Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org Apresentação do livro Reflexões Autobiográficas, de Eric Voegelin1 OLAVO DE CARVALHO Gostaria de começar desejando boas vindas ao professor Mendo Castro Henriques, com quem troco correspondências pela internet há muitos anos e a quem considero um grande amigo apesar de nunca termos nos encontrado pessoalmente. Agradeço também a É Realizações, que está de parabéns por tomar a iniciativa de lançar os dois livros de Eric Voegelin, dentre os quais o livro Reflexões Autobiográficas foi traduzido pela minha filha, Maria Inês de Carvalho. Dá para perceber que a influência de Voegelin penetrou em toda a minha família; a irradiação das idéias não foi só para os meus alunos, mas para a minha família também. Como cabe a mim dar uma introdução às Reflexões Autobiográficas, devo dizer que me sinto muito feliz por isso e que considero esse livro a melhor introdução à obra de Eric Voegelin. Mais do que isso, esse livro é de extrema importância para todo estudante que pretende levar uma vida intelectual séria; é uma espécie de guia para os estudos porque ali vemos claramente o que é uma vida intelectual conduzida de maneira extremamente séria e responsável desde as suas origens até o momento em que o filósofo lança um olhar para toda a vida que transcorreu e observa o fio condutor ao longo de tudo isso. Podemos dizer que esse livro contém a receita para uma vida de estudos e essa receita se formula mais ou menos assim: logo na juventude, Eric Voegelin esteve sob a influência de dois professores importantíssimos, Hans Kelsen e Othmar Spann, e um dos primeiros enigmas que atraiu a atenção de Voegelin foi justamente o contraste entre os enfoques desses dois pensadores eminentes. Kelsen era o homem d’A Teoria Pura do Direito, e o esforço de sua vida foi tentar delimitar o território do direito de maneira a que não se confundisse com a sociologia, a História, a moral, a economia, etc., e procurou, então, os caracteres formais que distinguem o direito. Os escolásticos já diziam que o território de uma ciência é definido por três etapas: objeto material compartilhado com outra ciência; objeto formal-motivo, que é o motivo ou a razão pela qual você estuda o objeto e esse motivo/razão já distingue o enfoque de outra ciência, mas mesmo assim ainda pode haver uma interpenetração; e, por fim, objeto formal-terminativo, que é o objetivo final a que essa ciência visa, 1 Palestra ministrada no auditório da É Realizações por vídeoconferência, em 4 de março de 2008. Transcrição por Leilah Carvalho, sem revisão do professor Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 1 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org estando aí, portanto, o objeto já claramente delimitado. Então, Kelsen procurou saber quais eram os objetos formal-motivo e formal-terminativo do direito, chegando à conclusão de que o direito é por excelência uma lógica normativa. O que quer que saísse do campo da lógica normativa saía do campo do direito e, portanto, o direito não poderia entrar muito profundamente nem no terreno da moral nem da sociologia. Acontece que um direito separado da moral e da sociologia fica realmente reduzido a um esquema formal. Na mente de Kelsen havia a influência do positivismo – tentativa de reduzir o campo das ciências àquilo que pudesse ser abordado por um método científico já reconhecido, excluindo tudo o mais como sendo não-científico e até irracional. O direito reduzido a uma lógica normativa se tornava uma ciência muitíssimo precisa, mas a noção de justiça e injustiça, por exemplo, ficava totalmente excluída – virava uma espécie de direito sem justiça. Apesar do avanço formal obtido por Kelsen, Voegelin logo notou que havia algo errado com a chamada Teoria Pura do Direito. Seu outro mestre, Othmar Spann, era também um grande gênio, mas ele enfocava a sociedade de maneira exatamente oposta a Kelsen. Onde Kelsen procurava a exata delimitação formal dos territórios, Spann buscava o sentido de integridade ou de unidade anímica da sociedade. Essas duas tendências acabaram exercendo algumas conseqüências nefastas. A herança da teoria formal do direito se prolongou até numa espécie de tecnocratismo positivista onde as questões substantivas da vida humana são excluídas do campo do direito e tudo pode ser resolvido por um computador. A tendência organicista ou quase animista de Spann acabou contribuindo de algum modo para a emergência da teoria nazista, que via a sociedade como um corpo único colocado sob a cabeça do Estado. Esse foi o primeiro enigma que Voegelin se defrontou já na sua vida universitária. Aristóteles dizia que o conhecimento começa com o espanto, então, ao colocar este primeiro problema, Voegelin mostra que o início da sua verdadeira vida intelectual foi o confronto dessas duas linhas mutuamente contraditórias para o enfoque da sociedade e da política. Havia ainda um terceiro problema que, este sim, foi o que decidiu a carreira de Eric Voegelin: a emergência das ideologias revolucionárias de massa (comunismo e nazismo). Voegelin notou que nenhuma dessas duas heranças recebidas de seus respectivos mestres podia dar conta deste fenômeno, ou seja, era impossível explicar a realidade do que estava se passando na sociedade seja a partir d’A Teoria Pura do Direito, seja a partir da visão organicista de Spann que, ao contrário, tinha justamente contribuído para a emergência do fenômeno, de modo que a filosofia de Spann não era a solução e sim parte do problema. Voegelin colocou aí, então, o que seria o problema e a missão da sua vida. Para o intelectual, pensador, filósofo, homem de estudos e scholar de modo geral o problema é a vocação; se você não encontra o problema da sua vida você não encontra a sua vocação; você está apenas exercendo uma profissão. Aquilo que anima desde dentro a vida intelectual, que dá o seu sentido, o seu valor e espírito é o problema, e esse problema vale quando não é apenas fruto de uma curiosidade intelectual, mas quando ele tem na sua raiz a verdade interior do ser humano, ou seja, quando é um problema que toca você profundamente e que você se sente chamado a resolver não por uma questão de vaidade ou desejo de realização Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 2 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org profissional, mas por um imperativo cognitivo e ético ao mesmo tempo. Isso foi exatamente o que aconteceu com Eric Voegelin. Partindo da herança recebida de Kensen e Spann, Voegelin viu que não possuía os instrumentos necessários para explicar aquilo que estava efetivamente acontecendo. É claro que ele poderia ter agido como qualquer outro acadêmico universitário e ter continuado exercendo as suas funções publicando os seus papers regularmente até a aposentadoria sem jamais ter tocado nos problemas da realidade, mas quando isso acontece você não está diante de uma vida intelectual autêntica e sim diante de uma imitação, e é por isso que sempre digo que no Brasil não existe vida universitária, existe apenas uma imitação porque ninguém ataca problema nenhum; a realidade é indiferente à vida universitária brasileira. No caso de Voegelin, esse chamamento ético para elucidar certos problemas cuja obscuridade não era somente de ordem intelectual, mas existencial, ou seja, as ideologias revolucionárias de massa estavam lançando a sua sombra sobre milhões de pessoas e era absolutamente necessário e imperativo a um homem de estudos tentar compreender aquilo que estava se passando, exatamente como um médico tenta compreender um conjunto de sintomas para encontrar um remédio ou um alívio ao paciente. Então, Voegelin fez a melhor coisa que poderia ter feito, que foi começar a fazer uma lista, um repertório da sua ignorância. Um raciocínio que ele deve ter feito é o seguinte: “o que me falta saber para eu poder enfrentar seriamente esse problema?”. Essa lista decidiu várias coisas de sua carreira. Na Áustria, onde estava estudando na época, no próprio ambiente vienense, havia vários dos recursos que ele precisaria recolher para isso. Esses recursos não estavam necessariamente dentro do ambiente universitário, havia uma vida intelectual extra-universitária identificada até com a vida boêmia da cidade (cafés, restaurantes, etc.) e um movimento literário muito intenso, e Voegelin, então, percebeu que ali poderia colher muitos dos ensinamentos que eram absolutamente necessários para o enfoque que ele queria fazer do problema, embora não viesse na embalagem científica-acadêmica requerida. Ele buscou propositadamente as influências do poeta Stefan George e do escritor e jornalista Karl Kraus, ambos gênios da língua alemã. Stefan George percebeu como a língua alemã estava se afastando das suas origens existenciais e se perdendo numa espécie de jargão jornalístico. Ele fez então o que pôde para restaurar o vigor originário da língua. Kraus, também um gênio lingüístico, fez exatamente o contrário do que George havia feito e tentou documentar a decadência da língua alemã. Kraus compôs, por exemplo, uma peça trágica chamada Os Últimos Dias da Humanidade toda composta de frases tiradas de jornais, revistas, líderes nazistas, etc., ou seja, frases da vida real. Através desse repertório da linguagem Kraus foi montando aquele mundo de absurdidades e irrealidades que logo em seguida desembocaria o delírio nazista. Daí, a partir do fenômeno da língua alemã Voegelin foi tendo a idéia daquilo que depois apareceria nomeado por um grande romancista alemão chamado Robert Musil como uma segunda realidade, ou seja, a decadência da língua alemã no período que vai dos anos 30 até a eclosão da Segunda Guerra mostrava como era possível transpor toda uma nação para dentro de uma realidade fictícia, isolando-a de sua própria experiência. É uma espécie de paralaxe cognitiva elevada à enésima potência e vivida não como um fenômeno intelectual na cabeça deste ou daquele filósofo, mas como um fenômeno de massas. O mesmo fenômeno da língua alemã Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 3 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org acontece com a língua portuguesa falada no Brasil, com a diferença de que não temos um Karl Kraus para documentar isso. De vez em quando pego um exemplo aqui e outro ali como amostras soltas, não como uma coisa monumental como fez Karl Kraus; eu nem teria talento para fazer o que ele fez, mas que alguém precisa fazer, precisa. Então, esse foi um dos fenômenos importantes que Voegelin foi colhendo para o trabalho de uma vida inteira. Logo em seguida, ele teve a ocasião de ganhar uma bolsa de estudos que o trouxe para os Estados Unidos, onde teve a oportunidade de observar uma sociedade política onde ainda havia uma conexão real e orgânica entre a vida diária das comunidades e a discussão política, ou seja, o sistema representativo americano funcionava e funciona até hoje; a gente observa como as discussões políticas estão muito ligadas ao cotidiano das pessoas e como existe uma intensa participação da nação inteira nesse processo. Então, a linguagem da política americana não estava tão viciada quanto na Europa, e isso serviu como uma medida de comparação e como um dos instrumentos analíticos para Voegelin, que mais tarde usaria para os seus grandes trabalhos como A História das Idéias Políticas, Ordem e História, etc. Um dos motivos da diferença entre o panorama europeu e o americano, conforme Voegelin descobriu, foi que a influência do pensamento europeu mais recente nos Estados Unidos, como Nietzsche, era absolutamente irrelevante, mas ainda havia no ar um resto de Platão e Aristóteles que tinha alguma função não só dentro das discussões teóricas, mas na prática política. Era uma espécie de herança clássica que havia sido perdida na Europa e substituída ou pelas ideologias de massa ou por novas filosofias que tendiam ao niilismo, mas ainda era uma coisa que estava viva. Este material também foi precioso para Voegelin e, note bem, essas coisas não foram caindo na mão dele – ele sabia o que precisava, sabia vagamente onde essas coisas estavam e também sabia o que encontraria nos Estados Unidos. Depois, numa segunda viagem, Voegelin foi à França, onde absorveu todo o legado da literatura francesa e recebeu especialmente a influência de Henri Bergson, sobretudo com os conceitos do que Bergson chamava de alma aberta e alma fechada. A alma fechada é aquela que vive em um monte que de algum modo ela pode controlar intelectualmente. A alma aberta sabe que a infinitude (ausência de limites) é a própria estrutura da realidade, ou seja, para além do universo conhecido, sempre existe outro mais além, outro mais além ainda e assim por diante. Este “mais além” é o que Voegelin, seguindo uma longa tradição, chamou de o fundo divino da realidade. Esse fundo não faz parte da experiência, mas está presente o tempo todo; ele não é absorvível como experiência, mas como uma presença permanente mais ou menos no mesmo sentido em que Anaximander falava de apeiron: tudo o que conhecemos é de modo limitado em formato, tamanho, medida, etc., mas ao juntar todas as coisas que têm forma, tamanho e medida você vê que esse conjunto está sempre boiando num oceano ilimitado de desconhecimento. Este desconhecimento, no entender de Voegelin, não é apenas um desconhecimento no sentido negativo, mas ele faz parte da estrutura da realidade, ou seja, a ignorância que está para além do limite da nossa experiência não é somente uma ignorância, mas é o próprio fundo dentro do qual se dá essa experiência, e isso é algo que Voegelin jamais esqueceria. Então, ele sempre aproveitou essa noção de Bergson da alma aberta, aquela que sabe que está permanentemente perante a presença do desconhecido (fundo divino da realidade) e da alma fechada, aquela que vive imaginariamente Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 4 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org somente dentro do círculo que ela de algum modo pode dominar intelectualmente ou que acredita que pode dominar futuramente, como se o que não sabemos hoje saberemos amanhã. É aquele negócio de que o sujeito confiando que o progresso do conhecimento desvendará o mistério, quando na verdade o mistério faz parte da própria estrutura da realidade, sendo portanto algo que não pode ser desvendado. Neste livro maravilhoso – Reflexões Autobiográficas – Voegelin vai narrando a sua vida de estudos e como ele foi compondo aos poucos o conjunto dos materiais com os quais atacará mais tarde o problema da origem e da razão de ser das ideologias revolucionárias modernas, chegando incialmente à conclusão de que a origem dessas ideologias se prendem de algum modo a antigas correntes gnósticas e, no fim de sua vida, corrigindo-se e reconhecendo que o elemento gnóstico vinha. Junto com o elemento messiânico (cá antre nós, acho este último muito mais decisivo e eu jamais teria podido chegar a esta conclusão se não estivesse estudado muito o Voegelin). Também, ao longo da experiência de Eric Voegelin, aparece muitas vezes a necessidade de recomeçar do zero todo um estudo que vinha sendo feito. Por exemplo, Voegelin começou a escrever a maravilhosa História das Idéias Políticas contando que haveria apenas três volumes, mas já havia escrito oito e ao chegar no oitavo percebeu que o negócio havia falhado porque não existem idéias políticas. De fato, vendo a argumentação dele nota-se que isso é absolutamente irrefutável pelo simples fato de que numa história das idéias há de se supor que uma idéia se transforme em outra idéia, em outra, e em outra e assim por diante. Mas acontece que as idéias não se conectam no ar mas estão vinculadas a um fundo de experiência real e surgem como interpretações da sua experiência. Se você não se refere à experiência da qual surgiu a idéia, a idéia vira uma espécie de forma platônica boiando no vazio. Neste caso, você teria de fazer não uma história das idéias e sim uma história das experiências de onde emergiram essas idéias. Vendo que não existem idéias políticas, Voegelin pára este projeto e começa a escrever o livro Ordem e História e, curiosamente, depois de escrever três volumes ele se viu obrigado a parar e começar tudo de novo porque neste segundo projeto ele acreditava inicialmente que poderia compor uma seqüência histórica das imagens da ordem do universo e do real, que tem um análogo na ordem da sociedade e vice-versa. Ele imaginava, então, que esses modelos de ordem poderiam ser ordenados cronologicamente, e de repente os elementos que pareciam ser uma seqüência cronológica começaram a aparecer simultaneamente em lugares distintos. Então Voegelin teve de parar tudo e começar do zero, o que mostra claramente uma coragem intelectual, idoneidade e sinceridade tão grande que me deixa realmente comovido. Enquanto esses escritores chinfrins não querem jogar fora duas linhas que escreveram, Voegelin praticamente deixa A História das Idéias Políticas de lado e se recusa a publicá-la. É claro que este livro é muito valioso, sobretudo de você o lê à luz do que Voegelin fez depois sabendo que uma história das idéias em si mesma não funciona e que é necessária uma história de experiência vivida. Aliás, é especificamente esta obra que o professor Mendo Castro Henriques foi responsável por tê-la tirado do ostracismo e também por ter traduzido e publido em Portugal várias partes desta história. Não sei se publicou a obra inteira, mas é um trabalho excelente e com uma tradução magnífica, pois sei que traduzir qualquer obra de Eric Voegelin é um bicho de sete cabeças. Voegelin já escrevia em inglês muito germanizado e às vezes fica até engraçado comparar Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou 5 transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio, sem a permissão expressa do autor. Sapientiam Autem Non Vincit Malitia www.seminariodefilosofia.org uma coisa com a outra. Ele fazia umas construções que às vezes para nós, brasileiros, parecem normais, mas para os americano são quase ininteligíveis porque, para eles, ou a construção é muito germanizada ou muito latinizada. De certo modo, os americanos que lêem Eric Voegelin em inglês precisam traduzir desse inglês germanizado para o inglês de todos os dias. Traduzir isso para uma terceira língua então é um problema, tanto que eu pelo menos só consegui ler parcelas da tradução d'A Nova Ciência da Política feita pelo ex-ministro José Viegas porque eu tentei traduzi-las mentalmente para o inglês, e depois, quando tive a edição americana vi que a minha tradução nem estava tão errada. Foi só assim que consegui ler este livro; se fosse em português não teria entendido nada. Agora, a tradução do professor Mendo é auto-elucidativa e de uma força extraordinária. Se você ler Eric Voegelin na língua portuguesa do professor Mendo Castro Henriques você realmente entende Eric Voegelin. Esse é o elogio mais alto que se pode fazer a um tradutor: não é ele quem está ali, é o autor. Para finalizar, gostaria de dizer que sempre me preocupei muito com o problema da minha própria formação e com o meu caminho de estudos. O problema do repertório da ignorância – como você tem de projetar a sua vida intelectual partindo primeiro do grande problema que te atormenta não por curiosidade mas como ser humano e como você deve articular isso sob a forma de um repertório da ignorância e fazer o mapa dos estudos que precisarão ser completados para atacar aquele problema – é uma coisa de que sempre tive consciência. É claro que eu não possuia de perto os recursos que Voegelin tinha em Viena, pois uma coisa é ser educado em Viena, outra coisa é ser educado em São Paulo. São Paulo não era naquela época a selva bárbara que é hoje, mas mesmo assim eu não tinha grandes recursos. Para levar uma vida intelectual séria eu tive de me afastar cem por cento do ambiente universitário brasileiro fazer o meu próprio caminho de acordo com os modelos que eu colhia dos grandes estudiosos europeus. Um livro que me ajudou muito foi Ortega, Circunstância y Vocacción, escrito por Julián Marias, onde ele reconstituía o caminho de estudos de Ortega y Gasset. Vários estudiosos deixaram autobiografias intelectuais desse tipo, como Nikolai Berdyaev, em seu ensaio de autobiografia espiritual, e muitos outros também deixaram coisas do tipo. Esse gênero de livro foi salvador para mim porque foi o que determinou toda o meu caminho, e sou muito grato aos estudiosos que deixaram esse tipo de depoimento, entre os quais o mais completo é o livro de Eric Voegelin, Reflexões Autobiográficas, que em uma centena de páginas ele dá a receita completa: o que fui estudar foi isto, o motivo que me levou a enfocar foi este, o que me faltava saber era isso e mais aquilo, fui buscar isso tudo em tais lugares, e com este material fiz isso e mais aquilo. Isso é absolutamente maravilhoso. Por fim, gostaria de agradecer também a minha filha Maria Inês por ter feito esse trabalho muitíssimo bem feito, ao Edson Oliveira por ter dado a todos nós a oportunidade de estar aqui hoje, ao professor Mendo Castro Henriques pela generosidade de comparecer ao Brasil e fazer algo para nos tirar das trevas da ignorância. Todos os direitos reservados. 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