Curso Online de Filosofia OLAVO DE CARVALHO Aula 10 13 de junho de 2009 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso de Filosofia Online. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. [COF2009061309] Olá, boa tarde a todos. Vamos começar mais uma aula. Prosseguindo ainda o tema da aquisição de cultura literária e filosófica que nós estávamos tratando nas outras aulas, eu queria hoje enfatizar duas coisas: Primeiro, em todo país, além da classe intelectual que está em exercício, existe uma opinião pública letrada — um certo círculo de pessoas que tem uma certa cultura histórica, literária, científica etc., e que podem receber e julgar os produtos dos novos escritores, filósofos etc. No Brasil isso não existe mais. Isso foi abolido. Há pelo menos quarenta anos isso desapareceu, não há um público letrado ao qual você possa se dirigir. E pior ainda, o topo, a parte superior deste público, que seria o círculo dos intelectuais propriamente dito, a rigor também não existe. O que existe é um grupo ativista militante que, através do processo conhecido como a revolução cultural gramsciana, foi ocupando espaços — este é um termo técnico deles — em todas as universidades, instituições de cultura etc., e que desempenham perante o público geral um papel que simula o da classe letrada. A classe letrada é o conjunto de pessoas que por ter cultura, por ter informação, está mais ou menos habilitada a separar o que faz sentido do que não faz sentido, e criar mediante essa seleção uma espécie de senso comum superior da sociedade. Como esta turma militante ocupou todos os espaços, hoje ela desempenha, perante o público, o papel dessa classe letrada superior. Só que ela não é letrada, ela não é preparada; aquilo é um bando de ignorantes. No entanto, para quem é mais inculto ainda do que eles, para o público em geral ou para o estudante que chega a uma universidade, esse círculo de indivíduos desempenha a autoridade que seria da classe letrada. Isso criou uma situação muito específica, muito peculiar, no Brasil: as opiniões desse grupo de ignorantes funcionam para a população como se fossem a própria expressão da cultura superior. Só que essa cultura superior não existe mais. Eu não estou brincando, não é uma maneira de dizer, não é um insulto, é uma descrição objetiva de um estado de coisas. Eu asseguro para vocês que, na USP, por exemplo, na parte de ciências humanas — que é a parte que eu acompanho; eu não acompanho o que está se passando na biologia, na física, na engenharia; mas na parte de filosofia e ciências humanas, a gente acompanha não só o que está acontecendo na USP, mas também o que acontece em outras universidades do país — não há um só professor com menos de sessenta anos que seja sequer alfabetizado. Eu asseguro isto para vocês. Eu nunca li um escrito de um desses sujeitos que não fosse abundante em erros de gramática primários, bocós, coisa de criança. Isso significa que toda esta ostentação de autoridade intelectual deles é toda falsa. Note que isso não aconteceu nunca em país nenhum. Aqui nos EUA realmente não acontece isso. O que você tem é a ocupação do espaço pelo pessoal esquerdista, mas esse pessoal esquerdista recebeu efetivamente alguma formação. Eles só se distinguem dos outros por serem esquerdistas; às vezes, por serem pessoas desonestas etc., mas nunca se pode dizer que são incultos. Isso não existe aqui, isso é impossível. Os livros que são usados para o ensino secundário na parte de línguas, literatura etc., por exemplo. Eu garanto que o ensino secundário aqui dá mais cultura para o sujeito do que ele pode adquirir na USP, ou na Unicamp, ou qualquer universidade brasileira. O aluno de ginásio dos EUA tem mais cultura do que os professores universitários brasileiros. Essa é uma verdade, é uma coisa que pode ser demonstrada objetivamente, cientificamente. O que está acontecendo no Brasil é que essa autoridade desempenhada por um círculo de farsantes, iletrados, semi-analfabetos, sobre outros que são mais analfabetos ainda, cria uma inibição mental, uma paralisia cultural, que é uma coisa catastrófica. E é dentro disso que vocês estão vivendo. Não se iludam. Por exemplo, quando essas pessoas, esses professores universitários, pretendem posar como se fossem os porta-vozes do que é a cultura superior não só no Brasil, como no mundo, eles estão enganando vocês, eles não têm cultura nenhuma. Essa semana eu pude verificar isso novamente quando, ao ler brevemente um artigo publicado na USP em defesa dos estudantes que fizeram aquele quebra-quebra lá — sob o título “A universidade não é caso de polícia”, assinado por um tal de Vladimir Safatle, professor de filosofia na USP. Eu fui verificar quem era o tal de Vladimir Safatle e qual era a produção intelectual dele. Havia uma lista de artigos acadêmicos, que aparece no Currículo Lattes, onde, infelizmente, ele colocava um link para cada um desses artigos, dando acesso à produção cerebral total dessa criatura. Eu li vários dos seus trabalhos acadêmicos e, se eu já estava espantado com o que ele dizia no artigo publicado na Folha de São Paulo, fiquei mais espantado ainda com a produção acadêmica do cidadão, onde o uso do vocabulário usual da Escola de Frankfurt somado a Jacques Lacan e mais meia-dúzia de outros dava um ar de refinamento intelectual para a coisa, coexistindo com erros de gramática brutais, e com primores de inconsciência e de incompreensão que seriam mais dignos de se encontrar em um ginasiano, em um adolescente. Não obstante, eu asseguro para vocês que o Vladimir Safatle é aquele onde eu encontrei menos erros de gramática — no artigo acadêmico que eu irei comentar devia ter apenas uns sete ou oito; em geral, a média é cinquenta, sessenta — e, por incrível que pareça, o sujeito não era totalmente incapaz, ele demonstrou alguma capacidade. Eu consideraria o Vladimir Safatle um sujeito qualificado para ser meu aluno, para sentar aí, ouvir e aprender comigo e se tornar gente. Pelo que a gente vê do trabalho dele tudo que esse sujeito leu foi aquele círculo de autores regulamentares que são praticamente obrigatórios para todos os intelectuais esquerdistas de hoje: Escola de Frankfurt, Michel Foucault, Jacques Lacan, e isso é tudo. Eu duvido que esse sujeito tenha lido, algum dia, alguma obra literária, porque o mau gosto com que ele escreve é uma coisa incrível. Não é possível que alguém que tenha lido Camões, Cervantes etc., depois escreva assim. Ele aprendeu a escrever com os seus mestres, e os seus mestres são esses; então basta aprender assimilar aquele vocabulário deles, aquele jargão deles e você parece estar falando uma coisa séria. Esse é o estilo padrão dos professores da USP, todos escrevem assim. Uns pior, outros melhor, mas é tudo assim. É uma coisa absolutamente impressionante essa exibição de miséria mental. Eu vou tomar aqui a liberdade de ler para vocês umas observações que eu fiz a respeito, e que eu pretendo publicar depois no Diário do Comércio. Como é um artigo longo que vai ter de ser subdividido, provavelmente ainda vai levar algum tempo para que chegue ao Diário do Comércio, mas eu quero que vocês tomem conhecimento disso antes. [00:10] Esta primeira parte da aula, essas coisas que eu estou explicando agora, são apenas para vocês tomarem consciência cada vez mais aprofundada da miséria cultural, moral e humana, dentro da qual vocês vivem, e da qual vocês vão ter de se libertar. Vocês vão ter de sair deste lamaçal, erguer-se acima dele, dominar a situação, não só intelectualmente, mas existencialmente — não permitir que essa porcaria toda os contamine, os deprima, os desencoraje, ou os corrompa. Esse ponto, no nosso curso, é mais importante até do que o aprendizado positivo do que nós estamos passando. O maior problema para vocês é o da constituição da personalidade moral e intelectual de cada um. Sem isso vocês não aguentarão, irão se corromper, vocês chegarão aos quarenta anos e estarão tão medíocres quanto essa gente. Isso se não realizarem o prodígio de se tornarem ainda piores do que eles logo em um ou dois anos, como aconteceu com vários alunos meus que passaram dois ou três meses no curso e saíram dando palpite por aí. Naquela época em que isso acontecia eu sempre avisava as pessoas: olha, eu não tenho alunos, eu só tenho público. Porque aluno é o sujeito que segue o seu ensinamento, aprende com você durante cinco, dez, quinze, vinte anos. Isso é normal em filosofia. Quando você pega um professor para aprender com ele, você vai segui-lo a vida inteira. E depois, você vai continuar o que ele fez em um nível maior, às vezes até contestando, corrigindo vários pontos dele. Isso é o aprendizado normal. Como Aristóteles, que segue Platão durante vinte anos e depois o corrige. Isso que é o normal em filosofia. O sujeito que assiste algumas aulas não é um aluno, ele é um público apenas. Vocês entraram neste curso na condição de alunos, efetivamente. Pelo menos é isso que se propõe a ser. Isso já os coloca em uma situação um pouco diferente das pessoas que assistiram aulas em outras épocas. Se bem que eu tenho alguns alunos que me acompanharam durante muito tempo; mas eles não tinham o compromisso formal que vocês têm, e isso vai fazer toda a diferença. Porque vocês têm um compromisso que não é comigo, mas com a sua própria formação. Vocês vão ter de atingir certos resultados intelectuais, existenciais e morais. Eu vou ler isso aqui para vocês apenas como amostra da situação: “Os exemplos da inversão psicótica de sujeito e objeto são tão abundantes na produção escrita dos intelectuais revolucionários, que a única dificuldade para encontrá-los é o embarrass de choix (a dificuldade de escolha). O caso que vou comentar aqui é interessante porque ilustra esse mecanismo em dois níveis ao mesmo tempo: na reação de um professor de filosofia aos acontecimentos imediatos e na sua análise de transformações sociais mais duráveis e profundas. Quando os alunos da USP, pela milésima vez, ocuparam o prédio da instituição, depredando o que podiam e intimidando seus colegas e professores para que interrompessem as aulas e aderissem ao quebra-quebra — ações que a profª. Olgária Matos, muito significativamente, definiu como “manifestação pacífica” —, o prof. Vladimir Safatle, da Faculdade de Filosofia, protestou contra a intervenção policial que pôs fim ao ataque, rotulando-a de “brutalidade securitária” e demonstrando que é normal entre os professores daquela escola não saber distinguir, na escolha do seu vocabulário, entre questões de segurança pública e a indústria de seguros.” Securitário não se refere à segurança pública, se refere à indústria de seguros. Como é que um professor de filosofia — um homem que já está com trinta e seis anos, ele não é uma criança — domina tão pouco o seu vocabulário a ponto de usar uma coisa dessas? Em uma redação escolar isso já não é admissível. Em um escrito de professor de filosofia que pretende opinar sobre questões públicas importantes e influenciar a opinião do povo, isso é o sinal de uma inépcia criminosa, porque é uma inépcia que ele não tem o direito de ter. O sujeito que posa como profissional qualificado de certa área e não tem a capacidade para aquilo é um charlatão, é um vigarista, e tem de ser expulso da profissão. Isso é muito importante. Ele não tem o direito. A profissão intelectual é uma profissão nobre, digna e muito exigente. Ninguém é obrigado a ser intelectual. Ser intelectual traz um certo prêmio social, certa respeitabilidade, certa posição. Às vezes não dá muito dinheiro, mas traz uma respeitabilidade e dá uma autoridade. Se alguém não está qualificado para isso e exerce essa autoridade, é um charlatão. O procedimento desse sujeito não é admissível. Eu não estou discutindo as idéias dele, não estou entrando na questão. Se vocês querem descobrir uma discussão sobre o quebra-quebra, leiam o artigo do Reinaldo Azevedo que está muito bom. Ele discute isso do ponto de vista político, ideológico etc. Não é disso que eu estou falando. Eu estou assegurando para vocês: o Vladimir Safatle não está qualificado para ensinar filosofia e para opinar sobre o que quer que seja. Eu vou demonstrar isso para vocês: “Depois dessa performance quase presidencial, ele ainda se julgou habilitado a avaliar o desempenho intelectual dos estudantes, jurando que não eram simples arruaceiros, mas alunos aplicados, empenhados em altas tarefas científicas. Tendo examinado alguns trabalhos acadêmicos da lavra do referido, cheguei à conclusão de que ele tem toda a razão ao qualificar de bons alunos os depredadores, pois sem a menor sombra de dúvida eles aprendem o que ele ensina. A título de amostra, examinemos o estudo “Certas Metamorfoses da Sedução: Destruição e Reconfiguração do Corpo na Publicidade Mundial dos Anos 90”, reproduzido no site do autor, http://www.geocities.com/vladimirsafatle, entre outras efusões do seu intelecto brilhante. Não é um trabalho de filosofia, mas de sociologia da publicidade, um ramo bem mais modesto de conhecimento. Sem exigir-lhe cobardemente algo que se assemelhe a uma filosofia, coisa que nenhum membro do seu departamento jamais teve e que é absolutamente dispensável em quem deseje ali posar como filósofo, vejamos como o professor se sai na análise de um fenômeno limitado e historicamente bem localizado. Ele começa por observar que, no período mencionado, a imagem do corpo humano nos anúncios publicitários mudou muito. Em vez do corpo como imagem estável e positiva da pessoa, apareciam agora duas novidades: de um lado, o corpo como entidade fluida e mutável, sujeita a toda sorte de alterações (piercings, pinturas extravagantes e até mutilações); de outro, o corpo como imagem da sua própria destruição — pessoas desalinhadas, mulheres pálidas com roupas sombrias, homens com aparência de doentes, de cocainômanos, de moribundos e até de cadáveres. Para dizer isso, ele leva mais de dez páginas, em estilo intragável, com razoável dose de erros de gramática e farto uso de uma terminologia pedante que deve lhe parecer muito científica — e olhem que Safatle é um dos homens mais inteligentes que já passaram por aquela subseção do Instituto Butantã. Mas o interessante vem quando ele passa a explicar as causas do fenômeno. Para ele, a destruição do corpo na publicidade reflete um astuto mecanismo da lógica do mercado que, vendo esgotado o potencial das imagens estereotipadas de beleza e integridade corporal usuais nos anos 60, decidiu incorporar os elementos de rebelião e inconformismo, de modo a neutralizá-los mediante “rupturas internas controladas” e colocá-los a serviço de “novos processos de mercantilização da negatividade”. Para chegar a essa conclusão, ele confessa que usou métodos lacanianos de investigação segundo os quais a imagem corporal de cada um é construída por introjeção de padrões estereotipados vindos do exterior, da maldita sociedade. “Isto significa fundamentalmente que a experiência de produzir uma imagem corporal é alienação de si no sentido de submissão da referência-a-si à referência-a-outro...” (frase maravilhosa na qual eu mesmo, fazendo-me de co-autor, tive de colocar a crase para que se tornasse relativamente inteligível). “Não há — prossegue Safatle — nada de próprio na imagem do corpo. Lacan dirá que o corpo próprio, na verdade, é corpo do Outro.” Quando a repetição das imagens corporais positivas [00:20] “transformou a publicidade em alvo maior da crítica à ideologia da sociedade de massa,... esta crítica foi logo assumida pela própria publicidade. Tratava-se de uma publicidade que ridicularizava a própria publicidade e certos aspectos da cultura de consumo”. Os dois elementos em jogo são aí a “cultura de massas” do “capitalismo tardio”, com sua estereotipagem positiva das imagens corporais, e a crítica cultural que se volta contra esses estereótipos com um radicalismo que, seguindo o exemplo de Lacan, não hesita em destruir a própria noção de imagem corporal pessoal, acusada de ser uma camuflagem da dominação psíquica imposta pelo Outro ao infeliz portador da imagem. Dessa oposição resulta, segundo Safatle, a síntese que nos anos 90 absorve e instrumentaliza a destruição do corpo, transformando o que era inicialmente crítica cultural em “novos processos de mercantilização”. Essa análise pode funcionar como exemplo daquilo que, na USP, passa como alta manifestação de inteligência e até como “trabalho científico”. Note que o pessoal constrói o seu Currículo Lattes publicando coisas como essa e daí diz: “está aqui o meu currículo científico.” “Mas vejamos como a coisa funciona realmente. Os conceitos lacanianos usados na análise já são, por si, exemplos claros de inversão psicótica. Dizer que a imagem do eu se forma por introjeção de padrões exteriores e daí concluir que isso configura uma “alienação” é obviamente autocontraditório. Se a imagem do eu não existe antes da introjeção, não há nada que esta possa “alienar”. Ou a introjeção dos padrões exteriores é a própria origem da imagem, ou é a sua alienação: as duas coisas ao mesmo tempo ela não pode ser de maneira alguma, a não ser na hipótese de que exista um eu substancial metafísico anterior à sua própria construção como auto-imagem — hipótese que todo materialista (como Lacan e Safatle) tem de rejeitar in limine. Partindo do princípio de que a imagem corporal é alienação, a única coisa decente que resta a fazer é destruí-la, evidentemente. Pode-se fazer isso com piercings, mutilações, ou com ataques lacanianos à sociedade malvada que impingiu ao sujeito aquilo que, no seu isolamento de menino-lobo, ele não poderia adquirir de maneira alguma: um eu, com sua devida imagem corporal. Para que da destruição da imagem estereotipada pudesse surgir um “verdadeiro eu”, seria preciso que este existisse antes e independentemente da introjeção, com o que voltamos à hipótese metafísica lacanianamente inaceitável. Mas, se a destruição não visa a desenterrar da massa dos estereótipos um impossível “eu autêntico”, então é claro que a destruição só tem como objetivo a própria destruição — um mecanismo que Hegel já previra com muita antecedência (há um artigo meu, “Uma lição de Hegel” que explica tudo isso. Disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/081114dc.html). No legado da escola de Frankfurt, mais ainda quando enfeitado de lacanismo, a destruição é, com efeito, a única ocupação decente a que, no inferno geral do “capitalismo tardio”, se podem entregar as pessoas boas e inteligentes como o prof. Vladimir Safatle e seus aplicados alunos da USP. O que o professor não suporta é que tão boas intenções tenham sido maquiavelicamente absorvidas e instrumentalizadas pelo “capitalismo tardio” e transformadas em meios de incentivar o consumo, aumentar a produção e espalhar riquezas. Isso é mesmo um insulto intolerável. Deixando de lado agora a referência lacaniana e examinando a contribuição pessoal do prof. Safatle ao entendimento dessas pérfidas astúcias do “capitalismo tardio” (expressão que por si já denota uma inversão milenarista da percepção do tempo, como expliquei no artigo “A História segundo Godot” disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/030816globo.htm), observo, desde logo, que não é metodologicamente admissível atribuir ações de transformação social a entidades genéricas abstratas sem ter na mínima conta os agentes individuais e grupais concretos envolvidos no processo. O autor da transformação assinalada pelo prof. Safatle não é “o capitalismo tardio”, mas sim a classe publicitária. Foram publicitários — e não uma assembléia de acionistas, muito menos o “espírito do capitalismo” — que escolheram as novas imagens de gente com cara chupada, olheiras e barba por fazer que se substituíram aos saudáveis papais e mamães e às beldades esfuziantes dos anúncios dos anos 60. Para saber por que um grupo social fez isto ou aquilo, é preciso investigar suas idéias e crenças dominantes. Por que os publicitários mudaram assim o teor das imagens? Que tipo de idéias esses profissionais adquiriram nas faculdades de comunicações? Teriam sido suas mentalidades moldadas segundo a lógica dos “novos processos de mercantilização” ou segundo os cânones da crítica cultural e da destruição lacaniana do corpo? Emergiram eles dos bancos escolares imbuídos da “lógica do lucro” ou do ódio revolucionário à sociedade, à cultura, a tudo quanto existe? O prof. Safatle deveria conhecer melhor seus próprios alunos. Se há uma coisa óbvia neste mundo é que poucas classes odeiam o capitalismo tanto quanto o proletariado elegante da indústria cultural. Então, das duas uma: ou esses infelizes foram obrigados por astutos patrões a abdicar da pureza da sua crítica e a transformá-la em instrumento de dominação capitalista, ou, ao contrário, a mudança assinalada pelo prof. Safatle reflete exatamente o oposto do que ele diz — em vez de uma astúcia capitalista que instrumentaliza a destruição, é a destruição que se apodera dos instrumentos da cultura de massas para impor-se como padrão dominante a toda sociedade existente. Aqui observa-se o mesmo fenômeno de delírio autoprojetivo que já assinalei em Pierre Bourdieu (v. “Um guru da educação brasileira”, Diário do Comércio, disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/090204dc.html e sua continuação em http://www.olavodecarvalho.org/semana/090212dc.html): para que os capitalistas dominassem hegemonicamente a crítica cultural ao ponto de poder neutralizá-la por uma estratégia como a sugerida pelo prof. Safatle, seria preciso que, em cima da classe dos revoltados produtores culturais, houvesse uma outra classe intelectual mais esperta ainda que, a serviço do capitalismo, escravizasse sutilmente essas pobres vítimas, obrigando-as a trabalhar pelo contrário do que desejam, fomentando a economia em vez da destruição. Para que isso fosse possível, seria necessário que esta classe de super-intelectuais tomasse a totalidade da crítica cultural como objeto de análise, produzindo uma bibliografia científica pelo menos tão vasta quanto ela mesma, acrescida de complexos planos estratégicos para o seu aproveitamento inverso. Em vão o prof. Safatle procurará na bibliografia acadêmica ou em qualquer outra parte do universo os sinais de estudos dessa natureza. Essa coisa simplesmente não existe.” Vocês podem procurar. Encontrem algum trabalho que diz: “existe aí uma crítica cultural desenvolvida pelo pessoal da esquerda, mas nós podemos pegá-la e instrumentalizá-la e transformá-la em instrumento de lucro para nós, de maneira que nós vamos neutralizar esses camaradas.” Podem procurar estudos dessa natureza; não existem. Pode ser que alguém tenha tido essa idéia, então tem um escrito, dois... mas como é que você pode pegar uma tradição universitária inteira — que é a que vem da crítica cultural da Escola de Frankfurt até Lacan, Foucault etc. — e absorvê-la dentro de uma estratégia sem que para isso você faça estudos, análises, planejamentos estratégicos, crie o pessoal qualificado para fazer a operação? Nada disso existe. “O que existe, sim, é uma biblioteca mastodôntica de “estudos culturais” com ataques furibundos à cultura do capitalismo (essa é a bibliografia abundante). Então, das duas uma: ou o gênio maligno do capitalismo produziu toda essa estratégia e a colocou em ação de maneira totalmente imaterial e invisível, por meios telepáticos, sem precisar de estudos, de análises, de planejamentos estratégicos ou de qualquer outro recurso usual nas ações humanas, ou então o fenômeno de mercantilização da revolta tal como o prof. Safatle o descreve simplesmente não aconteceu. O que aconteceu, em vez disso, foi que milhares ou milhões de estudantes universitários intoxicados de crítica cultural, de frankfurtismo e de lacanismo saíram da faculdade, ocuparam todos os postos altos e baixos da indústria publicitária e aí injetaram sua ideologia da destruição. O próprio prof. Safatle, embora não seja profissionalmente um publicitário, é um estudioso da área e portanto faz parte dessa classe. Ele mesmo foi um dos agentes do processo. Não é a imagem do corpo que é sempre dos outros: é a culpa pelas ações dos intelectuais enragés. A pretensa análise que o prof. Safatle faz das transformações da publicidade é um exemplo claro de paralaxe cognitiva — deslocamento entre o eixo da construção teórica [00:30] e o eixo da experiência real — levada ao extremo da inversão total de sujeito e objeto, na qual uma classe agente e militante atribui suas próprias ações mais óbvias à autoria da entidade genérica e abstrata que ela imagina combater: o “capitalismo tardio”.” Ou seja, tudo aquilo que nós fizemos contra o “capitalismo tardio”, não fomos nós que fizemos, foi o “capitalismo tardio” que nos obrigou a fazer para ganhar dinheiro em cima de nós. “Como é exatamente a prática reiterada e obsessiva dessa inversão que o prof. Safatle ensina a seus alunos na USP, não espanta que, quando eles se põem a quebrar tudo e a atemorizar seus colegas, ele os veja como empenhados na mais alta e nobre das ocupações humanas, sem declarar — já que está escrevendo para um público de fora do grêmio — que essa ocupação é simplesmente a destruição. Quem quer que tente impedi-los de fazer isso é um agente da opressão capitalista, com o agravante de nem mesmo praticá-la com a astúcia maquiavélica dos instrumentalizadores da crítica cultural, mas sim com abominável “brutalidade securitária”. O que os professores de filosofia e ciências humanas fazem na USP é simplesmente moldar as cabeças dos alunos segundo o padrão da sua própria alienação da realidade, do próprio divórcio entre suas pomposas idéias e sua existência concreta de sujeitos agentes. Eles não sabem o que fazem, e ensinam seus alunos a ignorá-lo também. Que por isso recebam dinheiro público e ainda acreditem ser merecedores de alta consideração, não é de maneira alguma uma conduta respeitável: é uma sem-vergonhice patética.” Pessoas com essas cabeças dominam todo o panorama cultural brasileiro e, portanto, dominam a formação da mentalidade. E elas exercem nessa sociedade a mesma função que a opinião letrada normal desempenha em outra sociedade. Então, por exemplo, a opinião letrada tem de ser capacitada para saber se uma determinada opinião que entrou em circulação é uma coisa razoável, admissível, que pode ser discutida, ou é apenas uma extravagância, uma aberração. Note bem que, na estratégia do Antonio Gramsci, existe um uso muito específico do termo “aberração”; quer dizer, qualquer coisa que saia do tipo de diálogo fechado e limitado a que eles estão acostumados é declarada aberração. O povo que está ouvindo a conversa não sabe que o termo “aberração” aí está sendo usado como, vamos dizer, um termo técnico gramsciano, e pensa que é uma aberração porque sai da normalidade da cultura humana, a qual não existe mais ali. O que está acontecendo é um impedimento efetivo ao desenvolvimento da inteligência, à criação de uma classe letrada séria. Isto é uma usurpação, em que um círculo relativamente pequeno — eu creio que são umas dez mil pessoas no máximo — se apoderam dos meios de cultura, dos meios de ensino, e reduzem todo mundo ao seu próprio nível de inépcia e, como eles agora representam a classe letrada, eles desfrutam da mesma autoridade que uma classe letrada normal teria em outras circunstâncias. Ou seja, é uma farsa doente, é uma coisa mórbida. Isso não pode continuar. Nós não podemos mais aceitar que essas pessoas posem dessa maneira. Nós temos de tirar essa gente da profissão intelectual e transformá-los em trabalhadores, mandar esses camaradas trabalhar. Dizer, por exemplo: “Vladimir Safatle, você não tem qualificação intelectual para ser professor de nenhuma Universidade. Você, no máximo, pode ser professor de geografia no ginásio, ou professor primário. Isso é o máximo que você pode fazer”. O certo seria sair da profissão intelectual totalmente. O sujeito, por exemplo, está lendo Lacan, e ele lê aquela coisa: “olha, a imagem corporal que você tem foi imposta a você pela introjeção de estereótipos sociais”. Aí eu digo, muito bem, então isso quer dizer que o meu “eu” foi criado por essa introjeção. Eu não teria um “eu”; quer dizer, se eu vivesse sozinho, um menino lobo criado por lobos ou orangotangos eu não teria esta imagem corporal, eu não teria este “eu”, e o “eu” surge então inteiramente dessa introjeção. Mas se é a introjeção que gera o eu, como é que ela pode aliená-lo ao mesmo tempo? Alienar é tirar uma coisa que é sua e passar para o outro. Mas se você não tinha nenhum eu antes, como é que pode o próprio mecanismo que está gerando o seu eu ser alienação? Se dissesse assim: você nasce com um eu substancial metafísico, o eu que você tem perante Deus. É a sua verdadeira identidade eterna. E vem a sociedade e veste em você um camisa de força, e te obriga a ser uma outra coisa. Põe lá uma falsa imagem. Aí sim seria uma alienação. Mas se não há nenhum eu substancial e o único eu que você tem deriva da introjeção, então não pode ser alienação de maneira alguma. Isso é uma coisa que o bom leitor tem de perceber imediatamente, sem precisar pensar. Agora, esse sujeito leu isso, utiliza isso, repete isso, aplica isso na análise de fenômenos, e não percebe o que está fazendo — ele não tem capacidade de leitura, ele não entende o que lê! Então é um analfabeto funcional. Todos os professores de ciências humanas da USP são assim. Praticamente todos. Pode ter alguma exceção, uma ou outra. Mas aqueles que costumam opinar, esses camaradas que escrevem na Folha de São Paulo — todos os professores da USP escrevem na Folha de São Paulo, e a Folha de São Paulo é o house organ da USP —, são todos assim. Não se trata de um problema político. As posições políticas deles não são o problema, elas são os sintomas secundários de uma inépcia profunda e de um divórcio entre pensamento e realidade. São pessoas literalmente inconscientes de si; elas não se conhecem a si próprias como agentes humanos e como grupos. Elas não sabem o que estão fazendo. Tudo o que elas fazem é uma ocultação. É um jogo de prestidigitação para não ver o que estão fazendo. Tudo isso é um sintoma psicopatológico. Só que é uma psicopatologia social. Agora, deixar o destino de um país na mão dessa gente é um crime, isso não pode acontecer. Só que é o seguinte: nós não temos força para tirar esses camaradas de lá. O que nós podemos fazer é exatamente o que estamos fazendo neste curso: nós vamos pular fora dessa contaminação; nós não queremos conversa com essa gente. Nós não os julgamos qualificados, e não queremos saber a opinião deles. Quando as examinamos é exatamente como o laboratorista examina o cocô. Nós não queremos saber nada disso, e nós vamos adquirir outra formação baseada numa seleta de modelos tirados de outras culturas, de outras épocas, onde houve uma cultura superior de verdade. Nós, como estamos no Brasil, e nós não temos nada — e o pouco que tínhamos nos foi tomado — de certo modo temos uma vantagem, porque podemos olhar para o universo inteiro e buscar ali o melhor. Fazer como recomenda São Paulo apóstolo: “experimentai de tudo e ficai com o que é bom”. Eu passei minha vida fazendo isto: coletando estes modelos de educação, estas várias estratégias de educação superior, e fazendo um arranjo que era proporcional às minhas próprias necessidades, à minha própria auto-educação. E, após ter feito isso durante quarenta anos, hoje eu posso repassar isso vocês e assegurar que funciona. Ora, vocês sabem perfeitamente como é o debate cultural entre eu e esse pessoal universitário. Você chega para eles e menciona o Olavo de Carvalho e eles falam: “Olavo de Carvalho, Ah! Ah!” Então você pergunta: “por que Ah! Ah!? O que você tem de superior a ele? Por que você não vai lá e o enfrenta num debate?” “Ah! Ah!” [O que acontece aí] é o seguinte: o sujeito está aterrorizado; não chega perto de mim por nada deste mundo, nem por dinheiro, e fica lá longe se fazendo de superior. É claro que isto daí é fingimento, é arrogância infantil. [0:40] Então, como é que eu posso levar a sério pessoas cujo confronto intelectual comigo consiste nesse fingimento de criança, nessa coisa pueril de fingir, com risadinha, que são superiores a um cara que não enfrentariam por nada deste mundo. Isso é mesma coisa que chegar para mim e dizer: “olha, o Mike Tyson está te desafiando para uma briga”; e eu digo: “o Mike Tyson? Ah!, Ah!” E vou embora para minha casa e fico a uma saudável distância do Mike Tyson. É o que esse pessoal faz. Como é que vocês podem levar a sério essa gente? Outro dia me telefona um aluno dizendo: “Ah, mas se eu falo de você eles fazem assim.” Eu lhe pergunto: como é que você se coloca sob o julgamento dessas pessoas? Dessas formiguinhas, desses mosquitinhos? Porque todos eles, os melhores dentre eles, que já pertencem a uma outra geração e que vieram me enfrentar, se saíram todos muito mal. Os discípulos deles, que agora são os professores, morrem de medo de mim. Então eles fazem umas risadinhas, ou soltam duas ou três frases feitas, e mais não dizem nem lhes é perguntado. Como é que vocês não percebem que esse pessoal está fingindo, que isso é tudo uma afetação de superioridade à distância? Mais ainda, por que vocês querem agradar a essas pessoas? Se você está freqüentando uma universidade, e seus professores são assim, não tente agradá-los de maneira alguma. É mais fácil intimidá-los. Quando o sujeito fizer assim, diga: “olha, você está dizendo isto porque você não é capaz de enfrentar o Olavo de Carvalho. Ele sabe cem vezes mais que você e você morre de medo de chegar perto dele, então não venha me enganar.” Se você disser isso, o sujeito vai enfiar o rabo entre as pernas e vai te respeitar pelo resto do curso. Agora, se você cede, ele vai pisar em você, vai de humilhar, e pode realmente destruir sua carreira. Nunca ceda perante isso, porque ceder perante esta situação não é uma atitude estratégica puramente exterior. Isso tem um efeito dentro de você. Isto vai enfraquecê-lo e torná-lo mais covarde, mais inepto, e vai destruir a sua inteligência. A inteligência humana tem um caráter sistêmico; quer dizer, a inteligência não é uma função especializada. Ela é uma espécie de condensado de toda a sua experiência, de toda a sua personalidade; ela é a parte superior de sua personalidade, a parte superior que unifica tudo. Portanto, você não pode isolar pedaços onde a sua inteligência não entra. Se você diz: “olha, este pedaço da minha vida não vai ser conduzido pela minha inteligência, mas pelo medo que eu tenho do meu professor.” Você acabou de ficar lesado. Se você quer manter a sua inteligência você vai ter de aprender em primeiro lugar a sinceridade. A inteligência é a capacidade de perceber a verdade. E você não pode perceber a verdade nas altas idéias se você tampa a verdade da sua própria existência. Isso é impossível, gente. Olha, o que falta para os Saflates, Gianottis, Chauis é isto aqui: eles não perceberam a ligação essencial que existe entre inteligência e sinceridade. Se o sujeito não diz a verdade para si mesmo, ele está destruindo a sua inteligência. Dentro dessa perspectiva, é preciso ver que a atividade de leitura e de aquisição de conhecimento a que você pode se dedicar será totalmente inútil se tudo isso que você está supostamente aprendendo não for incorporado, não na sua memória, mas na sua pessoa. É preciso que cada frase que você leia seja incorporada ao ponto de se transformar num novo mecanismo de percepção que você adquiriu. Cada frase. Então eu vou sugerir um exercício, que vai levar muito tempo e que nós não vamos nem poder corrigir aqui porque ele vai levar provavelmente toda a extensão do nosso curso, mas que é uma coisa que vai marcar você para o resto de sua vida. Isso vai mudar a sua vida. Você vai pegar um livro de filosofia qualquer, da sua escolha, de preferência um livro que lhe faça bem. Eu lhe sugiro algum do Louis Lavelle. Louis Lavelle é o unido filósofo do mundo, além de Aristóteles, do qual eu me considero um discípulo. Com os outros eu aprendi muitas coisas, mas um discipulado, sobretudo no sentido de que para mim é muito difícil discordar de qualquer coisa que Louis Lavelle diga, muito difícil — mais difícil até que discordar de Aristóteles. O homem costuma ter razão. Por mais que você vire, vire, vire e mexa, mexa, mexa, você diz: “é isto aqui mesmo.” E você vai prometer para mim que você não vai ler mais de duas ou três frases daquilo por dia. Só que você vai ler cada frase e você vai transformá-la em objeto de meditação. O que que é meditação? Meditação significa um confronto aprofundado com o que está sendo dito; confronto aprofundado que deve levar você a reconhecer na sua própria experiência interior exatamente do que que o autor está falando. Para você fazer isto você vai ter que puxar elementos de memória, de imaginação, de associação de idéias, e tudo o que você tiver. E você não vai se satisfazer enquanto aquela frase, que lhe chegou como idéia, não tiver se transformado em percepção. É como se você tivesse lido num dicionário uma definição de vaca e depois tivesse saído procurando uma vaca; e a hora que você reconheceu as vacas e as observou por muito tempo, então o seu conhecimento de vaca já não é mais aquele enunciado verbal, é experiência real que você teve das vacas. É isso que você vai fazer, tem de fazer, com cada frase do livro. Esse livro você vai levar anos para ler. Mas é o seguinte: se ficar interessante e você quiser passar adiante e continuar lendo, não faça isso. Você vai ler algumas frases, um parágrafo, onde tem alguma unidade. Faça esta experiência com o primeiro parágrafo que você escolher. Quando passar para o segundo, você vai ter de fazer isto duplamente, porque tem a mesma absorção imaginativa existencial do que está dito ali e ainda tem a continuidade do que vem antes. Quando terminar esse exercício, você, evidentemente, saberá o livro de cor, não com as palavras, mas com a seqüência exata das idéias, porque elas já não serão mais idéias, serão recordações e percepções. Isso quer dizer, que cada conceito abstrato que tiver ali, você vai ter de transformar em exemplos concretos vivenciados e reais. Eu vou lhes dar um exemplo de como se faz isso. Eu vou pegar exatamente um do livro do Louis Lavelle, que se chama A Presença Total (La Présence Totale). É um livro particularmente útil por ser um resumo. A grande obra do Louis Lavelle é um trabalho em quatro volumes que se chama Dialética do Eterno Presente (La Dialectique de L’Éternel présent) e como o livro estava muito comprido, ele fez este resumo. Este aqui é o primeiro volume da série De L’Ètre (Do Ser). A Presença Total às vezes é menos clara do que a obra maior. Já dizia Horácio que a brevidade se opõe à clareza: para explicar a coisa nos seus mínimos detalhes, você tem de botar os mínimos detalhes; então daí fica maior. Por isso mesmo, é um livro propício para esse tipo de exercício, por ele ser muito compactado. Eu vou ler aqui o primeiro parágrafo do livro, saltando aqui a introdução — você não vai saltar a introdução coisa nenhuma; eu vou saltar só para efeito da presente aula — o primeiro parágrafo é o seguinte: “Há uma experiência [0:50] inicial, que está implícita em todas as outras, e que dá a cada uma delas a sua gravidade e a sua profundidade: é a experiência da presença do ser. Reconhecer essa presença, é reconhecer, no mesmo ato, a participação do eu no ser.” Eu vou ler de novo: “Há uma experiência inicial que está implícita em todas as outras e que dá à cada uma delas a sua gravidade e a sua profundidade. É a experiência da presença do ser. Reconhecer essa presença é reconhecer no mesmo ato a participação do eu no ser.” O que é que você vai fazer com esse parágrafo? Ele está dizendo o seguinte: primeiro, que há uma experiência inicial. Inicial quer dizer que ela é anterior a todas as outras. E segundo, que é esta experiência que dá às outras experiências possíveis a sua gravidade e a sua profundidade. Ou seja, as outras experiências têm alguma importância por causa desta. Que experiência é essa? É o que ele chama “a presença do ser” . O que é o ser? É tudo quanto existe. Como é que você pode meditar isto aqui? Eu sugiro o seguinte exercício. Você fecha os olhos e tente imaginar que não há nada, tente suprimir toda a referência a qualquer coisa existente. Tente suprimir a presença do ser. Faça isso mil vezes, para você entender do que ele está falando. Ou seja, você jamais teve a experiência do nada. Mas você tem de tentar isso aqui, se você não tentar vai ficar tudo no blá blá blá. O que eu estou sugerindo é que você transforme uma seqüência de afirmações genéricas e abstratas em experiência concreta e pessoal. Você não vai discutir com o autor, você não vai querer saber se ele está certo ou errado, você vai incorporar isso aqui como se fosse uma idéia que lhe ocorreu — como se não fosse uma coisa que você leu em Louis Lavelle, mas como se fosse uma coisa que você pensou. E em seguida você voltar àquilo não para discutir, não para analisar logicamente, mas para buscar o equivalente experiencial do que ali está colocado como conceito abstrato. Então você vai fazer a experiência. Essa experiência vai tomar duas direções ao mesmo tempo: primeiro você vai tentar suprimir o ser; é claro que você não vai conseguir mas você tem de experimentar. Você vai ver que se suprimir imaginariamente tudo, tudo, tudo, ainda sobra muita coisa. Sobra, por exemplo, a sua respiração — você não vai parar de respirar enquanto faz esta experiência. Quer dizer, não é só o “penso, logo existo” do Descartes, há muita coisa além do pensamento que sobra, você não consegue suprimir sobretudo a sua própria presença, que é a segunda etapa do nosso exercício: tente imaginar que você não existe. Faça uma força. Muito bem, depois de você ter feito isso mais algum tempo, partimos para outra direção do exercício. Você tentou suprimir o ser, agora você vai tentar perceber conscientemente a presença do ser. A presença do ser é tão óbvia que você nunca pensa nela. Você simplesmente a admite, mas admite de passagem e de tal modo que o seu raciocínio às vezes desmente a presença do ser. Na hora em que o seu raciocínio desmente a presença do ser, por exemplo na hora em que você duvida da existência, o que você está fazendo? Você está rompendo a ligação entre pensamento e experiência, você está mentindo, está aprendendo a mentir. Os pensamentos só valem alguma coisa quando vem para dentro deles o conjunto da experiência real imediata que você não pode negar. Claro, tem coisas que podem sumir da sua memória, mas elas se elas sumirem da sua memória não quer dizer que elas sumiram da existência, você sabe que elas estão lá. Quando você esquece de alguma coisa, por exemplo: “onde deixei a chave do carro?” Você só pode fazer essa pergunta porque sabe que a chave do carro existe. Ela não está acessível a você, ela não é objeto de experiência imediata, mas ela faz parte do mundo da experiência. Então, na hora em que você procura uma coisa que não sabe onde deixou, você está admitindo uma situação temporária de divisão pela qual está atravessando. Uma parte do real está parecendo irreal, mas você sabe que é real. Para você fazer essa segunda experiência, eu sugiro um exercício que aprendi num livro do Narciso Irala — psicólogo e padre jesuíta — que chama-se Controle Cerebral e Emocional. Ele dá esse exercício, como muitos outros, para o bem da sua saúde mental. Mas o que nós estamos visando aqui não é bem da nossa saúde mental, ou pelo menos não é só isso, é outra coisa. Eu estou usando esse exercício com uma finalidade que não é a do Narciso Irala, mas lhe trará de qualquer maneira também o proveito que o Narciso Irala sugere. Esse exercício é de você deitar, relaxar, fechar os olhos e tentar perceber conscientemente todos os ruídos em torno — ruídos próximos e ruídos distantes. E aí você verá como há uma infinidade de ruídos que você não estava percebendo conscientemente, mas também não pode-se dizer que você não percebia de maneira alguma, pois você os percebia no fundo. Ou seja, não eram ruídos importantes para a sua ação imediata, eles constituíam o fundo da sua ação imediata. Existe o cenário próximo onde você está agindo e existe, vamos dizer, o ambiente em torno que se prolonga como uma série de círculos concêntricos, de modo que os ruídos vão se tornando cada vez mais imperceptíveis, mas eles estão lá. Você não vai pensar, você não vai analisar, você não vai fazer nada, você vai fazer apenas a coleção dos ruídos. Você vai reparar: “Ah! tem um ruído do ar condicionado!; Ah! Tem uma buzina lá longe!; Ah! Tem um cachorro latindo!; Ah! Tem um passarinho piando!” Os mais mínimos ruídos. Esse exercício é somente de percepção passiva, você vai só perceber aquilo que já estava percebendo no fundo. Simplesmente, aquilo que estava no fundo você vai trazer para frente. Não é para pensar nada, é só para perceber. Em seguida, você vai fazer um segundo exercício. Você novamente vai fechar os olhos e imaginar um fundo preto. [1:00] Nesse fundo preto você vai traçar, da esquerda para a direita, uma linha branca, mais ou menos deste tamanho. E daí, da ponta direita da linha branca, você vai traçar um ângulo reto, e traçar outra linha branca perpendicular àquela e do mesmo tamanho daquela. Deste ponto aqui você traçar uma terceira perpendicular, terceira linha branca também do mesmo tamanho, e da ponta desta você vai puxar uma outra linha branca e fechar um quadrado. O primeiro exercício é de percepção, o segundo exercício é de construção mental. Os ruídos estavam presentes, o quadrado não estava presente, foi você que pôs, você o inventou, você o construiu. A atividade construtiva da mente é evidentemente muito importante, porque existem muitas coisas que estão para além do nosso círculo de experiência imediata, e que sem essa atividade construtiva nós não poderíamos conceber. Porém, quando ela começa a se exercer prematuramente, antes de você ter desenvolvido a consciência de percepção, ao ponto de você poder incorporar a presença do ser como um dado constante e consciente, o que acontece? Você substitui o mundo das suas idéias pelo mundo da realidade — como faz Vladimir Safatle. Isso é uma doença. O mundo do pensamento sem dúvida é interessante, e pode ser até bastante rico. Mas cá entre nós, nunca poderá haver tantas coisas nele quanto existe no universo real. O mundo do pensamento comparado ao universo real [não é nada]; ora, o mundo do pensamento de Aristóteles comparado com o universo real é uma titica de galinha, é um nada. Então, antes de poder aprender alguma coisa com Aristóteles, ou quem quer seja, nós temos de começar a aprender com o universo real. E o universo real é matéria de percepção. Só que, preste bem atenção. Quando você fizer esse exercício, você vai ver que os ruídos mais distantes depois... esses círculos vão se afastando até que chega uma hora em que você chega ao inaudível. Mas preste atenção que, durante todo esse exercício, você sempre soube que os ruídos saem de algum lugar — que o som de buzina sai de um carro, que o latido sai de um cachorro, o piado sai de um passarinho, o ruído da máquina de ar condicionado sai da máquina de ar condicionado. Ou seja, você não percebeu só os ruídos, você percebeu presenças. Você não precisou pensar para saber que o latido vem de um cachorro, você está percebendo isso aí. Você tem à sua volta um círculo de presenças ao qual você não presta atenção, mas do qual você está de certo modo consciente. Por que? Porque aquilo assinala onde você está, o que você está fazendo agora e onde você está fazendo. Essa referência está permanentemente presente. Não há ninguém, ninguém, ninguém que aja no vazio. E essa percepção de presença contém também a percepção de inúmeras presenças latentes que você não pode captar agora, mas que você sabe que estão lá. Por exemplo: se todas as criaturas estavam emitindo barulho, é porque elas estão em algum lugar do espaço. E você sabe disso, não é uma conclusão que você tira. Na hora em que você percebe que um ruído está longe, o longe não é um ruído, é uma referência espacial. Como é que você poderia distinguir entre os vários ruídos mais próximos e mais distantes se não estivesse implícita a presença do espaço? Então, esse é também mais um elemento consciente. Portanto, depois de você ter feito o exercício do Narciso Irala — a percepção dos ruídos —, mais tarde eu vou lhes dar outros exercícios, como a presença do universo. Mais tarde; por enquanto vá fazendo só o do Narciso Irala. São exercícios que puxam a presença do fundo para frente e a incorporam na sua pessoa. Ora, normalmente nós não fazemos isso, nós prestamos atenção só naquilo que nos interessa. Mas quem escolheu o que lhe interessa? Foi você mesmo. Portanto, escolher o que lhe interessa é uma atividade construtiva da mente. A sua mente separa um pedaço para prestar atenção só naquilo. Por exemplo, você está lá comendo um pedaço de bolo, então certamente você não está pensando em outra coisa. No máximo você está pensando em duas coisas: você está comendo um pedaço de bolo e conversando sobre futebol. Você está prestando atenção em duas coisas. Você é capaz de imaginar um universo que se compusesse tão apenas de bolo e futebol? Não, isso não existe evidentemente. Isso só existe mentalmente, quer dizer, o seu círculo de atenção recortou aquilo, mas o bolo, o assunto da conversa e as pessoas com quem você está conversando, tudo isso existe num universo que está presente. Esse exercício de você trazer do fundo para si o universo é a garantia de que seus pensamentos não vão fugir muito da realidade. É a garantia de que seus exercícios, as suas atividades de construção mental, não construirão uma jaula para prender você dentro e isolá-lo da realidade. Ou seja, você não vai cair num estado de alienação de um Vladimir Safatle ou de qualquer desses outros uspianos — que se isola da realidade, ao ponto de quando ele está lendo, ele chega no fim do parágrafo já perdeu o começo. Isso é exatamente o que acontece no parágrafo do Lacan que o homem leu aí: “A introjeção cria o eu, portanto é alienação”. Epa!! Hã, hã, hã! Que eu!? Se ela criou o eu, ela não tinha o eu para ela alienar antes. Note bem, a gente não percebe essas coisas analisando os textos, essa percepção é imediata. Ao criar o senso de presença do ser, você cria o senso de continuidade. Porque a nossa mente, a nossa memória é toda picotadinha, ela não te dá as coisas de maneira contínua; elas são contínuas na realidade. Por exemplo, se você conta a sua vida, você não vai contar tudo que se passou, você vai contar só aqueles pedaços que lhe parecerem interessantes. Mas, e no intervalo? Você cessou de existir? Você foi abduzido? Não! Você continua existindo. E essa continuidade da sua existência é a base em cima da qual você opera as seleções. Agora, se você confunde as seleções com a própria realidade, você realmente fugiu da realidade. Então, aquilo que você presta atenção, que você recorta como objeto da sua atenção, só vale quando está colocado no fundo permanente daquilo no qual você não presta atenção. Do mesmo modo que hoje se fala tanto de comunicação não verbal. Mas é claro que existe comunicação não-verbal, porque quando você diz alguma coisa, para dizer alguma coisa eu tenho de estar fisicamente presente, mas a sua presença física não faz parte da mensagem verbal, ela é a base da mensagem verbal. O mundo do verbal, daquilo que é dito, daquilo que é pensado etc., ele é um recorte de dentro do mundo da experiência real e, para além do mundo da experiência real, existe o mundo presente [1:10] que não é objeto da experiência, mas que está ali presente. O exemplo mais óbvio é o seguinte: as pessoas com quem você conversa só estão sendo olhadas de fora, de maneira que você não está vendo o interior dos corpos delas — o pulmão, os intestinos, o cérebro. Agora, suponha por um momento que essas pessoas não tenham nada disso, que elas são apenas formas ocas, que dentro do corpo delas não existe nada, que é vazio; seria macabro e aterrorizante, não é mesmo?! Ou seja, você não está vendo os órgãos internos, não está vendo o seu funcionamento, mas você conta com isso, pois está presente. E, note bem, isso não é uma conclusão que você tira. Nós estamos agora pensando sobre isso, mas não é através do pensamento que você sabe disso, é através do senso de presença. Esses exercícios vão fazer você recuar do mundo do pensado para o mundo do percebido, e do mundo do percebido para a consciência de presentes. Depois disso, quando vocês lerem esta frase: “Há uma experiência inicial que está implícita em todas as outras e que dá a cada uma delas a sua gravidade e a sua profundidade, é a experiência da presença do ser”, aí vocês saberão do que Louis Lavelle está falando. Só que você vai fazer isso com o livro inteiro. Eu sugiro que faça com este pequeno livro, que não tem tradução. E se for um livro numa língua que você não conhece, melhor ainda, pois será necessário traduzir cada pedaço e isto impedirá que você passe para frente. O meu método de aprender línguas é esse: o primeiro livro que eu li em francês foi La Noeud de Viperes (O Nó das Víboras), de François Mauriac. Eu havia tido um pouco de aula de francês no ginásio, mas não o suficiente para ler um livro desse, de forma que cada linha possuía duas ou três palavras que eu não conhecia e tinha de ir ao dicionário. Então eu falei: “Eu vou ler este livro até o fim, mesmo que leve dez anos e eu vou anotar e escrever cada palavra que eu não saiba; não vai passar nenhuma e se tiver uma palavra que eu já vi páginas atrás, mas eu esqueci e eu olhar no dicionário de novo, eu vou escrever de novo e vou ler dez linhas por dia”. Quando eu terminei de fazer isso, eu sabia ler qualquer livro em francês. Mas esse método não serve somente para o aprendizado de linguagem. Se você fizer isso como prática da sua aprendizagem filosófica, não vai apenas ter aprendido a ler um livro de Filosofia, terá entendido uma coisa muito importante: um livro de Filosofia é como uma pauta musical, ele só é compreendido quando é executado interiormente. O falecido Otto Maria Carpeaux, que era um grande crítico musical e historiador da música, ele não ouvia música, ele nem tinha vitrola em casa, ele lia as partituras e as executava mentalmente como se ele fosse o maestro. Ele ouvia mentalmente cada instrumento, coordenava todos os instrumentos. Era aí que ele adquiria a compreensão profunda da música, porque ele a reviveu interiormente, e de certo modo a reconstruiu interiormente. É assim que se lê um livro de Filosofia, é somente assim. Se você lê um livro de Filosofia muito rápido, nunca irá entender nada. Cada frase tem de ser recomposta. É claro que com o tempo você irá pegar velocidade nisso, porque acontecerá que, à medida que se vai acumulando estas experiências interiores, elas ficam no fundo da sua memória, elas se incorporam em seu interior e, quando você ler um novo livro, ele vai trazer uma série de evocações que já lhe pertencem e a sua experiência na leitura daquele livro e dos livros sucessivos vai ficando cada vez mais rica, de modo que, depois de dez ou vinte anos de prática disso, quando você lê uma frase, é um mundo inteiro que se descortina para você. Isso tudo, é claro, é incomunicável, podendo ser comunicado esquematicamente como eu estou fazendo, mas somente assim. Não dá para reproduzir verbalmente a totalidade dessa experiência de leitura. Todos os grandes leitores do passado leram assim, todos sem exceção. Quando você vê, por exemplo, como um grande romancista entendeu outro grande romancista, entendeu desta forma. O mundo do outro romancista se incorpora nele e está implícito naquilo que ele está escrevendo. Eu estava lendo, quando vinha no carro, a introdução aos romances completos de François Mauriac, que é um autor que eu adoro e que foi o primeiro autor que eu li em francês, o qual é um mestre, um guru da arte do romance, ele sabe fazer um romance como raríssimos sabem. Mauriac, por sua, vez era um grande leitor de Balzac e aconteceu o seguinte: o Balzac escreveu um livro, depois escreveu outro e outro e assim por diante, e criou várias estórias, que foram se cruzando e, de repente, ele percebeu que não estava escrevendo um romance, mas sim um mapa inteiro da sociedade francesa. Os mesmos personagens reapareciam em circunstâncias diferentes e o sujeito que era o herói de uma estória, aparecia como personagem secundário no outro e assim por diante. Então, aquilo não é uma série de romances, é uma rede e, quando o próprio Balzac percebeu isso, aí é que ele fez o plano do restante da comédia humana; ele tinha escrito alguns livros, mas que não eram os mais importantes. A partir da hora que ele percebeu que era esse o truque, ele chegou em casa e disse: “turma, preparem-se, pois eu estou prestes a me tornar um gênio”. Acontece que, de tanto ler o Balzac, o François Mauriac foi incorporando aquele imaginário todo da rede da sociedade francesa e reparou que, até certo ponto, ele, que não queria fazer nada disso — e considerava que, quando começava um novo romance, achava que este iria libertá-lo do anterior, sendo, então, algo totalmente novo, de maneira que não queria mais pensar nos anteriores, pois já tinham ficado no passado — percebeu que acabou fazendo a mesma coisa que o Balzac e que seus personagens também reapareciam. Não tinham, evidentemente, todas aquelas ramificações como em Balzac, mas algo sobrou daquilo, sem que ele quisesse. Vejam, portanto, como o mundo do Balzac se incorporou tão profundamente na alma de Mauriac que este — que era um talento tão completamente diferente daquele, e que, aliás, queria fazer coisas completamente diferentes — não conseguiu escapar de “Balzaquiar” as coisas um pouquinho. O legado de Balzac persistiu no fundo da alma de Mauriac, não sendo mais Balzac, mas sim coisa própria de Mauriac, era a própria imaginação deste. A leitura de Balzac, Shakespeare, Homero etc., foi abrindo janelas dentro da alma dele, de forma que as coisas lidas se tornaram instrumentos de percepção e fornecedoras de um oceano de analogias, de associações de idéias, que se tornaram o seu próprio imaginário. Esse imaginário, na sua totalidade, não é transmissível, nenhum escritor jamais conseguiu botar no papel tudo que estava no imaginário dele, da mesma forma que nenhum filósofo conseguiu colocar todas as idéias que teve. Mas isso é a sua personalidade, o seu legado, e a partir daí você é alguém, tem uma existência anímica. Normalmente, nós somos tão alheios a nós mesmos que o único sinal de continuidade de nós para com nós mesmos é o nosso corpo. Quando você acorda, está com o mesmo corpo e no mesmo lugar onde dormiu na vésperan a não ser que alguém tenha lhe transportado para outro lugar de sacanagem. [1:20] Eu e um amigo gostávamos de fazer isso. Nós dávamos soporífero ao cara que ia dormir e, enquanto ele dormia, levávamos a cama até a praia. O sujeito dormia dentro de casa e acordava na praia! Aluno: Pode repetir o nome do livro? Olavo: La Présence Totale (A Presença Total), que é um livro pequeno (esta capa aqui fui eu que fiz, pois a original estragou de tanto que eu mexi neste livro e arrebentei com a capa) e este aqui [pega outro livro na mão] é o primeiro volume da série Dialética do Eterno Presente, que se chama De L'Être (Do Ser). É mais fácil de ler a série inteira, que é muito mais clara do que o La Presence Totale, mas vão no menor justamente porque ele é compacto e porque é um material excelente para vocês fazerem esse exercício. Se vocês começarem a filosofar em cima, a ter outras idéias, esqueçam. Se começarem a querer discutir, esqueçam. A discussão só vale quando você tem a posse do objeto sobre o qual você está discutindo. Esse exercício é para você tomar posse do livro, que vai se incorporar em você, com a seqüência de experiências interiores que o Louis Lavelle colocou lá. Exatamente como um romance é como se fosse um sonho acordado dirigido, um livro de Filosofia é exatamente a mesma coisa, um sonho acordado dirigido, apenas colocado numa outra linguagem para efeito de maior clareza. Discutir filosoficamente isto ficará para muito depois — então por favor nao me mandem considerações filosóficas sobre o livro do Louis Lavelle. Não é para discutir, é para absorver. Este livro não é para ser lido é para ser comido. Aliás, qualquer livro que se leia é para ser comido, mas alguns podem dar indigestão depois... Sem esta assimilação em profundidade, o que quer que se diga a respeito é blá-blá-blá, porque não se terá chegado à efetiva intercomunicação das consciências. Você não vai ter as experiências interiores do Louis Lavelle, mas vai ter as análogas dela, do modo que se você conversasse com ele, você saberia do que ele está falando e ele saberia do que você está falando. Depois que você fizer isso com um livro, você fará com outros de maneira muito mais veloz, até que chega um ponto em que esta é a sua maneira de ler, você só lê assim. Por um lado, é um exercício de percepção e memória, por outro lado é um exercício também de construção, porque você vai reconstruindo; à medida que vai avançando, você vai reconstruindo os nexos entre um parágrafo e outro, ou seja, entre uma experiência interior e a outra. Por exemplo, só neste parágrafo há lugar para várias experiências interiores e você não vai passar para o parágrafo seguinte enquanto não tiver se aprofundado tanto nestas experiências que você comece a repeti-las, somente então é que você deve passar para o parágrafo seguinte. Por exemplo, quando Lavelle diz que a experiência da presença do ser é o que dá às outras experiências a sua gravidade (mesma coisa que dizer, a sua importância, o seu valor) e a sua profundidade (poderia se dizer também a sua densidade), estas outras experiências não são apenas fantasmagorias que se passaram num eu subjetivo totalmente separado da realidade, porque elas têm a raiz na presença do ser. A hora que você começar a absorver esse negócio, a sua intolerância para com o blá-blá-blá filosófico vai se tornar extrema e quando você perceber que o sujeito está falando uma coisa sem a devida experiência interior, como fala esse Senhor Safatle, você vai devolvê-lo ao pré-primário: “você não é do ramo, você cala a boca, você sai daqui, não me amole com esta sua bobagem, eu estou preocupado com coisas que têm gravidade e profundidade, eu não sou moleque brincando de filósofo...” Se todos os alunos deste curso assimilarem todas estas coisas, pouco a pouco, vocês verão que, dentro de algum tempo, nós teremos uma poderosa classe intelectual no Brasil como jamais houve, porque será constituída de pessoas sérias, de pessoas que estarão presentes à realidade, não serão meros combinadores de palavras, não serão pessoas que querem escrever bonitinho. Serão pessoas que, para cada palavra que for dita, haverão outras dez mil que não poderão ser enunciadas, porque é patrimônio delas e é inexpressável. Por exemplo, quando você lê um Shakespeare e vê as coisas que ele está lhe mostrando, e você faz um pouco de esforço de imaginação para pensar assim: “de onde ele tirou isso?”, você se dá conta de que tem um oceano de riquezas, mas aquilo que está aparecendo no teatro é somente a espuma. E note bem: Shakespeare não é Deus, é somente um ser humano. Quando você começa perceber a riqueza de imaginação e de experiência humana que tem dentro de uma pessoa desta você fica maravilhado, mas daí você não quer mais o blá-blá-blá: “Eu não quero mais uma sopinha, canjinha, eu quero comida de verdade, eu quero um bife. Não vou ficar perdendo tempo com estes bobocas”. O que é um boboca? Tem um boboca de terceiro mundo, tipo este Sr. Safatle e tem um boboca de primeiro mundo que é o Jaques Lacan, os quais são especialistas em não entender nada do que lêem e já fizeram disso uma técnica, porque eles nunca se abrem à experiência, jamais se abrem à experiência! Eles nunca fazem isto que eu estou dizendo, eles fazem o contrário, fazem a negação de tudo. Eles estão tão convencidos de que são superiores a toda cultura humana, que a transformam em objeto das suas pretensas análises, o que é um método de auto-emburrecimento. Foi isso que eu chamei o Imbecil Coletivo, o qual não é constituído de imbecis, mas de pessoas normais e às vezes pessoas de alta inteligência, que por um vício, por uma conveniência política, uma solidariedade corporativa, se reúnem para se imbecilizar uns aos outros, assimilando cacoetes de linguagem que os impedem de entender qualquer coisa, que os fazem entender sempre invertido. Isso não tem nada a ver com política — embora tenha claramente uma expressão política —, não começou como tal. No estudo que eu estou fazendo da mentalidade revolucionária, a gente vê que a inversão do tempo — você supor que conhece um futuro hipotético, tomando-o como base e premissa para o entendimento que se tem do presente ou do passado — começou no milenarismo judaico, antes mesmo do Cristianismo. Você vai dizer que aqueles caras eram revolucionários? Claro que não! Na época do Cristianismo, da mesma forma, não podemos dizer que Santo Irineu era revolucionário, assim como não era herege nem nada disto, mas o esquema da inversão está lá. Todos estes elementos que vão construir depois a mentalidade revolucionária, eles vêm de fontes que em si mesmas não são revolucionárias e se incorporam de tal maneira no hábitos culturais do homem ocidental [1:30] que dificilmente alguém escapa disto e, quando escapa, é um Louis Lavelle, um Edmund Husserl, um Eric Voegelin, pois são pessoas que tem amor à realidade. De outro lado, se você fala que tem amor à Ciência, eu digo que esta não passa de uma construção humana, que é como se fosse um jogo. Por exemplo: “Eu gosto de futebol”. Existe futebol na natureza? Não, pois é uma invenção humana, é uma construção. Se for assim, você está vivendo no mundo do imaginário, participando de um jogo. O universo real não é um jogo (jogo é uma coisa que existe dentro do universo) e, portanto, não podendo ser um jogo ele é outra coisa — a qual não sabemos exatamente o que é. Esta abertura ao universo real, à presença total do ser, é a condição sem a qual todas as suas idéias não valerão nada, porque será tudo somente construção mental, sem o aporte verdadeiro da presença do ser, de maneira que será apenas um jogo, onde idéias serão trocadas por outras. Durante uma certa época houve uma certa classe letrada capaz de perceber essas coisas, que, instintivamente, percebia se, por exemplo, um poema ou uma teoria tinha densidade suficiente ou não tinha. Hoje, no Brasil, isto é utopia, pois ninguém mais tem isso. Vocês serão os únicos que vão ter. Eu vejo, por exemplo, o Bruno Tolentino: além de ser um grande poeta ele era um grande leitor de poesia. Acho que ele sabia de cor as obras de uns cem poetas, e as recitava, e tudo aquilo tinha se incorporado de tal modo na sua alma que os ecos daquilo reapareciam na poesia dele. Cada linha do Bruno tem milhões de referências aos poetas que ele leu e das quais nem ele se tocava que era uma referência. É isso que o torna um grande poeta, porque isso o coloca na linhagem dos poetas. Ele é um membro da sociedade de Goethe, Shakespeare, Camões, este é o mundo dele. Isso quer dizer que, se você, lendo o Bruno Tolentino, tiver uma abertura para isto, vagamente irá perceber as evocações de todo um imaginário cultural de milênios, e não somente a imaginação do Bruno. No entanto, se não tiver esta abertura, você não vai pegar quase nada da leitura do Bruno, vai discutir somente a periferia da sua obra, e vai se perder e vai falar só bobagem. Desde que o Movimento de 1922 tornou obrigatório no Brasil o verso livre, isto é, o verso sem métrica, as pessoas desaprenderam a métrica. Então, quando o Bruno, que escrevia tudo metrificado, chegou no Brasil, as pessoas começaram a discutir isso, como no artigo do Arnaldo Jabor que apresentou o Bruno ao país, cujo título era “Bruno Tolentino Traz de Volta Peste Clássica” — dando a entender que o modernismo tinha nos livrado disto e vem o Bruno com a peste clássica de novo. Mas eu pergunto: por que é que a poesia com métrica provoca tanta estranheza no Brasil se toda poesia modernista do mundo é metrificada? Vejam as obras de Yeats, estão todas metrificadas. As de Eliot, ou estão metrificadas ou, pior ainda, ele usa, em inglês, a métrica francesa, parecendo fazer versos livres. Em inglês, contam-se somente as sílabas tônicas, então há versos de 3, 4, 5 sílabas. Nas línguas latinas, contam-se todas as sílabas, o que é muito mais difícil, mais exigente, mais matemático. Eliot, muito espertamente, fazia uma aparência de verso livre, mas com metrificação à francesa. Está tudo metrificado no mundo. Ninguém jamais expulsou a métrica. Foi só uma moda lançada por poetas de décima quinta categoria, por sub-poetas, num país do terceiro mundo. Mas todo o público em volta acredita que isto é assim, “ah, métrica é coisa de antigamente”. Uma moda provinciana de um país de terceiro mundo torna-se a chave interpretativa da literatura universal. Então, quando Bruno chegou e as pessoas falavam isso, estranhavam a métrica etc., inicialmente ele não sabia do que estavam falando. E quando percebeu, ficou puto da vida. Falou que aquilo era de uma caipirice monstruosa, que nunca imaginou que aquilo pudesse acontecer. O sujeito publicou livros de poesia em francês, espanhol, italiano e nunca ninguém estranhou que estivessem metrificados, porque a métrica existe na poesia universal. Mas no Brasil ficou proibido e os brasileiros não sabem que no resto do mundo não é. E muitas dessas pessoas escreveram livros sobre poesia, eram críticos literários, analistas de poesia. Todos masturbadores mentais, gente que não tem prática de leitura. Quando Bruno examinou aquela tradução que Augusto de Campos fez de um poema de Dylan Thomas, mostrou que não é que ele não tenha entendido Dylan Thomas, ele não sabia inglês. E se não sabia a língua, por que é que foi traduzir a partir dela? Pode-se fazer como eu fiz com François Mauriac: ler numa língua que você não sabe e traduzir para o próprio proveito. Mas não se vai publicar essa porcaria de tradução, vai? Paulo Rónai, que era um grande linguista, fazia também a mesma coisa: pegava o livro numa língua que não conhecia e começava a traduzir para aprender. Ele pegou uma poesia, acho que do Augusto Meyer — foi a primeira coisa que ele leu em português —, e tinha lá uma palavra, que eu não me lembro se era “rede” ou um sinônimo, que ele, não sabendo o que significava, procurou, procurou e, então, entendeu que era uma rede no sentido abstrato, algo como um tecido de idéias. E quando chegou ao Brasil ele descobriu que era aquela rede em que os nordestinos deitam-se. Vê-se como o entendimento que teve da poesia estava longe da realidade. Esses camaradas como Augusto de Campos lêem como Paulo Rónai lia a sua primeira poesia em português. Eles lêem numa língua que efetivamente não conhecem. Isso no Brasil é costumeiro. O charlatanismo intelectual é prática geral no Brasil. No resto do mundo ele existe também, mas as pessoas reconhecem-no. No Brasil não. O charlatanismo intelectual adquiriu autoridade, e pior, existem jovens sérios, talentosos e bem intencionados que vão estudar com esses caras e os aceitam como autoridades e deformam-se para ficar iguais a eles. É como entrar para um clube em que todo mundo corta a orelha, então você corta também, corta o peru etc., para ficar igual aos outros. Isso é uma monstruosidade. É dentro desse meio que vocês estão. Isolar-se desse meio não é possível. O que vocês têm de fazer é viver em franca atitude de desprezo e até de hostilidade. É preciso rejeitar, dizer “não quero isso daí”. E se você aceitar isso, dizendo que se reclamar seu professor irá fazê-lo repetir de ano, eu pergunto se você quer mesmo um diploma assinado por esse cara. Pense bem, daqui vinte anos, um diploma assinado por mim valerá 1000 vezes mais que um diploma da USP, porque o diploma assinado por mim mostra que você sabe alguma coisa e o da USP é apenas uma formalidade encobrindo uma falsidade. Se nós entrarmos na briga com [01:40] esta farsa em que se transformou a cultura superior no Brasil, é claro que nós iremos ganhar. Esse pessoal não têm nada, são todos ocos, é só fingimento. Passam três anos daquilo e ninguém mais se interessa. Já o que nós estamos fazendo, o que eu estou fazendo, isso ficará e será a base da cultura brasileira futura, pois é a única base existente. Neste período em que houve a destruição, eu — cujo nome é norueguês e, por acaso, significa “sobrevivente” – fui o único que sobreviveu. Tinha o Bruno também, mas ele morreu. O único sujeito que ainda tem o legado da cultura brasileira anterior que vinha se formando sou eu. Os outros não têm, nem sabem onde estão. Então, só quem pode criar essa cultura no futuro somos nós, vocês são responsáveis por isso. E é por isso que eu fiz questão que assinassem este compromisso de permanecer no curso até o fim, para poder fazer um trabalho de formação verdadeiro. Cinco anos é pouco para isso e, portanto, eu espero que mesmo depois de terminado o curso vocês ainda continuem mantendo contato, para a gente continuar passando outras coisas, mas cinco anos é o mínimo. Deu para entender tudo até aqui? Então vamos passar a responder algumas perguntas que chegaram aqui. Aluno: Esse livro do Lavelle está online e em português. (...) Olavo: Mas precisa ver se a tradução é boa, hein? Aluno: (…) É. O tradutor é Américo Pereira. (...) Olavo: É uma tradução portuguesa ou brasileira? Se é portuguesa, geralmente é confiável; se é brasileira, fuja. Aluno: (…) Acho que é portuguesa. O site é lusosofia. Olavo: Ah, então é tradução portuguesa. Pode ter alguma dificuldade de leitura mas traduções portuguesas geralmente são muito sérias. Aluno: Alguns críticos e escritores apontam Geraldo Mello Mourão como um dos grandes poetas da língua portuguesa. Qual a sua avaliação sobre ele? Olavo: É exatamente essa. Geraldo Mello Mourão é um monstro. É um mundo imaginário de um riqueza imensa! Às vezes muito peculiar e esquisito, mas não mais esquisito do que Ezra Pound, por exemplo. Aliás, Geraldo Mello Mourão era meu amigo, gostava muito dele. Nós tínhamos um amigo em comum, o Paulo Mercadante. Vocês sabem que o Geraldo foi acusado de ser espião nazista durante a guerra, não? Quem o prendeu foi o Paulo Mercadante. E depois ficaram grandes amigos. Paulo Mercadante era da Aeronáutica (o Serviço Secreto era da Aeronáutica naquele tempo) e foi ele que espionou a rede e prendeu Geraldo Mello Mourão. Depois foi visitá-lo na cadeia, começaram a conversar e ficaram amigos até a velhice. Aluno: O Geraldo já morreu? Olavo: Acho que já, porque quando o conheci ele já era velhíssimo. Aluno: Na última aula você disse que o que chamamos de realidade é na verdade um complexo de possibilidades abertas e disse, por exemplo, que o nosso corpo físico é apenas um dado dessa realidade. Segundo compreendi, vamos nos abrindo gradativamente a esse mundo das possibilidades que, por sua vez, tem muito pouco a ver com o corpo físico. Entretanto, em uma aula do curso de Teoria do Estado dada em Curitiba você nos ensinou que muitas deficiências de aprendizagem se explicam por uma incapacidade de articulação do próprio corpo físico, e menciona como exemplo o aprendizado de língua estrangeira, certas capacidades de abstração matemática e o caso do ator que só consegue sentir (...) Olavo: Epa! Não estou conseguindo entender a sua pergunta. Aluno: (…) É possível que não consigamos expressar nossas experiências da realidade para nós mesmos e para os outros porque não desenvolvemos suficientemente aspectos de articulações do nosso próprio corpo físico? Olavo: Isso certamente é possível. Por exemplo, ao aprender línguas estrangeiras, vê-se que diferentes línguas fazem vibrar diferentes partes do crânio. No Brasil nós movemos muito os lábios. O português do Brasil move muito os lábios. Quando se aprende inglês, é notável como o inglês fala-se entre dentes, como se fosse linguagem de ventríloquo: quanto menos mover-se os lábios, melhor, do contrário não se acerta a pronúncia. Às vezes a inabilidade de passar de uma coisa dessas para outra não só torna a sua pronúncia deficiente, mas impede que você capte o som. É por isso que criança aprende línguas com mais facilidade, elas têm mais disponibilidade para imitar corporalmente os gestos dos outros — o que a gente, depois de adulto, não tem mais. Mesmo que você treine, a sua pronúncia não ficará boa. Mas a sua audição pode ficar boa, bem como a sua compreensão das nuances, ainda que você não consiga imitar. Ao falar italiano, vibra-se o céu da boca. E aí começa a aparecer uma série de analogias absolutamente extraordinárias. Essas cúpulas de igreja que apareceram na Renascença, essas abóbadas, são características da arte italiana. Enquanto os góticos faziam igrejas verticais, os italianos começam a fazer aquelas abóbadas onde tudo ressoa formidavelmente. A língua deles é assim, então o imaginário espacial deles também é assim. A pronúncia do inglês, como acabei de dizer, é entre dentes, movendo pouco os lábios. Ora, você faz isso quando não quer que sua emoção passe para fora. Tem a emoção de um lado e a expressão verbal que é a emoção atenuada, o que eles chamam understatement, ou seja, você fala propositadamente menos do que está sentindo ou pensando. Por exemplo, você está lendo uma coisa e, ao ver que é uma besteira completa, fala “isso aí não está muito certo”. O ouvinte, se está acostumado, já sabe que você está querendo dizer que é uma besteira completa. Eu no começo tive muita dificuldade para me adaptar a isso porque no português é o contrário, ele é hiperbólico, você até exagera. Vê-se que há muitos traços psicológicos, existenciais, que estão ligados a uma certa maneira de expressão corporal típica de certos povos, lugares, culturas etc. Isso é uma coisa muito bonita de se estudar e observar. Observando isso, uma vez eu pude fazer um experimento com alunos meus em São Paulo. Eu lia para eles poesia numa língua que eles não conheciam absolutamente e pelas analogias sugeridas pelo som eles acabavam entendendo. Lembro que li para eles uma poesia do Giosuè Carducci (1835 – 1907) chamada Il bove (“o boi”). Eles não sabiam nem que bove era “boi”. Mas foi, foi, foi e eles entenderam quase o poema inteiro. Aluno: O Sílvio está falando aqui que o Américo Pereira está traduzindo as obras completas do Lavelle em Portugal e está procurando editora para publicar a coleção no Brasil. Olavo: Aproveitando, eu quero anunciar para vocês que o Seminário de Filosofia vai publicar alguns livros utilizados por nós aqui. Vamos lançar o livro na seguinte base: ele será vendido com um preço para vocês e um preço maior para o público em geral, e será vendido mediante assinatura. Nós lançamos a assinatura do livro e, dois ou três meses depois, o entregamos. Como alguns livros do Louis Lavelle são absolutamente indispensáveis, [01:50] nós certamente somos fortes candidatos a nos tornar editores desse trabalho do Américo Pereira. Creio que dentro de um mês, mais ou menos, vamos anunciar para vocês formalmente como isso vai funcionar. Porque têm muitos livros que são inacessíveis, difíceis de se encontrar, ou que não existem em português e nós gostaríamos de ir formando um pouco desta bibliografia filosófica em português, pelo menos para vocês. Agora, Bruno, é o seguinte: eu não disse que a realidade é um complexo de possibilidades, mas um complexo de latências. Isso é importante. O que eu chamo de latência? É exatamente o que está presente, que você sabe que está presente, sem que você o perceba através dos cinco sentidos como, por exemplo, saber que o corpo de uma pessoa que está presente é um corpo vivo. Isso não é uma conclusão que você tira. Não basta dizer: “eu sei que está vivo porque se mexe.” Não é assim. Se você fosse saber essas coisas por conclusão, teria de ficar pensando em milhões de detalhes o tempo todo e isto seria impossível. Portanto, existe a percepção de latência. O que você percebe é menos a presença física do que a latência, ou seja, o que aquele ente, aquele corpo, ou aquela presença física pode fazer. Você não o percebe só como forma física estática. Eu acho que já dei nesse curso este exemplo: você está vindo por uma rua e tem ali um cachorro deitado. Você sabe que aquele cachorro pode abanar o rabo, pode latir para você, atacá-lo ou ficar com medo de você — sabe tudo isso imediatamente. Agora, você sabe que ele não vai sair voando, porque se o fizesse não saberia o que é um cachorro. Isso quer dizer que você tem a percepção imediata do conjunto de latências. A latência não é só uma possibilidade, é uma força que já está quase manifestando-se. E essa latência é perceptível em tudo. Por exemplo, do conjunto de utensílios que existem na sua sala, você sabe para que serve cada um. Tem ali um abridor de lata e você sabe que ele não serve para escovar os dentes. Em suma, sejam seres animados ou inanimados, você sabe a latência deles (o que eles podem fazer e o que se pode fazer com eles) e percebe tudo isso condensado na presença física, ou condensado numa presença que também é latente — por exemplo, os objetos que originam esses sons distantes no exercício do Narciso Irala. Não são simplesmente possibilidades. Por isso escolhi a palavra “latência”. O latente é o contrário do patente — o patente é o que está óbvio. Uma coisa quando não está patente, está latente. Mas latente não é uma mera possibilidade. Os escolásticos distinguiam entre o que é potência, ato primeiro e ato segundo. Por exemplo, toda mulher em potência tem a capacidade de ser mãe. Se ela já está grávida, está em ato primeiro. Depois que o filho nascer, em ato segundo, quer dizer, aí já é mãe definitivamente. Parece que houve um problema técnico aqui, vamos voltar. [pausa na transmissão] O aluno disse: “você disse que o que chamamos de realidade é na verdade um complexo de possibilidades abertas”. Bem, eu não disse isso, disse complexo de latências. E latência não é mera possibilidade, mas um poder que já está a ponto de se manifestar. Você tem a percepção da presença; por trás dela a percepção da latência; e por trás dela, aí sim, a conjeturação das possibilidades em aberto. Possibilidades não podem ser percebidas, mas latências podem. As possibilidades só serão percebidas por construção mental, por lógica, ou por imaginação. Mas as latências não, elas são percebidas como coisas imediatas. Quer dizer que a ação na qual o ente ou objeto percebido... A latência não é a mera possibilidade, mas é um poder, a ação na qual o ser ou objeto já está envolvido de maneira iminente. Se você não percebe a latência, não entende a situação. Se a nossa percepção fosse apenas a de formas sensíveis e estáticas nós não entenderíamos nada do que está acontecendo, nem saberíamos onde estamos. E se tudo o que está para além do perceptível pelos cinco sentidos fosse conjeturação, você teria que viver num mundo de pensamentos, não num mundo de percepções. E isso seria impossível na prática. Se eu digo alguma coisa e sei que a pessoa está compreendendo em mais ou em menos, eu sei que ela está voltada para a compreensão, praticamente já compreendendo o que vou dizer em seguida, antecipando aquilo — a não ser que eu esteja falando uma coisa muito chata e ela queira ir embora. Se você não percebe esta reação latente das pessoas ao que você está dizendo ou fazendo, não entende a situação. É o que acontece em certos quadros patológicos, como na chamada despersonalização epiléptica, em que o sujeito deixa de perceber uma parte da latência e fica completamente desorientado. Como eu dizia, os escolásticos então distinguiam entre potência, ato primeiro e ato segundo. Potência é assim: toda mulher tem a capacidade de ser mãe. Quando ela engravidou, ela já é quase mãe. Depois que o filho nasceu, ela já é mãe. A segunda fase é que é a latência. Quer dizer, a mulher que está grávida não tem apenas a capacidade de ser mãe tanto quanto uma outra que não está grávida, ou que nunca ficou grávida. Essa capacidade já está em ação. Aqui um aluno menciona uma parte das Memórias póstumas de Brás Cubas em que Quincas Borba inventou uma filosofia maluca chamada humanitismo. Aluno: Em certo trecho, apesar da clara ironia de Machado de Assis sobre essa pseudo-filosofia, escreve o seguinte na fala de Quincas Borba, ao tratar das boas ações: “primeiramente há o sentimento de uma boa ação e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações. Em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura [02:00], superioridade no estado e nos meios, e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano.”(...) Na sua visão, há alguma parcela de verdade nessa afirmação de que as pessoas que têm uma vida interior mais rica dedicam-se mais a ela, porque vêm riqueza nessa vida interior e se admiram com ela; e as que não têm a mesma riqueza de vida interior não se dedicam a ela, mas às exterioridades, porque nada vêm de bom quando olham para dentro de si mesmas? Olavo: Isso é claro. Não é exatamente isso que o Machado de Assis está dizendo, mas é o que você está dizendo e isso é verdade. Se você não tem essa riqueza de mundo interior, você vive da exterioridade, vive do olhar dos outros. Então não é como o Safatle diz, que a sua imagem corporal é introjetada desde fora. Não é você que está procurando criar uma imagem sua à luz do que o outro está vendo, porque você não tem um olhar próprio. A riqueza do seu imaginário interior, das suas memórias etc., cria um espaço interior para você, onde você é alguma coisa e você então tem uma convivência consigo mesmo que essas pessoas não têm. Na sua solidão existe um oceano de presenças. E quando você se encontra com uma pessoa que tem a mesma coisa, esses dois oceanos confluem-se e a convivência é enormemente rica. Mas se não há isso, é uma convivência na qual ninguém tem nada para dar e um fica esperando algo do outro. Isso não é uma convivência, é um vampirismo, onde cada um vai tentar adquirir substância a partir do outro. É feio isso. O ser humano não foi feito para ser assim. Se ele tem a capacidade de não ser assim, ele tem a obrigação de não ser assim. Aluno: Minha dúvida diz respeito ao seu texto “As doze camadas da personalidade”. Gostaria de entender se esses estágios estão necessariamente encadeados na ordem apresentada, apresentando uma progressão necessária, ou se, ao contrário, o que se verifica são tipos que podem seguir um trajeto não linear no decorrer da vida. (...) Olavo: Não, isso é impossível. Aluno: (…) Minha dúvida surgiu em função da décima segunda camada, o destino final, o estar em completa harmonia com a vontade divina. Me ocorreu que muitos santos podem chegar ao estágio de contemplação sem que necessariamente tenham sido perfeitos exemplos das camadas anteriores. De fato, muitos não eram sequer alfabetizados, o que exclui a possibilidade de terem passado pela nona camada, da personalidade intelectual. Olavo: Como exclui? O aluno dá o exemplo de Joana D’Arc. Você veja as respostas de Joana D’Arc no processo, e você vê a imensa superioridade intelectual dela em relação aos juízes. Como não tinha personalidade intelectual? Ela estava entendendo a situação real, eles não! Você não vai confundir a personalidade intelectual com o exercício de certas atividades escolares ou acadêmicas, ou literárias, científicas. Eu estou falando é da personalidade intelectual, o que a pessoa tem. O que é a personalidade intelectual? É o conjunto das idéias e crenças que você tem sobre o mundo, e que você sabe que tem e que caracterizam a sua singularidade. Claro que Joana D’Arc tinha uma personalidade intelectual altissimamente desenvolvida. O que não quer dizer que esta camada tinha tido uma camada exterior identificável; não, não precisa ter. O aluno pergunta se a sequência que eu dei é uma sequência objetiva ou se é uma exposição pedagógica. É uma sequência objetiva porque cada camada absorve a anterior, e só pode ser construída em cima da anterior. Nunca se pode confundir o que é a formação verdadeira da personalidade, com o que é a situação externa da pessoa. O sujeito pode chegar a Cardeal da Igreja sem ter passado da 4ª ou 5ª camada. Quer dizer, ele está em uma situação que exige um desenvolvimento pessoal correspondente pelo menos à 9ª camada, mas que ele não tem efetivamente. Então aí a vida é farsa. Quando o sujeito está em uma camada é preciso que ele tenha a capacidade de ocupá-la plenamente. O conjunto de idéias e crenças de Joana D’Arc que a personalizam mostra uma força intelectual tremenda, ainda que ela não tivesse estudado. Isto é a maior prova que para desenvolver a 9ª camada, a mulher nem precisou estudar para freqüentemente dar um baile em seus juízes, que eram caras que tinham estudado a vida inteira. E quando você vê a firmeza com que ela se atém a sua simplicidade de propósito e não se deixa enganar em um único minuto, um único segundo por aqueles jogos dialéticos que os juízes maliciosos faziam em cima dela; a mulher não sai, ela fica ali — mas que coisa! É muito impressionante isso aí! Isso é uma personalidade intelectual altissimamente desenvolvida. Veja, quer um teste maior para a personalidade do que você ser cercado de desafios maliciosos que querem lhe fazer confessar o que você não fez, e lhe fazer admitir o que você não crê? Nas nossas faculdades as pessoas são submetidas a isso diariamente, e elas caem na primeira. Porém, mesmo Joana D’Arc correndo perigo de morte e os caras fazendo todos aqueles jogos dialéticos para ver: “Ah, vamos pegar essa mulher”, e criando armadilhas lógicas para ela, ela mantém-se impávido colosso, não sai do lugar. Como não tem personalidade intelectual? A personalidade intelectual é você saber o que você realmente sabe, o que você realmente crê. É você ser responsável pelas suas idéias. É você saber onde essas idéias estão na realidade da sua vida. Joana D’Arc deu exatamente o exemplo disso, em cada passo do seu interrogatório. Aluno: Caro professor Olavo, não resisto a transcrever aqui um e-mail que um amigo me enviou como parte de uma conversa sobre filosofia que estávamos tendo. Achei que as suas observações são muito interessantes e gostaria que o senhor as comentasse. Ele é leitor de Guénon e Schuon e provavelmente as suas opiniões são inspiradas nesses autores. Veja: “também nunca acreditei na filosofia universitária, nem jamais encarei a filosofia como uma espécie de carreira. Ela só é real se for vivida, como, aliás, era originalmente, na época em que era uma via espiritual. Hoje em dia os seus métodos de racicínio continuam válidos, mas você há de concordar que ela não basta para reger toda a vida do indivíduo. Afinal os grandes filósofos gregos ascetas e seus homólogos cristãos nem se falam. Mas os métodos ascéticos especificamente filosóficos — pitagóricos, platônicos, aristotélicos, neoplatônicos — se perderam. Por isso, no meu entender, hoje em dia o que resta dos métodos filosóficos só podem ganhar vida se forem acompanhados de uma ascese especificamente religiosa”. Olavo: Isto está 100% errado! Ele não está dizendo o que eu estou dizendo, e não é verdade que os grandes filosofos gregos eram ascetas, de maneira alguma. Acompanhando a vida de Sócrates você vê que não há ascetismo nenhum. Há apenas a dedicação a um dever que ele assumiu — e isto é mais suficiente para construir a sua personalidade [02:10]. Não há necessidade de técnicas de concentração, rituais etc. Ao contrário, tudo isso pode trazer um mal desgraçado. Todas as técnicas ascéticas são extremamente perigosas. Todas elas podem funcionar às vezes, mas por outro lado podem destrui-lo completamente. Todos os camaradas da ordem jesuíta, por exemplo, fizeram os exercícios ascéticos de Santo Ignácio de Loyola. De onde saiu a Teologia da Libertação e tudo quanto é porcaria? Não foi dos jesuítas? Leiam o livro do Malachi Martin, “Os Jesuítas”, e você vai ver. A técnica ascética não garante nada, meu filho. Pior, se você confia na técnica já se alienou. Só há uma coisa que funciona: a sinceridade inflexível de você para para com você mesmo, de você para com Deus — só isto funciona. O resto é tudo sonho, ilusão, poesia, romance, quando não é idealização de iniciações e rituais etc. Eu já conheci um monte de iniciados e o que eu já vi esses caras fazendo de besteiras... — inclusive Schuon e Guénon. O Guénon eu vi pelo o que estudei, e o Schuon por observação direta. O Schuon, pela minha convivência com ele, se demonstrou de uma falta de discernimento psicológico assombroso. Situaçãoes simples que o homem simplesmente não entendia, e se deixava levar por uma falsa concepção de qual era a sua posição na realidade — pois ele achava que era uma espécie de Papa de todas as religiões. Os outros não achavam absolutamente, e ele não era de fato. Sem tirar a grandeza dele de muita coisa que ele fez. Ele era um homem grande, mas ele achava que ele era maior ainda, então aí errou. Aluno: Na aula de 06 de junho, o senhor, ao tratar a questão sobre a suprema beatitude do conhecimento, apresentou o argumento que o conhecimento humano é limitado, que essa realidade é que nós devemos compreender, e que essa é uma condição intrínseca do ser humano. Concordo, contudo o senhor usou um argumento que eu gostaria que o senhor aprofundasse agora. O senhor disse que se adquire um conhecimento não quer dizer que a humanidade também o adquire, que não há um “nós” na aquisição desse conhecimento, que a aquisição desse conhecimento é individual. O que é a tradição cultural então? Olavo: A tradição cultural é muito simples, meu filho. É aquilo que esses vários indivíduos conseguiram repassar aos outros, e que é sempre uma parte do que eles sabem. Parte que o recebedor do conhecimento terá de complementar com sua própria imaginação. Shakespeare passou para você o que? As peças de Shakespeare. Ele não passou a imaginação de Shakespeare. Não passou o mundo interior de Shakespeare. Você tem de recompor isso a partir das peças. E você só pode fazer se você adquirir por outros meios, que não é a leitura das peças de Shakespeare, as experiências interiores correspondentes que lhe permitem apreender parte disso. Aluno: Pergunto: se o conhecimento ficar registrado em qualquer meio material para isso (livros, arquivos digitais etc.) não há uma cumulatividade do conhecimento para a coletividade da humanidade? Olavo: Não. Existe uma cumulatividade dos registros. E este é um dos grandes problemas da humanidade. Porque o universo inteiro é um depósito de conhecimentos; tudo o que existe. Por exemplo, todo o conhecimento sobre mineralogia no mundo está nos minerais. Tudo o que a mineralogia já sabe e pode vir a saber, está registrado nos minerais. O que falta? Falta somente você decodificar. Se você cria um monte de registros e coloca nas prateleiras, o que resta a fazer? Decodificá-los. E às vezes o registro pode ser tão complexo que a decodificação deles é mais difícil do que a decodificação direta dos dados da natureza. Isso é um tema que eu já explorei há quase de trinta anos. O aumento do volume de registros não é o aumento do conhecimento. É o aumento dos objetos do conhecimento que tem de ser decodificados para que se tornem conhecimento. Agora, em cada geração, você tem um número relativamente pequeno de pessoas que têm as decodificações, e que incorporaram aquilo a si mesmo. Existem dois tipos de progresso do conhecimento: (a) um é o progresso da acumulação de registros; (b) o outro é o progresso na geração de pessoas capacitadas para a decodificação. E esse é o verdadeiro progresso do conhecimento. Progresso que é altamente problemático, cheio de fracassos, porque às vezes de uma geração para outra se perde tudo — como aconteceu no Brasil. Quando leio um daqueles críticos literários dos anos 50, como Otto Maria Carpeaux ou Álvaro Lins, eu vejo a riqueza de sensibilidade daqueles caras. É uma coisa impressionante! Eu vejo os diálogos que havia entre os escritores, entre eles e o Manuel Bandeira, um Augusto Mayer. Mas que riqueza de experiência humana impressionante. E tudo isso se perdeu! É recuperável, principalmente se aparece um elo. E esse elo é este que vos fala. Porque eu recebi tudo isso na época em que existia. E quando foi acabando e foi morrendo, eu fui vendo isto, e fui ficando angustiado. E quanto mais eu via isso morrer, mas me esforçava para preservar dentro de mim aquilo. Eu dizia “não, pelo menos eu vou conservar isso, mesmo que todo mundo esqueça e eu não consiga retransmitir a ninguém, bom, pelo menos está aqui, não morreu”. Os registros certamente estão aí. Mas se existe uma ruptura total de uma geração para outra é dificílimo recuperar. Uma boa parte da cultura brasileira ficou ininteligível. E da cultura portuguesa então? Experimentem ler Camilo Castelo Branco ou Aquilino Ribeiro. Vocês não vão entender “a” do que estão lendo ali. As gerações e gerações que perderam contato com a cultura portuguesa, perderam a linguagem. Então é preciso de um esforço monstro para recuperar isso aí. Um aumento do volume de registros cria uma segunda camada de objetos em cima dos objetos da natureza — os objetos culturais que tem de ser decodificados, tem de se transformar em patrimônio de pessoas reais. Por exemplo: você vê um escritor bom que em uma geração é bastante lido, conhecido, comentado etc., e a geração seguinte o apaga. Quando chega na 3ª geração, aquilo já tornou-se quase ininteligível. Você tem de recuperar o imaginário do público para quem ele falava para voltar a entendê-lo. Por exemplo, o Brasil tem grande escritor que é o José Geraldo Vieira. Na época em que ele estava vivo, todos os escritores brasileiros o respeitavam como uma espécie de guru da arte do romance. Depois sumiu. Sumiu completamente. Então hoje, quando as pessoas vão lê-lo, aquilo parece esquisito, fica difícil você recuperar aquilo. E se passar duas ou três gerações, bom daí só se vier um erudito e passar a vida estudando aquilo. Aluno: Por que não foi citado o Érico Veríssimo como um dos autores brasileiros importantes? Olavo: Bem, o Érico Veríssimo tem uma certa importância, mas ele não é um criador original. Todos os procedimentos dele são procedimentos aprendidos. É claro que ele tem o domínio da técnica e a usa bem. Eu acho que tem de ler, que “O Tempo e o Vento” tem de ser lido de qualquer maneira, é uma coisa importantíssima da vida brasileira. O aluno aqui me pergunta qual a minha opinião do José Saramago como escritor. Eu nunca consegui ler o Saramago. Eu tentei várias vezes. Eu não consigo me interessar por aquilo. Quando chego na página 3, acho que está muito besta para o meu gosto. Eu tentei várias vezes. [02:20] Aluno: Boa tarde, suas aulas estão excelentes. Creio que algo assim jamais tenha sido feito em nosso país. Gostaria de fazer duas perguntas: o senhor poderia falar mais a respeito da importância da poesia, e se possível defini-la? Acredito que não se trata apenas de uma questão de estrutura ou forma. Como se dever ler a poesia? O que o senhor pensa do escritor inglês Charles Williams? Olavo: Jamais li o Charles Williams. Quanto à poesia, eu ainda acho que quem estava na pista, se é que não resolveu o problema, era o Benedetto Croce, em um livro que se chama precisamente La Poesia. É uma leitura que eu recomendo, como começo de conversa. Eu tenho uma apostila que se chama “Poesia e Filosofia”, que está no meu site. Procure lá que você vai encontrar isso aí. Já está um pouco velha essa apostila, mas é até onde eu pude esclarecer naquele momento. Eu acho que se não lhe der uma resposta, pelo menos lhe coloca na pista da resposta. E como nós vamos voltar a este assunto formalmente em aulas futuras, eu peço que você tenha um pouco de paciência e espere a gente chegar lá. Porque se eu for explicar isso agora, eu tenho que dar outra aula de três horas. Aluno: Sobre um comentário feito em aula passada, eu gostaria de dizer que a Editora 34 está publicando a obra de Dostoievski e apresentando o trabalho como a primeira tradução direta do original para a língua portuguesa. Olavo: Isso é mentira. Teve vários tradutores: Paulo Rónai falava russo de trás para diante, Boris Schnaiderman era russo, e tudo isso está na edição da José Olympio. Eu não sei se todas as traduções que estão na coleção da José Olympio são direto do original, mas algumas eu tenho certeza que são. E esse Paulo Bezerra [tradutor das edições da Editora 34], eu não sei se ele é bom como tradutor, eu não li essas traduções, mas me mostraram uma vez uma introdução que ele fez, e era um besteirol atroz. Aluno: Sobre o curso, tenho duas breves perguntas: a transcrição de aulas, dita como material essencial do curso, está sendo feita? Olavo: Todas as aulas estão sendo transcritas, nós já temos várias transcrições prontas, estamos apenas com uma dificuldade de correção. Talvez sejamos obrigados a colocar as transcrições à disposição de vocês em estado bruto, portanto com a possibilidade de erros. Mas isso logo vai ser colocado à disposição de vocês. Aluno: Até que ponto a idéia da arte pela arte, devidamente rechaçada em Aristóteles em Nova Perspectiva, compromete a obra de autores como Oscar Wilde? Olavo: Oscar Wilde tem vários escritos que têm um sentido moral elevadíssimo. Há algumas fábulas que ele escreveu que podem ser usadas até para a educação de crianças. O fato de o sujeito ser o maior veado da paróquia, de levar aquela vida escandalosa, não quer dizer que não fosse uma boa pessoa, que não tivesse uma alta moralidade sobre outros aspectos. Aquilo ali foi uma fraqueza, ele se engraçou lá com o rapaz e tal, e aconteceu. Ele não deve ser julgado por isso. É um grande, excelente escritor, e embora ele às vezes proclamasse esse negócio de arte pela arte, o sentido moral de tantas obras dele é tão óbvio, que isso era uma coisa mais de pose — porque o Oscar Wilde era um cara muito engraçado, ele gostava de fingir, tomar umas atitudes mais para chocar; pour épater le bourgois. Mas acho que ele não acreditava nisso realmente. Esse negócio de arte pela arte, acho que ele nunca acreditou, senão não conseguiria... Por exemplo, tem uma história de que se chama O Gigante Egoísta. Leiam e vejam se aquilo não é uma coisa boa para educar, para a formação da moralidade das crianças. Está aí. Devolvemos a pergunta sobre as transcrições.O Silvio Grimaldo está lembrando que a tarefa de transcrições compete aos alunos do Seminário, e não à equipe. Todo mundo tem de colaborar nesse negócio. Vocês tem de ser bons uns para os outros e se ajudar. Quem quiser colaborar, entre em contato com o Eduardo Dipp. Todo mundo que puder, por favor, colabore. Transcrição é um negócio altamente trabalhoso e leva tempo; quanto mais subdividir, melhor. Tem mais de 30 pessoas participando e tem várias transcrições já prontas. A gente só está demorando porque eu, incialmente, queria colocar tudo corrigidinho, mas já vi que não vai dar. Aluno: Os livros do José Guilherme Merchior são adequados aos alunos do Seminário no momento? Olavo: Ele escreveu uma História da Literatura Brasileira que não terminou, chegou até 1910, mas que é sem dúvida a melhor que se escreveu. É uma pena que não terminou, mas pelo menos para conhecer literatura do século XIX, eu acho isso imprescindível. Eu gosto muito de um outro livro do José Guilherme Merchior, que poderia ser interessante para nós, não já, mas para mais tarde, que é Saudades do Carnaval, uma espécie de história crítica dos modelos educacionais. [pausa na transmissão] Na História da Literatura Brasileira, acho que o último autor de que o José Guilherme Merchior trata é o Raul Pompéia, salvo engano. Ele nunca completou essa obra, o que é uma pena porque, ainda que incompleta, é a melhor história da literatura brasileira que alguém já tentou. Ele tem realmente um compreensão muito profunda dos autores e é um excelente expositor. E há um outro livro dele que talvez possa nos ser útil mais tarde, que é Saudades do Carnaval, que é uma história dos grandes modelos educacionais, como se fossem modelos de personalidade do homem de estudos propostas ao homem ocidental ao longo da história. É um livro muitíssimo interessante, infelizmente ainda muito influenciado por aquele pessoal da Escola de Frankfurt, que para mim é um bando de charlatães. No começo eu adorava, eu lia Adorno, Horkheimer, achava os caras de uma profundidade extraordinária. Com o tempo eu fui vendo que aquilo é uma bolha de sabão. Mais tarde falamos disso. Quanto aos livros de polêmica pró-liberal que ele fez, eu os acho muito deficientes. Por exemplo, O Argumento Liberal, eu acho um livro fundado em uma premissa histórica absolutamente inaceitável, que é a de que antigamente o destino das pessoas era imposto pela sociedade, e hoje é um destino de livre-arbítrio. Isto é absolutamente impossível porque, se você pensar, os meios de educação que existiam na Idade Média, por exemplo, eram limitados, atingiam um pequeno número de pessoas. Comparando isso com o aparato educacional que hoje faz um massacre ideológico em cima das pessoas, eu digo que o cara da Idade Média estava muito mais livre que o de hoje [2:30] neste aspecto. Quando o Benedetto Croce diz que a história é a história da liberdade... Ah, sim! Vá perguntar para Hitler e para Stálin, porra! Como pode ser a história da liberdade? Quando você lê no Benedetto Croce A História como História da Liberdade, leia junto o livro do Bertrand de Jouvenel (Du Pouvoir), que é a história do poder, de como o poder vai crescendo, crescendo, e dominando cada vez mais as pessoas. Agora, tudo isso é um negócio dialético, você não tem uma solução simples. Nem a liberdade está crescendo em termos absolutos, nem o poder está crescendo em termos absolutos; há uma luta que, no presente momento, eu acho que o poder está ganhando. Durante o século XX ganhou, e acho que continua ganhando. Aluno: Em que medida a experiência musical é importante para o processo de enriquecimento do imaginário? Olavo: É fundamental, absolutamente fundamental. Porque você ouvir uma música e você assimilar... Antigamente eu dava este exercício aos meus alunos: você vai ouvir, por exemplo, a 5ª. Sinfonia de Beethoven, e depois ouvir de novo, e de novo, até conseguir assoviar a coisa inteira, porque aí é que você vai pegar a continuidade das experiências interiores que essa música sugere. E música é continuidade. Música é a arte que se desenrola no tempo; é uma sequência de emoções e experiências. É como se fosse um sonho acordado dirigido sem imagens, só com a repercussão interior. Você abstrai as imagens, mas a repercussão interior está lá. É muito importante não só ouvir boa música, mas decorá-la, comê-la. Às vezes acho que as pessoas ficam até irritadas comigo pelo número de vezes que eu fico tocando as mesmas músicas. Desde que eu ouvi, por exemplo, as Valquírias. Aquele final das Valquírias, que comentei no curso da É Realizações, eu escuto pelo menos três vezes por semana, e ainda não acabei de comer tudo o que tem ali. Aluno: O senhor também é autodidata em línguas? Olavo: Sem dúvida. Para mim, o único processo de aprendizado possível é o autodidatismo. Eu fico impaciente. Por exemplo, quando eu fui estudar alemão na Casa de Goethe, eles queriam que eu decorasse os nomes de quarenta tipos de salsichas. Bratwurst, Wienwurst. Eu fiquei revoltado com aquele negócio. O que eu fazia era pegar um livro e tentar ler. Eu tinha uma professora espetacular, a Daniela Caldas, então eu lia os negócios, fazia as traduções capengas e levava para ela corrigir e explicar onde eu tinha errado, e assim aprendi alguma coisinha de alemão. Só que até hoje eu tenho de ler alemão assim, traduzindo. Não consigo ler corrente, tenho que fazer a tradução de cada linha, senão não entendo. Tem gente que é capaz de aprender de outras maneiras, mas todos esses métodos que eles chamam de impregnação total, isto pra mim só me enlouquece, porque tudo isso foi feito para você aprender a falar. Agora, existe uma diferença enorme entre você aprender uma língua para falar e para ler. Tem um autor, acho que o Frederick Bodmer, que explica isso em uma frase. Ele diz que para falar você precisa saber um número limitado de palavras, mas que precisa estar na ponta da língua; mas para ler, você precisa saber mal uma infinidade de palavras, pois você não terá de recordá-las por si mesmo, você só vai recordar quando elas aparecerem. É um negócio que é mais vasto e de certo modo passivo. Eu nunca aprendi nada para falar, aprendi para ler e às vezes um pouco para escrever. Então esse negócio de conversação nunca me interessou, para mim é perda de tempo. Tanto que a primeira vez que vim aqui nos EUA, em 86, eu falava inglês, conversava com as pessoas, só que elas riam do meu jeito de falar, porque era muito pedante. Para pedir um cachorro-quente, falava aquilo em linguagem universitária, usando palavras de origem latina. Então eu perguntava se tinha falado alguma coisa errada e as pessoas diziam: “no, but it’s a little bizarre.” É o understatment, ou seja, completamente ridículo. Do mesmo modo quando eu cheguei na França. Quando fui fazer o teste na Aliança Francesa, eles já me colocaram no último ano; eu tinha aprendido do jeito que eu contei para vocês. Fui fazer o teste e me disseram: “não, mas o senhor já sabe muito francês, vamos colocá-lo logo no último ano”. Cheguei na França confiante dos meus poderes francófonos, e fui logo no prédio da UNESCO, onde tinha um senhor sentado na portaria. Eu disse “monsieur, s’il vous plâit, où est la delegacion brazilienne?”. Ele olha para mim e diz: “o senhor é português, não é?”. Aluno: Sempre tive o costume de escrever coisas enquanto lia uma outra coisa. Com relação a esse exercício de memória e percepção do Lavelle, tentar escrever pode ser uma continuação do exercício? Olavo: Pode, mas somente quando você aprofundar devidamente a experiência anterior. Você pode registrar algo de sua experiência anterior e até talvez seja bom que o faça, porque pode ser útil para outras pessoas. Mas no começo resista à tentação de escrever, guarde tudo dentro de você. Depois mais tarde, quando escrever, já vai ser um negócio mais definitivo. Aluno: Estou assistindo ao Seminário, mas não consigo entrar no chat. Olavo: Entre no Ustream. Você tem de se registrar lá senão não vai conseguir entrar no chat. Aluno: Gostaria de sugerir o programa IBM Via Voice, a fim de que as transcrições sejam agilizadas. Trata-se de um programa que descreve diretamente o que é dito, necessitando apenas acrescentar a pontuação. Olavo: É, poderia facilitar. Eu comprei um Via Voice e tentei domá-lo, mas ele insistia em escrever do jeito dele — escrever o que ele queria, e não o que eu queria. Talvez minha voz não tenha se adequado muito bem. Mas é uma sugestão boa. Aluno: Gostaria de fazer uma pergunta que acredito nada ter a ver com a aula de hoje, mas vamos lá. A maioria das questões que tem grande importância para mim são referente a Deus. No passado li vários livros de teologia. Em que medida isso ajuda ou atrapalha? Olavo: Isso só pode ajudar. Qualquer coisa que você faça para responder uma questão que realmente lhe interessa é boa para você. Eu só sugiro que você faça isso de acordo com o método que nós explicamos no começo, que é a formação da bibliografia, reconstituição do status quaestionis. Agora, por outro lado, uma coisa é você ter uma dúvida teológica, outra coisa é você ter uma dúvida existencial com relação a Deus. Se a dúvida é existencial, se é uma busca de Deus, então você terá de buscar através da oração, você vai ter de falar com Ele, falar, falar, até que Ele decida lhe dar uma resposta. Isso funciona. Aluno: Professor, o que o senhor acha do Elias Canetti? Olavo: Eu não conheço o Elias Canetti como romancista, só li aquele livro Massa e Poder, que parece uma boa análise sociológica. Ele como sociólogo é muito bom, agora não sei se como romancista também é. Falam muito bem, mas não sei. [2:40] Aluno: Acompanhando a aula de hoje, pude perceber sob certos aspectos uma relação com o filme de Truffaut, Farenheit 451, em que um grupo de bombeiros, certamente uma metáfora dos professores da USP, queimava livros encontrados em qualquer ambiente de uma cidade. Considerando a impossibilidade de veiculação material dos livros , graças ao ataque dos bombeiros, certos indivíduos se transformavam em livros-humanos. Assim o filme transmite o problema do ambiente adverso que força a consciência individual no sentido de absorver oralmente as obras clássicas. (...) Olavo: Maravilha! É isso mesmo! Temos que fazer de conta que estamos naquele ambiente do Farenheit 451, em que os caras estão queimando todos os livros, e a gente tem de decorá-los. Aluno: (...) Há algum paralelo entre a idéia do filme e a proposta dos exercícios desta aula? Olavo: Sem sombra de dúvida. Aluno: A latência é captada pela estimativa ou aquela ultrapassa o seu campo de atuação? É possível fazer esta relação? Olavo: A resposta é a seguinte: não sei. Eu acho que o conhecimento por presença é uma forma de conhecimento específica, e acho que nós temos uma capacidade específica de perceber esta presença latente. Eu acho que não é estimativa, é uma outra coisa que não foi nomeada na tradição filosófica, mesmo porque o conhecimento por presença raramente foi estudado. Existe alguma coisa disto na filosofia islâmica, mas a única exposição que eu encontrei, achei um pouco desastrada, porque o sujeito sabe muita filosofia islâmica e sabe muita filosofia ocidental, mas as referências que ele tem na filosofia ocidental são Wittgenstein, escola analítica, essa coisa toda, o que só vai confundir a guerra. Este é um problema que para mim ainda está em aberto. Eu diria, na verdade, que o conhecimento por presença é adquirido por confissão, por admissão. É uma coisa que você só começa a admitir quando realmente se abre para aquilo e começa a confessar para si mesmo o que você já sabe, sem fazer nenhuma crítica filosófica, sem analisar a coisa, mas somente relatando para você mesmo, como por exemplo no exercício do Narciso Irala. Note bem, esse exercício é apenas uma amostra parcial do que eu estou falando do conhecimento por presença. Mais tarde eu vou dar outros exercícios que tornarão isso mais claro. Eu acho que a estimativa pode entrar como uma contribuição, para completar o que não está sendo percebido, mas a percepção de latência em si mesma não é estimativa. Aluno: Era comum que outros manifestassem a meu respeito um conceito muito acima daquilo que eu de mim vislumbrava. De primeiro aquilo não me intrigava muito, porque eu achava falsa cortesia e exagero. Entrementes, Louis Lavelle dizia que os homens, embora não o percebam, comunicam entre si com o mais profundo de si mesmos, a ponta da alma que fala por meio da vocação — não me lembro as palavras exatas. O que ao interlocutor é evidência, ao homem a quem ele se refere é surpresa, por vezes grata, por vezes decepcionante. Até que ponto este testemunho, considerando que venha de pessoas sinceras, é indício do que se há de fazer? Olavo: Se é que eu entendi a sua formulação da coisa... em primeiro lugar, a avaliação que as pessoas fazem umas das outras, ela só é importante quando é uma avaliação positiva. Se alguém falar mal de você, mande passear. Agora, se for um elogio sincero, aquilo pode fazer bem. Só aceite críticas quando você mesmo as pedir. A não ser que seja uma pessoa que tem alguma autoridade sobre você, e da qual você precisa do parecer — um diretor de consciência, um professor, uma coisa assim —, e que você sabe que vai julgar a coisa com objetividade e seriedade. Fora isso, não ouça críticas e nunca fale mal de ninguém. Claro que isso não tem nada a ver com o combate cultural, que deve ser implacável. Mas, por exemplo, nunca diga coisas do tipo “fulano de tal é muito preguiçoso, ou ele é muito mulherengo, ou ele é veado etc.”. Isso é um vício que destrói a inteligência porque, de fato, só serve para você imaginar que é melhor que o outro. E para quê imaginar que você é melhor que o outro se você nunca será o outro? Que diferença fará ser melhor ou pior que ele? O que interessa é o seguinte: ser melhor hoje do que você era ontem, melhor que você mesmo — isto é a única coisa que interessa. Os outros nada poderão fazer por você; sobretudo, os defeitos deles, para quê vão lhe servir? Na minha casa isso é norma: não venha falar mal de ninguém. Entre os alunos também; um aluno que chega criticando o outro, eu já mando pr’aquele lugar na mesma hora. Se o sujeito tem um defeito, você vai lá e o ajuda. São coisas tão simples: não fazer fofoca, não criticar as pessoas por pequenos defeitos pessoais — que, inclusive, elas podem perder de um dia para o outro. Não perca tempo com essas bobagens. Se as pessoas falam bem de você, ótimo, pode acreditar. Se falarem com sinceridade que você é um gênio, pode acreditar. Não vai lhe fazer mal nenhum. Se você não for um gênio, ao menos desenvolverá o seu talento. Aluno: O que você recomendaria para iniciantes no estudo da psicologia, e onde na Europa encontro as melhores histórias desta ciência? Olavo: A capital da psicologia no Europa foi Zurique. Todo mundo que interessava morava ou deu aula ali durante um tempo. A Zurique durante os anos de 1920 a 1940, até o começo da II Guerra Mundial, e até depois continuou a ser um centro importante. A psicologia do século XX é uma coisa tão imensamente rica, e o que dela se ignora nas faculdades de psicologia no Brasil é até mais rico. Quando eu falava dos grandes psicólogos do século XX, falava do Szondi, por exemplo, ninguém tinha ouvido falar. Dentre os psicólogos formados em universidade, ninguém tinha ouvido falar. Falava do Maurice Pradines, nunca ninguém tinha ouvido falar; falava do René Le Senne, também não. Por isso eu pergunto: o que vocês sabem? Além de Freud e behaviorismo, não sabem é nada, são um bando de ignorantes. E em psicologia a coisa é ainda pior que na filosofia. O que eu recomendaria para você ler? Não recomendo para você ler, mas recomendo para você ter, o Tratado de Psicologia do Maurice Pradines — que é um livro meio difícil de achar. Não precisa comprar, nós vamos traduzir e soltar no Seminário, espere que você terá isso. Enquanto isso, se você puder ler os livros do Paul Diel, Psicologia da Motivação e Simbolismo na Mitologia Grega, são livros altamente sugestivos e que só podem lhe fazer bem. Aluno: Em primeiro lugar, parabéns pelo curso. Quero saber se os livros do professor Denis Rosenfield, José Giusti Tavares e José Guilherme Merquior são digníssimas exceções ao estado fecal da cultura universitária e editorial brasileira. Olavo: O Denis Rosenfield escreveu uma tese excelente sobre o René Descartes. Não são grandes descobertas originais, mas ele é um profissional deste estudo, ele sabe do que está falando. O José Giusti Tavares escreveu livros importantíssimos sobre a situação política atual do Brasil, inclusive sobre o PT. Ele é um homem que veio da esquerda, é um social-democrata, aliás, era. Outro dia ele disse “fui social-democrata minha vida inteira, mas agora descobri que só serve para ajudar comunista”. [2:50] Não diga que não avisei, né? E o José Guilherme Merquior — acabei de falar dos livros dele — não é um pensador original, não é um filósofo original. É um excelente crítico literário, acho que ele foi o melhor historiador da literatura que houve no Brasil. Justamente o ponto em que ele podia ter produzido mais, que era história da literatura, ele abandonou para fazer outras coisas. Mas, claro que são três autores que merecem atenção. Aluno: Estou aprendendo muito, apesar de ter perdido todos os meus antigos amigos... Olavo: Ora, mas para quê serve? Uma vez o meu filho Pedro, quando era pequeno, falou: “pai, vou pegar os brinquedos que não uso mais e vou dar para os meninos pobrezinhos”. Respondi que “muito bem, meu filho, é uma boa intenção”. Depois ele voltou dizendo que tinha mudado de idéia, que não os daria mais. Quando perguntei porquê, ele disse: “aí eles vão querer ficar meus amigos, vão me encher o saco”. Não procure muitos amigos não, vá pela qualidade e, sobretudo lembre-se da definição que São Tomás de Aquino dava para a amizade: amizade é querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Seu amigo é quem vai para onde você está indo e é leal a você nesta caminhada. Não é aquele que só tem uma simpatia passageira — porque no Brasil amizade parece que é coisa assim, de atração genética, que uma pessoa gosta, simpatiza com a outra, então diz que é amiga. Mas isso não quer dizer nada, a amizade tem de ser baseada em afinidades mais sérias, mais profundas e mais duradouras. Aluno: Sempre que o senhor discorre sobre os perigos da alienação na sociedade brasileira contemporânea, lembro-me de Otto Maria Carpeaux. Como um homem capaz de produzir tesouros magníficos como a História da Literatura Ocidental ou a História da Música definhou a ponto de terminar a vida assinando manifestos estudantis e escrevendo um pobre trabalho biográfico apologético de Alceu Amoroso Lima? Olavo: É realmente uma coisa espantosa. O Brasil destruiu o Otto Maria Carpeaux, ele chegou no auge da criatividade, tudo que ele escreveu de realmente bom foi escrito entre a sua chegada (acho que em 1939) e 1956. A partir dali começa a cair, cair... De vez em quando ele ainda levanta um pouco, como quem diz “Eu ainda sou o Otto Maria Carpeaux”, mas começa a fazer muita besteira, vai perdendo o gás, até que termina escrevendo aqueles artiguinhos políticos cheios de mentiras, tudo quanto era mentira do Partido Comunista. O Partido mandava escrever, ele escrevia igualzinho. Isso aconteceu, em parte, por causa do seguinte: eu tenho umas cartas do Otto Maria Carpeaux — que ainda pretendo publicar um dia, infelizmente não tive tempo de trabalhar nisso —, uma coleção de cartas dele ao seu melhor amigo, que era o Pedro Trompowsky, uma grande pessoa. Ali você vê que a esposa do Otto Maria Carpeaux estava assustadíssima, achando que a sua casa estava cercada, que eles estavam sendo espionados. Eles viveram em Viena sob ocupação alemã e passaram momentos de terror. Quando chegaram no Brasil o que houve contra o Otto Maria Carpeaux? Ele nunca foi preso e houve um único processo contra ele, em que ele depôs por duas horas e o próprio promotor cancelou o processo. Isso foi tudo. Ou seja, nunca foi espionado, perseguido ou coisa alguma — o total da perseguição foi isso. Mas eu sei como era o zunzum nos meios esquerdistas, um negócio altissimamente exagerado. Pelas notícias que me chegavam — e eu estava no meio esquerdista na época — a gente tinha a impressão que estava havendo uma noite de São Bartolomeu todo dia, que estavam matando gente pra caramba. Quando você vê, no fim de vinte anos morreram umas trezentas pessoas metidas na guerrilha, a maior parte em combate. Tem alguns que eu acho que foram de fato mortos na cadeia, mas a maioria foi morta em combate. Trezentas pessoas armadas que levam uns tiros ao longo de vinte anos, isso aí não é nada num país de dimensões continentais — enquanto em Cuba havia cem mil prisioneiros políticos ao mesmo tempo. Isso no Brasil não era nada; então porque todo aquele barulho? Até hoje, nada me tira da cabeça que isso aí foi uma reação, porque quando houve o golpe de 64, se espalhou que seria uma matança. Então, todas as lideranças comunistas fugiram para dentro das embaixadas, e não teve matança nenhuma: morreram exatamente duas pessoas em 64, uma delas por acidente. Depois que eles estavam nas embaixadas e viram os milicos tomarem o poder sem ter matado ninguém, ficou aquele negócio: “o que eu vou dizer lá em casa?” E o vexame desta covardia extraordinária? Lembro-me que nós, que éramos estudantes, saímos procurando as lideranças e elas haviam desaparecido! O Luiz Carlos Prestes fugiu com tanta pressa que até deixou em casa as cadernetas com os endereços de todos os contatos dele, facilitando a prisão de todo mundo. E aí se vê o terror pânico que deu. Esse terror pânico, esta covardia criou depois um complexo, então eles começaram a exagerar o perigo para não dizer que correram de coisa pouca. Muito compreensível, mas que é uma vergonha, isso é. Ficaram vinte anos aterrorizando seu próprio pessoal, sobretudo os jovens, aumentando os perigos! Uma vez, eu fiz uma pesquisa na escola de formação de oficiais da Polícia Militar de São Paulo, e ela tinha umas provocações políticas, pra ver como era a cabeça dos jovens oficiais, essa coisa toda. E, realmente, eu fui preso por causa disso. Pensei: “pô, vão me botar no pau-de-arara, vão me bater aqui...”, mas o sujeito me pôs numa sala lá e me deixou horas esperando. Era sexta-feira, fechou a academia, eu vi todo mundo saindo pelo portão, vi pela janela todos indo embora, as luzes apagando... “E agora? estou aqui preso, não posso sair, não posso pular pela janela, a porta está trancada, vão me deixar aqui para morrer de fome, ou então virão aqui me bater, me pôr no pau-de-arara, me dar choque elétrico...” Em pouco tempo, veio um tenente japonês, me fez duas perguntas e me mandou embora! Que anticlímax! Eu queria contar para as pessoas que fui uma vítima da ditadura mas, lamento decepcioná-los, não aconteceu nada. E acho que com muita gente foi assim. Tinha um sujeito que havia sido diretor de um jornal comunista no tempo da Intentona de 1935, que era regularmente preso; qualquer coisa que acontecia, ele era preso. Trabalhava comigo no Diário Popular em São Paulo. Mas era assim, o prendiam, chamavam o “Seu Antônio Pinto de Freitas!” — às vezes mandavam um tanque de guerra pra prendê-lo —, ele era levado lá pelos meganhas e meia hora depois já estava de volta. “Ah, me fizeram as perguntas de sempre e mandaram embora”. A muita gente aconteceu isso. Eu tive uma parenta que, quando estava presa, todo mundo dizia que ela havia apanhado tanto que tinha perdido um rim. Eu sei que eu estava com ela na véspera da sua prisão, e fui buscá-la no dia em que ela saiu da cadeia. Ela estava muito melhor do que quando tinha entrado: saudável, corada, gorda. Até hoje ela está na lista das “vítimas da ditadura”, mas ela morreu de velha na Suécia. Tudo isso aí é uma mitologia, uma auto-vitimização hiperbólica. Este ambiente de falsidade e mentira estragou muita gente, e tenho a impressão de que o Otto Maria Carpeaux, por ter vivido na Alemanha nazista, acreditou em tudo isso. Daí o que ele fez? Quem lhe ofereceu proteção foi o Partido Comunista, que tinha o monopólio dos empregos na mídia. Se você perdia o emprego num lugar, o pessoal do Partido já vinha com uma lista de oito empregos. Quem não era do Partido não tinha esta moleza. E o Otto Maria Carpeaux, por exemplo, quando faliu o Correio da Manhã — ele não perdeu o emprego, ninguém foi expulso; o Correio da Manhã faliu, não foi o governo que fechou — o próprio pessoal do Partido que arrumou outros empregos pra ele. Então ele devia acreditar em tudo que a turma do Partido contava e, você acompanhando os artigos dele, aquilo está cheio de mentiras grossas, estúpidas, que eu sei de onde vinham. É exatamente como o José Hamilton Ribeiro, repórter da revista “Realidade”, contou da cobertura que ele fez no Vietnã, onde ele pisou em uma mina e perdeu uma perna. [3:00] Ele disse o seguinte: “nós sabíamos que todos os nossos informantes eram agentes do Vietcong, e que eles estavam mentindo pra nós. Mas a gente aceitava, porque era bonito ser de esquerda”. Agora, eu acho que o Otto Maria Carpeaux nem sabia, acho que ele realmente acreditava que a casa dele estava cercada de tanques — se ele não acreditava, pelo menos a mulher dele acreditava —, e acreditou em todas aquelas besteiras que o Partido Comunista falou. Eu também acreditei na época, só que depois eu continuei estudando o negócio e vi: “pô! Me fizeram de trouxa!” E o Otto Maria Carpeaux não viveu o suficiente para isso. Eu sei o mal que esta impregnação de um ambiente de mentira faz pra pessoa. Agora, imagine aquele cara refugiado do nazismo, sentindo que fugiu daquele negócio na Europa e estava tudo acontecendo aqui de novo, é um terror pânico total. Ele então se agarrava ao pessoal do Partido como sendo a garantia dele. Isso foi acabando com a sua vida, ele mesmo disse um dia que a sua carreira literária estava esgotada, e que dali por diante ele somente se dedicaria à luta dos estudantes brasileiros etc. Suicídio intelectual. Ele morreu desesperado, deprimido. O Brasil faz isso com as pessoas. Eu vi o Brasil liquidar o meu amigo Bruno Tolentino, que era para ter desempenhado no país uma função pedagógica da mais alta importância. Era festinha daqui, puxação de saco dali, fofoca, falam mal, e ao mesmo tempo puxam o saco dele, o levam para as festinhas, oferecem cocaína, não sei que mais, cai para as gandaias — o bundalelê, como ele chamava — e acabaram com o sujeito! Ele no Brasil não fez praticamente mais nada, somente publicou o que já tinha escrito antes. O que ele tinha feito antes, o que ele trouxe debaixo do braço para o Brasil era uma verdadeira fortuna, um tesouro! Mas, no Brasil, ele não fez mais nada. O Brasil corrompe as pessoas. Aluno: A presença de que fala o Louis Lavelle é o mesmo conceito de que fala o Luigi Giussani? Olavo: Não sei, eu não lembro o que o Luigi Giussani disse a esse respeito. Muito provavelmente é, porque o Louis Lavelle era um autor católico, um filósofo católico extremamente influente nos meios católicos mais ou menos até os anos 60. Eu acredito que o Giussani se formou numa época em que as idéias do Louis Lavelle estavam circulando por aí. Então, provavelmente é a mesma coisa, mas eu não posso jurar. Aluno: Você não acha que, no caso de morte cultural brasileiro, o que aconteceu com o Otto Maria Carpeaux não é similar àquilo que aconteceu na Rússia com ???? (...) [3:03:25] e depois deflagrou na Revolução? Olavo: Eu vejo que na Rússia não houve propriamente uma decadência cultural, o período anterior à Revolução era um período de extrema criatividade e até os camaradas que foram embora, como o Berdiaev, continuaram produzindo coisas extraordinárias no mundo. Por exemplo, o Pitirim Sorokin, que era um cientista político, um sociólogo e que foi ministro do governo Kerensky, teve de sair correndo de lá para que não o matassem. Veio para os Estados Unidos e foi aqui que ele fez a sua grande obra de sociólogo, um negócio monumental. Então, eu nunca vi decadência cultural na Rússia. Lá houve perseguição, houve opressão, tanto no Czarismo quanto depois, cem vezes mais, no período comunista, mas eles não cederam. O que eu acho que destrói culturalmente as pessoas não é a violência, não é o terror; é a corrupção da alma. Os caras da nova ditadura mundial estudaram a experiência da União Soviética, da China, e concluíram que não podiam mais fazer daquela forma: seria melhor dominar as pessoas por meios não-aversivos. Então se trata de corromper e enganar as pessoas — e eu acho que isso é muito pior. Veja, quando acabou o comunismo na Rússia se viu que a fé religiosa do povo russo não tinha diminuído em nada; aquela propaganda anticristã maciça não funcionou. Funciona muito mais o que eles estão fazendo agora: “nós somos cristãos, mas temos de compreender as outras religiões”, e você vai se fundindo às outras religiões e fazendo uma espécie de pool inter-religioso. No fim, o Papa vira um representante do ecumenismo, do diálogo ecumênico. E isso estraga tudo, isso corrompe muito mais, destrói a fé, porque tudo vira palhaçada, teatro. E quando tudo vira teatro, as pessoas não confiam mais naquilo. Você quer cristianismo? Ah, meu filho, então você vai ter de mostrar aqui os santos cristãos, as aparições de Nossa Senhora, os milagres, tudo isso. Não é vir com essa conversa bocó de que temos de ser tolerantes etc. Tolerantes? A sua religião funciona? Me mostra aí os milagres, o que o seu deus faz? Não fez nada? Então não me interessa — é muito simples. Porque uma coisa são os sistemas de crenças; democraticamente, tem-se que aceitar que o sujeito tenha qualquer crença, pode acreditar no que ele quiser. Alguns sistemas de crença são nobres, elevados etc. Mas outra coisa é a realidade de Deus como presença agente, o que não depende da sua fé religiosa — Ele age porque quer. Ele recomenda que você tenha fé, e recompensa sua fé de alguma maneira; mas se você não tiver, Ele não pode agir. Que fé tinha São Paulo Apóstolo quando Deus o derrubou do cavalo? Tinha fé nenhuma! Foi iniciativa de Deus e isso que é a coisa decisiva, a ação divina e não a sua religião. Isso não é uma questão de crença, é uma questão de realidade. Desde que eu descobri isso deixei de me interessar por esse assunto. Eu estudava antigamente religiões comparadas etc., e perdi cem por cento do interesse; porque o que interessa comparar religiões? Vamos supor que eu morra e vá pro Juízo Final, no que isso vai me ajudar? Em nada, porque lá tem um Deus que eu já não compreendia antes e vou compreender menos ainda, e estou na mão d'Ele, que fará o que quiser! Então só isso interessa. Você pedir a Ele que quebre o seu galho, é só isso. Aluno: Minha dúvida é sobre Paul Ricoeur. Ele tem um livro que fiquei curioso para ler, parece tratar de um tema pertinente a temas interligados que creio terem figurado em muitas de suas últimas aulas: a memória, a história e o esquecimento. O livro se chama justamente "La Memoire”. É recomendada a leitura, tem relação com os temas de que tratamos? Olavo: Especificamente esse livro do Paul Ricoeur eu não li. Eu acho que na obra do Paul Ricoeur tem muita coisa interessante sobre essa coisa da hermenêutica. Tudo isso pode ser bom, mas não sei se isso teria alguma utilidade para nós agora. Mas também tem certos aspectos muito fracos, onde ele cede aos ídolos do tempo. Sinceramente não sei o que lhe dizer, se você quiser ler, leia, mas não diga que fui eu que mandei. Bem, é hora de terminar. Até a próxima semana e boa noite! [fim da transmissão] Transcrição: Daniel Berça, Eduardo Queiroz, Djane Bouças de Carvalho Britto, José Correa de Melo, Luíza Monteiro de Castro, José Manoel Domingues, Rodrigo Fernandez Peret Diniz e Ronald Pinheiro. Revisão: Marcelo Hamnickel, Mariana Belmonte Revisão final: Wilson Castro