Curso Online de Filosofia OLAVO DE CARVALHO Aula 16 25 de julho de 2009 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso de Filosofia Online. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor, não cite nem divulgue este material. [Parte 1: COF20090725] Boa tarde a todos. Sejam bem-vindos. Quero lembrar a vocês que em final de setembro vou proferir aqui em Colonial Heights o curso Conceitos Fundamentais da Psicologia, sintetizando e aprofundando vários estudos de psicologia que fui fazendo ao longo dos últimos vinte ou trinta anos, como, por exemplo, o problema das camadas da personalidade, a definição da psique etc. Esse curso será proferido aqui e aqueles que quiserem se inscrever ou obter mais informações, liguem para o sr. Eduy, no telefone (041) 9974-4443. Eu gostaria de explicar nesta aula algumas condições sócio-culturais nas quais vocês terão de exercer sua atividade intelectual no Brasil. Este é um panorama que vocês têm de conhecer muito bem desde já porque é onde vocês vão viver e ele será o cenário das suas vidas. Para entrar nesse assunto e poder entender como é que essa questão se coloca no Brasil de hoje, precisamos ter primeiro uma idéia do que é alta cultura. À medida que o ser humano vai se desenvolvendo, atravessa, desde o seu nascimento, uma série de apropriações da linguagem — linguagem no seu sentido mais amplo possível, não só linguagem verbal, mas toda a apreensão e domínio de signos e significados. Vê-se então uma espécie de escalada em que o indivíduo vai conquistando círculos cada vez maiores de linguagem, que lhe dão acesso à convivência com círculos maiores de pessoas e, portanto, a maiores e mais complexas possibilidades da ação humana. O primeiro círculo que ele tem de conquistar é claramente o da comunicação imediata com a sua família: o pai, a mãe, o irmão etc. Nós sabemos que ali todas as deficiências de linguagem que a criança possua serão supridas, de certo modo, pela própria família. Por exemplo, no caso da criança que chora porque quer alguma coisa e não consegue dizer o quê, os pais fazem um esforço para entendê-la e freqüentemente acabam adivinhando. Não é propriamente ela quem domina a linguagem. Existe em torno dela um sistema de amortecedores que visa a facilitar a sua comunicação por um esforço a mais do receptor, e não do emissor da informação. É claro que esse sistema de amortecedores vai diminuindo à medida que o tempo passa. À medida que você cresce, espera-se que você mesmo domine sua linguagem sem que outros tenham de facilitar sua expressão. E assim por diante. Depois, o indivíduo começa a ter amiguinhos, vai para a escola e passa a ter de conquistar não só um repertório, mas um sistema de signos cada vez maior, mais organizado, flexível e eficiente. Até o ponto em que, já próximo da vida madura, supõe-se que o indivíduo seja capaz de expressar e comunicar tudo o que é necessário para sua subsistência na sociedade humana. E se ele não souber, então “dane-se”: se ele não consegue explicar as suas necessidades e os seus objetivos, ninguém tem nada a ver com isso, ninguém tem a obrigação de ser tolerante e compreensivo com ele. No período da adolescência, quando o foco da convivência vai sendo transferido da família para o grupo dos seus coetâneos — pessoas da mesma idade —, surge uma dificuldade que pode chegar a ser muito dolorosa em certas circunstâncias: a dificuldade da conquista da aprovação pelo meio social, que implica você ter de ser aceito pelos seus professores, pelos vários grupos de alunos. E a aceitação depende de que as pessoas o sintam como um semelhante, como alguém que fala a mesma língua deles e quer as mesmas coisas. Em tudo isso vigora sempre a definição de Santo Tomás de Aquino: a amizade como idem vele, idem nole — querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Se o que você quer é aquilo que eu quero, se o que você rejeita é aquilo que eu rejeito, então você é meu amigo, você faz parte do meu grupo etc. Aqui nos EUA é muito comum ver como a sociedade criou uma série de mecanismos para facilitar essa integração, porque a formação dos grupos de amigos aqui se dá sobretudo pelas afeições comuns que as pessoas têm a certas atividades. Existem, por exemplo, clubes de debates, de música, de roqueiros, de punks etc. Então você logo encontra sua turma, adquire a mesma linguagem deles. Mas isso não é coisa fácil. Pessoas que no aprendizado propriamente escolar podem ir até muito mal, às vezes revelam uma habilidade extraordinária nesse sentido. Quando tomam contato com um novo grupo social, assimilam facilmente a linguagem daquele grupo e nele integram-se facilmente. Isso levou os estudiosos das inteligências múltiplas a reconhecer aí uma forma específica de inteligência, habilidade específica que chamam de inteligência social. Essa inteligência social, umas pessoas têm-na mais, outras, menos. E, com freqüência, um indivíduo que vai muito bem nas matérias escolares — em matemática, ou em línguas — pode ser péssimo nisso. Ele pode conseguir aprender uma língua se você a ensina pela gramática, exercícios etc.; mas não consegue apreender aquele código complexo de conduta deste ou daquele grupo e, portanto, integra-se mal ali. Essa conquista da aprovação dos grupos sociais, sobretudo do grupo dos coetâneos, é um elemento básico da personalidade humana. O indivíduo pode simplesmente se desgraçar se não conseguir passar com certo êxito por essa etapa. Pode tornar-se um sujeito socialmente desajustado, alguém cujo nível de comunicação com os seus coetâneos não é adequado. Entra aí também a comunicação com a autoridade — com a sociedade no sentido da hierarquia — e com o mundo também, o que significa também a apreensão do sistema de leis vigentes. É claro que todo grupo tem as suas leis, mas essas leis, em geral, são tácitas; não são declaradas. Existem as leis que foram aprovadas pelo parlamento, oficialmente vigentes e que você é obrigado a cumprir. Note que o conhecimento que as pessoas têm dessas leis é extremamente precário. Se você interroga um cidadão brasileiro sobre o Código Penal, ele não tem a menor idéia dos delitos ali previstos. Se pergunta sobre o Código Civil, seus direitos e deveres, sobre o sistema de propriedade, o pessoal, em geral, não sabe quase nada a respeito disso. Aqui nos Estados Unidos sabem mais um pouco, mas mesmo assim a distância entre os conhecimentos de que o cidadão usualmente dispõe e a totalidade do sistema legal vigente é abissal. As leis hoje em dia já se contam às centenas de milhares e ninguém tem o controle disso, nem mesmo os profissionais que lidam com isso — advogados, juízes, promotores etc. — têm o conhecimento do sistema integral das leis. No entanto, continua em vigor aquele preceito de que ninguém pode jamais alegar o desconhecimento da lei. [0:10] Dizer que infringiu uma lei porque a desconhecia não é considerado uma desculpa válida. Há o princípio de que o cidadão tem a obrigação de conhecer as leis; mas essa obrigação é, ao mesmo tempo, impossível de se cumprir, porque as leis são em número demasiado. Isso, por sua vez, contraria outro princípio do direito: o de que ninguém é obrigado ao impossível – ad impossibilia nemo tenetur. Se você é obrigado a conhecer as leis, mas o conhecimento das leis é praticamente impossível, então você está sendo obrigado ao impossível. Existe aí um loop lógico: você é obrigado a uma coisa que, ao mesmo tempo, é impossível; e você, por sua vez, não pode alegar essa impossibilidade. Basta isso para ver como a integração do cidadão na sociedade de hoje pode ser uma coisa bastante complicada. E é claro que essa dificuldade do cidadão em se integrar na sociedade fomenta um estado psicológico de extrema insegurança, que impele o indivíduo a buscar a proteção da autoridade; o que, por sua vez, aumenta o poder da autoridade e, portanto, aumenta o número de leis. Isso que aqui descrevo acontece a todas as pessoas, sem exceção – a não ser que o sujeito fique em casa, como o Bob Hope, cômico americano que escreveu um livro de memórias chamado "Nunca saí de casa"; imagine o que ele tem para contar! Então, a não ser que você nunca tenha saído de casa, com algum destes problemas você terá topado: a integração em um grupo de cuja aprovação você necessita; ou o ser rejeitado por um grupo sem saber o motivo; ou mesmo a integração na sociedade maior — no mundo das leis e do direito. É claro que, além do mundo das leis e do direito, existe o mundo gerador deles, o mundo da política. Freqüentemente, as pessoas desenvolvem alguma participação no mundo da política – no mínimo através do voto e das opiniões – antes de ter a mais mínima idéia de qual é o sistema legal vigente. É uma coisa incrível que as pessoas não conheçam as leis, mas exerçam influência através do voto, dos debates etc. Donde já se nota que a integração do cidadão na sociedade contemporânea é cheia de percalços, contradições e problemas. O período que vai da adolescência à primeira mocidade – dos doze aos vinte um, vinte dois anos – é o período em que seu meio fundamental deixa de ser sua casa, sua família e torna-se a sociedade maior. É justamente nessa fase que aparece o problema da integração ou da adaptação social do sujeito. Note que também o conceito dos inadaptados — desajustados, marginais etc. — é relativo, porque o marginal também está integrado em algum grupo. Um sujeito que está totalmente fora das leis, que está sendo perseguido pela polícia não está socialmente desajustado, posto que está perfeitamente ajustado dentro do grupo dos narcotraficantes ou dos batedores de carteira. Ninguém existe sozinho. A existência humana se dá através de uma trama de relações que implica expectativas, aprovação e desaprovação, simpatias e antipatias; e nós temos de lidar com isso 24 horas por dia. Qualquer atividade humana implica sempre uma expectativa quanto às reações que as pessoas em torno terão a respeito daquilo. E quem não tem conhecimento disso, fica completamente desorientado. Ser capaz de prever, até certo ponto, as reações das pessoas a suas ações e palavras é condição sine qua non para viver na sociedade humana. Imagine a quantidade de conhecimentos que uma pessoa – por mais burra que seja – precisa ter simplesmente para viver em sociedade. Imagine a quantidade enorme de códigos. Pode ser que ela não seja capaz de expressá-los verbalmente, mas saberá operá-los de algum modo, coisa muito mais complicada do que aprender gramática na escola. A diferença é que esse aprendizado é puramente empírico e, na maior parte dos casos, tácito, feito por impregnação semi-consciente de hábitos. E nós sabemos que tudo o que é aprendido sem uma atenção específica é muito mais fácil do que o que você aprende com atenção deliberada. Por exemplo, ao aprender a andar de bicicleta, se você tivesse de explicar cada um dos movimentos que fez – quais dão certo e quais não dão –, você precisaria escrever enciclopédias inteiras sem jamais chegar a aprender a andar de bicicleta. O que de fato ocorre é que você tem certas impressões que, uma vez gravadas na sua memória, articulam-se umas com as outras, fazendo com que você acabe aprendendo o que é preciso fazer. Esse aprendizado não é totalmente inconsciente, mas o processo do aprendizado é inconsciente. O que se passou, a forma como você aprendeu, não é possível explicá-lo. Toda essa fase da vida é enormemente problemática e o que está em questão durante todo esse período não é nenhum problema objetivo, mas você mesmo. Seu centro de preocupação é seu próprio umbigo, porque você está interessado em saber se as pessoas o aprovam, se o que fez será bem ou mal recebido, se é um sujeito socialmente simpático ou antipático, se está dentro ou fora do código e assim por diante. O problema é você mesmo: você é um problema ambulante, um problema para você mesmo. Durante todo esse período, qualquer preocupação que o indivíduo tenha com questões objetivas nunca é direta, mas passa sempre pela preocupação subjetiva. Por exemplo, se o indivíduo está tentando aprender a jogar futebol, ele tem duas preocupações: a preocupação primeira, que é ser aceito pelo time, e o aprendizado da técnica do futebol, que é somente um meio para isso. O olhar que o sujeito lança sobre as coisas é sempre duplo, está sempre medindo a dificuldade externa em confronto com a sua dificuldade interna — seu próprio estado —, mas o objetivo de todas as ações é sempre o próprio indivíduo, ele precisa de algo: de se integrar no grupo, da aprovação de tais ou quais pessoas, que a namoradinha goste dele e assim por diante. Esse período da adolescência e juventude é de um subjetivismo atroz, em que o critério máximo de julgamento de tudo é o próprio umbigo. Só quando os problemas básicos da integração social estão resolvidos e já não são mais problemas é que sobra espaço no HD mental do sujeito para ele pensar sobre problemas objetivos. E isso acontece quando a situação social do indivíduo se estabiliza de tal modo que ele já tenha o domínio dos códigos habituais e não precise mais pensar nisso. O sujeito agora tem um emprego – e sabe o que se espera dele naquele emprego, sabe o que tem de fazer –, uma família, um conjunto de obrigações e desafios a enfrentar. E essa atividade se desenrola dentro de um quadro de expectativas sociais já estabilizado e que não necessita mais de uma atenção específica, a não ser que aconteça algo de anormal como, por exemplo, a mudança de chefe. O sujeito tinha um determinado chefe e, de repente, chegou outro com a mentalidade completamente diferente; criou-se momentaneamente um desajuste. Se esses desajustes acontecerem a todo momento, o sujeito estará liquidado, pois não conseguirá sair da situação de insegurança juvenil. Mas uma vez estabilizado o quadro, então ele estará pronto para desempenhar alguma atividade real, para cuidar de problemas objetivos. Se ele for um mecânico de automóveis, [00:20] ele já não precisará mais saber se o cliente da oficina gosta dele. Ele precisa consertar o carro e para isso tem de deixar o problema subjetivo de lado e dedicar-se a resolver o problema real. Todo o período que nós chamamos de educação do indivíduo — desde a infância até o fim da adolescência — é centrado, portanto, na própria pessoa e o problema que então está sendo trabalhado é o do ajustamento social. Quando você está estudando história no ginásio, você não está interessado propriamente nos fatos que aconteceram na história, mas em ser aprovado no exame de fim de ano. O foco central é você mesmo. O aprendizado da história é um instrumento para você conseguir certa aprovação da qual você necessita. Também é claro que há aí, fora os problemas do aprendizado escolar, o problema das afeições, daquilo de que você gosta ou não. Nesse período você pode descobrir que gosta de certas disciplinas na escola e que não gosta de outras. Algumas mexem com a sua imaginação e lhe dão uma satisfação subjetiva. Note bem que mesmo aí o foco não está no objeto propriamente dito daquela disciplina, mas na satisfação que ela lhe dá. Por isso mesmo, todo o processo da educação é um teatro. Tudo o que se passa na educação não corresponde à realidade do que está sendo ensinado, mas à situação pedagógica criada. Por exemplo, no ensino de uma disciplina qualquer, a ordem do ensino não refletirá a estrutura interna da disciplina, mas a ordenação pedagógica que for considerada a mais propícia ao seu aprendizado. Portanto, coisas que não têm grande importância na estrutura interna da disciplina podem ter importância pedagógica, porque elas são mais fáceis de ensinar. Eu me lembro que quando eu estava no ginásio, tinha um professor muito original de biologia; naquela época estava havendo um problema diplomático entre o Brasil e a França, pois os franceses estavam pescando camarões nas costas brasileiras. Estava um bafafá, todos os dias saía algo no jornal. Então ele tomou aquilo como pretexto para dar aula de biologia em torno dos camarões e ficou seis meses lecionando camarões. Não porque os camarões dentro da ordem da estrutura total das ciências biológicas sejam tão importantes assim, mas porque pedagogicamente convinha àquele momento. Isso mostra como a estrutura da experiência educacional é totalmente centrada na pessoa do estudante e não na objetividade da disciplina que está sendo estudada. Do mesmo modo, as situações pedagógicas não são situações reais. São situações teatrais, montadas para simular uma realidade do mundo exterior. Imagine a diferença do que é o estudo de história para um estudante de ginásio e para um diplomata que esteja discutindo com o representante de outra nação um problema de fronteiras. Esse diplomata tem de saber exatamente o que aconteceu de fato, quem chegou ali primeiro, demarcou a fronteira etc. Ele precisa saber tudo isso realmente; e não é apenas para passar de ano. Como está pressionado por uma situação real que ele mesmo tem de resolver, seu interesse dirige-se diretamente ao objeto da ciência histórica, aos próprios fatos históricos. No aprendizado, por exemplo, o professor pode recorrer a uma série de recursos de ficção para explicar certas coisas. Se o que você souber da história não corresponder exatamente aos fatos, mas à ordem pedagógica escolhida, muito bem!, você passa de ano. Durante essa fase existe sempre a presença do elemento imitativo e teatral; e a única coisa real que existe ali é você mesmo. Sua necessidade psicológica e social de se integrar no meio, obter aprovação etc.: esse é o foco de tudo que acontece. Já na passagem para a vida adulta a situação realmente muda, pois o que as pessoas esperam de você é que você desempenhe certas funções realmente. Note que o que está em jogo já não é sua aprovação social. Se você obteve um emprego é porque já foi aprovado para ele, não está mais em teste. O que se quer agora não é mais que você demonstre sua capacidade de estar naquele emprego, mas que resolva os problemas reais que se lhe apresentaram, por mais simples que sejam. Você pode ser o faxineiro que cuida dos banheiros: as pessoas não querem saber se você é capaz ou não, querem que o banheiro esteja limpo! Se você é um sujeito totalmente incapaz, mas consegue fazer aquilo, então está ótimo! Não é mais você quem está em julgamento, mas o efeito real das suas ações. O tratamento que as pessoas lhe dão vai se tornando, assim, progressivamente mais impessoal. Quando você já tem um papel social definido, passa a ser tratado não mais como Seu Fulano, mas como o representante daquele papel social, o qual implica certas obrigações. O que as pessoas querem é que você cumpra aquelas obrigações já definidas. Por exemplo, ao consultar um advogado, ele não está sendo testado se é capaz ou não de ser advogado – é tão claro que ele é capaz, que ele já o é. O que você quer é que ele trate do seu caso com objetividade e chegue ao resultado desejado. Ainda que as relações pessoais não sejam suprimidas, elas passam para um segundo plano. Todavia, acontece que aquela fase de adaptação social deixa marcas profundas nas pessoas, por sua própria duração. Praticamente toda essa fase — desde o instante em você começa a sair de casa até o instante em que você é reconhecido como um cidadão adulto com direitos e deveres definidos — foi vivida em função do problema da adaptação (saber se as pessoas gostam de você ou não, se o aprovam ou não). A longa duração desse processo faz com que esse critério de vida, que é o de buscar a adaptação e a integração em grupos, tenha uma função enorme na sua psique total e com que ela continue existindo mesmo quando não é necessária. Mesmo porque a lista dos círculos sociais nos quais você pode se integrar não termina quando você chega à idade adulta, há outros grupos mais importantes com os quais você pode querer se comunicar. Por exemplo, no caso de uma militância política você terá que adquirir uma linguagem, um conjunto de códigos, que lhe permita falar com os demais militantes. É um outro diálogo do que qual você quer participar e que já não se dá mediante o encontro pessoal, mas através das publicações do partido, ou do site do partido etc. Você está convivendo com pessoas que não vê mais, que estão longe de você. [00:30] Então como você vai se integrar num meio social que você não enxerga como um todo, que só existe para você através da linguagem – falada ou impressa? É preciso conseguir certas habilidades lingüísticas especiais que o identifiquem com aquele grupo, é preciso aprender a falar como eles. E você tem de falar como eles de tal modo, que sua palavra escrita – por exemplo, numa carta ao jornal do partido –, independente da sua presença física, o identifique como membro daquela comunidade. Essas habilidades não são nada fáceis de adquirir. Aquilo que chamamos de alta cultura não é nada mais do que a integração em outro grupo humano. Matthew Arnold definia a alta cultura como aquilo que se disse que se criou de melhor ao longo dos tempos. Ao adquirir alta cultura, você está tentando se integrar no grupo das pessoas que podem conversar a respeito do que se disse que se criou ao longo dos tempos. Ora, as pessoas que fizeram isso, os autores dos clássicos como Homero, Aristóteles e Goethe, já não estão mais presentes. No entanto, depois de ler alguns livros, você começa a perceber que essas pessoas freqüentemente se reportam umas às outras: cada uma sabe o que as outras fizeram. E você só pode se considerar um membro desse diálogo quando entende o que eles estão falando e conhece todo o sistema de inter-referências ali presentes. É claro que esse aprendizado é extremamente difícil se comparado com todos os outros. Primeiro, porque os personagens não estão presentes para dar sinais de que você está acertando ou errando. É claro que você pode ter um representante – digamos, um professor universitário – que o orienta vagamente, mas toda orientação que você possa receber do professor é mínima em face da imensidão dos códigos que você vai ter de adquirir para tanto. Esses códigos implicam, por exemplo, o domínio das línguas. Mas o domínio das línguas não é o mais difícil; o mais difícil é o domínio das inter-referências. Porque ao longo dos tempos os grandes escritores, os grandes filósofos etc. estão continuamente se reportando uns aos outros. É como se aquilo fosse realmente um diálogo em que todo mundo está sabendo o que os outros falaram; estão continuamente conversando de coisas que, para eles, já são velhas. E pior: não existe um meio de você graduar isso, porque a conversa já está transcorrendo há milênios. Não há como entrar nessa conversa com pouco esforço. É preciso ler muitos livros e pensar muito antes de começar a perceber as conexões. Isso quer dizer que a sua entrada no mundo da alta cultura é sempre desastrosa, no começo, ela é sempre feita através de erros monstruosos. Suponhamos que o primeiro escritor que você leia para adquirir uma alta cultura seja Dostoievski. Você não sabe do que ele está falando, não sabe quais são as referências dele, não conhece – concreta e historicamente – nem mesmo a sociedade em que ele viveu, elementos que certamente são muito importantes. Pois embora ele esteja dialogando com a tradição mundial da literatura, ele o faz desde um certo lugar e desde um certo momento, que ele também tem de levar em conta. Então, é claro que seu entendimento daquela obra será inteiramente subjetivo. Você vai entendê-la em função de referências e de analogias que remetem exclusivamente à sua vida e ao que você conhece, sendo que o seu quadro de referências pode estar totalmente deslocado daquele que o autor tinha em vista. Todas essas primeiras experiências são sempre baseadas no erro, numa interpretação subjetivista e, por assim dizer, provinciana. É nesse sentido que Jorge Luis Borges dizia que para entender um único livro é preciso ter lido muitos. Quer dizer, você penetra no mundo da alta cultura depois de ter adquirido uma massa gigantesca de informações e aquilo começa, de repente, a fazer sentido para você, porque você passa a saber do que as pessoas estão falando e quando elas estão se referindo umas às outras, explicitamente ou implicitamente. Digamos, por exemplo, que você tenha aprendido um pouco de língua alemã e feito um esforço desgraçado para ler um poema de Goethe. Na hora em que você acha que realmente o entendeu, você entendeu apenas tudo o que está escrito em alemão. Acontece que quando ele escreveu esse poema, ele o fez como imitação de outro poema escrito em grego há dois mil anos antes. Por mais alemão que você estude, não irá perceber isso. Só o há de perceber quando tiver lido o outro poema, escrito em grego – ou em árabe. Aí você entenderá do que Goethe está falando. Até lá, seu entendimento será totalmente subjetivo e baseado apenas no significado que as palavras têm no dicionário. Passou-se um episódio interessante com Paulo Rónai, grande filólogo húngaro. Ele aprendeu muitas línguas sozinho, usando o dicionário. Ele pegava as obras importantes e ia tentando traduzi-las – método esse que eu também usei várias vezes. Quando decidiu aprender português, tentou ler um poema de Gonçalves Dias, no qual havia a palavra “rede”. Ele foi então procurar o significado da palavra no dicionário e encontrou vários equivalentes; notou que a palavra “rede” referia-se a um sistema de conexões – como quando falamos da rede de telecomunicações, ou da rede de significados. Mas o poema estava se referindo à rede concreta, que você pendura entre duas árvores para nela se deitar. Ele fez a tradução achando que aquilo estava uma maravilha e só quando chegou ao Brasil, viu uma rede e, ao perguntar o que era aquilo, responderam-lhe que se chamava “rede”, foi que se deu conta do erro. Todo o nosso ingresso no mundo da alta cultura é feito desses equívocos; mas esses equívocos são preciosos! Em primeiro lugar, porque eles lhe permitirão medir a distância existente entre os grupos sociais nos quais você já se inseriu, que estão ao seu alcance e onde você pode conviver fisicamente, e esse outro grupo do diálogo entre os grandes espíritos de todas as épocas. A distância é imensa! Aos poucos, à medida que vai progredindo nesse aspecto, você acaba vendo que todos os códigos, valores e critérios que existem nos grupos sociais ao seu alcance – e dos quais você participa diretamente –, sempre se originaram dessa outra esfera. Tudo o que existe – a não ser o mundo, que Deus fez – foi inventado por algum ser humano. Isso quer dizer que hábitos, valores, critérios, sentimentos, cacoetes etc, tudo o que existe na sociedade imediata vem dessa outra sociedade. Foram as pessoas que se notabilizaram como grandes estudiosos, grandes artistas e criadores as inventoras de tudo: “a sociedade” não inventa coisa nenhuma! Quando se diz, por exemplo, que a cultura grega criou tal e qual coisa [0:40], isso é uma metonímia. Alguém que fazia parte da cultura grega a criou. Você pode não saber mais quem foi, mas alguém fez aquilo. Às vezes, um sujeito tem uma grande idéia e, depois de adotada e imitada, já não se sabe mais quem a inventou, porque ninguém registrou o invento; o que dá a impressão de tratar-se de um invento coletivo. Não podemos confundir anônimo com coletivo. Tudo o que se disseminou anonimamente, começou a ser disseminado por alguém. É preciso entender que a ação coletiva não existe: isso é uma metonímia. Suponhamos que esteja acontecendo uma manifestação pública – uma passeata ou um movimento de protesto – e logo chegue a polícia, dando início a um confronto violento entre uns e outros. Não houve aí nenhuma ação coletiva, mas uma somatória de ações diferentes, que só podem ter sido praticadas por indivíduos fisicamente distintos. Se cuspo no olho de um policial e ele me bate com o cacetete na cabeça ou se um sujeito joga uma bomba e um policial dá um tiro nele, essas são ações individuais que na maior parte das vezes são, uma a uma, rastreáveis, embora componham um efeito de conjunto. O fato de que muitos indivíduos nessas circunstâncias ajam impelidos por sentimentos que eles imaginam ser coletivos não modifica em nada o que estou dizendo. Essa história de psicologia das massas... O que é a psicologia das massas? É a psicologia de milhares de indivíduos que, num determinado momento, agem de maneiras mais ou menos parecidas. O fato de se verificar uma mesma conduta repetida por milhares de pessoas não quer dizer que a massa por si seja um sujeito agente, uma entidade substantiva. Tanto que se você quiser agir ao contrário da massa, você pode. Se há um passeada vindo para cá e você quiser ir na direção contrária, você pode. Bruno Tolentino me contou um episódio muito estranho de quando ele estava na Argélia, durante a guerra. Estava havendo um tiroteio e a massa inteira corria, fugindo apavorada; inclusive ele. De repente, ele viu Jean Genet, o escritor, andando calmamente na direção contrária. Jean Genet havia sido bandido na adolescência, já tinha dado e levado muitos tiros, estava acostumado a todo tipo de porcaria; aquilo para ele não significava mais nada. A massa ia numa direção e o homem ia na outra, sem se perturbar com aquilo. Portanto, sempre é possível agir contrariamente à massa e isso mostra que a idéia de psicologia de massas é sem dúvida uma metonímia, uma figura de linguagem: não corresponde a uma realidade. Aos poucos, você vai notando que todas as idéias, valores, critérios etc. que estão presentes na sua sociedade imediata, nos seus grupos, têm uma origem remota em alguma idéia que alguém teve nas altas esferas do espírito. Essa idéia pode lhe aparecer já totalmente degradada, estragada, mas se você rastreá-la, verá qual sua origem. E só quando percebe essa origem é que você começa a entender as verdadeiras implicações dessa idéia, pois passa a saber de onde ela veio, como se integrou na corrente histórica, quais as transformações que sofreu e quais suas possibilidades reais. Se você não faz isso, o conhecimento que tem dessa idéia é apenas um conhecimento de dicionário. É o conhecimento de uma palavra e não de uma realidade. Tomemos como exemplo o sujeito que diz que pensa com sua própria cabeça e tem suas próprias idéias e opiniões. Pois bem. De onde ele tirou essa idéia? Ele ouviu milhares de pessoas dizerem a mesma coisa e sabe que em determinado meio social é bonito dizer isso, porque lhe dá certo prestígio. Logo, essa originalidade dele é inteiramente copiada. Mas vejamos agora de onde surgiu essa idéia de pensar com a própria cabeça; rastreemo-la historicamente. Daí descobrimos que até um certo momento da história ninguém se preocupava em pensar com a própria cabeça. As pessoas não se interessavam muito sequer em saber quem foi o autor de certa idéia, queriam saber se ela era verdadeira ou falsa. Tanto que quando se entregava um livro com a autoria totalmente falsa a um leitor, ele não se incomodava com isso. Ninguém se preocupava em saber se uma idéia era sua ou do vizinho. Era uma situação completamente diferente da de hoje, em que temos uma extrema preocupação em de saber a origem das idéias. Isso porque, no curso dos tempos, o costume de se interessar apenas em saber se uma idéia é verdadeira, ignorando sua origem, acabou se revelando contraproducente: gerou tantas confusões e atribuições falsas, que se fez necessário datar os fatos e começar a reconstituir a história, para saber quem disse o quê antes e quem disse o quê depois. Isso é uma coisa recente na história, já que, se as pessoas não se preocupavam em saber quem teve uma idéia, elas também não podiam se preocupar em pensar com suas próprias cabeças. Essa preocupação com a originalidade das idéias não começa evidentemente com a preocupação com a originalidade das suas próprias idéias, mas com a origem das idéias em circulação. Note que isso não apareceu antes do século XIII. Na Grécia, havia tido um começo disso aí. Aristóteles, por exemplo, gostava de rastrear a origem das opiniões anteriores sobre os assuntos que ele estava estudando. Mas ele era um sujeito sozinho; ele tinha essa preocupação. Não podemos dizer que na Grécia as pessoas se preocupassem com isso. Depois, isso foi apagado e voltou aproximadamente no século XIII. Essa convicção tão comum hoje em dia, expressa nessas frases que aparecem na boca de tantas pessoas (“eu penso com minha própria cabeça”, “eu tenho minhas próprias opiniões” etc.), não é uma coisa natural no ser humano; é algo que passou a acontecer historicamente a partir de certo momento e que não teria podido acontecer se não aparecesse antes o que chamamos de consciência histórica, ou seja, se as pessoas não começassem a se preocupar com a história das idéias. Elas começaram a se preocupar com isso porque o diálogo entre os grandes espíritos de todas as épocas estava ficando confuso. René Descartes não tinha em sua biblioteca mais de cem livros; era, contudo, um homem cultíssimo. Ele leu aqueles cem livros e praticamente os sabia de cor. Com esses cem livros ele tinha mais ou menos uma idéia das doutrinas e hipóteses em circulação no tempo dele. Mas se se supõe que ele não tivesse cem livros e sim vinte mil, aí a coisa começaria a complicar um pouco. Sem rastrear a história para saber quem veio antes e quem depois, quem falou uma coisa e quem falou tal outra, ele acabaria se confundindo. Isso quer dizer que o acúmulo de personagens no diálogo supra-temporal fez com que ele virasse uma bagunça. As pessoas começaram então a ter a preocupação de rastrear. [0:50] Essa preocupação, hoje, é tão séria, que para publicar um trabalho científico numa revista acadêmica você tem de contar quais foram seus antecessores, de quais fontes você partiu, porque se você não o fizer, ninguém saberá onde se situa historicamente a idéia que você está apresentando. É preciso que fique claro se você está dizendo uma coisa porque é o primeiro a pensá-la ou se está apenas trabalhando em cima da idéia de outro; se está aprovando a idéia do outro ou a criticando, mudando ou acrescentando uma coisa nova; que fique claro onde você está historicamente. Existe um caso célebre, que é o de Albert Einstein. Quando ele publicou seu primeiro trabalho sobre o que ele chamou a relatividade especial, em 1905, havia uma coisa estranha nele: ele não trazia uma só citação ou referência bibliográfica. Dava a impressão de que ele estava apresentando algo totalmente inédito, tão inédito que não tinha antecedentes. Quando foram estudar depois e analisaram o caso com mais atenção, viram que, ao contrário, não havia ali uma única idéia que ele não tivesse copiado de alguém. Einstein foi o maior plagiário do século XX. A teoria da relatividade especial é toda copiada e por isso mesmo ele não indicou as referências. Ninguém nega que Einstein fosse um gênio, mas ele era mais um gênio da picaretagem do que um gênio da física. Havia, por exemplo, um sujeito que ele disse nunca ter lido, Henri Poincaré. Ora, tudo o que Einstein tinha apresentado no trabalho sobre a relatividade especial já tinha sido demonstrado por Poincaré fazia 15 anos. Poincaré escreveu vários livros sobre isso e Einstein disse que nunca tinha lido esses livros. É impossível, porque você vê que os raciocínios que ele usa teriam sido impossíveis sem ele ter consultado Poincaré. Portanto, esse é um dos grandes escândalos da história da ciência: é claro que a fama de Einstein é totalmente imerecida. No entanto, quando descobriram isso já tinham transcorrido mais de 20 anos, todo mundo já estava badalando o sujeito. E então? Foi como o caso do eleitor do Barack Obama que, depois de já ter votado nele, pensa: “o que é que vou dizer lá em casa? Já inventamos um monte de mentiras para botar o sujeito lá. Agora, que não podemos voltar atrás, não vamos dar o braço a torcer.” Quando o vexame é grande demais, todos fazem de conta que não perceberam. E foi isso o que aconteceu com Albert Einstein. Porque, de fato, ele não construiu nada, mas simplesmente pegou várias coisas e maquiou. Os grandes cientistas que tinham de fato trabalhado acabaram injustiçados pela história. E isso não é uma coisa desconhecida pelos historiadores da ciência. Mas ninguém gosta de falar sobre o assunto. Normalmente essas coisas não acontecem. Hoje em dia, um trabalho como esse que ele apresentou em 1905 já não seria aceito numa revista acadêmica, porque é preciso que fique claro o que se aproveitou dos antecessores e o que é contribuição original, se não a geração seguinte irá fazer confusão. Se não existisse essa preocupação com a reconstituição da cronologia das idéias, ninguém jamais teria pensado em dizer “eu penso com a minha própria cabeça e não com a do vizinho”. Uma atitude que no nosso meio parece tão natural, tão espontânea, é uma criação histórica. E não é uma criação histórica original, mas uma decorrência remota de outra criação, que é justamente a consciência histórica. É impossível pensar com a sua própria cabeça, se você não sabe sequer de onde vieram as suas próprias idéias. Se você não sabe se foi você que as criou ou se você as absorveu de algum lugar e aquilo se impregnou no seu imaginário, você não tem a menor idéia se aquilo é seu ou de outro. Eu posso afirmar, a partir da minha experiência, que a totalidade das pessoas que dizem “eu penso com a minha própria cabeça” está mentindo: elas nunca pensaram com as próprias cabeças, não conseguem pensar com as próprias cabeças, não têm a menor capacidade para isso e estão apenas tentando aparecer. Faz anos que estou estudando esse problema da mente revolucionária e se me perguntarem qual é a novidade desse trabalho, eu digo: a novidade é só uma. É a idéia de verificar a unidade da mente revolucionária ao longo dos tempos pelo seu lado formal e lógico e não pelo conteúdo das ideologias, das propostas etc. É só isso o que há de original; de resto, eu copiei tudo. Porque para saber se as coisas eram exatamente da forma que eu estava dizendo, eu tinha de subdividir essa questão. Se eu fosse pesquisar por mim mesmo cada um desses problemas a partir das suas fontes primárias, de seus documentos primários, eu levaria mil e quinhentos anos e não terminaria. Felizmente, todas as perguntas concretas que eu fiz sobre isto e aquilo já estavam todas respondidas por milhares trabalhos de pesquisa acadêmica maravilhosos. Ou seja, os caras já me deram a prova do que eu queria; eles só não sabiam que estavam provando isso, cada um deles tentou provar apenas a sua tese. Mas quando colocados numa seqüência, vê-se que eles já provaram o que eu estou dizendo. Ora, o que eu coletei até agora dá 550 páginas, falta muita coisa ainda. Dessas 550 páginas, quantas são minhas? Dez. E isso é suficiente para fazer um trabalho extremamente original. O resto, eu devo a esses milhares de estudiosos que destrincharam os vários problemas para mim. Agora, Einstein nem isso fez. E a originalidade dele, então, foi montar numa outra ordem? Não! Nem isso ele fez. Não há nada na teoria da relatividade que seja do Einstein, nada. Existe um autor norueguês chamado Christopher Jon Bjerknes que rastreou texto por texto e chegou à conclusão de que Einstein é um plagiário incorrigível, compulsivo. Acontece que Einstein era um companheiro de viagem dos comunistas. Ele nunca foi comunista, mas todo o círculo amizade dele era formado por comunistas. E ele, em vez de ser um inocente útil, não, ele não era inocente e nem útil. Ele era um espertalhão que se utilizava dos caras. Eu acho que Einstein foi um dos poucos caras que fizeram os comunistas de trouxas. Nesse sentido, o sujeito era um gênio, fantástico, porque conseguiu não prestar serviço nenhum a eles, além de emprestar o seu prestígio, e mesmo assim conseguiu tirar um monte de vantagens. Então, não se pode negar a genialidade do cara. Esse culto do Einstein que existe até hoje é um produto da KGB. E os outros cientistas? Eram muito melhores do que ele, mas não tinham esse aparato a seu serviço. Lorenz e Poincaré, que não são precursores de Einstein, mas os autores da teoria da relatividade, ficaram para a lata de lixo da história. É claro que isso não vai durar para sempre: um dia esse caso será esclarecido perante a opinião pública. Pesquisado e provado já foi, é caso encerrado. Mas é caso encerrado entre os estudiosos que aprofundaram o assunto. Popularmente, não; vai levar muito tempo ainda para se popularizar – se chegar a se popularizar no curso de nossas vidas. Uma empulhação não dura pra sempre; mas pode durar bastante tempo. Tem aquela frase do Abraham Lincoln: “você pode enganar algumas pessoas o tempo todo, ou muitas pessoas durante algum tempo, mas não pode enganar todo mundo o tempo todo.” [01:00] Todo mundo o tempo todo, não dá; mas todo mundo durante bastante tempo, dá. E às vezes você não engana todos, há um ou dois que não se deixam enganar – mas você engana todos os outros. Estou dando esse exemplo apenas para mostrar a que ponto tornou-se importante a questão da autoria, de saber de onde vieram as suas idéias. Um elemento fundamental na aquisição da alta cultura é saber de onde vieram as suas idéias, porque é só rastreando a origem delas que você sabe onde está na história desse diálogo entre os grandes espíritos; é então que você descobre sua filiação. Se você não sabe isso, não sabe nada, está como cego em tiroteio. É claro que no começo da aquisição da alta cultura você estará necessariamente como cego em tiroteio, porque entrará nessa ordem de estudos trazendo o conjunto de símbolos, reações, sentimentos, preferências, preconceitos etc. dos vários grupos sociais de que participa, sem, no entanto, saber a origem de nada desse material. Você estará entrando com uma carga de nebulosidade numa atmosfera em que tudo o que se busca é clareza, nitidez e consciência das coisas. Então, é claro que qualquer pessoa que começa a penetrar na esfera da alta cultura está totalmente desajustada. E o ajustamento é uma coisa muito progressiva, o qual requer uma série de técnicas e precauções, que é exatamente o que o ensino universitário – se ele existisse – deveria dar a vocês; mas, realmente, ele não existe. Existe uma coisa que leva esse nome. Hoje em dia, o que se chama de ensino universitário é apenas o que seria uma escola técnica há cinqüenta, sessenta anos atrás, restringindo-se à aquisição da licença para um determinado exercício profissional e à conquista de uma identidade social. Nada tem que ver com a formação da sua inteligência para lidar com os grandes problemas. Acontece, pois, que se você não sabe as fontes das idéias – que funcionam como chaves interpretativas da situação presente –, se não sabe de onde elas vieram, também não saberá lidar com elas. Dado qualquer debate público sobre o que quer que seja, todos os conceitos, as palavras, os termos que as pessoas estão usando como ferramentas interpretativas e descritivas da situação vieram da alta cultura, todas elas. Só que se você não sabe a origem, também não sabe a aplicação correta dessas idéias e freqüentemente as transforma em fetiches como, por exemplo, na questão da opinião própria. Você acha que a opinião própria existe e que existe como se fosse uma coisa. Mas opinião própria é quase uma utopia e quem quer que tenha realizado um trabalho original em qualquer área da ciência ou das artes sabe disso. Um escritor, quantos procedimentos estilísticos inventou? Um ou dois, o resto ele aprendeu. Um filósofo, quantas idéias criou? Uma ou duas, o resto ele aprendeu. Quem pôs a mão na massa sabe como as coisas funcionam. Os outros, não; falam bobagens e coisas utópicas. Em geral, as pessoas que participam de um debate público, se não estiverem esclarecidas pelo universo da alta cultura, irão usar instrumentos descritivos e explicativos que fogem completamente da realidade. O que elas estão discutindo nunca é o que está realmente em jogo, o que significa que não são capazes de prever as conseqüências de suas escolhas e decisões e não têm controle nenhum do que estão fazendo, são um bando de loucos. É só rastreando as idéias até sua origem que se sabe para que essas idéias foram criadas, como é que esses conceitos funcionam e qual a diferença e a semelhança deles em relação à situação concreta que o momento lhe está apresentando. Essa semana li uma série de artigos que foram publicados por Ferreira Gullar a respeito da questão da reforma psiquiátrica e a resposta que foi dada a eles por este articulista da Folha, Contardo Calligaris. E, num determinado site – de cujo nome agora não me lembro, mas depois vou publicar o link para ele num artigo –, li inúmeras reações de psicólogos, educadores, psiquiatras etc. a essa discussão (mais ou menos umas duzentas cartas). E nunca vi tantas pessoas terem tantas opiniões sobre um assunto que elas desconhecem totalmente! Porque elas não sabem de onde surgiu essa coisa. Eu sei porque quando era jovem interessei-me um pouco pela anti-psiquiatria, com o livro de Ronald Laing, O eu dividido, – isso vai fazer 40 anos – e, mais tarde, fui estudar algo da história do movimento e descobri mais ou menos como era; mas é coisa que já havia até esquecido. E aquilo que eu já tinha estudado, aprendido e até esquecido, de repente, aparece diante de mim como se fosse uma novidade total, na voz de pessoas com total desconhecimento do problema. Naturalmente, cada um opinava ali desde um ponto de vista inteiramente subjetivo, a partir de certos pontos do assunto que chamavam a sua atenção. Mas esses pontos podiam não ser aqueles que estavam realmente em jogo, a começar pelo primeiro opinador, que foi Ferreira Gullar. A reforma psiquiátrica incorpora alguns elementos da anti-psiquiatria, buscando evitar a internação dos doentes mentais e reintegrá-los em suas casas, por assim dizer. Ferreira Gullar, que tem dois filhos esquizofrênicos e conhece de perto o problema, disse que isso é impossível, que não há como tratar dois esquizofrênicos na própria casa. Ele foi agredido, foi quase morto por um deles. Eu já tive maluco em casa e sei como é: a gente não conseguia dormir! Ademais, não é só o risco. O problema é que o universo de significações de um doente mental, de um esquizofrênico, é enormemente diluído. Não há propriamente significação, as significações para ele formam-se e desaparecem aleatoriamente. Assim, a convivência com um sujeito desses dilui o universo de significados, ele torna-se uma força entrópica dentro do meio imediato. Imediatamente, a convivência entre as pessoas baixa de nível e isso já basta para destruir inúmeras relações humanas. Ferreira Gullar, com toda a justiça, reclamava disso, alegando que às vezes é preciso internar as pessoas, não porque queiramos trancafiá-las ou livrarmo-nos delas, mas para o bem delas e de suas famílias, para que as famílias possam continuar com suas vidas mais ou menos normais, dentro de um diálogo compreensível que não seja diariamente erodido pela intromissão do non-sense total. Em qualquer família, as ações e condutas das pessoas são julgadas de acordo com um código de valores e expectativas que todo mundo ali conhece mais ou menos. Se, de repente, um sujeito começa a agir e as ações dele já não podem ser julgadas assim, isso evidentemente bagunça toda a convivência. [01:10] Por exemplo, se uma família está jantando e repentinamente um xinga outro é porque algum motivo ele deveria ter: foi ofendido, aconteceu alguma coisa, é isso que se espera. Mas e se há ali um sujeito esquizofrênico que começa a xingar, já não se sabe o que fazer, porque aquilo não significa nada. Logo, a convivência diária com essa pessoa dilui todo o sistema de significações e a convivência humana torna-se impossível. De onde, então, saiu essa idéia de que os loucos têm de ser devolvidos para suas casas? O pretexto era o seguinte. Agora vou contar a história como realmente é – isso que vou dizer, que é a origem da questão, não foi mencionado nem de longe nas milhares de páginas que rolaram nas últimas semanas – e depois escreverei um artigo sobre isso, pois é um assunto muito interessante. Na década de 70 apareceu esse grupo de psiquiatras (Franco Basaglia, David Cooper, Ronald Laing) que proferiu a seguinte tese, depois subscrita por Michel Foucault: o aparato psiquiátrico faz parte do aparelho repressivo do Estado e é usado para isolar as pessoas de que o establishment não gosta, as pessoas que têm uma conduta divergente. Ora, isso corresponde à realidade? Os hospitais psiquiátricos foram feitos para você trancafiar seus inimigos lá dentro? Existiam alguns lugares no mundo onde isso acontecia realmente: os países comunistas. Existem livros inteiros que documentam os hospitais psiquiátricos políticos onde pessoas inteiramente normais e saudáveis foram internadas como loucas – como, por exemplo, o escritor Vladimir Bukovsky, que sofreu eletro-choques, tomou injeções de Aldol etc. e, por pouco, não ficou louco. Isso era usado sistematicamente na URSS, foram milhares e milhares os dissidentes políticos trancafiados como loucos. Se você tomar essa definição do sistema psiquiátrico dada pelos anti-psiquiatras, ela aplicava-se literal, realística e exatamente à situação da URSS – e não só na URSS, mas também em Cuba fazia e faz-se até hoje o mesmo. Mas no restante do mundo essa descrição aplicava-se? Obviamente não. Em primeiro lugar, havia uma rede imensa de hospitais psiquiátricos privados, onde as pessoas não eram internadas pelo Estado, mas por suas famílias ou por si mesmas. Segundo, havia-se disseminado em toda a sociedade o exame crítico da atuação dos psiquiatras, inclusive pela Justiça. Ou seja, se você internasse um sujeito no hospital e o médico prejudicasse aquela pessoa, ela mesma ou seus parentes poderiam processar o médico. Isso sempre existiu em todo o Ocidente. É claro que também existiam os casos em que uma família de gente má simplesmente trancafiava o louco lá para livrar-se dele – e nem sempre gente má, às vezes livrar-se daquele sujeito era condição para a subsistência da família, era uma questão de auto-defesa. Existiam também, em alguns casos, nas populações mais pobres, aqueles hospitais que eram simples depósitos de loucos, onde as pessoas sequer recebiam tratamento ou o tratamento era usado apenas para controlar a conduta deles, mas nada era feito para que o sujeito melhorasse. O sujeito entrava ali para ficar pelo resto da vida. E qual era a possibilidade de que uma pessoa não-esquizofrênica fosse internada nessas circunstâncias? A possibilidade era mínima, mas existia. Sempre pode haver um erro, pode haver um hospital ou médico corrupto. Poderia acontecer, por exemplo, de um sujeito querer livrar-se da mulher, pagar uma quantia ao psiquiatra e interná-la. Isso poderia acontecer, mas não era o normal. Tanto não era normal que, se isso fosse descoberto, o cara iria para a cadeia. Portanto, enquanto a descrição do sistema psiquiátrico como aparato repressivo era literalmente verdadeira para os países comunistas, no que se refere ao resto do mundo, era uma figura de linguagem hiperbólica, monstruosamente exagerada. Ora, houve algum movimento de anti-psiquiatria nos países comunistas? Não, o que houve aconteceu no Ocidente. Mas, de repente, milhares de psiquiatras começaram a denunciar o sistema psiquiátrico como um aparato repressivo do Estado e a lutar pela proibição das internações. Na Itália, sob a liderança de Franco Basaglia; na Inglaterra, de David Cooper e Ronald Laing, que depois tiveram uma enorme influência também nos EUA. E agora essa discussão chegou ao Brasil e estão querendo regulamentar isso pela lei – é claro que por iniciativa de um deputado petista. Como começou isso? Começou quando, na Europa, descobriram o que os hospitais psiquiátricos soviéticos estavam fazendo e todo mundo ficou escandalizado, de modo que a Associação Psiquiátrica Norte-Americana começou a pressionar a Associação Psiquiátrica Mundial para expulsar os médicos soviéticos. A discussão arrastou-se e foram muitas as denúncias que saíram no Ocidente. Mas o processo foi difícil, havia muita resistência para expulsar os soviéticos, até que, em 1983, os soviéticos finalmente retiraram-se por conta própria da Associação Psiquiátrica Mundial, para evitar mais vexame. Aconteceu que, simplesmente, sentindo-se humilhada pela pressão americana e pelas denúncias constantes daquela monstruosidade que estavam fazendo nos hospitais psiquiátricos, a URSS deu o troco. Franco Basaglia era um discípulo direto de Antonio Gramsci. A reforma da lei psiquiátrica na Itália foi inteiramente iniciativa do partido comunista. David Cooper era um agente soviético treinado na URSS. Já Laing era um coitado, alcoólatra, um sujeito irresponsável e incapaz de ter uma conduta adulta. Abandonava mulher, filhos e pacientes – esquecia-se dos pacientes. Era um bocó de mola que foi simplesmente usado para esses fins. Então, dois agentes comunistas, um deles treinado da URSS, lançaram essa porcaria da anti-psiquiatria para dar o troco, na base do “acuse-os do que você faz”. Essa é a história da anti-psiquiatria. E em todo o debate que eu vi ali, ninguém se lembrou de ver a origem da coisa. As pessoas ficaram discutindo em tese, por exemplo, se devem internar ou não. Essa questão não tem solução, porque você não pode internar o louco de modo geral; nem interná-lo, nem desinterná-lo. Você só pode internar ou tirar da internação este louco, depois aquele louco, depois aquele louco, um por um. Então, se me perguntam se sou a favor das internações e dos hospitais psiquiátricos, digo que não. E quanto a tratar o louco em casa? Depende do louco. Essa questão não tem solução pronta. Por exemplo, os dois filhos do Ferreira Gullar, está na cara que deveriam ser internados, pois tentaram até matar o pai. Mas há outros casos, de loucos mansos. Eu tinha um parente que tinha um acesso a cada cinco anos, um impulso homicida. Um dia ele saiu com um machado correndo atrás de um outro. Felizmente – eu não sei o porquê –, a única pessoa que ele não atacava era eu. Normalmente ele era uma pessoa inofensiva, mas como é que você vai saber quando ele vai entrar em surto? “Ah, quando entrar em surto, daí a gente chama a emergência psiquiátrica.” Chama a emergência psiquiátrica, mas depois de ele matar alguém. [01:20] Às vezes acontece. Uma vez eu conheci um sujeito, um homem de 32 anos, que estava comendo uma menina de 15 na casa da mãe dela. A mãe era divorciada de um homem muito importante e o pai, quando descobriu aquilo, queria matá-la e matar o sujeito, ele era ferocíssimo. Então a mãe pediu-me que eu falasse com ele para parar de fazer aquilo, para deixar a filha dela em paz. Eu conhecia mal o sujeito, mas fui falar com ele. Na hora em que eu fui lhe falar – eu estava na rua, era noite, umas dez horas da noite –, eu vi que o olho dele começou a brilhar. Ele sacou de uma faca e ameaçou me matar ali mesmo. Eu falei: “Mas, Fulano, eu estou querendo te ajudar! É o pai da menina quem está querendo te matar! Por que você está bravo comigo?” O cara ficou louco, louco, louco e eu exclamei: “Epa!” A única coisa que eu podia usar em minha defesa era um vidro de emulsão de Scott que tinha no bolso. Então, ficou ele com a faca e eu com o vidro de emulsão de Scott, a única arma que tinha. O sujeito desistiu, mas dali foi embora para a casa da mulher para comer de novo a menina. Eu telefonei para lá e disse: “Chama o pronto-socorro psiquiátrico!” Quando o cara chegou lá, já havia dois negões de dois metros, que botaram nele uma camisa de força e levaram-no. Então, o que se poderia fazer? E se ele tivesse tido esse acesso dez minutos antes, quando estava com a menina e a mãe – e sem vidro de emulsão de Scott –, como é que seria? Cada caso é um caso. Discutir isso em tese é uma besteira. Mas quando você entende a origem do movimento, entende que ele não foi feito nem para favorecer o louco, nem para favorecer a família do louco, mas para criar um estado de caos social no Ocidente, como parte da revolução cultural, como parte da guerra cultural. Mais ainda, esse movimento da anti-psiquiatria não veio sozinho, estava ligado a todo o processo da contra-cultura e por isso mostrava os loucos como vítimas do Estado opressivo, os drogados como vítimas do Estado opressivo, os bandidos como vítimas do Estado opressivo. Todo esse movimento fomentou um crescimento extraordinário de todas as forças que podiam gerar o caos e a destruição dentro da sociedade. Por exemplo, essa disseminação mundial das drogas jamais aconteceria sem contra-cultura e anti-psiquiatria. Esses cinqüenta mil brasileiros que morrem por ano, sobretudo por causa do narcotráfico – há outras causas também, mas a predominante é o narcotráfico –, jamais teriam morrido se não fosse essa gente. Esses caras eram agentes soviéticos muito mal intencionados que só queriam criar um estado de caos e revolta, criar crise; e criaram. Ora, qualquer proposta baseada neles e que venha, por coincidência, de um deputado do PT, obviamente não é boa. É claro que o problema da necessidade ou não da internação tem que ser discutido objetivamente em cada caso e admitindo-se também tratamentos alternativos. Deve-se tentar de tudo, mas jamais tomando como critério aferidor a anti-psiquiatria. A anti-psiquiatria é cem por cento empulhação. Daí a importância de se rastrear de onde vêm as idéias: a anti-psiquiatria aparece como uma idéia posta em circulação entre intelectuais de primeiro nível e é só rastreando a história direitinho que se vê que não era bem isso. Não foi por motivos científicos que inventaram a anti-psiquiatria. Enquanto no Ocidente muitos países aderiram a essa loucura, mandaram os loucos de volta para casa e destruíram milhares de famílias, criando um caos desgraçado e disseminando drogas e banditismo para todo lado, os hospitais psiquiátricos da URSS continuaram internando dissidentes e em Cuba eles continuam até agora! Enquanto aqui o filho do Ferreira Gullar, que foi internado para não poder matar o pai, é uma vítima do Estado repressivo etc., nos Estados comunistas o sujeito que é simplesmente um dissidente político é internado sem ter doença nenhuma, sem ter nenhum desvio de conduta. O desvio de conduta que ele tem é ser de direita. Por isso, é internado, leva eletro-choques e sai de lá louco ou morto. E contra isso ninguém protesta... A ignorância das fontes das idéias pode ter efeitos sociais desastrosos e pode também transformar você num palhaço opinador que, sem saber, contribui para esses resultados sociais desastrosos na medida em que “toma posição” e orgulha-se de ter opinião própria. Ora, se você não tiver opinião nenhuma, ninguém irá sofrer com isso. Mas se você começar a dar opinião errada, poderá estar fomentando coisa muito ruim. Então, em vez de dar opinião, por que não estudar o assunto para saber de onde partiu? Isso é só um exemplo que estou dando; poderia dar milhares de outros. Eu espero ainda escrever um artigo sobre essa questão. Esse ingresso no mundo da alta cultura significa que aquilo que foi criado de mais valioso e importante ao longo dos tempos por vários seres humanos tornar-se-á atual para você como possibilidades cognitivas e existenciais que você está realizando de novo. Você está repetindo, imitando, esses mesmos experimentos interiores e cognitivos que foram feitos por Homero, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Shakespeare, Goethe etc. etc. E todas essas coisas vão tornar-se atuais para você no sentido de que são possibilidades que você está realizando. Talvez você não as realize tão bem quanto eles, mas tem de apropriar-se daquilo. Eu conheço muita gente que estudou grego, latim, alemão, italiano etc. e lê esses livros, mas não chega a incorporar isso. Por que isso acontece? Porque o ingresso deles no mundo da alta cultura é feito por motivo subjetivista e egocêntrico. Por exemplo, o sujeito quer testar as suas forças para saber se pode ser professor não sei onde, ou quer tornar-se um intelectual famoso. Ou seja, está entrando numa conversação mais elevada com objetivos da fase anterior. É como um mecânico de automóveis que não quer consertar o automóvel, quer apenas agradar o cliente. Não consegue prestar atenção no automóvel, pois está prestando atenção no seu próprio umbigo. Ora, todo o ensino universitário dessas coisas é assim: você tenta conseguir um lugar na sociedade e, por isso, realmente não está livre para participar de um diálogo supra-temporal entre homens que já morreram, o qual não lhe trará nenhum proveito senão de tipo interior. Qual é esse proveito? Esse proveito é que na medida em que você participa desse diálogo, [01:30] acaba adquirindo algum conhecimento sobre quem você é realmente, sobre quais são as suas possibilidades reais. Por exemplo, é impossível ler Shakespeare como se deve sem que todos aqueles personagens apareçam para você como possibilidades suas e como outras tantas superfícies nas quais você vai se espelhar e nas quais verá a complexidade das emoções, dos desejos, dos temores que se agitam dentro de sua própria alma. Foi para isso que Shakespeare escreveu as peças. Se você ler um grande filósofo como Aristóteles, São Tomás de Aquino ou Leibniz, estudando-os você perceberá as possibilidades mais extremas da inteligência humana em confronto com problemas dificílimos; e você vai acabar percebendo o que a sua inteligência pode e não pode. Durante o aprendizado de integração social acontece uma coisa muito curiosa: você se interessa, sobretudo, em você mesmo, mas tudo o que você sabe sobre você mesmo por esse meio não se refere a você realmente, mas apenas ao que os outros pensam de você. Então você está orbitando no mundo da auto-imagem e não da sua realidade. Quer dizer, a sua identidade efetiva você só vai conhecendo ao testar suas últimas possibilidades de conhecimento, ou quando, por exemplo, lendo as Confissões de Santo Agostinho você vê que ele admite que desde pequeno, ainda no bercinho, tinha maus pensamentos contra a própria mãe, o que leva você a pensar: “será que eu também sou um filho-da-puta assim?” E você verá que é. “E se eu tentar melhorar, realmente? Agora eu quero ter outros pensamentos. Eu quero ter pensamentos de bondade, de generosidade etc.” E você tenta e vê que a coisa maligna volta, e volta, e volta, e volta e que freqüentemente você tem de fazer um arranjo entre as duas coisas, porque não consegue melhorar efetivamente – às vezes consegue, mas só um pouquinho. Então aí você está testando as suas possibilidades na esfera moral e começa a ter alguma idéia efetiva do que você pode e do que não pode; e isso naturalmente modificará o julgamento que você faz sobre a conduta alheia. Por exemplo, já vai fazer mais de 20 anos que eu adotei como norma para mim nunca esperar que alguém faça algo que eu mesmo não sei fazer. Então, se o sujeito tem uma má conduta, eu penso assim: “bom, e se eu tivesse, como é que eu faria para modificar isto?” Penso, penso e chego à conclusão de que não sei. E se não sei, como é que eu posso exigir que ele saiba? Então, deixa ele do jeito que ele está. Aí você começou a fazer um julgamento moral responsável, porque você considerou o outro como aquilo que ele realmente é ― ou seja, como um semelhante. Ele é um ser humano e tem a mesma estrutura sua, ele tem mais ou menos o mesmo corpo de possibilidades que você. Ele não é Deus, não pode fazer mágica. Mas tem também de considerar as coisas que ele pode. E como é que eu sei que ele pode? Porque eu também posso. A partir daí sua vida moral começa a ter uma consistência. O conselho de São Tomás de Aquino: “tem sempre diante de ti o olhar dos mestres”. Ou seja, o que São Tomás de Aquino, Aristóteles ou Shakespeare pensaria do que eu estou fazendo agora? Note bem, na fase do aprendizado de integração social você quer saber o que um monte de idiotas pensaria a seu respeito, de pessoas que nem são melhores que você. E você se submete ao julgamento delas e tenta parecer bonitinho diante dessas pessoas, freqüentemente você se submete a humilhações. Leia o meu escrito “O Imbecil Juvenil” [http://www.olavodecarvalho.org/textos/juvenil.htm] e você verá quantos sacrifícios auto-humilhantes uma pessoa faz para conquistar a afeição de quem às vezes não merece amarrar o sapato dela, só porque essa pessoa precisa daquele grupo. Agora você começa a se pôr a julgamento por pessoas muito melhores, que não estão interessadas em lhe enganar e que não precisam de você para nada que seja. Então, você começa a pensar não no que o seu Zé Mané ou a dona Fulaninha pensariam de você, mas o que São Tomás de Aquino ou Shakespeare pensariam do que você está fazendo. Adaptar-se a isso não lhe trará prêmio social nenhum. O único efeito que isso terá será o seguinte: você deixará de ser uma bolha de sabão e irá se tornar um ser humano de verdade, um ser humano que é capaz de falar a palavra “eu” com conhecimento de causa, um ser humano capaz de assumir responsabilidade perante si mesmo, um ser humano capaz de conhecer seus próprios méritos e deméritos e de tomar decisões com toda firmeza e sinceridade. Durante a primeira fase, você quer ser alguém, mas esse alguém é apenas um fantasma, uma imagem que os outros projetam em você e que você sabe ser falsa. Já nessa segunda etapa, a da aquisição da alta cultura, você também será alguém; mas alguém de verdade. É uma espécie de Pinóquio: você deixará de ser o menino de pau para ser um menino de carne e osso. Jesus Cristo fala isto: “Deus arrancará o vosso coração de pedra e lhes dará um coração de carne”. Ah, agora você tem um coração de carne! É para isso que serve a alta cultura. Portanto, ela é a condição de você poder participar de qualquer discussão sobre o que quer que seja de maneira útil, objetiva, verdadeira, sincera, com toda a seriedade. É claro que, a partir do momento em que você faz isso, a sua palavra começa a ter um peso que antes não tinha, as pessoas não sabem de onde aquilo vem. Então isso lhe dá certa autoridade. A palavra autoridade vem de autos, “o mesmo”. Quer dizer que agora você está falando como alguém que sabe o que está falando, agora você sabe a fonte das suas opiniões e idéias e, portanto, agora elas são suas. Agora você começou a pensar com sua própria cabeça, e não é para dar uma opinião. Tem uma frase no filme Dirty Harry em que o protagonista diz o seguinte: “opinião é como bunda, todo mundo tem”. Opinião por si não vale nada, mas se você começa a dizer as coisas com o peso da experiência interior ― testada, pensada, séria ―, aí é diferente, você pode até prestar algum serviço para a sociedade. Antes disso você pode apenas dar opinião. O que aconteceu no Brasil nos últimos trinta anos é que a alta cultura desapareceu. Não há mais pessoas assim. Dentre os caras considerados os melhores, que estão hoje na mídia, escrevendo livros ou dando palpites, não há nenhum no qual você sinta a presença de uma consciência efetiva do que está dizendo, porque nenhum deles sentiu o problema ou vivenciou [01:40] aquilo efetivamente; ele sequer tentou! Tudo o que essas pessoas dizem é apenas captação de benevolência de grupos de referência. Elas não abrem a boca para contar uma experiência interior que tiveram, uma coisas que compreenderam profundamente. Abrem a boca para dizer: “olha como eu falo igual ao que vocês gostam, olha como eu uso o estilo, as idéias, o conteúdo deste grupo tão queridinho!” E as pessoas começam a achá-los queridinhos mesmo. São todos adolescentes em busca de integração social. Tudo que escrevem e dizem é só para conquistar esta miséria que é a aprovação de outros tantos idiotas como ele. Portanto, isso não é um debate, mas um grupo de psicoterapia presidido por alguém mais louco do que todos os pacientes. São somente as pessoas investidas realmente da alta cultura, no sentido mais sério da coisa, que podem dar um senso de medida ao debate coletivo, porque todas aquelas “idéias” em circulação, que refletem apenas necessidades subjetivas de pessoas ou de grupos, só adquirem sentido quando se referem a um diálogo mais universal, que é, no fundo, a origem de tudo isso. Fora isso, essas idéias são apenas expressões de anseios subjetivos totalmente desencontrados entre milhares de pessoas que estão tentando buscar uma identificação umas com as outras. Qualquer que seja o assunto sobre o qual elas falem, elas nunca falarão de fato do assunto, mas estarão sempre falando de si mesmas e de suas necessidades. E há pessoas sendo bem pagas para fazer essa porcaria. Nos artigos de jornal e suplementos culturais de uns 50 anos atrás, você via que havia algumas pessoas que personificavam de certo modo a alta cultura. Ou seja, elas elaboravam esses problemas profundamente, referindo-os àquilo que se disse e se pensou de melhor sobre o assunto ao longo dos tempos. Tudo isso vivenciado não apenas como leitura exterior, mas como experiência interior efetiva. Hoje não há mais isso; e como não há mais, o debate público se esfarela em um festival de loucuras, evidentemente. Todo esse debate não tem importância nenhuma, porque ninguém sabe do que está falando, cada um só sabe o que quer. “Eu sei o que eu quero, eu sei os meus anseios, as minhas necessidades e estou aqui como num grupo de psicoterapia para falar de mim, para que vocês atendam às minhas necessidades subjetivas, para que vocês me digam que eu sou alguém”. É para isso que as pessoas falam. Isso é uma usurpação de altas funções por pessoas que não estão absolutamente qualificadas nem intelectualmente, nem moralmente e muito menos existencialmente para isso. É por isso que o debate é tão oco, tão pobre, tão vazio, tão miserável! E o que é que se pode fazer contra isso? O que nós estamos fazendo aqui: treinar uma nova geração de pessoas para que adquiram esse aprendizado com toda a seriedade, com toda a sinceridade e depois ocupem o espaço e tirem aquelas pessoas de lá, porque elas estão fazendo mal para a sociedade. Eu não posso ler um Contardo Calligaris, um Luís Fernando Veríssimo ou um Leonardo Boff sem entender que o que eles estão fazendo é um crime. E não é por causa do conteúdo do que elas dizem, pois o pessoal dito da direita faz a mesma coisa. O sujeito só escreve para mostrar-se: “olha como eu pertenço a este grupo, olha como eu estou bem encaixadinho aqui, olha como as outras pessoas do mesmo grupo gostam de mim”. Até um sujeito católico faz isto! Ele escreve, por exemplo: “olha como eu sou fiel à hierarquia” ― que palhaçada é essa, meu Deus do céu? Se ele fosse realmente fiel à Igreja, essa fidelidade seria interior e ele estaria livre para analisar as coisas como realmente as vê, sem precisar ver a todo momento se o que está falando está de acordo com a hierarquia. Quer dizer, a sua fidelidade à hierarquia é puramente exterior, imitativa, mecânica e falsa. Os grandes escritores católicos, como Leon Bloy e George Bernanos, nunca se preocupam em saber se o que eles estão falando está de acordo com a hierarquia. Aliás, esses escritores são os mais personalizados que existem. Quando você os lê, vê que são almas humanas de verdade, que estão ali falando com você, não um Código de Direito Canônico que ali está a abrir a boca. Mas depois que a literatura católica chegou a esse nível, com o Leon Bloy, Bernanos, Chesterton, meu Deus! Olhem o que hoje se considera um formador de opinião católico! É um bocó de mola que só quer mostrar como ele é um bom menino, quer agradar o bispo. E alguém ainda acha que com isso vai conquistar um lugar no céu? Vai para o inferno, é certo que vai! Porque está degradando, numa imitação farsesca de bom mocismo, o que deveria ser uma alma humana completamente sincera, verdadeira e simples. O que estou falando não se refere a ideologia, não são os caras da esquerda que fazem isto, todo mundo no Brasil faz isso. Dentre os ditos liberais, por exemplo, cada um que abre a boca diz: “olha como eu estou de acordo com o pensamento liberal!” O que estão querendo é identidade grupal. Ao examinar os problemas verdadeiramente, a possibilidade de você coincidir cem por cento com algum grupo é mínima. Você sempre vai dizer alguma coisa que não combina com o grupo, mesmo que esteja de acordo com ele. Por exemplo, eu concordo com o liberalismo econômico cem por cento, mas não posso analisar todos os problemas por esse viés, porque o liberalismo econômico não trata de todos os assuntos e não está habilitado a lidar com todos os assuntos. Então, algo que eu diga vai ter que necessariamente pisar no calo de algum liberal, porque eu não estou escrevendo para mostrar como eu sou liberal, mas para dizer as coisas como eu realmente as vejo, o que quer dizer que eu estou escrevendo mesmo, enquanto eles estão apenas imitando. Acontece que no Brasil hoje só há imitação, não há mais nada. Vocês têm, então, uma missão a cumprir. Vocês irão fazer este curso até o fim, adestrar-se nessa coisa, irão virar seres humanos de alto valor e inteligências de alto gabarito e ocupar o lugar dessa gente. E é para tirá-los de lá a pontapés. Por exemplo, que um sujeito como o Luis Fernando Veríssimo se considere um escritor é um insulto à literatura. Não é que ele não seja um escritor, ele não sabe o que é. Ele não sabe, Paulo Coelho não sabe, Marco Maciel não sabe ― essa gente toda que está na Academia Brasileira de Letras. A Academia Brasileira de Letras está cheia de iletrados! Não iletrados no sentido escolar, mas no sentido da grande literatura. Meu Deus do Céu! Preste bem atenção, este é um ponto já bastante assentado dos estudos literários no mundo: um escritor é alguém que participa da tradição de uma arte, ele não é um sujeito que, partindo do nada, decidiu escrever alguma coisa. Há sim alguns escritores que conseguem se acertar na tradição mesmo tendo pouca cultura literária, porque do pouco que leram, absorveram tudo, sem nem saber como, [01:50] por uma aptidão especial. Um sujeito que não lia muita coisa era Nelson Rodrigues. Mas do que ele lia, ele ficava impregnado. Então ele entra na tradição, ele é um escritor. Ora, para que servem os escritores? Os escritores são pessoas que servem para tornar dizível a experiência direta humana. É uma função da mais alta importância, é função salvadora, porque tudo aquilo que se passa na alma humana que o ser humano não consegue dizer adquire um poder fantasmagórico em cima dele. Na hora em que você domina aquilo e consegue exprimir pela palavra, você exterioriza aquilo e aquilo deixa de ter poder sobre você. Então é quase uma função de exorcismo. Sem essa função não existe civilização, não existe cultura, não existe sociedade humana, não existe lei, não existe ordem, não existe liberdade, não existem direitos humanos, não existe ciência, não existe nada! As civilizações foram fundadas pelos poetas, eles tornam a experiência dizível e por isso permitem a convivência humana. Não fosse isso, estaríamos isolados nas nossas experiências, nos nossos sofrimentos, como cachorros. Às vezes o nosso cachorro sai, vai pro mato e volta chorando. E a gente olha e pergunta “está machucado, levou um susto, alguém te bateu, a raposa te mordeu, o que é que foi?” Ele não sabe dizer! Aquela experiência ficará guardada nele para sempre, ele nunca irá se livrar daquela porcaria. O ser humano não, ele fala. E na hora em que ele fala, aqueles monstros que se agitam dentro dele tornam-se reconhecíveis pelos outros e através disso ele se liberta dessa coisa. Aquele idiota do C. P. Snow, que escreveu no livro As duas culturas que “temos a cultura literária, a cultura científica”, onde ele nivela as duas coisas. Eu digo: meu filho, cultura científica é um detalhe que você pode adquirir tardiamente. Sem a cultura literária não dá para ter a científica, mas sem a científica dá para ter a literária. Essa é a única cultura que existe. As letras, os escritos, são as coisas fundamentais! Ciência não passa de um gênero literário entre outros! Ou seja, aprender a falar é fundamental! Estive lendo esses dias o escrito do crítico inglês Frank Raymond Leavis que ele escreveu em resposta ao livro do Snow, As duas culturas. Ele fala tantas coisas horríveis do Snow, que até hoje ninguém gosta de falar desse livro ― “Não, isto é um negócio muito mal educado, não podia ser assim...” Olha, eu acho que foi inteiramente merecido. Por exemplo, o Snow diz o seguinte: “vocês reclamam quando uma pessoa não é capaz de ler Dickens, mas vocês não reclamam quando alguém não sabe a segunda lei da termodinâmica”. Eu nunca conheci nem meios literários de alto nível, nem filosóficos, nem humanísticos etc. uma única pessoa que não conhecesse a segunda lei da termodinâmica e não fosse capaz de explicá-la. O simples fato de que a palavra entropia seja uma das mais usadas nessas discussões já prova que a segunda lei da termodinâmica para eles é arroz com feijão. No entanto, está provado estatisticamente que a quase totalidade das pessoas que se formam em ciências não são capazes de ler Dickens. Eu tenho uma tremenda dificuldade para ler Dickens. Esses dias eu estava desesperado, porque ao lê-lo, a cada linha aparece uma palavra que eu não conheço ― e olha que leio livros em inglês desde os 15 anos de idade. Dickens é como se fosse um Aquilino Ribeiro, o vocabulário dele é uma monstruosidade. Então, estou lá eu lendo com o dicionário, todo complexado, e daí vejo lá o próprio Snow confessando que um doutor Ph.D em física não é capaz de ler Dickens. Eu digo, ora meu filho, o pessoal dos estudos humanísticos está muito mais informado a respeito de ciência do que vocês estão informados a respeito do resto, porque ciência não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Ciência não é alta cultura, jamais; nenhuma ciência é alta cultura. Tanto que você pode chegar a dominar uma ciência inteira sem ter praticamente cultura nenhuma. Se, por exemplo, você quer entender a relatividade especial ― a relatividade geral é mais complicada ―, você precisa apenas de álgebra do ginásio, não é um grande problema. Há outras coisas que para serem entendidas precisam de uma matemática mais complicada, mas aí você não precisa entender pessoalmente, pode pedir a um amigo que lhe explique. Eu tenho muitos amigos físicos, engenheiros e pergunto para eles. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Mas e ler Dickens? Ah, ler Dickens é um bicho-de-sete-cabeças, sim, porque ele escreveu vinte romances e para cada um deles você tem de consultar um dicionário pelo menos quinhentas vezes por volume. É muito mais difícil do que entender a teoria da relatividade. A linguagem é tudo para o ser humano. Quando Aristóteles fala no “animal racional”, esse “racional”, do grego logos, quer dizer “linguagem” também, refere-se ao animal que fala. É através da fala, é através da linguagem que você conquista a sua participação nesses vários círculos de intercâmbio humano, desde o círculo da sua família, passando depois pelo círculo do ginásio, até o círculo da alta cultura. Agora, depois do círculo da alta cultura tem mais algo? Tem, porque quando se chega aí você já aprendeu a conversar com os mestres, você se põe diante do olhar deles, sob o julgamento deles ― não sob o julgamento do Seu Zé Mané ou do seu professor. Não, não, não! Você se põe sob o julgamento dos melhores. Depois você começa a ter uma idéia do interlocutor universal, interlocutor onisciente, e então passa a pensar não mais no que São Tomás de Aquino pensa de você, nem no que Shakespeare pensa de você, mas no que Deus pensa de você. E isso começa a fazer sentido para você. Fora disso, a palavra Deus não quer dizer nada para você; e se você acredita nele ou não, é absolutamente irrelevante. O desastre de um país onde se perdeu a alta cultura é que tudo é decidido em função de interesses subjetivos de indivíduos ou de grupos e não existe em parte alguma apreensão mínima sobre a realidade. Estamos em uma situação de descontrole total. E onde há uma situação de descontrole total, há uma espécie de desespero e, naturalmente, as pessoas que estão encarregadas de dirigir a sociedade acabam inventando mais controles para ver se elas adquirem o domínio da situação. Só que esses controles também não incidem sobre a realidade, são coisas aleatórias, absurdas, que não fazem sentido. Por exemplo, o Brasil é um país que tem 50 mil homicídios por ano ― é o país mais assassino do universo –, onde os estudantes tiram as menores notas nos testes internacionais ― é o país mais analfabeto, mais burro do universo. Como é que num país que tem esses dois problemas, um país assassino e burro, o governo está preocupado com que as pessoas não falem mal de gay? Por quê? Está todo mundo falando mal de gay na rua? [02:00] Cada gay que se vê é apontado à execração pública, é apedrejado, há esse problema? Esse problema não existe. Pelo contrário, o Brasil é um dos países mais permissivos do mundo, onde as vovozinhas assistem a shows de travesti, à tarde, na televisão com seus netinhos; e ninguém fala nada! Por que tanto desprezo por dois problemas existentes – um que equivale a um brutal derramamento de sangue todo ano e outro que só cria dificuldades e perdas para o país o tempo todo – por que é que, com esses dois problemas na mão, os brasileiros estão preocupados com problemas que não existem? Por quê? É o subjetivismo. O sujeito que apresenta um projeto de lei para defender os gays o faz porque os gays estão realmente sendo perseguidos e assassinados? Ora, quando eles apresentam os números, vê-se que os gays são um dos menores grupos de risco que existem no país! A violência contra os gays é uma coisa raríssima! Então, ele não está lidando com um problema real, mas quer parecer bom menino perante a comunidade gay – objetivo totalmente do interesse dele. E nós pagamos para esses desgraçados discutirem essas coisas no Parlamento. E, não satisfeitos com o dinheiro que ganham, eles ficam a toda hora se dando aumentos e mais vantagens, nomeando todos os seus parentes para cargos públicos... para discutir essas coisas? É claro que o Brasil virou uma imensa máquina de desentortar banana, um equipamento enormemente complicado, mas que não faz absolutamente nada, não funciona, é como uma máquina entrópica, cem por cento entrópica. Se alguém pode corrigir isso, são vocês. Só uma geração de intelectuais altamente afinados, adestrados e sérios pode pôr fim a essa porcaria. Isso se puderem – não sei se conseguirão –; mas essa é a sua responsabilidade. E entendam, por favor: eu peço que durante o curso vocês se abstenham de dar palpites, de dar opiniões. Fiquem quietinhos, estudem e preparem-se para, quando entrarem na arena, entrarem com tudo, com toda a força, como eu mesmo entrei. Quando se publicou o meu primeiro livro que teve um alcance público, O Imbecil Coletivo – o primeiro de fato foi O Jardim das Aflições, que teve uma tiragem mais modesta – toda esta pseudo-intelectualidade tremeu nos alicerces, porque sabia que eu não era mais um. E se, em vez de haver um sujeito fazendo isso, houver quatrocentos? Estará acabada a brincadeira. E nós temos que acabar com essa brincadeira, é nosso estrito dever, dever de cada um de vocês, preparar-se não só intelectualmente, mas humanamente, moralmente, psicologicamente para enfrentar essa responsabilidade. E eu tenho consciência de que não estou só espremendo e exigindo algo dos outros, sei também que não estou exigindo nada que não sei fazer – porque eu sei fazer isso; não só sei, como já estou fazendo. Nós temos que sanear intelectualmente o Brasil: isso é a coisa mais urgente que existe. Urgente significa uma coisa que vai levar vinte, trinta anos... mas em história isso aí não é nada. Vamos responder a algumas perguntas. Aluno: Acessar a alta cultura é a única forma de conhecer a si mesmo? Trocar um coração de pedra por um coração de carne? Olavo: Não, existem outros meios que estão à disposição de Deus. Deus pode fazer isso com você a qualquer instante, tão logo Ele queira. Mas nós só podemos esse. E se você recusa esse, comete pecado contra o Espírito Santo. Se você não quer adquirir a alta cultura porque se julga uma pessoa simples e sem essas ambições etc. quer dizer que, para você, Deus tem a obrigação de fazê-lo por você, sem que você faça o esforço correspondente. Então você supõe que Deus tem um contrato de exclusividade com você e é obrigado a fazer o que você quiser. Se recusa esse tipo de aprendizado, você mesmo fecha a porta. A alta cultura não é um elemento externo que se acrescente à condição humana, ela é a própria condição humana. A linguagem – a capacidade de você participar de círculos cada vez mais amplos de diálogo, de intercâmbio – eis a natureza do ser humano. Por que você acha que esses estudos em outras épocas se chamavam Humanidades? Porque isso é próprio do ser humano. E sem isso não pense que vai chegar a alguma coisa maior, porque não vai. Existem outras possibilidades? São infinitas. Você pode, por exemplo, pedir a Deus que o faça por você. Mas Deus nunca faz por você o que Ele pediu para você fazer por você: se foi Ele quem pediu para você fazer, não é Ele quem tem de fazer, mas você. Ou seja, a aquisição de alta cultura é obrigação de todo ser humano. Só deixa de ser obrigação quando há um impedimento objetivo. Por exemplo, se você está num meio social onde isso simplesmente não existe, você não tem acesso e não dá para saber, você vai ficar abaixo do nível, mas você não tem culpa disso. Mas se você tem os meios e não quer adquirir alta cultura, então é claro que você é culpado, porque não quer conhecer os assuntos dos quais você fala. O sujeito que diz que não quer adquirir alta cultura está dizendo exatamente isso! Mas um sujeito que não quer ter alta cultura, será que abdica de ter opinião sobre qualquer coisa? só trabalha e fica quieto? Não, ele quer ter o direito de ter sua opinião e quer, ao mesmo tempo, que os outros ouçam sua opinião. Eu penso que o direito à livre opinião é correspondente ao direito de não ouvi-la. Todo mundo tem o direito de virar as costas e ir embora. Mas a maior parte das pessoas que querem ter direito à opinião não pensa assim: pensam que têm direito à opinião e que, portanto, a platéia universal tem obrigação de sentar e escutá-las, ainda que não tenham pensado no assunto nem por dois minutos; ainda que tenham acabado de inventar uma idéia, todos têm de sentar e ouvi-las. Mas por quê? Querer ter suas próprias opiniões sem ter as obrigações da alta cultura é o mesmo que querer ter o direito de opinar sobre algo que não conhece como se o conhecesse e ainda assim contar, como um sábio, com a atenção dos outros. Qualquer sujeito que pensa assim merece um tapa na cara, não mais do que isso. Não existe um padrão de normalidade, de sanidade, de moralidade humana ao qual a alta cultura venha a se acrescentar como um enfeite, não existe isso. Sem a alta cultura não há nada disso! Charles de Gaulle dizia que a identidade nacional consiste em três coisas: língua, religião e alta cultura; mas essas três coisas são a mesma, pois a alta cultura é o domínio da língua. Há quem pense que o domínio da língua se adquire estudando a língua, a gramática, fazendo exercícios, mas isso é apenas o domínio das regras esquemáticas da língua. A língua verdadeira é a que está depositada nas grandes obras e é lendo essas obras que se adquire o domínio da língua e não estudando gramática. A gramática é um estudo secundário feito em cima disso. O domínio da língua é a própria alta cultura. E a alta cultura é o que lhe permite, através do diálogo com os grandes espíritos de todas as épocas, chegar um dia a conceber o que é conversar com Deus. Então, língua, religião e alta cultura são a mesma coisa. Aluno: Sou psiquiatra em Belo Horizonte e testemunha ocular e epidérmica do que você disse sobre a anti-psiquiatria. A situação da ciência da psiquiatria no Brasil hoje em dia está, em resumo, da seguinte forma: [02:10] 1) cem por cento na mão de petistas; 2) estão proibidas as internações e os tratamentos como eletro-convulsoterapia, que é, inclusive, normatizada pelo conselho federal de medicina (...) Olavo: Olha, gente: o eletro-choque cura, o eletro-choque salva vidas humanas; não foi nem um, nem dois loucos de pedra, esquizofrênicos de último grau, que eu vi serem salvos pelo eletro-choque, com efeitos colaterais mínimos e passageiros (como lapsos de memória, ou coisa do tipo, mas que dois meses depois passavam e o sujeito ficava bom). Aluno: (...) 3) aumento de mortes de doentes mentais por suicídios ou assassinatos nas ruas; 4) profissionais paramédicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais etc. substituem médicos no serviço público de atendimento psiquiátrico, inclusive em plantões noturnos; 5) o tratamento de dependentes químicos é feito com uma técnica chamada de "redução de danos" (...) Olavo: Eu sei o que é essa redução de danos: é a redução de danos para o narcotraficante, que vai perder menos dinheiro. É isso que é a redução de danos; e quem inventou isso – a turma do George Soros – sabe perfeitamente disso! A "redução de danos" é um pretexto para dar droga para as pessoas! Aluno: (...) "redução de danos" onde está prevista a abertura de casas em que o doente pode usar drogas em segurança, uma espécie de "Casa do Maconheiro", enquanto isso o cigarro comum está absolutamente condenado; (...) Olavo: Então vamos fazer aqui a Casa do Fumante! Aluno: (...) 6) está proibida pela coordenação de saúde mental qualquer divergência na questão, com risco de perda de emprego, cargo etc. Olavo: É isso! A anti-psiquiatria conseguiu seus objetivos. Ela é um instrumento para geração de crise social e para o aumento do poder desses grupos de pressão. Aluno: Sobre o tema "opinião: ter ou não ter, ser minha ou não", lembrei-me daquele trecho de Ortega Y Gasset em A Rebelião das Massas, que transcrevo abaixo: "A maior parte das pessoas não tem opinião e é preciso que essa venha de fora sob pressão, como o lubrificante entra nas máquinas. Por isso, é preciso que o espírito, seja qual for, tenha poder e o exerça, para que as pessoas que não opinam – que são a maioria – opinem. Sem opiniões, a convivência humana seria o caos, e menos ainda: um nada histórico. Sem opiniões a vida do homem careceria de arquitetura e organicidade". Ou seja, aquele bordão "opinião é como bunda: todo mundo tem" é mais uma bobagem universalmente repetida, inclusive por nós mesmos. Olavo: Mas eu concordo com esse negócio de que "opinião é como bunda, todo mundo tem". Note bem: Aqui, Ortega y Gasset está se referindo à circulação de opiniões e é verdade que sem opiniões a convivência humana seria o caos. Mas o problema hoje não é a falta de opiniões, é o excesso. Será que ele está se referindo a qualquer opinião? Não pode ser, porque no mesmo livro ele, mais adiante, desce o cacete nesses camaradas que têm opinião sobre tudo e que não conhecem nada. Então nós precisamos de opiniões, sim, mas de opiniões qualificadas. E precisamos de muitas porque, como já dizia São Tomás de Aquino, a verdade é filha do tempo. Para você acertar alguma coisa, é preciso que muita gente tenha tentado, e essas tentativas são as opiniões. Opiniões não são senão conhecimentos virtuais, conhecimentos possíveis. Algum dia a coisa deixa de ser matéria de opinião, porque se chega a uma conclusão. Por exemplo, lembremos o caso de Einstein. Hoje nós temos a prova definitiva de que ele era um plagiário. Até chegar essa prova, todo mundo tinha direito de ter opinião, achar que sim ou que não, e é justamente no entrechoque das opiniões que vai surgindo a discussão. Mas e se as pessoas se contentam com as opiniões? Por exemplo, hoje em dia, o Brasil está cheio de professores universitários que não acreditam em conhecimento da verdade e, no entanto, querem ter opiniões. Ora, se você não acredita que nós podemos chegar a uma conclusão a respeito de tal ou qual coisa, para que servem as suas opiniões? Elas deixam de ser etapas na busca da verdade e passam a ser fetiches que têm que valer por si mesmos. É o que diz aquele desgraçado do Richard Rorty: como não podemos provar nada para ninguém, só nos resta induzir as pessoas a imitar a nossa linguagem. É claro que isso é vigarice! Se você não acredita que exista uma verdade a respeito do assunto de que você está falando, então você tem de reconhecer que sua opinião vale tanto quanto qualquer outra; isto é, nada. Sempre que as pessoas me perguntam algo que eu não sei, mas tenho uma opinião a respeito, eu advirto: “Eu não sei a resposta disso que você está perguntando, mas tenho uma opinião, que não vale mais do que nenhuma outra. Eu vou dá-la, mas ninguém é obrigado a aderir”. Agora, se eu souber a resposta, digo que não é uma opinião, que sei o que estou dizendo. Mas o que as pessoas querem hoje é que a opinião valha por si. Aluno: Sobre o tema do ingresso na cultura superior, fica a pergunta – para mim quase obsessiva – de como lidar com o problema do esquecimento, isto é, de como armazenar tantas informações? Olavo: Você não precisa de armazenar – e isso é importantíssimo! Veja, um dos grandes erros no ensino é as pessoas imaginarem a memória como um depósito onde as coisas estão colocadas dentro da sua cabeça, dentro do seu HD (disco rígido), e lá estão todas registradas. Não é assim. Um computador tem que armazenar as informações no HD a não ser que ele esteja ligado a uma rede; daí esta informação não precisa estar lá, porque cada um tem um pouquinho e, na hora H, ele acha. Não é assim que funciona a Internet? A Internet está inteira dentro de um só computador? Não, são milhões de computadores. Ainda assim, um computador só tem contato com outros computadores, ele não tem contato com a realidade exterior. Quanto a nós, temos as duas coisas. Nós temos contato com outros espíritos humanos, com os registros onde os conhecimentos estão depositados (livros, discos etc.), com a natureza física inteira e com a sociedade humana. É aí que tem de estar depositada a nossa memória, não na nossa cabeça. A gente tem de aprender a contar com essa memória externa. Quando o seu computador fica com o HD cheio, você não compra um HD externo? Eu tenho Pois bem, eu também tenho um monte de HD’s externos, nunca conto com a minha memória, mas com o depósito público de memória. Na hora em que você acertar em focar essas coisas, sua memória vai melhorar muito. Porque o importante não é que as coisas estejam na sua memória, mas que elas venham para você na hora em que você precisa delas. E às vezes elas vêm do ambiente. Nós não temos de pôr as coisas na nossa cabeça, nós temos de sintonizar a nossa cabeça com a situação real em torno e deixar que ela nos informe. Por exemplo se você tem uma boa biblioteca, ou forma uma, muitas informações de que você precisa estão lá; elas não precisam estar na sua cabeça. Leia e esqueça. Na hora H vão voltar. Se não voltarem, você simplesmente pega o livro de novo e pergunta para ele! Não fique angustiado com esse negócio do esquecimento, não tente forçar a memória jamais. Memória é que nem vaca: ela dá leite, um montão de leite, mas se você tentar forçar, ela chuta o balde! Agora, o leite da vaca está dentro da vaca e os conhecimentos que estão na nossa memória não estão na nossa memória, mas espalhados por aí. O mundo é um imenso registro mnemônico, a sociedade humana é outro: conte sempre com tudo isso e não se angustie. Se você se esqueceu de algo, que ótimo! Esqueceu-se porque não está precisando dessa coisa no momento; na hora H ela voltará, sempre voltará. Às vezes, coisas que eu li há vinte, trinta anos atrás, nas quais não pensei por muito tempo, voltam de repente! [02:20] Aluno: Ainda sobre o exercício do necrológio, que de tempos em tempos deve ser refeito, é o seguinte: considerando que saber e conhecer é saber e conhecer o que os outros geralmente não sabem, no sentido de que nós não devemos esperar ser compreendidos pelas outras pessoas – pela mediocridade geral, por assim dizer –, quero saber, então, se no necrológio o narrador, que é justamente uma outra pessoa, uma terceira pessoa, também irá – como uma pessoa comum – não nos compreender, (...) Olavo: Não, o narrador tem de ser alguém que o compreende e que o compreende muito bem: alguém que gosta de você, que o aprecia e compreende, senão esse exercício não irá funcionar e o necrológio se transformará nas opiniões que um idiota tem sobre você! Então você tem de supor que o narrador é uma pessoa do seu nível intelectual, ou superior, e que compreendeu você muito bem, tanto que pode explicá-lo com justiça para uma terceira pessoa. Aluno: (...) se nesse caso específico seria um amigo imaginário que estaria também no mesmo nível, nivelado, por assim dizer, conosco. Olavo: Ou nivelado com você, ou suponha-o até um pouco superior, não necessariamente no nível que ele tem de conhecimento, mas na compreensão que ele tem de você. E isso não é difícil, porque às vezes um biógrafo que está escrevendo a biografia de um grande gênio – e que não é ele propriamente um gênio – compreende-o melhor do que ele compreendia a si mesmo! Isso porque ele está interessado em ver aquela pessoa na sua totalidade enquanto o gênio poderia não estar tão interessado nisso quanto em outras coisas. Às vezes, uma pessoa que nos observa compreensivamente – e pode não ser tão inteligente quanto nós – compreende-nos em certos pontos que nós talvez não compreenderíamos. Lembro-me de um momento tocante na minha vida – acho que já contei essa história aqui, mas hoje a contarei sob outro aspecto. Estava conversando com a doutora Mariana Jacob, a grande gerontologista, e o seu marido. Eu conversava com ele, quando me perguntou se eu sabia árabe. Respondi que não sabia árabe, mas compreendia os mecanismos da língua árabe e sabia, sobretudo, lidar com as raízes das palavras; se ele me desse uma raiz, eu saberia formar várias outras palavras a partir dela. Ele olhou para mim e disse: "mas isso é impossível! Se você não tem o vocabulário, não consegue fazer isso!". Eu disse que conseguiria. Daí ele me deu várias raízes, eu tirei várias palavras. Ele então me olhou, olhou... e disse: "você fez um esforço monstruoso!" Naquele momento eu me senti compreendido, porque eu sei o que isso me custou e sei o quanto me custou muita coisa que eu sei, coisas para as quais eu não era naturalmente dotado. Eu não sou nenhum gênio lingüístico como era o Bruno [Tolentino], por exemplo: ele ficava duas semanas num país e saía falando a língua! Eu estou nos EUA há quatro anos e até hoje, quando falo, as pessoas dão risada. Não que esteja errado, mas é esquisito. Então, para essas coisas de linguagem, como pegar a estrutura íntima da língua, fiz um esforço monstruoso! E as pessoas às vezes não o percebem. Mas ele percebeu. Percebeu que não era uma questão de sorte ou talento natural, mas de muita dedicação e muito amor àquela língua também. Ele me compreendeu e fiquei muito feliz – ficamos felizes quando as pessoas adivinham uma coisa nossa e a compreendem bem. É esse tipo de pessoa que você tem de escolher como seu narrador imaginário. Aluno: Em virtude do conteúdo da aula de hoje, peço ao senhor que responda a duas perguntas a respeito do seu estudo sobre o movimento revolucionário: 1) qual foi a circunstância na qual esse problema lhe surgiu? 2) O senhor poderia descrever bem brevemente o status quaestionis do problema, indicando quais autores mais lhe foram proveitosos? Olavo: Com relação aos autores, nenhum dos estudiosos do movimento revolucionário em si mesmo me foi útil para a tese geral, nenhum mesmo. O que eu procurava saber, nenhum deles respondeu, primeiro porque nenhum deles tinha um conceito geral da revolução, ou quando tinha era um conceito impressionista baseado, sobretudo, na idéia de sublevação, de mudança geral. Por exemplo, saiu agora um belo livro anti-ateístico, de cujo autor não me lembro, chamado Porque a revolução cristã não foi compreendida. Ele chama o Cristianismo de revolução e esse uso analógico da palavra confunde tudo. Os que me foram úteis foram os estudiosos que resolveram problemas históricos específicos que eu precisava resolver para chegar ao diagnóstico geral. Por exemplo, acabei de colocar no site do seminário a gravação “Absolutismo e Revolução” que, se ainda não entrou no site, entrará nos próximos dias. Nela eu noto como o advento do Absolutismo na Europa foi, em si, uma revolução. O pessoal imagina a Revolução Francesa como um movimento súbito que quebrou toda a ordem antiga. Mas não foi. Havia um processo revolucionário que foi iniciado pelo próprio Absolutismo e, quando me surgiu essa dúvida na cabeça, pensei: "Bom, agora eu preciso analisar melhor a questão do direito divino dos reis; qual era a diferença disso na Idade Média para a Idade Moderna?" Procurei, procurei e achei o livro de Fritz Kern, pelo qual fiquei fascinado: Kingship and Law in the Middle Ages. O cara tinha matado o problema totalmente! Eu simplesmente peguei as conclusões dele, resumi e encaixei na minha argumentação; não precisei fazer mais nada. Nesses problemas históricos específicos, recebi quase tudo pronto e não dá para dizer quais são os autores, porque são centenas! Espero colocar todos na bibliografia. Um autor que foi muito importante foi Paul Sérieux, no livro Les Folies Raisonnantes (As Loucuras Raciocinantes), em que ele dá o conceito do delírio de interpretação, conceito no qual, no fim do estudo, eu encaixo a mentalidade revolucionária. Mas esse tampouco é um estudo sobre a mentalidade revolucionária, é um estudo sobre uma patologia específica. E está tão bem explicado, que resolveu o problema. E se você estudar o problema da mentalidade revolucionária por essas linhas de investigação que eu segui e estudar também o livro de Paul Sérieux, verá que são a mesma coisa. Existem alguns livros sobre histórias de movimentos revolucionários específicos que me foram muito úteis, por exemplo, o livro de Hyppolyte Taine, Origens da França Contemporânea, que é uma história da Revolução Francesa. Quem não ler aquele livro não vai entender o que se passou exatamente ali. O livro de Pierre Gaxotte sobre a Revolução Francesa foi também muito útil, mas eu acho que nesse estudo não houve grandes autores que influenciassem o conjunto, mas uma infinidade de autores que tinham resolvido problemas específicos. Mas a idéia mesma de tentar encontrar uma unidade do processo revolucionário ao longo dos tempos através da análise da estrutura lógica dos discursos, essa idéia ninguém teve. Essa é minha mesmo; e essa é a tese central do livro. [02:30] É claro que essa tese tem de ser preenchida com milhares de soluções para milhares de problemas específicos. Mas se eu fosse estudar tudo, nunca iria conseguir... E às vezes acontece de termos uma idéia brilhante, mas para chegar a demonstrá-la, é preciso decompô-la nos problemas secundários e é então que vemos que não há ninguém que tenha estudado aqueles problemas secundários. Isso aconteceu comigo quando estava vendo a questão da Astrocaracteorologia. O problema da Astrocaracteorologia era muito simples. Eu acompanhava todo esse debate astrológico e via que todo ele era uma bobajada, porque o que o pessoal chama de Astrologia não tem unidade: não é um fenômeno unívoco, mas milhares de coisas absolutamente heterogêneas. Logo, ter uma opinião a respeito ou não ter nenhuma é a mesma coisa. Então o que se há de fazer? Nós temos de pegar a documentação da Astrologia desenvolvida, mais ou menos, desde a Idade Média até hoje – há também alguma coisa na Antiguidade (de Ptolomeu e outros) – e ver se conseguimos pegar a unidade do que é isso, ver se há nisso uma estrutura comum. Dentre milhares de coisas diferentes que os astrólogos dizem de mil e uma coisas – e astrólogo fala muito! – vamos ver se conseguimos abstrair o que eles estão falando. Uma vez abstraído isso, então temos algo que se pode chamar de discurso astrológico essencial. Esse discurso pode ser expresso por uma série de afirmativas sobre certos fatos ou situações que devem ocorrer na vida terrestre e humana, quando certos outros fatos estão se passando no céu. Se você obtiver essa estrutura central, você poderá testar cientificamente a coisa; mas não antes disso. E há que lembrar que muito se fala em Astrologia e, no entanto, ignora-se o óbvio: só se pode testar o discurso astrológico se houver meios de verificação não-astrológicos dos mesmos acontecimentos. E quais são esses critérios? Eles não foram inventados! Foi por isso que eu dediquei um bom tempo para resolver esse problema. Só que cheguei a um ponto em que era preciso de certas pesquisas empíricas sobre uma série de pontos e, na inexistência dessas pesquisas, eu não as podia fazer, sendo um só; precisaria de duas mil pessoas e de muito dinheiro para fazê-las. Então, o que eu fiz? Fiz a montagem teórica do problema, equacionei-o cientificamente de maneira a poder ter solução; mas não dei a solução, pois dependia de investigações que não foram feitas. Então, simplesmente parei. Fiz a investigação até onde eu pude e encerrei o assunto: não falei mais disso porque não dava para fazer mais nada. Já no caso da mentalidade revolucionária, eu dei sorte: praticamente todos os problemas concretos estavam resolvidos. Aluno: Levando em conta o cenário cultural de nosso país, o senhor acha que há pessoas no nosso país com autoridade para determinar quem deve ser internado ou não em clínicas psiquiátricas? (...) Olavo: Pode ter um ou outro psiquiatra que seja. Pelo menos aqueles caras que estão com noventa anos. Aluno: (...) Durante a aula não pude deixar de lembrar do filme A Troca, do Clint Eastwood.(...) Olavo: É um filme maravilhoso, meu Deus do céu! Aluno: (...) No filme, a protagonista, que era interpretada por Angelina Jolie, é internada injustamente em uma clínica psiquiátrica por ordem de um departamento corrupto de Los Angeles. Olavo: E isso acontece, é claro! Só que tanto é anormal, que se fez até um filme a respeito, deu o maior escândalo e até hoje se fala disso. Agora, isso na União Soviética era normal, era o que se fazia sempre e não dava escândalo nenhum. O pessoal da anti-psiquiatria usa, para descrever a situação psiquiátrica no Ocidente, exatamente os conceitos que se aplicariam literalmente e exatamente na União Soviética e que se aplicaram só analogicamente, por exceção. Mas assistam a este filme: Changeling, é maravilhoso! Eu acho que é o melhor filme que ele fez. Aluno: A memória deve ser apresentada como quando fazemos um trabalho de pesquisa no qual, à medida que estudamos o assunto, aquilo de que precisamos para o estudo aflora como num passe de mágica. É esse o sentido que devemos ter sobre o assunto em que estamos envolvidos, transformando a vida como grandes pesquisas em que todo o conhecimento aparece-nos no momento certo? Olavo: Eu não posso assegurar, mas para mim tem funcionado assim: eu sempre tive uma sorte muito grande de obter as informações que eu quero. Tudo que eu preciso saber aparece na minha mão de alguma maneira. Para isso, você precisa estar aberto, querendo mesmo. Então não é o problema de ter tudo na memória. É simplesmente querer saber e não forçar muito a coisa. Se não aparece hoje, aparece amanhã. Eu tenho uma grande biblioteca e tenho a sorte de ser incapaz de encontrar livros nela. Sempre que vou procurar um livro, ele nunca está lá. No dia seguinte, ele aparece. Eu já me acostumei com isso, acostumei-me com dar tempo ao tempo. Sabia que a informação iria aparecer. Às vezes demorava muito, mas com o tempo isso acelerou. Isso porque passei a lidar não mais com coisas novas, mas com coisas que já havia pensado. Por exemplo, quando vi essa conversa de anti-psiquiatria na Folha de São Paulo, lembrava-me vagamente do assunto. E quanto tempo levei para encontrar na internet tudo o que eu queria? Cinco minutos! Eu não me lembrava nem mais dos nomes dos personagens, lembrava que sabia disso vagamente, mas em cinco minutos fui direto ao ponto. E por quê? O assunto não era totalmente novo, já estava vagamente na memória. A questão é, portanto, apenas encontrar o fato concreto que exemplifica aquilo. Há uma coisa que se chama de o Livro da Vida, é a memória de Deus. Deus tem tudo na memória e Ele pode lhe dar o que Ele quiser na hora em que Ele quiser. Quantas vezes eu já dormi com um problema na cabeça, pedi para Deus me ensinar e acordei sabendo? Deus põe na sua cabeça o que Ele quiser, por mais burro que você seja. Se você quer saber mesmo as coisas, se está aberto e sintonizado com a realidade das coisas, se quer mesmo a realidade – não no sentido de dominá-la ou transformá-la em uma equação sua –, se quer saber como as coisas realmente foram, elas acabam aparecendo. Portanto, fique tranqüilo e confie em Deus, pois tudo o que você quer saber está no Livro da Vida. Aluno: Não sei por que esse assunto entrou na pauta dos jornais agora, porque quando estava concluindo meu curso de psicologia, em 1979, isso só se falava no Brasil e pouco depois se tornou lei. Vários hospitais psiquiátricos foram fechados, como o histórico Hospital da Tamarineira, aqui no Recife, e se não estou enganada a Casa das Palmeiras e o Pinel, no Rio. De onde esses dementes desenterraram esse assunto como se fosse novidade? Olavo: É porque agora há um novo projeto que está regulamentando a coisa. Parece que esse projeto não é tão radical quanto a primeira proposta, ele até a atenua em certos momentos, mas em si, ninguém vai entender essa proposta da anti-psiquiatria se achar que ela tem algo a ver com doença mental. Anti-psiquiatria não é uma psiquiatria, não é uma teoria científica, é um truque estratégico. Existe uma diferença muito grande entre isso e uma teoria psiquiátrica genuína. Por exemplo, existe aqui nos Estados Unidos um médico, que de comunista não tem nada, [02:40] um grande psiquiatra chamado Dr. Thomas Szasz. Ele acha que doença mental não existe, que ela é só uma figura de linguagem. Ele também é contra a internação, mas ele é contra a psiquiatria inteira. Ele não tem nenhum propósito estratégico, é um sujeito até conservador. Na verdade ele é um libertarian – para mim, os libertarians são todos malucos, mas de vez em quando são originais, falam umas coisas interessantes. Então, o Dr. Thomas Szasz é um sujeito muito simpático e muito honesto, ele defende coisas parecidas às da anti-psiquiatria e ele falava até isso antes da anti-psiquiatria; e acho até que a anti-psiquiatria atrapalhou tudo que ele estava tentando fazer. Ou seja, ele é mais radical do que a anti-psiquiatria. Só que ele não tem nenhum propósito político nisso, ele não está atendendo a nenhum interesse político por trás, então ele discute a coisa em termos objetivos de psiquiatria. Portanto você pode concordar ou discordar com ele. Eu discordo. Acho a doença mental uma coisa perfeitamente objetiva e também acho que não tem sentido dizer que a doença mental não existe, ou que ela é uma invenção da sociedade repressiva, porque com isso se está dizendo que os doentes mentais não são loucos, que louca é a sociedade. Mas se você diluiu a noção de doença mental tal como ela se aplica ao caso concreto do paciente não é legitimo utilizá-la como figura de linguagem para a sociedade inteira. Se ela não é válida no seu sentido literal, também não pode ser válida como figura de linguagem. Se não existe louco, também a sociedade não é louca. Se ninguém é louco, não se pode dizer que nenhuma sociedade é louca – nem a sociedade asteca, que fazia aqueles sacrifícios humanos, nem a sociedade nazista. Se não existe loucura, nada é loucura. A diluição da noção de doença mental é errada, mas eu sei que o Dr.Thomas Szasz argumenta em termos científicos e admite discussão científica, enquanto a anti-psiquiatria não o faz. Veja que entre o surgimento da anti-psiquiatria e o fechamento dos hospitais na Itália decorreram pouquíssimos anos. Mal se acabou de inventar uma teoria e ela já se transformou em lei, antes de ser discutida cientificamente! É claro que isso é um movimento político, é claro que isso não tem nada a ver com ciência! Suponhamos que, de repente, eu inventasse o remédio para o tratamento de alguma coisa e, no dia seguinte, esse remédio fosse obrigatório, antes mesmo de ter sido testado. Foi isso o que fizeram com a anti-psiquiatria. É claro que o sujeito que faz isso não tem um objetivo médico, psiquiátrico, nem coisa nenhuma: é jogo de poder político, e só! Digamos, então, que a partir do surgimento da anti-psiquiatria houvesse 50 anos de discussões, de testes, um monte de trabalhos científicos a favor, um monte de trabalhos científicos contra, e no fim se chegasse à conclusão de que o negócio realmente funciona e de que, portanto, tem que ser aprovado como lei. Aí sim! Mas se mal inventada a moda, no dia seguinte já virou lei, o seu objetivo não era psiquiátrico, o objetivo era fazer a lei. Mal acabou de ser apresentada como hipótese, já virou lei? Então é claro que o objetivo dela era transformar-se em lei e não provar cientificamente o que quer que seja. Esses caras da anti-psiquiatria são monstros, criminosos, são responsáveis por infinitos males que se espalharam pelo planeta: banditismo, delinqüência, criminalidade, drogas. Tudo isso aí pesa na conta desses canalhas: Ronald Laing, David Cooper, Franco Basaglia, todos esses caras. São comunistas que só o que querem é atribuir aos outros os crimes que eles mesmos estão fazendo, porque nunca abriram a boca para falar o que estava acontecendo na União Soviética. Pega-se um simples hospital psiquiátrico, por exemplo, onde acontece um caso como o do filme de Clint Eastwood – porque uma vez a polícia deu um laudo falsificado para internar uma pessoa que interessava a eles internar – e se diz que essa é a estrutura do funcionamento do sistema psiquiátrico aqui. Quer dizer, toma-se a exceção por regra. E no lugar onde a coisa é norma e regra constante durante cinqüenta anos, não se abre a boca; ao contrário, trabalha-se para os seus promotores. Que é isso, minha gente? Não se está falando de anti-psiquiatria! Aluno: Como por um bom tempo estudei autonomamente a arte, li um livro do Pierre Francastel, (...) Olavo: Muito bom, Francastel é um homem sério. Aluno: (...) mas a obra que me abriu um horizonte novo foi Pintura e Sociedade. Nesse livro, Francastel vai mostrando como uma representação pictórica muda em relação ao modo de pensar. (...) Olavo: Ele expressa algo magistral! Quando ele faz a análise das estruturas das catedrais góticas, depois as compara ao estilo renascentista – aquelas cúpulas –, ele vê que aquilo reflete uma mudança da função social do clero. Algo fantástico! Francastel era um guru. Aluno: (...) No Egito, a representação era pragmática e por isso a representação de figuras nas melhores posições para entendê-las. (...) Essas representações diferentes podem ter paralelo com a capacidade da época de estar imersa na realidade como consciência e responsabilidade intelectual? Olavo: Certamente sim. As formas da arte da arquitetura refletem a maior ou menor capacidade de articulação do conjunto. Principalmente a arquitetura, porque ela é a articulação de várias artes, de várias representações da realidade. As catedrais góticas, que são o cume da arte humana e articulam elementos bíblicos, astrológicos, mitológicos, pictóricos etc., supõem um conhecimento do simbolismo universal. Uma catedral gótica era um conjunto de chaves interpretativas da realidade. As catedrais góticas podem ser lidas como livros. Ao contrário, ao ler as obras da Escola Bauhaus, como Michael Jones leu – ele fez uma trilogia estudando a arte moderna na sua relação com movimentos de liberação sexual –, você fica horrorizado com a pobreza de concepção dos autores. Quer dizer, a arte da Bauhaus foi feita para impor às pessoas um destino que elas não compreendem e que irá mudar suas vidas radicalmente; e mudar para pior! Como nesses grandes conjuntos habitacionais que eles criaram: eles sabiam que aquilo iria criar promiscuidade, acabar com a privacidade das pessoas e com suas vidas e que iria gerar banditismo. Eles os fizeram justamente para isso. Isso não é defensável! Aluno: Dentro do contexto da aula de hoje surgiu uma dúvida. Além de conhecer outras obras de literatura universal, o senhor considera essencial conhecer a biografia dos escritores antes de sua obra completa, para situá-la geográfica e historicamente? Olavo: Não, não considero. Você não precisa saber nada porque a obra literária é, em primeiro lugar, um sonho acordado dirigido. Então você tem de entrar e deixar que o sujeito o conduza aonde ele bem entender. Depois você acorda. Não tenha medo de ser influenciado. Você vai ser influenciado necessariamente, mas influência não mata, da influência você entra e sai. Outra coisa: as obras de arte literária, como eu já disse, não são para ser interpretadas, elas são chaves interpretativas da vida real. Você não precisa propriamente interpretá-las, mas interpretar as coisas à luz delas. Elas lhe dão um sistema de símbolos e analogias que esclarece muita coisa. Já dizia Susanne Langer: o símbolo é a matriz de intelecções. Portanto a obra de arte vale quando abre você para novas intuições sobre a realidade. Depois de lê-la, antes de voltar-se sobre ela e pensar sobre a obra de arte, você tem de tirar o proveito analógico que ela lhe dando. A experiência literária é muito mais importante do que a análise da obra literária. A análise deve ser feita por outros motivos, [02:50] quando se tem interesses historiográficos, ou psicológicos, ou filosóficos. Mas num primeiro momento o que importa é deixar-se impregnar por aquilo. Na medida em que você revive imaginativamente essas experiências, você também está pegando no mesmo ato os instrumentos de expressão verbal daquilo, aquilo está lhe enriquecendo duplamente, está lhe dando uma rede de símbolos com os quais você pode iluminar a sua vida e sua experiência e ao mesmo tempo está lhe dando os meios de dizer aquilo. Tirar esse proveito é o que interessa. Estudar a própria obra literária é outra coisa, de proveito diferente e que deve ser deixada para depois. Aluno: Quando o senhor fala sobre o ingresso no círculo da alta cultura, diz sobre as referências a que os grandes autores fazem uns aos outros em suas obras e que, se a pessoa não estiver ao par deste quadro, ela saberá muito pouco sobre o que estará sendo discutido. Pode-se fazer uma analogia com a experiência necessária para a compreensão deste código? É possível saber suficientemente de algo sobre essas grandes discussões sem ter vivido pessoalmente uma experiência similar ou análoga? Olavo: Não. Mas isso depende da acumulação que você vai tendo. Aos poucos você vai percebendo estas inter-referências, evocações, sobretudo estilísticas. Por exemplo, dentro de um romance, quantas frases você não lê que são paráfrases de poemas? E na hora em que você descobre que é uma paráfrase, aquela cena daquele romance adquire uma dimensão maior. Se você não pega a paráfrase, você entende a coisa num certo plano. Se você pega a paráfrase, você já tem dois planos. E em certas obras essas evocações são tão ricas que praticamente se ramificam para toda a literatura universal. A cada vez que você lê T. S. Eliot tem uma coisa noiva: evocações de autores antigos, de obras de arte, de situações da história, que você não tinha percebido num primeiro momento. Um autor que tem isso no Brasil é o Gerardo Melo Mourão. Ele é um tremendo poeta, um monstro de poeta. Quando Ezra Pound leu as coisas dele, disse: "esse cara conseguiu fazer o que eu estava tentando fazer." No entanto, as pessoas achavam que ele era apenas um velhinho louco, esquisito – Gerardo morreu, acho que recentemente. Tinha sido nazista na juventude, maluco. Quem o prendeu foi Paulo Mercadante, mas depois ficaram grandes amigos. A poesia do Gerardo são cinqüenta anos de leitura de clássicos gregos; e está tudo ali. Cada linha tem uma evocação. Por exemplo, ele está falando de um recife e então aparece Anacreonte ali no meio. Isso depende de tempo. Não fique chateado se você não perceber tudo num primeiro momento. Não é para perceber tudo num primeiro momento. Essa é uma aquisição progressiva, é um enriquecimento progressivo do seu mundo interior. Aluno: Primeiro, agradeço a riquíssima oportunidade que o senhor proporciona através deste Seminário de Filosofia. Segundo, estive meditando sobre a narrativa bíblica referente a Caim, em que após matar seu irmão Abel, é marcado por Deu e, fora de Sua presença, logo constrói uma cidade chamada Enoque. Pergunto se Caim, ao sair da presença de Deus, foge da realidade. Caim ao construir a cidade de Enoque está desenvolvendo o primeiro projeto de ordem de fuga da realidade? Essas duas seriam ações primordiais de uma mentalidade revolucionária? Olavo: Mas sem a menor sombra de dúvida! Em primeiro lugar, Caim procura obter por suas próprias forças um resultado que só o próprio Deus poderia lhe dar. Se Deus aceita um sacrifício ou não, isso é um problema de Deus, é um mistério. Mas veja que Caim oferece vegetais e Abel oferece animais, que é o sacrifício do sangue. Isso é uma coisa para a gente jamais esquecer. Os vegetais são o sacrifício exterior e o sangue é o sacrifício interior. Não tem sangue nos vegetais e o sangue é o símbolo do espírito. Então, aquele sacrifício em que há sangue é feito muito de dentro. Então, Deus não liga para o sacrifício de Caim, porque vê apenas que o sujeito está tentando mostrar bom mocismo,como aqueles carinhas de que eu já falei, que tentam mostrar como são obedientes à hierarquia e como são bonzinhos e fiéis ao Papa. Isso aí não vale nada, isso aí é apenas o sacrifício de Caim. E então Caim começa a construção das cidades, que são projetos de domínio sobre o espaço, o que faz com que não se esteja mais no espaço criado por Deus. Nesse processo, cria-se um espaço e ali se têm as próprias leis. É o que Santo Agostinho chamou mais tarde de “cidade dos homens”: é o mundo do planejamento, da deliberação, do poder etc. É claro que é uma ação primordial da mentalidade revolucionária, há uma concentração de poder para obter um resultado forçado. Aluno: Professor, o senhor conhece a obra de Paul Williams acerca da rede Al Qaeda, de Osama Bin Laden? (...) Olavo: Não. Não conheço o livro. Aluno: (...) Acabei de ler o nono capítulo do livro The Day of Islam do referido autor onde ele informa que o governo Lula adquiriu tecnologia para centrífugas nucleares de Rezende-RJ por intermédio do satânico Dr. Khan, chefe do programa nuclear paquistanês. (...) Olavo: Olha só! Vivendo e aprendendo... Quanta sacanagem! Aluno: (...) Paul Williams mostrou ainda que conhece o passado marxista de Lula, bem como o fato de ele ter fundado o glorioso Foro de São Paulo. Finalmente afirma existir um campo de treinamento da Al Qaeda em Minas Gerais. Olavo: Mas que coisa! Eu vou procurar esse livro. Muito obrigado. Estou falando que quando a gente precisa de informação ela cai na mão. Aluno: Antes de mais nada, gostaria de agradecer a oportunidade de aprender com o senhor e por dispor de dar o curso com tanta boa vontade para benefícios dos alunos e, quem sabe, do Brasil. (...) Olavo: Espero que seja também para o benefício do Brasil e, se não for para o benefício do Brasil, vai ser para o benefício de vocês. Se o Brasil não ganhar nada com a gente, pelo menos nós ganhamos. Aluno: (...) Na aula 13, o senhor enfatizou novamente a importância do surgimento da filosofia como filosofia moral e política. Seria assim também com a educação? Pergunto isso porque no início deste ano, o professor Júlio Groppa da Faculdade de Educação da USP esteve na minha cidade fazendo uma palestra para os professores da rede pública de ensino. Na palestra ele disse que o compromisso do professor com seus alunos não é a priori um compromisso moral, mas um compromisso político. (...) Olavo: Epa, aí complicou! Aluno: (...) Para isso, ele exemplificou dizendo que os professores estavam proibidos de rezar com seus alunos na escola. Por outro lado, salientou que era necessária a formação de valores dentro da sala de aula. Confesso que fiquei sem entender a sua proposta, eu acho que a maioria dos presentes também. Creio que isso seja um exemplo de distorção e deslocamento da realidade. Mas que raios de valores esse homem quer que sejam formados nos alunos se ele diz que os professores devem ser proibidos de rezar ou simplesmente falar de Deus com os mesmos? (...) Olavo: Naturalmente são os valores dele, Sr. Júlio Groppa. Você não pode falar de Deus, só pode falar do Júlio Groppa. O que responder? “Pegue seus valores e enfie naquele lugar, está entendendo?” Aluno: (...) [03:00] A pergunta é: a educação é também inicialmente de caráter moral e político? Olavo: Vamos por partes. Acho que a primeira educação é a educação da imaginação através da linguagem – ou seja, a ampliação da linguagem, o sujeito aprender a ler. Eu acho que a coisa básica é a arte e a ficção, isso em primeiro lugar. Você não precisa ensinar nada de real para as crianças e até adolescentes. Se você der os meios de linguagem e de expressão da experiência, aí eles estarão bons para aprender o resto. Isso vai seguir a ordem dos quatro discursos. A segunda etapa da aprendizagem é de ordem moral e política, mas não no sentido que esse Sr. Júlio Groppa está falando. Ela é o aprendizado do uso da linguagem como meio de ação. Note que todo adolescente, quando descobre que pode usar a linguagem para influenciar as pessoas, fica maravilhado. A adolescência é a época em que você começa a discutir e ter opinião. É a tendência natural do ser humano. Uma vez que você já tenha certo domínio da linguagem e que ela lhe sirva como um instrumento para sua orientação, aí ela pode servir para algo mais. Ela pode servir para afetar os outros, para modificar a situação. Isso acontece naturalmente durante a adolescência. Então, acho que isso poderia ser feito de uma maneira mais regulamentar. Por exemplo, essa é a época de ensinar as pessoas a discutir com honestidade, a fazer suas opções, a tomar suas decisões, a formar grupos, a se organizar socialmente, a agir na sociedade. É a época em que se vai começar, mas o sujeito tem que saber, em primeiro lugar, que o fato dele influenciar os outros não quer dizer que ele provou nada. Nós primeiro tomamos decisões, fazemos escolhas, e só depois é que colocamos o problema da sua veracidade ou validade. O sujeito precisa ter certa prática da discussão e da ação social – da prática retórica, por assim dizer – para, em seguida, poder começar a dar os princípios da arbitragem científica do que está falando. Eu acho que o ensinamento, por exemplo, da ação social deveria preceder o ensino das ciências. O método científico deveria ser ensinado para as pessoas como uma etapa superior que absorve e transcende todo esse mundo da opinião. Você vai passar da doxa para a epistéme. Mas se você não tem a doxa... Veja que a Grécia teve quatro séculos de treinamento retórico antes que surgisse a dialética de Platão e Aristóteles. Só quando as pessoas estavam muito bem afiadas naquilo é que surge o problema: quando alguém fala bonito e é convincente, será que é verdade tudo o que falou? Hoje em dia ensina-se filosofia nas escolas. Isso é uma estupidez, porque o que eles vão fazer na verdade é o ensino de retórica, ensinar as pessoas a discutir. Os critérios dessa discussão serão critérios retóricos, critérios de mera verossimilhança, não vai passar disso aí. E só depois de algum treinamento nisso é que elas começam a perceber que para além da persuasividade do que elas falaram, existe algo chamado realidade. Essa foi a minha experiência pessoal. Eu me lembro que quando estava no ginásio eu falava muito bem, falava melhor do que os outros e era duma cara-de-pau extraordinária, não tinha inibição social nenhuma. Então, eu convencia as pessoas do que eu quisesse. Tinha um amigo meu que queria formar um grupo de teatro na escola e ele não conseguia ninguém para trabalhar no grupo de teatro, ele estava desesperado. Eu disse: deixa comigo! Pedi autorização para a diretoria e passei em todas as classes e em cada uma fiz lá um discurso: “vocês têm de colaborar por isso, por isso e por isso”. No fim o dia, tinha 82 pessoas no grupo de teatro e o rapaz estava maravilhado. Ora, que condição eu tinha naquela época de averiguar a veracidade do que eu estava falando? Nenhuma. Era pura persuasividade, era puro domínio da linguagem. Foi logo em seguida que eu comecei a estudar história, ciências sociais etc. e daí comecei a pensar que não tinha nenhuma garantia de que estava na verdade. O sucesso dos meus discursos não quer dizer nada! Posso ter falado uma tremenda besteira e convencido todo mundo. Mas pude fazer isao porque tinha vencido a primeira etapa. Aqui nos Estados Unidos eles têm muito disso: ensino de discussão. Eles ensinam as pessoas a falar em público. Mas que coisa maravilhosa é isso! É mais importante do que aprender matemática; se você passa por isto, depois matemática você aprende rapidinho. Uma pessoa que não sabe falar para as pessoas, que não sabe agir socialmente de uma maneira eficiente vai aprender álgebra e geometria para quê? Para ele ficar mais isolado, mais inibido ainda, mais burro do que já está? O começo do ensino é um adestramento social, é um ensino de integração social. A gente deve assumir isso. Nós não vamos ensinar verdade nenhuma para essas crianças: nós vamos ensiná-las a se virarem na sociedade humana: a vencerem a timidez e sentirem-se iguais aos outros, porque isso alivia o problema da integração. Se o sujeito tem confiança nos seus meios de ação social, se ele sabe que pode persuadir os outros, ele já não fica de joelhos na frente dos outros para que o aceitem. Fala-se muito em cidadania, mas - meu Deus! –, se você não sabe falar que cidadania pode ter? Nesse sentido, o começo da educação é, sem dúvida, primeiro a educação do imaginário, da sensibilidade e da própria linguagem; e depois a utilização da linguagem como meio de integração social, dando a cada um os poderes necessários para que não se torne escravo de grupos, para que não seja um coitadinho. Dentro de uma escola, se todo mundo sabe discutir, se todo mundo sabe falar, ninguém vai abusar do outro. Todavia é preciso dar esse ensino conscientizando os alunos de que não estão ainda na esfera da verdade, de que existe algo mais adiante que vai fazer com que o orgulho deles caia do burro. Aluno: O que o senhor acha da tentativa do psiquiatra Joseph Gabel de unificar os conceitos de esquizofrenia e de falsa consciência, que ele chama de esquizofrenização das massas? Olavo: Eu acho inteiramente correto! Os dois livros do Joseph Gabel, A falsa consciência e As Ideologias e a corrupção do pensamento, foram muito importantes no começo da minha investigação sobre a mentalidade revolucionária e foi uma das coisas que me motivaram a fazê-lo. Respondendo a uma pergunta que me veio antes, esse livro do Joseph Gabel eu li há muito tempo e vi que ele estava na pista – eu tinha lido isso daí há trinta anos atrás – e ao mesmo tempo havia um livro que se chamava Psicopatologia Geral, de Gabriel Deshaies, em que ele descrevia as estruturas do mundo esquizofrênico, a lógica interna da esquizofrenia. Foi quando vi que tinha algo ainda a ser estudado. Gabel estava na pista, mas ele só noticiara que a coisa existia. Mais recentemente, o Dr. Lyle Rossiter escreveu um livro chamado The Liberal Mind em que ele vai mostrando toda essa ideologia esquerdista, progressista etc. como mera expressão [03:10] de necessidades adolescentes. Ele também estava na pista. Tudo isso é importante, mas nós não conseguiremos matar essa questão enquanto tivermos na mão somente a descrição da lógica da demência. Era preciso ter também, por outro lado, a lógica revolucionária. Era preciso fazer exatamente o estudo que eu estava fazendo: reduzir a mentalidade revolucionária a um esquema lógico essencial repetível uniformemente ao longo de toda a história do movimento revolucionário. Aluno: Gostaria que o senhor discorresse ainda um pouco mais a respeito da memorização de nossos estudos. Lembro que certa vez, numa entrevista, o senhor disse que após ler um livro, formava uma imagem e logo se esquecia do que lera. Depois de certo tempo, o texto lhe retornava à lembrança. Então o senhor passava a refletir sobre ele e analisá-lo. Olavo: É exatamente isso! Eu acho que deixei também um depoimento sobre isso num blog que eu comecei, ligado ao meu site, em que eu tentava descrever algo do meu processo de aprendizado. A primeira coisa que eu faço quando estudo qualquer coisa que seja é deixar-me impressionar profundamente por ela, como se eu estivesse assistindo a um filme – sabe aqueles filmes a que você assiste na ponta da cadeira, sem piscar? –, e então eu me deixo impressionar totalmente, sem nenhuma defesa. Eu leio o livro como se fosse realmente um espetáculo e deixo que aquilo fique dentro de mim, sonho com aquilo, aparecem outras imagens etc. e, aos poucos, aquela experiência se condensa numa estrutura mais abstrata, de forma que eu possa dizer: “foi isso o que aconteceu! O que eu vi ali foi isso!” Quero dizer: espero que apareça uma expressão conceitual daquilo que eu vi e, a partir do momento em que eu tenho essa expressão conceitual, posso voltar e ver se eu a observei como ela realmente foi, ou se faltou um pedaço. Mas eu acho que esse primeiro momento, o da impregnação, é o essencial. Mas é preciso rezar para Deus não deixar o diabo o enganar, porque você pode se impregnar de veneno. E se você se impregnar de veneno, você vomita. No Jardim das Aflições eu contei isto: eu assisti à conferência do José Américo Motta Peçanha exatamente assim. Enquanto ele estava falando, eu acreditei em tudo o que ele estava dizendo, absorvi a situação, a reação da platéia, como se fosse um filme na minha cabeça. Aos poucos, aquilo se concentrou de tal modo que eu podia descrever com clareza o que se passou e o que eu ouvi. A partir do momento em que sei o que ouvi, posso comparar com o que eu sabia antes; mas não antes. Porque se na mesma hora em que o sujeito estava falando eu ficasse criticando – “ah, isto é besteira!” – eu faria uma crítica superficial. Aquilo era um besteirol memorável, era tudo besteira até o fim. Mas se eu não me impregno primeiro da experiência do besteirol, como é que vou criticá-lo depois? Para criticar o besteirol, você precisa deixar que ele lhe imbecilize um pouco também. Não tenha medo, isso passa. Depois você vomita tudo. Então, quando eu tentei descrever o que se passou, vi que foi uma experiência hipnótica. Ele não estava expondo uma filosofia, estava hipnotizando a platéia para fazê-la aceitar coisas que eram absolutamente inaceitáveis, por exemplo, historicamente. Quando ele tentava, por exemplo, fazer de Epicuro uma vítima da maledicência coletiva – quando na verdade os maledicentes eram eles. Sei disso porque tinha lido algumas coisas. Eu sei o que o Epicuro fez ou que deixou de fazer. E também quando ele tentava puxar a platéia para fazer uma espécie de evocação do que seria o jardim de Epicuro: como nós somos pura matéria, estamos nos decompondo e vamos morrer daqui a pouco, então nós nos apegamos apenas às idéias agradáveis do passado e só nos lembramos daquilo... e ele tentava mostrar aquilo como uma coisa maravilhosa! Mas quando eu tentava fazer isso, só ficava deprimido (“mas como? Isso não me alegra de maneira alguma e não acredito que isso possa alegrar alguém!”). Mas, se eu não tentasse absorver o que ele disse e não tentasse revivenciar a coisa como ele falou, eu não perceberia a incongruência existencial da coisa, perceberia talvez a incongruência lógica. Mas a coisa mais besta que você pode fazer perante um discurso é criticar suas incongruências lógicas, porque um discurso que é logicamente incongruente pode corresponder à realidade: ou porque a realidade que ele está descrevendo comporta, em si mesma, contradições; ou porque o sujeito, através dessas contradições, está expressando de maneira canhestra e errada alguma coisa que é real. Então, ficar procurando incongruência lógica é besteira; mas existe incongruência existencial, incongruência ontológica, aquela coisa que é impossível. É fisicamente impossível que um sujeito, sabendo que vai morrer e virar um nada, apegue-se às suas recordações do passado – sempre do passado – e ficar feliz com isso, porque ele não está vivendo o passado, ele está vivendo o presente e está caminhando para a morte. Ora, como minhas recordações do passado podem me defender do sentimento da morte? Elas não podem fazer isso! Não há uma incongruência lógica, mas há uma incongruência existencial. Quer dizer: isso que o Epicuro fazia para alegrar as pessoas, a mim só me deprime. E acho que deprimia os outros também. Então, aquela felicidade do Epicuro só existe no nível do discurso, ela não existe como experiência real, porque se você tenta vivenciar aquela experiência, ela falha, ela não acontece. Suponha que chegue um sujeito gay para mim e diga que o Luiz Mott é uma pessoa muito desejável. Eu vou tentar vender o peixe pelo mesmo preço que comprei: vou tentar imaginar o Luiz Mott pelado etc. e ver se sinto alguma coisa. Mas isso não vai funcionar. Logo, não é possível que ele tenha vivenciado isso do jeito que diz, deve ter sido alguma coisa diferente. Ele fala em Luiz Mott, mas pensava em outra coisa ou então modificava a imagem dele. O mesmo ocorreu com o experimento interior de René Descartes, o experimento da dúvida metódica. Eu li e me deixei impregnar. Descartes assegura que o que ele está expondo nas Meditações de filosofia primeira não é uma teoria, mas o relato de uma experiência. Então, aceitei fazer a experiência. Só que na hora em que tentei imaginar as coisas como ele diz que imaginou, não funcionou. Aparecia outra coisa. Quanto mais eu tento colocar tudo em dúvida, mais aparecem coisas nas quais eu acredito. E não é só no meu pensamento em que acredito. Por exemplo, eu acredito piamente que estou no lugar em que estou. E quando começo a pensar que “penso, logo existo”, aí tem uma frase, um transcurso. Desde o “penso” até o “existo”, o “eu” continuou o mesmo. [02:20] Então não é o pensamento que confirma o “eu”, é o “eu” que confirma o pensamento. Digo isso porque tentei fazê-lo e assim se deu. Mas se eu tentasse ler Descartes e ficasse criticando tudo, não chegaria a nada. Então, você tem de absorver a coisa, deixar-se impregnar por ela e daí revivenciá-la. Vocês vão ver como isso funciona. É um negócio incrível! Quando leio algo e depois digo: “não é assim, não pode ser assim”, é porque refiz o caminho. Tente vivenciar aquilo que Kant diz: não vemos as coisas em si, mas apenas seus fenômenos. Não há um único fenômeno que apareça apenas como fenômeno. Não há uma única coisa que compareça diante de você só na sua aparência fenomênica. Se você tenta imaginar um pinico, você não pode dizer que o pinico é uma mera aparência fenomênica. E como é que eu sei disso? Eu tentei. Eu li o Kant e acreditei. Mas não é assim. Como é que é? Eu também não sei. Mas sei que assim também não é. Ou o que dizia David Hume: quando uma bola bate em outra bola, há apenas dois movimentos sucessivos, nenhuma causa. Mas onde terminou o primeiro movimento e onde começou o segundo? Isso ele não viu. O que ele você viu foi um movimento único, que depois decompôs mentalmente. Essa foi a experiência real: uma seqüência única. Eu não posso parar o movimento da primeira bola e começar o da segunda, porque é uma fração infinitesimal. Eu não posso captar isso com os meus olhos. Então, ao que ele diz que nós juntamos dois momentos e criamos em cima disso a idéia de causa, eu replico: não, é o contrário! Nós captamos um movimento único e o decompomos mentalmente em dois. E sei disso porque li Hume, levei aquilo a sério e tentei reproduzir a experiência. É assim que você tem de ler os livros de filosofia: como experimentos cognitivos profundos e sérios. Para isso você tem de dar ao autor a credibilidade que ele merece. David Hume estava completamente errado nisto, mas ele não era nenhum charlatão. Lendo os ensaios de David Hume sobre a história da Inglaterra percebe-se que aquele homem era maravilhoso. Mas neste ponto aí, me desculpe, mas não dá. No entanto, se o cara estiver com treta, a incongruência aparecerá de maneira mais esplendorosa ainda. Quando Nietzsche escreve aquele negócio: “por que sou tão inteligente?”, eu digo: “Não, você não é tão inteligente assim!” Ou quando Hobbes tenta reduzir tudo, todos os impulsos humanos a agressividade e medo, eu digo: “não dá para você fazer isso, a famosa guerra de todos contra todos.” Quantas vezes eu tentei, por mim mesmo, dominar o restante da humanidade? Essa idéia jamais me ocorreu. E dominar todas as pessoas do meu meio? Também nunca pensei nisso, nem por um único instante. E se eu não pensei por que devo supor que os outros pensaram? De vez em quando você pode tentar dominar uma pessoa. Por exemplo, se um sujeito quer bater em você, para você o contrário é preferível: que você bata nele. Às vezes isso funciona, às vezes não. Quando eu era moleque a gente brigava muito... às vezes você bate, às vezes você apanha. Mas eu sei que é preferível antes bater do que apanhar. Tem gente que acha o contrário. Então, se o sujeito quer o dominar, tente dominá-lo, mas só a ele. Ou seja, essa idéia de que todo mundo quer dominar todo mundo, isso nunca aconteceu! E se nunca aconteceu, por que vou supor que algum dia, antigamente, aconteceu para todos? “Antigamente todo mundo era assim, todo mundo era um Adolf Hitler em potencial!” Ora, nem Adolf Hitler tentou dominar todo mundo. Quando ele falava com Stalin, ficava bonzinho. E Stalin? Stalin era melhor psicólogo porque quando perguntaram ao Stalin o que move as pessoas ele respondeu: é o medo. Quando você se mete numa situação em que, de fato, está todo mundo querendo acabar com você e fica, portanto, morrendo de medo, espionando todo mundo e tentando controlar as pessoas, então aí você tem de dominar os outros para que eles não acabem dominando você. Mas essa não é a situação humana em geral. Ou você acha que o bebê pensa, em seu bercinho: “o papai e a mamãe querem acabar comigo... eu tenho que dominá-los!”. Não é possível isso! Então, essa psicologia do Hobbes está totalmente errada. Quando você faz essas experiências em profundidade e começa lendo as análises críticas que outros fizeram a respeito, aquilo tudo se preenche de sentido para você e fica muito mais fácil de entender. Mas se você tenta jogar só no nível das idéias, dos conceitos etc., isso é masturbação mental. Então, não discuta com o autor antes de ter certeza que você o leu. Mas você não pode ler o sujeito e impedir que ele te influencie. Isso aí não dá. Se você quiser influenciar o autor, então escreva você o livro e mande-o ler. Se foi ele quem escreveu, é ele quem vai te influenciar. Não há escapatória. Depois você pode vomitar tudo e sair mais limpo e mais forte do que antes, porque você adquiriu o contra-veneno. Por hoje é só. Até semana que vem! Muito obrigado. [03:27]como ele diz que tc. mprei: eu vou tentar imaginar 00000000000000000000000000000000000000000000000000 Transcrição: Eduardo Afonso de Aguiar, Eduardo Queiroz, Gilberto Edson, Luíza Monteiro de Castro, Mariana Belmonte, Ronald Pinheiro, José Manoel Domingues, Milton Nogueira Brando Neto, Revisão: Luíza Monteiro de Castro