Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 29 24 de outubro de 2009 [versão provisória]Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia.O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.Por favor não cite nem divulgue este material. [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. Vamos trabalhar. O objetivo central deste curso é dar os instrumentos para que vocês se transformem em inteligências autônomas. A alta cultura de um país é feita sempre por cinco ou seis inteligências autônomas dotadas de criatividade, e mais um certo número de inteligências autônomas que não têm a criatividade no mesmo nível mas são capazes de acompanhar o que aquelas estão fazendo. As grandes obras criadoras não teriam o menor efeito se não dispusessem em torno de si de um círculo de estudiosos que, embora sem ter a mesma genialidade criativa, são capazes de manter o nível de compreensão que está subentendido nessas obras. Dito de outro modo, a cultura superior se constitui de algumas centenas de pessoas; mesmo em um país de grande população, como os EUA, algumas centenas é o quanto basta para não deixar a bola cair. Acontece que a inteligência autônoma é uma coisa que no Brasil sempre foi hostilizada, e hoje em dia realmente não tem mais lugar para ela. Se você observar direito, verá que todos aqueles que realizaram grandes obras no Brasil, por força da sua inteligência criadora autônoma, foram sempre muito hostilizados. O problema não é ser hostilizado, não é a perseguição pessoal, porque muitas vezes é claro que o indivíduo que está empenhado em um trabalho dessa altura está pouco se lixando se as pessoas gostam dele ou não, o problema não é este. O problema é que o círculo de rejeição que se forma em torno deles impede que as suas obras, suas descobertas, suas idéias, exerçam sobre a sociedade o papel vitamínico e fecundante ou hormonal que poderiam desempenhar, espalhando como em círculos concêntricos possibilidades intelectuais mais altas por virtualmente toda a população. Isto quer dizer que mesmo que você tenha obras absolutamente geniais – e eu estou persuadido de que no Brasil há obras mais altas do que você encontra aqui nos EUA, onde não há nenhum Mário Ferreira dos Santos, nenhum Gilberto Freyre, nada desta altura. Apesar disso, a cultura superior aqui é infinitamente superior à do Brasil, porque as grandes obras exercem uma irradiação em torno, elas têm um papel na educação e são aceitas e prezadas como um patrimônio nacional, ao passo que no Brasil, quando não são consideradas verdadeiros crimes de lesa-pátria – como aconteceu no caso do Gilberto Freyre – são simplesmente soterradas sob camadas e camadas de silêncio, desdenho ou de hostilidade invejosa. É uma coisa absolutamente doente, que não há similar. Quando eu morei na Romênia, por exemplo, vi que o romeno é muito ciumento. Se você fala bem de um outro romeno, tem de falar bem dele também; se você convida um sujeito para uma festa, tem de convidar a cidade inteira, senão todos ficam seus inimigos. Eles têm isso; então eles falam muito mal uns dos outros, inclusive das grandes figuras da inteligência romena. A Romênia foi o único país onde eu ouvi alguém falar mal do maestro Sergiu Celibidache; o sujeito é universalmente aplaudido, mas na terra dele o pessoal torce o nariz. Apesar disso, eles têm uma hostilidade para com as grandes figuras, mas não as escondem; ao contrário, eles as tornam objeto de discussão pública, não tentam escondê-las. Por exemplo, tem muita gente que odeia o Emil Cioran, mas todos o leram, e reconhecem sua importância e valor. Do mesmo modo, existem divisões e hostilidades políticas profundas, mas que não impedem que as obras de parte a parte sejam prezadas e admiradas. Lá vigora um pouco o negócio do “falem mal mas falem de mim”. Mas no Brasil não; é não falar nada, é fazer de conta que não existe, e é sobretudo esconder o sujeito e usurpar as idéias, as expressões, e até, às vezes, a linguagem do camarada, imitar, macaquear e repassar adiante sob forma caricatural. De maneira que é um processo entrópico: tudo o que foi feito de mais alto e de melhor acaba sendo esmigalhado por milhões de cópias infinitamente inferiores. Quando a gente fala de inteligência autônoma surge o seguinte problema: qual é a base da segurança que o sujeito tem para dizer isto ou aquilo, para acreditar nisto ou naquilo, para acreditar que aquilo que ele descobriu é verdade. Em geral, as pessoas buscam a segurança na concordância do meio social, ou seja, você precisa de semelhantes, de pares, que pensem como você. Então é natural que quanto mais incapaz, quanto mais inepto é o indivíduo, mais ele necessita dessa aprovação. A confirmação mútua de vários idiotas transmite a todos eles uma sensação de segurança, de estar na realidade, porque o discurso, a fala coletiva, cria um cenário que tem sobre os indivíduos o efeito de uma realidade, como se fosse uma peça de teatro dentro de cujo enredo eles passam a viver e, pelo fato de participarem do enredo, sentem que estão participando da realidade, quando na verdade podem estar participando apenas de um delírio grupal. Mas esse delírio grupal, para quem faz parte dele, é uma coisa enormemente persuasiva, e mais persuasiva do que qualquer outra coisa. Isto quer dizer que se o sujeito vê uma coisa com seus próprios olhos, mas o grupo diz que é outra coisa, ele acredita na segunda coisa. Isto já foi testado em psicologia mil vezes. Por exemplo, houve um experimento – não me lembro quem fez – [onde] se junta 100 pessoas e combina com 99 que o personagem irá aparecer vestido de verde, mas elas dirão que ele estava de vermelho. De 100 pessoas, 99 são avisadas e uma não é avisada. O personagem estava vestido de verde, todos dizem que é vermelho, o centésimo sujeito acaba concordando que era vermelho. O temor de parecer deslocado da visão coletiva está ligado ao temor da loucura. A loucura é uma forma extrema de isolamento mental. Como em geral as pessoas não têm um critério de normalidade para si mesmas, o que funciona como critério de normalidade é a aprovação da maioria. Se todo mundo diz que eu sou normal, portanto eu devo ser normal. Quanto mais desprovido de alta cultura o ambiente nacional, mais esta aprovação coletiva se torna necessária, mesmo nos debates que diriam respeito à alta cultura, e que jamais poderiam ser resolvidos assim, por meio da aprovação coletiva. Notem que ao longo da história humana, absolutamente tudo o que foi descoberto, o que foi criado de mais notável, foi feito por indivíduos, e eles não estavam concordes com a maioria. Ainda que nem todos tenham sido hostilizados – alguns, ao contrário, foram até prezados – é claro que o quadro de referência deles não era a aprovação dos outros, não era a opinião da maioria. Não que necessariamente eles desprezassem a opinião da maioria, mas simplesmente não contavam com ela. Então nós temos de perguntar o que dá a essas pessoas esta segurança de poder ficar sozinhas. Quando todo mundo diz que 2+2 são 5, elas continuam insistindo que são 4, [00:10] imperturbavelmente, sem temor de estar loucas por isso. Ora, só há uma coisa que pode lhe dar esta segurança: a universalidade do seu quadro de referência. Todos nós precisamos de um processo de socialização e de humanização que nos integre no nosso meio social e na espécie humana, de modo que, por mais diferente que você seja, você não se sinta uma aberração, um doente, um monstro. Desses vários modos de socialização, a alta cultura é evidentemente o mais poderoso e o mais importante deles, porque na medida em que você abre um diálogo com as grandes inteligências de todas as épocas, e com as grandes obras de todas as épocas, você adquire uma dimensão do que é a normalidade humana em geral, e não especificamente no meio social em que você foi criado. É isto que, em antropologia, se chama “desaculturar”, ou seja, se libertar das limitações de uma cultura em particular e ser capaz de raciocinar como uma pessoa de outras culturas, de outros lugares e, sobretudo, de outras épocas. Esta flexibilidade temporal é muitíssimo importante, porque é a única coisa que pode lhe dar a dimensão do que é o humano em geral. Se você não tem flexibilidade imaginativa suficiente para entender o que um Lao-Tse, ou um Confúcio, ou um Shankaracharya estão dizendo, se você está estritamente preso aos padrões da sua cultura, então você não está na altura da humanidade, mas apenas na altura de uma província. Isto é exatamente o que se chama provincianismo. O provinciano é o sujeito que acredita que todo o mundo é igual a sua província, e o que não é igual a sua província é loucura, é anormalidade ou nem sequer existe. A aquisição dessa abertura é um dos elementos fundamentais da educação superior, e podemos ver que no Brasil de hoje isso tem falhado fragorosamente. Noto, por exemplo, a extrema facilidade com que qualquer sujeito que fez qualquer curso universitário no Brasil acredita que aquele curso que ele fez é o limite máximo do conhecimento humano, e não consegue imaginar que pode haver, para além daquilo, outras pessoas que sabem mais ou que sabem muitíssimo mais, ou infinitamente mais do que aquilo. Aqui nos EUA a gente não encontra esse problema. Aqui, qualquer especialista em qualquer coisa sabe as limitações da sua perspectiva, e sabe que para abordar certos problemas precisa da colaboração de muitos especialistas de outras áreas, que aos poucos podem ir integrando e lhe dar uma visão mais completa das coisas. Mas no Brasil, não! Se o sujeito fez um curso, digamos, de economia, a economia [vira] a medida máxima do conhecimento humano, e ele acredita poder julgar tudo à luz daquilo que ele aprendeu naquela faculdadezinha – que, em geral, no Brasil são faculdades absolutamente miseráveis! Volta e meia eu encontro isso. Por exemplo, me defronto frequentemente com indivíduos que me dão conselhos de prudência intelectual, recomendando que eu leia certas coisas, coisas que eles acabaram de tomar conhecimento na faculdade e não conseguem imaginar que outra pessoa conheça também. Outro dia, veio um camarada me dizer que eu digo [tal coisa] por não ter lido “As Veias Abertas da América Latina”, do Eduardo Galeano. Mas eu li isso quando tinha 22 anos, e com 23 já considerava aquilo uma babaquice. Como é que um sujeito não consegue imaginar que um homem de 62 anos pode já ter passado por aquilo? Pois o livro do Eduardo Galeano é um livro da minha geração. Mas como o sujeito acabou de ler, pensa que aquilo é uma grande novidade a que ele, como um privilegiado do ensino superior brasileiro teve acesso, e que infelizmente outras pessoas mais velhas não tiveram. Esta semana mesmo apareceu um camarada – [pois] eu [havia dito] que no Brasil existe uma correlação entre o aumento da escolaridade e o aumento da criminalidade infanto-juvenil – que disse que essa correlação “não resiste a um exame multi-variado”. Ele imagina mesmo que: primeiro, fui eu que fiz esta investigação estatística; e, segundo, eu a teria feito de maneira primária, sem nenhuma precaução metodológica elementar. Ele, como acabou de aprender essa precaução metodológica elementar na faculdade, imagina que quem não esteve lá não conhece aquilo. Ou seja, é próprio do idiota, do imbecil, imaginar que os outros são tão idiotas e imbecis quanto ele ou mais; ao passo que a pessoa inteligente, ao contrário, costuma contar com a inteligência dos outros mesmo onde ela não existe. Aliás, ser um educador é apostar em uma inteligência que o aluno ainda não tem. Ninguém pode ser educador se menosprezar a inteligência de seus alunos, ou mesmo se a medir exclusivamente pelo desempenho atual deles. O professor sempre tem de contar que o aluno vai estar mais inteligente daqui um mês, daqui dois meses, três meses; e às vezes é para esta inteligência potencial, virtual, que ele está falando, e não apenas para aquela que o aluno já possui, senão a educação não faria o menor sentido. Se é para todo mundo continuar compreendendo apenas aquilo que já compreendeu, não precisa de educação nenhuma. E se é para não compreender nada, também não precisaria de educação nenhuma. Todos esses fenômenos que a gente observa na vida brasileira mostram como o ambiente é terrivelmente hostil à inteligência superior e à inteligência autônoma, ou seja, é um país onde ninguém pode descobrir nada. Você só pode repetir o que os outros já disseram, e fazê-lo dando a impressão de que aquilo é uma grande novidade e de que ninguém mais sabe aquilo. É o país onde todo mundo está reinventando a roda a todo momento, e acha que é um grande gênio por causa disso. Eu mesmo vejo a infinidade de argumentos, de frases, de figuras de linguagem que eu pus em circulação e que, de repente, começam a ser macaqueadas e as pessoas acreditam que são as primeiras a falar aquilo. É evidente que é uma coisa doente, mesquinha, e que, não importando qual seja o problema que esteja em discussão, o que essas pessoas dizem não tem a menor importância, porque elas são parte do problema, são sintomas do problema. Eu inventei este curso justamente para tentar fazer com que em uma próxima geração as coisas não sejam assim. Se vocês conseguirem receber esse conjunto de instrumentos que eu estou lhes passando, e se educarem a si próprios... porque não sou eu que vou educar, eu só posso lhes dar os instrumentos; isso aqui é como se fosse uma loja de instrumentos musicais, eu vendo o instrumento, mas quem vai tocar são vocês. Eu não posso ir na casa de cada um e ficar tocando com o cara, então eu lhes passo as peças e vocês se virem. Se vocês conseguirem obter desses instrumentos o máximo rendimento, vocês se tornarão realmente inteligências autônomas. A inteligência autônoma é aquela que não precisa da aprovação do meio, porque ela tem um diálogo em outro nível com as grandes inteligências, as grandes obras de todas as épocas e lugares. Eu, evidentemente, não preciso da aprovação do Paulo Ghiraldelli, porque eu conversei com Santo Tomás de Aquino, com Lao-Tse, e realmente os compreendo; eu tenho abertura suficiente de imaginação e tenho os meios intelectuais necessários para compreendê-los por dentro – e não apenas com uma compreensão histórica. Então, é como se eu estivesse permanentemente em diálogo com esses grandes espíritos, e é a aprovação deles que eu peço. Evidentemente, a essa altura eu não posso ligar para a opinião do Paulo Ghiraldelli, ou do Rodrigo Constantino, ou de qualquer outro desses. O mais certo seria eu não ter nenhum diálogo com essas pessoas, [mas] eu tenho de ter [por] participar da mídia – e só participo dela em parte por uma necessidade financeira e em parte por um dever político que o momento impõe, não por gosto — o certo seria eu conversar apenas com um círculo de alunos que podem compreender e que tem necessidade do que eu estou ensinando; isso seria o mais certo. Infelizmente não é o que a situação no momento permite. Pretendo chegar a isto no futuro. [00:20] Houve uma época em que eu tinha isto, eu estava fora da mídia e só conversava com o círculo de alunos – que aliás era bem grande, como é hoje, graças a Deus. Acontece que hoje em dia há, não só no Brasil mas em toda parte, alguns obstáculos a esta ampliação do imaginário. Quando eu falo de alcançar a dimensão de universalidade, não se trata de [uma] universalidade abstrata, no sentido que tinha, por exemplo, o Iluminismo, de definir uma natureza humana fixa e uniforme supondo que aquilo é idêntico por toda parte. Eu estou falando de universalidade no sentido concreto, histórico, real, ou seja, você se abrir para as grandes conquistas do espírito humano de todas as épocas e civilizações, e apreendê-las profundamente por aquele método de impregnação imaginativa de que eu já falei aqui para vocês. É claro que a impregnação imaginativa tem de ser compensada com a crítica histórica, porque senão tudo o que você imaginar a respeito do que Lao-Tse disse, ou Confúcio, ou Aristóteles, você vai acreditar, e de tudo aquilo que você imagina, de todo o impacto imediato que aquilo tem para você no método da leitura lenta que eu lhes falei, nem tudo é verdade, nem tudo é adequado ao texto. Tudo aquilo é uma riqueza interior que a leitura desperta em você; mas dessa riqueza interior, uma parte é somente sua, não está no texto, não está no autor, foi você que colocou aquilo lá, ou você tirou de uma outra fonte. Então depois sempre você vai precisar averiguar historicamente em um texto se você acertou realmente na interpretação daquilo, ou se você acrescentou algo. Com a ressalva de que, muitas vezes, aquilo que você acrescenta é perfeitamente coerente com o que estava no texto. E muitas obras exigem realmente este acréscimo,[ pois] somente aí elas são compreendidas. Quando eu publiquei a Teoria dos quatro discursos, eu coloquei uma epígrafe do Heidegger – que não é um autor que eu aprecio muito, mas que aí acertou na mosca – que diz que tem coisas que não foram pensadas pelo autor que você está lendo, mas só quando você as pensa é que entende aquilo, e só graças a ele ter pensado o que pensou é que esta outra parte se tornou pensável por você. É uma espécie de complementação das criatividades. No caso da Teoria dos quatro discursos, tudo aquilo que está lá não está escrito em Aristóteles; fui eu que inventei, por assim dizer. Porém, depois eu fui conferir e vi que tudo aquilo era tão coerente com o que Aristóteles estava fazendo, que cheguei à conclusão que se ele não disse aquelas coisas, pelo menos ele as sabia, porque se não soubesse, não poderia ter dito o resto que disse. Então, mesmo esse acréscimo imaginativo às vezes é útil para descobrir novas dimensões de uma obra antiga que não tinham aparecido antes aos outros intérpretes. Esta abertura para a universalidade às vezes é dificultada por um dos fatores mais pérfidos que estão presentes na mentalidade moderna. Esta mentalidade, ao mesmo tempo, proclama a existência de uma história humana, ou seja, de um progresso humano identificável desde o começo dos tempos até hoje. Eles têm uma idéia da unidade da história humana, unidade que, na prática, não existe, pois existem culturas inteiras que não tiveram o menor contato entre si, algumas que nasceram, cresceram e morreram sem que a sua cultura vizinha sequer tomasse conhecimento delas. Existem vários começos independentes e autônomos na história humana, e é ridículo imaginar uma unidade linear. Mas, supondo-se que esta unidade linear existisse, ou seja, que há uma continuidade da história desde o começo até agora – que é o que está subentendido na idéia de progresso –, esta concepção da história progressiva é incompatível com um outro preceito da mesma história progressiva, que é aquele que diz que as teorias antigas foram superadas. Ora, se existe uma continuidade, você só pode conferir se esta continuidade existe ou não se você for capaz de compreender as obras antigas tão bem quanto você compreende as modernas, e para isto é preciso se transportar a um outro universo imaginativo, intelectual, até sensorial, que já não é o seu. Felizmente a imaginação humana tem uma imensa flexibilidade e nós conseguimos absorver imaginativamente até condutas anormais e aberrantes. Nós conseguimos compreender, por exemplo, a mentalidade criminosa até certo ponto, embora não sejamos capazes de cometer os crimes que nós estamos estudando. Quanto mais não seríamos capazes de compreender obras mais elevadas que não poderíamos produzir. Esta possibilidade da apreensão imaginativa sempre existe. Porém, a partir do momento em que você acredita que houve efetivamente um progresso, isto é, que certas concepções antigas foram impugnadas como falsas, ou como mitos, ou como lendas, e substituídas por verdades modernas, estas se impregnam no ensino e na cultura em geral, e passam a constituir um novo mundo imaginativo no qual os elementos antigos não entram mais. Por exemplo, na Idade Média as pessoas – em geral a classe culta – aceitavam a idéia de Aristóteles de que uma pedra cai ao chão porque existe uma espécie de desejo da natureza – como eles chamavam metaforicamente – que é um desejo de repouso. Então a pedra tende ao centro da Terra porque ela vai repousar no encontro com essa massa material maior. Depois veio Newton, que expressou a queda dos corpos em termos de lei da gravidade, dizendo que a matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias, e a partir desta fórmula conseguindo descrever movimentos cósmicos enormemente complexos, que antes não podiam ser descritos porque não havia os instrumentos matemáticos para isto. O sujeito é educado na escola na base de que a teoria de Newton impugnou a idéia antiga, que aqueles antigos eram tão imbecis, tão crédulos, tão mitômanos, que acreditavam que uma pedra tinha desejo de se unir com o centro da Terra, e depois veio o Newton e demonstrou que não era nada disso, que a matéria atrai a matéria assim, assim, de acordo com a proporção matemática tal. E evidentemente a descrição que Newton dava ao processo é enormemente mais completa e complexa do que tudo o que os caras podiam ter feito antes. Isto quer dizer que a idéia do desejo natural, a que se refere Aristóteles e os escolásticos, se tornou incompreensível para o estudante moderno, exceto como mito ou como lenda. Ora, quando você compreende algo como mito ou como lenda, isto quer dizer que a sua forma de compreensão consiste em negar aquilo. Você compreende aquilo como compreenderia uma paranóia. Por exemplo, quando Wilhelm Reich estava na cadeia e ouvia um avião passando, ele acreditava que o avião estava vindo para jogar uma bomba atômica nele. E o guarda do presídio explicava para ele: “Não, meu filho, não é isso o que está acontecendo. O avião é simplesmente um avião comercial que está levando as pessoas para o Texas, para a Califórnia ou para a China. Não tem nada contra você.” Então, quando você começa a compreender as idéias antigas nestes termos ― como o guarda do presídio entendia o delírio do Wilhelm Reich ― é uma forma de compreensão que, ao mesmo tempo, é uma negação. Não é uma compreensão participativa ― o guarda do presídio não participava do delírio do coitado do Wilhelm Reich, ele compreendia que o sujeito pensasse daquela forma, [00:30] mas não compreendia que houvesse uma verdade naquilo. Quer dizer, a sua apreensão da realidade não apreende realidade alguma, apreende só o que está na sua própria mente. Ora, acontece que se você examinar as coisas direito, verá que aquilo que Aristóteles está dizendo com o negócio do desejo da natureza é exatamente o que Newton está dizendo com a lei da gravidade. Newton apenas transpôs aquilo em termos matemáticos que permitem uma descrição mais aprimorada do processo sem acrescentar nada quanto à explicação causal. Preste bem atenção: a Lei da Gravidade explica apenas como se dão certos movimentos e não o porquê. A coisa mais evidente do mundo que qualquer pessoa deveria compreender à primeira vista é que nenhuma descrição matemática de um fenômeno pode jamais explicar as suas causas. Isto é absolutamente impossível. Porque buscar uma causa é transpor um fenômeno específico para um outro plano mais geral e mais elevado que contém a inteligibilidade deste fenômeno. Ora, nenhuma descrição matemática, por mais aprimorada que seja, aumenta a inteligibilidade da coisa. Ao contrário: quanto mais extensa e perfeita for a descrição, o que você descreveu? Você descreveu um problema, e não a sua solução. Você descreveu um fenômeno e não a sua causa. Então, isso quer dizer que quase toda a ciência moderna, que se inspirou em Newton, ela transfere a investigação do nível das causas para o nível do processo considerado em si mesmo. Você dizer que a Lei da Gravidade explica alguma coisa, eu digo, peraí: uma fórmula matemática que expressa para você a forma de um fenômeno não é uma explicação, é uma descrição. Por exemplo, você imagina que um sujeito construiu um edifício e alguém pergunta: “Por quê ele construiu o edifício?” E você então vai e mede esse edifício em todas as direções possíveis e imagináveis. E você pode continuar medindo pelo resto dos seus dias e pela infinidade do tempo, que você jamais vai chegar em uma explicação, porque a descrição matemática não diz respeito a causas, não pode querer dizer — não há um conceito matemático de causas! Não há um conceito matemático que equivalha a causa. Causa é um conceito de ordem metafísica que supõe uma visão integral da estrutura da realidade e uma hierarquia de fatores dentro dela, fatores que ascendem no sentido do que não tem nenhuma explicação em si até aquilo que contém a sua própria explicação automaticamente. Não pode haver nenhum corresponde matemático nem físico-matemático disto aí. Tanto que se você estudar toda a história da física, passando pela relatividade, pela teoria quântica, etc, etc, você verá que em nenhum ponto se encontra uma explicação. Ora, a teoria física mais testada do universo é a teoria quântica. Há milhões e milhões de experimentos, então significa que as coisas são daquele jeito mesmo. Por quê elas são assim? A Teoria Quântica não pode dizer isso, ela precisa de algo que a explique. Ora, a teoria de Aristóteles, com o desejo natural, é uma tentativa de explicação. Então, você pode dizer que é uma teoria precária, que ela está expressa em modalidade poético-compacta, mas é uma tentativa de explicação. Então, o que pode haver de comum entre esta tentativa de explicação e a teoria de Newton que permita dizer que esta aqui é mais acertada que a anterior? Na verdade, eles estão dizendo a mesma coisa de duas maneiras: uma em modo explicativo e outra em modo descritivo. E você dizer que: “Olha, a matéria se aproxima de outra matéria porque ela tende ao repouso.” E dizer que “A matéria atrai a matéria na razão direta das massas, isto é, o maior atrai o menor”, é exatamente a mesma coisa! Portanto, uma teoria não pode estar mais certa do que a outra. A única diferença entre elas é que a primeira é um enunciado explicativo e a segunda é um enunciado descritivo em termos matemáticos. Acontece que a mente moderna se acostumou de tal modo a este tipo de raciocínio que o que quer que não esteja formulado exatamente nestes termos só pode ser compreendido como erro, ou como mitologia, ou como lenda, isto é, não pode ser compreendido de maneira alguma. Aluno: A distinção aí é entre explicação e descrição, ou entre causa final e causa eficiente ou outros tipos de causa? Não, não, não. Aristóteles não está excluindo a causa eficiente. Querer dizer “Ah, Aristóteles pegava as coisas pela causa final e nós passamos a explicar pela causa eficiente.” Olha, não há nenhuma possibilidade de uma expressão matemática de uma causa eficiente. Não há um correspondente matemático da noção de causa. Por mais que você meça um fenômeno, ainda que a sua medição seja absolutamente perfeita, você nunca pode, por esse meio, dizer que uma coisa causou a outra, porque a noção de causa subentende uma hierarquia ontológica e não há nenhum conceito matemático que corresponda a isto. Aí se trata daquilo que o Edmund Husserl chamava “metabasis eis allo genos”. É a mudança de gênero. Quer dizer, a ciência aristotélica estava investigando uma coisa e a ciência newtoniana estava investigando outra coisa completamente diferente. No entanto, guardadas as devidas proporções, se há uma possibilidade de comparação, a comparação demonstrará que ambas estão dizendo a mesma coisa em dois planos diferentes. Um nos planos das causas ontológicas e outro no plano da descrição fenomênica. Ou seja, por um lado não há nenhuma contradição entre as duas. Mas se você toma a segunda como única fórmula explicativa possível e ela se impregna na cultura — e aquilo que se impregna na cultura cria automaticamente um novo imaginário — então você vive em um mundo imaginativo determinado pelas leis de Newton. Ou seja, você vive em um mundo onde tudo em volta é determinado por movimentos matematicamente descritíveis. E tudo aquilo que não é matematicamente descritível você chuta para o reino ou do imaginário, ou dos produtos culturais, etc. Ora, mas você quer uma imagem mais mítica do que esta? Einstein costumava se perguntar como seria possível que as coisas na natureza procedessem matematicamente. Como é possível aplicar a matemática ao estudo da natureza? E ele morreu sem ter a resposta disto. Mas a resposta é muito simples: a matemática se aplica tão bem ao universo estudado pela Física porque a Física só estuda aquelas partes que ela determinou que são matematizáveis. É só por isto. Se você exclui tudo que não é matematizável sobra o que é matematizável, evidentemente. Ao que é matematizável a matemática se aplica extremamente bem! Ora, o sujeito que não percebe imediatamente que este é um raciocínio [00:40] circular ou tautológico e que, portanto, não percebe que ele está se movendo, não em um âmbito de realidades, mas de mitos culturais, então é porque é muito burro. De onde vem esta impressão que o mundo matematicamente descrito pela ciência física é real e o resto é mais ou menos irreal ou inventado, etc, etc? Vem do quê? Da aprovação do grupo e somente disso, porque não há nada objetivamente que possa justificar ou fundamentar uma coisa destas. Mas, no entanto, esta idéia está impregnada na nossa cultura. “Nós vivemos num mundo real que é descrito matematicamente. E dentro deste mundo real, tudo aquilo que não é matematizável é invenção cultural, é mito, etc, etc.” Ah, mas espere aí: você não começou observando o mundo real e tirando conclusões a respeito dele, você começou por excluir aquilo que a sua ciência matemática não permitia estudar, porque não havia instrumentos matemáticos para aquilo. É claro que, durante este período, os instrumentos matemáticos evoluem e acabam lhe permitindo descrever coisas que antes você não poderia descrever — como, por exemplo, esta Teoria do Caos, que lhe permite descrever processos enormemente complexos que no tempo de Newton seriam impensáveis de descrever. O próprio fato de que surjam novos instrumentos matemáticos e de que o indescritível se torne descritível me mostra que essa divisão entre o mundo real matematizável e o mundo irreal não-matematizável é estúpida, porque ela é um produto cultural e historicamente condicionado, destinado a se dissolver na geração seguinte conforme o progresso da Matemática. Acontece que se a ciência newtoniana tivesse influenciado apenas os físicos, estaria tudo bem, mas acontece que ela se impregna na cultura geral como molde de uma nova cosmovisão. E qualquer cosmovisão newtoniana é radicalmente falsa. Porque cosmovisão, que eu saiba, é o que inclui o Cosmos, e não um setor recortado de acordo com as possibilidades cognitivas de uma ciência particular. Então, uma cosmovisão newtoniana é um produto artifical imposto às pessoas como uma camisa de força, e o mal que isto fez à humanidade é absolutamente incalculável. A idéia da Revolução Francesa, por exemplo, de uma engenharia social perfeita que iria moldar uma nova sociedade racionalmente é resultado direto dessa concepção, dessa imaginação newtoniana. Não da concepção física newtoniana — seria absurdo culpar Newton por isto. As conseqüências que os camaradas tiraram do Newton foram muito além daquilo que ele poderia prever. Sem contar que Newton, pessoalmente, aceitava outras maneiras de integrar realidades que não por métodos matemáticos, tendo dedicado a elas a maior parte do seu tempo de estudos, e somente alguns anos à parte matemática. Mas um dos efeitos que isso teve, na escala propriamente da educação, foi tornar incompreensível para o estudante moderno uma boa parte do legado antigo e medieval. Por exemplo, quando vocês lêem aí no livro do Hugo de São Vítor, Didascalicon, esse é um grande livro da Idade Média. Existe uma tradução brasileira muito boa feita por um sujeito chamado Antonio Marchionni, que é um italiano que se doutorou, que estudou filosofia e teologia em Roma e depois mudou para o Brasil e, você veja, se tornou assessor do MST... Saída de leão, chegada de cão. Mas este serviço aqui está muito bem feito, é um desperdício botar esse cara no MST, [mas] onde ele pôde arrumar emprego foi ali. Então eu recomendo muito essa tradução dele, as notas... é claro que é um homem muito sério. Politicamente deve ser de uma ingenuidade patológica. Então, por exemplo, quando Hugo de S. Vítor fala que o estudante deve aprender as coisas com ordem, ele não está dizendo que você deve inventar uma ordem e segui-la, ou que o professor deve lhe propor uma ordem e você segui-la. Ele está dizendo exatamente o contrário: que existe uma ordem natural e cósmica e essa ordem você deve absorver através da leitura, isto é, a leitura se torna um meio para que a própria ordem cósmica e divina se impregnem na sua alma. Ou seja, não é uma ordem criada para fins pedagógicos, não é uma ordem inventada, é a própria ordem da natureza e do Cosmos em geral que reflete por sua vez a ordem divina, é esta que você deve impregnar. E você pode fazê-lo através da leitura. Note bem, esse conceito ficou absolutamente incompreensível para qualquer estudante moderno. Quer dizer, como é que eu posso, através de uma leitura, absorver a ordem cósmica? Eu, se estou fazendo uma leitura, vou absorver, no máximo, a forma mentis daquele autor que eu estou lendo, na melhor das hipóteses. E esta forma mentis será uma coisa da criação dele, que não tem nada a ver com a estrutura da realidade. Ora, então pergunto-lhe eu: o sujeito que escreve o que você está lendo, que Gramática ele usa, ele usa uma Gramática que é só dele, que ele inventou? Não, ele usa a mesma Gramática que todo mundo. Que Lógica ele usa, uma Lógica que é só dele, que só serve para ele? Não, é a mesma Lógica de todo mundo. Os fatos que ele percebeu no mundo circundante, ele percebeu com órgãos sensoriais que só ele tem e que são muito diferentes dos seus? Não. Ele percebeu com os mesmos. A estrutura ontológica desta criatura que escreveu esse livro é muito diferente da sua? Não. Então porque que eu deveria, ao ler o livro, apreender somente aquilo que é singular da mente do seu autor e não toda a ordem que o gerou, que o criou, que o formou e o determinou? No entanto, essa idéia de que através da leitura você absorve a ordem cósmica, essa idéia desapareceu, porque o que se entende por ordem cósmica hoje é o mundo de Newton. Não é nem sequer o mundo da Física Quântica, que é mais parecido com o antigo, mas ainda é o mundo de Newton. É o mundo matemático-mecânico, onde tudo obedece a leis matemáticas, e o que não obedece a leis matemáticas não faz parte da realidade. É incrível, porque as leis matemáticas não são dados dos sentidos, são abstrações complexíssimas a que você chega depois de muito suar a camiseta. E isso quer dizer que você ao mesmo tempo diz que o mundo físico é a verdadeira realidade, mas com a nuance de que esse mundo físico não é mundo físico, é o mundo matemático, o qual não é sensorial de maneira alguma. Se você está imbuído desta crença e isto se impregnou na sua imaginação, você não pode conceber nenhuma ordem cósmica a não ser sob a forma das leis de Newton — das Leis da Mecânica. Não há nenhuma ordem acima disso. Qualquer insinuação de ordem que exista é o quê? Produto cultural, é uma fé religiosa, é uma obra de arte, etc, etc. Agora, você então imagina a confusão que se instala imediatamente a partir deste ponto em que o único ponto de convergência de todo mundo são as Leis de Newton, a única coisa que todos nós sabemos e compartilhamos são as Leis de Newton, o resto é tudo invenção. [00:50] O resto é tudo delírio da cabeça de cada um. Então, nesta altura, é claro que, quando você lê um livro, você lê apenas para perceber as idiossincrasias da mente doentia que o criou. Então como é que eu posso entender o que Hugo de S. Vítor dizia, que através da leitura eu vou me impregnar da ordem universal, da ordem natural e cósmica? Mais ainda, a partir do momento em que as Leis de Newton passam a determinar a forma geral da cultura, o que acontece é que a psique individual se torna — além das leis de Newton que são a certeza matemática externa — o único outro pólo de certeza de que você pode apelar. Então você tem Newton de um lado e Descartes de outro. “Eu sei que o mundo funciona matematicamente” e “eu sei que eu penso, logo existo.” Essas são minhas únicas certezas. Automaticamente o eu, a sua experiência subjetiva, passa a ser uma fonte de certeza. Quer dizer, eu sei que eu existo e, aquilo que se me impuser como evidência provada, eu aceitarei como verdadeiro, e tudo o mais eu tomarei como fantasia, ou seja, a cabeça de cada um se torna o juiz do universo. Que isso é loucura, não preciso dizer. E a loucura chega ao supra-sumo quando Kant diz que tudo o que nos vem do mundo exterior é um caos e que a nossa mente é que ordena isto. Bom, estamos nos antípodas do Hugo de S. Victor, porque para Hugo de São Vítor o estudante era apenas mais um ser humano, humilde, burrinho, sem preparo, e chegava ali e através da leitura, das grandes obras, das Escrituras, dos filósofos antigos, etc, etc, absorvia a ordem universal. Agora não! Agora qualquer idiota é o padrão da ordem universal, desde que ele raciocine de acordo com as Leis de Newton, ele tem a certeza absoluta e tudo o mais, que ele não pensa, é duvidoso. É claro, gente, que isso é absolutamente esquizofrênico. Eu já expliquei, já contei mil vezes a minha experiência infantil de ter de reaprender a andar depois de ficar com febre durante muitos meses. Então, quando despertava dos meus delírios febris, eu tentava andar e via que não sabia mais, e que a noção de em cima, em baixo, essa coisa toda estava um tanto confusa. Então eu me apoiava na estrutura do mundo exterior para me reorganizar por dentro. Ou seja, a noção de em cima e em baixo se confundia um pouco na minha cabeça, mas no mundo exterior não podia. O chão continuava no chão e o teto no teto, eu não podia andar no teto. Embora eu pudesse sentir que o mundo girava e que ficava de cabeça para baixo, na verdade ele não ficava, porque se eu tentasse andar no teto eu não conseguiria, só conseguia andar no chão. Então, esta experiência me marcou para sempre. Eu entendi que a minha mente não põe ordem em coisa alguma, ao contrário, ela se deixa amoldar pela ordem do mundo exterior que lhe vem pronta e imposta, e que ela não pode mudar de maneira alguma. Por coincidência eu recebi uma carta do Ermindo Brum Neto. Ele diz: “Objetivamente há evidências corroboradas pela neurociência que estão plenamente de acordo com os postulados kantianos. Por exemplo: quando observamos um objeto qualquer, particularidades do objeto são processadas em diferentes regiões corticais. Cada uma delas processaria um atributo do objeto: uma parte a cor, outra a forma, e outra semelhanças de padrões. Essas informações dispersas são agrupadas e reconstruídas num conceito unitário de objeto, mas somente em razão das estruturas cognoscíveis cerebrais possíveis.”. Ora, Ermindo, isso aqui não prova o que Kant está dizendo, prova exatamente o contrário. Por quê? Note bem: se a sua apreensão do mundo depende de um cérebro, que existe materialmente, esse cérebro, por sua vez, não é uma apreensão ou um produto da sua mente, ele existe fisicamente e ele tem uma forma, uma estrutura, que já vem determinada e que não foi você que inventou. E quando este cérebro entra em relação com o mundo exterior através das informações que ele recebe dos sentidos, ele não pode montar este mundo exterior porque ele faz parte deste mesmo mundo. Ele é uma realidade física entre outras. O cérebro não poderia ordenar nada. Um exemplo: aqui tem uma tartaruga, ele está vendo a cabeça da tartaruga e as patas da tartaruga e ele percebe que pertence ao mesmo objeto. Ele não poderia fazer isto se ele não estivesse no mesmo mundo físico que a tartaruga. E ele estar no mesmo mundo físico e não é uma representação da mente dele, é uma realidade que persiste mesmo que ele não percebesse nada. Quer dizer que a estrutura do seu cérebro é um dado real do mundo físico e não um princípio ordenador que você criou. Note bem que com isso eu não estou voltando ao John Locke, que nós nascemos como uma folha em branco e que o universo, então, deposita os dados dos sentidos em nós. Não, nós não nascemos como uma folha em branco, nós temos uma estrutura determinada. E essa estrutura está perfeitamente amoldada à estrutura inteira do mundo exterior, senão nós não poderíamos sobreviver dentro dele. Isso quer dizer que, desde o instante que nascemos, se não antes, nós recebemos não o impacto dos dados dos sentidos, mas o impacto da realidade total que nos formou e dentro da qual nós existimos, e que transcende infinitamente a esfera daquilo que eu percebo pelos cinco sentidos. Ou seja, eu recebo o impacto da ordem cósmica, eu estou dentro dela, eu sou apenas mais um. Eu não estou ordenando coisíssima nenhuma. Eu sou uma parte da ordem exterior que me abrange e tudo o que se passa no meu interior se passa dentro da mesma realidade. Então, qual é a única que importa? Absorver o quanto que eu possa desta ordem que preexiste a mim. Essa ordem é a ordem do mundo newtoniano? Claro que não, a ordem do mundo newtoniano diz respeito apenas às leis da gravidade e do movimento, de mais nada. A ordem total transcende isto infinitamente. Claro que a ordem total não pode ser expressa em palavras, mas ela pode ser aceita, ela pode ser percebida e aceita e no máximo expressa simbolicamente mediante compactações poéticas ousadíssimas, mas não tem um jeito: “Olha, eu vou dizer aqui para você a ordem total...”, não, isto não é possível. Nós vivemos dentro da ordem total, nós a reconhecemos e nós vivemos dentro dela e só podemos nos entender uns aos outros porque estamos dentro da mesma ordem. Se vivêssemos em universos separados não poderíamos nos comunicar. Então, a coisa que mais interessa na educação é justamente elevar o aluno até este vislumbre consciente da ordem total que de algum modo ele já percebe antes, obscuramente. E é isto o que a educação medieval tentava através da leitura, sobretudo naqueles séculos que eu mencionei na outra aula, séculos IX, X e XI. O livro do Hugo [— o Didascalicon —], quando chega, já era uma recordação do que se fazia antes, uma recordação escrita em uma época em que esta técnica de ensino já estava se perdendo e Hugo escreve justamente para que não se perca totalmente. Ou seja, longe do Hugo ser o príncipe do ensino medieval, não, ele é a testemunha de um apogeu que já tinha passado. [01:00] Um detalhe importantíssimo do ensino nesta época era que a leitura, ou era feita em voz alta, ou era feita em voz baixa como quem recitasse, ou seja as pessoas ficavam falando para si mesmas em voz baixa o que estavam lendo. Em voz baixa inaudível. Por exemplo estou aqui lendo a carta do Ermindo… Não sai voz nenhuma, mas você vê o movimento dos lábios. Era assim que se lia no tempo de Hugo de São Vítor e nos séculos anteriores, e era isto que permitia fazer da leitura um modo de aquisição, um modo de abertura à Ordem Total, porque você lia com o seu corpo também. Não é só com os olhos. Hoje em dia quando se desenvolvem técnicas de ler só com os olhos, e ler velozmente – tem um sujeito chamado Paul Scheele, que desenvolveu uma técnica que você lê um livro inteiro em dez minutos. Só com os olhos, ou seja você grava a imagem da página – isto daí pode ser muito bom para você ler balancetes, para você ler jornal, mas se você for ler Platão assim, você está acabado! Porque você está separando o visual do corporal, a sua participação no universo da leitura é exclusivamente imaginativa e não física. Então quando você lê é, apenas, como se você estivesse assistindo a um filminho. Note, mesmo quando nós assistimos a um filme há uma reação física. Por exemplo, tinha um tempo em que eu jogava um joguinho de computador, eu jogava um jogo chamado “Wolfenstein”, eu era viciado neste jogo durante um tempo, depois parei. Mas era muito interessante, era sobre um americano que estava preso dentro de uma fortaleza alemã e ele tinha que escapar e matar os nazistas, estas coisas todas e tinha um monte de tiro. Claro, que depois os jogos evoluiram muito, este era muito primitivo. Mas as pessoas que me viam jogando, elas reparavam que eu me desviava dos tiros na tela. Quer dizer que alguma participação física havia. É claro que participando do jogo “Wolfenstein” eu não iria aprender nada da ordem cósmica, mas suponha; que estivesse lendo São Tomás de Aquino, ou a Bíblia, ou mesmo Aristóteles, Platão. Eu começaria a participar daquilo como um dos personagens. Ou seja, o drama que estava ali seria presentificado fisicamente, e eu estaria absorvendo aquilo com realidade e não só como pensamento. Se o que estou lendo é verdadeiro ou falso em relação a realidade seria um segundo passo. Mas a absorção da coisa como realidade é o primeiro passo. Depois é que você vai ver se é uma realidade imaginária, inventada, criada pelo ser humano ou se é a realidade efetiva criada por Deus. Então mais tarde você vai ver isto daí. Mas a partir do momento em que todo o seu material de leitura visa apenas o imaginário, ao mental, você passa a viver em dois mundos simultaneamente. Um, é o mundo físico Newtoniano, e o outro, é o mundo das “idéias”, coisas inventadas. E nunca mais você vai pegar a idéia de ordem cósmica. Nunca mais na sua vida! A idéia de realidade lhe escapou para sempre. Por que? Porque o mundo Newtoniano não é a realidade, ele é um conjunto de fórmulas matemáticas. E o outro mundo é apenas invenção cultural, então você fica viajando entre duas irrealidades. E é isto que se chama educação no mundo de hoje, mesmo a educação que é dada nos centros mais eficientes e capazes do mundo, é isto! É claro, que, foi para compensar as deficiências deste tipo de ensino que se criaram, no começo do século XIX, as escolas de Artes Liberais. Para ensinar as pessoas a ler como se lia antigamente. Esta pelo menos era a idéia. Ela pode ter-se deteriorado em muitos pontos, mas a idéia permanece ai, e é claro que ainda existem pessoas capazes de ler como Hugo de São Vítor lia. E às vezes você encontra estas pessoas nos lugares mais surpreendentes, estamos vendo aí um assessor do MST que é capaz de entender Hugo de São Vítor. Uma coisa mais surpreendente ainda; o Ivan Illich, uma padre Austríaco que foi morar em Cuba, e que na década de setenta era um ídolo da esquerda. A esquerda na época defendia idéias que são o contrário do que defendem agora... Por exemplo, ele defendia a abolição do sistema escolar: o Homeschooling Universal. Hoje em dia, ninguém mais quer isto, e quem quer isto é considerado um extremista de direita. Mas o Ivan Illich escreveu um belo comentário sobre o Didascalicon de Hugo de São Vítor. O que se nota neste comentário, porém, é a hesitação dele em subscrever o modo de leitura antigo por que, ele confessa, está tão habituado ao mundo Newtoniano que tem uma certa dificuldade em entender o que o Hugo está dizendo, por exemplo: como Ordem Cósmica, ou coisa assim. E ele em parte considera esta dificuldade legítima, por que ela nasceu do “progresso das ciências”: “O progresso nos libertou de mitos e lendas medievais e nos instalou em um mundo de realidades newtonianas. Por isso eu só posso compreender o mundo anterior como mito, como lenda, como um produto cultural, etc, etc e etc.” Ou seja, eu não posso participar solidariamente daquilo. Então, se eu não posso participar solidariamente daquilo, eu não posso ter a experiência. Eu só posso ter a compreensão intelectiva de Segundo Grau, a compreensão histórica por assim dizer. Ora, a existência das escolas de Artes Liberais, e se você quiser saber, a minha própria existência física, prova que isto não é assim. Quando eu estava no Ginásio, eu tive um pressentimento que determinou o resto da minha vida. Eu notava que quase tudo o que me ensinavam como matemática, como física, como química, etc, etc e etc; era baseado em certos postulados arbitrários que nunca mais poderiam ser discutidos, mas o contato entre estas ciências e a realidade, repousava naqueles postulados, daí para adiante era tudo construção. Então eu percebi que aquele ensino não estava me instalando na realidade, mas me disciplinando para eu fazer as minhas construções mentais como os outros faziam, como o professor fazia. Ou seja, aquilo não era um estudo de ciência, ou seja, de conhecimento, era uma espécie de educação física. Era um adestramento. E eu percebi que aquilo estava me fazendo muito mal porque estava me emburrecendo. E eu percebi que teria que fazer uma opção; ou eu continuava buscando a compreensão da realidade, ou eu aceito esta disciplina. Se eu aceitar isto, estarei perdido pelo resto da minha vida, mas ao mesmo tempo eu não posso me recusar a aprender estas coisas, pois elas são as ciências de agora. Então eu vou ter de achar, de encontrar um ponto – como é que se diz? – um ponto de intersecção, onde eu possa fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo eu entendo do que eles estão falando, e sei, mais ou menos, repetir aquela bobajada toda e continuo buscando a realidade. E foi isso exatamente o que eu fiz. É claro que eu não podia fazer isto na escola, então o que eu fiz? Eu comecei a procurar, a investigar, para ver aonde existia educação de altíssimo nível e o que se aprendia lá. Então eu comprei centenas de manuais do ensino secundário francês do começo do século XX, que eram coisas de um nível [01:10] extraordinário. E fui buscando, buscando e buscando, e tentava me manter ao par do que se estudava nos grandes centros mundiais e tentava me manter no nível daquilo. Dentro de alguns anos eu já não tinha a menor possibilidade de diálogo com o meio em torno, por que ninguém sabia do que eu estava falando. Por exemplo, os autores que eu lia; para cada autor que as pessoas estavam lendo na universidade eu tinha lido outros mil, dos quais eles nunca tinham ouvido falar. Por exemplo, quando eu comecei a dar conferências públicas e chegavam estudantes de psicologia eu lhes falava de Maurice Pradines, Igor Caruso, Eles nunca tinham ouvido falar, não sabiam quem eram, e no entanto eram autores fundamentais da cultura européia. Tudo tem um preço no mundo. Inventei um jeito de fazer com que meu estudo se voltasse para a realidade efetiva e não apenas para as convenções escolares, e percebi o quanto estas convenções escolares poderiam esterilizar a mente do fulano. Poderiam, sim, destruir completamente, ao ponto de torná-lo incapaz de pensar qualquer coisa fora daquele mundinho provinciano que seus professores lhe tinham ensinado. Não que eu me revoltasse contra o ensino – revoltar-me não é uma atitude natural para mim, não me revolto contra coisa nenhuma. Minha tendência é aceitar tudo complacentemente – eu simplesmente não queria isto para mim. Se os outros quisessem era problema deles. Porém, quando se começa a tratar destes assuntos, não como um problema pessoal que você tem que resolver, mas como fenômeno social a respeito do qual você tem que opinar, então eu sou obrigado a declarar que isto daí é um desastre intelectual fora do comum, porque a aquisição destas disciplinas é a aquisição da incapacidade de compreender tudo o que esteja fora delas. Então não é só um adestramento, é um encaixilhamento mental muitíssimo perigoso, e tanto mais perigoso quanto mais o sujeito acredite que aquilo seja a realidade, porque é uma realidade sustentada apenas no falatório de uma certa comunidade. E esta realidade se esboroa tão logo você começa a abrir o horizonte da sua compreensão histórica para tentar absorver outras coisas. Você veja que, os grandes espíritos que existem em todas as ciências, eles sempre fizeram isto. Por exemplo, quando você lê o Ken Wilber – o pessoal que estuda psicologia na universidade brasileira aprende que a psicologia é uma ciência muito recente, que ela surgiu no século XIX – quando você vai ler o Ken Wilber, você tem dez milênios de psicologia lá. Do mesmo modo quando você lê o Pitirim Sorokin, um grande sociólogo que foi presidente da Associação Sociológica Americana por muitos anos, também, muitos falam que as ciências sociais surgiram no século XIX com Émile Durkheim, ele te mostra dez milênios de ciências sociais, as vezes de um nível muito mais elevado do que se faz hoje. Do mesmo modo quando você lê a sociologia do Gilberto Freyre: ele é capaz de absorver sociologia das fontes mais inimagináveis para um sociólogo vulgar. Bom! É isto que tinha que ser a base da educação. A educação tem de se basear na realidade histórica daquilo que foi feito e não no inverso de consciência histórica, que de tempos em tempos apaga a compreensão da anterior. Por isto é que eu digo que a noção de progresso, ao mesmo tempo, ela é a base do conceito de história que se transmite hoje, isto é, história como ascensão, e a negação deste mesmo conceito, porque? Por que ele tapa a possibilidade de compreensão da continuidade. Você só vê descontinuidade. Mas se só existe descontinuidades como é que você pode falar de história? E no entanto as pessoas aceitam esta noção de história como progresso, e aceitam a noção de que tais ou quais coisas foram superadas, a noção de superação... como se não houvesse contradição atrás da formulação; não percebe a contradição. Ora meu filho, se aquilo que Newton descobriu transformou em lenda tudo o que havia antes eu só posso compreender aquilo como lenda, ou seja, como produto cultural. Quer dizer, eu não posso ver o mundo como aquelas pessoas viam, por que não há coeficiente de realidade suficiente ali para que eu veja. Então eu tenho que admitir o seguinte: a partir de um certo ponto nós temos a história da ciência; antes, nós só temos a história da insanidade. Até que Newton seja superado e este passe a ser insanidade também, como de fato passou. Que história é esta em que, de tempos em tempos, se instaura um novo padrão de normalidade e tudo o que veio antes passa a ser insanidade? Isto é história do hospício! Por que você só está seguro de sua sanidade em um momento, mas daqui a pouco tudo aquilo vai se revelar tão insano quanto o que veio antes. Será que é esta a maneira de se absorver o que a humanidade produziu de melhor? Será que a gente lê Lao-Tsé assim? – Vamos ver o que este idiota pensava naquele tempo. Imaginava. Aquele cretino não sabia nada, não conhecia as leis de Newton – será que é assim que eu deveria ler Lao-Tsé? Será que eu poderia compreendê-lo desta maneira? É claro que não! Eu só posso julgá-lo desde fora, sem participação íntima no universo dele, portanto sem compreensão nenhuma. Quer dizer, a chamada suspensão da descrença, que é necessária para você assistir a uma peça de teatro, também é necessária para você ler qualquer obra de filosofia e ciência antiga. Ou seja, eu tenho que ler aquelas coisas buscando a veracidade que está nelas, a sua veracidade intrínseca, e não a sua suposta falsidade em comparação com o que um outro sujeito disse depois. Por que, o que o outro sujeito disser depois também será considerado falso quando vier um outro e disser outra coisa. Mais ainda, as pessoas que acreditam nesta noção de progresso, por incrível que pareça, elas não acreditam no princípio do Popper, o da falseabilidade — que não há teorias científicas verdadeiras, há apenas teorias científicas adequadas ao estado atual das investigações... Mas, meu filho, se é isso como é que você pode dizer que as outras teorias eram piores? Elas não podem ser piores por que estavam perfeitamente adequadas ao estado contemporâneo das investigações. Você não pode alegar que uma teoria é ruim por que ela não estava adequada ao estado posterior das investigações! Aí você vê que as crenças que passam como as coisas mais comuns, óbvias e banais do mundo, são puras alucinações. Isto é a anti-educação, e você entende por que as pessoas emburrecem estudando estas coisas! Então você entende o que não é para fazer. Você pode adquirir uma segurança que lhe permita descobrir certas verdades sozinho e proclamá-las, contra tudo e contra todos, na hora em que você tiver abertura para o conhecimento humano de todas as épocas e de todos os lugares, e tiver abertura para a Ordem Cósmica que aí se insinua — A Ordem Cósmica que aí se insinua! Não se revela completamente, mas se insinua. Na hora que você tem isto, não precisa da aprovação do Zé Mané da esquina, do Paulo Ghiraldelli, do Rodrigo Constantino ou de qualquer outro idiota desses. Nós precisamos é de ter no mínimo algumas centenas de pessoas qualificadas para este tipo de inteligência autônoma. Se o Brasil não tiver isto, está tudo perdido, gente! Perdido! Se não há a cultura superior não há o mínimo de racionalidade nos debates públicos, absolutamente nada. A distinção mais elementar entre verdade e falsidade escapa por completo, e as coisas que acontecem diante dos olhos de todos se tornam invisíveis. E as pessoas ficam com a “síndrome do Piu-Piu”: ela só acredita naquilo que todo mundo diz, então isso quer dizer o seguinte: para eu saber alguma coisa é preciso que todo mundo saiba primeiro. Mas acontece que cada um dos outros pensa exatamente como eu, cada um está esperando que os outros saibam. Resultado: [01:20] ninguém fica sabendo de nada! E você vai tendo uma acumulação de trevas, uma acumulação de ignorância que termina na impotência total. Não há um sentimento que seja mais característico do brasileiro de hoje do que a sua total impotência para fazer o que quer que seja. O sujeito não pode sair na rua por que teme levar uma bala perdida; ele não pode se defender a si próprio por que ele não pode comprar uma arma; ele não pode reclamar para a polícia porque ela está comprada pelos bandidos, e assim por diante. Então o que se pode fazer? Meu filho, você pode se enfiar dentro da privada e puxar a descarga – Se é que você não tem medo dos cocôs também, pode ser que eles sejam hostis... Mas que situação mais infame, mais deprimente, mais miserável! O que nós podemos fazer para que o Brasil saia disto? Não adianta você pensar em atividade política. Não adianta! . A política não é causa sui, ela não surge sozinha: ela surge da alta cultura. As possibilidades que não existem na alta cultura não existem na esfera da ação política. Portanto, temos de criar uma outra alta cultura para criar outras possibilidades de ação política. Isso não quer dizer que, quando peço a vocês a abstinência de opinião(...) alguém me escreveu aqui(...) Aluno: Olha, é difícil praticar a abstinência em matéria de opiniões quando a coisa é muito absurda e chocante demais. Olavo: Você tem toda razão, mas tem umas coisas que você não precisa se esforçar nem um pouco pra ter uma opinião. Hoje mesmo, eu estava lendo uma notícia de que em certos lugares do Rio de Janeiro, no complexo do Alemão, os narcotraficantes não fazem mais violência porque entraram em acordo com o governo, para não atrapalhar as obras do PAC. O que aconteceu? Todos os traficantes se mudaram para lá, porque lá é zona segura. E esta idéia é o plano do Lula, o plano revolucionário para acabar com a violência no Rio, ele criou segurança para todos os traficantes! Mas é claro que isso é uma coisa louca, psicótica, criminosa, complementada pelo restante do plano, que é o seguinte: liberar o comércio de drogas e legalizá-lo de modo que os traficantes se transformem em bons capitalistas, burgueses pacíficos, e se encham de dinheiro e sejam, portanto, premiados por todos os crimes que cometeram ao longo de trinta ou quarenta anos. Acabar com a violência mediante a instauração do governo dos narcotraficantes, esse é o belo plano do Lula. Isso é coisa de doutor Mabuse! O sujeito que tem uma idéia dessa tem de apanhar, apanhar na bunda como um menino mal comportado. Tem de abaixar as calças do Lula e encher aquela bunda peluda de palmada até ficar vermelha e não poder sentar, porque é um moleque, evidentemente. Agora, se você vai se acostumando com essa situação, e continua chamando o sujeito de excelência, respeitando e tal, meu Deus do céu!, você está aceitando a sua degradação a um estado quase animal, está num nível de submissão a que, mesmo nos tempos mais duros do império chinês, as pessoas não chegavam. Se o imperador chinês chegasse com um plano desse, diriam: “O imperador pirou, nós temos que tirá-lo de lá”. Se Júlio César pensasse uma coisa dessa... Quer dizer, nós vamos acabar com o crime premiando todos os criminosos e deixando eles ganhar um montão de dinheiro de modo que eles não precisem matar mais ninguém? Eles não vão ter concorrentes não? Os bandidos menores vão aceitar isso facilmente? Isso não vai acabar com a violência, não vai acabar com a guerra do narcotráfico, de maneira alguma, vai intensificá-la muito mais! Agora, se o sujeito começa a raciocinar a partir do princípio newtoniano dos dois mundos termina nessa proposta do Lula. Quando, por exemplo, o sujeito diz que a sociedade cria o banditismo, ele não percebe que não está dizendo nada, absolutamente nada. É claro que a sociedade cria o banditismo, a sociedade cria tudo o que acontece dentro dela. Isso quer dizer o quê, que bandidos não existem, só existe a sociedade? E que o bandido passa a ser inocente porque a sociedade é culpada? O que significa a sociedade ser culpada? A sociedade é uma personalidade jurídica imputável? Eu posso processar a sociedade e metê-la na cadeia? Não posso. Eu somente posso processar os representantes do estado, que não são necessariamente representantes da sociedade. Então, eu vou pegar um funcionário público qualquer e vou dizer que ele é culpado do que o Fernandinho beira-mar fez? As pessoas costumam raciocinar a partir de frases que quando analisadas revelam toda a sua vacuidade, mas que funcionam apenas como impressões compactas e hipnóticas. Veja o número de pessoas que, em debates comuns, diz que na Idade Média a Igreja perseguia todos os que pensavam de maneira diferente. Mas quantas pessoas eu já vi, professores universitários, filósofos, dizendo isso? Será que eles pensam mesmo que a Igreja proibia as pessoas de ser o que quer que fossem? Por exemplo, proibia os judeus de praticar o judaísmo? As pessoas acreditam que sim! Ao longo de toda a Idade Média isso jamais aconteceu, jamais. Era algo absolutamente impensável para um cidadão medieval se criar uma uniformidade ideológica tal como o mundo moderno concebeu, ninguém na Idade Média pensou uma coisa dessas. Não teria nem como expressar verbalmente essa idéia. E as pessoas acreditam que a Inquisição perseguia muçulmanos, judeus, acreditam mesmo nisso. Eles acreditam que a Inquisição manteve todo mundo no reinado do terror. Mas, um momento: se você considerar que a Inquisição Espanhola, em quatro séculos, matou vinte mil pessoas em duas dezenas de países, a Espanha e toda a América Espanhola, o que vai dar uns cinqüenta por ano; dividido entre vinte países, em cada país foram dois condenados à morte por ano. Isso é um “reinado do terror”? Como é possível que a pessoa não tenha sequer a precaução de modular o seu imaginário pelos fatores quantitativos que ela mesma está alegando? A idéia de um “reinado do terror”, de um controle ideológico, geral da sociedade, só se tornou pensável muito tempo depois; e praticável, mais tarde ainda. Em geral as idéias que circulam na opinião pública e que funcionam como as premissas fundadoras dos argumentos sobre pontos particulares, aquelas idéias gerais, aqueles topoi — Topoi são lugares comuns, coisas que todos acreditam e que podem ser usadas, numa discussão retórica, como premissa geral para provar uma coisa em particular — não é que aquilo o que as pessoas dizem sobre [certos] pontos em particular seja falso, [mas que] as premissas são todas falsas. Algumas delas não são só falsas como intrinsecamente absurdas e impensáveis. E você tem todo um debate nacional gerando em torno dessa loucura! Somos nós que temos de acabar com isso, e vai dar muito trabalho. Quando o Hugo de São Vítor dizia que através da leitura você absorveria a ordem cósmica, ele supunha o seguinte: que a leitura era também uma impregnação de todo o ser moral do aluno: à medida que ele se abria para aquela ordem cósmica e divina, se amoldava àquilo como pessoa humana.[1:30] Ele buscava se harmonizar com a ordem que ele estava percebendo, à medida que ele ia percebendo — porque ele não percebia tudo de uma vez, evidentemente — ele como pessoa real se ajustava àquilo, e na medida em que se ajustava, novas dimensões da ordem se revelavam a ele, e assim por diante. E isso se tornou virtualmente impossível no ensino como é concebido hoje. E sem isso você jamais vai poder formar inteligência autônoma. Não vai formar um Pitirim Sorokin, que é capaz de ler Confúcio como quem lê o livro do Durkheim, e está aberto para a realidade tal como ela se apresenta em um e no outro. Você não vai fazer isso, vai criar pessoas incapazes, barbaramente necessitadas da aprovação do seu grupo de referência e mais ainda do seu professor. Essa tragédia já aconteceu no Brasil, e o que nós estamos tentando fazer é tentar abrir uma possibilidade de que isso se atenue e eventualmente acabe no futuro. Para isso precisamos da sua adesão séria e contínua a esta ordem de estudos. Eu determinei a duração desse curso como cinco anos e pedi que só entrasse quem pretende ficar até o fim, mas na verdade esse trabalho demanda muito mais de cinco anos. E depois de terminado oficialmente este curso, você vai ter de continuar na mesma linha. Vocês não podem cair nesta esparrela em que tantos ex-alunos meus caíram, de assistir dois, três meses de aula comigo, e daí achar que, porque ele ouviu aquelas coisas já sabe o que eu sei, e que pode sair dando palpite. Isso é absolutamente rídiculo, grotesco e patético. Então, o que eu peço pra vocês é que não façam isso, não caiam nessa esparrela. Ninguém é obrigado a ser um formador de opinião. Antes de tornar-se um formador de opinião você tem de tornar-se um estudioso que domina a sua matéria, que sabe os pontos de intersecção entre ela e as matérias circunvizinhas, e sabe em que você depende da ajuda dos outros. Em suma, que tenha uma noção real do material sobre o seu domínio e da sua dependência dos outros, e daí sim se tornar um formador de opinião. Isso não quer dizer que você não possa ter uma opinião, não quer dizer que você não possa dar uma opinião ou outra em um debate. O que você não pode é dar muita importância a isso. Se você sente a necessidade de dar a sua opinião é porque você está fora do centro. Por quê a necessidade de influenciar os outros, quando você não está devidamente formado e centrado ainda? É porque você quer aprovação deles. Se você quer a aprovação deles, os está transformando em seus juízes e, portanto, eles passam a ser seus professores. Então, você se dirige aos mais imbecis e aos mais despreparados e pergunta: “eu estou certo, professor?” É isso que você acaba fazendo quando entra nessas discussões: você está se rebaixando. Você só pode utilmente, e sem riscos, tornar-se um formador de opinião quando não precisa mais que as pessoas concordem com você. Quando aprendeu a viver sozinho com as suas idéias, sabendo que você está na realidade, e sabendo que se o outro der razão pra você é melhor pra ele, mas pra você não vai fazer a menor diferença. Aí sim, quando você entrar num debate, como formador de opinião, estará praticando a generosidade, fora disso, não: você estará pedindo alguma coisa para eles. Estará pedindo a aprovação deles, os está transformando em seus mestres e em seus juízes. E aí você está liquidado, porque o seu nível intelectual vai se rebaixar ao deles. [Você] poderá dar sua opinião, quando estiver seguro e não precisar da aprovação de ninguém, quando souber o que está falando, tiver estudado os vários aspectos das coisas, e os prós e contras. Todo mundo fala em prós e contras, mas eu não conheço uma única pessoa que estude os prós e contras. Eu não conheço um único sujeito, no Brasil, que defenda uma posição conhecendo intimamente a posição oposta, não conheço mais. O último que eu conheço, que faz isso, sou eu. Porque eu passei toda a minha juventude adquirindo aquela formação marxista, aquela coisa, dei anos da minha vida àquilo. Então depois examinei o outro lado, eu conheço os dois. Eu não conheço ninguém que tenha feito isso. E não é pessoal de esquerda apenas; quantos desses “liberais” leram seriamente os autores marxistas? Quantos deles leram Georg Lukács? Praticamente nenhum, eu nunca conheci um que tivesse lido, no máximo ele leu o “Manifesto Comunista” e leu o que o Friedrich Hayek disse do marxismo, ou Ludwig von Mises, e ponto final. Aí você não deu ao outro ponto de vista a chance, não trabalhou a coisa dialeticamente dentro de si, porque estava ansioso por formar uma opinião que você pudesse vender publicamente. O que você tinha de fazer era exatamente o contrário, tinha de ficar anos investigando a coisa com calma, buscando verdade. Se você diz: eu quero saber a verdade disto, mesmo que ela seja incompreensível para todo mundo, mesmo que só eu fique sabendo daquilo, e mesmo que eu não consiga convencer ninguém disso aí; se você quer a verdade nessa base, muito bem, aí você está no caminho da autonomia da inteligência, fora disso, não. Por isso eu recomendo a abstinência em matéria de opiniões. A abstinência não é a supressão completa, é apenas reconhecer que a sua atividade opinativa deve ser bem modesta em comparação com a sua atividade de estudante. Por exemplo, veja tudo aquilo que eu publiquei em jornal, some tudo — dá umas duas a três mil páginas — e compare com o que eu ensinei em aula para grupos menores: aquilo vira uma titica de galinha. E quantas vezes eu não vejo um sujeito discutindo com um artigo meu, partindo do princípio de que tudo o que eu sei está dito naquele artigo? Esse é o princípio interpretativo mais idiota: partir do princípio de que o autor só sabe aquilo que ele escreveu ali. Puxa vida! Eu não suponho, eu não consigo nem imaginar [isso, pois sei] que para ele dizer isso ele precisaria saber isso e mais [um monte de outras coisas]. Este é o princípio que eu adotei com relação a Aristóteles: para ele dizer o que ele está dizendo é preciso que ele soubesse outras coisas que ele não disse. Agora, no meu caso, não são coisas que eu não disse, são coisas que eu não disse naquele artigo. O número de pessoas que me lêem assim é impressionante, fizeram uma geração de analfabetos. A coisa é realmente calamitosa e eu não daria esse curso se eu não entendesse que ele é necessário. E estou dando esse curso acompanhado de um apelo dramático para que vocês persistam em seus estudos, mesmo depois terminado esse curso, pela mesma linha, não escape disso, porque não há outra maneira de fazer. Se você começar com muitas concessões nesse negócio de debates e opiniões, vai se estragar. Você vai começar a dar opinião um dia, quando não precisar mais dar, e quando entender que são os outros que precisam ouvir você. Se você está gostando muito de dar opinião, ou se você precisa aparecer na mídia, é melhor você não ir lá. Os grandes artistas são mestres e professores do seu público. Isso já foi observado mais de uma vez, que os grandes escritores, por exemplo, formam e educam o público para suas obras. [1:40] Eles estão, em relação ao público, não como um principiante que está diante de seus mestres e juízes, mas como um professor que está ensinando. Isso quer dizer o seguinte: se o público aprová-los, melhor para o público; se achar ruim, pior para ele. Aí você pode acreditar que a sua atividade intelectual, pedagógica etc, é um serviço público que você está prestando, e não o preenchimento de uma necessidade psicológica sua, de aplauso, aprovação etc. Em suma, a condição para ser um bom formador de opinião é a maturidade. Não só maturidade física e biológica, mas a maturidade intelectual que se identifica com a independência intelectual que, por sua vez, não significa ser independente do julgamento dos outros, mas ser independente do julgamento de quem sabe menos que você, não de quem sabe mais. No Brasil é o contrário. Até os melhores caem nisso. Eu lembro que o falecido José Guilherme Merquior falava de Platão num tom de ironia, todo superior; mas quando escrevia sobre seu chefe na diplomacia, que era o Afonso Arinos de Melo Franco, —Ahhh! — ele se derretia todo. Um intelectual sério jamais faz isso. Você tem de ter um senso da hierarquia, meu filho. Se eu preciso da boa opinião do meu chefe, muito mais eu preciso da boa opinião de Platão, eu o respeito muito mais que ao meu chefe, a não ser que meu chefe seja um gênio como Platão, o que não era o caso. Você precisa graduar o respeito e o desrespeito com que fala das coisas. A facilidade e a insolência com que o pessoal fala de um Platão, um Aristóteles, um Leibniz, um Newton, é uma coisa incrível hoje em dia. E, ao mesmo tempo, mostram um infinito respeito pelo seus professores de faculdade, que são uns jumentos como eles. Gente, isso é uma deformidade mental e moral imperdoável, e só tem um jeito de vocês se libertarem disso: praticando essas técnicas que lhes permitam absorver o melhor da cultura universal. Vamos fazer uma pausa e daqui a pouco eu volto com as perguntas. [Intervalo] [1:43:47] Aluno: Outro dia ouvi o professor indicar O Bom Gigante de Oscar Wilde como um bom livro para educação infantil, mas só encontrei o conto O Gigante Egoísta. Olavo: É exatamente este. Desculpe a minha confusão, na hora eu não lembrei. Aluno: Tenho um filho de 7 anos e gostaria de comprar os livros certos para a sua educação. Olavo: Este é apenas um conto de no máximo 7 ou 8 páginas. Não saberia dizer se muitos outros contos do Oscar Wilde serviriam para isso, mas este se impregnou na minha mente, embora eu não lembre-me dos outros. Neste conto você vê uma coisa bastante óbvia: Oscar Wilde, veado o quanto fosse, no fim das contas era uma pessoa de muito bons sentimentos e bons princípios. Aliás, eu acho uma coisa estranha como hoje em dia as pessoas acreditam poder encontrar explicações para uma personalidade na vida sexual do sujeito. Isso é uma coisa tão absurda, porque se há algo que radicalmente não faz parte da personalidade são os impulsos sexuais. Você não escolhe aqueles que tem e não sabe de onde eles vêm; seus impulsos sexuais podem vir de um elemento genético, da influência do meio, de um estado hipnótico, de uma influência diabólica ou sabe-se lá de onde. Então, em si mesmos, eles não significam absolutamente nada, o que importa é o que você faz, como você se relaciona com eles. Mas hoje a orientação sexual do sujeito é a chave de tudo! Por isso as pessoas sempre querem saber [disso]...Lembro que uma vez o José Guilherme Merquior foi entrevistado na TV, e o que as pessoas mais queriam saber era como era sua vida sexual. Graças a Deus, a mim jamais me perguntaram uma coisa dessas, porque se me perguntassem eu descreveria como é. Eu ficaria muito espantado, eu diria: “Mas você não sabe?! Eu explico como é a vida sexual...” Aluno: No seu livro O Jardim das Aflições você comenta a questão proposta por Georg Cantor, que tentou destruir o argumento lógico de que o todo é maior que as partes e estas estão incluídas no todo, utilizando a diferença entre o conjunto dos números inteiros e o conjunto dos números pares. Segundo Cantor, por ambos rumarem ao infinito, então seriam iguais, e, conseqüentemente, o todo, conjunto dos inteiros, seria igual à parte, o conjunto dos pares. Em seguida, você mostra o erro de Cantor, dizendo que, na verdade, ele confundiu o símbolo dos números com os próprios números, considerados na concreção. Ou seja, Cantor, na verdade, falou de um mesmo conjunto de duas maneiras diferentes, e com isso dizia que havia igualdade, deixando de lado o fato de que havia um e apenas um conjunto, o dos números. Olavo: Se você pegar o conjunto dos números inteiros e o conjunto dos números pares, este último é exatamente o primeiro conjunto contado de dois em dois, então não há dois conjuntos a comparar. Note que essa distinção que eu estou fazendo não é matemática, é ontológica. Se o sujeito não escapa da dimensão matemática e olha os números ontologicamente ele não pode perceber isso. Matematicamente, o conjunto dos números inteiros é um conjunto, e o conjunto dos números pares é outro conjunto; mas isso é apenas uma convenção matemática. Só que para o sujeito envolvido nesta atividade profissional, isso é tudo que existe. Aluno: Não seria justamente essa uma das confusões feitas pelo pensamento revolucionário, ao tentar equiparar partes e todos, mas o fazendo por nomes, sinais arbitrariamente dispostos que não mudam a realidade inerente das coisas? Olavo: Claro que é! Você tem toda razão. Um dos princípios da confusão moderna foi o surgimento da chamada lógica dos sinais. Aristóteles tirou todos os preceitos da lógica da observação dos seres vivos, por exemplo, o que ele diz sobre as categorias, espécies, gêneros etc. A origem daquilo são os animais e plantas que ele estudou, ele viu que eles se organizam assim. Ele estava falando de conceitos que são descritivos de uma realidade existente e mediata. Porém, à medida que lógica vai se “aperfeiçoando”, ela cria seus instrumentos técnicos e passa a ter, por assim dizer, uma existência independente da sua fonte. Nesse aperfeiçoamento a tendência de coisificar as regras lógicas e tomá-las como independentes da realidade é muito grande, assim como acontece com as línguas na origem da lingüística. A lingüística de Ferdinand de Saussure vai tomar a estrutura da língua como uma coisa independente, existente em si. É claro que isso é metodologicamente aceitável, mas se é tomado como realidade, então virou delírio e alucinação. Uma coisa é você examinar algo independentemente daquilo que possibilita a sua existência; outra coisa é acreditar que [o que você examinou] exista independente destas condições. Como eu estava falando antes, se você acreditar que o universo de newtoniano é real, você está completamente maluco. Evidentemente ele não é real em si mesmo, é apenas um conjunto de propriedades que você obteve isolando os fatores matemáticos dos outros fatores; ele não é existente de per se; é um aspecto que pode ser considerado independentemente para fins metodológicos, mas que não existe independentemente de nada.[1:50] Aluno: Como bom matuto, de luzes minguado, temo e desconfio de certas leituras. Se leio Dostoiévski e Santo Agostinho com confiança, o mesmo não se dá com Lévi-Strauss, por exemplo. Em “Um Feiticeiro e Sua Magia”, ele nos relata o caso de um jovem indígena que é acusado de feitiçaria em sua tribo. O rapaz, em vez de tentar refutar tal acusação, reafirma e incrementa o crime que lhe imputam, com detalhes que vai inventando, e por esse meio se livra da pena capital. Interpretação de Lévi-Strauss: “o acusado, preservado como testemunha, traz ao grupo uma satisfação da verdade infinitamente mais densa e mais rica do que a satisfação da justiça que teria proporcionado a sua execução”. É sempre o mesmo esquema: através do discurso — verdadeiro ou não, tanto faz —, as coisas se colocam em seus lugares, tudo retorna à ordem. Em que pese o absurdo da situação — para quem entende que um tribunal tem na verdade um meio, e não um fim, sendo a aplicação da justiça, mediante o conhecimento da verdade, o verdadeiro objetivo perseguido pelo tribunal — em que pese ser doida a tal situação indígena, pareceu um caso muitíssimo interessante. Só o que temo é o seguinte: pode-se acreditar que o antropólogo presenciou isso realmente ou, se presenciou algo semelhante, não terá ele torcido a interpretação? Olavo: Eu não sei, porque algo semelhante aconteceu nos famosos processos de Moscou, em que o sujeito era acusado de um crime que não havia cometido e então era induzido a confessar o crime para restaurar a ordem no partido. Para não dar mau exemplo, o acusado confessava o crime. Só que, em vez de ser inocentado, o cara era executado. No caso indígena, a confissão do crime inexistente possibilita uma absolvição. Aqui nos EUA há um princípio semelhante: se você confessa o crime, se declarando culpado (quer seja ou não), a sua pena é atenuada. O Lévi-Strauss tem razão ao dizer que isto é uma maneira de restaurar a ordem social através do discurso, ou seja, fornecendo um pretexto elegante. Na justiça islâmica o réu é convidado a mentir em defesa própria — todo mundo sabe que o que ele está falando é mentira —, mas se ele conseguir inventar uma mentira persuasiva todo mundo aceita, ainda que saibam que é mentira. Por quê? Porque eles querem um pretexto para absolvê-lo. Tudo isso existe realmente, eu não acho difícil que o Lévi-Strauss tenha observado isso em alguma tribo indígena, já que acontece em tantos outros lugares. O que nós não podemos é nos deixar iludir por esse efeito: uma coisa é a restauração da ordem social e outra é a justiça. Lembre da famosa frase de Goethe: “Antes a injustiça do que a desordem”. Esse é um princípio prático que, na verdade, é universalmente respeitado, porque fazer a justiça perfeita não está ao alcance do ser humano, então em certos casos você tem de escolher entre diferentes injustiças possíveis, então aquela que mais favoreça a ordem social de fato é a melhor. Muitos juízes raciocinam assim, e na prática não tem outro jeito. Claro que isso não corresponde ao ideal de justiça, mas nós não podemos esquecer aquilo que diziam os juristas romanos: “Sumum ius summa injuria”, a justiça perfeita seria a perfeita injustiça. Não deixa de ser significativo que hoje as mesmas pessoas que professam relativismo são as que julgam seus inimigos e adversários mediante os critérios absolutos mais estritos: por exemplo, tudo é relativo, então se Stalin matou 20 milhões de pessoas, isso pode ser explicado e justificado em função de certas necessidades, segurança etc. Mas se um soldado americano, em defesa própria, atira em um iraquiano, isso tem de ser julgado em termos de justiça absoluta. Mesmo se você tenta alegar um fator quantitativo, afirmando que houve tantos mais mortos de um lado que do outro, ele diz: “é imoral você levantar discussões quantitativas, porque um só crime já é intolerável!” — então apelam ao absolutismo mais extremo. O segredo disso é o seguinte: saber distinguir o que é o julgamento em termos absolutos, em termos de princípio, e o que é a sua aplicação a cada caso determinado, que deve obedecer a um senso das proporções. O que é um princípio absoluto? É um tipo de igualdade, de identidade. Esse tipo de identidade se expressa, por exemplo, na relação entre delito e pena — a tal delito corresponde tal pena. Mas, conforme as circunstâncias, pode haver uma série de agravantes ou atenuantes, que são graduados por um princípio de proporcionalidade. A unidade simples se transforma em equações de proporcionalidade, que são o correspondente mais complexo daquilo que a identidade é num plano mais simples. Você saber jogar com a identidade e a proporcionalidade é a base do exercício da razão. Hoje em dia, entre os formadores de opinião no Brasil, eu não conheço um que tenha o senso das proporções exato; talvez conheça um ou dois que tenham o senso das proporções não totalmente viciado. Em certos casos você pode chegar a inversão total das proporções, e note bem, não estou falando somente de esquerdistas: o pessoal liberal vive fazendo isso também, como quando tentam fundamentar todo o direito na noção de propriedade privada. Como é que você fundamentar o direito na propriedade e ao mesmo tempo falar no direito de propriedade? Ou a noção de direito vem antes da de propriedade, ou então não há nenhum direito de propriedade, há apenas a propriedade. Se a propriedade é a origem do direito ela não pode, por sua vez, ser um direito. Aluno: Nas últimas aulas vejo que o tema da consciência está presente, e quero agradecer por esse tema que é de tão grande importância para o nosso aprendizado. Gostaria de relatar um caso que aconteceu comigo e, por isso mesmo, acho que pode servir de ajuda para os meus colegas. Depois de ouvir suas aulas, fiquei como em suspenso com o conceito e a idéia de consciência. Esse conceito, essa hipótese mental, veio tomando forma a cada dia que eu não tentava entendê-la, mas apenas tentava percebê-la na realidade. Desisti de entender o que era consciência e consegui percebê-la. Após ler o capítulo “Teoria da Consciência” de Eric Voegelin em Anamnese, no caso onde ele cita o ato de levantar, que em nenhum momento se torna consciente, parei de ler ali mesmo e fui tentar levantar de uma cadeira. Realmente, o processo é obscuro. Mas, no ato mesmo de levantar, em uma das minhas piscadas, quando o olho fechou e escureceu, em fração de segundo, infinitesimal, o percebi abrindo, e a realidade se desvelando para mim de uma nova forma, tive consciência de que tive consciência disso, de uma maneira totalmente diferente do já havia experimentado. Olavo: Meu filho, você está fazendo exatamente o que tem de fazer! Tem que observar como as coisas realmente se passam. Perceber a realidade é mais importante do que compreendê-la, porque se você não percebe, se não tem o “o quê”, muito menos terá o “por quê”. Hoje, a norma é a seguinte: tudo aquilo que você não tem um “por quê”, você se [recusa a aceitar que existe] . Se você não tem uma explicação, não admite o fato. Esta é a melhor maneira de nunca entender nada. Aluno: Logo depois de passar por essa experiência auto-induzida de perceber-se percebendo a consciência consciente, voltei ao texto do Voegelin e me vi navegando por águas muito mais seguras e conhecidas. Estava agora diante de algo translúcido para mim, que para mim é mais certo que a mera hipótese do parágrafo compreendido mentalmente. Essa experiência, dentre outras que faço com freqüência, tem me dado força e embasamento para ter certezas que antes eram só idéias. Olavo: Brilhante! É isso mesmo! Compreender o texto é fazer isso, meu filho! Um texto de filosofia não é para ser lido como um romance, ele tem de ser tocado como uma partitura, tem de ir lá no pianinho uma, duas, três vezes até você acertar o tom. É por isso que você tem de ler muito lentamente e deixando que haja primeiro o impacto imaginário total, onde vai misturar o verdadeiro e o falso; são milhões de sugestões, que vêm do seu próprio material interior e são evocadas pela leitura. Depois, através da experiência, observação, análise etc, você vai separando o verdadeiro e o falso; mas só depois, primeiro tem de ter o material imaginativo. [2:00] Aluno: (continuando a perguna do aluno) Por isto mesmo agora, ao ler os textos de filosofia, passo avaliá-los com esse olhar da experiência e do abstratismo, coisa que tem me engrandecido enormemente, e tudo graças às suas aulas e os ensinamentos da presença por experiência e da unidade do conhecimento na unidade da consciência. Mas é isto mesmo que tem de fazer! Só que tem de fazer o resto da sua vida, não é fazer um tempo e parar: “Ah, agora eu já aprendi”. É assim, de novo, de novo e de novo. Aluno: Sou muitíssimo grato a esse curso. Se a minha vida sofreu uma reviravolta há mais de dez anos quando comecei a ler seus livros e acompanhar seus artigos, parece que agora posso dar a ela um verdadeiro eixo. Obrigado. Mas é este o objetivo. Fazer de cada um de vocês um spoudaios, um homem intelectualmente maduro, capaz de investigar a verdade por si mesmo e de sabê-la — mesmo que ninguém a entenda, mesmo que você não consiga explicá-la para ninguém —, e você ter no fim das contas a experiência da realidade, estando aberto para a imensa realidade que nos circunda e no qual se insinua a ordem cósmica e divina. E [quando] você tem esse vislumbre da ordem cósmica e divina é que então você está no [lugar] certo. Entre o estado da sua mente isolada, pessoal e individual, e o estado de maturidade a que eu estou me referindo, existe a absorção do testemunho dos homens de todas as épocas e lugares. Você precisa aprender a ver as coisas como eles viam, através exatamente dessa impregnação imaginativa, até o ponto que você, no mínimo, possa ter a certeza de que você está percebendo mais ou menos como toda essa gente percebeu. É como se você estivesse numa assembléia onde estão Aristóteles, Lao-Tsé etc., e eles dão o testemunho de que o que você percebeu é o que eles perceberam. Aí você está se colocando diante da melhor assembléia possível. Mas um pouco mais tarde você não precisa nem mais dessa. Tem aqui uma pergunta sobre a aula passada. Aluno: O senhor citou o Tai-Chi-Chuan como um bom exercício de expressão corporal. Porém, em algumas aulas, embora mencionasse que o Tai-Chi-Chuan lhe trouxesse benefícios à saúde, disse que tem a impressão de que também atraía problemas. Trata-se apenas de uma impressão ou há risco? Qualquer prática tem risco, qualquer uma. Eu acho que um dos problemas do Tai-Chi-Chuan é que, à medida que você concentra energias, por assim dizer, você atrai o antagonista. Se você está praticando uma arte marcial, pelo simples ato de praticar você está chamando o antagonista — mesmo que você não queira. É da natureza da coisa. Aluno: Na aula 20 o senhor disse que após a leitura e análise do texto do Joseph Maréchal examinaria o poema de Camões “Sôbolos rios que vão” e suas implicações com o primeiro texto. É verdade, prometi e não fiz. Vou fazer. Se eu não fizer vocês me cobrem de novo. Qualquer hora nós temos de fazer isso aí. Aluno: O que o senhor acha da obra do pensador indiano Krishnamurti? Krishnamurti é uma figura moral admirável, de certo modo. E muitas coisas que ele diz sobre o negócio das impressões imediatas são verdadeiras. Mas eu não acho que aquilo tem grande alcance não. Ele disse duas ou três coisas que são verdade, mas não é uma coisa tão rica quanto a turma diz. Mas é apenas uma impressão que eu tenho, eu conheço pouco o Krishnamurti. Aluno: Falando sobre a matemática, esta seria apenas uma possibilidade de expressar a realidade, [sem] nada dever, como querem as ciências positivas, à linguagem verbal. A constituição das sete artes liberais seria um bom exemplo do equilíbrio entre essas duas possibilidades de expressão do real que a modernidade parece ter perdido. Bom, as sete artes liberais começam com as artes da linguagem e se prolongam na arte dos números. Veja, o domínio da linguagem e dos seus meios expressivos é coisa básica. Se você não tem isso aí, você não tem nada, e nem mesmo vai compreender do que se está falando no Quadrivium, nas famosas quantidades. Veja, Dante enfatizava que a gramática é a estrutura material da linguagem. “Material”, não “ideal”. Então, se você não consegue nem apreender essa estrutura material, como é que você vai pegar coisas mais abstratas? Por exemplo, as sutilezas psicológicas da retórica ou as abstrações extremas da lógica? Você não pega, realmente. Isso pra mim é um teste definitivo: se o sujeito não sabe escrever em português perfeito ele não vai entender nada de alta cultura, jamais. O domínio completo da sua língua, pelo menos, senão de mais uma, eu acho que é uma exigência preliminar. Quando você passa para lidar com os números, eles têm a vantagem de ser um negócio enormemente compacto. Por exemplo, quando você começa usar sinais em vez de palavras, você pode apressar o raciocínio de maneira fantástica. Um computador faz certos cálculos muito mais rápido do que você porque ele não depende da estrutura verbal subjacente. Porém, se não tem estrutura verbal, o que acontece? Esse universo dos números escapa da realidade e ele adquire uma espécie de presença mágica e você acaba achando que tudo aquilo é real! Olha, o universo matemático é o universo da pura lógica, e a pura lógica não tem nada a ver com o real: ela é a expressão do possível, a estrutura do possível e para conectá-la com o real ela precisa de algo mais. Esse algo mais só se pode fazer através da crítica verbal do raciocínio. Quer dizer, quanto mais você se desliga da lógica verbal e apela só para a lógica matemática, mais você vai cair no mundo do irreal. Aluno: (continuando pergunta) Já que o assunto remete à duas formas possíveis de se expressar o real, podemos aludir a problemática do surgimento da filosofia com Pitágoras ou Sócrates? Quer dizer, tomando aí como exemplo de linguagem matemática e linguagem verbal? Talvez, tomando como símbolo, né. Mas eu não sei se historicamente isto corresponde. Aluno: Eu entendo que o modo de discernir se as próprias motivações em expor uma idéia são legítimas é quando o que se visa com elas se assemelha com o estado de espírito de alguém que testemunha de uma janela um vizinho procurando um objeto perdido e que, por isso, sente a angústia de saber que o paradeiro do que se busca pode ser achado pelo outro. Mas também quando este desejo não [é o de] convencer, mas dar ao outro a oportunidade de ver as coisas a partir de seu próprio ponto de vista para saber se a partir dele pode impugná-lo e com isto acrescentar percepções antes ignoradas. No caso, é um desejo genuíno de ajudar e no outro é o desejo de conhecimento. Bom, em geral as pessoas que dão opinião não tem o desejo de ajudar nem o desejo de conhecimento, elas têm o desejo de aprovação, apenas. Quer dizer, através da concordância [do outro] elas aplacam a sua insegurança e, quanto mais inseguras estão, mais intensamente vão argumentar e com mais convicção aparente – porque nada mais fácil do que você se persuadir daquilo que você mesmo diz. Você ouve o que está dizendo e aquilo exerce um efeito persuasivo sobre você mesmo. E se o outro concorda, ótimo, então já são dois concordando. Então, eu acho que o que os alunos têm de se livrar é apenas deste desejo de obter confirmação. Você deve proceder assim como um médico que o sujeito foi lá consultar e que diz “Olha, você está com tal coisa”, e você não precisa da aprovação dele. A aprovação que você precisava você já obteve no exame físico, no exame de laboratório e você já sabe o que está falando. E sabe qual é o grau de certeza do que você está falando. E a opinião do seu paciente não vai mudar absolutamente nada. Então o que você quer? Você quer que o desgraçado se cure e daí você obtém mais esta confirmação do reino dos fatos, e não da opinião dele. Porque se o sujeito não se curar de maneira alguma, mas achar que você é um médico espetacular, isso te contenta? Não tem aquele negócio, do sujeito que morreu na mão da melhor equipe médica da América Latina? O médico era ótimo, mas o sujeito morreu. É isso que o médico quer? Claro que não! [02:10] Aluno: Na aula passada discorremos a respeito da expressão corporal, a respeito da expressividade vocal. Gostaria de saber quais são as obras principais nesse campo. Eu não sei quais são as principais porque, na verdade, eu só levei em conta duas: o que eu aprendi no tempo em que estava lá praticando o método Stanislavski com o Eugênio Kusnet, e depois o que eu aprendi com um sujeito chamado Arthur Joseph. O curso do Arthur Joseph é espetacular. Ele treinou a metade dos políticos e atores aqui dos EUA. Esse aluno que fez a pergunta sugere aqui uma obra do Valborg Werbeck-Svärdström, “A escola do desvendar da voz”. Eu não posso indicar nem deixar de indicar este livro porque eu não o conheço, mas eu vou procurar pois deve ser uma coisa interessante. Mas o do Arthur Joseph eu recomendo de qualquer maneira. Aluno: Peço que o senhor comente o trecho abaixo que destaquei do livro “Estudos de História do Pensamento Científico” de Alexandre Koyré, em que ele aponta a questão do movimento como ponto decisivo de separação e da cosmologia aristotélica física-clássica, cuja solução levaria esta a superar efetivamente aquela. “Já assinalei que a dinâmica aristotélica, a respeito ou talvez por causa da sua perfeição teórica, apresentava um grave inconveniente: o de não ser absolutamente plausível ou de ser completamente incrível e inaceitável para o simples bom-senso e de estar evidentemente com a experiência mais comum. Portanto, não há nada espantoso como o fato de que ela jamais tenha gozado de um reconhecimento universal e de que os críticos, os adversários da dinâmica de Aristóteles, sempre têm oposto essa observação do bom-senso, de que o movimento prossegue separado do motor que lhe dá origem. Os exemplos clássicos de tal movimento — rotação persistente da roda, vôo da flecha, lançamento de uma pedra— sempre foram invocados contra ela, desde [02:12:10] Hiparco e Filão, passando por João Buridano e Nicolau de Oresme, até Leonardo Da Vinci.” Bom, o que Aristóteles dizia era o seguinte: se um corpo não é modificado pela ação de um outro corpo ele permanece como está. Galileu simplesmente acrescentou que o corpo, se não é movido por um outro, ele permanece parado ou em movimento retilíneo uniforme — com a ressalva de que o movimento retilíneo uniforme é apenas uma unidade de medida, e não uma realidade física. Então eu pergunto: o que Galileu acrescentou ao que Aristóteles disse? Absolutamente nada. E o fato de que o movimento persiste depois de cessada a influência do objeto causante não tem absolutamente nada a ver com a história, porque a continuidade do movimento retilíneo uniforme é ela própria uma forma de passividade. Quer dizer, um efeito residual do movimento foi imprimido ao objeto. Aristóteles jamais disse que para um corpo se mover é preciso que o outro o mova e o continue movendo ininterruptamente — isto seria inteiramente absurdo, porque é claro que isto contrasta com o bom-senso. Mas por que supor que Aristóteles não soubesse disso, se é uma simples observação de bom-senso que qualquer um faz? Portanto, você tem de incluir, se Aristóteles disse “o corpo não movido por outro permanece parado” ele não quis dizer que o corpo, para se mover, precisa ser movido por outro e continuar sendo movido por outro, ele não disse isso. Não existe causa a não ser no tempo. Na causa instantânea que produzisse o efeito instantâneo, não produziria efeito algum – quer dizer, nada mudou. Portanto, a noção de causa tal como está dada em Aristóteles ela mesma pressupõe o transcurso de tempo, e se pressupõe o transcurso de tempo então a continuidade do movimento já esta dada implicitamente aí. Agora, eu vejo que muito dessa discussão renascentista com Aristóteles foi charlatanismo puro. No caso do Galileu é claro que foi charlatanismo. Na hora que ele diz “o corpo que não é movido por outro permanece parado ou em movimento retilíneo uniforme” e em parênteses, bem pequenininho, diz que “o movimento retilínio uniforme não existe”, é claro que isto é charlatanismo. Por hoje, vamos parar por aqui. Muito obrigado a todos e até a semana que vem. [fim da aula] Transcrição realizada por: Rodrigo Fernandez Peret Diniz; Luiz Alberto Santos Jr., Mariana Belmonte; Maurício Doval; Michelle Zizza Caloni, Carlos Felice. Revisão realizada por: Ronald Pinheiro