Curso Online de Filosofia Olavo de Carvalho Aula 07 16 de maio de 2009 [versão provisória] Para uso exclusivo dos alunos do Curso de Filosofia Online. O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor. Por favor não cite nem divulgue este material. [COF20090516] Boa tarde a todos. Sejam bem-vindos novamente a esta comunidade dita virtual! Queria começar a aula justamente meditando um pouco sobre o sentido desse virtual. Por que nós dizemos que esta comunidade é virtual, e não atual, ou real? Virtual é a palavra que vem de virtus, de potência — quer dizer que não é uma coisa que está efetivada. A palavra ''atual'', em filosofia, usa-se frequentemente como sinônimo de ''efetivo'', sem conotação temporal, sendo, neste caso, o oposto complementar do virtual. Nós dizemos que esta comunidade é virtual porque a comunicação só se dá através dos computadores e não com a presença física das pessoas. Se vocês prestaram atenção naquele exercício do necrológio, verão que a sua biografia, tomada como um todo, é sempre virtual, porque fisicamente aquilo tudo não pode estar presente, ou seja, a unidade da sua vida — a unidade que você fecha no final quando conta a sua vida, ou quando alguém a conta — só existe "virtualmente". Isso que você chama de sua personalidade também só existe virtualmente, ela não pode estar presente fisicamente em um momento e em um lugar. A personalidade de um indivíduo é algo que nós percebemos ao longo de várias condutas dele, de várias conversas que temos, e de depoimentos de terceiros. Com isso, nós formamos uma imagem e sabemos que essa imagem é realmente aquela pessoa, embora essa imagem não possa ser vista, nem estar presente fisicamente em parte alguma, ou seja, as pessoas com quem você convive são todas virtuais, nenhuma delas é atual. Se nós fôssemos reduzir o nosso conhecimento do mundo àquilo que é atual e presente em modo físico, esse mundo se reduziria drasticamente. Você estaria, mais ou menos, na situação de um doente que, sem memória, acabou de acordar em um hospital sem saber onde está, recebendo apenas os estímulos sensoriais físicos daquela situação presente. Assim, você estaria praticamente reduzido a uma inconsciência ou a um estado de consciência tão diminuído que estaria até mesmo abaixo do de um cachorro ou um gato, porque esses animais também se orientam com relação a um certo passado e a uma certa expectativa do futuro. Até os cachorros vivem em um mundo virtual. Por exemplo, a cachorra que acabou de ter seis filhotes. Ela sai para comer alguma coisa, para fazer um ''pipi'' lá fora, e quando volta ela reconhece aqueles cachorrinhos como sendo os dela. Esse reconhecimento não é nada de real, pois ela está pegando uma conexão virtual. A identidade dos cachorrinhos, a perseverança deles na sua identidade, não é um dado físico, mas um reconhecimento, ou seja, é algo que depende da memória da cachorra. Quer dizer, a unidade dos filhos dela, o reconhecimento de que são os mesmos cachorrinhos, depende da memória dela, é algo que se efetiva na memória e não como presença física real. Toda esta dimensão que nós chamamos, por exemplo, a sociedade humana: como é que você sabe que vive dentro de uma sociedade? A presença na sociedade é ainda mais virtual do que estas que eu estou mencionando. Você não pode perceber a sociedade fisicamente presente em parte alguma, mesmo porque ela se espalha por um espaço que para um indivíduo humano é fisicamente inabarcável. Quantos milhões de quilômetros quadrados tem o Brasil? A sociedade "brasileira" está espalhada por [todo esse território], e você não tem nenhum acesso físico a isso. Também, você não tem acesso físico a todas as leis. O que é são as leis? As leis são um sistema de reações possíveis que algumas pessoas investidas de autoridade e poder terão se acontecer isto ou mais aquilo. Por exemplo, se você deixar de pagar um imposto, eles lhe cobrarão uma multa; se estacionar em lugar proibido, eles lhe darão, também, uma multa; se cometer um assalto, um estupro, um assassinato, você será punido. Quer dizer, tudo isso é virtual: se isto, então aquilo. Você lê o Código Penal e lá tem uma série de prescrições que dizem o que acontecerá se você fizer isto ou aquilo. Tudo isso é hipotético e, no entanto, é esse conjunto de leis que rege, de fato, as relações entre as pessoas. O Código Penal ou o Código Civil ainda tem a vantagem de que eles estão escritos. No entanto, existem uma série de leis não escritas, uma série de hábitos, de costumes, de reações que as pessoas terão, que também não estão fisicamente presentes, mas com as quais você conta: se fizer isto, então vai dar aquilo; se se comportar desta ou daquela maneira fulano não vai gostar, o outro vai achar ruim, e pode-se perder o emprego. Por exemplo, não está dito em parte alguma que não se pode chegar no emprego pintado de verde. Mas se você se pinta todinho de verde, da cabeça aos pés, e vai no seu emprego trabalhar como se nada tivesse acontecido, é certo que isso vai causar uma incomodidade, e você pode ser considerado um sujeito inconveniente e perder seu emprego — ainda que não haja nenhuma lei, nem nada no regulamento da empresa, que o proíba. Todos nós contamos com uma infinidade de reações possíveis e a nossa conduta é toda pautada pela expectativa dessas reações possíveis que são virtuais. Se são possíveis, são apenas virtuais. Então, isto é para vocês perceberem que o ser humano vive, de fato, em um sistema de virtualidades, que ele não vive em um universo físico. O universo físico é um componente ínfimo do mundo humano. A quase totalidade das coisas, com as quais nós nos relacionamos, são puramente virtuais: pessoas, situações, fatos. É neste mundo virtual que nós efetivamente vivemos, isto é, o virtual é efetivo. E o mundo físico? O físico é que é virtual, porque as situações físicas só se efetivam rarissimamente. De todas as expectativas e regras tácitas, ou regras expressas que regulam a sua conduta, só uma parte ínfima se manifestará fisicamente no presente. Quando, por exemplo, o Código Penal determina que você sofrerá tantos anos de prisão se fizer isto ou aquilo, só uma parte ínfima das pessoas vai viver realmente essa situação. Pequeníssima parte vai cometer o delito e, da parte que cometê-lo, muitos ainda escaparão às garras do Estado, de modo que só uma parte ínfima sofrerá a punição. Então, a realidade física da situação prevista é raríssima: ela é que é virtual e é potencial. O que é atual, o que é presente na vida das pessoas, é esse conjunto de expectativas virtuais dentro do qual nós vivemos. À medida que nós crescemos, acontece uma coisa muito estranha: nós vamos passando cada vez mais do atual para o virtual, isto é, o virtual vai se tornando o atual para nós. Um bebê recém-nascido vive apenas dentro do mundo da estimulação física direta. Quando sente fome, ou sono, ou dor, ele chora, pois não prevê situações futuras em que isso pode acontecer: ele vive muito em função daquilo que já está presente, que já está fisicamente manifesto. Com o tempo, ele vai aprendendo a se relacionar cada vez mais com esse universo do virtual, do possível.[00:10] Por exemplo, quando ele se acostumou com certo brinquedo, ele reclama quando falta aquele ursinho, aquela boneca. Ele quer que a mãe vá buscar o ursinho, que não está presente, e não existe nenhum indicador físico, no corpo da criança, da ausência dele. A ausência do ursinho não dói, não cria frio, não cria calor, não cria incomodidade, é um negócio puramente virtual que se passa na mente do bebê. Ele criou apego àquele brinquedo, e ele sente a falta dele. Mas o sentir falta de um brinquedo não é a mesma coisa que sentir fome — a palavra [sentir] é a mesma, mas a experiência real é diferente. A fome se apresenta através de um mal estar físico intenso. Agora, o sentir falta de um brinquedo, ou de uma pessoa, ou de um cachorrinho [é diferente] — o garoto chegou na sala procurando o cachorrinho, e o cachorrinho não estava, então ele sente falta. Mas onde é que ele sente falta? É na barriga, é na cabeça, é no pé? Não é fisicamente, você não consegue localizar isso aí. Neste momento, ele já entrou na rede das relações virtuais, que é o mundo onde efetivamente nós vivemos. Na vida diária, nós simbolizamos aquilo que é real e o distinguimos do falso, do imaginário, etc., mediante o símbolo da presença física. Mas isso é apenas um símbolo, uma figura de linguagem: o fisicamente presente é apenas uma figura de linguagem. Na maior parte dos casos, a distinção entre realidade e fantasia não tem nada a ver com o atual e o virtual, é completamente diferente. Por exemplo, se um sujeito está sendo investigado por um crime, e você descobre as provas que atestam que ele é inocente ou culpado. Quando você tem a prova, diz: ''Esta é a verdade: ele cometeu este crime, ou ele não cometeu este crime''. Muito bem, esse crime não está fisicamente presente. O juiz não viu o crime, os advogados não viram o crime, os jurados não viram o crime, o publico todo não viu o crime e talvez não haja sequer testemunhas. Tudo isso é uma coisa que se passou em um passado que é irrecuperável fisicamente. Esse passado só pode subsistir em documentos, em testemunhos, é como se fosse um passado de papel. Quer dizer, o crime, o ato do crime, já não está mais fisicamente presente. Quando você descobriu a verdade sobre o crime, ele já não está mais fisicamente presente, e ele não é renovável. Você não vai pedir para o assassino matar a pessoa de novo, para comprovar que ele é assassino mesmo. Então, nós vivemos nesta rede de sinais do passado e de expectativas, antecipações do futuro que compõem exatamente esse mundo virtual. E quando nós usamos a realidade fisicamente presente como símbolo do que é verdadeiro, do que é efetivo, nós estamos usando apenas uma figura de linguagem. Cada um de vocês vive em um mundo virtual e a sua existência, neste sentido, é virtual. A sua própria biografia, as suas expectativas, as suas emoções, os seus gostos, as suas alegrias e tristezas, tudo isso — absolutamente tudo — é vivido em um mundo que não está fisicamente presente, mas que pode ter alguns indicadores físicos. Por exemplo, o estado de tristeza pode trazer algum mal estar físico também, mas você sabe que esse mal estar físico não é a tristeza, ele é apenas um indicador. Se do estado de tristeza você tirar todos os elementos e sobrar só os indicadores físicos, você verá que será muito difícil discernir esse estado de outros estados emocionais desagradáveis. Além do mais, os sinais da tristeza aparecerão diferentemente em pessoas diferentes. Vocês já viram se existe aquele famoso tipo, a menina gordinha que quando o namorado larga, ela vai direto para a geladeira e se enche de comida? Eu sei que isso existe porque eu já vi. Mas, eu sou exatamente o contrário: se eu fico triste, eu não como. Aí você vê que os indicadores físicos, a sensação de fome, ou a sensação de rejeição da comida, podem ser ambos indicadores do mesmo estado psicológico. Isto quer dizer que esse estado não se identifica com os seus sinais físicos. À medida que crescemos, nós vamos penetrando em círculos cada vez maiores de virtualidade. Por exemplo, quando você aprende a falar, entra em um círculo de relações imensamente maior do que você poderia ter só pela presença física. E todas essas relações são reais para você, elas estão presentes, você as sente como presentes, embora não estejam fisicamente presentes. Se, por exemplo, uma pessoa lhe diz algo desagradável, ela fisicamente não lhe fez nada. Se ela lhe diz uma frase humilhante — ou se diz: ''Eu não gosto de você, você é uma besta quadrada'' —, ela não lhe deu uma pancada, não lhe deu um pontapé, não puxou sua orelha, não pisou no seu pé. Por que que isso lhe faz mal? O que faz você ficar triste ou ofendido diante disso? É a expectativa que você faz de outras reações e situações possíveis que podem decorrer daquilo: não é nenhum estímulo presente. Através da linguagem, abre-se uma rede de virtualidades imensamente maior. Você chega um ponto em que já pode contar a sua história. Veja que crianças pequenas não contam a sua história. Dificilmente. Elas estão muito ocupadas com a conquista de círculos de experiências cada vez mais amplos; então, não têm tempo de voltar para dentro e recordar o passado. Mas, à medida que as suas experiências se acumulam, você conquista, por assim dizer, um passado: você tem sua memória, tem sua história. Essa história não está mais presente, mas você pode senti-la como se estivesse: os momentos alegres e tristes que você viveu, as expectativas que se cumpriram e as que foram frustradas, e assim por diante. Então, isso que eu estou dizendo é suficiente para você ver como qualquer visão do ser humano que seja centrado na sua realidade física é falsa. O homem vive dentro de um mundo de símbolos, de expectativas, de virtualidades — é aí que nós vivemos. Todo o universo que nós chamamos de história é assim: tudo que se passou no passado não está mais fisicamente presente, você só tem sinal daquilo através de resíduos escritos que lhe permitem imaginar o que se passou. Então você imagina, por exemplo, a batalha de Waterloo, ou a crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou a descoberta da América. Tudo isso se refaz na imaginação das pessoas presentes: é nesse mundo do imaginário que existe a história para nós. No entanto, nós sabemos como a história pesa sobre nós, sabemos como essa rede de relações que se chama sociedade também pesa sobre nós. Tudo isso pesa sobre nós, tudo isso limita e, às vezes, determina a nossa conduta — ou pelo menos determina as possibilidades de ação que nós ainda temos. Nós sabemos que em cada momento da nossa vida há coisas que ainda podemos fazer e outras que nós não podemos. [00:20] Por quê? Por causa do nosso passado. É uma experiência muito simples que você faz se tira o seu extrato bancário. Você olha [na conta] que acabou o dinheiro. Por que que acabou? Porque você já gastou, no passado. Então, esse passado pesa sobre o presente, embora o passado, por ser passado, já não esteja fisicamente presente. Nós somos muito mais oprimidos por esse tipo de coisa do que pela presença física de obstáculos e dificuldades. Quando identificamos o real com o fisicamente presente, nós estamos cometendo um erro absolutamente pueril, porque o real é o fisicamente presente para um bebê recém-nascido — e somente para ele — ou então para o doente que acaba de acordar desmemoriado, ou por uma pessoa reduzida a suas funções mais elementares. Para essas pessoas, o fisicamente presente é o real, é todo o real; para todas as demais, o real é o que nós chamamos de virtual. O real é constituído de um sistema, de uma rede imensa de possibilidades anunciadas por sinais ou símbolos. Ora, à medida que nós vamos crescendo e penetrando em círculos cada vez mais amplos e complexos de virtualidades, isso não quer dizer que a nossa linguagem — com linguagem eu não quero dizer somente as palavras, mas a linguagem e o imaginário todo, todos os meios que você tem para se comunicar com os outros e consigo mesmo — cresça na mesma proporção e se torne capaz de expressar os novos círculos de experiência com toda a riqueza e complexidade que eles têm. Ao contrário, a nossa linguagem pode ficar presa dentro de uma rede de simbolismos absolutamente pueris, símbolos de bebês, isto é, você tem experiências mais complexas e, no instante em que as tem, você as compreende, mas não é capaz de refletir sobre elas porque não tem os símbolos adequados, os seus símbolos estão presos à linguagem do bebê. A sua linguagem pode expressar apenas as experiências físicas mais imediatas. Isso quer dizer que o descompasso entre a ampliação progressiva do círculo de experiência e a ampliação da linguagem dos meios de reflexão é um dos grandes problemas da espécie humana. A educação existe, entre outras coisas, para suprir isso. Por quê? Que o círculo de experiência cresça é inevitável: à medida que você cresce fisicamente, e que tem outras possibilidades de ação que não tinha como bebê, é normal que sua experiência vá se ampliando. Porém, os seus meios de refletir sobre a experiência não crescem naturalmente, eles teriam que ser aumentados pela educação. Quando a educação falha em dar isso, as pessoas começam a viver em dois andares: um é o círculo da sua experiência real, daquilo que elas realmente vivem, sentem, experimentam, antecipam, temem, desejam etc.; outro, é o mundo daquilo que elas são capazes de refletir e expressar em palavras. O descompasso é tão grande, tão grande, que, na maior parte dos casos, as pessoas consideradas em si mesmas são muito mais interessantes do que aquilo que elas são capazes de dizer de si próprias, ou seja, como a linguagem e o meio de reflexão é deficiente, a pessoa se banaliza. Ela diminui a riqueza da sua experiência e acaba criando uma auto-imagem simplificada que não corresponde à realidade daquilo que um observador mais experiente e mais equipado consegue perceber nela. Considerado objetivamente, não há pessoas simples ou simplórias. A mente mais simplória é enormemente complexa, porque ela tem uma história, tem uma memória, e contar a história de uma pessoa simples pode ser uma dificuldade enorme. Contar com uma certa exatidão, com uma certa fidedignidade a história de uma pessoa simples pode ser uma dificuldade tão grande que alguns dos maiores escritores da humanidade pularam como cabritos para fazer isso. Agora, por exemplo, eu estou lendo as obras do grande escritor português Aquilino Ribeiro. Os personagens do Aquilino Ribeiro são realmente camponeses, pessoas simples, mas, para contar a vida deles, ele usa todo o vocabulário da língua portuguesa, é um dos escritores de vocabulário mais ricos que eu já vi. Se elas fossem contar suas próprias vidas, não conseguiriam perceber em si mesmas o que ele está mostrando ali. Então, é este descompasso entre a experiência real e a consciência que a educação visa a suprir. Para isso, ela tem que transmitir em primeiro lugar os meios de expressão, sobretudo os meios de expressão linguística, tem que ensinar as pessoas a dizer o que se passa na sua experiência real. Acontece o seguinte: a experiência humana é infinitamente variada, cada indivíduo humano tem a sua própria história, suas próprias circunstâncias, suas próprias memórias, etc. E a linguagem, quer dizer, o vocabulário em uso em um determinado meio social é mais ou menos o mesmo para todas as pessoas. Você tem formas de expressão mais ou menos padronizadas. Somente os escritores — e quando falo escritor, não digo qualquer um que publique livros, eu estou falando de escritores que trabalham dentro de uma tradição literária, que tem consciência dessa tradição e que aprenderam com ela, isto é, escritores de fato — se dedicam a flexibilizar a linguagem e enriquecê-la de modo que ela possa expressar experiências reais. Daí por que o aprendizado da literatura é essencial — não no sentido em que ele é aprendido nas faculdades de Letras, porque nas faculdades de Letras as obras de arte literária se transformam em objetos de estudo, elas é que são o objeto. Ora, uma coisa é você saber usar uma linguagem e outra coisa é você tomá-la como objeto de estudo. Por exemplo, você pode saber tudo sobre mecânica de automóveis sem saber guiar um automóvel. Mecânica de automóvel você aprende em um livro. Um garoto, que mal tenha aprendido a ler, pode ler um livro de mecânica de automóveis e aprender tudo, mas ele não sabe guiar, quer dizer, o pé dele não vai nem alcançar o acelerador, o breque, a embreagem. Por outro lado, você pode dirigir um carro perfeitamente bem sem ter a menor idéia de como e por que aquilo funciona. Basta isso para você perceber a diferença que existe entre apropriar-se da linguagem como meio efetivo de expressão e estudar as obras de arte da palavra como objetos. Esses dois enfoques são tão diferentes que esse segundo pode se tornar um obstáculo ao primeiro, porque quando toma algo como objeto, você se desidentifica dele, perde aquela relação [00:30] próxima, cálida, afetuosa com o objeto e o considera friamente como uma coisa que está separada de si. Agora, pergunto eu: o que acontece quando pessoas que não têm o domínio efetivo, o domínio prático da linguagem, começam a estudar obras de arte literária como objetos? Elas se imbecilizam definitivamente. Assim, tornam-se pessoas incapazes de expressar sua experiência real e somente capazes de tecer considerações sobre objetos que elas não têm a menor idéia para que servem. Então, é muitíssimo importante que nesta fase dos nossos estudos vocês não estudem obras de arte literária como objeto. Aqueles que, entre vocês, têm a infelicidade de ser alunos de faculdades de Letras, por favor, façam abstração do que aprenderam lá. Vocês têm que tomar posse das obras de arte literária como uma criança que está aprendendo a falar. Você vai ter que aprender a falar como esses escritores, de modo a poder usar os instrumentos que eles criaram — os giros de linguagem, o vocabulário, a sintaxe — como um instrumento seu. O que você tem de aprender é a imitar esses escritores. Imite um, depois imite outro, e outro, e outro — vai imitando vários. Dessas várias imitações, você irá, aos poucos, compondo o conjunto de instrumentos expressivos que lhe interessa para os seus próprios fins. Depois de ter essa experiência viva das obras de arte literária durante muitos anos, você vai ter uma coleção de exemplos de artes literárias na sua mente, e você já terá absorvido o que essas obras podem lhe dar. Depois disso, você pode, talvez, considerá-las como objetos e entrar em estudos literários. Mas se você fizer isso antes, estará lesando a sua mente. Do mesmo modo, os estudos de gramática. Você deve aprender a gramática imitando escritores e não estudando gramática. O estudo da gramática faz sentido depois que você tem o uso da linguagem — daí você vai analisar aquelas estruturas e dar o nome delas. Eu não aprendi nada de gramática até os trinta e dois anos, e eu escrevia perfeitamente, de maneira inteiramente gramatical, porque eu tinha lido centenas de bons escritores e tinha assimilado todos aqueles truques de linguagem. Não são bem truques, mas instrumentos expressivos. Eu simplesmente escolhia dentro do que eu tinha na memória — as palavras, as construções, os encadeamentos — tal como eu necessitava. Se você começa por estudar gramática e tem a preocupação da correção gramatical no início, você nunca vai aprender a escrever, vai ficar sempre um camarada artificial. Uma coisa é a linguagem como instrumento real, vivo para seu uso; outra, é a linguagem como objeto de estudo. Tanto a gramática como os estudos literários tomam a linguagem como objeto de estudo e não como objeto de uso. Uma coisa que para você é só objeto de estudo e não objeto de uso é uma coisa morta, que não tem validade, presença pessoal. Vocês vão ler os escritores com esta idéia de aprender a expressar o que eles expressaram. De início, você vai ver que eles usam uma linguagem pessoal para expressar algo que estão querendo dizer, algo que está na imaginação deles, na memória deles ou nos sentimentos deles. Mas, aos poucos, quando tiver lido vários [escritores], você vai ver que esses esquemas servem para situações análogas suas. A imitação é extremamente importante, pois é nela que você vai aprender a modular o tom conforme as necessidades precisas. Eu recomendo que quando comece a ler um autor — não em filosofia, mas em literatura —, você leia, de preferência, a obra inteira dele ou pelo menos as obras principais, justamente para assimilar o estilo, e que imite servilmente o modo dele escrever. Depois, você vai imitar outro [escritor] que vai te libertar das imitações do primeiro, e outro, e outro, de modo que os males da imitação serão corrigidos pela própria imitação. No fim, você vai ter um repertório tão grande que verá já não estar mais imitando ninguém, estará escrevendo como você mesmo. Isso é uma coisa que deve acontecer naturalmente. Não tenha, portanto, essa preocupação de originalidade no começo. A originalidade na expressão literária é uma conquista e não uma obrigação. Você não tem a obrigação de ser original no começo, você será original se puder, quando chegar lá. Eu considero que esse aprendizado literário é absolutamente fundamental para a filosofia. A filosofia se expressa também de palavras e usa todos os recursos da expressão literária e mais alguns que a expressão literária não conhece, porque ela vai passar da simples expressão à reflexão. E não somente à reflexão, mas à busca da verdade através da reflexão. Todo o mundo da literatura é o mundo da expressão de experiências. [A literatura] não está especulando o que essas experiências significam universalmente, por isso é que você não consegue tirar conclusões morais de uma obra de arte literária. Na conclusão moral, você está passando da mera expressão da experiência para uma reflexão mais profunda, em face de critérios que se pretendem universalmente válidos. Se o romancista ou novelista fosse parar para fazer isso, ele não ia poder acabar de contar a história, porque a mente dele se complicaria de tal modo com questões teoréticas que ele acabaria escrevendo um tratado de filosofia moral ou de psicologia. A passagem da expressão literária à reflexão não é nem uma passagem direta. Na Teoria dos Quatro Discursos existe um primeiro andar, que é a expressão da experiência — a poética —, e existe um segundo andar, que é a retórica. Na retórica, você já não está mais falando apenas de universos possíveis. Aristóteles diz que as obras de arte literária contam não aquilo que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido. Mesmo quando você está contando uma história real, por exemplo, um romance histórico, você o está contando não como real, mas como possível. Ora, o discurso retórico é um discurso, em primeiro lugar, de auto-justificação, que é a favor ou contra alguma coisa, portanto ele implica uma escolha pessoal. Essa escolha já não existe na obra de arte poética, porque ela é apenas o mundo possível. [00:40] Você não está ali sendo convidado a tomar uma atitude, está apenas contemplando a complexidade das escolhas colocadas a personagens reais ou hipotéticos, mas o problema que está em jogo é deles e não seu. Por exemplo, quando Hamlet descobre que um sujeito matou o pai dele, o que ele vai fazer? Ele vai perdoar ou vai vingar-se? Isso felizmente não aconteceu para a maior parte de nós, nós não temos esse problema. Porém, existem algumas escolhas na vida que você tem de fazer realmente. Você vai ter que se persuadir delas e persuadir os outros de que você está certo — aí é que você entrou na retórica. Na retórica é que entra o problema das escolhas pessoais, dos valores pessoais, e só depois disso — só depois de você ter feito muitas escolhas pessoais e ter percebido contradições entre elas — é que vai entrar o exame dialético, que é a confrontação dos vários discursos retóricos possíveis. Isso quer dizer que na passagem do estudo literário para a filosofia vai haver um salto. Esse salto é dado através da retórica, que é o mundo das escolhas pessoais, da vontade, do poder, da influência, da política, da propaganda. Ora, portanto esse é o mundo que implica a mediação de toda a sociedade humana. Quando decide agir assim ou assado em face de certas circunstâncias, você toma uma atitude pessoal e a justifica, está usando os valores que você imagina que o público em volta acredita, como justificação para uma conduta especial sua. Você está fazendo uma mediação: a sociedade, tal como você a concebe, está funcionando como mediadora entre a sua conduta e o público ou ouvinte para o qual você quer justificar aquilo. Se você não tiver um certo domínio disso, não vai chegar à reflexão. A seqüência dos quatro discursos é a seqüência natural da educação humana. Primeiro você aprende a imaginar o mundo, ou seja, aprende a conquistar uma linguagem que seja suficientemente rica, ampla e flexível para dar conta da sua experiência real e simplesmente expressá-la, dizer o que está acontecendo. Em seguida, você entra na esfera das atitudes e escolhas pessoais, na esfera do exercício da moralidade, no qual surge o problema do certo e do errado, do preferível e do preterível, do melhor e do pior, não justificados em termos abstratos e universais, mas usados como legitimação das suas próprias ações e das suas próprias escolhas. Só depois de ter usado essa linguagem — de ter aprendido a usar a linguagem como um instrumento para influenciar as pessoas —, é que você pode refletir. A segunda etapa, da retórica, é da conquista de um poder. A reflexão filosófica não foi feita para crianças, mas para quem é capaz de exercer esse poder e atuar como um cidadão, um membro adulto da sociedade humana capaz de exercer um poder, de dar e receber ordens, de influenciar, de persuadir e, portanto, de induzir os outros a fazer o que ele disser que façam. Só a partir desse momento, é que a reflexão filosófica começa a fazer sentido. Aqui tem uma pergunta interessante: Aluno: O senhor disse que a leitura de ficção é importante para mostrar ao leitor as possíveis situações da vida e torná-las familiares quando eventualmente ocorrerem. Isso se refere apenas àquela ficção possível? Como ficará a ficção imaginária que extrapola a realidade, como naquele filme brasileiro ''Se Eu Fosse Você'', no qual os dois protagonistas trocam de corpo. Ou a ficção científica, como o ''Super-homem'', etc.? É claro que a imaginação é a única função pela qual podemos conhecer o possível. A função específica dela é essa. Acontece que a especulação do possível nem sempre se dá sob a forma da reprodução exata das imagens literais que expressam o possível, pode-se expressar através de símbolos que o condensem, e, neste caso, histórias aparentemente impossíveis podem expressar possibilidades reais. Porém, nos últimos tempos tem aparecido uma série de histórias, sobretudo no cinema, nas quais situações que são realmente impossíveis, são vividas como se fossem possíveis. Isso só serve para paralisar a sua imaginação. Você está entrando na esfera de hipóteses tão rebuscadas que raciocinar sobre elas é uma perda de tempo. Por exemplo, a história do Exterminador do Futuro: o sujeito que retorna ao passado para modificar retroativamente o seu próprio futuro. Você pode usar isso como uma especulação em torno do problema da responsabilidade: se você em tais ou quais situações pudesse ter agido de modo diferente, o que teria acontecido? Se essas histórias são usadas nesse sentido, então pode até funcionar. Mas não esqueça que é próprio da linguagem poética conseguir compactar dimensões da experiência que geralmente aparecem separadas e que só se compactam na linguagem. Por exemplo, a história do Kafka, do sujeito que acordou e percebeu que tinha virado uma barata — isso só acontece na dimensão da linguagem. Ele vai juntar numa só frase a consciência humana de poder refletir sobre o seu estado com a experiência de ser tão desprezível quanto uma barata. Mas a barata não tem essa consciência. Isso só pode se fundir na linguagem poética propriamente dita. Se você pega uma história como a do Super-homem: o que você faria se você tivesse tais ou quais poderes? Você pode raciocinar nesse sentido, porém seria mais plausível fazer isso por etapas e não saltar direto do seu estado de impotência para um de quase onipotência. Além disso, existe uma espécie de coerência imaginativa: aquilo que está sendo proposto como história tem de ser coerente com ele mesmo, senão entra um componente extremamente sério que é [00:50] a mistura da imaginação com o raciocínio hipotético. Imaginar uma sequência de acontecimentos é uma coisa, fazer hipóteses é outra. Fazer hipóteses é uma atividade da razão construtiva, que pode conceber coisas que vão muito além da imaginação. Por exemplo, em matemática, você consegue lidar com unidades que são inimagináveis: n235 — você pode raciocinar sobre isso, mas não imaginá-lo concretamente. Ora, a imaginação trata do mundo da experiência concreta e real, seja imaginada de acordo com a memória — como as experiências foram vividas mesmo —, seja compondo e misturando como faz, por exemplo, o Kafka, misturando a autoconsciência humana com o estado de barata. Porém, quando a imaginação começa a ser serva do raciocínio hipotético, ela perde vida e começa a ficar uma coisa artificiosa. Se se acostuma com essa linguagem artificiosa, você perde a sua capacidade expressiva. É melhor que você use a imaginação tal como ela aparece ou no seu mundo da memória ou como ela aparece nos seus sonhos. Quando a imaginação mistura coisas diferentes, ela mistura de tal maneira que consegue expressar compactamente coisas que estão muito afastadas entre si mas cuja junção faz sentido: como o exemplo da barata, que estou dando. Porém, o raciocínio hipotético consegue conceber coisas que não fazem o menor sentido, que são puras construções mentais e que escapam da expressividade da humana, seja a experiência real, seja a experiência imaginária. A maior parte do que hoje se faz como pretexto de ficção científica, ou de filmes de horror, é exatamente isso. É forçado e artificioso demais, não tem nada a ver com a experiência humana interna ou externa, são meras hipóteses racionais coloridas de imagens. Isso perde a força simbólica e torna-se mera alegoria. O que é alegoria? É uma imagem inventada para dizer alguma coisa que podia ser dita de outra maneira. Ora, a verdadeira linguagem poética consegue dizer coisas de tal modo que você não conseguiria dizer de outra maneira. É melhor conservar essa linguagem imaginária e literária para aquelas coisas que não podem ser ditas de outra maneira. Fora disso, você entrar num mundo de especulações hipotéticas que são puros produtos lógicos, mas sem consistência lógica. Eles não têm persuasividade. Quando você assiste um filme como 3:10 to Yuma, com Russell Crowe, e tem aquele problema do menino com o pai, aquele drama humano todo, você vivencia aquilo como se estivesse efetivamente acontecendo. Mas quando você assiste ao Super-Homem, o que acontece? Vou dar outro exemplo: você assiste 3:10 to Yuma, Senhor dos Anéis e Super-Homem. No primeiro caso, você está vivenciando como se fosse um drama real. Você sabe que não é real, mas faz a ''suspension of disbelief'' (a suspensão da descrença) e vivencia aquilo como se fosse um drama real, portanto com os valores morais reais envolvidos e as emoções respectivas. Quando assiste ao Senhor dos Anéis, você vivencia como se fosse um sonho. E o Super-Homem? Ele não pode ser um sonho porque parte de uma premissa logicamente inventada e não de um símbolo que pudesse aparecer em um sonho. O Super-Homem, tal como ele aparece na história, com aqueles poderes específicos, é logicamente definido como uma hipótese — não é um elemento de sonho, um elemento onírico, nem é imaginário, ele é hipotético. O que você está fazendo ali é transitar dentro do mundo das hipóteses idiotas. O que você está fazendo é perder o seu tempo. Mas isso não se refere a todas as histórias de ficção científica. Por exemplo, eu assisti a um filme, há muito tempo de atrás, de um cineasta russo, chamado Solaris, que era um planeta onde, de repente, apareciam pessoas do nada — elas apareciam e depois desapareciam. Com o tempo, você vai vendo que o planeta é como se fosse um cérebro gigante que transforma em pessoas reais as pessoas que você imagina. Então, se o sujeito está pensando na mulher dele que ficou no planeta Terra, ela aparece. Só que não é a mulher, é uma imagem criada. Essa confusão entre o imaginário real é própria do imaginário, isso não é uma hipótese. Está expressando aquele verso do Heinrich Heine: “Eu sou a ação dos teus pensamentos”. Esse é um símbolo que tem uma força tremenda. Não vicie a sua imaginação com jogos idiotas. Tente ficar ou no mundo do que você imagina e concebe como real, um mundo existencialmente admissível, ou dentro da linguagem onírica, a linguagem dos mitos e lendas etc. Quando a imaginação está muito logicamente estruturada, tem treta. É próprio da linguagem onírica e dos mitos a transformação dos símbolos: eles estão continuamente se transformando em outras coisas. Quando você vê uma coisa como o Super-Homem, onde a regra do jogo é imutável, então aquilo é realmente um jogo, não é o imaginário, isto é, o sujeito inventou uma regra de jogo e, em seguida, preencheu de imagens. Você tem o direito de perguntar: por que eu tenho de jogar esse seu jogo? O que eu vou ganhar com isso? Alguém me enviou uma pergunta que não está aqui, mas que é interessante. [1:00] Ele diz: Aluno: Tentei fazer o exercício do necrológio, mas acho que os meus planos e as minhas ambições são excessivas, são pretensiosas demais. O que eu faço? Você vai fazer o seguinte: vai pegar essas pretensões que tem e vai escrevê-las como se você as tivesse realizado. Vamos supor que eu quisesse ser imperador do mundo. Então, eu escrevo a biografia: morreu ontem o imperador do mundo, etc etc. O julgamento da adequação disso, da proporcionalidade, da razoabilidade é para depois. Primeiro, vamos ver quem você realmente quer ser. Se você mesmo diz que é presunçoso demais, precisa ver se realmente quer ser essas coisas. Então, esse exercício do necrológio é um exercício de sinceridade, é feito para você perceber, através daquilo que aspira, quem você realmente pode ser. Em geral, é assim: quando você tem uma aspiração e ela é mais ou menos permanente, ou você vai ser aquilo ou não vai ser nada. Se você mesmo acha que as suas aspirações são desmedidas, é porque no fundo você não as deseja, mas apenas desejaria desejar. No entanto, eu estou falando de desejos reais, de coisas que você realmente quer fazer e que, se não fizer, você vai considerar que a sua vida foi perdida. Pegue dentro de você o que existe de melhor, que gostaria de ver realizado e que se morrer depois de fazer essas coisas, você, por assim dizer, morra satisfeito. Se você mesmo considera que as suas ambições são excessivas, provavelmente é porque considera que dá perfeitamente para viver sem realizá-las. Têm esses dois lados: por um lado você tem de levar a sério o que você deseja; por outro, você tem de ver se realmente leva a sério isso. A sua carta — eu não lembro o nome da pessoa —, como é uma coisa íntima, é melhor nem dizer o nome, mas ele vai saber de quem eu estou falando. Essa sua dúvida mostra ainda que você está tendo uma dificuldade de falar sinceramente consigo mesmo. Porque se você disser que quer ser um gênio das artes, das ciências, da filosofia... Bom, qual é o problema? Eu não vejo que isso seja excessivo. Precisa ver também o que você considera excessivo, se excessivo é excessivo mesmo. Eu acho que você está tendo dificuldade de falar a sério com você mesmo, está tendo dificuldade em acreditar nos seus sonhos e aspirações. Então, talvez, os seus sonhos e aspirações não sejam bem esses. Em suma, o problema que você coloca é uma oportunidade áurea para você aprender a falar com você mesmo. Aluno: Existem aberturas, janelas para um plano de idealidade para o qual possuímos uma potência limitada que nos impulsiona por uma vida transcendente, para uma vida que, de certo modo, já está idealizada, gravada no nosso próprio ser com a potência ou tendência que só se realiza por uma vontade própria. Uma liberdade é uma livre escolha do ser humano. Podemos negar esse chamado ou aceitá-lo, pois essa liberdade de escolha seria a contemplação amorosa do ser divino? Quando aceito esse chamado que me atrai para uma vida puramente espiritual, fazendo-me desejar um desligamento desse plano de realidade no qual estou inserido, mas, ao mesmo tempo, esse plano de realidade não pode ser esquecido ou abandonado pela minha própria vontade, exceto pelo suicídio — pular uma etapa. Caso contrário estaria negando a própria realidade empírica e assim não contemplaria o sentido último da vida humana? A sabedoria seria saber administrar a tensão entre esses dois planos? Existem basicamente três planos: 1. Plano empírico, plano terrestre, começo e fim com abertura para o transcendente; 2. Plano ideal, idealidade, plano celeste ou imortalidade, plano ao qual aspiramos e possuímos a potência para tal; 3. O Todo, Deus, o Infinito, o Eterno, Desconhecido. Vamos direto ao ponto: eu acho que você está complicando a guerra. No meu plano, eu não disse quem você pretende ser na eternidade, eu estou falando da sua biografia aqui. E também não estou falando do seu julgamento moral, da sua absolvição ou condenação no Juízo Final — não é disso que eu estou falando. Os seus planos e suas ambições têm que ser vistos como coisas que vão se realizar neste mundo aqui, não importa as dificuldades que hajam. Agora, com esta questão nós entramos em um outro problema de ordem cultural, que é um problema seríssimo. Na sociedade brasileira, existe uma força tremenda para que as pessoas não percebam o que eu falei, no começo da aula, desse mundo das virtualidades, que é o mundo no qual nós efetivamente existimos. A linguagem da cultura brasileira é toda a linguagem da presença física imediata, e ninguém pode pensar nada acima disso. Isso já é antigo no Brasil. Eu não conheço um país onde o mundo do ideal e mundo do real, como você o chama, estejam tão separados quanto no Brasil. Porque a realidade do ser humano é o trajeto dele em direção a um ideal, a um objetivo — esta é a única realidade que ele tem, não há outra realidade. Se, como acontece no Brasil, o que se chama de realidade é apenas um mundo da rotina mais acachapante e mais estúpida que você pode imaginar, então você já perdeu a guerra desde o início. O Brasil é o país das vocações frustradas, é o país onde é normal ser fracassado e onde dar certo é uma exceção que requer um milagre divino ou uma intervenção diabólica. Só as pessoas diretamente ajudadas por Deus ou pelo diabo é que dão certo no Brasil, os outros são todos fracassados e isso é considerado normal. Portanto, o que a sua família, os seus amigos e o seu meio social vão te ensinar é conformar-se com a derrota. Só que isso é uma espécie de ilusão nacional, é só no Brasil que vigora. Se você atravessar a fronteira e for para a Argentina, o argentino já não vive isso. E quando o argentino chama o brasileiro de ''los macaquitos'', é isso, em parte, que ele está querendo dizer: são pessoas que vivem uma forma diminuída de existência, são pessoas que não têm acesso àquilo que verdadeiramente constitui a existência humana — vivem abaixo da existência humana, porque acreditam nisso. E é só porque acreditam, pois não há nem mais meio motivo para que as coisas sejam assim. Por exemplo, outro dia um rapaz escreveu-me dizendo o seguinte: ''A filosofia será uma coisa de elite, porque a gente precisa comprar livros e os livros custam caro etc.'' — a gente vê que quando ele fala o negócio de elite, [01:10] há um certo elemento de inconformidade ou de revolta. Então, eu comecei a pensar e reparei o seguinte — não que eu reparei naquele momento, eu já tinha reparado antes: na cultura brasileira, a necessidade que você tem de trabalhar, prover o seu próprio sustento, é vista somente como uma imposição absurda de um mundo mau, não como um dever. O resto do mundo inteiro, praticamente a humanidade inteira, sempre soube que o dever de você prover o seu próprio sustento e o sustento dos seus, mais do que uma necessidade, é um dever, um dever moral, uma coisa que tem significação moral em si mesma e que o sujeito que se recusa a isso nunca vai ser gente. Agora, no Brasil, é assim: o normal seria não ter que fazer isso, ou seja, se eu preciso de dinheiro para pagar as minhas contas, isso é apenas uma imposição absurda do universo hostil em cima de mim. [Esse dever moral] é uma coisa que não existe dentro do sujeito, ele não quer fazer isso, ele não sente aquilo como o apelo de um dever e como parte da sua vocação, ele acha o contrário: ''Tenho aqui a minha vocação por um lado e, por outro, tenho a necessidade de ganhar dinheiro''. Meu Deus! Isso é uma visão tão artificiosa das coisas, porque se você não prover a sua própria subsistência, alguém vai ter de provê-la. Parece que no Brasil a idéia fundamental é esta: justo é que os outros me alimentem, se eu tenho que me alimentar a mim mesmo é injusto. Agora, o outro, aquele que vai sustentar você, não tem o direito de pensar assim, ele tem o dever de sustentar ele mesmo e mais você. Ora, uma sociedade baseada nesses princípios nunca pode dar nada, só pode dar cinquenta mil homicídios por ano mesmo, o governo do PT e o ''mensalão'' — só pode acabar assim, gente! Quando digo que o Brasil é hoje o país mais burro e mais assassino do universo, eu não estou xingando, estou dizendo uma realidade cientificamente comprovada. Os nossos estudantes são os piores do mundo, eles se saem pior do que alunos de países muito mais pobres, e o Brasil é recordista de homicídios por ano. Então, é o povo mais burro e assassino do mundo. Por que é que chegou a ser assim? Por causa desse tipo de mitos e de mentiras impregnadas na cultura. Por exemplo, eu sugeri que vocês lessem o livro do Orígenes Lessa, O Feijão e o Sonho, em que o sujeito quer ser um escritor, mas ele tem de trabalhar e a mulher dele está grávida: de um lado, a necessidade do feijão e, de outro, a necessidade do sonho. Isso é típico da cultura brasileira. Meu filho, o dever que você tem de trabalhar, de se sustentar, de prover as suas próprias necessidades e a da sua família, é parte integrante da sua vocação. Se você se recusa a fazer isso, você não merece que a gente lhe dirija a palavra, porque você é subumano, é um ladrão. O sujeito que acha que os outros, ou que a ''sociedade'', tem a obrigação de sustentá-lo — e não ele mesmo — e, ainda assim, pensando com essa idéia baixa, nojenta, porca, ele quer ser um escritor... um sujeito desses tem de apanhar! Tem de apanhar e muito, e não é para explicar porque está batendo: ''Olha, eu vou bater em você e não vou te dar explicação nenhuma, só vou parar de bater quando você entender por que é que eu estou batendo!''. Dificilmente eu conheço um brasileiro que não tenha esse problema na cabeça. ''Ah, eu não posso estudar, porque eu tenho que trabalhar etc. etc.'' — mas só as pessoas que têm que trabalhar é que podem estudar, meu filho. Em primeiro lugar, quantas horas você acha que aguenta estudar por dia? Eu, que tenho prática de mais de quarenta anos, hoje, consigo produzir razoavelmente uma vida de estudos de quatro horas por dia. No começo, você não aguenta mais de uma ou duas. Portanto, você precisa apenas de uma ou duas. O que é que o seu trabalho tem a ver com isso? Nada. Sem tivesse o dia inteiro livre para estudar, você estudaria uma hora. E se você tem de trabalhar de dia e só tem [horário livre] de noite, você vai estudar quanto? Uma hora. Não vai fazer a menor diferença. Tudo isso é baseado numa crença cultural que cria uma oposição entre as pessoas e a estrutura da realidade. Coloca elas numa situação de idealidade absurda, e como essa idealidade não se realiza, elas acham que elas estão sendo vítimas. Ora, eu, no começo da minha vida, tive muita sorte de ler Goethe. Ele era um sujeito que tinha toda uma ética do trabalho, e dizia: você tem de fazer o que é do seu dever, ou seja, você tem de trabalhar, que pagar suas contas, que criar os seus filhos — tem de fazer tudo isso. Não vem com essa história de que você é artista e não pode fazê-lo. Que tipo de gente são os artistas que fugiram as suas obrigações? Jean Jacques Rousseau? É disso que você está falando? É Jean Jacques Rousseau que você quer ser? Jogar os filhos num orfanato para poder fazer a sua carreira literária? Sua carreira literária vai ser uma merda como foi a de Rousseau, que escreveu uma obra toda cheia de mentiras, sem substância, que só vai fazer mal para a humanidade. É isso o que você quer fazer? Se você não é capaz de se sustentar, então saia daqui, moleque! Vá embora, eu não quero você como meu aluno. Arrume um emprego, torne-se um homem decente e volte. É assim mesmo. Eu já fiz essa aula no sábado porque eu sei que tem gente que trabalha durante a semana e não pode. E a carga de leitura e de estudo que eu estou dando para vocês é muito pequena, tendo em vista isso. Agora, vem gente com choradeira. Só no Brasil que acontece isso, é uma marca da cultura brasileira. Vou dizer da onde vem essa marca. Vou ler um negócio aqui pra vocês. É um depoimento feito pelo poeta Jorge de Lima, em 1942. Ele está falando do movimento Modernista: ''Para compreender, então, o Modernismo, devemos nos recordar da influência do grande Graça Aranha, que foi, não há dúvida, o maior animador do movimento. Graça Aranha pretendia impor normas filosóficas à revolução com a sua estética da vida. Pretendia que o homem brasileiro atingisse a unidade vencendo a natureza que o esmagava. Era chavão repetir: no Brasil, só o homem é pequeno, dentro da colossidade da natureza. Aconselhava o reformador que o homem brasileiro vencesse o terror, o medo metafísico, a compreensão subjetiva impregnada de supostos atrasos que a deturpava. Aconteceu, porém, o contrário. Os modernistas brasileiros compreenderam que, ao invés do que aconselhava Graça Aranha, o homem devia se entregar as suas tendências naturais, as suas pretendidas deficiências e identificar-se com a exuberância da sua natureza, a sua metafísica mesmo saturada de superstições. Esse amálgama de inferioridade (…)'' Preste bem atenção, isso foi uma decisão tomada nos anos 20, por uma geração de escritores, artistas, pintores, músicos brasileiros, que marcou o desenvolvimento da nossa ‘’cultura superior’’ até hoje. O Graça Aranha tinha escrito aquele romance, O Carnaum, no qual há uma cena terrível de uma moça pobre que tem um filho e é mãe solteira. Então, na hora de dar à luz, ela se esconde, tem o filho no mato e os porcos comem o bebê dela. [01:20] Com isso, [o escritor] estava simbolizando a total impotência do ser humano perante à natureza. Ele tinha essa idéia de que para criar uma grande cultura, nós tínhamos que vencer essa coisa, tínhamos que vencer o terror da natureza, os impulsos primários, o sensualismo brasileiro — e ele estava certíssimo. Só que a turma decidiu o contrário: ''Não, nós temos que partir para o telúrico , para as sensações primárias etc.'' Acontece o seguinte: o mundo das sensações primárias, o mundo da presença física, é o mundo do total isolamento do ser humano, porque ele só consegue juntar-se, juntar forças, no mundo do virtual. Se ficar apegado ao sensorial direto, cada um está isolado no seu sensorial direto como bichinhos que ficam impotentes perante à natureza e não conseguem se juntar para fazer nada. Por isso é que o brasileiro hoje vive nessa impotência, pois não é capaz de se organizar para resolver esses problemas, mesmo elementares. Ele fica esperando que o governo os resolva, mas acontece que os caras que estão no governo pensam igualzinho a ele. E daí fica toda esta babaquice de culto a religiões animistas e carnaval e candomblé etc. Tudo isso, que só faz mal para as pessoas, já devia ter sido extindo há muito tempo e tem de acabar. Enquanto continuar com essa babaquice, vão continuar os cinquenta mil homicídios por ano. Se você pensar, o que é carnaval? É uma farra sangrenta. Por que acham isso tão lindo? Porque são uns idiotas que acreditaram nessa geração de pseudo-intelectuais. Quem aguenta ler os poetas do Modernismo, hoje? Ninguém aguenta, aquilo é de um artificialismo, de uma babaquice sem fim. Para sair uma literatura boa... note bem, veja o contraste. Em 1926 houve um segundo Modernismo no Nordeste, inspirado pelo Gilberto Freyre — não foi o Modernismo paulista. E dali sairam grandes escritores: Graciliano Ramos, José Lins do Rego. No livro do José Lins do Rego, Cangaceiros, que é um livro que eu acho que todo mundo devia ler, tem uma mensagem que todo brasileiro devia meter na cabeça. A história é a seguinte: um casal de lavradores pobrezinhos são pegos ali no meio de uma guerra entre coronéis do sertão e cangaceiros. Lógico que os cangaceiros ora fazem acordos com os coronéis, ora brigam etc., e os coitadinhos no meio daquele negócio levando chumbo em tudo quanto é lado, sem poder fazer nada. Porque eles nunca sabem o que vai acontecer, nunca sabem onde estão os cangaceiros, onde é a guerra, eles estão completamente perdidos. Até que aparece um cego, que é um desses cantadores de feira, e ele é um sujeito que vai de cidade em cidade, ouvindo a vida das pessoas e guardando tudo na cabeça. Então, ele tem o fio da meada. E, graças ao cego, aquele casal consegue mudar, ir para um outro lugar e se salvar. Eu acho que é um grande livro! O pessoal dá muito mais valor a outros livros do José Lins do Rego, mas eu acho que esse é uma obra-prima mesmo, porque é o nascimento da civilização, através da linguagem. O poder da linguagem unifica os vários dados dos sentidos, transfere os caras do mundo daquela atualidade física atomística, quebradiça, separada, para o mundo onde as coisas têm unidade. Então, eles percebem o sentido e sabem o que fazer. A cultura brasileira até hoje não deu esse salto, que era o que estava propondo o Graça Aranha — é isso o que nós temos que fazer. Agora, para isso, exige-se um certo sacrifício. Você não vai sacrificar nada de substantivo, vai sacrificar bobagem: o carnaval, esse apego ao sensualismo imediato — tudo isso tem de ser transcendido. Transcender não quer dizer que você vai matar essas pessoas, mas que vai colocá-las dentro de um quadro maior onde elas adquirem a sua justa proporção. O que você tem de fazer é passar do sensualismo imediato para o virtual — é como na minha Teoria das Camadas da Personalidade, você tem de subir de camada da personalidade. À medida que vai crescendo, você vai conquistando novos critérios de integração da sua personalidade, em função de novos objetivos que você determina e que dão o senso de unidade cada vez mais elevado e abrangente. Se você ficar apegado a essas coisas, que o Modernismo cultuou, você não vai passar da segunda camada, que é a instintiva. No mundo dos instintos, não existe unidade, porque não existe nenhum instinto contínuo. Você não pode ter fome, sono ou desejo sexual vinte e quatro horas por dia — o instinto é quebradiço. A pessoa que vive pelo instinto não tem personalidade, ela é só um monte de pedaços que não se juntam. Daí resulta essa atitude brasileira com relação ao trabalho: ''Existe o mundo da necessidade e existe o mundo do ideal'' — não existe nada disso, isso é sonho, é maluquice! Não existe, minha gente! Os obstáculos, as dificuldades materiais, etc., são a substância do seu plano de vida. O seu plano só faz sentido dentro disso. Se você tivesse nascido no Paraíso, lá ninguém tem plano de vida. Nós só temos que ter um plano de vida porque existem coisas que se opõe ao plano de vida. Essas coisas que se opõe determinam, inclusive, a forma do seu plano de vida. A primeira coisa que você tem de ver é que o plano de vida tem de ter um sentido moral para você, ele tem de ser o trajeto que vai na direção do que é algo que você entende como um bem. Você não pode dar um passo em direção ao bem, se não entende o trabalho, o sustento próprio, como um dever, mas apenas como uma necessidade imposta de fora, como se fosse trabalho escravo. Trabalho escravo é o trabalho que não adianta o escravo realizar, porque ele não pode se realizar através desse trabalho. Mesmo assim, se você estudar a História, você verá que inúmeros escravos dignificaram a sua condição de trabalho escravo assumindo-o como um dever. Não só no Brasil. Leia os discurso de Epícteto, que foi um filósofo grego que era escravo de um sujeito que não prestava e que só o maltratava. O que fez Epícteto? Ele pensou: eu não posso ser filósofo por que eu sou escravo? Não. A própria condição de escravo era o ponto de partida da sua filosofia, que é evidentemente uma filosofia moral. Essa relação que as pessoas estabelecem entre o ideal e o real — o que elas chamam de real — tem de ser totalmente mudada no Brasil. [1:30] Isso é um dos objetivos fundamentais do que eu estou ensinando. Se eu conseguir modificar só isso na cabeça de meus alunos, eu já terei feito uma grande coisa, porque pela primeira vez o Brasil vai ter uma geração que considera que o trabalho não é só uma necessidade, um castigo infernal, mas um dever de bondade — bondade para com os outros em primeiro lugar, porque se você não trabalha, alguém vai ter que trabalhar por você, portanto você vai virar o senhor e ele escravo. O Brasil é uma nação de escravos em que os caras não estão se queixando da escravatura, mas só de que os escravos são eles e que o senhor é o outro. Se a situação se inverter, ele vai ficar satisfeito. Um país onde as pessoas pensam assim já começa com um nível moral muito baixo, desde a educação doméstica. Na educação doméstica, se a pessoa tem grandes planos, grandes ambições, a família já trata de reprimir o cara: “Não, não é nada disso. Você está enganado. Você tem de viver na realidade. Você tem de fazer o concurso do Banco do Brasil.” O que uma mãe deve fazer? Ela deve reprimir o sonho do cara? Não! Ela deve dizer: “Não, meu filho, você vai para frente, vai fazer a sua coisa. Segue o caminho que você tem de seguir e não se esqueça da sua velha mãe, [pois] vai chegar uma hora que eu não vou poder trabalhar e você vai ter que me ajudar. Então, você vai ter dupla carga: vai ter que fazer o que tem de fazer e mais 'eu'.” É isso que uma mãe faz, honestamente. O problema da sociedade brasileira vem de muito longe, de uma série de crenças malignas que estão incrustadas na sociedade e que não deixam as pessoas se realizarem. A primeira é esta: meu ideal de um lado e a realidade do outro. Se você começou assim, já matou seu ideal de cara. E mais ainda, você não merece ter ideal e não merece realizá-lo porque quer construir uma vida baseado numa fraude, na exploração do próximo. Eu leio muito os livros portugueses, e a imagem que tinham dos brasileiros no século XIX, em Portugal, era medonha, mas correspondia à realidade. O brasileiro era visto como um sujeito carreirista, fútil, desonesto, malandro, que enganava todo mundo, que ficava rico e que não tinha dó de ninguém, só pensava nele mesmo, um cara egoísta. Tem um versinho do Camilo Castelo Branco em que ele descreve o Palheiro, um bairro, acho que no Porto, que tinha vários tipos pitorescos, exóticos, que podiam ser observados. Entre os vários tipos descritos — “Lá você vai ver isto, vai ver aquilo...” —, tem um versinho que é assim: Há de ver o milionário Brasileiro, com mil tretas, A contar, com sujas cores, As lendas dos seus amores Com as suas trinta pretas. [Retirado de “Folhas caídas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhã”. Porto, 1854.] O brasileiro era isso! Era um sujeito que tinha um monte de escravas e ficava comendo todas elas. Era isso o brasileiro em Portugal. E até hoje o brasileiro reclama é disso. Ele quer ser um senhor de escravos que tem lá trinta pretas peladas para servi-lo o tempo todo. Compreende-se que você queira isso, [mas] o que não se compreende é você ficar revoltado por não ter e achar que os outros têm a obrigação de lhe dar. Se você é pobre, a sua pobreza é o seu ponto de partida e você tem de aprender a se comportar como um pobre decente. O que é um pobre decente? É um sujeito que trabalha com a consciência do seu dever. É o que o Cristo mandou: cada um tem de carregar sua cruz. A cruz não é um castigo infernal — que vem depois —, mas a estrutura da realidade. Se você não arca com a realidade, o que significa a sua idealidade? Significa somente uma futilidade, um peido mental. Então você mesmo se desvaloriza. Aluno: Sobre o necrológio: quando faço o exercício percebo que existe um centro da minha pessoa que troca constantemente de personalidade ou papéis, mas esse centro parece um vazio escuro. Não sei se entendi o que é o necrológio. Meu filho, esse vazio escuro é da onde saem as suas decisões. Não é para você vê-lo, é para você sê-lo. Esse centro que você não vê, e não vai ver jamais, é o centro criador, meu Deus do Céu! Os papéis são apenas estruturas criadas, que ele mesmo criou e que ele mesmo desfaz. Esse centro é a parte ativa do negócio. Ao fazer o necrológio você vai estar projetando para o futuro os sonhos e aspirações que saem daí. Esses sonhos e aspirações não serão retratados com exatidão, porque você vai expressá-los com os instrumentos e com a imaginação que você tem agora. Isso vai mudar muito no decurso da vida, não no sentido de que vai ser totalmente alterado, mas no sentido de que vai se tornando cada vez mais adequado e mais real. É na adaptação de seus objetivos à situação real — essa situação real que outros amaldiçoam, mas que é preciosa, na verdade — que eles adquirem veracidade e realidade. É o negócio do Ortega y Gasset: “Yo soy yo y mi circunstancia.” O necrológio é apenas uma imagem temporal do “eu” projetado no futuro. Este “eu” se realiza na circunstância concreta. É na tensão entre o “eu” e a circunstância concreta que vai se dar a sua verdadeira história. Se amaldiçoa a circunstância concreta, você vai se realizar onde? O que de fora o limita, o constrange, o empobrece, na verdade, tudo isso é precioso, porque é ali que você vai realizar o negócio. Se não for ali, não será em parte alguma. O que você está se queixando é que lhe falta uma auto-imagem. Para que você precisa de uma, se ela é apenas uma imagem? Este “eu”, que é você, é o “eu criador”. Ele não está ali para ser contemplado. Você não pode contemplá-lo porque seria como chupar cana e assobiar. Você não pode andar de bicicleta e observá-la ao mesmo tempo, andar de automóvel e desmontá-lo ao mesmo tempo para saber como ele funciona por dentro: ou você faz uma coisa, ou faz a outra. Uma coisa é o “eu” como imagem, outra coisa é o “eu” executivo, o “eu” agente. Ele só lhe parece escuro porque é desde lá que você está olhando o resto. As imagens parecem muito claras, só que não existem, são apenas produtos dele. Esqueça isso. O que você vai fazer é, realmente, uma seqüência de imagens. [1:40] Essa seqüência de imagens não vai ser o seu verdadeiro “eu”, nem a projeção dele, mas apenas a imagem que agora você forma desse futuro e que terá que retificar muitas vezes ao longo da vida. Aluno: Qual livro você indica para quem deseja saber mais sobre a história da literatura no Brasil?Tem a coleção da História da Literatura Ocidental do Otto Maria Carpeaux. Existe algum livro tão bom, mas direcionado para o conteúdo da literatura brasileira? Uma das primeiras coisas que o Otto Maria Carpeaux fez quando chegou ao Brasil foi realizar a bibliografia da literatura brasileira. Ele publicou um livrinho chamado Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira. Quando fez isso, ele não havia lido todos aqueles livros, fez para poder lê-los. Ele foi procurando cada autor e os conceitos dominantes da crítica a respeito deles e com isso organizou uma lista. Tem defeito? É claro que ele tem defeitos. Tem coisa faltando? Tem coisa faltando, mas é um começo. Você pode partir deste livro e ir complementando, ou até excluindo, com o tempo. Mas está aí um livro que eu considero indispensável. No meu artigo “Quem é filósofo e quem não é”, publicado no Diário do Comércio — note bem, às vezes eu uso esse espaço da mídia para passar umas mensagens para vocês, meus alunos atuais, ou virtuais/possíveis —, eu dava a dica: não vou lhe dar uma lista de livros, porque você tem de aprender a fazê-la. Aprender a fazer não uma, mas milhares de listas de livros. Eu tenho livros que [só] agora consegui achá-los, mas que estão na minha lista há quarenta anos. Você conseguir fazer uma bibliografia crítica, assim como o Otto Maria Carpeaux, é o começo do estudo em qualquer área. Para isso, você vai ter que pegar dicionários de filosofia, enciclopédias de filosofia: o que quer que te dê informações de ordem bibliográfica. Na internet existem milhares de bibliografias excelentes que você pode pegar. Você vai ter que aprender a lidar com este material primeiro. O sujeito que conseguisse, depois de dois ou três anos de estudos, fazer uma lista razoável, crítica, das obras que lhe interessam nos setores que lhe interessam — não digo da filosofia inteira — e que não tivesse lido nenhum destes livros, saberia mais [do] que aquele que tivesse passado o tempo lendo os livros, porque teria uma idéia do status quaestionis, da evolução do problema ao longo do tempo. Não esqueça disto! Essas bibliografias devem acompanhar o problema desde a origem. E é fazendo isso que você vai perceber o que é realmente importante. Por exemplo, praticamente não há questão filosófica na qual você não vá encontrar algo de Platão ou Aristóteles. Os outros autores entram e saem das bibliografias, mas Platão e Aristóteles estão sempre lá porque eles sempre disseram alguma coisa a respeito do que é importante em filosofia. Eles fazem praticamente parte de qualquer bibliografia sobre qualquer questão filosófica. Claro que, em uma etapa posterior, eu posso dar mais indicações, mas o que eu quero, por enquanto, é justamente que você rache a cabeça tentando formar as suas bibliografias. Adquiram uma paixão pela informação e pela sua ordenação, classificação, como se você tivesse chegado em um território novo — como se você fosse Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo, Hernan Cortés. Chegando a um território novo, você tem de mapear aquela coisa da qual você não sabe nada. Esse esforço de mapear trará benefício a você pelo resto da sua vida de estudos. Você vai fazer inúmeras listas de livros, que talvez jamais chegue a ter ou ler, mas você sabe que eles estão lá e qual a importância deles, por isto ou por aquilo. Um bom dicionário de filosofia como o do Ferrater Mora, que existe em português, lhe dá um monte de dicas. Não quer dizer que ele seja completo, nem que tudo aquilo a que ele dá importância tenha importância realmente. Você é que vai formar este critério ao longo do tempo. Não sou eu que vou lhe dar pronto. O que posso te dar pronto, eu dou pronto, como, por exemplo, essas coisas que eu estou falando, porque essas coisas que eu estou dizendo aqui você não vai encontrar em lugar nenhum. Um exemplo são essas observações que eu fiz sobre cultura brasileira. Esta dica que eu estou lhe dando sobre bibliografia, não tem nenhuma introdução à filosofia que vai lhe contar isso. Por que ninguém sabe? Ao contrário, porque todo mundo sabe, pareceu tão óbvio que não se precisou explicar a ninguém. Aluno: Prezado professor Olavo, primeiro eu quero agradecer as aulas do curso de filosofia que estão excepcionais. Obrigado. Olavo: Obrigado eu. Aluno: Minha pergunta a respeito dos princípios é a seguinte: já que os princípios metafísicos e lógicos são os mesmos, apenas que os primeiros versam sobre a possibilidade da realidade, e os segundos sobre a possibilidade do discurso sobre a realidade, qual a lógica que rege ou deve reger o nosso discurso? A clássica intuicionista, dada a pluralidade de lógicas? Não há pluralidade de lógicas coisíssima nenhuma. Eu não conheço um único sistema lógico que possa ser sequer compreendido sem partir da lógica de identidade. Não há! Se você fala: “Ah, temos aqui uma lógica paradoxal”. Como é que você sabe que ela é paradoxal? Quando eles falam outras lógicas, querem dizer apenas o seguinte: outros discursos lógicos baseados em premissas arbitrárias, mas que, em última análise, a sua estrutura interna vai ser determinada pela mesma lógica de identidade, vista ou de maneira direta, ou de maneira inversa, ou de maneira analógica. A pessoa que fala que existem várias lógicas simplesmente está usando uma metonímia. Não existem várias lógicas. Existem vários discursos e várias estruturas lógicas possíveis. Por exemplo, se você decidir montar uma lógica baseado no princípio de que nunca uma coisa é ela mesma: “a” é sempre diferente de “a”. Entenda isso sem ser pelo princípio de identidade. Não dá. Então você está usando a mesma lógica de identidade, tentando montá-la de maneira inversa, mas baseado nela. Não há várias lógicas: isso é uma bobagem, uma frescura, uma viadagem filosófica. Se você pegar a lógica dialética... é errado chamá-la assim, [pois] ela não é uma lógica, é uma técnica de análise que tem como fundamento a lógica de identidade — sempre vai ser isso. [1:50] Aluno: Você poderia sugerir exercícios práticos para o aperfeiçoamento da linguagem através da imitação dos escritores? A própria imitação. Pegue um escritor, um que você gosta, à sua escolha. Leia aquele sujeito dia e noite, e tudo que você for escrever, escreva como se fosse ele. Cada um tem uma técnica diferente. Eu acho que um autor que pode ser muito útil para escrever é o Graciliano Ramos. A técnica dele é muito simples e qualquer um pode aprender. Como você faz para decompor as coisas em frases curtas, cortando as palavras desnecessárias e compactando, compactando, compactando. É uma técnica: você vai aprender a compactar. Só que isso não é tudo. E depois de aprender isso, você vai aprender outra coisa, e outra coisa. Escolha um e escreva como ele até você se cansar. Quando cansar, você passa para outro. Só não pode viciar, você pegar um primeiro e grudar naquilo. Eu acho que o Graciliano Ramos fez um mal desgraçado para o ensino da escrita no Brasil, porque todo mundo queria escrever como ele, então parece que cortar tudo e dizer tudo com um mínimo de palavras é o supra-sumo e a única técnica que tem. Não, isso é uma técnica entre milhares. Se você sugerisse isso, por exemplo, a Marco Túlio Cícero, ele jamais aceitaria uma coisa dessas. Para que você vai dizer com uma palavra se com duas fica mais claro? Tudo depende do que você quer. Você vai ter de ir selecionando os instrumentos de acordo com aquilo que você quer. A imitação se destina a acumular recursos. Eu prefiro a técnica da imitação a estudar as análises estilísticas sobre o cara, porque você só vai compreender as análises estilísticas se já tiver uma espécie de antevisão do que elas vão dizer. Por exemplo, a seleção do vocabulário: você leu bastante o escritor, sem ter lido nenhum estudo a respeito dele, já sabe um monte de coisas a respeito da seleção do vocabulário dele, sem que você saiba expressar aquilo tecnicamente. E daí, quando lê o estudo que expressa aquilo tecnicamente, você diz: “Ah, é disso que o sujeito estava falando!” Essa coisa da antecipação — você procurar saber o máximo de coisas pela experiência direta, para que depois, quando venha a reflexão, ela tenha um objeto presente — é básico. É assim: você pega um sujeito semi-analfabeto, ele entra em uma faculdade de Letras e vai aprender lá análise estilística, análise estrutural. Isso aí só vai secar, é como ter um monte de suco gástrico sem ter comida, vai virar uma úlcera dentro de você. A experiência da literatura tem de ser muito ampla. Por exemplo, experimente e se acostume com Graciliano Ramos e depois vá ler Charles Dickens (1812-1870), ou como o exemplo que eu dei do Aquilino Ribeiro (1885-1963), ou Camilo Castelo Branco (1825-1890), que usam todas as palavras da língua. Aquela técnica do Graciliano Ramos jamais serviria para eles, porque não é isso que eles querem fazer. Eles querem dizer a coisa da maneira mais rica e mais sugestiva que possa. Você não pode fazer uma árvore de Natal com um enfeite só. “Ah, nós temos que ter um estilo sóbrio e tal.” Bom, a sobriedade não significa, em si mesma, qualidade. Ela é uma qualidade, mas existem outras que às vezes são incompatíveis e você vai ter que escolher. O Graciliano adorava um escritor chamado José Geraldo Vieira (1897-1977) — um grande escritor, meio esquecido hoje, não é muito lido —, que escrevia ao contrário dele: aumentava tudo o que podia aumentar. Eu me lembro que tem uma seqüência dele no A Ladeira da Memória, que é um livro belíssimo, em que um sujeito rico passa por um pardieiro em São Paulo, na ladeira da Memória, onde tem uma pensão infecta, caindo aos pedaços, e ele fica horrorizado com aquilo. Depois, ele descobre que aquela pensão pertence a ele mesmo, que não sabia [disso]. Então ele decide que precisa melhorar a vida dessa gente. Para começar, ele resolve fazer uma festa de Natal, e como era um sujeito que viajava muito pelo mundo e comprava um monte de bagulho, ele decide dá-los todos para aquelas pessoas: coleções de uísque, charuto, licor etc. Ele faz um monte de pacotes e vai chamando as pessoas: “Fulano de Tal, uma garrafa disso, uma caixa de charuto não-sei-que...” — só coisa chiquérrima. E [Geraldo Vieira] faz um poema em prosa com marcas desses produtos por cinco páginas — o Graciliano jamais faria isso. Fica muito bonito, só com marcas de coisas: “Seu Fulano de tal, Seu Zé das Quantas, um charuto não-sei-que, um uísque não-sei-que, um licor não-sei-que, um vinho 1913...” Se fosse compactar iria perder a graça, o segredo ali era justamente esticar. Se você fizesse isso em duas linhas seria apenas uma amostra do que está acontecendo. Como ele estica, ele vai colocando mais coisas, isso adquire uma força poética. É claro que é mais fácil você imitar o Graciliano Ramos [do] que o José Geraldo Vieira, que sempre foi mais um escritor para escritores, um escritor técnico. Mas você, aos poucos, irá aumentando o seu cabedal de instrumentos. Uma coisa que vocês devem ler são os diários de Herberto Sales (1917-1999). Ele publicou um diário em três volumes com o nome de Subsidiário, onde toda hora anota as coisas que vai aprendendo a respeito da arte de escrever. Por exemplo, já aos setenta anos: “Ah, agora eu estou aprendendo a usar menos vírgulas...” É bonito ver aquilo. Primeiro, você precisa pegar este amor à arte expressiva, aprender a gostar disso, aprender que você também pode fazer isso. Se você não é capaz de escrever e se explicar bem, você nunca será um filósofo. O uso que a filosofia faz da linguagem é muito mais elevado, muito mais sutil que o da arte literária. Já vai partir destes instrumentos da arte literária e aprofundar isso até um nível de exatidão quase científica. O domínio da linguagem é essencial. Não é coincidência que o primeiro grande filósofo da história, Sócrates, se expressasse só oralmente e que o segundo, Platão, fosse um poeta — isso não é coincidência. Até que se chegasse à perfeição científica de Aristóteles foi necessário percorrer um certo trajeto. Esse trajeto é o nosso também. Nós vamos repetir aqui esse trajeto: Sócrates, Platão e Aristóteles. Passar por essas três etapas é o aprendizado da filosofia. Aluno: Na aula anterior o professor comenta sobre a incapacidade da Igreja de compor uma filosofia da história e de como isto resultou [2:00] numa perda de capacidade de ação concreta no mundo. Daí à chegada dos movimentos totalitários parece uma via quase direta, já que o estudo desses meios, dessas ciências, foi monopolizado pelos meios gnósticos, ocultistas, maçônicos etc., muitos deles anticristãos originalmente ou que desenvolveram incompatibilidades posteriores com a Igreja. (...) Pergunto o seguinte: o sentido histórico da Igreja não seria o da luta contra o demônio através dos tempos, luta esta em sentido concreto e no mundo? Isolando-se da ação no mundo ela não perde o sentido? Ela não está simplesmente paralisada há séculos? “Colocarei inimizades entre ti (o demônio) e a mulher (a Virgem Maria), entre a tua raça (os filhos do diabo) e a dela (filhos de Nossa Senhora). E ela mesma te esmagará a cabeça”. (...) A dicotomização entre o sagrado e o profano levada ao extremo; esta incapacidade de a Igreja articular o profano, a ciência da natureza, os meios de ação no mundo e opção de cortá-la a partir de certa época; este fechamento da Igreja para o entendimento da sua ação na realidade não fez com que a Igreja simplesmente se tornasse uma vítima fácil para esse mesmo mundo? Batata! Foi exatamente isto o que aconteceu. Quem inaugura a filosofia cristã na história é Santo Agostinho. Se você não tem a filosofia cristã da história, o que lhe sobra na mão é o milenarismo, que é o que vai dar origem a todas essas ideologias de massa. O milenarismo é a expectativa de que um mundo melhor vai vir no futuro: o Cristo vai vir, vai botar ordem no negócio e então teremos os mil anos de paz — isso antes do juízo final. Porém, em At 1-7, Jesus proíbe formalmente especular a data desses acontecimentos — não são todas as especulações sobre o futuro, mas aquilo que está no plano de Deus. Todo o milenarismo é uma especulação dessas coisas. O que fez Agostinho? Agostinho viu que as profecias do Apocalipse só podiam ser entendidas de duas maneiras: ou você as entendia como designando o sentido espiritual da própria história da Igreja — o milênio anunciado já tinha começado e correspondia ao governo da Igreja no mundo — ou então você poderia entender o milênio, esse signo “mil”, como significando apenas totalidade, ou seja, não é um número certo, não é sequer um número, e designa a totalidade da história no mundo para ser um número fechado. Só podia ser entendido nesses dois sentidos. Atos dos Apóstolos, capítulo um, versículo sete, exatamente: "Respondeu-lhes ele: não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder". Então isto quer dizer que esse negócio de milenarismo sempre foi uma masturbação mental altamente prejudicial, porque a tarefa da Igreja é a salvação das almas, ela tem de indicar aos indivíduos o que é que eles têm de fazer para passar no Juízo Final. No Juízo Final, cada um vai chegar levando, não sua filosofia da história, mas os seus atos, a sua verdadeira história pessoal que, tendo chegado ao fechamento na morte, será julgada e jogada no fogo ou reaproveitada. É essa a função. Então, o sujeito saber ou especular o futuro da humanidade não vai melhorar nada o que ele tem de fazer, só vai desviá-lo da função principal. A Igreja não tem uma filosofia milenarista. Não há uma só sentença papal ou dogma da Igreja baseada no milenarismo. No entanto, a Igreja estava cheia de milenaristas. O próprio Santo Irineu, que escreveu contra os hereges, entrou em especulações milenaristas. Então, a nós não interessa como e quando o mundo vai acabar, porque você especular isso é colocar — preste bem atenção! — a história do mundo como se fosse um objeto na sua frente. E o Deus que decidiu a história do curso do mundo é outro objeto. Eles se tornaram objetos da sua mente e você os domina dentro do seu campo de visão. Isso é absolutamente incompatível com a estrutura da realidade, não dá para fazer. Note bem que esta limitação não é um defeito nem uma falha nossa, mas é a própria estrutura da realidade. Você ignorar o fim dos tempos não é assim: “Deus decidiu lá o fim dos tempos e proibiu a gente de saber”. Essa ignorância do fim dos tempos é parte da sua constituição, é a sua verdadeira realidade. Todo o sentido do cristianismo, desde o início, mostra para você a incerteza constitutiva da vida humana. E por que há incerteza? Porque você não nasce sabendo das coisas, tem de aprendê-las aos poucos e você as esquece também. Você nunca tem domínio do horizonte inteiro. E essa é a estrutura da nossa vida, é a estrutura temporal da nossa existência. Você só pode ver as coisas com começo, meio e fim desde a eternidade — isso é a coisa mais óbvia do mundo: para conhecer o curso inteiro dos tempos, você tem de estar acima dos tempos, na eternidade. Desde a perspectiva temporal, nós não podemos saber o curso inteiro dos tempos, porque estar na perspectiva temporal é não estar na eternidade, é estar separado da eternidade. Você não está separado totalmente dela porque ela o espera mais adiante. As especulações milenaristas invertem a posição existencial do homem. E criam o quê? No milenarismo já está dado, no fim das contas, toda a forma do pensamento revolucionário, que é a inversão do tempo. E não é só inversão do tempo, é a inversão da ordem da realidade: é pegar uma criatura temporal e fazê-la fingir que está na eternidade observando o conjunto. [Por exemplo], esse Richard Dawkins que inventa um objeto chamado Deus que criou outro objeto chamado universo e, observando esses dois objetos, diz: “Não, não pode ter sido assim”. Você nem mesmo pode conceber a história como objeto, porque a história é o campo dentro do qual você existe. Você só pode compreender a história como um processo que está prosseguindo dentro de você e cujo fim você não conhece. Isto é a história: você vivencia e revivencia a história do passado sem saber o futuro. Conceber o universo como um todo é ter todo o conhecimento possível, todo de uma vez, num instante — isso se chama eternidade. Então, você quer dizer que o Richard Dawkins foi para a eternidade, observou o mundo, observou Deus e concluiu alguma coisa — isso é tão pueril que não dá nem para começar a conversa, e o cara ainda diz que é científico! Isso não é nem científico, nem filosófico, nem nada, é puerilidade, é uma forma requintada de burrice. O universo só pode ser concebido como participação, não como coisa, como objeto. [2:10] Quando Santo Agostinho diz: “É no interior do homem que existe a verdade” — o que ele quis dizer? Ele quis dizer que você só conhece Deus como a força agente que está criando e iluminando-o neste mesmo momento. Você conhece Deus pelo o que Ele está fazendo em você. Aí você pode ter um vislumbre do que Ele está fazendo mais para fora, mas nunca vai conhecê-lo como objeto. Mais ainda: você não pode conhecer uma pessoa como objeto. Você pega [como exemplo] sua mulher, sua filha, sua mãe, sua vó, sua tia, seu amigo e veja se pode conhecer algum deles como objeto. Você conhece cada um deles como uma virtualidade, como um conjunto de possibilidades cheio de tensões e até de surpresas, porque senão estariam mortos, mortos e fechados dentro de um esquema. Se você não pode conhecer nem uma pessoa, como vai conhecer a pessoa divina como objeto? Como você vai conhecer a pessoa divina, mais o universo e mais o sentido da história como objeto? Isso é tão imbecil — e, note bem, eu não estou fazendo apologia do ceticismo, não estou dizendo que nós não podemos conhecer nada. Sim, nós podemos conhecer as coisas de acordo com sua real modalidade de existência. Tem de saber como as coisas existem e, portanto, como cabe conhecê-las. Têm coisas que podem ser conhecidas como objetos, que são apenas objetos, e outras que não são. A história, então, evidentemente, não é um objeto. Santo Agostinho foi o sujeito que enterrou o milenarismo no século IV. Quando volta a aparecer o milenarismo? Depois de 1400. Então, foram mil anos. Durante estes mil anos, veja o que a Igreja fez no mundo: ela espalhou por toda a parte o senso da imortalidade da alma, o senso da sacralidade da pessoa humana, a prática da caridade; inventou os hospitais, os orfanatos, as escolas, aboliu a escravidão — fez isso tudo durante esses mil anos e depois acabou. Então quer dizer que Santo Agostinho não tinha razão? Os mil anos já foram. O que não quer dizer que a segunda interpretação, isto é, a que vai interpretar os mil anos do Apocalipse como duração total do universo não seja válida. Também pode interpretar assim porque elas não se contradizem. Esse negócio milenarista entrou na nossa cabeça tão violentamente que todo mundo tem alguma concepção milenarista. E o erro fundamental da concepção milenarista é que ela considera a história da humanidade como se fosse a biografia de um sujeito. A sua biografia, você pode fazer como um plano de futuro, e é a realização ou não deste plano que determinará a qualidade da sua vida: deu certo, deu errado, teve sucesso, fracassou — em função disso. Mas por que você pode fazer isso? Porque você tem uma continuidade temporal, e você é a mesma pessoa através da multiplicidade dos papéis. Você sabe que você é você mesmo e tem um centro agente. A História tem um centro agente? Não tem nenhum. A História se compõe de narrativas que não têm nada a ver umas com as outras, entre sociedades que jamais se conheceram e não se influenciaram no mais mínimo que fosse. E, além disso, a História acaba para cada sujeito que morre. Isto quer dizer que uma unidade da História só pode existir de duas maneiras: ela existe perante a eternidade, perante a mente de Deus, e ela existe na imaginação dos historiadores. Ela não existe como coisa. As únicas maneiras de você conhecer a História [são]: você pode conhecê-la miticamente, através da visão que a revelação lhe dá — mas o mítico, como você sabe, é compactado, é confuso e às vezes você não compreende —, e às vezes pode conhecê-la através dos esforços dos próprios historiadores e filósofos da história para pegar alguma unidade, sabendo que essa unidade é problemática e que ela não existe em si. Nesse sentido, Eric Voegelin fala que a ordem da história é a história da ordem, isto é, à medida que os vários historiadores e filósofos da história vão tentando captar uma ordem, a sucessão desses esforços é a única ordem que existe na história, descontada a ordem divina. O fato é que depois de Santo Agostinho, a Igreja abandonou esse tipo de estudo. Talvez porque a visão que Santo Agostinho tinha fosse muito realista em dizer que só a história da Igreja tem unidade, a história do cristianismo tem unidade, [mas] a história como tal não tem. A história é uma coleção de barbaridades, de coisas que não fazem sentido nenhum. O fato é que a Igreja foi abandonando essa filosofia da história, mas abandonou também grande parte da filosofia na natureza e perdeu muito material com o tempo. São Tomás de Aquino ainda se interessava por essas coisas — astrologia, alquimia — que, para ele, tinham um interesse, porque aquilo era filosofia da natureza. Os escritos dele, maravilhosos, sobre as forças ocultas da natureza... Isso tudo se perdeu com o tempo. Então, isso se torna monopólio de sociedades secretas. Quando você estuda a história dos esoterismos e vê as pretensões daqueles camaradas que parecem lhe trazer uma sabedoria revelada, uma sabedoria oculta, e dizem tanta besteira, tanta coisa idiota. Roger Bacon (1214-1294), em mil trezentos e pouco, escreveu para o Papa: “Nós podemos calcular a data do advento do Anti-Cristo, para a gente se preparar para isso.” Mas é uma besta quadrada! Como é que fala uma coisa dessa, Meu Deus?! Ele está ignorando a própria estrutura da temporalidade. E, no entanto, era o grande sábio da época: Roger Bacon! Agora você imagina os outros — alquimistas, ocultistas —, as besteiras que eles estavam falando. Todo esse pessoal ocultista, esotérico, vem com uma promessa de negócios incríveis, e quando você vai ver é tudo besteira. No entanto, os assuntos de que eles estavam falando são sérios e tinham de ser tratados a sério. Se a Igreja não faz, vai parar na mão deles. Hoje em dia como é que acontece? Por exemplo, se a gente fala em astrologia. Você abre a boca para falar desse assunto, e todo mundo te diz: “Não, mas isto aí é pecado! É heresia, etc. etc.”. Por um lado, é: há sentenças papais que condenam essa prática; por outro, São Tomás de Aquino diz que tudo que Deus move na terra, Ele move através dos astros e que, portanto, é possível, através dos astros, descobrir alguma coisa sobre o que se passa na terra. Como é que fazemos agora? Isso aí é herético por parte de São Tomás de Aquino? Nós temos aí, evidentemente, um problema, porque a sentença do Papa diz uma coisa e São Tomás de Aquino, que é um doutor da Igreja, diz outra. E [até] Santo Agostinho, que odeia astrologia, diz que através da conformação do corpo, os astros podem determinar algo da conduta das pessoas — ele admite isso. Como é que nós vamos fazer? Nós vamos estudar esse problema a fundo e tentar resolver isso aí? “Não, nós não podemos, porque é pecado... nós corremos risco...” — então você foge dos assuntos e daí vem os caras das sociedades esotéricas — o Rosacruz, o diabo! —, pegam isso e saem falando besteira. [2:20] Então, se você entrega tudo isso para o diabo, o diabo pega! Agora, São Tomás de Aquino abriu o caminho para você estudar isso seriamente. O que o André fala aqui é sério: “a dicotomização entre sagrado e profano levada ao extremo, sem a capacidade de articular o profano, a ciência da natureza, os meios de ação no mundo e a opção de cortá-la a partir de certa época (...)”. Isso aí foi gravíssimo. Quando a Igreja abandona esse território todo, isso vai parar na mão de quem não devia. Aluno: Na última aula, ilustrando a questão da prevalência de doutrinas já impugnadas, o senhor faz referência a um predecessor de Lutero, cujas teses já haviam sido devidamente contestadas pelos teólogos católicos (...) É John Wycliff, cem anos antes, ou seja, as teses de Lutero eram mais ou menos as dele e já tinham sido impugnadas no terreno intelectual. Mas isso não quer dizer que, repetidas perante um público mais popular, não pudessem ter sucesso. É isso que as pessoas não entendem. Quantas vezes eu não vi caras da Igreja Católica falar: “A Teologia da Libertação está liquidada!”. Por quê? Porque alguém escreveu um livro contestando? A Teologia da Libertação domina a América Latina hoje através do Foro de São Paulo. E a influência dela se alastrou, entrou nas igrejas protestantes — tem um monte de protestantes teólogos da libertação. O Obama é um protestante teólogo da libertação, seguidor da Teologia da Libertação. O sujeito acha que venceu, porque contestou a coisa no terreno intelectual. A coisa, além de ser uma teoria, é um movimento. Você só pode dizer que aquilo morreu quando você matou não a teoria, mas o movimento. “Ah, o marxismo morreu...” — o marxismo morreu desde 1910: já estava contestado, morto, enterrado como teoria cientifica. Mas acontece que não é como teoria científica que ele orienta o movimento comunista, é como discurso ideológico, discurso de auto-justificação. Aluno: Qual é a melhor forma de tratar a questão da incomodidade do meio em que trabalhamos — mesmo tratando-se de um bom emprego — com os estudos, levando em consideração a forte vontade de adquirir, a médio prazo, a habilidade em alguma atividade que tenha mais conexão conosco? Vou lhe dizer uma coisa: ame o seu trabalho, qualquer que seja ele. Tenha amor por ele como um dever moral, e você vai ver o rendimento intelectual que isso vai lhe dar. Pare de reclamar e de amaldiçoar [o seu emprego]: “Eu tenho que trabalhar nesta coisa chata...”. Isso é um dever moral, você está carregando a cruz da humanidade. Olha, desde o tempo do paraíso terrestre, quando os caras saíram de lá, e Deus disse: “Você vai ganhar o pão com o suor do seu rosto”. Então, é uma obrigação moral que nós temos. E, através dela, carregando essa cruz, nós compensamos o pecado original — essa é a nossa função. Você tem de amar [o seu emprego], fazer com dedicação, fazer bem feito: “Olha, o chefe pediu para fazer isto, eu vou fazer melhor do que ele pediu.” Não por ser puxa-saco dele; ao contrário, você vai fazer isso mesmo que ele não reconheça — em geral, ele não vai reconhecer mesmo. No Brasil, quem quer que trabalhe bem demais é criticado. Este é o segredo: ame [o trabalho] e [isso] vai te dar uma energia, faça-o com a consciência de que está cumprindo um dever moral importantíssimo. E você vai ver como isso vai aumentar sua inteligência — qualquer trabalho faz isso. Depois, você chega em casa e estuda Aristóteles, que dizia: estude com moderação. Olha, Aristóteles! Poucas pessoas estudaram mais do que Aristóteles, mas ele recomenda: estude com moderação. No começo, não dá para passar de uma ou duas horas por dia. Quando você se tornar um cara muito experimentado — um estudioso, um scholar —, você consegue quatro ou cinco horas, não vai passar disso. Por exemplo, eu, quando vou estudar, preciso de duas horas de “ensebação originária”: eu chego ali no meu escritório, fico arrumando minhas coisas, brinco com o cachorro, leio um pouco de notícia, e daí é que as coisas vão pegando. Então, duas horas de “ensebação” e depois tem três ou quatro horas de trabalho — isso é tudo. Que trabalho pode atrapalhar você nisso daí? Nenhum. Se você disser: “Eu só vou estudar no sábado. Sábado assisto à aula do Olavo, depois leio, estudo, tomo notas, em três horas” — já está muito bom! Aluno: O que deve fazer uma pessoa que está interessada em dominar o Trivium, além de ler a obra de Miriam Joseph sobre o tema? Esse é um dos assunto sobre o qual mais se escreveu no mundo. [N]isto aqui, sim, eu posso lhe ajudar a ir pegar uma bibliografia. Aliás, eu prometo para você, Daniela Lobassi: eu posso dar a bibliografia aqui no curso — e vou dar, porque é uma bibliografia mais técnica —, mas é a bibliografia para você começar a pesquisar. Então, por que você não se coloca esse problema: “Eu quero formar uma bibliografia sobre o Trivium. Então, eu vou partir das indicações que têm ali no livro da Madre Miriam e vou ampliar.” É bom você saber, por exemplo, que o ensino foi baseado no Trivium durante mais de mil anos e aqui [nos EUA] ainda tem muita escola — Liberal Arts, etc. — que trabalha nessa base. Experimenta colocar “Liberal Arts” no Google , e você vai ver o monte de coisas que aparece. Comece a formar a sua coleção de informações, imprima tudo isso, tome nota, com a seguinte idéia: eu vou ter a lista de tudo o que se escreveu de importante dentro desses temas e sobre eles desde que o mundo é mundo até hoje. Você vai fazer só a lista. A princípio, você não vai ler nada, só vai ter a lista. Faça essa experiência e você vai ver como isto vai render. Eu posso te dar um começo da bibliografia, mas é menos importante você pegar esses livros e lê-los do que completar a bibliografia. Bibliografia, evidentemente, não são apenas os títulos de livros. Você vai pegar informações mínimas sobre cada um deles, se conseguir encontrá-las; se não, você deixa só o título. Aprenda a fazer uma fichinha bibliográfica decente: autor, título, local de publicação, nome da instituição que publicou, data. Está aí, lição de casa para você, Daniela: complete uma bibliografia do Trivium. Se passar seis meses fazendo apenas isso, você vai ver quanta coisa aprenderá. “Que livro devo ler?” — não vai ler nenhum, somente vai fazer isso daqui. Faça uma ou duas horas por dia, dedique uma ou duas horas do dia para você formar a bibliografia do Trivium. A maior parte do que você vai encontrar está em latim, [mas] não tem importância. Você pode tirar meia horinha diária para fazer os exercícios do Napoleão Mendes de Almeida para aprender latim. O Clovis me pede uma lista das principais obras literárias. [02:30] Bom, neste ponto, eu não acho que valha a pena você gastar muito tempo com pesquisa, porque as obras de literatura são para o seu uso imediato. Você vai ter que lê-las agora, umas após as outras. Então, você gastar um ou dois anos com pesquisa bibliográfica não vale a pena para o nosso curso. Neste caso, eu posso lhe dar uma lista de leituras sugeridas. Então, de cara, você vai pegar os autores portugueses: vai ler Camões — se não agüentar ler os Lusíadas inteiro, leia os Sonetos dele, que são maravilhosos. Da poesia portuguesa, você deve ler os seguintes nomes: Camões (1524-1580), Bocage (1765-1805) — os sonetos de Bocage são uma beleza! —, Antero de Quental (1842-1891), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) — esses são os nomes principais, você tem de ler de qualquer jeito. Na literatura histórica, Portugal tem grandes historiadores, dois dos quais você tem de ler de qualquer maneira: Alexandre Herculano (1810-1877) e Oliveira Martins (1845-1894) — este último é um homem de uma inteligência histórica fora do comum, a História de Portugal dele é básica, inclusive para entender o Brasil. Na parte da literatura ficcional, também tem alguns autores que você não pode pular: Eça de Queirós (1845-1900), Camilo Castelo Branco (1835-1890), Ferreira de Castro (1898-1974) — que inclusive escreveu um belíssimo romance sobre o Brasil, que se chama A Selva, a melhor coisa que já se escreveu sobre a Amazônia —, Aquilino Ribeiro (1885-1963), Vergílio Ferreira (1916-1996) e Lobo Antunes (1942-). Tem muito mais coisa, mas isso é para você ter uma idéia da riqueza só da literatura de Portugal. O Brasil tem grandes poetas, alguns dos maiores da humanidade, mas você comece por: Gonçalves Dias (1823-1864), Cruz e Sousa (1861-1898), Manuel Bandeira (1886-1968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Jorge de Lima (1893-1953), Murilo Mendes (1901-1975) e Bruno Tolentino (1940-2007) — não deixe de ler esses. Desses autores, você procure ter o máximo de livros de cada um deles. Aí, não é pesquisa bibliográfica, é coleção de livros para começar a ler já! Na arte da ficção você vai ter que ler: Machado de Assis (1839-1908), Raul Pompéia (1863-1895) — que escreveu um livro só, O Ateneu —, José Lins do Rego (1901-1957), Graciliano Ramos (1892-1953), Marques Rebelo (1907-1973), José Geraldo Vieira (1896-1977), Herberto Sales (1917-1999) — se ler esses, você vai entender a força da literatura brasileira. Aí já tem leitura para mais de um ano. Vocês, por favor, leiam esses dois artigos que eu publiquei no Diário do Comércio: “Quem é filósofo e quem não é” e “Ainda os filósofos”. Há neles uma série de dicas que estão compactadas e que eu queria desmembrar aqui no curso. Esses artigos foram escritos principalmente para vocês. Os outros leitores não sabem, mas tem um público especial que são vocês mesmos. Até a próxima aula, comece a sua coleção de literatura em língua portuguesa — comece já. Isto você compra na Estante Virtual — tem tudo lá, por dois mirréis. Colecione mesmo e se disponha a guardar pelo resto de sua vida, porque vai ser referência. Aprenda a imitar cada um desses, faça o exercício: “Agora eu vou escrever um negócio no estilo do Marques Rebelo, no estilo do José Lins do Rego...”. Aluno: E o Lima Barreto? Lima Barreto (1881-1922) é um documento importante, mas ele não sabe escrever. Ele escreve muito mal, [mas] tem uma imaginação ficcional fantástica, e uma compreensão da sociedade muito boa. Se me perguntassem sobre o Lima Barreto, não o recomendaria: tem uma compreensão muito grande da sociedade humana, uma visão dos personagens muito profunda, mas ele escreve mal, escreve [de uma maneira] pedante, eu acho. Tem um desajuste ali. Ele foi uma vítima desse problema do real e do ideal. Então, ele era um cara que vivia no Brasil tentando ser um escritor de nível europeu. E eu acho que algumas narrativas dele são obras primas, mas não pela linguagem — jamais imitaria a linguagem de Lima Barreto. Mas leiam de qualquer maneira: Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Vida e Morte de M.J Gonzaga de Sá — são obras obrigatórias para entender o Brasil mais do que para aprender a escrever. Há outros caras que escrevem maravilhosamente bem, mas não são ficcionistas tão bons assim. Depois tem uma série de obras na área de História, Ciências Sociais, escritas em português, que eu acho que devem ser lidas, mas vamos deixar isso para depois. Aluno: E Guimarães Rosa? Alguém me perguntou sobre Guimarães Rosa (1908-1967): jamais leia, esqueça! Se for aprender lendo Guimarães Rosa, você vai virar um chato de galocha. Eu não conheço coisa mais artificiosa e boba do que a literatura dele, sinceramente. É um homem de enorme talento, porém aquilo tudo é muito forçado, muito artificioso e, sobretudo, criou vícios de linguagem. Guimarães Rosa é uma coisa para você olhar uma vez e dizer: “Ah, que bonito” — e passar adiante, esquecer. Sem contar que o cara era teosofista, acreditava em duendes — esqueça isso. Leia José Lins do Rego e você vai ganhar muito mais. Se quiser ler [Guimarães], não vai lhe fazer mal nenhum, mas não aprenda a escrever como ele, porque senão você vai fazer os exercícios e mandar os seus recados e eu não vou entender. Existe entre os artigos do Graciliano Ramos um voto que ele deu num concurso de contos [02:40] em que Guimarães Rosa apresentou o Sagarana. O Graciliano Ramos não deu o prêmio para o Sagarana — deu o prêmio para um conto do Luis Jardim (1901-1987) — e ele justifica porque fez isso: está no livro Linhas Tortas, uma coletânea de artigos. E eu acho que o Graciliano Ramos tinha toda razão no julgamento que fez do Guimarães Rosa: “Precisa cortar dois terços desse livro, isso aqui tá muito exagerado, tá muito forçado”. Por enquanto, vamos ficar na língua portuguesa, [mas existem algumas línguas que são fundamentais]. Você vai ter que saber muito inglês, porque os americanos traduzem tudo, sem inglês não se faz nada. O que você não acha nas línguas originais, acha em inglês de qualquer maneira. Tem uma coisa chamada “bookfinder.com”, que jamais falhou — pode ser a coisa mais esquisita do universo, eu sempre encontro lá. [Os Americanos] traduziram tudo e, às vezes, eles não sabem mais que aquilo existe. Se você procurar nas universidades, ninguém sabe daquilo, mas você sempre acha uma edição de 1890, alguma coisa assim. Por exemplo, as obras completas de Hegel estão traduzidas em inglês, mas são traduções antigas. O francês é muito bom para você aprender a escrever em português, porque muitos escritores brasileiros aprenderam com os franceses — Eça de Queiros é quase um escritor francês — e porque a língua francesa literariamente é muito bem trabalhada — o que os caras fazem no francês é maravilhoso. O espanhol, que está bem perto de nós, tem de saber, e, se puder, o italiano também. Você vai ter que ler um pouquinho em cada uma dessas línguas. Capriche no inglês, mas não porque você vai aprender a escrever em inglês. A pior coisa que você pode fazer é tentar aprender a escrever em inglês para passar para o português, como o pessoal faz hoje e só sai merda. Inglês é muito diferente do português. Aprenda o inglês como acesso a fontes de informação, porque eles traduzem tudo, e as traduções são muito boas. E, sobretudo, é a língua de trabalhos acadêmicos — o que você procurar aí de trabalho acadêmico, sempre tem no inglês. O que não tem no inglês, não existe pro mundo de informações acadêmicas. Então, é fundamental para isso, não para aprender a escrever. Esse pessoal que lê muito escritor americano e tenta fazer a mesma coisa em português, só faz porcaria. Você tem de aprender com línguas que sejam afins à sua: o espanhol, o francês, o italiano, e o latim evidentemente. Se aprender latim e ler os discursos de Cícero, você nunca vai perder. Eu não sei quem dizia: “Você quer aprender a escrever? Leia Cícero” — eu acho que é verdade, porque é uma coisa de uma clareza, de uma força muito grande. Mas não vamos falar nisso agora, continua treinando lá com o Napoleão Mendes de Almeida, mais tarde você lê o seu Cícero. Aluno: Professor, você recomenda as traduções de Odorico Mendes? Odorico Mendes é o cara que traduziu para a Aguilar várias coisas. Eu gosto muito das traduções dos clássicos gregos do Carlos Alberto Nunes (1897-1990), inclusive a tradução que ele fez de Platão. Eu acho aquilo uma verdadeira maravilha. Quanto mais eu leio, mais eu gosto. As outras, eu não sei. Mas não precisa ler os clássicos gregos agora, lê o que está ao seu alcance, na sua própria língua. Dedique um ano da sua vida a isso. Eu meti na minha cabeça quando eu era jovem: “Eu vou ler toda a literatura brasileira” — eu acho que eu li praticamente tudo e eu não me arrependo de ter feito isso. Mesmo se for livro ruim ou deprimente — se não tivesse mais proveito nenhum —, isso te ensinaria a língua e te ensinaria a conhecer a sociedade brasileira. Vai ter uma aula na próxima semana, neste mesmo horário. Até lá, vocês leiam esses artigos, pois vou desdobrá-los aqui em aula. Por hoje, acabou! [fim da transmissão] Transcrição feita por: Daniel De Lascio Berça, Mauro Ventura, Marcelo Hamnickel, Eduardo Afonso de Aguiar, Felipe Augusto Cury, Eduardo G. Queiroz, José Manoel Domingues Revisão feita por: Marcelo Hamnickel Revisão final feita por: Wilson Castro Filho e José Roberto Zoner Baptista