Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org A experiência da presença Christiane D’AINVAL [De: Une Doctrine de la Présence Spirituelle: La Philosophie de Louis Lavelle, Louvain-Paris, Nauwelaerts, 1967, pp. 33-35. Tradução de Olavo de Carvalho para exclusivo uso em classe pelos alunos do Seminário de Filosofia. Proibida a difusão por quaisquer meios.] A experiência da presença é comum a todos, mas o primeiro que chega não a obtém em plenitude, mais ocupado que está em preencher a presença “como se ela fosse em si mesma um quadro sem conteúdo”1 do que em refletir sobre ela. A tarefa do filósofo é justamente esforçar-se para experienciá-la com mais pureza e acuidade e, de vaga que ela era de início, torná-la cada vez mais distinta. Do mesmo modo que o cientista visa a obter experiências mais e mais precisas, o filósofo deve colocar tudo em jogo para obter uma experiência interior cada vez mais fina e completa. “Ainda que a experiência de que se trata seja sempre atual, nota Lavelle, no mais das vezes o é de uma maneira confusa e implícita; ela tende incessantemente a nos escapar; e cabe a nós, precisamente, torná-la distinta e retê- la.”2 A experiência da presença não serve somente de ponto de partida do sistema de Lavelle; ela também o sustenta ao longo de todo o seu desenvolvimento, e é ela ainda, mais sublimada, que constitui o seu coroamento. Seu método reside numa associação contínua entre ela e o raciocínio, um explicando a outra, que lhe traz provas por sua vez, a progressão do raciocínio indo de par com um aprofundamento da experiência, à qual está referido cada elo das “longas cadeias de razões”, segundo a expressão de Descartes. Pois, se essa experiência é una, sua riqueza é insondável – é a “presença total” que ela nos entrega. Lavelle expõe em detalhes esse papel fundamental da experiência da presença: “O próprio do pensamento filosófico, escreve ele, é apegar-se a essa experiência essencial (da presença), afinar-lhe a acuidade, retê-la quando ela está perto de escapar, voltar a ela quando se obscurece e temos necessidade de um limite e de uma pedra de toque, analisar seu conteúdo e mostrar que todas as nossas operações dela dependem, encontram nela a sua fonte, a sua razão de ser e o princípio da sua potência.” 3 É difícil isolar essa experiência, para examiná-la na sua pureza: “é preciso uma certa inocência, um espírito liberado de todo interesse e mesmo de toda preocupação particular” 4. Se a metafísica em si mesma é uma “via estreita” 5, o caminho que a ela conduz já é laborioso: “E há poucos homens que aceitam galgá- lo. Pois trata-se de abolir tudo o que parece sustentar nossa existência, as coisas 1 La Présence Totale, p. 58. 2 Id. 3 Ibid., p. 26. 4 Ibid. 5 De l’Intimité Spirituelle, pp. 228-245. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 1 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org visíveis, as imagens e todos os objetos habituais do interesse e do desejo.” 6 Se a presença é em si mesma uma experiência metafísica, o método que é preciso empregar para analisá-la deve ser ao mesmo tempo, como já notamos antes, psicológico e moral. Poder-se-ia chamá-lo “o método mesmo da filosofia”, declara ele, “um método psicometafísico” 7. Em outra parte, ele fala de “metamoral” 8. Pois a busca da verdade exige todo o nosso ser: “a verdade não deve ser somente contemplada, mas desejada e amada”9. Na base de toda filosofia espiritualista, encontramos um período de purificação: Platão pratica a kathársis antes de chegar à theoria. Descartes lança uma dúvida severa sobre todos os seus conhecimentos. Não espanta, pois, que encontremos em Lavelle tantas advertências contra o divertimento (entendido no sentido pascaliano do termo) que desvia a atenção dos seus objetos essenciais e perturba a “simplicidade do olhar espiritual” 10. “A filosofia, afirma ele, começa no momento em que cessa o divertimento” 11. Nele como em Descartes, o método interessa a um tempo a inteligência e a vontade, mas, ao passo que em Descartes ele apela a esta última no plano intelectual sobretudo, ele a faz intervir também no plano moral, lá onde ela deva lutar contra o amor-próprio, fonte de todas as cegueiras. “É preciso ir à verdade com todas as nossas forças”, dizia Platão. “A verdade não pode jamais penetrar senão numa consciência que dela seja digna”, retoma Lavelle. “Isso é verdade já no conhecimento das coisas materiais. Mas aí basta uma certa aplicação da atenção; quando se trata das coisas espirituais, é preciso ainda uma certa pureza do querer”12. “Esforço de meditação pessoal e de purificação interior” 13, isto é, disciplina da atenção e aprofundamento da sinceridade, tais são as diretrizes que resumem a propedêutica psicológica e moral de Lavelle. 6 De l’Acte, p. 9. 7 De l’Intimité Spirituelle, p. 138. 8 Ibid., p. 61. 9 Morale et Réligion, p. 117. 10 L’Erreur de Narcisse, p. 229. 11 La Philosophie Française entre les Deux Guerres, p. 243. 12 L’Erreur de Narcisse, p. 229. 13 De l’Intimité Spirituelle, p. 169. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 2 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor.