Aristóteles dizia que define o homem, que é a faculdade da razão, do pensamento ordenado e da linguagem, é uma faculdade extremamente problemática. Porque a razão é o impulso do ser humano à unificação da sua experiência. Se você aceita a experiência como uma coisa totalmente fragmentária, irredutível, você está no irracional, evidentemente. Racional, em última análise, significa busca da raiz. Você está buscando a raiz comum entre os vários fenômenos. Quando, por exemplo, um médico está fazendo o diagnóstico ele vê vários sintomas e sinais diferentes. O que ele busca? A raiz comum de tudo aquilo. “Ah, isto aqui é um vírus tal que provoca isto e mais isto e mais isto”. Provoca coisas totalmente diferentes. Por exemplo, você pode ter sono e dor de cabeça, ou pode ter dor de cabeça sem sono e pode ter sono sem dor de cabeça. Agora algo juntou essas duas coisas. Então a racionalidade busca essa raiz comum. Este impulso de unificação [é a razão]. Mas acontece que a razão tem as suas estruturas próprias. A estrutura inteira da lógica é uma coisa que não depende da sua vontade de maneira alguma. Agora, não vamos confundir o que é a estrutura da lógica em si mesma com as versões que esta estrutura recebeu historicamente por iniciativa humana. Aristóteles explica esta estrutura de uma maneira, a lógica hindu explica de outra maneira análoga, tem a lógica budista, a lógica chinesa e assim por diante. Existe um livro muito interessante de um sujeito chamado [Arthur Normam] Prior, “História da Lógica” (que se encontra na The Encyclopedia of Philosophy, editada por Paul Edwards, Collier-Macmillan, London, 1967), que vai lhe mostrar as várias lógicas que se desenvolveram. Elas são muito diferentes, mas não incoerentes entre si, senão não seriam lógicas. Então isto quer dizer que o mundo da lógica, a articulação dos possíveis ― a lógica é isso, é o estudo do conjunto das possibilidades ― tem uma ordem e esta ordem não depende da sua vontade. Ela não depende de ninguém e não depende que determinadas sociedades as conheçam ou não. Você vê isto muito claramente na expressão mais simples da lógica que é a aritmética elementar. E até hoje em dia quando você especula certas lógicas paradoxais... elas não existem. Elas são uma linguagem que você cria estabelecendo como premissa determinadas coisas arbitrárias ou auto-contraditórias, e tira conclusões logicas a partir de coisas ilógicas criando uma lógica paradoxal. Então, por exemplo, se eu crio uma lógica segundo a qual A é diferente de A ao invés de valer o princípio de identidade, eu já tenho aí imediatamente duas possibilidades de desenvolvimento paralelas: ou eu digo que A é diferente de A e eu continuo raciocinando logicamente a partir disso, isto é, tomo esta premissa como material, mas tiro as conclusões dela baseado na lógica de identidade; ou ao contrário, eu tenho de reduplicar [2:00] a ilogicidade, a contradição, a cada nova conclusão que eu tiro. São duas possibilidades completamente diferentes. Como isto é demasiado complicado, então é claro que ninguém desenvolveu a lógica de contradição além da terceira ou quarta conclusão, não dá pra ir muito longe. Como a lógica tem a sua ordem interna, ou seja, o conjunto das possibilidades tem uma estrutura, a partir do momento que o ser humano faz o primeiro raciocínio lógico, toda essa estrutura da possibilidade já pesa sobre ele. Você tirou uma conclusão, mas esta conclusão tem outras conseqüências que se prolongam indefinidamente para além do que você pode saber, e aquilo se articula, por sua vez, com milhares de outras linhas de conclusões que você não está prestando atenção (e que você não sabe, mas que estão lá presentes). Então isto é a mesma coisa que dizer que, sobre o ser humano (a partir da hora que ele começa a raciocinar logicamente), pesa o conjunto das determinações do mundo do possível sem que ele tenha disso a menor consciência e sem que ele tenha sequer os instrumentos para manipular todas as sutilezas da lógica. Dito de outro modo: o homem é o animal racional não só no sentido de que ele possui a racionalidade, mas [no sentido de] que ele está, de certo modo, forçado a agir segundo a racionalidade mesmo quando ele não tem os instrumentos pra isto. Então isto quer dizer que desde que você é muito pequenininho, você se confronta com questões lógicas que transcendem infinitamente a capacidade que você tem naquele momento, mas que já pesam sobre a sua vida real. Há sempre um deslocamento, um desnível entre o homem e o seu exercício da razão, o que faz com que a busca da unidade, a busca da coerência, não possa ser satisfeita materialmente. Ela é uma necessidade. É o ideal, mas você não realiza. Então o que você faz? Você busca uma unidade simbólica substitutiva e esta unidade simbólica substitutiva se chama autoridade. Você não sabe o fundamento das coisas, mas você quer uma autoridade à qual você possa se apegar - e essa autoridade geralmente é o pai. O pai funciona como o símbolo da razão. À medida que o seu domínio dos processos racionais aumenta, você se isenta da necessidade de obedecer à autoridade do pai. Mas um certo conflito entre autoridade e razão permanece. Porque você sobrepôs a autoridade à razão para que ela funcionasse como substitutivo da razão. Então esse conflito é permanente, e foi isso o que chamei: 'o trauma da emergência da razão' (emergência no sentido de surgimento). (n) Bem, a partir destas coisas, foi possível expor claramente, pela primeira vez, o método que eu estava usando (este método eu chamei: 'a contemplação amorosa') e daí, como conclusão histórica, (o) a questão da paralaxe cognitiva e, portanto, da mentalidade revolucionária. Cada uma dessas coisas eu investiguei pessoalmente. Isto tudo aqui é criação minha, ninguém me ensinou. Eu não tirei isto de Eric Voegelin, não tirei de Dostoiévski, não tirei de Aristóteles, de ninguém. Estou trabalhando tudo isto sozinho. E tudo isto, à medida que o tempo vai avançando eu vou buscando uma unificação desta coisa – claro que existem limites à capacidade sistematizadora de qualquer um e há uma eterna necessidade da sistematização (você pode deixar muita coisa sem explicar, pode deixar muitas ligações nebulosas, porque de algum modo o ouvinte, o estudante, o leitor, se é inteligente, capta a unidade que está por trás daquilo). Porém eu digo pra vocês: nenhum desses tópicos, nem sequer isoladamente, foi jamais examinado e criticado. Ninguém fez isso e digo mais: ninguém tem capacidade de fazer no Brasil. Ninguém, nenhum, nenhum. Mesmo Universidades inteiras não podem fazer isto porque elas se limitam ao estudo escolar. E o conjunto? Como conjunto isto é inabarcável. Se você pega a intelectualidade brasileira, este conjunto transcende a totalidade das preocupações da intelectualidade brasileira! É normal um país ter três, ou quatro, ou cinco, ou dez, ou vinte filósofos fazendo exatamente isto que eu estou fazendo (cada um do seu jeito), e você poder confrontar o que eles estão falando. No Brasil não tem ninguém, minha gente! O que um filósofo faz? Filósofo faz essas coisas aqui. Ele encontra certos problemas, ele encontra a confusão, a divisão, a desordem e tenta e luta pra tentar botar uma ordem naquilo. A ordem principal que eu estava tentando colocar no caso é a conexão entre conhecimento e consciência – conhecimento no sentido piagetiano (tomando os dois termos no sentido piagetiano), quer dizer: de um “conhecimento” você tem a orientação no mundo dos valores por outro. Como se articulam essas duas coisas? Quando se fala do progresso do conhecimento... Eu não posso acreditar em progresso do conhecimento, porque progresso do conhecimento existiria se aparecessem pessoas capazes de articular, dentro de uma orientação geral, volumes cada vez maiores de conhecimento e de integrá-lo de uma maneira cada vez mais ordenada e nítida. E isso não surge, o que aumenta é o número de registros de conhecimento. Registros de conhecimento não são conhecimentos, são apenas possibilidades de conhecimento. Se você tem uma biblioteca inteira que ninguém leu, você vai dizer que aquilo é conhecimento? O que é um conhecimento que ninguém conhece? Se não tem um único sujeito que saiba tudo aquilo, então aquilo não é conhecimento! Daí que foi surgir a minha concepção da pedagogia da filosofia, que é o que estou praticando aqui. As faculdades de filosofia que existem, principalmente no Brasil, visam a produzir mais registros de filosofia – que ninguém vai ler. Mas o ensino de filosofia não pode ser voltado para isto – criar novos trabalhos acadêmicos –, mas para criar novos filósofos, ainda que estes filósofos não escrevam uma linha! Você tem que capacitar mais pessoas ao conhecimento integrado e ordenado vivido como experiência real e, ao mesmo tempo, expressável em formas culturalmente válidas. É isso o que nós temos que fazer e é isso o que eu estou tentando fazer. O objeto do ensino da filosofia não é criar filosofias, é criar filósofos. E o que é o filósofo? Filósofo é uma pessoa devotada a isto e capacitada para tal. Esse é o objetivo do nosso curso. Eu não sei se ficou faltando alguma coisa, mas eu só quis fazer esta relação pra mostrar pra vocês o seguinte: o conjunto do que eu fiz está fora da cultura brasileira. Não tem nada a ver com a cultura brasileira. E o que quer que vocês leiam a meu respeito, seja a favor ou seja contra, é absolutamente irrelevante, gente. Para compreender o que eu estou fazendo, é preciso ter estudado essas coisas. E quando eu vejo a confusão, como fez o Martim [ao dizer que] o Bruno tem uma filosofia e essa filosofia transcende a do Olavo. Bem, se transcendesse eu seria o primeiro a perceber! Eu vejo, por exemplo, que o Mário Ferreira tem uma amplitude de temáticas filosóficas que eu não alcanço! Ele abordou muito mais coisas do que eu, e coisa que ainda vou estudar nos próximos anos. Não há aí desonra nenhuma. Ao contrário: um filósofo de verdade, quando encontra um grande filósofo, tem um orgasmo! Agora, o intelectual brasileiro tem um acesso de inveja e quer destruir aquilo de qualquer maneira, não se conforma que aquilo exista. Eu não consigo me imaginar tendo inveja do Mário Ferreira, pelo contrário! Eu tenho uma gratidão imensa por sua existência, ainda bem que ele existiu, porque resolveu um montão de problemas que, se ele não resolvesse, eu mesmo teria que resolver, e aquilo iria tomar a minha vida inteira e talvez eu não conseguisse! A filosofia se constrói por patamares, não é? Você não tem que superar todos os problemas desde o início, há um monte deles que já foram resolvidos. E a gente vive precisamente disso! Mas no Brasil não, no Brasil isso tudo é assim: [2:10] é uma competição pra ver quem é mais bonito. Porque cada um tem que ser o mais bonito da paróquia, então se alguém vê outro que é melhorzinho, fica louco da vida, não agüenta aquilo! Essas pessoas não podem ter um dos grandes prazeres da vida que é descobrir que há uma grande inteligência que o ilumina! Porque quanto mais a receberem da sua inteligência, mais elas vão ficar com raiva de você! Por isso vão ficar loucos de dizer que foi você que descobriu aquilo, e não elas! É uma coisa de uma mesquinharia imensurável! Eu considero a mesquinharia brasileira uma das sete maravilhas do mundo, porque não há paralelo existente! Outro dia eu estava revendo aí o que as pessoas católicas escreveram a meu respeito... E note bem, não estou falando comunistas, não estou falando gente do MST. Estou falando de católicos! Tudo o que eles escreveram foi no sentido de alertar as pessoas para que fujam de mim. Orlando Fedelli é o mais claro de todos: “Não leiam o Olavo de Carvalho, não o leiam, não escutem o que ele está dizendo!” Interessante. Agora, ele pode ler. Porque se ele leu, ninguém mais precisa ler! Ele é a Sagrada Congregação para a doutrina da fé, é a Santa Inquisição, ele leu, então proíbe, me põe no Index Librorum Prohibitorum e ninguém mais pode ler! Quando eu era moleque eu tinha o Index Librorum Emprestadorum: eu anotava o que eu tinha emprestado porque os livros nunca voltavam! Então tudo era no sentido de: “Não, não vai lá no homem, vem aqui que a gente ensina um negócio ortodoxo, bonitinho pra você...” Tudo é sempre nesse sentido. Agora, pegar esse conjunto aqui e fazer uma análise crítica... Imagina se eles são capazes de fazer? Não são! Você pega a Igreja Católica inteira no Brasil, não tem ninguém. Caso some todos, ainda assim não são capazes de fazerem isso. E o Mário Ferreira? Muito menos! Eu sei que a filosofia do Mário Ferreira esteve aí depositada como um caos, até que eu cheguei lá, li aquela coisa toda e falei: “a chave está aqui, a ordem está ali”. Aí ficou fácil! Mas no Brasil, se você descobriu uma coisa e as pessoas querem escrever algo a respeito, elas têm que esconder o que veio antes. Eu, quando estou trabalhando dentro de uma área aberta por um outro, a primeira coisa que digo é a seguinte: “estou aqui trabalhando dentro dos cânones que foram estabelecidos e fundados por Fulano de tal”. Nós temos que dar esta informação porque senão você está confundindo o meio-de-campo. As pessoas têm que saber qual é o status quaestionis, e o status quaestionis é o relato da ordem do que foi descoberto. Agora, se eu quero apagar o que veio antes, então já nem leio o status quaestionis! Agora, melar o status quaestionis é a base da vida intelectual brasileira. Por exemplo, este menino, Mauro Sá Martino, que está escrevendo o prefácio de Mário Ferreira dos Santos, ele nunca disse: “tem uma estrutura nisto aqui e quem descobriu essa estrutura foi o Olavo. Essa estrutura é quase invisível dentro da obra, você precisa pegar a coisa como um conjunto. Então estou trabalhando dentro do território aberto pelo Olavo de Carvalho, quer dizer, se o Olavo de Carvalho errou, estou errando na cola dele, e se ele acertou, estou acertando na cola dele”. Não, o sujeito não diz isso, jamais! No Brasil é assim, esconder fonte é a norma. Eu pratico [o contrário do que o Mauro faz] até no jornalismo: tudo o que escrevi do Foro de São Paulo, a toda hora eu digo: “minha gente, quem descobriu isso não fui eu, quem descobriu isso foi José Carlos Graça Wagner. Ele descobriu e me deu os documentos, eu só sei da coisa porque ele me deu os documentos, eu não descobri nada! O meu único mérito foi ler o que ele me deu pra ler!” Em todos esses casos aqui, eu sei o que eu recebi da tradição filosófica e o que eu descobri por mim mesmo. Esse negócio do anão sentado no ombro de gigante... Às vezes é, às vezes não é. Não interessa se é gigante, se é anão, o problema não é esse. O problema é que veio um depois do outro! Eu não posso ter descoberto o que os meus antecessores descobriram! Eu não tenho que dizer que eles são maiores do que eu porque eles vieram antes – nem menores! É simplesmente a ordem normal. Veritas filiae tempus – a verdade é filha do tempo, dizia Sto. Tomás de Aquino. Então isso aí forma o status quaestionis. O reconhecimento da dívida com o antecessor não é uma questão de educação. Porque no Brasil se pensa assim. No máximo se pensa que se você deixar de citar a fonte é uma falta de educação. Mas não é falta de educação! É uma distorção do próprio assunto, da própria matéria de que se está lidando! Se você não sabe a história das investigações que levaram o conhecimento da coisa até este ponto, você não sabe onde está! E se para você enunciar a teoria você tiver que apagar a pista, você está querendo que as pessoas que estão lendo não conheçam o status quaestionis! Mas isto no Brasil é a norma, não é uma exceção. Não é Fulano que fez... Então, outro dia eu estava fazendo uma lista do que os católicos – católicos! – disseram a meu respeito... Mas é uma baixaria que comunista não é capaz! Eu fui do Partido Comunista gente, eu conheço isto por dentro! Os intelectuais na ordem do Partido Comunista são respeitados [de forma] que você não imagina! Você não vai encontrar um comunista tentando esculhambar com um intelectual importante do partido. Jamais fará isso! Porque ele sabe que ele depende desses intelectuais para as análises de conjuntura, etc, e que tudo o que o partido faz está dentro de um território cognitivo aberto por eles. Agora, e no nosso meio “católico”? Olha, eu digo que sou católico no mundo inteiro, mas no Brasil não sou não. No Brasil eu sou macumbeiro, Seycho-no-ie, qualquer coisa - eu não tenho nada a ver com esse treco que aí vocês chamam de Igreja Católica e que pra mim não é Igreja Católica nada, é outra coisa que eles inventaram e não tem nem nome! Então, primeiro: Na aula passada eu disse pra vocês irem à Igreja, assistirem à missa, confessarem, comungarem e saírem correndo! Não é pra entrar em nenhum grupo católico, não é pra fazer amizade com ninguém, não é pra conversar com padre, se convidarem você pra entrar em qualquer coisa, fuja! Eu disse: existe um contrato que Deus fez e assinou. Ele disse: “Os sacramentos valem não importando a cabeça do sujeito que esteja oficiando”. Mesmo que seja Luís Antônio Vigarista da Silva oficiando, não interessa, vale do mesmo jeito. Deus prometeu isso, ele cumpre. Então o que interessa pra você são os sacramentos, o resto não. Você não precisa deles, pra nada! Agora, as pessoas no Brasil, quando procuram religião, não estão procurando religião. Estão procurando um meio social, um apoio coletivo, um ambiente... Meu filho, um ambiente você tem aqui entre os alunos do curso, pronto, acabou. Não vai procurar essas coisas não, porque aí só tem bandido, só tem vigarista. Argumentos contra o Olavo são do tipo: “fuja do Olavo porque o Olavo é gnóstico”. Se você não capta o conjunto da minha filosofia, você não pode saber se sou gnóstico ou não. Isso é impossível! Então você faz favor, pega tudo isto aqui que eu lhe expliquei, articula tudo, expõe e daí diz: “as conclusões dele são gnósticas”. Agora, concluir que eu sou gnóstico porque citei um autor gnóstico, ou porque falei uma frase que parece gnóstica, só na cabeça de um retardado mental como Orlando Fedelli. Outro argumento é: “Fujam do Olavo porque ele cavou dinheiro da Opus Dei”. Isso é mentira! Outro dia apareceu um idiota dizendo: “ele foi cavar dinheiro na TFP”. Como cavar dinheiro na TFP se ela foi falida? Tiraram tudo o que a TFP tinha e eu ainda vou ter a cara-de-pau de pedir dinheiro pra eles? Que é isso, minha gente? Eu só estive na TFP duas vezes: uma vez em São Paulo com o Dom Bertrand e outra vez aqui nos EUA com o Mário Navarro da Costa e das duas vezes fui convidado! E na Opus Dei? Eu não sei onde é a sede da Opus Dei. Nunca conversei com um dirigente da Opus Dei. Nenhum. Se o cara é dirigente não me contou. Eu tenho dois ou três amigos em São Paulo que são membros da Opus Dei. Não tenho a menor idéia do que eles fazem lá dentro! Se o sujeito é sargento, coronel ou recruta, não sei! Mas é assim, a natureza, o sentimento mais profundo do catolicismo brasileiro é a maledicência, a fofoca! Isso que pra eles é ser católico! A lista das fofocas é tão grande... Mas é só fofoca, é só baixaria! E de vez em quando aparece um cara fingindo uma seriedade doutrinal. Por exemplo, outro dia havia um camarada discutindo: “É lícito ao filósofo usar palavras de baixo calão?” Daí ele montava a coisa como se fosse um capítulo da Suma Teológica: “alguns dizem que sim por isso, outros dizem que não, a solução do problema é tal...”. O que ele está supondo? Que nos escritos filosóficos estou usando palavrões. Mas, que eu saiba, eu uso palavrão num programa de rádio que eu inventei para responder aos meus e-mails! Agora, o cara está ali falando como se a minha argumentação [2:20] filosófica se constituisse de, como diz aquele idiota do Anselmo Heidrich, rosários de impropérios. Quer dizer que eu fui lá e provei a teoria dos quatro discursos com rosários de impropérios? É isso o que ele está querendo dizer? É este o nível da discussão que os “católicos” do Brasil me oferecem. Você quer saber? O pessoal comunista é muito mais limpo, muito mais correto e muito mais honesto do que esses “católicos”. E eles não são exceção [no meio católico], são quase a regra. Porque o número dessas pessoas nas organizações católicas é excessivo e os seus superiores, que dizem desaprová-los, jamais fazem nada para calar-lhes a boca. Jamais os repreendem. Porque têm medo de perder membros depois. Não querem ser impopulares. Então deixam o sujeito mentir, deixam o sujeito difamá-lo, deixam o sujeito caluniá-lo e daí em particular, dizem: “ah, mas eu não aprovo.” E isso inclui padres. Vou contar uma coisa: houve aquele episódio no Rio de Janeiro do João Ricardo Moderno. Nós lançamos o livro Imbecil Coletivo numa parceria entre a Faculdade da Cidade e a Academia Brasileira de Filosofia. Como o livro pegou mal no meio acadêmico, imediatamente o sujeito colocou um aviso no Jornal do Brasil dizendo: “A Academia Brasileira de Filosofia não tem nada com isto. Isto foi uma fraude, usaram o nome...”. Daí eu não tive remédio senão publicar a foto dele mesmo no lançamento, a nota fiscal da gráfica emitida para a Academia Brasileira de Filosofia e outras coisas e falar: “está aqui! Este sujeito evidentemente está mentindo, é um vigaristinha. E eu repito que é um vigarisitinha”. Daí eu recebo um telefonema do Dom Odilon Moura, São Bento, dizendo: “onde já se viu você falar isto? O João Ricardo Moderno confessa e comunga, é um membro da Igreja!” - e eu digo: “Então o senhor diga isso para ele, porque eu também sou um membro da Igreja, e não se mente contra um membro da Igreja. Agora, estou me limitando a me defender. Será que eu sou obrigado a aceitar uma mentira contra mim só porque o sujeito é um membro da Igreja? Então o que o senhor está dizendo é que ser um membro da Igreja dá a ele o direito de praticar a difamação sacrossanta – e o difamado tem que ficar quieto?”. Daí ele não tinha mais o que dizer, acabou a conversa, e ele foi falar para o Bruno Tolentino: “O Olavo não é uma boa pessoa. Uma boa pessoa é o João Ricardo Moderno”. Veja: isto aí é o Dom Odilon Moura, não é um qualquer. Este é o nível de consciência moral dos católicos no Brasil, gente! Nós não podemos ficar assim, nós temos que ser melhores do que isso. Então o que se vai fazer? Brigar com essas pessoas, bater nelas? Não! Simplesmente não tenha nada a ver com elas. Vá à Igreja, confesse, comungue e saia correndo. Não se meta com esta gente. Com ninguém! Nenhuma organização, nenhum grupo, nenhum clube, nem coisa nenhuma! Nós temos que criar uma coisa nova e muito melhor. Baseada na busca da consciência a mais ampla e integrada possível, na busca da responsabilidade intelectual total. É isso o que nós temos de fazer. E é isso o que nós vamos fazer! Não espere aprovação, não espere que as pessoas gostem de você, porque a cultura brasileira, a sociedade brasileira, é visceralmente hostil ao conhecimento. A hostilidade é muito mais profunda do que vocês imaginam. É uma sociedade antropofágica! Quando pegam um sujeito de talento, que estudou, a sociedade brasileira permite a formação desse sujeito para comê-lo vivo, destruí-lo! Como destruíram, por exemplo, Gustavo Corção; como destruíram Otto Maria Carpeaux! Pegaram o Otto Maria Carpeaux, que era o maior erudito que tinha no Brasil e o transformaram num office-boy do Partido Comunista que durante os últimos vinte anos de vida só escreveu artiguinho com mentira comunista, as quais o partido soprava na orelha dele e ele repetia. E daí morreu desesperado dizendo: “joguei a minha vida fora!” Claro que jogou! A hora que ele disse: “eu não sou mais austríaco, agora eu sou brasileiro”, ele se danou, aceitou a contaminação. O que prestava era a raiz austríaca! O lado brasileiro é tão cafajeste quanto o dos outros. Então, como austríaco, ele poderia dar uma contribuição brasileira. Mas só poderia nos ajudar à medida que conservasse o legado austríaco e se orgulhasse dele. O Bruno foi um sujeito que foi destruído pelo meio, disso eu não tenho a menor dúvida. Destruíram o Bruno na base da lisonja, da puxação-de-saco. Desviaram o Bruno da missão que era dele. Eu dizia que o Bruno tinha uma missão educativa no Brasil. Ele tinha de restaurar o sentido do gosto literário, tinha de restaurar a crítica literária de alto nível que havia nos anos 50. Ele era o único que poderia fazer isso e não fez! Ficou aí em festinha e aventura, e se dispersou e acabou também jogando a vida dele fora – sua tragédia mesmo! Mas o Bruno era um sujeito dividido! Era um homem de uma riqueza interior enorme, mas era dividido, ele não tinha unidade, portanto não tinha fibra pra conduzir a vida dele. Eu digo isso — ele era um grande amigo meu, tenho um amor sem fim pelo Bruno —, mas ele era um fraco. A gente tem que dizer as coisas como são. Não o estou criticando por isso, eu compreendo o tamanho da tragédia dele. Eu, se estivesse no lugar dele, também não faria melhor não! O Mário Ferreira nunca foi destruído, mas foi jogado na lata do lixo depois de morto. Os livros dele, enquanto estava vivo, vendiam aos milhares. Na hora que morreu, sumiram! Veja o caso do José Guilherme Merquior: acabaram com o sujeito! Quando o José Guilherme Merquior apareceu no Brasil e os caras foram entrevistar ele na televisão, perguntaram: “como é a sua vida sexual?”. O homem ficou totalmente sem jeito! Se fosse eu que estivesse lá eu falaria: “ah, você quer saber? Eu vou contar, mas depois você não vá reclamar, hein? Faz assim: você pega o peru, tal, e faz assim, assim e assim. A minha é assim, a sua não é?” Então eu iria descrever tudo nos mais mínimos detalhes anátomo-fisiológicos e dizer: “você quis saber, agora eu expliquei!”. Eu não vou permitir que um sujeito desse me deixe sem jeito. Não, sem jeito vai ficar ele que está brincando aqui comigo! Sem jeito, meu filho, eu fico diante de Deus. Eu coro, eu fico com vergonha na cara quando vou falar: “Ó, Deus, venho aqui, eu de novo com aquelas mesmas merdas de sempre. Fiz de novo, olha aqui, não tem jeito, não sei como você me agüenta!” Aí eu fico com vergonha! Perante Deus. Ficar com vergonha perante esses vagabundos, mas o que é isto, meu filho? Mas nunca! Do mesmo modo, não permita que gente faça isso com você, não permita que professor de faculdade faça isso com você, não permita que padre da Igreja faça isso com você! Você tem que se humilhar totalmente perante Deus, você tem que abrir o coração e mostrar você pra Deus como você é, com toda a sua miséria, porque Ele agüenta tudo! E se você mostrou isso, você fala: “Eu sei das minhas misérias que você não sabe, meu filho! Eu contei tudo pra Deus, você nunca vai saber! Você não vai nem entender. Então você quer me deixar sem jeito? Você está brincando? Querendo me fazer pagar mico? Já paguei mico diante de Deus! Paguei todos os micos. Mas não sou eu que pago, é ele que pagou os meus micos, quem foi crucificado foi ele, não fui eu!” Na hora que você tem isso, você é sincero pra Deus, e você não fica mais com vergonha quando as pessoas querem envergonhá-lo, porra! Agora o Brasil, a sociedade brasileira, é um sistema de mico mútuo! Eles se dominam uns aos outros fazendo os outros pagarem mico. Eu não conheço povo que tenha mais medo do ridículo do que brasileiro. E por que eu vou ter medo do ridículo? Eu sou rídiculo mesmo, qual é o problema? Todos nós somos, nós somos uns merdas! Por que você vai ter medo disso aí? Mas o nível das discussões no Brasil, e o que se fala dos meus escritos, da minha obra, é tudo coisa assim. É lógico que eu não estou escrevendo pra essa gente. Estou escrevendo pra vocês! Porque vocês estão dispostos a estudar e entender. Aos outros, esqueçam! Principalmente quando chegar alguém com ares professorais, sobretudo querendo dizer: “O Olavo está filiado a tal escola assim e assim”. Você conhece alguma escola que tratou de todos esses assuntos aqui? Qual? Alguém que descobriu essas coisas antes de mim? Não, não tem! Então não é que eu pertença a alguma escola. Eu inventei uma escola! Isso é uma simples realidade, não estou falando, como diz o Lula “pra me gambá”, mas é porque simplesmente é verdade. Então eu adotei como norma a divisa do Don Quixote: “Yo sé quien soy”. Eu sei quais são as minhas virtudes, quais são os meus defeitos, qual é o meu tamanho, não precisa vir você querer que eu calce o seu sapato. O meu sapato é do meu tamanho. Então eu espero que cada um de vocês evolua, cresça, desenvolva e se fortaleça neste sentido, de você ter o seu próprio mundo de preocupações, o seu próprio mundo de vida interior. E quando você disser a palavra EU, você dizer aquilo com conhecimento de causa: eu fiz tal coisa, eu não fiz tal outra. Porque uma coisa importante é saber quais são os seus pecados, para quando o acusarem de um pecado que você não fez, você dizer: “olha meu filho, eu fiz tudo, mas isso aí não. Fiz até coisa pior do que essa, mas essa aí eu não fiz, então não adianta você querer...” [2:30] Você não queira saber o prazer que é conhecer os seus pecados melhor do que o seu vizinho conhece! É melhor que o prazer sexual. É uma libertação. Só que para isso é necessário que a sua vida moral, a vida do seu coração, seja vivida numa ligação dialética estreita com a sua vida de aprendizado. Que as duas coisas sejam uma só, porque senão você vai cair no dualismo trágico. Então por hoje é isso aí. Lamento, hoje não tem pergunta, ninguém vai agüentar. Até a semana que vem e muito obrigado. Transcrição: Carlos Felice, Klauss P. Tofanetto, Rodrigo Fernandez Peret Diniz, Élcia Maria da Silva, Julio Monti Belmonte Revisão: Tiago Araújo Silva Venson