Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Nota sobre Richard Dawkins Olavo de Carvalho Com dois anos de atraso, li o pretexto apresentado pelo Dr. Richard Dawkins para rejeitar a proposta de um debate com o filósofo William Lane Craig (http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2011/oct/20/richard-dawkins-william-lane-craig), e não acho que seja tarde demais para assinalar que não vejo ali covardia nenhuma, como tantos disseram na ocasião, e sim alguns de erros de argumentação tão grosseiros que bastariam para desqualificar um aluno de ginásio. Desde logo, o dr. Dawkins alega que consultou alguns professores de filosofia e, como nenhum deles tinha ouvido falar de Craig, julgou razoável concluir que este era um joão-ninguém empenhado em promover-se às suas custas. Que eu saiba, a qualificação profissional de um filósofo deve ser averiguada pelo seu currículo e pelas suas obras, não por opiniões de terceiros que nunca ouviram falar dele. Na pletora inabarcável da produção filosófica hoje em dia, é ingenuidade imperdoável presumir que qualquer obra de valor terminará por ser “universalmente” conhecida no prazo de vida do autor ou mesmo décadas depois, e que seja possível, portanto, avaliá-la mediante rápida consulta a quaisquer profissionais “da filosofia” escolhidos a esmo, a qualquer momento e num país estrangeiro, sem a mínima consulta ao currículo do personagem mesmo, que no caso do prof. Craig é dos mais honrosos. O apelo do prof. Dawkins ao argumentum ad ignorantiam é pueril, para dizer o mínimo, mas adquire contornos patológicos quando reparamos que, recusando-se a pesquisar de fonte primária a habilitação profissional do desafiante ou a ler as suas obras, o presunçoso biólogo doublé de teorizador universal da cultura teve tempo para ciscar alguns posts colocados pelo prof. Craig em listas de discussão, e julgá-lo por eles. Seria o mesmo que, ignorando tudo do gene egoísta e dos memes, julgar o dr. Dawkins só por este artigo do Guardian. Em segundo lugar, ele conclui, da leitura daqueles posts, que o prof. Craig é um apologista do genocídio, alguém que não merece ser cumprimentado na rua, quanto mais honrado com um debate acadêmico. Curiosamente, ele extrai essa conclusão da afirmativa de Craig de que a ordem divina para os judeus exterminarem a tribo dos cananeus não foi de maneira alguma um decreto de genocídio. Do ponto de vista cristão, a vida doada por Deus traz dentro de si a necessidade da morte, sem nenhuma promessa de duração definida ou média nem garantia de que todos morrerão de velhice, na cama, ou de qualquer tipo de “morte natural”. Genocídio é assassinato em massa, a extensão numérica do conceito de assassinato, e assassinato, por definição, é a morte de um ser humano imposta por outro da mesma espécie, não pelo Criador de todas as espécies. Para que a extinção de um povo, quando decretada por Deus, fosse genocídio, seria preciso antes provar que toda e qualquer morte de um ser humano constitui assassinato. Não faz sentido acusar de nenhuma morte em particular – ou de muitas mortes em particular -- Aquele que é a causa primeira de todas as mortes como de todas as vidas. Um assassino, por definição, não é causa primeira de morte nenhuma, mas apenas o agente imediato que a determina no tempo. Acusar Deus de homicídio ou de genocídio é antropomorfizá-Lo mais do que se permite em histórias da carochinha. Não foi este o argumento que o prof. Craig usou, mas com toda a certeza ele não ignora esse aspecto da questão. Já do ponto de vista ateístico, que é o do dr. Dawkins, faz menos sentido ainda afirmar que Deus não existe e em seguida acusá-Lo de homicídio, genocídio ou qualquer outro delito. Pela mesma razão não cabe acusar de apologia de genocídio a defesa de Deus tal como empreendida pelo crente de qualquer religião. Tudo o que Dawkins poderia legitimamente fazer, na sua própria perspectiva, seria acusar de genocídio os judeus, acrescentando a isso o agravante Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 1 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org de que justificam mediante o apelo à autoridade de um Deus inexistente o crime que eles próprios cometeram contra os cananeus. Mas, se ele fizesse isso, seria por sua vez acusado de anti-semita. Mais lhe valeu, portanto, forçar a lógica e acusar William Lane Craig de apologista do genocídio. Se nem num assunto tão simples e num artigo tão curto o dr. Dawkins é capaz de alinhar dois argumentos sem cair em dois sofismas tão bobos, que grande performance se deveria temer dele num debate sobre matéria mais ampla e complicada? Não acredito que o dr. Dawkins seja um covarde, pois já se expôs valentemente a tantos vexames e continua aceitando debates sem jamais ter vencido um só deles. Mas já tive muitas provas da sua inépcia intelectual formidável, a qual, se aparece tão nítida num mero artigo de jornal, brilha ainda mais fulgurante nas suas grandes teorias. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 2 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor.