Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 19 15 de agosto de 2009 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso Online de Filosofia. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. [COF20090815] Boa tarde a todos. Sejam bem-vindos. Hoje eu quero passar dois exercícios que não é para vocês fazerem uma vez; é para que se tornem uma espécie de prática que pode ser repetida em vários níveis e com vários resultados ao longo do tempo. Ambos são baseados na distinção entre o que é compreender seus próprios pensamentos e o que é compreender alguma coisa. A maior parte das operações que nós fazemos durante o nosso processo educacional — seja na escola primária, secundária ou no curso universitário — se refere exclusivamente ao mundo dos seus pensamentos; tem pouquíssima ligação com a realidade da experiência. Logo que um indivíduo compreende um conjunto de pensamentos — que lhe são transmitidos pelo professor, ou que ele captou num livro, ou que ele mesmo pensou — ele acha que compreendeu alguma coisa. Compreender uma idéia é uma coisa; compreender uma coisa, uma entidade real, é outra completamente diferente. Aquele caso das pilhas de cartas pode mostrar esta diferença. Nele você vê que num certo nível o sujeito apreendia a lógica dos próprios objetos que estavam colocados diante dele imediatamente e que depois repetia a mesma operação com símbolos criados em sua própria mente; ele criava um esquema que imitava aquela situação e daí, manipulando os dados desse esquema, ele compreendia o que se passava. Entretanto, note bem que na segunda operação não há o grau de certeza obtido na primeira. A primeira é de certo modo imediata e você está manipulando os próprios objetos. Na segunda você cria um modelo que não é o objeto, mas um esquema simplificado do mesmo. Portanto você, quando chega a compreender o funcionamento do modelo, não tem a certeza de que aquilo se refere aos objetos — você tem então de testar. O teste pressupõe um segundo tipo de operações nas quais você simultaneamente tem de lidar com os seus pensamentos, com os esquemas mentais criados, e por outro lado você tem de lidar com os objetos propriamente ditos. Desses objetos você vai selecionar alguns pontos que correspondem ao esquema que você criou. Após você ter testado, você ainda não vai ter a certeza. O processo de lidar com os entes do mundo real através dos esquemas mentais que você criou é tremendamente complicado e praticamente todos os erros, todas as discussões, todas as controvérsias e todas as dificuldades que surgem no mundo da ciência e da filosofia vêm exatamente disso. Também é claro que a primeira operação, aquela que você fez pensando com as mãos (essa é uma expressão do Denis de Rougemont: pensar com as mãos), não é verbalmente transmissível. Você percebeu aquilo, mas para explicar o que fez seria necessário transpor esta experiência em signos verbais. Na segunda operação você a transpõe não em signos verbais, mas em signos visuais; você reconstitui visualmente a coisa na sua imaginação, mas, para explicar primeiro, você também teria que produzir um esquema mental com palavras. Esse esquema mental teria uma correspondência precária com entes, de modo que a explicação traria novas dificuldades. Na hora em que você tenta explicar aquilo, o outro não entende direito; você tem de repetir, tentar de outra maneira, etc. Muitas vezes na vida nós somos confrontados com essa opção: ou eu entendo a coisa e não a explico para ninguém; ou eu tento explicá-la e eu mesmo acabo não entendendo mais nada. É aquele famoso negócio de Santo Agostinho em que, quando perguntaram para ele o que é o tempo, ele diz: “Quando ninguém me pergunta eu sei, quando me perguntam eu não sei mais”. Ou então aquele episódio com meu filho Davi, que quando perguntaram para ele se seu nome era Davi ou Gabi e ele diz: “Pô, agora também eu já não sei mais!” Essas perguntas, que são produzidas por um estado de inquietação, insegurança, dúvidas, são elas mesmas, muitas vezes, um elemento paralisante. Muitas vezes nós não chegamos a compreender as coisas simplesmente porque nós queremos compreendê-las, ou seja, nós suscitamos perguntas e, como essas perguntas vêm de uma insegurança de base, a primeira coisa que elas fazem é criar uma distância entre você e o objeto, ou seja, para você se explicar para si mesmo, ou para outro, você precisa criar novos esquemas mentais. Note bem, os esquemas mentais são objetos da sua mente, não têm nada a haver com o objeto; é você quem os inventa. Aí você se afasta novamente do objeto para se fechar no mundo dos seus esquemas mentais e poder oferecer explicação, ou para outro, ou para você mesmo; e quanto mais tenta explicar, mais você vai se complicando. Eu acho que uma das finalidades da educação seria ensinar as pessoas a contornar estas dificuldades e operar a inteligência da maneira mais simples e mais frutífera e com menos espírito crítico. O espírito crítico, que induz você a uma análise aprofundada, tem a função do suco gástrico na digestão: você ingere a comida e daí tem de ter o suco gástrico para te ajudar a digerir; mas se não há comida nenhuma e você libera suco gástrico continuamente, então você consegue uma úlcera. A maior parte das pessoas que eu conheço sofre de úlcera mental: o processo crítico-analítico funciona neles demais e com pouco material. Isto começou acontecer sobretudo na minha própria geração de adolescente, quando havia muita gente que dizia que era contra a decoreba. Até a minha geração, eu peguei professores de estilo antigo que obrigavam, por exemplo, você a decorar a história. Eu tive um professor de história, chamado Francisco de Almeida Magalhães, que ainda usava este método, você decorava a história e depois disso você conversava a respeito. Daí entraram uns outros fulanos que diziam que esse negócio de decorar era errado e que você tem de ter é a compreensão crítica, então você lia duas linhas de história e começava uma discussão que não acabava mais e você não entendia era coisa alguma. Esta aparente apologia da compreensão terminava em total incompreensão, porque você não tinha material para discutir, você não tinha conhecimento suficiente dos fatos para que a intervenção do espírito crítico analítico pudesse dar algum resultado frutífero. Este é um problema que se propagou de tal maneira por toda a sociedade brasileira que hoje, se você abre esses sites de internet, de discussão, o que você vê é um bombardeio de análise crítica sobre o nada. As pessoas estão lá, analisando, sem ter conhecimento do assunto, sem ter material memorizado suficiente sobre o qual pensar, sem ter experiência vital. Isso aí é demência. Nunca ninguém vai chegar à coisa nenhuma por este lado. Por outro lado, eu perguntei a meu amigo Ahmed, que mora na China (aqui os camaradas que chegam da China tiram as primeiras notas em todas as escolas, chegam aqui e dão um banho em todo mundo; os técnicos chineses em tudo são os melhores do mundo, é algo impressionante) como é o ensino lá e ele me respondeu que é só decoreba. É claro que é assim, porque na língua chinesa, para você conseguir dizer mamãe, [00:10] você já precisa ter decorado 5.000 caracteres! Uma coisa que eu reparei aqui nos EUA também é que a língua inglesa é uma monstruosidade, qualquer coisa pode soar de qualquer maneira. O resultado é que você tem de decorar tudo. A língua é tão ruim que as pessoas são obrigadas a ficarem inteligentes. Nas línguas latinas isso não acontece, está tudo arrumadinho, você liga no piloto-automático e a língua fala por si mesma. Aqui não, o sujeito ler uma palavra não significa que ele a conheça, ele precisa perguntar para alguém como soa esta coisa. Mesmo assim ele sabe que pode soar de um modo aqui, de outro acolá, em suma, ele vai ter que estar sempre atento a aquilo. Há um trabalho de atenção e memória monstruoso. Na China é a mesmíssima coisa. A língua é tão ruim, tão complicada, que você precisa decorar um monte de coisa antes de você poder começar a falar, escrever, etc. E isto torna as pessoas inteligentes. Leibniz, o homem mais inteligente que apareceu no ocidente depois de Aristóteles — não há praticamente uma ciência ou um domínio da filosofia onde Leibniz não tenha feito contribuições absolutamente essenciais, indo desde a física até a jurisprudência, passando pela história, pela teologia, pela moral, pela química: tudo! —, dizia que o sujeito que tivesse visto mais figurinhas, ainda que fosse de coisas totalmente irreais, seria o mais inteligente. O tempo que vocês ficam analisando coisas, por que vocês não o usam colecionando álbuns de figurinhas? Dizem que, no Recife, antigamente, os garotos que vendiam jornal na rua anunciavam assim: “Jornal do Comércio! Quem não sabe ler vê figura!” Ver figurinhas e guardá-las na memória — muitas e muitas — isso era o que Leibniz recomendava. Ele devia saber o que estava falando. O que os chineses fazem quando aprendem a escrever? Os caracteres chineses são desenhos, figuras. O sujeito para escrever o chinês do dia a dia precisa de 5.000 caracteres; para escrever chinês erudito precisa de 15.000. Todo sujeito que saiu do ginásio decorou 5.000 figurinhas. Até aí ele não participou de nenhuma discussão, não exerceu nenhuma inteligência crítica, não deu palpite sobre nada, só decorou figurinha. É por isso que o chinês chega aqui e dá de dez a zero em qualquer um nos exames. E é por isso que os chineses têm essa capacidade tecnológica absolutamente monstruosa. Todos dizem que os chineses só copiam as coisas. Eles copiam sim, chegam aqui, olham rapidamente o produto, vão para casa e fazem o seu desenho, mandam-no para a fábrica e ali eles fazem outro produto igual. Isso aí é como Mozart, ele ia ao teatro, ouvia uma música e chegava em casa e escrevia tudo. De onde é que ele tirava isso aí? Era do pensamento crítico? Não, era da memória. A memória dele estava aberta para aquele negócio e se impregnava de tal modo que aquilo ficava e ele conseguia reconstituir — isso é a inteligência. A quantidade de raciocínio crítico que você precisa ter é exatamente esta: a quantidade de comida comparada com a quantidade de suco gástrico. Hoje em dia o ensino está invertendo isso: com pouquíssimo material, pede-se que o aluno diga o que acha, qual é a sua opinião, que ele exerça o seu pensamento crítico e o resultado é que ninguém aprende nada. Estes exercícios que eu vou lhe dar são, na verdade, exercícios de percepção. Não são exercícios de pensamento crítico, embora você vá precisar apelar muito à memória e à imaginação para eles. Não é propriamente para você pensar, mas sim para você recordar e imaginar. O que minha experiência me diz quando você pergunta de onde é que um sujeito tirou alguma opinião, qual é a história daquela opinião, como é que aquilo chegou até a sua mente, como é que se elaborou, etc. — invariavelmente a pessoa responde com argumentos em favor da opinião. Ela confunde origem com fundamento. Eu perguntei a origem e ela me responde com um fundamento, que na maioria dos casos foi inventado na mesma hora. Quando eu espremo a pessoa ela confessa que não sabe como é que aquilo veio parar na mente dela. Tudo que você possa argumentar em favor de uma idéia que você não sabe de onde veio é um remendo que você fez depois. A coisa está caindo e você coloca lá um durex, uma fita adesiva, é isso que as pessoas fazem. Isso é o pensamento na base da gambiarra. Se o indivíduo não sabe a origem de suas idéias, ele não sabe a sua própria história interior, não tem consciência de quem ele é intelectualmente. Se ele não tem consciência de quem ele é, então suas idéias são produtos soltos que não tem raiz nem dentro dele nem dentro da experiência e que, por isso mesmo, não significam absolutamente nada. E para que discutir idéias que não significam absolutamente nada? O resultado é que o ensino atual está transformando as pessoas em monstrinhos, em deformidades intelectuais formidáveis. Depois essas deformidades aparecem nos debates públicos. Outro dia eu vi uma discussão — até comentei no True Outspeak, apenas como notícia política e não analisando a coisa mais seriamente — entre o articulista da Folha de São Paulo, Contardo Calligaris e o poeta Ferreira Gullar. O Ferreira Gullar tem dois filhos esquizofrênicos e sabe o que é isso. Já houve desastres na casa dele por causa dos filhos, já o agrediram, etc. Se você tem um maluco em casa sua vida está desgraçada, essa é a verdade. Ele bravamente tem suportado isso há trinta anos, quando aparece esta lei que regulamenta a dificuldade para internar um maluco, seguindo a orientação da anti-psiquiatria, que desde os anos 70 começou a demonizar a internação psiquiátrica. Em função disso houve uma discussão, o Ferreira Gullar defendendo a internação e o Contardo Calligaris, que, ainda que reconhecendo alguns excessos, defendia a anti-psiquiatria dizendo que antigamente os psiquiatras eram agentes de repressão da sociedade autoritária, que depositavam nos hospitais, como prisões, as pessoas que tinham conduta divergente ou inconveniente; e a partir da anti-psiquiatria as pessoas foram libertadas. O Ferreira Gullar, que foi comunista a sua vida inteira, mas não é idiota, sabe mais ou menos do que está falando, sobretudo nesse caso onde ele tem a experiência pessoal da dificuldade — mas sabe do ponto de vista microscópico, caso por caso. Eu acompanhei aquela discussão até o fim e vi que nenhum dos dois tinha a menor idéia da origem da anti-psiquiatria. Estavam os dois discutindo não uma realidade que é a anti-psiquiatria como ela existiu no mundo, como um movimento que começou primeiro na Itália com o tal do Franco Basaglia, que depois veio para os EUA e liberou todos os malucos dos hospitais psiquiátricos, os devolveu para suas casas, [00:20] enlouquecendo várias famílias também. Eles estavam discutindo o conceito de anti-psiquiatria, mas o que ela é historicamente? O que aconteceu historicamente foi o seguinte: se você pegar esta definição que o Calligaris fornece da psiquiatria antiga, que os psiquiatras eram agentes da sociedade repressiva que excluíam do convívio social as pessoas com conduta divergente, havia um lugar no mundo onde esta definição se aplicava literalmente: era a URSS. Lá os hospitais eram órgãos da repressão. Se o sujeito tinha uma idéia divergente ele era colocado em um hospital psiquiátrico, como foram colocados milhares de dissidentes, dentre os quais o Vladimir Bukovski, que passou, eu acredito, uns dez anos internado sem nunca ter sido maluco — e não sei como não ficou maluco lá dentro. “Se você é contra o socialismo, nós te damos uma injeção de haldol, nós te colocamos numa camisa de força, nós te damos eletrochoque”; e assim por diante. Na URSS isso acontecia mesmo. Agora, de uma maneira não literal, e sim metafórica, a coisa podia acontecer também no Ocidente. Havia casos, por exemplo, em que um sujeito estava querendo ter um caso com outra mulher, inventava que sua esposa era maluca e a internava. Isso aconteceu algumas vezes. Houve outros casos onde o sujeito não era realmente maluco, mas alguém decidia, por exemplo, em uma discussão de herança, afastar um sujeito. Caso houvesse vários herdeiros e um deles levasse a maior parte, então os outros poderiam decidir interditá-lo, mandá-lo para o hospital psiquiátrico, pegar um atestado de que o sujeito é louco e pronto, acabou. Você ficaria como o guardião da herança dele. Aconteciam essas coisas, mas aconteciam como exceção. Ao mesmo tempo havia inúmeros casos em que a internação era benéfica, o sujeito era internado um tempo, levava os seus eletrochoques, tomava o seu haldol e saia relativamente bem. Os hospitais eram feitos para isso. Havia duas situações: uma onde a idéia da psiquiatria como instrumento repressivo era uma realidade material comprovada; outra onde ela podia ser aplicada como figura de linguagem. Aconteceu que, quando essa coisa da psiquiatria política da URSS começou a ser denunciada no Ocidente, aquilo começou a virar um escândalo e logo veio o troco: pegaram aquela mesma descrição que se dava dos hospitais psiquiátricos soviéticos e aplicaram-na metaforicamente a todo o sistema psiquiátrico ocidental. Quem fez isso foi um sujeito chamado David Cooper, que era um agente da KGB. Eu sei disso por meio do depoimento de um colega dele, Ronald Laing. Na Itália, foi o Franco Basaglia, um membro do Partido Comunista e discípulo de Antônio Gramsci. No mundo de fala anglo-saxônica, David Cooper era materialmente um agente da KGB. Toda a anti-psiquiatria foi um truque inventado pela KGB para desviar a atenção do fenômeno da psiquiatria política soviética usando as mesmas categorias descritivas para uma situação onde elas só se aplicavam metaforicamente. O metafórico virou literal e o literal desapareceu. Esta é a história da anti-psiquiatria. É claro que um movimento inventado com estes propósitos tem pouquíssima relação com a situação real do doente mental, o qual é usado como pretexto para uma operação política. Estavam os sujeitos discutindo, o Ferreira Gullar e o Contardo Calligaris, e nenhum dava a origem da idéia. Então o conceito ficava flutuando no ar como se fosse uma forma platônica e como se tivesse surgido do céu. É o caso de se perguntar o que alguém acha das internações psiquiátricas e então o sujeito dá a sua opinião; mas ele não tem noção do contexto histórico em que isso surgiu, que é o que dá o significado do que está sendo discutido. Em geral as discussões públicas, sobretudo no Brasil, são só de idéias, de produtos mentais. A conexão delas com a realidade torna-se impossível de restaurar depois, porque a discussão das idéias tem a sua dinâmica própria, ela vai crescendo, cria um novo contexto cultural. Quando você quer voltar ao contexto histórico, as pessoas dizem que isso é argumento ad hominem, que você tem de julgar as idéias em si mesmas e não os sujeitos que a produziram, como se a anti-psiquiatria fosse somente uma idéia e não uma ação histórica efetiva. Seria como você discutir pena de morte sem levar em conta que as pessoas morrem. É claro que tudo isso é uma deformidade mental, uma incapacidade. Eu gostaria que um dia houvesse discussões públicas no Brasil em que as pessoas estivessem conscientes daquilo que estão falando, mas se você não sabe sequer de onde surgiram as suas convicções pessoais, como você vai saber de onde surgiram as discussões públicas que estão aí? Você vai pegar os símbolos já estereotipados e prontos e vai discutir aquilo acreditando que está discutindo a realidade. Isso é como duas criancinhas de cinco anos discutindo a vida sexual de papai e mamãe. Elas não vão entender é nada, vão falar de símbolos remotos. É como a menininha, uma vez eu li, que perguntou: “Mamãe, o que é um orgasmo?”; ao que a mãe, após pensar durante um tempo, respondeu: “É como um espirro.”; e daí a criança vai discutir aquilo como se fosse um espirro. No fim todas essas discussões ficam apenas no plano, não têm a profundidade de contato com o real. Esse exercício que eu vou dar para vocês é para vocês se acostumarem a referir as idéias e as opiniões ao que elas têm de experiência biográfica real, aquilo que vocês realmente sabem ao longo da vida. O primeiro exercício é perguntar o que é você conhecer alguma coisa. Não vá me dar uma resposta teorética, pelo amor de Deus! Não é isso que eu estou perguntando. Você vai pegar uma pessoa que você conhece e outra que você apenas viu, ou que nunca viu, e você vai examinar, na sua experiência, qual é efetivamente a diferença entre uma coisa e outra. Note bem, eu não quero uma explicação teorética: “Conhecer é isso assim, assim, assim, assim...” Eu quero que você descreva para si mesmo, não precisa nem ser em palavras — e no começo você não vai mesmo conseguir explicar em palavras, isso vai lhe aparecer muito confusamente na sua consciência, mas é preciso que você reflita inúmeras vezes isso —, a experiência de conhecer alguma coisa e não conhecer alguma outra. Você pode fazer isso com relação a uma pessoa, mas você pode fazer isso também com relação a uma máquina que você diz que conhece e outra que você não conhece. Qual é precisamente a diferença? Ou digamos a diferença entre um livro que você leu e um que você não leu. Você imagina alguma coisa a respeito do que está no livro que você não leu, se não você nem ouviu falar, você não teve notícia dele. Imagine um livro que você leu, que você gostou muito, e do qual você se lembre bem. Qual é a diferença entre este livro e outro que você não leu? [00:30] Qual é a diferença em termos da sua experiência real? Você verá que esta diferença não pode ser descrita só no nível da informação, porque não resolve o problema você dizer “Olha, a respeito do livro que eu li eu sei mais do que o do livro que eu não li”. Não é disto que eu estou falando. Porque isto não é uma resposta, é a própria pergunta. É claro que o nível de informação é maior, mas não é disto que estou falando. A diferença da relação do que você conhece com o que você não conhece não está só no nível da informação, mas também está no nível do poder, quer dizer, daquilo que você pode fazer com este conhecimento. E também está no nível da afeição. Com este exercício vocês verão que existe um elemento em todo conhecimento que normalmente nós não associamos com o conhecimento – mas apenas com as relações humanas – que é o elemento de intimidade ou de proximidade, onde você sente que aqueles elementos conhecidos já não estão só no objeto conhecido mas fazem parte de você. Nesse sentido, como você os incorporou e eles são valores para você, são elementos da sua vida, não é só mais o objeto que é responsável por eles, mas você também. De certo modo, você responde por aquilo. E você não responde pelo que você não conhece. Então, existe o elemento de intimidade, o elemento de identificação, e o elemento de responsabilidade. Por exemplo, você não assume responsabilidade por uma pessoa que você não conhece. Chega um sujeito e diz para você: “O seu vizinho está querendo comprar o meu carro e diz que vai me pagar em três meses. Você conhece o cara? Será que ele vai me pagar mesmo? Se você conhece bem o sujeito e confia nele, você diz: ‘Não, pode vender, pode confiar.’” Agora, se você não conhece, você vai assumir? Não! Então, o que o sujeito conhecido tem que o outro não tem? Qual é a diferença da sua experiência, da sua vivência? O que acontece na sua alma com relação à coisa conhecida? Se você não meditar sobre isso, e não fizer esse exercício mil vezes, não adianta você ler mil livros de teoria do conhecimento ou de epistemologia, porque você nunca vai entender do que eles estão falando. Então, qual é a diferença entre conhecer e não conhecer? O que aquele objeto conhecido – seja uma pessoa, uma idéia, um livro, um equipamento, uma máquina, um bicho – tem que os outros não tem? Por exemplo, você tem um cachorro, você conhece seu cachorro. Agora, tem um outro cachorro na rua que você não conhece. Qual é a diferença? Não é para verbalizar isto aqui, não verbalize nada. Só tentem recordar e ver qual é a experiência que você tem de um, e a experiência que você tem de outro. Verbalizar só daqui a seis meses. O sujeito que conseguir verbalizar isso na primeira é o William Shakespeare. Não vai dar para verbalizar. Mas note bem: como é que William Shakespeare terminou sendo William Shakespeare? Como é que ele poderia verbalizar coisas que ele não percebeu ou que só percebeu num relance e em seguida esqueceu? Se não há esse aprofundamento memorativo da experiência, muito menos você vai conseguir repetir aquela experiência, ao ponto de dominá-la e conseguir verbalizá-la. Então, é importante você ver que de toda a imensidão de percepções, sensações, pensamentos, tudo o que se passa dentro de você, você só consegue verbalizar uma coisinha mínima. E você consegue recordar uma coisinha mínima. Mas note bem: onde está o depósito da sua inteligência senão aí mesmo? E se você quer ser inteligente, bom, é ali mesmo que você tem que buscar. Então, lembre a experiência das cartas. Você sabe mais do que você sabe que sabe; você compreende mais do que você sabe que compreende; você percebe mais do que você sabe que percebe. Aonde você vai buscar uma intensificação da sua inteligência? É ali mesmo, no que você já tem. E este é o sentido do que Sócrates e Platão falavam da anamnese. O que é a anamnese? É você recordar o que você já sabe. A explicação que Sócrates dá é mítica, poética. E não obstante, está tudo ali. Quer dizer, o depósito do seu conhecimento já está em você. É que a nossa atenção reflexiva passa rapidamente sobre esse fundo de conhecimento e vai embora, vai pensar em outras coisas. Em geral, a nossa atenção reflexiva é dominada pelos assuntos que estão em discussão fora de nós, na sociedade, que as pessoas falam. Ou seja, para onde as pessoas chamam a tua atenção, é lá que a tua atenção reflexiva vai funcionar. Ela vai pensar mais sobre o que os outros estão falando do que sobre o que você já sabe, e é aí mesmo que você fica burro. Então, o segredo é você fazer com que essa atenção reflexiva se volte para dentro e puxe desse fundo o que você já sabe, o que você já percebeu. Só que, cuidado, se você volta a atenção reflexiva para dentro e começa fazer análise crítica, ou começa a querer verbalizar, você destrói tudo. Você precisa domar a sua atenção reflexiva para que ela lide com esses seus materiais internos de maneira delicada, cuidadosa e humilde. Então, como a atenção reflexiva é a parte que fala, socialmente, ela se acha muito importante, e quando ela vai lidar com a memória, a imaginação, ela entra que nem um touro numa loja de louça destruindo tudo. Então, o que é que sobra? Sobra em você só a parte falante. E você vira, digamos, o Contardo Calligaris, o que não é a pior desgraça; com um pouco mais de treinamento você vira o Emir Sader. Quer dizer, a única parte que opera na pessoa é a máquina falante, a máquina de pensamento crítico. Fala, fala, fala, analisa tudo, destrói tudo, e não sabe nada. Você tem que entender que existem dentro de você camadas que funcionam de uma maneira mais discreta, porém muito mais rápida, e que sabem mais do que você sabe. Então, não adianta você procurar o seu guru interior, porque não tem guru interior nenhum; é você mesmo. Se você tentar puxar de lá de dentro o que você já sabe – como, por exemplo, a distinção entre o conhecido e o desconhecido. Quando você encontra uma pessoa conhecida você tem uma reação, quando é um desconhecido, reage de outra maneira. Quer dizer, você sabe fazer esta diferença. Na relação entre o conhecido e o desconhecido, note que você sabe toda uma constelação de reações altamente complexas que entram em ação sem que você sequer pense nisso. Quando vê o desconhecido vem a memória das coisas vividas em comum, valores e afeições compartilhados, a lembrança de terceiros que estão associados. Tudo isso aparece sozinho, olha quanta coisa você está sabendo. Nunca precisei pensar para saber nada disso. Para fazer este exame, é necessário que a sua atenção reflexiva seja humilde, e que em vez de operar ditando regra, ela entre para pegar e receber aquele material, [00:40] sem analisá-lo criticamente, e sobretudo sem criticá-lo, sobretudo sem espremê-lo, e nem mesmo tentando verbalizá-lo. Esse exercício de verbalização vocês vão fazê-lo mais tarde – verbalizar a sua experiência interior. Mas para chegar a esse exercício de verbalização, você precisa ter alguma prática na arte de imitar os escritores, e precisa ter alguns exercícios de formação de vocabulário. Formar vocabulário não é decorar o dicionário. Como é que você forma o vocabulário? É buscando as coisas que você já conhece, e cujo nome você desconhece, para em seguida buscar esses nomes. Quer dizer, você não partir das palavras para encontrar as coisas respectivas, mas, ao contrário, você vai partir das experiências que você tem e buscar os nomes que expressem aquilo. Por exemplo, um exercício muito bom é você olhar para a sala onde você está e ver se você sabe os nomes de todas as cores e de todas as gradações que existem ali. Em geral, a gente não sabe. Mas se você está percebendo estas cores, você sabe a diferença entre elas; você só não sabe dá o nome. Então, a sua inteligência reflexiva, falante, tem que aprender com aquela outra mais básica, porque ela é sempre a mais burra. A percepção é enormemente inteligente, as sensações são enormemente inteligentes, a intuição é inteligente, a memória é inteligente, a imaginação é inteligente, só a parte falante que é burra; e é justamente a parte falante que a gente sempre segue. Na escola antigamente as pessoas faziam exercícios de descrição, mas eram exercícios tão esquemáticos e tão pobres, que não dava nem pro começo; mas hoje em dia eu acho que nem isso se faz. Dizem assim: “Onde já se viu obrigar a criança a descrever a realidade? Isso é limitá-la. A criança tem que inventar o que ela quiser”. Muito bem. Se vocês entenderam este primeiro exercício, vou lhes passar um outro. Veja, houve aqui uma pergunta que chegou hoje e parece que a pessoa leu os meus pensamentos. Olha aqui: “Durante o meu curso de economia, numa aula de sociologia, uma prova me pediu como resposta a identificação no mundo real de um conceito sociológico.” Ora, uma vez no curso de economia pediram para descobrir no mundo real um conceito sociológico. Uma vez! Como é que você faz para identificar isso no mundo real? Resposta: você não pode fazer isso. Porque nenhum conceito sociológico ou econômico pode corresponder diretamente a nenhum fato do mundo físico. Eu vou mostrar para vocês como é que você chega a ter uma percepção da sociedade humana que lhe permita mais tarde saber a que corresponde aos conceitos econômicos, sociológicos, etc. Então, você vai ficar sentado na sua sala, no escritório, pode ser na cozinha, no banheiro, vai pegar uma folha de papel e fazer uma lista de todos os objetos que tem ali. E daí você vai pegar cada um daqueles objetos e perguntar assim: “Como foi que isto veio parar aqui?” Não vale dizer que você comprou no Wal-Mart. Ah, bom, mas como é que foi parar no Wal-Mart? Parta do princípio infalível de que estas coisas não existiram desde sempre; por assim dizer, elas vieram à existência. Por exemplo, você pode rastrear como surge uma garrafa de água Perrier. Então, este negócio ajunta duas coisas absolutamente heterogêneas que jamais poderiam ter vindo do mesmo lugar: a água e o plástico da garrafa. Mais ainda, há umas letras impressas na garrafa. Água, plástico e letras não podem vir do mesmo lugar. Faça então o seguinte exercício. Tente imaginar a fonte onde o sujeito descobriu a água. Isso bastou? Não. O sujeito precisou levar a água até o laboratório para ver que propriedades aquele raio de água tinha. O laboratório também não surgiu do nada, alguém teve de construí-lo, e os técnicos que trabalham lá tiveram de estudar química, farmacologia etc. E daí o sujeito soube que tinha uma água maravilhosa, mas pensou: “Como é que eu faço para explorar isto aqui. Eu não tenho dinheiro.” Então, ele decide fazer um empréstimo num banco. O banco também não saiu do nada. Alguém teve de acumular uma riqueza que no começo pode ter sido roubada. Convenhamos, muitos bancos surgiram assim. Mas foi muito tempo atrás, a gente já não lembra essas coisas. Então, você tem aí toda uma história: a história da origem dos bancos. Daí, o sujeito vai ao banco e consegue convencer o gerente a lhe emprestar algum dinheiro. Agora, ele começa a pensar nos equipamentos para extrair a água e engarrafá-la. Você veja que coisa enormemente complexa, tudo para chegar a essa garrafinha aqui. E você vai tentar reconstituir para cada objeto que está ali a origem, o rastreamento todo, desde o seu estado de matéria-prima sem forma – ou com uma forma completamente diferente – até ter adquirido a forma atual. Por outro lado, é preciso engarrafar esta água. Agora é garrafa plástica, antigamente era vidro. O processamento do vidro é uma das coisas mais fascinantes que existe no mundo. Uma vez, eu fui comprar uma chapa de vidro e acabei ficando oito horas no escritório do sujeito porque ele me explicou tudo sobre o vidro e eu saí dali atônito. Inclusive, eu descobri que ninguém sabe se o estado do vidro é sólido ou líquido. Quer dizer, a chapa tende a dobrar, a derreter, só que leva muito mais tempo do que a água. As janelas das catedrais medievais, se você em vez de olhar de frente olhar de lado, elas têm o formato de um pingo, porque ela vai descendo e derretendo. Olha que material mais enigmático, não é mesmo? E justamente é essa natureza ambígua do vidro que permite que ele seja processado industrialmente pelo fogo. Então, se fosse o vidro, você ia reconstituir a história do vidro para saber como fizeram a garrafa. Como é plástico, complicou mais ainda, porque é preciso furar um poço de petróleo. E daí como é que se faz para transformar o petróleo no plástico. Tudo isto foi feito, não é invenção sua! Para que isso chegasse aqui, tudo isso foi feito realmente. Você está reconstituindo na sua imaginação, mas esta imaginação está muito próxima da realidade, porque você está reconstituindo ações humanas que foram realmente praticadas. Este exercício eu devo a um pai de um colega meu. [00:50] Uma vez, eu estava na casa dele e nós estávamos comendo um lanche na cozinha e o pai, que era um sujeito inteligentíssimo, chegou e disse: “Como é que essas coisas vieram parar na sua mesa?” Então, ele perguntou como é que se fazia o presunto, como é que se fazia o pão... E aí eu pensei: Puxa vida, para comer um simples lanche, eu estou dando trabalho pra toda essa gente? Estou. E no momento em que você faz esse exercício – não é para fazer uma só vez – é para sempre lembrar disso. Você está saindo de um mundo de objetos ao mesmo tempo mágicos mas inertes, para um mundo de objetos historicamente vivos. Quando você tiver feito essa listinha e chegar no décimo objeto - se você não tiver os elementos imaginários [para saber como se faz], procure na enciclopédia como se faz aquilo- você vai ver a imensa complexidade de ações humanas que foram necessárias só para você ter aquelas coisinhas no seu ambiente, nesse instante você vai perceber porque é que o socialismo não funciona. Porque você imagina se pode existir um escritório central onde alguém coordena tudo isto, não para os objetos que estão na sua sala ou na sua cozinha, mas para todos os objetos fabricados pelos seres humanos. É uma idéia tão imbecil, que ninguém jamais deveria ter pensado. É claro que essa imensidão de ações humanas, essa trama enormemente complicada de ações humanas, necessárias para que você tenha um copo, uma garrafa, uma mesa, um cigarro etc. etc., não pode ser administrada por ninguém. Porque isso é a variedade inteira das ações humanas. Ou seja, administrar a economia é administrar o universo. Ninguém pode administrar isso aí, só Deus pode. E mesmo Deus tem algum trabalho para fazer isso. Você quer se livrar do socialismo de uma vez por todas? Faça esta experiência. Como foi produzida cada uma dessas coisas que estão aqui? Ao fazer esse exercício, você está saindo de um mundo alienado, subjetivo, para a trama da história real onde você está. Agora, é curioso que o próprio Karl Marx, que dizia que a coisa essencial na vida é o processo de produção – quer dizer, a transformação humana da natureza -, como é que ele pôde pensar nisso e terminar na idéia socialista? Mas é um jumento mesmo. Ele não pensou isto que nós estamos falando; ele pensou só os conceitos abstratos. Ele não lembrou que cada uma daquelas coisas tinha que ser feita. Agora, você imagina na fabricação de uma coisa dessa o número imenso de percalços que pode ter. Por exemplo, imaginem que quando o sujeito está transportando a água, o pneu do caminhão fura. De onde veio o pneu? Para haver o pneu, foi preciso um sujeito fazer um buraquinho numa árvore lá no Amazonas, depois recolher uma material, passar uma faca, ferver aquilo várias vezes, até chegar a essa consistência do pneu. Isso, esquematicamente. Mas vamos supor que eu não estou falando de pneu em geral, mas deste pneu. Como foi que este preciso pneu veio parar aqui? De onde ele veio; onde o sujeito comprou a matéria-prima; quem foi que trabalhou aquilo? E voltem sempre a isso, para dar consistência ao mundo dos seus pensamentos sócio-econômicos. Eu concordo com Karl Marx: é claro que uma coisa importantíssima da vida humana é a transformação da natureza em objetos que nos servem. Não tenho a menor dúvida. Só que por isto mesmo eu sei que isto não pode ser administrado. Por exemplo, você acha que cada uma dessas empresas – que fabricou essa garrafa, que perfurou o buraco para tirar a água, que fez esta mesa etc. etc. - é perfeitamente administrada? Será que nenhuma delas perde dinheiro? Meu Deus, para administrar uma já é um desastre... Olha aí, a General Motors acabou de falir; é um negócio grande demais, complexo demais. O que é que eles fazem? Inserem essa máquina complexa numa outra mais complexa ainda, que se chama Governo. Então, esse é um exercício que Balzac fazia. Balzac foi o verdadeiro guru de Karl Marx. Balzac entendia como funcionava uma economia; Karl Marx não entendia. Porque ele mesmo no começo d’O Capital diz que o instrumento que ele vai usar é precisamente a abstração. Ou seja, ele cria um conceito e passa a trabalhar com aquele conceito. Este é o modo certo de não entender nada. Porque uma coisa é a economia dos conceitos; outra coisa é a economia quando ela funciona realmente. A economia é uma trama inabarcável de ações reais humanas praticadas em cima de objetos reais encontrados na natureza. E essas ações humanas se encavalam e se entrecruzam umas com as outras, vindo de direções completamente diferentes. Por exemplo, quando o sujeito faz o buraco e encontra a água, ela vai ao banco pedir um dinheiro para poder explorar aquela água. Se ele for parar para entender tudo a respeito de banco nesse caminho, ele não vai fazer a empresa de água dele jamais, ele vai passar o resto da vida tentando entender os bancos. É essencial que ele não entenda tudo; alguém tem que entender para ele. Na hora em que você começa a ver como a sua vida depende das ações de milhares de outras pessoas, então você começa a entender a verdadeira natureza humana. Entende o que Santo Agostinho quis dizer quando ele afirmou que a base da sociedade humana é o amor ao próximo, porque se tudo isso funcionasse na base da sacanagem, na base da luta de todos contra todos, não daria para furar o primeiro buraquinho para encher a primeira garrafa de água mineral. Tudo isso de que eu estou falando acontece na base da colaboração. São pessoas que se ajudam umas às outras. Note bem: o elemento de ajuda transcende tão infinitamente o elemento de vantagem e lucro, mas tão infinitamente, que o lucro passa a ser um elemento a mais, sem o qual o sujeito não sobreviveria evidentemente, mas o lucro é a parte de auto-ajuda que existe numa coisa que toda ela feita para os outros. Por exemplo, qual é a margem de lucro das grandes empresas? Quando chega a 2%, 3% ao ano, é uma monstruosidade. Se você pensa, por exemplo, na Apple ou na Microsoft, meu Deus, quantos computadores não fizeram! Quantas pessoas foram ajudadas por esses computadores?! É algo que já salvou milhares de vidas, que facilitou a vida de todo mundo, que veio para aliviar o trabalho dos seres humanos. E depois, quando chega o fim do ano: ganhamos 1,2%. E ainda chega um filho-da-puta para dizer que a base da economia é a exploração do homem pelo homem. O que é que é isso? É falta de imaginação; é uma imaginação desconectada da experiência real. São pessoas que nunca fizeram este exercício que eu estou lhes dizendo. [1:00] Eu, por exemplo, sei o quanto sou grato ao sujeito que inventou o computador e a fábrica de computadores, porque se não existisse computador jamais teria publicado qualquer livro. Os meus papéis, até o ano de 1990, estavam numa confusão tamanha que eu jamais conseguiria juntar aquilo para fazer um livro, nunca. Mas veio o computador, contratei uma garota e disse: “você passa tudo isto aqui para o computador”. De repente consegui dominar aquela selva, e só comecei a escrever livros porque existe o computador. Senão, eu nunca teria feito isso. Mas se o sujeito no fim do ano ganhou 1,2 ou 1,3% de lucro... Coitado! Ele fez um benefício tão grande para tantas pessoas. O lucro dele é até injusto, ele deveria ganhar 10, 20, 30%, o que infelizmente não dá. A economia é assim. Mas chega o desgraçado e fala que é a exploração da mais-valia e etc. O mundo de Karl Marx só tem duas pessoas: o patrão e o empregado. Não tem o consumidor. Isso é uma das coisas mais extraordinárias, quer dizer, ele leva em conta o processo de produção e diz que o valor da mercadoria é a quantidade de trabalho socialmente necessária para produzi-la. Mas ninguém compra essa porcaria? Por exemplo, outro dia rifaram uma calcinha da Madonna. Um sujeito pagou dois milhões pela calcinha dela. Quanto trabalho socialmente necessário deu para produzir a calcinha da Madonna? Nada! Como havia um monte de milionário louco, fã da Madonna, aquilo passou a valer dois milhões. É uma coisa extraordinária, porque no mundo da economia de Karl Marx ninguém compra nada, só se produz. Só existem burgueses e proletários. Isso é abstracionismo, é uma imaginação desconectada da realidade. O fato é que quando Karl Marx escreveu “o Capital”, ele até então nunca tinha visto um proletário. Nunca entrara numa fábrica, nunca conversara com um proletário. Só conhecia os líderes proletários, que já não trabalhavam mais, evidentemente. Eram que nem o Lula, que foi torneiro mecânico dois anos, entrou para o sindicato e hoje já não consegue distinguir entre um torno mecânico e uma vaca. E,também, como torneiro mecânico não devia ser grande coisa, pois torneou o próprio dedo. (O meu pai era aficionado por tornos, brincava com tornos desde moleque, tinha lá seu torno e nunca cortou o próprio dedo e muito menos a própria cabeça. No caso do Lula a cabeça foi junto). O Karl Marx conheceu apenas esse tipo de proletário, o ex-proletário, enquanto Engels tinha uma fábrica de tecelagem e via os empregados da própria fábrica. Prossigam com esse exercício e vocês sairão desse mundo fictício. Meu filho Thales tinha uns três anos quando me perguntou: “pai, onde fica a fábrica de batatas?” O mundo econômico no qual as pessoas vivem é mais ou menos como esse. É o mundo onde as batatas são fabricadas e os carros brotam em árvores. Não é uma questão de estudar economia, eu conheço pessoas que estudaram economia a vida inteira e não sabem isto aqui. Isto não é a ciência econômica, é o suporte memorativo e imaginativo da ciência econômica, e se você não tem isto, toda sua ciência econômica não serve para nada, porque você não sabe do que está falando. E chega um dia no qual o professor pede para relacionar um conceito com a vida real. Uma só vez o professor pede para você fazer isso! Olha que coisa extraordinária. Se for para relacionar neste momento a coisa com a vida real, então do que estivemos falando até agora? Estivemos falando de esquemas mentais! Onde não há esse suporte imaginativo, não há contato com a realidade, porque é claro que você não poderá acompanhar fisicamente a fabricação de tudo o que existe, vamos dizer, dentro do seu banheiro. Se você mora dentro de uma quitinete, eu digo: dentro de sua quitinete tem um mundo, meu filho. A quantidade de trabalho humano que aconteceu para encher a quitinete de coisas é uma monstruosidade. Com isso, você acaba saindo daquele mundo fechado e morto, conectando-se ao mundo da história real. Lembra-se dos dois exercícios? O primeiro é a diferença entre o conhecer e o não conhecer. Esse não é para verbalizar, mas o segundo é possível verbalizar razoavelmente. Tente imaginar não esquematicamente, tente imaginar dramaticamente, quer dizer, visualizando como se fosse um filme. Por exemplo, aqui tem uma mesa. Então, onde se encontra esse tipo de madeira? Nem toda madeira nasce em qualquer lugar, logo, o sujeito tem de achar essa madeira em algum lugar. Imagine o sujeito vendo a árvore, serrando, colocando no caminhão, empacotando... Tente fazer como se fosse num filme. E faça vários filmes que vão se cruzando, como se fosse um Balzac. Como Balzac fez a Comédia Humana? Ele foi cruzando. Ele inventava a história de um sujeito que cruzava com a de outro, que cruzava com a de outro... E o personagem reaparecia e etc. Acabou fazendo uma trama que simboliza a totalidade da sociedade francesa da época. Você vai tentar fazer a mesma coisa sem escrever, porque se escrever isso já é um Balzac! Não estou pedindo isso para você. Invente os filmes e cruze os filmes. Lá vinha o sujeito trazendo aquele toco de árvore no caminhão e de repente o pneu furou. Então vem outro sujeito que furou a seringueira (hoje tem processos muito mais avançados, use qualquer um deles) etc... Você vai reconstituindo como a história dessas várias pessoas vai se encaixando até que tudo chegue no seu quarto, na sua cozinha, em qualquer lugar. Fazendo isso você pegará algumas qualidades morais que são indispensáveis para o bom cidadão. Se a pessoa não tem isso, não tem idéia do que os outros estão fazendo por ela, e não terá aquele sentimento de gratidão sem o qual você nunca respeitará ninguém. É normal um bebê pequeno proceder como se fosse o centro do mundo, ele está ali para ser tratado, paparicado e satisfeito em todos os seus desejos. E quando ele não o é, o que faz? Ele chora. Acontece que a maior parte das pessoas é assim para o resto da vida. Tudo aquilo que não sai do jeito que tais pessoas querem, faz com que chorem e fiquem indignadas. Ora, antes de pensar nos seus direitos (e essa noção de direitos eu acho que o bebezinho já tem, só não sabe verbalizar. Ele acha que o que ele quer é direito dele) você deve pensar na substância da vida da sociedade humana e como tudo isso é feito na base da pura colaboração. Veja que o elemento de desejo de riqueza e de cobiça entra ali. Mas é o seguinte, o sujeito que faz o pneu não pode ficar só pensando em desejo de riqueza, ele terá que pensar em pneu. E o que ele quer? Ele quer só o dinheiro, mas para isso ele precisa pensar em pneu, porque alguém precisa do pneu. E é do mesmo modo para todos os trabalhos que são feitos no mundo. O que você ganha no final, o salário, o lucro, é apenas o efeito colateral. Não é nisso que você vai pensar, mesmo que você seja um banqueiro que só pensa em dinheiro, porque não é no seu dinheiro, e sim no dinheiro dos outros que você deve se concentrar. Por exemplo, se você emprestar dinheiro para uma fábrica, é do seu máximo interesse que aquela fábrica prospere. Então você terá que bombear aquilo para o negócio prosperar. Se você pensar: Não, eu quero o dinheiro todo para mim, e a fábrica que vá se ferrar... Então o empréstimo que eles pegaram com você não será pago. Eu conheço muitas pessoas que têm ódio de banco. Já eu sou infinitamente grato à existência de bancos. Alguém teve que inventar essa coisa. Teve que funcionar. Um dia, precisei de um empréstimo de banco, aqui na Virgínia, fui lá pedir e os sujeitos examinaram meu crédito. Eles disseram: “Não dá. O senhor não tem recurso para garantir este empréstimo”. As pessoas ficariam revoltadas, mas só que seis meses depois veio a crise dos bancos, por quê? Porque eles emprestaram para pessoas que não poderiam pagar. Aquele gerente do banquinho que me recusou o empréstimo foi um santo homem. Se todos fizessem como ele não haveria a crise bancária. Por que é tão difícil para as pessoas entenderem isso? Porque a imaginação de cada um está presa somente nas circunstâncias de seus desejos imediatos, impossibilitada de conceber a sociedade humana com a maturidade necessária para a discussão das grandes questões públicas. Recebi aqui uma pergunta um pouco longa e que na verdade escapa um pouco do que estava programado para este curso, mas a pergunta foi feita com tanta atenção, com tanta dedicação e está tão bem feita que eu acho que ela merece resposta, por ser um assunto do interesse de todos. A carta é do Marco Borggert. Eu lerei a carta e depois vou responder. “Em uma aula recente você falou bastante sobre Schuon e Guenon, desenvolvendo o ponto de vista segundo o qual, pelo que entendi, todos os escritos desses autores são parte de um plano desenvolvido dentro de uma tariqa para a islamização do ocidente a partir de sua elite intelectual. Teria eu entendido mal?” Não, não entendeu mal, é exatamente isso. “Se não entendi mal, gostaria de propor outra leitura para os mesmos fatos que foram por você observados. Vale dizer que também sou testemunha ocular das atividades das Tariqas. Já no mais básico de seus livros - A Crise do Mundo Moderno – Guenon deixa claro que, dado o contínuo declínio da tradição ocidental, havia somente três possíveis caminhos para a civilização ocidental. Primeiro, o retorno ao catolicismo tradicional; segundo, a conversão ao Islã; terceiro, a barbárie. A barbárie, ele escreve, é a conseqüência inevitável da ausência de uma tradição autêntica. Escreve também que seria lamentável a adoção do segundo caminho, visto ser o Islã algo exterior ao ocidente e que redundaria, na prática, na morte da tradição especificamente ocidental. Segundo ele seria uma lástima, pois toda a tradição autêntica, como é a tradição católica, foi “desejada por Deus” e como tal é a própria manifestação da verdade transcendente adaptada às circunstâncias de tempo e lugar específico daquela civilização. Por outro lado, sabemos que Guenon tentou durante toda a sua vida influenciar o meio católico de forma, imagino eu, a trazê-lo novamente à tradição, no que ele falhou fragorosamente. A conversão de Guenon ao Islã ocorreu somente no final de sua vida. Minha leitura deste fato é que ele percebeu que entre os três possíveis caminhos que apontara muitos anos antes em “A Crise do Mundo Moderno” já poderia excluir por experiência própria a possibilidade do primeiro. E tudo isto ocorreu antes do Concílio Vaticano II. Não seria esta uma explicação mais verossímil do que achar que a conversão de Guenon ao Islã no final de sua vida foi uma farsa e que ele já estaria revertido antes de escrever seus primeiros livros, livros estes que serviriam somente para pegar o ocidente por cima? Gostaria de comentar também sua recomendação do que você chamou leitura ingênua da Bíblia...” Bem, vamos esclarecer primeiro esta parte. Veja, eu tomei conhecimento dos livros de Guenon na década de 70 e creio que por volta de 1981 ou 1982 já havia lido todos, acompanhado muitos números da revista Étude Traditionnel e também lido os livros de outros autores ligados de alguma maneira a ele ,como Schuon, Tito Burckhardt, Seyyed Hossein Nasr etc. Esta acumulação de informações foi o que me levou mais tarde a tentar articular o que era a “doutrina” expressa pelo Guenon com o que era a prática nas Tariqas, porque ele mesmo disse que o aprendizado teórico era somente uma condição preliminar indispensável, ou seja, ele estava dizendo claramente que se você leu todos os livros dele e entendeu tudo, você nem começou alguma coisa, pois só vai começar quando você, de fato, entrar no processo iniciático. Segundo: ele informa que todos os seus escritos não são idéias dele, são ensinamentos recebidos de autoridades qualificadas das tradições orientais. A que tradições orientais ele se refere? A adoção do Islã como religião externa pelo Guenon já data de quando ele tinha passado de quarenta anos. Porém, aos dezoito anos ele foi iniciado numa tariqa por seu amigo John Aguelle, que era um emissário do Sheik El-Kebir da Argélia. O Sheik Elish El-Kebir ao qual depois é dedicado o livro de Guenon: Simbolismo da Cruz. Então ele era membro de uma tariqa desde a adolescência, e como não tinha poderes iniciáticos, não podia iniciar discípulos, só podendo realizar o trabalho de exposição doutrinal, e só. Podia somente escrever e explicar. Não podia passar os ritos para ninguém, não podia receber membros na tariqa. Mas Guenon deixa muito claro em tudo o que está falando que não é ele que o está fazendo realmente, é o Sheik que está falando. Desde o início. Primeiro, esta idéia de que Guenon se converteu ao Islã, [01:20] não é bem assim... Há páginas e páginas onde o Guenon explica que dentro da esfera esotérica não há conversão, isto não existe. Conversão é uma noção puramente exotérica. Então ele pode adotar uma forma, adotar a outra, passar pelas várias formas sem nenhum problema. Por uma questão até de facilidade expositiva, ele prefere usar os termos da doutrina hindu para explicar seus ensinamentos. O que não quer dizer que ele esteja representando. O ensinamento dele vinha exatamente da tariqa do Sheik Elish El-Kebir. Quando ele coloca essas coisas, que o ocidente tinha três saídas, a que ele se refere precisamente? Note bem que eu estava falando agora mesmo que uma coisa é você compreender um conceito, uma idéia, e outra coisa é saber a que aquilo se refere no mundo real. Para fazer isto você primeiro terá que fazer esse trabalho imaginativo que eu disse. Por exemplo, o que ele (Guenon) está entendendo sobre catolicismo tradicional. Aí tem um trabalho imaginário a fazer, e depois esse trabalho imaginário tem de ser conferido com os dados históricos e com o restante dos escritos do Guenon. Ele deixa muito claro que o catolicismo na sua integridade é apenas um exoterismo, portanto, uma religião popular. E que o lado esotérico, o lado interior, a parte principal, está nas iniciações cristãs e que só há, a rigor, duas iniciações cristãs: a companheiragem, que era uma iniciação das comunidades de ofícios, e a maçonaria. Portanto, quando ele fala em restaurar o cristianismo tradicional, significa colocar isto na devida ordem, o esoterismo em cima e o exoterismo em baixo. Então, evidentemente, a Igreja Católica reencontrará o seu caminho na medida em que ela seguir as orientações da maçonaria. A companheiragem já passou por várias tentativas de restauração, mas não existe mais historicamente. Isso que dizer que o segredo esotérico do catolicismo está com a maçonaria e o catolicismo inteiro é apenas um exoterismo. Então o Papa tem de chegar para o mestre maçom e perguntar o que deve fazer. É claro que isto é empulhação, não há outra maneira de dizer isto, por quê? Supor que existe uma doutrina cristã exotérica ensinada pelo Cristo e que foi passada pelos Apóstolos desde o primeiro dia até hoje, formando o que se chama de sucessão apostólica e que existe outra doutrina interior, mais profunda, que foi passada para a maçonaria, isso é empulhação. O próprio Cristo assegura: “Eu nada ensinei em segredo, tudo o que eu disse foi em praça pública e estão aqui os discípulos que ouviram”. Agora, dizer que existiu uma subcorrente esotérica que só foi aparecer no século XVIII na maçonaria? O que é isso minha gente? Isso é um truque, isso é uma empulhação. Isso é absolutamente inaceitável sob todos os aspectos possíveis. Mais ainda, o Guenon se trai nesse aspecto quando ele trata do caso do São Bernardo. Ao longo de toda a sua obra, ele insiste que a mística é um fenômeno de ordem puramente sentimental, exotérica e popular, sem relação com as iniciações e que o verdadeiro esoterismo está nos antípodas do misticismo. Mas quando Guenon comenta sobre a obra de São Bernardo de Clairvaux (Claraval), por um lado informa que São Bernardo era o mestre da Ordem dos Templários e reconhece os Templários como uma ordem iniciática, das mais altas que já houve no Ocidente. Por outro lado ele diz que a obra de São Bernardo é essencialmente mística. Opa, espera aí, mas isto é uma contradição tão óbvia, mas tão óbvia, que um autor meticuloso e sério como Guenon não pode ter cometido isto por distração. Com este trecho ele está destruindo tudo o que disse a respeito da relação entre mística e esoterismo. Ou seja, ele está supondo que figuras como, por exemplo, Santa Teresa, que conversava com Jesus todos os dias, tinha apenas um conhecimento místico e sentimental comparado com o conhecimento espiritual direto que um mestre maçom tinha. O que é que é para fazer com um sujeito que diz uma coisa dessas? É dar-lhe um tapa na cara. Guenon está mentindo. Embora seja uma figura intelectual de nível altíssimo, ele se deixa trair pelos objetivos não declarados da obra dele. E quando o Schuon volta da Argélia, transformado em Sheik da tariqa fundada pelo Sheik al-Alawi, e diz: “Eu vou islamizar a Europa”, Guenon disse: “Este é o primeiro e único resultado obtido pelo meu ensinamento”. Portanto, o catolicismo que ele queria restaurar era o catolicismo maçônico. Ora, isso aí é absolutamente inaceitável. Você supor que é a maçonaria que tem o verdadeiro segredo interior do cristianismo, e que toda a sucessão dos santos, mártires, místicos, etc. conhecia apenas a parte exotérica. Não faz sentido. Mesmo porque Guenon vai dizer que a obra de São Tomás de Aquino é aquilo que mais se aproxima da pura doutrina esotérica hindu no Ocidente. Mas isso está tão desengonçado que não é possível uma distração, o cara está mentindo mesmo. É uma situação muito bem arquitetada, mas profundamente desonesta. Então, não é possível essa sua segunda leitura Marco, porque essa sua segunda leitura foi a primeira que eu fiz. Trinta anos atrás eu entendi exatamente o que você está entendendo, e depois eu tive que estudar muito para descobrir que isso não podia ser; que isso era uma interpretação baseada apenas na doutrina expressa, e mais ainda, baseada no teor verbal da doutrina e não na sua coerência interna. Pois o que você tem de fazer com uma obra como a do Guenon é buscar os pontos de coerência interna. Só buscando a sua coerência interna profunda é que você vai entendê-la como conjunto. Toda a exposição doutrinal seja filosófica, teológica, etc, tem uma espécie de hierarquia de credibilidade interna. Você tem algumas coisas que são cridas porque outras já foram cridas antes, que são mais fundamentais. Existe uma gravação sobre Rene Guenon,onde eu explico isto com mais detalhes e que será colocada no site do Seminário de Filosofia. Guenon diz que a exposição doutrinal não tem em si seu próprio fundamento. Por quê? O fundamento é dado pela intuição intelectual, a qual só será alcançada mediante as iniciações. As iniciações, por sua vez, só são válidas dentro de organizações que tenham continuidade histórica ao longo do tempo. Em última análise, o fundamento da doutrina de Guenon é o fundamento histórico, depende da continuidade histórica das organizações iniciáticas. E ao mesmo tempo ele vai dizer que a compreensão histórica é a mais baixa que existe. [01:30] Guenon diz que a exposição doutrinal não tem em si seu próprio fundamento porque o fundamento é dado pela intuição intelectual, a qual só será alcançada mediante as iniciações. As iniciações, por sua vez, só são válidas dentro de organizações que têm continuidade histórica ao longo do tempo. Em última análise, o fundamento da doutrina de Guenon é a história, ele depende da continuidade histórica das organizações iniciáticas. Ao mesmo tempo, ele diz que a compreensão histórica é a mais baixa que existe. Isso é erro, é distração do Guenon? Não. Se até eu, que sou um idiota, percebi, como ele não vai ter percebido? Eu estou partindo do princípio de que Guenon é muito mais inteligente do que eu e de que o que eu percebi, ele também percebeu. Quando um sujeito desse tamanho não percebe algo, só pode ser por dois motivos, um de ordem patológica e outro de ordem moral – ele está mentindo. Hegel também é muito mais inteligente do que eu. Quando Hegel cai num tipo de contradição essencial – não numa simples contradição, pois isso pode acontecer a todos –, que não é só uma contradição verbal ou lógica, mas uma contradição ontológica, uma impossibilidade absoluta, então é porque ou ele ficou maluco, ou está escondendo alguma coisa. Como não ficou maluco jamais, então está escondendo alguma coisa. Essa leitura que você faz, Marco, foi a primeira que eu fiz, eu acreditei em tudo isto; e é este o sentido literal e aparente da obra. Só quando, depois de muito tempo, você começa a encarar aquela obra como conjunto e busca os pontos de coerência dela, aí é que você começa a entender do que se trata. Então, de um autor como Guenon, primeiro, é preciso ler tudo, não pode faltar nada. Segundo, você precisa de uma série de elementos externos para dar-lhe apoio e saber a que ele está se referindo em cada parte de sua obra. Se ele diz que uma tradição só é completa quando seu exoterismo está fundado no seu esoterismo e que toda a Igreja Católica é apenas um exoterismo e que o esoterismo correspondente é a maçonaria, então eu sei que tipo de catolicismo ele quer. E isso é absolutamente inaceitável, isso contradiz as palavras do próprio Cristo. Quando Schuon sugeriu que havia um conteúdo iniciático nos próprios sacramentos católicos, Guenon ficou louco da vida, porque isso invalidava tudo o que ele tinha feito. E, no entanto, é claro que esse sentido iniciático do sacramento existe, porque eles são tudo o que há no cristianismo; não há mais nada além deles. O que você não obteve através dos sacramentos, não será através de um rito maçônico que irá obter. Fica claro, portanto, que Guenon não estava assim tão apaixonado pelo catolicismo quanto parece. E quanto à história da conversão dele, conversão é um conceito que o próprio Guenon invalida radicalmente, que não se aplica ao caso dele. Historicamente, nós sabemos que a iniciação dele remonta já aos anos da adolescência. Acho que vou deixar o resto da sua pergunta para depois. Mas que essa pergunta fique como amostra de como pode ser trabalhoso o esforço de compreensão de uma obra relativamente pequena como a de Guenon, de vinte e poucos volumes. O que fazer com qualquer autor de ordem doutrinal? Primeiro, há que se buscar o ponto de coerência, a unidade daquilo. Buscar a unidade do pensamento é a primeira coisa a ser feita, pois suponhamos que esta unidade não exista, como no caso de Schelling, que teve quatro começos diferentes. Há evidentemente uma contradição, porque significa que o sujeito mudou de idéia. Mas como se deu aquela mutação? O que ele estava procurando em primeiro lugar, o objetivo que ele estava buscando permaneceu ou houve uma mudança radical? Ele tentou fazer quatro vezes a mesma coisa para só acertar no final ou houve uma mudança efetiva? Mesmo no caso em que exista essa intervenção de uma coisa que mudou biograficamente, mesmo aí você terá de buscar o ponto de coerência. No caso de Aristóteles, por exemplo, houve durante todo o séc. XX uma disputa em torno da crença de que Aristóteles mudou radicalmente de orientação no meio da sua vida. Essa é a tese de Werner Jaeger, Aristóteles teria começado como metafísico platônico e terminado quase como adepto do método científico materialista. Mesmo nesse caso você teria de buscar o ponto de coerência. Hoje sabe-se que a tese de Jaeger não tem como ser sustentada, é uma pergunta que jamais poderíamos responder, e que todo o seu “Ensaio sobre o desenvolvimento intelectual de Aristóteles” é hipotético, ele não tem nem mesmo condição de provar a data dos escritos que está colocando ali. Como Aristóteles é um filósofo, você terá de buscar os fundamentos permanentes da credibilidade do que ele está dizendo. Quando eu defini a filosofia como a busca da unidade do conhecimento na unidade da consciência e vice-versa, em grande parte foi baseado na biografia do próprio Aristóteles. Quanto ao Guenon, esta busca da credibilidade interna é ainda mais necessária, pelo fato de que, diz ele, aquilo não é uma filosofia, mas uma doutrina tradicional, portanto subentende-se que ela será coerente em todos os seus pontos. Então, fique isto como amostra de qual é o procedimento de leitura que se deve ter. O que eu recomendo a vocês que estão fazendo este curso é não aderir ou pôr-se contra nada disso. Vocês têm de ser a favor de uma só coisa, a filosofia, e a filosofia entendida nesse sentido, como unidade do conhecimento na unidade da consciência, ou seja, a filosofia como consciência responsável. O conhecimento, a aquisição do conhecimento, a transformação desse conhecimento em consciência e dessa consciência em responsabilidade: é só disso que vocês têm de ser a favor. Agora, decidir se vocês são a favor de René Guenon, de Karl Marx... Deixem isso para depois, vocês terão tempo! Aluno: “Às vezes me acontece de, ao ler alguma coisa e ouvir o senhor, compreender algo que eu já havia percebido de maneira difusa e imprecisa.” Olavo: Mas é precisamente disso que estou falando! Este “difusa e imprecisa”, não é bem isto o que você quer dizer, mas sim que não prestou atenção suficiente naquilo que você mesmo estava percebendo. Então, a única diferença que há entre o aluno que está começando agora e eu, que comecei antes, é que estou observando essas coisas em mim mesmo há mais de 40 anos. Quando eu percebo uma coisa de maneira vaga e difusa, não saio dali. Eu volto, e volto, e volto, e volto, até saber exatamente o que foi que percebi. E deixo para exercer a análise crítica muito tempo depois. É isso o que explico no texto da “Contemplação amorosa” e em outros textos de mesmo teor. A percepção passiva é tudo. Fora dela, só existe o que se chama de [01:40] atividade mental, a criação mental do ser humano. Mas se a nossa atividade de estudo é voltada não para idéias ou palavras, mas para realidades da vida mesma, é claro que teremos de voltar a essas percepções até que a linguagem adequada para falar delas apareça delas mesmas. Conforme o talento pessoal de cada um, isso poderá tomar a forma de uma expressão literária, na qual você terá uma espécie de matéria-prima, uma expressão imediata da experiência. Você poderá, por outro lado, ter uma exposição de segundo grau, que não está tão interessada tanto em expor a experiência como tal, mas em tirar conclusões sobre ela que possam ser úteis – que é exatamente o que eu estou fazendo. Note bem, não diga que você tinha percebido de maneira difusa. Diga o seguinte: “eu não me lembro direito. Eu percebi isso, mas não me lembro direito”.Parece-lhe difusa agora, mas se voltar, verá que aquilo era muito claro. Acontece que você tem dois níveis de atenção, um contínuo, onde funcionam percepção e imaginação, e outro descontínuo, que é o nível da atenção reflexiva, em que você reflete, critica etc. etc... O primeiro é muito mais eficiente, muito mais exato e muito mais claro do que o segundo. Nós achamos que o segundo é mais claro porque temos o domínio mental dele; embora ele seja descontínuo, fomos nós mesmos que inventamos aqueles pensamentos. No primeiro caso você não tem domínio, porque está percebendo a própria realidade, a qual não foi inventada por você. Nós confundimos aquela sensação de poder com a clareza e a nitidez. Isso é básico. As coisas mais importantes da vida, nós já as percebemos em algum momento. Já sabemos, mas sabemos naquele nível contínuo que a nossa atenção reflexiva, por ser descontínua, não consegue captar. Por isso é preciso domar essa atenção reflexiva, para que ela aprenda humildemente a aceitar os dados daquilo que já foi percebido. Aluno: “Quando tento pensar em algo que não corresponde a nada que eu conheça como, por exemplo, um instrumento musical sem nenhum parâmetro com os já existentes, noto a inevitável ligação entre as imagens da mente, as idéias e o mundo real, e isso me leva a pensar que a noção intuitiva de uma unidade maior (eternidade, infinito, absoluto) chega até mim, ou seja, a presença do ser de que fala Lavelle se manifesta em minha consciência individual.” Olavo: Mas é claro que ela se manifesta! A única diferença é o seguinte: ela se manifesta o tempo todo e nós é que não temos capacidade de atenção contínua. A percepção e a atividade imaginária são contínuas – menos contínuas do que a própria realidade, evidentemente, e menos contínuas do que esse conhecimento mais profundo que eu chamo de conhecimento por presença, que é o que vai lhe dar a consciência do ser. É o descontínuo que tem de se adaptar ao contínuo, pois a descontinuidade é puramente mental. Já a realidade não pode ter descontinuidade, ela não é suspensa, tampouco tem intervalo. A unidade do real também não tem intervalo. Ela está aí o tempo todo e com toda a densidade possível. Mas a nossa mente funciona de maneira descontínua. Por exemplo, quantas vezes por dia você consegue pensar conscientemente nesses assuntos de que eu estou falando? Poucas. Há, pois, uma curiosa inversão, uma vez que aquilo que é contínuo, denso e está permanentemente presente e diante de nós parece-nos vago e difuso, enquanto aquilo que é puramente mental, inventado e descontínuo, isso nos parece muito claro e muito firme. É claro que há um engano nosso! É a mente que tem de se adaptar à realidade. Se ela não quiser, é claro que ela não é obrigada a fazer isto. Mas se você quer ser um filósofo, é isto o que você terá de fazer. E, note bem, não estou falando de uma realidade externa, mas de uma realidade que você já percebeu internamente. É o que chamo de método da confissão, quer dizer, chegar à realidade por admissão do que você já sabe. Não digo nem que seja anamnese, porque ela supõe um esforço de rememoração e estou falando apenas de deixar que essas coisas apareçam, de você se disciplinar para tornar-se discípulo da realidade, saber que quem fez a realidade foi Deus, fazendo disso uma forma de devoção. Tudo isso é também inspirado no Gênesis: Deus fez isso, fez aquilo e daí viu que era bom. O que é que o próprio Deus faz? Ele consente que essa realidade que ele mesmo fez se mostre, ele admite-a, diz que é boa; não discute com ela. Ao praticar esse método da confissão ou da admissão, você estará fazendo um prolongamento da obra divina, aceitando a criação. É exatamente o contrário do que o gnóstico faz, que é a crítica da criação. Nós aceitamos a criação. Mas, note bem, não é que digamos que a criação é perfeita. A criação não pode ser perfeita. Agora mesmo estou estudando este caso das discussões teológicas que surgiram a partir do séc. XVIII, em que as pessoas diziam assim: “se Deus é bom, como pode a criação ter tantos defeitos, deformidades e monstruosidades?” A criação, vista por um lado, é uma coisa maravilhosa, mas vista por outro, é uma coisa monstruosa e o pior é que nós não conseguimos separar o lado maravilhoso do monstruoso, eles estão inextricavelmente juntos. Houve imensas discussões a esse respeito e é justamente daí que surge o naturalismo teológico de que fala Cornelius Hunter em três livros absolutamente brilhantes. O naturalismo surge como uma postura teológica, não científica, e diz que a criação tem tantas imperfeições que não é possível que ela tenha sido obra direta de Deus. Deus cria as leis naturais e daí elas funcionam sozinhas e fazem o resto. Esta é uma crença que Charles Darwin e todos os naturalistas têm. É uma idéia da teologia e não da ciência: nenhuma ciência jamais pode comprovar uma coisa dessas. Ela está totalmente fora da possibilidade de comprovação por uma ciência, tanto que, ao contrário, é a base de certas investigações científicas que são feitas tomando-a como pressuposto. Mas toda essa teologia da qual sai o naturalismo teológico é uma teologia de fundo de quintal. Todos aqueles teólogos – sobretudo protestantes – que discutiam isto, não conheciam nem Aristóteles, muito menos São Tomás de Aquino e Duns Scot, não tinham aquela sutileza. Já para um sujeito com formação escolástica, era óbvio que a criação não pode ser perfeita, porque a perfeição é de ordem divina. Deus simplesmente não pode fazer uma coisa perfeita, pois esta coisa seria tão perfeita quanto ele. Isto é absurdo! A criação tem, necessariamente, um coeficiente de absurdidade dentro dela, o que é representado pela serpente do Paraíso. No Paraíso, estava muito melhor do que agora, mas lá já havia uma serpente. E o que era a serpente? O germe do mal, que já estava lá e tinha de estar ali. Então, para que discutir isso de “como é que um Deus bom fez um mundo que tem tanta imperfeição?”. Justamente porque Ele é um Deus bom é que o fez, caso contrário teria feito um outro Deus igual a Ele – e isto já seria um problema. Esta é uma questão tão elementar que não vejo nem por que se criou tanta discussão, nem por que as pessoas ficaram tão assustadas. [01:50] Curiosamente, o naturalismo teológico tinha dois tipos de argumentos em favor dele. Uns alegavam que a natureza é perfeita em si mesma, que é tão perfeita que tem em si sua própria explicação; e usavam isto em favor do naturalismo teológico. Outros diziam que a natureza está cheia de imperfeições e isto é a prova de que ela não foi criada diretamente por Deus, mas se desenvolve por si a partir das leis naturais. Ou seja, é o per fas et per nefas, você usa os dois argumentos contrários para provar a mesma coisa. Então, esse negócio de naturalismo teológico é uma bobagem, um problema mal colocado e, portanto, mal resolvido. Essas coisas começam a se resolver à medida que se vai baixando a bola da atenção reflexiva e, sobretudo, do pensamento construtivo, do pensamento lógico, adequando-os a uma realidade contínua. É uma coisa terrível chegar a pensar, como Kant, que a realidade é toda feita de fragmentos e é a sua mente que unifica tudo aquilo. Como pode ser a minha mente, se eu freqüentemente acordo e não sei onde estou? Você nunca acordou com essa sensação de não saber onde está e depois olhou e viu que estava no mesmo quarto do dia anterior? A realidade externa restaurou o senso de unidade da sua mente. A sua vida biológica, por exemplo, é absolutamente contínua, ela não teve um segundo de interrupção, senão você estaria morto. E a sua vida mental – mesmo a mais intensa, mesmo a imaginativa – não pode ser tão contínua assim. Tudo o que é mental é descontínuo, mas a realidade é contínua. O descontínuo não pode abarcar o contínuo, mas pode modelar-se por ele, pode ser fiel ao contínuo. E, na verdade, é isto o que as pessoas fazem na vida prática, elas adequam-se a isto. Na aula passada, vocês viram que a coisa mais espantosa da vida humana é como, na vida prática, as pessoas aplicam as categorias com enorme precisão e não se confundem. Essas pessoas que estudam esse negócio de inteligência humana e inteligência animal entendem como inteligência somente a capacidade silogística, raciocinativa, a qual em qualquer computador é infinitamente mais poderosa do que na minha mente. Há um tempo atrás, surgiu – acho que na revista inglesa Prospects – um artigo em que um matemático lamentava-se de que hoje em dia as ciências utilizam-se de computadores que fazem operações matemáticas tão complexas que ninguém pode conferir o resultado delas. Para você conferir manualmente o resultado dessas operações levaria séculos. Então, ou você confia no computador sem saber direito o que ele fez, ou você desiste daquele cálculo. Isto para você ver como a mente humana é descontínua e como a capacidade de raciocínio silogístico não é uma propriedade exclusivamente humana; qualquer bicho – e até uma máquina – tem. Já a percepção e a aplicação das categorias nenhuma máquina tem: isto é você que tem de botar na máquina e, mesmo assim, não pode colocar inteiramente, mas só os resultados disso. Você não pode ensinar o pensamento categorial a uma máquina porque o pensamento categorial pressupõe a percepção. E não só pressupõe a percepção, mas também a ação, a responsabilidade humana, os temores humanos etc. etc., ou seja, propriedades de seres humanos reais. Quando, em vez de levar em conta somente a mecânica silogística, você leva em conta o efetivo funcionamento da inteligência humana, você vê que ela é incomensurável com a de qualquer animal. Há uma distinção infinita. Não há uma diferença de grau, mas de espécie. Aluno: “Num artigo de 2004 (Jornal da Tarde, 6 de maio de 2004) sobre a discussão entre os criacionistas e os evolucionistas, o senhor escreve: ‘É que o ser humano só tem três linguagens para dar forma ao que apreende da realidade: o mito, que expressa compactamente impressões de conjunto; a ciência experimental, que descreve e explica grupos particulares de fenômenos segundo um protocolo convencional de métodos e aferições; a filosofia, que faz a transição entre as duas anteriores.’ Como isto se encaixa à teoria dos quatro discursos?” Olavo: É muito simples, meu filho, o discurso retórico não tem nada que ver com a realidade. Ele é o discurso pelo qual você age sobre outra pessoa. Então ele não serve para isso. Aluno: “A inteligência intuitiva – não sei como chamar –, demonstrada a partir daquela experiência das pilhas de cartas, também está presente diante de uma idéia conceitual de um texto?” Olavo: É claro que está! Naquele exemplo, não se trata propriamente de intuição, porque intuição é percepção da realidade tal como ela apresenta-se. Eu não posso dizer que aquilo foi uma intuição, pois vejo que houve algum raciocínio – apenas foi um raciocínio muito rápido. Intuição, por exemplo, é o que eu estou tendo agora: vejo as pessoas diante de mim, vejo uma câmera etc. Isto é imediato, não é preciso de raciocínio nenhum. A intuição é a percepção de uma presença. E quanto à percepção da estrutura do objeto, por exemplo? Aí já é mais complicado... Pode haver uma apreensão intuitiva disto, mas não posso dizer que no caso daquele exemplo foi apenas intuição. Você pergunta se ela também está presente diante de uma idéia conceitual. É claro que está! Por que se você não intui a própria idéia que está pensando, não sabe nada dela. Seria como pensar inconscientemente. O famoso “penso, logo existo” é uma apreensão intuitiva de algo que está acontecendo. Quer dizer, você pensa e ao mesmo tempo sabe que está pensando. E como é que você sabe que está pensando? É por pensamento? Não é possível. A presença do seu pensamento não é um dado dele mesmo, mas uma experiência real que você está tendo e que percebe que está tendo na hora em que pensa. O “penso, logo existo” implica uma percepção intuitiva de algo que está acontecendo realmente. Desse algo, Descartes pode tirar conclusões; mas ele tira conclusões erradas. Ele achar que o pensamento prova a existência dele, que o pensamento é a base da crença na existência, não é possível, porque a existência está pressuposta no ato intuitivo de perceber que se pensa. É muito estranho tentar provar, através do pensamento, que você existe, pois a existência é uma pré-condição para se poder pensar. Se o homem não existe como é que irá pensar? Aluno: “Percebo nas suas aulas a capacidade que o senhor tem de falar de vários assuntos sem que o fio da meada se perca, como se o fio da meada fosse a unidade do real. Mesmo que o senhor fale de várias coisas, na verdade sinto que está falando de uma coisa só. Talvez esteja enganado, mas sinto que nas suas aulas não há um planejamento tão específico como vejo nas aulas de outros professores, os quais costumam se dedicar a um só assunto, de forma que outros assuntos também importantes não são comentados, como se tivessem medo de se perder. O senhor, ao contrário, tem a capacidade de sintetizar todos os assuntos”. Olavo: A filosofia é exatamente isto. Quando eu defini a filosofia como unidade do conhecimento na unidade da consciência [02:00] – note que não se trata da unidade do conhecimento no sentido teorético – isto não quer dizer que você fará uma teoria geral que abarque todos os conhecimentos. Essa teoria não existe e jamais existirá. O que existe é a tensão da consciência em direção a uma unidade da qual ela aproxima-se como se fosse uma assíntota: ela está sempre indo para lá e nunca chega, porque essa unidade só Deus tem. Mas nós estamos indo para Ele. Ao mesmo tempo em que se está indo para ele, esta experiência repetida da tensão em direção à unidade unifica a sua personalidade, a sua memória, a sua consciência. E é por isso mesmo que o exercício desta coisa não pode se distinguir da vida real do sujeito. Não se pode fazer disso uma atividade profissional que é distinta de sua vida, não dá pra fazer isso. Ou seja, o instrumento com o qual você filosofa é a pessoa real inteira. A sinceridade de você para você mesmo é condição sine qua non deste negócio. É por isso que dá para você transitar entre todas as coisas, mesmo quando você não tem os elos teóricos. Por exemplo, se você me perguntar como sintetizar os princípios da química com os da gramática, eu diria que não sei e acho que é impossível. Trata-se de dois domínios distintos da realidade, sem conexão direta entre si, e que só estão conectados no nível da própria unidade do real. A unidade do real é uma unidade complexa que implica certas dimensões incomensuráveis que estão igualmente presentes. Então é uma unidade tensional. Quando eu dei a aula sobre a técnica eu disse que qualquer técnica de fazer qualquer coisa junta conhecimentos heterogêneos, ou seja, conhecimentos distintos que não podem ser reduzidos a um mesmo princípio, e lhes dá a unidade de um corpo material. Então, por exemplo, essa garrafa tem um formato copiado das garrafas de vidro. Portanto, o formato pode ser exatamente o mesmo para uma garrafa de vidro ou de plástico, isto é, de petróleo. Você pode explicar o vidro e o petróleo pelo mesmo princípio? Não. E por esses princípios, seja o do petróleo ou do vidro, você não pode explicar as propriedades da água. Este objeto é cientificamente inexplicável. Ele tem uma unidade física e você o reconhece, mas ele não pode ser reduzido a um princípio científico. Ele apela a princípios científicos heterogêneos e incomunicáveis. E isto é um dado da realidade. A realidade se compõe de coisas assim. Ela unifica coisas que, em si mesmas, são heterogêneas. Por isso mesmo, não pode existir a teoria geral de tudo. O que pode haver é uma meditação sobre a unidade do real. Mas a unidade do real é o fundamento da própria atividade filosófica. A atividade filosófica não pode abarcá-la e explicá-la, porque senão você se colocaria acima da unidade do real, criaria uma supra-unidade teorética acima da unidade do real. Isto não só é impossível, como é uma besteira tentar fazer isso, uma bobagem. O nosso esforço é para nos adequarmos à unidade do real, não para inventar uma outra unidade teorética acima dela. É curioso quando os grandes sistemas da metafísica clássica foram reconhecidos como deficientes, sobretudo por Kant, as pessoas ficaram muito assustadas. Não precisaria nem dizer que qualquer sistema que seja universalmente explicativo terá necessariamente que falhar. Ele teria que ter uma unidade interna superior à unidade do real, e isso não dá pra fazer, nem pelo próprio Deus. Se Deus fizer a Teoria da Unidade Divina, essa teoria tem que estar mais unificada do que Ele mesmo. Não só precisa inventar outro Deus, mas um outro Deus acima Dele mesmo. Tudo isto aí vem da idéia de criar um mundo mental superior à realidade. Quando, na realidade, a própria realidade é a nossa mestra. A criação divina é nossa mestra. Aluno: Professor Olavo, esta questão da imaginação doentia também não foi bem explorada por Paul Diel em O simbolismo da mitologia grega? (...) Olavo: Certamente! Aluno: (...) Segundo ele, a imaginação exaltada levaria a uma queda espiritual e moral. Gostaria apenas de lembrar a importância do Diel. Olavo: Sem sombra de dúvida! A ambição de criar um mundo mental superior à própria realidade é essa exaltação imaginativa. Isto não é nem mania de ser Deus, é querer ser superior a Deus. É querer explicar o próprio Deus. Nós estamos aqui para explicar o que nos pareça contraditório e absurdo. Ou seja, a explicação destina-se a reinserir no real aquilo que está parecendo contraditório com o real. Não é para encontrar uma explicação acima do real, é só para inserir nele novamente. A unidade já vem dada como um pressupossto de todo conhecimento, você não tem que criar uma unidade. Somente aquelas partes que, momentaneamente, parecem absurdas, você as restaura dentro da unidade do real. E isto é tudo. A vida seria um absurdo se nós vivêssemos realmente imersos num caos, onde tudo é tricotado e nós tivéssemos que criar a unidade do real em si. Seria uma trabalheira infernal! E pior, cada um que viesse teria que fazer tudo isso de novo. Você acha que é possível uma coisa dessas? Não, ao contrário: a unidade do real está dada, ela é o pressuposto, e nós estamos dentro dela. É na nossa mente que a percepção na unidade do real falha, de vez em quando. Então o que fazemos? Consertamos não o real, mas a nossa mente. Pegamos aqueles dados que pareceram absurdos, contraditórios e buscamos onde estão eles na unidade do real. E isto é tudo, a hora que você faz isso, acabou! Aquele problema está resolvido. Como a nossa mente é necessariamente descontínua, então sempre vão aparecer novos problemas. Aluno: Como você aplicaria a idéia de que uma piada é a troca de uma categoria por outra, para o caso do bebê que solta uma gargalhada quando vê que uma bola que rola por uma rampa, acaba por derrubar uma garrafa? Olavo: A bola rola e derruba a garrafa, o bebê olha aquilo e dá risada. Por que ele acha aquilo engraçado? É a coisa mais óbvia: você tem o movimento regular da bola e, de repente, aquilo interfere em alguma coisa que não tem nada a ver com esse movimento. A queda da garrafa é um elemento estranho ao movimento da bola, então na hora em que ele olha aquela irregularidade como parte do movimento regular da bola, dá um efeito cômico na cabeça dele. É exatamente disso que ele está falando. Aluno: Eu sempre imaginei a apreensão humorística como resultado do efeito de sofrer a violação de uma expectativa por um fato que acontece de modo verossímel. Olavo: Você está pegando o aspecto psicológico da reação humorística, ao passo que eu estou analisando a estrutura lógica. Você tem razão, é uma violação de uma expectativa. Porque há a violação de uma expectativa? Porque aquilo que está acontecendo sob uma categoria, de repente, é visto sob outra. [02:10] Eu sugiro a você o livro do Arthur Koestler, The Act of Creation. Onde ele estuda a ligação entre o humor e as descobertas científicas, mas pelo ponto de vista psicológico. Eu estou vendo aqui somente a estrutura lógica, e ela é a troca de uma categoria por outra, ou a superposição de duas visões baseadas em categorias diferentes. A bola rolar é da natureza da bola, isso é causa formal. A bola rola porque é bola, mas derrubar uma garrafa não é da natureza dela, é um acidente. Quando a bola derruba uma garrafa, parece que ela fez isso por sua própria natureza, como se ela tivesse a intenção de derrubar a garrafa. E isto para um bebê deve ser mortalmente cômico, enquanto a gente exige algo mais de uma piada. Aluno: Professor, o senhor mencionou numa aula que os alunos deverão, ao final do curso, escrever um trabalho sobre determinado tema visando à publicação. Os temas dos trabalhos serão livres ou pré-determinados? Pergunto porque já tenho um tema em mente e gostaria de pesquisar material bibliográfico desde já. Olavo: E por que não? Não pretendo determinar assuntos para ninguém. Isto é você que pode decidir. Eu ainda não quis explicar como isso deve ser feito porque acho um pouco prematuro. Mas, já que você está levantando o problema desde já, é importante que este tema tenha importância existencial para você. Que não apenas seja um tema de importância pública, mas algo que você pessoalmente tenha razões muito sérias para investigar aquilo. Ou seja, é algo que você vai contribuir para que outras pessoas entendam, porque você precisou entender esse algo. É aquela famosa pergunta do Ortega y Gasset, o sujeito vem com um problema filosófico e ele pergunta: “Por que isto é um problema filosófico? Porque eu tenho que aceitar isto como um problema filosófico?”. Quer dizer, o problema tem que se justificar. Não é qualquer pergunta filosófica que é um problema filosófico sério. Existe essa seriedade intrínseca do tema, mas também a seriedade existencial. Em que medida o seu interesse por esta coisa é genuíno? Você está pensando nisso porque é bonitinho? Porque está na moda? Porque alguém lhe falou? Nesse sentido que eu acho prematuro pensar nesse trabalho, mas se você já tem isso, eu não vou querer jogar fora isso. Conserva isto, só que sem dúvida este interesse vai mudar de figura muitas vezes. Quantas vezes não planejei fazer um trabalho e depois o problema foi mudando, mudando e mudando. Ou seja, o problema não era aquele que eu havia pensado, era outro. Talvez para resolver aquele problema, eu teria de resolver antes outro, outro e outro. Aluno: Obrigado por dividir seu profundo conhecimento e longa experiência conosco. Em favor de sua explicação sobre Guénon eu citaria a total e surpreendente continuidade e coerência de todos os livros deste autor. Inexplicavelmente dissociado da sua biografia. Olavo: Pois esta é uma coisa exatamente notável. Não há mudanças doutrinais sérias. Claro que existe uma mudança de opinião sobre isto ou aquilo, mas pequena coisa. É como se aos dezessete anos ele tivesse a estrutura inteira de sua doutrina pronta. O que é uma prova de que ele não criou aquilo, ele recebeu. Aluno: Tudo indica mesmo que a doutrina fora já absorvida na adolescência e permaneceu a mesma durante todo seu período de vida, apesar de todas as idas e vindas biográficas. Olavo: Exatamente. Aquilo era material de uma tariqa transmitido até por meios esotéricos. Não se tratou de um ensino propriamente dito. Existem certos ritos que impregnam na mente do sujeito uma constelação doutrinal inteira. Isto existe mesmo. Aluno: Sem elogios inumeráveis, embora merecidos, impagável tem um quarto sentido: por mais que se pague, nunca é suficiente pois não tem preço. É simbólico. Digamos que está fora do mercado. Olavo: Você vai se arruinar pensando assim. (risos) Todo mês vai ter que mandar um cheque maior. Aluno: Este comentário do Papa Bento XVI vai ao encontro dos seus comentários da aula anterior sobre a definitividade da forma da nossa vida na hora da morte: “com a morte, a opção de vida do homem torna-se definitiva. A sua vida está diante do juiz. A sua opção que tomou forma ao longo de toda a vida pode ter características diversas. Pode haver pessoas que destruiram em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor. Pessoas para as quais tudo se tornou mentira”. Olavo: Olha que coisa gravíssima! O Tel qu'en Lui-même enfin l'éternité le change: aquela porcaria que você fez de você fechou, consolidou. Esta é sua forma. Isto você tem que pensar diariamente. Como é que eu quero chegar lá. Quem eu quero levar lá. A única coisa importante de você levar é a sua abertura para o próprio Deus. Porque esta abertura se torna a sua forma. Deus quando olhar você verá ele mesmo. Quando São Paulo diz “já não é eu quem vive, é o Cristo que vive em mim”, quer dizer: eu aceitei de tal maneira aquela coisa que já não sou nada. Sou transparente. E este é o ideal do filósofo: que a própria sabedoria o molde. Você não vai moldar nada, não vai decidir nada, não vai ser nada. Somente abrir e aceitar. Por isso que eu digo que é o método da confissão e da aceitação. Eu aqui não tenho nada para inventar. Nosso mestre tem que ser a própria realidade. Estamos exatamente no contrário do Kant, ao invés de unificar na minha mente, eu sou um lixo totalmente fragmentário, minha mente quebra de dois em dois segundos. Eu quero ser moldado por aquilo que tem a unidade. A unidade do real é Deus. Ele é quem vai decidir quem eu sou. A mim cabe apenas aceitar. Na verdade, é mais fácil do que parece, as pessoas é que complicam o negócio pela exaltação imaginativa e pelo orgulho. Aluno: Desculpe o atraso, mas gostaria que o senhor comentasse com mais profundidade uma afirmação que fez na aula quatro. O senhor disse então que a cobiça e a luxúria não são problemas que nos afetavam tanto quanto afetavam, por exemplo, Santo Agostinho. O verdadeiro problema hoje seria o medo da cobiça e da luxúria. O que o senhor queria dizer com isso? Tem a ver com o complexo de culpa que as pessoas sentem simplesmente por serem ricas? Olavo: Em parte, mas o que eu quis dizer é o seguinte: o advento do mundo burguês criou um tipo cuja obsessão era a segurança. Não estou falando do grande burguês, mas da classe média, a pequena burguesia. A obsessão dela é a segurança. Tem medo de tudo, e esse medo faz com que sempre viva com um pé atrás. A tentação maior do pequeno burguês é a total covardia e, às vezes, o sujeito nem vai cometer um pecado porque ele é demasiado covarde pra cometê-lo. Agora, a busca da segurança é uma coisa terrível porque ela te leva ao pior dos pecados, o pecado do orgulho. A busca da segurança se converte em busca do controle (nem sempre um controle exercido pessoalmente, mas você se submete a uma autoridade que acha que está controlando [02:20] o fluxo dos acontecimentos). E justamente aí se perde a abertura com relação à realidade, se vira as costas para Deus. Isso já é o pecado contra o Espírito Santo, você não quer nem saber da verdade. Aí, mesmo que você vá bonitinho à igreja todo domingo, você está condenado. O que você quis para sua vida é um túmulo bem administrado. Onde você espera chegar com isso? Sobre estes caras que Jesus Cristo dizia: “as prostitutas vão entrar no céu antes de você”, porque como elas pecaram muito, elas sabem que precisam de Deus. Então elas se abrem para Deus, ficam pequenininhas e aceitam o perdão de Deus, elas têm abertura. Agora, alguns não têm porque “não precisam”, porque “têm tudo sob controle”. Aluno: Estou criando o hábito, nas minhas leituras, de acompanhar os textos munido de um dicionário da língua e um dicionário de símbolos. Olavo: Muito bem! Ponha mais um: o dicionário etimológico. Aluno: Isso no sentido de criar minha memória física, como o senhor já havia recomendado. Sempre que encontro uma palavra sugestiva ou uma referência à mitologia, vou ao dicionário de símbolos e faço uma breve transcrição do segmento, junto com informações sobre obra, autor e página. Espero daqui a alguns anos ter uma rede de significados muito personalizada da qual poderei me alimentar. Olavo: Mas que maravilha rapaz, isto é muito bom. Muito bom! Aluno: Uso o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Olavo: É muito bom esse dicionário. Mas existem outros. Sugiro que você acrescente um dicionário etimológico, que é muito importante. Um que vá do português até o latim e outro que vá do Latim para trás. Tem o dicionário do Ernout Meillet (Alfred Ernout Antoine Meillet) que vai do latim até o sânscrito, indo-germânico e etc. É cada coisa que você descobre lá, assombrosa! Com isso você está criando uma coleção de instrumentos expressivos muito grande, porém não faça isso somente com as palavras do dicionário. Faça o que mencionei no começo, perceber coisas cujo nome você não conhece. Eu vou dar esse exercício, mais tarde, direitinho. Tem alguns professores de redação que já no século XIX usavam isso, depois isso foi perdido. Por exemplo, você pegar uma cor e dizer exatamente o nome da nuance dessa cor. E o famoso exercício que todos os escritores fazem de trocar os termos genéricos pelos termos específicos, próprios. O que você está fazendo é muito bom e deve fazer. Só não deve operar somente no nível dos textos e da linguagem, mas também, sobretudo, das coisas, das emoções, das sensações e assim por diante. Uma coisa muito boa para isso é você ter um dicionário analógico. Tem esse do Francisco dos Santos Azevedo, Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, que foi inspirado no Thesaurus do Roget (Dr. Peter Mark Roget - 1779–1869). Aluno: Traduzindo o comentário A ética, por São Tomás... Olavo: Atenção, antes que eu me esqueça, tem um sujeito em São Paulo chamado Antônio Donato, ele traduziu quase todos esses comentários. Tá tudo meio fragmentário e meio desorgonizado, mas se eu fosse empreender um comentário, trabalharia mais ou menos em associação com ele porque ele já fez uma parte do trabalho e é uma pena jogar tudo isso fora. Então, o Luís Filidis, que é um dos webmasters aqui do site do Seminário, tem contato com o Antônio Donato. Escreva para o Luís e ele lhe colocará em contato com ele. Isto é uma coisa que nós queremos editar aqui pelo Seminário de Filosofia, então mantenha-se em contato conosco porque este trabalho não vai ficar só no papel não. Vamos publicar isso. Aluno: ...deparei-me com um trecho que se parece muito com suas críticas aos macacos da filosofia no mundo contemporâneo brasileiro. Mando abaixo um trecho da minha modesta tradução: “em seguida Aristóteles argumenta acerca dos erros de alguns homens que não estão a executar obras de virtude, mas refugiando-se através dos raciocínios filosóficos sobre as virtudes, estimam que estão sendo ou virão a ser homens bons pelo fato de que estão a filosofar.” Então ele diz que tais homens apenas estudam as obras de virtude, sem realmente executá-las. Esses homens são similares aos enfermos que, de forma solícita e atenciosa, ouvem os mandamentos e normas emitidos pelos médicos, mas que caprichosamente não fazem nada do que lhes é ordenado. Aristóteles relaciona a filosofia com a cura da alma, tal qual o remédio com a cura do corpo. Portanto, como aqueles que ouvem os preceitos dos médicos sem segui-los nunca estarão bem dispostos no sentido corporal, também aqueles que ouvem os documentos morais dos filósofos e não os seguem, nunca terão uma alma bem disposta. Olavo: Isto é exatamente assim, só que esta maneira de dizer já se consolidou na nossa cultura e ela, hoje, pode ser facilmente mal compreendida porque dá a impressão que você ouviu uma receita que você tem que seguir, quando a coisa não é assim. A verdadeira meditação sobre a virtude não consiste em ouvir a explicação e segui-la, mas consiste em compreendê-la no próprio ato de executá-la. Você terá de partir da virtude que você tem efetivamente. Você terá que fazer escolhas dentro de você mesmo, e não ouvir o que o outro disse e fazer o que ele recomendou. Claro que você pode desenvolver inúmeras qualidades por imitação, isto é sempre possível e eu recomendo que se faça isso. Mas você não pode imitar nada se você não tem em você mesmo a raiz daquilo. Então é esta que você tem que procurar. Não se trata de pegar uma receita fora e copiá-la, mas ao ouvir a receita você sabe a que aquilo corresponde em você. Você precisa buscar aquela tendência em você mesmo. Às vezes ela é muito menor e modesta em você do que aquilo que você está ouvindo, mas é o que você tem. Outra coisa, se nós damos muitos conselhos de virtude para as pessoas elas não vão seguir nenhum. O sujeito fica esmagado sob uma sensação de impotência. Então você tem que pegar uma por uma, devagarzinho, mas não largar. Essa é minha sugestão. Por mais bonzinho que você seja, não há virtude maior do que o próprio amor a Deus. Não há. Qualquer perfeição humana é porcaria perto disso. Aquela abertura, aquele maravilhamento, é como um êxtase mesmo. Isso é que é importante. É mais importante do que as virtudes, porque é isto que vai te dar alguma força. Comparado com isso, suas virtudes e seus defeitos são nada. Isto é a coisa decisiva. Não estou falando no ponto de vista doutrinal, não estou passando aquele negócio de teologia moral. Estou falando apenas do ponto de vista prático-pedagógico. Teologicamente falando, todas as virtudes são obrigatórias e todos os pecados são condenáveis. Mas eu digo: e daí? Mesmo que você seja um santo, você não pode ser todos os santos. Além disso, existe uma diferença entre o raciocínio filosófico sobre as virtudes e a meditação aprofundada. A meditação aprofundada é encontrar em você a raiz disso; não é simplesmente criar idéias. [02:30] Eu comecei esta aula dizendo que existe uma diferença muito grande entre você compreender a idéia que você tem sobre alguma coisa e compreender a coisa. Então, o que é a virtude? A virtude é um impulso que você tem e que todos têm, ou seja, coisas boas que você quer fazer. Movido pelo amor a Deus, pelo amor ao próximo, pela piedade que certas coisas lhe inspiram. Por que você não se deixa fazer estas coisas? Por que tem algo que se opõe? É este “que se opõe” que tem de ser tirado. Agora, você não precisa compreender filosoficamente as virtudes ou, muito menos, teologicamente. Então, muito mais importante do que isto é saber onde elas estão em você. Aluno: Certa vez o professor falou dos jogos de linguagem que são a filosofia de Descartes, Kant e outros, e da perdição em que entramos quando aceitamos estes jogos, por não terem relação nenhuma com a experiência real. Isto não nos aproximaria do pacto de ficção entre a obra e seu leitor na literatura? Olavo: Sem sombra de dúvida. Essas filosofias apelam à sua suspension disbelieve. Então, você pode pensar como eles. E como pensar como eles é um negócio elegante, que pode lhe dar alguma segurança, você acaba pensando como eles. Mas note bem, isto é uma relação entre leitor e autor. Eu digo: cadê o objeto? Cadê a coisa da qual ele está falando? Onde ela está? Quando ela vai falar? Ela não fala! Então, fica um jogo: Kant diz isto e você pensa aquilo, e você tenta amoldar o seu pensamento ao de Kant para você poder ver como ele. Tudo isto está muito bem, mas do que Kant está falando? Eu sempre gostei que nas minhas aulas a coisa decisiva fosse o objeto do qual nós estamos falando e não o professor e os alunos. Nós aqui não somos o espetáculo. Eu estou encenando o espetáculo e vocês estão vendo o espetáculo, mas o espetáculo é uma terceira coisa. E a terceira coisa é o do que nós estamos falando. Eu nunca estou tentando demonstrar nada do que eu estou falando, eu só estou exemplificando e pedindo que vocês exemplifiquem também com as suas experiências. A coisa que eu acho mais chato do mundo é você fazer uma teoria e um monte de prova em favor dela. Isto pode ser necessário algumas vezes, por exemplo, em um tribunal, mas em filosofia isto é inútil. Nós não estamos aqui para provar nada para ninguém. Não estamos aqui para provar teses. Eu estou aqui falando de experiência e apelando a que vocês tenham a mesma experiência. E se a sua experiência parecer diferente da minha, por favor me avise. Aluno: Não seria este o principal motivo por que a maioria das pessoas aceita tão facilmente os pressupostos científicos? Porque não são capazes de imaginar, de inventar situações, de colocar-se em outros mundos. Daí a necessidade de criar um aparato imaginário que nos torne capazes de identificar a realidade da ficção. Olavo: Mas é exatamente isto que eu estou dizendo. Às vezes, é pura falta de imaginação. Por exemplo, o sujeito acreditar que existe uma concepção científica do mundo. Eu digo: uma concepção científica do mundo é impossível! Se você juntar todas as ciências e conseguir sintetizá-las, isto daí não completa uma concepção do mundo. Porque o mundo não pode ser concebido... O mundo só pode ser percebido. Conceber o mundo é criar outro. E pra que serve isto? O mundo que você conceba é só mais uma coisa que aconteceu dentro do mundo. Pior, aconteceu dentro do micro mundo que é a sua cabeça. Então, uma concepção do mundo não serve para nada. Agora, uma percepção do mundo serve. Porque quando nós estamos percebendo, é o negócio do Heráclito: nós todos vemos que estamos no mesmo mundo. Então, não precisa haver uma concepção, porque se houver uma concepção, você tem a sua, eu tenho a minha, o vizinho tem a dele e assim por diante, cada um fica lá com a sua bela concepção do mundo. Só que cada um vivendo dentro do seu mundinho. São todos — como dizia Heráclito — adormecidos. Nós aqui não queremos criar uma concepção do mundo, mas criar sucessivas percepções que nos levem a este reconforto de saber que estamos no mesmo mundo. Porque isto é realmente gostoso. Não fomos nós que fizemos este negócio, nós não temos que fazer, está tudo aí e não é tão ininteligível quanto parece. Aluno: Na aula passada, o professor disse que Émile Durkheim fundou a ciência da Sociologia sobre os pressupostos inconsistentes das antigas e tão atuais sociedades de livre-pensamento francesas. Saussure também fundou a ciência da linguística sobre pressupostos inválidos como a arbitrariedade. Olavo: Claro. O signo tem alguma relação intrínseca com a coisa significada? Platão já dizia que às vezes têm e às vezes não têm. Olha que coisa incrível. Se você partir da arbitrariedade do signo, você nunca vai explicar porque que em quase todas as línguas do mundo o som de m tem alguma coisa a ver com mamãe e o b, p e v tem alguma coisa a ver com o pai. É aparentemente uma coisa inexplicável. Então, por outro lado, têm certas palavras que foram inventadas, são convencionais e que não tem nada a ver uma coisa com outra. Não dá para saber se o signo é arbitrário ou não. Então o que fez Saussure? Determinou por pressuposto que todos os signos são arbitrários e começa a raciocinar a partir daí. Mas este pressuposto está errado. O pressuposto certo é que não sabemos. Se você não sabe, para que vai fazer de conta que sabe? Só para criar uma estrutura toda e dar um monte de trabalho para muita gente e depois não chegar a absolutamente nada. Começa com Saussure e termina com esse negócio do desconstrucionismo. O desconstrucionismo diz o seguinte: nenhum texto se refere a nada fora dele: o texto é uma unidade fechada que só se refere a si mesmo ou então a outro texto. Se você já disse que o signo é arbitrário, é claro que todo texto tem que ser isto. Por que vocês levaram cem anos para chegar a esta conclusão que já estava dada na premissa? Porque vocês são muito burros. Agora, a premissa é falsa e a conclusão também é falsa. Então, com tudo isto se gasta dinheiro, se cria problema e só faz as pessoas sofrerem. O fato é que a relação entre linguagem e realidade, ela em si mesma faz parte da realidade e se todos os signos estivessem absolutamente separados da realidade, nós jamais poderíamos conectá-los de maneira alguma. Inclusive tudo o que você escrevesse sobre os signos também estaria separado dos próprios signos. Porque os signos passam a ser tratados como objeto ou realidade. Se não há relação entre signo e realidade, o que eu escrevo sobre o signo também não tem relação com o signo. Precisa ser muito inteligente para perceber isto? Não. Bastam dois minutos. Aluno: Que caminhos podemos seguir para sair da arapuca Saussurriana? Olavo: O velho Platão. Os diálogos de O Crátilo são sobre isto aqui. E a conclusão dele é exatamente a que eu estou dizendo. Umas palavras são arbitrárias, mas para que existam as arbitrárias tem de existir outras que não são. Por exemplo, aqui no inglês é impressionante o número de palavras inglesas que são onomatopaicas. É impressionante! E se é onomatopaica, não pode ser arbitrária. Foi baseada numa imitação de uma coisa real. Aluno: [02:40] Nesta fase do nosso curso – da formação do imaginário através da literatura de ficção, de filmes etc. – pergunto: o estudo da matemática pode ser de alguma utilidade para captação das possibilidades da vida humana? Olavo: Na verdade eu não sei. Esta é a resposta. Eu acho que, em geral, não. Para a maioria das pessoas, não. Mas pode ter alguém para quem isto sirva. O problema com a matemática, assim como com a lógica, é que ela é sobretudo uma arte combinatória que não se refere a nada. São somente formas. Então, idealmente isso tudo pode funcionar na base do puro automatismo. Para muitas pessoas que estudam isto, transforma-se num verdadeiro vício. Eu acho que mais importante do que estudar matemática, ou do que estudar lógica, é “ver figurinhas” como dizia Leibniz. Olha que Leibniz era um grande matemático. Aluno: Gostaria que o senhor repetisse o nome do livro indicado há poucas aulas que falava da música vista como símbolo do modo como as situações da vida acontecem. Olavo: Eu acho que você se refere ao livro do Victor Zuckerkandl. É um livro muito raro e aguardem que nós vamos publicar. Não se preocupem que nós vamos publicar isto aqui. Ele escreveu três livros e, se possível, nós vamos publicar os três. Aluno: Você tem usado a palavra imaginação com dois sentidos que me parecem um pouco diferentes. Em primeiro lugar, a imaginação como aquela construção contínua de imagens que acontece mais ou menos subconscientemente e estabelece a ponte entre os sentidos e os conceitos. E em segundo lugar, a imaginação como aquela criação consciente de imagens que realizamos quando criamos um texto, o sonho acordado dirigido. Olavo: Sem dúvida são dois sentidos diferentes, quer dizer, por um lado você tem um fluxo onírico que não pára. Mas você pode ter alguma interferência criativa nisto como tem no caso do sonho acordado dirigido. Note bem, o sonho acordado dirigido é você mesmo que está dirigindo ou o seu psicoterapeuta. Então, já não é a mesma coisa que o fluxo onírico espontâneo. Mais ainda, nós não estamos interessados tanto no fluxo onírico espontâneo quanto na percepção espontânea da qual o fluxo onírico é o primeiro resultado. Ou seja, aquilo que você percebe durante o dia aparece de algum modo em seu sonho. Se você começar a interpretar sonhos, isto aí vai tudo atrapalhar. Só nos interessa do sonho aquilo que se refere a uma realidade. Por exemplo, a coisa mais simples, você tem um mal-estar durante a noite e lhe aparece um sonho que expressa a imagem deste mal-estar. Você está com uma indigestão e isto lhe aparece no sonho como um demônio que está lhe perseguindo, uma coisa assim. Ou seja, você está percebendo o seu mal-estar antes de você percebê-lo refletidamente. Então, este sonho traduz uma realidade. Um dos livros que eu li a este respeito conta uma história interessante. Não sei se eu contei para vocês. Um sujeito dizia assim: pegue a primeira imagem que lhe apareça na mente e diga. As pessoas diziam umas coisas interessantes e tinha um sujeito que ficava quietinho, não falava nada. Questionaram ao que não falava nada e ele respondeu que aquilo que tinha pensado era bobagem, pois tinha pensado em um pneu. E depois perguntaram onde ele tinha visto o pneu. Daí ele lembrou que tinha visto o pneu na casa da cunhada dele e que o pneu estava muito velho e gasto, portanto, ela estava se arriscando a um desastre. E aí ele foi telefonar para a cunhada imediatamente. Ou seja, aquela imagem parecia uma bobagem, mas era uma informação importante que ele pegou e depois não pensou mais naquilo. Esse tipo de imagens é muito importante. Não tem que ser interpretado, são informações da vida, fundamentalmente literais, que mostram aquilo a que Leibniz chamava de “as pequenas percepções”. Até hoje eu acho que é o termo certo. São as pequenas percepções que você percebeu durante um segundo e depois esqueceu. Então, não podemos dizer que isto é propriamente uma imaginação, mas foi uma percepção que reaparece na imaginação e que lhe dá uma informação importante que você esqueceu. Entendeu? Se não fosse esse professor dizer: “Não, fale. A imagem pode parecer bobagem, mas diga o que é”. A hora que o cara disse que lembrou que viu o pneu, e veja: o fato do pneu aparecer sozinho na imaginação dele é um sinal. Você percebeu isto e você devia ter avisado sua cunhada. Não é interessante isso aí? Isso acontece com muita freqüência. Aluno: Na medicina ocidental moderna, a determinação da exposição a algum fator de risco para o desenvolvimento das doenças e a avaliação de grau de risco para o surgimento da doença é pedra de toque não somente da pesquisa médica como também na terapia médica moderna. Como o senhor avalia os estudos epidemiológicos da medicina? Através dos estudos de corte de prevalência de ensaios clínicos aleatórios será possível edificar a ação real das variáveis estudadas como, por exemplo, o efeito cigarro na gênese carcinoma pulmonar ou dos flavonóides na prevenção da arterio-esclerose? Em caso negativo, onde estaria o defeito intrínseco da abordagem epidemiológica contemporânea? Olavo: Bom o defeito intrínseco da abordagem epidemiológica é que ela não se aplica a nenhum caso concreto. Quer dizer, eu me lembro da história do Darcy Ribeiro que estava lá com câncer e daí vieram informar que, no caso dele, havia 30 por cento de chance do câncer ser remissivo, isto é, curar sozinho. Aí o Darcy falou: “Tô nessa”, saiu do hospital, foi pra casa e viveu mais de 40 anos. Mas ele estava nessa porque ele decidiu? Ele podia estar nos 70 por cento, mas estava nos 30. Em segundo lugar, você precisa ver que a avaliação de risco é uma coisa enormemente arriscada, sobretudo quando você avalia esses riscos isoladamente, e não os compara com outros. Por exemplo, essa semana mesmo eu estava falando no “True Outspeak”, quantas pessoas morrem de câncer por ano? São seiscentas mil. Quantas morrem por causa da medicina, por causa de erros médicos, causas iatrogênicas? Um milhão. Então a medicina já ficou mais perigosa que o câncer. Então, na verdade, a medicina nos EUA é a maior causa de morte que existe. Agora, se você fumar, você tem um risco de 0,0001% de morrer. É, mas se eu for me consultar com você eu tenho um risco muito maior. Então o risco estatístico, o que é uma probabilidade? Uma probabilidade é uma necessidade limitada. Isso é uma coisa que tem que acontecer, mas não sempre. Acontece com uma freqüência X. A probabilidade tem que ser quantificada, porque probabilidade não quantificada significa nada. A probabilidade só tem significado concreto se for comparada a outros riscos. Porque o risco em si, o risco abstrato, não tem o menor sentido porque parte do princípio de que o normal é não sofrer risco nenhum. Agora, existe alguma vida humana sem risco? Não. Então, isso quer dizer que se você tem um risco de 1%, 2%, 3%, esta estatística em si mesma não significa nada. Um risco só vale alguma coisa em comparação com outro risco. Por exemplo, [02:50] por que nós sabemos que é perigoso viver no Rio de Janeiro? Porque nós sabemos que vivendo em outra cidade você corre menos risco. Agora, se o Rio de Janeiro fosse a única cidade do mundo, você não poderia dizer que aquilo é perigoso, porque não teria padrão de comparação. Você estaria arriscado a levar uma bala perdida na cabeça porque seria da natureza das coisas levar uma bala perdida na cabeça. Sabe aquele negócio de que para morrer basta estar vivo? Qual é o risco de morte que nós sofremos? É de 100%. Então quer dizer que isso não significa nada. Agora se tem outro lugar onde as pessoas estão vivendo um pouquinho mais, então começou a significar algo. Acontece que esse pessoal da epidemiologia vive hoje de buscar riscos hipotéticos, e pra isso se aloca verbas de pesquisa enormes. Então quer dizer: para se obter a verba você precisa provar que existe o risco do risco, e que vale a pena estudar aquilo. Então o resultado toda hora é que eles estão produzindo riscos e mais riscos e mais riscos e mais riscos. Espera aí! E a comparação, quando é que vocês vão fazer? Não vão fazer nunca. Então, meu filho, se você come feijão, você corre o risco de x%, então, opa, é melhor não comer. Se você come açúcar, então corre o risco daquilo. Então espera aí! Soma tudo e veja os riscos, então você vê que algumas coisas que ele está chamando de riscos não são riscos de maneira alguma. O dado estatístico isolado de outros dados estatísticos é uma debilidade mental, é uma deformidade mental. Tudo o que é estatístico é, por natureza, comparativo. Agora, se você está comparando o risco de x% com a hipotética ausência de risco, então você está supondo que ninguém corre jamais risco algum, somente as pessoas que estão dentro daquele caso. Essa é a falha metodológica fundamental. Não existe risco de 1, 2 e 3%. Só existe risco comparativo. Neste sentido o maior risco é submeter-se a qualquer tratamento médico de qualquer natureza que seja. Aqui nos Estados Unidos, as doenças que mais matam são o câncer e as doenças cardíacas. O número de pessoas que morrem com doenças cardíacas é aproximadamente metade das que morrem por doenças iatrogênicas. Agora, o pior é que nós realmente precisamos da medicina, não podemos jogar ela fora. Eu digo, bom, tem situações em que você pode evitar ir ao médico, mas tem situações em que você não pode. Então daí você tem um caso de risco altíssimo em comparação com outros riscos. Por exemplo, você vê campanhas contra armas de fogo. Agora se você pegar o número total de homicídios por armas de fogo, ele é 1% do que morre na medicina, então o risco de você ser assassinado por arma de fogo é muito menor do que de você morrer na mão do seu médico. Então o raciocínio epidemiológico está errado na base quando ele não leva em conta a comparação entre os riscos, quando ele pega os riscos abstratos. Mas pegar riscos abstratos é a base da disputa por verbas de pesquisa. Então o sistema de produção do conhecimento está viciado. Mais ainda, estes riscos estatísticos, tão logo são descobertos, são usados em campanhas para o maior controle social. Então por exemplo, começou com o cigarro, depois foi para o fumo passivo e agora tem o fumo de terceiro grau, que o que é? O sujeito que fuma lá fora, mas traz partículas de nicotina na roupa, que pode matar as pessoas entorno. Há um risco de 0,00001%. Então, se você disser que há um risco de x%, por pequeno que seja, o médico é obrigado a prevenir você. Agora, ele não diz: “Você pare de fumar, porque senão você vai correr um risco grande; agora, se você der ouvidos a mim, estará correndo um risco muito maior”. Ele não vai dizer isso. Então qual é o erro? O erro é a posição social da medicina como instrumento de controle social, e também a própria concepção do Estado como aquele que deve proteger a comunidade contra todos os riscos possíveis e imagináveis. Qual é o fator mais assassino no mundo depois da medicina? O Estado. Quem é capaz de matar tanta gente quanto o Estado? Ninguém. Aí é o caso de você botar a raposa pra tomar conta do galinheiro. E todo esse pessoal que está alertando contra riscos, está fornecendo argumento ao Estado para que ele crie novos instrumentos de controle social, e ele adora isto e por isso mesmo financia isto. Agora, se você aceita a proteção estatal contra estes riscos hipotéticos, logo vem outro, e outro, e outro, e outro e isso nunca acaba. Por exemplo, toda vez que eu entro aqui numa conferência, a conferência de “conservatives”, eu chego lá na porta e tem uma placa onde está escrito: esse edifício é “smoking free”. Veja, a expressão é invertida, dá a impressão de que está te oferecendo uma liberdade, mas na realidade está te proibindo. Portanto, se vocês são “conservatives” e já entraram no discurso invertido, aceitaram esse controle estatal sobre a conduta particular e querem me dizer que são conservadores, vocês já perderam a briga. Só aí já perderam, porque não é para aceitar nada nunca. Olha, a primeira proteção estatal que eu quero é a proteção estatal contra o Estado. Isto é à base da constituição americana. A constituição foi feita para proteger as pessoas contra os próprios autores da constituição, olha que coisa maravilhosa. Está que nem eu no meu programa “True Outspeak”, em que começo rogando a Deus não proteção a mim, eu rogo a Deus proteção aos meus inimigos contra mim, está entendendo? O Estado americano foi feito nesta base, rogando a Deus que protegesse as pessoas contra o próprio Estado. E isto é o principal. E o resto? O resto as pessoas se viram. Viram esse exerciciozinho que eu dei sobre o socialismo e o que eu dei a vocês sobre a economia? Basta um pouco desse exercício para você ver o método certo de controle da sociedade humana. Deus já inventou: chama-se amor ao próximo, e ele já é a base. Não que o amor ao próximo deve... você pensa que o amor ao próximo é você viver apaixonado pelas pessoas, dando beijinho? Não é! Ele é a natureza das coisas, ele já existe, ele já funciona, todo mundo está sendo movido pelo amor ao próximo. E é claro que ele falha, muitas vezes falha, vamos dizer que tenha 20% de falha. O amor vira ódio, acontece! Mas em geral ele prevalece e é o controle social. Então pra que precisa de outra entidade para dizer: “não vai haver amor ao próximo, agora é organização racional da sociedade”? Eu digo que isso aí é o Diabo. Você não é capaz de organizar nem você mesmo. Você olha a vida de Stalin, olha a vida de Fidel Castro, olha a organização que eles tinham nas suas famílias. Olha, a minha família é uma bagunça, mas não tem desrespeito, não tem um matando o outro, não tem isto. Se eu não tivesse nem isto eu não teria cara para comparecer diante de você pra falar um negócio desse. Agora, você vai ver lá, a filha do Fidel Castro fugiu pra Miami, o regime é tão bom que até a filha do cara foge, e são esses caras que querem dirigir a sua vida quando não são nem capazes de dirigir sua casa! Então basta um pouquinho de imaginação pra você perceber que essa idéia da regulação total é louca em si. Agora, uma regulação baseada em riscos estatísticos hipotéticos, o que é isto, meu filho? Quer dizer, eu vou querer que o Estado me proteja por risco hipotético. Se você já aceitou isso, você já se aviltou até o fim, sobretudo porque aquele que está te oferecendo, aquele que através do Estado oferece a proteção é ele próprio um risco. Quer dizer, eu já tinha visto isso no Brasil no tempo em que eu editava revista médica. [03:00] O doutor Carlos da Silva Lacaster, que era um grande pneumologista, já tinha chegado a essa conclusão, falando: “olha, a coisa mais perigosa que tem é a medicina”. E isso nos anos 60. Agora, aqui nos EUA, ainda tem uma coisa que é pior do que médico, que é o advogado. Está todo mundo louco pra processar o médico e meter ele na cadeia, e ele vai pra cadeia e mesmo assim ainda demora. Agora, imagina no Brasil, onde é impossível condenar um médico por qualquer coisa. As estatísticas de iatrogenia no Brasil deve ser um negócio assim, majestoso, mas essa estatística jamais vai existir. Eu acho que a última vez que alguém fez isso foi o Carlos da Silva Lacaster, que é um cara de quem todo mundo tinha medo, porque ele era um catedrático da USP, secretário de saúde, e ninguém falou nada. Ele publicou o livro e todo mundo fez de conta que não viu, mas ninguém falou mal. Eu imagino que a estatística de erro médico no Brasil seja um negócio esplendoroso, mas vão falar: “como é que o máximo fator de risco vai nos proteger contra os outros riscos?” Isso aí é como o socialismo. No socialismo, a criminalidade é baixa porque é preciso ter o monopólio estatal do crime, não é? E se deixasse o banditismo florescer? Vamos supor que na União Soviética acabou e agora está liberado o banditismo, você pode matar quem você quiser. Eles não chegariam a matar tanta gente quanto o Estado matou. O banditismo avulso nunca é tão produtivo quanto o banditismo estatal. Então, vamos dizer, o próprio conceito epidemiológico está errado em si, por não ser de ordem comparativa. Então quando você vê, por exemplo, esse negócio do cigarro, eu realmente não gosto de falar disso, por quê? Porque eu sou um fumante inveterado, então as pessoas vão dizer que eu estou falando em causa própria, se bem que eu não ganho nada com isso e só gasto dinheiro com essa porcaria. Mas quando você vai ver, o fumo está associado a certas dependências, não quer dizer que ele causa, prova de causa não tem nenhuma, nenhuma, nenhuma, é 0,00%. Está estatisticamente associado a tais coisas, de tal modo que no fim das contas morre 400.000 fumantes por ano. Morrem mais ou menos na mesma idade dos outros, então pode até haver um risco, mas é tão remoto que só de você pensar nisso já é neurótico. Agora, vale a pena você neurotizar uma sociedade inteira e criar instrumentos de controle social extremamente draconianos para proteger as pessoas contra um risco indireto e hipotético? Mas quem tem direito disto? Isso aí já é um risco. Você está dando autoridade, está dando poder a uma entidade que em si é mais mortífera do que aquele risco que você está correndo. Lembra o que eu falei minutos atrás de quando vem o mundo burguês? A base do mundo burguês é a busca da segurança. Então essa é uma das contradições do capitalismo, quer dizer, o capitalismo cria uma vasta classe média, pega os caras que estavam na miséria total, dá uma vida melhor pra eles, dá lá uma casinha, um carrinho, um bom emprego e daí o sujeito começa a ficar com medo de perder aquilo. E daí o que ele faz? Quer um governo que proteja contra aquilo e que intervenha em tudo, então quer a porcaria do socialismo. Esse é o problema do capitalismo. Uma vez uma mulher estava falando aqui que essa sociedade está errada porque trata as pessoas bem demais, e eu falei: “Olha, você tem razão”. O capitalismo é tão bom que as pessoas acabam querendo o socialismo para acabar com ele. Não sei se eu respondi a sua pergunta, mas me parece que é isso. O problema é só este. O método não está errado, caso por caso. Ele está errado porque só pode haver epidemiologia de conjunto. Riscos epidemiológicos isolados são o absurdo dos absurdos. Aluno: Enquanto o senhor descrevia o exercício me lembrei das seguintes palavras de Mário Ferreira dos Santos, no livro “Práticas de Oratória”: “Para justificar o nosso método damos o exemplo de quem, ao dirigir-se para uma cidade que não conhece, contempla-a do alto de um morro. Tem dela uma visão sintética. Depois de visitar suas ruas e bairros, vai conhecendo com pormenores. Finalmente, quando se afasta da cidade e a contempla do alto do morro, tem dela uma visão concreta, muito distinta da primeira, embora tenha já uma visão geral, esta já inclui aspectos de minudências que antes desconhecia”. Olavo: Perfeito, é como ele descrevia o que ele chamava de “método concreto”. Quer dizer, você tem primeiro o enfoque sintético, depois o enfoque analítico e depois o enfoque concreto. Isso é perfeito. Aluno: O senhor podia citar rapidamente os cinco melhores livros de geopolítica que o senhor já leu? Olavo: Os cinco melhores? Um muito bom é o do Jeffrey Nyquist, “Origens da Quarta Guerra Mundial”. Deixa eu ver, pensar os outros quatro. Eu vou pensar os outros quatro, mas tem tanta coisa sobre isso! É, não consigo fazer a listinha agora, não. Bom, então, acho que por hoje é só. Muito obrigado e até semana que vem. Transcrição: Eduardo Afonso de Aguiar, Gilberto Luiz B. Edson, Luíza Monteiro de Castro, Mauro Ventura Alves, Milton Nogueira Brando Neto, Cynthia Leite, Helio Angotti-Neto. Revisão: Juliana Rodrigues, Murilo Resende, Gustavo Ribeiro. Formatação: Marcela Andrade.