Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Implicações para o Brasil, nos campos político e econômico, em decorrência do ato terrorista ocorrido nos EUA1 OLAVO DE CARVALHO É um prazer estar aqui na Escola de Guerra Naval (EGN), novamente, para abordar, em 30 minutos, um tema do qual tenho falado, em meus cursos, há várias semanas. Creio que a análise desse tema requereria, em primeiro lugar, um remanejamento de todos os conceitos fundamentais da ciência política. Tenho apresentado esse tema juntamente com uma revisão desses conceitos. Para terem idéia de como os conceitos correntes são inadequados à análise desse assunto, basta ver que estamos diante de uma guerra, onde temos um estado em guerra com não se sabe o que — o que quer dizer que um dos lados é perfeitamente indefinido. Estamos acostumados a analisar sempre essas situações bélicas em termos de poderes nacionais. No caso, evidentemente, um dos poderes é difuso e indefinido, o qual o governo americano tem denominado como terrorismo. Ora, terrorismo não é o nome do inimigo, não é um nome de estado, é apenas o nome de um instrumento. Então é muito estranho, porque é como se dissesse que estão em guerra não com um inimigo determinado, mas apenas com o uso que ele faz de determinado instrumento. Basta isso para ver como é difícil descrever a situação a cerca desse tema. Em segundo lugar, além do problema conceitual, temos o problema das fontes. As nossas fontes de informação, no Brasil, estão totalmente viciadas — vemos pela mídia que, diariamente, nos defrontamos com essa situação. Vou ler um parágrafo de uma análise feita pelo Jornalista Jean Sévillia, no livro “O terrorismo intelectual de 1945 aos nossos dias”. Ele disse: “A censura desapareceu (ele está falando da imprensa francesa)? Não, ela mudou de natureza. Num pais eleitoralmente dividido pela metade, entre direita e esquerda, os escrutínios sindicais mostram que 80% dos jornalistas dão os seus votos a organizações de esquerda. Com evidência, é o seu mais estreito direito democrático, mas é forçoso constatar que o meio profissional não está repartido como a opinião pública. O fiel da balança inclina à esquerda”. Isso ele disse em 1999, porque nas eleições sindicais 80% dos jornalistas votaram na esquerda. Agora os Senhores me digam, por favor, se há algum sindicato brasileiro, sindicato dos jornalistas brasileiros, onde tenha havido uma chapa de direita? Aqui não é possível formar uma chapa de direita em nenhum sindicato. Portanto, aqui esquerda tem 100% dos votos. Isso significa que a classe de jornalistas se transformou em instrumento de propaganda de uma determinada corrente política. Ela não pode ter contestação de maneira alguma, de maneira que o espaço que possa restar para apresentação de um outro ponto de vista é mínimo. O meu próprio espaço na revista Época, que era semanal, acaba de se tornar mensal. Não passo do cerco da diminuição constante, não que tenha havido necessariamente essa intenção, mas é uma coincidência infeliz. Em vista disso, recebemos diariamente uma massa de informação que não nos permite analisar corretamente a situação. O próprio uso da palavra unipolaridade, que se tornou obsessivo, nos faz 1 Transcrição da comunicação apresentada ao Simpósio "Análise e Conseqüências do Ato Terrorista Ocorrido nos Eua, em 11 de Setembro de 2001", no Centro de Estudos Político-Estratégicos da Escola De Guerra Naval (EGN), 09 de novembro de 2001 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 1 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org esquecer, por exemplo, que nesse mês, na cidade de Llasa, capital do Tibet, há mais soldados chineses do que cidadãos tibetanos. As denúncias constantes de que os EUA estão fazendo uma violência terrível no Afeganistão nos faz esquecer um dado elementar: em todas as intervenções americanas, desde a Primeira Guerra, passando pela Segunda Guerra, Coréia, Vietnã, etc, o total de vítimas pela força americana foi de um milhão e oitocentos mil, ou seja, 200 mil a menos que os comunistas fizeram só no Camboja — de modo que os números que estamos lidando são um pouco irreais. Vemos diariamente, a propósito do Afeganistão, os jornais estamparem aquela famosa foto da menininha correndo do bombardeio de Napalm no Vietnã, não é? E vemos o bombardeio americano no Vietnã sendo mostrado como o supra-sumo da violência. Ninguém nos informa jamais que esses bombardeios, que no total mataram 200 mil pessoas, foram feitos contra tropas que lutavam em favor de um governo que até então já havia matado um milhão e 600 mil, só de seus próprios compatriotas, e que matou um pouquinho mais depois de tomar o Vietnã do Sul. Ou seja, esses dados nos são sonegados e acabamos vendo esses panoramas agora de tal modo que algumas dezenas de vítimas civis acidentais, registradas no Afeganistão, acabam nos parecendo um crime tão hediondo quanto o assassinado premeditado de seis mil vítimas civis em Nova Iorque. É claro que as pessoas dirão: “não, mas isso é um confronto ideológico, pois as pessoas são de esquerda e você é de direita”. Muito bem, equacionar isso como um confronto ideológico já é pré- julgar a questão de acordo com os conceitos oferecidos por uma das correntes em confronto, porque reduzir todas as idéias, todas as opiniões, todos os conhecimentos humanos a ideologias, já é uma proposta marxista. Quando dizemos que entre capitalismo e socialismo, por exemplo, há um confronto de ideologias, nós estamos simplesmente fazendo uma mentira marxista, porque o capitalismo existe como realidade econômica instaurada pelo menos desde o Século XVI. Na Inglaterra, já havia economia de mercado desde o Século XII e as primeiras tentativas de formular teoricamente o capitalismo datam do Século XVIII, ou seja, o capitalismo existiu como realidade econômica, séculos antes que houvesse qualquer formulação ideológica. E, mesmo assim, a primeira tentativa notável de formulação foi de Adam Smith, que não foi uma tentativa de apologia ao capitalismo, mas uma tentativa de descrição científica, de modo que uma ideologia capitalista, a rigor, só surge no Século XX, em resposta à ideologia comunista. Assim, não se trata jamais de um confronto ideológico. Trata-se do confronto de uma realidade histórica existente e uma ideologia que pretende, vamos dizer, condená-lo por esse ou aquele motivo, justo ou não. Por outro lado, seria absurdo aceitarmos essa redução de todo o conhecimento humano a ideologias, porque a história registra desde Platão, Aristóteles, passando por São Tomás de Aquino, Thomas Hobbes, Maquiavel, etc, uma série de tentativas gloriosas para a formulação de uma ciência política objetiva. Essa história é picotada pelas intervenções dos ideólogos que tentam mostrar que esses também estavam fazendo ideologia. Ora, confundir o estudo objetivo com ideologia só é se não tivermos uma idéia precisa do que é um e do que é o outro. Quando dizemos, por exemplo, que das grandes potências que existiram na história os EUA são a menos violenta, não estamos expressando uma convicção ideológica, estamos expressando um fato historicamente constatável: um fato numérico brutal. Mais ainda, ao longo da história, se analisarmos esses sistemas políticos, não numa escala miúda da realidade jornalística presente, mas numa escala da história da espécie humana, constatamos duas coisas. A primeira: os EUA se impuseram antes pelas suas idéias, e, só muito depois, pela sua força econômica e militar. A grande novidade apresentada pelos EUA era o sistema político que lá implantaram por ocasião da revolução e que foi imediatamente imitado por todo o mundo, fazendo com que o mundo todo se americanizasse, antes que os EUA tivessem a mínima condição de se impor econômica e militarmente ao mundo. Note que a primeira grande intervenção dos EUA, na Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 2 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Europa, se dá na Guerra de 1914, e que, antes disso, as instituições políticas americanas já exerciam uma influência brutal na Europa, pelo simples fato de que nenhum outro país tinha uma proposta tão inteligente quanto essa. Então é uma grandessíssima ilusão pensarmos que o poderio e o prestígio das nações são frutos apenas do dinheiro e da força militar. Essa também é uma visão Marxista, um cacoete marxista, que entrou tão fundo no nosso subconsciente que nós mesmos, quando não gostamos de marxismo, acabamos raciocinando sempre pela paz econômica, pela infra-estrutura econômica, reduzindo tudo mais à superestrutura cultural. Não custa lembrar a vocês de que o marxismo em todo os seus passos é puro charlatanismo e pura vigarice. Karl Marx, para provar seus argumentos, recorre basicamente a dois expedientes: primeiro, à mudança das datas das informações e, segundo, à trucagem e manipulação de textos citados. A manipulação que chega a tal ponto, só para lhes dar um exemplo, que em um discurso de Gladstone, Primeiro-Ministro inglês, onde ele diz: “O recente progresso da economia britânica é de tal monta que se ele tivesse beneficiado apenas as classes dominantes, seria uma coisa lamentável. Graças a Deus isto não aconteceu!”, Karl Marx muda para: “O recente progresso econômico da Inglaterra beneficiou somente as classes dominantes” — Isso é constante! Karl Marx não é um homem da ciência, não é um cientista, não é um filósofo, Karl Marx é um vigarista — temos que examinar isso com muito cuidado. Como uma das teses de Karl Marx fosse a de que o capitalismo trazia o empobrecimento das classes trabalhadoras e como os dados que ele tinha na mão extraídos dos blue books, relatórios anuais da Câmara dos Comuns, indicassem precisamente o contrário, ele resolveu o problema, atendo os dados de 30 anos antes. Como podemos admitir isso de um homem de Ciência? Como podemos admitir que conceitos extraídos também de uma teoria tão porcamente elaborada penetrem tão profundamente em nosso vocabulário, que já não conseguimos raciocinar exceto em termos de ideologias, infra- estrutura e superestrutura? Em suma, como nos deixamos influenciar e subjugar tão profundamente por um sistema de idéias que não tem o menor aprofundamento científico e cujos elementos de vigarice são tão profundos, tão notórios? Esse é um dos grandes fenômenos do Século XX. Lembro-me que, quando li as memórias de Eric Friedmann, ele disse: “Quando eu tinha 18 anos, durante as férias, li “O Capital” e me tornei marxista imediatamente. No semestre seguinte, tive um curso de economia política e percebi que tudo aquilo de marxismo era uma bobagem, e nunca mais me interessei pelo assunto”. Ou seja, o homem levou seis meses para se livrar do marxismo, eu levei mais de 15 anos. Em parte, porque não tinha acesso a essas informações. Mas sempre que, na análise de situações como essa, começamos a levar em conta em primeiríssimo lugar os fatores econômicos e apelamos a conceitos como interesse nacional, não percebemos que estamos fazendo pura fantasmagoria. Nós falamos, por exemplo, em interesse nacional americano: “que o interesse americano nos levou a fazer isso, nos levou a fazer aquilo, levou a fazer aquilo outro”, como se uma sociedade como a americana fosse uma sociedade totalitária, na qual um governo interpreta o interesse nacional, age em nome dele, e todo mundo age concorrentemente no mesmo sentido. Para mostrar como esse conceito é totalmente inaplicável ao caso americano, vou lhes citar um fato que nunca sai na imprensa brasileira. Os defensores do livre mercado, por exemplo, nós todos temos a idéia de que eles são a ponta de lança do imperialismo americano, porque através do livre mercado eles conquistam, dominam as economias dos países menores. Muito bem, os defensores do livre mercado não propagaram essa teoria especialmente tendo em vista nós, o terceiro mundo, mas tendo em vista os EUA. A grande conseqüência do livre mercado foi a total abertura das negociações com a China. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 3 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org A apologia do livre mercado teve principalmente por objetivo neutralizar as objeções políticas que houvesse, dentro dos EUA, com relação à China. Como resultado da aplicação dessa teoria de livre mercado, houve uma intensificação dos negócios, de modo a enriquecer o grande capitalista chinês que é o exército chinês. O exército chinês, com os lucros que ele ganha, o que ele faz? Compra armas atômicas. Que tipo de armas atômicas? Somente mísseis transcontinentais, ou seja, mísseis que não dão para jogar ali do lado, só dá para jogar do outro lado do oceano, o que suponho que não seja para bombardear o Paraguai, de modo que a apologia do livre mercado, longe de ser o grande instrumento de expansão do imperialismo americano, foi, ao contrário, o grande instrumento de fortalecimento militar do poderio chinês. E isso custou aos EUA o último déficit da balança comercial, que foi de 432 bilhões de dólares, ou seja, que raios de imperialismo é esse que cria um déficit de 432 bilhões de dólares, um déficit maior que o PNB brasileiro, e ainda fortalece militarmente o inimigo, a ponto de que os estoques de armas atômicas chineses sejam hoje cinco vezes as reservas americanas? Ou seja, você cria um inimigo militar poderoso e um déficit. Você é um imperialista? Ora, se os fatos são esses, e esses fatos são facílimos de comprovar, porque não lançar a hipótese de que as teorias de livre mercado foram defendidas tão intensamente nos EUA por pessoas que sabiam perfeitamente do resultado da aplicação delas seria exatamente esse? Se nós raciocinarmos em termos de ideologia e acreditarmos que as pessoas agem coerentemente com a sua ideologia, então livre mercado é igual a imperialismo, mas quando vemos, na verdade, que a aplicação da teoria de livre mercado diminui o poder da nação imperialista, que fortaleceu seu inimigo, e vemos que esse resultado era perfeitamente previsível, porque ele foi anunciado na época pelos analistas que eram contra a aplicação, ora, temos que nos perguntar: será que não estamos analisando tudo na base de uma fantasmagoria verbal herdada do marxismo? Será que não estamos realmente entendendo o que se passa? Será que a situação mundial não é infinitamente mais complexa do que poderíamos ter imaginado? Por exemplo: há dez anos, ouvimos a expressão “nova ordem mundial” ser associada à idéia de neoliberalismo. Pergunto a vocês: quantos dos aqui presentes, ou quantos brasileiros, em geral, estudaram, por um momento que seja, a origem e o desenvolvimento dos debates travados em torno da nova ordem mundial, na London School Economic (LSE), desde a década de 20. Não, ninguém acompanhou. A nova ordem mundial só chega aos nossos ouvidos como sinônimo de neoliberalismo — e o neoliberalismo com a ênfase de que é o grande passe do imperialismo americano. Acabamos de ver qual foi esse passo: armar a China e criar um déficit americano! A nova ordem mundial, o primeiro projeto público de nova ordem mundial, aparece no livro de Herbert George Wells, “The Open Conspiracy”, em 1928. Isso foi resultado de já duas décadas de discussões dentro da LSE. A LSE tinha por finalidade formar intelectuais de alto nível que pudessem influenciar os governos do mundo, colocando-se em postos de assessoria e consultoria, no sentido de que se adotasse mundialmente um sistema socialista brando. Isso é a nova ordem mundial: é um projeto essencialmente socialista. Por isso, não houve conspiração alguma; isso não é secreto, isso está publicado em todos os livros e revistas da LSE, desde aquela época. Nada disso é estudado, no Brasil, e quando se fala de nova ordem mundial, vem com o carimbo de “neoliberalismo”; espera aí, estudem direitinho tudo que foi discutido desde o início e verão que neoliberalismo não é apenas uma etapa dialética feita para produzir exatamente esse resultado. Nenhuma nova ordem mundial se imporá num mundo onde há estados soberanos. Qual é o primeiro estado soberano que a nova ordem mundial deve subjugar para poder se impor? Será que é o Brasil? Será que é o Paraguai? Qual é a primeira soberania nacional que tem que ser derrotada por uma nova ordem mundial? A dos EUA, evidentemente. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 4 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Quando reparamos, por exemplo, que, hoje em dia, no Brasil, se introduz, nas escolas, novas idéias e novos valores que depreciem as imagens e os símbolos do patriotismo e acreditamos que, de alguma maneira, é o imperialismo americano que está fazendo isso, estamos completamente loucos, porque a mesma coisa foi feita nos EUA 30 ou 40 anos atrás. Todos os valores patrióticos foram sendo retirados da educação pública norte-americana, sistematicamente. Quando dizemos que a nossa identidade nacional está sendo destruída, é porque ninguém nos informou que a mesmíssima coisa aconteceu na educação pública norte-americana, no show business norte-americano, há três ou quatro décadas. Eu lhes recomendo este livro que se chama: “Brave New Schools”, que relata toda a modificação que foi implantada na educação pública norte-americana, no sentido de fazer com que as crianças norte-americanas tirassem da cabeça os valores nacionais americanos. Isso foi planejado desde a década de 60, na ONU. A ONU é o pólo de poder. A ONU não é um estado, mas evidentemente é o núcleo da nova ordem mundial. A ONU desenvolveu propostas educacionais, criadas por um cidadão chamado Robert Müller, já na década de 50, inspiradas nas obras de Alice Bailey, uma teosofista visionária que tinha planos malucos sobre a nova ordem mundial, inspirados nesse lixo. Esse homem fez a proposta de educação mundial que hoje é adotada oficialmente na ONU, e cujo item número um é demolir as identidades nacionais. E o primeiro país onde isso foi aprovado, não foi no Brasil, foi nos EUA. Isso quer dizer que quando falamos em nova ordem mundial, quando alguém nos fala em nova ordem mundial e a apresenta como se fosse um instrumento de imperialismo americano, as pessoas estão mentindo, ou então, não sabem do que estão falando; porque, no momento, o que se trava dentro dos EUA é uma guerra violentíssima entre partidários da mesma ordem mundial e partidários da república americana. Esses últimos são nacionalistas, conservadores e protecionistas. Os outros se apóiam sobretudo nos chamados bancos internacionais. O que é um banco internacional? É um banco cujos clientes não são pessoas-empresas; é um banco cujos clientes são governos. Um banqueiro comum, não um banqueiro internacional, vamos supor aqui o nosso Setúbal, quando financia uma hidrelétrica, faz um investimento para daqui a vinte anos, pois ele pode esperar vinte anos. Já dizia Von Mises, que a diferença entre o rico e o pobre, não é que o rico tem mais dinheiro, é que o pobre precisa gastar na hora, e o rico pode esperar. Ora, se um banqueiro comum do terceiro mundo pode esperar 20 anos, quanto tempo pode esperar o Rockfeller? Cinqüenta, sessenta, setenta. Não estamos habituados a fazer nossas análises nessa amplitude de tempo. As análises da imprensa nacional abarcam um período de 5 a 6 anos, no máximo. Isso quer dizer que às vezes não percebemos a continuidade de causa e efeito do processo ao longo do tempo; por exemplo, não percebemos que, quando há uma revolução socialista no país, imediatamente, os bancos internacionais correm para financiá-la. Por quê? Porque sabem que o socialismo vai afundar. Em 1922, Ludwig Von Mises formulou a demonstração científica da impossibilidade da economia socialista. Essa demonstração foi lida e aprendida por todos os governantes do mundo que, na década de 30, já sabiam que aquilo ia acabar. A demonstração é muitíssimo simples: “socialismo é uma economia planejada. Para fazer planejamento de economia, precisa-se haver cálculo de preços. Se não há mercado, é impossível fazer cálculo de preços, portanto, é impossível a economia planejada. Portanto, o socialismo é impossível - Ponto final!” Todo teórico socialista conhece essa demonstração. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 5 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Fizeram de conta que não tinham lido. O único que enfrentou mais ou menos foi Oscar Langed, Ministro da Economia da Iugoslávia. Ele apresentou objeções e fez algumas hipóteses alternativas, que, quando nomeado Ministro da Economia, ele próprio, prudentemente, não usou. Isso significa que qualquer banqueiro internacional sabe perfeitamente que a economia socialista está destinada à bancarrota e, quando ela terminar, tudo custará imensamente barato e você comprará o país a preço de banana, como estão fazendo na Romênia. Isso eu assisti na Romênia. Por exemplo, o que faz a Alemanha hoje, os banqueiros alemães na Romênia? A Romênia tem um enclave racial húngaro na Transilvânia: os alemães vão lá e negociam somente com os húngaros e metem na cabeça dos húngaros a idéia de que eles são seres superiores. Resultado: a última vez que estive lá, já tinha havido uma rebelião húngara, já tinham derrubado o Ministro da Educação local, e estavam exigindo uma Universidade somente de língua húngara. Por outro lado, o que faz a França? Na Romênia, existem ciganos, há milênios, e sempre se deram bem. Os ciganos sempre fizeram parte da cultura nacional. Daí os franceses intelectuais chegam lá e dizem: “não, os ciganos são uma minoria discriminada e vocês têm que dar direitos especiais para eles”. Então, criaram bairros especiais para moradia de ciganos. Ciganos nunca moraram em parte alguma, mas agora há conjunto do BNH para ciganos. Há empregos especiais para ciganos. Resultado: criou-se um confronto racial que nunca tinha existido. Hoje em dia, os ciganos são odiados na Romênia, por isso é que muitos deles vêm para cá — São Paulo está lotado de ciganos romenos. Por que fazem isso? Porque hoje na Romênia, por sete mil dólares, você compra uma fazenda de sete mil hectares. A Romênia inteirinha está sendo comprada por alemães, franceses, mas principalmente europeus. Achei muito engraçado, quando nosso Presidente, falando na Comunidade Econômica Européia (CEE), discursava num tom como se os europeus fossem os grandes defensores dos pobres e oprimidos do terceiro mundo — mas só quem não conhece o imperialismo alemão e francês é que fala isso. Sei o que é imperialismo alemão, porque estive na Romênia agora mesmo. Sei do que é capaz esse pessoal da CEE: são capazes de impor leis absurdas, com a única finalidade de estrangular, política, econômica e culturalmente um país, para comprá-lo inteirinho. Coisa que os americanos nunca fizeram. Não houve nenhum caso em que o imperialismo americano tenha feito isso. Sabe, existe imperialismo americano, mas os métodos deles são infinitamente mais brandos. Por exemplo: ao longo da história humana, os EUA foram o único país que ajudaram um outro economicamente derrotado a se levantar. Os EUA são o único país imperialista que ajudaram uma facção, como ajudaram esses radicais islâmicos, não fazendo questão de controlá-los politicamente, a risco de que se tornem mais tarde seus inimigos. Isso é inédito na história dos imperialistas. Ora, como age o imperialismo francês ou alemão? Na Romênia, existem muitos cachorros de rua, cães na rua. Então, houve uma campanha feita pela ONU para que ninguém pudesse matar os cachorros de rua, de modo que se tornassem intocáveis. Resultado: hoje em Bucareste há 30 novos casos de hidrofobia por dia e as ruas de Bucareste, que são pacíficas, onde não há assaltos ou seqüestros, se tornaram intransitáveis por causa dos cães. Então você tem uma cidade literalmente jogada aos cães. Não estou brincando! O comércio mais próspero que tem em Bucareste é uma maquininha que emite um som que cachorro não suporta. Então, não há assalto, não há violência alguma, apesar da imensa pobreza, Mas há os cães. Então, você soma isso aí com o negócio dos ciganos, o incentivo à minoria húngara, e você vê o que é um país sob um ataque imperialista. Nunca vi nenhum país sofrer isso nas mãos dos EUA, vi sofrer nas mãos da França e da Alemanha. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 6 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Vocês não esqueçam como os EUA entraram no cenário mundial: entraram como substitutos dos antigos imperialismos europeus. E trouxeram uma forma de política mais branda e mais humana, que é considerada, do ponto de vista antropológico, uma grande conquista da humanidade. Ao longo de toda história humana, qual o nome de uma única cultura que tivesse incorporado às suas instituições a crítica a si mesma e os conhecimentos de seus próprios crimes? Você não encontrará! Isso é uma contribuição americana à espécie humana. Isso é um progresso antropológico da consciência humana e, até hoje, ao longo da história, não há um outro país que tenha incorporado isso tão profundamente. Os EUA coexistem com a própria exibição e condenação de seus crimes. Pergunto: que outra alternativa melhor do que essa foi inventada até hoje? Por exemplo, agora mesmo, de 8 a 11 de outubro, houve, em Cuba, um Congresso de Jornalismo. Foram jornalistas de 29 países, inclusive do Brasil, e foi patrocinado, em parte, pela Prefeitura de Porto Alegre. Proposta do Congresso: eliminar os tipos liberais de imprensa defendidos pela sociedade interamericana de imprensa, que é a liberdade burguesa, e instaurar a verdadeira liberdade de imprensa, cujo modelo é Cuba. Como é que funciona essa liberdade de imprensa? Lendo o livro de Guilherme Cabreira, “O Infante”, ele descreve isso: “cada jornalista tem que ser membro de Sindicato; se você sai da linha política, o seu registro é caçado — daí você é um ex-jornalista. Aí, vai procurar emprego em outra coisa, mas há uma lei que proíbe dar emprego a quem é excluído do Sindicato. Então, você pede ajuda aos amigos, mas há também uma lei que proíbe dar ajuda aos inimigos do Estado. Então, você vai para a mendicância, mas a mendicância é proibida. Então, você tem que sair de Cuba, mas sair de Cuba também é proibido. E se você consegue escapar dos ritos da polícia marítima e dos dentes dos tubarões, viajando confortavelmente a bordo de um pneu, você chega em Miami. Daí você arruma um emprego, na imprensa dos exilados, e daí o que acontece: cada linha do que escrever, do que viu em Cuba, será condenada pela imprensa do mundo inteiro, como se fosse uma sórdida mentira inventada pela máfia cubana. Esse é o seu destino”. Foram jornalistas de 29 países, e muitos brasileiros estão lá propondo isso. Acreditam piamente nisso. Ora, se você é contra isso, vão dizer que fala em nome da burguesia, que é ideólogo da burguesia. Eu? Eu estou pouco me lixando para o burguês. Burguês gosta de mim? Você acha que tem algum empresário nesse país que gosta de mim? Não gosta, não: eles gostam é de comunista. Acho muito engraçado quando tenho dificuldades para pagar a escola de meus filhos e vejo algum comunista chique dizendo que sou o porta voz da burguesia. Já chegaram a me confundir com Olavo Monteiro de Carvalho, o banqueiro. O sujeito escreveu uma carta para a Revista Época dizendo: “Você pode ter muito dinheiro no bolso, mas você não tem QI”. Então estamos em pleno mundo dos estereótipos. Ora, esses acontecimentos mais recentes são tão inéditos e tão estranhos que praticamente todo o nosso vocabulário está inadequado para analisá-los, como o próprio vocábulo terrorismo: não se pode simplesmente fazer uma guerra contra terrorismo. Pode-se fazer uma guerra contra as organizações terroristas, mas não contra o terrorismo, porque a mesma organização que usa o terrorismo hoje, pode usar meios legais amanhã. Aliás, se vocês estudarem 100 anos da história do comunismo, vão ver que, desde Lenin, está lá declarado que temos que articular os meios legais e ilegais, pacíficos e violentos, ostensivos e clandestinos — usar e alternar. Isso significa que se você combate o terrorismo, muito bem, param de fazer terrorismo e começam a fazer outra coisa. Quando você esquece o terrorismo, eles voltam ao terrorismo. Após 100 anos nessa conversa, ainda não aprendemos que o problema não é terrorismo e, evidentemente, também não é o fundamentalismo islâmico. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 7 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org A própria expressão fundamentalismo é outra coisa totalmente inexata; ninguém sabe a origem desse fundamentalismo. Essa ideologia foi criada, na década de 30, por um sujeito chamado Sayyid Qutb, que era tão islâmico, tão ortodoxo, tão conservador, que foi enforcado pelo governo egípcio. Esse homem era uma espécie de teólogo da libertação; escreveu um comentário, em 30 volumes, chamado “À sombra do Corão”, que é, linha por linha, a politização integral do sentido do Corão. Essa é uma corrente que se voltou contra as tradições islâmicas e que reduziu todo o islamismo ao estado de ideologia política antiamericana, que nós chamamos de fundamentalista. Veja como fomos parar longe. Nos EUA, em 1986, conheci o ex-Ministro da Cultura do Irã Hassan Inácio, que foi Ministro do Templo de Reza Pahlevi e fundador da Academia Imperial Iraniana de Filosofia, e que, pela primeira vez na história humana, estava impondo ao Ocidente a imagem gloriosa de dez séculos da filosofia iraniana, mostrando ao mundo que o Irã sozinho tinha mais e melhores filósofos que a Europa inteira. Esse homem foi tirado de lá pela Revolução Iraniana e a presença da cultura iraniana no mundo sumiu. Como vamos chamar esses revolucionários de fundamentalistas? Não, não são fundamentalistas: são revolucionários. Eles são os homens de arrasar quarteirão. Eles são os homens que estão arrasando um milênio e meio de cultura islâmica, para substituir por formuletas ideológicas de uma estupidez sem par. Eles estão trocando a espiritualidade islâmica por um simples antiamericanismo grosseiro, improvisado, e que, em termos de idéias, não há dois minutos de assunto para estudar. Muito bem, acho que esgotei o meu tempo, mas isso é só para dar uma idéia de como, tanto pelas categorias conceituais, quanto pelas fontes de informação, temos tudo para nos enganar na análise desses acontecimentos. Então, pois bem, busquem outras fontes de informação, sobretudo na Internet. Não creiam numa só linha do que sai nesses nossos jornais. Muito obrigado! Todos os direitos reservados. 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