Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 23 13 de setembro de 2009 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso de Filosofia Online. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. Boa tarde a todos, sejam bem-vindos. Eu queria aqui voltar ao tema de algumas aulas atrás, que me foi sugerido pela carta da Luciane Amato. Desde que ela mandou esta carta eu queria ter conversado com ela, trocado umas idéias, mas não consegui sintonizar através do Skype. Então eu aproveito e comento aqui, porque é um assunto de interesse de todos e muito pertinente à ordem daquilo que nós estamos expondo. Eu mencionei a carta na aula passada, mas não li trechos dela, coisa que vou fazer hoje. “Quero te agradecer pela aula de ontem.” Ela está se referindo à primeira aula em que eu toquei no assunto da imaginação, acho que foi há umas três ou quatro semanas atrás. “Por aqui, um verdadeiro milagre acontece. Depois de quase vinte anos gastando a minha vida recebendo e ouvindo pessoas, assistindo idas e vindas, vivenciando diferentes tipos de fracassos pessoais e pedagógicos, variados fracassos internos e externos, e graças a uma persistência quase absurda, graças a uma sincera e difícil despretensão — essa, sem dúvida, alcançada pela espera em Deus e pela fidelidade e gratidão profunda que tenho por você e pela Simone, e principalmente alcançada por uma espécie de imitação da tua coragem (imitação essa que sempre julguei obrigatória, o que, aliás, fez com que eu me tornasse numa mulherzinha com mais colhões do que a maioria dos homens que eu conheço)[é pura verdade!] — consegui, enfim, reunir um grupo de pessoas movidas pela colaboração mútua, pelo amor ao próximo e pelo amor à verdade.” De fato no Brasil isso é um milagre. Nós estamos conseguindo isto aqui também. Este grupo, de algumas centenas de pessoas, é unido exclusivamente por esses três tópicos. “Tive também, nesta semana, uma experiência que me foi muito elucidativa. Eu havia lido o livro de François Mauriac, Le Noeud de Vipères [O Nó das Víboras] e, se fiz duas ou três consultas ao dicionário, foi muito. Logo depois fui ler L’Imposture [A Impostura], livro que tentei ler muitos anos antes e que simplesmente não consegui, quando das tuas aulas de alquimia e da tradução que você fez das páginas que falam da linguagem da natureza. E, chegado a um ponto, num único parágrafo eu tive de fazer catorze consultas ao dicionário. Percebi imediatamente que não se tratava do francês, e sim da densidade da experiência ali descrita por Bernanos, e pude mesmo ver, em toda a sua concretude, o problema da desimaginação. (...) Aí compreendi verdadeiramente o perigo da extinção da espécie, do qual você fala. Há ainda neste livro de Bernanos aquela pergunta terrível do abade Cénabre a M. Pernichon: Vous croyez-vous donc vivant? [Você acredita mesmo que está vivo?] Tenho alertado a mim mesma e aos meus alunos para que nos perguntemos sempre o que está nos sendo dado em troca da crença no mito verdadeiro, e vejo que a ideologia oficial nos transforma a todos naqueles índios que recebem espelhinhos e todo tipo de bugigangas vagabundas, em troca do seu tesouro mais precioso, em troca da sua liberdade espiritual, em troca da vida mesma de suas almas. Então, desde que assisti à tua gravação sobre a Imaginação e a Unidade do Real, estou cavando onde estou e lembrei-me de ter lido em Zubiri que ‘intimidade é o superlativo da interioridade’. Mas se esse processo de desimaginação pode matar a possibilidade mesma da vida interior, daí como poderia mesmo haver qualquer intimidade com quem quer que seja, com Deus, com nossos amigos, conosco mesmos? E que miséria, Olavo, que miséria uma vida sem isto, uma não-vida. Não pude não me lembrar também que você disse que ‘toda realidade que existe é feita das relações e interações’. Incrivelmente lembrei-me de ter lido há mais de dez anos no livro Viagem ao Senhor do Poder [de Ibn Arabi] que ‘o terceiro reino é a ponte entre este mundo e o outro, e que o nome desta ponte é imaginação’ — e eu nem me lembrava mais, até esse momento, que me lembrava de tudo isso. E esse parágrafo de Bernanos esclareceu mais ainda para mim muito do que você vem expondo.” Aqui ela transcreve o original francês, que eu vou tentar traduzir: “—Meu amigo, disse [o abade Cénable] de repente, como você se vê?... —Como eu me vejo? — suspirou M. Pernichon. — Eu não compreendo verdadeiramente. Eu não sei muito bem. — Escute-me, voltou o abade com doçura, essa questão pode surpreendê-lo, tal a sua simplicidade. Cada um tem um julgamento sobre a sua própria pessoa, mas nisso entra pouca sinceridade, quer você queira ou não: é uma imagem retocada cem vezes, um compromisso; pois observar é uma operação dupla ou tripla do espírito, ao passo que ver é um ato simples. O que eu lhe peço é que você abra os olhos com ingenuidade, se apreenda com o olhar entre os homens, e se surpreenda tal como você é no próprio curso de realização da vida.”1 Eu vou ler também o outro parágrafo do Bernanos a que ela se refere. É quase impossível traduzir isso aqui. Eu tentei uma tradução por escrito, e entendi o que ela quis dizer com “catorze consultas ao dicionário”. É um dos textos mais difíceis de tradução que eu já vi, e, portanto, o que eu vou fazer é apenas para dar uma idéia, não é uma tradução (na edição da Pléiade, está na p. 326): “Cada rua, atravessada no tumulto e no deslumbramento, tão logo deixada, vos segue na sombra com uma queixa horrível, pouco a pouco ensurdecida, até o limite de um outro tumulto e um outro deslumbramento, que logo junta à outra a sua voz dilacerante. E ainda, não é essa palavra “voz” que eu deveria escrever, pois somente a floresta, a colina, o fogo e a água têm vozes, falam uma linguagem. Nós perdemos o segredo dessa linguagem, se bem que a lembrança de um acordo augusto, da aliança inefável entre a inteligência e as coisas não possa ser esquecida nem pelo mais vil dos homens. A voz que nós já não compreendemos ainda é amiga, fraterna, apaziguadora, serena. O homem lírico, no grau mais baixo da espécie, que o mundo moderno honrou como um Deus, acredita risivelmente tê-la restituído, não tendo libertado a natureza dos silvanos, das dríades e das ninfas fora de moda senão para soltar aí o rebanho inteiro das suas mornas sensualidades. O mais forte dentre eles, já estrangulado pela velhice, preencheria as ruas e as florestas com a sua infatigável lubricidade. Atrás dele, a massa dos discípulos acorreu, como quem come, à solidão sagrada, no sonho abjeto de associá-la às suas digestões, à sua melancolia, à sua decepção carnal. O contágio, aproximando-se pouco a pouco, estendeu-se até os antípodas: a ilha deserta recebeu as confidências deles, testemunhou seus amores, retiniu com seus grotescos soluços ante a velhice e a morte. Não há pradaria, resplendente de luz e de orvalho no candor da aurora, onde você não encontre os traços deles, como papéis sórdidos grudados nos postes em uma segunda-feira de manhã. Todavia, se está no homem impor a sua presença e os signos da sua baixeza à natureza, nem por isso ele se apodera do ritmo interior dela, da sua profunda ruminação. Ele encobre a voz dela, mas ele a interroga em vão...”2 [0:10] Nesse parágrafo nós temos toda uma espécie de uma história da civilização moderna, onde a incapacidade de perceber a natureza como presença do Ser — como experiência profunda e imediata do Ser —, e portanto de ouvir a voz do mundo material, da presença material, da presença da natureza; acaba sendo substituída por uma poesia lírica, que evoca a natureza, mas faz dessa natureza o instrumento e o símbolo dos sentimentos humanos. É como o sujeito que é deixado pela namorada, corneado, e então imediatamente transforma a natureza em um cenário onde o pranto dele aparece. Ele está evidentemente rebaixando a natureza toda, o mundo material inteiro, a um eco das suas paixões, e é por isso — porque ele coloca o seu próprio ventre no centro da realidade, tornando a natureza inteira apenas porta-voz das suas “tristezas carnais” — que Bernanos diz que esse homem lírico (no caso, o poeta romântico) está no grau mais baixo da humanidade. Ele acusa disso especialmente Victor Hugo, que não está mencionado no texto, mas qualquer menino francês sabe que, ao falar do “mais forte dentre eles, já estrangulado pela velhice”, é a ele que Bernanos está se referindo. Houve realmente uma inversão. Se estudarmos toda a poesia romântica, veremos que a natureza é sempre uma espécie de megafone das paixões humanas. Em vez de ouvir o que a natureza está falando e aceitar a presença do Ser, você, ao contrário, a subjuga, e ela se torna um canal, um conduto para você expressar as suas paixões, por mais banais e idiotas que elas sejam. Esta é uma das críticas mais ferozes que alguém já fez à civilização moderna: nós suprimimos a presença do mundo material, e o transformamos apenas em cenário das nossas paixões. Ao mesmo tempo em que Victor Hugo fazia isso, Karl Marx apresentava a sua visão da natureza como matéria-prima da ação humana. Marx diz que é um materialista, mas, na verdade, a natureza material não aparece em toda a obra dele senão como cenário da ação histórica humana e matéria-prima da indústria. O que está no centro da coisa é a atividade econômica humana, da qual a natureza é cenário passivo ou matéria-prima, como se a natureza inteira fosse uma espécie de função da ação humana. Agora, basta dar uma olhada para cima e ver as estrelas — até onde você alcança a olho nu, sem nem precisar saber nada adiante disso — e imaginar a totalidade da ação humana desde que o ser humano existe; em quanto, neste universo, nós mexemos? Quanto nós alteramos? Nós só alteramos um pedacinho da superfície de um planetinha. Como é possível, então, que todo este conjunto da natureza seja apenas a nossa matéria-prima, e esteja aí apenas para ser transformado em alguma coisa pela ação humana? Esse é o paroxismo do subjetivismo moderno, onde o ser humano se encara como uma espécie de Deus, como se fosse ele que estivesse criando a natureza. Mais adiante, surgirá aquele negócio do princípio antrópico que eu comentei na aula passada, em que o cientista, notando que se a estrutura do universo fosse outra não poderia haver seres vivos — e, especificamente, não poderia haver seres vivos como nós —, chega à conclusão de que todo o universo foi construído tendo o homem como centro de construção. Essa teoria, até aí, coincide com o que está na Bíblia, segundo a qual Deus faz o universo e bota o homem lá como centro e senhor da criação. Mas como nessa teoria não existe o elemento “Deus”, o homem passa a ser não só o centro, mas o princípio mesmo da criação do universo. Isso quer dizer que, enquanto não aparece o homem, o universo não existe propriamente, tem uma espécie de existência meramente potencial, e é só quando o homem conhece o universo que esse universo emerge. O homem se torna, então, o criador do universo, não só daí para diante, mas também retroativamente. O que esses cientistas estão fazendo? A mesma coisa que o Victor Hugo: pegando as suas paixões e impulsos, transformando essa banalidade no centro da realidade, e fazendo com que toda a natureza seja apenas um coadjuvante menor no draminha que eles acham que estão vivendo. Essa é toda a loucura moderna — e é, inclusive, o princípio da inversão revolucionária. O que a Luciane está observando é que, dentro desse fenômeno, desaparece a possibilidade de você se olhar. Se a visão da presença do Ser (do ser material, mesmo, que está na sua frente) se perde, se você não faz aquela experiência que eu já mencionei aqui (de deitar no chão, à noite, no meio do mato, e perceber a presença de tudo o que está em volta, da imensidão do cenário material), se não tem nem por um instante a própria visão da sua pequenez diante do universo — que é a visão correta, objetiva das coisas —, então, deixa de perceber que você é uma submigalha dentro do conjunto universal. Isto pode parecer aterrorizante a um idiota moderno que se acostumou a achar que é o centro das coisas, mas toda a humanidade anterior sempre soube que nós é que somos um coadjuvante menor no drama inteiro da criação. Podemos ter até um papel importante na criação. Como diz o salmista, o que é o homem para que Deus preste atenção nele? [“Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Salmo 8,5)] Materialmente, o homem é mesmo uma coisinha de nada. Existe a coisinha de nada, que somos nós, e existe o universo material, que não é infinito realmente, mas é ilimitado. E o mediador entre essas duas coisas é Deus. Mas se você não consegue pegar nem mesmo a presença do universo material, como é que você vai entender do que se está falando quando se menciona Deus? É absolutamente impossível. Na ausência desta consciência de presença do Ser em geral e do universo material; o seu ego, a sua barriga se torna o centro da realidade. Automaticamente você fica com medo de ver o tamanho do universo e de sentir a presença, e então você tem de sumir com essa presença. Como é que você some com ela? Você faz de conta que ela é apenas matéria-prima para a sua indústria, ou de que ela é o cenário, o coadjuvante secundário do seu draminha histórico. A história humana se transforma, então, no centro de todas as coisas, e as pessoas nem se lembram que não existe história humana, não existe história universal, não existe continuidade na história. O que existe são várias histórias, absolutamente separadas, entre civilizações absolutamente incomunicáveis, e que só formam uma unidade de duas maneiras: ou na cabeça do historiador, ou aos olhos de Deus. Se você suprime, portanto, a noção de Deus, não há história universal. História universal só existe diante de Deus; materialmente falando ela não existe: ou ela é uma criação subjetiva e retroativa do próprio historiador, ou ela não existe. Mais ainda, sumindo este senso de presença do Ser, some o senso da sua própria presença a si mesmo, realizando então aquela famosa profecia do Giordano Bruno, que dizia que se as pessoas insistissem muito nessa coisa de materialismo elas iriam acabar duvidando que elas mesmas existem. Quando, então, o abade pergunta ao cidadão como é que ele se via, o sujeito não sabe exatamente o que o abade está lhe perguntando. Claro que todos nós temos opiniões e pensamentos a respeito de nós mesmos, mas, como diz o abade, esses pensamentos formam uma imagem que nós já retocamos cem vezes (o que é modéstia: retocamos milhões de vezes). Entra pouca sinceridade nessa imagem. O observar, diz ele, é uma operação “dupla ou tripla” (você vai observando, [0:20] corrigindo, observando mais um pouco etc.), ao passo que o olhar é uma operação simples, intuitiva, em que você vê tudo de uma vez. A pergunta do abade, então, é: qual é a intuição efetiva que você tem da sua presença no meio dos outros seres humanos? Eu tenho de dizer o seguinte: a maior parte das pessoas que eu conheci não tem de fato idéia do que é isso, não tem mais essa noção intuitiva de si mesmos. Elas têm opiniões sobre si mesmas, têm apenas auto-imagem. A atenção que a sociedade de hoje dá a esse problema da auto-imagem, essa preocupação excessiva em melhorá-la, é absurda. Aqui estou eu, aí estão vocês, e aqui está a minha auto-imagem, que é uma terceira coisa. A auto-imagem é uma espécie de dicionário através do qual eu interpreto vocês, e vocês, por sua vez, me interpretam a partir da sua auto-imagem. E aí a convivência deixa de ser direta e passa a ser uma convivência entre imagens ou papéis. Ora, nenhum ser humano pode se apreender totalmente no pensamento. Isso eu já expliquei na apostila Da Contemplação Amorosa [disponível em http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/amorosa.htm]: um ser humano pode ser conhecido, mas não pode ser pensado. Você também é assim: você não pode transformar a si mesmo em um conteúdo de pensamento, porque sempre vai ficar faltando alguma coisa, sempre vai haver alguma deformidade, um afastamento etc. Enfim, tudo o que você pensa de si mesmo é apenas um modelo improvisado para as necessidades do momento, e não uma realidade. E, no entanto, você se conhece e se reconhece. A mesma coisa se aplica a todas e quaisquer pessoas que você conheça: sua mãe, sua namorada, sua tia, seu amigo etc. Você pode conhecê-los, mas não pode pensá-los. Se você reunir tudo o que você já pensou a respeito deles, desde que os conhece até hoje, você não compõe uma pessoa inteira com isso, mas apenas um esquema, uma imagem. A pergunta, então, é: por que nós confiamos tanto no pensamento? E por que nós confiamos tanto nessa auto-imagem e damos tanta importância a ela, se sabemos que não é possível um indivíduo se conhecer nem por imagens, nem por pensamentos? Se eu não me conheço por pensamentos e, ao mesmo tempo, eu não consigo ter uma visão intuitiva e imediata da minha totalidade, como é que eu me conheço? A resposta é simples: eu só me conheço como uma tensão que está indo em direção a alguma coisa. Este é o verdadeiro autoconhecimento. E ele não implica nem mesmo que você “saiba” muita coisa, ou que você tenha muitos pensamentos a seu respeito. Não implica nem que você pense sobre si mesmo jamais. Aliás, à medida que você vai amadurecendo, vai pensando menos sobre si mesmo, porque aprende a aceitar essa informação que vem da simples tensão existencial da presença do Ser e da sua presença diante do Ser. Eu não sei se vocês estão me acompanhando; esse assunto é realmente meio escorregadio. Vamos analisar isso de uma outra maneira. Você é alguma coisa, você é um ente, você existe, independente do que você pensa de si mesmo. E essa existência tem alguma consistência, alguma substancialidade, mesmo que você não saiba nada a respeito dela. Um sujeito, por exemplo, que seja completamente louco, e que não saiba nada a respeito de si, ainda assim é alguma coisa. Freqüentemente, observando uma pessoa que está louca, desabilitada, incapacitada, nós a olhamos e pensamos que ela teria capacidade para ser isto ou aquilo se ela não estivesse nesse estado. Essa capacidade evidentemente está nela de algum modo, mas não está na mente dela. Então, existe aquilo que você é, e existe aquilo que você pensa a seu respeito. Ora, para pensar, você tem de pensar através de imagens construídas com analogias de coisas que você viu — temos aí todo o universo da imaginação — e através da linguagem. Os padrões da imaginação você aprendeu com a sua experiência: com as imagens dos lugares em que você esteve, das coisas que você viu, das pessoas que você viu, você compõe o seu dicionário imaginário. E a linguagem você aprendeu da sociedade. Esses são os instrumentos pelos quais você pode saber algo de si mesmo. Mas por baixo de tudo o que você sabe, há aquilo que você é. Agora, pergunto eu: a parte que se refere ao ser (não ao conhecer), a parte que você é realmente, será ela totalmente ignorante? Existe aquilo que você é e existe aquilo que você sabe, mas será que aquilo que você é não sabe nada? Tem de saber; é impossível que essa parte nada saiba. Existe, então, aquele conhecimento de você mesmo que é inerente à sua própria existência; e existe aquele conhecimento que você fabricou com pensamentos, e que tenta de alguma maneira traduzir o que você conscientemente apreende do que você é, o que você acha que os outros pensam de você, e o que você acha que pensa dos outros. É claro que a tradução é extremamente imperfeita. Mais ainda, nós temos o seguinte problema: aquilo que você é, você é permanentemente. Embora você mude no curso da vida, você se transforma e muda de acordo com um padrão inicial, uma estrutura inicial, uma substância inicial que está dada e não vai mudar. Você só passa pelas mudanças que são compatíveis com a sua forma de ser. Você pode se tornar mais gordo ou mais magro, mas você não pode se tornar cúbico, por exemplo. Você pode se transformar em uma pessoa melhor ou pior, mas não em um mosquito ou em uma barata. As mudanças têm de ser compatíveis com a estrutura do ser que as sofre. Aquilo que você é é uma estrutura permanente que comporta todas as mudanças, como um algoritmo. Um algoritmo é a fórmula de uma seqüência de transformações possíveis. O seu algoritmo é permanente, é o mesmo desde que você nasce até quando você morre, mas os seus pensamentos não são permanentes, e sim evanescentes. Eles aparecem e vão embora, é muito difícil manter um pensamento na mente por mais de dois minutos (Gurdjieff dizia que se as pessoas fossem capazes de pensar no polegar delas por mais de cinco minutos, todos os seus problemas estariam resolvidos). A atenção humana é intermitente e evanescente. Veja então o descompasso que existe entre o que você é e o que você pensa, entre o que você é e o que você pensa que sabe de você! E, no entanto, essa parte que você é também sabe — apenas, ela não tem linguagem. Você não nasce com uma linguagem própria para isso, mas precisa aprendê-la. Normalmente, o aprendizado da linguagem e da comunicação é também o aprendizado da adaptação social, e é uma coisa tão difícil e tão problemática em si mesma que as suas necessidades se sobrepõem às necessidades de expressão do ser efetivo. Para conviver com as pessoas, por exemplo, você precisa ter uma auto-imagem; e se essa auto-imagem for muito falsa em relação àquilo que você verdadeiramente é, nem por isso ela deixará de servir como ferramenta para a sua convivência com os outros. Mesmo que os outros sintam que há algo de falso nela, eles, pensando bem, não têm nada a ver com isso, pois se nem você está interessado no seu conhecimento efetivo, por que os outros estariam? (Aliás, é bom que a gente perca desde logo essa ilusão: ninguém jamais está muito interessado em nós. As pessoas de vez em quando pensam em uma outra, mas em geral pensam nelas mesmas. Você pensa em você mesmo em 99% do tempo e o 1% restantes você divide entre todas as pessoas que você conhece, que vão desde os seus entes queridos até os personagens da televisão etc.) Toda essa dinâmica, portanto, da linguagem e da expressão tem as suas exigências e os seus problemas próprios, aos quais se somam ainda os problemas da convivência social. Você tem de aprender coisas, ir à escola, arrumar um emprego, ter documentos, se haver com as autoridades etc. — você tem todos esses problemas. Isso quer dizer que logo se estabiliza uma auto-imagem necessária para a convivência social, [0:30] e essa auto-imagem é feita toda de elementos recebidos do meio, da linguagem, de informações que as pessoas passaram a você etc. Mas o conhecimento que a parte substantiva, que o ser, tem de você continua existindo; é isso que nós vamos chamar de consciência profunda, e que os simbolismos antigos chamavam de coração. Há então o conhecimento do coração, que é inerente ao seu ser; e há o conhecimento da cabeça, que é o aprendido. Esses dois podem estar em um descompasso total: o que você pensa de si mesmo não acompanha necessariamente o que você é, e muito menos acompanha o conhecimento existencial que você tem. Existe toda uma arte milenar, desenvolvida por sábios, profetas, santos, filósofos etc., para conectar uma coisa com a outra — para fazer com que o coração fale, para fazer com que aquilo que você é substancialmente adquira uma linguagem. Ora, aquilo que você é substancialmente não é muito diferente do que as outras pessoas são substancialmente. Você é apenas uma essência individual, de uma espécie na qual todos são iguais, e portanto temos aí o princípio da igualdade humana. Pelo outro lado, que é o lado do aprendizado, temos o princípio da diferenciação humana: classes sociais, grupos étnicos, diferentes tradições lingüísticas etc. Isso quer dizer que quanto mais adaptado você esteja a um determinado grupo social, a um determinado meio etc., mais longe você pode estar do que você efetivamente e substantivamente é. Ou seja: você pode calar a voz do coração. E se você calar a voz do coração, todas as outras vozes dos corações tornam-se inaudíveis para você, e aí você perde o senso da presença do Ser. Você está então literalmente fora da realidade, e dentro daquilo que a Bíblia chama de “o mundo”. Quando a Bíblia diz que a alma tem três inimigos — o mundo, o diabo, e a carne — as pessoas geralmente entendem isso muito mal. O mundo, nesse sentido, não é o mundo físico, mas é o mundo da tagarelice, é o mundo do falatório. É o mundo no sentido sociológico da coisa, de onde vem o adjetivo “mundano”. É, por assim dizer, o reino de César. Você pode se adaptar muito bem a este reino e estar inadaptado em relação à presença do Ser, e à própria estrutura física do mundo real, entre outras coisas. Essa estrutura física do mundo real é uma coisa efetiva, ela existe efetivamente e é um componente da estrutura do ser. A primeira coisa que você perde é o senso da dimensão, e ao perder o senso da dimensão você esquece este imenso paradoxo, que é a diferença entre a pequenez física do homem e o fato de que ele seja capaz de se comunicar diretamente com a presença do Ser. A presença do Ser só existe para o ser humano. Para os animais ela não existe. Os animais estão dentro do ser, mas não estão diante do ser. Só o ser humano tem essa experiência consciente da presença do Ser. Os outros animais têm apenas a consciência do ambiente deles, daquilo que o biólogo Jakob von Uexküll chamava de Umwelt, o “mundo em torno”. Cada animal tem o seu “mundo em torno”, e ele só sabe daquele mundo, não do resto. Existem espécies animais que, mesmo sendo vizinhas, nunca tiveram notícia da existência uma da outra. Uma não sabe que a outra existe, e elas não vão se perceber nem se você juntá-las. Uma minhoca sabe que existem ursos? Um peixe sabe que existe gente? Eles não sabem. Welt, em alemão, quer dizer mundo, e Umwelt o mundo em torno. O bicho só sabe do mundo em torno, do Umwelt, mas ele não sabe que existe um mundo, um Welt. A presença do Ser só existe para o ser humano. Você ser capaz de pegar a presença do Ser diferencia você de todas as espécies animais de maneira infinita, porque é a diferença que existe entre um ambiente animal, e o que nós chamamos de universo. A diferença entre ser humano e bicho imensurável. Claro que se você olhar só do ponto de vista genético, por exemplo, você vai encontrar só os famosos 3% de diferença entre você e o macaco, o que significa que a genética não é capaz de captar esse assunto aqui. Isto não existe para a genética. A genética está, para o mundo real, como o peixe está para o ser humano. O mundo da genética é finito, mas o mundo que transcende a genética é infinito, e então a genética não pode captar o infinito, mas nós podemos. Na hora em que você perdeu a experiência da presença do Ser, você perdeu, primeiro, o senso da realidade física do mundo. E na hora em que você perde o senso da realidade física do mundo você começa a dizer coisas como as que esses geneticistas dizem, de que a diferença entre o homem e um macaco é de apenas 3% — que é uma coisa que se verifica, experimentalmente, na pessoa deles. Você esperar que a genética possa esclarecer as diferenças e semelhanças entre o homem e os animais é inteiramente absurdo. Toda ciência, como diziam os escolásticos, tem um objeto material, que é a coletânea dos objetos que ela estuda; tem um objeto formal, que é por onde ela enfoca esses objetos; e tem um objeto formal terminativo, que a pergunta que ela tem de responder no fim. Tudo isso é altamente seletivo: uma ciência pega apenas um grupo de objetos (não o universo inteiro); desse grupo de objetos, ela pega apenas um ângulo; e, deste ângulo, ela pretende responder apenas uma pergunta. Isso quer dizer que nenhuma ciência está habilitada a fazer comparação entre o homem e nenhum animal. Está habilitada apenas a fazer comparações sob certos aspectos. Mas quantos aspectos existem? Infinitos. Isso quer dizer que mesmo que você juntasse todas as ciências e tudo aquilo que elas sabem a respeito dos seres humanos e os animais, isso não bastaria ainda para fazer uma comparação. Porque o número de ciências é finito, e o número de aspectos é infinito. Esse é um ponto simples de metodologia, e qualquer estudante de biologia deveria aprender isso na primeira semana. Aprender que a biologia não estuda o mundo, não estuda o universo, não estuda o Ser, mas faz só três ou quatro perguntas e tenta respondê-las, e isso já dá um trabalho miserável e a gente freqüentemente erra. E a genética? Faz menos perguntas ainda. De todo o conjunto da biologia, ela pergunta um pedacinho. A autoridade das “ciências” — e, aliás, nós temos sempre de usar a palavra “ciência” entre aspas, porque chamar esse tipo de conhecimento de ciência é um abuso; nós temos de inventar um outro nome. Você esperar que essas ciências respondam essas perguntas é uma coisa de uma burrice fora do comum, e o sujeito nem sabe o que está fazendo. Ele está exercendo ciência como um macaco que se você ensinar a dirigir um ônibus, o macaco até dirige, mas ele não vai ter consciência de lei de trânsito, ou de qualquer outra coisa. Na hora que você perde a experiência da presença do Ser, você perde, primeiramente, o senso da dimensão do universo material. Você pode até saber qual é o tamanho do universo, mas você perde o senso da tensão entre esses dois pólos que são, por um lado, o tamanho infinitesimal do homem dentro do conjunto e, por outro, este privilégio de que ele é o único que tem a presença do Ser.[00:40] O homem é uma criatura enormemente elástica: por um lado ele não é nada e por outro, ele é o único que pode falar a palavra “tudo”. Ele é o único para o qual existe “tudo”, e de certo modo ele é a única testemunha do tamanho do universo. Isso não quer dizer, como no princípio entrópico, que o universo precise que a gente saiba algo dele. O universo lamentavelmente não precisa, nós é que precisamos. Mas essa tensão que aparece no Salmo, e está maravilhosamente explicada nele (“O que é o homem, para que Deus preste atenção nele?”), dá a medida real do tamanho do homem, e esse tamanho tem de ser medido em duas direções: no da sua pequenez física, e na sua consciência da presença do Ser. Essas duas coisas são elementos permanentes do ser humano. Só que são elementos permanentes do ser humano enquanto espécie. O indivíduo pode se afastar disso completamente. Isso significa que a maior parte dos indivíduos hoje está abaixo do potencial da espécie, e isso não acontece com nenhuma outra espécie animal. Se você pegar o cavalo mais capenga do mundo, ele ainda é capaz de carregar um homem nas coisas; se ele não for mais capaz, cinco minutos depois ele morre. Um leão, se não for capaz de caçar, não continua vivendo indefinidamente abaixo do potencial da espécie. Ou ele está no potencial da espécie ou ele morre. O único bicho que vive e sobrevive por longo tempo muito abaixo do potencial da espécie é o ser humano, que cria essa espécie de sub-humanidade que tem que viver sendo carregada pelos outros. São um bando de irresponsáveis, um bando de moleques, que deviam é levar umas boas palmadas na bunda. Ou seja, eles não arcam com a responsabilidade humana, mas querem ter todos os privilégio da humanidade. Por que nós temos de aceitar isso? Não temos de aceitar, nós nunca podemos aceitar que alguém faça isso. Se você está buscando a consciência do Ser, e viver alerta para a realidade, onde você está ao mesmo tempo sabendo a proporção física entre você e o universo, e ao mesmo tempo está sabendo o outro lado da tensão, você tem de exigir que os outros saibam da mesma coisa. Agora, por que elas não fazem isso? Porque o aprendizado da cultura e da linguagem é muito complicado, e os problemas de adaptação social também são muito complicados, e elas acabam concentrando tudo nisso. Isso, para elas, se torna o tudo. E pior, elas chamam isso de realidade, quando é apenas um delírio coletivo. Nesse delírio coletivo, é possível que as pessoas se afastem tanto da tensão central da existência, que elas tenham de construir personalidades inteiramente artificiais e, feliz ou infelizmente, não faltam fábricas de personalidades artificiais. Um partido político, por exemplo, que cria um conjunto de valores, de sentimentos, de reações padronizadas, e tomo mundo veste a camiseta, sente as mesmas coisas, e se sente integrado naquela comunidade, e isso dá a eles uma ilusão de existência. Claro que essas pessoas estão vivendo uma vida sub-humana, elas estão abaixo do potencial humano. Elas, comparadas a um ser humano que está consciente da tensão, são como uma sombra comparada a um corpo; e é por isso que essas pessoas são tão insignificantes. Eu reparei, por exemplo, na minha experiência de jornalista, pessoal de partidos políticos inteiros, gente com milhares de aliados, com dinheiro, com poder etc., eu chegava e falava alguma coisa e eles ficavam com medo de mim! Você quer alguma coisa mais desproporcional do que isso? Eu, que sou um João Ninguém, um nada, chego lá e digo como as coisas são, e todos eles ficam com medo e decidem se reunir para fazer alguma coisa comigo, se juntam, fazem assembléias, reuniões, etc., e começam a delirar a meu respeito e a inventar por trás de mim um poder descomunal que eu não tenho. Acham que deve ser a CIA, o Mossad, ou alguma coisa dessas por trás de mim. Isso tudo é sub-gente, são sombras comparadas a mim. Eu não sou nada, mas eu existo. Eu sou um ser humano inteiro. Eles não, são sombras, vivem só na imaginação, só na fantasia. Agora, tudo o que o ser humano fez em matéria de cultura, de arte, de religião, de filosofia, é para forçar a parte aprendida — a linguagem, o imaginário etc. — a se tornar um canal do coração. Não dá nunca para fazer isso perfeitamente, porque se você tem a consciência da presença do Ser, é como se você estivesse ligado a uma fonte infinita de conhecimento — mesmo que considerássemos a presença do Ser só no aspecto da presença material do universo. O universo material é um manancial inesgotável de conhecimento. Eu sempre faço essa comparação: se você pegar todos os manuais de mineralogia que já se escreveu, eles formam uma biblioteca enorme; mas e o conhecimento de mineralogia que está nos minerais? É muito mais: tem tudo o que os mineralogistas sabem, tem tudo o que eles podem saber, e tem tudo o que eles nunca vão saber. O universo, então, é um manancial de conhecimento; ele fala, ele tem linguagem. Quando o mineralogista descreve a estrutura de uma pedra, a sua composição química etc., o que ele está fazendo? Ele está lendo aquilo. Aquela estrutura, aquela ordem, aquelas fórmulas não estão na cabeça dele, mas na pedra! Ele decifra e a passa para linguagem humana de modo que um outro, para descobrir a mesma coisa, não precise pegar diretamente a pedra, mas tenha esse dicionário, por assim dizer, que o mineralogista criou. A versão humana, escrita, é claro que é simplificada em relação às pedras, mas te ajuda a chegar lá. Se você quiser começar a estudar mineralogia como se você fosse o primeiro mineralogista do planeta, você vai ter um trabalho miserável. Então, existe esta parte da decifração das pedras que já foi feita pelos mineralogistas anteriores e está lá para te ajudar: é o “caminho das pedras”. Mas tudo isso foi tirado de um manancial infinito que é o universo, mesmo considerado somente o universo físico. Agora, considere, por exemplo, os universos espirituais. O universo dos anjos, demônios etc. Aí, meu filho, o universo físico se torna uma titica. E, no entanto, tudo isso é o universo objetivo: é a realidade que nós encontramos, e que não fomos nós que criamos. Como nós temos acesso a isso através do pensamento e da imaginação, nós achamos que essas coisas são objeto de pensamento e imaginação; mas isso é como aquele negócio do Buda, que apontava a lua com o dedo, e o discípulo confundia uma coisa com a outra e achava que o dedo é que era a lua. O fato de que você tenha acesso a certas coisas através do pensamento e da imaginação não significa que eles existam apenas no pensamento e na imaginação. Aliás, você não poderia ter acesso a nada através do pensamento e da imaginação se você não tivesse acesso direto à presença do Ser. Senão, seria preciso que o seu pensamento e a sua imaginação criassem o Ser. E aí surgiria aquele problema: você me criou com o seu pensamento e a sua imaginação ou fui eu que te criei com a minha imaginação? Basta isso, basta essa pergunta, para você ver como toda essa perspectiva subjetivista que coloca o pensamento humano no centro de tudo é perfeitamente idiota. René Descartes chegava na janela, via as pessoas na rua, e se perguntava que prova ele tinha de que aquelas pessoas não eram apenas robôs. Mas os robôs podem fazer essa mesma pergunta para ele: você diz que está pensando, mas que prova eu tenho disto? Pode ser apenas uma gravação na sua cabeça. Quando partimos, então, para esse subjetivismo, chegamos em tantos paradoxos que qualquer pessoa que perca mais de cinco minutos com subjetivismo é um idiota — e no entanto a filosofia ocidental perdeu três séculos com essa besteira. [00:50] Agora, se você perdeu, então, a experiência da presença do Ser, você perdeu a experiência de todo e qualquer ser e você só pode se comunicar com os seres, inclusive humanos, através de imagens e do seu pensamento. E aí o que acontece? Você se torna incomunicável com as outras pessoas. Você não pode conhecer ninguém através do seu pensamento. Para conhecer uma pessoa através do pensamento seria preciso que ela se transformasse em um objeto do seu pensamento. Como, por exemplo, uma frase que eu invento. Ela foi criada pelo meu pensamento, mas com materiais que vieram de fora, de uma língua que me ensinaram. Ou seja, até um pensamento verbal que eu faço não é inteiramente criação do meu pensamento, mas imagine se um ser humano inteiro, com toda a história dele, com todo o passado dele, com toda a sua complexidade, pode ser um objeto do meu pensamento. Eu só posso conhecer os seres humanos mediante a convivência da minha presença real com a presença real deles. Ou seja, eu sei que eu não posso apreender aquela pessoa no meu pensamento como totalidade, ela também sabe disso. Então nós temos as nossas duas presenças tensionais, convivendo na realidade, e este é o único conhecimento que nós temos das pessoas, e não precisa saber mais do que isso, porque isso já é, de certo modo, infinito. Uma presença real, diante de outra presença real. Tudo aquilo que você pensa, imagina, ou lembra a respeito daquela pessoa, é apenas uma referência a esta experiência real. Mesmo que seja uma pessoa que você nunca viu. Através do que nós lemos de Napoleão Bonaparte, por exemplo, nós sabemos que nós não podemos apreender totalmente a figura dele e que, para além de tudo o que você sabe, existe uma presença real, e esta presença real é inesgotável de alguma maneira. E é um aglomerado de tensões, de forças, de poderes etc. Isso tudo você sabe a respeito de qualquer pessoa e também a respeito de Napoleão Bonaparte. Ora, é justamente estar aberto para esta parte que você não sabe e que você jamais saberá mentalmente, mas que você sabe como presença, isso é que é conhecer a pessoa. Ou seja: se você acha que conhece, você não conhece. Se você sabe que jamais conhecerá por pensamento, mas sabe ter a sua presença real diante dela e interagir, você conhece. Você está permitindo que a outra pessoa exista; você está deixando espaço para que ela exista como uma criatura efetiva, real e independente do seu pensamento; e é só enquanto você tem esta atitude que você continua recebendo informações reais dela. Se você fechar no esquema do pensamento você não pega novas informações, e aí acabou: você não está mais conhecendo a pessoa, mas conhecendo um personagem que você mesmo inventou. E é aí que entra o negócio que a Luciane está dizendo: quando acontece isso, não há mais intimidade, todo mundo é exterior, inclusive a pessoa que está dormindo na sua cama e transando com você toda noite. Você está dormindo com o inimigo. Eu não sei como as pessoas têm coragem de fazer isso, ir para a cama com um enigma. E as pessoas têm muito medo umas das outras quando isso acontece e disfarçam o medo com mil e um artifícios para controlar os outros, para se defender, para se defender do olhar delas, de perguntas comprometedoras etc. Isto é um inferno! Uma sub-vida, como diz a Luciane. De certo modo, essas pessoas só convivem com fantasmas. Agora pensem bem: se este é o gênero de vida que você leva, que espécie de vida intelectual você espera ter? A vida intelectual, para uma pessoa assim, é apenas o aperfeiçoamento da fantasia macabra na qual ela está vivendo. É completar um pouco mais a fantasia, mentir um pouco melhor, fazer de conta que está sabendo tudo, e quanto mais faz isso mais aterrorizado fica, porque a consciência de ignorâncias, que jaz no fundo do seu coração, você não está permitindo que ela fale. Apreender a presença do Ser é apreender a presença do desconhecido. Desconhecido e absolutamente incontrolável, sobre o qual você não tem nenhum poder. E, ao mesmo tempo, é a consciência de que essa totalidade ilimitada, sobre a qual você não tem nenhum poder, não é necessariamente hostil a você. Ela contém elementos hostis, contém elementos favoráveis, tudo junto. Em suma: contém uma tensão. Estar presente, diante e dentro dessa totalidade que você não controla é a verdadeira realidade da vida. E você não poder perder isso com relação à totalidade do universo e conservá-la em relação a este ou aquele ser em particular. Aí então você está como o Johny English, do filme do Mr. Bean: “ele não sabe o que é o perigo, ele não sabe o que é o medo, ele não sabe nada.” É claro que as pessoas condenadas a este gênero de vida estão levando de fato uma existência sub-humana, elas não têm idéia do potencial humano. Ora, existe um autor espanhol, que é um dos grandes filósofos do século XX, chamado Luis Cencillo. Por uma coincidência sencillo quer dizer “simples”, mas o nome dele se escreve com “C”. É um grande pensador espanhol, mas no Brasil acho que ninguém nem ouviu falar. O Luis Cencillo tem um livro que chama a experiência profunda do Ser. E ele mostra que da experiência do Ser faz parte a nossa capacidade de apreender as experiências que outras pessoas tiveram do Ser. Por exemplo, quando você lê Platão, Aristóteles, São Tomás de Aquino, ou Dante Aliguieri. Esses indivíduos tinham uma abertura enorme para a presença e complexidade do Ser, e nós somos capazes de apreender isso. E esse é um elemento essencial do ser humano: a capacidade que você tem de apreender o Ser, não só através daquilo que você percebeu diretamente, mas através do que outras pessoas perceberam e que tão logo elas avisam você, isso se torna seu também. Você se abre para novas e novas e novas dimensões do Ser. Ora, nós não podemos falar de conhecimento objetivo da realidade se nós não levamos esse elemento em conta. Porque isso faz parte da experiência milenar humana. O que estava fazendo cada grupo de indiozinhos, muitos milênios antes que aparecessem Aristóteles ou Platão, sentados em volta de uma fogueira e ouvindo o pajé contar os mitos da tribo? Exatamente o que nós fazemos quando lemos Platão, Aristóteles ou Dante. O pajé os está abrindo para uma dimensão de experiência que eles ainda não tinham experimentado. Essa capacidade de nos abrirmos para novas e novas dimensões do Ser, ajudados uns pelos outros, faz parte da nossa experiência do Ser. Ora, como é que nós poderíamos traduzir isso em uma concepção física do universo? Como é que explicaríamos isso em termos de Física — mesmo de Física Quântica, que é bastante sutil? Isso é incomensurável com a Física. Isso significa que o universo do qual falam os físicos é um pseudo-universo, é um universo totalmente inventado. Ele não é o universo da experiência real, mas apenas um modelito feito para que eles pudessem responder a certas perguntas especializadas que aquela ciência levantou; não é o mundo real, o mundo concreto. Muitas vezes, o estudo das ciências, das artes, ou até da religião, serve apenas como carapaça defensiva para tampar mais ainda a experiência da presença do Ser. Mas lembrem-se desse negócio do Luiz Cencillo: [1:00] ler as obras dos grandes filósofos, poetas etc., é abrir-se às dimensões do Ser. Essas dimensões já estavam lá, elas não foram inventadas por essas pessoas. Você talvez chegasse lá sem elas, mas é como na mineralogia: você pode examinar todas as pedras, uma por uma, e descobrir tudo de novo, mas leva muito tempo. Isso quer dizer que nós fomos alertados por outras pessoas da maior parte da experiência que temos da presença do Ser e jamais chegaríamos a perceber tudo isso sem esse aporte, sem essa ajuda que recebemos. Isso quer dizer que a interação entre as consciências humanas é um elemento fundamental da experiência da realidade. Nós não podemos considerar as coisas como se existisse um universo físico, tal como a Física o define, que este universo é a realidade, e que dentro dele tem um bichinho chamado ser humano que tem uma consciência. Não. Esse universo físico, tal como concebido pela Física, é o resultado de uma longa depuração de idéias, feita através dessa experiência da interação das consciências no conhecimento do Ser. O universo físico é uma parte disso, mas ele não é o universo. O universo é este no qual as consciências interagem e a concepção física é um pedacinho minúsculo dela. Se você perdeu essa verdadeira dimensão da estrutura do Ser, você realmente está fora da realidade. Você está fora da realidade até física, ainda que você estude Física o tempo todo. O físico, que acredita que o mundo da Física existe, está por fora. Se ele acredita que aquele é o mundo objetivo e que o mundo dos pensamentos humanos, das consciências humanas etc., é apenas uma coisinha que se desenvolveu dentro daquilo, ele está invertendo tudo. Mesmo porque as teorias físicas passam e o universo continua, e a experiência do universo e a experiência da presença do Ser também continuam. Tudo o que hoje em dia nós chamamos de educação, principalmente no Brasil, visa apenas a bloquear essa experiência do Ser, bloquear o conhecimento do coração, e transformar tudo em uma invencionice verbal, imaginativa etc., de modo a criar comunidades nas quais as pessoas se identifiquem com essas imagens, acreditem que são aquilo e sintam esse reconforto de pertencer a um grupo de idiotas. É claro que, quando chega nisso, a possibilidade de vida intelectual superior acabou totalmente, porque a vida intelectual superior só pode ser empreendida por pessoas que estão permanentemente conscientes da presença do Ser e do chamado conhecimento do coração. Se elas perderem isso acabou tudo, não há mais nada. Imaginem, então, esses idiotas, essas pessoas espiritualmente mortas, lendo Platão, Aristóteles ou Hegel. É uma monstruosidade. Deveria ser proibido, esses livros deveriam ser censurados, esses livros não são para crianças e não são para pessoas mutiladas. Um dos propósitos desse curso é criar a condição espiritual e psicológica necessária para o exercício da vida intelectual. Não é jogar vocês direto na vida intelectual, ou no estudo da filosofia considerado formalmente como disciplina, sem essas precondições que, em outros tempos e outras sociedades, eram reconhecidas como tão óbvias que nem precisavam ser ditas. Em um debate entre dois filósofos escolásticos, por exemplo, tudo o que eu estou falando era tão óbvio para eles que eles podiam tratar dos problemas de um certo ponto para frente. Eles não precisavam voltar às precondições. A própria vida religiosa que eles levavam os forçava a isso. Por exemplo, a consideração da pequenez humana, do assunto do Salmo: o que é o homem para que Deus preste atenção nele? Isto, para os filósofos escolásticos, era o pão de cada dia; eles pensavam nisso diariamente. A consideração da morte e do infinito, sem a qual não há a presença do Ser, também era óbvia. Agora, passados setecentos anos, aparecem “filósofos” que não têm a menor idéia disso e que, formalmente e oficialmente, estão tratando de filosofia também. Se você pegar um cara como um Jean-Paul Sartre, ele é um sujeito cem por cento alienado que não tem a menor idéia de quem ele é. Ele só tem idéia daquilo que ele pensa, dos pensamentos que aparecem na cabeça dele, e na hora em que ele está pensando ele acredita naquela porcaria, depois acredita em outra coisa, e em outra coisa. A pergunta então é: por que nós temos de prestar atenção nesses idiotas, se eles não estão sequer presentes como seres humanos? Se são apenas gramofones ligados? Se nós queremos realmente restaurar a possibilidade de uma vida intelectual superior no Brasil, o problema não é tanto o que nós vamos aprender e saber (no sentido acadêmico da coisa), mas o que nós somos enquanto presenças humanas. Por exemplo, a Luciane menciona algo que ela chama de “a minha coragem”. Bom, eu sempre fui um sujeito normalmente corajoso. Eu tinha a dose de coragem que eu achava que era obrigatória para todo ser humano e que se eu ficasse abaixo daquilo, eu ia morrer de vergonha. Por exemplo, quando eu era moleque, se vinha um sujeito maior bater em mim, eu pensava: eu vou apanhar para caramba, mas não vou correr, vou apanhar honradamente, tentar dar umas porradas, não vou pedir socorro para ninguém, não vou chamar nem meu irmão nem meu pai — isso para mim parecia normal, porque na época isso era normal. Aos poucos, isso foi sendo perdido e um sujeito, que era apenas um medíocre, se transforma pelo padrão novo em um absurdo de coragem. As pessoas falam que o Olavo é corajoso, mas o Olavo não é corajoso; ele apenas foi educado em uma outra época, onde era normal jamais correr. Qualquer representante macho da espécie que corresse estava desqualificado. Aí começaram a dizer que isso era “machismo”, e então, em vez de praticar o “machismo”, começa-se a praticar o “feminismo” e aí a nossa primeira obrigação é chorar e sair correndo. Mas se pode o feminismo, por que não pode o machismo? Se existem fêmeas e machos, qual é o problema que as fêmeas sejam fêmeas e os machos sejam machos? Eu não consigo entender que exista um problema nisso. Qualquer bicho entende uma coisa dessas. Há funções definidas. Por exemplo, eu não posso amamentar crianças, por mais que eu me esforce não sai nada. Eu não posso ficar grávido (por mais que a minha barriga possa iludir algumas pessoas, eu não tenho essas capacidades); então, não adianta eu querer desempenhar esses papéis. O sujeito pode até pensar que seria melhor ser mulher ou algo do tipo, e talvez até fosse, mas é uma mera hipótese, não uma coisa real. Se você fizer operação de mudança de sexo, ela poderá tirar algumas coisas de você, mas não pode por nada lá. Ninguém vai botar um útero e ovários em você, e então você não vai ser propriamente uma mulher, mas apenas a melhor imitação que você conseguir e, na melhor das hipóteses, você vai ficar no meio do caminho. Isso quer dizer que a condição, não digo sexual, mas “sexuada”, como dizia o Julián Marías, é uma fatalidade. É uma coisa que veio para ficar. Umas pessoas gostam disso, gostam de pertencer a um determinado sexo, mas outras não gostam. Mas o que é o gostar e o não gostar? Opiniões que você tem, idéias que você tem e que não fazem parte da sua presença real. Então, o que pode haver de anormal de você aceitar a cota que lhe coube? É assim e vai ficar assim. Se eu fosse menina [01:10] talvez eu pudesse sair correndo, talvez fosse mais saudável para mim, mas como eu sou macho eu vou ter de ficar aqui, agüentar e apanhar com honra. É a parte que me cabe. Se você rejeita isso, você está rejeitando toda a estrutura do cosmos. Você saiu da realidade na mesma hora, porque nem o dado mais óbvio, que é a estrutura do seu corpo, você está aceitando. Mesmo que você tenha conflito disso — e muitas pessoas têm esse conflito —, se tem o conflito, melhor ainda, porque você vai poder viver a sua situação com mais consciência do que ela tem de problemático. A condição sexuada nos impõe uma espécie de humildade: nós só temos o potencial do nosso próprio sexo. Nós não temos o do outro. Podemos imaginá-lo, até mesmo compreendê-lo, mas nós não podemos vivenciá-lo. No sonho você pode, como no Lobo da Estepe, do Herman Hesse, o sujeito vira mulher, depois homem de novo — esse é o sonho de muita gente hoje. Mas nós sabemos que isso só acontece no sonho, o sonho nos revela possibilidades que não podemos realizar fisicamente. Aceitar a forma do seu corpo, mesmo não gostando dela, é fundamental. O sujeito olha no espelho, como no Silêncio dos Inocentes, em que o personagem era um sujeito feio para danar que sonhava em se tornar uma mulher bonita — Olha, meu filho, você não é a Sharon Stone. Você é o Lula, foi o que foi possível fazer para o momento. Você aceitar isso, mesmo estando consciente da tensão, é conhecer a estrutura da realidade. Agora, o sujeito também pode estar tão identificado ao seu próprio sexo, que ele não chega a compreender o outro. O macho, por exemplo, que acha tão bom ser macho que ele entende a fêmea como uma espécie de defeito. O que é isso? Falta de imaginação. Porque a imaginação faz parte da compreensão da presença do Ser. Aquilo que você tem, você tem como efetividade, e o que você não tem é o potencial não-realizável, mas que pode e deve estar presente como tensão. E se você se identificar tanto com o seu próprio sexo, você só vai querer transar com pessoas do seu próprio sexo — é o machão peludo que quer outros machões peludos, iguais a ele. Uma vez eu li as reclamações de clientes de uma sauna gay, reclamando que aquilo estava uma pouca vergonha porque estava sendo frequentado por travestis. Os caras iam lá procurar outros machos peludos e encontravam lá um outro cara com dois peitos... Isso é um assinte! É claro que isso é demência, fuga da realidade, porque a condição sexuada é tensional, e é só graças a essa tensão que é possível a convivência entre homens e mulheres. Senão não seria. Os elementos de feminilidade que existem na sua imaginação permitem que você compreenda uma mulher. Senão você não poderia compreendê-la e você acharia estranho. E se você achar estranho, então você já entrou no clube dos machões — e disso para a viadagem é um passo. Eu não sou tão macho quanto esses caras. (É a história do diálogo entre o político gaúcho e o político mineiro. O gaúcho ficou bravo e disse: “Fique Vossa Excelência sabendo que lá no Rio Grande nós somos todos machos!”, ao que o mineiro responde: “Pois fique Vossa Excelência sabendo que lá em Minas nós somos metade macho e metade fêmea!”) Este é um exemplo de uma revolta imbecil contra a condição da realidade. Com um pouco de análise você entende que a condição de macho e fêmea não altera a sua pertinência à espécie. O macho e a fêmea pertencem exatamente à mesma espécie, e então isso quer dizer que a diferença não é absoluta, mas é apenas sob certos aspectos. E ela, sendo só sob certos aspectos, não lhe permite nem a desidentificação com o seu sexo e nem a total identificação com ele. Sempre vai haver uma área de tensão. Se não houvesse o elemento feminino na alma do homem, ele não procuraria uma mulher, ele não precisaria de mulher. Ele só precisaria de outro homem. Essa tensão é um dos aspectos mais belos da existência. É uma das coisas mais lindas da existência e sempre que eu penso nisso eu fico maravilhado. No entanto, existem muitas maneiras de você rejeitar isso, de pular fora dessa realidade. A desidentificação com o seu sexo é uma delas, a identificação total é outra e o moralismo que se horroriza ante as chamadas perversões também é outra. Porque tudo isso existe, e as perversões são erros e imaginação, apenas. O que é uma perversão? Per quer dizer “em torno”. Perversão quer dizer, literalmente, mijar fora do penico — está vertendo ali, mas não dentro, e sim em torno. Perversão é “verter em volta”. O sujeito então errou, ele quis acertar dentro e acertou em volta. Isso faz parte da estrutura humana, faz parte do drama humano, e tem de ser aceito como parte do nosso destino. Existem muitas defesas contra presença do Ser. E essas defesas entram todas em ação quando você fica com medo do tamanho do cosmos. Aristóteles dizia que o conhecimento começa com o espanto. Eu digo: é verdade, mas a ignorância também. Um é o espanto que se abre, entende que a sua cabeça é pequena e que a realidade é grande. Outro é o espanto de quem fica espantado com o tamanho da realidade e se fecha: ou foge completamente para a mediocridade e se recusa a pensar nessas coisas; ou foge para o delírio de onipotência, que é o controle racional da realidade. Com tudo isso, o sujeito está querendo resolver problemas que não são para serem resolvidos. Essas tensões não podem ser resolvidas, porque elas compõem a nossa existência, são o nosso modo de ser. A tensão é a vida mesma. Ela não é para ser resolvida. Se resolvida, anularia-se todas as diferenças e teríamos então a entropia total. É, então, a tudo isso que a Luciane está se referindo aqui. Eu espero que eu tenha interpretado o pensamento dela corretamente. Então vamos fazer uma pausa, pausa de cinco minutos. Agora vamos responder algumas perguntas: Aluno: Quando o profeta Jeremias disse: “enganoso é o coração e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?”, como interpretá-lo do ponto de vista da relação entre o que realmente somos e o que pensamos que somos, mencionada na aula de hoje? Olavo: Aí é uma questão de semântica, porque o profeta está se referindo ao coração como sinônimo geral da alma humana. A alma humana é inconstante. Ele não está usando aqui o coração com o sentido simbólico de centro do ser. Então é só esse o problema, não há contradição efetiva. Ele está usando a palavra “coração” em um sentido, mas em outros trechos da Bíblia você verá o termo usado no sentido que nós estamos falando. Aluno: A presença total de um ser e a presença total do universo podem ser expressadas, já que se trata de uma experiência da consciência do coração? Olavo: Não, elas não podem ser expressadas e não têm por quê ser expressadas, porque tudo o que nós expressamos é dentro do Ser. A nossa expressão, e toda a nossa criação intelectual e artística, não visa criar um outro universo. Ela é apenas um conjunto de interações dentro desse universo, cujo conhecimento está pressuposto na própria comunicação. É assim como tudo o que você fala e expressa pressupõe uma infinidade de conhecimentos em torno, sem o qual aquilo não poderia ser expresso. Toda expressão é limitada, e a compreensão e o sentido dela depende da consciência que os dois interlocutores tenham deste ambiente em torno. A consciência de experiência do Ser é uma precondição para a comunicação. Agora, pode haver comunicação entre pessoas que estão desligadas dessa consciência, mas será apenas a comunicação convencional, dentro de um sistema de fantasias que elas mesmas criaram. Mas nós não temos a menor necessidade de expressar a presença do Ser; ao contrário, nós nos expressamos dentro dessa presença. Aluno: Nunca encontrei qualquer estudo que considerasse com profundidade uma investigação sobre o significado da melodia musical. Por que ela realiza em nós o efeito que faz, de onde vem a relação entre as idéias de drama, alegria, tristeza, tensão e heroísmo? Olavo: Você leia os três livros do Victor Zuckerkandl, especialmente o primeiro livro, Sound and Symbol, que é o melhor livro que alguém já escreveu sobre música desde que a música existe. Eu inclusive já escrevi alguma coisa sobre isso em alguns artigos, e nós vamos abordar este tema do Zuckerkandl dentro de algumas aulas. Isso é importantíssimo para a compreensão do que nós estamos falando aqui. Aluno: A timidez e a tendência a se isolar podem ser indícios de que a pessoa está tendo uma existência abaixo de suas possibilidades? Olavo: Pode, mas pode também não ser. Porque, dependendo do ambiente onde você está, aquela coisa do “antes só do que mau acompanhado” funciona perfeitamente. Ou seja, você está se isolando por causa de uma deficiência sua, ou por causa de uma deficiência do ambiente? São coisas completamente diferentes. Se você está em um ambiente medíocre — e medíocre não é a palavra certa, porque às vezes a gente fala “medíocre” para se referir a coisas que estão abaixo do medíocre; medíocre quer dizer apenas mediano. Chamar de mediocridade o que acontece no Brasil de hoje é até um elogio. Se você está em um ambiente depressivo, compressivo etc., é até conveniente que você fuja dele, se você não for capaz de enfrentá-lo ativamente. O que quer dizer enfrentar ativamente? Lutar para modificá-lo. Você não vai aceitá-lo, você vai rejeitá-lo, mas você terá de ser mais forte que ele. Você vai viver em uma luta perpétua. Se você decidir fazer isso, provavelmente você vai ganhar no fim, mas demora muito tempo. Eu comecei com isso antes dos vinte anos de idade, e agora, aos 62, é que eu comecei a ganhar um pouquinho. Aluno: Na aula 22, você citando os cientistas loucos, de cujo arbitrio somos reféns, os quais desafiam a 2º lei da termodinâmica, a lei da entropia, me fez lembrar Constantin Noica em seu livro As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo. Olavo: Mas por que você acha que eu promovi a edição desse livro? É porque ele responde a isso. O que ele chama de “seis doenças” são seis defesas contra o senso da presença do Ser. Existem várias estratégias diferentes de fugir da realidade e essas seis são as que se tornaram mais comuns. Aluno: Em qual categoria de doença estariam enquadrados esses meliantes do saber? Recusa ou Carência das Generalidades? Acatolia ou Catolite? Olavo: Existem três doenças que são determinadas por carências, e três doenças que são determinadas por rejeições ou recusas. A recusa da generalidade, do universal, ele chama de acatolia, e a carência de catolite. Eu acho que é mais acatolia, um desejo de se ater a determinados aspectos e rejeitar a universalidade. Eu acho que isso é ódio à universalidade. Mas eu não tenho certeza, eu precisaria repensar isso aí. Aquele livro do Constantin Noica fornece um conjunto de critérios diagnósticos, você pode usar esses critérios para você descrever e entender várias patologias diferentes que você observou na vida real, e encontrar exemplos dessas coisas. Eu acho que vale a pena este exercício. Na verdade, se vocês lembrarem de algumas aulas anteriores, quando eu dizia que ao ler esses livros vocês precisam complementá-los imaginativamente, você vai completar ou com coisas que você imaginou, ou com coisas da vida real que apareceu na sua memória de alguma modo. Mas se quando, por exemplo, você terminou a leitura do Constantin Noica, você não tem mais uns quinhentos exemplos além daqueles que ele deu, então você não entendeu realmente o livro. Você tem apenas a possibilidade de compreendê-lo. Você vai compreender o livro quando você compreender as conseqüências dele. Para o seu estudo, para a vida real etc. Se você não pegou todo o círculo das conseqüências, você não entendeu realmente. Agora, tem livros que você nunca termina de tirar as conseqüências. Aristóteles e Platão são assim: cada vez que você lê tem mais coisa, e mais coisa, e mais coisa. Aluno: Gostaria de relatar uma coisa que percebi, que acontece comigo e acredito com todos, mas sobre a qual não paramos para refletir, [01:40] ou não damos a devida atenção. É o seguinte. Quando olho para o horizonte e para o céu num dia bem ensolarado, percebo as limitações da minha visão, mas se subir num lugar mais alto — uma montanha, por exemplo — amplia-se o meu campo de visão e o horizonte se alarga, e isso proporciona um bem estar, uma alegria, um contentamento de ver numa só vez lugares que antes, no plano, só podia ver em partes, mesmo sabendo que eles existem além da minha visão eu preciso imaginá-los, buscá-los na minha memória. Já ao contrário, quando está um dia chuvoso, nublado, o horizonte se estreita e o céu parece nos esmagar, então ficamos deprimidos, irritados etc. Olavo: Sim, mas você pode também ter a experiência contrária. Não caia no erro romântico de identificar a paisagem com o seu sentimento. Senão você vai virar o Victor Hugo, e a paisagem vai virar a linguagem na qual você expressa os seus sentimentos ocasionais. E o fato é que a paisagem, a natureza física, é infinitamente mais rica do que qualquer estado emocional que nós tenhamos. O que eu estou sugerindo é que você abra-se à paisagem, e não que você a use como instrumento. Veja, por exemplo, a imensidão de coisas diferentes que a chuva pode significar. Eu me lembro que quando um dos meus filhos era pequeno e me perguntou por que chovia, eu contei a ele que em cada gota vinha um anjinho. E ela ficou maravilhada com aquela história. A água tem de fato uma função fecundante e salvadora sobre a terra. Nós podemos olhar a chuva como um elemento deprimente? Só sob certos aspectos. Mas quando nós fazemos que esses aspectos cerquem e fechem o fenômeno natural, em vez de entender a amplitude de significados que aquilo pode ter, e que estão todos ali presentes ao mesmo tempo, inseparavelmente, então aí nós entramos no lirismo de que fala Bernanos. O que faz o lirismo? Ele pega um aspecto e o absolutiza. Então aí já não é mais do fenômeno natural chuva que está falando, mas apenas um sujeito humano que está expressando o seu sentimento acidental e banal através da chuva (ou do sol, ou seja lá do que for). A coisa mais bonita desse simbolismo, das mitologias, ritos e lendas antigas etc., é a presença desses elementos antagônicos dentro deles. Cada símbolo significa uma coisa e o contrário dela. O leão, por exemplo, simboliza o Cristo e o Anticristo na Bíblia. O livro do Louis Charbonneau-Lassay, Le Bestiaire du Christ. Ele pegou as catedrais medievais, desenhou todos os símbolos animais que havia nelas, e fez a exegese de cada um, do que aquilo significava naquele tempo, naquela construção, o que aquilo significava nas mitologias antigas, e qual é o sentido cristão que a coisa tem. Cada símbolo tem os elementos antagônicos e eles estão presentes, e é isso que garante que eles são realidades. Tudo aquilo que é unilateral é invenção da cabeça humana. Deus fez o mundo como um sistema inesgotável de tensões. O mundo não é para ser decifrado. Nós deciframos apenas aspectos que nós precisamos decifrar para a nossa vida prática, e é isso que nós chamamos de ciência. O mundo não é um problema que nós temos. O universo — não o mundo em sentido bíblico — é onde nós estamos, e é o livro onde Deus registrou um monte de coisas que ele quer que a gente saiba. O universo não tem de ser decifrado porque ele não é o problema: ele é o nosso mestre, ele está nos ensinando. Senão você vai dizer que o universo é um problema e você tem de resolvê-lo, e aí, coitado do universo, que estará lascado se você não resolver o problema dele. Aluno: Parabéns pelo seminário de filosofia. Sou aluno novo e ainda terei que passar pelas aulas anteriores para me atualizar quanto aos assuntos discutidos e exercícios propostos. Porém, pelo pouco que pude perceber, o alto nível de maturidade e consciência com que os assuntos discorrem revelam a obra-prima e o valor ímpar desse trabalho. Tenho uma questão talvez "off-topic" (e por isso já peço desculpas) que gostaria que o senhor comentasse. Ainda conheço pouco sobre seus estudos sobre religiões comparadas, mas certamente terás uma opinião esclarecida a respeito: o espiritismo. O que o senhor pode nos dizer sobre a religião ou a doutrina espírita? Olavo: Eu sei dizer o seguinte: os fenômenos alegados pelos espíritas efetivamente existem. Isso eu comprovei abundantemente e há uma bibliografia enorme sobre o assunto. As conclusões doutrinais que eles tiram eu conheço pouco, e do pouco que eu conheço eu acho que não tem fundamento. Eles tiram muitas conclusões a mais do que o fenômeno em si permite. Mas isso é tudo o que eu posso lhe dizer, pois eu não sou grande conhecedor do assunto. Aluno: A tarefa para a qual nos estamos preparando certamente causará embates públicos entre gerações (a geração formada pelo curso online versus a geração falante - naturalmente precedente). Será possível conciliar esse inevitável estado de coisas com o respeito aos mais velhos a que, por exemplo, Confúcio dedica boa parte dos conselhos dos seus Analectos, ou cujos preceitos C. S. Lewis compila, das mais variadas tradições, no livro Abolição do Homem? Olavo: Velhos canalhas não merecem nenhum respeito! Nada, nada. Se for velho, pior ainda. O jovem canalha nós ainda podemos perdoar um pouco, o velho, jamais. Aquilo que merece desprezo deve ser desprezado. A religião católica tem ensinamentos fantásticos acerca do respeito humano. Em nome do respeito humano, você despreza o próprio Deus. Não pode ter nenhum, nenhum respeito por aqueles indivíduos que são inimigos da verdade e inimigos de Deus. Nada. Eles nunca merecem isso. Eles merecem aquele mínimo de respeito que todo ser vivo merece, ou seja, não o mate, e, se puder não bater nele, também não bata. No mais, nunca abaixe a cabeça para essa gente. Essa geração de pseudo-intelectuais que domina o Brasil hoje é o pessoal mais desprezível que já existiu, são sub-humanos, estão muito abaixo da condição humana, e pior, eles oprimem o coração alheio para que os outros fiquem ainda abaixo deles. Eles querem que a sua própria deformidade mental se torne o padrão pelo qual as pessoas serão educadas. Então, você veja: e quanto mais fazem isso, mais abusam de uma linguagem moralista que só os enaltece como se eles fossem as melhores pessoas do mundo, como se eles fossem modelos da humanidade, e todos os outros fossem desprezíveis. Hoje mesmo eu estava comentando o seguinte. O Brasil teve, durante todo o período da ditadura, dois mil presos políticos — e isso se aceitarmos que terroristas são presos políticos, o que não são. Quantas pessoas já receberam indenizações? Sessenta e três mil. Como é possível essa sobra de sessenta e um mil? Que tipo de prejuízo essas pessoas levaram? Foram presas? Perderam o emprego? Eu fui preso por seis horas; não me bateram, só me olharam feio, mostraram todo o seu desprezo pela minha pessoas e me mandaram embora (a maior humilhação da minha vida). Então, eu fui humilhado pela ditadura e mereço uma indenização. A minha mulher perdeu o emprego e ficou um tempão sem poder trabalhar, porque havia pertencido à Libelu e aquilo entrou na folha corrida dela. Só que o seguinte: nós temos vergonha na cara. Nós não vamos pedir indenização por causa disso. Agora, esse tipo de gente, ávida por se fazer de vítima para comer dinheiro que os outros trabalharam para produzir, é o tipo de gente mais baixo que existe. São aproveitadores, são chopins, e são essas pessoas que querem posar para nós como se fossem grandes modelos de moralidade. Como é que nós podemos respeitar isso aí? Eu não consigo conceber que tipo de respeito eu posso ter. Eu encher uma pessoa dessas de porrada é um benefício que eu faço para ela. Eu tinha um colega no ginásio que estava ficando muito maluco, e um dia eu dei uns tapas na cara dele. Aquilo o acordou, e passados trinta anos ele um dia foi na minha casa me disse: “Olha, você salvou a minha vida; [01:50] aquilo me fez despertar.” E tinha sido essa mesma a intenção; eu não tinha batido de maldade. Há pessoas assim. Para um Tarso Genro, seria uma maravilha levar umas palmadas na bunda, daquelas de deixar a bunda vermelha, desde que fosse feito com a intenção certa, que é a de humilhar o cara para ele entender que ele é um nada. Quando pessoas como um Tarso Genro ou um Leonardo Boff começam a aparecer como se fossem modelos de humanidade, está tudo perdido. Porque são muito baixos, muito desprezíveis. A opinião brasileira perdeu a medida das coisas. Outro dia um sujeito escreveu, em um jornal do Rio Grande do Sul, que Chico Buarque de Holanda é um artista das dimensões de Michelangelo. O sujeito é jornalista, professor universitário, conhecido, e escreve uma coisa dessas! Como é que nós podemos respeitar alguém assim? Então não se preocupe: a geração passada não merece respeito nenhum, e canalha, quando envelhece, vira velho canalha. Quanto mais velho, menos respeito merece. A não ser que você prefira respeitar o desrespeito que ele tem a Deus. Hoje, por exemplo, as pessoas falam de Jesus Cristo e Nossa Senhora como se fossem uns quaisquer, mas se a gente fala deles eles ficam ofendidíssimos. Ou seja, eles podem cuspir em Jesus Cristo, mas eu não posso cuspir neles. Se eu aceito isso, eu entrei no negócio do respeito humano, e respeito humano é um pecado que não é para ter. Respeite os mais velhos aos quais você deve algo. Aluno: A “mente revolucionária” não teria sido destrinchada por Albert Camus, no Homem Revoltado? Olavo: Parcialmente sim, há vários problemas relativos à mente revolucionária que ele resolveu. Mas ele não se preocupou com o aspecto que eu estou investigando, que é exatamente a estrutura da mente revolucionária. Ele a estudou como fenômeno psicológico, fenômeno da alma humana, sobretudo no aspecto da revolta gnóstica e emocional contra o cosmos. A perspectiva dele é mais ou menos a mesma que depois foi adotada por Eric Voegelin, que se inspirou muito no L’Homme Revolté. No próprio livro eu vou explicar os elementos que nós devemos ao Camus, e onde nós temos de ir muito além do que ele concebeu ali. Aluno: Minha pergunta é referente ao tema da linguagem e sua relação com o universo experiencial do indivíduo. Sou de Teresina, capital do Piauí, e vejo que a quase totalidade dos membros da minha cidade se comunica a partir de um conjunto de símbolos lingüísticos muito reduzidos ou empobrecidos, tentando apenas encaixar situações reais e concretas em frases que parecem ter sido memorizadas, seja através da escrita padronizada dos periódicos (ou pior, dos livros que foram lidos na graduação), seja através de uma torta expressão oral cotidiana (e imagino que, no resto do país, a situação não se passe de maneira distinta). Dito isso, parece que a língua portuguesa, em sua riqueza abrangente, não se mantém em unidade no dia-a-dia do país. Ora, os brasileiros que a estão utilizando dessa forma não estão perdendo, dia após dia, seu próprio universo experiencial particular? Olavo: Mas sem a menor sombra de dúvida. Quando a variedade da expressão existencial humana começa a se expressar através de meia dúzia de frases padronizadas que são infinitamente repetidas, a ruptura entre cabeça e coração foi total, e as pessoas já não têm mais a mínima idéia do que eles estão vivenciando; é tudo criação mental. E é criação mental coletiva. Vejam que o intersubjetico frequentemente se substitui ao objetivo, porque o intersubjetivo tem uma espécie de uma presença, uma espécie de pressão sobre as pessoas, e dá a ilusão de que é realidade, mas é apenas a interconfirmação de um bando de idiotas falando besteira. Mas no Brasil de hoje, dada a insegurança da sociedade, o apego das pessoas a essa solidariedade intersubjetiva é monstruoso. As pessoas têm a necessidade de repetir as mesmas frases dos outros, para elas sentirem que são iguais aos outros, e sentirem uma espécie de defesa comum. Mas é claro que a intersubjetividade não vai te defender de bala perdida, de assaltante na rua. Aluno: Sendo assim, como os alunos do curso podem superar essa dificuldade ao relacionar-se com seus pares (sejam parentes, conhecidos, companheiros de trabalho, etc.)? Há uma forma de conservar a unidade lingüística e experiencial em situações diárias, considerando a relação com as pessoas que respeitamos ou, pelo menos, convivemos. Olavo: Aí é o seguinte. São Tomás de Aquino definia a amizade como querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Você só é amigo das pessoas que estão indo para o mesmo lugar, que têm os mesmos valores que você; os outros, ainda que sejam seus parentes, ainda que seja a sua mulher, seu pai, sua mãe ou seu filho, não são seus amigos, mas apenas pessoas conhecidas. Com essas pessoas, a atitude que você tem de ter é de caridade. Qual é a caridade que você pode ter com elas? Ensiná-las. Se você ainda tem medo delas, e não está preparado para ensiná-las, fuja. Fique na solidão, se prepare, e quando você estiver fortinho volta lá, ativamente, com paciência, mas com firmeza. Nunca aceite a convivência nesses termos; nunca aceite a convivência mediocrizante, que vai te rebaixar, porque isso é a o que Bíblia chama de “roda dos escarnecedores”, e você não pode ter nada que ver com essa gente. Veja que se afastar das pessoas não quer dizer que você as odeie e não tenha amor por elas. Julian Marías — alguém me citou essa frase esses dias, que eu já havia ouvido em uma conferência dele em São Paulo — dizia que se você não sai dessa vida já com um projeto do que você vai fazer na outra, é porque você já está muito deprimido. Isso quer dizer que se você considera a sua vida apenas nas dimensões da sua vida biológica presente você já está totalmente mutilado. E se você aceita a convivência nesses termos, você vai ter de se mutilar para entrar na medida deles. Mas todos os que estão estudando aqui estão buscando algo que transcende infinitamente o círculo dos interesses, e até o horizonte de consciência, desse meio social brasileiro. Vocês estão indo infinitamente além do que essas pessoas podem conceber. Ora, como é que você vai comprimir tudo isso na altura do que eles pensam? Não vai dar. A sua convivência com eles vai sempre estourar o mundinho deles. Se você não sabe fazer isso ainda — e vai demorar algum tempo para você saber — então você tem de ficar é na defensiva. Diminuir a intensidade e o tempo de convivência com essas pessoas. Seja bom para elas, mas não espere nada delas. O truque é só este. Você conviver e ser bom para elas não há problema nenhum. O problema é quando você espera que elas te compreendam, te amem, te ajudem, sorriam para você. Não espere nada. Considere-as como se fossem crianças doentes em um hospital, das quais você está cuidando. Elas não vão poder te dar nada, não vão te ajudar jamais, mas podem receber algo de você. Ajude. Se a pessoa pedir um conselho, dê. Se ela precisa de dinheiro, empreste. Se ela está doente, ajude. Mas não espere nada. Você pode esperar um pouco daquelas pessoas que têm os mesmos valores que você. Os alunos desse curso, as pessoas que tem uma convivência de um alto nível de exigência intelectual e moral, dessas você pode esperar alguma coisa, não dos outros. É uma coisa muito simples: você pode ter amor pelas pessoas, mas não espere o amor delas. Nesse caso, você vai estar fazendo realmente uma obra divina. Pois Cristo não esperava nenhum amor das pessoas pelas quais Ele se sacrificou. Agora, nós não podemos ser o Cristo o tempo todo; nós precisamos de alguma consolação, de alguma amizade, porque nós somos fracos. Cristo passa toda a sua existência aqui sem ser compreendido um único instante; é a solidão total. Ele não tinha amigos, apenas discípulos, infinitamente abaixo dele. Nós podemos ser isso de vez em quando, mas permanentemente só o Cristo. [02:00] É por isso que você precisa ver o quanto de convivência com essas pessoas você agüenta. Na hora em que você começar a ficar irritado com elas, ou com medo delas, vá embora. Só conviva com elas para lhes fazer o bem, e não espere nada, porque o problema começa justamente quando você espera, e espera que eles gostem de você. O dia em que você aprender a amar essas pessoas sem nada esperar, você vai ver a libertação que você terá. É só isso que torna você independente das pessoas. Se você despreza ou odeia alguém, você é dependente dela. Agora, o desprezo, no outro sentido que eu estava falando, é perfeitamente compatível com o amor. Eu, por exemplo, não posso aceitar a falsa figura, a falsa personalidade que o sujeito está me oferecendo, e ter amor por isso. Eu posso ter amor pela verdadeira personalidade do sujeito tal como eu a estou vendo e a entendo. Agora, se ele insiste em me transformar em um personagem do seu teatrinho mental, forçando aquela falsidade em cima de mim para que eu responda nesse nível, eu tenho de estourar esse jogo. Se eu não sou capaz de estourá-lo, de modo que isso faça bem para ele, então eu tenho a obrigação de me afastar. A posição, então, de quem quer estudar e se tornar um intelectual sério, com uma função na educação inclusive moral brasileira, vocês têm de ver que vocês só podem conviver com os que são seus pares. Só ter amizade com os pares, porque com os outros não dá para ter. Dá para ter amor e caridade, mas não amizade. Isso é impossível. No Brasil, existe uma concepção de amizade como promiscuidade. O sujeito é seu amigo e isso quer dizer que ele tem todos os direitos sobre você. Ele pode comer a sua mulher, bater a sua carteira e você tem de perdoar tudo. Como diz o meu amigo Eduy, você tem de dar para ele e ainda pedir desculpas porque está de costas — isso é o que se chama de amizade no Brasil. Não caiam nessa. O meio brasileiro é enormemente corruptor, enormemente deprimente, enormemente dissolvente. Tomem cuidado. É uma misericórdia de Deus para com vocês que esse curso tenha tantos alunos, porque vocês não vão ter de passar a solidão toda que eu, por exemplo, passei, tendo de ficar trinta anos sem abrir a boca. Vocês não vão passar por isso. Então, procurem amigos no meio das pessoas que têm os mesmos valores e os mesmos objetivos; os outros, considere como se fossem seus pacientes. Isso é um hospital, você tem de cuidar deles e pouco se lixar para a gratidão deles. Aí é amor divino, sem recompensas. Se vocês praticarem isso vocês vão ver como isso é bom e faz bem para você. Porque é isso que Cristo pediu para a gente fazer. Aluno: Numa das suas aulas você falou que liberdade não pode ser princípio e deu a devida explicação por que não pode sê-lo. Você afirmou “Se você pegar as regras da aritmética elementar, são principios, todas elas. Você pode aplicá-las indefinidamente que nunca chegará a contradições, mesmo chegando a deduções mais remotas e particularizadas”. Dentro de sua explicação subentendi que “2 + 2 = 4” é um princípio que não leva a contradições. Pois bem: comentando isso com um professor de matemática, ele disse-me que “2 + 2 = 4” depende da base utilizada. Argumentou que os computadores são construídos no sistema binário (zero e um), e que portanto não dá quatro. Confesso que fiquei um tanto perdido na explicação do dito professor de matemática. Olavo: Esse professor de matemática é uma besta-quadrada! Uma besta! Um jumento! O cara está confundindo a quantidade com o símbolo que a representa, e com a linguagem com a qual você a expressa. Mas o que é isso! No seu computador tem uma calculadora: faça uma conta de 2 + 2 na calculadora do seu computador e você vai ver se não vai dar 4. No sistema binário, então, 2 + 2 não dá 4? Faz-me rir! Tente explicar isso para o computador: cada vez que você fizer a conta e der 4 você diz que está errado, porque no sistema binário não pode dar 4. O sistema binário, como qualquer outro sistema, é baseado em um negócio que se chama princípio de identidade. Você tem só dois elementos: 0 e 1. Isso significa que o 0 é 0 e que o 1 é 1. Isso baseia-se no princípio de identidade e portanto baseia-se no próprio princípio da aritmética elementar. Você já ouviu falar de lógicas paradoxais? Não há lógicas paradoxais. Há apenas linguagens diferentes desenvolvidas a partir do mesmo princípio de identidade, considerado em modo direto ou em modo inverso. Isso todo mundo tinha a obrigação de entender. Quem levou mais de dois minutos para entender isso não pode fazer esse curso. Se for preciso explicar, já não dá. Eu acredito que todo mundo entende isso. Se você não entendeu o que o seu professor de matemática disse, é porque você entende o que eu estou falando, porque no que ele disse não há nada para entender. Aluno: Apesar de ter iniciado a estudar filosofia através deste curso fazem poucos meses, tentei analisar a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo local no espaço. Aparentemente, a lei não vale para a própria física pura, mas vale para todas as outras ciências, e isto ocorre porque a física pura se prende às propriedades da matéria e as outras ciências dão aos corpos propriedades que os tornam indivisíveis, sob pena de não serem mais o objeto de estudo inicial. Olavo: É evidente. Se você quer estudar os minerais, você está supondo a unidade corporal dos minerais, porque se você os desfizer eles não poderão mais ser objeto de estudo mineralógico ou geológico, e poderão apenas ser objeto de estudo da Física. Como a Física vai estudar a matéria na sua própria estrutura interna, ela não pode levar em consideração esse princípio, que será justamente uma conseqüência do que ela está fazendo. Muitíssimo observado, é assim que se faz. Você está entendendo que existem esses diferentes planos, e que a linguagem das ciências não está falando das mesmas coisas. Agora, preste atenção: se você somar todas essas perspectivas, e esses diferentes pontos de vista das várias ciências, você não compõe a realidade. A realidade você só pega pelo senso da presença do Ser; fora disso, a totalidade das ciências não significa nada. Aluno: O senhor acabou de nos dar um critério para os debates públicos, e de como lidar com os canalhas. Desde o começo do curso, e neste exato momento, há também o debate entre os alunos do curso, que constantemente ocorre no fórum, no chat, e em listas de discussão não necessariamente voltadas às aulas, mas entre membros da nossa fraternidade de alunos e buscadores da verdade. O senhor poderia dar algumas diretrizes e regras básicas para que esse debate possa ser saudável, produtivo, e leve ao enriquecimento de todas as partes? Olavo: Bom, o primeiro ponto: nunca insista muito nos seus argumentos, porque não é importante, agora, você ter razão. Importa você ter razão daqui a vinte anos. Às vezes é mais importante você argumentar contra você mesmo do que a favor. Eu considero que foi realmente uma sorte eu começar a minha vida levando um banho de marxismo-leninismo, porque é tudo o contrário do que eu vim a pensar depois. Então depois eu fiquei um tempão estudando esse negócio de psicanálise. Ou seja, o principal desse besteirol moderno eu fui impregnado daquilo, e então eu sei pensar o contrário do que eu penso, porque o contrário do que eu penso hoje é o que eu pensava ontem. E isso é muito importante. Então não importa muito você ter razão agora. Desde que você saiba que pode haver uma segunda hipótese, até pensar a coisa errada é o que vale. O que vale é o trabalho de imaginação, de você sempre pensar: E se não for assim? E se for de outro jeito? Isso eu estou me referindo, claro, a pontos concretos, e não em relação aos princípios básicos. [02:10] Os princípios básicos não tem como negar; o princípio de identidade, essas coisas, é besteira ficar discutindo isso. Mas as suas opiniões sobre coisas da sociedade, da história, da moral, da psicologia etc., importa muitíssimo — Napoleão Bonaparte ensinava isso — considerar todas as possibilidades e fazer a lista. Só aí você vai ter a medida da articulação das coisas, da gradação de veracidade que pode existir em cada um desses aspectos, e de como eles se articulam. Ser capaz de articular perspectivas opostas, ver como uma é verdade em um certo plano, outra em outro. Às vezes é uma simples questão de semântica, como no caso da palavra “coração” que nós mencionamos. Ora o coração é usado como sinônimo da alma e dos sentimentos humanos, que são evidentemente volúveis, e ora é usado como símbolo do centro do seu ser. Então do qual coração o sujeito está falando? Aristóteles mostra, no começo do livro sobre dialética, os Tópicos, que a primeira coisa que você tem de fazer é perceber os vários planos que as afirmações foram feitas. Ele diz que nós começamos uma investigação fazendo o recenseamento das opiniões dos sábios. Às vezes não há opiniões de sábios e você tem de inventar as várias opiniões, e então são as várias hipóteses. Mas se você pega a lista das opiniões dos sábios sobre este ou aquele assunto, você vê que existe um monte de concordâncias e divergências. O segundo passo é articular essas várias sentenças sabendo de que aspecto daquela realidade elas estão falando. E então, o que você vai fazer? É como se o objeto estivesse na sua frente, parado no ar, e você estivesse lançando várias perspectivas para ele, como quem desenha. Você mede de um lado, mede de outro, e conforme você muda de lado você vê coisas diferentes. Então você vai articular as várias opiniões como se fossem várias perspectivas, sabendo que alguma veracidade, em algum nível, deve haver em cada uma delas, mesmo nas que parecem mais absurdas. Quando tiver uma absurdidade qualquer, você tem de explicar a absurdidade, dar a razão dela. O sujeito disse um absurdo; sim, mas por que foi possível pensar um absurdo a respeito disso? É por causa de um aspecto problemático que existe dentro do próprio objeto, é por uma fatalidade da mente humana? Por um fator histórico ou social qualquer? Só na hora em que você tem o sistema inteiro dessas perspectivas montadas, e que esse sistema forma um todo tensional e vivo, aí você pegou a natureza da coisa mesmo, e entendeu o problema. Antes disso, para que serve ter razão? Ora, se você é um general comandando um exército é muito importante que você tenha razão, porque se você planejar o negócio errado, o seu exército vai morrer e você também. Quando nós não temos nenhuma responsabilidade ainda, nós temos o privilégio de poder não ter razão, e de poder continuar pensando a coisa sob as suas várias perspectivas sem ter de chegar a uma decisão ainda. É por isso que eu disse que a tolerância para com o estado de dúvida por um longo tempo é uma condição para o estudo. Você poder continuar dizendo: “eu acho isso, mas eu não sei”. Aí você tenta achar um outra coisa, e uma outra, até você completar a perspectiva. Não é ficar em dúvida eterna, pois isso é besteira também. Existe um limite, a possibilidade de perspectivas diferentes sobre um objeto tem um limite, não um limite absoluto, mas um limite prático. Você chega em um ponto em que você percebe que já analisou a coisa sob todos os seus aspectos, e já está enchendo o saco, e você já está começando a se repetir, estou começando a fazer o mesmo circuito de novo, repetindo as mesmas opiniões de antes. Aí não precisa mais. Então você tem condição de articular a coisa e montar o objeto como um problema. Isso é que é importante aprender a fazer agora. Ter razão não é tão importante. Esses debates todos, quando eles são fundados na idéia de ter razão. Olha, ter razão só é importante quando você tem uma responsabilidade a respeito, fora disso é apenas um luxo, uma frescura. Provar que você é melhor que o outro, mais sábio que o outro. Talvez até seja, mas e daí? Quem está ligando para a sua superioridade? Cada um tem as suas superioridades e inferioridades. Agora, quando houver uma situação pública, onde seja importante que as pessoas sejam informadas da realidade de tal ou qual coisa, aí sim, aí vale a pena brigar, mas por enquanto não. As pessoas hoje estão gastando muito a juventude delas tentando ter razão. A juventude é a época de você poder não ter razão, é a época de poder pensar besteira. Mas use as besteiras como material para você montar esse sistema de perspectivas. Ou seja, quando você pensar uma besteira, pense outra, e outra, e outra, e no fim, quando você cruzar as várias besteiras, você vai perceber alguma coisa. Vejam, por exemplo, que aquelas opiniões dos pré-socráticos sobre a constituição da matéria são um monte de besteira, mas se um diz que é uma coisa, outro diz que é outra etc., você acaba chegando a uma coisa positiva. Aliás, há um assunto interessantíssimo que eu queria ter abordado isso nessa aula, mas não deu. Nós vamos mexer nisso em uma próxima aula. (Ainda temos um tempinho, e então, se você agüentarem mais uns dez minutos...) É o seguinte: Ao longo da história humana, a primeira ciência completa que surgiu, com uma estrutura total de ciência, foi a teologia católica. Quando as pessoas falam hoje em “ciência e religião”, se o sujeito equacionou a coisa assim já é sinal de uma burrice e de uma ignorância imensuráveis, porque o sujeito não sabe nem o que é uma coisa nem outra. As pessoas pensam que a religião é uma questão de fé, um negócio subjetivo que você tem ou não tem. Olha, levou quase dois mil anos para as pessoas começarem a pensar assim. Nos primeiros séculos do cristianismo, qual era o material que se tinha do cristianismo? O depoimento das pessoas a respeito de coisas que elas tinham visto, vivido, assistido, passado. Tinha o registro de curas miraculosas, registro de coisas que Jesus falou etc. Era um registro de narrativas, que eram passados de uma pessoa para outra que a conhecia, e que sabiam que eram pessoas confiáveis. Ninguém tinha o menor motivo para duvidar da maior parte dessas narrativas, e quando tinha, duvidava-se. O que foi passado como material para os primeiros padres, e depois para os escolásticos, era o conjunto de narrativas de acontecimentos miraculosos. E esse conjunto, em primeiro lugar, precisava ser juntado. Fulano disse isso, outro contou aquilo etc. A primeira maneira, então, de você articular doutrinalmente o cristianismo, era a simples compilação de afirmações. Mas na hora em que você faz isso já surge imediatamente um primeiro problema: isto é apenas uma série de frases isoladas ou há uma coerência, um sistema, e portanto uma hierarquia, dentro delas? Então os caras começam a tentar montar o sistema hierárquico da doutrina cristã a partir daquele material que tinham recebido. Isso exige o exame em profundidade dos textos, uma infinidade de comparações e exige a dúvida metódica quanto a cada um dos pontos. Então, a longa evolução da teologia católica é o primeiro exemplo de uma ciência inteiramente organizada, inteiramente autoconsciente e inteiramente crítica. Não há nenhuma ciência moderna que, na sua organização interna, tenha um milésimo da coerência e da solidez da teologia católica. Então, ela é o modelo de ciência. E notem bem, que quando mais tarde as pessoas disserem que tudo aquilo é baseado na fé, elas simplesmente não sabem do que estão falando. Por exemplo, se você está leproso, [02:20] vai a Jesus Cristo, e ele cura a sua lepra, que raio de fé há aí? Ele vai dizer que foi a sua fé que o curou, porque você confiou n’Ele, mas a cura, em si mesma, é objeto de fé? Você “acredita” que foi curado? Apenas acredita? Não foi na sua cura que você acreditou, mas em Jesus Cristo. Mas você sai dizendo que “acredita” ter sido curado, enquanto todo mundo vê que você continua leproso? O paralítico “tem fé” que está andando, mas continua preso na cadeira? Tem algo errado, portanto, nessa noção de fé. Esse material que as primeiras gerações receberam, e que foi sendo passado, é claro que, na medida em que vai passando o tempo, o impacto dessa narrativa diminui, porque a distância do testemunho vai ficando cada vez maior, e você precisa de imaginação para você se transportar até lá. Mesmo assim, claro que você tem todo o direito de duvidar dessa ou daquela afirmação, mas você pode ter certeza que todas as dúvidas que você tem foram todas levantadas pelos próprios teólogos e foram respondidas uma a uma. E o princípio usado foi justamente a dúvida metódica. Dizem que Descartes inventou a dúvida metódica, mas Descartes não foi capaz de levantar um centésimo das dúvidas que os teólogos levantaram. Só que eles levantaram, e essas dúvidas foram passadas de geração em geração. Essa elaboração coletiva, que é um elemento fundamental da ciência — que a investigação começada em uma geração possa ser prosseguida sistematicamente na outra com coerência lógica, de modo que a seqüência histórica mantenha a seqüência lógica — esse é um ideal científico, e esse ideal só foi realizado na teologia católica, nenhuma outra ciência realizou isso até hoje. Então qual é o modelo de ciência? Na hora em que esse modelo, da investigação racional, sistemática, organizada, e historicamente contínua, foi transporta para outros temas que não os temas da teologia: isso é o que nós chamamos de ciência moderna. Mas isso eu vou explicar melhor em uma outra aula. [Voltando ao tema dos debates entre alunos:] É importante que o debate não seja um debate; que ele seja mais uma troca de informações. E que tudo ali seja provisório (“me parece que é assim, mas pode não ser...”) Uma longa vida de estudos começa a dar frutos de certeza depois de longo tempo, quando você já testou a coisa por todos os lados possíveis e imagináveis. Chega uma hora que você vê que é assim, não porque eu quero, não porque eu gosto, mas porque não tem outro jeito. Por exemplo, tem coisas que eu digo e as pessoas acham que eu estou exagerando, mas é que elas não têm idéia de todo o trabalho de investigação que foi feito para chegar naquilo. E às vezes, quando eu arrisco certas hipóteses que eu também não tenho certeza, é porque eu vejo que, por lei das probabilidades, só pode ser isto. As pessoas também nesses casos não têm idéia de todo o trabalho metodológico que foi feito para chegar nisso. E então acham que são apenas opiniões — porque elas têm apenas opiniões. O tipo do idiota falante que domina mídia e universidade hoje no Brasil não é capaz sequer de conceber o que é a vida intelectual, não tem a menor idéia do que é. Ele tem apenas opiniões que foram criadas à luz das preferências do seu grupo, para lhe dar uma pseudo-identidade que o proteja contra o terror cósmico. Então ele se apega a essas besteiras e ele não é capaz de conceber nenhuma outra atividade mental humana exceto a que faz exatamente isso. Então, quando ele lê o que eu estou falando, ele acha que eu estou fazendo a mesma coisa também, como se eu representasse um grupo e estivesse me apegando às crenças desse grupo. É isso que eles acham, eles não são capazes de conceber o que eu estou fazendo. Mesmo quando eu estou falando coisas arriscadas — e eu sei quando é arriscado — é um risco controlado. Vou dar um exemplo. Quando apareceu esse negócio da certidão de nascimento do Barack Obama, a primeira coisa que eu escrevi a esse respeito é o seguinte: os caras que indicaram ele sabiam da falta de documentos — não necessariamente da nacionalidade estrangeira, mas da deficiência de documentos — e sabiam portanto que ele não tem como provar a sua legitimidade, mesmo que ele a tenha. E eles o escolheram por causa disso, porque destruir a Constituição Americana é o objetivo permanente deles. Isso já foi declarado várias vezes. Como eles não conseguem colocar a Constituição em discussão, porque ninguém aceita discutir, o que eles têm de fazer? Eles têm de criar uma situação, criar um factóide que quebre a vigência da Constituição na prática, e aí você não precisa mais discutir a Constituição, porque ela já não vale mais. Isso foi portanto uma obra de engenharia, eles escolheram o Obama porque ele era o pior candidato, o menos legítimo. Eu disse isso por lógica, e por analogia com outras situações em que eu já vi essa tática sendo usada várias vezes. Ontem apareceu um negócio no Canadian Free Press, que está hoje no World Net Daily. O cara do Canadian Free Press descobriu o seguinte: quando o Partido Democrata aceitou a candidatura do Barack Obama, tinha lá um documento, assinado entre outros pela Nancy Pelosi, que continua a indicação dele. Estava escrito assim: “informamos que o candidato é o seu fulano etc. etc., considerado legitimamente qualificado para ocupar a presidência americana.” Eles escreveram isso, mas não distribuíram. Distribuíram um segundo papel, onde a frase final estava cortada. Ou seja, todas as representações estaduais do Partido Democrata receberam a informação assim: “informamos que o candidato é o seu fulano etc.”, ponto final. Nenhuma referência à legitimidade. Portanto isso foi consciente. Ou seja, a prova dessas coisas acaba aparecendo. É uma hipótese que pode parecer até arricada, mas arriscada se baseada na hipótese, que é a da opinião comum, que “ninguém faria uma coisa dessas”. Claro que fariam! Fariam muito pior do que isso. Quando os conservadores americanos reclamam do absurdo que é o cara não ter sido investigado, eu digo que eles estão completamente enganados. Ele foi investigado sim, e foi escolhido justamente porque não serve. Com isso você cria o fato. E mesmo que você prove depois que o sujeito é ilegítimo, quanto tempo vai levar isso aí? Quatro, cinco anos? E ele terá já exercido a presidência, de modo que por quatro ou cinco anos você terá tido um não-presidente. É como o problema da Sé vacante na Igreja Católica. Se a Sé fica vacante durante vinte anos, o que acontece? Todos os bispos sagrados são ilegítimos, e todos os padres que eles ordenaram também são ilegítimos, e então não há mais clero. Então, se o mandato do Papa não é válido, você vai ter de aceitar o mandato do Papa inválido como se fosse válido. Um belo truque. Não é difícil de pensar numa coisa dessas. É para estrategista de botequim, mas eles fazem isso. Nós vamos botar um cara ilegítimo, que viola a Constituição, mas isso vai se prolongar por tanto tempo que eles vão ter de dizer amém. Plano B: se falhar, se provar que o cara é ilegítimo, ótimo. Porque quem compõe o governo Obama? Oitenta por cento é a turma do Clinton, nos quais o Obama não manda. O Obama só tem controle sobre a turminha que ele trouxe de Chicago, os bandidos, os gangsters etc. Essa é a turma do Obama, mas não são eles que têm efetivamente o poder no governo. Então, se falhar tudo e o Obama cair, ótimo, porque já está a turma do Clinton no poder mesmo, então oficializa: entra o Joe Biden, que é agente deles. Nós impomos o Obama, e se não conseguirmos impô-lo, somos nós mesmos que saímos ganhando. É muito simples tudo isso. Isso é ciência política: [02:30] você ser capaz de ver, por trás de uma situação meio nebulosa, um esquema estratégico racional perfeitamente capaz de funcionar. Agora, quando a gente fala isso, o pessoal pensa que eu só falo isso porque eu não gosto do Obama. De fato eu não gosto do Obama, mas eu também não vou morrer de amores pelo Joe Biden, pela Hillary Clinton, e muito menos pelo John McCain, de modo que gostar ou não gostar não tem nada a ver com história. Mas os caras não tem idéia do que é isso. Eles só são capazes de raciocinar em termos que pareçam científicos para outros idiotas como eles. É tudo simulação de ciência. Eles falam coisas que pareçam respeitáveis para uma comunidade de semi-analfabetos como eles, e então nunca vão acertar. Eu contei, não lembro se aqui ou no programa de rádio, que em 1985 a Universidade de Indiana juntou trinta e cinco especialistas sovietólogos, e todos falaram que não havia o menor sinal de abalo na ordem soviética, e que aquilo duraria décadas. Passa cinco anos e o negócio vem abaixo, e nenhum deles pediu desculpas. Porque eles não fazem ciência: eles estão simulando, brincando. É assim: “Mãe, olha eu! Eu sou professor de sociologia, professor de ciência política, sou um cara bacana!” É só isso, é muleta de personalidade fraca, e então o cara precisa de um título, de uma posição, por quê? Porque ele não é nada’ Para você exercer uma ciência com seriedade, você precisa ser um homem de verdade. Se você for um homem de papelão, tudo o que você fala será de papelão. Então, essa condição existencial, real, para o exercício do conhecimento, é a condição número um, e é por isso que eu estou dedicando um ano inteiro só a isso. Só à condição moral e psicológica. Um ano inteiro deste curso vai ser praticamente só isso e mais algumas técnicas que a gente está passando. Claro que o resto do curso vai ser útil, mas se você tiver essa base, alguns, não todos, seriam até capazes de prosseguir sozinhos. Eu adquiri isso sem que ninguém me ensinasse, mas a vida me ensinou: me botou em tantas situações absolutamente insustentáveis que eu tive de desistir de todos esses papéis sociais, de todas essas falsas seguranças, por não tinha mais jeito. Chegou uma hora em que eu vi que eu tinha de tomar alguma atitude real, e que não adianta eu pensar, não adianta eu imaginar. Vocês estão aprendendo porque alguém está ensinando, mas eu fui ensinado na porrada. Graças a Deus vocês estão sendo poupados disso, porque eu perdi tempo. Eu levei trinta anos para aprender isso, e vocês vão levar um ou dois anos. Transcrição realizada por: Eduardo Dipp Revisão realizada por: Flávio Caetano